Memórias de um Pierrot
Certamente, não era o melhor lugar do mundo para se estar. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
“Se olhares demasiado tempo dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar dentro de ti”.
Friedrich Nietzsche
Certamente, não era o melhor lugar do mundo para se estar. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente, mas servia para se reconciliar consigo mesmo, entre um copo e outro de uma bebida qualquer. A parca iluminação elétrica, proveniente de duas simples luminárias dispostas nas paredes laterais, era um tanto quanto insuficiente, quase a ponto de uma penumbra completa. A semiescuridão do ambiente nem mesmo era notada por aqueles que ali estavam, pois quase todos os frequentadores de botequins, em sua grande maioria, optam pela escuridão. Sabe-se que, em momentos de tristeza e solidão, muitos preferem as trevas para tentarem se esconder de seus próprios problemas.
Na silenciosa penumbra de um bar, um indivíduo qualquer pode, sob a sombra do anonimato, tentar se esconder de qualquer problema que lhe assole ou de qualquer pessoa que o persiga. Só não poderá jamais esconder-se de si mesmo. Na sufocante atmosfera onde os odores de bebida e perfumes baratos se misturam com a constante fumaça de tabaco pairando ad aeternum no ar, sempre há alguém disposto a narrar alguma história, se porventura houver algum ouvinte interessado. Algumas dessas histórias podem ser verdadeiras, outras nem tanto. De certo modo, poder compartilhar algo, não importa se é verdadeiro ou não – mesmo que seja para desconhecidos – é uma tentativa desesperada de aliviar um peso na consciência.
Era uma noite como outra qualquer, sem muitas novidades, e o movimento estava amainado devido ao tempo. Enquanto na rua estava até um pouco frio, devido à chuva fina que caía constantemente, dentro do bar estava quente e abafado, devido às janelas estarem todas fechadas. Os clientes eram os mesmos de sempre, e tudo parecia estar concorrendo para mais uma sorumbática noite de terça-feira. No ambiente reinava um silêncio quase tumular, sendo interrompido vez por outra pelo som de bolas de bilhar, o barulho do carteado e o som de copos sendo reabastecidos. As canções que se alternavam num velho rádio no alto de uma prateleira eram quase inaudíveis, como se fossem um fúnebre fundo musical.
Toda aquela paz fora interrompida pela chegada de um estranho, que trazia consigo uma aura tão carregada que, além do rádio ter ficado mudo por um momento, até mesmo as luzes piscaram quando ele adentrou naquele ambiente. Não trajava vestes sombrias, nem mesmo tinha um rosto apavorante em si. Estava barbeado, limpo e perfumado. Contudo, havia algo de errado com ele; estava estampado em seu semblante que uma grande tristeza o assolava. Após cumprimentar a todos os presentes com uma voz macia e serena, pediu uma bebida e foi sentar-se numa mesa num dos cantos escuros do bar. Logo, uma bela mulher – dessas flores que a solidão da noite traz com seu perfume – veio até sua mesa e lhe ofereceu companhia. Ele agradeceu polidamente, mas recusou a oferta, dizendo:
– Devo agradecê-la pela gentileza, mas não tenho nada a lhe oferecer. Não quero de forma alguma tomar o seu tempo, muito menos atrapalhar o seu trabalho. Quero apenas beber um pouco e tentar, de alguma forma, dar um pouco de paz ao meu espírito.
– Em muitos casos, poder desabafar com alguém é a melhor forma de refrigerar uma alma atribulada. Além do meu ofício de leito, posso também lhe oferecer meus ouvidos e minha atenção – respondeu-lhe ela com muita simpatia.
Ele correu os olhos por todo o ambiente, como se estivesse medindo o perímetro, e logo após fez uma minuciosa análise de toda a silhueta da bela criatura que estava de pé logo à sua frente. Em resposta à sua gentil prestatividade, ofereceu-lhe uma cadeira e pediu que se sentasse, solicitando ao dono do bar que lhe servisse uma bebida. Quando prontamente a bebida fora trazida até sua mesa, ele pediu ao dono do bar que deixasse a garrafa, pagando-a com uma nota bem acima do valor e dizendo que não se preocupasse com o troco. A mulher, que havia se sentado comodamente, após tomar um considerável gole do conhaque que lhe fora servido, sorriu de maneira bastante inocente e disse em seguida:
– A propósito, meu nome é Adelaide. Dou-lhe minha palavra que serei uma ótima companhia e uma atenciosa ouvinte, se quiser conversar.
– Não era minha intenção, de forma alguma, descarregar meus dissabores sobre as costas de alguém. Não tenho certeza se vai gostar de ouvir o que tenho para contar. A bem da verdade, o que vou relatar a você, Adelaide, nunca contei para pessoa alguma. Não vou precisar pedir que mantenha minha história em segredo, pois tenho absoluta certeza de que o fará. Até porque, mesmo se você contasse minha história para qualquer pessoa, ninguém acreditaria. Seria vista como louca ou uma talentosa mentirosa.
Adelaide apenas sorriu em desafio, balançando a cabeça de forma negativa, como se aquele gesto quisesse dizer: Já vi e ouvi tanta coisa nessa vida que nada mais me assusta. Após virar de um só gole um copo de bebida, ele limpou a garganta e, antes de iniciar sua inverossímil história, ainda lhe disse, como se pudesse ler seus pensamentos:
– Talvez você até possa ter visto e ouvido muitas coisas em sua insignificante existência, mas tenho certeza de que, ao final de minha história e antes mesmo que esta noite acabe, sua vida já não será mais a mesma. Vou lhe contar desde o início, para que, quem sabe, assim você possa entender aquilo que eu mesmo ainda não entendo.
...Quando eu tinha apenas doze anos e minha querida e inocente irmã ainda não havia completado nem mesmo seus sete anos, numa noite em que estávamos a passeio na casa de nossa tia – única irmã de nosso pai –, nossa casa fora alvo de um terrível incêndio, que colheu a vida de ambos ao mesmo tempo, deixando-nos órfãos e sem nada, apenas com a roupa que tínhamos no corpo. Como meu pai não era provido de muitos bens, nem nossa mãe tampouco, além de perdermos nossos pais e nosso antigo lar, ficamos também reduzidos a nada. Duas crianças lançadas à própria sorte, dois seres inocentes contando apenas com a providência divina.
Minha irmã – uma bela menina de olhos claros, cabelos cacheados e faces rosadas – logo fora acolhida por minha tia e seu esposo, uma vez que eles ainda não tinham concebido nenhum filho, mesmo após dez anos de casados. Certamente algum dos dois deveria ter algum tipo de problema, pois sonhavam com uma criança. Eu, por outro lado, após ficar seriamente abalado com a trágica perda de meus pais, tornei-me um jovem arredio e bastante rebelde, chegando ao ponto de ser inconveniente, fato que me rendeu uma passagem só de ida para o seminário. Minha tia, convencida pelo marido, logo entendeu que, antes que eu fugisse de casa e me tornasse um delinquente, ela poderia fazer algo em meu benefício, entregando-me aos cuidados da Igreja, que, além de me educar, dar-me-ia a oportunidade de seguir uma carreira clerical.
Os primeiros anos que passei no seminário foram de total desalento para minha alma. Devido às minhas terríveis perdas, por mais que eu tentasse com todas as forças do meu ser, não conseguia acreditar em nada daquilo que meus tutores tentavam me ensinar sobre as bem-aventuranças que a religião poderia me oferecer. Eu havia perdido completamente a fé em tudo, até mesmo em mim. Há um provérbio que diz: “Na convivência de nossos semelhantes, nos tornamos iguais”. Já próximo à minha ordenação, quando eu já estava me adaptando àquela litúrgica vida, acostumando-me com a ideia de me tornar padre e, quem sabe assim, poder levar algum conforto a todos aqueles que, tais como eu, haviam enfrentado terríveis dissabores na vida, o destino me lançou mais uma vez ao chão. Minha irmã, que há pouco tempo havia desabrochado em seus quinze anos, cometeu suicídio. O real motivo eu não soube na época. Minha tia manteve no mais absoluto sigilo o porquê de uma jovem tão bela e radiante, cheia de sonhos, atentar contra a própria vida. Mais uma vez, minha fé me abandonou.
Nessa época, eu estava próximo de completar vinte anos. Um homem mentalmente instruído e fisicamente formado, pronto para enfrentar o mundo. Sem ter mais o que fazer dentro das paredes de um seminário, mesmo antes de professar meus votos, deixei minha vida eclesiástica de uma vez por todas e dei início a uma vida errante, perambulando de um lado para outro em busca de sobreviver de uma forma honesta. Minhas decepções haviam, de certa forma, me retirado a fé, mas os preceitos de ética e moral que aprendi, primeiro com meus saudosos pais e depois no seio da Igreja, fizeram de mim um homem de princípios.
Tentei me firmar em vários ofícios, tentando aprender uma profissão que pudesse me sustentar de forma digna, mas comecei a pensar que pessoas como eu estavam fadadas à derrota completa. Minha coleção de decepções era tamanha, ao ponto de começar a imaginar que talvez o melhor a fazer seria seguir o exemplo de minha irmã e acabar com todo o meu sofrimento de uma vez. Mas parece que o destino, de certo modo, tinha algo reservado para minha existência. Numa fria manhã de janeiro de um ano qualquer, estando eu sem trabalho já há algum tempo, com o aluguel do pardieiro que eu chamava de casa vencido e sob sérias ameaças de despejo a qualquer momento, com pouco dinheiro no bolso – talvez desse para mais duas ou três refeições apenas –, quando o desespero já tomava conta de mim, decidi que deveria arrumar uma ocupação imediatamente, fosse ela qual fosse. Saí de casa e, após tomar apenas um café num botequim qualquer, fui em busca de trabalho.
Após horas de caminhada improdutiva, entre vários "nãos" e muitas promessas de "quem sabe outro dia", já quase desistindo de encontrar trabalho, ao passar em frente a um combalido circo, vi uma placa com oferta de emprego. Estava escrito com tinta vermelha:
“CONTRATA-SE PALHAÇO”.
Primeiro, cheguei a pensar que eu não tinha a menor aptidão para aquele tipo de função. Contudo, para quem já havia sido auxiliar de padeiro, mascate, servente de pedreiro e tantas coisas mais, trabalhar no circo apenas fazendo as pessoas sorrirem não seria tão difícil. Aproximei-me da barraca onde a placa estava pendurada e, assim que bati palmas, logo fui atendido por um senhor bastante disposto. Jeremias era seu nome, um homem de baixa estatura, mas demonstrando ter um grande coração, pois, antes de qualquer coisa, após se apresentar como proprietário do circo, convidou-me a entrar em sua tenda e, como estava ele, naquele justo momento, iniciando sua refeição vespertina, convidou-me a acompanhá-lo em seu humilde almoço. Para quem há dias estava comendo o pão que o diabo amassou, a oferta foi aceita de imediato, sem necessidade de muita insistência.
Aquele repasto foi muito bem aceito por mim, que, sem muita cerimônia, logo dei fim a uma fome que me acompanhava desde a tarde anterior – naqueles dias, eu fazia apenas uma refeição por dia. Enquanto comíamos, demonstrei-lhe meu interesse pela vaga de palhaço. Contei-lhe um pouco sobre a minha história e, talvez, tenha sido a tragicidade de minhas perdas que tocou seu coração, pois, antes mesmo que nosso almoço terminasse, eu já estava empregado novamente.
Tudo estava acertado, só restava um único detalhe: a fantasia do palhaço a quem eu devia substituir não serviria em mim, pois ele era um anão. Como o circo estava em contenção total de gastos, a vaga seria minha, desde que eu comprasse meu próprio traje. Se assim eu o fizesse, poderia começar no dia seguinte. Com a fome saciada e a promessa de um emprego, voltei para casa e, após coletar alguns itens dentre meus pertences pessoais – que já não eram muitos –, saí pela cidade em busca de um brechó que se interessasse em uma permuta daqueles parcos itens em troca de roupas que pudessem ser utilizadas como uma fantasia de palhaço.
Na terceira loja em que entrei – um ambiente muito sinistro –, fui atendido por uma mulher com traços bastante cadavéricos, mãos enormes, com dedos longos, terminados em unhas que mais pareciam garras. Quando lhe propus negócio, ela, de imediato, disse que eu havia entrado no lugar certo, pois, naquele mesmo dia, chegara às suas mãos uma fantasia de palhaço completa, com todos os itens necessários para uma boa performance. Quando vi a fantasia, um estranho arrepio correu por todo o meu corpo. Parecia que aquela roupa estava esperando por mim, pois, quando a toquei, senti um incontrolável desejo não apenas de adquiri-la, mas de experimentá-la o mais rápido possível. A sombria mulher que me atendera dissera que alguns trajes escolhem seu dono, reconhecendo-o de imediato, assim que o veem.
Como eu não tinha dinheiro para pagar pelo traje, deixei os itens que levara comigo – inclusive um relógio que pertencera ao meu pai e que há muitos anos me acompanhava – em troca daquela fantasia. Ficou combinado que eu retornaria para resgatar o relógio. De posse daquele traje e muito animado com meu novo emprego, direcionei-me de volta para casa. Assim que adentrei meu pequeno quarto, logo tratei de vestir aquela roupa para saber se ficaria confortável para o trabalho. Assim que terminei de colocar meu chapéu de pierrot, ouvi meu senhorio bater à minha porta para mais uma cena de humilhação que eu, de tempos em tempos, tinha que enfrentar. Ao caminhar até a porta, ouvi o barulho dos guizos de meu chapéu. Aquilo despertou algo estranho em mim; uma sombra tomou conta de todo o meu ser. Senti um incontrolável desejo de ter em minhas mãos o controle sobre a vida e a morte de alguém. Meu senhorio não disse mais do que cinco palavras e logo estava agonizando, caído no piso do meu quarto. Sua cabeça, virada para trás, me olhava em completo desespero, sem conseguir entender como aquilo acontecera tão rápido. O corpo do meu senhorio nunca foi encontrado.
Na noite seguinte, trabalhei tranquilamente no circo. As crianças me adoraram. O público ficou boquiaberto com minha performance. No final do espetáculo, Seu Jeremias, após me elogiar bastante, chegou a me perguntar se eu realmente nunca havia trabalhado no circo. Respondi que não e voltei para minha casa.
Na semana seguinte, com o dinheiro de meu primeiro pagamento, retornei à loja para resgatar o relógio que fora de meu pai. No mesmo local onde, há menos de uma semana, eu comprara aquele formidável traje, não havia nenhum tipo de construção, apenas um lote baldio, dando mostras de que estava abandonado há anos. Questionei os vizinhos sobre a loja, mas ninguém sabia de nenhuma loja ali havia muito tempo. Segundo um senhor, dono de um açougue próximo e que estava no local há quase sessenta anos, a última construção do lugar fora uma casa que pertencera a um velho professor, que morrera há muitos anos, e essa mesma casa fora derrubada alguns anos após a morte de seu antigo dono. Voltei para casa cabisbaixo, lamentando a perda de tão importante objeto. Pensei comigo: O que eu não daria para ter aquele relógio novamente comigo...
Em menos de três meses, eu já estava morando no circo e me sentia parte de uma família novamente. Numa tarde, recebi uma triste carta que me comunicava sobre o falecimento de minha tia num trágico acidente. A carta relatava quando seriam as exéquias e como ela havia falecido – minha última parente viva havia caído das escadas de sua mansão. Fui autorizado a ir ao velório e foi justamente lá que descobri, através de algumas senhoras – um tanto quanto desocupadas –, que minha tia muito possivelmente fora assassinada pelo marido. Sem saber quem eu era, uma delas disse ainda que a sobrinha que eles criavam desde que ficara órfã se matara porque não suportava mais ser abusada pelo tio. Uma delas chegou a comentar que, no caixão em que minha irmã fora enterrada, havia duas pessoas. Naquela mesma noite, o marido de minha tia foi dado como desaparecido. Sumira sem deixar vestígios.
Eu, que passei praticamente minha vida toda na mais completa miséria desde que perdi meus pais, da noite para o dia me tornei uma pessoa sem maiores problemas financeiros. O marido de minha tia não tinha nenhum herdeiro. Como ele havia desaparecido, logo a Justiça me fez seu único beneficiário, recebendo todos os seus bens.
Com muito aperto no coração, deixei o circo e segui minha vida a fim de tocar os negócios que herdei. Minha vida de artista circense ficou para trás, mas levei comigo minha fantasia, pois, de certa forma, sentia que ela fazia parte de mim. O mais estranho de tudo é que sempre que visto minha fantasia, alguém acaba sumindo e eu sempre acordo com um estranho gosto de sangue na boca...
Terminada sua narração, ele chegou a imaginar que Adelaide sairia correndo de medo de toda aquela história ou que, então, pudesse entrar numa crise de riso que não teria mais fim. Contudo, ela, com a garrafa de conhaque nas mãos, após encher mais uma vez o seu copo e beber até a metade, levantou-se graciosamente e, após lhe apertar a bochecha – como uma mãe faz com um filho obediente –, disse-lhe, exibindo um sorriso de dentes bastante afiados:
– Você tem sido um bom garoto. Estamos muito contentes com sua performance. Decidimos que você merece até mesmo um prêmio pelo seu desempenho.
Após entornar o restante da bebida que tinha nas mãos, colocou o copo vazio sobre a mesa e, ao lado do copo, deixou-lhe um pequeno embrulho amarrado com uma fita vermelha. Caminhando num belo bailado, com muito charme e simpatia, ela se direcionou até a porta e, após olhar mais uma vez para ele, sorriu um riso solto e saiu.
Quando ele abriu o embrulho, que ainda trazia o toque do perfume que Adelaide estava usando, o relógio que um dia pertencera a seu pai estava dentro...
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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4 Contos Viscerais de Aryane Braun
Os contos de Aryane Braun são um convite à imersão no mais visceral da mente humana. Entre mortes macabras e coleções bizarras, a autora conduz…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Os contos de Aryane Braun são um convite à imersão no mais visceral da mente humana. Entre mortes macabras e coleções bizarras, a autora conduz o leitor por um horror pungente, transmitindo com maestria a sensação de tormento e inquietação. Para aqueles que apreciam um terror intenso e, acima de tudo, bem escrito, Aryane entrega narrativas que, além de provocar o estômago e a mente, instigam reflexões profundas sem jamais comprometer a qualidade literária.
Neste post, selecionei quatro de seus contos mais impactantes — histórias que vão te deixar tonto, surpreso e, talvez, até enojado. Mas, sem dúvida, será uma experiência inesquecível. Leio e recomendo Aryane Braun. Venha mergulhar nessas vísceras!
Boa leitura!
Com apreço sombrio,
A Anfitriã: Sahra Melihssa
Clique na imagem para acessar o texto.
Seleção publicada na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de março de 2025. → Ler edição completa
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A angústia é uma farpa
O que esperamos da existência efêmera que pertence ao nosso ser? Há muitos sentidos para serem criados e sustentados pelas idealizações e crenças que…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
O que esperamos da existência efêmera que pertence ao nosso ser? Há muitos sentidos para serem criados e sustentados pelas idealizações e crenças que floresceram em nós sem que, por vezes, pudéssemos perceber. Para a Psicologia, o “dar-sentido” é o valor real do ser que somos; entretanto, ainda sinto que há algo que nunca será amordaçado pelo discurso do ânimo: essa angústia tão familiar, que se manifesta de infindáveis formas.
Na imensidão mórbida do inautêntico, vemos o cansaço ofuscar o lume da angústia, vemos a hiperestimulação construir seu palácio de vidro ao redor do abismo desta aflição muda — o silêncio soturno é ouvido mesmo quando o alarde, dentro e fora de si, é inominável. Mesmo ocupados demais para nos voltarmos a nós mesmos, o poço da nossa constituição faz-se cada vez mais fundo — e não há como impedi-lo.
Mesmo assim, insistimos. E a rolagem infinita, guiada pelo nosso dedo indicador, é o glitter que cega nossos olhos, e vicia. Ora choramos, ora rimos; em frações de segundos, temos uma descarga mental absurda. Ora nos preocupamos com as contas mensais, ora rezamos pelo fim do mundo. A angústia é o pano de fundo de um cotidiano abarrotado de razoabilidade.
Podemos temer uma nova pandemia, a terceira guerra ou, ainda, a revolução das máquinas; a mudez ensurdecedora do espírito continuará perturbando nosso banho de dopamina, deixando um rastro úmido de desalento sôfrego. E, quanto mais o tempo passa, estando cada vez mais soterrada, a angústia, uma hora, torna-se maior do que aquele a quem ela pertence — mesmo oprimida e muda, mesmo tão ínfima como uma farpa.
Uma crítica é apenas uma crítica; uma verdade é sempre mais do que uma verdade. Podemos deixar as redes sociais? Podemos abraçar o tédio? O tempo transfigurado em infinito sem um ecrã luminoso para a bel lascívia psíquica? Não podemos. E os que podem estão mortos — incapazes de lidar com o tamanho de suas angústias ou iludidos pelo ego de suas pseudo-superioridades sobre a massa que consideram ignorante.
Estamos dispostos a discordar e questionar, não estamos dispostos a pensar, quietos.
Há anos — é minha percepção — não escrevo pensamentos e reflexões, tomada pela sensação de que meu pensar trará ódio daqueles que vagam, almas vagantes, na world wide web. Intolerantes por toda parte. E eu mesma, talvez, veja a hipocrisia no espelho. Ornamental e sublime hipocrisia. Pela constância com que me vejo nesse mundo, a Matrix dentro da Matrix, um sonho dentro de um sonho, eu não poderia pensar diferente disso.
Mas o que mais dói no silêncio da minha angústia é o quão alto ela grita e o quão solitária ela faz eu me sentir.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Capítulo 9 – Perturbadoras Revelações
Um abrupto sopro de vida e meus olhos foram circundados pelo lume de um dia nublado. Eu dormia? Ao derredor, um cemitério árido e lúgubre descansava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Um abrupto sopro de vida e meus olhos foram circundados pelo lume de um dia nublado. Eu dormia? Ao derredor, um cemitério árido e lúgubre descansava, com carvalhos negros ressequidos e antigas estátuas de mármore cobertas por um tipo de limo amarantino à beira do índigo-profundo. À frente, um homem dava forma a uma sepultura, cavando sem pressa; observando a terra atra e úmida se amontoar ao lado da cova. Demorei-me para compreender que o indivíduo proferia palavras, as quais eu bem ouvia, após o súbito despertar que fizera um estranho chiado perturbar-me os ouvidos. Demorei-me, igualmente, para assimilar-me em pé, segurando em mãos um pequeno livro e vestida em tecido de veludo, na cor noite-violeta.
— … que entendia como algo irrelevante, tal qual a vida em si mesma é compreendida por um recém-nascido. Era, entretanto, aprazível viver nos augúrios nadificantes em Sihren, pois, vês? Cá é tudo cinza e silente. Lá, entre jardins de espécimes indizíveis e mais tantos visitantes a trazerem mudas crescidas de ascehderas e lihrios, eu podia me deleitar com o aroma místico enquanto aconselhava as criaturas que, na verdade, nunca precisaram de conselhos. Ah… sim… Sihren era mesmo o paraíso… aqui, entretanto, eu sou esta mórbida criatura que rasteja na terra e estes corpos, enterrados soltos no solo infértil, nunca recebem flores, tampouco saudações d’algum vivo que deles se recorde. — Após calar-se, o homem fitou os céus, como se mergulhasse em memórias. — Bom saber que eras de Sihren, senhora. Saber que tenho uma conterrânea, afaga esse meu velho coração. Não só uma, já conheci alguns outros… inclusive Olga… bem petiz, ela corria pelos corredores do Castelo do nosso imperador… ah… que saudade…
Minha reação, se é que posso dizer que reagi, era como um oceano infinito de incertezas sôfregas. Eu decerto o olhava confusa. Senti-me colocada em meio a algo que não me pertencia; desde o local até o corpo meu, pois, tão íntimo aquele senhor me dirigia sua palavra serena sobre o que tínhamos em comum, entretanto, como poderia saber? E eu lhe disse que sou de…Sihren? Mas como o poderia dizer se eu, decerto, não disse? E Olga, criança? Como e quando tal fenômeno ocorrera? Quem poderia ser este imperador? Eram tantas indagações, entretanto, nenhuma se clarificava à medida em que eu me esforçava para lembrar.
— Eu… — Sem que pensamentos torturantes florescessem, busquei algo sutil para trazer à tona e fazer com que o homem caísse em seu falatório que, por muito, soava-se valioso. Todavia, seus olhos se voltaram a mim e sua face, outrora tão tenra, transfigurou-se n’um pavor desmedido. O homem, na tentativa de fugir de mim como se eu lhe fosse a pior das assombrações, tropeçou em sua pá, ficando ainda mais horrorizado.
— Tu… tu és… um deles! — Bradou atormentado em medo.
— Senhor… por favor… eu não…
— Vampira!!! — Seu vocífero contornou os quatro quantos do universo. Ele ergueu-se com dificuldade, apoiando-se na terra, sujando suas mãos ainda mais.
— Eu não te farei mal… — Tentei explicar.
— Teus olhos… onde estão…? Mudaram… tu és…como eles! Eles! — O homem correu com uma pressa espectral, guiado por um frenesi de medo insano entranhado na alma, como se fugisse do próprio passado reencarnado diante dele. Não o impedi, pois, sei que quaisquer ações poderiam levá-lo à morte súbita, tamanho era seu terror abominável. Apenas fiquei observando-o se afastar como um animal selvagem... embora, talvez, eu que fosse animalesca de fato.
Diligenciei-me, sob uma promessa autoimposta, a absorver a cinesia do que me parecia um desvario meu, uma insanidade onírica; e, então, reordená-la para que fizesse sentido. Entretanto, toda a lógica sangrava diante de meus pensamentos toldados por um discernimento fragmentado. A verdade é que eu estava de volta ao prólogo, com os olhos abertos para o mundo e um oceano de enigmas para decodificar. Por infortúnio, diferente do sereno início, eu carregava muito mais fardos e, um deles, decidiu se manifestar enquanto eu ponderava...
— Devias ter mantido teus olhos no fulvo que os pertence. — Ouvi. Olhei para trás e Seth estava ali, recostado em um carvalho.
— Como... saíste? — Questionei incrédula. Ele pareceu meândrico. “Ó, fardo maldito!” pensei.
— Do que estás falando, Áurea? — A voz de falésia e voragem.
— O ritual... o círculo... como tu quebraste a magia? — Eu estava mesmo incrédula, a magia era poderosa, não poderia ter se desintegrado sem que alguém, intencionalmente, a tivesse rompido. Seth se aproximou.
— Tu não te lembras? — Ele é quem estava, naquele instante e, mais do que eu, cético. Mantive-me em silêncio. Eu poderia estar perdendo minhas memórias recentes como um despertar de um sonho? — Hum... — Murmurou rodeando-me e, por fim, abaixou-se perto à cova, tocando a terra úmida. — Não te lembras que foste ao teu aposento, com uma adaga-cruz em mãos? Esta que refulge em teu cós, presa por uma fita de veludo? — Toquei-me a cintura, senti a adaga frígida. — E não te lembras de encontrar-me preso ao aposento e não ao círculo, dificultando a tua obscura intenção de fincar em meu peito o teu novo artefato?
— Do que estás falando? — Interrompi-o, aflita. Seth gargalhou e levantou-se.
— Interessante... se tu não te recordas, não serei eu o responsável por te trazer a lembrança; ainda mais sendo vítima da tua loucura e pendor assassino. Se não fosse por Olga, eu teria me tornado pó; mas... é gratificante saber que teu ponto fraco é tu mesma.
— Fale-me agora, Seth! — Segurei-lhe em seu braço com uma força que eu não sabia me pertencer; estava com ira abíssica e desejei, confesso sem receios, que ele não existisse e que toda a sua ironia e seu sarcasmo sucumbisse junto dele para mais profundo que o inferno de onde ele vinha. Olhamo-nos de perto. Ele sorriu outra vez.
— Um olho carmim... um olho dourado... Ela está vindo, Áurea... vais deixá-la entrar? — Pressionei ainda mais o seu braço e vi em seus olhos um fogo rubro faiscante enquanto seu semblante deixava o aspecto satírico e contornava-se em cólera.
— Basta!!! — Murmurei furiosa.
— Pergunta para Lorrt, Áurea. O maldito nocturvo que tanto te venera.
Eu não sei como, mas, ouvi-lo falar de Lorrt fora o estopim do meu furor. Num único movimento célere, segurei a adaga-cruz e passei pelo rosto de Seth. Um sangue negro verteu quente da fenda aberta em seu queixo. Sua mão prendeu-me o pescoço no mesmo ímpeto e mais um corte fiz sobre ela até que, num golpe desordenado, Seth fez a adaga soltar-se de minha mão e cair sobre a terra. Desarmada, segurei sua camisa torcendo-a contra seu pescoço e o golpeei entre suas pernas, fazendo-o se curvar em dor; presos e entrelaçados no ódio, desequilibramo-nos e caímos na cova — não foi o suficiente para me fazer parar.
Talhei seu rosto com meu punho fechado, três vezes, enquanto ele tentava prender minha mão esquerda. Sem sucesso. Embora fosse forte como um touro, não tinha nenhuma habilidade física contra meu esgueirar-se. Prensei seu estômago com meu joelho e senti-o segurar meus cabelos com avidez, buscando me parar. Seu murmúrio demoníaco se alastrava; cravei meus dentes em seu braço, fazendo-o me soltar e, fugaz, cravei-os novamente, mas em seu pescoço e suguei seu sangue asqueroso para, pouco depois, cuspi-lo em sua face. Seth, atordoado, grunhiu algo ainda mais diabólico e vi a tez de sua fronte rasgar como se algo em seu interior quisesse pôr à vista a verdadeira forma de sua constituição.
— Ssatt esstt hrasstt — Rosnou dizendo, grave algar. Forçou-me contra o muro, tentava virar-me para ficar sobre mim, mas não deixei; cravei meu olecrano em seu peito, fazendo-o tossir; entretanto, um obscuro calor em meu corpo emergiu como se dentro de mim e o incêndio daqueles olhos satânicos parecia se alastrar n’um ardor pecaminoso. Gritei como a morte em fel e chamas, enterrei minhas unhas em seu pescoço e as arrastei para baixo, sulcando sua pele. Por instantes, jurei que não haveria um fim, mas, o fogo do inferno cessou e Seth conseguiu prender-me os braços. Seus olhos atentos, seu corpo prensando-me na terra.
— É desleal fazer isso, Áurea; eu não posso te ferir, eu devo te proteger, essa é a minha função. Foi tu que assinaste o acordo com Lahgura.
— Que maldita proteção é esta? Obscurecendo as verdades que possui sobre minha própria existência! — Seth respirou fundo e soltou-me. Entre nós o silêncio pareceu-nos perdurar mil e uma noites.
— Quando… — Ele iniciou, demonstrava exaustão. — Quando teus olhos refulgem dourados, ambos, uma outra personalidade se manifesta — Seth tocou suas feridas, feitas por mim, e gemeu de dor intensa. — Ela, a outra, determinada e ciente de toda a tua história, não teme nada, é instintiva. Ela desejou a minha morte na violência de suas mãos, com seu desprezível caráter incólume. Ela é perigosa... — Seth se apoiou, saindo da cova e se sentando à beira.
— Não é fácil dizer a alguém importante que sua doença é psíquica e que esta, decerto, é a razão pela qual suas memórias desapareceram. Ela as roubou de ti... e eu... eu só não sabia como revelar este lídimo e pernicioso fato. — Confessou e estendeu-me sua mão esquerda, supus que pretendia me tirar da cova. Hesitei, mas, ele relevou o que devia e eu queria sair daquele úmido túmulo. E saímos, sujos de terra. Seth, sangrava. Nada proferi a respeito da revelação. — Minha Aessatt, eu te perdoo... não traga em tua fronte tal desespero. — Ele sorriu e eu o fuzilei com minhas retinas trêmulas em gana. — Agora, devo ir.
Antes que eu pudesse desfrutar do seu desaparecimento, ele se esvaneceu. Tentou acariciar meu rosto, mas não o permiti. Apenas com sua expressão de cinismo, foi embora fazendo uma reverência arrogante. Com certeza foi para o inferno, lugar onde pertence.
Demorei-me ali, sozinha. Vi o pequeno caderno e a adaga-cruz lançadas no solo fúnebre, peguei-as e as limpei como pude. Pouca e mórbida era a aragem que soprava e parecia-me que o entardecer não chegaria. Os céus, por instantes, soavam-me espúrio e o Castelo Drácula, no horizonte, uma miragem. Guardei a adaga em meu cós, no veludo que lhe era apropriado; abri o pequeno caderno. Havia uma frase escrita na primeira página, com a minha letra cursiva.
Naomie e Noellie — no quarto umbral, de cor gaultéria. Há treze escadas abaixo, iniciando pela espiral da biblioteca. No estreito corredor, elas possuem o Oráculo das Sete Profecias.
Uma parca esperança, pelo Norte que se fez possível, emergiu no meu íntimo como um lume tenro na escuridão. Meu caminho se erguera à frente, tal uma ponte no abismo. Com ou sem a maldição de Seth, eu iria até estas duas mulheres e, de lá, algo ainda que mais infinitesimal que minha esperança, em absoluto, alcançaria meu coração dilacerado e olvidado. A fé não fazia parte do eixo de minha existência, entretanto, era a única que poderia perdurar em mim, pois, se eu estava mesmo dividindo minh’alma com um alter ego, se ela guarda minhas memórias para si, como afrontá-la se ela é, pois, eu mesma? Pelo espelho? Refletindo as janelas do espírito? Embora as revelações tenham sido ácidas, eu intuía que ela, a outra que eu era, não queria confronto — não comigo.
Um Oráculo, como previa aquela anotação, poderia ser deveras relevante para os que, como eu, perduram no longínquo de si mesmos. Portanto, pela lógica do enigma — pois era o que soava ser — descer uma escada em espiral na biblioteca do Castelo seria o iniciático movimento para alcançar o corredor estreito, onde a quarta porta em seu imo, de cor gaultéria, seria o aposento onde Noemie e Noellie estariam. Eu não sabia ao certo a localização da biblioteca, quero dizer, eu sabia sobre uma delas, local onde perscrutei sobre livros de exorcismos, entretanto, nesta, não avistei nenhuma escada em espiral, portanto, cri não se tratar dela. Deste modo, então, quando retornei ao alcácer — de volta às suas entranhas, sentindo o aroma de sangue e solidão, tive de acessar cada espaço em busca de uma orientação, ainda que intuitiva, para localizar um novo leito das palavras infindas.
Em um dos aposentos, quando as esperanças se desintegravam mais céleres do que na gênese de minha busca, deparei-me com uma figura enigmática — tal como outras naquele recôndito sombrio que mais se assemelhava a um labirinto grotesco de lamúrias, silêncios perturbadores e angústias. Ela vestia-se com mantos pesados, um deles negro como a noite e outro pálido como a névoa lôbrega de Séttimor — inclusive, havia tal neblina ao seu redor, como uma aura rarefeita. Assustou-se ao me ver abrir os umbrais, voltou-se abrupta para mim, porém, seu rosto estava oculto no capuz. O aposento era pequeno. Nas mãos enluvadas da figura, um tipo de colar do que se assemelhava, em cor, a ourídeo.
— Quem tu és? — Indagara com sutileza, sua voz feminil não me era estranha... na verdade... eu sabia bem de quem era aquela voz...
— Liliana? — Indaguei, confusa. Um breve silêncio se liquefez no aposento. Ela, então, revelou-me seu semblante, entretanto, surpreendi-me ao vê-la em perfeitas condições, como uma humana. Diferente do que avistei em Séttimor, ali, de frente a mim, Liliana estava perfeita; não havia sombras em metade de seu rosto, como um vazio imposto em sua carne; não havia o fumo, a dor, a lúgubre essência. Era apenas Liliana, bela, com longos cabelos lívidos e forte olhar. Eu não hesitei, fugaz a abracei, sem pensar em quaisquer consequências ou, ainda, sem considerar o seu primevo questionamento. Ela pareceu relutante ao abraço.
— É tão bom te ver aqui... mas... como? — Olhei para seu rosto, soltando-a com afago. Foi n’este átimo que... algo mórbido me aconteceu.
Assim que fitei seus olhos cinéreos, eu a vi em um sinistro lugar pálido em neve densa com altos edifícios negros pontiagudos. O ar era o vale da morte em sua mais atroz constituição. Liliana era levada por homens de olhos negros, sem esclera... eram Ohrmons. Foi jogada aos pés de um homem cujo rosto eu não saberia descrever, porém, senti perfeitamente a sua energia densa e mórbida. “Queres teu filho, pois então o encontrarás.” — a voz grave e rouca dissera. Liliana foi tomada novamente, sem cuidado, pelos Ohrmons e, então, levada.
Vi-a inalando um tipo de vapor enegrecido que a fez adentrar um estado de delírio semi-inconsciente. Não parecia sentir dor, mas decerto compreendida a perversidade. N'este calabouço, o seu corpo foi violado enquanto seu sangue era retirado por tubos introduzidos nas veias de seus pulsos, sendo trocado por um tipo de líquido espesso, fumegante e fétido. Palavras estranhas se proferiam no ar quando o homem sem rosto, da voz grave e rouca, adentrou ao local, expulsando os Ohrmons com seu poder abissal.
Liliana, ainda viva, olhou em direção ao homem tétrico. Ele tocou seu rosto e, imediatamente, metade de sua tez facial apodreceu. Segundos depois, ela estava morta. O homem maldito cortou-se, gotejando seu rubro sangue sobre a cabeça de Liliana. Parecia-me um ritual de sacrifício macabro. Todas as cenas, em milésimos de segundos, atormentaram meu cérebro, fazendo-me afastar de Liliana. Meu corpo estava trêmulo e minha respiração ofegante. Eu tinha uma certeza atroz: o que vi foi uma visão do futuro. E eu compreendi que a Liliana de Séttimor estava morta, possuía, em seu corpo fumegante, todos os sinais dos horrores que sofrera.
— Senhorita? O que está havendo? — Ela indagou, preocupada. De meus olhos vertia a lágrima dourada, eu a vi pingar em minhas mãos.
— Por favor... — Murmurei, em completo abalo. — Por favor, Liliana... — Ela se abaixou, tocando meus braços e secando minhas lágrimas.
— Diga o que queres, querida. Diga-me o que houve? — Eu apenas chorava.
— Não vá para a neve... não busque teu filho naquele sórdido lugar... eles... eles... aquele homem... — Eu não conseguia dizer, mas vi o semblante de Liliana mudar.
— Quem és tu? O que sabes sobre Luíre e sobre mim?
— Eu vi... nos teus olhos... eu previ... — Toquei-lhe a face, com cautela. — Apenas confie em mim... eu sei... é terrível... é um revolto oceano ambíguo, mas... Liliana... eu não me perdoarei se eu não te salvar... a certeza de minh’alma é que teu destino... eu posso... — Voltei a chorar em desespero. Liliana me abraçou, parecia perceber minhas lídimas intenções. Eu nunca esquecerei o que vi... a verdade daquela deletéria premonição.
— Está bem... acalma-te... — Busquei ouvi-la, ficamos em silêncio até que meu soluçar cessasse. — Em tua visão, havia um lugar hostil, com neve... e o que mais?
— Edifícios negros... pontiagudos... uma arquitetura que nunca vi... mastodôntica... bela e... amedrontadora... — Respondi em lamúria, mas ainda hesitei em lhe revelar o que causaram a ela, era demasiado chocante. Liliana respirou fundo.
— Krvieröm... — Proferiu, abalada... — Eu... estava decidida a ir até lá... deixar este Castelo com tudo o que aqui aprendi sobre Pherhesí... e enfrentá-lo... em nome do que eu sei que ele fez com meu filho... — De imediato, lembrei-me do homem mencionado por Lëvri como sendo o seu “criador”.
— Não sei quem é este homem, Liliana, mas ele é muito poderoso... é preciso muitos para conseguir destruí-lo... muitos ou, talvez, todos aqueles que existem... eu senti... a densa energia dele... infelizmente tu não poderás... tu não serás para ele sequer um exíguo cílio incômodo em seu olho. — Ela compreendia.
— Eu não duvido de tuas palavras... — Vi-a levantar-se, sentando-se à poltrona próxima ao que me parecia uma escrivaninha. — Contudo... chegaste sabendo meu nome antes mesmo de fitar meus olhos e ter a... horrenda revelação... de onde me conheces? — Hesitei... não parecia ser adequado dizê-la que sua alma está vagando em um corpo deformado e brumoso n’uma vila de nome Séttimor.
— Eu... não sei ao certo... perdoa-me... eu sequer sabia que essas visões poderiam acontecer... eu... perdi minhas memórias e há muito o que ainda não sei sobre mim e sobre o que conheço e o porquê... — Ela aparentou decepcionar-se um tanto com a minha resposta. Ficamos silentes outra vez.
— Entendo... e como vieste até aqui? N’este cômodo?
— Estava em busca de uma biblioteca que tivesse uma escada em espiral para baixo... busco encontrar Naomie e Noellie.
— Por que buscas por elas?
— Encontrei uma nota deixada em um caderno... com a minha letra... indicando o local... eu não temo em lhe contar tudo o que sei, Liliana, entretanto, sei tão pouco. Imaginei que, porventura, estas mulheres me ajudariam de alguma forma, uma vez que, segundo a nota, elas possuem o “Oráculo das Sete Profecias”.
— Posso levar-te até elas, sei o caminho... e creio te dever um favor... pois mudaste meu destino... — Ela sorriu-me. Um sorriso triste, lacrimejante. — Eu desconfiaria se não fosse pelo teu assombro... se não fosse pelo teu abraço... este alcácer é perturbador, então... por muitas vezes fui ludibriada. — Levantei-me, devagar. Liliana ajudou-me.
— Eu sei... quero dizer... estar aqui tem sido uma experiência obscura... por vezes merencório... e ad aeternum solitária... — Exprimi.
— Agora, ao menos o que diz respeito à última questão, não há mais o que se preocupar. — Novamente, Liliana sorriu, um pouco mais contente. — Venha, devemos ir. É um longo, e escuro, caminho com muitos degraus.
Deixamos o aposento. Em meu peito ainda pulsava um pesar aflitivo. Uma dúvida enraizada sobre o prenúncio que me dominou. Lembrei-me das visões que tive na Masqarilla. Pela primeira vez, encaixei peças na totalidade do que eu já sabia e isso liberara à minha consciência uma lógica e um sentido para muitas das caliginosas verdades desveladas a mim desde meu despertar. Ainda assim, não se bastavam. Havia muito o que eu ainda não sabia e, por isso, estava disposta e ir além e desvendar mais do mistério de minha própria existência.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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O Éter e a Forja dos Imortais
Sem Data — O peso da vigília sufocava-me. O braço esquerdo, pesado como chumbo fundido, resistia a qualquer comando, uma prisão de carne e…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
(Escrito em meu Caderno — póstuma)
Sem Data — O peso da vigília sufocava-me. O braço esquerdo, pesado como chumbo fundido, resistia a qualquer comando, uma prisão de carne e osso que pulsava com o ardor lancinante de um ferimento que já deveria ter cessado de gritar. Oh, o ar ao meu redor era um vapor espesso, cheirando a óleo e metal oxidado, e a luz que ousava existir bruxuleava trêmula sobre as paredes de ferro e cobre, como se receosa de revelar o que jazia além do visível.
Estava deitado sobre uma mesa de metal, a superfície fria sob meu corpo contrastando com o calor febril que percorria minhas veias. Um lençol de algodão grosso cobria-me parcialmente, áspero contra minha pele. As imagens em minha mente dançavam entre a vigília e o torpor, angustiantes e, de algum modo perverso, reconfortantes. Entre os devaneios, percebia uma presença. Alguém estava ali.
A dor despertava-me de vislumbres indistintos — o rosto de um velho sacerdote, olhos carregados pelo tempo e barba desgrenhada como os ramos retorcidos de uma oliveira ancestral. Ele sussurrava algo enquanto minha consciência oscilava entre os fragmentos da batalha. Houve luta. Houve sangue. Teria que existir algo... algo que não conseguia nomear. Lembranças retornavam como lâminas cegas, desfiando-me lentamente.
Meu irmão, Alonso. Meu pequeno Alonso. Vi seus olhos se esvaírem em um campo onde a morte ceifava sem distinção. O frio da Prússia nunca me parecera tão cruel quanto o toque gélido de seus dedos sobre minha pele quando a vida o abandonou. Então, ali, em meio às entranhas de uma arquitetura de vapor e engrenagens, outra cena arrastava-me ao abismo. Sevilha. A praça banhada pelo sol dourado, risos infantis quebrando a manhã com uma pureza inalcançável. Valéria corria ao redor de nossa mãe, seus cabelos escuros como a noite embaraçando-se ao vento quente. Nora, sempre tão bela, com as mãos brancas e finas trançando flores nos cabelos de minha irmã.
Mas o que era essa sensação? Como podia ver o ontem e sentir o agora em um mesmo golpe? O calor de Sevilha desaparecia, e era tragado de volta à sala abafada, onde os tubos de cobre se entrelaçavam como serpentes, onde líquidos impossíveis brilhavam em frascos que guardavam segredos que jamais deveriam ter sido destilados.
O peso da memória era tão insuportável quanto o peso do braço que não respondia. Havia algo errado em mim. Algo que não deveria estar ali. Algo que pulsava...
Entre esses estados confusos de consciência e torpor, havia uma voz. Um nome. Ele emergia do nevoeiro da inconsciência, pronunciado de forma metódica, quase cirúrgica. "Arturo Vasquez". Sempre o mesmo nome, repetido nas bordas dos meus sonhos. Às vezes, era um sussurro. Outras, um tom firme, como se alguém estivesse se apresentando. A imagem de um homem de olhos frios e presença severa gravou-se em minha mente, como um espectro vagando entre a razão e a ilusão.
Agora, estou sentado em um quarto. As paredes de metal frio refletem a luz pálida da lamparina, sombras oscilam e se retorcem no espaço apertado. A porta de grade diante de mim separa-me da vasta sala, onde a penumbra se dissolve em uma névoa turva. E ali, no centro do aposento, a silhueta de um homem. Sua presença é um fragmento que eu não compreendia até agora.
Baixo os olhos para meu braço esquerdo e estremeço. A carne que antes ardia em dor fora substituída por algo... diferente. Tubos de cobre e prata correm entre as engrenagens, zumbindo em um ritmo que imita a respiração. Entre as articulações metálicas, fios de um brilho azul etéreo pulsavam, correndo como se fossem veias vivas, um fluxo constante de energia enigmática. Placas de latão e bronze, meticulosamente encaixadas, formam uma carapaça intricada, selada por runas gravadas à fogo — símbolos que não compreendo, mas que parecem murmurar uma verdade esquecida. Cada falange, um primor mecânico, responde com precisão, dobrando-se com um sussurro suave de engrenagens ocultas.
Minha voz quebra o silêncio, rouca, carregada pelo peso do passado e da incerteza do presente.
— Arturo Vasquez.
A silhueta move-se levemente, as sombras dançando ao redor de sua figura esguia. O brilho pálido da luz ilumina seu rosto por um breve instante — um olhar frio, calculista, pousa sobre mim.
— Você acordou. — Sua voz é baixa, controlada, desprovida de qualquer traço de surpresa.
— O que fizeram comigo? — murmuro, os dedos metálicos fechando-se involuntariamente sobre minha perna.
— Eu te reconstruí — ele responde, cruzando os braços. — Salvei o que restava de você. Transformei o que era falho em algo funcional.
Meu olhar retorna ao braço autômato. A precisão dos encaixes, a pulsação do éter azul correndo por entre as junções. Há algo além de mecânica nisso.
— Isso… não é somente metal — constato, mais para mim do que para ele.
Arturo mantém-se imóvel, mas há um brilho sutil em seus olhos.
— Não. O corpo humano é um motor imperfeito. A ciência sozinha não basta. Há forças que fluem além do que compreendemos. — Ele inclina levemente a cabeça, como se observasse um experimento. — E eu as domestiquei para te trazer de volta.
Antes que eu possa responder, passos ecoam do lado de fora. Uma sombra longa estende-se pela fresta da grade. A porta se abre, e Narcís Nestor entra. Seu olhar desliza por mim, primeiro surpreso, depois carregado de desprezo.
— Então foi assim que decidiu sobreviver, Anton — sua voz é um veneno gélido.
Levanto-me instintivamente, cerrando o punho. Ao socar a grade, uma energia invisível manifesta-se, repelindo-me com um choque alastrado pelo braço autômato.
— Tsc. — Nestor sorri, satisfeito.
Então, uma segunda presença invade a sala. O ar pesa. As sombras parecem alongar-se em saudação macabra. E a voz — aquela voz inconfundível — desliza pela penumbra como veludo e lâmina ao mesmo tempo.
— Anton S. Miahi. Como é bom revê-lo.
Meu peito aperta. O Conde Drácula adentra o aposento, sua presença dominando cada fresta de escuridão.
A conversa que se segue é enigmática, insinuando sobre Séttimor e os estudos de Olga. Mas não consigo entrever onde Arturo se encaixa nisso.
Então, Narcís e Drácula partem, deixando-me novamente com Vasquez. O engenheiro encara-me por um momento antes de finalmente falar, sua voz sem emoção aparente.
— A destruição pode ser controlada. Domada. Aprendi isso da pior forma possível…
Horas mais tarde — O silêncio que ficou era denso, quase palpável. O ar, que antes carregava a presença esmagadora de Drácula, parecia rarefeito, como se Narcís e ele tivessem sugado para si tudo o que tornava aquele espaço minimamente suportável.
Deixei-me cair sobre o assento metálico, sentindo o peso não somente do meu próprio corpo, mas do braço autômato que agora me pertencia — ou talvez, que agora me possuía. O som sutil das engrenagens rodopiando na estrutura de bronze e prata era um lembrete constante da minha nova condição.
Do outro lado da sala, Arturo Vasquez permanecia imóvel, observando-me com a mesma expressão fria e analítica que sempre parecia carregar. Seu rosto era esculpido na reserva de alguém que já testemunhara o suficiente para não se abalar facilmente. Mas havia algo ali, escondido nas sombras de seus olhos, algo que eu precisava arrancar à força.
— Então — que diabos você fez comigo? — Minha voz rompeu o silêncio, carregada de um peso que nem mesmo eu compreendia por completo.
O engenheiro cruzou os braços, recostando-se contra a parede de metal escurecido. A luz bruxuleante projetava sombras sobre seus traços rígidos, tornando-o ainda mais impenetrável.
— Eu te tornei funcional, Anton. Você estava perecendo. Seu corpo não suportaria. Dei-lhe uma alternativa. — A voz era firme, sem vestígios de emoção.
— Alternativa? — Soltei um riso baixo, ácido. — Meu braço já não é meu. Está vivo de uma maneira que não compreendo. Há algo além de engrenagens e cabos nisso... E eu sinto, Vasquez, eu sinto que há um preço por trás dessa dádiva que você não menciona.
Arturo não respondeu de imediato. Seus olhos caíram por um instante no meu braço autômato, observando o fluxo do éter azul pulsando entre as articulações. Ele inspirou fundo, um som discreto, mas carregado de peso, antes de falar.
— Cresci ouvindo histórias sobre bruxaria e curandeirismo. Minha avó falava sobre forças que a ciência não poderia tocar. Forças que poderiam curar… ou consumir. — Ele fez uma pausa, estudando-me. — Quando minha irmã adoeceu, acreditei que a medicina bastaria. Mas ela faleceu em meus braços. Como o seu irmão pereceu nos seus. — Seu olhar não demonstrava pena, somente uma constatação dura como aço. — Você murmurava o nome dele nos delírios. Durante as febres, antes e depois do procedimento. Chamava por Alonso como se ele ainda estivesse ali, sangrando, agonizando. — Arturo inclinou a cabeça levemente. — Eu ouvi cada palavra.
Um calafrio percorreu minha espinha. Uma fúria surda e incômoda começou a se erguer dentro de mim. A lembrança de Alonso — sua voz, sua risada infantil em Sevilha, o peso de seu corpo sem vida nos meus braços no campo de batalha — se mesclava ao absurdo daquela situação.
— Você... ousa falar dele? — Minha voz tremeu entre a indignação e a incredulidade. — Ousa trazer meu irmão à tona como se fosse apenas mais um experimento seu?
— Não se engane, Anton. Eu não o trouxe à tona. Você o trouxe. Ele está em você. — Arturo deu um passo à frente, a sombra de sua figura se alongando sobre o chão de ferro. — Os mortos nunca nos deixam. Mas o que fazemos com sua memória... isso, sim, define quem nos tornamos.
Respirei fundo, tentando conter a tempestade dentro de mim. Senti o peso do braço metálico — frio, estranho, quase um membro que não me pertencia. Não era natural. A ideia de estar fundido a algo tão distante da carne humana era repulsiva. A tecnologia de Arturo ia além do que eu compreendia, além de tudo que era concebível no século em que nasci.
— Você realmente acredita nisso? — Minha voz saiu mais baixa, quase um sussurro. — Que o destino pode ser moldado somente com metal e precisão? E esse tal de “Éter do Imaterial”… Isso também faz parte do seu controle?
Arturo hesitou por um instante. Uma hesitação mínima, mas eu a percebi.
— O Éter não é apenas uma teoria — respondeu, sem desviar o olhar. — É uma força que permeia todas as coisas. A ciência sozinha não é suficiente para domá-lo. Mas aprendi a moldá-lo… a utilizá-lo. — Ele indicou meu braço autômato com um leve movimento de cabeça. — Você é a prova disso.
Apertei os dentes, a frieza de Arturo me irritava profundamente. Não era arrogância, não era fanatismo. Era uma convicção silenciosa, aterradora.
Eu precisava de mais respostas. Mas acima de tudo, precisava descobrir até onde Arturo estava disposto a ir em nome dessa crença.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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19. Castelo Vampírico: Onde quer que morreres, morrerei, e ali serei sepultada
08 de janeiro? — A criatura foi em direção ao monstro, segurando o lampião que emanava uma luz azulada. Eu estava tonta e não conseguia me levantar…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
08 de janeiro? — A criatura foi em direção ao monstro, segurando o lampião que emanava uma luz azulada. Eu estava tonta e não conseguia me levantar. Ela veio em minha direção e me estendeu a mão esquerda, enquanto, com a direita, segurava o lampião para manter o monstro afastado. Aceitei sua ajuda com receio, mas precisava sair dali. Não podia pensar demais se ela era confiável ou não.
Levantei-me e me apoiei nela. Ela me levou até o meu quarto, ajudou-me a sentar na cama e se sentou de frente para mim, na cadeira da escrivaninha.
— Você foi imprudente. Ameritt foi bem clara quando disse que você não deveria sair do círculo — disse ela, com uma voz firme. Surpreendi-me com o pouco de emoção em seu tom.
— Se eu não tivesse te encontrado, você agora seria o jantar do monstro — falou isso com um quase rir, um leve sorriso que não acreditei estar vendo. Ela achou mesmo graça na minha possível morte? — Uma morte dolorosa e sem propósito, porque não conseguiu esperar um momento antes de sair correndo pelos corredores do castelo — ela me olhou, semicerrando os olhos.
Ela estava falando, as palavras saíam de sua boca. Eu não mais a ouvia dentro da minha cabeça, e isso chamava minha atenção, como quem chama a atenção de uma criança desobediente.
— Pedirei a Ameritt algo para te ajudar. Vi quando você caiu, e não foi uma queda que se deva ignorar. Recomendo que não durma — ela se levantou e saiu do quarto.
Fiquei sozinha, sentindo dor na parte de trás da cabeça e um zumbido no ouvido. Forcei-me a ficar acordada. Vi que, sobre a escrivaninha, estava o lampião, perto do vaso de orquídea que, havia um tempo, eu não dava a atenção devida. O livro também estava lá. A criatura deve tê-lo trazido depois do ritual. Levantei-me, sentei-me à escrivaninha e abri o livro. As letras não se mexiam mais, porém eu não tinha conhecimento linguístico o bastante para traduzi-lo. Eu poderia até tentar, mas levaria tempo. Pelo menos o ritual havia funcionado: a criatura tinha suas lembranças e o livro podia ser lido. Uma leve comichão no meu antebraço esquerdo se iniciou. Pensamentos inquietos começaram a me tomar. E comecei a sussurrar para mim mesma: “Se controle, pense com a razão, não perca o controle agora, você não precisa se apressar”. E eu queria muito aceitar minhas palavras e simplesmente parar essa vontade. Eu não sou assim. Eu sou paciente. Então por que essa ansiedade, essa pressa em iniciar? Não entendo o motivo de ser tão difícil controlar essa vontade, quando sou tão cautelosa com tudo que faço. Por que não consigo resistir a essa vontade?
Continuei sentada, pensando no que fazer enquanto esperava a criatura voltar. Coloquei os cotovelos sobre a mesa e as mãos no rosto, fechei os olhos e tentei manter minha respiração regular. Eu estava inquieta, precisava me acalmar e impedir que a vontade aumentasse. Comecei a bater as unhas na mesa de maneira ritmada para controlar o impulso de fazer aquilo que eu considerava ruim: agir sem pensar. A comichão no meu antebraço esquerdo aumentou, e eu comecei a coçá-lo sem parar, abrindo, aos poucos, a ferida que já estava cicatrizando. A dor parecia acalmar o impulso, a vontade de fazer o errado. A comichão aumentava, e eu a coçava com mais força, ampliando a ferida, mas aliviando a vontade. Senti minha mão direita ser segurada, impedindo-me de continuar com aquilo. O toque era gelado, e olhei para seu rosto sem expressão.
— Você deve parar com isso — disse a criatura.
— Devemos ir, pois precisa ser feito. Não aguento mais esperar — falei, impaciente.
— Sim, nós vamos, mas primeiro se recupere — ela concordou em ir, e eu continuava a dar ouvidos ao mal inquietante que, em algum momento, nesse castelo, se apossara de mim.
Ela enrolou meu braço com um tecido e, depois, me ofereceu o copo que segurava com suas mãos translúcidas. Disse que aquilo me faria sentir um pouco melhor. Bebi, e o sabor era metálico e amargo. Não parecia com nada que Ameritt já tivesse me feito beber. O gosto era horrível, mas ela disse que eu iria precisar daquilo quando percebeu que eu não conseguia terminar a bebida. Bebi tudo de um gole só, cada gota daquela substância horrenda, e comecei a suspeitar que não fora feita por Ameritt. Então a encarei por um momento e perguntei:
— Você consegue ler o livro, não é? — virei-me para ela, que estava de pé ao meu lado. — Mesmo nessa linguagem?
Ela confirmou com a cabeça e falou.
— Qual é a ajuda que você precisa? — Ela cruzou os braços, ficando bem de frente para mim, sendo direta.
— Eu preciso que você me ajude a… — Parei no meio da frase. Já não sabia se queria sua ajuda.
— Vamos, continue. Temos outros afazeres, e preciso que você seja breve — disse, incitando-me a continuar, com um gesto de mão.
— Eu preciso que você me ajude a ressuscitar alguém — falei de uma vez. Talvez isso fosse algo difícil para ela cumprir; trazer alguém da morte não me parecia, pelo menos para mim, algo fácil.
— Eu posso te ajudar nisso. O livro tem um feitiço para isso. Preciso recuperar meu corpo, e talvez encontremos no cemitério do castelo um que seja adequado, quando formos pegar o corpo que você precisa.
— O corpo dela não foi enterrado no castelo — murmurei, desanimada.
— Humm… Isso dificulta um pouco as coisas, mas posso encontrar formas para que seja feito. Preciso ler o livro e planejar nossa busca, listar o que iremos precisar. Então, descanse para que amanhã possamos começar.
Fui para a cama, mas o sono demorou a vir.
09 de janeiro? — Eu já tinha visto o céu mudar no castelo em outras ocasiões, já sentira seu humor mudar como um ser vivo, mas aquilo que eu via era diferente. O primeiro sinal da mudança percebi pelo som: um estalo metálico e sutil, como se engrenagens se movessem dentro das paredes do castelo. Um ranger baixo, como aço contra aço. Acordei com esses sons e olhei para a criatura, que, sentada, me observava inquieta.
— Você ouviu isso? — perguntei a ela, sentando-me na cama e tentando ouvir melhor.
— Ouço desde antes de você acordar. Está crescendo, mas o que me preocupa não é o som, e sim o silêncio.
Então eu percebi: o castelo, sempre cheio de ruídos, sussurros, passos distantes e sons difíceis de explicar, estava suspenso. Era como se estivesse prendendo a respiração ou algo o impedisse de respirar. Não dava para definir. Um silêncio opressor pairava no ar e, por trás dele, o som mecânico ritmado vinha de algum lugar do castelo — ou talvez de todo ele. Levantei-me e abri as janelas. Meu peito se apertou quando vi o céu ostentando dois sóis difusos: um dourado vibrante e outro de um cobre profundo, como dois olhos sobre um horizonte azul-cobalto e índigo intenso. Uma poeira dourada flutuava no ar e se assentou em minha pele com um brilho opaco.
— Isso é novo… e, ao mesmo tempo, não é — murmurei, tentando controlar o desconforto que aquilo trazia. Era como se eu estivesse diante de uma imensidão pintada por Vincent van Gogh, como Noite Estrelada, mas com ares mecânicos estampados no céu. As mudanças que sempre ocorriam no castelo eram assustadoras, terríveis e, às vezes, até mesmo opressoras. Mas eu nunca diria que não eram belas — e aquilo, à minha frente, era belo de uma forma arrebatadora.
A criatura se aproximou da janela, ficando ao meu lado. Seu corpo etéreo parecia vibrar com toda essa mudança. Ela estendeu a mão e observou a poeira dourada se acumular em seus dedos translúcidos.
— Parece fuligem — disse, erguendo a mão perto do rosto. — Mas sinto que não é apenas isso.
Continuei a observar o pó dourado. Eu ia responder, quando algo mais abaixo, nos jardins do castelo, chamou minha atenção. Movia-se devagar. Não era humano. Tinha pernas finas e articuladas, vapor escapando de suas juntas enquanto caminhava. Metálico e esquio, seguia em direção a um caminho que não estava ali antes… ou estava?
A criatura virou-se para mim, olhos vazios.
— Algo mudou, não é? — disse ela, com uma voz calma, como se perguntasse a si mesma. — Sim, mudou. Sempre muda. Mas, dessa vez, é como se não tivesse. Me pergunto se o castelo está mostrando o que ele quer que vejamos.
Ainda não tinha processado bem tudo que acontecera ontem: o ritual, as lembranças, o monstro, minha quase morte, o fato de a criatura ter me salvado. Mas o que mais me perturbava no momento era a estranha sensação de que tudo parecia diferente e, ao mesmo tempo, igual. Era como se tudo isso sempre estivesse ali e eu apenas não tivesse olhado direito. Parei e respirei fundo. O castelo sempre mudava, mas, dessa vez, estava diferente. Cheiros diferentes. Sons diferentes. Criaturas diferentes.
— E o que isso significa? — insisti.
A criatura ficou em silêncio por um tempo e, então, virou-se de frente para mim. Com uma calma perturbadora, disse:
— Significa que você precisa ter mais cuidado. Estamos em território desconhecido.
— Isso é óbvio, não é? — resmunguei.
— Talvez não tanto quanto você pensa — ela me observou, semicerrando os olhos. Acho que senti algo nesse olhar… desprezo, talvez? — Se você morrer, eu também morro.
Minha garganta secou.
— O quê? — foi tudo que consegui dizer.
— Nossas vidas estão vinculadas. Se você cair, eu também caio — ela sorriu, como se aquilo não fosse um problema. — Por isso te salvei.
— Como isso é possível? — Minha mente tentava encontrar uma explicação lógica para aquilo, até que me lembrei do ritual. — Foi o ritual, não foi?
— O castelo tem suas próprias regras — ela falou. — E Drácula as escreve como bem entende.
Ela fez uma breve pausa e, então, continuou:
— Agora que essa situação nos tornou mais íntimas, me chame pelo meu nome: Mara. Li suas anotações, e você tem me chamado de “criatura”.
Então ela leu meu diário. Algo péssimo para se iniciar uma “amizade”. E agora sabia sobre mim, muito mais do que eu sabia sobre ela. Fiquei em silêncio, pensando. O nome dela me incomodava, e eu não sabia o motivo… até que a peça se encaixou.
— Rute e Mara — ri sem humor. — Esse é seu nome mesmo, ou é alguma brincadeira?
Mara me olhou sem entender.
— É um teste de sanidade? Drácula realmente gosta de brincar com os hóspedes, não é? — Eu começava a ficar irritada.
Ela continuou me olhando, intrigada. Realmente parecia não entender a que eu me referia.
— No Livro de Rute, na Bíblia, há um versículo que diz: "Porque aonde quer que tu fores, irei eu; e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo será o meu povo, o teu Deus será o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu, e ali serei sepultada" — recitei o versículo com tanta facilidade que até fiquei surpresa.
Mara semicerrou os olhos novamente e, logo depois, riu.
— Interessante… Mas nunca ouvi falar desse livro.
Isso me fez duvidar. A lembrança mostrava uma catedral e o que pareciam ser freiras. Ela deveria saber o que é uma Bíblia.
— Imaginei que você conheceria — olhei em seus olhos vazios e escuros, para me certificar de que ela escondia algo.
— Realmente não sei o que seja e não consigo imaginar o motivo de você ter achado que eu saberia — ela me encarou por mais tempo, como se quisesse que eu a olhasse melhor.
— Quando fizemos o ritual, consegui ver algumas de suas lembranças e vi o que talvez fosse você em uma catedral — eu disse, desviando o olhar daqueles olhos vazios.
— Entendo. Sim, era uma catedral da ordem à qual faço parte, mas não temos Bíblia lá. Pelo que entendi, é um livro sagrado. Temos livros sagrados na ordem, mas não esse.
Ela fez uma pausa antes de continuar:
— Como o castelo vive entre realidades, você não deveria se surpreender se as nossas fossem diferentes. Também não me surpreende que tenha sido Drácula quem agiu para que esse nosso encontro acontecesse. Ele age de formas que não compreendemos… até que seja tarde — disse isso com um quase rir.
Engoli em seco. Tive que concordar com ela. As coisas que vi nas lembranças dela eram de um mundo diferente do meu. As engrenagens invisíveis aumentaram seus ruídos, girando em um ritmo um pouco mais rápido, despertando-me de um devaneio que se formava. Mara sorriu outra vez. Um sorriso ambíguo. Eu a encarei, e um arrepio subiu por minha espinha.
— Eu preciso pensar no que fazer e em como proteger nossas vidas nessa nova versão do castelo. Precisamos entender o que está acontecendo — afirmou.
Ela me explicou que deveríamos encontrar Drácula antes de qualquer coisa. Disse que eu deveria tomar cuidado: não beber nada, não tocar em nada, não passar por portas que ela não tivesse verificado antes. Ela não sabia se poderia me proteger direito, estando na forma em que se encontrava, e alertou que, se algo ocorresse, eu deveria deixá-la para trás, correr para dentro do quarto e me trancar.
Mara repetiu que era necessário encontrar Drácula, que ele nos ajudaria a ressuscitar Hadassa. Mesmo que eu não tivesse muita fé nessa informação, ela dizia que ele também traria o corpo dela. Não sei quanto tempo ficamos no quarto planejando o que faríamos. Chegou um momento em que não havia mais o que planejar, e o silêncio se formou entre nós. O castelo parecia sincronizar sua respiração com a nossa, esperando nosso próximo passo. Precisávamos sair dali e entender o que estava acontecendo.
— Se você estiver se sentindo disposta, podemos iniciar nossa busca agora. Vamos até o cemitério do castelo e, depois, procuramos Drácula. Ele tem o que precisamos.
— Não tenho certeza se ele pode nos ajudar em algo. Todas as vezes que o encontrei, ele pareceu apenas se divertir às minhas custas.
— Sim, é isso que ele faz: se diverte. Quando fui procurar Ameritt, encontrei-o no saguão do castelo. Ele usou estas exatas palavras: "Dê a ela meu sangue para que ela viva, pois o espetáculo deve continuar".
— O quê!? Você disse que iria pedir a Ameritt para me ajudar!
— Disse sim, mas encontrei Drácula antes. Não faz diferença, você está curada… ou pelo menos parcialmente curada — vi que ela olhou para minha ferida, que tornara a abrir. — Drácula te curou. Fique feliz por isso. Ele não costuma ter um bom coração… se é que tem um.
Ela fez uma pausa antes de concluir:
— Então, vamos ao que precisa ser feito.
Suspirei, irritada. Não havia como mudar o que já tinha sido feito.
— Tem mais alguma informação que você precise me dar antes que a busca por Drácula se inicie? — Minha voz saiu ríspida, e eu não via motivos para controlá-la.
— Drácula é quem vai ressuscitar Hadassa. Ele também decidirá o preço que você deve pagar… então esteja preparada para negociar — falou, virando de costas para mim e indo em direção à porta.
Saímos do quarto e viramos à esquerda. Mara parou de repente. Sons sutis de metais. Engrenagens se movendo cada vez mais rápido. Ela começou a dar passos mais lentos em direção aos sons. Foi então que senti o cheiro ácido e adocicado de óleo queimado, o aroma sutil de ferrugem úmida e carvão.
— O castelo mudou de novo… Olhamos para o lado por um breve momento, e ele mudou. Estive no saguão há pouco, e nada disso estava aqui — Mara olhava de um lado para outro, à minha frente, verificando todo o espaço.
Continuamos nossa caminhada e, aos poucos, percebemos as diferenças. Máquinas que antes não estavam no castelo agora se faziam presentes. A cada passo, os sons mecânicos ficavam um pouco mais altos, contrastando com o silêncio opressor que reinava. Vapor. A luz amarelada de lâmpadas a gás projetando sombras sutis nos corredores. Corredores que eu achava conhecer. Os sons aumentavam. O ar tornava-se denso, como se atravessássemos camadas e mais camadas sobrepostas. De ar? De tempo? Ou talvez da própria alma do castelo? Não sei dizer. O castelo, esse organismo pulsante, parecia ter decidido expor suas entranhas de forma sutil. Eram belas… mas pareciam fora de contexto, e eu não conseguia raciocinar.
Minhas lembranças diziam que as paredes eram de tijolos escuros, mas agora eu via engrenagens embutidas nelas, canos, ferro, cobre e vapor. Os belos vitrais, que antes jurava exibir cenas distintas, agora mostravam engenhos que eu ainda não compreendia e dirigíveis flutuando entre as nuvens. E o teto… Eu poderia jurar que sempre fora escuro e abobadado, mas agora exibia tubos de cobre como veias e artérias. Senti meu coração acelerar. Eu sabia que algo havia mudado, mas, ao mesmo tempo, parecia que nada mudara. Estava inquieta. A comichão em meu braço esquerdo retornava. Será que fui cega esse tempo todo, ou o castelo realmente mudou? Mara disse que se sentia da mesma forma, mas, se isso a afetava, ela escondia bem.
Encostei a mão em uma coluna de ferro ornamentada. Senti pequenas vibrações, um calor estranho. Isso deveria me parecer familiar, não deveria? Hesitei antes de continuar o caminho com Mara. Não esperava nada ao sair do quarto com ela, mas, em vez de entranhas, veias, carne e cheiro de sangue, havia tubos, canos, vapor, metais e fuligem. Andar pelos corredores do castelo era como caminhar em um labirinto que se modificava a cada passo que dávamos. O ar, por vezes seco, por vezes úmido. O espaço oscilava entre passado e futuro. Dentro de mim, crescia uma pressa em compreender o que estava acontecendo. Portas surgiam onde antes não existiam. Passagens conhecidas desapareciam. Descemos escadas que não lembrávamos ter visto antes. Passamos por portas que se abriam para espaços que, aparentemente, não deveriam estar lá.
Uma porta de ferro e cobre estava entreaberta, Mara olhou por ela por alguns segundos e entrou, dizendo que era ali que deveríamos entrar, eu ainda hesitei por alguns instantes antes de segui-la. No centro de uma grande sala, havia uma bancada desorganizada, com frascos que reluziam com cores vivas, engrenagens, peças de ferro ou cobre, papéis com esquemas, fórmulas e cálculos. Livros empilhados, máquinas estranhas, criaturas como aquele que eu havia visto ao olhar pela janela do meu quarto, umas outras faltando partes.
— Estamos sendo observadas — Mara sussurrou ao chegar bem perto de mim. — Fique perto de mim.
Um brilho azul, num canto escuro da sala, se acendeu revelando o rosto imóvel de nosso observador.
— Vocês estão perdidas? — sua voz era densa, ele caminhou devagar até onde estávamos. Eu parei e fiquei olhando para ele.
— Ninguém se perde num castelo que decide onde você deve ir, não é? — Mara retrucou dando alguns passos a mais e ficando à minha frente.
— É interessante a forma como você vê as coisas. — afirmou ele encarando Mara com olhos frios, por mais tempo do que eu achei necessário.
Me aproximei só um pouco para olhar as máquinas em volta de nós, que pulsavam com uma lógica que me escapava, engrenagens que se moviam, marcadores que giravam. Nada ali fazia sentido e ao mesmo tempo estava em ordem, minha mente se admirava com aquilo e mesmo assim não conseguia decifrar nada.
— Você é cientista — ele disse isso mais como uma afirmação do que como uma pergunta.
Senti que Mara se enrijeceu perto de mim, não precisei olhar para ela para saber que semicerrou seus olhos, carregado com aquele desprezo que, no nosso pouco tempo juntas, reservará a mim.
— Era, antes do castelo — eu respondi desviando o olhar, voltando a observar as máquinas à nossa volta.
— Não existe “era” cientista — sua voz era firme, lenta — uma vez pessoa da ciência, sempre pessoa da ciência. O conhecimento não sai de você, só muda de forma. Isso não se abandona, mesmo que se tente. — ele afirmou dando mais alguns passos em nossa direção.
— O problema não é parar de fazer ciência, é quando a ciência para de fazer sentido para você.
Ele parecia saber mais sobre mim do que deveria ou era coisa da minha cabeça? Mara bufou e cruzou os braços.
— Palavras vazias, as suas. A ciência possui tanta arrogância quanto as superstições que alguns tentam destruir. Tudo isso — ela apontou para as máquinas e os livros — é só outra máscara para a ignorância. Isso tudo pode ser ciência ou feitiçaria. — Ela olhou para a bancada que eu analisava e parou seu olhar nos papéis. — Ah, ciência, é claro… Mas ciência não é apenas feitiçaria com método? — perguntou, voltando a encará-lo.
Isso era algo que eu não poderia discordar. Houve um tempo em que eu teria negado tal ideia, tentando explicar o quanto aquela fala não fazia sentido, mas agora, não mais. Eu havia sido vencida pela aparente falta de lógica do castelo — que, na verdade, possuía uma lógica incomum, mas que, para mim, tornara-se muito atraente.
Meu olhar recaiu novamente sobre os livros antigos, anotações avulsas e equações incompletas. Ele não pareceu se ofender com o que Mara dissera, apenas ficou a nos observar, analisando-nos em um breve silêncio. Quando voltou a falar, olhei em sua direção.
— A ignorância é um conceito relativo… Mas acredito que você entenda, não é? — disse ele, olhando para mim.
Eu não soube responder, não naquele momento, porque algo dentro de mim, que eu pensava ter deixado para trás, se remexeu.
— A propósito, me chamo Arturo Vasquez — ele deu alguns passos e estendeu a mão para mim, ficando bem de frente a Mara.
— Me chamo Rute — dei alguns passos, posicionando-me ao lado de Mara e apertando a mão dele. Seu aperto era firme.
Ele estendeu a mão para Mara, que cruzou os braços, recusando-se a apertá-la.
— Eu sou Mara — ela murmurou, enquanto ele recolhia a mão e sorria de leve para ela. — Feitas as apresentações, agora precisamos ir.
— Esperarei pelo nosso próximo encontro — ele inclinou a cabeça como um gesto de despedida, e nós seguimos nosso caminho.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Dança na Cripta
Pelas facetas da solidão, meus passos enveredavam em uma dança extasiada. | O toque do vento, por vezes, era a única caricia que restava;…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Pelas facetas da solidão, meus passos enveredavam em uma dança
extasiada.]
O toque do vento, por vezes, era a única caricia que restava;
E nada mais sobrava para me acompanhar no pranto,
Apenas o eco vazio do que já foi, tão distante: o quebranto.
A noite sempre foi por si mesma uma companhia,
Em seu reinado guardei sentimentos sem melodia.
Por meia década senti horrores em solilóquios distorcidos,
Onde cada palavra era um suspiro perdido!
Há muito me perdi da trilha que almejava seguir.
Mas, ela me reencontrou e pelo luar meus passos voltaram a fluir!
Para a pisque poemas sucumbidos no sepulcro retornaram;
A melancolia agora evanesce em versos que erráticos se montam.
Por duas almas páreas se reconectaram,
Mudaram caminhos distantes tão unos que nunca se separaram,
Em minha cripta iluminada residem silentes as memórias desta história!
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Velian – O Som das Engrenagens na Eternidade
Velian caminhava entre as sombras de Fortaleza, sentindo o cheiro de maresia misturado ao ferro enferrujado dos portos e ao suor adocicado…
Criatura núrida, tu estás prestes a ler um dos capítulos da história de Velian, um vampiro cuja profundez existencial é capaz de tocar em nossos modos-de-ser, nos imergindo em reflexões existenciais de inestimável valor. O autor tem uma técnica fascinante para que a leitura, ainda que densa em existencialidade, nos desperte um inenarrável prazer, dada a sua qualidade literária. Aprecie e boa leitura!Com sombrio apreço, a Anfitriã Sahra Melihssa
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Velian caminhava entre as sombras de Fortaleza, sentindo o cheiro de maresia misturado ao ferro enferrujado dos portos e ao suor adocicado das ruas noturnas. Pensava o vampiro que em outros tempos as ruas das grandes cidades que conhecera, como Londres, Amsterdã, Paris, entre tantas outras, eram ruins em épocas diferentes, por motivos diferentes, como pestes, pobreza e muito mais, Porém agora tudo era ruim porque parecia muito mecânico, mesmo com o suor das danças noturnas, com a sobrecarga de trabalho dos humanos e todo o sofrimento, parecia para Velian, que havia uma sombra pairando a humanidade, principalmente nas grandes zonas urbanas, em que tudo era muito, muito mecânico, pensava Velian sobre a vida nesses últimos meses, em suas idas e vindas pelo Castelo Drácula. Velian tinha certeza de que o Castelo Drácula era uma manifestação de outras dimensões, seu conhecimento espiritual e de ser sobrenatural lhe davam essa certeza.
Porém o Vampiro sabia também que o Castelo lhe mostrava muito de seu mundo interno e ele às vezes ficava confuso e se perguntava se realmente era digno de entrar no Castelo por não entender muitas vezes as simbologias, mensagens e significados das várias dimensões do Castelo Drácula. Por vezes Velian desejava encontrar o próprio Drácula, mas sempre era submetido a entrar em outras camadas do Castelo e conhecer diferentes seres. Velian não estava tão confortável em apreciar apenas vagamente esses seres que às vezes lhe provocavam medo e o vampiro tinha que lutar e se dispor de todos os seus poderes para encarar tais seres grandiosos, mas que ia e vinham brevemente. Voltando a pensar sobre sua vida em Fortaleza e a observar como vivia, percebeu: as luzes dos postes piscavam sobre as calçadas rachadas, refletindo o mundo moderno que parecia ao mesmo tempo imutável, decadente e repetitivo. Fazia meses que sua fome se tornara diferente — não era apenas por sangue, mas por algo que ele ainda não sabia nomear.
Matara mais do que o habitual. Seduziu mulheres e homens com beijos e promessas vazias, apenas para desaparecer de suas vidas e os deixar no desespero do abandono. Gostava da ilusão de controle, de ver os corações partidos como espelhos estilhaçados refletindo fragmentos de sua própria alma quebrada. Mas nada disso o preenchia. Nem a caça, nem o desejo, nem o caos que espalhava ao redor. Ele se perguntava se algum dia voltaria a realmente sentira prazer nesses jogos ou se tudo não passava de um reflexo pálido do tédio e da insatisfação.
Ele olhou para o céu. Cinzento. Impessoal. Como se o universo estivesse indiferente à sua presença.
E então o chamado veio. Velian entendia que precisava de mais tempo para outro sobressalto do Castelo e uma outra dimensão que apenas iria novamente, mas ainda assim o chamado veio.
O Castelo Drácula sempre o convocava quando sua alma estava prestes a afundar demais na monotonia do mundo. Sentiu o puxão em seu peito, como se algo arrancasse sua consciência da cidade e a atirasse para um outro lugar. O vento mudou. O cheiro de ferrugem e vapor substituiu a maresia. O calor úmido do Ceará deu lugar a um frio metálico. Quando abriu os olhos, não estava mais em Fortaleza.
Estava diante do Castelo. Mas ele não era o mesmo (como sempre).
O Som das Engrenagens
As engrenagens giravam nos cantos mais improváveis. Tubulações surgiam dos muros, exalando vapor denso. Os corredores pareciam agora parte de uma máquina viva, movendo-se lentamente, respirando em estalos metálicos. O céu era tomado por uma poeira dourada que obscurecia as estrelas, e no horizonte dois sois ardentes se erguiam, lançando uma luz acobreada sobre tudo.
Velian caminhou pelo pátio, sentindo o chão de metal frio sob seus pés. Uma sensação de inevitabilidade o tomou. Era como se estivesse dentro de um mecanismo muito maior do que sua compreensão. Tudo era efêmero, tudo seguia uma programação invisível. Ele, um vampiro há séculos no mundo, poderia ser imortal, mas diante da engrenagem do destino, até mesmo ele parecia insignificante.
Foi então que a viu.
No centro do pátio, entre as engrenagens e o vapor, uma mulher de manto negro que o vampiro identificou como a mesma mulher da última visita. Tudo ao seu redor era diferente, mas a mulher, sua presença e sua poderosa energia eram a mesma, Velian ficou até feliz de ver o mesmo ser, mesmo em outra dimensão, ela caminhava lentamente, guiando um pequeno rebanho de cabras negras, como da última vez. Seu cajado de carvalho era encimado por uma pedra negra, pulsante como um coração. Havia algo de bruxa nela. Algo de vampira. Algo de deusa ancestral que existia antes mesmo que os mundos tivessem forma. Velian se preparava para ter com esse ser e não podia ser coincidência que ela ali estivesse novamente.
Ela o olhou, e sua voz cortou o silêncio com um tom que não pertencia a este tempo.
— Tu andas perdido, como sempre.
Velian cruzou os braços, sentindo o incômodo de ser lido tão facilmente.
— E há outro caminho a seguir? A não ser a dúvida? A não ser a angústia?
Ela sorriu de forma enigmática.
— A engrenagem gira, e essa dimensão representa apenas isso – as faces das eras não param, apesar da monotonia de alguns instantes, mas não és tu quem a move. Tens vivido como se buscasses o sentido nas ruínas do desejo, nas cinzas das paixões destruídas. Mas até quando?
Ele desviou o olhar para os dois sois difusos.
— E qual seria a alternativa? Seguir um destino rígido? Aceitar um papel pré-escrito? Como essas engrenagens malditas dessa dimensão, seja lá qual for ela? Se tudo está conectado por engrenagens invisíveis, há como quebrar esse ciclo?
Ela se aproximou, e o cheiro de terra antiga, ferrugem e sangue fresco emanou dela.
— A dúvida te corrói, mas também te mantém vivo. No dia em que parares de perguntar, serás apenas mais uma peça nessa máquina infinita. Há tempos olhas para a eternidade e te perguntas o que fazer com ela. Mas eu te digo… o que fazes com um único instante?
Velian a fitou. Sua presença era hipnótica. Ele sentia que, de algum modo, tinha aprendido algo, ou entendido algo, mas ainda não sabia o quê.
O vapor sibilou ao redor deles, e, por um breve momento, tudo pareceu congelar. A mulher sorriu novamente antes de desaparecer na névoa dourada.
Mas Velian não gostava daquilo. Um mundo de engrenagens para ele, um ser romântico nos termos de um poeta louco, seu sentir demais, não gostava daquele mundo que agora pairava sobre ele, desejou ainda dialogar mais que esse ser ancestral que ia e vinha das várias dimensões e desejou sair daquela dimensão em que estava, pois não gostava de engrenagens e do conceito de destino e de tudo ser meramente funcional, como as engrenagens naquela dimensão pareciam mostrar.
Entre a Máquina e o Sangue
Ele detestava a visão do Castelo transformado em uma prisão de engrenagens. A ideia de um destino rígido, de um ciclo que girava por si só, o enojava. O que era um ser imortal senão um errante sem caminho definido? Ele não queria ser parte de uma máquina sem alma, programado para existir sem sentir.
Foi nesse momento que compreendeu algo muito importante.
Não era o caos, a destruição ou o vazio que o movia. Não era a sedução para o abandono, o prazer na angústia alheia, nem o desejo de quebrar corações apenas para ver os estilhaços. Nada disso o preenchia. O que verdadeiramente o sustentava era a conexão, ainda que efêmera.
A troca de olhares no meio da noite. O calor de um corpo desconhecido em sua cama. O sussurro de um segredo que nunca seria repetido.
Não importava que os momentos fossem passageiros. Não importava que, no fim, tudo se dissolvesse no esquecimento. Enquanto duravam, eles eram reais. Com esse pensamento, ele decidiu que era hora de voltar.
Mudaria de identidade mais uma vez, deixando para trás o vampiro que devorava e destruía por tédio. Não se livraria de suas dúvidas, mas aprendera que elas eram parte dele. Não era assim também com a humanidade? A incerteza, o medo, a busca por sentido no vazio?
Talvez ele fosse, afinal, a personificação da humanidade.
Sempre teria questionamentos. Sempre sentiria o vazio corroer sua alma. Mas agora entendia que, no meio da escuridão, existiam fagulhas de conexão que tornavam a eternidade suportável. Em meia a devaneios e reflexões, olhou novamente para o mundo mecânico, mas tudo o que viu foi o topo do prédio em que estava após sua última cassada, estava de volta à velha capital cearense e estava feliz pela primeira vez de não estar em alguma dimensão perdida, principalmente aquela feita de engrenagens.
E talvez fosse a hora de visitar Cassandra.
Não para buscar respostas, o vampiro ponderou que respostas e conhecimento eram coisas diferentes, então decidiu partir em busca de Cassandra e de conhecimentos que nem ele conhecia bem, mas que a vampira ancestral, por mais debochada e irônica que fosse, dominava muito bem.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Além do Ser
"Torna-te aquilo que és" abrange o aceitar sua condição única, mas, no mesmo nível, traz a significação do eterno tornar-se, pois nunca, de fato, poderemos dizer que somos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
"Torna-te aquilo que és" abrange o aceitar sua condição única, mas, no mesmo nível, traz a significação do eterno tornar-se, pois nunca, de fato, poderemos dizer que somos. Tornar-se o que se é não é possível, pois não somos. "Ser" refere-se a uma condição substancial, e o que "somos" é, tão somente, um vir-a-ser perpétuo. Sob o véu da morte lúgubre, findamos sem nunca termos sido. E, se "eterno vir-a-ser" é ser, então somos e não somos ao mesmo tempo.
A razão pela qual esta reflexão está sendo redigida não é apenas o deleite de pôr o "ser" em questão – como nos velhos tempos da filosofia. Estou certa de que a condição de ruína da humanidade reside na incapacidade de aceitar sua condição nadificante e, portanto, volto-me à questão do ser. Mas esta não é a única questão, pois "ser" é uma criação humana.
O que nos torna ainda mais dispostos ao vazio pertencente é o fato de que nada na natureza "é". O "ser-algo" é essencialmente uma questão humana. Nada que respira, exceto a humanidade, está "sendo", uma vez que quem criou o conceito de "ser" nem sempre existiu. As coisas que respiram estavam aqui, existindo. E nós, incapazes de tão somente existir, criamos o conceito de "ser".
"Ser" é, para nós, profundamente mais valioso do que "existir" – embora seja justamente no primeiro caso que a condição nadificante nos perturba. Enquanto você apenas existe, o "nada" não é uma questão. Mas, a partir do momento em que se "é" (do verbo "ser"), o nada torna-se o fantasma que se oculta nas sombras de seus próprios corpos. A dádiva de "ser" é a maldição de carregar o seu peso nadificante. "Ser" deveria significar uma condição superior ao "existir", mas tornamo-nos aquilo que somos apenas para desvelarmos que somos nada, tal como tudo o que existe.
"Tornar-se" implica que há algo a advir, entretanto, se o Nada é a única verdade, não há um "advir" a desvelar. Portanto, redundante, a frase se manifesta assim: "Nada há a advir para aquilo que nada se é". Se o Nada é o invólucro da vida, por que viver? Vivemos, justamente, em função do Nada; sem ele, não haveria vida tal como a conhecemos. Aceita-te como o Nada que és – talvez esta seja a frase correta.
Em um tempo de idolatria ao "sou", a revelação do Nada é, decerto, perturbadora. O Nada é dificilmente aceito pela lógica da racionalidade, o que é um fato curioso, já que viemos dele e voltaremos a ele. Alguns se questionam sobre o que "é" o Nada; alguns o chamam de Deus. Outros dizem que não pode haver um "nada", pois o "nada" é o insignificante ou o ausente. Mas o Nada não é insignificante, tampouco ausente – por isso é tão difícil para a mente humana aceitá-lo. O Nada é nada.
"Somos" o Nada, vivemos o Nada, estamos no Nada. O Nada é o único Deus. Somente no Nada é possível um Algo – ele é o ambiente propício, a condição basilar. Então, antes de tornar-te aquilo que és, reconhece-te como parte de uma totalidade nadificante. Pois não importa o que tu és, pois não "és"; o que importa é o que chamo de "Antesser": tudo o que se faz, pensa, expressa, sabe, sente e aprende no processo do caminhar consciente sobre o Nada. Isso é antesser.
"Antesser" é um conceito humano para significar a existência em suas mutabilidades e características psíquicas, considerando a constituição nadificante própria da vida. Não apenas considerando-a, mas principalmente valorizando-a. Antes de "sermos" – se é que é possível "ser" – precisamos antesser.
Eis aqui mais uma bela razão para viver: a condição da vida, florescida no solo nadificante, é a única que pode nos permitir o Antesser. Se digo que “sou”, é porque a condição de "ser" já se significou ou como um estado a ser alcançado, como um destino final, uma verdade imutável e perpétua. Enquanto isso, antesser é essencialmente provisório, instável, efêmero. Como um livro, ele faz-se de capítulos que contam uma história completa. Se antessou, é porque sei que tudo o que fiz e farei, tudo o que já pensei e hei de pensar; tudo o que aprendi, conheci, me arrependi ou mudei – absolutamente tudo, no passado, presente e futuro – faz-me na profundidade que me significa. E isso não é linear ou preditivo. Não é algo a ser alcançado ou algo a se tornar. É plural e total, contínuo e dinâmico, assentado sobre o Nada.
Antesser não é o mesmo que Estar. O Antesser considera toda a sua historicidade, mutações, conquistas, compreensões, conhecimentos e sabedorias. E, principalmente, sua condição de Nada – antes disso tudo e depois disso tudo. Eu antessou porque o que sou é Nada: o Nada antes e o Nada depois. Entre ambos, antessou o que antessou. E não há como não antesser enquanto houver vida. E mesmo que eu antesseja na certeza de "ser" algo, isto é, pois, antesser.
Sim, ser e antesser são criações humanas. Mas "ser" foi criado para identificar as coisas que existem e, depois, para significá-las: aquilo "é" um peixe, eu "sou" uma pessoa, eu "sou" especial e você não "é" especial. Em antesser, tudo isso é válido, mas sob outra ótica: não posso ser especial a todo momento, nem para todas as pessoas. É ridículo considerar que "sou" bonita ou feia, pois sou ambos – depende do dia, de quem olha, de minhas condições físicas. Se estou mais arrumada, se dormi mal. Apegados ao "ser", limitamos nossa compreensão da condição humana.
"Tornar-te aquilo que és"? Isso implica que "és" algo e que não se pode tornar-se o que não se é. Mas "somos" humanos tal como um peixe "é" um peixe? Tal como um peixe não pode "ser" um macaco? Pois um peixe não só não pode ser um macaco, como também não pode agir ou parecer um macaco. Nós, humanos, vamos além do "ser". Ainda assim, dizemos "eu sou", tal como um peixe "é".
Antesser afasta a ideia de que o que "sou" é o que "sou" e que não posso ser outra coisa além do que estou fadado a ser. Antesser é sobre todas as possibilidades da existência humana – possibilidades que nos diferem de um simples peixe. Antessomos humanos porque, mesmo que não sejamos um peixe, podemos aprender a nadar. Antessomos humanos porque, mesmo que não sejamos um peixe, criamos maquinários que nos permitem mergulhar nas profundezas do oceano.
Antesser é "ante" porque indica anterioridade – não no sentido cronológico, mas no sentido de estar sempre antes do ser: antes que eu possa ser algo, eu mudo; antes que o imutável me alcance, eu me desvio; antes que eu me defina como caminhante, aprendo a nadar. Portanto, não sou apenas caminhante. Sou caminhante e nadador. E um peixe é apenas um nadador. E mesmo que sua espécie evolua para além disso, ele nunca terá o mesmo grau de possibilidades de um humano. Eis a razão do antesser.
"Torna-te aquilo que ante-és" – é o que, por fim, faz verdadeiro sentido. Pois aceitar o antesser é aceitar sua condição dinâmica e sua capacidade de tornar-se qualquer coisa.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Ferruginoso
Desperto mais uma vez em meus aposentos, e o que presenciei em Somníria reverbera em minha mente como uma tristonha canção…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Desperto mais uma vez em meus aposentos, e o que presenciei em Somníria reverbera em minha mente como uma tristonha canção. Melancólica, meus olhos passeiam pelas fissuras presentes nas superfícies das inúmeras pedras maciças do abobadado teto. Perco-me em devaneios sobre a construção deste imponente castelo, e uma pergunta paira sobre minha cabeça: quanto sangue teria sido derramado para erguer estas sólidas paredes?
Bom, estou ‘condenada a viver’ neste infindável limbo sob a regência das perversas mãos do desconhecido. Porém, algo me faz acordar deste transe: uma luz flamejante oriunda de fora atravessa a enorme janela, fazendo com que o lindo lustre vitoriano acima de mim brilhasse terrivelmente. Procuro abrigo na alta cabeceira de veludo verde, abraço meus trêmulos joelhos e me cubro. Parece que o sol está mais quente que o normal. Permaneço encolhida, enquanto a luz mortal consome ferozmente cada resquício de escuridão do meu quarto.
No momento em que cruzei os descomunais portões deste lugar, encontrei a morte algumas vezes, porém nada se compara a isto. De repente, um medo inexplicável perfurava minha alma, uma angústia sem razão aparente preenchia meu âmago vazio.
Precisava agir rápido. Procurei por espaços onde havia vestígios de escuridão; infelizmente, eles eram cada vez mais escassos. O desejo de saber o que se passa lá fora me perturba. O castelo, que em sua natureza é gélido, sentiu uma insólita e sufocante onda de calor, mas temo que essa luz não seja proveniente do sol, e sim de algo grandioso.
Finalmente, encontro uma brecha. Respiro fundo e salto da cama até a porta (ela se encontra a uma distância considerável). Enquanto saltava, desejei ter um breve vislumbre deste enigmático fenômeno, mas, ao fazer isso, deixaria este mundo num piscar de olhos, tal qual a mulher de Jó. Cheguei à porta, abri e saí com rapidez.
Ofegante, contemplei o longínquo e mal iluminado corredor. Caminho em busca de respostas, enquanto as sombras das pendentes velas parecem zombar de mim.
Será que Ameritt sabe de algo? Nosso último encontro foi catastrófico, ainda assim preciso vê-la. Após muito andar, começo a ouvir algo assombroso, um som que parecia surgir das espirais da cóclea, reverberando como um impronunciável sigilo, deixando-me paralisada. Porém, o som vinha de fora. Intrigada, encostei meus ouvidos sobre as paredes. Então ouvi algo tenebroso, semelhante a um terrível ranger de inúmeras engrenagens ocultas, girando em perfeita sincronia. Atônita, prossegui em direção ao oculto.
Em certo trecho, percebi que havia algo além do desagradável ruído: o ar estava denso, chegando a causar náuseas. Apoiei-me nas paredes, respirei e logo percebi: era o odor pungente de ferrugem. Apressando os passos, finalmente alcancei uma porta, que nada se parecia com a porta daquele mágico lugar onde Ameritt tão sabiamente zela pela estufa.
Erguia-se perante mim uma porta ovalada descomunal, feita de um material semelhante ao cobre. Havia incontáveis engrenagens e parafusos, de diferentes tamanhos e espessuras, cobrindo-a por completo. Pareciam provenientes de algum lugar do espaço; seu comportamento obedecia leis não terrestres. Cada engrenagem tinha sua forma de girar, criando diferentes sons, causando estranheza e uma inexplicável fascinação.
Não sei quanto tempo perdi admirando aquele monumento, mas precisava descobrir. Então, ao tocar na maçaneta, senti o repulsivo toque álgido do metal. Foi necessário um pouco de força. Ao abrir, sou recebida com um intenso sopro metálico; o cheiro me causou ânsia. Tranco-a.
A princípio, não consegui ver a dimensão do lugar. Manter-se em pé tornou-se difícil, visto que o ar ali era denso, quase palpável. Aos poucos, o lugar tomou forma através de sons. Ouvi o silábico gotejar de líquidos e também o leve chiar, indicando algum processo de ebulição. Lentamente, aquele lugar se revelou a mim. Era semelhante a uma caverna. Acima de mim, um inalcançável teto abobadado. A vasta e misteriosa vegetação se fundia com as engrenagens. Vejo também vapores índigos serpentearem pelo ar através dos tubos de ensaio. Envolvida pelo terrífico odor ferruginoso, caminho. Quero saber que surpresas me aguardam. É quando um sussurro ecoa:
— Quem está aí?
Sua voz, aparentemente gentil e amigável, me deixou tranquila.
— Pode se aproximar, eu não mordo.
Em seguida, sorriu de forma arteira.
Cautelosa, sigo. Conforme me aproximo, sinto novos odores: óleo queimado, resíduos de alguma alquimia oculta.
— Olá, cara visitante, como se chama?
Apresentei-me, mas com cuidado para não falar demais, apesar de me sentir à vontade perante ela.
— Prazer, Rose. Me chamo Evelyn Dubois!
Seus olhos me estudavam.
— O prazer é meu, Evelyn! Bom, que lugar é este? Eu deveria estar em outro lugar, mas já deveria ter me acostumado.
O castelo está em constante mudança: os corredores se alongam ou diminuem, portas mudam de lugar, além dos acontecimentos peculiares que comumente ocorrem.
Ela prestou atenção em cada palavra dita por mim, ao mesmo tempo que manipulava um líquido roxo em um tubo de ensaio.
Trajava um jaleco branco fechado por apenas um botão e, por baixo dele, havia um lindo vestido vitoriano verde-musgo. Seu rosto era delicado, seus olhos, verdes; seus cabelos pretos estavam amarrados; sua pele era pálida. Ela continuou:
— Bem, Rose, isso vai demandar bastante tempo, mas chegará um dia em que você se acostumará com os eventos ocorridos aqui.
Ela contou brevemente sua história: sua mãe era costureira, e seu pai, um excêntrico cientista. Sua obsessão era desenvolver tintas fotossensíveis. Mas, num fatídico dia, houve uma explosão. Após o incidente (ela não entrou em detalhes sobre o que acontecera a seu pai, e achei melhor não perguntar), assumiu as pesquisas dele. No entanto, de alguma forma, seu foco se voltou para a chamada "cor oculta".
Fiquei curiosa com sua história, e, quando perguntei sobre sua pesquisa, notei uma mudança abrupta. Era perceptível sua frustração em relação à sua pesquisa; parecia que não tivera bons resultados.
— Que lugar é este? — perguntei para mudar o rumo da conversa. Imediatamente, vi a mudança em seu rosto, tornando-se mais uma vez amigável.
— Você está em meu refúgio, um laboratório que se encontra nos arredores do castelo.
Comentou um pouco sobre um evento denominado "Nemonium" e, por algum motivo, uma horrenda criatura foi vista pelos corredores, assombrando os moradores. Gritos de terror foram ouvidos além dos arredores.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Naufrágio
A mais caudalosa turbulência, | a rebeldia que transportava espumas | para o colo do barco, | fazia surgir o medo constante | de conhecer o fundo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
A mais caudalosa turbulência,
a rebeldia que transportava espumas
para o colo do barco,
fazia surgir o medo constante
de conhecer o fundo escuro do oceano.
Ao sobressaltar a visão,
embaçador, mas lúgubre,
com a fronte alçada em desafio.
Partindo caminho, devastando e empurrando o próprio mar,
mas não há disputa, nem trégua.
Antes do golpe, toda dança e cerimônia,
um ritual, tal qual uma primitiva celebração ou
uma câmera lenta moderna.
Baforando ódio por sobre o barco, engolindo, aglutinando madeira, carne, água e trovões.
Um baile de máscaras molhadas,
que ficará apenas registrado na história das águas.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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A Sinfonia de Engrenagens
O castelo tinha encantado Minerva de uma maneira tão sublime que fez com que ela decidisse residir ali por algum tempo, completamente…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Músicas de inspiração: “Castlevania – The Clock Tower” e “Dark Sanctuary - The Garden of Jane Delawney”
O castelo tinha encantado Minerva de uma maneira tão sublime que fez com que ela decidisse residir ali por algum tempo, completamente absorvida pelos mistérios que pareciam não ter fim. Ao explorar seus corredores, sempre descobria uma nova sala, um armário oculto, cofres selados e livros em línguas desconhecidas, aguardando para serem desvendados. Cada ambiente era único, e cada porta ou escadaria parecia se abrir para uma infinidade de dimensões. Nenhuma janela jamais oferecia a mesma vista que a outra.
Tomada pelo desejo de entender os segredos daquele lugar, Minerva sentiu em seu coração a necessidade de explorar o castelo cada vez mais, mapeando-o para descobrir até onde poderia ir. Decidiu se acomodar no quarto marcado pelo símbolo do ouroboros na porta, considerando-o a confirmação de seu chamado; ela agora era uma convidada do castelo. Ao despertar, em um horário que imaginava ser pela manhã, ergueu-se da cama, pensativa, enquanto um som distante e metálico começava a penetrar seus tímpanos, como um eco sutil de algo mecânico que se movia em algum lugar.
Intrigada, ela se levantou, recordando que quando dormiu aquele som parecia estar presente, mas tinha se intensificado. Ela usava um vestido preto longo sem muitos adornos, semelhante a um dressing mourn sem mangas longas, usava uma crinolina por baixo da saia que dava sustento à peça. Ela percebeu que o ar estava mais quente e não frio como de costume.
A bruxa trançava o próprio cabelo com movimentos automáticos, os dedos puxando os fios diante do rosto enquanto seus olhos se fixavam no mesmo espelho onde o Ttyphrssett havia se manifestado em sua imagem. Uma melancolia diferente começava a tomar seu coração um peso silencioso que ela evitava nomear. Terminando a trança, prendeu-a em um coque apertado, fixando-o com seu broche de mariposa pensando em evitar o calor.
Naquele momento o que sentia era aquele sentimento oriundo da alma, um eco do medo primitivo que habita o inconsciente humano e causa o medo do escuro e do abandono. Foi com essa sensação que ela despertou naquela suposta manhã, enquanto o som metálico de engrenagens trabalhava à distância, reverberando como um presságio e entregando um recado do calor.
Seu olhar se voltava incessantemente para a própria imagem no espelho, tentando desvendar o significado do que via. A tempestade de neve já se dissipara há algum tempo, mas a mente de Minerva continuava nublada, e ela não conseguia lembrar quando isso havia ocorrido. O que a inquietava, no entanto, era o som distante das engrenagens, que pareciam eternas. Não sabia há quanto tempo escutava, mas estava certa de que sua percepção sonora se alterara. Já fazia tanto tempo que, em certos momentos, esquecia daquelas engrenagens, até o instante em que o som se infiltrava novamente em sua consciência.
Para esquecer aquele som ela resolveu exercer sua prática meditativa, então sentou-se no centro do seu aposento para se concentrar. Abaixo dela, uma linha circular azulada pairava no ar enquanto estava suspensa sobrenaturalmente, o traço da figura se desenhava em um brilho prateado-azulado, expandindo-se e contraindo-se em uma cadência hipnótica, refletindo o fluxo de sua própria energia. No entanto, ela se desconcentrou pelo barulho e toda a imagem se desfez, ela parou de flutuar.
Por um momento, Minerva olhou ao redor do quarto, inquieta, tentando localizar a origem do som que ecoava em sua mente, mas sem sucesso. Nos dias que passou mapeando o castelo, ela havia se dedicado a organizar o ambiente, decidida a fazer com que sua estadia, embora temporária, fosse confortável. Com determinação, conseguiu os suprimentos necessários para se manter ali, adaptando-se ao peculiar ritmo daquele lugar.
Ela continuou a olhar para os lados, observando os móveis de madeira escura, as paredes com rachaduras, o piso, os candelabros do quarto. Tudo parecia imóvel enquanto o som das engrenagens continuava a ecoar. Ela suspirou, chateada, e cutucou o ouvido direito com o dedo, tentando aliviar o zumbido agudo causado por conta do som. Desconcertada por aquele fenômeno não parar, ela decidiu investigar, em outros momentos já tinha ouvido sons estranhos e passos fantasmagóricos por lá, mas nada a tinha incomodado tanto quanto aquele som metálico e que parecia aumentar a cada momento.
Minerva então deixou seu aposento e caminhou pelo longo corredor, tentando seguir o som que parecia um farfalhar metálico, entrando em sua mente e se intensificando gradualmente. Incomodada, ela avançava a passos firmes, observando atentamente cada detalhe ao redor: os móveis de mogno, os quadros nas paredes, retratando paisagens estranhas e cósmicas. De repente, as engrenagens cessaram, e um silêncio profundo tomou o ambiente. Mas Minerva não hesitou. Continuou em frente, avançando em direção às escadarias encaracoladas, determinada a descer e descobrir a origem daquele som perturbador.
Ela iluminou o espaço sombrio, já que a ausência de janelas ou vitrais na escada impedia que qualquer luz natural adentrasse. Mesmo com o sol a brilhar no céu, lá fora, a atmosfera interna parecia ser perpetuamente escura. Enquanto descia os altos e longos degraus da escadaria, um som peculiar ecoou em seus ouvidos uma risada leve e despreocupada, que parecia vibrar nas paredes, como um sussurro fantasmagórico. Talvez fosse um dos espíritos que perambulavam pelos corredores do castelo, pensou ela, tentando não se deixar levar pelo desconforto.
Era uma risada infantil, suave e enigmática. Por um momento, Minerva teve a impressão de ouvir seu nome sussurrado pela mesma voz que ecoava a risada. Seu coração acelerou, e, em um reflexo, ela intensificou a luz da esfera em suas mãos, tentando iluminar os cantos escuros ao redor. Porém, o que encontrou foi apenas a infinidade dos degraus que continuavam a descer quase sem fim, e nenhum sinal de presença alguma além de si própria.
Ao atravessar um grande portal, Minerva chegou ao hall de entrada do castelo, um espaço que irradiava uma aura de magia enigmática. Ela caminhou alguns passos, os ecos de seus pés pesados ressoando no piso, até avistar uma garotinha loira, de cabelos curtos, correndo rapidamente. A menina entrou em uma das portas, e com ela, o sussurro e a risada infantil que Minerva havia ouvido antes. A menina usava um delicado vestido branco, que contrastava com um corset de acobreado, ajustado em sua figura, moldando sua silhueta com precisão. Nas pequenas mãos, um par de luvas na mesma tonalidade de cobre, projetadas com cuidado para lidar com maquinários.
Por um momento, Minerva pensou em ignorar, acreditando ser apenas mais uma visão proferida pelo próprio castelo. Mas algo em sua intuição a instigava a seguir a garota. Sem mais hesitar, Minerva a seguiu apressadamente, enquanto a menina chamava: “Vem comigo!” A voz dela ecoava de forma doce, e o risinho juvenil, brincalhão, parecia contagiante, mas também provocava em Minerva, uma irritação crescente, como se fosse uma brincadeira não solicitada.
Ao parar por um momento, ela contraiu a mandíbula após suspirar e cruzar os braços. Simplesmente não estava disposta a perseguição. Ela revirou os olhos, exalando um sopro sutil pelas narinas, um pequeno jato de ar quente, quase inaudível, mas carregado de impaciência.
As sobrancelhas de Minerva se arquearam, denunciando seu desagrado. Ao se virar e começar a regressar até a entrada, a menina surgiu diante dela, com os olhos grandes e arredondados, da cor de mel, como se refletissem a luz com um brilho estranho. Seu cabelo loiro e curto emoldurava seu rosto, formando uma franja arqueada como uma meia-lua, enquanto seus lábios permaneciam cerrados, formando uma linha rígida.
— Quem é você? — Minerva deu de ombros e estreitou os olhos interrogando-a, avaliando a presença inesperada.
— Eu sou a responsável pelas máquinas do castelo, não sabia? — a menina posicionou as mãos sob a cintura.
— Então existem mais pessoas aqui? — Minerva pôs a mão no queixo pensativa fazendo um arco sob seu lábio inferior. — Sou Minerva Caligari princesa do reino de Áugures, mas no momento sou apenas Minerva.
— Muito bem apenas Minerva, eu me chamo Evelyn Dubois, estive te observando você causou um alvoroço e tanto com a sua chegada, não foi? Acho que talvez você possa me ajudar. Perdão pela forma como me aproximei, só queria me divertir um pouco, você sabe... O castelo pode ser meio parado às vezes!
— Na verdade, talvez você me ajude a encontrar de onde vem aquele barulho insuportável.
— Eu ia te levar em um lugar, tem uma coisa acontecendo no céu que acho que você vai se interessar. Você sabe, o céu aqui no castelo não é “apenas o céu” como você também não é “apenas Minerva”.
A bruxa deu um passo para trás, lançando um olhar de incredulidade para a menina, tentando compreender como alguém poderia ser tão extrovertido e audacioso. Algo na postura da garota a fazia sentir um estranhamento, como se ela própria estivesse diante de um reflexo de sua juventude curiosa, intuitiva, impetuosa. Era como se a menina fosse uma versão mais jovem de si mesma.
A garota começou a andar saltitante à frente, acenando para que Minerva a seguisse. Sem hesitar, ela a acompanhou, atravessando um dos portais do hall que as conduziu a um corredor mais estreito. A iluminação era tênue, mas não vinha de candelabros; àquela altura, a esfera luminosa de Minerva já havia sido dispensada por ela própria. O corredor não possuía janelas, e as únicas coisas visíveis nas paredes eram tubulações metálicas que serpenteavam como veias expostas. O piso era coberto por um tapete vermelho, que se estendia até o final do corredor, onde uma porta de cobre estava embutida na parede.
Aquela porta chamou a atenção de Minerva, seus olhos se arregalaram ao ver engrenagens que se retorciam por toda a estrutura. Engrenagens de diferentes tamanhos interligavam-se em um mecanismo complexo, algumas girando lentamente com um leve chiado à vapor, como se a própria estrutura tivesse força própria.
— Você vai ver que alguma coisa aconteceu aqui no castelo, o céu anda estranho ultimamente, não sei se você já foi lá fora, mas o céu está estranho. — A menina se aproximou da porta e tirou de dentro do colarinho do vestido uma chave, com ela destravou a tranca da porta e com uma reverência, pediu que Minerva adentrasse o lugar após ela mesma passar pela porta.
— Bem-vinda à minha casa, apenas Minerva!
O teto alto era sustentado por vigas de ferro forjado, de onde pendiam lâmpadas elétricas presas a braços mecânicos, lançando uma luz amarelada e instável sobre o ambiente.
Os olhos de Minerva brilharam ao ver o que estava por trás daquela porta. Era um lugar estranho e diferente de tudo o que ela já vira, parecia-se com o cômodo de uma casa e ao mesmo tempo com um laboratório. O teto alto era sustentado por vigas de ferro, de onde pendiam luzes. Extasiada pela visão de tantas coisas diferentes ela apoiou a mão na porta de engrenagens e entrou no local tomando cuidado ao descer dois degraus.
Minerva avistou duas janelas redondas ao fundo do aposento e ao centro estava uma mesa de mogno. Próximo à mesa, em meio ao emaranhado de fios e tubos, um homem repousava em uma cadeira de rodas de estrutura reforçada, com pistões hidráulicos adaptados ao eixo das rodas.
Seu corpo era uma fusão grotesca de carne e metal: o rosto, marcado por cicatrizes profundas, trazia uma expressão vazia. Minerva o fitou curiosa e depois dirigiu o olhar para Evelyn.
— Este é o meu pai ele não fala muito, venha comigo o que quero te mostrar está bem ali.
Evelyn se posicionou em frente a uma das janelas aguardando que a bruxa se aproximasse e quando ela o fez a garota acenou com a cabeça para que ele olhasse pela grande janela redonda. Mais uma vez os olhos de Minerva foram surpreendidos, no céu azul cobalto dois sois ostentavam seu poder bem próximos um do outro, dourados com um aspecto metálico. Impressionada ela baixou o olhar para a paisagem estranha onde avistou um jardim de flores estranhas que apontavam para os dois sóis como fazem as margaridas. Ao longe ela avistou uma estufa vítrea que cobria uma parte daquele lugar.
— Evelyn, o que está acontecendo lá fora? — perguntou Minerva tentando não demonstrar sua recente curiosidade aflorada.
— Realmente não tenho o que dizer sobre os sois, mas acho que a máquina do papai está funcionando novamente. Você sabe, ele era um excelente inventor até o incidente. Eu queria continuar o que ele começou procurando o “éter etéreo” achei que você pudesse me ajudar. O sol maior está se aproximando de nós.
— Não sei como posso te ajudar, mas isso com certeza explica o calor no castelo, temos dois sois pairando sobre nós.
— Eu acho que se descermos no jardim mecânico encontraremos o que eu procuro, você vem comigo?
— Deve ser fascinante, por favor, me guie até o local!
Após as palavras de Minerva, o som das engrenagens retornou, mais intenso e penetrante do que antes. O ruído reverberava pelo ambiente, fazendo Minerva cerrar os dentes ao sentir um zumbido incômodo nos ouvidos. Evelyn, alarmada, correu até seu pai, que se remexia inquieto na cadeira.
Com um movimento brusco, ele puxou uma alavanca lateral, ativando o mecanismo das rodas. A estrutura metálica da cadeira estremeceu e liberou um jato súbito de vapor por um pequeno cano, enquanto girava descontroladamente pelo aposento. Evelyn tentou conter o movimento, segurando as laterais com força, até que finalmente conseguiu estabilizá-la.
— Meu pai... — ela começou ajeitando a postura dele e lançando um olhar rápido para Minerva. — Ele sempre foi obcecado pelo trabalho. A maior parte do que existe aqui foi criação dele... um grande inventor.
Minerva observou a cena com atenção, seus olhos percorrendo os detalhes da cadeira e da sala, absorvendo cada peça, cada engrenagem que compunha aquele estranho mundo. Algo ali parecia deslocado, desconexo.
Enquanto seguiam em direção à porta, Minerva finalmente quebrou o silêncio:
— Esse barulho... — ela disse, com a voz baixa, mas firme. — O som das engrenagens. Parece vir de todos os lados e ao mesmo tempo de um lugar específico. O que é?
Evelyn hesitou por um breve instante. Seus dedos tocaram as luvas, apertando-as levemente antes de erguer o olhar e responder com um tom despreocupado:
— Apenas mais uma das invenções do papai como eu te falei. Não se preocupe, vamos conseguir consertar a máquina, vamos ao jardim agora...
Havia algo diferente na forma como ela falou, na leveza de sua voz, que fez Minerva estreitar os olhos. Ainda assim, decidiu não pressionar... pelo menos por enquanto.
JARDIM MECÂNICO
As duas estavam diante da entrada do jardim, uma estufa, Minerva pôde ver através do vidro abobadado plantas exóticas. Para entrar ali, Evelyn, ao seu lado sorriu de maneira enigmática e, sem esforço aparente deslizou os dedos enluvados por um painel que ficava alinhado aos tubos da estufa. Um clique seco ecoou e a estrutura de metal diante delas começou a se abrir.
O ar que escapou do outro lado carregava um aroma diferente: uma mistura entre o perfume delicado de flores e o cheiro ferroso de metal. Minerva franziu o cenho, sentindo a atmosfera mudar conforme avançavam. Seus pés afundavam na grama espessa.
Elas atravessaram o limiar da estufa e adentraram em um bosque incomum, fora do espaço vítreo chegaram em uma área livre à primeira vista, parecia uma floresta densa, mas logo a realidade se torceu diante de seus olhos. O solo era um tapete vivo de raízes metálicas entrelaçadas, e sobre ele, flores mecânicas brotavam com uma estranha elegância. Seus botões de cobre e bronze se abriam e fechavam suavemente, liberando vapores azulados que serpenteavam pelo ar como uma névoa brilhante. O bosque se estendia ao redor como uma entidade viva, pulsante, ciente de suas presenças.
Minerva deslizou a mão pelos poros de uma flor próxima, sentindo sua textura fria e, ao mesmo tempo, orgânica. Ela ergueu o olhar para Evelyn, que girava sobre os próprios pés, admirando as flores.
— É magnífico, não acha? — perguntou a garota loira, sua voz carregando uma empolgação infantil.
— Esse lugar... — murmurou Minerva, sentindo a pressão ao seu redor se intensificar. Era como se o próprio jardim as estivesse avaliando, estudando sua presença.
— Ele respira — disse Evelyn com naturalidade. — Está vivo.
O vento cortou entre as engrenagens ocultas, produzindo um som que não pertencia ao mundo dos vivos. Um sopro metálico, como algo que respira sem precisar de pulmões.
Uma sensação de euforia pela nova descoberta tomou Minerva por alguns instantes, mas ao mesmo tempo enquanto ela sentia a aura daquela atmosfera estranha o medo tocou seu coração por alguns segundos, ela não sabia o que esperar daquele lugar. A beleza e a estranheza estavam unidas ali!
Evelyn caminhou saltitante novamente, desta vez puxando Minerva pelo braço arrastando-a até o que ela chamou de “máquina do éter”. Foi quando Minerva sentiu o ar ao seu redor tornar-se mais denso conforme se aproximavam-se daquilo. O cheiro metálico era forte, misturado ao vapor que se dissipava em fumaça cada vez que escapava pelos canos. À sua frente, erguia-se uma estrutura colossal, um emaranhado de cobre, aço e outros metais que pareciam vivos, pulsando com um movimento incessante.
A máquina, não se parecia com nada que Minerva já tinha visto, ela exibia engrenagens de tamanhos distintos que giravam entrelaçados. Alguns dos mecanismos moviam-se em padrões intrincados, enquanto outros pareciam reagir a estímulos invisíveis, rangendo de maneira ritmada. O vapor se esvaía em intervalos regulares, exalando um chiado abafado, e os cabos de força serpenteavam pelo chão como raízes, conectando-se ao castelo em tubos que seguiam pelo chão.
Minerva arqueou as sobrancelhas, fascinada e desconfiada. Aquilo parecia um coração. Ela cruzou os braços e lançou um olhar para Evelyn indagando-a:
— O que exatamente é essa coisa? — sua voz soou firme, mas havia um brilho curioso em seu olhar. — E por que esse barulho é incessante?
Evelyn desviou os olhos por um instante, balançando a cabeça levemente antes de soltar um suspiro curto.
— É a máquina do meu pai, eu já tentei consertar, mas ela está assim a um tempo. Sempre esteve aqui, sempre funcionou assim. Ela só está mais barulhenta porque eu andei mexendo um pouco nela, sabe... Os sois lá em cima estão ligados ao barulho também, estou tentando consertar isso. E você vai me ajudar!
Minerva percebeu uma mudança no tom da garota. Algo ali vibrou além do metal e do vapor. O jeito de se comportar de Evelyn havia mudado em um lampejo, como se não fosse mais ela mesma, seus movimentos se tornaram erráticos, e sua voz oscilou, mudando de tom.
De repente, Evelyn riu, mas não era sua risada natural. Era algo rouco, fragmentado, como se outra pessoa falasse através dela. Seus olhos, antes vivos e cheios de curiosidade, tornaram-se vidrados, e suas palavras se transformaram em um murmúrio. "O éter etéreo... a substância primordial... Minerva, você veio para decifrar o mistério de tudo, não veio?", “Você é a chave para a transmutação, não é?”, “A substância das substâncias está em você não está?” sua voz alternava entre grave e aguda em uma cacofonia.
Minerva franziu a testa e deu um passo para trás, observando Evelyn se mover. A garota gesticulava com a cabeça se inclinando de um lado para o outro aguardando uma resposta.
Diante delas, a grande máquina de engrenagens liberava vapores e chiados metálicos. A estrutura imponente de cobre e aço vibrava com vida própria, alimentada pelos cabos de força que vinham do castelo. O som das engrenagens reverberava, preenchendo o ar com um ruído quase hipnótico.
"Ela precisa entender...", murmurou Evelyn, e, num estalar de dedos, um rangido mecânico ecoou. Evelyn ergueu as mãos como um maestro. Um som de rastejar pôde ser ouvido enquanto a garota fazia movimentos frenéticos como se controlasse algo, por trás de Minerva surgiu o que parecia ser uma imensa planta carnívora, com tentáculos mecânicos se estendendo com movimentos sinistros exibindo estrias azul cobalto. O interior da bocarra era repleto de dentes afiados, ela era a perfeita réplica de uma dioneia.
Minerva reagiu usando sua magia, mas os tentáculos da criatura foram mais rápidos. Enroscando-se ao redor de seu corpo, prenderam-na em um aperto impiedoso. A mandíbula de metal se abriu, e Minerva sentiu o ar ficar pesado ao perceber que seria engolida, enquanto Evelyn prendia cabos de força em si própria. A garota, ou o que quer que estivesse no controle dela, observava com um sorriso aberto já conectada aos cabos.
Irritada, Minerva evocou a sua aura de loba um tipo de sombra fantasmagórica que emanava de seu corpo quando ela precisava se defender, uma parte de sua alma transmutada, seu corpo começou a brilhar em uma aura espectral dentro da mandíbula metálica, e, de dentro daquilo algo grande se remexia abatendo a estrutura da mandíbula, um uivo ressoou pelo ar quando a aura de loba se manifestou por completo. Energias bruscas pulsaram em sua pele, e com um único golpe ela quebrou a máquina, um rugido feroz ecoou pelo jardim arrebentando os dentes longos do autômato. Minerva saltou e ao pousar no chão ajoelhada a sombra de loba podia ser vista em suas costas.
A energia liberada fez os tentáculos da planta mecânica se retraírem, e a criatura recuou emitindo sons arranhados como se estivesse empenando, o que antes era a boca da dioneia agora estava no chão do jardim. Seus olhos queimaram em fúria ao encarar Evelyn, que cambaleava para trás, como se estivesse perdendo o controle do próprio corpo.
Evelyn deu um passo trôpego para trás, uma luz dourada em seus olhos se intensificou, e sua voz se fragmentou em ecos múltiplos. "Não tente me impedir, Minerva... Eu... eu posso ver tudo agora...! O éter etéreo... é a conexão!” O som das engrenagens parecia mais alto que antes enquanto a menina sentia o vórtice de energia.
A loba espectral rugiu e então a própria Minerva se contorceu e assumiu por completo a sua forma de loba. Seu corpo se expandiu, os músculos pulsando com a energia bestial enquanto sua pele era tomada por uma pelagem negra como a noite. Ossos estalaram e cresceram, moldando uma forma lupina imponente. Suas garras alongaram-se grotescas e seus olhos brilharam com um azul intenso e selvagem.
Num único salto, ela avançou contra a máquina afundando as longas patas e as enormes garras na máquina, ela atravessou a estrutura com sua força. O aço rangeu sob sua força brutal enquanto suas patas rasgavam cabos e trituravam engrenagens, espalhando faíscas pelo ar como brasas incandescentes. Um chiado enguiçado escapou dos circuitos destroçados, seguido por um ruído de ferro retorcido quando a estrutura cedeu. Um estrondo ecoou quando o núcleo se partiu ao meio estremecendo antes de explodir em um estrondo ensurdecedor, lançando fumaça e fragmentos de parafusos e roscas.
Evelyn gritou e seu corpo foi lançado para trás, os cabos se rompendo um a um. O brilho dourado em seus olhos piscou freneticamente antes de apagar completamente. O sol acobreado tremeu no céu, como se tivesse perdido sua âncora o que fez com que ele lentamente, recuasse para sua posição original muito além do alcance dos olhos e as flores que apontavam para ele inclinaram-se como se estivesse murchando.
Observando os destroços fumegantes ao seu redor pegarem fogo em pequenas explosões barulhentas, Minerva respirou fundo. A loba foi tomada por uma energia azulada que a envolveu esfericamente até surgir como humana novamente, o vestido rasgado no ombro e o cabelo solto e esvoaçado.
Evelyn estava desacordada sob a grama, pálida e ofegante. Sua expressão era de confusão e medo. "Minerva...?", ela murmurou desta vez com sua própria voz. Minerva a encarou por um longo momento antes de finalmente relaxar os ombros. Uma sensação estranha de melancolia e euforia atiçou novamente o coração da bruxa, aquele evento a fez se sentir tonta e extasiada.
Ela ajoelhou para acalentar a garota no colo, muitas perguntas ecoavam na mente dela, enquanto tentava acalmar a garota que agora parecia frágil e indefesa em seus braços. “Como funcionava aquele jardim? O que é o éter etéreo? Quem mais vive neste castelo?”. Minerva se ergueu com dificuldade, levando a jovem nos braços, seus olhos desviaram a atenção da garota para a máquina, percebendo o silêncio.
Ela ergueu o olhar para o céu e notou que o segundo sol estava mais distante que da última vez que vira. A passos lentos, ela caminhou em direção à saída do jardim mecânico com Evelyn desacordada em seus braços. A máquina parou finalmente, as engrenagens e o som cessaram, ela podia descansar.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Dois Sóis
Em que ponto do espaço e tempo nós estamos? Não há nenhuma ciência empírica para descrever o porquê destes dois sóis. Agarro-me a uma…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Em que ponto do espaço e tempo nós estamos? Não há nenhuma ciência empírica para descrever o porquê destes dois sóis.
Agarro-me a uma cansada luneta, ansiando ver o despir do espaço. A ferrugem descortina os meus sonhos, enquanto atravesso a senda galopando com meu cavalo biônico. Sobrevivente, astuto, de uma recém tempestade.
Enquanto isso, locomotivas nos agridem com a verdade de que a efemeridade não é exclusiva das rosas. Preciso, portanto, alertar a Camarilha, aos meus irmãos em sangue, de que os imortais também possuem prazo de validade.
Tudo graças a uma criatura que ousou brincar girando, insistentemente, a roleta do tempo. Preciso dar um jeito, pois nutro uma afetividade pela vida que me escorre entre os dedos como areia cósmica.
Os dois sois refletem-se em meus olhos vítreos enquanto contemplo o horizonte partido. É na confluência destes astros que percebo o quanto somos transitórios — até mesmo nós, os que bebemos da taça da eternidade.
A Camarilha não aceitará facilmente este prenúncio. Seremos perseguidos como heresias ambulantes, portadores de um evangelho que ninguém deseja ouvir. Mas a verdade é implacável.
Meu cavalo biônico relinchou três vezes quando avistou o fenômeno. Seria ele mais sensível que seus mestres? Talvez os mecanismos artificiais compreendam melhor as engrenagens do universo do que nós, presos à ilusão de nossa imortalidade.
Sigo adiante, com a luneta pendente do pescoço e o peso da revelação nas costas. Dois sois. Dois destinos. Uma única e irrefutável sentença: até os imortais são feitos de tempo.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Pergaminhos esfumaçados
Nos ermos turvos, sob a névoa espessa, | Engrenam-se os dias num ciclo enferrujado, | corações de cogs, reluzindo em pressa, |
pulsam mecânicos num tempo quebrado…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Nos ermos turvos, sob a névoa espessa,
Engrenam-se os dias num ciclo enferrujado,
corações de cogs, reluzindo em pressa,
pulsam mecânicos num tempo quebrado.
Óleo e fuligem tingem a alvorada,
Zepelins vagam por céus cor de chumbo,
na ruína que ao mundo foi dada,
heroína avança em um rastro profundo.
prateados fios caem sobre o aço,
sua cauda felina rasga a tormenta,
buscai o grimório do arcano nefasto,
A magia milenar que o tempo fomenta.
os homens são máquinas de fria ilusão,
ela é o sussurro da última oração.
escombros de ferro, urde-se a lenda,
entre válvulas rotas e estalidos vis,
heroína avança, garras em contenda,
sangrando entre sombras de fumos febris.
No peito dos homens, cogs reluzentes,
girando em delírios de cobre e vapor,
são máquinas mortas, de sonhos ausentes,
moldadas em fardos de graxa e torpor,
sob as ruínas de Londres caída,
câmara oculta de um templo profano,
Grimório pulsava – em runas, em vida,
Sorvendo dos tolos seu plasma insano.
com dedos feridos, no aço e no pus,
abrira suas páginas rubras de luz.
páginas vivas, trêmulas, sangrentas,
gravavam-se em fogo mistérios arcanos,
ritos profanos, promessas sedentas,
versos que outrora arruinaram humanos.
As engrenagens dos homens gemiam de medo,
giravam rangendo em preces de aço,
lendas diziam, num tom sem enredo,
que aquele grimório rasgava o espaço,
a felina de prata, sem receios,
sorriu ao sentir-lhe a febre imortal,
o sangue pingava em signos alheios,
A tinta vermelha selou o final,
no véu do vapor e da morte impiedosa,
renasce a magia—sombria e grandiosa.
o sangue, agora em chamas, se espalha,
num rio escarlate que corre sem fim,
a névoa densa se torna uma muralha,
uma barragem da magia que se afim.
Engrenagens, agora, começam a cantar,
ritmo insano de um mundo desfeito,
a heroína, sem medo, a desvendar,
Adentrai o portal se abrir no firmamento estreito.
O grimório, pulsando, desenha estrelas,
círculos sagrados, feitiços infinitos,
entre os ventos, exalam-se centelhas,
Fragmentos do passado, ecos de gritos.
ela avança, sua cauda serpenteia,
nos olhos, a chama da alma se enleia.
ao tocar o livro, o mundo se rasga,
a névoa se parte, o universo traga
novas realidades, horizontes de dor,
a magia toma forma de puro fervor.
Na fumaça, o sangue se entrelaça ao metal,
a heroína, agora, não é mais mortal.
no instante sombrio em que a carne se funde,
o grimório pulsa, a realidade implode,
e o céu se parte, a terra se afunde,
a magia em carne e engrenagem explode.
Cogs e ossos se entrelaçam em ruínas,
ventos cortam a pele como lâminas,
a fumaça dança em círculos infernais,
olhos da heroína, como cristais,
refletem o abismo que a tudo consome,
o sangue agora escorre, quente e negro,
derramando-se no abismo onde o nome
do passado ecoa, profundo e seguro.
Ela sente o peso das estrelas caídas,
suas garras dilaceram o véu do medo,
as correntes de ferro, agora perdidas,
rasgando o espaço, cantam o segredo.
com cada passo, o sangue é mais espesso,
o metal da alma, no instante, se confesso.
Em seu peito, os cogs gemem de agonia,
transformados em grilhões de pura alquimia.
no abraço final da magia e da dor,
ela transcende, num grito, o próprio terror.
o grimório, agora em sua mão sangrenta,
liberta o caos, a noite eterna e lenta,
o universo se quebra, se reinventa,
o sangue, em névoa, em nada se ausenta.
No vórtice da destruição, a carne se retorce,
o grimório clama, e a terra se desfez,
o grito da heroína é um rugido que torce
os céus e o inferno, tudo a seus pés.
o sangue que pulsa já não é mais seu,
mistura-se ao metal, à fumaça, so a lua,
em cada veia, o caos toma o troféu,
as engrenagens batem, como martelos
A névoa, agora densa e viscosa,
envolve tudo, sem alma e sem fim,
engolindo os homens, as máquinas, a rosa,
transformando em nada o que restou de mim.
olhos de prata, refletido o abismo,
O fim do mundo se torna uma dançarina,
garras afiadas, olhos sem raciocínio,
ela é a rainha de uma era divina.
Os céus, rasgados, exalam dor e fúria,
o sangue da heroína inunda os rios,
cada passo é um eco de pura loucura,
seu corpo, agora, já não sente os próprios fios.
A magia se torna carne, alma e choro,
As engrenagens se perdem, o tempo é quebrado,
nas sombras que brotam do ouro,
Ela se ergue, destroçando o passado.
O grimório ri, e o sangue se mistura,
um cântico ancestral,
um cântico de loucura.
O vapor sobe, quente como o inferno,
máquinas rugem em dor, sem piedade,
os pistões estalam, um som terno,
que quebra o coração da realidade.
Nos corredores de ferro e latão,
a heroína avança, seu corpo de aço,
cada passo é marcado pela tensão,
wm meio ao fumo, ao estrondo, ao fracasso.
engrenagens douradas, girando sem fim,
nos peitos dos homens, enredados em dor,
o som das engrenagens, como um clarim,
convoca a revolta de um mundo sem cor.
Zepelins de ferro cortam o céu de chumbo,
com hélices afiadas, cortando a névoa espessa,
são sombras imensas que ecoam no fundo,
onde o grimório sussurra, e a morte não cessa.
a cidade se ergue em ruínas de aço,
com tubos de vapor serpenteando o ar,
Vossa heroína, entre chamas e estalos,
buscai o poder perdido, o segredo a revelares.
Nos olhos prateados, a verdade não é suave,
Ela sente a fúria das rodas a girares,
O grimório, com letras antigas e graves.
É a chave para o futuro, a destruição dos lugares.
A névoa se espessa, o metal se corrompe,
Mas ela, com a cauda felina e o coração ferroso e enevoado,
Sabe que no fim, o mundo será seu campo de combate,
onde o vapor e o sangue dançarão em união,
quando a última engrenagem finalmente cair,
o vapor consumir tudo ao redor,
ela será a rainha do caos, pronta a seguir,
pelas ruas de ferro, em sua jornada sem cor,
O aço resplandece sob a luz trêmula,
Vapor sibilando por tubos que se torcem,
relógios batem, como pulsos, a mil por hora,
enquanto o céu de névoa em cinza se esconde,
nas fornalhas ardentes, o cobre se funde,
Ao som das marteladas ressoa em cada rua,
Zepelins flutuam em trajetórias profundas,
cortando os ventos com lâminas de lua.
engrenagens giram nos peitos dos homens de ferro,
chorando parafusos no ritmo de dor,
suas veias são fios, suas almas, um erro,
com corações mecânicos, sem nenhum fervor.
A heroína avança, olhos de prata em fúria,
sua cauda felina brilha entre fumaça e calor,
o chicote cósmico e alma de pura armadura,
ceifai o ar, desafiando o mundo, com ardor.
O grimório, preso entre chamas e carvão,
Desenha feitiços nos céus corroídos,
Palavras antigas, em alfabeto de metal,
Chamam as máquinas a se rebelar, em gritos perdidos.
Os pistões rugem, as caldeiras explodem,
ela, com garra, não teme o fim da linha,
dentro de seu peito, o fogo que não se apaga,
o espírito indomável de uma era antiga e divina.
becos sombrios, o vapor espesso se eleva,
ela, entre o caos, nunca perde a direção,
magia milenar agora se revela,
o grimório brilha, em um ato de redenção.
A cidade de cobre e ferro, em ruínas, ecoa,
o vapor e o sangue se tornam a canção,
Mas a heroína, com garras afiadas, corre,
pela neblina, onde a mágica e o aço se entrelaçam em união,
entre as chamas e a escuridão, surge a besta,
Uma máquina de escrever, com engrenagens cintilantes,
Suas teclas de cobre e ferro, como uma orquestra em festa,
Rangem em compasso, marcando o tempo a se quebrar.
O som das letras, em um clique ancestral,
Se mistura ao estrondo dos pistões girantes,
Cada palavra, uma sentença fatal,
Rasgando o véu da realidade a se distorcer no ar.
Ao lado da heroína, com passos silenciosos,
Um gato mecânico, de olhos dourados e frios,
Seu corpo forjado em aço e fios, misteriosos,
Gira como um relógio, em movimentos vazios.
Suas garras, afiadas como lâminas de prata,
São cogs dourados, ressoando em pura precisão,
Seu miado, agora, é um som de engrenagens, que desata
Os portões da magia, em busca de redenção.
A heroína, com cauda felina e alma de ferro,
Toca as teclas da máquina, sua voz sussurrando,
Palavras antigas, com a dor de um desespero,
Que ecoam pelo ar, e o mundo vai ruindo, tremendo, indo.
O gato, com suas engrenagens robóticas pulsante,
Move-se em espiral, como o eixo de um destino,
Observando a escrita que começa a se transformai,
Com seus olhos de aço, fitando o abismo divino,
o grimório se abre, as palavras ganham poder,
enquanto a máquina de escrever grita seu grito final,
névoa se espessa, o mundo começa a se perder,
a heroína, com coragem, corta o mal.
Em um último suspiro, o gato de metal ruge,
suas garras cortando o ar como lâminas de dor,
com o grimório nas mãos, a batalha surge,
entre o vapor e o sangue, onde tudo é terror.
na cidade de cobre e chuva ácida, onde os relógios morrem,
as engrenagens soam como lamentos perdidos,
vossa heroína e seu gato, juntos, desafiam os deuses,
ali, um mundo onde as palavras se tornam gritos esquecidos.
Através de uma meditação em que Drácula forneceu em agradecimento
pelo exício dos dêmonios em seus quadros e tomos,
Arale fora capaz de ver, seu passado, um pouco de sua origem
Sua ancestralidade, uma raiz nebulosa,
Na era vitoriana, a fumaça alça,
Entre engrenagens e ruídos do ferro,
Caminha a felina, em noite de prata falsa,
Caçadora de demônios, no silêncio do ermo.
Com cauda a brilhares, em sombras se entrosam,
Suas mãos comandam a máquina de escrever,
Cada palavra, um feitiço, a escuridão, despojam,
E a morte àqueles que ousam se erguer.
Banida da Igreja dos ossos de Yesh,
Por se aliar às letras negras, no abismo,
Sua alma é marcada, como um flagelo,
A ordem antiga a teme, e se faz prismo.
Na sua carne, sangue de uma linhagem rara,
Arale Fayax, herdeira de dor e guerra.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Simbologia de uma torre imponente
Definha’s estruturas obra inacabada | Abalada em si pela agonia | Bela torre bradava ao céu alada | Babel em momento de alegria…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Definha’s estruturas obra inacabada
Abalada em si pela agonia
Bela torre bradava ao céu alada
Babel em momento de alegria
Faz sempre nos passos dos gigantes
O vínculo mágico da apatia
Facínoras! Amores tão fluentes
Os quais escarram minh’agonia
Um poroso monstro nasceu triste
Por alusão a grandeza da torre
Fatigado em preâmbulos morre
Escondendo-se à agonia desiste
De ser obra onipotente, orgulhosa
A tempestade derruba, ela escorre.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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4 - Prazer, meu nome é Marcos
Após vagar durante anos, aprendendo tudo que eu podia a respeito da humanidade e de seus costumes, eu já tinha a maestria de caminhar…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Após vagar durante anos, aprendendo tudo que eu podia a respeito da humanidade e de seus costumes, eu já tinha a maestria de caminhar entre as gentes, sem ser notado. Na verdade, abandonando o medo que eu tinha de ser descoberto, após os anos iniciais que se seguiram à minha criação, eu descobri que isso era bem fácil: o segredo de não chamar a atenção residia em justamente ser pobre e sem sucesso, as pessoas não querem ser pobres, mas menos ainda dispensar atenção a quem precisa, estando muito ocupadas com seus próprios destinos. Então me vestia com trajes andrajosos, com capa escura e nunca ousei revelar meus verdadeiros talentos, afastando conscientemente o sucesso de mim.
Talvez, quando essas palavras forem lidas por alguém, após a minha morte, achem o que escrevi acima pretensioso e arrogante demais; mas a verdade é que certamente eu faria sucesso no campo ao qual eu dediquei os meus estudos. Tudo o que é belo me fascina, que melhor lugar para expressar o meu fascínio do que uma folha de papel para acolher as minhas palavras? Ou uma tela a óleo para dar vida às mais belas imagens formadas pela minha imaginação? Se exteriormente eu talvez seja uma aberração, em minha alma, se é que a possuo, a arte pulsa e se desenvolve com toda a força e beleza da qual é digna. Aqui eu sou um ser belo, dotado de sensibilidade, amor e carinho por tudo que é sagrado, por tudo que considero belo, de forma que não me defino como monstro e me considero muito mais humano do que alguns ditadores que circulam por aí.
No entanto, viver dessa forma, embora fosse seguro para mim, não era de forma alguma satisfatório. Havia dias em que permanecia enclausurado em um casebre que eu mesmo construí, apenas pintando e me alimentando de restos encontrados no lixo e animais que eu mesmo caçava. Estava farto de apenas ter interações fugazes, tendo que disfarçar minha voz, minha aparência, queria poder me relacionar em nível mais profundo com alguém, dividir meus pensamentos, ter minha arte admirada. Apenas exibir minhas telas nas feiras de verão e conseguir algum trocado ou outro para sobreviver ou enviar poesias de forma anônima para os folhetins locais não estava mais preenchendo meus vazios existenciais. Eu precisava desesperadamente que alguém me amasse, que apreciasse o fato de eu existir. Eu ansiava por algo a mais, foi então que decidi, após muitos anos sem vê-lo, procurar o meu criador e implorar por ajuda para mudar a minha aparência. Eu não precisava de compaixão e comiseração da parte dele, eu precisava apenas de ajuda para ter uma existência mais digna.
No entanto, enchi-me de cautela e, apesar de saber o paradeiro de Viktor, pois sempre o acompanhei de longe, decidi vigiar a sua casa durante alguns dias antes de recorrer à sua ajuda, já que o meu criador, desde o início, nunca demonstrara simpatia ou sequer interesse pelo meu paradeiro; supus que a minha volta seria um incômodo. Acompanhando as descobertas que ele fizera no campo da medicina, desconfiava que agora ele finalmente poderia fazer algo com relação a minha aparência disforme. Rondei a fachada de sua casa por dias a fio. Era feita de pedras cinzentas que contrastavam com as luzes amarelas e quentes que permaneciam acesas durante a noite no andar inferior. Eram raros os dias em que aquelas luzes não eram acesas, e eu inferi que ali deveria estar o laboratório dele.
De início, me surpreendi ao constatar que ele dava abrigo a uma jovem que estudava na Universidade na qual ele trabalhava como professor. A diferença de idade entre ambos era grande, mas eu sabia que não era sua filha. Lera sobre a morte de sua esposa nos jornais e, para falar a verdade, me regozijei com a notícia. Quem sabe agora ele soubesse a tristeza que era viver completamente só. Quis ter raiva daquela jovem por isso, mas a verdade é que, desde o primeiro momento em que minhas retinas tristes e amareladas tocaram aquele ser puro, sua imagem de perfeição ficou atada à minha mente.
Ela tinha lindos cabelos castanhos, sempre presos de forma displicente, mas ainda assim encantadora. Seus olhos eram verdes claros e ganhavam tons amarelados ao sol, o que era uma pena, pois geralmente eu a observava à noite, escondendo minha aparência horrenda de seus olhos inocentes e tristes. Também pude deduzir que ela não era da aristocracia: seu melhor vestido era sempre o mesmo, um azul royal com delicados detalhes em renda branca.
O que me chamara atenção nela, de início, foi sua aura inocente e determinada. Era perceptível sua paixão pelo conhecimento, pois não faltava um dia sequer às aulas na faculdade. Às vezes acompanhava Viktor em uma carruagem, outras, seguia a pé, fizesse chuva ou sol.
Com o tempo, sem atingir a coragem necessária para interpelar o cientista, observá-la de longe tornou-se meu passatempo predileto. Mas logo percebi que ela tinha um estranho hábito. Sempre que botava o lixo para fora, fazia-o usando botas e luvas de açougueiro, muitas vezes durante a escura e fria madrugada.
Apesar de ser dona de um corpo franzino e desprovido de curvas femininas, eu a admirava e me surpreendia ainda mais com a força oculta que revelava ao arrastar aqueles sacos até o rio Spree. Depois, voltava para casa correndo e—o mais estranho—sempre em prantos, desde a primeira até a última vez em que a observei.
Certa vez, após ela abandonar os sacos no rio, em vez de segui-la para admirá-la por mais alguns minutos e protegê-la na volta para casa, mergulhei nas águas frias, movido por um impulso febril: queria resgatar o conteúdo do lixo que ela jogara fora. A ideia me pareceu estranha e obsessiva no começo, mas quando emergi com um dos sacos e o rasguei sob a luz trêmula da lua, soube que fizera o certo. O que vi me encheu de horror. Eram restos mortais de diferentes corpos femininos.
Dentro do saco, havia a cabeça de uma jovem ruiva—uma estudante, reconheci-a de uma das classes para as quais o velho lecionava. Também havia um torso nu, um corte reto e profundo no peito, suturado com o cuidado meticuloso de um louco embebido na própria psicopatia. Para completar o horror da cena, distingui um braço e uma perna, cobertos por sangue e vísceras já começando a se decompor na água turva. No fundo do saco, algumas pedras pesadas, para esconder o crime da qual ela era cumplice.
Inexplicavelmente, soube que ela não era responsável pelas mortes. Estava ajudando Viktor a escondê-las. Por quê? Eu ainda não sabia, mas tudo o que conhecia daquele homem me levava a crer que ela estava sendo manipulada, enredada por aquela mente doentia. Então meu objetivo mudou.
Em vez de procurar Viktor para que ele me ajudasse a mudar minha aparência, passei a querer, com ardor insuportável, salvá-la dele. Mas demorei demais. O último saco que abri foi o último que ela descartou. Depois daquela noite, nem ela nem Viktor saíram de casa outra vez.
Alguns dias depois a casa de Viktor fora arrombada, seu corpo putrefato fora encontrado em sua cama. Fazia dias que estava morto. Os jornais não mencionaram a presença de Sibila na casa, mas o seu sumiço se quer foi notado. Nem pelos familiares dela e nem pela faculdade na qual ela estudava. Tive a impressão de que eu era o único ser na face da terra que notara o seu desaparecimento. Movido pelo amor que eu já sentia, mesmo sem ter trocado uma palavra se quer com ela, pesquisei sobre a sua vida pregressa e descobri nos arquivos da faculdade que ela era estudante de medicina, órfã de pai e de mãe. Era muito admirada por Viktor e pelos professores da faculdade, que após o falecimento dele, acharam que ela tinha retornado para o campo, visto que era Viktor quem financiava os seus estudos. Então confirmei as minhas suspeitas que eu era o único que sabia o seu desaparecimento.
Rondei a casa de Viktor durante aproximadamente um mês, mas não obtive resposta para a angústia que invadia a minha alma. Até então, não me apercebera do quanto estava ligado a ela; só agora, que não podia mais admirá-la, é que sentia profundamente a falta que ela fazia. Passei a pintar telas com a sua imagem, compulsivamente. O casebre que eu ocupava estava tomado por telas e mais telas com retratos dela. Em uma delas, dei asas aos meus desejos não realizados: se, na vida real, eu não pudera tê-la em meus braços, na arte eu a teria. Pintei-a em seu clássico vestido azul royal, com lavandas ornando os seus cabelos, acrescentei a mim mesmo na pintura, com trajes de cavalheiro. Me dei cabelos loiros e bem cortados, a aparência de um deus, tão belo quanto Apolo. Eu inclinava o seu tronco, na iminência de um beijo. Ao redor, o que de mais belo existia no mundo, não o cinza e a fuligem que o número crescente de fábricas estava dando às cidades, mas sim um vasto e verdejante campo.
Enquanto eu pintava, sentia-me reconfortado, mas, ao terminar a pintura, uma ideia sombria me passou pela mente: e se Sibila fosse apenas a materialização do meu desejo por amor? Seria isso possível? Será que todas as vezes em que a vi e os arquivos que pesquisei posteriormente seriam apenas meras invenções de uma mente já conturbada pela solidão e pela carência extremas? Enlevado por esses tipos de pensamentos, destruí a tela que eu acabara de pintar e decidi vagar pela cidade, para me distrair e, quem sabe, esquecê-la nos braços de uma prostituta que se importasse mais com o dinheiro do que com a minha aparência.
Coincidência ou não, consegui encontrar uma que concordou em me atender. Mas simplesmente não consegui completar o ato, pois, ao adentrarmos a alcova, vi o rosto de Sibila ao invés do da senhora que me atendia. Persisti, e, ao nos deitarmos, a visão do rosto dela se intensificou. Ela tinha um olhar de súplica e julgamento. Soltei um grito de horror que assustou a mulher e a despertou de seus movimentos mecânicos. Me desculpei, paguei por seus serviços e corri em carreira desabalada até o meu lar.
Ao chegar em casa, revi as telas que pintara de Sibila. A tela destruída gritava em silêncio, uma condenação implacável: eu nunca poderia tê-la. Tudo fora apenas um sonho, uma ilusão minha. De repente, algo dentro de mim se partiu. Não sabia mais o que era real ou o que era fantasia, mas a certeza de que algo em mim estava sendo consumido por uma força que eu não compreendia se tornava cada vez mais clara. Eu destruíra a pintura, mas ela, de alguma forma, já estava dentro de mim, imortalizada de uma maneira que nenhum pincel ou tela poderia apagar. E foi aí que a verdadeira angústia se instalou: eu já não sabia mais se desejava encontrá-la ou se temia a ideia de que ela fosse apenas uma criação da minha mente, uma sombra de algo que jamais deveria ter existido.
Desesperado, comecei a beber, tentando entorpecer os sentidos e a mente, sem encontrar uma explicação lógica para o que eu sentia e para o que achava que havia presenciado. Foi quando, exausto da bebedeira, me deitei na cama solitária. O travesseiro parecia ter o perfume dela misturado ao de lavandas, um cheiro que eu não sabia se era real ou fruto do delírio. Fechei os olhos, e, apesar da névoa do álcool em minha mente, uma sensação de premonição me envolveu. Algo estava prestes a acontecer. Algo mágico. Algo que eu não podia controlar. Ao longe, uma voz masculina e jovem chamava o meu nome:
— Marcos! Marcos! Bem-vindo ao mundo dos sonhos.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Crisálida do Vazio
O que sou senão um mero errante, | Um grão de areia à beira de um abismo, | Um mero sussurro em um tempo vacilante, | Moldado em pranto, pó e sofismo?…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
O que sou senão um mero errante,
Um grão de areia à beira de um abismo,
Um mero sussurro em um tempo vacilante,
Moldado em pranto, pó e sofismo?
Quem criou meu ser nessa névoa escura,
Que mãos moldaram minha carne e pensamento?
Por que a razão me machuca e me tortura,
Se sou apenas cinzas jogadas ao vento?
Eu seria vestígios de um delírio,
Sonhado por um deus esquecido?
Ou seria um vulto, fantasma sem martírio,
Que ao nada volta, em tempo perdido?
Se tudo é pó, se tudo é ausência,
Por que meus olhos ardem ao olhar?
Por que persiste em nós uma consciência,
Se o fim irá nos sufocar?
Talvez sejamos somente ilusões,
Que caminham entre brasas frias,
Almas perdidas, pequenas constelações,
Brilhando, já mortas, na noite vazia.
E se formos apenas um espelho partido,
Refletindo o vazio em fragmentos?
E se a vida for o mais cruel dos mitos,
Nos condenando a frios sentimentos?
A terra nos engole sem piedade,
O tempo apaga nomes e glórias,
Mas algo em nós se recusa à verdade,
Teimando em escrever a própria história.
E assim seguimos como sombras retorcidas,
Com medo do que vem e do que virá,
Pois ser é somente buscar, curar nossas feridas,
E nunca, nunca se encontrar.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “Poesias”:
Sinais
Qual luz de fim de tarde em triste inverno | (Deixando escuro e frio o alvor de outrora), | Assim vi teus vestígios indo embora | Pra longe e aquecendo um corpo inverso…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Qual luz de fim de tarde em triste inverno
(Deixando escuro e frio o alvor de outrora),
Assim vi teus vestígios indo embora
Pra longe e aquecendo um corpo inverso…
Abrir num quarto alheio o riso interno
De quem os teus calores sente e toca…
Assim vi teus vestígios… Nessas horas
Tão claro vi, distante e manifesto
Quão forte a região com tuas marcas,
Depois de ser por ti ela tocada,
Envolve-se de ardor, lembrança e afeto…
Um rastro de presença inextinguível,
Constante como o tempo e jamais findo
Na pele de quem teve-o por perto…
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “Poesias”:
Olhos flamejantes e o último autônomo
Acordou num sobressalto. Os sonhos pareciam vívidos. Arturo não descansava…
Criatura núrida, este conto, que
estás prestes a ler, contém um
interessante enredo. Foi construído com maestria
por uma autora fascinante e, decerto, trará à sua mente
uma compreensão diferente sobre o que as engrenagens,
quando vinculadas, podem trazer à tona no equilíbrio da
existência. Boa leitura!Com sombrio apreço, a Anfitriã Sahra Melihssa
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Acordou num sobressalto. Os sonhos pareciam vívidos. Arturo não descansava há dias, flagelado por dores intensas e pensamentos perfurantes. O silêncio já não trazia alento, o trabalho não mais o distraía do medo. Agonia. Receio. Inquietude. Eram seus únicos estados de espírito.
Como homem da ciência, não ousava procurar os curandeiros; não buscava a nenhum deus, porque lhe faltava a fé que faria com que as montanhas de incômodo fossem removidas.
Nos raros momentos de um falso alívio, lembrava com tristeza de sua última e perfeita invenção: um autômato que emulava, funcionalmente, as habilidades que desejava em um assistente pessoal.
Mas ele se fora.
Os olhos flamejantes engoliram sua criação, mas recusava-se a acreditar no que presenciara. Lutava consigo, não iria permitir que pensamentos alucinatórios o envolvessem em uma lama de caos e insanidade. Viu, mas em sua racionalidade extrema afastava, furiosamente, quaisquer ideias fantásticas. Aqueles olhos tinham que ter uma explicação científica.
A sua criação perdida tinha o exoesqueleto de ferro. Os ossos-ferro foram forjados pelas mãos fortes do jovem Arturo. A “pele” era uma fina camada de bronze, cujo contornos foram delineados, delicadamente, para compor os detalhes da musculatura humana. Finalizou em 1970, com então 25 anos de idade, e naquela época ainda não havia tecnologia para emular voz humana, mas como seu auxiliar só precisava de coordenação motora aceitável, era perfeito para o que se propunha. Não tinha a coordenação fina de um adulto saudável, mas os serviços de Arturo exigiam mãos fortes, tal qual as dele e assim ele o fez.
***
Em uma noite sem estrelas, onde o vento assoprava segredos indecifráveis, Arturo lembrou-se das histórias de sua infância, contadas todas as noites por sua vó. Em uma delas, grandes olhos de fogo surgiam nos céus para julgar e condenar todos os habitantes da terra. Quais eram os critérios para condenação? Quais eram as penas? Havia muitas versões, mas a que mais perturbava o jovem era: “as piores torturas viriam para àqueles que tinham sangue de inocentes nas mãos”.
O governo para qual Arturo havia cedido sua mão de obra e, consequentemente, sua alma, nadava em um mar de sangue inocente. Ele, como criador de milhares de autônomos para combate, sabia que tinha parte dessa culpa. Sabia que as dores eram consequências das mortes que agora recaíam sobre seus ombros. Mas recusava-se aceitar que as crendices tivessem efeito no mundo real.
Mesmo afligido pelas dores e culpa começou um novo protótipo. Sempre fora obstinado e não estava disposto a mudar de comportamento. Se, o que quer que seja, tomou-lhe o assistente anterior, faria outro, ainda mais perfeito. E assim o fez. A nova criatura era infinitamente mais robusta e com habilidades motrizes melhoradas. Olhou para o novo ser de ferro e gostou do que viu. Conseguiu dormir por algumas horas ininterruptas sem ser perturbados por ruídos ou dores.
Acordou sentindo as esperanças renovadas, mas o bem-estar recém adquirido seria esmigalhado por outra perda: o novo ser também sumira.
Sabia quem o havia levado, mas novamente, tornou a banir tais pensamentos e recomeçou o ciclo de criação. Novos protótipos eram criados reiteradas vezes, mas mal conseguia terminar os testes era açoitado por novas perdas. Inúmeros autônomos foram sugados para dentro dos olhos famintos. As dores aumentavam, até que não sobrou mais pensamentos lúcidos e a sua capacidade cognitiva foi severamente afetada.
***
Aquela noite estava atípica. Ouviu barulhos agudos incômodos, como se estivesse dentro de uma siderúrgica macabra, mas não sabia distinguir o que era real do que era truque de uma mente adoentada. Quando, enfim, decidiu acabar com seu sofrimento, um brilho intenso o cegou, mas os ouvidos continuaram ávidos por qualquer onda ou gotejo sonoro. Vozes metalizadas começaram a emergir, e a potência das vozes lembravam um coral que rasgou os céus e desceu com leveza até a terra.
De alguma forma, o exército que ele havia criado retornou para buscar seu criador. O sangue dos inocentes clamava por justiça e os combatentes-máquinas foram enviados para a missão final. Em seus últimos segundos de vida Arturo escutou o veredito provindo de sua última criação. Sabia que os olhos haviam encharcado aquelas criaturas com a ordem de exterminar todos os culpados, mas ao invés de medo sentiu um alívio, pois constatou ter engendrado uma figura infinitamente perfeita.
“Eu estava certo vovó. A ciência é maior que a crendice...”.
O último autônomo não lhe deu chance de concluir o discurso e eliminou o brilhante inventor. No alto, os olhos flamejantes permaneciam indiferentes aos milhares que ainda aguardavam, sem adivinharem, seu destino. O ciclo precisava continuar e o universo seria reinventado... E as engrenagens nunca iriam cessar...
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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O que é um Anfêmero?
Ao Anfêmero pertencerá a sua vida em todas as instâncias emocionais e psíquicas. O Anfêmero é um livro e posso…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Nota da autora Sahra Melihssa: Este artigo
foi escrito há alguns tantos mêses, no entanto,
eu havia definido o nome deste livro-diário como
Memórum. Este nome, todavia, me soava como algo
póstumo e isso me incomodava. Por isso, renomeei
para Anfêmero, uma palavra esquecida que remete
ao sentido de cotidiano e, ao mesmo tempo, tem
um peso inestimável, tanto em sua pronúncia quanto
na constituição que possui (sua grafia) — lembra-nos da efemeridade da vida e nos conecta com esta genuína verdade; talvez uma força contrária à finitude, mostrando-nos que apesar do tempo imposto ao nosso ser, aquilo que redigimos nos eterniza em páginas polén.
Boa leitura, núridos queridos, imerjam-se na profundez do Anfêmero.
Ao Anfêmero pertencerá a sua vida em todas as instâncias emocionais e psíquicas. O Anfêmero é um livro e posso compará-lo ao Diário, visto que ambos são guardiões dos aspectos quotidianos da vida humana singular. Todavia, o Anfêmero, para além d’esta tarefa, possui muitas outras e, para que estas muitas outras sejam cumpridas, é requerido que seu autor tenha um vínculo com seu Anfêmero, é imprescindível que seu autor tenha uma intenção verdadeira de encontrar, através da escrita, o autoconhecimento. Boa leitura, núridos queridos, imerjam-se na profundez do Anfêmero.
Cada um deve ser autor de seu próprio Anfêmero. O autor deve se vincular profundamente e emocionalmente ao seu Anfêmero para que sinta ser substancial escrevê-lo. A intenção, a qual supracitei, nada mais é do que a verdadeira vontade de fazer algo. Por vezes temos anseios quais, por mais que sejam anseios, não são febris o suficiente para que utilizemos nosso tempo e energia em nome deles. O anseio de escrever em seu Anfêmero deve ser, para o autor, um anseio resoluto. Isso, pois, das outras muitas tarefas destinadas ao Anfêmero, está o hábito de descrever o seu dia com minuciosos detalhes, em especial a respeito de seus pensamentos, sentimentos e emoções.
Em um Diário, naturalmente escrevemos o que sentimos ou pensamos, porém, no Anfêmero, é preciso uma dedicação para que esses detalhes sejam mais aprofundados, uma vez que são eles que trarão compreensão para nós e consciência para o nosso quotidiano. Isso acontece porque, ao nos dedicarmos à lembrança de cada pensamento e emoção, além dos acontecimentos do dia, trabalharemos a memória e a atenção a cada dia com mais avidez; imersos no verdadeiro desejo pelo autoconhecimento e vinculados, sem hesitar, ao Anfêmero; quereremos investir nossa atenção nos dias corriqueiros tão somente porque queremos ter o que redigir ao anoitecer. Esse ciclo de escrever para se lembrar e investir na atenção para se lembrar mais ao escrever, é o ciclo virtuoso do Anfêmero.
A memória é a razão pela qual somos capazes de compreender novos conhecimentos; exercê-la e praticá-la não apenas leva ao autoconhecimento, mas também nos permite transformar a nossa existência com a expansão da nossa capacidade de assimilação do mundo. O Anfêmero é a ferramenta do ciclo virtuoso da memória, pois a expande naturalmente. Além disso, com o exercício da Escrita, ampliamos nossa capacidade cognitiva e desenvolvemos, assim, maior habilidade de processamento de informação, além de autocontrole nas respostas reativas do nosso comportamento. Não é atoa que sempre, desde os primórdios da humanidade, buscamos formas de escrita que, mesmo rudimentar, vinham da nossa intuição primitiva de evolução mental.
Compreende-se que, portanto, enquanto ferramenta da consciência, o Anfêmero como hábito produz:
1) Exercício e expansão da Memória;
2) Reforço da atenção diária;
3) Ampliação da capacidade cognitiva no processamento e assimilação das informações do eu-mundo;
4) Melhoria na habilidade de lógica;
5) Construção de autoconhecimento na análise facilitada por todo o movimento dinâmico da mente descrito nos quatro itens anteriores — essa construção acontece porque, necessariamente, somos colocamos como observadores dos nossos pensamentos, sentimentos, emoções e, principalmente, das situações cotidianas, isto é, do mundo que estamos inseridos; ao escrever o Anfêmero, somos colocados como narradores da nossa história e, enquanto tais, podemos definir o futuro do protagonista que somos; isso acontece gradativamente, a cada nova folha redigida no Anfêmero, a cada novo esforço intencional para manter o hábito e dedicação para se lembrar de tudo o que passara por sua mente e coração ao longo do dia. Autoconhecimento é algo a se buscar do início ao fim da vida.
O Anfêmero, enquanto ferramenta, pode não trazer benefícios se utilizado de forma errônea; portanto eu reforço, é preciso um profundo e incorruptível querer-escrever-um-Anfêmero, para que a ferramenta seja aproveitada em todo o seu potencial.
1) Queira, de verdade, escrever um Anfêmero;
2) Dedique-se ao seu Anfêmero;
3) Divirta-se lembrando do seu dia, sentimentos, pensamentos e emoções, para que a “tarefa” de escrever lhe seja agradável;
4) Trate seu Anfêmero como um amigo, ou como seu Psicólogo, queira revelar para ele tudo o que se passa em seu ser;
5) Entenda seu Anfêmero como uma criatura que só vive se for alimentada por suas palavras, logo, não a deixe falecer no esquecimento.
Se não houver disposição para estas cinco coisas, desconsidere a escrita de um Anfêmero e prefira o Diário que é, em si mesmo, um hábito de escrita mais suave e fácil. Ambos têm suas qualidades, no entanto, não esqueça que escrever um Anfêmero é dedicar-se ao método mais poderoso para o autoconhecimento e independência racional e emocional através da Escrita.
Aslam E. Ramallo é um artífice da palavra cuja poética nos conduzirá ao âmago mais profundo do existir, onde a vida pulsa em sua crueza e a…