Hereditariedade

Foram várias consultas e aqueles malditos médicos não descobriram o que eu tinha. Uns ousaram dizer que eram sintomas psicossomáticas…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“O Senhor é longânimo e grande em misericórdia, que perdoa a iniquidade e a transgressão, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração.” (Números 14:18)

Foram várias consultas e aqueles malditos médicos não descobriram o que eu tinha. Uns ousaram dizer que eram sintomas psicossomáticas em decorrência do estresse. Outros disseram que, por não saber de fato minha origem (era filha adotiva), não saberiam dizer se era uma condição hereditária — e até irreversível. Fato era que os males noturnos pioravam à medida que os meses se arrastavam perante mim.

Vertigem. Falta de ar. Suores repentinos. Não, eu não estava entrando na menopausa, nem precoce e nem nada, pois só tinha 27 anos na época e aqueles palermas afirmavam que não se tratava disso. Estresse? Quase todo mundo tinha, me sentia até pertencente à essa geração de descontrolados varridos. E, baseados nessas desculpas, me entupiram de drogas para “aliviar a tensão”.

E tudo continuava a se agravar.

Não conseguia mais dormir. O descanso irregular piorava o suposto quadro de estresse. Aquele maldito ciclo era surreal. Não conseguia dormir por causa do estresse, ficava ainda mais estressada porque não conseguia dormir.

Pensei em procurar meus pais biológicos, com a estrita intenção de tentar entender qual condição maléfica poderiam ter passado para mim, mas isso não era possível, já que minha mãe — a adotiva e minha mãe de fato —, nunca soube quem eram.

Mas eu não conseguia mais viver daquela forma e, ignorando meu ceticismo, fui visitar uma médium (essa atitude também agravou meu quadro, pois tive que passar por cima das minhas crenças, ou melhor, da falta delas).

Mas o que era mais uma cavada para quem já está no fundo do poço?

***

Devia ter seguido minha intuição. Aquela mulher falou tanta baboseira que mal consegui terminar de ouvi-la até o fim — alguma coisa sobre maldição hereditária e pecados atravessando gerações. Já ouviu falar: “O que os olhos não veem, o coração não sente”? Então, não devia ter visto essa história de perto.

Segundo a charlatã, meu bisavô era proprietário de uma companhia muito próspera que fazia papeis de parede. O problema é que um dos elementos usados para produzir a cor púrpura era arsênico. Sim, o veneno.

Fui pesquisar depois e, para meu absoluto desprazer, isso realmente aconteceu na história humana. Papel de parede envenenando gente. O século XIX parecia um grande experimento suicida coletivo.

Mas, continuando a história absurda, em decorrência disso, várias pessoas faleceram intoxicadas. Uma dessas famílias era composta por religiosos fervorosos que, por influência de algo obscuro, flertavam com práticas incomuns (não me pergunte quais, como eu disse, mal prestei atenção nela).

Dos cinco membros que viviam na casa recém reformada com aqueles belíssimos papeis violetas, quatro morreram de forma trágica. A matriarca da família, e única sobrevivente, rogou uma maldição contra meu bisavô:

“Assim como quatro tombaram sob teu pecado, quatro gerações pagarão.”

Se aquilo fosse verdade, seriam quatro gerações condenadas à morte de formas terríveis: meu bisavô, meu avô, meus pais… e eu.

A mulher ainda afirmou que, quando meus pais descobriram sobre a maldição, decidiram me colocar para adoção. Talvez acreditassem que a distância bastasse para enganar a dona morte.

É obvio que não acreditei em nenhuma palavra da médium naquele momento, e continuei minha vida, rotina de insônia, médicos e trabalho. Até que tudo ruiu.

 *** 

Quem poderia imaginar que o fundo do poço não era o pior lugar que eu poderia estar? Achava que só mais uma escavação não faria ruir as estruturas, mas tudo cedeu e me soterrou em ressentimentos e maldições. Sim, era tudo verdade, mas, mesmo se eu tivesse acreditado antes, não poderia mudar meu destino. Pagar pelos erros dos antepassados era cruel e injusto, mas a minha revolta não mudaria nada disso.

Perdi meu trabalho, porque não conseguia me concentrar em nada.

Não fui mais aos médicos, porque já não tinha dinheiro para os exames.

E, sem dormir, minha mente me pregou peças.

Um dia, quando estava deitada tentando dormir — ah, como eu era insistente — olhei para o espelho que havia ao lado da minha cama e avistei — até então tinha certeza de que imaginava — em cima do meu peito uma criatura cadavérica, de olhos tão escuros que sugavam a atenção, o olhar e a vontade de viver. E, quando ela sorriu, todos os males que sentia foram agravados. Ela era a culpada!

 Mas eu não permitiria que a maldição me atingisse de forma direta. O último elo dessa corrente iria resistir bravamente, nos meus termos, do meu modo.

E, com uma apunhalada, quebrei o maldito portal-espelho, sentia os pedacinhos de vidros me convidando, atraindo, clamando para terminar de uma vez por todas com aquele sofrimento.

Agarrei um dos cacos mais pontudos e enfiei primeiro nos meus olhos, mas isso não foi suficiente e, apesar da dor, ainda havia vida em mim. Ouvi uma voz sussurrar que havia chegado o momento de, finalmente, ter o descanso eterno, e sem hesitar cravei o objeto na garganta e a rasguei...

...Continuo não sabendo o que sou, quem sou, mas enfim obtive o merecido sono eterno.


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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14 - Meio Assim

Senti uma dor no peito. Infelizmente, não é infarto. Não é dor de amor, nem tristeza. É peso, uma sina. Sabe, os dias em que não se sente raiva, compaixão…

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Senti uma dor no peito. Infelizmente, não é infarto. Não é dor de amor, nem tristeza. É peso, uma sina.

Sabe, os dias em que não se sente raiva, compaixão ou esperança são os piores. Destituídos de qualquer sentimento, vagamos sob as profundezas de nosso próprio vazio.

Na vastidão do universo, onde as estrelas jazem sem vida, não me encontro após procurar por versões de mim que nunca mais existirão, ou que se perderam ante as lutas cotidianas, ou que foram domadas por falhas que não cometi. Não as cometi?

O vazio é mais pesado e denso que um coletivo em horário de pico. Mais cruel que qualquer sofrimento. E você sente raiva — sim, agora ela aparece —, porque você, racionalmente, sabe não ser justo se sentir assim, a sua vida nem é tão ruim assim.

Eu não estou aqui para auferir as dores do mundo, mas ao ferir as minhas, desabo.

Qual é o teu sofrimento? Se pudesse apagá-lo da memória, mas sob condição de apagar o que o acarretou (alguém, algo, um objetivo frustrado, o vazio...) você se apagaria?

Não somos compostos das experiências que vivemos? Não somos essa massa pensante, que pensa, repensa tanto que até dói?

Esses dias fez sol. Mas ainda sinto que isto não importa.

O desprezo que julgo sentir pela vida é consequência do autodesprezo? Por que não consigo sentir prazer nas coisas que outrora sentia? Chega! Já cansei de lamber minhas feridas.

Meu peito ainda dói, mas nada de infarto... Ainda!

As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Ópera do assoalho obscuro da matéria

O rangido do ferro não cessa. É talvez a caixa torácica daquela mulher que ainda fitava o teto vitoriano com os olhos vazios, brancos, lavados pelo arsênio…

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O rangido do ferro não cessa. É talvez a caixa torácica daquela mulher que ainda fitava o teto vitoriano com os olhos vazios, brancos, lavados pelo arsênio que escorre do papel de parede mofado.

Não há transição entre o quarto e a fábrica; os milhares de moluscos que apodrecem no Mediterrâneo estão agora sob o assoalho, liquefazendo-se em um roxo-profundo, um purpurume que mancha as unhas de quem tenta cavar a própria saída do sonho.

L'existence... c'est une blessure ouverte.

Abaixo, a liturgia avança em silêncio mecânico.

Carne Texturizada na sétima noite ao compressor da noite pulsa no sótão, um zumbido cego enquanto a agonia do gesso descasca sobre o dossel;

Não há Deus na altura que escute este mudo rogo,

Pois o Criador é o vurmo que apodrece sob o véu.

Regardez a viúva: o vestido de múrex exala o veneno,

Um perfume de peixe pobre e urina que a seita coroa;

O bebê de vidro, na fresta do armário, pequeno,

sangra um óleo escuro enquanto a engrenagem ressoa.

 

Nas dobras de uma cortina carmesim, O tempo estagna em um eterno agora. O chão de zigue-zague não tem fim, a própria luz, com medo, foi embora.

 

O pânico transborda em ectoplasma,

Viscosa angústia que o real desfaz;

O que era carne vira o leve pasma de um pesadelo que não traz a paz.

Alimenta-se o quarto com a agonia,

A garmonbozia amarela e fulgente,

Banquete da miséria e dor sombria.

O vento chora e mente.

Atrás do espelho, a face que sorria

Já não é humana, e o terror se sente.

O tribunal se reúne atrás da parede de gesso,

Onde o bule de café ferve um óleo escuro e denso.

 Fui condenado por um crime que esqueci o começo,

Sob o brilho mecânico de um abajur suspenso.

Há algo vivo e faminto no fundo do armário,

Um mal antigo que veste a pele do passado.

O relógio da sala gira em sentido contrário,

 o veredito já foi, há séculos, selado.

A metamorfose cega prende o corpo à cama,

 Enquanto os passos pesados sobem a escada.

Uma fumaça vermelha o corredor inflama.

A máquina de escrever digita uma folha em branco:

"O horror está em casa".

O A porta foi arrombada.

E o monstro na cadeira assume o meu próprio banco.

 

As pupilas duplicadas multiplicam-se no espelho da cama,

onde o sexo é o corte profundo que a criatura desenha;

sadismo de sombras que o próprio trauma inflama, que a alma excomungada finalmente entenda e ceda.

A Umbravola Nigrescens pousa no peito do morto recente, mandíbula serrilhada imita o riso do duplo no vidro; não é o monstro que avança de frente, o fato de estares, há eras, trancado e esquecido rosto na parede fria.

O fato de o cabeludo platinado pular pela dimensão não lhe dá o direito de ceifar as mentes de inocentes frias e escatológicas cruas almas rasgando seus ossos.

O anão dança com o anel de caracol, sua voz é uma estática fria e doentia e ele sorri enquanto da boca escorre um pútrido líquido semelhante a um vômito de milho, uma garmonbozia… Ele sorri enquanto seus olhos lacrimejam e disparam contra a pérola dela, aquela que ela inalava com as narinas de platina…

 A cortina vermelha ondulada sem vento, bizarra e lisa...

E o absoluto nada engole o que a luz cobria em um monólogo que um homem de giz sorria enquanto pulava derretendo-se

Intermitência.

...vês aquela mancha violeta na tua pele? Não washes. É o pigmento verdadeiro. Custou a vida de tudo o que rastejava no fundo do mar para que tu pudesses vestir essa melancolia. O homem que está dentro do assoalho da carne do espelho não quer sair; ele quer que tu entres. Ele já cortou os fios do telefone.

 

O corvo no canto da sala funerária não é um pássaro,

é apenas um pedaço de veludo preto que caiu do caixão e começou a respirar.

Se tu limpares as tuas retinas agora, com os dedos sujos de trimetilarsina, verás que o teatro sempre esteve vazio.

As luzes vão piscar.

Três vezes.

O som do sangue pingando e o rosnar da fera

será a única canção de ninar para o feto que insiste em não nascer no canto do quarto do fogo…

.

Ne regarde pas. Le grand néant t'observe déjà.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Conflito existencial?!

Acordava todas as manhãs e, na maioria delas, se perguntava o porquê ainda estava viva e respirava esse ar demasiado inóspito. Não que estivesse…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Acordava todas as manhãs e, na maioria delas, se perguntava o porquê ainda estava viva e respirava esse ar demasiado inóspito. Não que estivesse sentindo alguma vontade mórbida de interromper sua existência — diga-se de passagem, sem grandes venturas —, mas não entendia o significado de tal vivência.

Queria ser grande, desenvolver algo que mudasse a forma de pensar e agir dos outros, que fizesse o planeta sair de sua órbita. Levantar-se cedo, trabalhar, cuidar de afazeres diários e da família, não lhe pareciam feitos dignos de serem comparados aos de Einstein, Tesla, Machado e Da Vinci.

No fundo, achava que a vida lhe tinha sido injusta, pois outros tantos não faziam, ou melhor, não conheciam nem a metade do que sabia e eram muito mais prósperos... Enfim, concluía: Talvez fossem mais espertos!

Mas ainda assim não permitia que nada desse descontentamento abalasse sua rotina, continuava em sua fé, seu foco, no amor pelos seus e até por essa vida que julgava comum, e empenhava seus esforços da melhor maneira possível.

Por vezes ponderava sobre a situação do mundo, tão violento e cruel, como poderia assegurar o futuro dos seus? Em meio a tanta depravação, como manter a mente limpa e pura? Por que a sociedade evolui tecnologicamente à medida que se degrada moralmente? É... Era triste a constatação: O mundo constrói e caminha para sua própria destruição.

Mas de que adiantava tanto pensamento filosófico, e moralmente responsável na sua visão, se de fato nada fazia para tornar o mundo um lugar melhor? Não tinha o direito de sentir-se moral e intelectualmente superior. Era como os demais, comum e vulgar, ambígua e esporadicamente má. A antítese encarnada. O orgulho havia corrompido seu caráter, salvo por alguns momentos de pureza.

Em contrapartida, não era a favor de guerras, maus tratos a qualquer ser vivo; nunca roubou, matou ou infligiu mal aos outros, acreditava que no final “compensava” os seus erros. Havia autojustificado.

Bastava tudo estar ocorrendo conforme planejado, sobrevinha uma reviravolta ou outra a qual contornava com requintado louvor, e nesse “ciclo defeituoso” decorriam-se os dias e do nada... aquele sentimento!

“O que fazer? Como fazer? Por que fazer?”

Achava que devia existir um manual de instruções. Como se todos os problemas seguissem uma ordem. Como se respeitassem os indivíduos. Ingênua.

Mas mesmo a ingenuidade se veste de hipocrisia às vezes, o que lhe cai muito bem no discurso de como ser uma pessoa perfeita. Não em seu caso. Não sempre.

“Perfeição humana, em que consiste?”

Acreditava que tal expressão tratava-se de uma prosopopeia humana, pois um objeto pode ser perfeito, mas um humano?

E nesta crise existencial — ou não — vivia seus dias, na esperança de que um dia, talvez um dia, pudesse saber a resposta de sua indagação crucial: “Por que ainda estou viva, pra quê eu nasci?”, pois pensava ela que, quem sabe assim, pudesse descobrir a fórmula do tão sonhado sucesso... Tola, já havia descoberto e o estava desfrutando e nunca percebeu... Compreenderá algum dia?... Compreenderá que era simplesmente continuar rolando a pedra e viver sem grandes expectativas?!


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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13 - Azulácia de uma vida azul

“E se pudesses pintar suas memórias, de que cor seriam?” Lisa sempre surgia com perguntas que estimulavam minha imaginação, às vezes demandava tempo para…

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Relato de Alana Mortensen

 “E se pudesses pintar suas memórias, de que cor seriam?”

Lisa sempre surgia com perguntas que estimulavam minha imaginação, às vezes demandava tempo para elaborar respostas que estivessem à altura. Contudo, desta vez, minha voz saiu rápida e assertiva: “Azul”.

Não sei precisar se tenho uma cor favorita, para ser sincera nunca vi sentido em pensar nessas coisas, mas agora sei o quanto gostava de azulescer meus sentimentos; o quanto gostava do límpido azulíneo da lua; o quanto azulescia-me cada vez que pensava no meu passado.

A vida é assim: quando menos se espera entramos nessas elucubrações sem propósito, e qual é o sentido de viver se não for para viajar por caminhos tortuosos?

Meu cabelo preto, de tão escuro e denso, tornou-se azulado. Nosso sangue não parece ser azul olhando de fora? Não entendo o porquê ele insiste em tornar-se apaixonante, cor vibrante quando arrancado das veias, pois enquanto aqui dentro — dentro de cada um de nós — ele mal tem forças para gritar, quem dirá ser paixão. Para mim, ser azul, aceitar o “Azul”, faria muito mais sentido.

Sentido.

E lá vou eu novamente falando de sentido.

Fugindo dele, na maioria das vezes.

Quiçá procurando um destino.

Das cores da sobrevida.

Destinos desconexos.

Sem sentido.

Sentindo.

Indo.

Lisa olhou-me como se eu fosse um espectro, mas sei que ela me entende. Óbvio que ela entende o que falo, porquanto fala também, mas me refiro a entender o que sinto. Nessa relação fico em desvantagem, porque não sei dos sentimentos dela, já que não gosta de se sentir vulnerável — nem sei se algum dia ficou indefesa —, mas é como se ela soubesse exatamente tudo o que trago dentro de mim. E tudo o que deixei transbordar.

E, atendendo aos pedidos expressos por seus lindos olhos amarelos, começo a transportar para a tela as nuances “azuis” das cores da minha alma.

Com os pincéis crio vórtices de vários tons e tamanhos, eles preenchem os espaços diferentemente do que ocorre em mim.

“Quais vórtices esses redemoinhos enigmáticos irão despertar?”, pergunta.

“Órbita que precede o óbito”.

Lisa desaprova. “Nada de óbitos!”.

Conto a ela que só estou devolvendo o tempo emprestado. Ela não acredita, e insiste para continuar.

“E se a morte aqui no Castelo não for real, Lisa?”

Ela grita “Eu morri, você não lembra?”.

Era verdade e eu tinha esquecido. Se eu tentasse, desta vez, poderia não ter Drácula para me salvar.

Afasto tais pensamentos. Para onde vou?

Não quero voltar para casa, mas também não quero ficar.

Lisa propõe uma jornada, um passeio pela região e então os vórtices na tela começam a girar.

Assim como minha chegada ao Castelo foi por meio da minha arte, minha nova escapada aconteceu por causa daqueles vórtices; minha arte, pois, abrira um portal para as terras que ainda não havia explorado.

Mais tarde, descobri que fora transportada para as Dunas Múrmuras, um local repleto de areias, não as do tempo, mas as areias que cobrem terras secas e praias. Mas não havia mar, somente um Rio que chamou minha atenção.

 Já olhastes luzes salvadoras após se ver perdida em meio à escuridão?

Quando criança, fingia não ter medo do escuro, porque não podia ter medo daquilo que não via. Quando cresci percebi que é exatamente aquilo que não vemos, ou sabemos, que nos causa mais medo. Como combater um monstro invisível?

 O Rio era habitado por criaturas. Não só eram bem nítidas, como nos atraíam. A fotoluminescência agia como um canto sagrado — ou maldito —, que transpassava a armadura que havia colocado em volta de mim. Não pude ficar longe de suas formas e brilho intenso... convidavam-me para adentrar às águas. A voz de Lisa foi quase sufocada, sufoquei o instinto que clamava. Sabia que não poderia ceder tão facilmente, mas a quantos chamados estranhos já não havia respondido após chegar ao Castelo?

A ida para aquele mausoléu, por si só, já era uma atitude deveras ousada para mim, não era?

As formas aquáticas avolumavam-se à medida que me aproximava da margem do Rio Magöhorror. Sim, este era seu nome. Estava tão focada nos horrores submersos que demorei para notar que tudo ao meu redor tornava-se vívido. Não eram animais e flores comuns, pareciam mais provindos de uma floresta maldita. As flores com as bordas metálicas foram as que mais me chamaram atenção; lindas, assemelhavam-se aos espectros do passado, de outras eus e outras pessoas que desejava esquecer. Os esqueletos não estavam no armário, mas plantados na terra (não sei em qual momento a areia tornou-se terra, e quando o deserto virou miragem. Era uma miragem?).

Quando estava próxima demais da margem, Lisa me arranhou, já que eu insistia em não a ouvir. A floresta não me traria problemas, as flores tinham poderes de cura e apresentavam aquele aspecto por estarem carregadas demais. Porém, as águas azuis-índigo eram prisões de criaturas maléficas. Eram elas que me chamavam e não as águas.

Eu tinha esse dom de atrair monstros terríveis e de acreditar que sempre estaria segura. Lisa me olhava com indignação, e eu também me olharia assim se tivesse espelho naquele momento.

Não era uma tarefa fácil proteger alguém atraída pelo obscuro.

Lisa sorriu e disse que tinha todo o tempo do mundo.

E eu soube — mesmo sem provas — que enquanto houvesse azul em mim, ela estaria sempre atenta.

As Incursões de Alana Mortensen
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12 - Novo Chamado de Listheron

Desde aquele episódio, não havia pensado sobre minha origem. Contudo, por mais que eu tentasse suprimir qualquer ruído chamado, ouvia os sons…

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(Antes de iniciar essa leitura, recomendo ler o capítulo 6)

Relato de Lisa 

Desde aquele episódio, não havia pensado sobre minha origem. Contudo, por mais que eu tentasse suprimir qualquer ruído chamado, ouvia os sons das engrenagens em funcionamento, sem parar.

Não sabia distinguir se as ouvia de algum lugar distante ou se estavam dentro de mim... Mas algo aqui dentro movia-se impassível, sem requerer minha permissão.

Compreendia que evocar Listheron poderia causar a destruição deste mundo e, como não poderia arriscar colocar Alana em risco, suprimi toda e qualquer comunicação, telepática ou não, que pudesse ter com meus antepassados.

Mas eles não pensavam assim. Para Listheron, as batidas do relógio cósmico não cessavam; as engrenagens continuavam se movendo no compasso correto, aguardando mais uma chance para me convocar.

Meu tempo estava acabando...

***

Naquele dia, Alana estava interagindo com Drácula, e eu fui andar no bosque, localizado ao redor dos muros do Castelo. Não me afeiçoei a Drácula; apesar de ele ser gentil e ter salvo a minha vida neste plano, não tenho intenções de formar laços profundos com ele. Não tenho medo de que ele nos faça mal, não é isso. Mas a sensação é de que agiu movido apenas por interesse. Só ainda não descobri qual. Ou talvez meus instintos estejam prejudicados por causa dos sons, e isso afete minha capacidade de análise.

Saí quando a noite dominava, e os bosques jaziam iluminados com as costumeiras luzes indiretas vindas do Castelo, que conferiam ao lugar um clima lúgubre. A brisa mansa trazia odores de terra recém-molhada, mas não por chuva ou orvalho, e sim por algum líquido indecifrável.

Caminhava por entre as densas folhagens; subia nas copas para sentir melhor a invasão do ar puro em meu peito e sentia-me observada pelos olhos flamejantes.

Impressões ou fatos?

Em dado momento, notei que a lua tornava-se amarelada. No começo, achei que fosse apenas uma ilusão de ótica ou uma névoa fina que surgia, mas logo percebi que aquela mudança tinha substância: era real e a tingia de ouro em brasa, como um metal aquecido em fornalha, pronto para ser moldado. Adensava perante mim, deslizando para o lado direito, como que duplicando-se. Logo, a esfera dividiu-se em duas, e constatei que eram Olhos de julgamento.

Raios de luz saíam para fora das esferas, como se fossem pálpebras com cílios mal definidos. O olhar fixou-se em mim.

Senti um arrepio. Era Listheron. Vinha reclamar minha submissão.

Havia tensão no ar. Não conseguia desviar o olhar e então o ouvi:

 — Venha para mim.

Senti as engrenagens movendo-se novamente dentro de mim, pressionando meus pulmões e roubando o ar que havia conquistado:

— BASTA. Irei quando quiser! — Bradei a plenos pulmões, minha voz retumbou forte e o atingiu em cheio.

Silêncio. Senti alívio

A pressão no tórax recuou e, por um instante, pensei que estava livre, até que a nossa discussão telepática começou arder dentro da minha cabeça.

Eu protestava, ele exigia.

Lutamos sem mover um músculo.

O óleo fervia e os tubos que conduziam o éter da vida estavam prestes a explodir.

Mas eu não iria voltar atrás.

Até que ele cedeu.

Firmamos um pacto, assinado com a precisão de um contrato estranho: continuaria sendo Lisa, mas precisaria ser Lisath por sete horas, a cada sete amanheceres.

Não havia outra alternativa. Era isso ou me tornar Lisath para sempre. Ah, a beleza do livre-arbítrio.

Concordei. Por livre e espontânea manipulação.

Lisath é algo que Alana jamais suportaria conhecer.

Por isso, a cada sete dias, eu desapareço. E torço para que ela não descubra aonde vou e o que preciso fazer...

Revisado por Sahra Melihssa
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20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Albergue

Era frio e úmido. Como bueiro. Como fui chegar ao ponto de conseguir deitar a cabeça sobre as pedras? Como sujeitei-me ao insujeitável?..

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Era frio e úmido. Como bueiro. Como fui chegar ao ponto de conseguir deitar a cabeça sobre as pedras? Como sujeitei-me ao insujeitável?

Há muitos à minha volta, tantos que nem sei o nome, nem a conduta de outrora, mas ainda assim me sinto só. Quando o ser humano deixa-se levar por seus instintos, acaba por tornar-se algo inimaginável, incompreensível.

Como vês, eu me tornei tudo aquilo que repudiava. Como somos enganados por nós mesmos. Como nos deixamos enganar!

Aqui, ninguém me vê, só eu mesmo, e não gosto do que vejo, se é que vejo. Não vejo! Minha habilidade de visão foi afetada, e eu, mesmo percebendo o que me ocorria, persisti. Deixei-me conduzir pelo caminho enigmático que separa a razão da emoção. Como ser pulsante e suscetível aos caprichos do destino, tornei-me marionete em suas arbitrárias mãos; não consegui escapar de seus encantos, envolto em seus caprichos e habilidades surreais. Ah, o desconhecido, que sussurra segredos quase sempre incompreensíveis, enlaçando-se em suas garras doces... Sairei incólume deste conflito?

Ali, no cantinho da parede pichada e tomada pelos fungos, está a jovem, grávida; o bebê não sabe quem é seu pai. Num frenesi instantâneo, como a divagar sob o céu que eu mesmo construí, pairo sobre abismos imaginários, mas que agora tornam-se reais, tangíveis. Percebo minha respiração, que de súbito está ofegante. O ar se rarefaz.

— Jovem, por que está aí? Não tem família? — Pergunto-lhe.

— Acho que tenho, mas não lembro mais quem são... Não lembro nem quem eu sou também...

— Me chamavam de Gregor, e você, como se chama?

— E-eu? ... Ah, eu não lembro! — O rosto sujo e desfigurado é banhado por lágrimas sinceras.

Desespero. De súbito, minha respiração me incomoda; os batimentos cardíacos, como solos de bateria, são. Então resolvo interromper o curtíssimo diálogo que comecei. Vou à rua.

Carros. Pessoas. Poluição.

Tudo ali, convivendo harmoniosamente. Só eu que não posso entrar neste círculo simétrico. Permaneço aqui. Imóvel. Um recipiente repleto do mais absoluto vazio. O peso da escuridão esmaga meus ombros; não é fácil carregar o fardo de suas más escolhas.

Os que por mim passam, me repudiam, torcem o nariz, viram as faces. Colocam em prática tudo quanto aprenderam; a sociedade ensina direitinho.

Caminhei por horas — horas? — a noção de tempo me fora arrancada, como um tumor maligno; mas o cirurgião era semelhante ao açougueiro desleixado e deixou-me com as marcas de sua inaptidão... E eu terei que conviver com essa escolha alheia a mim.

Com pesar, continuei caminhando a esmo, remoendo memórias de tempos felizes, ou assim eu acreditava que era. Como pude deixar o trem da minha vida descarrilar e, assim, me transmutar nesse ser horrendo que vos fala? Na verdade, eu não deveria ter abusado daquelas substâncias, bem que me avisaram...

Vejo a fumaça negra que emana pelo ar, saída do escapamento do caminhão, este, tão velho quanto o mundo. Percebo que ele poderá me ser útil, e o será à sociedade também. Neste momento, ele é tudo o que eu mais quero; vê-lo por debaixo é tudo o que desejo. O fio clama por ser rompido; estiquei tanto a corda que é impossível aguentar sua pressão. Jogo-me à sua frente. Só ele conseguiu acabar com essa coisa que chamam de vida, só ele quis ser, finalmente, meu herói.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Versejo Voluptuoso

Velha vontade vigora | veneno visceral, viola. | Vagueio vigiando vidas, | vazias, vulgares, viciosas…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

(Tatutograma)

Velha vontade vigora
veneno visceral, viola.
Vagueio vigiando vidas,
vazias, vulgares, viciosas.

Vejo você vagueando
volúpia volta voando.
Venero vossa virilidade,
vinculo vontade-vulgaridade.

Vejo varão viçoso,
vulcão volátil, vultoso.
Volume viril vicejante,
vulva viscosa, vibrante.


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Contornei as curvas do belo corpo. Sem a urgência de término, acompanhava como observadora silente, o surgir dos poros, as moitas que adornavam o…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Por Alana Mortensen

Contornei as curvas do belo corpo.

Sem a urgência de término, acompanhava como observadora silente, o surgir dos poros, as moitas que adornavam o sexo e rosto pueril, os dentes alinhados, sem a brancura excessiva resultado de tratamentos estéticos. A textura e odor das flores era o que mais me aprazia — podia sentir o frescor agradável tocar minhas narinas. Os efeitos que a iluminação e perspectiva suscitavam em sua tez reforçavam o cenário onírico.

O balanço gentil do rio acalmava quaisquer perturbações. Técnica ou efeitos do Castelo na tela?

O líquido carmim, que aspergi em seu colo, realçava a beleza delicada, primal e arredia. O processo contínuo e minucioso acalmou as elucubrações daquele dia, mas garras de perturbação insistiam em se engalfinhar na obra. O êxtase era obtido sem pressa.

Éramos peças postas de forma estratégica no tabuleiro-tela.

Aquela figura suave parecia desfilar na tela, meus pincéis já sabiam acompanhar seus intentos. Desnudava-me de meus preconceitos, deslizando por entre caprichos de Eco. A forma corpórea perdia-se entre as névoas magentas; a superfície assemelhava-se a espelho d'água. Contemplava a mim?

“Venha, não tenha medo... medo... edoo... edoo”, a voz vacilante, afogada pelas águas que abarcavam suas pernas; o olhar fixado, como quem não esmorece diante de nada; a mão estendida, convidativa, exercendo influência sobre mim. Tal qual fora a minha chegada a este Castelo, fui persuadida a adentrar aquele mundo rubro-desbotado. As águas do meu interior fervilharam ao tocar a mão fria, mas macia.

Meu quarto transformou-se no cenário irretocável, irreal e plástico. Eco escancarou a porta, cujo olho-mágico era a tela. Hipnotizada, deixei-me conduzir por seus encantos, sem conseguir emitir som, pois voz não fazia parte daquele momento pictórico. Deslizamos sobre a relva úmida, recordando sensações há tempos adormecidas.

Já tiveste contato verdadeiramente íntimo com alguém, a ponto de não precisar estimular as terminações nervosas da flor que desabrocha na adolescência, mas mesmo assim, sentir-se em estado de êxtase? Conseguiria afirmar que isso é possível?

Decorreram-se horas ou dias, isso não tem importância, o tempo já me é alheio. Após esses primeiros contatos, físicos ou metafísicos, chegamos ao seu lugar de refúgio, um reservatório com águas calmas e rubras, vigiado por oito colunas, com seus capitéis dóricos suntuosos, dispostos como voyeurs das nossas tórridas aventuras. Minhas mãos percorriam ágeis, agora sem pincéis, as curvas de Eco. Sentia-me fadigada, mas não conseguia interromper o ciclo retroalimentado pelo deleite extraído e provocado.

Continuei nessa posição até sentir uma pressão no tornozelo, que logo transformou-se em agonia. Recobrei meus sentidos e percebi que Lisa cravara suas presas com afinco. Por que não gritara?

— Não era Eco, mas uma criatura maléfica. Chamei reiteradas vezes... Esta foi a forma de trazê-la de volta. Ela minaria suas forças até você ... — respondeu, hesitante, e adivinhando meus pensamentos.

Meu braço ainda exibia a marca do beijo-toque, feito ferro em brasa, que a tinta fresca imprimiu em mim. Eu não saíra daquele quarto e, agora sabia, algo maléfico viera ao meu encontro.

As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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O órgão

Um dia, Lorde Vlad resolveu agir. Era o proprietário de um suntuoso castelo, cuidadosamente desenhado por sua falecida esposa, cujo conhecimento…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Um dia, Lorde Vlad resolveu agir. Era o proprietário de um suntuoso castelo, cuidadosamente desenhado por sua falecida esposa, cujo conhecimento em arquitetura permitiu que cada detalhe daquele lugar fosse confeccionado impecavelmente. Ele sempre considerou um exagero todo aquele espaço e recursos empreendidos em bens que ficarão aqui após sua partida — assim como para ela — que nada pode levar em sua jornada junto a Caronte.

Há algum tempo ele sofrera um mal, segundo suas suspeitas, fora revirado de dentro para fora e pretendiam utilizá-lo em uma doentia vivissecção. À medida que a dor aumentava, mais irascível ficava. Quanto mais raiva, mais cansaço.

Estava pálido, alguns de seus servos diziam que estava tão amarelado que parecia as folhas de outono que flutuam a esmo, comparação essa também em decorrência da visível perda de peso.

Afogava suas dores com bebida forte e sempre exigia que esse elixir fosse preparado mais e mais forte. Ele precisava dormir, só assim esqueceria a dor.

Decidiu consultar os oráculos, quaisquer que fossem suas origens e finalidades, desde que lhe oferecessem alguma solução. Chegou aos magos. Ele nunca se interessou em saber quais eram suas fontes, só pretendia obter a cura. Finalmente havia recebido um plano para sua cura. E assim ele decidiu oferecer um jantar.

Todos os homens do reino, entre 25 e 35 anos, foram convidados. O primoroso convite dizia que aquela noite seria uma data especial na história daquele local, pois o Lorde escolheria um dentre aqueles felizardos para receber o castelo e toda sua fortuna como herança. Como pode-se imaginar, todos os convidados não ousaram abster-se do convite.

No dia fatídico, chegaram cedo. Uma fila extensa se formava em frente aos enormes portais do castelo, que só foram abertos no horário exato. Os homens estavam animados e logo já foram servidos barris da bebida que o Lorde tanto apreciava. Após horas de confraternização entre si, finalmente, o grande banquete seria servido.

Mal sabiam eles que todo este tempo Lorde Vlad já os observava, pois pretendera escolher o homem mais respeitoso, sincero e gentil.

Após horas de comilança, Lorde Vlad interrompeu o burburinho e a algazarra generalizada, tocando com um talher de ouro em sua taça repleta do elixir:

— Meus bons homens, espero que tenham apreciado essa singela cerimônia. Não tenho a intenção de atrapalhar vossas conversas, mas preciso contar-lhes algo. Há alguns meses venho sofrendo mazelas, as quais não desejo nem ao pior dos meus inimigos. Em consulta aos sábios, descobri que seres espectrais tentaram contra minha vida e retiraram meus fluidos e órgãos com suas próprias mãos ressequidas. Devolveram as minhas partes para dentro de mim, mas os efeitos desse procedimento horrendo sinto até agora. Não sei até quando durarão meus dias nesta terra e, como não tenho herdeiros, preciso passar meu legado a um de vós aqui presente.

Um silêncio perturbador preencheu o enorme espaço. Mesmo com muitos convidados, ainda havia espaços vazios, mas o ar tornou-se pesado ante a este pronunciamento. Lorde Vlad, por fim, adentrou a espessa névoa que suas palavras haviam procriado:

— Meus bons homens, por obséquio, não me olhem com essas caras funestas. Tudo o que lhes digo é para que entendam meus motivos. Comam e bebam. À meia-noite irei anunciar meu escolhido.

Sob o efeito da bebida, todos os homens voltaram à alegria descomedida de outrora, como se ao se calar Lorde Vlad tivesse despausado a cena e todos pudessem voltar a rodar e girar sem limites.

Meia-noite. Desta vez, o pronunciamento foi exigido após os acordes do suntuoso órgão, que viera de terras longínquas, mas era como se uma marcha fúnebre retumbasse. A música ressoava tão forte que balançava as estruturas ósseas dos presentes. Horlok foi o escolhido, o herdeiro. Era o único sóbrio e sério.

Todos foram convidados a se retirarem. Restava agora a Horlok discutir os termos deste acordo. Deveria ter o seu nome no testamento.

Foi levado a um corredor, permeado de incontáveis portas, que, segundo o servo, eram alguns dos quartos do castelo. Ao final do corredor, chegaram a uma câmara iluminada, onde o Lorde e um senhor com roupas extremamente limpas o aguardavam.

Horlok não conhecia a aparência de autoridades da lei, mas aquele senhor não se parecia com um deles, arriscou pensar que era um médico.

— Sou o doutor Seward. O Lorde precisa saber o quão saudável és, pois não almeja correr risco de que seu castelo caia em mãos inimigas.

E sem esperar qualquer resposta ou reação de Horlok, segurou-o com ajuda dos servos, para que ficasse firmemente colado à mesa. Lorde Vlad estava deitado na mesa ao lado.

Após alguns minutos, Horlok estava inerte. Alguma mistura, que mais tarde seria conhecida como ópio, foi enfiada brutalmente em seu corpo. Suas mãos jaziam em cada um dos lados da mesa. Um corte profundo em seu abdômen permitiu que seu órgão fosse cuidadosamente retirado. O sangue escorria sem parar, mas o doutor não iria perder tempo com isso. Um corpo ao lado esperava ansiosamente pelos novos anos de vida que aquele pedaço marrom iria lhe proporcionar.

E Horlok sucumbiu. E quem diria que a má educação e hábitos torpes daqueles outros homens um dia salvariam-lhes a miserável vida.


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

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As gavetas dos últimos dias

São Paulo, terra da garoa e dos mortos. A violência é intensa, isso não podemos negar, e com isso a vida desacontece a todo momento. Aprendemos a lidar com a morte…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

São Paulo, terra da garoa e dos mortos.

A violência é intensa, isso não podemos negar, e com isso a vida desacontece a todo momento. Aprendemos a lidar com a morte, ela é nossa fiel escudeira, única acompanhante nos becos, nas estações vazias e viadutos abandonados.

E nunca se sabe quando o encontro fatídico ocorrerá, e ele ocorre para a maioria da população mais cedo do que se pode esperar.

Com o acúmulo de corpos sem vidas, uma Companhia percebeu a demanda e fez uma oferta irrecusável. Uma vez que os cemitérios tradicionais já não comportavam o volume de corpos, surgiu a brilhante ideia: e se eles fossem condicionados verticalmente, tal qual o Japão que adaptou suas lavouras às condições e criou robustos sistemas de hortas verticais. Prédios vazios e sem uso comercial foram transformados em criptas, onde o céu era o limite. E como havia espaço até que as bordas dos edifícios tocassem a beira do firmamento.

Os edifícios eram arrematados em leilões. Empresas que declaravam falência eram as principais ex-proprietárias. Estavam, em sua maioria, em ótimo estado, alguns precisavam ter a energia elétrica religada, pois estavam há meses sem pagamento, mas nada que onerasse a Empresa da morte. O fim da vida tornara-se algo lucrativo e tinham certeza de que logo recuperariam o valor investido, o lucro viria.

Os elevadores eram enormes, como bunkers reforçados de aço, robustos e impenetráveis. Após os possíveis ajustes, cada andar era remobiliado: saíam as baias que antes abrigavam os humanos sobreviventes de suas rotinas miseráveis; entravam as gavetas onde eram condicionados os corpos, agora, sem vida.

A visão daquelas caixas perfeitamente encaixadas causava satisfação para quem observava, tudo era limpo e quieto, o SPA após a vida. Quem visitava esses decorados ficava encantado com a disposição impecável, de certo, esse era o descanso merecido.

Renan era o corretor mais bem-sucedido daquela Companhia. Seus argumentos e simpatia comedida sempre eram convertidos em vendas, mesmo quem não queria, pois dizia não ser “bom agouro comprar o lugarzinho ali”, acabava sendo seduzido por suas dóceis palavras. Se buscar o conforto próprio não era o suficiente, ele apelava para o dos entes queridos, e a esse discurso ninguém ousava olvidar.

Naquele dia tinha agendado uma visita para as 14h, e como de costume chegou mais cedo ao local. Cumprimentou Olivia, a recepcionista com quem tinha uma amizade discreta, e entrou no elevador.

As teclas, numeradas de 1 a 16, o perscrutavam, esperando o momento em que uma delas seria tocada, e após uma espera de milésimos de segundos, a 13ª saiu vencedora.

1, 2, 3...

Quando a gaveta de ferro iniciou a subida, bateu as mãos nos bolsos: “Putz, esqueci o celular”. Apertou o 0, mas o elevador seguiu fielmente sua missão e continuou a subida até o andar selecionado.

4, 5, 6...

Obedecendo a pensamentos intrusivos, apertou a tecla 8, mas o elevador ignorou seu pedido e continuou seguindo cegamente a programação. “Como sou burro, ele respeita a ordem de seleção, agora vai demorar mais ainda para descer, mais uma parada inútil.

Tentou calar a voz da ansiedade. A caixa de metal finalmente chegou ao 13º andar. Parou. Era esperado as portas demorarem 3 segundos para abrir, sim, ele tinha contado durante algumas crises de ansiedade. O medo de um dia ficar preso dentro daquilo era vencido pelo sedentarismo, subir 13 lances de escadas não iria rolar, mas agora se arrependia da tola decisão. Dez segundos passaram, as portas insistiram em permanecerem cerradas. Pressionou outra tecla, aquela com ícone de telefone para caso de emergência, alguém atenderia e diria que estava tudo bem, seria resgatado. Mas não ouviu voz humana, aliás, não conseguiu distinguir o barulho, parecia uma geladeira que grita do nada na madrugada. Sentia a respiração descompassada, dançando uma música sem ritmo e sem nexo.

Que droga, respira, 1, 2, 3... Como a Carla ensinou”. Carla era a terapeuta, partes de suas manias e fobias foram amenizadas com as sessões, mas nada o havia de fato preparado para aquilo. O elevador desceu de forma violenta, como se 1, 2, 3 fosse um comando de voz, luzes piscando como uma discoteca infernal.

Parou bruscamente, pareceu ter atingido os limites do solo. Com a freada, Renan caiu de joelhos, que ardiam com o impacto brutal. “Que merda foi essa?”.

As luzes estabilizaram e o coração insistia em sair pela boca, mas ele o engoliu e o forçava a bombear sangue, mesmo irrigando partes que não deveriam, molhado demais. “Pera, eu mijei?”.

Conseguiu levantar-se após empregar força sobre-humana em seus joelhos, as pernas ainda tremiam, mas era de medo.

Apertou novamente o botão que o salvaria, mas nada, outros ruídos surgiram.

Deslizou derrotado na parede em frente à porta, aquela situação era demasiadamente difícil para ele. Olhou para cima, buscando um deus no céu de aço, e encontrou o painel, que indicava o número dos andares, piscando em alto e bom neônio vermelho: -10.

Pensou e riu consigo mesmo que havia chegado a um ciclo, até então, desconhecido do inferno.

Enquanto lamentava sua situação, algo lá fora arranhava a porta e forçava entrada. “Era melhor ter morrido esmagado”.

O teto, obediente à sentença proferida pelo miserável, desceu rápido e implacável. Metal contra carne. Não houve grito, somente os estalos dos ossos cedendo e esmigalhando, fundindo elevador e homem em uma massa disforme única.

Não era o jazigo que havia comprado, mas era o único e último que teria.


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Furta-cor

Nem um arco-íris faz | colorir dias gris | que tem por pretensão encantar, | mas, ao fim, | Só se faz desperdiçar…

Imagem criada por Aslam E. Ramallo para o Castelo Drácula

Nem um arco-íris faz
colorir dias gris
que tem por pretensão
encantar,
mas, ao fim,
Só se faz desperdiçar.

Porque a alegria é
interpretável
e hoje sou antagonista
na minha própria peça,
esta,
sem enredo inteligível,
sem nexo.

Só para disfarçar
as marcas n’alma,
negras ou carmesins,
brandas ou espessas,
que compõem todas
as emoções que,
de alguma forma,
preciso, quero,
insisto
em olvidar.

Revisão por Sahra Melihssa

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

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10: Sobre as versões de nós

Amo os clássicos, porque vemos que as mesmas inquietações reverberam na atualidade. Ao mesmo tempo que tudo mudou, nada mudou.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Por Alana Mortensen

Amo os clássicos, porque vemos que as mesmas inquietações reverberam na atualidade. Ao mesmo tempo que tudo mudou, nada mudou. A forma de comunicação transformou-se, mais ágil e nem sempre assertiva, mas os anseios são os mesmos. A nossa insistência em tentar definir e nomear aquilo, o desconhecido que fascina e aterroriza em iguais proporções.

Lembro-me da primeira vez que li “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, a Alana de quatorze anos ainda tinha sonhos e alegrias por vir. O impacto foi repentino e indecifrável: recebi os golpes, sem saber precisar de qual direção e remetente provinham. A fascinação foi ainda maior após reconhecer que o protagonista somente conseguia ser sincero, porque o além-vida lhe proporcionava esse despreendimento. Entende o que eu quero dizer? O medo de ser rejeitado nos prende à vida cotidiana, aquela na qual todos vagam sem experienciar a Vida.

Para que continuar seguindo as convenções se tudo o que outrora era vida já não mais existe?

Para que continuar dançando a valsa da vida se não há mais parceiros e a música cessou?

Sinto que, ao adentrar o Castelo, sofri a mesma transição que Brás Cubas: já não preciso me preocupar com a minha utilidade na sociedade; já não preciso continuar lidando com as situações sufocantes; já não preciso simular.

Tornei-me transparente. Não vês os meus circuitos internos? Olha como meu coração ainda bate, em um ritmo só dele, ainda bombeando o sangue que faz irrigar cada parte seca do meu corpo.

Quando era criança adorava fingir ser quem não era: professora, médica, forte, executando a “função” com tanta seriedade que ninguém ousava dizer que eu não era uma professora ou médica, ou forte. Aos poucos fui perdendo essa autoconfiança, a adolescência sufoca qualquer voz interior que tenta afirmar que “você é capaz”, ou assim nos fazem acreditar… Falam tanto na nossa cabeça que acreditamos exatamente naquilo que elas querem.

A jovem adulta não ficou menos hesitante, só aprendeu a suprimir esses dissabores, ninguém gosta de pessoa que seja e pareça fraca. Nem eu gostava. Mas aprendi que se deixar sangrar, deixar que vejam meu escoamento também é uma forma de força.

Essa bateria de palavras é somente as divagações de hoje. Aqui eu aprendi que eu posso e serei quem eu quiser. E não me importo se tentarem cerrar as cortinas, pois eu irei transpassá-las e continuarei com a minha apresentação, custe o que custar!

Revisão por Sahra Melihssa
As Incursões de Alana Mortensen
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9 - Uma nova esperança em meio aos destroços

No céu, a Lua pairava sobre as torres alongadas do castelo tenebroso como um farol prateado. Sua esfera irradiava um cintilar frio e cristalino…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Relato de Lisa

Alana já sabe sobre as mudanças que se fizeram em mim. De certo modo, me senti aliviada. Você não imagina como é difícil manter-se calada quando o coração está repleto de preocupações e reverberações das ações — incautas — alheias. Esperem. Vou contar-lhes tudo sobre esses últimos dias.

Gatos não têm religião, mas somos espiritualizados de uma forma que o conhecimento limitado humano é incapaz de compreender. Não se sintam ofendidos, mas imaginem uma situação em que vocês precisam explicar sobre a relatividade para um bebê de dois anos. Ninguém diria que o bebê é incapaz ou desprovido de inteligência, mas diriam que ele ainda não é capaz, pois precisa entender primeiro outros conceitos mais básicos. É exatamente assim que os vejo. Meus ancestrais, como já contei anteriormente, são seres além do tempo, míticos e que regem as leis do cosmos. Eu consegui me adaptar a essa existência limitante, mas não suprimi totalmente minhas capacidades cognitivas, e por isso, sei o quanto deve ser difícil para vocês entenderem certas coisas.

Sem mais delongas, porque isso está soando muito estranho, vou contar-lhes o que aconteceu com a minha Alana.

Há cinco dias ela acordou em meio a mais confusões noturnas — não consigo afirmar que aquilo era sonho. Eu não queria ter que usar os artifícios, pois quando adentrei nessa existência havia prometido para mim mesma que não iria interferir nas escolhas dos humanos, entretanto, tudo isso que aflige Alana não foi sua escolha, mas são consequências dos maus atos dos outros. Posso dizer que esse é um grande dilema, contudo, será assunto para outro relato.

Em meio ao conturbado despertar, entre lágrimas e terrores, esbocei a primeira frase audível para ela, que a princípio imaginou estar confusa pelo sono, pelo despertar recente ou pelo desassossego. Demorou para aceitar a realidade. Contei-lhe sobre os olhos flamejantes, minha ancestralidade e falei-lhe sobre Siehiffar Monm: ela te ajudará.

Aquela noite o vento assobiava entre as árvores retorcidas como se carregasse memórias que não deveriam ser lembradas. Alana hesitou de início, mas depois compreendeu que mal também não podia fazer. Partiu, guiada por uma promessa sussurrada por mim ela te ajudará.

Nos recônditos do Castelo havia o pequeno santuário iluminado por uma única vela bruxuleante, a luz parecia resistir por teimosia. Quando a porta rangeu sob o toque da minha tutora, o cheiro de cera derretida e madeira antiga a envolveu. E lá estava ela: Siehiffar.

Sentada em um banco gasto, o véu de linho repousando nos cabelos negros, as mãos postas sobre o colo — havia nela uma quietude que desafiava o mundo. Ela ergueu os olhos ao ouvir a porta, e o olhar que pousou sobre a recém-chegada não foi de julgamento, mas de acolhimento.

— Você veio. — disse Siehiffar com uma voz que parecia ser feita de manhãs brandas e orvalho. — Há dias sinto sua tristeza ecoando pelas paredes do Castelo.

Alana hesitou. (ela sempre hesita, mas faz).

— A minha gat... Lisa me contou sobre você. Eu... não sei por que vim. Só sei que não consigo mais carregar isso. A fé... desapareceu. Ou talvez nunca tenha existido.

Siehiffar se ergueu, seus passos silenciosos como preces. Aproximou-se sem pressa, até chegar de frente à alma atormentada. Tocou-lhe as mãos — mãos frias, que haviam cavado covas para os próprios sentimentos.

— Às vezes — disse ela — a fé se esconde. Não porque tenha deixado de existir, mas porque espera que a procuremos em lugares novos. No silêncio. No desespero. Naqueles instantes em que tudo parece perdido. Na banheira você teve fé, só não te ensinaram o nome daquilo.

— Você fala como se ainda houvesse esperança — e sorriu com amargura.

Siehiffar levou a mão ao coração.

— Porque há. Não a esperança tola de que tudo será fácil ou que as dores desaparecerão. Mas a esperança de que, mesmo com tudo isso, você ainda pode encontrar sentido. Que há beleza até mesmo na dor que transforma e machuca.

Um raio de luar atravessou a vidraça quebrada, banhando o rosto da minha Alana em prata. Pela primeira vez em anos, ela não sentiu apenas frio. Sentiu algo mais. Um calor tênue, sutil, quase imperceptível — a lembrança de um abraço.

— Fique, — disse Siehiffar, apontando o banco. — Não precisa falar. Apenas fique. Às vezes, a fé começa quando simplesmente decidimos não ir embora. Lisa, pode entrar também... É claro que ela sabia que eu estava à espreita. Entrei.

E Alana parecia mais leve do que esteve em anos. Eu sabia que Siehiffar podia ajudá-la, mas sinto que subestimei sua capacidade de amenizar as dores com uma precisão quase cirúrgica.

Se Alana precisará de mais sessões com ela, eu não sei... Só sei que estou disposta a fazer novas concessões se for preciso.

As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Todos os lamentos serão ouvidos

Hoje faz cinco meses desde a grande mudança. Da imagem veio a idealização, a concepção e a efetivação. Ouvi o chamado retumbante…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Hoje faz cinco meses desde a grande mudança.

Da imagem veio a idealização, a concepção e a efetivação. Ouvi o chamado retumbante permeado por vozes angelicais que exigiam uma sacra ação. Não ousei olvidar, quem ousaria? A petição era simples, mas requeria dedicação e comprometimento ímpares.

Foram anos de estudos para lapidar um dom concedido por Deus. As aulas de anatomia eram as mais instigantes, estudar cada milímetro de corpos inertes e impuros — impuros pois estavam destituídos do privilégio de adorar e dar graças a Ele. Eu ainda não sabia, mas tudo transcorria a fim de se fazer cumprir a vontade daquEle a quem devo a minha vida.

Todo conhecimento tinha uma finalidade, agora eu o sei. Visualizar o que cada um traz dentro de si é algo divino e assim eu compreendi que fora destinada para aquela missão. Nenhum outro poderia compreender.

Eu era enfermeira. Ainda sou, pois mesmo impedida de exercer minha função, isto me é inato. Há coisas que os olhos mundanos não enxergam — só os escolhidos veem. Só aqueles que foram tocados.

E eu fui.

No início, pensei que fosse exaustão. Vinte e quatro horas de plantão, pacientes morrendo sem dignidade, máquinas apitando, familiares desesperados, médicos indiferentes. Mas naquela noite… naquela noite fatídica, enquanto segurava a mão fria da Dona Lurdes — pele frágil, os olhos quase em paz — ouvi a suave brisa.

Não com os ouvidos. Não como qualquer outro ouviria. Ouvi com a alma. Uma voz que se insinuava: Ela está pronta. Ajude-a a atravessar.

E eu ajudei.

Foi com delicadeza. Uma prece cochichada. Um leve ajuste no equipamento de morfina. Uma transição suave. Celestial. Ela sorriu, juro, no segundo que antecede a partida, sorriu como quem vê a luz no fim do túnel e reconhece o rosto de um anjo. Ali compreendi: eu não era apenas uma enfermeira. Era uma escolhida.

Nos dias seguintes, vieram outros sinais dos pacientes: as auras em suas cabeças e as palavras murmuradas. Estavam inconscientes, logo, só podia ser obra do criador. Ah, também tinha o brilho nos olhos dos que já estavam com um pé na eternidade. Deus me escolheu para conduzir essas almas.

E eu o fiz.

Mas não é fácil. Precisa sensibilidade. Discernimento. Disciplina. Nem todos estão prontos, e nem todos merecem. Eu o ouço. Ainda o sinto. O julgamento não era meu — era apenas um instrumento.

Os outros não entenderam. Disseram que sou diferente. Que ficava muito tempo sozinha na UTI. Que enlouqueci. Que os pacientes precisavam de cuidados paliativos e que eu os matei. Não foi isso! Eles não sabem o que eu sei! Não veem o que eu vejo!

Não é morte. É libertação. Eutanásia celestial, como aprendi a chamar ou foi Ele quem me disse.

Um gesto de amor.

O último foi o Sr. Armando. Setenta e nove anos, falência múltipla dos órgãos, ninguém o visitava mais. Ele segurou minha mão com tanta força e então murmurei: Está na hora.

Lágrimas escorreram do canto dos seus olhos fechados. Paz. Ele partiu em paz.

Ainda hoje sinto a presença dele aqui, me agradecendo.

Escrevo tudo neste diário, pois sei que um dia alguém irá encontrá-lo e poderá entender a minha missão. Talvez outra enfermeira. Talvez outro escolhido. Talvez continue com a sacra ação. Será que outros seres iluminados iguais a mim virão parar nesta caixa de concreto cercada de grades e guardas mal-humorados?

E você, que está lendo isso agora, saiba: não é loucura. É missão. Um chamado. E quando ouvir a voz — aquela voz suave, inconfundível — apenas escute.

E aja com fé.


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Quando os deuses se cansam

No alto de um dos galhos eternos da Yggdrasil, a grande árvore que sustenta os nove reinos, duas figuras antigas contemplavam o vazio. Acima delas…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

(Adaptação do conto “A Carona”)

No alto de um dos galhos eternos da Yggdrasil, a grande árvore que sustenta os nove reinos, duas figuras antigas contemplavam o vazio. Acima delas, Asgard reluzia em sua glória estagnada; abaixo, Midgard pulsava com o caos dos mortais. Entre um mundo e outro, o tempo parecia hesitar, preso a num suspiro prolongado dos deuses.

Elas já haviam cruzado cada trilha dos nove domínios — de Niflheim, gélido e sombrio, até o abrasador Muspelheim. Conheciam os segredos de Alfheim e os lamentos de Helheim. Cada canto da existência havia sido explorado, sentido, moldado... e, com o passar das eras, perdera seu sabor.

Nada mais surpreendia: nem a fúria dos guerreiros em Vanaheim, nem a sabedoria dos anões em Svartalfheim. Tudo era apenas repetição. Mesmo os ecos do passado, que antes traziam nostalgia ou orgulho, agora não passavam de ruídos distantes.

Em silêncio, uma delas ergueu os olhos para os céus de Asgard, como quem procura um presságio. A outra voltou-se para Midgard, onde o coração humano ainda batia com força e imprevisibilidade. Havia algo ali — algo incerto, caótico, tolo, talvez... mas vivo.

E, naquele instante, sem dizer palavra alguma, ambas compreenderam: era tempo de descer.

**

Matias dirigia tranquilamente pela estrada deserta, após seu primeiro encontro com Paula. Havia alcançado uma sintonia bem interessante com a moça, o que lhe deu bons pressentimentos sobre um possível relacionamento. Ouvia Black Sabbath em volume baixo para seus padrões, pois não pretendia suprimir os pensamentos a respeito do date maravilhoso de algumas horas antes.

Após passar por um trecho com uma curva sinuosa, foi obrigado a frear bruscamente. O carro ancorou no chão como se houvesse batido em uma parede invisível, deixando seu corpo dolorido. À sua frente, estava uma jovem loira, que aparentava ter uns 20 anos. Vestia um jeans imundo, uma camiseta amarela rasgada e pincelada com manchas de várias cores e tons — sendo a maioria nuances de vermelho.

Olharam-se por alguns segundos e, enquanto ele tentava entender a situação, ela correu até seu carro, abriu a porta do passageiro, entrou e gritou desesperadamente:

— Vai logo, ela está vindo!!!

Matias, ainda atormentado pelo susto, olhava para o nada, e mais uma vez a jovem gritou, enquanto puxava a cabeça dele pelo queixo em sua direção, a fim de se fazer entender:

— Você é idiota, cara? Vai logo, vamos sair daqui agora!!!

Matias despertou do transe em que se encontrava e, ainda sem compreender muito bem a situação, arrancou com seu carro potente, deixando para trás uma mistura de mistério, poeira e fumaça. Após alguns minutos na estrada, e percebendo que não havia ninguém os seguindo, foi recobrando a consciência e perguntou incisivamente:

— Que porra foi essa? Quase não consegui parar o carro, garota. Você poderia me dizer o que caralhos tá acontecendo?

— Eu estava fazendo uma trilha, me perdi na mata e encontrei uma pessoa estranha vestida de preto. Foi isso! — disse, despretensiosamente.

— Tava sozinha?! — perguntou indignado.

— Sim.

— Você é maluca? Fazer trilha num lugar desses... e sozinha!

— Eu sempre fiz isso e nunca aconteceu nada.

— Nunca acontece nada, até que um dia acontece, né?

— Pode ser... — Respondeu, dando de ombro.

Matias não conseguia esconder seu mau humor, todos os seus pensamentos sobre uma noite agradável haviam sido sugados por um problema que não era dele, mas ele não podia deixar a moça sozinha na estrada. Decidiu encontrar um lugar seguro para deixá-la e depois iria embora antes que “sobrasse para ele”.

— Você tem um cigarro? — perguntou a jovem.

— Não, eu não fumo.

— Como assim? Com essa cara e não fuma?

— Quê? “Com essa cara” — repetiu indignado — o que você quer dizer com isso?!

— Bem, olha o que você escuta, olha para suas roupas e tatuagens... pensei que fosse um drogado. — Ela respondeu com uma risada sarcástica.

— Cara, você só pode ter problemas. Eu estou te ajudando e você vem zombar da minha cara? Sua sorte é que minha mãe sempre me ensinou a respeitar e cuidar das mulheres, senão eu ia te jogar pra fora do carro!

— Ei, calma garotão, eu tava brincando — disse levantando as mãos em sinal de rendição, tentando apaziguar a situação desagradável que havia gerado — Aff, você está muito estressadinho!

— Nossa, como você é engraçada...

— Tudo bem, isso foi péssimo mesmo. Vou tentar me redimir com você. Eu também curto esse tipo de música e tenho tatuagens, mas, ao contrário de você, eu curto uns “negócios a mais” ... Se é que você me entende. Aliás, posso usar aqui?

— Eu não disse que não curtia uns baratos, eu só disse que não fumava. Mas usa, ué... O que é que você tem aí?

— Ahhhh, é algo muito diferente de tudo o que você já viu. Eu mesma criei. — Respondeu com um sorriso soberbo e uma piscadela cúmplice.

— Tá, mas o que tem aí?

— Aí você teria que experimentar...

— Tá de sacanagem? Como eu vou usar um negócio que eu nem sei o que é?

— Só vai saber se usar...

Matias permaneceu irritado. A moça era enigmática demais, e ele não gostava desse tipo de interação, pois preferia tudo “preto no branco”, como costumava dizer. Resolveu ficar calado enquanto ela consumia a substância que, diferente das outras que ele estava acostumado a ver, era aplicada na pele como um creme hidratante.

Ela foi entrando, gradativamente, em um estado letárgico, o que deixava Matias ainda mais curioso — mas não a ponto de decidir usar, porque queria chegar logo em casa. “Esta noite infernal tem que terminar!”

Horas e horas de viagem e a estrada parecia não ter fim. Pensou estar perdido, mas não conseguia consultar o GPS, pois o celular havia descarregado. A moça permanecia quase inerte, despertando de vez em quando para reaplicar o “creme”.

O sono começou a bater forte. Matias aumentou o volume e tentou cantar para espantá-lo, mas estava ficando cada vez mais difícil manter-se acordado, precisava de um estimulante o quanto antes, mas naquela maldita estrada, não aparecia um posto de gasolina ou qualquer outro estabelecimento aberto àquela hora.

Depois de um tempo imensurável a estrada foi ficando iluminada por luzes fluorescentes piscantes e Matias imaginou que seu cérebro estava lhe pregando uma peça, então parou o carro no acostamento e começou a chorar desesperadamente.

— Que caralho tá acontecendo? — gritava ele, enquanto esmurrava o volante.

— Essa sensação é boa, né? — a jovem o olhava sensualmente, com um olhar simultaneamente penetrante e gélido.

— Quê? Cara, eu tô cansado e com sono, o que me deixa ainda mais sem paciência. Como isso pode ser bom?

— Você não está com sono... Você só está morrendo, bobinho. Rs.

— Morrendo??? Para mim, já deu! Saia agora do meu carro!!!

— CALA A BOCA!!! Já cansei de você! Você só reclama e reclama, não sabe aproveitar o presente que lhe foi dado... vamos acabar logo com isso então!

Ela abriu a bolsa, retirou outro pote, abriu a tampa e enfiou os dedos, retirando uma quantidade considerável de outro creme, de aspecto avermelhado, e passou no rosto de Matias. Ele começou a gritar desesperadamente. Luzes fluorescentes piscaram por um tempo impreciso, e então, se apagaram. Escuridão. Após suas pupilas se reajustarem à luz natural do luar percebeu que estava preso nas ferragens do carro. Paula jazia ao seu lado, a cabeça caída de uma forma humanamente impossível, mas ainda “ligada” ao corpo por uma fina camada de pele.

Em seus últimos respiros, Matias entendeu que havia batido contra uma árvore e que aquele era seu fim.

Ao lado da janela dele, estavam a jovem de camiseta amarela e uma outra vestida de preto, com metade da face cadavérica, ambas acenaram e riram descompassadamente enquanto falavam:

— Eu falei para você experimentar a outra substância, pelo menos teria morrido em paz... — disse a jovem de amarelo, dirigindo-se a Matias.

— Mas eles sempre insistem em ficar sóbrios até o fim haha. — disse a de preto enquanto virava-se para a outra — Freya, você insiste em inovar, mas acho que prefiro fazer como antigamente.

— Ah, Hela, mas era tudo tão rápido, sem diversão nenhuma... Olha a carinha de desespero dele. E olha como você está estilosa, mesmo insistindo no preto, mais sorridente e sem aquela roupa sem graça. Você precisava disso!

— Que seja! Eu estava entediada mesmo... Só acho asqueroso você ficar se esfregando com essa massa mórbida nojenta feita dos restos deles. Vamos embora, ainda há muito o que fazer por aqui.

E os ruídos finais de Matias foram embalados pelas risadas de escárnio das deusas. Estavam apenas começando a experimentar as novas sensações que as mortes e os corpos humanos poderiam lhes proporcionar... E ainda havia uma longa estrada à frente...


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Navegante

Já houve dias de calmaria, dias de tempestade. Já houve uma época que eu nem navegava. Por que raios fui me enfiar neste mar?…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Já houve dias de calmaria, dias de tempestade. Já houve uma época que eu nem navegava. Por que raios fui me enfiar neste mar?

Minha embarcação não está apta para navegar em águas tão inóspitas, as ondas jogam-me pra lá e pra cá, penso em desistir... Não estou acostumada às provas que essa vida náutica me impõe.

Por outro lado, sinto que se não fosse os dias sombrios e devastadores, eu nunca haveria aprendido, eu nunca haveria me tornado perita nesse assunto, são as mazelas que nos transformam em algo superior ao que erámos, nossa evolução de nós mesmos. Isso que importa.

Continuo na esperança de avistar minha ilha perdida, aquela que trará meu refúgio terrestre. Como se todo esse sofrimento fosse recompensado no imediato momento que percebo aquele pedaço de terra, ali, boiando sob uma imensidão de água. Como somos pequenos!

Somos um nada em relação ao tudo, tudo que não consigo entender, tudo o que está lá fora. Se nem consigo entender tudo o que está aqui dentro, ora, que dirá o que rondeia lá fora. Ademais, essa minha cisma de entender o porquê das coisas já passou há muito tempo, porque entendi que entender é nada em relação ao sentir o que preciso sentir. Só não aprendi a ser menos confusa, isso me é quase impossível!

No entanto, há algum tempo já atraquei em uma ilha, muito bonita por sinal, tranquila e inabitada, um paraíso nesta terra. Tinha um ambiente agradável e belezas indescritíveis. Era tanta paz e sossego que me irritou, e não consegui permanecer nem mais um segundo ali. Retornei para o meu mar, agressivo e intempestivo. Eu corri para seus braços de amor, amor que reconheci na hora em que ele começou a me jogar para lá e para cá novamente.

Acho que finalmente entendi o porquê de ter me enfiado neste mar, só acho que não estou preparada para a resposta. Talvez deva permanecer quieta e continuar a manter essa incógnita para mim mesma, talvez eu deva continuar me enganando. Talvez eu deva parar de procurar outra ilha, porque eu pressinto que irei me irritar novamente, porque eu sou assim. Talvez minha felicidade não dependa de um paraíso, mas provenha e necessite do caos. Talvez eu esteja só divagando no nada, talvez eu nem exista. Talvez...


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
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Nas profundezas do azul índigo

Acordou em um sobressalto, o coração anunciando que o perigo estava à espreita. Mais uma vez aquele estranho sonho, pesadelo. Outra vez…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Balanço.
O casco range. Lamento surdo.
Engolida pelas ondas que golpeiam sem trégua.
Um céu cinzento-petróleo pesa sobre o oceano esverdeado, fundindo horizonte e abismo em uma só ameaça.
Não há bússola. Nem norte. Nem voz. Sons confusos, abafados. O bater acelerado dentro do peito e o gosto salgado do medo sobe pela garganta.
O barco, pequeno demais para tanta água, parece hesitar. A cada solavanco, uma parte cede — madeira, sanidade, tempo.
E então, longe, como uma miragem feita de promessas secas, surge ela: uma ilha.
Um recorte de terra firme em meio ao delírio líquido. Um alívio quase terno...

... Que dura pouco.

A embarcação gira de repente, sem lógica ou aviso. Um puxão violento arrasta tudo para o lado, depois para baixo. Bem rápido.
O corpo se solta ou é lançado — pelo que? — e mergulha nas entranhas frias do oceano.

A superfície se afasta, distorcida, irônica.
O som se apaga. Os pulmões imploram por uma trégua.
Braços se movem em vão, como se nadar fosse se lembrar de algo esquecido.

Nada sustenta. Tudo afunda.

E no azul-petróleo que agora é vazio, só resta o silêncio.
Denso.
Infinito.
Infamiliar.

Acordou em um sobressalto, o coração anunciando que o perigo estava à espreita. Mais uma vez aquele estranho sonho, pesadelo. Outra vez atrasada, já não tinha munições em seu arsenal de desculpas, e teria que vestir a face da humildade, quando o supervisor viesse lhe cobrar uma postura “mais profissional”. Engoliu o café e enfiou-se dentro de algo que julgou apropriado, ao menos com as roupas ele não implicava mais. Saiu correndo, voaria se pudesse, ruma à delegacia em que trabalhava como investigadora.

Chegando ao estacionamento do local avistou Gustavo, o supervisor, parado de braços cruzados à porta de entrada, pés batendo em descompasso que denunciavam uma visível irritação. “Merda”, a sessão de lamentações seria iniciada mais cedo hoje.

Parou o carro na vaga mais próxima, respirou fundo, como se a rajada de ar preenchendo os pulmões viessem carregadas de fragmentos de coragem. Mas seguiu firme e de cabeça erguida em direção à entrada e, consequentemente, de Gustavo. Quando foi esboçar um cumprimento foi interrompida por uma saraivada de lamúrias, que por incrível que pareça, não tinham relação com o atraso. O caso era sobre um velho homem maltrapilho, de longa barba e cabelos brancos, igualmente compridos, que fora encontrado no centro da cidade, perdido e com sinais de confusão mental e amnésia, de linguajar, aspecto e vestimentas que pareciam ter saído de um livro do século XVIII.

Sem questionar, pegou os documentos que Gustavo lhe ofereceu, e enquanto o homem continuava falando sem parar, ela questionava-se o porquê ele estava tão inquieto. “Por que um idoso perdido era motivo para tanto alarde?”

— Espera! Deixa ver se eu entendi: você quer que eu interrogue de forma bem incisiva um senhor desaparecido, mas por quê? Por que você o está tratando como um terrorista?

— Desculpa, Fernanda. Eu não te contei a pior parte: ele não estava somente “perdido”, mas carregava uma cabeça de adulto, ainda “fresca”, debaixo do braço... Por isso fomos chamados. Preciso de você para descobrir quem ele é e de onde ele veio... Porque eu sei muito bem para onde ele vai!!!

— Uma cabeça... Como assim...

— Entra lá e arranque essa informação dele. Porque se eu for lá novamente... não sei do que sou capaz!

O balanço, aquele incômodo, novamente surgia, mas agora era o responsável por a conduzir até a sala, que naquele dia parecia preenchida por uma turva força. Iniciou o interrogatório, o olhar do homem era um vazio vítreo na maior parte do tempo, mas em certos momentos poderia afirmar que a encarava como se pudesse ver o que trazia dentro de si.

Foram duas horas tentando obter as informações necessárias para continuarem os processos contra aquele homem, mas o idoso sempre conseguia sair pela tangente, como se adivinhasse a próxima pergunta e armasse as defesas como um habilidoso enxadrista.

Fernanda não sabia mais como abordá-lo e sentia suas forças se esgotarem. Em todos aqueles anos de trabalhos tivera milhares de interrogatórios, até mais longos e tensos, mas que não tiveram um peso tão grande sobre seus ombros. Agora entendia o comportamento de Gustavo, algo naquele senhor estava muito errado, — além do fato de estar perambulando pela cidade com uma cabeça humana —, algo inominável e ainda mais intrigante.

Quando pensou em desistir e sair da sala, o homem começou a proferir palavras ritmadas, como um cântico sombrio que a hipnotizou:

Tudo balança, tudo range,
no ventre do mar sem margem.
Azul-petróleo, verde em pranto,
sufoca o céu em seu manto.

Promessa de terra à distância,
miragem feita de esperança.
Mas o casco gira, trai,
e o corpo, ao fundo, cai.

Braços gritam, nada escuta,
a água abraça e transborda a luta.
Silêncio espesso, fim sem chão —
o mar consola como prisão.

Afunda o fôlego, apaga a luz,
e o azul, agora, tudo conduz.
No fundo, onde o tempo é vão,
bate um coração…
e depois, não.

Permaneceu inerte. O som daqueles versos sibilantes causara um pavor similar aos pesadelos recorrentes. Era o mesmo clima soturno, desespero irrefreável e estado incompreensível. O homem já não tinha o olhar vazio, mas aqueles glóbulos pareciam agora preenchidos de uma insinuação astuta. Ele sabia, sim ele sabia dos pesadelos e por isso deliciava-se com a reação da moça.

— Reconheço bem esse olhar... Nos primeiros tempos, o medo é o único camarada. Chamo-me Allant Elirrahz, e outrora julgava-me sabedor de todos os segredos que as entranhas do grande oceano ocultavam. Mas então surgiu ela... uma ilha, formosa como o canto das sereias, que se revelou ser mais do que simples terra firme sobre as ondas...

O tempo dissolveu-se em minúsculos pixels, tudo tornado pó tingido de azul índigo — a mesma cor das criaturas emergidas dos orifícios daquele homem. Tentáculos sinuosos rasgaram o ar, avançando em todas as direções com uma precisão austera e inevitável.

Não houve luta. Não houve salvação.

Um a um todos os presentes foram tragados, arrancados de sua realidade e lançados em outras dimensões fragmentadas — cada qual aprisionado em uma era, um planeta, um tempo diferente, sob o domínio absoluto daquele ser.

Ainda não sabiam, mas o mundo havia sido engolido.

Ficariam submersos para sempre nas águas daquela entidade — onde o tempo não passa. Apenas escorre, afoga. Balança.


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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8 – Limiar azulado: paisagens de melancolia e (des)conforto

Encarei o vazio nos olhos do abismo, | onde a flama ardia como lava do vulcão à beira da eclosão…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Encarei o vazio nos olhos do abismo,
onde a flama ardia como lava do vulcão à beira da eclosão.
Das profundezas aspergia luzes vívidas, azul-amarelada.
Da sua fluorescência emanava uma força primal, feroz.
Era aterrador, ao passo que hipnotizante.
Contra todas as probabilidades, sobrevivi.

A tela clamava por mais pinceladas, entretanto, receberia meus dedos: os enfiei nos tubos de tintas e desafiei o acaso — o que surgiria daquela confusão pictórica dependia exclusivamente dele! — Se ele sabia jogar, eu também sabia.
Aos poucos as cores daquele psicodélico amálgama disforme convergiram para uma única: “azul”, esta, acompanhada de todas as nuances possíveis associadas a ela: bebê, gelo, celeste, água, cobalto, marinho, petróleo, turquesa, índigo, acinzentado... O véu estrelado cobria meus pensamentos na noite vazia, e sozinha, continuei naquele transe criativo.

Como as memórias puderam se transformar de maneira tão brusca?
Prazer. Sofrimento. Contentamento. Desilusão.
Concluí que minhas emoções eram tão instáveis, melhor não tentar explicá-las.

Estava em estado criativo, mas essa singular interação e sucessão de coisas desconexas não seria uma espécie de loucura? As coisas ocultas em meu inconsciente não estavam rebelando-se, e com isso, ganhando vida na tela? No inglês o azul é associado à melancolia, na colorimetria ao conforto.
Fui invadida por esses pensamentos, mas o que diabos isso quer dizer?

É um teste? eu não sei. Mas posso afirmar que o inferno não é metafísico e nem “os outros”. Poderia ser nós — em mim habitam demônios demais, tantos que já não tenho tempo para me preocupar com os de fora —, mas o inferno é essa vida cotidiana, que escoa por nossos dedos, enfiando-se em lugares ocultos, sem pedir permissão, como um verme que a tudo corrói. Sem piedade. Sem distinção. Sem pudor.

Sob efeitos desses pensamentos e possuída por uma ânsia de fazer emergir “aquilo” que ainda não sei nomear, continuei...

Durante a fase mais conturbada da minha vida — acredite, houve uma época em que tudo era pior e eu quase sucumbi —, procurava com afinco tentar entender os mistérios da mente.
Devorei livros de filosofia e psicologia, contudo, aquelas palavras pareciam confirmar as minhas suspeitas de que nada fazia sentido.

Para quê continuar?

Em nenhum momento aqueles escritos declararam isso, mas em meio à desesperança os olhos são conduzidos por um caminho tortuoso, e como eu era vulnerável, acreditei nessa mentira autoimposta! Durante um bom tempo... Longo tempo...

Mais tons de azul surgiram na tela... Tantos que nem sei mais como nomear...
Melancolia e conforto. Conforto de menos, melancolia demais.
Eram nuvens? Besteira, nuvens não são azuis! Eram similares a bolinhas de algodão-doce azuladas, mas quando abocanhei uma porção o gosto era amargo.

Então, naquela época — a tal época mais difícil da minha vida —, embrenhei-me na arte: das palavras e das tintas. Como sabes, minhas obras sempre foram repletas de formas sombrias e que evidenciam os tormentos de uma alma que não descansa, mas essa é a minha verdade, e como não consigo ser diferente, sigo evocando esses seres que aprisionam eu dentro de mim.

E encerro essa divagação — não ouso dizer que é um relato —, confessando que foi naquele tempo, entre sombras espectrais e silêncio perfurante, que percebi: há um consolo estranho na melancolia, desde que eu tenha forças para moldá-la em criação.
Uma obra é uma catarse.

É por isso que escrevo.
É por isso que pinto.

O inferno, às vezes, pode vir em tons de azul — melancólico, sereno, quase acolhedor.
Mas se será amargo ou doce...
Só você poderá dizer. 

As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Capítulo 7: Coelhinho... O que fazes de mim?

A escuridão daquela noite me envolvia tal qual um abraço mortal, expulsando qualquer vestígio de sono. Desci em busca de um alívio…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A escuridão daquela noite me envolvia tal qual um abraço mortal, expulsando qualquer vestígio de sono. Desci em busca de um alívio, algo que me concedesse descanso. Na penumbra da cozinha, encontrei Ameritt — com seu olhar indecifrável e mãos delicadas preparando um chá. Ofereceu-me uma dose. Aceitei a oferenda sem hesitar. 

Mas, ao invés de conforto, cada gole parecia arrastar minha alma ainda mais fundo na tormenta. Sequer sei se era ela ou se pretendia causar mais sofrimento… só sei que aquele chá não trouxe paz alguma. 

*** 

Me vi observando alguns moradores de uma terra longínqua, seres interessantes e carismáticos. Muitos possuíam uma sensibilidade e melancolia sutil, que lhes conferia um aspecto pueril e misterioso. 

O fato é que não sei precisar se sonhei ou vivenciei aquelas cenas... Mas a essa altura da história, achas mesmo que isso seja relevante? 

Eram criaturas vivazes, pareciam estar se preparando para alguma festividade. Depois confirmei minhas suspeitas: realmente estavam às vésperas de um festival importante para a Cultura deles chamado Aesttera. 

Acompanhei em simultâneo o preparo do banquete e das vestimentas, como se estivesse fragmentada e pudesse estar onipresente em diversas cenas. O salão do banquete estava repleto de bandejas e copos com formatos peculiares, frutas secas dispostas em uma mesa vasta e havia jarras e jarras preenchidas com um líquido espesso da cor de um vinho bordô. As vestimentas eram semelhantes às roupas de época, como se eu tivesse sido transportado para algum momento importante do século XVII. 

As crianças, risonhas e ávidas por aventuras, divertiam-se com um objeto oval. Depois, compreendi ser uma flor, cujas pétalas eram retiradas uma a uma por diferentes crianças, sempre passando para a próxima a cada retirada. Parecia uma roleta-russa com objetivo menos mórbido, mas igualmente estranho. Creio que o intuito era descobrir algo no interior dela, mas não pude compreender o quê. O que havia dentro daquela flor peculiar? 

Foi quando o senti

Deslizando sob aquela população excêntrica, percebi a presença de um coelho humanoide, de pelos negros e olhos de um vermelho neon intenso. Foi o único que me viu — não apenas olhou, mas viu. Seu olhar inquisidor parecia desnudar os recônditos da minha alma e, por um instante, me senti indefesa de novo, como se estivesse em um lugar inóspito, além daquele festival. Não ousei dirigir-lhe a palavra. Algo dentro de mim sussurrava que ele já sabia tudo sobre mim. 

A névoa densa na mente obscureceu minha visão por um tempo, e quando recuperei o foco, ele estava mais perto. Muito mais perto. Seu sorriso, largo e imóvel, era mais do que uma expressão impassível — era uma fenda pictórica escancarada na própria realidade. Ele ria de mim? Seus dedos longos e rígidos tilintavam ao menor movimento, e só então percebi a horrível verdade: Seus membros eram feitos de ossos humanos, meticulosamente montados, encaixados e articulados como se tivessem sido esculpidos para ele. Seu tórax era uma jaula de costelas humanas, entrelaçadas como grades, e dentro dela algo pulsava, algo que não era dele. Algo vivo. Algo humano. Algo que me olhava de volta. Era eu.  

Quis correr. Juro que tentei. 

Mas, quando dei o primeiro passo para trás, ele sorriu ainda mais. E dessa vez, o sorriso não estava apenas no rosto. 

Estava em todos os lugares. 

Me invadindo. 

Me modelando. 

Descontruindo em 

Fragmentos que não se pode reaver. 

Acordei(?). Me vi no meu quarto no Castelo Drácula, só podia ser um sonho. Não é?! Olhos amarelos vieram cautelosos em minha direção e, quando pensei em gritar, reconheci Lisa, que me olhava assustada, como se soubesse dos flagelos que passei. 

*** 

Os olhos vermelhos luminosos daquela criatura infernal ainda me observam, persistentes, assombrando não só minhas noites, mas também meus dias. Nunca se aproxima, apenas espreita, sempre à espreita. 

Ouço o bater do coração dele — que é o meu rosto — os ossos fazem sons como se rangidos de dentes ferozes estraçalhassem uma presa. 

Eu não devia ter tomado aquele chá de maçã. Havia algo nele… algo além do doce aconchegante, algo oculto sob o sabor acolhedor. Algo que agora me consome! 

E desde então não encontrei mais a Ameritt. Era mesmo ela?!!! 

As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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