PIGMEUS
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Devemos temer unicamente o que pode de fato nos causar dano, e o simples temor não pode fazer mal”. — Dante Alighieri
Quando eu era criança, ainda na longínqua década de 1980, o temor que eu tinha da noite era algo tão terrível que quando o entardecer se aproximava eu tinha crises de pânico que me tiravam até mesmo o apetite, independente de qual fosse o cardápio do jantar. As nuances das cores do amarelo e do vermelho dos raios de sol que se intercalavam entre si formando vários tons de alaranjado que hoje em dia eu vejo como uma prova inquestionável da existência de um Ser superior, que a cada entardecer nos presenteia com uma cena cada dia mais esplêndida, na minha inocência de criança era o prelúdio para mais um período de profundo sofrimento. O final de um dia e início de mais uma noite de profundo terror noturno.
Até hoje não sei explicar, – talvez nunca o saiba – o porquê eu tinha tanto pavor da noite. Às vezes imagino – em momentos de profunda reflexão – que esse incontrolável terror, pode ter sido causado pelas coisas que só eu conseguia ver, vagando pelas sombras da noite. Por mais que tentasse mostrar aos meus pais onde estavam e como tais criaturas eram, eles jamais acreditavam em mim. Sabendo que tentar convencê-los era algo inútil, decidi que deveria convencer a mim mesmo, que minha mãe – exemplo de doçura e sabedoria – estava certa, quando ela sempre me dizia que: monstros, assombrações, entidades e todas essas coisas do tipo, não existiam no mundo real. Que tudo era fruto de uma mente fértil que chegava a criar tais criaturas.
Mamãe, para tentar aplacar minhas crises de pânico, quando eu acordava toda a casa com meus gritos de terror, – e certamente, se minha voz tivesse a força igual ao medo que eu sentia meus gritos também acordariam toda a vizinhança – ela muito carinhosamente me dizia: – Seus olhos vêem aquilo que sua mente quer ver. Sabendo do amor que minha querida mãe nutria por mim, eu tentava de todas as formas me acalmar e me convencer que tudo o que via era fruto de minha imaginação. Contudo, eu sabia que todas aquelas criaturas eram reais, mas como ninguém mais as via, eu temendo me passar por uma pessoa mentalmente perturbada, decidi que eu deveria me silenciar quanto às minhas visões, e não tocar mais no assunto.
Certa vez, visitamos uma conhecida família, que perdera o pai para uma doença desconhecida. Um homem saudável ao extremo e forte como uma rocha, que da noite para o dia, contraiu uma infecção misteriosa que em questão de dias o levou à morte. Segundo essa jovem, a doença que matara seu pai, fora tão terrível que muitos de seus amigos e conhecidos, – até mesmo parentes mais próximos – não ousavam nem mesmo se aproximar dele em seus últimos momentos, pois os vermes já o estavam devorando, mesmo estando ele, ainda vivo. Dissera ela que, em suas últimas horas de vida, seu pai, sofrendo extraordinários ataques de pânico, aos gritos, implorava a todo o momento para que iluminassem o quarto – mesmo estando dia claro – pois, segundo ele havia terríveis criaturas o espreitando nas sombras.
Na volta para casa, minha mãe me questionou se eu havia prestado atenção no que nossa anfitriã havia nos contado. Quando eu dissera que sim, ela me alertou sobre o perigo daquilo que achamos que vemos escondidas pelos cantos sombrios. Suas palavras jamais foram esquecidas:
– Filho, não duvido de nada do que me dizes, mas não é porque eu acredito em você que os outros também deverão fazê-lo. Além de ser sua mãe, eu mesma também acredito que entre o Céu e a Terra existam muitas coisas estranhas e ainda incompreendidas pela mente humana, mas evite na medida do possível comentar com qualquer outra pessoa essas visões, para que não o tenham como um louco. Ver o que os outros não vêem o torna perigoso.
Depois da estória que ouvi, sobre um homem já experimentado em anos e que prezava do respeito de toda uma cidade, ter terminado seus dias tributado como louco, e pelos incansáveis conselhos de minha mãe decidi, que deveria silenciar as vozes e afastar aquilo que me atormentava nas trevas da noite. A última visão que tive, foi na vida adulta, quando eu já estava namorando. Foi algo assustadoramente constrangedor.
De visita a casa dos pais de minha namorada, – a primeira e última – assim que chegamos, estando todos sentados na varanda, fui educadamente cumprimentar a todos os seus parentes presentes no momento. Sem exceção de idade, um por um eu fiz questão de me apresentar e apertar a mão em um fino gesto de galhardia. Fui gentil com todos, inclusive com uma sorridente senhora que estava sentada numa confortável cadeira de balanço. Quando a cumprimentei com todo respeito e atenção que se deve ter a uma pessoa idosa, logo percebi que todos me olharam de forma assustada. Minha namorada, muito constrangida, logo me chamou num canto em particular e demonstrando estar um tanto quanto irritada, disse:
– O que pensa que está fazendo? Quer que meus pais pensem que o namorado da filha deles é um louco, um maníaco pervertido que fala com cadeiras vazias. Saiba, que quando eu disse para minha mãe qual era sua profissão – Professor de Filosofia – ela de imediato me questionou, se você não era daquele tipo de pessoa perturbada, que passa o tempo todo sob o efeito de substâncias entorpecentes...
Pedi sinceras desculpas, e disse que eu estava um pouco cansado, e que talvez eu pudesse estar confundindo a realidade, devido ao estresse causado pelo meu trabalho. Mas, assim que entramos na sala de estar, logo na parede de frente à porta de entrada, havia um enorme retrato da senhora a quem eu havia cumprimentado há pouco. Quando questionei minha namorada de quem se tratava a imagem do retrato, ela suspirando profundamente, me disse que era sua querida avó, a quem ela tanto estimava, mas que havia falecido há mais de cinco anos...
Na velha sabedoria de botequim, há um antigo provérbio que diz que os semelhantes se reconhecem apenas pelo olhar. Numa quente e abafada noite de meados de dezembro, após um estafante dia de trabalho, estava eu sentado numa velha banqueta, encostado num polido e gordurento balcão de um sossegado bar no centro da cidade, saboreando uma cerveja estupidamente gelada ao som de Belchior, quando um senhor se aproximou de onde eu estava e logo foi puxando assunto. Sem nenhuma cerimônia foi se apresentando e iniciou uma conversa por conta própria, – sem saber se eu gostaria de ouvi-lo, ou não – primeiro; falando do calor, da falta de chuvas, do custo de vida e por fim das dificuldades de se conseguir bons companheiros de trabalho. Como eu estava muito cansado e de cabeça quente, devido aos dias finais do ano letivo, fiquei apenas o escutando, e vez por outra interagia com ele de forma monossilábica.
Quando ele percebeu que tinha minha atenção, logo me questionou sobre minha profissão e se eu estaria ocupado nas duas próximas semanas. Respondi que era professor de Filosofia, mas que a partir da quarta-feira da semana seguinte estaria de recesso pelos próximos quarenta dias até o fim de janeiro. Sem titubear por nenhum segundo, me fez uma proposta de trabalho, que de forma alguma poderia ser recusada. Disse-me que era carpinteiro de telhados artesanais e que estava à procura de um ajudante, que lhe pudesse auxiliar por duas semanas, pois seu antigo ajudante havia sofrido um pequeno acidente e estaria indisponível por uns dois meses, talvez até um pouco mais – soube depois, que estava em coma profundo. Jamais trabalharia outra vez –.
O trabalho era no interior, numa fazenda afastada da cidade. Um lugar sossegado e bastante pitoresco para uns dias de descanso de uma vida atribulada de cidade grande. Fez-me uma oferta financeira bastante razoável, para quem não tinha nenhuma experiência com este tipo de ofício, e logo quisera me pagar metade do valor oferecido de forma adiantada. Após acertarmos os detalhes, ficou decidido que na quarta-feira seguinte, partiríamos para a tal fazenda onde ficaríamos até o término do trabalho.
Chegado o dia marcado, partimos bem cedo e antes do almoço já estávamos em nosso destino. Após nos instalarmos na casa onde ficaríamos alojados, depois de um improvisado repasto, ele disse-me que, meu dia seria devidamente pago e que eu poderia fazer o que bem entendesse naquela tarde. Ele por sua vez gostaria de descansar da viagem, e que se fosse possível, que eu não o incomodasse em seu sono vespertino. Aproveitei a tarde para ler, um dos livros que eu havia levado comigo – A outra volta do parafuso de Henry James, se não me falha a memória. Ele dormiu a tarde toda, só despertando no ocaso um pouco antes do início da noite. Após tomar um demorado banho, preparou nosso jantar, – galinha ao molho de pimenta – que fora servido acompanhado com um saboroso vinho tinto. – Lembrei-me de Jonathan Harker hospedado no Hotel Royal em Bistritz –.
Após o jantar ficamos conversando até tarde da noite. Ele me pormenorizou sobre seu passado, fatos que rememoravam sua infância mais remota. Acontecimentos de uma época em que eu ainda nem tinha nascido. – era ele um senhor de mais de sessenta anos – Percebi que ele tentava a todo custo me manter acordado com suas estórias, para lhe fazer companhia – uma espécie de Sherazade tupiniquim – Consegui me manter desperto até umas duas horas da madrugada, mas logo fui vencido pelo sono e pelo cansaço e acabei adormecendo na cadeira onde estava sentado, sendo despertado logo em seguida com gritos de pavor e desespero. Naquela noite não dormi mais do que meia hora ao todo, somando os pequenos cochilos que vez por outra me venciam, mas sendo logo despertado em seguida de forma abrupta.
Por três noites a fio, tudo se repetiu como na primeira noite. Eu já estava a ponto de um ataque de nervos. Por mais que eu tentasse de todas as formas, não conseguia dormir durante o dia. Ele por sua vez, iniciava sua jornada de trabalho às primeiras horas da alvorada e após o almoço, dormia quase toda a tarde, também me dispensando de meus afazeres. Depois de me certificar que aquele seu estranho comportamento estaria ligado diretamente ao mesmo terror noturno que eu enfrentara quando criança, decidi que eu talvez pudesse ajudá-lo. Sem deixar que ele percebesse, coloquei em sua bebida – que era de uso quase contínuo – dois dos comprimidos que tomava havia muitos anos para poder dormir uma noite de sono tranquila, sem ser incomodado por visões noturnas. O medicamento era controlado e bastava uma única dose para derrubar um cavalo. Como eu estava muito cansado, quis ser pragmático e lhe dar logo uma dose que eu sabia que seria mais do que suficiente para lhe proporcionar um pouco de paz.
Naquela noite nos recolhemos antes das oito da noite, pouco após o jantar ser servido. Aquele amedrontado senhor, meio que desmaiara em sua poltrona, com muito sacrifício consegui levá-lo para sua cama, – que até então só era usada durante o dia. Exausto como estava, logo adormeci pesadamente, sendo despertado por lamentosos gemidos de alguém que padecia um terrível sofrimento. Como há tempos, havia conseguido vencer meus temores noturnos, consegui me acostumar a dormir com a luz apagada, e naquela noite estávamos na completa escuridão. Quando olhei para a direção de onde vinha os gemidos, percebi que havia uma dezena de pequenos olhos amarelados ao redor da cama de meu companheiro, que por algum motivo parecia estar preso à cama sem poder se mover. Rapidamente acendi a luz e logo todos os olhos sumiram na mesma velocidade que a luz fora acesa.
Aquele senhor entrara numa espécie de catatonismo crônico, não conseguindo mais responder à realidade que o cercava. Num comportamento completamente ensandecido, mesmo estando com todas as juntas de seus membros inertes, ficava tentando se debater, como se unindo forças para se levantar e correr o mais rápido que pudesse e repetindo o tempo todo:
– Pigmeus! Pigmeus! Pigmeus...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…