Escreva o que viu, tanto as coisas que estão acontecendo agora como as que acontecerão depois

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava que para essas necessidades básicas alguém ou algo teria que nos permitir sentir. O azul em volta começava a morrer, aquele brilho bioluminescente antes azulado e espectral, começou lentamente a adquirir tons de um púrpura profundo e pesado como hematomas surgindo sob a pele. O vento estava diferente, mais denso e úmido; as flores também mudaram, já não tinham rostos chorando sangue, agora no centro de cada pétala translúcida, havia um único olho imóvel, cercado por dedos cadavéricos que brotavam da própria estrutura da flor, as unhas negras arranhavam as pétalas lentamente, produzindo um som baixo e seco, como o som de uma boca faminta triturando ossos. Uma delas me observou quando passamos, a pupila acompanhando o nosso movimento e então piscou e me senti enjoada, pois era como se o ar tivesse adquirido um sabor metálico e sufocante e cada respiração parecia mais pesada que a anterior e minha garganta apertava, como se tivesse uma corda invisível sendo ajustada bem devagar ao redor do meu pescoço. Mara percebeu.

— Você está pálida.

— Tem alguma coisa errada no ar. — eu disse

— Tem alguma coisa errada em tudo nesse lugar.

Continuamos andando pelas margens enquanto a noite se aprofundava, então ouvi o som agudo, contínuo e distante, levei as mãos ao ouvido.

— Você está ouvindo isso? — perguntei.

Mara franziu a testa.

— O quê?

O pingente queimou contra minha pele e a névoa escarlate voltou — o mundo desapareceu num único instante. O cheiro de sangue era mais forte agora; não era fresco, era antigo, oxidado, preso em ferrugem. No centro daquela vastidão vermelha havia apenas uma escrivaninha de madeira escura, coberta de sangue e nada mais — nenhuma parede, nem chão, nem céu —, apenas a escrivaninha naquele vazio vermelho, e sobre ela papéis, muitos deles, empilhados, encharcados, escritos numa caligrafia que eu conhecia, pois era a minha. Meu estômago afundou, o som agudo aumentou, senti a corda invisível se apertar mais em meu pescoço. Havia alguém sentado atrás da escrivaninha, mas a névoa vermelha não permitia que eu visse seu rosto — apenas as mãos, longas e pálidas, imóveis sobre os papéis ensanguentados. A figura começou a se erguer e a visão terminou.

Voltei ao mundo cambaleando e caí de joelhos na areia fria das dunas. Vomitei — o gosto era de ferro puro.

Mara segurou meus ombros.

— Você está bem?

Não consegui responder. Ao longe, no topo de uma duna, vi o homem do sorriso largo — de costas, com seu manto negro ondulando no vento — e ao lado dele, a criança.

— Ali — murmurei.

Mara virou, mas não havia mais ninguém. Eles tinham desaparecido. O zumbido ainda continuava no fundo da minha cabeça quando percebemos as borboletas — primeiro uma, e depois dezenas. Elas deslizavam pelo ar com leves bater de asas que pareciam veludo negro. Cada uma possuía um pequeno crânio no dorso, com órbitas vazias e mandíbula serrilhada — belas de um jeito fantástico. Elas começaram a pousar nas flores, e os olhos das flores acompanharam o movimento dos insetos como animais submissos diante de predadores muito maiores. Uma das borboletas pousou no meu ombro e se aproximou lentamente do meu pescoço — exatamente onde o pingente repousava.

E então recuou. Mara puxou-me para trás.

— Não toque nelas.

— Mas eu não toquei.

As cavidades vazias do pequeno crânio no seu dorso estavam voltadas para mim, como se me olhassem. Então Mara me contou uma das lendas que ouviu sussurradas pela Ordem:

— Dizem que as Umbravola Nigrescens caçam pessoas que já começaram a pertencer a outro lugar. Quando não as encontram, esperam que alguém as toque para que possam pertencer. E quando passam a seguir essas pessoas, significa que algo do outro lado já as reconheceu — e agora as espera.

Estremeci. Desde que aceitei a joia, comecei a ter pensamentos sem sentido: que ela me protegia de algo para que eu pudesse voltar ao castelo, que era ela que me orientaria pelo caminho certo — e um deles, um tanto louco, era que talvez a joia não estivesse tentando me mostrar o que estava por vir, mas quem estava escrevendo essa história. Que talvez alguém me reescrevesse. Teorias demais para uma mente já desequilibrada. A noite continuava mudando; o púrpura do céu parecia uma doença se espalhando pelo horizonte. As águas já não brilhavam com bioluminescência natural. Cinzas negras começaram a cair do céu — densas e oleosas —, e quando uma delas pousou sobre minha mão, senti o cheiro de ferrugem úmida e algo doce escondido no fundo.

Mara percebeu meu rosto mudar.

— Não respire muito fundo.

Tarde demais. O odor parecia entrar direto na cabeça; sussurros indistintos vinham do vento, como centenas de pessoas falando num lugar pequeno e fechado. O céu estava completamente coberto — nenhuma estrela, nem lua, só nuvens violetas e aquela chuva lenta de cinzas. O lugar inteiro parecia um pesadelo tentando ganhar vida. As borboletas continuavam espalhadas, mas agora os dedos cadavéricos ao redor de seus olhos se moviam mais rápido e arranhavam as pétalas com nervosismo; algumas flores viraram o olhar para o céu escuro como se esperassem algo descer. Então ouvimos o grito — um rasgo: o som atravessou a noite como tecido sendo aberto por garras. Meu peito apertou tão forte que perdi o equilíbrio. As borboletas que voavam por perto sumiram imediatamente na escuridão. Mara levou a mão à adaga.

— O que foi isso?

O silêncio depois do grito foi pior, porque o mundo pareceu parar. Então a vimos: ela surgiu pousada sobre uma rocha negra próxima — grande e branca, sua plumagem reluzia sob a luz púrpura do rio. Os olhos âmbar eram imóveis e inteligentes. Uma criatura humanoide como uma coruja rasga-mortalha, de corpo feminino; ela inclinou a cabeça devagar. Era alta e magra, vestida com tecidos escuros. Nos observou por um longo tempo antes de começar a falar.

— O cheiro da morte repousa sobre vocês.

Sua voz era grave e calma, mas carregava algo de não humano em cada sílaba — pausas longas entre as palavras, como se falar fosse uma adaptação ainda incompleta. Mara manteve a adaga apontada.

— Quem é você?

A mulher-coruja inclinou a cabeça bem devagar.

— Suinddáremis Mortállida.

Ela aproximou-se devagar, seu caminhar era silencioso quase sem peso.

— A noite lhes observa há algum tempo.

O vento soprou cinzas negras entre nós, quando Suinddáremis olhou diretamente para mim, senti imediatamente aquela sensação horrível dentro do crânio das memórias se movendo e ela percebeu, claro que percebeu.

— Você carrega os mortos.

Minhas mãos gelaram.

— E o que isso significa?

Um longo silêncio e ela ergueu bem devagar os olhos para o céu púrpura.

— Memórias são cadáveres incompletos.

As palavras dela eram simples, mas para mim incompreensíveis.

Mara respirou fundo.

— Você sabe algo sobre isso?

Ela continuou olhando para o céu.

— O Castelo está sonhando mais profundamente agora.

Ela se aproximou.

— Aquilo que a observa começa a desejar ser observado de volta.

O zumbido agudo reapareceu imediatamente na minha cabeça, mais forte e meu enjoo retornou, Suinddáremis virou-se para mim de maneira abrupta, os olhos âmbar dilataram e então ela gritou. O som foi insuportável, não parecia vir apenas da garganta dela, atravessava meu crânio com violência. Um berro estridente, dilacerante, tal como uma mortalha sendo rasgada dentro de, talvez, a minha futura tumba; as dunas responderam, as flores fecharam seus olhos, e atrás de mim uma porta apareceu, uma porta alta, antiga, feita de madeira púrpura apodrecida e adornada com detalhes dourados corroídos pelo tempo. O cheiro vindo dela era nauseante de morte antiga, Suinddáremis respirava pesadamente agora, como se o grito a tivesse cansado.

— A porta abriu.

— Para onde exatamente? — perguntou Mara.

A mulher-coruja nos encarou longamente e pela primeira vez sua voz vacilou.

— Para aquilo que deveria permanecer adormecido.

Então seus olhos pousaram no meu pingente e ela sussurrou algo numa língua que não reconheci, mas uma palavra atravessou perfeitamente aquela fala incompreensível: “escrivaninha”. Meu sangue gelou, pois tinha medo de que o que me esperava naquele lugar, sentada naquela escrivaninha fosse algo que talvez eu não pudesse suportar e talvez aquela coisa estivesse esperando que eu me sentasse diante dela.

Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

Leituras recomendadas para você:
Anterior
Anterior

Necrose

Próximo
Próximo

⚜ Lástima d’estes Tempos | Poema Morlírico de Angústia Existencial