Velian em Agonihria: Os Dentes do Abandono
Velian retornara do Rio de Janeiro há algumas semanas. O apartamento em Fortaleza permanecia exatamente como o deixara. O caixão oculto no…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Velian retornara do Rio de Janeiro há algumas semanas.
O apartamento em Fortaleza permanecia exatamente como o deixara. O caixão oculto no cômodo escuro. As estantes repletas de livros antigos e modernos. As cortinas pesadas impedindo a entrada do sol nordestino. Nada havia mudado.
E, ainda assim, algo nele estava diferente.
Nas noites que se seguiram ao retorno, vagou pelas ruas da cidade sem propósito definido. Caminhava pela Beira-Mar observando as barracas que encerravam suas atividades, os pescadores preparando embarcações para a madrugada, os vendedores desmontando estruturas sob o vento constante que vinha do Atlântico. Fortaleza nunca dormia completamente; apenas diminuía o ritmo. Havia sempre alguém acordado, alguém amando, alguém brigando, alguém chorando.
Os humanos insistiam em existir com uma intensidade que o fascinava.
Séculos atrás, aquilo lhe parecera ridículo.
Décadas atrás, invejável.
Agora lhe parecia belo.
Talvez porque finalmente compreendesse que a fragilidade era parte daquilo que tornava cada momento significativo.
Ou talvez estivesse apenas envelhecendo.
Sorriu diante da própria conclusão.
— Um vampiro envelhecendo. Que piada de mau gosto.
Continuou caminhando.
O vento espalhava o cheiro da maresia pelas avenidas. Ao longe, um pequeno bar ainda mantinha música acesa na madrugada. Vozes embriagadas misturavam-se ao som distante do mar. Velian observava tudo como quem contempla uma peça teatral conhecida.
Desde o encontro com Cassandra, algo permanecia inquieto em sua mente.
Não era saudade.
Jamais utilizaria uma palavra tão humana.
Mas a lembrança dela surgia ocasionalmente.
O sorriso irônico.
Os olhos vermelhos.
A maneira como debochava de suas perguntas.
A forma como parecia compreender a escuridão sem precisar interrogá-la constantemente.
Talvez fosse isso que mais o irritava.
Ou admirava.
Ainda não decidira.
Também pensava em Nix.
A Senhora da Noite não lhe concedera respostas. Pelo contrário. Desde aquele encontro, as perguntas haviam se multiplicado. Contudo, agora possuíam outra textura. Já não eram apenas feridas abertas buscando explicações. Tornaram-se caminhos.
Velian continuava sem compreender a existência.
Continuava sem compreender a eternidade.
Continuava sem compreender a si mesmo.
Mas passara a gostar da busca.
Aquilo era novo.
Durante muito tempo procurara respostas para preencher um vazio.
Agora buscava porque desejava conhecer.
Talvez houvesse diferença.
Talvez não.
As dúvidas permaneciam.
Como sempre.
A madrugada avançava lentamente quando o frio chegou.
Um frio impossível.
Não era o vento do oceano.
Nem uma mudança climática comum.
Era um frio antigo.
Sobrenatural.
O tipo de frio que atravessava carne, osso e memória.
Velian parou imediatamente.
Uma cinza negra caiu sobre seu ombro.
Depois outra.
E outra.
Levantou a mão.
Os fragmentos escuros pareciam pequenos pedaços de carvão reduzidos a pó. Possuíam um odor estranho. Não o cheiro comum da fumaça, mas algo semelhante a flores apodrecidas, madeira úmida e tecido guardado durante séculos.
Conhecia aquele sinal.
O Castelo Drácula estava chamando.
Porém havia algo diferente.
Normalmente o chamado possuía um aspecto quase curioso, como uma porta se abrindo para mais um mistério.
Desta vez parecia um pedido de socorro.
Ou um aviso.
As sombras começaram a reunir-se diante dele.
As luzes da avenida tornaram-se distantes.
Os sons da cidade enfraqueceram.
Até mesmo o mar pareceu recuar.
Velian suspirou.
— Espero sinceramente que desta vez ninguém tente me ensinar outra metáfora sobre a existência.
As sombras abriram-se.
E ele atravessou.
O impacto foi imediato.
Agonihria.
O nome surgiu em sua mente como uma lembrança esquecida.
Cinzas negras caíam continuamente do céu.
Uma névoa púrpura espalhava-se entre as torres do Castelo Drácula como um organismo vivo.
O ar possuía cheiro de decomposição.
Não a decomposição comum da carne.
Mas algo mais antigo.
O odor de memórias esquecidas.
De sonhos abandonados.
De promessas que jamais foram cumpridas.
O Castelo parecia diferente.
Mais alto.
Mais vasto.
Como se tivesse envelhecido milhares de anos desde a última visita.
As muralhas estavam parcialmente cobertas por musgos escuros. Rochas pontiagudas emergiam dos jardins. Pinheiros negros curvavam-se sob o peso das cinzas.
E havia silêncio.
Um silêncio tão profundo que parecia observar.
Velian avançou pelos corredores.
As sombras pareciam mais densas.
As paredes suadas pela umidade refletiam discretamente a luz violeta que filtrava-se pelas janelas.
A cada passo sentia uma estranha sensação de abandono.
Como se estivesse caminhando através das ruínas emocionais de alguém.
Ou de alguma coisa.
Os corredores pareciam maiores do que deveriam.
As distâncias alteravam-se.
Portas surgiam onde antes não existiam.
Escadas conduziam a lugares impossíveis.
O próprio Castelo parecia sonhar.
E o sonho não era agradável.
Então ouviu uma voz familiar.
— Continuas com a péssima mania de chegar atrasado.
Velian sorriu antes mesmo de vê-la.
Cassandra estava encostada numa coluna próxima a uma janela quebrada. Os longos cabelos escuros caíam pelos ombros. O vestido negro contrastava com a pele pálida. Seus olhos vermelhos observavam a tempestade de cinzas que caía além do vidro.
Por um instante, a opressão de Agonihria pareceu diminuir.
Apenas um instante.
— Pensei que estivesses no Rio.
— Eu estava.
— E agora estás aqui.
— Excelente dedução.
— Séculos de prática.
O sorriso dela surgiu discreto.
— Vejo que ainda não encontraste respostas.
— Vejo que ainda finges não fazer perguntas.
Cassandra soltou uma breve gargalhada.
— Talvez eu apenas seja mais inteligente.
— Ou mais teimosa.
— Também.
Por alguns segundos permaneceram observando a paisagem espectral.
As cinzas continuavam caindo.
A névoa ondulava entre as torres.
O Castelo parecia respirar.
Então Cassandra tornou-se séria.
Algo raro.
— Este lugar está errado.
Velian voltou o olhar para ela.
— O Castelo costuma estar errado.
— Não desta forma.
O tom de sua voz bastou.
Cassandra raramente demonstrava preocupação.
Quando o fazia, havia motivo.
— O que encontraste?
— Nada.
— Isso parece ruim.
— É pior.
Ela afastou-se da coluna.
— O Castelo está vazio.
Velian sentiu um leve arrepio.
Porque compreendia exatamente o que ela queria dizer.
O Castelo Drácula jamais estava vazio.
Sempre havia vozes.
Presenças.
Monstros.
Ecos.
Memórias.
Alguma coisa.
Mas agora existia apenas silêncio.
E o silêncio parecia faminto.
O silêncio parecia faminto.
Velian e Cassandra avançaram pelos corredores do Castelo Drácula sem dizer mais nada durante alguns minutos. Em circunstâncias normais, ambos trocariam provocações incessantes. Era quase um hábito antigo. Contudo, Agonihria possuía uma maneira peculiar de tornar o humor mais difícil.
As cinzas negras continuavam caindo do lado de fora.
Em determinados momentos, Velian teve a impressão de ouvir vozes misturadas ao som do vento.
Sussurros.
Lamentos.
Palavras incompreensíveis.
Quando tentava escutá-las melhor, desapareciam.
O corredor começou a estreitar-se.
Ou talvez estivesse apenas parecendo mais estreito.
Em Agonihria era difícil distinguir realidade de percepção.
As paredes de pedra deram lugar a superfícies cobertas por papel decorativo antigo. Arabescos púrpura espalhavam-se por desenhos florais quase apagados pela umidade. Fungos escuros consumiam os cantos. Em alguns trechos, o papel descascava lentamente como pele morta desprendendo-se de um cadáver.
O cheiro tornou-se mais intenso.
Mofo.
Ferrugem.
Terra molhada.
E algo mais.
Algo químico.
Doentio.
Cassandra aproximou os dedos de uma das paredes.
— Arsênio.
Velian arqueou uma sobrancelha.
— Claro que você sabe reconhecer arsênio pelo cheiro.
— E você não?
— Não costumo cheirar venenos por diversão.
— Falha de caráter.
Continuaram caminhando.
A arquitetura mudava à medida que avançavam. O aspecto medieval do Castelo desaparecia gradualmente. Corredores vitorianos surgiam diante deles. Lustres enferrujados pendiam do teto. Tapetes antigos apodreciam sob os próprios fios.
Tudo parecia abandonado havia séculos.
E, ainda assim, existia uma estranha sensação de presença.
Como se alguém observasse através das paredes.
Como se alguma coisa aguardasse.
Velian percebeu primeiro.
— Estamos sendo seguidos.
Cassandra não demonstrou surpresa.
— Eu sei.
— Há quanto tempo?
— Desde que chegamos.
— E não pretendias comentar?
— Estava curiosa.
— Evidentemente.
Uma sombra moveu-se no final do corredor.
Depois desapareceu.
Outra surgiu atrás deles.
Em seguida uma terceira.
Velian estreitou os olhos.
As formas eram humanoides.
Mas algo estava errado.
Os movimentos pareciam quebrados.
Como marionetes manipuladas por mãos invisíveis.
Nenhum som acompanhava seus passos.
Nenhuma respiração.
Nenhum coração.
Nada.
Apenas presença.
Continuaram avançando.
Os vultos também.
Sem atacar.
Sem se aproximar demais.
Apenas observando.
Como animais avaliando uma presa.
Ou talvez convidados.
A mansão revelou-se subitamente.
Nenhum dos dois percebeu exatamente quando chegaram.
Ela simplesmente estava ali.
Uma enorme construção vitoriana erguida no interior do Castelo.
Janelas altas.
Paredes cobertas de fungos.
Varandas corroídas pelo tempo.
O lugar parecia existir fora da lógica.
Como se tivesse sido sonhado por alguém que nunca conhecera arquitetura.
Velian observou a construção durante alguns segundos.
— Tenho uma péssima sensação sobre isso.
— Então estamos no caminho certo.
— Eu realmente detesto tua lógica.
Subiram os degraus.
A porta abriu-se sozinha.
O interior mergulhava numa penumbra violeta.
Velas apagadas ocupavam castiçais enferrujados.
Quadros cobertos por tecido acumulavam poeira.
Relógios antigos permaneciam imóveis.
Nenhum marcava a mesma hora.
Nenhum parecia marcar hora alguma.
Então ouviram.
Um som.
Baixo.
Distante.
Como alguém mastigando.
Velian parou.
O som repetiu-se.
Mastigação.
Lenta.
Úmida.
Persistente.
— Diga que ouviu isso.
— Infelizmente.
O ruído aumentou.
Veio do andar superior.
Depois de outro cômodo.
Depois de vários lugares ao mesmo tempo.
Como se dezenas de bocas trabalhassem simultaneamente.
Mastigando.
Roendo.
Triturando.
A mansão inteira parecia alimentar-se de alguma coisa.
O desconforto espalhou-se pelo ambiente.
Pela primeira vez desde que chegara, Velian sentiu uma antiga sensação emergir.
Medo.
Não o medo comum dos mortais.
Mas aquele raro desconforto que apenas os verdadeiros mistérios provocavam.
Continuaram avançando.
O som tornou-se mais próximo.
Mais intenso.
Mais orgânico.
Até encontrarem o quarto.
A porta estava entreaberta.
O cheiro era insuportável.
Mofo.
Ferrugem.
Carne deteriorada.
Sangue antigo.
E aquele estranho odor químico vindo dos papéis de parede.
No centro do aposento havia uma cama vitoriana.
Os lençóis estavam rasgados.
Escurecidos.
Como se décadas de poeira houvessem se acumulado sobre eles.
Diante da cama erguia-se um espelho gigantesco.
A moldura era ornamentada com flores esculpidas.
Mas as flores pareciam apodrecidas.
Distorcidas.
Quase vivas.
Velian aproximou-se.
O próprio reflexo surgiu.
Algo impossível.
Vampiros não possuíam reflexos.
Mas Agonihria não parecia interessar-se por regras.
Cassandra apareceu ao lado dele.
Ela também estava refletida.
Por alguns instantes nada aconteceu.
Então os reflexos sorriram.
Nenhum dos dois sorrira.
O silêncio tornou-se absoluto.
As versões refletidas permaneceram observando-os.
Imóveis.
Então o reflexo de Cassandra inclinou a cabeça.
— Ainda finges que não sentes falta deles?
A verdadeira Cassandra permaneceu imóvel.
Velian percebeu imediatamente.
A pergunta atingira algum lugar profundo.
O reflexo continuou.
— De todos os amantes.
De todos os discípulos.
De todos os amigos.
De todos os mortos.
A figura refletida sorriu.
— Quantos nomes ainda consegues lembrar?
Cassandra fechou os olhos por um instante.
Apenas um instante.
Mas foi suficiente.
Velian nunca a vira hesitar daquela maneira.
Então o espelho voltou-se para ele.
Seu reflexo observou-o com olhos completamente negros.
— E tu?
A voz era sua.
Mas não era.
— Quantas respostas procuraste apenas para não admitir que tens medo?
Velian sustentou o olhar.
— Medo de quê?
O reflexo sorriu.
— De continuar existindo.
O quarto pareceu escurecer.
As sombras tornaram-se mais densas.
— De continuar desejando.
De continuar perdendo.
De continuar sobrevivendo enquanto tudo desaparece.
As palavras ecoaram pelo aposento.
Velian sentiu algo apertar seu peito.
Porque não eram mentiras.
O espelho compreendia.
E isso era pior.
Muito pior.
Uma rachadura surgiu na superfície refletora.
Depois outra.
E outra.
O som espalhou-se pelo quarto.
Lento.
Cruel.
Como ossos partindo-se sob pressão.
As rachaduras multiplicaram-se.
Até que algo começou a emergir.
Primeiro uma mão.
Depois um braço.
Em seguida um rosto.
Ou aquilo que um dia fora um rosto.
A criatura arrastou-se para fora do espelho.
Sua pele era cinzenta.
Os olhos completamente ocos.
E dentes.
Dentes por toda parte.
Nas faces.
Nos ombros.
Nos braços.
No pescoço.
Nas costelas.
Centenas deles.
Talvez milhares.
A criatura arrancou um dos próprios dentes.
Sorriu.
Então o mastigou.
Outro nasceu imediatamente.
Mais criaturas começaram a surgir.
Uma após outra.
Arrastando-se para fora dos espelhos rachados.
Todas cobertas por dentes.
Todas sorrindo.
Todas sofrendo.
Todas parecendo sentir prazer na própria dor.
O quarto inteiro foi preenchido pelo som.
Mastigação.
Estalos.
Dentes quebrando.
Dentes crescendo.
Dentes sendo arrancados.
As criaturas observavam os dois vampiros.
E então falaram.
Não individualmente.
Mas como uma única voz.
Uma voz composta por centenas de gargantas.
— O abandono nos criou.
— A perda nos alimenta.
— O esquecimento nos fortalece.
Uma delas aproximou-se de Velian.
Seus olhos vazios refletiam apenas escuridão.
— Quantos partiram?
Outra surgiu ao lado.
— Quantos ainda partirão?
Mais uma.
— Quantos nomes esqueceste?
As criaturas começaram a cercá-los lentamente.
Sorrindo.
Mastigando.
Esperando.
E, pela primeira vez desde a chegada ao Castelo, Cassandra abandonou completamente a expressão irônica.
Porque compreendeu a mesma coisa que Velian.
Agonihria não pretendia matá-los.
Pretendia fazê-los lembrar.
Agonihria não pretendia matá-los.
Pretendia fazê-los lembrar.
Por alguns segundos, ninguém se moveu.
As criaturas continuaram cercando-os lentamente. O som dos dentes partindo-se entre suas mandíbulas preenchia o quarto. Era um ruído quase hipnótico. Monótono. Persistente. Como um relógio macabro medindo o tempo através da dor.
Velian observou uma delas mais atentamente.
Os dentes não cresciam ao acaso.
Cada um parecia diferente.
Alguns eram humanos.
Outros lembravam presas de animais.
Outros ainda possuíam formatos impossíveis.
Como se cada dente fosse uma memória petrificada.
Uma perda.
Uma ferida.
Uma ausência.
A criatura mais próxima abriu a boca.
Lá dentro não havia língua.
Nem garganta.
Apenas mais dentes.
Infinitos dentes.
Velian sentiu a escuridão de Nix mover-se em algum lugar profundo de sua consciência.
Não como uma arma.
Mas como uma presença.
Uma vastidão silenciosa observando tudo.
A Noite primordial.
Antiga demais para temer monstros.
Antiga demais para temer abandono.
A criatura avançou.
E Cassandra foi a primeira a agir.
Símbolos negros incendiaram-se ao redor de seus braços. Runas antigas surgiram sobre a própria pele como serpentes feitas de sombra. O ar vibrou.
Então a vampira ergueu uma das mãos.
Uma explosão de energia atravessou o aposento.
Três criaturas foram arremessadas contra a parede.
Os corpos despedaçaram-se.
Dentes espalharam-se pelo chão.
Por um instante, o silêncio retornou.
Então os dentes começaram a mover-se.
Velian observou-os reorganizarem-se.
Unindo-se.
Reconstruindo carne.
Tecendo ossos.
Poucos segundos depois, as criaturas estavam novamente de pé.
Sorrindo.
Sempre sorrindo.
— Eu odeio lugares simbólicos — resmungou Velian.
— Eu avisei que algo estava errado.
— Você avisou que o Castelo estava vazio.
— E estava.
Uma gargalhada ecoou pelo aposento.
Não partira de Cassandra.
Nem de Velian.
Partira das próprias criaturas.
Centenas de vozes misturadas.
Centenas de gargantas.
Centenas de abandonos.
As paredes começaram a pulsar.
O papel decorativo desprendia-se lentamente.
Sob ele surgiam inscrições.
Nomes.
Milhares deles.
Nomes riscados.
Esquecidos.
Apagados.
Alguns escritos em idiomas mortos.
Outros em línguas que Velian jamais vira.
As criaturas continuavam aproximando-se.
— O que achas que são? — perguntou ele.
Cassandra não desviou os olhos dos monstros.
— Pessoas.
— Isso é reconfortante.
— Pessoas esquecidas.
— Ah. Menos reconfortante.
Uma das criaturas saltou.
Velian moveu-se imediatamente.
As garras atravessaram o peito do monstro.
O corpo abriu-se.
E algo caiu no chão.
Não sangue.
Não vísceras.
Mas fotografias.
Cartas.
Flores secas.
Objetos pessoais.
Pequenos fragmentos de vidas perdidas.
A criatura desfez-se em cinzas.
Outra ocupou seu lugar.
Depois outra.
Depois mais três.
A mansão inteira pareceu despertar.
Passos ecoaram pelos corredores.
Portas abriram-se sozinhas.
Espelhos racharam.
O som da mastigação tornou-se ensurdecedor.
E então Agonihria revelou algo ainda pior.
As criaturas começaram a mudar.
Seus rostos tornaram-se familiares.
Velian reconheceu alguns.
Um antigo amante da França medieval.
Uma mulher que conhecera durante o século XVIII.
Um jovem poeta que o acompanhara durante alguns anos em Lisboa.
Todos mortos.
Todos desaparecidos.
Todos transformados em algo grotesco.
As criaturas sorriram.
— Ainda lembras.
— Ainda dói.
— Ainda desejas.
Velian sentiu o golpe.
Não físico.
Mas emocional.
Porque lembrava.
Lembrava de todos.
Não dos rostos apenas.
Dos gestos.
Das vozes.
Dos momentos.
Das despedidas.
A eternidade possuía uma crueldade peculiar.
Tudo se transformava em fantasma.
Mesmo as memórias felizes.
Do outro lado do aposento, Cassandra permanecia imóvel.
As criaturas cercavam-na.
E também haviam mudado.
Velian observou sua expressão endurecer.
Os monstros assumiam formas que ele não reconhecia.
Mas Cassandra reconhecia.
Isso bastava.
Por um momento, a vampira desviou o olhar.
Por um único instante.
E aquilo era mais assustador do que qualquer monstro.
Porque Cassandra raramente olhava para trás.
Raramente permitia-se recordar.
As criaturas aproximaram-se dela.
— Ainda sentes falta deles.
— Ainda carregas seus nomes.
— Ainda finges que não te importas.
A magia ao redor da vampira explodiu violentamente.
As janelas estilhaçaram-se.
As paredes tremeram.
Diversas criaturas foram destruídas instantaneamente.
Mas nenhuma desapareceu.
Continuavam retornando.
Sempre retornando.
Velian compreendeu.
Não importava quantas fossem destruídas.
Não estavam lutando contra corpos.
Estavam lutando contra uma ideia.
Contra um sentimento.
Contra algo muito mais antigo que carne e osso.
O Castelo inteiro estremeceu.
As cinzas negras começaram a cair dentro da mansão.
A névoa púrpura infiltrou-se pelas rachaduras.
Os corredores pareciam alongar-se.
As portas desapareciam.
As paredes moviam-se.
Como se Agonihria estivesse fechando suas mãos ao redor deles.
Então uma voz surgiu.
Profunda.
Distante.
Maior que todas as outras.
Uma voz que parecia vir do próprio Castelo.
Ou talvez do próprio vazio.
— Tudo será esquecido.
As criaturas silenciaram imediatamente.
A mansão inteira silenciou.
Até mesmo a mastigação cessou.
A voz continuou.
— Toda paixão.
Toda memória.
Toda conquista.
Todo amor.
Todo conhecimento.
Tudo.
Velian sentiu a temperatura cair ainda mais.
As sombras tornaram-se densas.
Espessas.
Quase líquidas.
E algo começou a surgir do espelho destruído.
Algo enorme.
Muito maior do que as criaturas.
Uma massa de escuridão coberta por milhares de olhos vazios e bocas repletas de dentes.
Os dentes moviam-se sozinhos.
Como insetos.
Como parasitas.
Como pensamentos doentes.
A entidade ergueu-se lentamente.
Sua cabeça quase tocava o teto.
Os olhos observavam Velian.
Observavam Cassandra.
Observavam tudo.
— Eu sou o abandono.
A voz fez a mansão inteira tremer.
— Eu sou aquilo que permanece quando tudo parte.
Uma das bocas abriu-se.
Depois outra.
Depois centenas.
— Eu sou o silêncio após o último adeus.
Velian percebeu que até Cassandra havia ficado imóvel.
Não por medo.
Mas por reconhecimento.
Aquilo não era uma criatura.
Não era um fantasma.
Não era um demônio.
Era um conceito.
Uma manifestação.
Uma ferida transformada em existência.
E Agonihria era seu reino.
A entidade voltou-se para Velian.
Milhares de olhos vazios observando-o simultaneamente.
— Tu conheces meu nome.
Velian sustentou o olhar.
— Conheço.
— Caminhas comigo há séculos.
— Sim.
— Então por que continuas procurando?
O silêncio espalhou-se.
Mesmo Cassandra voltou-se para ele.
A pergunta parecia destinada apenas a Velian.
Mas talvez fosse destinada a todos.
Ao Castelo.
À humanidade.
À própria eternidade.
A entidade aproximou-se.
As sombras tornaram-se ainda mais profundas.
— Por que continuas desejando?
— Por que continuas amando?
— Por que continuas buscando?
A voz tornou-se mais suave.
Mais perigosa.
— Não aprendeste nada?
Durante alguns segundos Velian não respondeu.
Porque aquela era exatamente a pergunta que o perseguira durante séculos.
E talvez fosse a pergunta que definia sua existência.
Então sentiu novamente a presença de Nix.
Não uma resposta.
Jamais uma resposta.
Apenas a vastidão da noite.
A escuridão infinita onde estrelas nasciam e morriam sem alterar sua essência.
A noite não prometia sentido.
Apenas existência.
E, estranhamente, aquilo bastava.
Velian sorriu.
Um sorriso pequeno.
Mas genuíno.
E então respondeu.
— Aprendi exatamente o contrário.
— Aprendi exatamente o contrário.
A entidade permaneceu imóvel.
Os milhares de olhos vazios observavam Velian.
As centenas de bocas repletas de dentes permaneciam abertas.
Esperando.
O silêncio tornou-se quase absoluto.
Então Velian deu um passo à frente.
A névoa púrpura girava ao redor de seus pés. As cinzas negras continuavam caindo através das janelas destruídas da mansão. Ao longe, o Castelo Drácula parecia respirar como um organismo colossal adormecido.
— Passei séculos acreditando que precisava encontrar respostas — disse ele. — Depois passei séculos acreditando que precisava encontrar prazeres. Depois poder. Depois conhecimento. Depois esquecimento.
A criatura permaneceu imóvel.
— E encontraste?
Velian sorriu.
— Às vezes.
A resposta pareceu irritar a manifestação.
As sombras ao redor dela estremeceram.
— Às vezes?
— Sim. Às vezes encontrei prazer. Às vezes encontrei amor. Às vezes encontrei conhecimento. Às vezes encontrei companhia.
A entidade inclinou lentamente a cabeça.
— E perdeste tudo.
— Sim.
— Todos morreram.
— Sim.
— Todos partiram.
— Sim.
A criatura pareceu crescer.
As paredes da mansão rangeram.
Os espelhos restantes começaram a rachar.
— Então eu venci.
Velian ficou em silêncio por alguns instantes.
Então riu.
Uma gargalhada breve.
Sincera.
Quase humana.
Até Cassandra pareceu surpresa.
— Não. — respondeu ele. — É justamente aí que está o erro.
Os olhos da entidade estreitaram-se.
— Explica.
— Eles partiram.
Mas existiram.
A resposta espalhou-se pelo aposento como uma pedra lançada em águas imóveis.
A manifestação permaneceu imóvel.
Velian continuou.
— Vivi tempo suficiente para esquecer rostos.
Esquecer nomes.
Esquecer cidades inteiras.
Vi impérios nascerem e desaparecerem.
Vi religiões mudarem.
Vi pessoas morrerem.
Vi amores acabarem.
Mas o fato de algo terminar não significa que nunca tenha existido.
As criaturas dos dentes começaram a recuar lentamente.
Como se alguma força invisível as incomodasse.
— O abandono não apaga aquilo que foi vivido.
Ele apenas vem depois.
A entidade permaneceu em silêncio.
Pela primeira vez parecia não possuir resposta imediata.
Velian sentiu algo mover-se dentro de si.
Não era fome.
Não era violência.
Não era desejo.
Era a presença de Nix.
A noite.
A verdadeira noite.
Não a escuridão do medo.
Não a ausência de luz.
Mas a vastidão primordial que existia antes dos homens nomearem as coisas.
A escuridão que não julgava.
Que não exigia respostas.
Que apenas era.
Sombras começaram a reunir-se ao redor dele.
Não eram agressivas.
Não eram monstruosas.
Eram profundas.
Infinitas.
Belas.
As cinzas negras tocaram seu corpo e desapareceram.
A névoa púrpura começou a dissolver-se.
A entidade recuou pela primeira vez.
— O que és agora?
A pergunta veio quase como um sussurro.
Velian pensou por alguns segundos.
— Não faço ideia.
A resposta arrancou um sorriso de Cassandra.
— Essa é a coisa mais honesta que já disseste em décadas.
— Eu estava tentando impressionar uma manifestação metafísica.
— Está funcionando.
A entidade rugiu.
As paredes da mansão estremeceram.
Centenas de criaturas avançaram simultaneamente.
Desta vez não havia intenção de dialogar.
Apenas destruir.
Apenas consumir.
Apenas transformar tudo em silêncio.
Então Cassandra avançou.
A vampira ergueu ambas as mãos.
Runas negras incendiaram-se ao redor de seu corpo. Símbolos antigos surgiram sobre sua pele como serpentes de sombra líquida.
Velian sentiu o impacto do poder imediatamente.
Mesmo após todos aqueles séculos, Cassandra continuava sendo uma das criaturas mais perigosas que conhecera.
Talvez a mais perigosa.
O ar tornou-se pesado.
As janelas explodiram.
As sombras da própria mansão começaram a obedecê-la.
— Sempre odiei coisas que tentam me dizer o que sentir.
A magia expandiu-se.
Dezenas de criaturas foram arremessadas contra paredes e colunas.
Outras simplesmente desintegraram-se.
Mas não retornaram.
Porque agora não estavam sendo destruídas apenas fisicamente.
Algo mais profundo acontecia.
A presença de Nix espalhava-se.
A manifestação do abandono começou a enfraquecer.
As criaturas hesitavam.
Os dentes quebravam-se.
As formas tornavam-se instáveis.
Velian compreendeu.
Agonihria alimentava-se de uma única certeza:
Que tudo era vazio.
Que toda conexão era inútil.
Que toda existência terminava em abandono.
Mas ele já não acreditava nisso.
Nem Cassandra.
E aquela convicção possuía poder.
Mais poder do que imaginara.
A entidade rugiu novamente.
Milhares de bocas abriram-se simultaneamente.
O som foi tão intenso que parte da mansão desabou.
Colunas partiram-se.
O teto rachou.
Cinzas negras caíram como chuva.
Então Velian avançou.
A velocidade foi quase invisível.
As sombras reuniram-se ao redor de suas mãos.
Não como lâminas.
Não como armas.
Mas como fragmentos da própria noite.
Ele atravessou a tempestade de dentes.
Atravessou os gritos.
Atravessou as sombras.
E alcançou o coração da manifestação.
Por um instante viu algo.
Não uma criatura.
Não um monstro.
Mas uma criança esquecida.
Um amante abandonado.
Um velho morrendo sozinho.
Uma mãe chorando.
Um amigo perdido.
Milhares de solidões acumuladas.
Milhares de dores.
Milhares de despedidas.
Agonihria era feita delas.
Velian fechou os olhos.
E compreendeu.
Nem mesmo aquele horror desejava existir.
A entidade nasceu porque alguém sofrera.
Porque muitos sofreram.
Porque o abandono existe.
Sempre existirá.
Então tocou a criatura.
Apenas tocou.
E a noite respondeu.
A escuridão de Nix espalhou-se através da manifestação.
Não para destruí-la.
Mas para envolvê-la.
Como o céu envolve as estrelas.
Como o oceano envolve os rios.
Como a noite envolve os sonhos.
A criatura parou de lutar.
As bocas silenciaram.
Os dentes deixaram de crescer.
Os olhos vazios fecharam-se lentamente.
E então Agonihria começou a ruir.
A mansão inteira tremeu.
Os corredores partiram-se.
Os espelhos explodiram.
As paredes cobertas por arsênio e mofo desmancharam-se.
O Castelo Drácula inteiro estremeceu.
Como se despertasse de um pesadelo.
As criaturas desapareceram.
As cinzas negras tornaram-se poeira comum.
A névoa púrpura dissipou-se.
O silêncio retornou.
Mas agora era diferente.
Não era um silêncio faminto.
Era apenas silêncio.
E, pela primeira vez desde que chegaram, Velian sentiu paz.
Uma paz estranha.
Breve.
Mas real.
Ao seu lado, Cassandra observava os destroços.
— Então era isso.
— Era.
— Continua irritantemente filosófico.
— Continua irritantemente poderosa.
— Justo.
Ao redor deles, Agonihria desaparecia.
E, pela primeira vez em muito tempo, nenhum dos dois sentiu necessidade de procurar respostas.
Bastava caminhar para fora daquele pesadelo.
Pelo menos por enquanto.
Pelo menos por enquanto.
Os corredores do Castelo Drácula reapareciam lentamente ao redor deles.
A mansão vitoriana desaparecera.
Os espelhos.
Os papéis de parede apodrecidos.
As criaturas dos dentes.
Tudo parecia dissolver-se como um sonho que já não conseguia sustentar a própria existência.
Restavam apenas os antigos corredores de pedra.
As colunas monumentais.
As janelas arqueadas que revelavam a noite eterna além dos limites do castelo.
Por algum tempo, Velian e Cassandra caminharam sem dizer nada.
Não havia urgência.
Talvez porque ambos compreendessem que certos silêncios possuem mais significado que muitas conversas.
As cinzas negras haviam desaparecido.
A névoa púrpura também.
No alto, estrelas impossíveis brilhavam sobre Soramithia.
O eclipse perpétuo pairava sobre o horizonte como um olho adormecido.
O Castelo parecia tranquilo.
Não alegre.
Jamais alegre.
Mas tranquilo.
Como um animal antigo que finalmente voltara a repousar.
Velian observava as janelas enquanto caminhavam.
O tempo.
Sempre o tempo.
Séculos atrás acreditara que a eternidade era um prêmio.
Depois pensara que fosse uma maldição.
Agora já não tinha certeza de nenhuma das duas coisas.
Talvez fosse apenas uma condição.
Uma estrada longa demais para ser compreendida de uma só vez.
— Estás pensando demais de novo.
A voz de Cassandra surgiu ao seu lado.
Velian sorriu.
— É uma acusação injusta.
— Não é.
— Talvez um pouco.
Ela soltou uma breve gargalhada.
O som ecoou pelos corredores vazios.
Por um instante, pareceu afastar séculos de escuridão.
— Sabes — disse Cassandra — quando te conheci, imaginei que acabarias enlouquecendo.
— Ainda há tempo.
— Não. Agora não.
Velian voltou-se para ela.
A vampira mantinha os olhos voltados para frente.
Como se observasse algo distante.
Algo que apenas ela conseguia enxergar.
— Mudaste.
— Isso costuma acontecer ao longo de alguns séculos.
— Não dessa forma.
O silêncio retornou.
Velian percebeu que ela estava sendo sincera.
Algo raro.
Muito raro.
— Antes procuravas respostas porque estavas desesperado.
Agora procuras porque estás curioso.
— Há diferença?
— Toda diferença do mundo.
Continuaram caminhando.
As palavras permaneceram entre eles.
Velian não respondeu imediatamente.
Porque Cassandra estava certa.
Durante muito tempo suas perguntas haviam sido uma tentativa de escapar.
Do vazio.
Da solidão.
Da própria eternidade.
Agora eram apenas perguntas.
E isso as tornava mais leves.
Mais honestas.
Mais humanas.
Atravessaram uma enorme galeria onde estátuas antigas observavam os visitantes com olhos de pedra.
Algumas representavam reis esquecidos.
Outras criaturas que jamais existiram.
Outras ainda pareciam deuses tão antigos que nem mesmo seus nomes sobreviveram.
Velian parou diante de uma delas.
Uma figura feminina envolta por sombras esculpidas.
O rosto parcialmente oculto.
Os olhos voltados para o céu.
Nix.
Ou ao menos uma interpretação dela.
A Senhora da Noite.
A deusa que jamais lhe concedera respostas.
Apenas perspectivas.
Sorriu.
Talvez aquele tivesse sido o maior presente.
— Ainda pensas nela? — perguntou Cassandra.
— Às vezes.
— Encontraste o que procuravas?
Velian observou a estátua.
— Não.
— Eu sabia.
— Mas encontrei algo melhor.
Cassandra ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— Mais perguntas.
Ela revirou os olhos.
— Definitivamente continuas sendo tu.
Saíram da galeria.
Os corredores começaram a mudar.
As sombras tornaram-se mais finas.
O ar mais leve.
O Castelo estava liberando-os.
A despedida aproximava-se.
Ambos sabiam.
Nenhum comentou.
Até que alcançaram um dos grandes salões de transição entre mundos.
Ali, as realidades misturavam-se.
Portas conduziam a lugares impossíveis.
Séculos diferentes.
Dimensões distintas.
Sonhos.
Pesadelos.
Memórias.
O Rio de Janeiro aguardava Cassandra atrás de uma das passagens.
Fortaleza aguardava Velian atrás de outra.
Permaneceram alguns instantes em silêncio.
Estranhamente, aquela parecia a parte mais difícil da noite.
Não enfrentar monstros.
Não enfrentar conceitos transformados em horror.
Mas despedir-se.
Talvez porque os adeuses sempre carregassem uma pequena morte.
Mesmo para imortais.
Cassandra cruzou os braços.
— Então é isso.
— É.
— Continuarás procurando sentido para a existência?
— Provavelmente.
— Que atividade ridícula.
— Concordo.
Ela sorriu.
Um sorriso pequeno.
Quase imperceptível.
Mas verdadeiro.
— Toma cuidado, Velian.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Isso foi preocupação?
— Não exageremos.
— Claro.
— Apenas seria inconveniente perder alguém capaz de me proporcionar discussões tão irritantes.
Velian riu.
Uma risada sincera.
Daquelas que surgiam cada vez mais raramente.
— Sentirei falta dos teus insultos.
— Mentira.
— Um pouco.
— Melhor assim.
Por um instante, nenhum dos dois se moveu.
Os séculos compartilhados passaram silenciosamente entre eles.
Guerras.
Viagens.
Discussões.
Desejos.
Separações.
Reencontros.
Nenhum dos dois precisava mencioná-los.
Existiam.
E isso bastava.
Finalmente Cassandra aproximou-se.
Tocou brevemente seu rosto.
Um gesto simples.
Mas raro.
Talvez mais íntimo do que qualquer demonstração grandiosa.
— Continua vivo, Velian.
— Pretendo tentar.
— Ótimo.
Então ela atravessou a passagem.
E desapareceu.
Sem cerimônias.
Sem lágrimas.
Exatamente como Cassandra faria.
Velian permaneceu sozinho no salão.
Observando o espaço vazio onde ela estivera.
Por alguns instantes apenas respirou.
Ou algo próximo daquilo.
Sentiu a ausência.
Mas não como dor.
Apenas como consequência natural da existência.
Todos os encontros terminam.
Todos os caminhos se separam.
E ainda assim continuam valendo a pena.
Sorriu diante do próprio pensamento.
Estava se tornando perigosamente otimista.
Atravessou sua própria passagem.
E o mundo mudou.
Quando voltou a Fortaleza, a madrugada aproximava-se do fim.
A cidade permanecia desperta.
Como sempre.
As primeiras embarcações começavam a surgir no horizonte.
O vento espalhava o cheiro de maresia pelas ruas.
Ao longe, algumas luzes ainda permaneciam acesas.
Velian caminhou até a varanda do apartamento.
O céu começava lentamente a clarear.
Azul profundo.
Depois violeta.
Depois dourado.
O nascimento de mais um dia.
Durante séculos observara amanheceres.
Milhares deles.
Talvez milhões.
Ainda assim, continuavam diferentes.
Porque nenhum amanhecer era exatamente igual ao anterior.
Assim como nenhuma noite.
Assim como nenhuma pessoa.
Assim como nenhuma pergunta.
Encostou-se à grade da varanda.
Pensou em Cassandra.
Pensou em Nix.
Pensou nos monstros de Agonihria.
Pensou nos mortos.
Nos vivos.
Nos esquecidos.
Nos amados.
Pensou em si mesmo.
E percebeu algo simples.
O vazio continuava ali.
Sempre continuaria.
A eternidade continuava ali.
Sempre continuaria.
As dúvidas também.
Talvez jamais desaparecessem.
Mas já não eram inimigas.
Eram companheiras.
Parte da estrada.
Parte daquilo que o mantinha caminhando.
Ao longe, o sol finalmente surgiu sobre o Atlântico.
A luz espalhou-se pelo horizonte.
Velian observou-a durante alguns segundos antes de recolher-se para o interior do apartamento.
A noite terminara.
Outra viria.
Como sempre.
E, pela primeira vez em muito tempo, a ideia dos séculos que ainda o aguardavam não lhe pareceu um peso.
Pareceu uma possibilidade.
Uma pergunta ainda sem resposta.
E, estranhamente, isso era suficiente.
Fim.
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Ela
Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de nada da minha vida passada.
Quase nada. Apenas você.
A madrugada é o único tempo em que posso viver, agora que o sol se tornou tão doloroso quanto lembrar de você. Quando os humanos dormem, eu caminho. Quando os humanos sonham, eu caço. O mundo noturno tem leis diferentes para nós. As minhas são: a fome, a sobrevivência, o silêncio. Não me orgulho do que faço. Isso seria humano demais. Mas também não sinto culpa. A culpa morreu junto comigo, na noite em que me morderam e me deixaram sangrando num beco, esquecido por Deus. Agora sou só instinto. Quase só instinto. Porque você ainda está aqui. Não na minha vida, mas dentro de mim. Como um espinho que não posso arrancar. Como uma oração cujas palavras esqueci, mas cuja necessidade de rezar ainda sinto.
Toda noite eu saio. Toda vez que a fome me empurra para as ruas escuras, para os becos onde os vivos não se atrevem a entrar, lá encontro minha refeição. Não escolho minhas vítimas por maldade. Escolho por necessidade. Mas algumas noites… algumas noites o destino me oferece um presente. Foi assim em uma terça-feira qualquer.
Eu te observava de longe, mais uma vez. Como faço todas as noites. Você saiu do cinema mais tarde do que o normal, rindo com sua nova família, o cachecol preto balançando ao vento. Eu estava do outro lado da rua, na sombra de um prédio abandonado, invisível para você, como sempre.
Foi quando eu o vi.
Um homem. Acompanhava de longe. Não um amigo — eu conheço seus amigos, estudei cada rosto que se aproxima de você. Este era diferente. As mãos nos bolsos. O olhar fixo em você. O jeito de caminhar, lento demais, esperando demais.
Eu conheço esse tipo. Antes de me tornar o que sou, eu era apenas um homem. Eu via esses homens nas ruas. Eu sabia o que eles queriam. O que eles planejavam.
Ele esperou você. Esperou você entrar na rua mais escura, a que você insiste em pegar mesmo eu desejando, todas as noites, que você trocasse de caminho.
Ele acelerou o passo.
Eu também.
Não vou descrever o que fiz com ele.
Não porque me arrependo — e não me arrependo. Não porque foi difícil. Foi fácil, tão fácil que quase me assustou. O corpo humano é frágil quando confrontado com algo que não é mais humano.
Vou dizer apenas isto: ele não chegou perto de você.
Eu o peguei três quadras antes da sua casa. Eu o arrastei para um beco que cheirava a urina e morte. Eu olhei nos olhos dele enquanto ele tentava gritar e não conseguia, porque minha mão já estava em seu pescoço.
Ele tinha uma faca no bolso. Eu senti o metal contra minha pele quando o imobilizei. Uma faca. Ele ia usar aquilo em você.
— Você escolheu a mulher errada — eu sussurrei, com os olhos afiados e prazer na alma.
Ele não entendeu. Como poderia? Ele não sabia que você era protegida. Ele não sabia que, todas as noites, uma sombra caminhava atrás de você. Ele não sabia que o monstro das lendas era real e que aquele monstro amava você.
Eu o matei.
Sem culpa. Sem pressa. Com uma precisão que aprendi em décadas de noites solitárias.
Depois, limpei as mãos na parede molhada do beco e fui embora. O corpo ficou lá. Não era a primeira vez que eu deixava um corpo para trás. Não seria a última.
Mas esta noite foi diferente. Esta noite eu não matei por fome.
Matei por você.
Já nem sei quanto tempo passou.
Eu não mudei, não por fora. Mas não posso ter certeza, porque não vejo meu reflexo no espelho. Talvez eu tenha virado outra coisa. Talvez eu tenha virado ninguém.
Você, por outro lado… Você está diferente. Mais velha. Cabelos brancos, a pele enrugada. Ainda imatura de algum jeito, sempre foi assim… Seu jeito de rir, seu jeito de se irritar com coisas pequenas.
Mas ainda tão bonita quanto o dia em que te conheci.
Estou fadado à vida eterna sentindo sua falta. Por isso te observo todas as noites. Te vejo sorrir para outro homem. Te vejo se apaixonar por uma família que não posso ter. Te vejo viver uma vida que deveria ser nossa.
A dor não passa. Apenas se esconde. E volta mais pesada, mais cruel, mais torturante. Meu caixão não é apenas meu conforto. É onde aprisiono o choro e o eco das memórias que nunca terei com você.
A vida eterna não me abençoou. Ela apenas me amaldiçoou com a solidão.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Le Papillon et la Fleur
Retomo as lembranças daquele desgraçado dia na universidade! Dia em que minhas tragédias tomaram forma em pesadelos em vida e…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Dr. Christopher V. Walker II
(Anotações em seu caderno)
25 de agosto de 1871 — París.
Retomo as lembranças daquele desgraçado dia na universidade! Dia em que minhas tragédias tomaram forma em pesadelos em vida e se arrastaram pelos dias até o presente momento.
Torno a escrever minhas próprias memórias — sobre o dia 22.
Todos os eventos daqueles dias até agora ficaram terríveis na minha mente. Memórias que somente nessas folhas e com este lápis atrevo-me a confessar.
Minha jornada começou no distrito XIII, Gobelin, passando por Reuilly — XII distrito. As casas aqui foram algumas queimadas, atravessadas por projéteis dos canhões de campanha de 4 e 8 libras — sabíamos o tamanho dos projéteis pelas histórias dos que retornavam da guerra com a Prússia. Agora testemunhei com meus olhos e outros sentidos os efeitos dessas armas de destruição pelas ruas e casas de Paris.
— Ouvi tantos relatos durante a guerra contra a Prússia, que agora eu sou o que vai criar o relato. — Sussurrei para mim mesmo.
Foram tantos desvios de regiões tomadas por comunas e suas barricadas. Cadeiras, mesas, candelabros, paralelepípedos e até os postes, além dos sacos de terra para as barricadas. Tudo para impedir a mobilização dos soldados de Adolphe Thiers.
— Ainda creio estar entre os mortais? — Essas dúvidas persistem! Assim como as dores que ganhei tanto no corpo quanto na alma.
A luta tem sido tanta. A dor, a angústia e a penúria têm sido demasiadas.
— Os dias calmos agora parecem tão distantes, na linha do horizonte…
Tentava…
Me esforcei para evitar os conflitos!
Mas uma ou outra vez pelo caminho me vi diante do confronto direto.
A troca de golpes com soldados de sua majestade ou com os infelizes rebeldes da comuna. Na última vez que me vi num conflito, um jovem com uma baioneta, desferiu um golpe que achei haver evitado. Lutei como um cão faminto quando consegue carne e precisa defender a vida e seu bem precioso.
Corri, me escondi e me arrastei por entre destroços, corpos inchados, sangue com terra.
—Afirmo… Não nego que isso já é uma loucura. — Minha angustiante situação me fez tomar decisões estranhas.
“Piorado por sons estranhos, animalescos, inumanos que ouvi durante as noites.”, — Pensei, ao adentrar uma casa ao final da tarde. Se me lembro bem, sim, foi naquela noite dias atrás que rumores sobre eles começaram a correr pelas ruas.
Consegui um breve momento de paz. Havia um silêncio no ambiente que me soava estranho. Sinto o corpo esfriando, então… Uma agulhada cortando meu interior, do cotovelo ao ombro e depois aos dedos, correndo pelo meu braço… Dor!
Aquela sensação subiu intensamente como se fossem as ondas de disparo dos canhões da sua majestade. Encostei na porta e comecei a descer lentamente apoiado nela, senti sua madeira desgastada e áspera.
— Ah, droga. — Levo a mão do braço bom até o braço ferido. — Como…? Como não notei? — Rugi aquelas palavras entre os dentes.
Olhei para o braço. A manga rasgada estava escura, grudenta. Puxei o tecido com os dentes para ver melhor. Corte!
— Limpo… Sim… Pelo menos isso. — Tomo uns momentos para controlar a respiração. — Atingiu o bíceps... braquial, sim, essa é a palavra. Sorte que não pegou a artéria.
— Médico, lembra? — Um sorriso em meio à dor invade meu rosto. — Você é médico. Sabe o que fazer.
Foi como confessar segredos para comigo mesmo porque falar com as paredes era me soaria naquele momento delatar minha própria loucura.
Rasguei a barra da camisa. Amarrei-a firmemente acima do ferimento. Apertei até sentir o nó cravar na pele.
— Pressão. Aaaargh — Uma dor correu como um raio até a ponta dos meus dedos. — Primeiro… Oh, Deus… Pressão!
O sangue parou de escorrer como uma nascente. Respirei aliviado, mesmo com as ondas de dor percorrendo meu corpo.
Depois, limpar. Com quê?
— Água…? Onde nessa maldita casa terá água. — Me ergui com dificuldade, me escorando na porta, forçando ainda mais minhas pernas doloridas.
Passei a vasculhar aquela casa. O piso de madeira maltratado, desbotado e empenado. Móveis atirados ao chão. Cacos de vidro das janelas e das louças sobre grande parte do ambiente.
O som do ranger das tábuas a cada passo que dei, arranhou meus ouvidos, fazendo correr calafrios na espinha. Era como um monstro mórbido buscando amedrontar minha alma castigada.
Não havia água limpa…
Olhei dentro dos armários, correndo com os olhos. Quando no que estava num canto, na esquina, abri, dentro de uma garrafa suja, empoeirada. Dentro de um líquido verde fantasmagórico, não mais que meia garrafa, sim, absinto.
— Um doce remédio para um homem ferido e quebrado. — A voz saiu rouca e baixa. Meu rosto está esboçando o cansaço e o estresse. Mãos trêmulas, coluna doendo.
Antes de segurar a garrafa, caminhei até onde ainda havia uma cadeira intacta atirada ao chão. Coloquei-a de pé, encostada na parede ao lado do armário. Me sentei lentamente. Sentindo cada fibra muscular dura. Peguei a garrafa com a cor esmeralda.
— A primeira vai para o médico! — Abri a garrafa, o cheiro herbal e doce convidativo inundou meu nariz, tirei o pó do gargalo e logo levei a boca tomando um gole longo. — Aaaargh… Queima como o inferno! — Saiu quase como um rugido, o sabor doce e intenso tendo um contraste queimante na garganta, rasgando minhas entranhas.
Um gole de coragem e outro para o meu ferimento.
— Recomendação médica! — Sussurrei para mim mesmo.
Ardeu… Ah, sim, ardeu! Queimou, mas queimou tanto, que chamei todos os anjos do cânone.
— Isso vai doer por um longo tempo! — Eu me contorcia na cadeira suportando a ardência como podia. — Será que… Anton e o Marcel fizeram isso alguma vez enquanto estavam na frente de combate?
Busquei acalmar meu espírito.
— Quer parar de reclamar, doutor? — Gritei para mim mesmo naquela cozinha abjeta e escura.
Ri, num crescente, até gargalhar sozinho… Terminei num riso curto, amargo.
Pensei naquele momento: —“Médico ferido é pior que paciente.” Dei de ombros. O silêncio ambiente parecia uma redoma ao que ocorria em Paris. O cansaço deixou minha cabeça pesada, me fazendo apoiar na parede, de olhos fechados. Um novo pensamento me invadiu, “— Porque sabe exatamente o que pode dar errado.”
— Uma vez médico… Sempre médico!
Sentado naquela cozinha, as lembranças vinham em ondas. Não tive tempo para refletir com clareza sobre o que eu havia presenciado horas atrás.
Tomei outro gole da minha única bebida à disposição.
— Foi tão desolador… Ver os olhos perdidos daquela criança. — Me coloquei a analisar a cena. — A guerra arranca a alma de qualquer um, mas ver aquela monstruosidade foi além para aquela pobre criatura.
Seria aquele o pai dela?
Será que aquele dorso que foi queimado era alguém importante para ela?
A criança não… Ela não falou nada.
Ela ficou nos meus braços… Silêncio… Vazio!
Estamos do lado errado do céu?
— É possível…? Em algum nível?
Estamos tão condenáveis e reprováveis que as hostes infernais venham nos capturar?
Será que com suas mãos demoníacas de chamas condenatórias já estejam nos levando um por um?
— Oh, Deus… o que fizemos…? — Tomei um novo gole do líquido verde.
Lentamente sinto meu corpo relaxar, o coração se acalmou e a dor diminuiu. Os pensamentos ficaram tão distantes. Ao longe escuto o som de uma melodia tão suave e… Sim! Popular.
Estão… Alguém está cantando? Qual era…? Qual era a música? Ah, sim, “Le Papillon et la Fleur”.
— “Mas não, você voa longe demais! Entre incontáveis flores você voa, enquanto eu permaneço sozinha, observando minha sombra circular ao redor dos meus pés. ” — A bela melodia transbordou de minha alma até sair pelos meus lábios e me embalou o coração a um sono tão suave com lágrimas escorrendo em minha face.
Madrugada do dia 23 — Lembrar, revisitar essas imagens em minha mente é como tocar com bisturi uma ferida estranha que não encontra cura, apenas segue aberta e cheirando a queijo podre e rançoso, uma gangrena não tratada.
Eu caí num sono profundo, mesmo com todo aquele caos acontecendo, meu corpo apenas desmoronou naquela cadeira. Um sono sem sonhos. Sem perturbações. As poucas horas que mergulhei nos braços de Morfeu deram novo fôlego.
De sobressalto desperté. Um estado de alerta que não me era natural, se apossou de mim, como um espírito maldito e frio.
A garrafa estava ao chão, com seu interior parcialmente derramado. O ar tinha cheiro de “fada verde”, madeira molhada e um pouco de fumaça.
Primeiro, ouvi como se algo tivesse sido arrancado da casa. Depois, gradualmente soavam como se algo estivesse apertando a madeira da casa intensamente até ela estalar. Então, como se algo tivesse caído no piso superior, a poeira se soltou do teto com um som oco e pesado.
— Que diabos foi isso? — Sussurrei.
Comecei a buscar algo para usar como arma, observando as rotas de saída da casa.
Corri meus olhos no breu, até que a pouca luz das fogueiras na rua fez meus olhos notarem que havia algo perto da lareira. Me aproximei lentamente, tomando todo bom cuidado para assegurar minha posição. Aquilo parecia um atiçador! Sim, era. Feito de ferro fundido com duas boas pontas.
— Não sei o que está lá em cima, mas com isso tenho mais chances. — Uma certa calma tomou posse das minhas feições tanto quanto a segurança do meu espírito.
Caminhei em direção à porta pisando como um gato que busca um passarinho na janela aberta. Tomando todo bom cuidado para não provocar ruídos desnecessários e atrair o que quer que fosse que estava andando no piso superior.
Por Deus, meu coração galopava loucamente dentro do meu peito, apertando meus pulmões contra as minhas costelas.
Será que era mais uma estranha criatura que queima ao sol?
Olhei pela janela e o céu estava escuro demais até para ver as estrelas. Os astros estavam se escondendo dos olhos mortais naquela noite.
O que estava no andar de cima foi em direção às escadas que terminavam de frente com onde eu estava. Recordo de pensar, —“ Como eu não notei essas escadas?”. Olhei para a parte de trás da casa e dava para uma pequena janela que estava aberta. Olhei para a porta que estava fechada. Ela não estava trancada. Também nem poderia, o trinco está parcialmente quebrado, apenas uma ponta do ferrolho sobrou, qualquer batida externa arrebentaria aquilo.
Ao longe escutei o som do disparo de canhões, na sequência, as explosões, o barulho do disparo dos mosquetes. Gritos.
Meu cenário naquele lugar estava apenas ficando pior. A rua era quase uma reta, e no início da noite eu não lembro de ter visto barricadas nela.
O barulho externo parecia aumentar, o que já me deixava sem fôlego, novamente sendo pego no meio do conflito.
Olhei para o meu braço com o corte.
— Droga, minhas chances estão diminuindo rápido demais. — Rosnei a minha fala em voz baixa.
Então um rosnado na escada. Passos pesados.
— Meu amigo do andar de cima deve ser grande. — Sussurrei para mim mesmo e às paredes mudas e surdas ao meu redor.
Segurei o atiçador como se fosse um florete, só que mais pesado e rígido. — “Vou agradecer a meus amigos ingleses por terem me permitido umas partidas de esgrima no clube dos lordes.” — Acho que pensei isso na hora. Me faltou o gole de coragem para impulsionar meu valor.
Antes que minha decisão se formasse, na esquina da escada de canto, na parte superior de sua esquina, vejo surgir uma mão que parece humana. A respiração da coisa é pesada, há um grunhido animalesco soando.
Quando surge a coisa pela metade na parte superior da escada, seu aspecto é cadavérico, aquilo fica um tempo de perfil, quando decide seguir, ela vira seu rosto revelando olhos fundos com um estranho brilho esverdeado não natural.
Ela desce lentamente como se não tivesse pressa para fazer qualquer coisa. Observando… a mim! Quando ela chega ao fim da escada, pude ver melhor suas feições grotescas.
Além dos olhos, sua pele parecia branca demais, além de se assemelhar a um couro curtido e esticado. Sua boca esboçava um sorriso obscuro e malicioso. Ela emana uma presença aterradora.
— Por Deus, suas mãos…. — Minha voz falhou ou foi impedida de falar qualquer coisa.
A coisa tinha garras e o que pareciam presas. Das mãos a boca e o queixo gotejavam um líquido vermelho e negro.
Me correu um frio na espinha, um calafrio desceu da minha nuca até a ponta dos meus dedos. Me senti um felino diante de uma ameaça desconhecida eriçando os pelos.
Não sei sua origem, mas afirmo: não veio do céu muito menos deste mundo carnal.
Ele me olhava como se eu nada fosse, mesmo estando com atiçador numa das mãos. Não sei dizer se estava pronto para morrer, mas certamente eu queria muito viver.
A criatura seguiu seu próprio tempo brincando com a comida? Era essa a áspera sensação: eu era a próxima refeição dela!
Com um grito estridente que me fez doer os ouvidos até alcançar o cérebro, ela levantou seus braços na altura dos ombros com as mãos abertas e o peito descoberto. Ela não parecia temer minha arma e menos ainda a mim.
Avançando lentamente em minha direção, eu me preparei para o ataque. O atiçador pesava na minha mão. Sou médico, me dediquei uma vida para salvar outras. Nunca matei ninguém, aprendi a suturar feridas. Naquele preciso instante aquilo parecia ter uma diferença ínfima.
Num movimento a criatura avançou, abrindo a boca com quatro dentes longos e pontudos se projetando. Seu braço esquerdo fez um arco rasgando o ar, tal qual fosse uma foice. O defendi como era possível. O som metálico do encontro do atiçador com o corpo daquele monstro soava no ambiente.
Tentei dar um passo para trás… uma triste revelação… senti nas minhas costas a parede fria.
A criatura atacava de forma tão aleatória e estranha, que era perceptível sentir a maldade naqueles movimentos. Meu braço ferido começou a arder e doer com o suor do esforço, o sangue voltou a brotar da ferida.
— Argh! Criatura maldita. — Meus gritos eram para motivar meu espírito a seguir no combate.
A criatura no último movimento agarrou meu pescoço. A sensação daquela mão era de um frio polar, sua pele com textura tão ressecada, adornada com o odor fétido de sangue e gordura. Apertou lentamente meu pescoço. Olhei para ela, e com o atiçador ainda em minha mão, tive por intenção um golpe desesperado, que foi frustrado sem esforço pela criatura que agarrou meu braço, me fazendo derrubar minha única arma.
— Arrg….! Cri…aaa… turaaa….— Ele apertava minha traqueia como se eu fosse um boneco de palitos.
O ar começou a faltar. Minha memória daquele momento é aterradora, eu estava morrendo. Lembro dela se aproximando, ficando a poucos centímetros de mim. Como quem observa seu novo brinquedo sendo quebrado deliberadamente.
“Fraqueza. Pesar nos extremos. Visão ficando turva”. Comecei a listar os efeitos da privação do ar. Então quando estava sentindo que a esperança havia acabado.
Um som explosivo e estrondoso.
Um mosquete?
O vazio.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
PIGMEUS
Quando eu era criança, ainda na longínqua década de 1980, o temor que eu tinha da noite era algo tão terrível que quando o entardecer se aproximava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Devemos temer unicamente o que pode de fato nos causar dano, e o simples temor não pode fazer mal”. — Dante Alighieri
Quando eu era criança, ainda na longínqua década de 1980, o temor que eu tinha da noite era algo tão terrível que quando o entardecer se aproximava eu tinha crises de pânico que me tiravam até mesmo o apetite, independente de qual fosse o cardápio do jantar. As nuances das cores do amarelo e do vermelho dos raios de sol que se intercalavam entre si formando vários tons de alaranjado que hoje em dia eu vejo como uma prova inquestionável da existência de um Ser superior, que a cada entardecer nos presenteia com uma cena cada dia mais esplêndida, na minha inocência de criança era o prelúdio para mais um período de profundo sofrimento. O final de um dia e início de mais uma noite de profundo terror noturno.
Até hoje não sei explicar, – talvez nunca o saiba – o porquê eu tinha tanto pavor da noite. Às vezes imagino – em momentos de profunda reflexão – que esse incontrolável terror, pode ter sido causado pelas coisas que só eu conseguia ver, vagando pelas sombras da noite. Por mais que tentasse mostrar aos meus pais onde estavam e como tais criaturas eram, eles jamais acreditavam em mim. Sabendo que tentar convencê-los era algo inútil, decidi que deveria convencer a mim mesmo, que minha mãe – exemplo de doçura e sabedoria – estava certa, quando ela sempre me dizia que: monstros, assombrações, entidades e todas essas coisas do tipo, não existiam no mundo real. Que tudo era fruto de uma mente fértil que chegava a criar tais criaturas.
Mamãe, para tentar aplacar minhas crises de pânico, quando eu acordava toda a casa com meus gritos de terror, – e certamente, se minha voz tivesse a força igual ao medo que eu sentia meus gritos também acordariam toda a vizinhança – ela muito carinhosamente me dizia: – Seus olhos vêem aquilo que sua mente quer ver. Sabendo do amor que minha querida mãe nutria por mim, eu tentava de todas as formas me acalmar e me convencer que tudo o que via era fruto de minha imaginação. Contudo, eu sabia que todas aquelas criaturas eram reais, mas como ninguém mais as via, eu temendo me passar por uma pessoa mentalmente perturbada, decidi que eu deveria me silenciar quanto às minhas visões, e não tocar mais no assunto.
Certa vez, visitamos uma conhecida família, que perdera o pai para uma doença desconhecida. Um homem saudável ao extremo e forte como uma rocha, que da noite para o dia, contraiu uma infecção misteriosa que em questão de dias o levou à morte. Segundo essa jovem, a doença que matara seu pai, fora tão terrível que muitos de seus amigos e conhecidos, – até mesmo parentes mais próximos – não ousavam nem mesmo se aproximar dele em seus últimos momentos, pois os vermes já o estavam devorando, mesmo estando ele, ainda vivo. Dissera ela que, em suas últimas horas de vida, seu pai, sofrendo extraordinários ataques de pânico, aos gritos, implorava a todo o momento para que iluminassem o quarto – mesmo estando dia claro – pois, segundo ele havia terríveis criaturas o espreitando nas sombras.
Na volta para casa, minha mãe me questionou se eu havia prestado atenção no que nossa anfitriã havia nos contado. Quando eu dissera que sim, ela me alertou sobre o perigo daquilo que achamos que vemos escondidas pelos cantos sombrios. Suas palavras jamais foram esquecidas:
– Filho, não duvido de nada do que me dizes, mas não é porque eu acredito em você que os outros também deverão fazê-lo. Além de ser sua mãe, eu mesma também acredito que entre o Céu e a Terra existam muitas coisas estranhas e ainda incompreendidas pela mente humana, mas evite na medida do possível comentar com qualquer outra pessoa essas visões, para que não o tenham como um louco. Ver o que os outros não vêem o torna perigoso.
Depois da estória que ouvi, sobre um homem já experimentado em anos e que prezava do respeito de toda uma cidade, ter terminado seus dias tributado como louco, e pelos incansáveis conselhos de minha mãe decidi, que deveria silenciar as vozes e afastar aquilo que me atormentava nas trevas da noite. A última visão que tive, foi na vida adulta, quando eu já estava namorando. Foi algo assustadoramente constrangedor.
De visita a casa dos pais de minha namorada, – a primeira e última – assim que chegamos, estando todos sentados na varanda, fui educadamente cumprimentar a todos os seus parentes presentes no momento. Sem exceção de idade, um por um eu fiz questão de me apresentar e apertar a mão em um fino gesto de galhardia. Fui gentil com todos, inclusive com uma sorridente senhora que estava sentada numa confortável cadeira de balanço. Quando a cumprimentei com todo respeito e atenção que se deve ter a uma pessoa idosa, logo percebi que todos me olharam de forma assustada. Minha namorada, muito constrangida, logo me chamou num canto em particular e demonstrando estar um tanto quanto irritada, disse:
– O que pensa que está fazendo? Quer que meus pais pensem que o namorado da filha deles é um louco, um maníaco pervertido que fala com cadeiras vazias. Saiba, que quando eu disse para minha mãe qual era sua profissão – Professor de Filosofia – ela de imediato me questionou, se você não era daquele tipo de pessoa perturbada, que passa o tempo todo sob o efeito de substâncias entorpecentes...
Pedi sinceras desculpas, e disse que eu estava um pouco cansado, e que talvez eu pudesse estar confundindo a realidade, devido ao estresse causado pelo meu trabalho. Mas, assim que entramos na sala de estar, logo na parede de frente à porta de entrada, havia um enorme retrato da senhora a quem eu havia cumprimentado há pouco. Quando questionei minha namorada de quem se tratava a imagem do retrato, ela suspirando profundamente, me disse que era sua querida avó, a quem ela tanto estimava, mas que havia falecido há mais de cinco anos...
Na velha sabedoria de botequim, há um antigo provérbio que diz que os semelhantes se reconhecem apenas pelo olhar. Numa quente e abafada noite de meados de dezembro, após um estafante dia de trabalho, estava eu sentado numa velha banqueta, encostado num polido e gordurento balcão de um sossegado bar no centro da cidade, saboreando uma cerveja estupidamente gelada ao som de Belchior, quando um senhor se aproximou de onde eu estava e logo foi puxando assunto. Sem nenhuma cerimônia foi se apresentando e iniciou uma conversa por conta própria, – sem saber se eu gostaria de ouvi-lo, ou não – primeiro; falando do calor, da falta de chuvas, do custo de vida e por fim das dificuldades de se conseguir bons companheiros de trabalho. Como eu estava muito cansado e de cabeça quente, devido aos dias finais do ano letivo, fiquei apenas o escutando, e vez por outra interagia com ele de forma monossilábica.
Quando ele percebeu que tinha minha atenção, logo me questionou sobre minha profissão e se eu estaria ocupado nas duas próximas semanas. Respondi que era professor de Filosofia, mas que a partir da quarta-feira da semana seguinte estaria de recesso pelos próximos quarenta dias até o fim de janeiro. Sem titubear por nenhum segundo, me fez uma proposta de trabalho, que de forma alguma poderia ser recusada. Disse-me que era carpinteiro de telhados artesanais e que estava à procura de um ajudante, que lhe pudesse auxiliar por duas semanas, pois seu antigo ajudante havia sofrido um pequeno acidente e estaria indisponível por uns dois meses, talvez até um pouco mais – soube depois, que estava em coma profundo. Jamais trabalharia outra vez –.
O trabalho era no interior, numa fazenda afastada da cidade. Um lugar sossegado e bastante pitoresco para uns dias de descanso de uma vida atribulada de cidade grande. Fez-me uma oferta financeira bastante razoável, para quem não tinha nenhuma experiência com este tipo de ofício, e logo quisera me pagar metade do valor oferecido de forma adiantada. Após acertarmos os detalhes, ficou decidido que na quarta-feira seguinte, partiríamos para a tal fazenda onde ficaríamos até o término do trabalho.
Chegado o dia marcado, partimos bem cedo e antes do almoço já estávamos em nosso destino. Após nos instalarmos na casa onde ficaríamos alojados, depois de um improvisado repasto, ele disse-me que, meu dia seria devidamente pago e que eu poderia fazer o que bem entendesse naquela tarde. Ele por sua vez gostaria de descansar da viagem, e que se fosse possível, que eu não o incomodasse em seu sono vespertino. Aproveitei a tarde para ler, um dos livros que eu havia levado comigo – A outra volta do parafuso de Henry James, se não me falha a memória. Ele dormiu a tarde toda, só despertando no ocaso um pouco antes do início da noite. Após tomar um demorado banho, preparou nosso jantar, – galinha ao molho de pimenta – que fora servido acompanhado com um saboroso vinho tinto. – Lembrei-me de Jonathan Harker hospedado no Hotel Royal em Bistritz –.
Após o jantar ficamos conversando até tarde da noite. Ele me pormenorizou sobre seu passado, fatos que rememoravam sua infância mais remota. Acontecimentos de uma época em que eu ainda nem tinha nascido. – era ele um senhor de mais de sessenta anos – Percebi que ele tentava a todo custo me manter acordado com suas estórias, para lhe fazer companhia – uma espécie de Sherazade tupiniquim – Consegui me manter desperto até umas duas horas da madrugada, mas logo fui vencido pelo sono e pelo cansaço e acabei adormecendo na cadeira onde estava sentado, sendo despertado logo em seguida com gritos de pavor e desespero. Naquela noite não dormi mais do que meia hora ao todo, somando os pequenos cochilos que vez por outra me venciam, mas sendo logo despertado em seguida de forma abrupta.
Por três noites a fio, tudo se repetiu como na primeira noite. Eu já estava a ponto de um ataque de nervos. Por mais que eu tentasse de todas as formas, não conseguia dormir durante o dia. Ele por sua vez, iniciava sua jornada de trabalho às primeiras horas da alvorada e após o almoço, dormia quase toda a tarde, também me dispensando de meus afazeres. Depois de me certificar que aquele seu estranho comportamento estaria ligado diretamente ao mesmo terror noturno que eu enfrentara quando criança, decidi que eu talvez pudesse ajudá-lo. Sem deixar que ele percebesse, coloquei em sua bebida – que era de uso quase contínuo – dois dos comprimidos que tomava havia muitos anos para poder dormir uma noite de sono tranquila, sem ser incomodado por visões noturnas. O medicamento era controlado e bastava uma única dose para derrubar um cavalo. Como eu estava muito cansado, quis ser pragmático e lhe dar logo uma dose que eu sabia que seria mais do que suficiente para lhe proporcionar um pouco de paz.
Naquela noite nos recolhemos antes das oito da noite, pouco após o jantar ser servido. Aquele amedrontado senhor, meio que desmaiara em sua poltrona, com muito sacrifício consegui levá-lo para sua cama, – que até então só era usada durante o dia. Exausto como estava, logo adormeci pesadamente, sendo despertado por lamentosos gemidos de alguém que padecia um terrível sofrimento. Como há tempos, havia conseguido vencer meus temores noturnos, consegui me acostumar a dormir com a luz apagada, e naquela noite estávamos na completa escuridão. Quando olhei para a direção de onde vinha os gemidos, percebi que havia uma dezena de pequenos olhos amarelados ao redor da cama de meu companheiro, que por algum motivo parecia estar preso à cama sem poder se mover. Rapidamente acendi a luz e logo todos os olhos sumiram na mesma velocidade que a luz fora acesa.
Aquele senhor entrara numa espécie de catatonismo crônico, não conseguindo mais responder à realidade que o cercava. Num comportamento completamente ensandecido, mesmo estando com todas as juntas de seus membros inertes, ficava tentando se debater, como se unindo forças para se levantar e correr o mais rápido que pudesse e repetindo o tempo todo:
– Pigmeus! Pigmeus! Pigmeus...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
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⚜ Suspeita
Estou-me à rede, calma, descansando… | O vento é-se regélido e assoviante | E vem só d'uma fresta se apossando | Da noite no horizonte vigilante;…
Estou-me à rede, calma, descansando…
O vento é-se regélido e assoviante
E vem só d'uma fresta se apossando
Da noite no horizonte vigilante;
Mi'as pálpebras pesadas cerram lentas
E abrindo-se parecem relutantes;
Um sonho que à mi'a mente vem lamenta…
"Olá" — morbo sussurro no rompante!
No susto me arregalo os olhos: medo!
O escuro e nada mais ali se ajeita.
Respiro, pego as chaves, ainda quedo;
Estranha sensação me vem suspeita;
Emperro a porta, impeço sua abertura,
Abaixo-me p'ra olhar na fechadura:
É rubra a vil pupila que me espreita.
Sahra Melihssa
Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Muffins de Caramelo
Akily agradeceu pelas rosas de Alberto com um selinho. Jogou-as no lixo assim que se tocou que ele não voltaria, pois já voltara uma vez para lhe dar um segundo beijo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Akily agradeceu pelas rosas de Alberto com um selinho. Jogou-as no lixo assim que se tocou que ele não voltaria, pois já voltara uma vez para lhe dar um segundo beijo. Ela sorriu, reorganizando os ímãs na geladeira. Mas o sorriso se esmaeceu com peso na linha onde deveriam nascer rugas, e ela notou que alinhava ímãs já alinhados; que seu favorito estava descolando do esmalte ciano na porta do congelador.
Esqueceu de colocar o lixo para fora; agora os camarões podres teriam que esperar até o dia seguinte, aprisionados num cubículo de plástico quente junto das cascas de ovo e das rosas de Alberto. Passou aquele dia inteiro sozinha, embora não se sentisse assim. Começou preparando seus muffins de caramelo, cuja receita podia jurar que era primeira no mundo; separou a pasta em pequenas ilhas e as pôs no forno. Ligou a pequena Philco suspensa no teto num daqueles canais em que ela nunca sabia se as francesas discutiam ou se reconciliavam. Não é que, durante todos os séculos, não tivesse aprendido francês; havia parado de ouvir quando não lhe era necessário.
Havia passado o tempo correto. Ela abriu aquela grande boca de aço e sem querer queimou o polegar. A fumaça preta nunca havia saído do forno junto com os muffins. O sopro infernal subia tão agressivo que Akily largou o tabuleiro na mesa um segundo antes de espatifar no chão. Quanto mais a abanava, mais ela tomava formas distorcidas e dramáticas. Quanto mais a encarava, mais era encarada de volta; contornava seu corpo e encontrava seu rosto em algum ângulo imprevisível. Akily bufou. Não sabia quantas vezes teria checado a textura da massa antes de botar no compartimento pré-aquecido em toda a sua vida. Culinária vinha da mesma fonte que a música; um ajuste definia todo o corpo da receita, a melodia, a proporção; o que ela fazia com bolos de carne e tortas de maçã um século antes não era diferente, com exceção dos venenos açucarados extremamente gostosos dessa geração. Para ela, aquilo era felicidade com promessa e entrega instantâneas, seu estômago trituraria qualquer mal, as toxinas alimentariam seu sangue com vigor tal qual uma fruta colhida do pessegueiro alimentado com os restos da última bruxa de Salém.
Desligou a televisão. O francês a estava deixando com muito calor. Ouviu o barulho do lixeiro passando outra vez e abriu a boca, sentindo seu pulmão comprimir. Quando voltou à cozinha viu como o tabuleiro havia adquirido uma segunda pele de escamas marrons e pretas. Parecia a metade de cima de um dragão filhote, se eles não fossem mera fantasia. Enfiou seu dedo na massa e lambeu. O sabor familiar do caramelo em cubinhos nunca veio. A crosta de noz-pecã derretida amargou o céu da boca, mas o açúcar estava derretido o suficiente pela massa solada. Decidiu que estava bom. Apanhou uma mãozada e comeu assistindo seu reflexo cinza pela TV.
Ainda carregava satisfação em seu corpo quando resolveu se banhar à luz das velas aromáticas de uva, como se o caramelo tivesse escapado para o coração. Lembrou que devia beber logo do estoque novo de sangue, as três bolsas que guardara na geladeira junto da manteiga na promoção e o sangue quente que deixara no armário perto dos dois potes gigantes de creme de avelã. Faria isso assim que saísse do banho. Seu roupão fino permitia que a brisa gelada revelasse partes de seu corpo de que ela gostava bastante. Os cabelos, há muitos séculos retratados em pinturas agora engavetadas como liso morto, haviam conquistado ondulações suntuosas que refletiam as curvas de seus seios, coxas, dedos dos pés.
Pisou na água morna dentro da banheira, e só então se lembrou das pétalas de rosa guardadas num saquinho da loja esotérica dois quarteirões distante. Buscou-as e, num impulso que geralmente não lhe acometia, antes de notar que elas já murchavam, ao invés de jogá-las dentro da água: jogou-as para cima.
Estava submersa até a cintura; uma nova brisa gelada arrepiou sua clavícula, e sorriu de um modo que seus pelos se arrepiaram. Acabara de receber uma amostra do sopro de vida, tal como os seres vivos recebiam a água e o sol. O sol. Seu rosto contorceu, passando os dedos molhados pela barriga seca. “Se a vida é uma valsa cósmica que baila com o divino, a de um vampiro estará sempre um tempo atrasado, nunca sendo guiada pelas mãos do sol.” A frase da irmã ainda grudava. Ela não deixaria que a valsa parasse, mesmo assim. Seu coração se enchia tanto que enxergou sua condição com amor materno, tal qual um recém-nascido com uma alergia grave; mesmo que espirrasse, seriam espirros perfeitos, que a aproximariam cada vez mais do divino. Akily se levantou e fez os dedos contornarem a borda de alumínio do batente com bastante cuidado. Abriu mais a janela.
Depois que seus seios já balançavam na gravidade confortável da água, ela não sentiu vontade nenhuma de se tocar. Quando voltou para o quarto, havia decidido algo tão íntimo quanto seu nome ou quanto beber sangue.
Ao abrir o guarda-roupa de mogno antigo, dedilhou os vestidos suspensos no cabide e só parou em um daqueles poucos que nunca havia usado. Escolheu aquele azul com detalhes em marfim, que fora comprado num ato de altruísmo para sua irmã, antes que a dona cheia de pintas passasse na loja no dia seguinte. Se esqueceu de entregá-lo, afinal de contas, mas conseguia ver o rosto da irmã por entre as dobras de renda com cheiro de talco.
Demorou duas horas inteiras na frente do espelho da penteadeira, esfregando as cerdas macias pelos cabelos que passaram tempo demais no condicionador. Cheirava o sabonete em sua pele e depois dava um sorriso, seus olhos quase transbordando gotículas que faziam seus globos oculares doer. Sua barriga roncou. Pensar na bolsa de sangue fresca na geladeira pareceu tê-la saciado de quase todas as formas. Passou mais duas horas sentindo o quarto gelar com o ar-condicionado no 16. Lembrou-se do doce vento da Irlanda, a brisa gelada que arrepiou a pele quente e encheu o estômago de ar.
Só parou de alisar o lençol quando a palma da mão se irritou com a seda, e então repousou a cabeça de lado como quando dividia a cama com a irmã e deixou as pálpebras pesarem. Na manhã seguinte, quis ver a luz do sol pelo bumbum do tabuleiro de fazer muffins de caramelo.
Lavou a crosta doce com cheiro de açúcar artificial com força, afinal, não tinha tempo para compensar o vacilo de não o ter deixado de molho. Voltou para o quarto, calçou suas novas papetes roxas de borracha e vestiu a capa grossa de chuva com a qual recolhia as flores de Alberto diariamente. Caminhou fazendo barulho pelo azulejo do lado de fora e esticou o braço até o metal molhado encontrar a claridade do céu.
De repente sua varanda azuleou de tal modo que Akily se atribuiu asas. Estava voando por um verão sem nuvens, e então se deu conta de que havia tantos seres voadores no mundo. Podia fincar suas presas sorridentes e indolores nos corpos penados e ainda não faria a liberdade crescer em suas costas. Uma sobrancelha se levantou. Ela podia, claro que podia levitar. Mas não via graça nenhuma em manipular a gravidade com aquele formigamento todo na sola dos pés, na ponta dos dedos, das orelhas e pelo pescoço até o queixo. Ela queria voar como os anjos; mas não como nas pinturas no teto distante das catedrais em 1823 que tanto a irritavam. Detestava aquela leveza. Ela desejava os músculos eróticos que a conquistaram muito antes disso, que a tornariam uma deusa feita de curvas impossíveis; invejava o poder de voar até os céus com a promessa de ser um com o universo. No fundo, mesmo que não gostasse da ideia, sabia que seu voo pareceria muito mais leve do que gostaria.
Ainda contemplava em agradecimento a infinita luz azul, se perguntando se o sol era azul também, quando o tabuleiro escapuliu de seus dedos encapuzados. Seus ouvidos murcharam com o barulho estridente de um azulejo quebrado, o clarão do sol irradiando de uma forma que Akily se acuou para dentro da cozinha. Bateu a porta com tanta força que precisou conferir se a havia quebrado. Botou a mão no peito com os olhos arregalados. Não sabia o que dentro dela doía tanto. E então deu uma gargalhada desafinada e trêmula que expulsou o espírito daquela velha curandeira que lhe havia praguejado algumas décadas antes. Logo percebeu que respirava forçado demais, e ficou encarando o calendário da empresa de botija de gás enquanto sua alma, que voava tão alto, voltava para si. Teria esperado anoitecer para sair outra vez, mas sua garganta fechou; esperar algumas horas era tortuoso demais. Abriu a porta só mais um instante, um feixe de luz potente alcançando a geladeira ciano. Que luz poderosa e absoluta! Fechou a porta devagar e sem rir dessa vez.
Uma cólica tremenda a atravessou, a vista queimando. Um cheiro estranho e sinistro percorreu seu corpo. O lixo dentro de casa fazia aniversário. Se agachou para pegar o pote de Nutella, seu corpo pesando com exaustão. Foi para o quarto e ligou a TV. O francês piorou as dores no corpo. Passou o dia e a noite na cama.
Não se lembrava do sonho da madrugada, mas havia acordado com vontade de jogar mais pétalas para o ar. Ela viu o sol. Fechou os olhos com um sorriso bobo, quase como se pudesse ignorar as dores nas articulações. Por um momento, se imaginou novamente refletida naquela imensidão azuleada do céu da hora do almoço. Era quase como se tivesse memórias infantis que envolvessem dias solares encantados, embora soubesse que estava terrivelmente enganada. Preferia não ficar se corrigindo o tempo todo.
Tentou se levantar. Seu corpo não quis. Então espirrou tão forte que seu peito a fez deitar de novo. Em que momento havia resfriado? Passou a mão pelos braços, o rastro doendo até as dobras dentro da pele. A porta da cozinha devia estar se sentindo exatamente daquele jeito, foi o que pensou. O pote de creme de avelã havia deitado para dormir com ela e, por sorte, tivera sua boca fechada antes de ambos pegarem no sono. No fundo da colher ainda tinha Nutella, então ela a tomou na boca enquanto abria o pote outra vez.
No final do mesmo dia, estava tão faminta que precisou ir se arrastando com seu robe de seda rosa até o armário da cozinha. Embora seus cotovelos ainda lhe fossem fiéis, suas pernas tremiam como varas, e ela pensou que ter dado aquela risada histérica lhe havia custado caro; espantara espíritos importantes, que tomavam conta dela. Quando chegou no armário, percebeu como havia acumulado poeira no tecido fino. Arremessou o braço para dentro e rasgou a bolsa com a força que lhe restava. Virou-se para cima e deixou a cabeça descansar no travesseiro duro que era o chão do armário. Inclinou o líquido tão menos gostoso que avelã em direção à boca, mas seus braços fracos derramaram a primeira dose no colo do roupão.
Seu pescoço se levantou para abocanhar o corte no plástico, o sangue recheando sua boca por completo. Seu corpo mexeu um pouco. Ela tomou todo o sangue antes de lembrar de respirar, depois sentiu um espasmo fazendo-a contorcer como se despreguiçasse finalmente. Balançou os pés por um tempo, sentindo a dormência sendo expulsa, as unhas em vermelho descascadas. Estava completamente abastecida, o que a irritou profundamente. Conseguiu se levantar, xingando o roupão todo sujo. Ela não tinha deixado o chão imundo como parecia, aquilo não era verdade. Abriu a torneira e tomou água até que o gosto de ferro se dissipasse. Quando fez o movimento de jogar o restante da água na pia, sentiu que as juntas ainda reclamavam. Voltaria à loja esotérica para comprar mais pétalas depois que o sol se pusesse, mas antes das seis, se melhorasse. Compreendeu que era melhor, no fim, dormir em seu caixão naquela noite.
Ela só tirou o rosto do fundo estofado vermelho depois de algumas semanas; o velho despertador cismou de funcionar, e era sua primeira vez naquele ano inteiro, então Akily entendeu que era um sinal. Deu um pulo quando conferiu o horário; as cinco e meia da manhã na verdade eram cinco e meia da tarde, e então ela subiu pela escada em caracol até o quarto e trocou de roupa. Prendeu o cabelo, calçou a papete. Jogou o lixo podre no latão da rua. Catou o tabuleiro no chão da varanda. Havia esquecido as chaves dentro de casa; encostou o portão e saltitou com bastante convicção até a loja Bruxa Boa. Resolveu comprar uma balinha de cada tipo que pendia ao lado do caixa, a atendente dando piscadas tão demoradas que a tornou confortável em espiar tudo o que havia. Ah, vou levar essa mandala, também. Passou tudo no crédito pelo celular.
Fechou o portão e trancou a porta com carinho. Esticou a mandala pela mesa da cozinha, lamentando não ter um furo na parede para pendurá-la em sua cama. Comeu as três balinhas de alga de uma só vez, tendo certeza de que as cores diferentes não mudavam o sabor. Se o barulho do metal caindo ao chão não fosse tão alto, faria o sol aparecer pelo tabuleiro na tarde seguinte de novo. Abriu a barrinha de alfarroba e fez uma careta, depois pressionou o gosto com a língua até o céu da boca. Estava melhor do que seu muffin fracassado. Quando foi tomar banho para jogar as pétalas para o alto, passou pelo seu quarto e viu o pote de Nutella. Levou-o consigo.
O vapor do banho não queria subir, ruminando o calor dentro da água e transformando a banheira numa panela de cerâmica branca. Akily mergulhou lentamente, equilibrando a colher e o pote enquanto deixava a pele ceder e, quando os seios desceram, o perfume de rosas transbordou e molhou o tapete felpudo. Ao fundo, ouviu uma televisão vizinha alta, ligada na mesma novela que passava na Bruxa Boa. Deu um sorriso manso e levou uma colher cheia até a boca. Depois da segunda ou terceira colherada, resolveu que não precisava de doce para ser feliz, então a depositou no chão e inspirou profundamente. Encarou a janela, imaginando que tinha feito a noite se tornar manhã, recebendo o sol diretamente no rosto. Pensou que o calor que a cozinhava era dele, somente dele, e se pegou mordendo os lábios. Observou as pétalas que caíram com ela, tão murchas como a ponta de seus dedos, seus bebês com alergia grave. Ficou séria durante todo o resto do banho, seus olhos pesando tão pouco que ela mal precisava piscar.
Saiu da banheira, despediu-se da janela e foi para o quarto. As pegadas não a incomodariam daquela vez. Vestiu-se com o corpo ainda molhado, aquele vestido azul com rendas marfim que usara pela primeira vez semanas antes. Somente agora parecia entender tudo. Ousou rodopiar na frente do espelho da penteadeira. Sua irmã a teria puxado para dançar se lhe tivesse contado a descoberta. Colocou as mãos na frente da boca e rodopiou mais algumas vezes. Encarou-se no espelho como se não reconhecesse seus traços, embora ainda se achasse muito bonita. Talvez fosse um pássaro, quem sabe um Anjo. Era aquele passo que faltava em sua valsa.
Fez novos muffins, mas o caramelo havia sido orgulhosamente trocado pelo creme de avelã. Akily havia descoberto uma nova maravilha no mundo.
Aproveitou que ainda era antes das onze e ligou para Alberto. Dessa vez, não quis que ele a buscasse de carro, afinal, ela era a imortalidade encarnada, foi o que concluiu depois de séculos. Esqueceu a chave outra vez, mas fechou com firmeza a porta e o portão. Seus cabelos ainda escorriam e faziam cócegas molhadas pelas costas quando fez seus pés formigarem. Começou a levitar apenas o suficiente para o asfalto não machucar, e então foi levando seu corpo para frente. Mas o formigamento não valia a vagareza, portanto se atirou para o céu tão rápido que a fez se contorcer de frio. Como era bonito o bairro que escolhera para morar, pensou, à noite; apenas algumas luzes douradas acesas, sem o crescimento vertical excessivo das metrópoles poluídas. Desceu bem na frente da casa de Alberto e entrou sem tocar a campainha.
Alberto a tocou com paixão. Ela já lhe avisara que viajava às vezes, e ele compensou cada segundo de saudade com estocadas firmes. Akily o deixou admirar a pele nova sem que ele percebesse: ela não era mais como conhecia. Estava mantendo a virgindade de seu novo eu. Imaginou como seria enxergar o sol. Não era como se ela visse um fiapo de raio se esgueirando minutos antes do amanhecer para lhe beliscar a bochecha ou um clarão idiota num tabuleiro idiota. De forma alguma era aquilo. Sua boca se tornou passagem de gemidos molhados quando pensou no sol a enxergando de volta. Ele abriria os olhos, talvez um de cada vez, ou os dois ao mesmo tempo. Compreenderia suas feições, a cor de sua pele, e lhe diria com quem ela se parecia mais: a mãe ou o pai. Ela já não se lembrava, mas derreteu nos braços de Alberto, imaginando que se parecia mais com a mãe.
No dia seguinte, vestiu sua capa de chuva por cima do mesmo vestido azul e buscou as flores no correio. Rosas vermelhas. Não as jogou fora, porque aquele novo ser gostava muito das rosas vermelhas de Alberto. Na verdade, gostava dele como um todo, o suficiente para passar no banco e transferir a ele uma boa quantia do seu dinheiro secular antes de voltar para casa e se arrumar. Tinha um encontro, afinal de contas.
Preparou uma pequena lancheira da época de quando as escolas começaram a aceitar mulheres como alunas. Era o tipo de quinquilharia que ela não sabia para que guardava, mas preferiu não se julgar naquela situação agora que lhe era tão conveniente. Arrumou uma refeição com dois sanduíches de queijo e manteiga, depois foi até o banheiro, pegou o pote e enrolou mais dois pães-de-forma no creme de avelã. Faltava algum líquido, mas ela sabia que podia parar na banquinha logo antes de pegar o trem e comprar uma Coca-Cola. Guardou também o buquê de rosas.
— Desculpe, senhorita. Nós acabamos de fechar.
Akily não conseguia entender como a estação de trem tinha tão pouca opção na parte da noite. Então ela engoliu em seco e moveu lentamente seu polegar. O dono da banquinha perdeu qualquer expressão nos olhos, tornando-se o que Akily não gostava muito. Ele enfiou a mão com Parkinson no bolso largo da frente e buscou pela chave correta. Abriu a porta minúscula e barulhenta e catou uma latinha de Coca-Cola e uma garrafa de água com gás, as mais geladas que havia na geladeira e as depositou no chão sujo da estação. Ela segurou as bebidas e as limpou na barra do vestido azul. Abriu a água e deu uma golada, depois guardou as duas na lancheira e seguiu para a plataforma. Só deixou o homem retomar o controle depois que o fizera caminhar para bem longe, esperando que o tivesse guiado pela direção que ele pretendia.
Era 22:22 quando ela recebeu uma mensagem de Alberto. Estava fora de si, escrevendo palavras quase irreconhecíveis. Alguém havia mandado três milhões para a conta dele. Estava com medo de ser testemunha ou cúmplice ou mandante de algum crime, mandou áudio dizendo que seu coração doía. Akily pôs a mão no peito e se lembrou de quando o dela também doeu, compreendendo que o que sentira ao ver o sol no tabuleiro foi a sensação absurda de sorte que Alberto sentia agora. Mandou uma mensagem fazendo-o prometer que não contaria para ninguém que o dinheiro saíra de sua conta. Não queria que ele morresse, nem de preocupação nem de felicidade. Por fim enviou uma selfie e, sem esperar visualização, bloqueou a tela. Quando ouviu o trem que ela precisava pegar chegando na estação, jogou o celular no trilho e se preparou para embarcar.
Somente lá dentro conseguiu sentir um pouco de calma para observar o redor. Tudo o que existia na frente da vidraça manchada era um adolescente que ocupara seu lugar no banco. Desviou o olhar tão naturalmente que se esqueceu que tinha a intenção de observar. Aproveitou o assento de madeira bem alto e ficou mexendo as pernas descalça como estava, fazendo carinho na gola do vestido, enquanto encarava os homens de chapéu passando rumo a outra plataforma. A estação não era tão bem iluminada quanto a cidade vista do alto pelos seus pés formigantes, e concluiu que os limpadores não deviam receber tanto.
Quando o trem iniciou sua jornada às Dunas Múrmuras, algo dentro dela despertou uma felicidade extrema, como se Alberto a tivesse entendido. Como era prazerosa a nova carne recém parida, ainda nascente como sol do dia seguinte. Ela chegaria no deserto às 4h da manhã. Apanhou um sanduíche de queijo e manteiga já de olho no de Nutella. Sentia uma fraqueza sutil roendo seus braços. Abriu a Coca-Cola com um estalo orgulhoso e observou a paisagem como se a visse pela última vez. Sabia que em breve a pequena cidade seria substituída por uma série de construções cheias de janela, fumaça preta invasiva, trânsito que ela morreria dez vezes antes de pensar em pegar. Depois de algumas horas, jogou seu corpo para o lado e fingiu que o estofado vermelho era o interior de seu caixão.
Acordou com um formigamento e se assustou, pensando que estava tentando levitar dentro do trem. O breu que tomava conta do lado de fora só não a engoliu de vez por causa das luzinhas simpáticas que costuravam o tapete da cabine. Podia ter trazido um livro, ou até mesmo seu Kindle, se tivesse compreendido, antes, que seu novo eu gostava bastante de ler. Desceu na estação correta e estranhou ter sido a única. Colocou a lancheira nas costas e levitou lenta.
Akily sabia que precisava se afastar o máximo possível do trilho em linha reta. Logo tudo o que conseguia ver era a fina lua no céu, a aliança que o dia entregara para a noite como prova de seu amor. Seu dedão do pé bateu num monte mais volumoso de areia, e então ela percebeu que estava na hora de levitar mais alto. Atirou-se para frente numa súbita empolgação, o coração palpitando. Não sentia aquilo há mais tempo do que conseguia contar. O deserto brincava com seus olhos, de forma que parecia haver muitos pontos de luz colorida dentro da escuridão azúlea. Era como ir de encontro com o nada, sentindo a brisa fresca furando a pele com grãos gelados de areia. Eram tão virgens quanto ela, acariciando a face de um ser vivo pela primeira vez na vida, foi o que escolheu pensar. Sentiu-se fraca outra vez. Se já não estivesse no coração das Dunas, ao menos estaria em seu pulmão.
Deixou seu peso cair na areia quando percebeu uma leve declinação. Abriu a lancheira para retirar o buquê, acabou devorando logo os dois sanduíches cremosos antes que apodrecessem. Fechou os olhos, e cada vez que os abria, uma nova onda de claridade laçava seu corpo e a fazia tremer. Qual delas era a verdadeira face do Sol?
Ela vibrou quando se lembrou dele. Estava o evitando desde quando saiu do caixão, mas cada centímetro de sua pele nova gritava por ele, ansiava por sua aparição como os povos na época que ela nasceu. Falou seu nome em voz alta, depois seu queixo tremeu e sua risada virou um choro dolorido de sair dos olhos. Olhou para as pétalas que faziam cócegas no colo e sorriu, vendo que seu choro havia azuleado algumas das rosas vermelhas.
Um vento fez o corpo de Akily se expandir até sentir frio. Ela inclinou o rosto para não respirar areia, mas conseguia senti-la dançando entre os fios do cabelo. Seus olhos lacrimejaram outra vez. Enxergava tudo e qualquer coisa em sua frente. As dunas remetiam às catedrais com tetos que tanto lhe irritavam. As cordilheiras pareciam repetir as curvas de seu corpo, infinitas fileiras de areia moldada pelo vento, organizadas como nuvens num céu renascentista. Estava se casando. Fechou os olhos, sentindo uma fraqueza sem fim, e viu Alberto como um padrinho feliz, contente com o presente que acabara de receber na conta. Mas, do começo da passarela onde estava, Akily ainda não via seu noivo.
O arranjo no buquê continuava azulescendo; as rosas que já haviam azulescido antes tinham miolos distorcidos em marfim, como se Akily segurasse pequenas caveiras. Ela só não se lembrava em qual momento havia planejado um buquê daqueles. Mas não tinha problema; uma noiva deveria se lembrar de mil coisas e esquecer outras mil.
E então ela enxergou.
Ele não abriu um olho ou dois. O fogo galopava no horizonte trêmulo em cima de um cavalo dourado e forte. Akily gemeu quando sentiu a testa queimar, seus olhos incapazes de compreender o que via, ao passo que compreendia absolutamente tudo. O mundo era dourado para os que voavam.
Seu pescoço quase não se moveu, seus ossos rangendo conforme ela executava qualquer gesto. Somente ela podia se casar com ele, guardou aquela certeza em seu coração quando percebeu que não segurava mais o buquê. As duas rosas ainda vermelhas se derretiam em sangue pela areia. Num espasmo, as arrematou de volta e as lambeu, o gosto de ferro revigorando seu ser com um fogo quase tão ardente quanto o de seu futuro marido.
Seu estômago se revirou em ânsia; algumas cinzas inconvenientes tomaram a vista, mas, quando se viu livre delas, estava leve, como os anjos que tanto desgostava, e começou a rir. O fogo irradiava de seu peito para o deserto, seus olhos cegos por um clarão que a tomava inteira. Era a noiva mais linda, sairiam dizendo isso. Ela recebia o Sol impiedoso. Ele a atravessava crua. Não reconhecia aqueles pedaços de pele que rolavam com o vento forte sobre a areia fina.
Ela era toda Dourado, ela era toda Anjo, e recebia a coroa solar sobre o cabelo de fogo, na pele virgem que havia parido para ele.
Quando ele a segurou e a levou pelo horizonte em brasa, Akily enfim revirou os olhos e deixou uma última lágrima escapar, esquecendo-se de todos os muffins de caramelo que fez na vida.
Sophia Kaiser
S. Kaiser é escritora de ficção gótica contemporânea, fascinada por vampiros que parasitam o cérebro humano em forma de culpa e desejo. Sempre escreveu sobre ferida que grita antes que a palavra a decifre, geralmente na perspectiva do monstro rejeitado, tentando seu máximo para não romantizá-lo na vida real. Fortemente influenciada pela melancolia de Louis em “Entrevista com o Vampiro”, pela narração visceral de “Império do Vampiro” e pela complexidade psicológica de Dostoiévski e Clarice Lispector. Atualmente, revisita sua obra para relançamento na Amazon. » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Cantos de Magöhorror
As almas e as sombras, na noite aprisionadas, | Pela frígida névoa de Magöhorror, | Em marfins retorcidos, já desgastados, | Seguem o fluxo lento de antigo horror;…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Canto I
As almas e as sombras, na noite aprisionadas,
Pela frígida névoa de Magöhorror,
Em marfins retorcidos, já desgastados,
Seguem o fluxo lento de antigo horror;
Onde o anil turvo, por laços consagrados,
Une vida e morte em torvo esplendor;
Canto a saga em versos sombrios e graves,
De almas zumbis em seus cânticos suaves.
Canto II
Vede o rio, que d’além do tempo emana,
Bioluminescente em brilho azulescido,
Sua essência que a razão humana engana,
Como um saber arcano já esquecido;
Onde a fauna e a flora em forma insana
No terror mórbido surgem despidos;
Entre brilhos metálicos e aridez fosca,
Enquanto a própria vida se torna grotesca.
Canto III
Nas flores surgem rostos pareidólicos,
Dos olhos verte sangue em vão lamento,
Em versos que ecoam, quase bucólicos,
No vento frio que sopra sofrimento;
Criaturas outrora belas e melancólicas,
Perdem ao rio espectral seu alento;
Mortas ou vivas vagam no fundo,
Bioluminescência a guiar novo mundo.
Canto IV
Dunas Múrmuras, de areia e de pavor,
Sopram ventos que contam contos de dor,
Fábulas mortas, sem traço de amor,
Sob noite azúlea em frígido calor;
No Oásis Vil surge encanto traiçoeiro,
Atraindo as almas por falso roteiro;
Onde sede e fome se encontram famintas,
Entre criaturas das sombras distintas.
Canto V
Jardins de Olga, de viridário mágico,
Sensíflora estranha que o horror replica,
Cercam o alcácer em destino trágico,
Onde o Castelo Drácula se fortifica;
Pinheiros tremem em rastro nostálgico,
Gritos de arbustos que o sono prejudica;
Enquanto o azul da morte paira no ar,
E a decadência começa a reinar.
Canto VI
Vede os zumbis, de pele já rachada,
Sangue negrume estagnado nas veias,
Sua existência é triste jornada,
Entre solidões nadificantes teias;
Saem dos túmulos em marcha penada,
Por instinto vagam nas noites alheias;
Tentam amar com coração inerte,
Enquanto o diabo em riso se diverte.
Canto VII
Bebem seus próprios prantos em lamento,
Sonham sem dormir em eterno tormento,
Atraídos por sombras no barlavento,
Memórias do que não foi em esquecimento;
A vida em Magöhorror segue escura,
Na bioluminescência da noite impura;
Grãos de existência no vento lançada,
Como poeira na noite estrelada.
Marcolongo Ricardo
Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
O Que Sobrevive Quando o Nome Perece - Capítulo III
Minha pele se arrepia, meu cabelo escuro balança, tateio os sentidos. Sob a luz pálida da lua e o aroma inebriante da Cestrum nocturnum, imagino um círculo de…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Minha pele se arrepia, meu cabelo escuro balança, tateio os sentidos. Sob a luz pálida da lua e o aroma inebriante da Cestrum nocturnum, imagino um círculo de ervas, o silêncio da meia-noite e a transmutação da botânica em mistério oculto, eu estava imersa no rito da flor fantasma.
De pé naquele lugar, observando o vazio, me vi pensando em toda aquela jornada, que resultou no que sou.
— Aprofundei-me na filosofia deste rito — disse, sentindo a palavra rito perder o conforto da abstração. — Uni a ciência da carne à linguagem dos símbolos. “Mas não para compreender” — pensei. — “Compreender é um luxo da luz.”
Inspiro profundamente, um ar levemente úmido e frio.
— Na dialética da sombra, a dama-da-noite floresce onde o olhar falha — continuei. — Ela exige silêncio. Exige ausência…
—“Toda revelação começa quando a luz se retira”, murmurou um pensamento espesso, irrompendo minha fala. — “O conhecimento não nasce do ver, mas do suportar”. Parecia lógico, tão lógico que me fez ficar sem chão.
— E…Ela não se propose à prudent — acrescentei, a voz já sem calor. — Apenas aos que permanecem. — “Aos que ne dèviez pas do escuro da própria alma” — completei por dentro. — “Aos que aceitam… que algo…. pereça… para que outra coisa… pense.”
Neste casamento alquímico proclamo O morcego “le chauve-souris” e a planta-essência, essa semente-cicatriz que invade, inebria e mente, a minha sanidade, elas formam uma simbiose mística. Ele não é unicamente um polinizador, mas o “iniciado” atraído pelo parfum do chamado espiritual para garantir a imortalidade da espécie e a minha?
Nas sombras onde a nuit tece seu véu. Ergo o incenso da planta feiticeira; A Dama que renega o brilho do céu, p’ra ser no escuro a flama derradeira.
Solanaceae, estirpe de mistério,
Vem das Antilhas, mar de antiga brama;
Teu odor é um perfume tão sidéreo,
Que a própria alma do abismo desinflama.
Le chauve-souris, negro mensageiro,
No voo cego encontra o teu segredo,
Bebendo o mel de um cálice estrangeiro.
Ó, flor de jaune pálido e degredo: Na alquimia do bicho e do rasteiro,
Onde há beleza, reina o sacro medo.
O ar não era mais oxigênio, era uma sopa espessa de pólen e espectros. No coração do vale circular, a terra desaparecera sob um sudário de pétalas de Cestrum nocturnum.
Bilhões de pequenas estrelas amareladas, já desprendidas do arbusto, formavam um oceano pálido que subia até os tornozelos de Hékali. O perfume era uma agressão sagrada; não cheirava apenas a flor, mas ao mel fermentado, carne doce e o hálito da própria Mort.
Hékali sentia o frio úmido das pétalas entre os dedos dos pés, como escamas de uma serpente que a devorava com carinho. Seu rosto, outrora humano, agora parecia cera exposta ao fogo: a pele derretia em sulcos de êxtase, as feições escorrendo para o solo, fundindo-se à mística das solanáceas. À sua frente, a Matriarca. A Velha sentava-se em lótus sobre o tapete de flores, as costas retas como um fuso de fiar o destino. Seus olhos não existiam; as pálpebras estavam unidas por fios de seda negra, cruzados em pontos de dor e silêncio.
“Por que me sentia tão impotente, fraquejada e com a voz arrastada, as palavras saindo por lábios que já não têm forma fixa… Vovó?” — Me inundou esse pensamento.
— Vejo o que a luz escondeu por milênios, Grand-mère. — Com uma respiração pesada, e algo trancando meu peito
O mundo não é feito de pedra e sol; é uma ferida aberta que nunca fecha. Sinto as pétalas nos meus pés como dedos de crianças mortas. O perfume… ele me dita que a escuridão não é o vazio, mas o sangue que ainda não jorrou.
“Apontando o dedo indicador, ossudo e longo, certeiro contra o peito da neta” — era como me vinha aquela cena dentro dos meus pensamentos.
— Écoute! — Um grito numa voz cansada saiu. — O mundo está prenhe de bocas que não falam, mas sugam. — Um breve silêncio. — Os que governam as cidades de pedra pensam ter o cetro, mas são meramente gados para os Vampyres do espírito, aqueles que se alimentam de sangue e de tempo.
Ela parou para retornar sua fala de oráculo.
— A escuridão é o único manto real. Tua mãe... tu te lembras do gosto do fim dela? — Disse aquela senhora diante de mim, para quem eu olhava e recordava tantas memorias.
“Cai de joelhos, as pétalas subindo-lhe às coxas como uma maré...” — Minha mãe foi colhida como estas flores. Ela tinha o cheiro do medo e da lavanda. Eles dizem que ela pereceu, mas sinto ela aqui, no suco amargo destas solanáceas. O sangue dela não secou na terra; ele virou seiva.
Por que a deixaste partir para o reino das sombras sem o teu guia?
— Porque a Mort não é um erro, neta minha, é uma coroação. Tua mãe não foi levada; ela se ofereceu como polinizadora deste campo. Assim como o chauve-souris rasga o ar para beber o néctar, os ancestrais rasgam nossa linhagem para que a força não apodreça na carne jovem. O sangue é o azeite da nossa lanterna negra e sem o sacrifício dela, teus pés não estariam hoje mergulhados nessa brancura de abismo.
“Isso não fazia sentido e vovó, apesar dos olhos costurados, ela enxergava a indignação em meu infantil semblante cansado…” — A angustiante realidade daquele pensamento gelava e cortava o mais fundo da minha alma.
— Vovó Uranai, o mundo lá fora… eles gritavam de pavor! — Meus olhos expressavam o terror, o medo sincero. — Eles acendem velas para espantar o que somos. Eles temem o semblante derretido, temem o aroma que nos embriaga.
“Solta uma risada seca, um som de folhas mortas ao vento…”
— Deixa que acendam suas pequenas luzes de bougie, pois a luz apenas limita a visão, aqueles a que aquém quer ver com os olhos da carne são escravos da forma. — Ela suspirou, parecendo carregar pesares passados. — Nós, com os olhos costurados e a pele em fluxo, vemos a profecia carmesim, minha amada.
Ela parou e observou-me, com carinho incomum, uma ternura maternal. E retomou o raciocínio.
— Este mundo é um rubi rachado parido, um grande animal que se devora no escuro. Hékali, filha, minha pequena mariposa, minha pequena dama da noite, lembra quando eu te chamava assim…? — Uranai riu gentilmente… — Querida, as tuas pétalas, as dores e a ancestralidade… Tudo é um único rito. Sentes o cheiro…? O que ele te solicita agora?
“Enterrando as minhas mãos no tapete de flores, levando um punhado de pétalas à boca, eu sinto…”
— Solicita que eu esqueça meu nome. Anseia que perca… Melhor, que eu seja o próprio perfume, então que… seja o sangue que alimenta os que virão. Je suis la nuit!
— Então silencia, neta, deixai que a Dama-da-Noite termine de te devorar. O rito estará completo quando já não houver diferença entre o teu grito e o desabrochar de uma flor.
Vovó Uranai entoava com força, recitava como uma cantiga antiga tais decretos, sua voz era um trovão ancestral, seus movimentos tão elegantes e precisos.
Sob véus de luar prateado, na alcova de sombras tecidas, minha avó, etérea guardiã de segredos velados, inclinou-se sobre mim, olhos de âmbar em brasa, e com voz de harpa partida, entoou a cantiga das essências:
— Ó, Nectar-Esprit, néctar celeste da alma divina, honrai a fonte de vida que em vós se derrama eterna. Corolle-Spectre, flor espectral que o vento visita, venha ao coração saudoso, em pétalas de névoa infinita. — Sua voz vinha com uma melodia tão intensa, profunda. — Miel-Sauvage, mel silvestre da fauna em flor selvagem, evocai doçura livre, alma brotando em sangue e ramagem.
Ela pausava a voz. Ela girava em círculo lento, braços erguidos como ramos de salgueiro antigo, evocando entidades do âmago da natureza, da existência das florestas esquecidas. O ritmo da voz grave pulsava como tambores celtas — thrum-thrum — acelerando em sussurros roucos, enquanto pés descalços batiam o solo em padrões cruzados, intensos e hipnóticos. Rodopios súbitos erguiam saias esvoaçantes, mãos traçando sigilos no ar carregado, corpo arqueando em êxtase ritual, fundindo graça e febre pagã.
— Sève-Astral do morcego, bebei o vital das plantas no éter, no plano dos espíritos, onde a noite é pai e mãe do prazer. — Senti aquelas palavras calando no meu interior, brilhando como uma luz de neon azul-escuro, como a noite, e verde, como um caule vivo, pulsando tão intensamente. — Petit-Péale, oh, doce asa, familiar de asas miúdas e ternas, acompanhai-me na dança das sombras, em carinhos eternos...
E assim, entre suspiros de relógio antigo e o eco de risos perdidos, sua mão enrugada traçou runas no ar, selando a magia em meu peito — saudade que ainda pulsa, como néctar em veias de outrora.
Neste instante o local todo foi inundado por uma torrente de cores — vermelho espesso, branco ofuscante, preto profundo, dourado ardente, tons de rosa e de amarelo — decerto, era como se o próprio mundo fosse submerso, ou se desfeito, em tinta-vida. Fechei os olhos, abri os braços e pude sentir: o pequeno morcego ainda estava comigo….
Quando abri os olhos, eu a vi, ao longe se despedindo com um sorriso sereno. Ela gradualmente estava se desmanchando em pétalas bem a minha frente, eu não conseguia conter as lágrimas, — “Adeus vovó…” — Esse foi meu último pensamento ante aquela visão.
Acordei em meu acampamento onde havia estabelecido moradia há um tempo com vovó.
Amava aquele lar, um ninho, um aconchego humilde. Meu coração, ele crepitava assim como a fogueira. Já temia o pior. Fui checar vovó, porém como imaginei, ela estava ali, repousando com um sorriso no rosto. Fiz os preparos do funeral. Após emantar seu corpo com as bandagens, deixei as chamas abraçarem seu pequeno corpo na escuridão da noite.
Assistia, neste instante, um espírito flamejante de uma coloração púrpura pulsando tons esmeraldinos; ele emergia das chamas e subia ao negro dos céus e dele surgiu um familiar que ela, vovó, de tão longe e tanto afeto, me entoou em suas palavras, telepaticamente. Senti, seu nome ecoar em todo meu ser, ele era Écho-Fleur.
Ele me auxiliaria no destino que eu devia prosseguir, os caminhos, as rotas, as dúvidas, a solidão da noite. Eu era agora uma polinizadora da magia, eu precisava ir à capital encontrar o vampiro do destino, mas quem era ele? Será que Écho-Fleur me entoaria a profecia corretamente? Eu precisava seguir meu coração.
Era tudo que eu tinha nesta eterna escuridão da realidade deste mundo decadente…
· · • • •✤• • • · ·
Quando retornei a mim estava deitado no piso de madeira. Uma imensa dor de cabeça. Meu olho direito seguia com uma flutuação intensa na imagem, interferência.
Me ergui com dificuldade. O corpo pesava, além de sentir uma rigidez.
Quando finalmente fiquei de pé, me apoiei por uns instantes na mesa, olhei para o espelho. Aquela imagem veio à tona, tão intensa, tão fervorosa. A sombra feminina refletida.
A dor de cabeça aumentou com aquela memória. Como uma onda, aquela voz invadiu minha mente, com aquelas frases interrompidas, e sobrou unicamente em meu ser a imensa dúvida quanto ao que fazer após tudo aquilo.
— O que será que foi tudo aquilo? Aconteceu realmente? — Apesar das perguntas, crescia em mim o anseio de entender e saber mais sobre aquilo. — Então só me resta ir na direção que ela me disse. Se for problema logo vou saber.
Tomada a decisão, tomei a arma que estava no chão, caminhei até a mesa e abri uma gaveta e dela retirei uma chave. Coloquei-o em minha cintura e nele minha arma. Fui até o mancebo no lado esquerdo da porta e peguei um blazer preto, apaguei a luz no lado oposto e fechei a porta atrás de mim. Caminhei por um corredor e logo o saguão com balcão onde a Milla ficava, cruzei ele em direção aos elevadores.
Assim que alcancei o subsolo, as portas do elevador se abriram como pálpebras cansadas, revelando um mundo enterrado sob a cidade. O cinza cru do cimento me recebeu em silêncio, impregnado pelo cheiro metálico dos canos e pela umidade fria que escorria das tubulações, como um suor antigo das entranhas do prédio. A luz era baixa, mansa, quase íntima — não feria os olhos, somente envolvia.
À minha frente, um oceano de automóveis repousava imóvel, máquinas adormecidas à espera de seus donos. Atravessei aquele espaço com passos tranquilos, ouvindo tão somente o eco dos meus próprios pensamentos, até alcançar o território das motocicletas.
Foi então que a vi.
Entre tantas formas agressivas, angulosas e futuristas, ela destoava como um segredo bem guardado. Uma Sportster S, azul-escura como um sussurro lançado na calada da noite. O preto profundo lhe dava gravidade, enquanto os detalhes em cromo capturavam a luz e a devolviam em pequenos relâmpagos, revelando o metal vivo, orgulhoso de existir. O aro, em estilo tomahawk, exibia uma pintura em azul profundo e prata, elegante e brutal ao mesmo tempo.
Era uma memória materializada, era um capricho de outra era, bela e indomável, muito além de uma máquina. Um capricho de outra era, bela e indomável. Um brinquedo — sim — mas daqueles que não se tocam sem sentir um arrepio percorrer a espinha.
Dei a partida. Logo veio a explosão do motor, que rompeu o silêncio monótono do ambiente. Dei uma leve acelerada, e aquilo realmente me rendeu um prazer único. Acendia as luzes. Movi lentamente a moto para trás até deixar direcionada para a saída. Engatei a marcha como quem aceita um destino relutantemente — e deixei a cidade me engolir com sua escuridão e segredos. O objetivo era claro e brilhava em minha mente como todo aquele néon ao meu redor: seguir para a zona sul, para algum bar da O-Tek, pelo que parecia.
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados. Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra. O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva. Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos. “Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Diário de Dr. Christopher V. Walker
Paris, dia 24 de agosto de 1871. — Escrevo sobre a manhã do dia 22 de agosto, e seus eventos póstumos. Os tempos de paz me parecem tão distantes. Obliterado pela…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Dr. Christopher V. Walker
(Anotações em seu Caderno)
Paris, dia 24 de agosto de 1871. — Escrevo sobre a manhã do dia 22 de agosto, e seus eventos póstumos. Os tempos de paz me parecem tão distantes. Obliterado pela sombra das colunas de fumaça da madeira queimada, com um cheiro acre de pólvora, sangue e fezes.
Ao longe posso escutar os tambores dos militares e os gritos da comuna. Mal avançamos uma semana desde os fatos que fiz questão de relatar ao Anton, e já me vejo envolto em novo caos.
As comunas pareciam por algum tempo haver desistido… uma doce ilusão de um médico.
Imagens daquela noite nefasta ainda provocam tremores neste pobre corpo e se somam aos medos vindos das ruas de minha querida Paris.
Resolvi registrar os eventos nesta terra de Deus. Uma ferramenta a que recorro para manter a sanidade, o equilíbrio e a esperança de que passem esses ventos e dias melhores venham. Contudo ao que vejo, do que recebo de notícias, esse desejo me parece cada vez mais distante.
Anton meu amigo, torço, com todas as forças que ainda me restam, que onde estiver encontre mais paz do que aqui… já que os inocentes deste lugar... são atormentados pelo tiro de mosquetes, das explosões das bombas como pelo fogo atormentador.
Tornou-se impossível sair para fazer qualquer coisa.
Há alguns dias saí do meu quarto com mil olhos e ouvidos, para evitar zonas de conflito. Mas não importa por qual viela, rua ou praça que se caminhasse haveria soldados, ou comunas, ou comunas e soldados se enfrentando.
Caminhei por poucas quadras como se fossem mil léguas em marcha cautelosa, porque a fome ainda é um excelente motor para superar o medo do risco de ser alvejado.
Ao chegar no açougue, coloquei-me a selecionar o que mais me apetecia. Ainda assim, meus ouvidos chamam a minha atenção a qualquer som incomum.
Então escutei um soldado que estava na porta do açougue, junto a outros quatro homens fardados numa conversa, a princípio, descontraída.
— Ouviram que numa das ruas próximas de um mercado no Norte, uma patrulha foi atacada por esses malditos baderneiros da comuna… — Por um breve momento parecia que o homem alto de cabelos loiros e olhos aquilinos tinha receio de seguir o relato. — Disseram… santo Cristo… que um dos atacantes avançou desarmado… que em sua boca os dentes eram como de um animal, e suas mãos pareciam de um demônio…
Todos se entreolharam, até que outro dos soldados tomou a palavra.
— Ora… que isso David! Está ouvindo historinhas de crianças contadas pelo sargento Dubois. — Ele soltou uma gargalhada, que fez o clima tenso se dissipar. Depois pegou um naco de salsicha defumada e deu uma bela mordida. Os demais igual riram. — Quer dizer que, além da comuna nos infernizando, temos que nos preocupar com monstros ajudando os inimigos?
— Ah, Thomas, quem me contou foi um dos que sobreviveram da patrulha atacada. Se fosse o Dubois eu contaria como uma piada e não com essa seriedade. — O rapaz claramente ficou vermelho de raiva.
De todos, ele parecia ser o mais jovem. Batendo a caneca de ferro fundido que tinha nas mãos — cujo líquido, derramado dela, parecia cerveja por causa cor.
— Haha… — Outro dos soldados ria em voz alta com a boca cheia de pão e queijo semicomidos. Começou a falar de boca cheia. — David deixe o menino em paz. — Ele terminou de falar e engoliu como um bom glutão. — Olhe, Alexander, nesse momento, muitas histórias estranhas vão ser contadas. Em sua maioria mentiras.
A atenção de todos recaiu sobre aquele homem imenso de tão alto e rechonchudo. Sua expressão era serena, apesar da cicatriz na face indo da sobrancelha até os lábios.
— Tá… tá… está bem. Apenas queria distrair o novato inocente. — Falou o soldado David em tom de deboche e uma cara de fuinha louca.
Devo dizer que ouvir aquilo gelou a minha alma. Um homem que tinha dentes e mãos como de uma fera selvagem… sim… sim… poderia ser.
Saí do açougue com umas poucas compras até o meu quarto. A jornada foi imersa em pensamentos e reflexões sombrias.
— Aquele jovem chamado… David… sim. Disse que foi uma patrulha ao Norte. — O pensamento que começava a ganhar forma em minha mente já causava arrepios, até que as lembranças daqueles monstros na faculdade e dos seus gritos me fizeram parar por um par de minutos.
— Tenho que me recuperar. — falei para mim mesmo. Quase me senti um louco fazendo aquilo no meio da rua.
Eu não iria sozinho buscar um perigo daqueles.
Óbvio… muito óbvio…
Precisaria de ajuda, e não de qualquer ajuda.
Alguém… uma pessoa, sim! Que tenha visto e participado comigo e que não duvidaria de minhas intenções e pensamentos.
· · • • •✤• • • · ·
Dia 22 de agosto à tarde — Recorri à única pessoa que me era familiar para aquela situação. O oficial Joules. Este homem que compartilhou comigo… a maldita experiência… a mais nefasta de toda a minha vida.
— Meu amigo Anton, se um dia tiver acesso a este diário espero que não fique chocado com o que encontrar. Torço por sua compreensão quanto a estes fatos que narro aqui.
Tomei o rumo para a delegacia onde Joules trabalhava. Na esperança de que ele estivesse disponível e disposto a participar de uma empreitada que para poucos podemos dizer ser convidativa.
De minha casa até a delegacia, de carruagem, seria trinta minutos, no entanto, com toda a baderna dos conflitos dentro de Paris, encontrar esse transporte se converteu em algo impossível.
Então tive que me aventurar por vielas e ruas caóticas. Desviando de áreas que estivessem com conflito deflagrado.
Por umas quantas vezes… Nessa curta viagem pelas entranhas de uma Paris em banho de sangue. Pude presenciar a angústia e desesperança encarnadas em rostos infantis. Era como ver anjos deprimidos e perdidos, caídos em meio a pólvora, a pedra e o sangue.
Mulheres correndo com suas crias na intenção de protegê-las, homens guarnecendo suas janelas e portas na vã tentativa de evitar o confronto.
Corpos estirados nas vias, com seu cheiro peculiar de podridão e morte. Ratos correndo por sobre eles e dentro deles.
Pobres almas saqueando corpos mortos e moribundos. Um cenário angustiante e doloroso. Por algumas vezes fui pego no meio do conflito das facções e tendo que desviar dos projéteis de ambos os lados.
Num dado ponto da jornada fui forçado a invadir uma casa, que por infeliz surpresa havia uma jovem senhora com suas crianças.
— Ca… calma! — Minha voz estava entrecortada de tanta correria. O peito não conseguia se encher de ar, as narinas ardiam com o cheiro da fumaça; limpei a fuligem da roupa e o suor da minha face. — Não vou fazer mal a sua família.
Uma das crianças começou a chorar de medo. A mãe gritou alguma coisa que eu realmente não… não consigo recordar… ou não posso… sei que deveria!
Sei que o que fiz a colocou em perigo iminente e nem lembro da voz dela.
Logo atrás de mim, na casa da frente, uma explosão das bombas dos granadeiros nos fez cair ao chão com a onda de choque.
— Ahhhh… ahhh… — Por uns momentos… ali naquele chão de madeira empoeirado, sujo e desgastado, senti um zunido forte nos meus ouvidos, o coração acelerado somado à dificuldade de respirar.
Mal pude recuperar minha razão, percebi o ar denso, cheio de fumaça e fuligem.
— Ah… que dor em meu estômago… — Caí sobre algo. Senti cada músculo, até as fibras do meu cabelo doíam. Sentia a fadiga.
Me ergui como pude, tropeçando em meus pés, como se estivesse bêbado; corri para a porta para fechá-la da melhor maneira possível pensando em proteger aquela família.
Apenas escutei o choro desesperado das crianças, e a mãe entre tossir e chorar dizer algo que pudesse acalmar as crianças.
Me virei e olhei aquela cena, mas em minha mente havia um objetivo maior. Eu tinha que chegar até Joules.
— Vocês estão bem? — Sei que disse isso… ou gritei. Naquele momento ambas as coisas pareciam uma só.
Meus ouvidos começaram a ouvir novamente com clareza, sem o som irritante.
Me apoiei nos joelhos tentando recuperar o controle, enquanto do lado de fora se ouvia os disparos, os gritos de ordem.
Então um grito no andar superior da casa que me fez gelar. Era diferente do que estava acontecendo do lado de fora. Era… de terror.
Olhei para a mulher, que tinha uma expressão de não entender a razão do grito. Da escada apertada na lateral da sala da casa, se ouviu o som oco de algo rolando escada abaixo, até parar no térreo, atrás de uma pequena mesa com cadeiras caídas no chão.
Estava ali diante dos nossos olhos.
Levei uns momentos para entender o que era aquela massa diante de nós.
Ao me aproximar um pouco, pude perceber a parte superior de um tronco humano que parecia ter sido cortado ao meio por alguma lâmina.
— Mas… o que é isso? — Meus olhos se arregalaram, e minha mente tentava traduzir aquela imagem. — Isso… isso não… não pode ser!
Quando notei que o corpo gotejava um líquido mais escuro... preto! As memórias vieram. — Meu Deus… — Minha voz falhou neste momento, levei a mão à boca.
Minha cabeça seguia a escada, o que me fez olhar para o teto e um temor em meu coração cresceu.
Do andar de cima um grunhido feroz soou.
Não tive dúvidas, olhei ao redor e para o fundo da casa, foi quando notei que havia uma porta para um pátio traseiro, e que estava aberta.
— Co… corram. Corram para o fundo! — Foi um grito desesperado.
Não pensei muito, tão somente obedeci minhas pernas e meus instintos de sobrevivência. Avancei na direção da mulher e seus filhos. Todos se levantaram e correram para o fundo do ambiente. Tomei uma das crianças nos meus braços — que chorava e me abraçava, chamando por sua… sua… mãe. Oh, Deus! Como lembrar disso me atormenta, me angustia a alma.
A mãe tomou a outra criança até cruzarmos a porta.
Chegando ali, olhei para trás com aquele bebê em meus braços; observei aquele monte de carne no chão da casa da pobre mulher.
— Por favor, que eu esteja errado… Por favor, Deus… — Eu não consegui respirar direito, o peito doía, o ar com fumaça dificultava ainda mais. Os músculos tremiam de cansaço e dor. O corpo… aquele ser… humano?... Não, não sei afirmar… se ele era humano…
Ali no chão… Aquilo começou a vibrar fortemente, os braços se contorciam. Havia um cheiro forte de podridão no ar. Não sei dizer se vinha dele, ou do conflito… suponho que de ambos… Aquela cena não pertencia ao mundo de nosso Senhor.
— Aquilo poderia ser algo vindo do inferno para atormentar a humanidade? — Então… por um momento… um breve instante... aquele ser… parou.
Um silêncio mortal imperou.
Nem disparos, gritos ou mesmo explosões se ouviam. O mundo ficou num silêncio ensurdecedor. Os segundos pareciam levar décadas para avançar.
Logo, do andar superior, vindo pelas escadas, um som de passos pesados... descendo... quebrando aquela frágil redoma de ausência de som.
Naquele momento o desespero aumentou. Uma sensação de que algo abissal estava vindo, sim, algo que eu já havia possivelmente presenciado.
Por uma graça que só posso atribuir ao divino, a nuvem de fumaça negra que estava cobrindo o céu sobre a casa — e a região — passou a se dissipar gradualmente. Aos poucos, os raios amarelos surgiram dentro da casa, como uma luz gloriosa avançando divinamente. Cobrindo progressivamente; da cabeça até a parte faltante do corpo.
Aos poucos o corpo parecia incendiar-se, faíscas saíam de todas as partes, o ser abriu os olhos vermelhos e a boca com dentes pontudos. Começou a se debater empurrando a mesa para o outro lado da sala, e pude ver bem, chamas saindo de seu interior, sua pele se escurecendo como carvão... lento... e claramente fatal para a coisa.
Quando me dei conta, a mãe… ela… estava ao meu lado com o outro filho em seus braços, observando aquela mesma cena hedionda.
A pobre criança que estava comigo… oh, a pobre e inocente criatura estava estática em meus braços, com os olhos fixos no corpo no chão.
Parecia que algo havia sugado sua essência angelical.
Pus a criança no chão; a mãe sem dizer nada tomou sua mão e logo se colocou a andar em direção a um corredor que dava para uma via lateral e, então, à rua de trás.
Ver os olhos… sim… aqueles olhos da criança sem reação, mortos. Me rompeu… quebrou minha alma. Nenhum desses inocentes deveria ver algo tão terrífico como aquilo. Aquela imagem vai perturbar minha mente pelo resto de minha vida.
— Meu Senhor, o que foi isso? Que coisa nefasta é essa que corrompe a natureza? — A angústia tomava minha voz, consumia meu interior.
Aquele momento me fez derramar lágrimas. Derrubando muros que construí.
No andar superior se ouviu que algo foi rompido, como uma explosão. Claramente algo saiu correndo, já que se ouvia seu avanço de parede em parede.
Aqueles estrondos fizeram minhas lágrimas cessarem, parte da razão retornou à minha mente, ainda havia mais coisas ocultas.
Dentro da casa restou apenas um corpo carbonizado… um silêncio e um vazio… como se ali já não houvesse qualquer vestígio do divino.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
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Pigmeus — A Origem
Naquela noite não consegui pregar os olhos novamente, pois fiquei por horas tentando chamar aquele senhor de volta à realidade. Quando percebi que minhas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Legião é o meu nome, porque somos muitos.”.
Marcos 5:9
Naquela noite não consegui pregar os olhos novamente, pois fiquei por horas tentando chamar aquele senhor de volta à realidade. Quando percebi que minhas limitações não permitiriam fazer nada por ele — a não ser lhe fazer companhia —, após deixar todas as luzes da casa acesas, peguei um dos meus livros, sentei-me ao seu lado e iniciei uma interessante leitura na companhia de Hercule Poirot, que deveria desvendar um mistério sobre fantasmas, bruxas ou coisas do tipo. Talvez tenha sido a noite mais longa da minha vida. Em menos de duas horas de leitura, a estória já havia terminado; mesmo assim, a noite ainda continuava fria e bastante escura lá fora. A única coisa que poderia fazer era esperar o dia clarear para ir em busca de ajuda.
Vez por outra, eu ouvia barulhos estranhos, tanto no telhado sobre minha cabeça, como por sob o piso assoalhado abaixo de mim. Pareciam ser dezenas de pés correndo de um lado para outro no mais completo desassossego. Tentei me convencer de que era apenas um bando de ratos famintos, que sempre empesteiam velhas casas de fazenda, mas algo me dizia que eu estava redondamente enganado. Mesmo tentando afastar de meus pensamentos qualquer menção sobre terríveis criaturas da noite, eu ficava me lembrando das últimas palavras daquele inerte senhor, — que agora estava sobre a proteção das luzes acesas e, sabendo que havia alguém velando por ele, dormia pesadamente. Na verdade, nunca saberei se seu sono era devido à dose cavalar de calmante que eu havia lhe dado, ou pelo susto que tivera ao acordar e perceber que os tais “Pigmeus” o observavam na calada da noite. Algumas dúvidas me vieram à cabeça…
— Quem ou o que eram esses Pigmeus? Eram seres malignos? Que mal poderiam causar a um ser humano? Essas questões me atormentaram pelo restante da noite. De certo modo eu sabia que o termo “Pigmeu” se referia aos habitantes de uma nação imaginária onde as pessoas não tinham mais de um côvado de altura. Eu ainda me lembrava das esplêndidas aulas de História da África ministradas pelo professor Luís Carlos. Ele adorava mesclar fatos historiográficos com crenças populares que, segundo ele, eram tão válidos quanto qualquer fato científico. Mestre Luís dizia: “... A sabedoria popular é a mãe de todas as ciências. Antes da escrita, veio a fala. Há inúmeras verdades nos relatos dos mais velhos, suas estórias são carregadas de um velado misticismo que esconde inúmeros mistérios de um tempo a muito esquecido...”.
Decidi que assim que conseguisse ajuda para aquele pobre senhor, eu me encarregaria de fazer uma aprofundada pesquisa sobre esses tais pigmeus; quem sabe até mesmo fizesse uma visita ao meu velho e saudoso professor — isto é, se acaso ele ainda estivesse vivo. Quem sabe ele conseguisse me ajudar de alguma forma, com alguma informação que talvez eu não pudesse encontrar nos livros. Até aquele momento, — de uma forma bastante equivocada — eu me enxergava como uma pessoa que deveria ter algum tipo de problema em discernir a realidade com aquilo que minha cabeça pudesse criar. No entanto, o fato de conhecer alguém que temia tanto a noite quanto eu mesmo, e também saber que essa pessoa — um senhor de idade que parecia ter um caráter completamente ilibado — via coisas que outras pessoas não poderiam ver, mas que eu também vi; me fez perceber que o mundo é um lugar mais perigoso do que a maioria das pessoas possam acreditar, pois estamos rodeados de criaturas, fatos e fenômenos que estão bem acima de nossa humilde compreensão.
Assim que o sol raiou, abri todas as portas e janelas da casa; pude perceber que a casa estava toda iluminada pela luz da manhã, então fui em busca de socorro para aquele meu amigo que dava mostras de ter se desligado por completo do mundo. Antes de deixá-lo só, ainda tive o cuidado de verificar se ele ficaria em segurança, mas por mais que eu tentasse interagir com ele, não havia nenhum tipo de resposta de sua parte. Mesmo percebendo que eu me preparava para deixá-lo só, ele nem um pouco se inquietou, pois sabia que agora estava sob a segurança da luz do dia e nenhuma criatura da noite poderia vir a atormentá-lo. Senti em seu olhar — mesmo vazio — o mesmo desejo que eu tinha quando era criança: fazer a manhã durar para sempre, sem necessidade de um entardecer.
Querendo uma solução rápida para aquela situação, e sem mínima vontade de passar mais uma noite naquela casa, caminhei por alguns quilômetros e logo consegui ajuda numa casa às margens da estrada. O proprietário, que muito cortês veio me atender ainda na porta de entrada, disse-me que teria imenso prazer em ajudar. Convidou-me para entrar e tomar uma xícara de café, enquanto ele colocava uma veste mais adequada para ir até a cidade. Em menos de duas horas já estávamos dentro do pequeno hospital da cidade. Meu velho e recém-conhecido companheiro seria transferido para a capital, pois seu caso era grave. Mesmo com toda a deficiência de um hospital interiorano, fora possível — devido a abissal competência do médico que o atendeu — um diagnóstico de catatonismo crônico. Esse mesmo diagnóstico fora corroborado depois, por uma junta médica da capital após vários exames detalhados do paciente.
Em seu laudo dizia que o caso era bastante grave e momentaneamente irreversível, muito possivelmente o paciente jamais conseguiria discernir a realidade novamente. Um choque psicológico tinha o reduzido a quase um vegetal. Era triste ver o fim daquele tal amável senhor. De certo modo eu me sentia um pouco culpado, afinal fora eu que dera os comprimidos para ele beber. E também fora eu mesmo quem apagara as luzes que ele tinha todo o cuidado de manter sempre acesas. Sorte minha que ninguém mais sabia disso. De alguma forma o efeito do álcool em seu sangue potencializou o efeito do calmante sem deixar nenhum vestígio que pudesse ter sido identificado por algum exame. Sua própria filha me agradeceu pelo cuidado com seu pai e me tranquilizara dizendo que sabia que mais dia menos dia algo daquele tipo poderia acontecer. Segundo ela, seu pai bebia demais, exagerava no café e quase não dormia direito...
Depois de uma noite bastante tumultuada e de um dia que se iniciou com muitas desventuras, cheguei em casa completamente exausto. Eu que deveria retornar apenas duas semanas depois, em menos de cinco dias já estava de volta. Minha vizinha — uma viúva, solteirona e sem filhos, que vivia sempre me oferecendo mil favores — havia ficado responsável de olhar minha casa e regar minhas plantas enquanto eu estivesse fora; ela logo se assustou quando cheguei. Estava justamente, naquele momento, na varanda da frente, terminando de regar minhas samambaias quando eu abri o portão. Depois de um grito acompanhado de um risinho malicioso, ela me disse:
— Ora, ora, ora! Não é que esse reflexivo pensador retorna para o seio de sua amada... O que aconteceu? Dissesses-me que ficaria fora por duas semanas...
— Houve um acidente! O senhor que me contratara teve algum tipo de ataque, derrame ou coisa que o valha que me impossibilitou de terminar o serviço. Estou chegando agora do hospital, onde o deixei internado, agora sob a responsabilidade de sua filha. Parece-me que ele não conseguirá terminar essa obra nem qualquer outra sequer. Sua data de validade expirou...
— Diga-me uma coisa? Você não fora justamente substituir uma pessoa que havia também sofrido um acidente? — questionou-me ela, com olhar curioso...
— Sim! Havia sido seu ex-ajudante que havia caído do telhado sobre uma pilha de madeira.
— Eita! Que trabalho mais sinistro esse. Sendo assim, sua rápida aventura como carpinteiro terminou antes de começar? — disse ela, até com certo ar de galhofa.
— É! Parece que devo voltar às minhas profundas reflexões sobre as verdades do Universo, e deixar o ofício do pai de Nosso Senhor para aqueles que têm maior afinidade com o assunto.
Ela, que já estava terminando seus voluntariosos afazeres, ainda me questionou se eu precisava de algo mais. Agradeci profundamente sua boa vontade e disse que estava tudo bem. Tudo que eu mais queria era poder tomar um banho, fazer um lanche reforçado e depois tentar descansar um pouco. Ela, que certamente jamais desistiria de suas investidas, me questionou.
— Quer que eu esfregue suas costas? Também posso lhe preparar um jantar, se você quiser...
— Obrigado mais uma vez! Você tem sido uma pessoa muito carismática comigo. Mas nesse momento tudo eu que preciso é apenas de um pouco de paz...
Assim que ela saiu pelo portão, busquei pela paz e a quietude do meu humilde lar. Como era bom estar em casa. Tomei um banho, fiz um lanche e iniciei algumas pesquisas. Primeiro eu gostaria de saber onde se encontrava meu venerável professor Luís Carlos. Através de uma sobrinha sua, que havia sido minha aluna, descobri que ele estava vivo e muito bem de saúde. Ela me disse que ele ficaria deslumbrado em me receber em sua casa, pois sempre falara muito bem de mim como um brilhante aluno, sempre muito curioso quanto a coisas inexplicáveis. Disse-me ainda que seu tio certa vez comentara o fato de sempre ter visto em mim um aluno curioso, alguém que via o mundo de uma forma diferente dos demais.
Além do endereço, ela também me deu a certeza que eu poderia visitá-lo sem precisar agendar nada com ele. Segundo ela, ele muito raramente saía de casa e ficaria bastante satisfeito com a surpresa de minha visita. Ainda procurei por uma coisa ou outra sobre os pigmeus na internet, mas como não consegui encontrar mais nada de tão interessante e como já era noite escura, decidi que daria aquela fastidioso dia por encerrado e logo fui me recolher. Fechei meus olhos, relaxando ao som profundo e ressoante da chuva que caía lá fora e só voltei a abri-los por volta das quatro horas da manhã, quando após a forte descarga de um relâmpago ter causado uma momentânea queda de energia. Em menos de dez segundo a luz havia retornado, mas foi tempo suficiente para que meus olhos se acostumassem às sombras espessas da madrugada e então pude ver que havia diversos pontos amarelados me espreitando dos cantos escuros do quarto. Percebi que aquelas mesmas criaturas que haviam lançando aquele bondoso senhor num lastimável estado vegetativo, haviam me seguido de alguma forma.
Levantei-me mais do que depressa e acendi todas as luzes da casa. Como a noite já se encaminhava para seu término — fato que era notório pelas primeiras luzes que despontavam no horizonte, trazidas por um sol que não tardaria a nascer —, decidi que já iniciaria minha jornada daquele dia, naquela mesma hora, e não voltaria mais para cama. Tomei um banho e, após preparar um café reforçado, iniciei minhas pesquisas novamente. Depois de quase duas horas em frente ao computador, entendi que aquilo tudo era uma grande perda de tempo. Não havia nada de substancial sobre aquilo que eu realmente queria saber. Todos os sites falavam dos Pigmeus como sendo de tribos de seres humanos de uma estatura um pouco abaixo de um ser humano comum. Não encontrei nenhuma menção sobre seres pequeninos de olhos amarelos incandescentes que vagueiam pelas trevas e temem qualquer tipo de luz.
Logo começaram os primeiros movimentos da manhã, com pessoas indo e vindo de um lado para o outro nas ruas. A cidade desapertava e trazia consigo seus inúmeros habitantes, cada um com seus problemas em busca de uma evolução espiritual e tentando dar respostas às suas questões existenciais, completamente alheios às dificuldades uns dos outros. Vivendo um dia após o outro, na ânsia de chegar a algum lugar, mesmo sem saber para onde ir. Depois de protelar por um longo tempo, me vesti adequadamente e decidi ir procurar a casa de meu antigo professor. Quando cheguei ao local que o endereço me indicava, imaginei que estivesse no lugar errado, mas para minha surpresa, Professor Luís estava na porta varrendo sua calçada — típico de um professor aposentado — e quando me viu ficou muito satisfeito, mesmo sem ainda saber que eu estava ali para visitá-lo, pois num primeiro momento ele pensou que eu estivesse apenas de passagem pela rua. Cumprimentou-me com bastante alegria dizendo:
— Bom dia! Mas vejam só, se não é meu curioso e destemido aluno. O que o trazes aqui para esses lados tão distantes da civilização, meu jovem?
Ele falava como se vivesse numa solitária cabana no meio do deserto e me tratava como se eu ainda tivesse uns dezessete anos. Sua casa parecia uma pequena floresta, com árvores de todos os tipos e cores, por isso a necessidade diária e continua de estar sempre varrendo a calçada, devido ao excesso constante de folhas caídas quase o tempo todo. Após dar uma olhada panorâmica pelo lado de fora daquela pitoresca moradia respondi ao seu cumprimento tentando ao máximo corresponder a alegria que ele demonstrava em me ver.
— Bom dia, Professor Luís! É um prazer imenso poder revê-lo e poder verificar com meus próprios olhos que gozas de plena saúde e muita disposição. Consegui seu endereço com sua sobrinha Letícia que, diga-se de passagem, foi minha aluna. Peço mil desculpas por vir sem avisar, mas ela me disse que o senhor não tem telefone e me garantiu que o senhor muito apreciaria minha visita. Estou precisando muito de seus sábios conhecimentos sobre alguns assuntos um tanto quanto particulares e obscuros. Talvez o senhor possa me ajudar...
— Letícia é uma menina de ouro, sempre que tem um tempo de sobra, vem aqui me visitar. Mas tratando de você, sim! Vamos entrar, venha conhecer meu humilde lar. Não sei se poderei ajudá-lo em alguma coisa, mas aquilo que estiver ao meu alcance, certamente o farei.
Respondeu ele com bastante alegria na voz. Ao entrarmos em sua casa, pensei que estivesse numa espécie de museu de antiguidades e objetos exóticos. Havia uma miscelânea de um tudo e mais um pouco. Dava para ver de imediato que ele vivia sozinho, pois havia somente uma xícara usada sobra a mesa e todo o resto levava a essa dedução. Contudo, mesmo com a imensa balburdia de inúmeros objetos espalhados pela casa e pelas paredes, tudo estava muito organizado e limpo, como se a qualquer momento ele fosse receber um turbilhão de visitantes ao seu museu particular. Fui convidado a me sentar e ele logo me serviu café com bolinhos fritos. Em nenhum momento pensei em recusar, pois sei que pessoas da idade dele se sentem bastante ofendidos se não puderem ser prestativos de alguma forma. A nuance entre o amargo do café e o doce dos bolinhos trazia um prazer indelével ao paladar.
Assim que me vi satisfeito e certamente ele também o estava, decidi que já era hora de usufruir um pouco de sua sabedoria. Contei-lhe em pormenores o motivo de minha visita, solicitando por fim sua ajuda. Fato que, de alguma forma, inflou seu ego, pois logo se levantou e disse que eu o aguardasse onde estava. Para me dar algum tipo de resposta ele queria me mostrar algo primeiro. Após alguns minutos, retornou com alguns livros velhos que logo foram colocados à minha frente. Um em especial, com capa de couro encerado, foi mantido consigo debaixo do braço e, apontando para as encadernações à minha frente, disse com bastante entusiasmo:
— Essas obras à sua frente são do tipo de literatura comum e estão disponíveis em qualquer sebo ou livraria do gênero. São livros rasos que, para serem publicados, têm um conteúdo prolixo, cheio de regras e fundamentações científicas com notas de rodapé e todas essas bobagens. Contudo, esse livro aqui é uma espécie de enciclopédia do obscurantismo. Seu autor ou autores são desconhecidos. O que se sabe realmente é que é uma obra jesuítica, muito utilizada pelos membros da Companhia de Jesus em suas inúmeras viagens às terras desconhecidas e nunca dantes desbravadas pelo homem civilizado. É uma obra que cita toda e qualquer criatura — deste mundo ou não — que se tenha notícia; para que se alguém, porventura, se deparar com algum desses seres, pelo menos saiba do que se trata. E talvez consiga tentar enfrentá-los.
Com bastante receio, como se estivesse me entregando um recém-nascido, ele colocou o livro em minhas mãos. Logo pude perceber que era um exemplar raríssimo, mas bastante conservado. Folhei o livro com cuidado e pude perceber que estava escrito em diversas línguas diferentes, como se fosse a união de inúmeros textos avulsos. Sorte minha que o índice estava em castelhano. Fui correndo o dedo pela ordem alfabética e me deparado com alguns seres não tão estranhos ao meu humilde conhecimento: Almajonas, Cuckoo, Kurupi e a lista era enorme e bastante curiosa; de repente meus olhos se depararam com um título inusitado: “Órfãos”. Antes de abrir na página indicada, perguntei ao professor Luís:
— Como assim? Órfãos? Órfãos de quem?
— Quem sabe? O livro diz que são criaturas que ficavam vagando pelas cercanias dos cemitérios como se fossem pedintes na porta de uma igreja. Geralmente andam em forma de um casal com a aparência de duas crianças inocentes que estão em busca de seus pais. Segundo o livro, todo aquele que uma vez se encontrou com os órfãos e sobreviveu para contar a estória, jamais voltou a ser a mesma pessoa; a maioria findou seus dias na mais completa demência.
Após o nome dos órfãos, meu dedo indicador se deparou com aquilo que eu estava procurando — Pigmeus! Abri o local indicado pelo índice e me deparei com uma imagem bastante sinistra. Um humanoide com grandes olhos amarelos, sem nariz e sem orelhas, com uma enorme boca cheia de dentes serrilhados — que mesmo na imagem era possível constatar que seriam terrivelmente afiados. Abaixo da imagem havia uma breve descrição numa língua que não consegui identificar, mas logo minhas dúvidas foram sanadas, pois rapidamente professor Luis me explicou em pormenores do que se tratava o texto.
— O texto em si traz, em primeiro plano, várias descrições desses seres em diversas civilizações ao longo da História, desde o Egypto antigo, passando pelo mundo Greco-romano, Idade Média, até serem confundidos com algumas tribos de seres de baixa estatura do continente africano. Tais criaturas já foram confundidos com anões mineradores na antiga Núbia, onde trocavam enormes quantidades de ouro e pedras preciosas por crianças inocentes. Já estiveram no imaginário nórdico como duendes que viajavam através do arco-íris e trocavam potes de ouros por jovens ainda imberbes. E em muitos outros locais de variadas formas diferentes.
No entanto, os verdadeiros pigmeus que seu amigo alega ter visto e você também, talvez o tenha, — e não duvido de jeito algum — são seres maléficos tão antigos quanto a própria existência deste mundo. Certamente já habitavam os recônditos sóbrios do caos antes mesmo da luz ser criada. Esses terríveis seres sobrevivem do medo daqueles a quem eles perseguem, geralmente pessoas com problemas de insônia ou aqueles que de alguma forma padecem de nictofobia, pois para se alimentar do medo de suas vítimas, estas devem estar acordadas para liberarem a energia vital que se desprende em momentos de maior angústia de um indivíduo. Por serem criaturas propriamente das trevas, temem a luz acima de qualquer coisa e não há relatos que tenham atacado, quem quer que fosse, em plena luz do dia.
Infelizmente o texto não relata nenhuma forma concreta de como podem ser enfrentados, pois sua verdadeira força não se encontra neles mesmos, mas na fraqueza e aflição de suas vítimas que devem a todo custo tentar enfrentar seus próprios medos e encarar as trevas de frente. No texto, há algumas orações, certos encantamentos e disposições de certos itens pelo quarto da vítima que pode vir a afastá-los, mas não há relatos de algo que possa expulsá-los por completo de uma forma definitiva. Uma vez perseguido por um pigmeu, a vítima deverá se atentar a sempre dormir num ambiente iluminado e, se possível, na companhia de outras pessoas...
A imagem daquela horrenda criatura ficou gravado na minha memória e, as palavras de meu antigo professor, cravadas no meu peito. Por um momento fiquei bestificado com tudo aquilo. Saber que havia tantos seres que transitam entre nosso mundo e o outro bem além de nossa compreensão e que essas tais criaturas sempre foram de conhecimento da própria igreja, e o pior de tudo era pensar que pessoas como eu, quando relatam sobre a existência de tais seres, — até mesmo para alguma autoridade clerical — são tidos como mentalmente perturbados.
Sem deixar transparecer ao meu venerável professor meu profundo abalo emocional, agradeci a ele por sua ajuda e, ao demonstrar que estava de saída, antes de me despedir fui convencido a ficar em sua casa e lhe fazer companhia para um almoço que ele mesmo preparara. Foi um repasto simples, mas bastante saboroso. Nesse meio tempo ainda falamos bastante sobre vários outros assuntos, pois percebeu ele que a estória dos pigmeus havia relamente me abalado. Após o almoço, já um pouco mais calmo, assim que me despedi de meu antigo e sábio professor, decidi dar um passeio pelo centro da cidade e, no horário de visitas, passar pelo hospital para ver como estava meu companheiro de rápida experiência em carpintaria.
Para minha surpresa ele já não estava mais naquela instituição. Naquele momento, seu corpo estava sendo velado numa capela próxima de sua antiga casa. Ele havia falecido naquela mesma madrugada. Uma enfermeira da noite o havia encontrado já sem vida numa de suas rondas pela madrugada. Como eu não era da família, o havia conhecido a menos de um mês e não tive maiores intimidades com sua filha, achei melhor não me aproximar naquele momento tão íntimo. Depois eu levaria flores em seu túmulo. Bastante contrariado, cansado e até mesmo melancólico, decidi retornar para casa. Talvez com mais dúvidas ainda do que quando eu havia saído. Quando cheguei de frente ao meu portão de um lado da rua, minha vizinha também chegava do mercado pelo outro lado. Nos cumprimentamos e, naquele momento, pela primeira vez, eu a vi com outros olhos e percebi o quanto ela era atraente e sedutora. Decidi ser um pouco mais atrevido e me arrisquei a perguntar:
— Essas coisas são para aquele jantar que tens me prometido há tempos?
— Não necessariamente! Mas, se assim você o desejar, passaram a ser... — disse ela um tanto quanto assustada com minha atitude, mas bastante animada com a ideia.
Em poucas palavras ficou decidido entre nós que ela faria o jantar e que comeríamos na varanda de minha casa. Eu me encarregaria do vinho e das velas. Tudo correu de forma esplêndida. O tempo estava fresco, o céu limpo, e logo fomos agraciados pela magnificência de uma enorme lua cheia que abrilhantou ainda mais a beleza daquela noite. Depois de umas taças a mais de vinho, nos animamos além do que o normal e, quando dei por mim, já estávamos deitados um nos braços do outro em trajes de Eva após alguns momentos de louca euforia, onde pudemos acertar nossas diferenças. Ela, por ter exaurido suas forças numa insana cavalgada, que não parecia ter mais fim, estava ressonado em meus braços, fungando em meu pescoço um hálito doce com frescor de hortelã — até um pouco estranho para quem havia bebido quase uma garrafa de vinho. Devido aquela inebriante labuta vivida momentos antes, havia exigências em meu corpo que deveriam ser sanadas imediatamente. Com muito cuidado retirei meu braço de debaixo de sua cabeça e silenciosamente fui até o banheiro para me aliviar. Demorei um pouco mais do que o necessário e, quando estava retornando ao quarto, percebi que ela estava sentada no meio da cama em completo estado de choque, olhando para um dos cantos do quarto...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Seu Calor Cruel
O azulescer | transbordou em meu peito | O eco da minh’alma
Preenche o vazio que deixou | A voz invisível | Escapa pela cicatriz da minha pele | E meu coração grita…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O azulescer
transbordou em meu peito
O eco da minh’alma
Preenche o vazio que deixou
A voz invisível
Escapa pela cicatriz da minha pele
E meu coração grita
Ecoando no vazio da minh’alma
Exigindo o calor
Que pode me matar
O conforto do sol
Em seu abraço
Os dois queimando minha pele
E me matando um pouco, toda vez
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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O Clamor dos Filhos da Noite
Vede agora os que têm sede de sangue, | Não da água salina ou da doce corrente, | Mas do carmesim puro que a luxúria condena; | Estes possuem, em seus mortos peitos,…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Vede agora os que têm sede de sangue,
Não da água salina ou da doce corrente,
Mas do carmesim puro que a luxúria condena;
Estes possuem, em seus mortos peitos,
Algo além do saudosismo da vida humana:
Um clamor masoquista, um culto ao impossível,
Ídolos de sombra que a luz seduz e fere,
Vampiros que emergem sob o azulíneo.
Impedidos de serem tocados pelo Sol,
Pelas próprias fantasias são julgados;
Desejos oprimidos que jamais revelam,
Seres das trevas que o dia bendizem;
Pois o que vale a imortalidade fria
Diante do aquecer do Astro inigualável?
O Sol, vilão senciente, o alvo do desejo,
Destrói a escuridão que lhes serve de berço.
Nas margens do Magöhorror eles se prostram,
Banhados pelo brilho que a água esparge,
Buscando no reflexo a quentura do ouro
Que em suas peles seria o fim absoluto.
É a nostalgia do que jamais lhes pertencera,
O blues melancólico de uma noite frígida,
Onde o brilho de um outrora inalcançável
Torna a eternidade um fardo pesado.
Se o azulíneo da morte é o palco eterno,
Onde zumbis bebem o próprio pranto,
O vampiro é o verso de um sonho invertido:
Ama o carrasco que o reduz a cinzas.
Assim se desvela o existir em Irihria,
Entre a bioluminescência da efemeridade
E a busca da luz que, ao mesmo tempo,
É a suprema cura e a morte derradeira.
Marcolongo Ricardo
Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Não há muralhas contra a névoa
“Pelo menos esta torre é alta o suficiente para a queda acabar com essa loucura. Ao menos isso a névoa ainda não transforma”, murmurou Viktor Vatra para a noite…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Prólogo
“Pelo menos esta torre é alta o suficiente para a queda acabar com essa loucura. Ao menos isso a névoa ainda não transforma”, murmurou Viktor Vatra para a noite, enquanto reunia coragem para pular.
Mal conseguia ver o chão. No alto da torre antiga, o nevoeiro parecia mais denso do que nunca. A loucura chegara ao auge, a ponto de ele começar a ouvir vozes etéreas sussurrando ao vento, embora ainda não distinguisse palavras.
“Como isso pôde acontecer? Essas lutas, esse estresse, essa incerteza… Será que finalmente quebraram minha mente? Fragmentaram minha visão de mundo a ponto de eu já não saber o que é real? Ou há alguém por trás disso — alguma entidade brincando comigo? Tanto faz. Toda essa resistência, toda essa vigília constante… não há sanidade que sobreviva intacta”, continuava a lamentar para o vento enquanto tentava reunir a coragem necessária para pôr fim ao pesadelo.
A luta fora brutal. Furiosamente intensa. Viktor sentia dores em músculos que sequer sabia nomear. Três dias quase sem comer, sem dormir, sem descanso. Apenas a defesa desesperada de suas muralhas.
Mas o problema não era o inimigo. Era a névoa, que nada tinha de normal. Ela era cada vez mais frequente e mais corrosiva para sua já frágil sanidade. Em nada lembrava o comum fenômeno meteorológico da região, com sua aura fantasmagórica que parecia tirar tudo do lugar. Até agora havia conseguido repelir os homens, mas não há muralhas contra a névoa, que em tudo penetra.
A batalha era a única constante. Impedir a invasão, lacrar as brechas. Mas as armas não paravam de se transformar: numa hora, ele empunhava uma espada; na seguinte, quando a neblina que turvava repentinamente sua visão se dissipava, estava com uma câmera nas mãos. Um celular. Um bloco de notas.
De um instante para outro, a parede de escudos se convertia numa transmissão ao vivo desesperada. Torres de cerco tornavam-se guindastes, aríetes transmutavam-se em retroescavadeiras. Janízaros se metamorfoseavam em oficiais de justiça.
Tudo isso sem que ninguém mais notasse qualquer estranheza, mesmo sendo as mesmas pessoas. Agiam como atores interpretando diferentes papéis. Tanto os que atacavam quanto os que defendiam mantinham-se firmes em suas posições, seguros de sua própria realidade. Apenas ele transitava entre tudo; ou talvez não transitasse por nada. Nada mais era garantido, nem sequer a natureza da realidade.
Os momentos de imersão completa, quando se sentia plenamente presente em um único papel, numa única era, pareciam cada vez mais raros. Nada de dissociação cognitiva, nem questionamento de sua percepção. Era por isso que temia quando a névoa voltava a se formar. Bastava um pequeno contato com a cerração para a fragmentação recomeçar cada vez pior. Mundos e séculos fundiam-se diante de seus olhos, e ele já não sabia quem era, nem onde estava.
Quando a voz sussurrante se tornou ainda mais audível, a ponto de ser possível identificar um etéreo timbre masculino e outro feminino dialogando entre o vento, o limite do suportável foi rompido. Isso precisava terminar. Viktor pulou da mais alta torre.
Antes que atingisse o chão fora da visibilidade, finalmente compreendeu parte do que estava sendo dito pela voz masculina vinda de uma fonte invisível: “Prosseguimos no tempo moderno ou medieval? O que você acha?”
Seu último pensamento, “maldita conversa de fantasmas sem sentido”, fez com que se sentisse profundamente decepcionado. Assim como todos que já se imaginaram em seus momentos derradeiros, esperava ter algo mais nobre ou filosófico energizando em sua massa encefálica prestes a ser esparramada no chão oculto pela densa bruma.
Três dias antes…
“Se a motivação do prefeito é a preservação cultural — e não apenas o lucro — por que nossas propostas de tombamento estão paradas há anos, enquanto o licenciamento dessa empresa avança em poucos meses?”, é o que questiona Viktor Vatra, professor de história e militante pela preservação do patrimônio cultural. Ele seria, se a lenda popular for verdadeira, descendente de condes romenos que governavam um castelo medieval que inspirou este aqui, que podem ver ao fundo, localizado na serra da Mantiqueira, próximo à turística Campos do Jordão, construído em 1872 pelo trisavô do historiador.
A ocupação de professores e estudantes para impedir o início das obras de um parque temático que pretende revitalizar as ruínas do castelo e usá-las como o coração do centro de diversões já completou um mês. O professor e seus alunos não saem da construção há dias, cercados por equipamentos da construtora que já recebeu autorização da prefeitura para começar as obras. É por isso que viemos até esse castelo sitiado, propondo uma trégua para o debate. Eu sou Elaine Bastos, em reportagem oficial para o Domingo Fantástico, e estou aqui para dar voz aos dois lados enquanto o embate jurídico prossegue.
Em nota oficial, a Serra Viva Concessões S.A. declarou: “O projeto do parque temático Castelo Assombrado foi concebido com rigor técnico, respeito às normas ambientais e compromisso com o desenvolvimento sustentável da região. Todas as etapas seguem a legalidade.”
— Professor Viktor, começo com o senhor. Objetivamente: qual é o risco real que o projeto da Serra Viva representa para o castelo?
— O risco é a descaracterização progressiva do castelo e a degradação ambiental do entorno. Não é uma demolição explícita. É algo mais sutil, para torná-lo “rentável”. Patrimônio vira cenário, a história se perde e a floresta sofrerá ainda mais, quando as trilhas e estradas de terra se tornarem rodovias, os estacionamentos forem cimentados e toneladas de lixo diário começarem a ser produzidas. Isso sem falar no ruído, iluminação excessiva e muito mais.
— A empresa afirma que vai restaurar, investir e preservar, seguindo à risca as normas vigentes.
— Primeiramente, as regras já nasceram frouxas, e nem assim costumam ser seguidas. Toda empresa afirma isso no início. O problema é o que acontece depois da primeira flexibilização. Já vimos isso antes com essa própria construtora.
— Senhor Tariq Carvalho, representante da Serra Viva, o professor fala em “flexibilização”. Como o senhor responde?
— Primeiro, agradeço o espaço. Nossa empresa atua dentro da legalidade. Flexibilização é um termo interpretativo. O que existe são ajustes técnicos normais em qualquer projeto dessa magnitude. Não há nenhuma ilegalidade.
— O senhor é diretor de expansão da Serra Viva, correto?
— Sim.
— O professor mencionou histórico de denúncias em outras cidades.
— Denúncias não são condenações. Nenhuma construtora ou incorporadora de grande porte passa décadas no mercado sem enfrentar questionamentos administrativos. Em todos os casos, cumprimos as determinações legais. Não há condenações contra a empresa nem multas não pagas.
— Professor?
— Multas pequenas e termos de ajuste não significam ausência de problema. Muitas vezes significam que a infração foi convertida em custo operacional. Isso me lembra uma bela citação, infelizmente não lembro onde a vi, mas era algo como “se a pena por um crime é apenas uma multa, então a lei só existe para os pobres”. Ainda mais quando vale a pena continuar operando apesar de autuações, se o razonete contábil assim indicar, como é o caso do parque aquático termal que vocês construíram.
— Isso é uma acusação grave.
— É uma constatação estrutural. Se o retorno econômico da descaracterização e da poluição é maior que o valor da multa, a multa vira parte do orçamento.
— Isso é retórica — intervém Carvalho, mantendo o tom controlado. — O projeto prevê recuperação paisagística, criação de empregos, aumento da arrecadação municipal e estímulo ao turismo cultural. Estamos falando de desenvolvimento regional. Ou você prefere que seu município continue sendo apenas ponto de parada para Campos do Jordão? Você prefere que toda a renda do turismo continue subindo o morro, negando a oportunidade de desenvolver sua cidade natal também?
— Desenvolvimento para quem? Empregos sazonais? Bilheteria privada sobre um patrimônio de relevância histórica? O castelo e a floresta em volta não são produtos.
— Também não é um relicário intocável — retrucou Tariq Carvalho. — Patrimônio precisa ser integrado à dinâmica econômica para sobreviver. Sem investimento, degrada-se.
— Investimento não pode significar transformação em parque temático. Existe verba pública destinada aos patrimônios tombados exatamente por esse motivo, fora que ainda há até mão de obra voluntária para a manutenção. Eu mesmo e meus colegas docentes fazemos isso há anos, sempre com o apoio de alunos e da comunidade.
— Professor, o senhor já analisou o projeto executivo completo? Nossos espectadores precisam saber se essa é uma oposição informada ou dogmática — questionou a entrevistadora.
— Analisei o que foi tornado público. E já aponta ampliação de estacionamento, centro de eventos, reconfiguração do acesso principal. Isso altera a ambiência histórica.
— Ambiência não paga manutenção; nossa empresa, sim.
— Memória também não deveria precisar se provar lucrativa para existir.
— Realizamos todos os estudos de impacto ambiental exigidos justamente para unir todos os interesses.
— Estudos aprovados com rapidez incomum.
— Rapidez não é irregularidade. É eficiência administrativa.
— E por que o processo de tombamento do castelo tramita há anos sem definição?
— Isso compete ao poder público. Não à empresa. O senhor precisa questionar isso nos órgãos responsáveis, não conosco.
— Mas a empresa se beneficia da ausência de tombamento definitivo.
— Nós nos beneficiamos da segurança jurídica. Se o bem não está formalmente tombado, ele pode receber investimento. Isso é o que a lei estabelece para o caso de imóveis assim, expropriados porque não há um IPTU pago há décadas.
— Professor, o senhor fala também de uma conexão pessoal com o castelo. — retomou Elaine, tentando reduzir a belicosidade da entrevista.
— Minha família tem origem na Transilvânia. Minha mãe sempre contou que descendíamos de uma linhagem ligada ao castelo original que inspirou esta construção. Recentemente fui à Romênia, consultei arquivos, levantei registros, inclusive em igrejas medievais. Estou organizando essa genealogia com apoio acadêmico local.
— O senhor confirma essa ancestralidade?
— Estou confirmando com rigor historiográfico. Já há documentos consistentes até o século XVIII.
— E isso influencia sua posição aqui?
— Influencia minha responsabilidade. Mas mesmo que eu não tivesse qualquer ligação familiar, minha posição seria a mesma. Patrimônio não é mercadoria.
— Senhor Carvalho, a empresa reconhece o valor histórico simbólico do local?
— Reconhece. Justamente por isso quer integrá-lo a um circuito cultural estruturado. A alternativa é o abandono gradual, já que o suposto conde aqui não tem a menor condição de se responsabilizar por nada. Eu esperava mais de alguém de sangue azul…
— Estamos diante de duas visões claras — interveio a jornalista, tentando novamente conter o escalonamento da contenda. — Professor, última pergunta: se o projeto avançar como previsto, o que o senhor teme que aconteça em dez anos?
— Que o castelo continue de pé, mas irreconhecível no sentido. Que vire pano de fundo para selfies, eventos corporativos e festivais temáticos. Que a história real que nós, professores, ensinamos nas escolas e mostramos ao vivo para os alunos, seja substituída por uma narrativa mais vendável, enquanto animais nativos, tão presentes hoje, virem apenas réplica na decoração, mortos ou espantados pela invasão da especulação imobiliária
— E qual a visão da Serra Viva Concessões?
— Em dez anos, vejo um polo turístico consolidado, gerando renda, empregos e estrutura arquitetônica preservada e nenhum impacto ambiental digno de nota. Vejo essa cidade sendo colocada no mapa, não mais apenas um ponto de passagem.
— Professor, uma frase final.
— Desenvolvimento sem memória é invasão e depredação.
— Senhor Carvalho, e qual a sua?
— Memória sem desenvolvimento não passa de ruína.
— Professor, a lenda urbana da cidade diz que o senhor pode ser um descendente do conde Vlad, é verdade? — recomeçou a jornalista, tentando finalizar de modo leve.
— Ah, esse é um estereótipo comum, e não tinha como minha família escapar disso quando a réplica de um castelo medieval real é erguida aqui no Brasil por um imigrante romeno. A associação com vampiros era inevitável, mas eu acho divertido. Nunca preciso me preocupar com a fantasia de Halloween.
A repórter, rindo, estava prestes a tentar quebrar o gelo com o homem de negócios, mas precisou interromper a gravação, pois uma espessa névoa rapidamente eliminou toda a visibilidade na área de filmagem.
Também facilmente penetrou nas muralhas e atingiu o defensor do castelo, cansado após seu duelo verbal. Era uma névoa diferente, espectral. E o começo de seu pesadelo.
A breve dissipação
Viktor levou a mão à cabeça, subitamente capturado por uma vertigem que o desequilibrou. A sensação era de desconexão, mudando a temperatura, que caiu vertiginosamente, e transformando a fragrância do ambiente e a textura das pedras. Uma sensação familiar ao toque, que o remeteu imediatamente à recentemente visitada Transilvânia.
Enquanto se perguntava o que havia acontecido com os seus sentidos, tropeçou numa grade metálica, parte de um antigo portão, que não estava ali antes. Quando abriu os olhos novamente, o peso o atingiu antes da visão.
Peso nos ombros. No peito. Nos braços. Metal. Ele estava de pé, envolto numa armadura. Uma espada na mão direita. Um escudo cujo formato lembrava um losango no braço esquerdo.
Mas a perplexidade não recebeu autorização para se instaurar. As elucubrações do professor transfigurado em cavaleiro foram interrompidas por uma lança que emergiu da névoa, avançando em direção ao seu torso.
Seu corpo reagiu antes que sua mente entendesse, por pura memória muscular que nem sabia ter adquirido. O escudo girou, desviando a ponta de ferro. A vibração do impacto percorreu-lhe o braço como um eco antigo. Sua espada subiu em um arco perfeito, obrigando o atacante a recuar com sua haste partida.
Ele retornou segundos depois, após desembainhar sua cimitarra e girá-la nas mãos antes de tentar um amplo corte lateral. Viktor recuou no momento preciso, evitando a finta do adversário, enquanto posicionava sua espada sob a borda do escudo, para garantir uma estocada precisa no ponto fraco da cota de malha do agressor.
Seu corpo sabia, mesmo sem que ele soubesse como. O tempo de reação, a distância, o peso da lâmina… era como se conhecesse tudo isso intimamente por sua vida inteira, como se tivesse passado incontáveis dias treinando.
A espada de Viktor encontrou a brecha. A breve resistência dos anéis metálicos se rompeu, a ponta afiada da espada reta deslizou quase suavemente carne adentro antes de encontrar a placa da armadura que agora defendia inutilmente a retaguarda do guerreiro, cuja traqueia havia sido habilmente perfurada.
Viktor sentia-se como um istmo atacado pelas ondas conflitantes de dois mares. De um lado, euforia crua, animal, pela vitória no duelo, os fios de memória ainda fixados no século XXI foram capazes até mesmo de lembrar de um brado klingon — idioma que ele, como nerd de primeira classe, quase dominava.
A outra onda era de horror absoluto. Ele havia tirado uma vida. Sua mão ainda vibrava com o impacto. Sua memória muscular celebrava o movimento perfeito. Sua mente registrava o peso irreversível do gesto.
Mais inimigos surgiam da névoa, pelo menos uma dúzia. Sentiu um alívio ao pensar no inevitável fim, apesar da perícia recém-descoberta. Seria bom ser poupado de processar e digerir aquela violência e, se fosse um sonho, aquilo certamente o faria acordar. Mas antes que viessem os golpes dos inimigos, sentiu um contato em suas costas. Eram homens portando escudos no mesmo formato, vestindo as mesmas cores. Rapidamente, uma parede de metal e madeira se formou em volta.
As lanças inimigas chocaram-se contra a cunha de cavaleiros, mas flechas vieram das ameias acima, indicando que a guarnição da muralha havia contido o assalto com escadas que Viktor agora lembrava ter acontecido momentos antes. Enfim, podiam contra-atacar.
— Meu senhor! — gritou alguém à sua esquerda. — O portão foi reforçado! Já podemos recuar!
Mais um susto para o comandante Viktor. Era impossível! Ao seu lado, estava um dos professores da escola. Ele sabia que aquele homem corrigia provas e reclamava do salário em reuniões pedagógicas. E, paradoxalmente, também sabia que ele comandava homens sob sua bandeira há mais de duas décadas. As duas certezas coexistiam. O mundo oscilou novamente.
— Recuar! — ordenou Viktor, sem saber de onde vinha a autoridade na própria voz.
A linha de escudos avançou para trás de forma coordenada, protegendo a retirada. O som da batalha diminuía à medida que se aproximavam das muralhas.
Quando atravessaram o portão e este se fechou com um estrondo pesado, Viktor sentiu as pernas quase cederem. Ele estava dentro do castelo. Mas não o castelo recriado nos trópicos, e sim o ancestral, que fora um entrave ao avanço do império otomano por mais tempo do que os sultões gostavam de admitir. Sua primeira intuição após a névoa estava certa, afinal de contas. Tochas nas paredes. Pedra úmida. Homens feridos sendo atendidos às pressas.
Ele mal teve tempo de respirar, pois um vigia o convocava à muralha.
— Emissário! Bandeira branca!
Da névoa, surgiu um cavalo. Montado nele, um homem com trajes ricamente adornados, portando uma alva bandeira no estandarte. O rosto e a voz eram inconfundíveis, nada mudara além de sua indumentária, título e sobrenome.
— Senhor do castelo — sua voz ecoou firme — trago termos generosos. Sou Tariq Selim Karahan, Paxá ao serviço de Sua Majestade, o Sultão Mehmed II, e comandante desta hoste imperial. Rendam-se, e suas terras serão preservadas. Seus costumes, respeitados. Sua fé, tolerada. Sob o império, prosperarão. Permanecerão senhores, ainda que sob nossa soberania. Seus impostos serão revertidos em bonança. Resistir é apenas prolongar o sofrimento.
Viktor sentiu o chão fugir sob os pés. Ele bem conhecia os ecos daquele discurso, mesmo sem saber definir se vinham do passado, do futuro ou dos sonhos. Desenvolvimento, prosperidade, inutilidade da resistência, abandono de suas raízes… O emissário aguardava resposta. E não poderia ser outra.
— Este castelo resistiu antes — disse ele, a voz ecoando sobre a pedra. — E resistirá novamente, hoje e no futuro!
Em sua versão emissário, o invasor podia externar seu ódio com muito mais liberdade do que sua versão paralela, usando terno e dando entrevista para o telejornal.
Mas sua carranca de ódio foi coberta pela névoa, e ele se viu numa outra batalha, onde portava um celular e lanterna, fazendo uma live que denunciava um início de incêndio florestal criminoso iniciado por jagunços da empreiteira. E, à medida que a neblina sobrevinha com mais frequência, esqueceu o gosto da comida ou a sensação de um travesseiro sob sua cabeça, sendo transportado entre uma batalha e outra, através das eras, até perder a conta e a sanidade.
Epílogo
— Prosseguimos no tempo moderno ou medieval? O que você acha? — perguntou o escritor.
— Estou surpresa… você conseguiu me deixar confusa. Eu tinha certeza de que preferiria a ambientação medieval quando você me falou da ideia. Um conto para a revista Castelo Drácula praticamente pede isso. Mas agora estou em dúvida.
— Pois é, minha amiga, eu te entendo — ele respondeu. — Também sou assim. Gosto de medievalismo, de fantasia. A temática de castelo envolto em névoa é quase um convite automático para espadas e muralhas sob ataque, não é? Mas, enquanto eu escrevia, essa ideia de um conflito moderno — alguém tentando preservar a história contra uma grande corporação — foi ganhando força. Ficou impossível ignorar.
— E aí a sua indecisão fez o favor de deixar esta editora de revista já sobrecarregada com um baita dilema, não é? Eu adoraria dizer para você apresentar dois contos: A Luta do Ancestral e A Luta Moderna de Viktor. Mas você sabe que só podemos publicar um texto na revista.
— Sim, eu sei. É por isso que agora estou com essa ideia híbrida. Minha indecisão virando o próprio nevoeiro que une ambas as batalhas.
— Daqui a pouco você terá um livro de contos só sobre anomalias temporais… Logo saberemos o que os leitores vão achar!
— Uma pena que o prazo não permita desenvolver mais — ele suspirou. — Se eu tivesse que escolher, acredito que prosseguiria na luta moderna. A luta medieval é fascinante, e eu adoro descrever combates, mas podemos deduzir o desfecho. Os otomanos não engoliram a Transilvânia, com ou sem a intervenção do conde Vlad real, ou o Drácula mitológico. Já as batalhas pela cultura e pela ancestralidade, como as travadas pelo descendente Viktor, continuam em curso. E as grandes corporações de hoje são, muitas vezes, mais implacáveis do que qualquer império do passado.
— É… oficialmente, pela primeira vez, eu diria que preferiria saber o desfecho de uma história moderna ao de uma medieval. Parabéns por isso. Só lamento pelo seu personagem.
— Por quê?
— Ele vai acabar enlouquecendo com a sua confusão cronológica.
Henrique Morgante
Henrique Morgante é um completo dependente do consumo de boas histórias em todos os formatos, sejam livros, filmes, séries ou games. Paulistano, formado em Administração e graduando em História, atuou em gestão de equipes e no setor bancário. Mas sempre teve por objetivo trabalhar com a criatividade. Escreve contos e romances, navegando entre o terror, a ficção científica, fantasia e, ocasionalmente, ensaios ou crônicas sobre eventos reais, além dos mais diversos temas propostos pelas antologias e revistas das quais participa sempre que possível. » Instagram do autor
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Sangue, Silício e Presságios / Capitulo I
Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao menos podemos dizer que notamos.
Imagino que o propósito fosse justamente esse: não tivéssemos a oportunidade de resistir, confrontar ou mesmo protestar.
Vi os passos que a indústria avançou nos últimos duzentos anos, um ritmo tão acelerado, surpreendendo a todos com tantas novas tecnologias e informações que, assumo com sinceridade, prendem nossa atenção. Era de tirar o fôlego.
Não sou um fã ensandecido da tecnologia, mas muitas delas me impressionaram também.
Voltando! Lembro-me bem daqueles dias, o sol começou a desaparecer, mergulhando, uma após a outra, as cidades numa realidade de escuridão. Mesmo que isso fosse algo bom, pensando nas crianças da noite, inegavelmente havia mais — muito mais escondido por detrás do véu dos poderosos.
Fiz uma pausa em minhas lembranças, levei minha mão de carne e sangue, a tocar minhas cicatrizes na face, implantes biônicos, uma cibernética que mescla o orgânico, metal, cabos e vidro, uma lembrança pesada de decisões que sinceramente me incomodam. Cada passo deve ter um destino, mas teria sido um gostado de ter mais opções em minhas mãos. Mas não pude, realmente, não tive, contudo, como lamentar minhas dores e angústias. A cada vez que toco as partes do meu corpo, que foram substituídas, busco manter meus olhos para meus objetivos. Infelizmente isso virou hábito, algo que me faz emergir, — retornar desse imenso lago sombrio sendo a minha vida.
Uma nova interrupção de meus pensamentos, o toque e brilho do celular que tocou.
Na tela, primeiro o nome, logo uma foto de um rosto conhecido de tempos mais interessantes. Quem sabe em outros tempos meu eu fosse mais gentil com os contatos, mas depois de tudo o que aconteceu, o ressentimento e desconfiança viraram regras irrevogáveis.
— Quem diria… Ele ainda se lembra que eu existo! — Minha voz saiu baixa e rouca. Respirei fundo e liberei lentamente o ar dos pulmões. Deixei o celular sobre a mesa do meu escritório.
Recostei-me na cadeira, fiz uma meia volta com ela, e fiquei olhando atentamente para o mundo além da janela e um lugar escuro e bem mais sombrio que se desdobrava.
Velho mundo, numa nova realidade obscura e desafiadora.
Como um reflexo involuntário, levei a mão até a costela, buscando o lugar onde carregava o coldre e a velha Lucy, uma pistola que passou a ser uma extensão de minha própria existência carnal e imortal. Ao notar a ausência, me fiz buscar na memória onde a deixei.
— Ah, sim. — exclamei alto de súbito, recordei o mancebo ao lado da porta, vi sua alça negra, junto aos casacos e o blazer que sempre deixo aqui no escritório, — me esqueço vezes demais de levá-la para casa. Algo tão banal; meu escritório é mais minha casa que a verdadeira.
Mergulhei novamente em pensamentos e lembranças.
No lugar do amarelo da alva nasceram tons brilhantes, veias luminescentes que deram vida ao mundo cinza de cimento e concreto.
Os diversos tons de neon ganharam espaço, a ponto de nos fazer sentir sermos as estrelas. A noite e o dia agora eram guiados por cores — azul, verde, vermelho — entre tantos tons infundidos em tubos de luz.
Muitos recém-abraçados celebraram a escuridão, e suspeito que alguns dos milenares também o fizeram.
Vampiros ainda se prendem a velhos hábitos e tradições, embora os recém-convertidos pareçam nutrir desprezo pelo véu que nos protegeu por séculos.
— O que veio após o caos inicial era previsível, no entanto, nada desejável, pelo menos para mim! — disse quase em murmúrio, ainda mergulhado na cadeira, com a carranca de insatisfação inundando meu rosto.
Veio a princípio pela voz de Maximillian Jones, presidente americano. Ele convoca as nações a se unirem na elaboração de uma organização multinacional chamada “Aegis Dominion Corp”.
Aquele homem era uma verdadeira raposa. Homem corpulento, de rosto redondo. Pele branca e pálida. Cabelos milimetricamente alinhados, como todo bom político. Ele sorria à sua frente, planejava ardilosamente pelas costas de aliados a rivais. Além do sistema burocrático, eles criaram uma unidade de atuação imediata chamada de “Cerberus State Division”, ou como ficou conhecida, a CSD.
Por detrás de toda aquela propaganda anti-crime havia a intenção de conter todos e tudo que fosse do guarda-chuva sobrenatural.
Alguns humanos não esqueceram o desastre dos primeiros meses de escuridão, presidente M.J. foi um desses rancorosos.
Que engraçado, eles tiveram rancor! Sua ânsia por revanche os levava a buscar meios de se proteger. Contra quem eles iriam? Nós!
Nós que existimos desde sempre. Humanos tentando proteger seu futuro das nossas mãos.
Conflitos foram deflagrados por várias regiões do mundo, a princípio no norte, uma verdadeira caçada a qualquer paranormalidade. Mortes relatadas de humanos e criaturas sobrenaturais. Um quadro horripilante a cada vez que você olhasse na internet, pelo celular, através da televisão. Os discursos vazios em nome de uma justiça cruel.
Daquele momento em diante, não era unicamente a escuridão que mudava nosso universo, mas a sociedade, as relações e as regras do mundo.
A tensão subiu tão rápido, que Magnus se viu forçado a fazer algo.
— “Quem é realmente, Magnus?” — pensei. O líder dos “Sangue de Obsidiana”, um homem único, ímpar por ser visionário. Nem sempre concordamos. Ele via com bons olhos algumas mudanças, e eu com cautela.
Magnus Draevon é um homem baixo em estatura, troncudo, de olhos leoninos de tom verde-claro e expressão pacata. Seu espírito parecia nunca se abalar, mesmo diante dos cenários mais terríveis. Aquele homem tinha o estranho hábito de ficar acariciando sua barba longa, ainda mais em conversas incômodas, aquilo o mantinha em serenidade aparente.
Para aquele que temos ele como pai e mentor, vimos nele força suficiente para acalmar nossos ânimos, com isso encontrar um caminho em meio àquele caos sanguinolento.
Imagino que já estive mais vezes em desacordo com Magnus, do que em acordo. Nosso modo de ver o mundo e a gestão da “família” eventualmente se chocavam.
Numa manhã, há uns dois, ou três anos, não recordo bem, mas não muito após o plano dos humanos sair na mídia, o líder me ligou.
É bem vivida a memória. Estava em minha casa, mergulhado no sofá com um copo de whisky na mão esquerda. Havia deixado o celular sobre a mesa, numa vã tentativa de distância da minha própria realidade.
A sala era ampla, móveis mínimos e modernos. Nunca fui de ter muitos objetos.
A tela se iluminou e começou a vibrar. O som reverberava numa melodia suave pelo ambiente. Então o nome no ecrã brilhou em letras austeras: Magnus.
Intensamente inalei o ar, levantei-me vagarosamente e soltei lentamente o ar. Dobrei o corpo, troquei o copo de mão e estiquei o braço até alcançar o aparelho.
Atendi e coloquei-o em viva voz.
— Dorian. — Sua voz ecoou pelo fone como trovão distante, grave e firme, mas com uma tonalidade que sempre me fazia comparar com o aço temperado.
— Mestre Magnus. — Respondi, as palavras escapando antes que pudesse pensar.
Não era só respeito; havia uma espécie de reflexo condicionado, como se meu corpo reconhecesse nele algo que jamais ousaria enfrentar.
Levantei-me do sofá e caminhei até a varanda. Lá fora, a manhã sem sol parecia imersa em calmaria, com um vento frio tocando meu rosto, como se o mundo aguardasse o desenrolar daquela ligação.
— Eles, os líderes da humanidade, estão prestes a piorar o nosso mundo. — disse ele. — O plano deles já não é um mero rumor. Viu as notícias? Notícia infeliz. É real, Dorian. Precisamos nos precaver e evitar o pior dos cenários.
Engoli seco, apertando o celular contra o ouvido.
— Quer que eu faça parte disso? — Eu girava o copo com o líquido âmbar na outra mão, impaciente com tudo aquilo.
Houve uma pausa. O som de sua respiração atravessou o fio invisível que nos unia — pesado, quase paternal.
— Não quero, Dorian. Preciso! Você foi um dos poucos que me sobraram. — Ele fez uma pausa que parecia levar anos. — As outras famílias têm dores de cabeça em seus próprios quintais; confiar é algo raro nessa nossa realidade.
A mão com o copo tremeu. Senti o suor frio escorrer pela nuca.
— Não sei se estamos prontos para enfrentar esse novo cenário… — Tomei um gole curto do whisky, sentindo-o queimar minhas entranhas.
— Nunca se está. — interrompeu com aquela certeza inabalável que me feria e erguia ao mesmo tempo. — Mas escute: não há outro em quem eu confie tanto para enfrentarmos essa crise.
Fechei os olhos. Na escuridão breve, pude imaginar seu olhar de aço, os traços duros de sua face marcada por uma cicatriz. Não era puramente meu mentor — era o peso de um caminho tortuoso que falava comigo.
— Entendi. — Respondi, a voz saindo mais firme do que eu esperava.
Do outro lado, ouvi o breve som de aprovação, quase um suspiro contido.
— Então, prepare-se. Logo, os demais serão convocados. Mas, antes de tudo, precisava conversar com você, ter seu apoio.
A ligação terminou, e o silêncio que restou parecia ainda mais pesado que sua voz. Magnus não havia somente me ligado. Havia marcado um ponto sem retorno.
Nasci onde o fim e o início se confundem, sob a proteção da tríplice fogueira. Sou Hékali Duarte, uma alma moldada sob o manto de uma lua que agonizava, enquanto o mundo mergulhava em uma escuridão que os astros já profetizavam como ruína. O sopro da criação, eu sentia que já vacilava desde o meu primeiro choro.
Sou o fruto de forças ancestrais e filha de Astéria, a guardiã dos mistérios etéreos, e de Pérsia, o caçador que não temia as sombras. Minhas raízes, elas se estendem e estão profundamente enterradas na antiga cidade de Lagina. A Cária esquecida, onde o Mar Egeu outrora beijava as pedras com sua espuma sagrada.
Mas não sei explicar direito a razão…
Temos, eu e minha família, tanta conexão com a França. Mamãe dizia ser grande parte de um legado espiritual.
Desde pequena fui ensinada, por aqueles que…
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...compartilham a mesma ligação, em diversas áreas do saber natural e comum, dentre esses conhecimentos, as línguas do mundo, começando pelo francês, assim como uma introdução mediana no inglês. Me apaixonei pelo espanhol e, por fim, uma exploração por uma língua morta, o latim.
Minha primeira morada fora uma casa de pedra e carvalho, equilibrada no limiar de um despenhadeiro à beira-mar. Lembro-me do cheiro do pinho no piso e da voz de minha mãe, um sussurro que ainda ecoa em mim.
— “Recorde, minha pequena, o mundo pode se abrir em muitos caminhos.” — Eu, movida por uma curiosidade febril, amava os livros e era dócil, “já não mais!” — Refleti quanto ao meu passado e o meu presente.
Uma sonhadora quando pequena? Sim. Observadora de seus ritos costumeiros, ainda mais aqueles feitos em hora avançada, no segredo da noite.
Ansiava pelo dia em que minhas mãos tecessem o invisível com a mesma maestria. Jamais devia ter desejado isso, agora tudo que conheço é sangue e breu.
Mas ela, tão somente me acalmava.
— “Shhh… Apenas durma, meu anjinho.” — A luz da alva e os astros que conheci na infância foram somente o prelúdio das trevas.
Meus pais foram ceifados… Não sei como… não sei quando… Tudo é tão nebuloso, as lembranças fragmentadas, a verdade deu espaço à dúvida, os segredos se apossaram de minha vida de forma tal que desconheço o local de descanso eterno de meus entes amados.
O que sei é que UM vampiro, cujo nome o próprio destino parece temer pronunciar, mas tornou-me herdeira de uma vingança implacável onde fui moldada na carne.
Assim segui, e o tempo voou em sua perene natureza, mas a dor permanece viva. Sentada em minha cama, recostada na parede, comigo no escuro enquanto observo o breu além da janela. — “O que o destino haverá de trazer?” — me veio este pensamento profundo que calou fundo em meu ser.
Naquele ano de perdas, encontrei meu porto seguro nos braços de Antea Uranai, minha avó materna.
O lar de vovó Antea Uranai era um labirinto de saberes profundos. Paredes de pedra, teto de ripas grossas e um silêncio interrompido tão somente pelo consumo lento das velas e pelo traçar de runas ancestrais na madeira.
Ali, entre luzes bruxuleantes e o aroma de mistério, eu fui forjada. Aprendi que o clã Duarte não carrega meramente um nome, mas um nó celta marcado na pele e a sina de caçar o que rasteja no escuro.
Espectros de carne, carniçais de cemitérios e as bestas corrompidas que não conseguem abandonar este plano. Não escolhi esse chamado; ele acendeu em meu peito como uma chama que é, ao mesmo tempo, meu poder e minha condenação.
Olho-me no espelho e vejo um paradoxo. Minha beleza é uma ferramenta, uma arma que fere e seduz com a mesma precisão, meus cansados olhos, quase não me reconhecem mais no espelho. Costumavam ser safiras que lembram abismos iluminados por relâmpagos, assim como meus negros fios, confundindo-se com a própria noite.
Lembro-me de alguém, acho que era como minha sombra de infância, rindo baixinho enquanto me olhava nos olhos, naquela tarde chuvosa sob o telhado rangente:
— Olha só para você, com essa pele alva como neve de um mundo que a gente já nem sonha mais ver… Aos vinte e sete, parecia que o tempo tremeu de medo e fugiu de você, sem ousar riscar sua lâmina eterna. Baixinha assim, pouco mais de um metro e meio, acham que passa batido? Tolos. — Ela fez uma pausa dramática. — Seus instintos são venenos disfarçados de mel, e sua inteligência corta como fio de navalha afiada. Esse mundo sem sol… ele te teme, amiga.”
A escuridão tornou-se uma substância palpável, governada por corporações de ferro e sombra como a Aegis Dominion Corp. Caminho por esse cenário como a Anima Mundi, a alma que ressoa com os lamentos dos céus e os ossos da Terra.
Nas ruínas do distrito de Lyssandria, onde cabos de energia tremeluziam como serpentes em crucifixos de metal, eu me sinto em casa. O ar tem gosto de ozônio e ferrugem. Sob letreiros de néon faiscantes, minhas tatuagens rúnicas pulsam em um azul-índigo, conectando-me às frequências ocultas.
— Os espíritos da rede estão famintos… — murmuro para o vazio.
“Não luto tão somente contra demônios e espíritos, mas, sim, uma luta pela existência humana neste mundo imerso em trevas.” — emergiu este pensamento do fundo do meu coração.
Enfrento os espectros-silício: consciências humanas aprisionadas em servidores, almas que trocaram o além pela eternidade sintética.
— Como pode uma criatura sem ossos desejar ser meramente uma energia elétrica? — Reflito em voz alta, com certo nojo e frieza na voz. — Eu os bano!
Após dizer aquelas palavras, senti a minha magia fundida à tecnologia fluir dentro de mim com inquietação.
Senti algo primitivo ferver em meu sangue recentemente. Um eco digital, um sinal que emana das profundezas de Lagina, minha terra natal. Lá, onde templos gregos colapsam sob antenas quânticas, o passado me chama.
Nasci órfã da luz, mas sou filha da noite. — “E agora, preciso descobrir: o que restará ao final da minha jornada? Sangue ou esperança?” — Esse era um pensamento recorrente: uma autocobrança.
Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados. Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra. O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva. Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos. “Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Quando a Noite Cobra o Preço / Capitulo II
Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou. Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou.
Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos olhos da percepção, dizia ela que éramos antenas, portas de uma dimensão além do astral escuro. Assim como os “sanguíneos”, como ela costumava chamar, também sempre fomos abençoadas pelo sangue. Entre ossos de corvos e morcegos ela preparava na fogueira este elixir. Quando pronto, nós nos servimos; afirmo que já sabia da grandeza daquilo. Gradualmente me preparei para a grande virada que viria em minha vida.
Ela me abraçou forte.
— “Vovó te ama…” — Ainda recordo com pesar e isso ressoa em meu peito todos os dias. E então bebemos e adormecemos...
Estava tudo muito confuso, admito, estava sonolenta e ébria da realidade, parecia outro plano. Atordoada, um tanto atônita, recobrando meus sentidos, orientei-me ao presente instante, respirei fundo: “onde eu estava?” — me questionava em meus pensamentos.
Vagarosamente, minha turva visão foi vasculhando gradualmente o ambiente, junto aos dedos no escuro.
Tateando o breu do desconhecido até que minha visão se acostumou à tão escassa luz e minha dilatada pupila se adaptou. Eu estava prostrada, com uma certa dificuldade, uma fotofobia temporária, tentando localizar-me no ambiente, deixando meus olhos se ajustarem; gradualmente minha turva visão se acostumava.
Enxerguei minhas mãos calejadas, meus pés descalços e então lentamente levantei-me e prossegui automaticamente por impulso, instinto. Meus pés caminhavam sob uma superfície um tanto úmida, o que deixava o caminhar escorregadio. Em algumas partes, ao tato, era possível sentir porosa, era como caminhar em cima de pedras de sabão.
O aroma era ocre.
O lugar em si me parecia claustrofóbico, começou a me incomodar, era algum tipo de gruta?
Sentia-me isolada de mim mesma, um exílio íntimo, uma constatação de uma verdadeira solidão contemplativa — ou seria uma solitude sofrida? Não sei ao certo dizer, mas aquele ambiente me sufocava tanto meu interior. Eu sempre estava em exílio comigo mesma, com meus pensamentos. Meu espírito se sentia sempre acorrentado, por quê? Mas, de alguma maneira, era isso — e aqui constato que não posso recordar por que estar ali.
Continuei caminhando, o trecho foi gradualmente se iluminando, até que desemboquei em uma sala enorme e oblíqua, ao final me deparei com dois enormes castiçais que estavam grudados à parede com uma labareda de coloração cobalto.
Os pilares dessa sala e as rochas eram todas feitas de um tipo de rocha desconhecida para mim. Emulam uma sensação semelhante à superfície lisa e fria de um vidro, refletindo imagens turvas e espelhadas.
Havia esporos pelo ar e em algumas partes um tipo de limo rubro e pegajoso como um tipo de simbiose viva emanava um sol gutural borbulhante e pude perceber que ele sangrava e dele desabrochou em combustão ali.
Dois enormes morcegos de coloração escarlate vinham em minha direção. Um pânico me abraçou, uma sensação de impotência, insegurança, senti minha espinha se arrepiar, sentia-me zonza pelos seus sonares e uma certa confusão mental me envolveu por alguns segundos.
Ainda sentia aflição nos meus pés pela superfície molhada e porosa, o que me causava uma clara sensação de ojeriza. Contudo, meus sentidos estavam todos centrados em como derrotar aqueles sugadores.
Meus instintos mais profundos pulsaram através das minhas veias, o que fez minha mão esquerda mover-se, com precisão e delicadeza, como num ritmo, algo que tanto repeti até memorizar. Então me veio a mente os versos que me foram ensinados.
— “Que la chair du monde s’ouvre… — Comecei a recitar em voz baixa. — Desabrocha… Flor sem raiz… Nascida do abismo do instante.
Uma energia com uma luz suave emerge do meu ombro e vai serpenteando até o meu punho fechado, quando eu o abro com a palma voltada para cima, como o caule de uma flor aparece. Até surgir uma flor em botão e lentamente ela desabrocha como uma flor.
Daquela flor tão exótica em minha palma, a luz começou a irradiar e acender, até que sua existência não mais se sustentou. As pétalas se desfizeram, dando origem a algo que pulsava antivida: uma adaga. Seu dorso de esmeralda com runas emanava, imponência; no fio, uma coloração verde, selvagem, como se pulsasse veneno em cor néon vibrante.
A adaga flutuava no ar como uma entidade néon. Ela se movia como se por vontade própria; ela os estripou, ambos os morcegos, em poucos instantes. Retalhando-os no ar enquanto batiam as asas. Assim que a lâmina sentiu o gosto do sangue das criaturas, ela retornou imediatamente para meu peito, dissipando-se no ar como partículas e faíscas luminosas de um verde intenso. Eu estava sem fôlego, o que foi aquilo?
A porta de vidro à minha frente se abriu… Assim…
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…que senti minha presença, mergulhei na boca daquela gruta desconhecida da treva da solitude que me abraçou.
Uma mescla perfumosa de sangue e poesia espessa.
Sou a terceira da trina Chama da chave do acesso da imortalidade escura da alma.
Dias depois, Magnus convocou os poucos que ainda detinham influência suficiente para alterar o curso da noite. Urr Locust, dos Tecno-Exsangues. Khaal Zerik, dos Carniçais Carmesins. Nivra Veyra, das Criptas do Éter. E Soren Klyth, à frente dos incontroláveis Filhos da Ruptura.
Soren não respondeu. Não recusou. Tampouco enviou emissário. Simplesmente permaneceu em silêncio — e, naquela época, o silêncio dele era mais perturbador do que qualquer declaração de guerra.
Os demais compareceram ao prédio dos Sangues de Obsidianos: uma torre negra com um grande triângulo néon azul invertido e um olho cibernético.
A sala era ampla e retangular, no último andar daquela torre negra no centro da cidade. As paredes do sul e do oeste eram de vidro, dando uma visão única da cidade em passo avançado de adaptação à escuridão. Dentro, uma mesa retangular de madeira na cor caramelo, com bordas pretas. No centro, cadeiras de encosto alto, umas quantas plantas. Um ambiente elegante, com paredes de madeira.
Cada família que atendeu ao chamado enviou dois representantes: um líder para falar em nome do clã e um guardião para lembrar que palavras nem sempre bastam.
A reunião foi infame desde o primeiro instante. Arrastou-se por horas, depois por dias, fedendo a interesses velhos, apodrecendo como um ghoul abandonado à própria carne. Ninguém buscava consenso; cada casta empurrava suas ambições, puxava acordos pela força, tentando garantir vantagem antes que o mundo ruísse de vez.
Sustentar aquilo exigiu de Magnus um esforço quase desumano.
Nem dentro dos Sangues de Obsidiana havia lealdade plena. Alguns desejavam ultrapassar a visão do líder, acelerar a queda. Veynar, o arconte de caráter duvidoso, era o rosto mais visível dessa fissura — seus negócios já haviam cruzado a linha, mergulhando fundo no submundo do crime.
As feições beiravam o esquelético. Alto, de cabelos longos quase sempre trançados para trás. Com olhos viperinos, já havia experimentado mudar partes do próprio corpo antes mesmo do início da noite eterna. Ele falava arrastado e gesticulava demais.
Indo mais a fundo nas memórias, recordo o momento do nascimento da Noctis Consortium… Foi muito inusitado… Difícil!
Não se passaram eras, mas nos fizeram sentir que assim foi.
Mesmo com a oposição de figuras como Zerik — que acreditava em um confronto direto — e, de certa forma, minha própria resistência, não durou tanto quanto esperávamos.
Magnus prevaleceu ao argumentar em favor de uma convergência, e não de uma guerra. Sua lógica era implacável: um conflito aberto seria catastrófico para ambos os lados, e o aumento da nossa exposição nos guiaria a um caminho autodestrutivo. Em vez de sangue nas ruas, ele nos vendeu a visão de um Estado chamado de “A parasitose perfeita”; um sistema oculto e enraizado na própria estrutura humana, utilizando nossos infiltrados para manobrar o inimigo como peças em um tabuleiro.
Assim, fundaram a Noctis Consortium, ou Noc-Con, como passou a ser conhecida no mundo.
O símbolo que escolhemos não buscava apenas representar um tempo — ele queria clamar. Era um chamado silencioso e feroz, nascido do desejo de abandonar o canto empoeirado da história, onde sombras tão somente observam, para enfim pisar o palco do mundo como presenças vivas entre os homens.
Uma lua crescente, invertida, curvava-se como um gesto de acolhimento ao redor de uma gota de sangue lapidada em losango. Tudo repousava sobre um negro absoluto, profundo como um abismo sem nome, rasgado por um vermelho carmim que brilhava espectralmente, quase sobrenatural. Ali não havia excesso nem frieza técnica — somente a tradução visual de quem somos: uma essência sombria, rara, de beleza estranha e melancólica, feita para ser sentida antes de ser compreendida.
Devo admitir: era algo belo de se ver.
— Devo admitir que aqueles momentos foram únicos. Nunca imaginei que as famílias se uniriam ao projeto de Magnus. — Agarro os braços da cadeira, cobertos de couro, impulso-me e coloco-me de pé. Dou dois passos e paro diante da janela, observando as pessoas caminharem lá embaixo, na rua.
Acompanhei o mundo perder o compasso e mergulhar, de cabeça, num frenesi febril. Não… Foi um salto de cabeça — foi uma queda longa, silenciosa, quase posso dizer, elegante. Chamaram de progresso, como sempre fazem quando não querem dizer o nome real das coisas.
No começo, havia uma justificativa nobre: devolver pernas aos que rastejavam, olhos aos que tateavam no escuro, braços àqueles que já tinham esquecido o peso de um abraço. “Venha ter a sua cura”, diziam. Era a humanidade tentando remendar a si mesma.
Mas algo apodreceu no caminho…
O que antes era socorro virou vitrine. Braços, pernas, olhos — peças expostas como joias, vendidas com brilho e posição, não com compaixão. O corpo deixou de ser morada e passou a ser catálogo.
Os médicos cederam espaço a mercadores, e a ética foi substituída por cifras. Não havia mais juramento, somente contrato. A carne tornou-se obsoleta; o aço, desejável.
— Observei tudo aquilo com uma frieza que me assustou. Talvez porque, no fundo, eu já soubesse que isso aconteceria. O homem nunca quis ser inteiro — quis ser mais. Mais forte, mais rápido, mais eterno. — Aquelas palavras saíam dolorosamente por minha boca. A clareza de pensamento vinha do realismo dos fatos. — A dor nunca foi o problema; o problema sempre foi aceitar limites. E ali, naquele desfile grotesco de corpos refeitos, percebi que não estávamos curando falhas… estávamos amputando o que ainda os tornava humanos.
A humanidade não resistiu. Adaptou-se. Sempre se adapta. Primeiro com curiosidade, depois com indiferença, e por fim com desejo. Órgãos internos passaram a ser redesenhados não para salvar vidas, mas para ampliá-las — pulmões que não se cansavam, corações que não falhavam, sistemas nervosos afinados como máquinas de guerra. Tornou-se moda. Uma moda doentia, cruel, irreversível. Até os que cuspiam desprezo por essas mudanças acabaram ajoelhando diante delas. Eu também. Não por vaidade — por sobrevivência.
— Houve um instante em que entendi: não era mais escolha. Era submissão disfarçada de evolução. Quem permanecesse intacto seria lento, frágil, descartável. O mundo não odeia os fracos — ele simplesmente os deixa para trás. — Meu rosto no reflexo do vidro expressou um desprezo profundo, nojo, para ser mais claro. — E eu, que sempre observei com distância, senti o gelo da verdade: ou eu mudava… ou desaparecia.
Antes que você se pergunte, me chamo Dorian Kael, um vampiro da casa dos Sangues de Obsidiana, aqueles que viram propósitos na tecnologia e amargaram gotas de sofrimento.
Esta história tem seu início no princípio do fim de uma era.
Admito que me vi envolto em situações que me colocaram diante de caminhos díspares, distantes de seus ditames, além de minhas origens. Pelo meu clã cedi, dando espaço à invasão tecnológica. Uma corrupção fora de qualquer escala.
Essas mudanças sempre tiveram gosto de erro… Um caminho torto, ruim desde o primeiro passo — e, ainda assim, impossível de evitar. Não foi coragem o que me levou até ali, foi tentação. A mesma que empurra homens cansados a cruzarem linhas que juraram nunca tocar. Eu quis acompanhar os vivos, fingir que ainda caminhava no mesmo ritmo deles.
O olho esquerdo que carrego agora não nasceu de carne. É vidro frio, fios ocultos, fluidos que imitam vida sem jamais a possuir. Uma íris de jade observa o mundo por mim, perfeita demais para ser verdadeira. Ele vê o que olhos humanos, nem os dos vampiros, não alcançam: códigos sussurrados na escuridão da rede, sinais escondidos sob camadas de mentira. Enxerga além do mundo físico — e talvez por isso eu tenha começado a enxergar menos de mim mesmo.
Servia ao meu ofício. Negociar o que é raro, valioso, proibido. Ler o invisível, antecipar movimentos, nunca ser surpreendido. Era uma ferramenta, nada além disso. Pelo menos foi o que eu disse a mim mesmo. Porque admitir que aquela lente não me fortalecia, somente me tornava mais distante, exigiria uma honestidade que eu já não tinha estômago para suportar.
Não fui tão longe quanto meus pares. Muitos abandonaram a caça, chegando ao ponto de desfigurar suas presas. Banir tradições. O mais grotesco foi o surgimento do sangue sintético, que me causa náuseas — uma abominação, mais que a fusão da carne com as próteses.
Hoje, após minha punição promulgada pelo arconte Veynar, encontro-me às margens da sociedade, distante de olhares perigosos.
Não devia ter seguido com aquele maldito plano. Isso me custou a empresa, a vida e a condição social que gozava. Posto como pária em minha própria casa. Tudo por um humano infeliz.
— Isso é que dá estar no lugar e hora errados. — Baixei a cabeça, desaprovando minhas próprias atitudes. — O que posso dizer… senão… arrependimento…
Esses pensamentos foram interrompidos por passos no corredor e um toque ansioso:
— Senhor Dorian… Está aí dentro? — Uma voz feminina e aveludada, levemente rouca. — Sou eu, Milla. Posso entrar?
Creio que passei tempo demais divagando, me perdendo em lembranças. Esqueci que estava no escritório; ainda eram três horas da tarde.
— Entre, Milla, sem cerimônias, por favor. — Minha voz saiu rouca, mais que o costume, num tom autoritário e impaciente.
O som metálico do trinco soou ao ser destravado; a porta rangeu levemente, revelando uma imagem jovial. Cabelos curtos ao estilo de Cleópatra, loiros como o ouro mais puro, olhos escuros, pele pálida como marfim, e lábios divinamente finos.
Milla era uma vampira filha das Criptas do Éter. Uma criança que conhecia a hemomancia. Mesmo os mais jovens dessa raça eram assombrosamente incômodos. Beleza ímpar, mas de uma frieza além do natural.
— Senhor Dorian, a última de suas reuniões foi cancelada. — Ela caminhava com elegância e uma jovialidade impressionante. Jamais diria que tem mais de cem anos. — Acho que já posso ir para casa. O que acha?
Direcionei meus olhos para a tela do monitor, já eram mais de 18 horas.
— Sim, acho que já pode ir. Não temos mais atividades para hoje aqui no escritório. — Por um momento, fiquei reflexivo, olhando para o ambiente. — Que possa descansar. — Acabei falando num tom introspectivo, mais do que para a Milla, para mim mesmo.
Ela deu um giro nos calcanhares e rumou para a porta.
— Se o senhor precisar, sabe que pode contar comigo para o que precisar, chefe. — Havia em sua voz um tom reconfortante e que sabia serem verdadeiras suas palavras.
Ela sumiu, cruzando a porta em direção ao corredor, e seus passos eu podia ouvir bem, por causa do piso de madeira.
Sentei-me novamente e olhei em direção a um espelho no lado esquerdo. Um espelho retangular, posto horizontalmente, um objeto estético. Disseram que isso aumentaria minha sensação de espaço, o que me fez ter eventuais assombros com imagens distorcidas.
O presente nos deixou presentes tão incomuns. Nós, seres da noite, fomos afetados, voltamos de alguma forma a ter nossas imagens. Parece que a maldição dos primordiais enfraqueceu ou ganhou novas camadas.
Difícil realmente dizer até que ponto fomos afetados pela noite profunda e as tecnologias.
Quando me dei conta, percebi algo estranho acontecendo. A princípio, uma sensação de presença.
Meus instintos entraram em ação. As presas, depois as unhas. Sou um dos poucos que ainda mantém ambas as características de minhas origens e tradição. Sob a mesa de madeira à minha frente, preso a ela, um coldre de couro — nele repousa uma pistola, uma velha amiga, apontada em linha reta. Uma segurança a mais. Um recurso de tempos mais perigosos, que exigiam, mais que unicamente, ser um vampiro.
Meus olhos percorrem o ambiente — uma busca por infiltração. Primeiro física, logo depois medidas digitais, buscando sinais de invasão do meu próprio sistema, ou do meu escritório. Vasculhei o máximo que pude dos sistemas.
Quando encarei o espelho, o ambiente pareceu encolher. Distorções em minha visão começaram a surgir. Havia uma sombra ali — uma presença que não existia antes. No início, era somente um borrão inquieto, um erro no reflexo, algo que não deveria estar naquele lugar. Meu coração acelerou antes que a razão pudesse reagir.
Então a sombra ganhou contornos. Linhas surgiram, tortas, angulosas, como se alguém estivesse tentando nascer do vidro. Havia alguém ali. Senti antes de entender. O perigo veio primeiro, rasteiro, gelado, ativando cada instinto que ainda me restava.
A mente entrou em pânico e, por hábito, tentou se agarrar ao que conhecia.
— Analise! — ordenei a mim mesmo, quase como um reflexo de sobrevivência. Mas o pensamento veio quebrado, falho, tremendo: seriam padrões? Sinais? Fragmentos de código?
Sim, linhas e mais linhas. Somente naquela sombra? Poderia ser uma tentativa de infiltração? Olhei os arredores, buscando qualquer coisa fora do comum. Observei a tela do computador. Apertei umas quantas teclas e rodei outro sistema de depuração.
Eu nunca havia visto algo como aquilo!
À medida que tentava compreender, percebi em meu campo de visão algo… falhas de imagem. Não pareciam atacar, mas dava a entender ser um tipo de fantasma na rede.
A pergunta ecoou vazia. Porque, naquele instante, eu já sabia — aquilo não queria ser compreendido. Queria ser notado.
Existia algo… Muito além das linhas. A cada segundo, uma estranha sensação de terror tomava meu corpo. Caminhei em direção ao espelho. A sombra gradualmente foi tomando uma forma, mas, à medida que isso acontecia, surgiam interferências crescentes no meu olho cibernético.
Sua forma parecia de uma mulher com longos cabelos. Corpo pequeno e magro, mas seus detalhes eram como se estivessem envoltos de vapor, tão imprecisos e disformes.
Pouco antes de poder ver mais detalhes daquela imagem em meu espelho, senti uma forte dor em minha cabeça; meu corpo tornou-se pesado. Caí de joelhos, levando minhas mãos à cabeça; me dobrei no chão, enquanto tentava manter meus olhos naquela estranha visão. E, rapidamente, tudo ficou submerso em escuridão, e senti o impacto oco do meu corpo no chão do escritório.
Antes que minha mente fosse consumida pelo vazio, uma voz feminina, suave e delicada, invadiu meu cérebro — um eco distante.
— Temos tão… pouco tempo… a zona sul… Bar… antigo dos O-Tek… — A voz flutuava em seu volume, o que deixava ainda mais difícil entender o que estava dizendo. — Sangue… corrupto.
Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados. Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra. O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva. Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos. “Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
A Dança do Corvo #1
Estava retornando à minha moradia, enquanto as irmãs já deveriam estar acamadas. O ar era pesado e a forte neblina de St. Canard não tardava a se…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Terça-Feira, 28 de Setembro.
Estava retornando à minha moradia, enquanto as irmãs já deveriam estar acamadas. O ar era pesado e a forte neblina de St. Canard não tardava a se identificar pelo vidro embaçado da janela daquele comboio a vapor que atravessava a linha ferroviária em plena madrugada.
Duas noites anteriores, uma carta fora destinada a mim, com a assinatura de meu pai que, por sua vez, escrevera aos prantos. Sua tão amada Hermina falecera depois de contrair uma doença à qual não me especificou nome. Talvez, nem mesmo ele soubesse o que afligira a sua esposa. Ele tinha medo. Soube disso, pois conseguira passar seu temor para o papel em letras trêmulas e garranchadas. Na mesma noite em que recebi a carta pelas mãos de uma das irmãs, dediquei toda minha euforia para ter a permissão de sair do convento e voltar para minha casa. Ela, e outras que também coordenavam o lugar, consentiram com minha saída, pois acharam que seria melhor eu cuidar de meu pai enquanto os tempos difíceis repousavam na minha família. Eu prometi que retornaria em breve e assim parti dois dias depois, sem ao menos imaginar que aquele seria um caminho completamente sem volta.
Junto a mim, nada carregava de muito valor. Ainda me lembrava daquela noite em travessia. Era apenas uma pequena mala contendo um saquinho de biscoito, cadernos e livros didáticos que eu deveria ler no tempo que estivesse fora da Escócia para compensar minha saída e o diário de minha falecida mãe que, não importava onde, sempre levava comigo.
O sono me pegou de surpresa, mas não se estendeu muito. O som rasante do comboio arranhando os trilhos conseguiu me despertar repentinamente em um pulo assustado. A madrugada já se tornava manhã e a parada da ferrovia já estava estampando minha visão. Já havia retornado à minha cidade e nenhuma surpresa me dominou por isso. Estava ali por um motivo de desgraça e nada daquilo me faria feliz.
· · • • • ✤🐦⬛✤• • • · ·
As ruas de St. Canard não estavam abarrotadas como eu nunca imaginei. Fazia já alguns anos desde que abandonei meu lar para seguir um caminho junto a Deus e seus ensinamentos, que pouco me lembravam do chão que voltei a pisar.
Mesmo assim, as lojas permaneceram da mesma forma enquanto eu me aprofundava pela cidade. As típicas mercearias, os ambulantes que dançavam nas calçadas animando quem passava... Sempre com um sorriso no rosto, as damas com seus leques e vestidos que vieram de boutiques caras nas quais nunca tive oportunidade de sequer entrar, pois era minha querida mãe que fazia – à base de trapos – minhas roupas humildes e, por fim, as carroças puxadas por cavalos que continuavam as mesmas, tirando o notável melhoramento em suas estruturas compostas de madeiras e metal, que agora eram mais charmosas e reluzentes do que antes. St. Canard não havia mudado muito em alguns anos. Sendo assim, ainda era fato de que eu sabia o caminho de minha casa.
A janela tinha suas persianas abertas quando encontrei minha antiga moradia sob um novo bazar que antes se encontrava em uma panificadora. A fachada estava com sua cor alterada. Antes, um bege quase branco se esticava por toda parede e agora havia um verde que já estava gasto e desbotado, porém a casa ainda parecia ser a mesma, esperava eu.
Decidi abandonar minha casa e seguir caminho ao encontro de Deus após o falecimento de minha mãe. Ela era nova, bonita e inteligente. Mesmo sem recursos financeiros, morávamos bem e sem problemas. Então as brigas entre ela e meu pai se tornaram mais frequentes e a casa foi ficando insuportável. Como antes dizia meu pai, ela o traía com outros homens, entre eles um eu conhecia: Dr. Marquês, filho do panificador que trabalhava em um hospital nas redondezas da cidade. Por sinal, ele era bem agradável. Nunca me dera motivos para sequer cogitar alguma coisa que o desagradasse, mas ao ser apontado por meu pai, sua ideologia formada em minha cabeça também foi pouco desgastada.
As acusações de adultério só foram comprovadas após o acidente no qual tirou a vida de minha mãe. Seu corpo foi encontrado na areia úmida da praia alguns dias depois que ela visitou uma amiga. Marquês se provou amante de minha mãe e alegou ter a ajudado com dinheiro para que ela comprasse tecidos, linhas e materiais para a customização de minhas roupas. Era fato de que, por um espaço de tempo naquela época, minha mãe estava aparecendo com mais tecidos do que o normal. Papai se casou novamente dois anos depois, por desgosto, e com Hermina teve outra filha: Emily, o bebezinho mais doce que eu vi na vida. E, quando isso aconteceu, eu parti para a Escócia, não por desgostar da minha nova irmã ou até mesmo da minha madrasta, mas por saber que somente encontraria o conforto que minha mãe dava nos braços do Senhor.
Antes de eu tocar na campainha ao lado da porta, meu pai já abriu e me encontrou segurando minha pequena mala. Tomou-me em seus braços e chorou por me ver, ao lembrar-se do motivo que me fizera retornar.
— Onde está Emily? – perguntei assim que pisei novamente em casa. O cheiro não era o mesmo. Ao invés de cheirar a assoalho velho e corroído por cupins, eu sentia algo desagradável o bastante que me faria voltar atrás. Não era nada condizente com minha sabedoria. – Quero vê-la. Tadinha... Deve estar acabada.
Meu pai seguiu à minha frente, percorrendo o corredorzinho no qual se dividiam os quartos, e chegou naquele onde eu já dormira um dia. Emily estava deitada com camadas de cobertas sobre seu corpo. Seu olhar cabisbaixo indicava doença, mal-estar. Seu cabelo loiro, que um dia eu vira por algumas pinturas ser lindo, brilhoso e radiante, estava embaraçado, seco e sem vida. Suas bochechas rosadas tinham um tom rude e cruel estampando-as, tornando a magreza de sua face mais evidente. O que estava acontecendo com ela? Os lábios carnudos também desapareceram incrivelmente, dando lugar a uma linha fina e roxa para representá-los. Seu colo tinha todas as cavidades do osso da clavícula marcadas. Ela estava magra igual a um esqueleto. E aquilo me assustava.
Respirei e, antes de me aproximar dela, fiz o sinal da cruz sobre o peito.
— Emily contraiu os mesmos sintomas de Hermina na mesma noite em que ela morreu, Lucy – dissera meu pai com sua voz acabada. – Eu não sei o que fazer mais. Não há remédio em minhas mãos que tarde essa maldita doença e, se existe algo, está muito além daquilo que posso arcar. Ela vai morrer... Vou perder minha filha, e você, sua irmã.
Acariciei a face de Emily, sorrindo para ela, mas acabei me levantando quando meu pai proferiu aquelas palavras banhadas de choro e medo. Agarrei suas mãos com força e as pousei sobre meu colo. — Não diga isso, papai. Vamos conseguir. Emy não irá morrer.
— O que podemos fazer para impedir tal acontecimento hostil? – perguntou ele, eufórico demais para raciocinar que eu estava tão próxima a ele e não necessitava elevar a voz ao falar comigo.
— Vamos primeiro contatar um doutor. Depois de curada, resolveremos o valor que devemos arcar. Tudo vai ficar bem, pai. O Senhor há de nos ajudar. Ele está conosco. – Meu pai pareceu não dar muita atenção para a parte em que falei da ajuda de Deus. Portanto, retornou com sua euforia e se mostrou um tanto duvidoso. – Marquês tinha um voluntário, Dr. Hoechlin. Emy o conheceu, talvez ele nos preste ajuda.
— Eu deveria negar por ser voluntário daquele senhor, mas caso aceite nos ajudar, será bem-vindo à minha casa – respondeu.
Emily se mexeu sob as cobertas. Tossiu, limpando a garganta, e chamou minha atenção com sua voz fraca e arranhada.
— Hoechlin partiu para Londres na noite retrasada. Voltará daqui a dois dias – comentou ela, esforçando-se para conseguir falar com clareza.
Olhei para meu pai com preocupação. Não sabíamos com o que estávamos lidando e, acima de tudo, aquilo poderia não existir cura alguma. Ele também estava preocupado. Com toda a certeza, não queria perder sua menina de dezesseis anos logo depois de sua mulher falecer.
— Quanto tempo Hermina suportou após contrair a doença, pai? – perguntei.
— Três semanas. – Uma semana se completaria para Emy quando o doutor chegasse. Ela teria que aguentar mais duas até os exames mostrarem uma saída.
Naquela noite, me ajoelhei perante a cama e rezei com toda minha fé. Tive medo de que oração alguma fosse forte o suficiente para afastar a sombra da Morte que pairava sobre a nossa casa.
· · • • • ✤🐦⬛✤• • • · ·
Quarta-Feira, 29 de Setembro.
Eu havia retornado ao quarto que me foi cedido, na extremidade do corredor, e o fiz não por cansaço, mas por um medo pungente de ser um estorvo àquela figura paterna já devastada pela dor. Minha prece fora fervorosa, mas o sono que se seguiu se mostrou leve e febril, interrompido a cada rangido do assoalho.
No fim, contive-me no som ritmado e pelas badaladas do relógio da sala que, ao longe, badalava as três da madrugada quando o silêncio da casa foi rasgado por um som aterrador. Não era o pigarro fraco que Emily vinha exibindo, mas sim um ruído quase gutural, violento demais e profundo, seguido de um gorgolejo que parecia vir do fundo de sua própria garganta.
Saltei da cama, com o desespero e o coração chocando-se contra as costelas, vesti apressadamente meu robe e corri descalça pelo corredor sem medo de talvez estivesse fazendo barulho em demasia para acordar meu pai. A porta do quarto de Emily estava entreaberta e a luz fraca da lamparina que eu havia deixado acesa na cômoda projetava sombras alongadas e distorcidas que dançavam quase como uma reverência ao meu medo.
Entrei. E ali, o terror se materializou em sua pior forma.
Nunca fui muito próxima do trabalho da morte. Muito pelo contrário… sempre permaneci distante dela para não parecer íntima demais a correr o risco de vê-la de novo. No entanto, as tosses vindas de Emily deixaram de ser comuns para mim quando a consequência seguinte fora vê-la se debater insanamente sobre a cama. O lençol branco que a envolvia já não existia mais, marcando em seu peito e pintando sobre o amontoado de fios uma paisagem infernal de carmesim. O sangue evidentemente estava espesso e quente, escorrendo de sua boca como riachos abundantes, manchando o queixo, o pescoço e a camisola que parecia ter sido mergulhada na mais rubra tinta. Os olhos de minha pobre irmã, antes esvaziados pela doença, arregalaram-se em uma súplica muda de socorro. Talvez eu nunca mais esquecesse o pânico estampado em sua face assim que me viu entrar em seu quarto.
Ela tentava puxar o ar, mas o esforço apenas fazia o sangue jorrar com mais violência, engasgando-a, silenciando-a como se algo condenasse a bela garota a um destino horrível e sangrento. — Emily! Oh, Deus, Emily! — Minha voz não passava de um sussurro rouco, quase abafado pelo som úmido do seu sufocar. E mesmo atingindo um tom acima do normal, pelo medo e desespero, ainda parecia baixa demais comparado aos engasgos e sufocamentos que originavam dela.
Corri para o seu leito, estendendo minhas mãos como uma forma fútil de tentar salvá-la, mas o desespero tomou conta da minha mente com uma força paralisante.
Eu não era médica; não era nem mesmo perto de ter os conhecimentos de uma mera enfermeira. Eu era apenas uma garota de vinte e quatro anos que, diante daquela cena de brutalidade biológica, toda minha fé e os ensinamentos do convento se dissolveram em um terror gélido e parvo. Tentei erguê-la, mas o toque na sua pele fria e pegajosa de suor e sangue fez-me recuar um passo atrás.
Eu falhei. Falhei miseravelmente com o desespero que também tomava conta de mim, assistindo à última e convulsiva exalação de vida de minha irmã, enquanto o sangue se espalhava em um mar espumoso sobre o travesseiro. No instante exato em que o último tremor abandonou o corpo de Emily, quando o gorgolejo cessou e o quarto mergulhou em um silêncio pesado e oco além do meu choro contido no alto da garganta, o ar ao redor do leito pareceu se condensar em um negrume mais denso que a própria noite. Não era a sombra projetada da lamparina, mas sim uma mancha de escuridão viva, alta e magra, que se desprendeu do colchão manchado como quem emergia de dentro da posição de mortalha dela na forma de um espectro obscuro.
Sombrio, sem rosto discernível, feito de fumaça e trevas.
O pavor me petrificou no lugar, e eu observei a personificação do demônio da morte tomar aquele ambiente como se fosse dele desde o início. Talvez de fato fosse, desde a partida da esposa de meu pai, pouco antes.
Não havia pés, nem o som em seus passos. A figura deslizava sobre o assoalho sem fazer qualquer ruído. Em vez de caminhar pelo chão, ela ascendia pela parede ao lado, como se a gravidade fosse uma simples sugestão e possibilidade de uma escolha inútil. Lenta e propositalmente, a aparição espectral moveu-se em direção a um canto escuro do quarto onde repousava, coberto por um tecido de linho branco, o grande espelho de vestir de Emily.
Talvez meu pai tivesse bloqueado o reflexo, tendo em vista o caos letal que acompanhava sua morada. Sua tentativa de ocultar o vidro fazia direta referência ao que diziam os supersticiosos e abandonados pela fé. Espelhos capturavam a alma dos doentes.
O espectro parou diante do espelho coberto, e ali permaneceu intacto, com sua silhueta escura parecendo fundir-se com a brancura do linho. Meus olhos, grudados naquele ponto de escuridão e tecido, não conseguiam mais se desviar. Eu estava hipnotizada. Horrorizada e sem qualquer força para fazer algo a respeito.
Lucy... Salve-me…! Está na hora de vir ao meu encontro, doce irmã. Liberte-me deste caos… Arranque o véu, irmã. Arranque o véu e perambule pela escuridão. Está tão frio aqui…
Era a voz de Emily, pura, sem o ranger da doença, mas etérea e fria, ressoando não do corpo inerte no leito, mas através do espelho coberto. Suas súplicas eletrizaram meu corpo, arrepiando meus pelos. Foi o suficiente para que eu sentisse verdade em sua solicitação. Movida por uma força que não era minha, um magnetismo frio que irradiava do vidro, dei passos hesitantes até o espelho. Minhas mãos tremeram quando agarrei a beirada do linho úmido de poeira, obedecendo ao chamado.
Rasguei o tecido com um puxão violento, e o espelho foi revelado em um átimo.
Não vi meu próprio reflexo pálido e aterrorizado. O vidro do espelho havia se transformado em uma espécie de janela ou pintura tão realista quanto. Através dele, a cena era de uma grandiosidade gótica e infernal, de um castelo sombrio, escuro, no alto de uma colina rochosa e pontiaguda. Dei um passo para trás, hesitante, e arfei alto com certo receio e pavor. O céu acima não era o teto de nuvens baixas de St. Canard; em vez disso, manifestava-se na forma de um pesadelo de nuvens revoltas em tons de um vermelho doentio que mais se poderia contemplar o mesmo tom do sangue jorrado de Emily do que se o próprio inferno viesse à terra.
O espelho, por um instante, pareceu vibrar. E antes que eu pudesse recuar, antes que eu pudesse gritar por socorro, uma rachadura surgiu na superfície do vidro. E, através dela, um braço explodiu para fora, estendendo-se até mim em uma velocidade absurda. Uma mão negra, ossuda e com garras longas e afiadas saiu do espelho com a precisão de uma víbora. Agarrou-me pela garganta.
O aperto seco e gelado, como gelo de caveira, demonstrou uma força inacreditável. O ar me fugiu por completo naquele último segundo, e acreditei fielmente que morreria também em seguida. Fui puxada para dentro do espelho sem qualquer delicadeza ou cuidado. Meus olhos viram, antes de fazerem a travessia, o reflexo distorcido da minha face contemplada de horror no vidro rachado. Soube, depois daquilo, que jamais poderia ter volta.
No fim, o vidro estilhaçou-se em uma explosão de neblina escura, engolindo-me para dentro de um mundo além da salvação.
Revisado por Sahra Melihssa
A Dança do Corvo
Sob a bruma de uma Inglaterra vitoriana marcada por mistérios e mortes inexplicáveis, Lucy retorna ao lar pela primeira vez em anos ao saber que sua irmã Emily está morrendo por um doença estranha. Mas na noite em que tudo deveria terminar em silêncio, Lucy presencia a alma de Emily sendo sugada para dentro de um espelho velho e adornado que reflete um mundo sinistro e desconhecido repleto de sombras derivadas de um castelo antigo.
Movida por amor e desespero, Lucy atravessa o espelho e se vê em uma dimensão onde a noite se mostra eterna e um castelo gótico que vigia o mundo com suas paisagens aterradoras. Lá, entre sombras e segredos ancestrais, ela deve confrontar forças que desafiam a vida e a morte antes que a alma de Emily seja perdida para sempre. » Leia todos os capítulos.
Gabriel Cordeiro
Gabriel Cordeiro é autor de terror gótico, romance sobrenatural e dark romance, conhecido por tramas intensas, sensuais e profundamente emocionais. Suas histórias exploram o sobrenatural com personagens marcantes e monstros que podem amar demais. Sua escrita mistura poesia sombria, suspense psicológico e erotismo visceral... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
O Velório que Nunca Acaba
Era, sem dúvida, o melhor velório a que eu já tinha ido, não pela comida, mesmo que o bolo de ossos moídos fosse bastante crocante e os brigadeiros…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Era, sem dúvida, o melhor velório a que eu já tinha ido, não pela comida, mesmo que o bolo de ossos moídos fosse bastante crocante e os brigadeiros tivessem aquele sabor único de infância traumática. Não, o encanto, ou melhor, o diabo estava nos detalhes: ninguém ali precisava se preocupar em morrer de novo, mas convenhamos que é um alívio danado quando já se está morto. O salão principal parecia ter sido decorado por um coveiro muito entediado. Balões inflados com pulmões humanos balançavam no teto, emitindo estalos úmidos sempre que se tocavam. As velas, dispostas em fileiras, não derretiam em cera, mas em camadas de pele liquefeita que pingavam sobre toalhas bordadas com crucifixos invertidos. A cada gota que caía, os convidados riam como se presenciassem uma situação muito engraçada.
No centro da sala erguia-se o bolo: três andares de ossos moídos envernizados em glacê amarelado, de onde brotavam velas azuladas. Quando o primeiro pedaço foi cortado, não saiu recheio, mas um murmúrio coletivo, vozes dos mortos pedindo que ninguém os comesse. Os convidados, é claro, devoraram as fatias como crianças famintas. Um detalhe digno de nota: o cheiro era insuportável, mas ninguém parecia se importar. Pelo contrário, havia quem respirasse fundo, como se inalasse um perfume francês. Na vitrola tocava risadas de crianças desaparecidas, era uma trilha sonora que deixava qualquer chá de bebê no chinelo. De tempos em tempos, um dos balões estourava, cuspindo um sopro gelado de ar que, suspeito eu, fosse o último de alguém que não fez nenhuma falta.
Eu me lembrava de ter chegado, mas não lembrava de ter saído em algum momento, aliás, ninguém ali lembrava, éramos todos convidados, e o castelo não permitia que a festa acabasse. No auge da celebração, quando alguém abria a caixa com o coração pulsante, eu ria, ria porque não sabia de quem era aquele coração, mas tinha certeza de que não era o meu, ou talvez fosse, e o castelo apenas o tivesse me emprestado por mais uma rodada. A reunião prosseguiu com brindes em taças cheias de um vinho espesso demais para ser vinho. Um bruxo ao meu lado, com humor mórbido, cochichou:
— É da safra de 1897, o ano em que Drácula foi publicado, dizem que fermentaram com mais do que uvas.
Ri, nervosa, até perceber que algo se movia dentro do líquido. A cada brinde, a cada corte de bolo, eu pensava: “Este é o melhor velório de todos os tempos.” E era mesmo. Onde mais se poderia estar morto, estar vivo, e ainda assim se sentir um convidado de honra?
Foi então que o defunto da noite entrou, ele surgiu do nada, como se tivesse sido cuspido pelo próprio chão do salão. Vestia um terno antiquado, gasto e ligeiramente úmido, como se ainda carregasse a terra da cova em seus ombros. O rosto era pálido, com olheiras bem fundas. Um sorriso exagerado, costurado nos cantos por pontos malfeitos, se abria de orelha a orelha, revelando dentes amarelados e um hálito de formol. Os olhos muito escuros piscavam a todo momento, às vezes vivos, às vezes mortos, refletindo o brilho azulado das velas de pele liquefeita. No peito, uma flor murcha brotava de um alfinete, e a cada movimento seu, caíam pequenos fragmentos de terra, como se a cova o chamasse de volta, mas ele, teimoso, preferisse ficar para mais uma apresentação.
— Bem-vindos ao meu velório, queridos! Boa noite, plateia, ou seria boa morte? Enfim, tanto faz, não é, aqui ninguém sai vivo mesmo.
A plateia ria.
— Deixem-me apresentar, sou o defunto da festa, literalmente. E devo dizer que nunca estive tão animado. Quem diria que morrer era o segredo para finalmente dar uma festa que preste? Vamos aos destaques do cardápio? — Ele falava e apontava para a grande mesa. — O bolo foi feito com ossos moídos, muito crocante, nutritivo e cheio de cálcio. Cada fatia vem com um brinde exclusivo, o sussurro de um morto aleatório. É tipo o brinde do kinder ovo, mas com mais trauma. Já os brigadeiros...ah, esses são especiais. Você morde e, ou sai um verme, ou uma lembrança horrível da sua infância. Eu experimentei três e agora sei que minha mãe realmente preferia meu irmão.
A plateia gargalhava com cada comentário que ele fazia sobre o cardápio.
— A lembrancinha da noite? Uma caixa com um coração ainda pulsando, mas relaxem, ninguém sabe de quem é, mas pode ser seu, pode ser meu. A decoração também merece aplausos, vocês não acham? Velas que derretem como pele liquefeita, e não em cera. Sustentável? Sim, vegano? Nem tanto, mas quem liga, não é?
Mais gargalhadas histéricas.
— Balões feitos de pulmões inflados, se estourarem perto de você, considere-se beijado pelo além. E a música, claro, vem de uma vitrola amaldiçoada que em vez de melodias, toca risadas de crianças desaparecidas, muito mais autêntico que sertanejo universitário, vocês concordam?
E mais gargalhadas histéricas.
— Agora, o ponto alto, temos escritores fantasmas que escrevem melhor mortos do que quando estavam vivos, vampiros bêbados de sangue ralo batizado com água benta, sim, isso mesmo que vocês ouviram, porque sangue fresco já virou mainstream e leitores que entraram no castelo e nunca mais saíram. Ah, e eu, claro, seu anfitrião preferido ou não, que não pode ser expulso, afinal, eu fui enterrado aqui.
A plateia morria de rir.
— E o Castelo, esse grande sacana, adora brincar de mestre de cerimônias, ele tranca as portas, sopra brisas geladas e sempre me lembra: “Mais um ano está chegando, prepare o ritual.” E eu respondo: “Pode vir, Castelo, só não esqueça do open bar.” E o mais incrível é que a festa nunca acaba. A cada vez que você pensa que terminou, alguém novo chega e tudo recomeça. É como um Natal em família, só que divertido.
Mais e mais risadas.
— Por isso eu digo, com toda a certeza de um cadáver satisfeito: Este é o melhor velório que já existiu, porque, afinal, não se pode matar o que já está morto e agora, vamos brindar de novo. — gritou o defunto. — Quem tiver cálice, levante, quem não tiver, pode usar o crânio do vizinho. Moléstia eterna!
A multidão explodiu em aplausos e risadas histéricas, outros levantaram seus cálices e seus crânios. Então, como sempre, a festa recomeçou. A primeira convidada entrou, perplexa, reparando nas decorações bizarras, e todos aplaudiram como se fosse a atração principal e eu, com meu cálice de vinho que tinha gosto de sangue ralo, levantei-me para brindar:
— Um brinde à eternidade da festa, porque não se pode matar o que já está morto.
Todos riram de forma histérica, insana, até que o bolo voltasse a ser cortado e os murmúrios dos mortos se repetissem, como no primeiro dia, pois era, afinal, o melhor velório que nunca terminou.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Noite de Aniversário
Balão festivo, alegra o entardecer! | Refulge níveo e vai no sopro-vento; | Menina que o observa a perceber | Que o escuro vem estranho e nevoento…
Balão festivo, alegra o entardecer!
Refulge níveo e vai no sopro-vento;
Menina que o observa a perceber
Que o escuro vem estranho e nevoento…
É tarde, e labirinta-se a floresta!
Um breu de orvalho e morte foi criado…
Menina amedrontada, que lhe resta:
Voltar por onde lembra ter passado…
Tão fácil decisão, vês? — Entretanto
Que tolo pensamento ela tivera!
A face deformada ao seu espanto!
Medonho ente tão pútrido à sua espera…
Silente perseguia a moça, e então,
Foi visto, morbo-horror, assombração!
E o olhar de mil… mil jardas… concebera.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura macabra, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com o belo, o fantástico, o científico e o botânico. » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Cântico da Luxúria Noturna
Ó noite sem mácula, mãe da luxúria e do pecado, | abre o teu ventre de trevas sobre meu corpo acorrentado, | pois não há cárcere que baste…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Ó noite sem mácula, mãe da luxúria e do pecado,
abre o teu ventre de trevas sobre meu corpo acorrentado,
pois não há cárcere que baste, não há corrente que contenha
o desejo que em mim nasce e em minha própria dor se banha.
Sou mais que presa: sou riso e sou gozo,
sou vício que arde em um gesto piedoso
da mão que me fere pensando em punir-me,
mas encontra na carne apenas o convite de possuir-me.
Ó caçador, frágil em tua ânsia de domínio,
não percebes que és servo de meu desatino?
Quanto mais tu me prendes, mais livre me torno,
e quanto mais me negas, mais em teu peito retorno.
Na vertigem do êxtase, os grilhões são coroas,
as feridas são flores, e as sombras, pessoas.
De meus lábios escorre um riso soturno,
que faz da agonia um cântico noturno.
Ah! O aço que corta não é espada, é um beijo,
e a mordaça que cala me entrega ao desejo,
cada nó da corda é um caminho secreto
para o altar oculto de um amor inquieto.
E tu, que acreditas deter a minha essência,
aprendes no rito da mais dura ciência
que o prazer é abismo e a dor é vertente,
e que em mim o suplício floresce contente.
Sou vampira, sou chama, sou veneno, sou delírio,
sou templo erguido sobre o meu próprio martírio,
sou carne que arde, sou uma sombra que brilha,
sou gozo que nasce de minha própria partilha.
E quando enfim tombares, rendido aos meus pés,
ouvirás ao fundo belos hinos, sons cruéis,
e em meio ao crepúsculo, rubro e profano,
serei tua amante, teu inferno e teu engano.
Assim é o êxtase: um precipício em chamas,
um véu que devora, um abismo que inflama,
na noite absoluta, sou riso sacrílego e dor,
sou litania profana, sou luxúria e sou terror.
Cláudio Borba
Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
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Coroação de Sangue
Cordas mordem sua pele como dentes impacientes, | marcando trilhas vermelhas | onde o sangue ameaça florescer. | Ela sorri, um eco rouco de prazer, | entre gemidos contidos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Cordas mordem sua pele como dentes impacientes,
marcando trilhas vermelhas
onde o sangue ameaça florescer.
Ela sorri, um eco rouco de prazer,
entre gemidos contidos.
Ele pensa ter vencido,
mas seu aperto apenas inflama a sede dela.
Cada nó é um convite proibido,
cada puxão,
desperta a besta.
Ela arqueia o corpo, oferece o pescoço,
deixando o pulso latejante,
altar e sacrifício.
Ela gosta do jogo, de fingir-se domada,
mas sob as amarras,
urge, é ameaça.
Um fio de sangue escorre lento,
perfume metálico,
urro intenso.
Seus olhos brilham rubros,
gargalha no escuro.
Por dentro, é explosão,
é desejo.
Dedos longos e ossudos,
presas sedentas.
É bicho, é monstro,
realeza.
Quando as cordas são rompidas,
não é libertação, é coroação.
Ela é a fome, é o êxtase,
é vítima, é carrasca.
É a morte, é o gozo,
ela é a noite que não se enjaula,
e ele, agora,
não passa de carne.
Luiz E. Tassini
Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
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Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…