A Queda de Asmodeus
Algum tempo antes de se tornar demônio, Asmodeus foi homem. Rei de Sodoma e de Gomorra, senhor absoluto das cidades gêmeas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Algum tempo antes de se tornar demônio, Asmodeus foi homem. Rei de Sodoma e de Gomorra, senhor absoluto das cidades gêmeas, cuja opulência rivalizava com os próprios palácios celestiais.
Nascido de ventre nobre, Asmodeus era belo, inteligente e dotado de uma voz que dobrava vontades como o ferro ao fogo. Sob sua liderança, as cidades floresceram, mas não pela justiça e, sim, pela transgressão. Ele compreendeu cedo que o coração humano ansiava mais pelo prazer do que pela virtude, mais pelo caos do que pela ordem.
Ergueu templos onde a carne era louvada, onde o vinho corria mais que a água e onde os juramentos se quebravam como ramos secos sob o peso da luxúria. Criou leis que celebravam o excesso e puniam a piedade. Fez-se adorado como um deus, e por sua ordem, todos os cultos a Yahweh foram banidos.
Asmodeus acreditava ter vencido os céus. Mas Yahweh o observava.
Foi então que três viajantes chegaram aos portões de Sodoma. Vestiam-se como andarilhos comuns, cobertos de poeira e luz. Mas seus olhos brilhavam com uma intensidade que denunciava o eterno por trás da carne. Eram eles: Miguel, o Guerreiro; Gabriel, o Mensageiro; e Rafael, o Curador.
Foram conduzidos ao palácio sob ordem do próprio rei — curioso com aqueles que ousavam atravessar as terras de Sodoma sem temor ou reverência.
No salão de colunas de mármore e tapeçarias carmesim, Asmodeus os recebeu questionador em seu trono elevado. Seu sorriso era cético. Seus olhos, provocadores:
— Dizei, estrangeiros — disse o rei —, que deus vos envia a este lugar que os céus esqueceram?
Miguel falou primeiro, com voz grave como o trovão:
— Não é o céu que esqueceu Sodoma. Foi Sodoma que cuspiu no céu.
Gabriel avançou, dizendo:
— Yahweh nos envia e trazemos uma advertência, ó rei de prazeres. O tempo do juízo se aproxima. Ainda tens escolha. Ainda podes deter o caos.
Rafael, com compaixão nos olhos, completou:
— Abandona teus ídolos. Rejeita tua vaidade. Liberta teu povo do culto à carne. Yahweh é justo e também misericordioso.
Asmodeus levantou-se. Por um instante, o salão silenciou. Mesmo os nobres decadentes que o cercavam sentiram a tensão. Ele então proferiu:
— Misericórdia? E que misericórdia há em um deus que castiga por amor livre, por desejos naturais, por homens que recusam a culpa?
Miguel estreitou os olhos:
— Não é o desejo que condena. É a perversão do sagrado. Tu criaste uma nação sem alma.
Asmodeus, já inflamado, disse:
— Alma? A alma é uma corrente forjada pelos fracos! Eu dei liberdade a este povo. Transformei o sofrimento em prazer. Queimem os céus, se quiserem, Sodoma não se curvará!
Então Gabriel pronunciou a sentença:
— Assim será. Que teu nome se consuma com tuas cidades, a menos que te arrependas — agora. Esta é a última palavra.
Mas Asmodeus os expulsou do palácio. Ordenou que fossem perseguidos pelas ruas, humilhados, feridos — mas os anjos desapareceram diante dos olhos dos soldados, como se nunca tivessem pisado ali.
Naquela noite, o céu abriu-se com rugidos antigos. Fogo e enxofre começaram a cair como estrelas em fúria. Os templos desabaram. Os gritos de prazer viraram gritos de pavor.
Asmodeus, em sua torre, viu tudo ruir. Correu até o topo, gritou aos céus, não por arrependimento, mas por orgulho ferido:
— Maldito sejas, Yahweh! Se me negas tua criação, então que o abismo me aceite!
E o abismo respondeu. Asmodeus olhou para a escuridão, e dela surgiu Lúcifer.
O Portador da Luz estendeu a mão, e com ela fizera um pacto; poder eterno em troca da alma. Um novo trono — não entre os homens, mas entre os condenados.
Asmodeus, à beira do fim, sorriu. Aceitou.
Seu corpo mortal foi consumido pelo fogo de Yahweh, mas sua essência foi arrancada antes da destruição total. Levado por Lúcifer às profundezas do inferno, renasceu como demônio. Seus olhos, antes humanos, tornaram-se brasas eternas. Sua voz, agora, seduzia até os anjos caídos. E seu nome ecoou entre os salões do Inferno como um novo Príncipe.
Asmodeus, o Rei das Cidades Perdidas. O Patrono da Luxúria. O que desafiou Deus. E sobreviveu.
Desde então, cada vez que a vaidade de um homem desafia o céu, quando um líder usa seu povo como espelho de sua própria decadência, Asmodeus sorri do fundo do abismo, recordando-se do trono que perdeu. E do inferno que ganhou.
Thais Gomes
Thais Gomes é apaixonada pelo universo Gótico da Literatura, sua formação é em Letras Português/Espanhol e sua obra mais recente, ainda está sendo produzida, é Contos Vampirescos, uma releitura de muitos personagens do Drácula de Bram Stoker. Inspirada em clássicos como Edgar Allan Poe, Lord Byron, Álvares de Azevedo, e contemporâneos como André Vianco e Eduardo Spör; a autora explora o universo da literatura... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Draco Mater
Na antiga Mesopotâmia, o caos foi teu primor, | Geraste o céu, a terra e os dragões, | Em águas profundas pulsava teu fulgor, | Semente eterna de revoluções…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Na antiga Mesopotâmia, o caos foi teu primor,
Geraste o céu, a terra e os dragões,
Em águas profundas pulsava teu fulgor,
Semente eterna de revoluções.
Com fúria mãe, ergueu-te em tempestade,
Por filhos traídos, juraste o trovão;
Teu corpo vasto, cosmos na verdade,
Vibrou com o grito da criação.
Marduk, com vento e rede, te venceu,
Partiu-te em céu e mar, em noite e dia.
Mas tua essência em tudo permaneceu,
No sopro antigo, a voz da rebeldia.
Tiamat vive em cada insurreição:
Dragão sem jaula, eterna maldição.
Thais Gomes
Thais Gomes é apaixonada pelo universo Gótico da Literatura, sua formação é em Letras Português/Espanhol e sua obra mais recente, ainda está sendo produzida, é Contos Vampirescos, uma releitura de muitos personagens do Drácula de Bram Stoker. Inspirada em clássicos como Edgar Allan Poe, Lord Byron, Álvares de Azevedo, e contemporâneos como André Vianco e Eduardo Spör; a autora explora o universo da literatura... » leia mais
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Gênesis II
Após ler e discernir melhor sobre a suposta origem do que sou hoje, tomei fôlego e segui adiante em mais um capítulo do livro de capa de dragão…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Após ler e discernir melhor sobre a suposta origem do que sou hoje, tomei fôlego e segui adiante em mais um capítulo do livro de capa de dragão; este capítulo se intitulava “Caim Magnus”. Era mais uma narrativa de Igor Dracul sobre o que acontecera com Vlad após o encontro com o vulto grotesco na alcova.
Caim Magnus
Após os muitos dias e muitas noites em que Vlad Tepes havia estado trancafiado no intento que tivesse boa recuperação, ele se levantara no décimo quarto dia com um vigor como se nunca houvesse ficado acamado e beirando à morte. Ele mandara me chamar através de um dos criados de seu Castelo e prontamente eu adentrara seu quarto a fim de atender prontamente ao chamado do meu Senhor. Vlad ainda permanecia com a aparência pálida, tal qual um cadáver. O primeiro pedido que ele me fizera era para ajudar a enterrar o corpo de um moribundo que estava escondido dentro do seu guarda-roupas; ele pedira ao criado que fora me chamar no meio da madrugada do dia anterior, para que trouxesse um dos presos turcos que se encontravam na prisão local de guerra, que se localizava dentro do castelo, e fizera do homem sua primeira refeição. O cadáver se encontrava murcho; talvez o homem fosse mais alto ou mais gordo do que o estado ao qual se encontrava no post mortem. Estarrecido, não sabia por onde começar a perguntar ao meu Senhor o que acontecera afinal na noite passada, e ele já presumindo que isso fosse acontecer, não me deu tempo para pensar muito; me pediu para ajudá-lo a enterrar o corpo no terreno ao lado do castelo. Após voltar para o seu quarto, Tepes me entregara em mãos este livro que escrevo (e, antes que alguém — que possa estar lendo — questione, as páginas do capítulo anterior foram adicionadas posteriormente. Note a costura da folha em cor diferente do resto das páginas originais que vieram no miolo deste livro), para que deixasse o registro por escrito sobre o que acontecera na fatídica noite em que ele e Mihnea estiveram na alcova.
O Conde me confessara que, durante os dias em que se encontrava em coma, a criatura que lhe sorvera o sangue e as forças naquela noite, fizera uma espécie de contato mental. A partir deste contato telepático, a criatura tenebrosa contara sua história e o porquê de ter escolhido Vlad para passar tamanha maldição que lhe pertencia adiante. Dos diálogos que Vlad me fizera registrar aqui, iniciarei com o mais marcante:
— Sua alma é minha, e, em troca de poder, você agora é das trevas.
Segundo Tepes, após ter caído ao chão, imediatamente o ser maligno se conectou com sua mente continuando o diálogo:
— És meu filho e Dela. És a ponte entre o esquecimento e o renascimento. Teu sangue clama pelo abismo, e o abismo respondeu.
E sem resposta de Vlad, que se mantinha em silêncio, a fim de manter sua vida e um pouco da sanidade preservada, o monstro então continuava a contar sua saga:
— Após milênios caminhando entre os mortais e vendo os Primevos corromperem minha maldição, enfraquecido pela tristeza e pela sede de um silêncio eterno, me retirei do mundo. Meus últimos seguidores, pertencentes a uma seita esquecida, selaram meu corpo adormecido em um caixão de ébano, cravejado com símbolos sumérios e hebraicos, banhado em prata lunar, e me carregaram pelo deserto e pelas montanhas do Império Turco-Otomano, buscando o local mais distante da luz — a sua terra Natal: A Valáquia. Ali, entre as florestas antigas e as fortalezas de pedra, eles me enterraram em uma cripta sob o solo amaldiçoado, confiando que o mundo me esqueceria…
Vlad, ainda incrédulo com a história que a criatura lhe contava, tentava se manter mentalmente em silêncio, porém o vulto continuava a narrar sua crônica pessoal:
— Séculos se passaram e chegamos ao século XV. O conflito entre o Império Otomano e a resistência valaquiana atingiu níveis épicos. Você, jovem príncipe Vlad Tepes, cruel estrategista e herdeiro de uma linhagem marcada por sangue e pacto, enfrentou o avanço turco com uma brutalidade que faria até os demônios hesitarem. Em uma batalha particularmente sangrenta, milhares morreram sobre a colina onde eu jazia. O sangue dos mortos da batalha penetrou a terra. O solo gritou. E eu despertei.
Tepes gritou mentalmente com o vulto:
— Você está louco!
O espectro continuou a dialogar:
— Você é feito de medo, homem. Mas aprendeu a usá-lo. É morte vestida de carne. E ainda assim… está vivo.
O Conde passa a encarar o vulto com desdém:
— Vivo o bastante para ver os deuses calarem. E você? Que abismo o pariu?
O monstro se dirige a Vlad, ainda sem hostilidade:
— O abismo é meu espelho. Eu fui o primeiro a matar. O primeiro a ser amaldiçoado.
E você… É meu reflexo quebrado.
Vlad, com certo receio, afirma:
— Você é Caim. O mito… a maldição viva.
A criatura sorri com melancolia e responde:
— Não mito. Não lenda. Apenas memória rejeitada. E você, Vlad, é mais do que príncipe. Tem olhos de condenado… Mas sua alma se recusa a morrer.
Vlad, ainda temeroso, responde:
— Já enterrei todos os deuses em que acreditei. Não procuro redenção.
Caim então retruca:
— Nem eu ofereço. Mas vejo em você a mesma fome que Yahweh não soube curar.
Lilith lhe sussurrou, não foi?
Tepes, então surpreso, respondeu:*
— Como sabes desse nome?
O espectro demoníaco interpelou:*
— Porque ela foi minha mestra. E agora, sussurra a você como sussurrou a mim.
Entenda, você não é um homem comum. É o elo perdido… é o filho que o tempo prometeu.
Vlad questiona, seriamente, firme:*
— E o que você quer de mim?
Caim responde:
— Nada. Mas o mundo… o mundo vai desejar seu sangue. E eu? Eu vim apenas ver o que a dor esculpiu em meu nome…
Lilith - A Deusa Negra
Vlad permaneceu em silêncio, como se paralisado por uma visão maior. Por meio do uso de magia, Caim, como testemunha de um tempo anterior ao tempo, mudara o cenário na mente de Tepes.
Com a voz solene, quase que religiosa, o Amaldiçoado disse:
— Antes do Éden. Antes de a terra ser dividida, ela caminhava entre os Deuses. Lilith… filha de Anu, o Senhor dos Céus. Irmã das estrelas, mãe das serpentes, Centelha viva do abismo primordial. Mas Yahweh, o ciumento, quis moldar o mundo à sua imagem. Roubo disfarçado de criação. E aprisionou Lilith em carne… E transformou Deusa em mulher.
A visão se forma na mente de Vlad: Lilith, resplandecente e imortal, envolta em luzes negras, é arrastada ao barro e moldada como esposa. Ela se ergue no Éden ao lado de Adão, mas seus olhos jamais se curvaram.
O espectro grotesco continuara a narrativa:
— Ele a deu a Adão como prêmio. Mas ela não se dobrou. Ela não nasceu da costela. Ela era anterior a ele. E então Lilith disse:
— Não fui feita para me deitar abaixo do pó, nem para que o barro me comande. Sou anterior à tua imagem, Yahweh. Eu me recuso.
Caim tomara para si a crônica e continuara:
— E foi expulsa, expulsa do Éden, da luz, da memória dos homens. Mas, ao cair… ela não quebrou. Ela despertou.
Em seguida, projetada na mente de Tepes, apareceu a imagem de Lilith em exílio, nua sobre a areia escaldante do mundo antes dos homens. Porém, ao invés de definhar, ela se ergueu em fúria. O sangue dos deuses voltou a queimar nela. Os pássaros caíram do céu. As águas se agitaram, a terra se contorceu.
Caim retomara a narrativa:
— Quando o silêncio dos céus tentou esquecê-la, ela gritou. E o grito rasgou o véu entre os mundos.
Em seguida, Tepes teve a visão de Lilith erguendo os braços. Atrás dela, havia um eclipse. A lua sangrou. Sua voz subiu aos céus, amaldiçoando o trono divino.
Lilith interpelou em tom desafiante:
— Ó Yahweh, você que criou o homem do barro e se envaideceu… Um dos seus filhos se voltará contra você, e dele nascerá uma prole que não morrerá. Sede será seu nome e sangue será sua língua. Eles não adorarão sua luz, eles andarão pela noite; minha herança. E lembrarão que eu fui a primeira a dizer não.
A visão de Vlad se quebrara. Caim estava de joelhos, como quem reviveu um trauma antigo. Vlad o encarou em silêncio, olhos arregalados, e afirmou:
— Você é a praga viva, Caim. O cumprimento da maldição.
Caim respondera sussurrando:
— Eu sou a lâmina da promessa, o filho do pó que ousou erguer-se contra o céu. Ela me fez como resposta ao castigo. E agora, Vlad… você é o próximo capítulo.
E então eu percebi que havia adormecido em parte da narrativa de outro capítulo do livro de capa de dragão, e já não sabia distinguir o que fora escrito e o que fora sonhado. Mas em mim havia a certeza de que algo havia despertado: a chama viva primordial de Lilith.
Thais Gomes
Thais Gomes é apaixonada pelo universo Gótico da Literatura, sua formação é em Letras Português/Espanhol e sua obra mais recente, ainda está sendo produzida, é Contos Vampirescos, uma releitura de muitos personagens do Drácula de Bram Stoker. Inspirada em clássicos como Edgar Allan Poe, Lord Byron, Álvares de Azevedo, e contemporâneos como André Vianco e Eduardo Spör; a autora explora o universo da literatura... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Gênesis I
Segui as noites na companhia de Ameritt, sempre auxiliando em tudo que ela precisasse que fosse feito para abastecer e alimentar os hóspedes do castelo…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Segui as noites na companhia de Ameritt, sempre auxiliando em tudo que ela precisasse que fosse feito para abastecer e alimentar os hóspedes do castelo. A quantidade de alimento — na maior parte das vezes o caldo esverdeado — era sazonal. O caldo vermelho normalmente era preparado em uma panela média, duas vezes ao dia. Certamente, além de mim e do homem de cabelos negros, eu não sabia ao certo quantos mais se alimentavam daquilo, pois tão pouco eu tinha acesso aos outros andares do castelo e não conhecia os outros que habitavam por ali. Por um médio período, que já não sei precisar, minhas únicas funções eram preparar a comida, ler pergaminhos em outros idiomas, entender a fisiologia e os componentes que formavam os insetos servidos no caldo esverdeado.
Certa vez, antes de ir até a câmara mais isolada do porão do castelo, onde haviam alocado meu caixão, senti uma forte curiosidade em adentrar uma das câmaras que ficavam entre a cozinha-laboratório de Ameritt e minha câmara isolada; algo me instigava a entrar ali. Por duas vezes, antes de ir dormir, pouco antes que chegasse o amanhecer, me vi tentado a abrir o tal aposento, até que, na terceira vez, não resisti e proferi as palavras: “Apertum Loculum”, a fim de tentar abrir a porta local. Para minha grande surpresa, a porta se abriu, e eu me vi sem reação; já não sabia se deveria entrar no local ou fugir dali, intuindo que poderia ser perigoso estar em uma câmara que vivia trancafiada.
Naquele momento, minha curiosidade havia me vencido, e eu, por fim, adentrei a câmara. Era um cômodo completamente diferente dos que eu já havia tido acesso dentro do castelo; eu estava dentro de uma espécie de biblioteca que reunia diversos pergaminhos e livros, e a dimensão daquela habitação nem se comparava com a biblioteca que havia no navio, nem com a minibiblioteca onde eu estudava latim, grego e a anatomia dos insetos — que era anexa à cozinha-laboratório de Ameritt —, pois era muito maior.
Dentre os muitos livros que a biblioteca possuía, um em específico, de capa dura na cor cinza escuro, quase preto, com um dragão vermelho como símbolo na capa e com mais de quinhentas páginas, me chamou muita atenção. No canto direito, havia escrito: Genesis. O livro não quis se abrir por vontade própria; tive que mencionar “Apertum Loculum” para conseguir acessá-lo. Assim que a primeira página se abriu, percebi que ali se identificava um mapa; ao lê-lo, consegui reconhecer as regiões com os nomes: Transilvânia, Valáquia e Moldávia. A região da Moldávia parecia ter uma cor diferente das outras duas (hoje sei que as outras duas regiões, junto com mais seis regiões conquistadas no período do Império Romano e Otomano, compreendem a totalidade do mapa da Romênia atual). Eu não era um indivíduo que lia muito no período em que vivi minha vida mortal; começar a ter o hábito da leitura era algo novo para mim. O fato de ser uma aberração, e com isso ter adquirido poderes para absorver rapidamente a leitura, me trouxe uma sensação maior de satisfação por esse novo hábito, confesso, pois antes me faltava paciência e foco.
À medida que eu saboreava uma a uma as páginas do livro de capa de dragão, parecia que eu lia uma história que me conectava à minha; algo do que eu lia fazia sentido para as minhas origens vampirescas. A parte textual do livro era escrita em primeira pessoa, como se fosse uma espécie de diário, e começava assim:
Brasnov, de 1448 a 1476
O primeiro de nós
Após a morte de Vlad Tepes, o Príncipe Empalador, em 1476, devido à traição por cobiça ao trono da Valáquia por seu próprio irmão, Radu, eu, Igor Dracul, seu primo, recebi o título de Conde Dracul pelo próprio Vlad em seu leito de morte. Após receber seu anel do dragão como último presente, o que firmava meu pacto de confiança com o Empalador — pacto este que Vlad não tinha confiança em estabelecer com o próprio filho, Mihnea —, uma vez que o filho tinha caráter duvidoso e, além disso, não era iniciado na Ordem do Dragão, como eu e seu pai, Vlad III.
Além de todos esses fatores, eu era comandante das tropas de Vlad, seu amigo confidente e o único que presenciara e guardara em segredo dois fatos que mais tarde comprovariam a lenda que nomeava Vlad como Conde Drácula, ‘O Demônio da Transilvânia’.
Vlad e eu pertencíamos à Casa de Basarab (Câmara dos Drăculești) e, devido à escassez de homens vivos na família, fomos os únicos iniciados na Ordem do Dragão que permaneciam vivos. Os povos valaquianos e transilvanos da época disputavam territórios invadidos e tomados pelos otomanos, e muitos homens haviam morrido na guerra.
Vlad realmente tomou a última decisão de sua vida de forma pensada em seus últimos minutos, após a batalha no mosteiro de Voronet, onde os turcos descobriram que o Empalador e seu exército se escondiam (invadiram em uma manhã de verão para capturar e decapitar o líder que mais havia empalado soldados otomanos e saxões).
Antes da morte de Tepes, por algum motivo que a maioria da população valaquiana, amigos próximos e familiares não entendiam, Vlad deixou de circular pelas manhãs e inícios de tarde. O Empalador passou a ter hábitos noturnos desde que se mudara para o mosteiro, e somente eu cheguei perto de descobrir o verdadeiro motivo.
Em uma noite invernal do ano de 1458, Vlad convocou-me, a seu filho Mihnea e a mais dois soldados de sua guarda pessoal para irem a uma grande floresta, abaixo do Monte Cárpatos. Ao chegarmos perto de uma gruta, Tepes pediu a todos os quatro que o acompanhavam que esperassem do lado de fora enquanto ele explorava a alcova sozinho. Passado um tempo, os quatro cavaleiros que o aguardavam ouviram um grito agonizante ecoando da gruta; entreolharam-se no mesmo instante. Assustado, resolvi adentrar o buraco assombrado e, ao invadir o local, logo senti uma presença macabra que vinha de um vulto grotesco, que parecia esvair-se para dentro do chão da gruta, dizendo em uma voz de barítono:
— Sua alma é minha, e, em troca de poder, você agora é das trevas.
No mesmo momento em que identifiquei o corpo de Vlad caído ao chão, percebi que Mihnea estava na caverna em estado de choque, sem entender o que havia acontecido ali. Corri até meu senhor imediatamente e verifiquei se ele ainda estava vivo. Os dois soldados entraram na gruta em seguida e ajudaram a socorrer Vlad Tepes. O Empalador ainda vivia, mas estava fraco e pálido; no lado esquerdo do pescoço surgiram duas marcas de onde esvaía sangue. Um dos dedos da mão direita estava queimado e, da parte que o ligava à mão, nascia uma crosta vermelha, ainda com sinais de fumaça no local, como se tivessem tostado um dos dedos de Tepes.
À medida que os dois soldados se adiantavam para levar o corpo de Vlad para fora da caverna maldita, Mihnea continuava parado na gruta, sem fazer qualquer movimento.
Enquanto os outros dois cavaleiros ajustavam Tepes em um dos cavalos, percebi a ausência de Mihnea e lembrei que o filho de Vlad permanecia na alcova. Ao avistar o rapaz, ainda perplexo na caverna, o chamei, mas não obtive resposta. Resolvi sacudi-lo aos gritos e, ainda assim, não obtive reação. Então, decidi estapeá-lo, berrando, e, ao despertar do transe com tal violência, o garoto questionou:
— Lorde Igor, o que aconteceu?
Em resposta, lhe disse:
— Nada que devamos lembrar. Vamos embora deste lugar sombrio. Meu senhor, seu pai, precisa de maiores cuidados.
Ao chegarem aos aposentos do mosteiro com Vlad, os quatro cavaleiros logo propagaram os rumores de que o corpo do Empalador chegara sem vida. Alguns criados suspeitaram que poderia ser algum tipo de peste; outros imaginavam que seu senhor houvesse caído em uma emboscada feita pelos turcos enquanto caçava cervos à noite, mas a verdade somente eu sabia.
Durante muitos dias e muitas noites, Vlad permaneceu trancafiado em seu quarto. Nos primeiros dias, ficou acamado, pois ainda não havia recuperado parte de suas forças. Sua pele permanecia incolor, e a ferida que cicatrizava em seu dedo queimado agora parecia metal — como se da casca do ferimento surgisse uma capa de cobre. No entanto, a ferida no pescoço permanecia, como se houvessem sido feitos dois pequenos buracos negros, como se o sangue de Tepes estivesse apodrecido ao ser mordido por uma serpente do mal. Vlad já não possuía mais alma.
Após ler e refletir sobre as palavras escritas por Igor Dracul, lembrei-me da fatídica viagem que fiz naquele navio assombrado até aqui. O que mais me chamou a atenção até agora foi que o tal anel, que parecia ter surgido como uma espécie de herança no dedo necrosado de Vlad Tepes, era o mesmo que o senhor que me guiava e criara portava: um anel de cor avermelhada, parecendo ser de cobre, com uma insígnia de dragão no centro. Seria, o meu senhor, aquele descrito nas palavras do livro de capa de dragão, ou será que Vlad Tepes despertara mais uma vez de algum tipo de torpor e agora nos espreitava e comandava no castelo? De uma coisa eu tinha certeza até então: o senhor que portava o anel e fora meu criador era o atual Drácula, dono do navio e de tudo o mais.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Fotografia em Preto e Branco
Ó, bela dama de York, radiante visão, | Pele de alabastro, no contraste do carvão, | Teu semblante, de etérea perfeição, | Agora repousa em paz, no véu da escuridão…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Ó, bela dama de York, radiante visão,
Pele de alabastro, no contraste do carvão,
Teu semblante, de etérea perfeição,
Agora repousa em paz, no véu da escuridão.
No teu vestido de noiva, alva esperança,
A morte te tomou, sem dar-te lembranças,
Prometida ao Visconde, teu coração fiel,
Agora dormes, como uma assombração cruel.
Na fotografia, um ato de dor sublime,
Teu noivo, em luto, na eternidade imprime,
As bodas que o tempo ousou interromper,
Eternizado no retrato, o que não pode ser.
Tuas mãos, frias, entrelaçadas às dele,
O amor preso em laços que a morte repele,
Mas na imagem, o júbilo de um sonho ausente,
O Visconde e sua dama, ali presentes.
Ó musa em preto e branco, flor desvanecida,
Que outrora seria a esposa, a companheira querida,
Agora és um eco de beleza e dor,
Um retrato de saudade, um eterno amor.
No escuro véu que o tempo tece,
Ainda brilha a luz que nunca perece,
Pois nas tumbas de York, ali estará,
A noiva cadáver que não voltará.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”
Espelho, espelho meu
Tal qual a Rainha Má do conto infantil da Branca de Neve, eu tinha como conselheiro o meu espelho, espelho este que, desde que minha avó materna…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Tal qual a Rainha Má do conto infantil da Branca de Neve, eu tinha como conselheiro o meu espelho, espelho este que, desde que minha avó materna falecera, quando eu tinha por volta de cinco anos de idade, passou a pertencer à minha mãe. O espelho fazia parte de uma penteadeira antiga, que foi disputada como parte da herança de minha avó entre minha mãe e minha tia. Para que não houvesse desavenças maiores na ocasião, meu tio mais velho decidiu dividir o móvel: o espelho, que era a parte de cima, pertenceria à minha mãe, e as gavetas com a base do móvel ficariam com minha tia. Depois de um tempo, já no período da minha adolescência, minha mãe havia deixado o espelho de lado. Eu, então, o resgatei na garagem de casa e tive a ideia de reformá-lo ao meu gosto: pintei sua base de madeira de preto e colei algumas meias pérolas em volta, a fim de torná-lo um adorno sombrio, tendo em vista que ele já possuía uma moldura no estilo provençal.
Passei a ter o espelho reformado em meu quarto, sempre no canto oposto à janela, de modo que a luz que entrava pela manhã refletia de maneira suave, quase sutil. No entanto, ao cair da noite, quando as sombras se alongavam, o espelho parecia ganhar vida própria. No início, não dei importância à sensação de que algo se movia ali, um brilho diferente, um jogo de luz que eu atribuía à iluminação fraca do abajur. Mas, com o passar dos dias, comecei a notar que o reflexo que ele me devolvia era… estranho.
Certa noite, ao escovar os cabelos diante do espelho, percebi algo que fez minha mão tremer: meu reflexo, por um instante, sorriu, mas eu não havia sorrido naquele momento. Meus lábios estavam imóveis, fechados, mas a figura no espelho ostentava um sorriso ligeiramente torto, quase zombeteiro. Afastei-me num sobressalto, culpando o cansaço e o sono por aquilo. Mas, no fundo, uma inquietação se instalou em mim.
A partir daquela noite, o espelho passou a me mostrar versões distorcidas de mim mesma. Eram sutilezas: um olhar um pouco mais sombrio, um contorno mais afiado do rosto, uma sombra nos cantos dos olhos que não estava lá quando eu me olhava em outros espelhos. Mas eu sabia que não era apenas uma ilusão de ótica. Algo mais profundo acontecia. O espelho, que antes eu considerava apenas um objeto de valor sentimental herdado de minha avó, parecia estar revelando algo de mim que eu não conhecia… ou talvez, algo que eu sempre soube, mas nunca quis admitir.
Quanto mais eu me olhava nele, mais sentia que ele me via de verdade, além do que era superficial. E então, numa noite, ouvi algo. Não era uma voz, ao menos não no sentido comum. Era como um sussurro, um pensamento, vindo do espelho, ecoando dentro de mim:
— Você vê o que realmente é?
Meu coração acelerou. A sensação de que o espelho me espreitava, me estudava, tornou-se insuportável. O medo crescia, mas havia algo irresistível também. Eu não conseguia parar de olhar. A cada dia, a imagem refletida parecia mais distorcida, mais feroz, como se minha própria essência estivesse se desfazendo e algo sombrio, profundamente maligno, estivesse tomando seu lugar.
Até que, numa madrugada de insônia, enquanto encarava o espelho na escuridão do quarto, percebi a distorção, as sombras, os traços desumanos que começavam a se formar. Não era apenas uma brincadeira da luz ou da mente; era a revelação de algo mais profundo. O espelho estava me mostrando minha alma, nua e crua. E ela era sombria, maliciosa, perversa. Parecia que, a cada olhar que eu dava no espelho, eu estava permitindo que essa parte oculta de mim emergisse.
Foi então que me lembrei das histórias que minha avó contava, de como aquele espelho pertencia a uma linhagem de mulheres poderosas, mas que todas, sem exceção, haviam sucumbido ao que ele revelava. Não era apenas um reflexo. Era uma janela para a alma, um julgamento silencioso e implacável. E agora eu entendia que minha avó, minha mãe e talvez todas as mulheres antes delas haviam visto o mesmo. Mas o espelho não deformava a realidade. Ele mostrava a verdade, a parte de nós que tentávamos esconder.
E quanto mais eu olhava, mais me tornava aquilo que o espelho refletia.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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O Palhaço em mim
À noite estava no Parque a andar, | Havia um palhaço estranho a me olhar, | Mudo, seu rosto pálido e inquieto, | Com gestos lentos, fala em seu dialeto…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
À noite estava no Parque a andar,
Havia um palhaço estranho a me olhar,
Mudo, seu rosto pálido e inquieto,
Com gestos lentos, fala em seu dialeto.
Os olhos, vazios de som e de cor,
Clamam em silêncio, como o vento em torpor,
Um aviso sombrio, um enigma no ar:
— Não é o que parece, há algo a falhar.
Seus dedos finos desenham no ar,
Um perigo que se aproxima; um mal a rondar,
Mas ele não aponta, não grita, não chama,
Apenas reflete, apenas reclama.
O vento gela, o tempo parece parar,
A angústia aperta, já não consigo respirar.
Tento entender o que ele quer me mostrar,
Mas o eco do silêncio começa a gritar.
De repente, o palhaço dá um giro no espaço,
E seu reflexo, um espelho em pedaços, traz-me o compasso.
Eu me vejo nele, sou eu o perigo,
Eu sou o palhaço, sou o meu castigo.
As máscaras caem, e a verdade ecoa:
Eu sou o monstro que o silêncio entoa.
O parque se dissolve, a noite me consome,
E no mudo palhaço, descubro meu nome.
Agora sei, no vazio a vagar,
O perigo sou eu, a me espreitar.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Samhain (Ode)
Noite sagrada, quando as bruxas dançam, | Sob a lua cheia, o mistério avança. | Samhain desperta o poder oculto, | Portais se abrem, o véu é dissoluto…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Noite sagrada, quando as bruxas dançam,
Sob a lua cheia, o mistério avança.
Samhain desperta o poder oculto,
Portais se abrem, o véu é dissoluto.
Nos círculos mágicos, sob estrelas e astros,
As chamas do caldeirão tremulam no tempo.
Invocamos os espíritos, guias e anciãos,
Em sussurros antigos e cânticos pagãos.
A terra estremece, a morte floresce,
No coração da bruxa, o saber permanece
Ervas e runas, o inverno virá,
O ciclo sagrado; a água, a terra, o fogo e o ar.
Na escuridão, tecemos encantamentos,
Abraçamos a noite, seus segredos atentos.
A alma é livre, atravessa os planos,
Entre o que somos e o que fomos há anos.
Ó Samhain, portal entre mundos profundos,
Onde as sombras e a luz se fundem sem fim.
Celebramos a morte que renova os segundos,
E a magia que vive eternamente em mim.
As bruxas entoam seu cântico de poder,
Entre teias de estrelas e o luar a crescer.
Neste Sabá, o renascer floresce,
Enquanto o poder ancestral fortalece.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
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Apertum Loculum
O homem ao qual me assemelhava não pronunciava sequer uma palavra, e também senti que ele não era dali; não me parecia que dividíamos a...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O homem ao qual me assemelhava não pronunciava sequer uma palavra, e também senti que ele não era dali; não me parecia que dividíamos a mesma pátria, não parecia ser um lusitano, mas tampouco eu me assemelhava ao povo da região em que nasci. Meus cabelos eram da cor do cobre e minha pele não curtia o sol, assim como acontecia com a maioria da população local. Sempre me queixava, no verão, da vermelhidão que surgia nas maçãs do meu rosto. Essas queixas foram sumindo com o passar do tempo, já que eu não me expunha mais ao sol com a mesma frequência; minha pele se assemelhava à branquitude arroxeada da pele dos cadáveres. Naquela ocasião, o homem continuava a me ordenar em pensamento, e eu não tinha como recusar suas ordens; tinha que segui-lo. Ao anoitecer, nos retiramos da tumba do cemitério e caminhamos até o Porto da Figueira da Foz, numa velocidade que nenhum mero mortal seria capaz de acompanhar.
Chegando à localidade, percebi que um grande navio estava atracado no cais. Era um navio diferenciado, nunca havia visto nada semelhante em toda a minha vida; o navio era de uma cor que alternava entre o cinza chumbo e o verde musgo, e nele havia um nome estampado em branco: “Ilona”. O homem de cabelos negros me ordenou que entrasse no navio, e, mesmo temendo ser barrado por estar maltrapilho, como um pedinte da região, nada aconteceu quando cruzei do cais para a entrada do navio. Reparei que os marujos que guardavam o navio eram tão esquisitos quanto eu e a figura do homem de cabelos escuros. No navio, sequer nos comunicávamos verbalmente; as ordens chegavam por pensamentos. No entanto, eu não conseguia decifrar o que era dito pelo homem misterioso e pelos marujos, só pude acompanhar o aceno de cabeça que faziam e a liberação dos espaços que o homem me guiava a acessar junto com ele.
Cheguei a um compartimento luxuoso do navio, que ficava no segundo andar. O local era grande, forrado em madeira e veludo, e, dentro dessa espécie de quarto, havia três caixões. A maioria dos caixões era ornada com plantas, roseiras vermelhas com muitos espinhos. O homem misterioso pronunciou duas palavras em um idioma antigo, que pelo pouco conhecimento linguístico que eu tinha, me pareceu latim. Então, os três caixões se abriram prontamente após o homem pronunciar as palavras mágicas, e ele ordenou, em pensamento, que eu escolhesse um dos três caixões para passar o turno diurno. Segui minha intuição e me deitei no caixão que estava no meio do quarto.
Após me deitar, quase que imediatamente, uma poça de terra começou a me cobrir. Tentei fugir, receoso de que aquilo me soterrasse, porém, o homem invadiu minha mente e me intuiu de que aquilo era para o meu próprio bem. Caí em sono profundo logo após a terra me cobrir, deixando apenas meu rosto exposto. Na noite seguinte, despertei renovado, como se tivesse nascido de novo. O homem me convidou mentalmente para um banquete que aconteceria em outro cômodo do navio. Ao chegar ao que imaginei ser uma espécie de sala de jantar, também ornada com veludo vermelho e madeira, percebi que havia panelas e utensílios de jantar nos aguardando. Por um momento, pensei que, se servissem comida comum, eu não teria fome. Quase como se adivinhasse meus pensamentos, um dos serviçais do navio começou a destampar as panelas, e observei que nelas havia uma espécie de caldos avermelhados que banhavam partes que pareciam ser membros de corpos humanos. Apenas em uma única panela, que parecia ser de barro, serviam um caldo verde que parecia banhar todo tipo de espécie de insetos.
Conosco à mesa estavam o homem de cabelos escuros, um dos marujos, que parecia ser o capitão do navio, e outro marujo de aparência semelhante. Ninguém conversava enquanto éramos servidos por um dos serviçais. Eu e o homem misterioso nos alimentávamos do caldo avermelhado e dos membros humanos, enquanto os outros dois marujos se serviam do caldo verde da panela de barro, recheado de variados insetos. Após a refeição, tentei ir a outras partes do navio para apreciar a vista, mas não por muito tempo. Fui interrompido em meu livre-arbítrio pelas ordens que meu Senhor infiltrava em minha mente, inclusive ordenando-me que me alimentasse novamente na sala de jantar. Ele também me intuiu a conhecer uma espécie de biblioteca e a ler alguns tomos de pergaminhos que me ensinavam a língua que eu ouvira quando ele pronunciou as palavras para abrir meu caixão, possivelmente o latim. Ao dormir, o homem de cabelos negros me acompanhou até o quarto onde estava o caixão em que eu dormira na noite anterior e, desta vez, calmamente, ele pronunciou para que eu entendesse: "Apertum Loculum!". Imediatamente, o caixão do meio se abriu, e eu repeti o mesmo ritual de adormecer com a terra me cobrindo, como no dia anterior.
Por sete dias (ou sete noites), minha rotina seguiu quase a mesma: duas boas refeições do caldo avermelhado (que agora eu já tinha mais certeza ser composto de sangue humano e de partes de membros de corpos humanos), ler tomos de pergaminhos em línguas diversas, como o latim e o grego, e abrir autonomamente o caixão que escolhi como cama, o qual me revitalizava a cada alvorecer. Na noite do sétimo dia, atracamos em uma espécie de cais, porém de porte reduzido em comparação ao de Porto da Figueira da Foz. Imaginei estar em um local bem distante de Portugal, mas não soube mensurar o quão longe, apenas pelos dias que se passaram. O homem misterioso me intuíra durante toda a viagem a desenvolver novas habilidades, uma delas sendo o conhecimento de novos idiomas. No entanto, ele nunca explicava por que eu precisaria dessas habilidades (exceto a função de abrir meu próprio caixão para garantir meu merecido descanso diário). Ao chegarmos, deparei-me com uma placa que indicava o nome “Constanta”. Apesar de todo o aprendizado em novas línguas, aquele nome não fazia sentido para mim.
Após desembarcarmos, quatro dos serviçais do navio trouxeram o que identifiquei como o caixão que eu havia escolhido para dormir, além de outro, e os despacharam na carruagem que nos aguardava. Na carruagem, um homem de aparência muito semelhante à dos marujos e serviçais do navio já nos esperava. O homem de cabelos negros mais uma vez verbalizou: “Apertum Loculum!”, e a porta da carruagem se abriu sozinha. Adentramos a carruagem e seguimos pela estrada afora por volta de quatro horas, até que paramos próximo ao que eu havia lido como “Pitești”. Paramos em frente a um grande, sombrio e pomposo castelo.
Rodeamos o castelo, e o homem de cabelos negros decidiu que entraríamos pelos fundos. Lá havia um portão de ouro envelhecido, ornado pela mesma roseira vermelha com espinhos que adornava o meu caixão e o do homem misterioso. O portão parecia ser feito do mesmo tipo de madeira, e sobre ele pousavam borboletas de marfim. Embora o portão parecesse belo, também emanava um ar sombrio, que combinava com a atmosfera do castelo. Era iluminado apenas por um lampião. Ao adentrar o portão, por ordem mental do meu Senhor, após ele pronunciar a expressão "Apertum Loculum!" e o portão se abrir sozinho, percebi que havia várias entradas que pareciam dar acesso a calabouços. Seguimos por um caminho reto e entramos na última entrada.
O homem me deixou em um local que parecia ser uma grande cozinha. Após alguns minutos, ele desapareceu, mas não me ordenou nada, e eu me senti à vontade naquele ambiente solitário.
Minha curiosidade se aguçou ao observar que, ao mesmo tempo que o local parecia uma cozinha, também lembrava um laboratório exótico. Havia ali panelas, artefatos de cozinha, tubos de ensaio, uma tabela na parede descrevendo várias espécies de insetos — muitos deles besouros e afins —, além de muitas ervas penduradas. Logo depois, surgiu pela entrada uma mulher que parecia ser uma anciã, com vestes pretas e vermelhas e um castiçal na mão, para iluminar melhor o ambiente, visto que havia apenas dois castiçais no espaço. Dada a grandeza do local, eles não eram suficientes para iluminá-lo devidamente, caso ela fosse a pessoa designada a trabalhar ali.
De todo o trajeto, do cemitério em Coimbra até ali, Ameritt foi a única pessoa com quem dialoguei. Não entendia por que o homem e seus serviçais não faziam contato verbal, mas com Ameritt foi diferente. Ela logo entrou na cozinha, se apresentou e perguntou como eu me chamava. Ao me apresentar, ela me apelidou, chamando-me de "Filipe-besin". Além do diálogo que me faltava, o senso de humor, que também já não me restava, veio à tona naquele momento, e imediatamente um sorriso surgiu no meu rosto ao ouvir a forma como a anciã pronunciava "Filipe-besin".
Em uma rápida conversa, ela me explicou que sua função ali era preparar o alimento de todos os hóspedes e serviçais do castelo. No entanto, assim como no navio, notei que os hóspedes, assim como eu e o homem misterioso, se alimentavam do caldo avermelhado e de membros de corpos humanos. De fato, em um dos calabouços havia uma espécie de câmara frigorífica onde muitos corpos mortais congelados eram armazenados, e Ameritt tinha acesso a esse local.
Ao longo dos dias, o homem de cabelos negros me ordenou que eu deveria ajudar Ameritt naquele local a preparar o alimento e, além disso, deveria fornecer um pouco do meu próprio sangue à anciã todos os dias, para que ela pudesse misturá-lo ao caldo esverdeado preparado com os variados besouros. E assim seguimos por dias incontáveis. Ameritt também me levou a uma espécie de biblioteca onde guardava os livros que forneciam parte do seu conhecimento para o preparo de comida, de algumas medicações, chás variados, entre outras poções mágicas. Ela também me disse que não era exatamente como eu havia me tornado, mas que todos ali estavam unidos por “sangue”, e que já estava em idade avançada, sem saber até quando conseguiria servir ao nosso Senhor, o homem misterioso de cabelos negros. Por isso, ela precisava passar seus conhecimentos adiante, tendo em vista que garantir o preparo do alimento dos que viviam no castelo era, de fato, uma das coisas mais importantes para todos ali.
E assim segui com uma nova função e aprendizado junto de minha estimada Ameritt, que tanto me ensinou.
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Pobres Criaturas – Bella Baxter, a Frankenstein Feminista
"Pobres Criaturas" (em inglês, Poor Things) é um romance de Alasdair Gray publicado em 1992, que pode ser citado como uma adaptação...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
"Pobres Criaturas" (em inglês, Poor Things) é um romance de Alasdair Gray publicado em 1992, que pode ser citado como uma adaptação moderna de Frankenstein, o clássico de Mary Shelley. O livro é uma mistura de fantasia, ficção científica e crítica social, ambientado na Escócia do final do século XIX.
A história gira em torno de Bella Baxter, uma mulher que é ressuscitada por um excêntrico cientista, o Dr. Godwin Baxter, após sua morte. Assim como no Frankenstein de Shelley, a protagonista passa por um processo de reconstrução, o que levanta questões sobre identidade, humanidade e o papel da ciência.
Enquanto o monstro de Frankenstein é retratado como uma criatura trágica, lutando para encontrar seu lugar no mundo, Bella é uma personagem mais complexa, que busca entender sua nova vida e desafiar as normas da sociedade vitoriana. O romance aborda temas como feminismo, desigualdade social e o impacto do progresso científico, assim como o original de Shelley, mas com um tom mais satírico e uma perspectiva moderna. O filme "Pobres Criaturas" (Poor Things), dirigido por Yorgos Lanthimos, explora questões feministas e de igualdade de gênero, refletindo os temas presentes no livro de Alasdair Gray.
A narrativa destaca a busca de Bella por autonomia e liberdade, desafiando as restrições que a sociedade tenta impor sobre ela como mulher. O filme explora a construção da identidade feminina, o direito à autodeterminação e a luta contra a opressão patriarcal, temas centrais ao feminismo.
Além disso, a personagem de Bella representa uma figura de empoderamento, rejeitando as convenções tradicionais e lutando por igualdade e justiça. Portanto, o filme "Pobres Criaturas" aborda de forma significativa as questões de feminismo e igualdade de gênero, em consonância com a obra original.
O livro também faz uso de uma estrutura narrativa não convencional, com várias camadas de narração e documentos fictícios, o que adiciona profundidade à história e à reflexão sobre o papel da narrativa na construção da realidade. Em resumo, Pobres Criaturas é uma releitura criativa e crítica de Frankenstein, explorando temas semelhantes, mas adaptados ao contexto cultural e social do final do século XX.
Outro ponto que faz um intertexto entre as duas obras é a construção do personagem Dr. Godwin Baxter que é inspirado em William Godwin, pai de Mary Shelley. William Godwin foi um filósofo, escritor e um dos primeiros defensores do anarquismo e do pensamento radical no século XVIII. Ele é conhecido por seu trabalho em prol dos direitos individuais e da liberdade, além de ser um crítico das instituições autoritárias da época.
O nome do personagem, "Godwin Baxter", é uma referência direta a William Godwin, o que cria um elo simbólico entre o cientista do romance de Alasdair Gray e o pai de Mary Shelley. Assim como Godwin, Baxter é um pensador excêntrico que desafia as convenções sociais de sua época, principalmente em relação à ciência, moralidade e liberdade individual.
No livro e no filme, Dr. Godwin Baxter revive Bella Baxter, imaginando o ato de "criar vida", um tema central em Frankenstein, obra de Mary Shelley. A conexão com o pai de Shelley serve como um comentário sobre a natureza da criação, tanto literária quanto científica, e reforça as ligações entre Pobres Criaturas e o clássico Frankenstein.
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El Pesanta
En sombras de la noche, a tientas va, | silente entre los sueños, cruel es su andar, | un ser de pesadumbre y de pesar, | que roba al corazón su calma ya...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
En sombras de la noche, a tientas va,
silente entre los sueños, cruel es su andar,
un ser de pesadumbre y de pesar,
que roba al corazón su calma ya.
Con manos de ceniza, al alma da
un peso inquebrantable, un hondo mar,
respiración cortada, turbio azar,
el eco de un gemido al despertar.
Es él, el Pesanta, Señor del miedo,
que oprime los pechos con fría patada,
y siembra en la penumbra su desvelo.
Mas cuando el alba rompe con su fuego,
se disipa el terror, su forma niebla,
dejando solo sombras en su sueño.
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Sete Noites
Após a noite do abraço, parecia que eu havia dormido por uma eternidade, mas o que constava no jornal local fora que se passaram seis dias…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Após a noite do abraço, parecia que eu havia dormido por uma eternidade, mas o que constava no jornal local fora que se passaram seis dias. O que falar das sensações pós abraço? Tive contato com a criatura tenebrosa que me hipnotizara e me fizera ingerir não somente seu sangue, mas também sua carne. Antes que eu pudesse desmaiar e ser enterrado em uma cova, senti que ao invés da criatura se tornar mais fraca, aquilo lhe dera forças. O monstro havia se humanizado; surgiu um homem de cabelos longos e negros por debaixo da carne podre do quase cadáver que me atormentara e me infligira a ter impulsos repugnantes. O homem possuía dois olhos vermelhos e expressivos, olhar que eu nunca tinha visto parecido ou igual. Já não sabia distinguir se era melhor ter visto apenas o quase morto ou se o que se transformou em homem era mais assustador.
Em oposição a criatura que se despertara, eu estava fraco, algo me consumia por dentro tal qual chamas de uma fogueira. Já não sabia distinguir se era o efeito do vinho ou o consumo da carne podre. Quando dei por mim, já estava sonolento e sendo arrastado pelos pés pelo cemitério. Senti uma espécie de choque, entendi que havia sido mordido, seguido a isso, o homem de cabelos negros me induziu a beber mais do seu sangue e logo após senti que meu crânio iria se despedaçar após levar um soco do homem em questão. Após entender que havia sido soterrado em alguma das covas, percebi que despertei em alguns momentos, mas não saberei precisar as noites, pois se bem me lembro, já não me recordava de sentir o sol das manhãs, apenas das fases lunares não precisos através das frestas de terra que me possibilitavam enxergar alguma coisa. Em um primeiro momento só tive forças para empurrar meus braços e minhas mãos para fora da cova. Em um segundo momento, empurrei meus pés, no terceiro momento já me sentia mais forte e consegui tirar meu corpo por inteiro de toda a terra que me empurrava à sete palmos abaixo. Já me sentia forte, mas também fraco ao mesmo tempo; algo me necessitava.
Juntei as forças que ainda me restavam e perambulei, pelo que me constava, pela sétima noite no cemitério. Vi que o coveiro ainda trabalhava para enterrar um dos moribundos que enfim ganhava seu lar eterno em uma das covas. Já via e sentia com detalhes que antes não precisava, mas algo me despertou atenção; ao passo que me aproximava mais do coveiro, conseguia sentir todo o sangue, veias e artérias que ali pulsavam, sentia todo o sistema vascular do pobre homem. Sentia sobretudo sede. Sem pestanejar, surpreendi o coveiro pela retaguarda e por instinto o mordi. Fora minha primeira vítima e foi cruel o que eu fiz; além de sugar todo o sangue que pude, utilizei dá pá de enterrar para abrir seu corpo: primeiro consumi seu cérebro, depois o seu coração e por fim suas vísceras. Quase nada sobrara ali. Sentei-me por um segundo na lápide de algum morto, farto como se tivesse banqueteado em um jantar na corte. Estava todo rasgado e ensanguentado, queria poder trocas as vestimentas, porém, quando já estava a ponto de deixar o cemitério, uma voz intrusa invadiu minha mente com ordens e comandos. Senti alguma semelhança com a voz que me hipnotizara na tumba misteriosa e entendi que algo poderia estar me ligando ao sujeito que me oferecera a própria carne e o sangue e que também havia me mordido. Por impulso e ordem voltei até a tumba. Quando adentrei o local e dei por mim, o mesmo homem misterioso de olhos rubros e cabelos negros como a noite esperava por mim. Mas eu já não sentia medo e sim semelhança.
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Post Mortem
Era inverno. Era a melhor época do ano, estando em Londres ou em Coimbra. Londres certamente combinava mais comigo; era, na maioria das vezes…
Imagem criada pelo autor com IA
Era inverno. Era a melhor época do ano, estando em Londres ou em Coimbra. Londres certamente combinava mais comigo; era, na maioria das vezes, fria e sombria e o inverno nessa cidade era a época que mais me dava forças para seguir. Pensando em toda a minha trajetória até aqui, começarei a relatar todas as desvantagens de minhas origens, que já se encontram em um passado um pouco distante, datando aproximadamente de quase cem anos. Venho de uma linhagem de plebeus simples que viviam em Portugal. Minha vida era comum e sem grandes acontecimentos; eu fui casado primeiramente com uma mulher simples de nome Emília, porém, com pensamentos ambiciosos.
Eu era um homem pobre e vivia adoentado, não tinha forças até para recuperar minha própria honra diante de toda a Coimbra, que se aproveitava destes meus defeitos até para ferir ainda mais o meu nome, sabendo que eu pouco poderia fazer para mudar os fatos. O caso da desonra se deu porque Emília passou a se prostituir a partir do momento em que viu que eu não conseguiria garantir seus luxos; eu vivia em um bairro relativamente nobre da cidade, pois havia herdado uma casa que pertencera aos meus pais e que, por sua vez, também havia pertencido aos meus avós, porém, tão pouco o meu sustento de marceneiro dava para cobrir os gastos mensais da casa e, apesar da origem de Emília ter sido mais simples que a minha, ela passou a invejar as outras mulheres da vizinhança por terem artefatos e objetos mais caros e pomposos do que os que eu conseguia dar a ela. Pela soberba, minha falecida esposa havia desonrado meu nome e o dela e eu seguia a vida como se já não quisesse viver. Eu vivia pelos cantos da cidade alcoolizado, até que certa vez, em uma noite, entre um porre e outro de vinho, tropecei em uma tumba misteriosa nos arredores de Coimbra.
A tumba era antiga e enegrecida pelo tempo, escondida sob a sombra de árvores centenárias que se localizavam numa área isolada do cemitério São Martinho do Bispo e Ribeira de Frades. O portão do cemitério havia sido esquecido entreaberto pelo coveiro ou por algum parente de qualquer moribundo. Intrigado, decidi adentrar no local e me deparei imediatamente com um mausoléu que se destacava dos outros; resolvi investigar seu interior. Ao abrir a tampa de pedra, deparei-me com uma visão terrível: os restos mortais de um ser que não parecia humano envolvidos em uma aura de mistério e escuridão. Um arrepio percorreu minha espinha quando uma voz sussurrou em minha mente, instigando-me a consumir a carne podre daquele monstro. Um instinto telepático me envolveu, me puxando em direção aos restos mortais da criatura sobrenatural. Apesar do medo e da repulsa, uma força irresistível me dominou, e cedi ao impulso sinistro. Com um misto de horror e curiosidade, eu me curvei sobre os restos da aberração e engoli um pedaço de sua carne podre.
Minha vida havia mudado para sempre. As consequências do meu ato misterioso me assombraram, mas também me fascinaram. O que aconteceu comigo depois daquela noite fatídica? Essa é uma pergunta que ainda me intriga, assim como intriga a todos que ouvem minha história. Alguns dizem que me tornei um ser das sombras, condenado a vagar pela eternidade em busca de sangue para saciar minha ávida sede.
Outros afirmam que desapareci misteriosamente, deixando para trás apenas um rastro de lendas e mistérios; ainda há também quem diga que de fato desencarnei, mas a verdade sobre meu destino final permanece oculta, talvez para sempre. Enquanto isso, eu, Filipe, continuo a contar minha história, um simples plebeu que teve um encontro fatídico com a escuridão em uma noite sombria em Coimbra.
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Sonnet d'Après la Mort
Além dos horizontes onde a vida se desvanece, | Onde sombra e luz se fundem num eco, | Minha alma se eleva, livre de todo fardo, | Em direção aos céus etéreos onde…
Imagem da Wev
Soneto do Após Morte
Além dos horizontes onde a vida se desvanece,
Onde sombra e luz se fundem num eco,
Minha alma se eleva, livre de todo fardo,
Em direção aos céus etéreos onde ninguém conhece o efêmero.
Neste reino imutável onde reina o infinito,
Eu silenciosamente descubro um novo universo,
Onde os sonhos eternos se tornam tochas,
E onde o amor divino continua a ser o nosso guia.
Eu então me curvo diante desta brisa suave,
O que leva meus pensamentos a outro dilema;
Da eternidade, que se sobrepõe ao tempo.
Deste mundo
Estou finalmente livre, pronto para transcender,
Na sagrada imensidão do além: No eterno!
Sonnet d'Après la Mort
Au-delà des horizons où la vie s'efface,
Où ombre et lumière se confondent en écho,
Mon âme se lève, libre de tout fardeau,
Vers les cieux éthérés où personne ne connaît l'éphémère.
Dans ce royaume immuable où règne l'infini,
Je découvre silencieusement un nouvel univers,
Où les rêves éternels deviennent des torches,
Et où l’amour divin continue d’être notre guide.
Je m'incline alors devant cette douce brise,
Ce qui amène mes pensées à un autre dilemme ;
De l'éternité, qui chevauche le temps.
De ce monde
Je suis enfin libre, prêt à transcender,
Dans l'immensité sacrée de l'au-delà : Dans l'éternel!
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Curiosidades sobre o Drácula: Castelo de Bran/Castelo Poenari
Iremos desmitificar aqui a questão da morada real de Vlad III …
Iremos desmitificar aqui a questão da morada real de Vlad III — O Empalador (mais conhecido na ficção cinematográfica e na Literatura como Conde Drácula). Na primeira imagem podemos observar como seria o Castelo de Bran, construído em 1212, no estilo neogótico.
Imagem gerada por IA para simbolizar o Castelo de Bran
O Castelo de Bran, localizado próximo de Bran, (na vizinhança da cidade de Brașov, no condado com o mesmo nome), é um monumento nacional e marco histórico da Roménia. A fortaleza situa-se na fronteira entre a Transilvânia e a Valáquia, pela estrada 73, erigido na floresta no sopé dos montes Cárpatos. Conhecido habitualmente como o “Castelo do Drácula”, é promovido como a residência do personagem que dá título ao romance de Bram Stoker, obra que conduziu à persistência do mito de que este alcácer teria servido, em tempos, de residência ao Príncipe Vlad Tepes, governador da Valáquia.
O real Castelo de Bran (foto da web)
No entanto, o Castelo onde, de fato, o Conde Vlad Tepes passou a maior parte de sua vida não é o de Bran. Não há evidências históricas que confirmem que Vlad tenha visitado o Castelo do Drácula, mas existe a crença de que depois de ser capturado pelo exército do rei húngaro, ele teria sido prisioneiro no castelo por, aproximadamente, dois meses.
Um dos detalhes mais curiosos é que Bram Stoker nunca visitou o Castelo de Bran e, para descrevê-lo no livro, baseou-se apenas em relatos. Além disso, o endereço nunca foi residência oficial de Vlad III. Este tinha como refúgio a fortaleza de Poenari que fica em Arefu, vilarejo localizado a cerca de 125 quilômetros de Bran.
Castelo Poenari em ruínas (foto da web)
O Castelo Poenari foi erguido no início do século XIII, pelos primeiros governantes romenos na região sul da Roménia, conhecida como Valáquia. Por volta do século XIV, Poenari era a principal cidadela dos governadores da Casa de Basarab. Nas décadas seguintes, o nome e os residentes mudaram várias vezes, no entanto, mais tarde o castelo foi abandonado e deixado em ruínas.
Imagem gerada por IA, simula o aspecto do Castelo Poenari se ele não estivesse em ruínas
Podemos concluir, portanto, que, com base nas evidências históricas, é possível entender que Vlad III não tem qualquer relação com o Castelo de Bran. Além disso, as descrições do Castelo do Conde Drácula, feitas por Bram Stocker, não correspondem ao Castelo de Bran. No entanto, este último tornou-se um símbolo e é atualmente um ponto turístico, conhecido como o Castelo do Drácula.
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Soneto da Imortalidade
De papéis, livros, tinteiros e canetas | Do verso, à minha aorta e cava eternas | Antes, acreditando pertencer a uma natureza…
Foto da Web
De papéis, livros, tinteiros e canetas
Do verso, à minha aorta e cava eternas
Antes, acreditando pertencer a uma natureza findável,
Agora, tendo certeza da minha infinitude,
Quero viver a imensidão da eternidade
E em minha plenitude hei de espalhar minha maldição
Revés de quem tem amor a Vida;
Sorte de quem se fortalece na escuridão
E assim enquanto escrevo, me imortalizo
Porque a Morte é a solidão de quem não versa,
E a Não vida o acaso de quem se submete às presas
Eu possa me dizer do abraço sombrio:
Brindo à Morte, a continuação da Vida;
Brindo à Não Vida, dissolução da Morte.
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Penny Dreadful é uma série de TV que estreou no Brasil…
Foto da Web
Penny Dreadful é uma série de TV que estreou no Brasil em junho de 2014 pelo canal HBO.
O título da série se refere aos Penny Dreadfuls, publicações de ficção e terror que eram vendidas na Inglaterra Vitoriana do século XIX. Por serem histórias que custavam um centavo, tinham como apelido “centavos do terror”.
A série foi criada por John Logan, produzida por ele e Sam Mendes, e tem uma intertextualidade entre as origens de vários personagens famosos da literatura gótica/de terror, como o Dr. Victor Frankenstein (do romance Frankenstein, de Mary Shelley), Van Helsing e Drácula, (personagens presentes em Drácula, de Bram Stoker) e Dorian Gray (da obra O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde).
Além disso, traz também lendas urbanas (Jack, o Estripador) e seres místicos (lobisomens e bruxas) que, juntos, espalham sua monstruosa alienação pela capital inglesa na Belle Époque. Vanessa Ives, personagem central do enredo (interpretada por Eva Green) à princípio é, supostamente, uma bruxa. Mais tarde, ela é revelada como uma encarnação da deusa Amunet. Ives é disputada tanto no campo amoroso por demônios, lobisomens, como pelo próprio Drácula, que é revelado mais para o final da terceira temporada.
Série muito recomendada para os amantes de literatura gótica/sombria/de terror.
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Após ter sofrido toda a dor possível — e impossível — ao ter revelado meu amor à pessoa amada e não ter sido correspondida…
MidjourneyAI
“Quanto maior é a sede, maior é o prazer em satisfazê-la.” – Dante Alighieri
Londres – janeiro de 1898
Após ter sofrido toda a dor possível — e impossível — ao ter revelado meu amor à pessoa amada e não ter sido correspondida, fui indicada pelo Dr. Seward, durante nossas sessões psicoterapêuticas, a me distrair de alguma maneira, a fim de esquecer um pouco as dores do amor e do mundo. Foi quando passava pela Oxford St. no retorno para casa e vi uma espécie de boutique na qual nunca havia reparado que existia ali — o que era raro, já que mamãe fazia questão que eu soubesse cada nova loja de roupas e cosméticos que Londres pudesse ter. Confesso que fui seduzida a entrar na nova boutique, primeiramente porque o cheiro ambiente que os funcionários mantinham na loja era doce e também porque as cores dos vestidos que estavam na vitrine eram de um colorido que eu nunca havia visto antes. As funcionárias daquela loja eram todas muito atenciosas e apesar da maioria das estampas dos vestidos e roupas de baixo serem bem alegres, o que despertou o meu senso de consumismo fora um vestido cinza escuro. Instintivamente, fui até o vestido, a fim de perguntar a uma das atendentes se eu poderia experimentar, porém, no mesmo momento em que fui em busca da roupa, uma outra mulher, de um loiro quase branco acabou perguntando ao mesmo tempo. Ficamos surpresas ao ver que perguntamos pelo mesmo vestido e percebi que a mulher me olhava – mesmo que discretamente – por todos os lados a fim de analisar se meu gosto poderia ser tão parecido com o dela, já que aparentemente, mesmo que eu venha de uma família de posses, ela possuía um requinte e fineza sem igual, até bem diferente dos habitantes de Londres. Apresentamo-nos e naquele momento descobri que a mulher que aparentava seus 30 e poucos anos se chamava Alexia. Conversamos um pouco e Madame Alexia me informou que era nova ali — apesar de conseguir falar inglês fluentemente e sem sotaque — e me disse que vivia há pouco tempo em Londres, que recentemente viera de Bucareste, na Romênia, pais que pouco eu havia escutado falar e tão pouco conhecia os costumes. Ela possuía uma beleza peculiar; a pele e os cabelos muito claros e os olhos de um estonteante tom de azul.
Informalmente, Madame Alexia me convidara para tomar o chá das 5 horas em sua nova residência — que se localizava na Abbey Road — , o que não faltava muito, já que eram por volta das 4:30 e como era inverno, Londres já se encontrava completamente escura desde às 3 horas da tarde. Por muita insistência lhe prometi que iríamos juntas em sua carruagem, mas informei que eu não demoraria muito, pois já era noite e eu não queria preocupar minha mãe. Chegando a residência de Madame Alexia, percebi que o ambiente era muito aconchegante, apesar da decoração envolver a temática sobre répteis, sobre tudo ao que dizia respeito às serpentes. Havia um espelho em cima do buffet da sala que possuía uma moldura trabalhada em madeira escura, era muito bonito apesar de ter sido moldado sob a desenho de uma grande cobra. Logo que perceberam que eu havia adentrado a sala, os criados da casa vieram com todo o aparato da cozinha, a fim de não demorarem muito a servir o chá. A mulher parecia estar confortável, pois se encontrava em sua casa, mesmo sendo uma imigrante, parecia que aquele local era o seu reino, que fora transportado juntamente com ela da Romênia, e parecia não sentir falta de nada. Após conversamos mais um pouco e ela ter me dito que estava em Londres e ficaria um longo tempo, pois precisava resolver algumas questões pessoais como problemas com o sogro — que segundo ela vivia em Londres há algum tempo e agora se encontra com problemas de saúde — senti que após ter bebido o chá, que me encontrava um pouco cansada e sonolenta e então quando finalizamos nossa conversa, tentei me levantar e caminhar até a porta, porém vacilei e desmaiei.
Quando acordei, o ambiente já não era a sala de estar de Madame Alexia. Estava em um ambiente totalmente desprovido de claridade; não fazia ideia de onde me encontrava. Foi quando o local ganhou um pouco de luz que percebi que estava em uma espécie de calabouço e com a luz percebi que vinham três pessoas em minha direção. Quando as luzes das velas se aproximaram de mim, percebi que ali estavam três mulheres e estas possuíam aparência familiar com a de Madame Alexia; todas eram muito pálidas e os cabelos muito claros. Ao lado da que carregava o candelabro e as velas, uma das mulheres carregava alguma criatura que parecia de grande porte e peçonhenta. Foi quando se aproximaram mais ainda de onde eu estava que percebi que ali encontrava-se uma grande serpente.
No pélago da noite púrpura, à deriva, os ignorantes gargalham uns dos outros. Enquanto divertem-se, a escuridão silente esparge frígida, tornando-se…