Mar de Escuridão
As pessoas seguem suas vidas como se caminhassem sob o sol tranquilamente, enquanto eu afundo lentamente. Nadar contra a maré da escuridão é uma…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
(Augusto dos Anjos)
As pessoas seguem suas vidas como se caminhassem sob o sol tranquilamente, enquanto eu afundo lentamente. Nadar contra a maré da escuridão é uma tarefa exaustiva; cada braçada parece arrastar correntes invisíveis presas aos meus membros. Quando finalmente eu alcanço alguma praia esquecida, encontro apenas areia fria e um horizonte coberto por névoa. Ânsia.
Às vezes consigo acender uma pequena fogueira sob o olhar pálido da lua crescente. Por alguns instantes, observo o vasto oceano negro diante de mim e quase esqueço a agonia que habita minhas entranhas. Mas o alívio dura pouco. Logo, a escuridão profunda infiltra-se através da pele, dos olhos e dos meus ossos. Ela pesa sobre mim encharcada, roubando minhas palavras, dobrando minha vontade à dela e tornando cada passo adiante uma batalha contra o próprio abismo. Tontura.
A Escuridão, esta criatura densa e disforme, se personifica e senta ao meu lado, tocando o meu ombro, sussurrando vozes dissonantes carregadas dos meus piores anseios e fracassos; fantasmas que nunca sepultei. As vozes parecem ter vontade própria, elas rastejam pelos corredores da minha mente e a Escuridão se torna um abraço que envolve o desconforto, o medo e a ansiedade. Pouco a pouco, se transformam em um abraço familiar. Um abraço sufocante, porém, estranhamente acolhedor, que envolve o medo, a ansiedade e o desconforto até que se tornem indistinguíveis de mim. “O sonido agudo e áspero que se difunde ecoante e ininterrupto será a fonte da minha loucura? Agonia.”
Há dias em que observo meu reflexo e encontro apenas algo estranho sob minha pele. Seu rosto é o meu, mas seus olhos pertencem a um brilho opaco. A cada amanhecer, sinto-me mais distante das pessoas. Não por desprezá-los completamente, mas porque reconheço nelas a mesma matéria que alimenta minhas feridas. Afinal, a arte, a música, a literatura e até mesmo as cicatrizes da alma carregam as marcas da humanidade. Mesmo assim, quando você começa a se odiar, é difícil não odiar seus semelhantes. A natureza intocada e insondável é um refúgio!
Quando durmo, sinto um peso descer sobre meu peito. É a mesma Escuridão que me acompanha durante os dias, mas que à noite assume formas mais cruéis e definidas. Apagar as luzes transforma-se em um ritual de enfrentamento. Figuras arabescas e medonhas começam a se contorcer nos cantos do quarto. Elas observam em silêncio, aguardando o momento oportuno para devorar meus pensamentos e alimentar-se de minha essência. A paralisia me encontra.
Em minha mente habita um oceano profundo e agoniante, onde a Escuridão parece possuir matéria própria. Suas águas negras estendem-se até onde a razão não alcança, ocultando criaturas e lembranças que jamais deveriam emergir à superfície de meu inconsciente. Durante os devaneios que interrompem os afazeres mais comuns do dia, uma súbita petrificação me toma totalmente. Por alguns segundos, que se alongam como eternidades, minha consciência mergulha até o abismo interior repleto de olhos cadavéricos e sem pálpebras, todos a me encarar.
Então, eu as vejo:
Figuras esguias de longos cabelos negros, flutuam sob as águas escuras. Seus corpos dançam lentamente nas correntes profundas como se obedecessem a uma música fúnebre que apenas elas podem ouvir. Às vezes afundam, às vezes, retornam à superfície. Seus braços pálidos e esquálidos rompem as ondas e suas mãos estendem-se para o alto em um gesto desesperado, como se buscassem uma saída daquele reino submerso.
Não sei quem são.
Talvez sejam os restos de sonhos que abandonei. Talvez sejam versões antigas de mim, afogadas pelos anos, pelos medos e pelas renúncias. Ou talvez sejam apenas as filhas da ansiedade, eternamente condenadas a emergir e afundar nas águas escuras da minha própria alma...
A Ansiedade habita as profundezas desse oceano. Vejo apenas seus dedos longos surgindo entre as ondas para agarrar meus tornozelos. Acima das mãos fantasmagóricas que se debatem sob a superfície, ela se ergue envolta em suas próprias trevas. Alta e disforme, estende os braços em direção à lua alva que tantas vezes me salva, como se desejasse alcançá-la. Como se quisesse apagar a única luz capaz de atravessar seu reino de sombras.
Por vezes, desenhei tal devaneio em rabiscos soturnos de tinta negra sobre as páginas empoeiradas dos meus velhos cadernos, tentando compreender o que afirmavam aquelas figuras espectrais e as águas tortuosas que habitam minha mente. A sombra eterna e sublime sempre me aguarda lá dentro. No fundo do inconsciente e nas cicatrizes do coração, ela sempre retorna. Às vezes, penso que ela assombra quem sou. Outras vezes, temo que assombre quem eu poderia ter sido.
O que posso fazer com estas sombras além de adorá-las? Devo adorá-las ou fugir delas? Talvez elas sejam o próprio mar. Algo sempre me diz que não adianta tentar destruí-las quando já são profundas em minhas entranhas, quando as figuras esguias e fantasmagóricas de meu próprio eu são fragmentos do meu próprio espelho. A figura que mais temo em minha mente aponta sempre para o alto, envolta em um manto negro, suas garras quase alcançam o céu de minha mente. Como afogar espectros que nasceram das mesmas águas que me deram forma?
Temo que ela alcance o exterior do meu corpo. Não porque deseje destruir-me o que é provável, mas porque receio descobrir que jamais existiu separação entre nós. Que minha essência não venha a ser totalmente arrastada para as profundezas da escuridão, mas que retorne ao lugar de onde nunca realmente saiu.
— E se eu sempre tiver pertencido a ela?
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Memórias e Fantasmas
Ela correu rapidamente pela escuridão, buscando fugir daquele encontro desesperador. Minerva-loba parecia possuir outra mente, uma que guardava lembranças…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Ela correu rapidamente pela escuridão, buscando fugir daquele encontro desesperador. Minerva-loba parecia possuir outra mente, uma que guardava lembranças de sua forma humana. Era consciente e carregava uma essência selvagem que protegia Minerva. No entanto, naquela circunstância, ela tentava apagar suas memórias, em busca de se entender independente dos acontecimentos e dos deuses. Ainda assim, sabia que dentro de si residia algo do castelo afogado, mesmo que adormecido.
Ela não lembrava dele há muito tempo, mas naquela noite o som da água abismal insistia em ressoar novamente em seus ouvidos. Minerva lutava contra aquilo. Um cansaço estranho, aos poucos, foi tomando seu corpo, desacelerando o tropegar de suas patas e obrigando-a a observar o caminho por onde passava, que se tornava cada vez mais conhecido para ela — embora já tivesse quase perdido a noção de quanto tempo passara no castelo.
A loba avistou algo ao longe e imaginou que fossem casas em seu campo de visão. Aquela era a estranha vila pela qual passara antes de adentrar o castelo. Sentiu algo puxando-a para perto daquele lugar, enquanto sua mente parecia duelar consigo mesma. Um nevoeiro denso se formava ao redor, criando braços cintilantes que dançavam junto a seu corpo em um ritmo lento, carregando-a para dentro daquele lugar.
Percebeu que estava por entre as casas errantes. Pessoas caminhavam ali, mas ela não conseguia discernir seus rostos. A mente turva a deixava cada vez mais imersa na paisagem acinzentada. Cansada, observou o formato de suas patas na neve, e uma expressão confusa se formou em seu rosto, como se não reconhecesse aquelas pegadas.
Ela se aproximou de uma casa, observando suas janelas, eram sete ao todo. Aquela era provavelmente a maior casa do vilarejo. Rostos estranhos a analisavam sem dizer nenhuma palavra. O cansaço parecia, finalmente, tê-la tomado. Os sete rostos a encaravam e assemelhavam-se a espirais que iam se contorcendo cada vez mais. Os olhos de Minerva-loba estavam hipnotizados e enevoados, totalmente inertes.
Alguém saiu pela porta da casa e fitou-a com intriga. Minerva não reconheceu o rosto, mas a voz lhe pareceu familiar. Era uma voz autoritária. Aquela voz elogiava algo que havia sido conquistado com soberba, embora ela não compreendesse o quê. Seu corpo, despojado sob as cicutas na neve, permanecia inerte ao mundo real, enquanto sua mente vagava por Settimor.
O rei Kheas estava ali, contando vantagem de sua experiência. Ele havia conseguido realizar a transmutação unindo magia e ciência. Sua filha era única, praticamente uma arma de guerra. A loba percebia aquela voz insistente. O medo não era o sentimento que habitava seu peito, mas a raiva. Minerva almejava ser livre novamente.
Ela estava presa em uma memória, os olhos acinzentados e os pelos negros, encobertos por inúmeras cicutas, a aprisionavam no feitiço do viajante. Minerva estava refém de uma lembrança.
Presa na masmorra, sua antiga moradia, ela uivava em lamento, ouvindo as aspirações insanas do pai. Desejava fugir, mas só conseguia se debater, puxando a corrente presa a seu pescoço.
O tempo era ilusório, ela não sabia se ele estava passando ou não. Seus sentimentos eram instáveis entre o tédio, o ódio e o desespero. Ela desprezava aquele homem que a torturava e não compreendia os limites que ele queria quebrar. As paredes arranhadas e a escuridão eram desoladoras, ela ardia em febre no frenesi das dores que lhe foram impostas.
Mas algo naquela lembrança começou a falhar. A voz do pai já não ocupava todo o espaço; tornava-se distante, fragmentada, como um som que se repete sem origem. A loba percebeu, então, que não estava sendo contida por ele, mas pela própria memória.
Naquele tempo, ainda humana, Minerva compreendeu em silêncio que a masmorra não era inviolável. A corrente em seu pescoço não existia para conter sua vontade, apenas seu corpo. E isso não bastava. O uivo que escapou de sua garganta não era súplica, mas sim uma decisão. O primeiro gesto de quem escolhia viver e não sobreviver.
Como loba, ela se lembrou: a fuga começou antes do movimento, antes da ruptura da carne ou do ferro. Começou quando deixou de pedir permissão para existir.
Ela lutava por si mesma.
Minerva-loba ainda transitava entre sonho e realidade; as cicutas a cobriam como um véu branco, misturando-se à neve. Seus olhos retornaram ao azul profundo. Aos poucos, sentiu o corpo voltar à vida. Em sua frente, um ser humanoide a observava. No lugar do rosto, havia uma espiral nebulosa, repleta de escuridão.
A criatura se dissipou à sua frente, levando consigo os sete rostos nas janelas. Dentro de si, Minerva se reconectou com seu poder, tornando-se mais uma vez tão destemida quanto na primeira vez em que desbravou os caminhos tortuosos que levam ao castelo Drácula. A loba sabia o que era e que ninguém tomaria sua liberdade. Clamou por Hekate, não como súplica, mas como sinal.
Ela não temia o deus do castelo afogado.
Revisado por Sahra Melihssa
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Memórias Afogadas
Este lúgubre castelo com certeza é o lar de muitas histórias, de muitos seres e muitas memórias. São tantos segredos aqui guardados, mas o meu…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Este lúgubre castelo com certeza é o lar de muitas histórias, de muitos seres e muitas memórias. São tantos segredos aqui guardados, mas o meu, acredito que seja o mais apaixonado, envolto pelo sangue e pela culpa. Jamais esquecerei a noite mórbida e intensa em que cravei meus dentes em tua pele doce pela primeira vez, soube ali que jamais iria desejar outro alguém e, mesmo assim, parece que te perdi.
Lembro-me bem da primeira vez que te vi passar por uma fenda estranha, como se cortasse o mundo, nossos olhares se tocaram pela primeira vez. Eu te segui pela noite magenta e meu coração não suportou, apaixonando-se perdidamente por cada pedaço de ti, mesmo sem uma única palavra ser pronunciada. Eu não gostaria que tivéssemos um fim, mas como maldita criatura noturna que sou, minha natureza destrutiva precisava frustrar o amor transcendental que nos habitou.
Recosto a nuca na borda da enorme piscina, febril, como se meu corpo nu já não fosse meu, mas parte da água. As cores estonteantes oscilam entre roxo e rosa, tingindo o ar de vertigem, enquanto uma névoa branca desliza sobre o espelho líquido.
Dentro da piscina, observo as estátuas de mármore nuas ao redor. Vejo que elas não são apenas pedra. Seus olhos me seguem, suas bocas se curvam em sorrisos largos, trocando cochichos que ecoam baixos, incompreensíveis. Uma delas me encara com firmeza, parece-se contigo. Elas me veem derramar lágrimas de sangue por ti.
Ela continua a me olhar. A silhueta, os cabelos, as feições e todas as tuas características em um corpo pétreo e marmorizado ainda me encaram. Ela me lembra tanto de você! Do fundo da piscina, pétalas cintilantes sobem dançando silenciosamente. Minha respiração torna-se arrastada enquanto troco olhares com a tua estátua tão perto, tão fria e tão dura quanto nossa separação. Soluço em lágrimas.
Nos cenários de nossas mais fortes memórias de lubricidade, eu me encontro a todo momento desejando retornar no tempo. Sem ti, eu desejo que minha eternidade acabe. Estou em um transe ao flutuar, ouvindo apenas o leve som do movimento aquático. Tentando esquecer as feridas de meu coração morto e as duras memórias do teu amor e da tua paixão que deixei para trás. Estas castigantes lembranças de nosso envolvimento tomam conta de minha mente, fazendo-me lembrar de cada toque, de cada beijo e cada ato carnal que cometemos em nossos corpos tão libidinosamente. Eu desejava ser parte de ti, me unir a ti eternamente em um mesmo corpo como Salmacis e Hermafrodito.
Gostaria de me afogar nestas águas quentes na tentativa de que elas me fizessem esquecer a fúria de meu desejo insaciável por ti e cada lembrança tortuosa que acaricia minha melancólica libido na falta de ti. Eu anseio pela tua presença junto à minha, experienciar a sutileza e o torpor da tua pele, a maciez de teu rosto e o sabor danoso de teus lábios. As lembranças me consomem nestas águas:
Devaneio ao lembrar de como é sentir-te em meu íntimo: a ferocidade de teu toque por entre minhas pernas, sob a cama, fizeste-me liberar sons que antes estavam cativos em minha garganta, gritos abafados em frenesi delirante, ardentes de desejo. O calor da tua boca contra meu íntimo arrancava de mim espasmos, eu completamente incapaz de conter os gemidos que escapavam como súplicas entrecortadas. E tua língua, que me devorava, sem trégua, firme e voraz, roubando cada fragmento do meu controle, dominando-me. Eu me abria em arrepios sob tua fome, e cada investida me fazia implorar, ainda que em silêncio vacilante, por mais! O mundo se desfazia no nosso ritmo frenético e no gosto febril do prazer que nos consumia.
Nestas águas púrpuras observo os reflexos inebriantes das estátuas e permito que minhas lágrimas de sangue se misturem à tua intensidade, enquanto tento esquecer a dor. Mas… é impossível. Minha devoção é tua. Minha devoção às tuas mãos, que tocaram meu corpo com sofreguidão e torpor, conduzindo-me ao ápice dos prazeres lascivos de tua carne ardente. Recordo-me da minha respiração ofegante sobre teu rosto, de teus olhares devassos que devorariam minha alma, se eu ainda a tivesse. Aos poucos, desprendo a nuca da borda da piscina e deixo meu corpo deslizar para o fundo, como se a água me reclamasse.
O que mais eu poderia fazer? Deixei-me levar pelo medo novamente, afundando minha mente em pensamentos abruptos, frutos do meu fatídico apego evitativo. Eu te amo sem razão, sem medida, desde o instante em que nossos olhos se cruzaram sob a lua, com a constelação de Órion ao lado de Sírius e Júpiter. Amei-te profundamente até mesmo antes desses momentos, só nunca tive coragem de proferir as palavras quando ainda havia tempo.
Perder-te dói como se meu coração tivesse, enfim, apodrecido ao relento do tempo que nos separa. Amo-te tanto que nem mesmo estas águas de paixões infames conseguem me preencher. Meu corpo e minha alma, meu coração e minha mente sempre pertencerão a ti. Aqui, nestas águas, afundo-me e perco-me no fundo, como se nelas pudesse dissolver a dor insuportável por te perder.
As lembranças de nossos corpos entrelaçados, à luz trêmula da vela fúcsia, ainda dançam em minha mente e me seduzem sem trégua. Ouço tua voz em meu ouvido, clamando por meu nome, inflamando-se de prazer ao perder-se nos meus gemidos de luxúria. Ainda sinto a pressão de tuas mãos em meus pulsos, prendendo-me a ti, amarrando-me à força de um laço que transcendia o físico. Selamos um feitiço de libido, onde nos aprisionamos mutuamente, enquanto a vela ardia.
Desejo mais do que tudo sentir teu corpo contra o meu e ver teus longos cabelos soltos estirados sobre meu peito enquanto clamo pelo teu beijo devorador que me envenena de eterno prazer. Enquanto estamos distantes, eu não consigo ter olhos para outros lábios e ter uma chama sinuosa de paixão como a nossa em outros corpos depravados.
Desejo tanto que a água finde meu sofrer, esqueci-me do tempo observando o fundo da piscina e a vaga luz violeta que cintila aqui embaixo. O transe se desfez quando algo me puxou de volta: abrupto, revoltoso. Lutei em vão contra aquela força que me arrancava do silêncio líquido.
Quando retornei a mim, encontrei-te à beira da piscina. Não era exatamente você, mas uma figura de mármore, tão semelhante, tão cruel na lembrança. Mãos frias afastaram meus cabelos para trás de minhas orelhas, como tantas vezes fizeste. Lábios pétreos roçaram os meus, duros a princípio, mas logo se desfazendo em um calor febril. Os braços de pedra enlaçaram-se ao redor de minha cintura, colando o corpo marmorizado, ao meu, deixando-me sem ação. Um delírio tomou conta de mim quando as mãos frias desceram, aproximando-se do meu íntimo, e o beijo danoso, inescapável. Nenhum outro corpo poderia ocupar teu lugar, mas no mármore finalmente me afoguei por ti.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Amor Etéreo
Dentro de mim reside uma chama acesa, | Habita a obscuridade de meu coração, terreno arenoso. | Ela perpassa meus pensamentos e apazigua meus sofrimentos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Dentro de mim reside uma chama acesa,
Habita a obscuridade de meu coração, terreno arenoso.
Ela perpassa meus pensamentos e apazigua meus sofrimentos,
Desnuda meu peito inflamado, melancólico.
Etérea, me consome.
Ela crepita com cálida ternura,
Aproximando-me de seu ardor inebriante!
Guarda em mim seu doce incenso,
O aroma aveludado dos vinhos:
Amor marcado em mim eternamente.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
A Melodia da Noite
Em um cemitério antigo, esquecido pelo tempo e pela memória humana, repousava uma presença mórbida, imóvel e serena. As lápides, gastas pelo vento e pela chuva…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Em um cemitério antigo, esquecido pelo tempo e pela memória humana, repousava uma presença mórbida, imóvel e serena. As lápides, gastas pelo vento e pela chuva, desenhavam sombras longas que se confundiam com a escuridão da noite. Ao redor, o ar carregava o cheiro úmido da terra e o sussurrar de folhas secas, como se cada detalhe conspirasse para manter a paz que reinava há séculos. Ninguém poderia imaginar que, sob a terra fria, uma figura masculina descansava na sombra. Muitas almas haviam cruzado o lugar, histórias nasceram e morreram entre túmulos de mármore e pedra, mas nada, nem o tempo nem os viventes, fora capaz de perturbá-lo. Até que, numa noite como qualquer outra, algo rompeu a eternidade do silêncio.
Não era a fome que o despertava, mas uma voz. Uma melodia feminina, doce e cortante, atravessando a terra e o tempo, penetrando a escuridão de seu sono com insistência. Palavras estranhas e ao mesmo tempo familiares ressoavam, acompanhadas por sons metálicos, arranhados, que seu ouvido antigo não conhecia. A combinação era quase dolorosa em sua intensidade. E, ainda assim, havia algo nela que o chamava. Algo que o forçou a abrir os olhos em meio à escuridão de sua tumba, arrancando-o do repouso dos condenados.
Garras longas arrombaram a tampa da tumba, liberando a poeira antiga no ar frio. Da escuridão da câmara subterrânea, a figura do vampiro emergiu. Alto, esbelto, a pele pálida refletindo a luz da lua. Os cabelos loiros, levemente desalinhados, caíam sobre a testa, revelando um rosto aristocrático, de traços delicados e olhos azuis profundos que carregavam séculos de segredos. A capa negra arrastava-se pelo chão, levantando pequenos tufos de poeira, enquanto o resto das roupas — outrora elegantes — denunciava o desgaste do tempo.
Ainda atordoado pelo despertar, ele caminhou entre os túmulos, sentindo o frio da noite penetrar seus ossos imortais, absorvendo cada som, cada cheiro, cada sombra. O chamado daquela voz continuava a guiá-lo, mais insistente a cada passo, conduzindo-o até fora do cemitério. A praça diante dele surgia banhada por lâmpadas mortiças e pelo brilho distante da lua, que parecia conspirar para destacar cada detalhe do mundo desperto ao redor.
Ali, sob a luz difusa, estava ela. Uma mulher que, à primeira vista, parecia pertencer à própria noite. Seu cabelo negro caía sobre os ombros como uma cortina de seda, contrastando com a pele pálida, quase etérea. Os olhos escuros, profundos, carregavam uma melancolia pensativa, reflexiva, uma inteligência silenciosa que se percebia em cada gesto, cada pausa, cada respiração.
Em sua cintura se emoldurava um espartilho sob o longo vestido negro, emanando sensualidade e adornado com rendas, revelando simultaneamente força e delicadeza. A guitarra em suas mãos parecia uma extensão de sua própria alma e corpo; os dedos deslizavam pelas cordas com uma ferocidade natural, extraindo sons que misturavam violência e doçura. Cada nota parecia narrar suas memórias, suas reflexões e sua solidão ao cantar.
Para ela, o mundo desperto e mecânico nunca a fascinara. As luzes artificiais, o barulho das cidades, as obrigações humanas, tudo isso a cansava em demasia. Por isso escolhera a música, por isso tocava à noite, quando a atmosfera da madrugada e o vento frio a tornavam mais viva, mais intensa. E naquela melodia carregada de emoções, havia algo que o vampiro jamais experimentara: uma afinidade silenciosa com sua própria essência eterna.
Ele se escondeu entre as sombras, hipnotizado. Cada acorde atravessava seu ser como uma lâmina, cada pausa da música o fazia flutuar entre o desejo e a curiosidade. Não era apenas o som que o atraía, mas a essência que dela emanava — a melancolia, a capacidade de se destacar do mundo comum, a forma como abraçava a noite como se fosse uma aliada em sua voz.
Quando a última nota cessou e ela parou de cantar, com cuidado ela começou a guardar o instrumento e desmontar seu equipamento. Desmontou o suporte do microfone e o guardou, acomodou a guitarra na bolsa e recolheu os cabos do amplificador enquanto observava ao redor e percebeu a presença dele ao longe. Ele, entre as sombras, deu alguns passos adiante, o magnetismo da presença irradiando em ondas quase tangíveis. A pele branca refletia a luz da lua, os cabelos loiros captavam cada nuance do brilho noturno, e os olhos azuis profundos a analisavam, ironicamente fascinado e envolto em mistério.
— Boa noite — disse ele, a voz grave, carregada de um magnetismo que parecia esticar o ar ao redor.
Ela inclinou a cabeça, apenas curiosa.
— Você estava me ouvindo? Parece diferente das pessoas daqui!
— Diferente? — Ele indagou, com certo sarcasmo, quase em um sussurro. — Sua música me chamou a atenção, seu instrumento que é diferente e sua voz é bela. Quando você toca parece atravessar a noite e os séculos, como se já conhecesse inúmeros segredos.
Ela sorriu levemente, intrigada, tentando entender o fascínio dele, se era por ela ou pela guitarra. Até que indagou:
— E qual seria o nome do meu admirador? — Ele logo respondeu:
— Sou conhecido de muitas formas, mas gostaria que me chamasse de Amdis. E qual é seu nome, minha cara?
Ela colocou a guitarra nas costas, seguida por um trejeito de quem já tinha certa prática, e voltou a atenção para ele ao responder:
— Me chamo Margot, combinando com o amargor da vida.
Os dois iniciaram uma conversa leve, entre risos e olhares cúmplices. Sentaram-se em um dos bancos da praça, ao lado de um esqueleto falso posicionado de forma curiosa: pernas cruzadas, um chapéu na cabeça e um cigarro preso entre os dedos como se estivesse fumando. A estranha figura chamou a atenção de Amdis, o vampiro que brincava de ser humano. Intrigado, ele perguntou o motivo de aquilo estar ali.
Ela explicou que era outubro, mês do Halloween, e que alguns pontos da cidade estavam decorados com enfeites semelhantes. Ela achou estranho ele perguntar, já que estava vestido de uma forma tão não convencional, com roupas tão maltrapilhas, quase como um zumbi. Amdis achou graça e, em um gesto teatral, fingiu fumar o cigarro do esqueleto, arrancando dela uma gargalhada. Ele conseguiu driblar a desconfiança dela dizendo que ele não lembrava de enfeites como aquele nos lugares, mas já estava experimentando seus trajes para a noite da festa.
Entre a conversa, pequenos flertes surgiam inevitáveis, mesmo quando ela tentava disfarçar. Um olhar mais demorado, um sorriso cúmplice e a forma como ele inclinava o corpo na direção dela em alguns momentos. Ele percebia o rubor contido no rosto de Margot, e se divertia em provocar. No fundo, era algo natural, como se aquela atração simplesmente os unisse sem que pudessem evitar.
— Eu gostaria de acompanhá-la, se me permitir passar um tempo com você — murmurou ele, como se desejasse pronunciar aquelas palavras desde seu despertar. — Há um lugar onde o tempo não ousa tocar, onde posso mostrar-lhe o que é realmente a noite. Se quiser...
— Então, “viajante da escuridão”, não sei se devo aceitar — ela provocou, de maneira sutil. Hesitante, não pela estranha imagem dele, mas pelos perigos que a noite realmente reserva para as mulheres.
Ela hesitou apenas por um instante, contemplando a aura sedutora dele, a luz dos postes refletida na pele pálida, e o ar de mistério que o envolvia. Então, ela assentiu, mesmo hesitante. Ele se ofereceu para carregar o instrumento guardado, mas ela recusou e ofereceu a caixa do amplificador para que ele carregasse, assim ele fez. Juntos, eles caminharam um pouco sem rumo.
Por onde passavam estava silencioso, exceto pelo farfalhar de algumas folhas secas sob os passos deles na calçada e o sussurro do vento frio que se infiltrava entre as árvores da praça. Cada passo parecia prolongar o tempo, e a noite ao redor tornava-se mais densa, mais intensa, envolvendo-os em seu manto. Ele caminhava ao lado dela, mas não de forma invasiva, cada movimento era calculado.
Em um momento ela olhou de soslaio, curiosa, e encontrou aqueles olhos azuis que pareciam mergulhados em sua alma. Eles caminharam para longe da praça, seguindo por ruas silenciosas; ela imaginava que iriam até um bar perto dali.
— O que acha de nosso passeio e porque resolveu vir comigo? — perguntou ela, curiosa. — Não acho que há nada em mim que mereça sua atenção além do que eu estava tocando.
Ele liberou um sorriso cínico, um gesto irônico e humano ao responder:
— Não é apenas sua música que me chama a atenção. É você. Sua forma de existir. Como você parece pertencer à noite. Acredito que seja algo raro encontrar alguém que viva assim, que respire o noturno como se fosse ar enquanto canta.
Ela suspirou, quase sem perceber, sentindo o frio da noite misturar-se àquela estranha sensação que percorrera seu corpo ao ouvi-lo pronunciar aquelas palavras. Ela finalmente percebeu um sotaque que não era comum na voz dele.
— Sua voz é estranha, mas sobre o que você falou, eu meio que sempre me senti… deslocada entre as pessoas vivas. O mundo desperto, com sua pressa e barulho, me deixa ansiosa. Talvez, seja por isso que a música se tornou o meu refúgio particular — ela disse, olhando para o céu noturno, a lua estava refletindo um brilho azul em seus cabelos negros. — Aqui, à noite, sinto-me mais viva e tranquila por algum motivo!
Ele permaneceu em silêncio por um instante, absorvendo cada palavra que ela dizia, cada nuance e cada pequena hesitação. Então ele disse, diminuindo o volume na voz:
— Você é diferente, sim. Diferente de tudo que já conheci. A melancolia que carrega não é tristeza; é consciência. Sinto que você possui uma sabedoria que a maioria despreza. Por isso, fascina-me.
Ao ouvi-lo falar, ela se sentiu estranhamente reconhecida, como se ele tivesse lido cada camada que escondia atrás do sorriso e do olhar distante que adornava a face por trás do que cantava.
— E você? — ela perguntou, sem conseguir evitar demonstrar interesse. — O que carrega dentro de si que permite que veja tanto em uma pessoa desconhecida?
Ele sorriu novamente, com aquele ar de ironia e mistério que a deixava inquieta.
— Segredos. Séculos de segredos. Observação. Experiência. Um toque de ironia. E, às vezes, fascínio genuíno pelo que é raro e belo — disse, a voz melodicamente se misturando ao sussurro breve do vento.
Ela sorriu e desviou o olhar quando o silêncio caiu sobre eles, confortável, mas carregado de uma tensão entre eles quase palpável, uma troca de olhares sedutores. A cada passo, uma estranha conexão entre os dois parecia nascer, mesmo sem palavras. A noite parecia dobrar-se ao redor deles, os sons da cidade desaparecendo, substituídos pelo bater do coração dela e pelo ritmo antigo e constante da eternidade dele.
Ela parou por um instante, sentindo a presença dele tão próxima que podia perceber a sutil respiração, mesmo que ele não precisasse respirar. O calor que emanava daquela proximidade despertava nela uma inquietação doce, um desejo não dito.
— Este lugar que estamos indo… — disse ela, inclinando-se na direção dele com um leve deslize na voz, curiosa. — É seguro para mim lá, não é?
Ele inclinou a cabeça, aproximando-se a ponto de seus lábios quase tocarem o ouvido dela, os olhos azuis ardendo sob a luz da lua. Ela estava hipnotizada por ele.
— Seguro… — murmurou, deixando a palavra pairar entre eles, como se tivesse um sabor secreto. — Acredito que isso vai depender do que você entende por segurança. Mas lá, você sentirá a noite como nunca antes. Longe dos vivos, do tempo, do mundo mecânico que insiste em nos moldar. Apenas nós dois e a noite. Você vai gostar da minha companhia!
Ela respirou fundo, sentindo o frio da madrugada penetrar em seus ossos, mas também um calor estranho e intenso que emanava dele. Ela queria abraçá-lo. A melancolia dela encontrou ecos na profundidade da presença dele. Era como se ambos tivessem se reconhecido na “vida” que compartilhavam de maneiras distintas.
— Então, vamos — disse, decidida, mesmo com o coração acelerado. — Mostre-me a sua noite!
Ele assentiu, quase imperceptivelmente, e estendeu a mão. Ela hesitou por uma fração de segundo, mas a tomou, sentindo um arrepio percorrer seu corpo ao toque da pele pálida e fria dele. Cada passo dali em diante parecia mais intenso, cada sombra mais escura, o silêncio mais carregado de significado. O mundo desaparecia atrás deles, e apenas a escuridão testemunhava a aproximação do que viria.
Finalmente, chegaram a um local ermo, uma encruzilhada, afastada do mundo desperto da cidade, onde o vento soprava com mais intensidade, trazendo consigo o cheiro da terra molhada e das folhas em decomposição. As árvores se inclinavam como testemunhas silenciosas, e a lua cheia banhava o espaço com uma luz prateada, quase líquida. Ali, o tempo parecia dobrar-se; os sons da cidade não mais existiam, apenas o ritmo constante da noite e o silêncio profundo que abraçava cada passo deles.
Ele parou, olhando para ela com os olhos que pareciam abismos. Sua pele branca refletia a luz da lua, tornando-o quase etéreo. A capa empoeirada se espalhava ao redor de seus pés, e o vento agitava os cabelos longos e loiros de forma quase teatral. Eles se aproximaram num ímpeto inevitável assim que ele colocou o amplificador no chão. Quando os corpos se encontraram, ele roçou os lábios frios contra os dela. Ela deixou escapar um suspiro entrecortado de sofreguidão, cedendo ao toque com a urgência de quem desejava muito mais que apenas um beijo.
— Aqui… — disse ele, a voz grave e envolvente — é onde a noite pode tocar você de verdade. Sem distrações, sem medo, apenas nós e o que ela nos oferece.
Ela sentiu o coração acelerar, mas não de medo. Era uma mistura de expectativa e fascínio, como se cada fibra de seu corpo soubesse que algo mudaria para sempre, ela o desejava.
— Eu confio em você — murmurou, a melancolia ainda presente, mas suavizada pela curiosidade e pelo desejo. — Mostre-me, então, a noite que você conhece!
Ele se aproximou, o magnetismo da presença dele tornando-se quase insuportável, e estudou seu rosto com atenção, os olhos dela brilhavam. Cada traço, cada olhar, cada hesitação revelava uma alma rara, e isso o fascinava profundamente, quase de forma perturbadora.
Os olhares se encontraram de novo, e o ar pareceu suspender-se entre eles. Ele a puxou contra o peito, a capa envolvendo-os como um véu de sombras. O beijo veio urgente e faminto. As mãos dele apertavam a cintura dela, suas costas, puxando-a com uma força que a fazia tremer; as mãos dela se perderam nos cabelos loiros, apertando-os enquanto a boca dele a quase devorava.
Ela arfava entre um beijo e outro, sentindo o corpo arder em um misto de desejo e vertigem. O mundo desaparecia, só havia o frio do corpo dele e a chama que aquilo acendia nela. Então, os lábios dele deslizaram pela curva de seu rosto, até a pele exposta do pescoço. O roçar dos lábios frios a fez estremecer, e por um instante ela percebeu o perigo, mas não recuou. Então, num gesto rápido, mas quase poético, ele tocou-lhe o pescoço com os dedos frios.
— É necessário — disse, sua voz baixa e reverberante — que você aceite o dom, se quiser compreender a noite em sua plenitude.
Ela fechou os olhos, sentindo a tensão subir pelo corpo. Por um instante, hesitou, mas o magnetismo dele, a aura eterna e a paixão a tomaram. Quando ele mordeu suavemente a carne, o frio se misturou a uma estranha euforia, e ela sentiu a energia da eternidade percorrer suas veias. A dor era fugaz, substituída por um êxtase sombrio e fascinante, como se a própria essência da noite estivesse se infiltrando nela.
Tudo se dissolveu. Restava apenas a escuridão que pulsava com intensidade, e o vampiro, cuja presença agora se tornava parte de sua própria consciência. A paixão que ela sentia parecia mais aguçada.
Quando o êxtase passou, ela abriu os olhos e percebeu que tudo havia mudado. Amdis estava sentado com ela em seu colo no chão da encruzilhada, afagando os cabelos negros dela com carinho. A guitarra estava a alguns metros de distância deles, como se tivesse sido largada de qualquer jeito perto do amplificador.
Ele sorriu para ela enquanto ela abria os olhos para o mundo noturno, seus olhos pareciam outros, ela enxergava formas perambulando ao redor deles, formas que ela não sabia explicar.
A pele parecia mais clara que antes, os sentidos mais aguçados, cada sombra, cada sussurro do vento, cada farfalhar distante de asas noturnas carregavam uma vida própria. Amdis endireitou a coluna, afastando-se um pouco, apenas o suficiente para contemplá-la melhor. Seus olhos azuis refletiam uma mistura de orgulho cínico e paixão ardente.
— Bem-vinda à noite, vampira Margot! — disse ele, com um sorriso enviesado. — Ao tempo que não termina, à eternidade que não cessa.
Ela olhou para ele, absorvendo a transformação, sentindo-se ao mesmo tempo viva e imortal, uma nova entidade, ligada para sempre à escuridão, à música e à melancolia que agora compartilhava com ele, quem a trouxe para este destino e tinha roubado seu coração.
E naquele silêncio, onde apenas o vento e a lua testemunhavam, dois seres da noite permaneceram lado a lado, eternamente ligados pelo mistério, pelo fascínio e pelo desejo.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
A Ópera dos Vampiros
As expectativas do público funesto eram altas. Os presentes, aos poucos, preenchiam os assentos do teatro, que se encontrava sob a penumbra diante…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
As expectativas do público funesto eram altas. Os presentes, aos poucos, preenchiam os assentos do teatro, que se encontrava sob a penumbra diante do largo palco de madeira rangente. Quando todos estavam bem acomodados e o silêncio reinava, as cortinas vermelhas se abriram sob o tremelicar dos trilhos empoeirados.
O vulto de Melinda foi iluminado pelas luzes manuseadas por Syrrha, uma estranha jovem que guardava consigo uma lamparina e o dever de iluminar o palco. Melinda, que interpretava Christine Daaé, atenta a seu papel, ouviu os espirros do público, contagiados pela poeira. Ela andou vagarosamente até o centro, atraindo a atenção. Aquela plateia tinha olhos mórbidos, como bonecos de cera; pareciam imersos em um encanto sorrateiro que os prendia naqueles bancos.
Uma orquestra peculiar se destacava ao redor do palco; os músicos pareciam petrificados e presos aos seus próprios instrumentos pesados. O maestro produzia movimentos rápidos e rígidos, mas as roupas deles pareciam antigas e puídas pelo tempo. As faces mostravam-se sulcadas e fragilizadas pelo torpor de um sofrimento incomum, como se eles já não pertencessem ao mundo dos vivos, hipnotizados. Cada instrumento — os violinos, cujas cordas rangiam como unhas arranhando algo; oboés, que exalavam um chiado fúnebre; trompas de metal oxidadas — exibiam um véu espesso de pó, como se cada nota fosse expelida de um porão esquecido. Mas nada daquilo impressionava Melinda.
Ao som da orquestra sepulcral, ela entrou vestida com um longo traje de veludo escarlate, que ondulava como sangue sob as luzes do palco. Melinda era magneticamente bela. Seus cabelos ruivos, de um tom acobreado, eram uma cascata de cachos que desciam até a cintura, emoldurando um rosto pálido e aristocrático. Os olhos cor de mel, intensos e levemente entorpecidos, contrastavam com o ambiente imerso na penumbra. Era impossível fitá-la sem sentir-se atraído ou atraída.
Ao atravessar a coxia, ela desfilava em beleza pelo palco de madeira, enquanto sua voz reverberava doce e cálida, ecoando alta pela plateia absorta. Syrrha corria pelo fundo do palco para apontar a iluminação corretamente, contando com a ajuda de pessoas que ela via apenas como vultos na mudança de cenário.
Melinda atuava no teatro particular do Castelo Drácula, e aquela peça era nada menos que “O Fantasma da Ópera”. A ópera preenchia cada canto do teatro em um feitiço sonoro e, a cada nota, um desejo crescente pulsava nas veias dela. Ao fim de cada apresentação, sentia-se sedenta, pois seu canto exigia sacrifício.
Enquanto a vampira guiava os atos em atuação, aqueles vultos que Syrrha via estavam sob seu comando e, pelo comando dela, com apenas um único olhar, eles fizeram descer, por cordas, imagens de candelabros por trás de Melinda, imersa no papel de Christine e do Fantasma. A poeira suspensa dançava em redemoinhos no ar; iluminada pelos feixes de luz difusos, ela parecia tremelicar.
O Fantasma da Ópera entrou em cena, vindo das sombras de uma das coxias; ele deslizou sob o palco. A máscara branca ocultava parte de seu rosto mortiço, mas não podia esconder o sorriso traiçoeiro que se insinuava em seus lábios. Envolto em uma capa negra, ele avançava elegante; cada palavra entoada reverberava à luz vacilante dos candelabros. Era possível distinguir o brilho afiado de seus caninos sempre que sua voz cortava o ar, sugerindo sua realidade por trás do personagem.
A melodia era bela, entoada pela voz una do dueto e pela orquestra, incitando arrepios em Melinda. Enquanto a voz una do dueto se fundia às notas sombrias da orquestra, eles cantavam e encenavam como se estivessem possuídos.
“Those who have seen your face, draw back in fear...”
Melinda caminhava lentamente pelo palco, os braços erguidos em gestos fantasmagóricos, mas seus olhos permaneciam vigilantes. O Fantasma surgia por trás dela, como uma sombra a sugá-la para si; o rosto parcialmente coberto pela máscara branca, a capa ondulante como fumaça ao vento.
“I am the mask you wear...”
“It’s me they hear...”
A orquestra morta, mas vibrante, acompanhava ritmicamente o dueto. Enquanto a jovem dos olhos de mel ali cantava, podia sentir a respiração do Fantasma se aproximando pela sua nuca. Ele a abraçava, entrelaçando-se a ela com uma tensão entre ambos quase palpável, como se o palco fosse real. A voz dele roçava sua pele como um toque gélido.
“Your spirit and my voice in one combined...”
“The Phantom of the Opera is there...”
“Inside your mind...”
Quando o último verso desta parte foi entoado, ele ergueu os braços atrás dela, como se fosse uma entidade que a possuía por inteiro. Os rostos estavam muito próximos um do outro. Neste momento, Melinda o viu olhar por cima de seu ombro; ela sempre esquecia que o nome verdadeiro de seu par não era Erik. Ele olhava para a escuridão além da coxia.
Algo no Fantasma estava levemente estranho naquela noite; ele parecia mais sedento que o normal, mais insano e libidinoso que o usual. Lançou um olhar inquietante para o lugar onde Syrrha se escondia, enquanto cuidava da iluminação, e Melinda sabia o que aquele olhar sádico poderia significar — ele queria sangue. Mas aquela garota não era permitida para eles.
O espetáculo sombrio foi interrompido pelo Fantasma vampiresco, e as cortinas começaram a descer lentamente. A plateia permaneceu imóvel, com olhos vidrados, sorrisos petrificados, mãos imóveis segurando binóculos dourados. Melinda estava confusa.
O Fantasma, movido pelo impulso, deslizou para fora da atuação. Seus olhos escarlates, inflamados pelo desejo de sangue, fixaram-se em Syrrha, a jovem que, nos bastidores, sentiu o perigo. Em um ímpeto febril e faminto, ele avançou sobre ela, mas não conseguiu alcançá-la. Melinda tentou contê-lo, mas não conseguiu e foi arremessada para longe.
Syrrha recuou às pressas entre as cordas; seus dedos trêmulos seguravam a lamparina de óleo que carregava. No desespero da fuga, ela tropeçou. O vidro se partiu com um estalo seco contra o chão de madeira, o que fez com que as chamas, aos poucos, consumissem parte do palco. Um brilho soturno estava nos olhos dela, e uma energia enigmática e ameaçadora, emanada por ela, fez com que o vampiro se afastasse.
Melinda voltou a se aproximar e o segurou pela mão, pedindo para que parasse com aquilo, pois aquela garota não era para eles. O rosto da criança endureceu, como se o tédio e a raiva a possuíssem; uma risada sarcástica ecoou de sua boca. Ela parecia triste e, ao mesmo tempo, impetuosa. Por trás dela, vultos observavam, encobertos por véus negros muito finos. Então, ela revelou aos dois vampiros:
— A dor de vocês foi mais suportável quando vivida como ficção. Eu quis preservar e proteger isso, mas a verdade é a verdade, mesmo que façamos da dor um papel e da morte uma peça.
Um estalo sutil percorreu o ar, e a plateia, antes enfeitiçada, piscou como quem desperta de um longo sonho no umbral. Os vultos de Syrrha atravessaram as pessoas em silêncio... e desapareceram. Os binóculos tombaram das mãos. Murmúrios roucos, de quem desperta, escaparam das gargantas de cada um. Os atores, músicos, espectadores... todos, desnorteados. Aquilo não era apenas um teatro; era uma prisão. E os que ali atuavam não eram meros vampiros, mas sombras aprisionadas num ciclo de encenação eterna, condenadas a repetir papéis que não escolheram.
Aquele foi o fim, o último ato. Estavam libertos, mas quem eram eles de verdade? A plateia se ergueu lentamente. Alguns caíram de joelhos. Outros choraram. A orquestra virou pó. E Syrrha, a guardiã do encanto, tornou-se sua libertadora forçosamente. Melinda observava em silêncio, com uma lágrima de sangue imóvel à beira do olho esquerdo.
Quem era, afinal, seu companheiro de palco? Ela já não se lembrava. E ele desaparecera, deixando para trás apenas a máscara do Fantasma da Ópera, chamuscada pela chama da lamparina. Restaram apenas Melinda e Syrrha, sob o palco, no teatro abandonado por todos, em um silêncio ensurdecedor que queimava os ouvidos como uma tocha pode queimar o véu da ilusão.
Revisão de Tiago Serigy
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
O Arvoredo
O arvoredo de carvalhos era rodeado por árvores altas e robustas que se aglomeravam em formato circular, um pequeno riacho se estendia…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O arvoredo de carvalhos era rodeado por árvores altas e robustas que se aglomeravam em formato circular, um pequeno riacho se estendia, brilhante; quando a brisa vespertina tocava as águas cristalinas se assemelhava à prata. Pedras e galhos se espalhavam pela grama verde e caliginosa. Sob o lado esquerdo do riacho, um grande carvalho antigo exibia seus galhos robustos e vibrantes ao vento, sua casca era envelhecida, mostrando sua imponência em comparação aos outros.
Ali, era o santuário das jovens dríades amantes da natureza. Beladona, em especial, costumava visitar o carvalho antigo e sentar-se por longos períodos para observar o pôr do sol e o fim da tarde. Um dia, ao fim de uma tarde gélida, ela se recostou com languidez sobre o carvalho, com delicadeza, tocou a grama entre as raízes, enquanto observava a esfera solar descendo no horizonte. Seus olhos cor de mel estavam fixos no céu enquanto as folhas presas em seus cabelos dançavam junto aos fios de cobre cacheados.
Ela suspirou pesadamente, pensando se encontraria novamente aquela que seu coração tanto almejava encontrar. Quando estava perdida em seus pensamentos, uma doce e ébria voz alcançou seus ouvidos. Era ela — a dríade de cabelos brancos e olhos dourados como a esfera solar. As duas se entreolharam e um sorriso íntimo surgiu no rosto de Beladona. A outra estava de pé, aproximando-se dela, demonstrando uma expressão ávida e contente, mesmo com o olhar melancólico e usual que ela tinha, era como uma deusa da floresta em seu caminhar tranquilo, banhada pela luz amarela do entardecer.
Beladona convidou-a para se sentar ao seu lado, o que ela aceitou alegremente, mexendo nos cabelos brancos, bem perto do ouvido dela a jovem disse, sussurrando, que sentira saudade. Beladona respondeu sorrindo, dizendo que também tinha sentido falta dela e pronunciou seu nome baixinho: Astrid. O sol finalmente se pôs, deixando o ambiente acinzentado para trás, com um último lampejo avermelhado entre as nuvens. Diante da leve escuridão que se instaurou no arvoredo, aos poucos as duas se entrelaçaram. Beladona acariciou os cabelos brancos da outra com os dedos, elas se aproximaram ainda mais, selando um beijo apaixonado. A dríade de pele escura e cabelos brancos avançou aos poucos, os beijos cada vez mais intensos e apaixonados.
A respiração de Beladona estava acelerada sentindo o toque dela quando suas mãos desceram aos poucos pelo seu corpo, tocando carinhosamente seus seios e descendo cada vez mais as carícias, vagarosamente mudou de posição aproximando a boca do pescoço dela permitindo que a língua roçasse em sua pele causando-lhe um arrepio vibrante.
Com os lábios trêmulos e as pernas entrelaçadas entre as raízes sagradas, Beladona sentiu a boca da amante descer por seu colo com devoção. Havia entrega, mas também reverência. A língua dela desenhava trilhas lentas e úmidas sobre a pele, descendo lentamente até o ventre — naquele ponto já desnudo — de Beladona, e a brisa noturna entrava no corpo das duas, causando uma breve sensação de frio ao toque que se desmanchava a cada movimento ardente entre elas.
Recostada ao tronco, Beladona envolveu o pescoço de Astrid com os braços, entrelaçando as pernas ao redor de sua cintura com leveza. Seus corpos se uniram como se florescessem juntas acima de uma flor de lótus. Astrid, com a lentidão de um rito antigo, ergueu o fino vestido de Beladona — cor de folhas secas ao fim do outono, deslizando o tecido por sua coxa exposta. Ao toque, Beladona arfou, um suspiro úmido escapando por entre os lábios entreabertos. As duas se beijaram com doçura faminta, línguas se tocando como se reconhecessem o caminho de cada íntimo desejo.
Os dedos quentes e reverentes de Astrid adentraram os véus de tecido, ultrapassando o limite entre o desejo contido e a entrega. Por dentro dos vestidos, os toques se tornaram mais intensos, mais profundos, e os gemidos, entrecortados e sôfregos, ecoaram entre os galhos. Era amor, era fome, era devoção. Na fusão de suas respirações, os dedos de ambas encontraram o âmago uma da outra. Ali, sob a sombra das árvores e o brilho distante da lua cheia que nascia no céu, o desejo tomou forma e o tempo se dissolveu.
Tomada pelo êxtase, Beladona segurou o corpo de Astrid com ternura firme, erguendo os braços dela com um sorriso cínico. Removeu-lhe o vestido com reverência e, em seguida, despiu-se por completo, libertando a pele de suas amarras de tecido.
Despida, deitou Astrid suavemente sobre a grama fria, sentindo o contraste entre o frescor do chão e o ardor que irradiava de seus corpos. Ajoelhada entre as pernas de Astrid, Beladona inclinou-se com desejo, sua boca descendo com lentidão até encontrar o centro úmido de prazer da amante. Com os joelhos de Astrid apoiados em seus ombros, ela iniciou um movimento delicado e rítmico com a língua, traçando círculos, sentindo em sua boca um sabor semelhante ao que o vinho seco deixa na boca após descer pela garganta.
Os gemidos de Astrid ecoaram entre as copas altas, entrecortados, sôfregos e encantados. Beladona se deliciava com o som e o sabor — era como provar o orvalho que nasce nas folhas ao sereno. Cada reação da outra fazia seu próprio corpo tremer, e o prazer que brotava entre elas parecia impactar também o solo, as árvores e a noite.
Quando os corpos enfim cessaram seus movimentos febris, restaram apenas os sussurros, abafados pela brisa e o som do riacho correndo ao lado. As duas permaneceram despidas, unidas ainda pelo calor, pele com pele, desfrutando da companhia carinhosa e amorosa uma da outra.
Beladona repousou a cabeça sobre o peito de Astrid, ouvindo o coração da amada pulsar em ritmo lento. Os dedos de Astrid se enredavam nos cachos ruivos de Beladona ainda úmidos de suor, enquanto suas bocas não diziam mais nada, não havia mais palavras, apenas silêncio e pertencimento.
Acima delas, o céu se abria em tons profundos, salpicado de estrelas. A lua cheia, já alta, lançava um reflexo pálido e prateado sobre as águas do riacho. As duas dríades contemplaram a cena em quietude, como se o mundo houvesse parado por um instante apenas para que existisse aquele amor. E ali, sob a proteção dos carvalhos e da noite, seus corpos entrelaçados repousaram até o amanhecer.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Nyarlathotep
Nyarlathotep… o caos rastejante… Eu sou o último. Eu direi ao vazio que me atende. Não me lembro ao certo quando tudo começou, mas foi há meses…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Tradução e adaptação por Júlia Trevas
Nyarlathotep… o caos rastejante… Eu sou o último. Eu direi ao vazio que me atende.
Não me lembro ao certo quando tudo começou, mas foi há meses. A tensão, antes política e social, adensou-se com um pressentimento inquietante de um perigo físico hediondo e iminente — um flagelo tão vasto que só podia existir em nossos pesadelos mais sombrios. As pessoas transitavam com seus rostos pálidos e os olhares cautelosos, mexidas por advertências sussurradas, lidas como profecias que ninguém ousava repetir ou reconhecer abertamente. Um sentimento de culpa monstruosa pairava sobre a terra e, dos abismos entre as estrelas, varreram correntes gélidas que faziam os homens estremecerem em seus refúgios escuros e solitários. Ali, existia uma alteração demoníaca na sequência das estações — o calor do outono persistia assustadoramente, e todas as pessoas sentiram que o mundo e talvez o universo, foram entregues do controle de deuses conhecidos e forças, para os deuses que eram desconhecidos e para forças ocultas.
Foi então que Nyarlathotep surgiu, vindo do Egito. Quem ele era, ninguém podia dizer, mas ele parecia com um faraó. Os fellahin se ajoelhavam ao vê-lo, sem entender o porquê. Ele dizia ter emergido da escuridão de vinte sete séculos e tinha recebido mensagens de lugares que não pertenciam a este mundo. Assim, para as terras da civilização veio Nyarlathotep, moreno, esguio e sinistro, sempre comprando estranhos instrumentos de vidro e metal, combinando-os em instrumentos ainda mais estranhos. Ele falou muito sobre as ciências — da eletricidade e da psicologia — dando exibições de poder que deixavam seus espectadores mais que sem palavras, o que elevou sua fama a uma magnitude extraordinária. Homens aconselhavam outros homens a verem Nyarlathotep, eles estremeciam. E onde Nyarlathotep passava, tudo mais se dissipava, pois o alvorecer era dilacerado por gritos de pesadelo que nunca foram tão públicos. Os sábios chegavam a desejar que o sono noturno fosse proibido, para que os lamentos urbanos perturbassem menos brutalmente a pálida e compassiva lua. O satélite cintilava sobre águas verdejantes que escorriam sob pontes antigas, ao passo que velhos campanários desmoronavam contra um céu adoentado.
Eu me lembro quando Nyarlathotep veio para minha cidade — uma terrível e antiga cidade de inúmeros crimes. Meu amigo me contou sobre ele, contou sobre as suas revelações impulsivas e sedutoras. Eu tinha uma ânsia que queimava quando eu desejava seus mais extremos mistérios. Meu amigo me disse que eles eram horríveis e impressionantes, além da minha imaginação febril. O que foi projetado na tela da sala escura prenunciava mistérios que só Nyarlathotep ousava revelar, e que, no estalar de suas faíscas, arrancava dos homens algo que jamais antes fora subtraído — um algo que só se manifestava pelos olhares. Eu ouvi dizer que os que conheceram Nyarlathotep viam coisas que os outros não viam.
Foi no calor do outono que fui com as incontáveis multidões através da noite ver Nyarlathotep. Adentrando a sufocante escuridão noturna e subindo as intermináveis escadas até o quarto da asfixia, envolto em trevas numa tela, eu vi formas encapuzadas no meio de ruínas, douradas faces malignas espiavam por trás de um monumento caído. Eu vi o mundo batalhar contra as trevas, contra ondas de destruição provenientes de além do espaço, lutando, se agitando e girando contra o escurecimento do sol já frio. Então, as faíscas dançaram de modo assombroso ao redor das cabeças dos espectadores, erguendo seus cabelos em arrepio e sombras, mais grotescas do que qualquer descrição poderia abarcar, elas emergiram e pousaram sobre as cabeças, e quando eu, que era o mais frio e científico que os demais, murmurei, tremendo, palavras como “impostura” e “eletricidade estática”, Nyarlathotep expulsou a todos nós, descendo-nos pelas escadarias vertiginosas até as ruas úmidas, tórridas e desertas da meia-noite. Gritei em alto e bom som que não tinha medo e que jamais poderia ter medo, e outros gritavam comigo em busca de consolo. Juramo-nos mutuamente que a cidade permanecera exatamente a mesma ainda viva, e, quando as luzes elétricas começaram a esmaecer, amaldiçoamos a companhia por vezes sem conta e rimos das feições bizarras que fazíamos.
Acredito que senti algo vindo da lua esverdeada, pois, à medida que passávamos a depender de sua luz, deslizamos em estranhas formações involuntárias e parecia que conhecíamos nossos destinos, embora não ousássemos sequer pensar neles. Uma vez, fitamos o pavimento e constatamos que os paralelepípedos estavam frouxos e invadidos pela grama, restando apenas um fio de metal corroído a indicar onde antes corriam os trilhos. Logo em seguida, avistamos um bonde solitário, sem janelas, deteriorado e quase tombado para o lado. Quando fixamos o olhar no horizonte, não conseguimos avistar a terceira torre junto ao rio e a silhueta da segunda ostentava um perfil desfiado no topo, como se o tempo a tivesse consumido por completo. Em seguida, dividimo-nos em fileiras estreitas, cada qual atraída por um rumo distinto. Uma delas desapareceu num beco tortuoso à esquerda, restando apenas o eco de um gemido lancinante. Outra coluna deslizou por uma entrada de metrô engolida pelas ervas daninhas, ecoando uma risada insana. A coluna onde eu estava foi sugada para o campo aberto e logo sentimos um frio estranho, alheio ao calor do outono, pois, ao avançarmos pelo pântano escuro, contemplamos ao nosso redor o brilho lunar infernal da neve maligna. A neve errante e enigmática foi varrida em uma única direção, onde se abria um abismo no qual o brilho apenas acentuava sua escuridão. A coluna seguia exígua, avançando sonâmbula para o precipício. Retive-me por um instante, pois a fenda negra na neve iluminada pelo verde era aterradora, e parecia ecoar o lamento inquietante de meus companheiros ao desaparecerem. Mas minha hesitação foi breve. Como se fosse chamado por aqueles que já haviam partido, flutuei quase sem peso entre os titânicos montes de neve, trêmulo e amedrontado, até ser tragado pelo vórtice cego do inimaginável.
Dotado de uma consciência lancinante e entregue a um delírio mudo, só os deuses antepassados poderiam compreender tal horror. Uma sombra doente e sensível se contorcia em mãos que não eram mãos, circuitando de modo cego pelas mais pavorosas meias-noites da criação em decomposição, cadáveres de mundos mortos, cujas chagas eram cidades, e ventos cadavéricos que roçavam as estrelas pálidas, fazendo-as cintilar com um brilho débil. Para além de tais mundos, vagavam espectros de monstros indescritíveis; colunas difíceis de ver oriundas de templos profanos, estruturados sobre rochas sem nomes sob o firmamento, erguiam-se até os vazios vertiginosos além das esferas de luz e de trevas. E, em meio a este cemitério repulsivo do universo, ecoava o bater ensurdecedor de tambores abafados e o lamento maçante das blasfemas flautas, surgidas de câmaras inconcebíveis e não iluminadas além do Tempo, o pulsar detestável e o sussurrar profano que faziam dançar, lentamente, desajeitadamente e absurdamente os gigantescos deuses supremos e tenebrosos. As gárgulas cegas, mudas e desprovidas de mente, onde a alma é Nyarlathotep
H. P. Lovecraft
Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, onde também morreria, solitário e quase desconhecido, em 15 de março de 1937. Viveu à margem do mundo — pobre, doente, recluso — mas sua mente fervilhava como um poço de éter, e seus pesadelos tornaram-se mitologias modernas. Seu universo não é deste mundo, nem do inferno. É anterior, abissal, cósmico... » leia mais
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Ordam Noctam
No céu, a Lua pairava sobre as torres alongadas do castelo tenebroso como um farol prateado. Sua esfera irradiava um cintilar frio e cristalino…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
E N W
No céu, a Lua pairava sobre as torres alongadas do castelo tenebroso como um farol prateado. Sua esfera irradiava um cintilar frio e cristalino. Ao seu redor, um halo perfeito, um arco circular de luz diáfana que parecia emanar do satélite, como um diadema mágico flutuando na noite. O pano de fundo da visão era um azul-marinho profundo que tingia o céu noturno, quase aveludado, salpicado em milhares de estrelas, cada uma cintilando em matizes de branca luminosidade, dispostas em constelações desconhecidas. A névoa tênue que serpenteava pelos beirais góticos das ameias realçava o contraste entre as sombras do castelo e o esplendor etéreo da Lua.
Uma densa névoa cobria os corredores de pedra do Castelo Drácula, escorrendo pelas paredes como um véu e também encobria os pensamentos de Minerva, mergulhados em águas profundas e insondáveis. Naquela noite, a Lua que pairava no céu marcava o momento sagrado em que a própria Lua, a Mulher e a Noite se tornavam uma só entidade arcaica.
Minerva sentia, em seu íntimo, o chamado da escuridão reverberar no peito, como o bater de um tambor antigo anunciando o inevitável. A hora se aproximava, talvez a mesma que a visitara no sonho da clareira dos láparos. Sua magia pulsava sob a pele como eletricidade contida, e seus olhos, já tingidos pela essência da loba, brilhavam em azul ardente, como safiras em chamas anis.
Minerva caminhou lentamente pelos corredores de pedra, onde a luz das tochas tremeluzia. Seus passos ecoaram ao atravessar o umbral da galeria dos espelhos, um santuário onde o silêncio parecia respirar. Ela usava um vestido preto e longo, feito de linho. Os cabelos cacheados estavam presos em um penteado elegante: duas tranças delicadas unidas atrás da cabeça, firmadas por um broche de mariposa prateada. A cada passo, alguns cachos soltos escapavam e saltavam como se tivessem vida própria, dançando na penumbra.
Seus dedos trêmulos apertaram a cruz de Lwccirtt, pendurada em seu pescoço por uma corrente de prata. O artefato parecia pulsar sob sua pele, emitindo um calor que desafiava o frio do castelo. Minerva parou diante do maior dos espelhos, onde seu reflexo começava a distorcer, como se o vidro refletisse além da carne.
Minerva sentia a sua aura lupina estremecendo e uivando dentro de si, enquanto seus olhos marejados perdiam o brilho, tornando-se escuros. A sombra de Lwccirtt não a deixara. Ela sentia a entidade chamando por seu nome, era estranho como uma coceira no interior de seu cérebro. Ela inclinou o corpo sob o próprio reflexo frio, arquejando. Não desejava ceder à vontade daquela criatura, já não sabia se era ela quem clamava por ele ou se ele era quem chamava por seu nome. Irritada por aquela sensação desconfortável, ela iniciou um pequeno ritual de banimento na tentativa de se proteger contra as influências da entidade em sua mente.
Com a voz firme, porém baixa como uma prece murmurada à meia-noite, ela pronunciou o Tetragrammaton: "Ateh... Malkuth... Ve-Geburah... Ve-Gedulah... Le-Olam... Amen." A cada palavra, sua aura lupina se expandia. Ela estendeu o braço diante de si e com os dedos desenhou no ar o primeiro pentagrama flamejante, visualizando linhas incandescentes surgindo do vazio, traços de luz azul anil que cortavam a escuridão como lâminas. Virando-se lentamente para cada ponto cardeal, ela repetiu o gesto e invocou os nomes sagrados com precisão ritualística, cada entonação carregada de intenção:
"YHVH" — ao leste, onde o vento ouviu a prece.
"ADNI" — ao sul, onde a chama tremeluzente da vela cresceu.
"EHEIEH" — ao oeste, onde um espelho estalou, como se algo ali respondesse.
"AGLA" — ao norte, onde o farfalhar de asas foi ouvido.
A cada nome entoado, uma presença se manifestava. Minerva não as via com os olhos comuns, mas sentia-as com a alma: os Arcanjos Raphael, Gabriel, Michael e Uriel alinhando-se ao seu redor, como pilares de luz velada que sustentavam o mundo oculto. Ela ergueu os braços ao alto, a cruz ainda pendendo em seu peito, e declarou:
— Diante de mim, Raphael; atrás de mim, Gabriel; à minha direita, Michael; à minha esquerda, Uriel; e ao meu redor brilha a estrela flamejante, e no centro... Eu a filha da Noite, demando que minha mente seja protegida do chamado de Lwccirtt!
Ao finalizar, ela traçou um círculo ao seu redor, selando o espaço entre os mundos. A energia no ar parecia viva, como se o próprio véu entre as realidades tivesse sido rasgado. O banimento estava completo e Minerva pedia em seu interior que a proteção funcionasse. Ela deitou dentro do círculo mágico que havia projetado no chão, aflita, pedindo que sua prece fosse ouvida. Seu peito dolorido parecia ainda sangrar e a cruz parecia tão pesada que ela evitou segurar.
A bruxa percebeu que o tempo tinha passado quando olhou de relance no espelho e viu que sua aura lupina estava mais tranquila, aninhada ao seu lado. Ela se ergueu, desfazendo o círculo sagrado. Sua mente parecia mais aliviada, mas algo ainda chamava por ela, algo bem mais familiar. Mais uma vez, ela se aproximou de um dos espelhos, sentindo-o vibrar como se algo estivesse prestes a saltar de dentro dele. Uma imagem encapuzada se formou à sua frente.
Sua mãe, a rainha Nuara, se apresentava diante dela no reflexo do espelho, envolta por um manto negro que cobria sua cabeça. No braço esquerdo, ela segurava uma tocha acesa. Minerva tentou ver o que estava por trás, mas além de sua mãe, só conseguia ver a escuridão. A rainha removeu o capuz, revelando seu rosto pálido e olhos sulcados repletos de sabedoria. Elas eram como irmãs gêmeas. Uma luz reverberou no fundo do espelho. Minerva estendeu a mão para Nuara, que atravessou o vidro como um portal.
As duas se entreolharam e Minerva deu um sorriso saudoso, se aproximando para abraçá-la. No centro do grande salão circular dos espelhos, Nuara removeu o seu manto negro sagrado completamente, o símbolo triplo da lua em sua testa era vívido. Ela viera para buscá-la.
As duas se entreolharam por um instante que pareceu suspenso no tempo. Um sorriso suave, carregado de saudade, curvou os lábios de Minerva antes que ela se aproximasse para abraçá-la. O símbolo da lua tríplice, marcado como prata na testa de Nuara, parecia reluzir na luz das pequenas chamas das velas.
— Filha da sombra, núrida, filha minha... — disse Nuara. — As deusas exigem teu parecer. Não podes mais te esconder neste castelo.
— O castelo não me aprisiona. Eu escolhi ficar. — Minerva respondeu. Os olhos dela estavam faiscantes. — Respeito nosso poder, respeito as deusas, mas este lugar... este lugar é onde pertenço.
— Somos filhas da escuridão, Minerva. — retrucou Nuara, dando um passo adiante. — Não me espanta que te sintas em casa num lugar infestado por forças caóticas e criaturas soturnas... tão soturnas quanto nós. Mas os “incidentes” com as entidades cósmicas que encontraste... não são meros desvios. Primeiro foi Ttyphrssett, e agora... o outro. Espero que não cometas o mesmo erro.
— Sei que não fui cautelosa, mas aqui, neste castelo, meu poder pulsa com mais vida. — murmurou Minerva, apertando a cruz de Lwccirtt contra o peito. — Sinto a força crescer em mim.
— A última entidade... aquela que agora sussurra em tua mente... — Nuara olhou fundo nos olhos da filha. — Ela é quase tão antiga quanto as próprias deusas. Sentimos que ela busca uma brecha entre os mundos... por meio de ti.
— Mesmo assim, não desejo partir. — insistiu Minerva. — Aqui é onde me sinto em paz.
— Minerva... — a voz de Nuara suavizou, mas seu tom era grave como um presságio. — Venho como mãe para aconselhar, mas como sacerdotisa, trago o aviso: as deusas te reivindicam. Elas te nomeiam filha da Noite e te chamam para cumprir os votos. Vais continuar recusando a fonte de onde teu poder emana?
— Eu não recuso as deusas... — disse Minerva, com uma sombra de dor. — Mas não desejo me curvar a nenhum dogma. Não quero ser moldada. Quero escolher.
Nuara suspirou. Por um instante, pareceu mais velha do que o tempo.
— Minerva... Minerva... — sussurrou, com pesar e respeito. — Como mãe, te compreendo. Como sacerdotisa, anuncio: se ignorares o chamado, virá uma punição breve... mas inevitável. — As feições de Nuara estavam mudando quando Minerva se aproximou e, com curiosidade, perguntou: — Mãe?
As feições de Nuara estavam a se contorcer como cera derretendo sob uma chama invisível. Seus olhos tornaram-se completamente negros, vastos como o espaço entre as estrelas. A pele da sacerdotisa parecia agora feita de mármore translúcido, pulsando uma luz que não vinha deste mundo. O salão dos espelhos mergulhou em penumbra.
As velas arderam azuladas, despertaram as chamas como vulcões e os reflexos nos espelhos evaporaram, apenas o vazio ficou. Um vento atravessou o salão, trazendo um incenso antigo, fazendo Minerva arquejar, sentindo um nó na garganta e um peso nos ombros ao cravar os olhos no rosto inóspito de Nuara.
Nuara já não estava mais ali, algo mais antigo e sombrio se instalava em seu corpo. Algo que desejava se comunicar com Minerva e o fez.
— Filha do crepúsculo... do sangue e do limiar. — disse uma voz múltipla, entrecortada e vibrante, como se ecoasse de três bocas ao mesmo tempo. — Tu, que carregas o símbolo dos mundos, ouve agora o chamado do Trino Lunar.
As palavras reverberaram pelas paredes como um cântico sendo entoado. A primeira a se manifestar foi Hekate. A voz tornou-se mais grave.
— Eu sou Hekate, guardiã das encruzilhadas, dos véus e dos segredos esquecidos. Tu despertaste Lwccirtt com tua sede de poder e tua recusa ao chamado. Mas o castelo o sente. Ele se ergue e se corrompe por tua presença e teu toque. — Minerva, com a boca entreaberta, estava com a respiração agitada. Uma pausa foi feita.
— Se não reconheceres o Trino, se não curvares tua alma diante da Noite que te fez, serás devorada. Se Lwccirtt não te encontrar, outros te encontrarão. Caninos longos repletos de sede de sangue.
Hekate estendeu o braço e a cruz de tungstênio no pescoço de Minerva flutuou e brilhou com uma luz ofuscante e cobalta. O calor atravessou sua pele por dentro do vestido. As sombras se movimentaram atrás de Nuara, dançando, sussurrando, contorcendo-se em espirais. Quando Hekate silenciou, foi a vez de Nix assumir. O corpo de Nuara relaxou e a voz tornou-se suave, fria como o orvalho em uma cripta de pedra.
— Eu sou Nix — sussurrou ela — a noite que antecede todas as noites. Berço das sombras, véu da origem. Lwccirtt encontrou uma fenda em ti, Minerva. Ele não te tocou, ele te viu. E no espaço entre um pensamento e outro, plantou raízes. — O chão sob os pés de Minerva pareceu oscilar, como se ela fosse cair.
— Tu não és apenas filha de Nuara. És filha da noite. Da escuridão que acolhe, que vê, que cala. Não negue mais o trino. Tuas recusas rasgam os limites do real. Reconhece-nos ou teu corpo será abrigo para o que nem os espelhos ousam refletir!
Minerva estava incrédula e relutante, exibia seus dentes afiados e sua aura de sombras lupina erguia-se por trás dela. Ela arquejava, buscando a calma que havia perdido. Em um momento, fechou seus olhos, buscando silenciar a mente e, quando os abriu, encontrou a face da última deusa.
Com o corpo ereto, mas a alma afundada, Minerva ainda sentia o coração pulsando não só no peito, mas nas pontas dos dedos, nas têmporas, na cruz de tungstênio em seu pescoço. Aquela presença era mesmo real? Eram as deusas... ou algo fingindo ser?
Então, a última voz ecoou — mais baixa, como uma canção esquecida, cantada para embalar o mundo.
— Eu sou Selene, a que dança com a lua e vela o sono dos vivos e dos mortos. A luz que brilha apenas para os que sabem ver no escuro, aquela que guia a carruagem da luz prateada da noite! Não viemos como donas de teu destino, mas como espelhos daquilo que tua alma esconde. Não somos uma prisão de dogmas. Somos a tua força, criança!
As velas tremeluziam em tons leitosos. A sala girava devagar à percepção da jovem bruxa. Minerva manteve-se em silêncio, olhos arregalados. Dentro de si, o turbilhão de perguntas: eram mesmo elas? Ou seria Lwccirtt, sorrindo por trás das máscaras? Selene parecia ouvir seus pensamentos.
— Dúvida é também parte do caminho. A fé cega é tão perigosa quanto o poder não reconhecido. Mas o que há dentro de ti, Minerva, não pode mais ser adormecido. Nós somos o que sempre foste. A trindade que gerou tua alma nas sombras da floresta. A Noite, a Morte, a Vida. A mulher. A loba. A sacerdotisa!
O rosto de Nuara travou-se em uma única expressão até que seus olhos retornaram ao que eram antes e sua cabeça pendeu para frente, ocultando a transformação. Um espelho às costas de Minerva trincou. A fenda serpenteou o vidro como uma raiz e a cruz de tungstênio em seu pescoço esquentou de novo.
Num rompante final, as sombras se recolheram e a pele de Nuara retomou seu tom natural. Seus olhos negros recuperaram o brilho materno, e o contorno de seu rosto, antes esculpido pela presença tripla, amoleceu-se em traços de calor humano. Ela piscou, como que despertando de um sonho, e estendeu a mão para Minerva, num gesto doce e pesaroso. Uma lágrima cintilante verteu do olho esquerdo de Minerva. Ela baixou os olhos e, sem segurar a mão de Nuara, se distanciou com um passo para trás.
Sem uma palavra, Nuara voltou-se para o maior dos espelhos ao fundo do salão. Com dedos firmes, traçou no vidro um símbolo antigo, um círculo entrelaçado por outros círculos. O espelho vibrou, a superfície ondulou como água, e um portal prateado abriu-se diante delas.
Nuara lançou um último olhar à filha, um misto de amor, urgência e saudade, antes de atravessar. O portal se fechou num estalo surdo, deixando apenas o sussurro das velas e o eco distante de um chamado lunar que prometia voltar. Minerva, sozinha novamente, apoiou a mão no espelho frio, sentindo, ainda, a presença das deusas desaparecer e permaneceu ali firme, em sua mente, buscando uma saída para não se entregar a nenhum dos caminhos dispostos. Ela desejava desbravar o próprio caminho, ela era o próprio conhecimento. Sua natureza de loba urgiu em seu interior.
Tomada por um impulso, ela cravou as unhas sobre os próprios braços e rasgou a pele junto da roupa. A carne dela se desdobrou em fiapos elásticos, se soltando do corpo enquanto seus ossos se remodelavam com um estalo, os dedos alongaram-se em patas firmes, a coluna arqueou, tornando-se a lombar lupina, e os músculos se rearticularam abaixo do pelo negro como breu. Em seu lugar, ergueu-se a loba de pelagem espessa e lustrosa e olhos de um azul frio. No chão, ficaram espalhados os pedaços de suas vestes e, ao lado, o broche de mariposa e a cruz de Lwccirtt, abandonados.
Sem hesitar, a criatura correu e saltou por uma das janelas do castelo, rompendo o vidro em estilhaços. Cada pata pousou com leveza sobre o chão após a alta descida. Ela galopou feroz, em disparada, rumo à floresta obscura. O vento noturno assobiava por entre os pinheiros, arrastando consigo o som ritmado de seu tropegar; em poucos instantes, Minerva-loba sumiu na penumbra das árvores, deixando apenas o farfalhar da mata para trás.
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Mensageiro do Último Dia e Lovecraft
O filme O Mensageiro do Último Dia (2020) é inspirado na HQ The Empty Man, criada por Cullen Bunn e Vanesa R. Del Rey. A trama gira em…t
Imagem da Web editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
O filme O Mensageiro do Último Dia (2020) é inspirado na HQ The Empty Man, criada por Cullen Bunn e Vanesa R. Del Rey. A trama gira em torno de uma misteriosa seita que venera uma entidade sobrenatural conhecida como "Empty Man", capaz de se propagar através dos pensamentos humanos. A narrativa mistura elementos de terror psicológico, investigação e ocultismo, explorando como ideias perigosas podem ser espalhadas como um vírus, contaminando as mentes das pessoas e corrompendo a realidade à medida que se infiltram no imaginário.
Além da temática sobrenatural, O Mensageiro do Último Dia constrói, através do protagonista, camadas psicológicas que o conduzem a um desfecho inevitável. A trama gira em torno de uma seita que cultua uma entidade misteriosa, desejosa de se manifestar na Terra por meio de um hospedeiro perfeito.
Sob a perspectiva de Fred Botting (2024), observamos uma nuance dos elementos do gótico, que celebram a transgressão dos limites e das normas, projetando temores e fantasias culturais. Aqui, o culto a Nyarlathotep encarna essa transgressão: a fusão entre o sagrado e o profano, o humano e o inominável.
Conseguimos observar nesta entidade uma referência tênue com Nyarlathotep, uma das criaturas do panteão de Lovecraft. No entanto, por trás do enredo de horror cósmico, o filme lança uma crítica sutil, mas contundente, sobre o poder destrutivo das crenças extremas.
Ao longo da história, vemos como a ação desta entidade na mente das pessoas leva indivíduos a cometer atos violentos, inclusive o suicídio, mesmo que coagido, uma possível alusão a como determinadas ideologias ou cultos podem se tornar profundamente nocivos à saúde mental e à vida das pessoas envolvidas. Estes ritos nos evocam o caráter perturbador das seitas lovecraftianas, onde o horror não está apenas no monstro, mas na devoção fanática de seus seguidores.
O filme inicia com um prólogo que não traz os personagens principais, mas que mostra seu significado com o decorrer da trama. Depois, vemos o desenrolar do enredo principal com o desaparecimento de uma adolescente em uma pequena cidade dos Estados Unidos. Um ex-policial de sobrenome La Sombra, que já carrega em seu nome um vislumbre do que está por vir, começa a investigar o caso. Ele descobre o grupo que cultua a entidade sobrenatural conhecida como "Empty Man", em português “O Mensageiro do Último Dia", que pode ser invocada mediante um ritual macabro. À medida que ele mergulha na investigação, o protagonista é confrontado com alucinações e a sensação de ser vigiado a todo tempo.
No poema em prosa de Lovecraft, Nyarlathotep, um indivíduo relata sobre a chegada desta entidade à Terra e como o mundo se tornou seu reinado macabro. No imaginário de H. P. Lovecraft, Nyarlathotep é um tipo de mensageiro dos deuses extradimensionais. Este é um ser que caminha entre os mortais, trazendo revelações proibidas e incitando rituais estranhos. Da mesma forma, no filme, O Mensageiro surge, mas com a necessidade de ter um receptáculo para recebê-lo, reunindo seguidores em cultos que fazem os preparos para a sua chegada.
Ao final, O Mensageiro não é apenas um simples arauto, mas uma construção objetiva. Temos uma representação sob as crises internas dos personagens: culpa, desejo reprimido e o medo. O pesquisador Gilbert Durand conceitua estes aspectos do imaginário humano como parte do Regime Noturno simbólico da imagem, uma configuração simbólica que luta para impedir a ação da queda, da morte e do tempo.
O culto íntimo ao medo, ao desejo reprimido e à culpa ressoa com a teoria de Durand. O Mensageiro, por este viés, opera como um arquétipo da sombra e, levando em consideração o inconsciente coletivo, de acordo com Jung (2021), o imaginário também pode ser observado como prefiguração dos arquétipos presentes no inconsciente.
O Mensageiro é Nyarlathotep por ser aquele que transita entre mundos, não para guiar à luz, mas para revelar o que foi recalcado no inconsciente individual e coletivo, representando, nas palavras de Jung, a sombra, este aspecto psíquico que reúne tudo aquilo que o ego rejeita e reprime, mas que permanece ativo na psique em seu lado negativo. Sua presença desestabiliza a linearidade racional e confronta o protagonista e os adeptos com o que Durand chamaria de uma imaginação dominada pela angústia, onde o sagrado e o monstruoso se confundem. Logo, este culto a uma divindade antiga pode espelhar o culto que cada um de nós faz aos próprios temores.
REFERÊNCIAS:
BOTTING, Fred. Gótico: Tradução de Marina Sena. Sebo Clepsidra. 2024.
DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário: introdução à arquetipologia geral I Gilbert Durand,tradução Hélder Godinho. – 4° ed. - São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.
JUNG, C. O Homem e seus Símbolos; Translation of Maria Lucia Pinho. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 2021.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Mar Espectral
Um assobio cortava os corredores do castelo, como sempre escuro e esquecido. Aquele assobio dominava e transpassava seu eco junto de uma…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Um assobio cortava os corredores do castelo, como sempre escuro e esquecido. Aquele assobio dominava e transpassava seu eco junto de uma ventania estranha que dançava pelas paredes de pedra e roçava na poeira, erguendo um cheiro de umidade e pó. Em uma das câmaras de retiro do castelo, Minerva escrevia em seu livro negro, posicionada sob uma mesa de escrever. Ela aguçou os ouvidos, atenta àquele som ritmado que ecoava cada vez mais perto.
O som deslizava pelo ar, suave e contínuo, como um sussurro levado por uma brisa forte ou o farfalhar de um tecido escorregando sobre uma superfície lisa. Era fluido, mas inconfundivelmente presente enquanto se movia, sussurrante e rápido, arrastando o pó do castelo pelos ares e emitindo notas como Dó, Mi e Sol.
Hummmmmm Hummmmm hummmm hummmm...
Ela parou, pousou a pena sob a madeira da mesa cautelosamente ao direcionar o olhar atento para onde o som ecoava quando aquilo adentrou pela porta do cômodo, que se abriu de leve como se alguém a destrancasse, aquele vento soprou a vela erguida pelo candelabro ao lado de Minerva e a apagou, sob a mesa. A escuridão dominou e ela ouviu apenas o som de seu espirro após inalar o pó que aquela brisa trouxera, que exalava um aroma de terra molhada.
A esfera luminosa de Minerva brilhou no ambiente acima de sua cabeça, afugentando um pouco do breu e elevando à penumbra a marca dos objetos ao seu redor. Com cuidado, ela fechou o livro e, com um sussurro, o encantou para que ninguém mais o pudesse ler. O pó sob o chão era levado por aquela brisa fazendo círculos ao seu redor e aquele som podia ser ouvido como às vezes mais longe e às vezes bem mais perto, como se estivesse indo e vindo até ela. Aquele era um dos sinais de algo que a chamava mais uma vez para os lugares mais ermos e lúgubres que se escondiam nas reentrâncias dimensionais do castelo.
Minerva avançava pela galeria silenciosa, guiada por uma intuição que pulsava em seu coração. A brisa, cada vez mais intensa e carregada de poeira, soprava sua direção, também lhe indicando o caminho. A cada passo, seus pés ecoavam suavemente sobre o chão de pedra, e ela percebia uma mudança sutil, quase imperceptível, na atmosfera do castelo. Havia um murmúrio distante de água corrente deslizando pelas paredes e pelo chão. Ao seu lado, a esfera de luz que a acompanhava brilhava com um tom inusitado: o azul-cobalto substituíra o habitual tom de safira, como se até mesmo sua magia estivesse sob influência de algo diferente.
O vento empoeirado mudou repentinamente de direção, arrastando Minerva para uma ala do castelo que lhe era completamente estranha. A escuridão era tão densa que o teto parecia ter deixado de existir, e todos os objetos ao redor surgiam apenas como vultos distantes, como se ela caminhasse por um vazio absoluto, desprovido de tempo e espaço. Vista de longe, se alguma alma pudesse enxergar naquele abismo, ela seria apenas a silhueta de uma dama envolta em negro, recortada contra o brilho pálido de uma luz fria, um vestido longo de mangas justas a cobria como um véu de sombra, os tecidos pesados ondulando suavemente ao compasso do vento oculto, como se a própria escuridão se moldasse ao seu corpo.
O sussurro ecoou mais uma vez, baixo e arrastado, como um segredo sendo revelado gota a gota nas paredes. À frente, Minerva vislumbrou um alto portal, duas portas monumentais, cravadas no chão e fundidas à rocha das paredes. Eram feitas de jacarandá escuro, e exalavam uma presença inquietante. Reunindo toda a força do corpo, ela empurrou as portas pesadas, que rangeram com um som áspero e profundo ao se abrirem.
Do outro lado do portal, Minerva encontrou uma paisagem emoldurada pela desolação: uma praia fria e cinzenta, açoitada por rajadas de vento cortante, sob nuvens espessas que mergulhavam o mundo em penumbra. As ondas do mar, negras e revoltas, quebravam com fúria sobre a areia pálida, como se tentassem devorar a costa. Ao erguer o olhar, ela o viu o castelo Drácula erguendo-se com imponência sobrenatural no alto de uma formação rochosa, cercado por montanhas escuras como carvão.
As torres do castelo se projetavam contra o céu como lanças de pedra, adornadas por gárgulas de olhos ocos e asas abertas, como se estivessem à espreita. Vitrais rachados e sujos, mais parecidos com feridas do que com janelas, manchavam suas fachadas, lembrando igrejas amaldiçoadas, esquecidas pelos deuses e devoradas pelo tempo. A atmosfera era densa, elétrica, como se algo além da compreensão, habitasse aquele cenário. E Minerva sabia, ela estava numa das dimensões ocultas onde o castelo Drácula existia, um reflexo sombrio entre realidades na encosta da praia da melancolia.
Em sua mente, ela considerou aquele acontecimento por alguns segundos, tentando entender onde estava e por que o castelo a trouxera ali. Ela sentou-se na encosta da praia. Seu longo vestido negro foi consumido pela areia e seus cabelos tornaram-se esvoaçantes com as rajadas de vento. Em seu interior, se instaurava um medo vestal como se sua magia fosse se esvair, ela não tinha fé única, mas cria principalmente em sua magia.
Por um instante fugaz, tão breve quanto o piscar de olhos, Minerva tentou racionalizar o que via. Por que o castelo a convocara para aquele limiar de mundo esquecido? Que propósito obscuro havia naquela travessia? Sem respostas, deixou-se cair sobre a encosta pedregosa da praia, onde a areia, fria e úmida como cinzas de ossos antigos, começou a engolir as dobras de seu vestido negro. O vento, cada vez mais impiedoso, fustigava-lhe os cabelos, fazendo-os dançar em espirais caóticas como serpentes presas na cabeça da medusa.
Ela afundou as mãos na areia pálida, desejando ancorar-se ao mundo físico, sentir algo que não tremesse sob o peso do abismo. Foi então que seus dedos roçaram algo rígido e frio, uma estrutura metálica soterrada sob os grãos. Puxou-a lentamente, revelando um objeto soturno: uma cruz de tungstênio escurecido, com uma safira profundamente cravada no centro. Gravadas em seu corpo metálico, inscrições arcanas serpenteavam em uma língua extinta, como se tivessem sido gravadas por mãos que já não pertenciam há nenhuma era conhecida. Era um encantamento, um aviso, talvez. Ou uma chave.
Ofegante, os olhos de Minerva vasculharam mais uma vez as inscrições entalhadas no artefato, buscando um sentido oculto nas curvas tortuosas da escrita. Então, com um murmúrio quase imperceptível, lançou um encantamento que fez a cruz flutuar diante de si. Os símbolos arcaicos despertaram, acendendo-se com uma luz azul e girando lentamente no ar. Uma única frase reverberou, clara como uma sentença final: aquele que habita na escuridão, Lwccirtt, livre de sua prisão.
Mal as palavras cessaram, as rajadas de vento emitiram urros furiosos, e no coração do oceano caiu um raio etéreo de luz antinatural, impossível de nomear, que desceu rasgando os céus. O clarão golpeou as águas como uma lâmina divina, e o mar respondeu. Minerva tentou erguer-se, tentou fugir da costa maldita, mas o tempo já não lhe pertencia. Das profundezas abissais, ergueu-se a onda. Não uma onda comum, mas uma muralha de água e trevas, uma maré de natureza arcaica e brutal que não pertencia àquele mundo. Era como se o próprio mar, consciente e vingativo, se levantasse para apagar tudo. Ela não apenas engoliu a praia, ela perfurou, arrastando com ela a matéria que Minerva conhecia ou cria ser o mundo.
O castelo Drácula, em sua imponência amaldiçoada, foi tragado inteiro. As gárgulas se despedaçaram como bonecos de sal; os vitrais explodiram num mosaico brilhante de pontos escuros, e as colunas góticas se retorceram sob o peso de um oceano que não devia existir. A água salgada invadiu corredores e criptas, afogando histórias e horrores adormecidos naquela dimensão. Minerva, engolfada pela força inominável, foi arremessada contra as rochas submersas como uma folha sem destino e ali seu corpo flutuou, inerte, entre as sombras. E então ele surgiu. Lwccirtt.
Uma criatura feita de névoa viva e substancial, pairando sob as ruínas submersas como um presságio, dançando imerso nas águas escuras. Era amorfo, uma nebulosa sólida e escura, líquida, pulsante como tinta cósmica derramada sobre o fundo do oceano perto da zona abissal. Sua anatomia desafiava a mente: tentáculos espectrais sem origem serpenteavam em direções paradoxais, oscilando entre matéria e vazio.
Minerva submergiu sob as águas que devoraram o castelo, envolta em silêncio. Seu corpo repousava imóvel, e apenas o tangível frio das águas lhe despertava as extremidades dormentes, sabia que estava machucada, mas não conseguia sentir onde. As sombras que avançavam no escuro levavam consigo destroços do castelo Drácula; numa quietude súbita, as correntes agitavam-se num balé funerário, como se o próprio mar reverenciasse uma queda tão grandiosa.
Foi então que algo se formou nas profundezas e ela pôde ver e aproximar-se do que deveria ser a superfície, só que não conseguiu alcançar. Não era fera nem fantasma, mas um vulto indecifrável, a entidade Lwccirtt, uma massa de nébula quase sólida e insólita; era escura e se desenrolava sem pressa. Suas bordas não tinham consistência firme; eram como brumas antediluvianas, densas como breu, mas compostas de uma estranha luz opaca e cobalta.
Aquilo flutuava indiferente no véu escuro aquático, com curiosidade pacífica, observando Minerva, que ainda presa entre o limiar do sono e da vida, não sentiu medo. Pelo contrário, mesmo sem respirar, ela despertou do seu transe turvo com uma curiosidade silenciosa, a falta de ar por hora não a incomodava. Era como se aquele ser tocasse sua mente sem a tocar fisicamente, e impressões e sensações fluíam diretamente em seu ser. Não havia voz, apenas um eco distante, um sussurro que animava sua consciência. Os olhos vermelhos da bruxa enxergavam, turvos, os dentes afiados daquela estrutura nebulosa que a faziam lembrar de um peixe-ogro.
Sensações de frio e calor envolveram-na num diálogo psíquico indescritível com os vórtices luminosos que deveriam ser os olhos daquela entidade. De súbito, o inconcebível se revelou em visões fugazes. Aquele ser conversava com ela e mostrou para Minerva um turbilhão de imagens e nem todas ela compreendia. Ela viu cidades submersas antes da era dos homens, rostos antigos esculpidos na pedra que jamais poderiam ser lidos submersos em águas profundas, florestas petrificadas sob um sol que ainda não nascera. Ela enxergou desertos de cristais negros e mares de trevas luminosas, espectros de constelações mortas e astros recém-nascidos girando num balé eterno. Cada fragmento destas cenas era um pressentimento de algo maior, um lampejo de conhecimento proibido, mas tudo lhe escapava entre a visão turva do vermelho rubro de seus olhos sangrentos que ardiam pelo sal. Suas forças e sua magia estavam sendo drenadas.
Ela apanhava vislumbres da geometria do cosmos, da quietude antes do tempo, sem conseguir nomear. Um som estranho, como um borbulhar, era ouvido por ela quando a entidade a mostrava as visões. Ela sentia que precisava adentrar em uma daquelas realidades, em seu âmago ela começou a chamar pelo castelo Drácula, pela dimensão que ela conhecia. Cada vez que ela buscava aquele vislumbre nas visões de Lwccirtt, o som do borbulhar aumentava; ela precisava respirar e não conseguia se desvencilhar daquele contato, não conseguia nadar em busca de uma superfície.
Sentia as suas energias sendo transferidas para a nebulosa lôbrega, mesmo assim ela insistia com todas as forças psíquicas em chamar a visão de seu grimório deixado lacrado na câmara de retiro entre as visões que Lwccirtt lhe mostrava. Quando seu coração despontava sem ar e seus pulmões quase sem vida, um relance do grimório surgiu e ela pode sentir a estranheza da entidade diante da imagem.
Quando o contato terminou, Lwccirtt retornou ao mar de sombras de onde emergira. Minerva conseguira retornar, porém, quase sem magia e a cruz de tungstênio perfurava seu peito. Pairava no ar, suspensa por um último fôlego da magia que agora a deixava, ela caiu sob o chão de pedra.
Seu corpo encharcado chocou-se contra o chão, pesado e exausto, como uma ânfora vazia. A cruz de tungstênio, que antes flutuava com poder, agora atravessava-lhe o peito, cravada como um selo. A dor era real, mas mais real era a estranheza de ainda estar viva. Ela arquejou, expelindo a água salgada dos pulmões pela boca, numa ânsia entre a morte e o renascimento ela arfou em uma tosse desenfreada. Sua mente ainda oscilava, presa à visão do castelo submerso, e da criatura que havia lhe mostrado o infinito. Ela invocou a esfera luminosa que, enfraquecida, piscava emitindo um som vibrante de energia.
Com um último esforço ela se ergueu sentando-se, segurou a cruz e a arrancou de si. O sangue misturou-se à água que escorrida de seu corpo sobre o chão, formando um reflexo escarlate. Minerva tombou outra vez, silenciosa, com os olhos abertos para o teto que não via, carregando em si um novo vazio, não de ignorância, mas de sabedoria impossível.
O mundo ao seu redor parecia mais vasto e menor ao mesmo tempo; o tempo não corria mais linearmente. Embora não pudesse nomear o conteúdo exato das visões, sentia que partilhava de uma sabedoria antiga. E essa certeza, por si só, já transformava sua existência fazendo-a se perguntar o que ela realmente buscava. A cruz continuava ali, ao seu lado, fria e cintilante, gravada com o nome daquele que habita na escuridão. Lwccirtt.
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A Simbologia da Morte no conto A Máscara da Morte Vermelha de Edgar Allan Poe
Edgar Allan Poe (1809 – 1849) é um dos expoentes do romantismo norte-americano, cuja obra deixou marca…
Pintura “A morte da Virgem” por Michelangelo Caravaggio (1571-1610)
Edgar Allan Poe (1809 – 1849) é um dos expoentes do romantismo norte-americano, cuja obra deixou marca decisiva na literatura gótica, no conto policial e na poesia. Nascido em Boston, ficou órfão ainda criança e foi criado por um mercador de boas condições, de quem herdou o sobrenome. Faleceu em Baltimore no ano de 1849, sofrendo de delírios e a causa de sua morte é até hoje um mistério. Seus poemas e contos, como “O Corvo” e “A Máscara da Morte Vermelha” inserem-se na segunda geração do Romantismo do século XIX, distinguindo-se pelo tom sombrio, pela exploração da psicologia do medo e pela atmosfera de decadência que se tornou característica de sua produção literária.
Encontramos referências recorrentes à morte na obra de Edgar Allan Poe, muitas vezes atravessadas por elementos sobrenaturais e simbólicos. O próprio autor afirma que, para ele, este é o tema mais melancólico para ser abordado (POE, 2019, p.65). Em poemas como “O Corvo”, o autor retrata a dor do luto e a insistência da ausência como uma presença constante na vida do eu lírico, enquanto em “Annabel Lee”, a morte surge como força trágica e inevitável, capaz de romper até os laços mais profundos do amor. Em ambos os textos, a morte não é apenas um fim biológico, mas um abismo emocional e metafísico que assombra o imaginário humano.
Tal temor é exemplarmente retratado no conto “A Máscara da Morte Vermelha”, no qual Edgar Allan Poe constrói uma alegoria sobre a inevitabilidade da morte. No conto, diante de uma praga devastadora, uma enfermidade fulminante que conduz suas vítimas à hemorragia fatal por todos os poros, o príncipe Próspero decide isolar-se de seu povo em uma abadia fortificada construída a seu gosto, levando consigo um grupo de mil amigos. Afastando-se do sofrimento coletivo, eles entregam-se a uma vida suntuosa de excessos completamente trancados, numa atmosfera de alienação deliberada à realidade da peste. O castelo, espaço de aparente segurança e opulência, torna-se símbolo da tentativa vã de escapar da morte.
É válido observar como, no conto, estabelece-se uma negação da morte que contrasta diretamente com a elaboração do luto presente nos poemas anteriormente mencionados, nos quais o eu lírico já se encontra imerso na dor da perda. Em “A Máscara da Morte Vermelha”, por outro lado, a figura do príncipe Próspero encarna uma tentativa desesperada de escapar da finitude, recusando-se a aceitar a iminência do fim. Recolhido em seu castelo ao lado de uma elite hedonista, o príncipe promove festas grandiosas como forma de silenciar o terror exterior. No entanto, a morte adentra esse espaço de aparente segurança como um intruso inevitável: sua chegada, em meio ao baile, assume a forma de um convidado mórbido, envolto em uma mortalha salpicada de sangue, cuja aparência cadavérica evoca não apenas a doença, mas a própria materialização do destino inescapável.
O som do relógio de ébano, que ressoava com solenidade a cada badalada, funcionava como um prenúncio do inevitável: a morte que, cedo ou tarde, alcançaria a todos. O sangue, elemento recorrente na narrativa, simboliza o sofrimento inescapável que espreita mesmo os que se acreditam protegidos. Nenhuma muralha é capaz de conter o destino comum à existência humana, e o conto deixa claro que o isolamento não garante salvação. A Morte Vermelha, apesar das tentativas de reclusão, irrompe no castelo e conduz um a um a sua ruína, sendo o príncipe Próspero o primeiro a morrer.
O conto também oferece uma leitura simbólica da morte em vida, ao denunciar, de forma alegórica, o comportamento alienado e insensível das elites diante do sofrimento coletivo. O isolamento do príncipe Próspero e de seus convidados, enquanto a população do lado de fora agoniza sob o avanço da peste, representa uma tentativa de negação não apenas da morte, mas também da responsabilidade social. Essa escolha de se recolher em celebrações contínuas, regadas a excessos e luxúria, revela um hedonismo decadente que escancara a desconexão entre as camadas privilegiadas e a realidade brutal enfrentada pelos demais.
Essa representação do fenômeno da morte não se resume a uma simples fascinação mórbida. Como observa Botting, ao comentar o poema The Grave (1743), de Robert Blair, a contemplação da morte revela-se como um exercício de consciência sobre a efemeridade da existência e a transitoriedade de todas as coisas. Trata-se, portanto, de uma reflexão sobre os limites da vida e a presença constante do fim como parte constitutiva da experiência humana, levando que guia até caminhos da espiritualidade (BOTTING, 2024, p. 41).
Poe consegue elaborar este simbolismo nictomófico ao representar a passagem do tempo com o relógio de ébano que causa nervosismo em cada uma de suas badaladas. O salão de veludo representa a morte vermelha, enquanto os outros salões representam a fuga dos cortesões e do príncipe. O sétimo salão fica cada vez mais escuro e o escuro é um elemento que geralmente assombra a mente, como afirma Durand (2012).
Dada a imagem da morte como representação máxima do terror humano, no conto “A Máscara da Morte Vermelha”, ainda persiste em Próspero uma centelha de esperança pela vida, mesmo que suas ações revelem traços de egoísmo e alienação. Esta nuance evidencia como, diante da própria finitude, o ser humano pode tender a lançar mão de todos os recursos possíveis para tentar escapar deste fim. No entanto, a morte sempre triunfa, como também é simbolicamente retratado no filme O Sétimo Selo (1957), de Ingmar Bergman, no qual um cavaleiro desafia a morte em uma partida de xadrez, numa tentativa desesperada de adiar seu fim. A metáfora do jogo e da máscara vermelha reforçam a ideia de que, por mais que se lute contra a morte, ela permanece invencível.
REFERÊNCIAS:
BOTTING, Fred. Gótico: Tradução de Marina Sena. Sebo Clepsidra. 2024. p.41
POE, E. A. (1809-1849). Contos de imaginação e mistério: Edgar Allan Poe; prefácio de Charles Baudelaire; tradução de Cássio Arantes Leite. Tordesilhas. 2012.
POE, Edgar Allan; PESSOA, Fernando; ASSIS, Machado de. O Corvo. Companhia das Letras, 2019. p. 65
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Ritual do Vinho
Minerva dormia pairando no reino do inconsciente, ela se via imersa em um sonho inusitado, um devaneio que parecia adentrar a alma…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Minerva dormia pairando no reino do inconsciente, ela se via imersa em um sonho inusitado, um devaneio que parecia adentrar a alma. Sob a cama seu corpo flutuava acima dos lençóis e sua mente a levava até um descampado no centro de frondosas macieiras, por entre estas árvores brotavam as flores Ovaeren que começavam a se abrir, as pétalas escuras de algumas e alvas de outras se desdobrando à meia-noite como se obedecessem a um comando inaudível. O aroma doce e letal incendiava o ar, impregnando cada partícula da atmosfera com um torpor.
No centro do descampado, dançarinos giravam em círculos, cobertos por mantos esvoaçantes em uma dança ritualística. A dança era precisa, como se executasse um ato profético há muito escrito. Seus movimentos não pertenciam à alegria, mas à servidão de algo maior, de algo que Minerva sentia no fundo de seu ser, algo que chamava por ela naquela noite.
Em sua visão, ela caminhava em meio aquelas pessoas e seus olhos enxergavam pelo formato amendoado de uma máscara que cobria seu rosto. Os cabelos longos e negros estavam soltos e seu corpo de pele pálida estava livre de qualquer veste. Ela sentia os pés descalços tocarem as folhas outonais espalhadas pelo chão, tocou o próprio rosto sentindo a textura da máscara de porcelana que erguia em sua cabeça orelhas de láparos. Ao tentar removê-la, ela não conseguiu e percebeu que sua respiração ofegava por dentro dela. Uma fogueira estava acesa e o fogo crepitava vermelho quase incessante.
Aos poucos, conseguia sentir o ambiente ao redor e, sem conseguir pronunciar nenhuma palavra, observou os dançarinos, que entoavam cânticos em uma língua diferente, lançarem palavras que ela desconhecia. Ao seu redor, eles faziam uma ciranda letárgica e macabra. Um arrepio gélido tocou seu corpo, fazendo com que ela abraçasse a si mesma lentamente, passou as mãos frias pelos braços, apertando-os como se tentasse se proteger, sentindo o toque de sua pele estremecer a cada sibilar do vento e as vozes em coro, agressivas e agudas.
Ela tentava cobrir os seios expostos, envolvendo-se em um abraço trêmulo, enquanto seu coração tamborilava em seu peito. O festejo continuava, mas algo na dança parecia estranho, pois, as sombras dos dançarinos se alongavam, movendo-se com vontade própria, como espectros desprendidos de seus corpos. O cântico crescia, ecoando na noite como um feitiço que ganhava força.
Então, uma mulher se desprendeu da roda, erguendo os braços em um gesto ensaiado. Em uma das mãos, segurava uma taça de vinho, que ergueu lentamente antes de estendê-la a Minerva, os olhos faiscando sob a luz vacilante das chamas.
A dança ritualística parou e todos a observavam, Minerva entendeu que deveria aceitar a bebida que foi oferecida. Ao pegar o cálice, suas mãos encostaram nas mãos da outra e elas se entreolharam como se invadissem suas próprias almas com o olhar. Minerva conseguiu erguer a máscara para removê-la apenas naquele momento e levou a bebida aos lábios, ela sentiu o vinho fumegar ao descer pela garganta e sua pele aquiescer, libertando-a de seus pensamentos.
Ela ofereceu a bebida à outra mulher, que jogou o cálice no chão sem hesitação, os olhos ardendo em intenções. Com passos lentos, a estranha se aproximou, envolvendo Minerva em um abraço firme, quente como um feitiço recém-lançado. Seus rostos ficaram a um sopro de distância antes que os lábios se encontrassem em um beijo agridoce, onde suas línguas dançavam em um ritmo lento, carregado de desejo. Ao redor, os dançarinos permaneceram imóveis, testemunhas silenciosas da volúpia.
Minerva aos poucos permitiu que seu corpo se inflamasse pelo desejo. As carícias eram rituais silenciosos, percorriam suas costas e roçavam seus seios em um toque que oscilava entre devoção e pecado. Os lábios da mulher traçaram um caminho febril por seu pescoço, degustando sua pele como se absorvesse sua essência. Um gemido velado escapou de Minerva quando os dedos ágeis desceram, desenhando promessas sobre sua carne.
Ela se deixou conduzir, deitando-se sobre as folhas secas enquanto sua máscara caía, esquecida no chão e quebrada pelo impacto. O tempo se dissolvia entre beijos e toques embriagantes, até que, possuída pelo êxtase, Minerva arquejou, sentindo seu corpo pulsar em calor profano. Seu suor tinha um perfume adocicado, misturando-se ao aroma de fumaça e fogo que envolvia o ritual, como se a própria noite estivesse naturalmente inebriada.
Ela procurou a outra mulher com o olhar, mas ela havia desaparecido. Os dançarinos agora pareciam estátuas, imóveis, enquanto apenas as sombras se agitavam, dançando ao ritmo da crepitação da fogueira. Um novo calafrio percorreu seu corpo, fazendo-a estremecer sobre as folhas secas, ainda tomada pelo torpor. Então, de súbito, figuras encapuzadas emergiram da penumbra. Elas deslizaram entre ela e os dançarinos, seus mantos negros e carmesins ondulando como espectros vivos sob a iluminação trêmula.
No rosto, também carregavam máscaras de coelhos com cabeças alongadas, olhos vazios e escuros como poços profundos. Caminhavam em silêncio, organizados, seus passos ecoando de maneira ritmada. Entre as dobras dos mantos, carregavam objetos cuja natureza Minerva não conseguia discernir, mas cuja aura a fazia estremecer.
Ela tinha participado de um ritual macabro? Um sussurro rastejou em sua mente, indistinto, mas carregado de um chamado irresistível. Algo obscuro pulsava no coração, e talvez, apenas talvez, aquele sonho lúcido não fosse apenas um sonho e ela estivesse consciente de fato.
Minerva sentiu um frio estranho percorrer sua espinha quando, entre as figuras encapuzadas, um rosto conhecido emergiu. O pálido reflexo da lua escorria sobre as feições delicadas de sua mãe, Nuara, que exibia a face rígida, os olhos inexpressivos, quase vazios, mas indiscutivelmente os mesmos que um dia a acolheram. No entanto, era como se ela não pudesse ver a filha ali, como se aqueles caminhantes estivessem em outra dimensão e seus espectros passeassem entre os mundos.
Seu coração disparou e um chamado preso na garganta, sufocado pelo torpor da visão e ainda inerte pelos últimos momentos, fez com que ela se levantasse cambaleante. Sem pensar, ela correu até as figuras tentando alcançar o rosto da mãe. Os pés dela afundavam nas folhas secas, mas por mais que acelerasse, as figuras se afastavam como luzes fugidias se apagando. O manto da mãe cintilou uma última vez antes de se dissipar entre os outros mantos.
Seu coração foi tomado pela angústia que a envolveu como um abraço gélido. O tempo pesou sobre ela, implacável. Quanto tempo fazia desde a última vez que ouvira a voz da mãe? Quando foi a última vez que procurara saber onde estava sua mãe? O castelo a consumira de tal forma que o mundo além de suas paredes se tornou esquecimento.
E agora, no limiar entre o real e o irreal, Minerva sentia que algo estava terrivelmente errado. Ela caminhava pela floresta envolta em um silêncio que era quebrado apenas pelo sibilar do vento. Os galhos secos, em um vermelho-acinzentado e profundo, estendiam-se como ornamentos retorcidos contra o céu negro, formando um túnel de sombras e espectros que exibiam maçãs vermelhas e que sangravam um néctar viscoso. O ar era denso, carregado de umidade. Então, entre o chão das árvores, corpos de coelhos decepados e inertes juncavam o caminho e, por ali, ela passava desejando acordar.
A respiração dela se tornou ofegante ao ver humanoides erguidos sobre patas alongadas, observando-a. Seria aquela visão um delírio causado pelo vinho? Lágrimas escuras verteram dos olhos da bruxa, ela sentia em seu íntimo que aquilo era algo além de sua magia e o desespero tomou conta dela enquanto tomava partida do sonho lúcido, ela sabia que precisava acordar e retornar para si mesma.
Fechando os olhos ela respirou profundamente por três vezes, acalmando seus pensamentos e buscando a saída, então, Minerva acordou com um sobressalto. O peito subindo e descendo de forma descompassada, o corpo despencou do ar sob os lençóis fazendo-a arquejar de leve. O quarto estava mergulhado em sombras, e seus olhos ardiam, as escleras vermelhas pulsavam sangue. Ela sentia o gosto acre da inquietação na boca, como se a própria essência daquele pesadelo houvesse se impregnado nela.
A bruxa ergueu-se da cama, os pés descalços tocando o chão frio. O castelo parecia respirar em seu silêncio profundo, os corredores escuros se estendendo como veias. Minerva saiu, os passos ecoando suaves, mas carregados de pressentimento. Foi então que ela parou e ali, no meio do corredor, viu um coelho.
Os pelos eram negros como a noite sem lua, e os olhos, os olhos eram rubros, ardendo em uma luz maldita, refletindo o brilho de um chamado sobrenatural brilhantes como rubis ao sol. Ele não se movia, apenas a observava, imóvel, como se a esperasse. Minerva apertou os punhos, sentindo um arrepio lhe percorrer a espinha petrificada, estava claro que aquilo não tinha sido um sonho.
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
DA SEIN
Nas águas turbulentas do pensamento eu me abraço, | Recebendo do inconsciente memórias do passado. | Observo o sol ao longe pousando no horizonte…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Nas águas turbulentas do pensamento eu me abraço,
Recebendo do inconsciente memórias do passado.
Observo o sol ao longe pousando no horizonte.
A sinestesia me envolve entre a vida e a morte!
É inevitável não encarar meu próprio eu neste mundo,
O existencialismo me toma. Assim,
Vagueio com olhar vazio e profundo,
Buscando sentido no infinito imundo.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Dança na Cripta
Pelas facetas da solidão, meus passos enveredavam em uma dança extasiada. | O toque do vento, por vezes, era a única caricia que restava;…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Pelas facetas da solidão, meus passos enveredavam em uma dança
extasiada.]
O toque do vento, por vezes, era a única caricia que restava;
E nada mais sobrava para me acompanhar no pranto,
Apenas o eco vazio do que já foi, tão distante: o quebranto.
A noite sempre foi por si mesma uma companhia,
Em seu reinado guardei sentimentos sem melodia.
Por meia década senti horrores em solilóquios distorcidos,
Onde cada palavra era um suspiro perdido!
Há muito me perdi da trilha que almejava seguir.
Mas, ela me reencontrou e pelo luar meus passos voltaram a fluir!
Para a pisque poemas sucumbidos no sepulcro retornaram;
A melancolia agora evanesce em versos que erráticos se montam.
Por duas almas páreas se reconectaram,
Mudaram caminhos distantes tão unos que nunca se separaram,
Em minha cripta iluminada residem silentes as memórias desta história!
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “Poesias”:
A Sinfonia de Engrenagens
O castelo tinha encantado Minerva de uma maneira tão sublime que fez com que ela decidisse residir ali por algum tempo, completamente…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Músicas de inspiração: “Castlevania – The Clock Tower” e “Dark Sanctuary - The Garden of Jane Delawney”
O castelo tinha encantado Minerva de uma maneira tão sublime que fez com que ela decidisse residir ali por algum tempo, completamente absorvida pelos mistérios que pareciam não ter fim. Ao explorar seus corredores, sempre descobria uma nova sala, um armário oculto, cofres selados e livros em línguas desconhecidas, aguardando para serem desvendados. Cada ambiente era único, e cada porta ou escadaria parecia se abrir para uma infinidade de dimensões. Nenhuma janela jamais oferecia a mesma vista que a outra.
Tomada pelo desejo de entender os segredos daquele lugar, Minerva sentiu em seu coração a necessidade de explorar o castelo cada vez mais, mapeando-o para descobrir até onde poderia ir. Decidiu se acomodar no quarto marcado pelo símbolo do ouroboros na porta, considerando-o a confirmação de seu chamado; ela agora era uma convidada do castelo. Ao despertar, em um horário que imaginava ser pela manhã, ergueu-se da cama, pensativa, enquanto um som distante e metálico começava a penetrar seus tímpanos, como um eco sutil de algo mecânico que se movia em algum lugar.
Intrigada, ela se levantou, recordando que quando dormiu aquele som parecia estar presente, mas tinha se intensificado. Ela usava um vestido preto longo sem muitos adornos, semelhante a um dressing mourn sem mangas longas, usava uma crinolina por baixo da saia que dava sustento à peça. Ela percebeu que o ar estava mais quente e não frio como de costume.
A bruxa trançava o próprio cabelo com movimentos automáticos, os dedos puxando os fios diante do rosto enquanto seus olhos se fixavam no mesmo espelho onde o Ttyphrssett havia se manifestado em sua imagem. Uma melancolia diferente começava a tomar seu coração um peso silencioso que ela evitava nomear. Terminando a trança, prendeu-a em um coque apertado, fixando-o com seu broche de mariposa pensando em evitar o calor.
Naquele momento o que sentia era aquele sentimento oriundo da alma, um eco do medo primitivo que habita o inconsciente humano e causa o medo do escuro e do abandono. Foi com essa sensação que ela despertou naquela suposta manhã, enquanto o som metálico de engrenagens trabalhava à distância, reverberando como um presságio e entregando um recado do calor.
Seu olhar se voltava incessantemente para a própria imagem no espelho, tentando desvendar o significado do que via. A tempestade de neve já se dissipara há algum tempo, mas a mente de Minerva continuava nublada, e ela não conseguia lembrar quando isso havia ocorrido. O que a inquietava, no entanto, era o som distante das engrenagens, que pareciam eternas. Não sabia há quanto tempo escutava, mas estava certa de que sua percepção sonora se alterara. Já fazia tanto tempo que, em certos momentos, esquecia daquelas engrenagens, até o instante em que o som se infiltrava novamente em sua consciência.
Para esquecer aquele som ela resolveu exercer sua prática meditativa, então sentou-se no centro do seu aposento para se concentrar. Abaixo dela, uma linha circular azulada pairava no ar enquanto estava suspensa sobrenaturalmente, o traço da figura se desenhava em um brilho prateado-azulado, expandindo-se e contraindo-se em uma cadência hipnótica, refletindo o fluxo de sua própria energia. No entanto, ela se desconcentrou pelo barulho e toda a imagem se desfez, ela parou de flutuar.
Por um momento, Minerva olhou ao redor do quarto, inquieta, tentando localizar a origem do som que ecoava em sua mente, mas sem sucesso. Nos dias que passou mapeando o castelo, ela havia se dedicado a organizar o ambiente, decidida a fazer com que sua estadia, embora temporária, fosse confortável. Com determinação, conseguiu os suprimentos necessários para se manter ali, adaptando-se ao peculiar ritmo daquele lugar.
Ela continuou a olhar para os lados, observando os móveis de madeira escura, as paredes com rachaduras, o piso, os candelabros do quarto. Tudo parecia imóvel enquanto o som das engrenagens continuava a ecoar. Ela suspirou, chateada, e cutucou o ouvido direito com o dedo, tentando aliviar o zumbido agudo causado por conta do som. Desconcertada por aquele fenômeno não parar, ela decidiu investigar, em outros momentos já tinha ouvido sons estranhos e passos fantasmagóricos por lá, mas nada a tinha incomodado tanto quanto aquele som metálico e que parecia aumentar a cada momento.
Minerva então deixou seu aposento e caminhou pelo longo corredor, tentando seguir o som que parecia um farfalhar metálico, entrando em sua mente e se intensificando gradualmente. Incomodada, ela avançava a passos firmes, observando atentamente cada detalhe ao redor: os móveis de mogno, os quadros nas paredes, retratando paisagens estranhas e cósmicas. De repente, as engrenagens cessaram, e um silêncio profundo tomou o ambiente. Mas Minerva não hesitou. Continuou em frente, avançando em direção às escadarias encaracoladas, determinada a descer e descobrir a origem daquele som perturbador.
Ela iluminou o espaço sombrio, já que a ausência de janelas ou vitrais na escada impedia que qualquer luz natural adentrasse. Mesmo com o sol a brilhar no céu, lá fora, a atmosfera interna parecia ser perpetuamente escura. Enquanto descia os altos e longos degraus da escadaria, um som peculiar ecoou em seus ouvidos uma risada leve e despreocupada, que parecia vibrar nas paredes, como um sussurro fantasmagórico. Talvez fosse um dos espíritos que perambulavam pelos corredores do castelo, pensou ela, tentando não se deixar levar pelo desconforto.
Era uma risada infantil, suave e enigmática. Por um momento, Minerva teve a impressão de ouvir seu nome sussurrado pela mesma voz que ecoava a risada. Seu coração acelerou, e, em um reflexo, ela intensificou a luz da esfera em suas mãos, tentando iluminar os cantos escuros ao redor. Porém, o que encontrou foi apenas a infinidade dos degraus que continuavam a descer quase sem fim, e nenhum sinal de presença alguma além de si própria.
Ao atravessar um grande portal, Minerva chegou ao hall de entrada do castelo, um espaço que irradiava uma aura de magia enigmática. Ela caminhou alguns passos, os ecos de seus pés pesados ressoando no piso, até avistar uma garotinha loira, de cabelos curtos, correndo rapidamente. A menina entrou em uma das portas, e com ela, o sussurro e a risada infantil que Minerva havia ouvido antes. A menina usava um delicado vestido branco, que contrastava com um corset de acobreado, ajustado em sua figura, moldando sua silhueta com precisão. Nas pequenas mãos, um par de luvas na mesma tonalidade de cobre, projetadas com cuidado para lidar com maquinários.
Por um momento, Minerva pensou em ignorar, acreditando ser apenas mais uma visão proferida pelo próprio castelo. Mas algo em sua intuição a instigava a seguir a garota. Sem mais hesitar, Minerva a seguiu apressadamente, enquanto a menina chamava: “Vem comigo!” A voz dela ecoava de forma doce, e o risinho juvenil, brincalhão, parecia contagiante, mas também provocava em Minerva, uma irritação crescente, como se fosse uma brincadeira não solicitada.
Ao parar por um momento, ela contraiu a mandíbula após suspirar e cruzar os braços. Simplesmente não estava disposta a perseguição. Ela revirou os olhos, exalando um sopro sutil pelas narinas, um pequeno jato de ar quente, quase inaudível, mas carregado de impaciência.
As sobrancelhas de Minerva se arquearam, denunciando seu desagrado. Ao se virar e começar a regressar até a entrada, a menina surgiu diante dela, com os olhos grandes e arredondados, da cor de mel, como se refletissem a luz com um brilho estranho. Seu cabelo loiro e curto emoldurava seu rosto, formando uma franja arqueada como uma meia-lua, enquanto seus lábios permaneciam cerrados, formando uma linha rígida.
— Quem é você? — Minerva deu de ombros e estreitou os olhos interrogando-a, avaliando a presença inesperada.
— Eu sou a responsável pelas máquinas do castelo, não sabia? — a menina posicionou as mãos sob a cintura.
— Então existem mais pessoas aqui? — Minerva pôs a mão no queixo pensativa fazendo um arco sob seu lábio inferior. — Sou Minerva Caligari princesa do reino de Áugures, mas no momento sou apenas Minerva.
— Muito bem apenas Minerva, eu me chamo Evelyn Dubois, estive te observando você causou um alvoroço e tanto com a sua chegada, não foi? Acho que talvez você possa me ajudar. Perdão pela forma como me aproximei, só queria me divertir um pouco, você sabe... O castelo pode ser meio parado às vezes!
— Na verdade, talvez você me ajude a encontrar de onde vem aquele barulho insuportável.
— Eu ia te levar em um lugar, tem uma coisa acontecendo no céu que acho que você vai se interessar. Você sabe, o céu aqui no castelo não é “apenas o céu” como você também não é “apenas Minerva”.
A bruxa deu um passo para trás, lançando um olhar de incredulidade para a menina, tentando compreender como alguém poderia ser tão extrovertido e audacioso. Algo na postura da garota a fazia sentir um estranhamento, como se ela própria estivesse diante de um reflexo de sua juventude curiosa, intuitiva, impetuosa. Era como se a menina fosse uma versão mais jovem de si mesma.
A garota começou a andar saltitante à frente, acenando para que Minerva a seguisse. Sem hesitar, ela a acompanhou, atravessando um dos portais do hall que as conduziu a um corredor mais estreito. A iluminação era tênue, mas não vinha de candelabros; àquela altura, a esfera luminosa de Minerva já havia sido dispensada por ela própria. O corredor não possuía janelas, e as únicas coisas visíveis nas paredes eram tubulações metálicas que serpenteavam como veias expostas. O piso era coberto por um tapete vermelho, que se estendia até o final do corredor, onde uma porta de cobre estava embutida na parede.
Aquela porta chamou a atenção de Minerva, seus olhos se arregalaram ao ver engrenagens que se retorciam por toda a estrutura. Engrenagens de diferentes tamanhos interligavam-se em um mecanismo complexo, algumas girando lentamente com um leve chiado à vapor, como se a própria estrutura tivesse força própria.
— Você vai ver que alguma coisa aconteceu aqui no castelo, o céu anda estranho ultimamente, não sei se você já foi lá fora, mas o céu está estranho. — A menina se aproximou da porta e tirou de dentro do colarinho do vestido uma chave, com ela destravou a tranca da porta e com uma reverência, pediu que Minerva adentrasse o lugar após ela mesma passar pela porta.
— Bem-vinda à minha casa, apenas Minerva!
O teto alto era sustentado por vigas de ferro forjado, de onde pendiam lâmpadas elétricas presas a braços mecânicos, lançando uma luz amarelada e instável sobre o ambiente.
Os olhos de Minerva brilharam ao ver o que estava por trás daquela porta. Era um lugar estranho e diferente de tudo o que ela já vira, parecia-se com o cômodo de uma casa e ao mesmo tempo com um laboratório. O teto alto era sustentado por vigas de ferro, de onde pendiam luzes. Extasiada pela visão de tantas coisas diferentes ela apoiou a mão na porta de engrenagens e entrou no local tomando cuidado ao descer dois degraus.
Minerva avistou duas janelas redondas ao fundo do aposento e ao centro estava uma mesa de mogno. Próximo à mesa, em meio ao emaranhado de fios e tubos, um homem repousava em uma cadeira de rodas de estrutura reforçada, com pistões hidráulicos adaptados ao eixo das rodas.
Seu corpo era uma fusão grotesca de carne e metal: o rosto, marcado por cicatrizes profundas, trazia uma expressão vazia. Minerva o fitou curiosa e depois dirigiu o olhar para Evelyn.
— Este é o meu pai ele não fala muito, venha comigo o que quero te mostrar está bem ali.
Evelyn se posicionou em frente a uma das janelas aguardando que a bruxa se aproximasse e quando ela o fez a garota acenou com a cabeça para que ele olhasse pela grande janela redonda. Mais uma vez os olhos de Minerva foram surpreendidos, no céu azul cobalto dois sois ostentavam seu poder bem próximos um do outro, dourados com um aspecto metálico. Impressionada ela baixou o olhar para a paisagem estranha onde avistou um jardim de flores estranhas que apontavam para os dois sóis como fazem as margaridas. Ao longe ela avistou uma estufa vítrea que cobria uma parte daquele lugar.
— Evelyn, o que está acontecendo lá fora? — perguntou Minerva tentando não demonstrar sua recente curiosidade aflorada.
— Realmente não tenho o que dizer sobre os sois, mas acho que a máquina do papai está funcionando novamente. Você sabe, ele era um excelente inventor até o incidente. Eu queria continuar o que ele começou procurando o “éter etéreo” achei que você pudesse me ajudar. O sol maior está se aproximando de nós.
— Não sei como posso te ajudar, mas isso com certeza explica o calor no castelo, temos dois sois pairando sobre nós.
— Eu acho que se descermos no jardim mecânico encontraremos o que eu procuro, você vem comigo?
— Deve ser fascinante, por favor, me guie até o local!
Após as palavras de Minerva, o som das engrenagens retornou, mais intenso e penetrante do que antes. O ruído reverberava pelo ambiente, fazendo Minerva cerrar os dentes ao sentir um zumbido incômodo nos ouvidos. Evelyn, alarmada, correu até seu pai, que se remexia inquieto na cadeira.
Com um movimento brusco, ele puxou uma alavanca lateral, ativando o mecanismo das rodas. A estrutura metálica da cadeira estremeceu e liberou um jato súbito de vapor por um pequeno cano, enquanto girava descontroladamente pelo aposento. Evelyn tentou conter o movimento, segurando as laterais com força, até que finalmente conseguiu estabilizá-la.
— Meu pai... — ela começou ajeitando a postura dele e lançando um olhar rápido para Minerva. — Ele sempre foi obcecado pelo trabalho. A maior parte do que existe aqui foi criação dele... um grande inventor.
Minerva observou a cena com atenção, seus olhos percorrendo os detalhes da cadeira e da sala, absorvendo cada peça, cada engrenagem que compunha aquele estranho mundo. Algo ali parecia deslocado, desconexo.
Enquanto seguiam em direção à porta, Minerva finalmente quebrou o silêncio:
— Esse barulho... — ela disse, com a voz baixa, mas firme. — O som das engrenagens. Parece vir de todos os lados e ao mesmo tempo de um lugar específico. O que é?
Evelyn hesitou por um breve instante. Seus dedos tocaram as luvas, apertando-as levemente antes de erguer o olhar e responder com um tom despreocupado:
— Apenas mais uma das invenções do papai como eu te falei. Não se preocupe, vamos conseguir consertar a máquina, vamos ao jardim agora...
Havia algo diferente na forma como ela falou, na leveza de sua voz, que fez Minerva estreitar os olhos. Ainda assim, decidiu não pressionar... pelo menos por enquanto.
JARDIM MECÂNICO
As duas estavam diante da entrada do jardim, uma estufa, Minerva pôde ver através do vidro abobadado plantas exóticas. Para entrar ali, Evelyn, ao seu lado sorriu de maneira enigmática e, sem esforço aparente deslizou os dedos enluvados por um painel que ficava alinhado aos tubos da estufa. Um clique seco ecoou e a estrutura de metal diante delas começou a se abrir.
O ar que escapou do outro lado carregava um aroma diferente: uma mistura entre o perfume delicado de flores e o cheiro ferroso de metal. Minerva franziu o cenho, sentindo a atmosfera mudar conforme avançavam. Seus pés afundavam na grama espessa.
Elas atravessaram o limiar da estufa e adentraram em um bosque incomum, fora do espaço vítreo chegaram em uma área livre à primeira vista, parecia uma floresta densa, mas logo a realidade se torceu diante de seus olhos. O solo era um tapete vivo de raízes metálicas entrelaçadas, e sobre ele, flores mecânicas brotavam com uma estranha elegância. Seus botões de cobre e bronze se abriam e fechavam suavemente, liberando vapores azulados que serpenteavam pelo ar como uma névoa brilhante. O bosque se estendia ao redor como uma entidade viva, pulsante, ciente de suas presenças.
Minerva deslizou a mão pelos poros de uma flor próxima, sentindo sua textura fria e, ao mesmo tempo, orgânica. Ela ergueu o olhar para Evelyn, que girava sobre os próprios pés, admirando as flores.
— É magnífico, não acha? — perguntou a garota loira, sua voz carregando uma empolgação infantil.
— Esse lugar... — murmurou Minerva, sentindo a pressão ao seu redor se intensificar. Era como se o próprio jardim as estivesse avaliando, estudando sua presença.
— Ele respira — disse Evelyn com naturalidade. — Está vivo.
O vento cortou entre as engrenagens ocultas, produzindo um som que não pertencia ao mundo dos vivos. Um sopro metálico, como algo que respira sem precisar de pulmões.
Uma sensação de euforia pela nova descoberta tomou Minerva por alguns instantes, mas ao mesmo tempo enquanto ela sentia a aura daquela atmosfera estranha o medo tocou seu coração por alguns segundos, ela não sabia o que esperar daquele lugar. A beleza e a estranheza estavam unidas ali!
Evelyn caminhou saltitante novamente, desta vez puxando Minerva pelo braço arrastando-a até o que ela chamou de “máquina do éter”. Foi quando Minerva sentiu o ar ao seu redor tornar-se mais denso conforme se aproximavam-se daquilo. O cheiro metálico era forte, misturado ao vapor que se dissipava em fumaça cada vez que escapava pelos canos. À sua frente, erguia-se uma estrutura colossal, um emaranhado de cobre, aço e outros metais que pareciam vivos, pulsando com um movimento incessante.
A máquina, não se parecia com nada que Minerva já tinha visto, ela exibia engrenagens de tamanhos distintos que giravam entrelaçados. Alguns dos mecanismos moviam-se em padrões intrincados, enquanto outros pareciam reagir a estímulos invisíveis, rangendo de maneira ritmada. O vapor se esvaía em intervalos regulares, exalando um chiado abafado, e os cabos de força serpenteavam pelo chão como raízes, conectando-se ao castelo em tubos que seguiam pelo chão.
Minerva arqueou as sobrancelhas, fascinada e desconfiada. Aquilo parecia um coração. Ela cruzou os braços e lançou um olhar para Evelyn indagando-a:
— O que exatamente é essa coisa? — sua voz soou firme, mas havia um brilho curioso em seu olhar. — E por que esse barulho é incessante?
Evelyn desviou os olhos por um instante, balançando a cabeça levemente antes de soltar um suspiro curto.
— É a máquina do meu pai, eu já tentei consertar, mas ela está assim a um tempo. Sempre esteve aqui, sempre funcionou assim. Ela só está mais barulhenta porque eu andei mexendo um pouco nela, sabe... Os sois lá em cima estão ligados ao barulho também, estou tentando consertar isso. E você vai me ajudar!
Minerva percebeu uma mudança no tom da garota. Algo ali vibrou além do metal e do vapor. O jeito de se comportar de Evelyn havia mudado em um lampejo, como se não fosse mais ela mesma, seus movimentos se tornaram erráticos, e sua voz oscilou, mudando de tom.
De repente, Evelyn riu, mas não era sua risada natural. Era algo rouco, fragmentado, como se outra pessoa falasse através dela. Seus olhos, antes vivos e cheios de curiosidade, tornaram-se vidrados, e suas palavras se transformaram em um murmúrio. "O éter etéreo... a substância primordial... Minerva, você veio para decifrar o mistério de tudo, não veio?", “Você é a chave para a transmutação, não é?”, “A substância das substâncias está em você não está?” sua voz alternava entre grave e aguda em uma cacofonia.
Minerva franziu a testa e deu um passo para trás, observando Evelyn se mover. A garota gesticulava com a cabeça se inclinando de um lado para o outro aguardando uma resposta.
Diante delas, a grande máquina de engrenagens liberava vapores e chiados metálicos. A estrutura imponente de cobre e aço vibrava com vida própria, alimentada pelos cabos de força que vinham do castelo. O som das engrenagens reverberava, preenchendo o ar com um ruído quase hipnótico.
"Ela precisa entender...", murmurou Evelyn, e, num estalar de dedos, um rangido mecânico ecoou. Evelyn ergueu as mãos como um maestro. Um som de rastejar pôde ser ouvido enquanto a garota fazia movimentos frenéticos como se controlasse algo, por trás de Minerva surgiu o que parecia ser uma imensa planta carnívora, com tentáculos mecânicos se estendendo com movimentos sinistros exibindo estrias azul cobalto. O interior da bocarra era repleto de dentes afiados, ela era a perfeita réplica de uma dioneia.
Minerva reagiu usando sua magia, mas os tentáculos da criatura foram mais rápidos. Enroscando-se ao redor de seu corpo, prenderam-na em um aperto impiedoso. A mandíbula de metal se abriu, e Minerva sentiu o ar ficar pesado ao perceber que seria engolida, enquanto Evelyn prendia cabos de força em si própria. A garota, ou o que quer que estivesse no controle dela, observava com um sorriso aberto já conectada aos cabos.
Irritada, Minerva evocou a sua aura de loba um tipo de sombra fantasmagórica que emanava de seu corpo quando ela precisava se defender, uma parte de sua alma transmutada, seu corpo começou a brilhar em uma aura espectral dentro da mandíbula metálica, e, de dentro daquilo algo grande se remexia abatendo a estrutura da mandíbula, um uivo ressoou pelo ar quando a aura de loba se manifestou por completo. Energias bruscas pulsaram em sua pele, e com um único golpe ela quebrou a máquina, um rugido feroz ecoou pelo jardim arrebentando os dentes longos do autômato. Minerva saltou e ao pousar no chão ajoelhada a sombra de loba podia ser vista em suas costas.
A energia liberada fez os tentáculos da planta mecânica se retraírem, e a criatura recuou emitindo sons arranhados como se estivesse empenando, o que antes era a boca da dioneia agora estava no chão do jardim. Seus olhos queimaram em fúria ao encarar Evelyn, que cambaleava para trás, como se estivesse perdendo o controle do próprio corpo.
Evelyn deu um passo trôpego para trás, uma luz dourada em seus olhos se intensificou, e sua voz se fragmentou em ecos múltiplos. "Não tente me impedir, Minerva... Eu... eu posso ver tudo agora...! O éter etéreo... é a conexão!” O som das engrenagens parecia mais alto que antes enquanto a menina sentia o vórtice de energia.
A loba espectral rugiu e então a própria Minerva se contorceu e assumiu por completo a sua forma de loba. Seu corpo se expandiu, os músculos pulsando com a energia bestial enquanto sua pele era tomada por uma pelagem negra como a noite. Ossos estalaram e cresceram, moldando uma forma lupina imponente. Suas garras alongaram-se grotescas e seus olhos brilharam com um azul intenso e selvagem.
Num único salto, ela avançou contra a máquina afundando as longas patas e as enormes garras na máquina, ela atravessou a estrutura com sua força. O aço rangeu sob sua força brutal enquanto suas patas rasgavam cabos e trituravam engrenagens, espalhando faíscas pelo ar como brasas incandescentes. Um chiado enguiçado escapou dos circuitos destroçados, seguido por um ruído de ferro retorcido quando a estrutura cedeu. Um estrondo ecoou quando o núcleo se partiu ao meio estremecendo antes de explodir em um estrondo ensurdecedor, lançando fumaça e fragmentos de parafusos e roscas.
Evelyn gritou e seu corpo foi lançado para trás, os cabos se rompendo um a um. O brilho dourado em seus olhos piscou freneticamente antes de apagar completamente. O sol acobreado tremeu no céu, como se tivesse perdido sua âncora o que fez com que ele lentamente, recuasse para sua posição original muito além do alcance dos olhos e as flores que apontavam para ele inclinaram-se como se estivesse murchando.
Observando os destroços fumegantes ao seu redor pegarem fogo em pequenas explosões barulhentas, Minerva respirou fundo. A loba foi tomada por uma energia azulada que a envolveu esfericamente até surgir como humana novamente, o vestido rasgado no ombro e o cabelo solto e esvoaçado.
Evelyn estava desacordada sob a grama, pálida e ofegante. Sua expressão era de confusão e medo. "Minerva...?", ela murmurou desta vez com sua própria voz. Minerva a encarou por um longo momento antes de finalmente relaxar os ombros. Uma sensação estranha de melancolia e euforia atiçou novamente o coração da bruxa, aquele evento a fez se sentir tonta e extasiada.
Ela ajoelhou para acalentar a garota no colo, muitas perguntas ecoavam na mente dela, enquanto tentava acalmar a garota que agora parecia frágil e indefesa em seus braços. “Como funcionava aquele jardim? O que é o éter etéreo? Quem mais vive neste castelo?”. Minerva se ergueu com dificuldade, levando a jovem nos braços, seus olhos desviaram a atenção da garota para a máquina, percebendo o silêncio.
Ela ergueu o olhar para o céu e notou que o segundo sol estava mais distante que da última vez que vira. A passos lentos, ela caminhou em direção à saída do jardim mecânico com Evelyn desacordada em seus braços. A máquina parou finalmente, as engrenagens e o som cessaram, ela podia descansar.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Filha da Noite
Sob o luar, ela vaga em beleza sombria, | Enquanto a lua sangra em melancolia. | A noite envolve, com véu de tormento, | Versos em tumbas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Sob o luar, ela vaga em beleza sombria,
Enquanto a lua sangra em melancolia.
A noite envolve, com véu de tormento,
Versos em tumbas, sussurros ao vento.
Olhos gélidos, abismos profundos,
Rogam ao mal, senhor dos mundos.
Das sombras surgem garras vorazes,
Que a prendem nas trevas, em laços tenazes.
Pelas brumas da mente, perdida, caiu,
No abraço da noite, o destino a seguiu.
Agora, eternamente, em morbidez,
Ela reina no ventre do submundo!
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Vermelho
No sangue velado, | Em uma taça deixado. | Para os olhos a cor um deleite, | O espinho que perfura a pele| Encontra o sangue com requinte,…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
No sangue velado,
Em uma taça deixado.
Para os olhos a cor um deleite,
O espinho que perfura a pele
Encontra o sangue com requinte,
A rosa assim suga seu escarlate.
E o pulsar do coração se, enfim, se
[abate.
O que era rubro se torna acinzentado,
Pálido.
Pálido.
Pálido.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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O Reflexo da Bruxa
Um manto de neve recobria um vilarejo de casebres simplórios, o aspecto da neve transformava as casas de madeira em pequenas silhuetas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Um manto de neve recobria um vilarejo de casebres simplórios, o aspecto da neve transformava as casas de madeira em pequenas silhuetas fantasmagóricas sob a luz pálida do céu nublado que anunciava uma tempestade. As chaminés, ainda soltavam fios preguiçosos de fumaça, o som das lareiras crepitantes nos interiores, denunciava a existência da vida humana. Uma montanha se erguia imponente ao fundo, parecendo guardar segredos ancestrais, com seu cume envolto em nuvens densas e pela neve. Árvores esqueléticas ladeavam o vilarejo, seus galhos despidos de folhas estendendo-se como mãos ossudas contra o horizonte gelado. Cada passo dado ali afundaria suavemente no gelo, o vento sussurrava histórias esquecidas entre os becos estreitos e desolados.
No limite acinzentado do céu, um alinhamento raro e fascinante tomava forma: os planetas, como joias brilhantes, organizavam-se em uma configuração triangular quase que perfeita. Cada ponto luminoso parecia pulsar com uma energia única, conectando-se ao próximo por linhas imaginárias que formavam um triângulo celestial. O espetáculo transcendia a imensidão do cosmos. O alinhamento triangular era místico, como um símbolo oculto desenhado no firmamento, ecoando a harmonia secreta do universo.
Caminhando sozinha pela neve, ela ergueu os olhos em busca de contemplar aquela visão quase divina. Um arrepio percorreu seu corpo ao deparar-se com a cena, mas, mesmo assim, continuou sua jornada. Cada passo afundava no silêncio gélido, enquanto tentava distinguir o que era real e o que eram projeções de sua mente fatigada.
A longa jornada havia consumido suas forças, deixando-a vulnerável, como uma casca vazia de quem um dia já fora. Atrás dela, ficava uma vida inteira desfeita, fragmentos de memórias que dançavam como fantasmas: euforia, raiva e tristeza se misturavam em um turbilhão que a atormentava sem descanso. Ao inspirar profundamente, sentiu o ar cortante invadir seus pulmões, trazendo uma dor que a fazia se sentir viva, ainda que por um instante. Uma estranha sensação a impelia adiante, guiando seus passos entre as casas desoladas, cujas janelas revelavam visões perturbadoras – sombras imóveis e figuras mórbidas que a observavam, como se zombassem de sua presença ou aguardassem algo mais.
Minerva caminhou a passos lentos até atravessar uma encruzilhada encoberta pela neve, seu vestido estava aos trapos e seus caninos apareciam mostrando sua ansiedade. Os olhos dela buscavam um caminho enquanto ela cobria a cabeça com um lenço de cor púrpura muito escuro. Ao passar por uma árvore robusta, de grandes galhos sem folhas, avistou uma figura sinuosa vestida de negro, segurando um cajado. Aquela pessoa estava ali, recebendo o vento e a neve no rosto, como se já aguardasse sua chegada. Um olhar sombrio e perfurante foi lançado sob a jovem Minerva, olhos frios e brancos como a neve a encaram, mas ela não temeu.
Sem olhar para trás, Minerva continuou seu caminho, passando pelo ser que a observava. Mesmo em silêncio, a mensagem daqueles olhos perfurantes ecoava em sua mente como um sussurro sobrenatural: ela trilhava um caminho que ultrapassava as barreiras do tempo e do espaço, um percurso repleto de riscos. O aviso a envolveu como uma sombra persistente, mas não a deteve. Seus passos permaneciam lentos, e seu olhar voltava-se ao chão, enquanto ela mantinha o rosto parcialmente coberto pelo lenço, tentando escapar do toque cortante do vento.
Adiante, o cenário tornou-se ainda mais desolador. Toda a vegetação estava sepultada sob a neve, transformando o ambiente em um vazio branco e silencioso. Um rio congelado se estendia como uma cicatriz de gelo, guardando uma ponte de madeira antiga e desgastada que estalava com o peso do tempo. Além dela, não havia muito que fosse visível, apenas uma tempestade de neve densa que engolia o horizonte, tornando impossível saber o que a esperava do outro lado. Sem hesitar, Minerva avançou, determinada a atravessar. Cada estalo da ponte parecia um aviso, mas ela ignorava os temores. Com o coração pulsando como o único som vivo naquele mundo, avançou em direção ao desconhecido, encarando a tempestade que era a única forma de descobrir o que aguardava no outro lado, um novo destino ou o próprio fim.
Ao finalmente atravessar a ponte, o gelo ainda cobria tudo, e o céu acinzentado despejava flocos de neve pesados enquanto ela lutava para seguir, seus passos afundando no frio. A alguns metros à frente, a silhueta de um antigo castelo emergiu através da neblina. Exausta, ela imaginou que ali poderia encontrar abrigo e descanso. O castelo erguia-se contra o céu plúmbeo, suas torres recortando a paisagem como lanças de pedra negra. Os muros, envelhecidos pelo tempo, exibiam uma profusão de gárgulas e arcobotantes que se retorciam em formas grotescas. O vento sibilava entre os vitrais góticos, os fragmentos multicoloridos projetavam sombras irreais sobre os corredores vazios que ela percorreria.
Ela aproximou-se das portas colossais, que se abriram sem que precisasse tocá-las, movidas pela força de sua própria magia. Ao adentrar o castelo, o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som de seus passos. O ambiente estava escuro e frio, como se há muito tempo estivesse abandonado. Ela suspirou profundamente ao remover o lenço que cobria sua cabeça e ergueu o olhar para observar as hastes das lancetas de metal que adornavam o interior do castelo. Com a mão direita, conjurou uma esfera reluzente que iluminou o local, revelando detalhes ocultos nas sombras.
Nos salões mais profundos, a umidade impregnava o ar com um cheiro de terra antiga e cera derretida. As tapeçarias desgastadas se agarravam às paredes, escadarias em espiral serpenteavam para torres que se perdiam na neblina densa, e passagens secretas escondiam-se entre contrafortes e colunatas, como se a própria arquitetura conspirasse para ocultar mistérios.
Enquanto suas memórias ecoavam em sua mente ao observar o castelo, ela percebeu que havia fugido de um castelo apenas para encontrar refúgio em outro. Explorando os corredores envoltos em penumbra, deparou-se com uma sala oval que chamou sua atenção. Uma longa janela abobadada permitia que um feixe de luz suave iluminasse o ambiente. Estantes repletas de livros antigos e empoeirados alinhavam-se ao longo das paredes curvas enquanto, no centro da sala, uma mesa exibia pergaminhos enrolados.
Ela perambulava pela sala, os olhos analisando a disposição dos móveis e se detendo nos títulos dos livros alinhados nas estantes. Os títulos chamavam a sua atenção, Os Manuscritos Enóquicos e Os Três Livros da Filosofia Oculta estavam entre eles. Para enxergar melhor, conjurou uma esfera de luz branca que flutuou acima de sua cabeça, banhando o ambiente com um brilho frio e pálido.
Folheando outros livros da estante, ela encontrou um bestiário sem nome na capa e entre páginas amareladas, deparou-se com criaturas que nunca havia visto antes, seres distintos, oriundos de dimensões além da compreensão. Ao parar numa página em particular, um nome saltou aos seus olhos: Ttyphrssett. A descrição era de uma criatura inominável, com pele pálida e elástica, marcada por rugas profundas e atravessada por um emaranhado de veias pulsantes em tons de roxo intenso. Os olhos, desprovidos de íris e retina, eram abismos opacos, poços de vazio absoluto. Da protuberância que formava sua boca, despontavam dentes afiados como lâminas agudas, enquanto seu corpo, esguio e esquelético, sustentava uma cabeça longa e curvada, grotesca em sua forma.
Ela ficou imóvel por longos segundos, os olhos fixos na ilustração ao lado da descrição. Havia algo perturbadoramente fascinante naquele ser, mas o que mais prendeu a atenção de Minerva foi uma nota que leu abaixo da imagem. De acordo com o bestiário, aquela criatura manifestava-se apenas durante um raro alinhamento de quatro planetas: Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.
Esse evento cósmico liberava uma energia ancestral, tão poderosa que era capaz de rasgar o tecido do cosmo, abrindo uma fenda para dimensões esquecidas. Dessa brecha insondável, banhada em sombras e ecos de magias primordiais, emergia o Ttyphrssett uma entidade que surgia dos reflexos, seu toque poderia devorar lentamente a alma de todos que tivessem a desventura de cruzar seu caminho.
Ao ler essas palavras, a memória do estranho fenômeno que havia presenciado no céu, lhe veio à mente como um presságio. Fechando o livro, devolveu-o à estante, como se pudesse, com esse gesto, trancar o conteúdo que lá estava. Decidida a afastar as imagens que invadiam sua mente, Minerva saiu da biblioteca. A pequena esfera de luz flutuante continuava a iluminá-la, projetando sombras alongadas pelas paredes do castelo enquanto ela caminhava. A escuridão ao redor parecia cada vez mais densa.
Ela subiu uma escada em espiral, por longos minutos, até se deparar com um corredor que se estendia como um túnel infindável, ladeado por portas altas e angulosas, todas idênticas em uma geometria opressiva. O silêncio ali não era natural e parecia carregado por um peso invisível, como se algo esquecido observasse das sombras. Minerva caminhava hesitante, sentindo a atmosfera ao seu redor, até que seus olhos pousaram em uma porta distinta das demais. Gravado em sua superfície desgastada, o símbolo do ouroboros que reluzia fracamente, aquilo evocou memórias fragmentadas do conhecimento de sua vida passada.
Com um gesto sutil, ela murmurou um encantamento e a fechadura cedeu sem resistência, como se a madeira e o ferro tivessem esperado por seu comando. A porta se abriu com um ranger estridente, e o espaço adentro revelou-se um quarto abandonado ao tempo. O ar ali dentro era denso, impregnado pelo cheiro de poeira. No centro do aposento, uma cama solitária jazia sob um manto de poeira. Sem se importar com a sujeira, Minerva se deitou sobre os lençóis ásperos e embolorados, e enquanto sua consciência esvaía-se no torpor do sono, sentiu, ou imaginou sentir, um murmúrio longínquo vibrando sob a estrutura do quarto.
Quando despertou, algumas horas depois, o silêncio era estático. Ainda deitada, seus olhos vagaram pelo aposento até pousarem sob um objeto à sua frente. Encostado contra a parede, diretamente oposto à cama, um grande espelho retangular erguia-se como um monólito. Suas bordas de prata, manchadas pelo tempo, contrastavam com o véu negro que ocultava o vidro concavo do reflexo. Minerva ergueu-se lentamente, seus passos ecoaram surdos no chão empoeirado enquanto se aproximava do espelho. Um frio espectral percorreu sua pele quando sua mão se estendeu para tocar o tecido denso e opaco.
Seus olhos tremeluziram quando, em um movimento rápido, ela removeu o tecido que cobria o espelho. Por alguns instantes, encarou o próprio reflexo como se o visse pela primeira vez. A superfície do espelho, embaçada pelo tempo, distorcia levemente sua imagem, mas ainda era possível discerni-la. A esfera luminosa se aproximou novamente, projetando uma penumbra entre ela e o vidro. Seu cabelo negro, desgrenhado e esvoaçante, estava preso apenas por duas mechas reunidas com um broche na parte de trás. A calça de linho escura mostrava sinais de desgaste, e as botas finas e rendadas já acumulavam sujeira e umidade da neve. O longo casaco Garrick Coat preto e acinturado, abarrotado e coberto por marcas de uso, exibia manchas acinzentadas. Ela fitou sua própria imagem e, por um instante, tudo o que viu foi a figura de um pedinte.
Após alguns instantes contemplando a própria visão, seu reflexo começou a tremeluzir em fios de luz roxa, distorcendo-se em ondas etéreas. Seus olhos, antes familiares, tornaram-se violetas, vibrando com uma luminescência antinatural. De súbito, ela deu um passo para trás, o coração disparado sem compreender o que estava acontecendo. O seu próprio reflexo tinha ganhado vida!
Então, a figura no espelho vociferou um zunido lancinante, alto como o lamento de uma banshee, rasgou o ar, obrigando-a a cobrir os ouvidos e se encurvar sob a dor. Sua imagem continuou a se contorcer, desfeita em sombras púrpuras e pulsantes, até dar lugar a algo grotesco.
Diante dela, uma figura corpulenta e esquelética emergia em distorção, seu crânio alongado desafiando qualquer lógica geométrica. Mandíbulas se abriam além dos limites normais, expondo fileiras de dentes finíssimos, como agulhas de marfim manchado, que reluziam à luz de uma fonte invisível. No lugar dos olhos, apenas poços esbranquiçados e vazios, devorando a realidade.
Os membros do ser, longos e desproporcionais, terminavam em garras multifacetadas que se dobravam e desdobravam com movimentos imprevisíveis, como se seguissem um ritmo ditado por forças além da compreensão humana. Aquilo começou a se posicionar para fora do espelho e seu deslocamento não era uma caminhada, tampouco um rastejar, mas um fluir espectral, um deslizamento silencioso negando as leis da gravidade. Minerva tentou fugir daquela visão anormal a passos rápidos em direção a porta do quarto, mas a criatura a perseguia. Ela estava desprovida de armas, tinha apenas a sua magia consigo e era com ela que contava.
Minerva corria a passos longos pelo corredor enquanto ouvia o remexer corpulento e estranho daquela criatura pelo ar, ela não estava apavorada em si, mas não queria precisar usar sua magia final como último recurso, por isso, tentou fugir da criatura para lutar contra ela à distância e, talvez, queimá-la com suas chamas ou eletrocutá-la com seus raios. As cenas de como abater aquilo passavam por sua mente enquanto ela buscava a saída do castelo. A criatura avançou rapidamente, movendo-se junto às paredes e saltando pelo corredor escuro. À frente estava um vitral e Minerva mirou os vidros desenhados com a pintura de um demônio alado cavalgando um corcel; ela iria jogar a criatura contra o vitral ou a si mesma.
Sua mente trabalhava febril, traçando possibilidades, pesando: fogo? Raios? Qual magia poderia desfazer aquela aberração que parecia tecida pela própria Hela?
A coisa se aproximava. O zunido de sua presença se confundia com os ventos uivantes que atravessavam os corredores do castelo. E então, com um estalo súbito, ela saltou, as garras se estendendo para capturá-la. Minerva girou sobre os calcanhares e lançou um raio crepitante de suas mãos, a centelha azul iluminando por um instante a abominação que avançava. O feixe a atingiu em cheio, mas a criatura apenas vacilou, a pele translúcida pulsando em padrões doentios, como se sua própria carne se contorcesse para se recompor.
O impacto do ataque empurrou Minerva alguns passos para trás, até que suas costas tocaram uma parede fria. Não havia mais para onde correr. À sua direita, uma janela alta se erguia, seus vitrais manchados por marcas acinzentadas. A criatura rugiu, e o som que emanou de sua garganta era vibrante e gutural.
Minerva não hesitou. Com um gesto rápido, ergueu as mãos e projetou uma explosão de chamas contra o chão. Então, antes que ele pudesse reagir, ela lançou-se contra a vidraça. O vidro explodiu ao seu redor, cada fragmento refletindo as chamas como facas suspensas sob o ar. E a criatura, movida pelo próprio ímpeto, seguiu-a na queda.
O frio atingiu Minerva antes mesmo de tocar o chão. O impacto foi violento, os flocos de neve cederam sob seu corpo, mas não o suficiente para amortecer sua queda. O mundo girou por um instante, levando com ele o céu escuro, as torres do castelo, a criatura retorcendo-se na queda. A bruxa cerrou os dentes, sentindo o gosto metálico do sangue. A luta ainda não havia terminado.
Ela abriu os olhos e as suas escleras pulsavam em vermelho vivo, ressaltando o azul brilhante, cor de safiras, aquele fenômeno indicava a sua irritação. Ela ergueu-se aos poucos da neve, estava coberta pelos flocos. Ao ficar de pé, olhou para o céu e viu os planetas ainda em perfeito alinhamento triangular, então, teve a certeza de que estava em confronto com o Ttyphrssett.
O silêncio se fez presente, mostrando que algo estava errado, onde estava ele? O ataque veio sem aviso. Algo cortou o ar ao seu lado, rápido como a lâmina de uma guilhotina, e ela mal teve tempo de esquivar-se antes que garras invisíveis rasgassem seu ombro. O vento trouxe um roçar fantasmagórico. O inimigo era o próprio véu de gelo que a cercava, ele se camuflara com a neve.
A criatura atacou novamente. Desta vez, ela estava à espera do golpe. Com um giro preciso, ela usou sua magia fazendo surgir de suas mãos as garras de loba que não encontraram resistência, rasgando o invisível. Um grasnar disforme soou, e por um breve instante, luzes arroxeadas brilharam, revelando a silhueta da aberração. Minerva viu seus dentes escancarados que logo se dissiparam invisíveis. Sem hesitar, ela ergueu as mãos já naturais e liberou uma torrente de chamas. O fogo crepitou, dourado e impiedoso, iluminando o vazio onde a coisa se camuflava e mais uma vez o golpe revelou o corpo disforme, contorcendo-se em brasas e luzes púrpuras, a criatura urrou, mas não cedeu.
Minerva ergueu um escudo esférico ao seu redor, protegendo-se do monstro, ela sentia os golpes frenéticos contra o escudo invisível. Ela precisava dar um fim àquilo; seus olhos vermelhos estavam frenéticos e atentos a cada movimento. Concentrada e decidida, ela já sabia o que fazer. Sussurrou palavras, baixinho, enquanto desenhava círculos, linhas e setas ao seu redor. Os sigilos cintilavam no ar enquanto ela pronunciava as palavras cuidadosamente.
Sua voz entrecortada pelo vento gelado que uivava ao seu redor, fez as palavras escaparem de seus lábios roucamente; eram sílabas distorcidas, fragmentos de uma língua oculta. A cada símbolo que traçava no ar, o tecido da realidade tremeluzia, como se uma força invisível hesitasse em ceder às vontades da bruxa.
A criatura sentiu o que ela estava articulando, então, o escudo esférico tremeu sob impactos cada vez mais violentos. A coisa não apenas atacava, mas berrava dissonante, uma reverberação além do espaço tangível. Minerva cerrou os dentes ao se concentrar e a criatura voltou a aparecer no meio da neve, ela quebrou o encanto da camuflagem.
Os sigilos, agora incandescentes como brasas azuladas, começaram a girar em torno de seu corpo. O chão sob os pés da criatura ruiu em um abismo e seres obscuros e monstruosos surgiram, presenças cujos olhos fitavam o Ttyphrssett.
A criatura golpeou, com um frenesi desesperado, o escudo. Fissuras finíssimas serpentearam pela superfície translúcida do escudo, como rachaduras em vidro prestes a se estilhaçar. O monstro sabia que estava sendo banido, que seu domínio sobre este mundo se desfazia como névoa ao sol nascente.
Minerva ergueu os braços, as mãos envoltas em uma luz ofuscante, e gritou a última palavra de suas preces: "Eligos". O ar ao redor explodiu em um clarão sinuoso, um relâmpago de luz e trevas entrelaçadas. A criatura emitiu um grunhido estranho e seu corpo esticou-se, distorceu-se, tornando-se um vórtice esbranquiçado com tons violetas que foi sugado para dentro do abismo onde os espectros sombrios o aguardavam. Por um instante, tudo ficou imóvel quando o abismo se fechou levando a criatura.
Ela deixou escapar um suspiro sôfrego, a neve tornava a cair lentamente, dissolvendo os últimos vestígios da batalha. Minerva permanecia de pé, a respiração entrecortada, os olhos ainda brilhando com o resquício de um poder que se dissipava. O que enfrentara não era apenas uma criatura, era um fragmento de algo muito pior. Algo que, do outro lado do abismo entre os mundos, agora conhecia seu nome.
Batendo a neve dos ombros, ela ergueu o olhar para o céu, onde o alinhamento dos astros lançava um ar espectral sobre a vastidão nevada. Um arrepio percorreu sua espinha; havia algo de inquietante naquela dança cósmica, como se a própria estrutura do universo estremecesse diante de forças sidéreas. Seus olhos vermelhos voltaram ao natural e, mais tranquila, pensou no que mais ela poderia encontrar naquele lugar tão distinto. Então, retomando sua avidez, ela virou-se e caminhou retornando em direção aos portais do castelo, no limiar das dimensões.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Como de costume, ela caminhava sozinha pelos corredores do castelo, seus longos cabelos negros reluzindo com um brilho…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Como de costume, ela caminhava sozinha pelos corredores do castelo, seus longos cabelos negros reluzindo com um brilho azulado sob a pouca luz. O corredor que percorria era ladeado por uma extensa varanda de mármore, com vista para as imponentes montanhas envoltas pela neblina matinal. A penumbra de um céu nublado tornava o ambiente ainda mais sombrio, mergulhando tudo em uma atmosfera de mistério e quietude.
Uma voz masculina ecoava ao longe, chamando pelo seu nome. Ela não se virou para olhar, mantendo o passo sereno e despreocupado. Estava descalça, e o vestido preto, longo, era adornado com rendas e bordados delicadamente alinhavados que emolduravam a saia. Ao alcançar a varanda, ela parou, deixando o vento brincar com o tecido enquanto aguardava calmamente que a voz se aproximasse. Aquele era seu pai o rei Kheas, cabisbaixa ela apoiou o braço no mármore frio, sem olhar para a figura autoritária ao seu lado, como se já soubesse o que iria ouvir.
— Minerva! Já disse que não é adequado andar descalça pelo castelo, mesmo sendo o que somos... — ele parou ao lado dela, penteando a barba longa e ruiva com os dedos. Kheas era um homem esbelto, tinha olhos fundos cor de mel e sempre se vestia com cores escuras.
— Não tenho o direito de sentir o chão do castelo? — respondeu ainda sem olhar para ele.
— Essa é uma atitude antiga demais, não precisamos mais fazer isso.
— E o que você sabe sobre as coisas antigas? — perguntou ela, com os olhos fixos no topo de uma montanha distante. O queixo repousava sobre a palma de sua mão direita, enquanto um suspiro desanimado escapava de seus lábios, carregando um ar de melancolia.
— Não fale coisas sem nexo, você é parte deste reino e eu sou a autoridade maior. Te espero na Sala das visões. — Ele se retirou com uma postura controlada, sem demonstrar irritação. No entanto, ela sabia que suas palavras o haviam incomodado.
Em outro momento, ao ser questionado por ela dessa maneira, agiu de forma oposta. O resultado foi a princesa passar quase um mês com o rosto escondido por um véu negro. Seus olhos azuis, agora vermelhos como sangue, estavam constantemente marcados por lágrimas silenciosas. Em seus pensamentos sombrios, ela jurou a morte de seu pai, Kheas.
Uma jovem princesa, filha da magia e das montanhas, vivia confinada, presa às mesmas correntes que um dia aprisionaram sua mãe, a rainha Nuara. Por anos, o rei as tratou como meras joias da coroa, belas, mas silenciadas. Ele explorava os poderes e a inteligência de ambas, mas nunca lhes concedia o verdadeiro crédito por seus feitos.
Nuara era conformada com sua condição, enquanto a filha não aceitava, de nenhuma maneira, aquela forma de vida. Suas fortes personalidades eram tidas, por todo o reino, como flores da meia-noite: muito delicadas. A beleza das duas chamava atenção. A corte e o povo não imaginavam que a genialidade das construções e da gestão era, na verdade, autoria das duas, que eram confinadas ao disfarce do silêncio.
Minerva carregava consigo um rancor profundo, fruto de anos de sofrimento silencioso. Ela não era uma rosa delicada, mas sim uma pedra preciosa e rara, dura como um diamante — um diamante que seu pai insistia em tentar quebrar. Tratando-a como um mero objeto de estudo, ele a subjugava com sua autoridade, reforçando que ela era parte do reino e devia obrigações. No entanto, o pior de seus atos deixou marcas irreversíveis: ele a transformou em cobaia de uma transmutação, um experimento cruel que deixou cicatrizes não apenas em seu corpo, mas também em sua alma.
O Reino da Áugures, um lugar onde os segredos da ciência antiga eram guardados nas sombras, era o domínio de Kheas, um alquimista obcecado pelo que todos buscavam: o conhecimento absoluto. A imortalidade, uma dádiva rara de sua raça, não era o suficiente para saciar sua sede insaciável por poder. Em sua busca, ele ousou realizar o impensável, transmutou sua própria filha, Minerva, fundindo-a com uma loba.
A forma resultante foi a maldição do reino, um reflexo de sua crueldade. As dores da transmutação não apenas afetaram seu corpo, mas também corroeram sua mente. Durante meses, Minerva permaneceu como loba, uma criatura atormentada pela dor física e pela confusão mental, enquanto o reino, agora marcado por essa transformação sombria, ecoava os ecos de seu sofrimento.
Sem conseguir reverter o processo, Kheas trancou Minerva em uma cela no calabouço do castelo, condenando-a a viver em sua forma monstruosa. Mas foi quando Nuara, a rainha, interveio, determinada a salvar sua filha, Nuara fez ajustes em elementos místicos e, com grande esforço, conseguiu libertar Minerva de sua forma de loba, mas ela ainda transmutaria na lua cheia.
Cada vez que a transformação acontecia, ela chamava esse processo de "rasgar a pele", pois sentia como se sua essência fosse dilacerada, dividida entre duas existências, forçada a conviver com a dualidade de sua natureza. Em condição de loba, ela se tornava um pouco inconsciente de si própria, era uma enorme fera de pelos negros. Avistá-la era assombroso. Seu corpo se contorcia e sua pele se rasgava. Uma bruxa em pele de loba, insana nas noites de lua cheia.
Ela caminhava em direção à Sala das Visões, o peso da tristeza obscurecendo seus passos. Era hora de revelar os planos de Kheas, um segredo que pesava mais do que o próprio silêncio que envolvia o castelo. A Sala das Visões era uma biblioteca peculiar, circular, com estantes escuras de jacarandá que se estendiam até o teto. Cada prateleira estava repleta de livros antigos, escritos em línguas que desafiavam o entendimento de muitos. O ambiente, sem janelas, parecia sempre imerso em uma sombra perpétua, e o frio que emanava das paredes parecia penetrar até os ossos.
No centro da sala, um pentagrama intricadamente desenhado no chão servia como base para uma mesa redonda, onde repousava um candelabro de ouro negro. Criado pelas primeiras bruxas do reino, o candelabro emanava uma luz tênue e distante, como se carregasse consigo séculos de feitiçaria e sabedoria ancestral. Ela sabia que, naquele lugar, cada segredo do reino estava guardado, e agora era sua vez de desvendar o mais sombrio deles.
Minerva utilizava o candelabro negro para acender as suas velas ao realizar, ritualisticamente, as leituras de tarot, as bruxas do passado eram suas guias durante o processo. Kheas já estava lá sentado à sua espera. Ao chegar diante do local, ela respirou fundo enquanto olhava o ouroboros de madeira esculpido na porta. Aquela serpente engolindo a própria cauda sempre a lembrava de sua primeira transmutação. Sempre se repetiria. Pedindo forças à magia, ela entrou e foi até o centro, sentou-se à mesa já prevendo o que ele iria perguntar, o que sugaria sua energia naquela tarde.
— Preciso saber se seremos bem-sucedidos na comemoração de amanhã, onde você conhecerá seu noivo. — Ele estava sério com os olhos fixos nos dela.
— Acontece que já o conheço, ele só não sabe o que você fez com a noiva dele. — a voz dela soava trêmula.
— Você entendeu o que eu quero dizer. Preciso que saiba controlar a sua situação para que nada saia do comum amanhã na lua cheia.
— Para que a maldição que me impôs não atrapalhe a aliança entre Áugures e Zhale? Ele não sabe das histórias que contam por aí?
— Minha querida, o rei Hansert será um bom marido. Já que se amam, seja sensata!
— Ele não sabe por sua culpa! – exaltada ela parou de súbito, respirou fundo e continuou. — Vamos às cartas...
Ela respirou profundamente, posicionou a vela no candelabro e a acendeu, permitindo que a chama dançasse com suavidade. Sob a toalha especial, espalhou as cartas de tarot, seus dedos acariciando o tecido enquanto sua mente se concentrava no que estava prestes a acontecer. Com um movimento lento, sua mão direita se ergueu no ar, percorrendo as cartas, captando a energia que elas emanavam.
A primeira carta foi puxada com cuidado e colocada sobre a mesa. Seus olhos estavam fechados, os lábios murmurando palavras antigas, enquanto as mãos trêmulas sentiam a conexão entre o presente e os destinos que estavam prestes a ser revelados. A sala parecia suspensa, aguardando o desfecho das forças que se alinhavam diante dela.
Novamente ela percorreu a mão pelas cartas sentindo a energia que atraía sua mão e escolheu a segunda, o mesmo foi feito na escolha da terceira.
— A primeira carta é O Mundo, quer dizer que o momento é propício, a festa pode sim ser muito bem aproveitada.
— Enquanto a segunda carta? — perguntou ao apontar.
— A segunda carta é O Diabo, pelo contexto você está preso a alguma coisa. Suas conquistas que escondem o que você realmente é. Isto provavelmente está ligado ao que aconteceu que você tanto deseja esconder do mundo.
— Não é isso que eu quero saber, Minerva! — ele falou com rispidez.
— A festa vai ser bem-sucedida. O rei Hansert ficará feliz, só que esta carta do Diabo mostra um apego forte aos seus bens e diria até mesmo... O medo de se perder tudo! Ela está invertida. Indica que é o momento de olhar para o seu ego, pai! Não é o momento de esconder mais nada! — ela estava apreensiva.
— Chega, não preciso ouvir você! — ele gritou, sua voz ecoando pelas paredes da sala. No mesmo instante, a marca da transmutação de Minerva surgiu em sua mão esquerda, uma linha vermelha incandescente que iluminou a palma com um brilho intenso e ameaçador. Ela, no entanto, não se intimidou. Ignorando o fenômeno e a fúria dele, continuou a leitura.
— A terceira carta é o Enforcado. — Houve uma pausa em sua fala — O que você deseja exige sacrifício e, pelo visto, você está disposto a fazer.
— Você sabe que sim. Amanhã é lua cheia, e, se for necessário, eu a trancarei. Não ouse usar seu poder contra mim amanhã à noite. Sua língua será selada, e você não pronunciará uma única palavra, seja como bruxa ou como loba, se é que a fera é capaz de falar e não apenas rugir! — declarou ele com frieza, cada palavra carregada de ameaça e controle.
— Sim, meu pai, eu não pretendo te envergonhar em uma noite tão importante! – disse ela, ironicamente.
Ele se levantou da mesa e deixou a sala sem sequer agradecer pela leitura feita. Minerva, com os nervos à flor da pele, pressionava as têmporas com força, tentando conter a irritação que pulsava em sua mente. Ela soprou a chama da vela revoltada, guardou suas cartas e saiu de lá sem finalizar o ritual devidamente. A porta da sala ficou aberta, dividindo o círculo do ouroboros ao meio.
***
Minerva estava em seu quarto, acariciando um enorme gato preto. Ambos estavam deitados em um sofá espaçoso, escarlate como sangue, a lua invadia o lugar pela janela longa em formato de lanceta. Seu pensamento estava distante, um recado de Hansert foi entregue a ela, enviado por um corvo astral que entrou pela janela. A tinta do bico de pena ainda estava com o cheiro forte, estava escrito:
“Logo nos encontraremos, filha da penumbra, dona do meu coração.”
Amavam-se, porém, ele não sabia que a sua condição de loba era feral. E ela tinha planos para que isto mudasse. Ele acreditava que ela era uma beldade atormentada pelas dores de sua “pele rasgada”, Kheas o convenceu de que, como loba, ela era consciente e o casamento era um sinal de aliança entre dois reinos sábios. O segredo de Minerva, supostamente, seria uma herança para os futuros herdeiros dos dois reinos.
Rosas vermelhas adornavam cada cômodo, seu perfume intenso contrastando com a escuridão. Os convidados, trajados elegantemente em preto, moviam-se com uma graça quase teatral. Zhela e Áugures, repletos de segredos e histórias compartilhadas, estavam finalmente reunidos sob o mesmo teto, sob a vigília silenciosa da noite.
A noite da festa estava especialmente escura e as nuvens no céu eram vermelhas, a lua se escondia nas trevas. O castelo estava decorado com muitos castiçais, haviam rosas vermelhas distribuídas pelos cômodos e as pessoas estavam elegantemente trajadas em preto. Zhela e Áugures estavam no mesmo lugar.
Minerva estava em seu quarto, mas a sensação que a envolvia era a mesma de quando estava na masmorra. Para ela, não fazia diferença; sentia-se apenas um experimento, uma criação sem vontade própria. Amarras pesadas a prendiam à parede em frente à janela, e em seu pescoço repousava uma coleira de couro de dragão, presa a uma corrente de aço forjada pelas mãos habilidosas dos anões.
O quarto era tomado por seus gritos, longos e agonizantes, enquanto seu corpo se contorcia, sofrendo a inevitável transmutação. A dor era lancinante, como se sua própria essência estivesse sendo rasgada e moldada novamente sob o peso de uma maldição.
Os gritos de Minerva ecoavam pelo castelo, atravessando as paredes e chegando ao salão onde a música da orquestra real tentava abafar a agonia. O som do piano e do violino se mesclava com os gritos distantes, criando uma melodia tenebrosa. No centro do salão, o rei Kheas mantinha sua fachada inabalável, transformando seu erro em uma nova mentira.
Ele declarou a todos que sua filha havia se voluntariado para o experimento, manipulando a narrativa para proteger sua reputação. A festa, repleta de convidados trajados de preto, celebrava não apenas uma aliança, mas o suposto controle sobre Minerva. O noivado entre Minerva e Hansert simbolizava a união dos reinos Áugures e Zhelas, prometendo consolidar suas forças sob um só poder, ainda que o preço fosse o sacrifício de sua própria filha.
A princesa seria finalmente apresentada em sua forma de loba e as histórias de suas aparições sombrias seriam confirmadas. Esta era a noite das feras, os lobos e as bruxas eram exaltados. As nuvens já se mexiam com o vento, os uivos de Minerva eram altos e poderosos. Todos estremeceram ao ouvir e sentir o poder que emanava vindo dela.
As memórias de sua primeira transmutação sempre pairavam em sua mente. Naquela noite, todos conheceriam a bruxa e loba que nela habitava. Aquela corrente a enlouquecia, ela desejava fugir enquanto sofria. Seus uivos evocavam os uivos ferais de outros lupinos e até mesmo os cães uivavam por ela. Todos ouviam seu rugido que não mais seria silenciado!
No baile, os bruxos da corte entregavam-se à diversão, seus risos e murmúrios crescendo à medida que se embriagavam com o vinho vermelho como sangue. Entre taças erguidas e olhares conspiratórios, Hansert permanecia inquieto, imóvel durante o evento.
Cada uivo que ecoava pelos corredores do castelo parecia atravessar os ouvidos dele e cravavam alfinetes em seu coração. A dor não era apenas física; era o peso insuportável da culpa e do horror, enquanto a verdade da maldição de Minerva se desenrolava bem acima deles.
Atrás da porta do quarto, a rainha Nuara sofria em silêncio, suas lágrimas vermelhas escorrendo como gotas de sangue que carregavam toda a sua angústia. Cada soluço abafado era uma pergunta sem resposta: por que não conseguia reagir? Por que permanecia imóvel diante da loucura de Kheas? Encostada na parede de pedra fria, ela escondia o rosto entre as mãos trêmulas, enquanto o peso da culpa e da impotência a esmagava. Seu coração estava em pedaços, dividido entre o amor por sua filha e o medo paralisante do homem que chamava de rei.
Enquanto no andar de cima os sofrimentos de Minerva eram ocultados nas sombras do castelo, os dois reis discutiam no salão principal, seus olhares frios e calculistas observando a festa que acontecia ao redor deles. Entre copos de vinho e risos forçados, suas palavras afiadas se cruzavam, trocando acusações e estratégias.
—Rei Kheas, eu preciso vê-la! Ter certeza de que ela está bem.
— Claro que ela está bem! Só precisamos diminuir um pouco toda a histeria da corte.
— O que quer dizer? – Hansert o olhou confuso.
— Seria interessante evitar que ela assustasse nossos convidados.
— Ela está sofrendo com as dores e está acorrentada como um animal, como pode ser tão frio?
— Rei Hansert, lembre-se de que a Minerva que conhece é uma criatura da noite. O que queremos é mostrar força, somos melhores que os homens comuns e sem magia é isto que queremos impor esta noite!
— Não foi isso que você me falou antes, ela poderia ter morrido neste experimento hediondo que você inventou! Só pensa em si mesmo e na magia oculta na escuridão que deseja dominar, como eu fui tão cego?
— Você não compreende. Não tem a noção do poder que está guardado nela, diria que nem ela ainda tem. Não pense que ela sofreu sozinha. — ele desviou o olhar, um vulto sinistramente negro adentrava o salão, todas as velas se apagaram e a música parou.
PELE RASGADA
Minerva estava imersa na dor de suas primeiras memórias da transmutação. A maneira como tudo havia acontecido, foi tirada à força de seu quarto em uma noite tempestuosa, arrastada para um calabouço onde foi espancada e teve a alma violada pelo próprio pai. Por alguns segundos se calou, sabia que estava quase no fim. Seus olhos viam patas no lugar das mãos e a dimensão do ar que respirava era diferente. Ela era uma loba, o presente mais imponente que ganhara de seu algoz e a maior maldição.
IPSO FACTO
Todos estavam imersos em um tremor coletivo, paralisados pela visão estática da criatura diante deles. Enorme, ela se destacava na penumbra da noite, seus pelos negros e brilhantes refletindo, de forma fantasmagórica, a luz vaga da lua que adentrava pela janela do salão de festa. A cada movimento, os pelos pareciam brilhar como se fossem feitos de sombras e luar. Seus olhos, azuis e faiscantes, eram como chamas em meio à escuridão. Uma corrente quebrada pendia de seu pescoço, uma marca do passado e da dor que a acompanhava.
Um uivo longo e agonizante rompeu o silêncio, ensurdecendo os presentes, fazendo com que todos se tremessem de medo e fascínio. Kheas, no entanto, a olhava fixamente, diante de algo que ele mesmo havia criado e agora não podia mais controlar. Quando ele deu um passo à frente para se posicionar, Hansert interferiu avisando para que ele olhasse ao redor, uma legião de lobos estava se agrupando ao redor dela. A grande loba encarava os bruxos e bruxas com desdém e fazia menção de falar.
— Esta é minha forma, e esta é minha legião de feras. Esperei muito por isso — a voz de Minerva ecoou com um poder sombrio, reverberando pela sala. Seus olhos faiscavam com uma intensidade ameaçadora, enquanto as criaturas ao seu redor se agitavam, como se atentas à sua autoridade. — Temam a mim e não a ele — continuou.
— Por favor... — Kheas tentou falar, mas foi interrompido abruptamente. Um dos lobos avançou, derrubando-o com força e mordendo-o, ameaçando rasgar sua garganta.
— Somos fortes, e somos um, meu pai! Esses não são bruxos, mas lobisomens que vivem nas montanhas de Áugures. Ele não é rei, é um verme... — Minerva rosnou com a ferocidade de uma líder, suas palavras ecoando com o peso de sua nova identidade.
A multidão, paralisada, observava em choque enquanto os lobos se espalhavam, cada um se aproximando lentamente de uma pessoa. O medo se espalhava como uma epidemia, e o ar vibrava com a tensão crescente. Os lobos, em ferocidade, cercavam a todos, prontos para mostrar que o poder de Kheas havia se desvanecido naquele momento.
Minerva se aproximou de Kheas, que tremia sob o olhar feroz de sua filha, uma loba imponente. O silêncio no salão se estabeleceu por alguns segundos quebrado apenas pelos uivos distantes e pelo som da respiração pesada da criatura. Ela se abaixou até ele, suas garras afiadas tocando sua pele, realizando um movimento rápido e brutal, arrancou a cabeça de Kheas, a engoliu diante dos olhos atônitos de todos.
O sangue jorrou, escorrendo pelo chão, enquanto Minerva ergueu-se, agora mais poderosa do que nunca. O noivo, Hansert, estava paralisado, impotente diante da visão de sua futura esposa, transformada em uma fera imbatível. Ele ficou sozinho no salão, a multidão dispersando em pânico, incapaz de compreender o que havia acontecido. A rainha Nuara observava escondida toda aquela cena.
Minerva olhou para ele uma última vez, seus olhos azuis faiscando com um brilho gélido e distante. Sem uma palavra, ela virou-se e se uniu aos lobos que a acompanhavam. Eles avançaram, e como uma sombra, desapareceram na noite, deixando o castelo para trás. A liberdade estava finalmente ao seu alcance. Em um canto escuro da sala, ela viu a figura de sua mãe, Nuara, parcialmente oculta nas sombras, os olhos assombrados pela dor. Por um momento, seus olhares se encontraram. Ela se aproximou, suas palavras suaves, mas firmes, cortando o silêncio:
— Mãe, venha comigo. Não há mais razão para permanecer aqui!
Nuara hesitou por um instante, os olhos perdidos em uma mistura de medo e alívio. Com um suspiro resignado, Nuara se aproximou e, com a ajuda de Minerva, subiu nas costas dela, montando como uma amazona. Juntas, mãe e filha começaram sua fuga.
Os lobos, como sombras ágeis e implacáveis, se moveram ao redor delas, guiando o caminho para a liberdade. Enquanto o castelo ficava para trás, Minerva sentiu, pela primeira vez em sua vida, que o peso das sombras de seu passado estava finalmente sendo deixado para trás. O destino dos reinos de Áugures e Zhelas estava selado, mas agora, ela era a dona do seu próprio caminho sob o luar.
No pélago da noite púrpura, à deriva, os ignorantes gargalham uns dos outros. Enquanto divertem-se, a escuridão silente esparge frígida, tornando-se…