Capítulo 9 – Perturbadoras Revelações

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Um abrupto sopro de vida e meus olhos foram circundados pelo lume de um dia nublado. Eu dormia? Ao derredor, um cemitério árido e lúgubre descansava, com carvalhos negros ressequidos e antigas estátuas de mármore cobertas por um tipo de limo amarantino à beira do índigo-profundo. À frente, um homem dava forma a uma sepultura, cavando sem pressa; observando a terra atra e úmida se amontoar ao lado da cova. Demorei-me para compreender que o indivíduo proferia palavras, as quais eu bem ouvia, após o súbito despertar que fizera um estranho chiado perturbar-me os ouvidos. Demorei-me, igualmente, para assimilar-me em pé, segurando em mãos um pequeno livro e vestida em tecido de veludo, na cor noite-violeta.  

— … que entendia como algo irrelevante, tal qual a vida em si mesma é compreendida por um recém-nascido. Era, entretanto, aprazível viver nos augúrios nadificantes em Sihren, pois, vês? Cá é tudo cinza e silente. Lá, entre jardins de espécimes indizíveis e mais tantos visitantes a trazerem mudas crescidas de ascehderas e lihrios, eu podia me deleitar com o aroma místico enquanto aconselhava as criaturas que, na verdade, nunca precisaram de conselhos. Ah… sim… Sihren era mesmo o paraíso… aqui, entretanto, eu sou esta mórbida criatura que rasteja na terra e estes corpos, enterrados soltos no solo infértil, nunca recebem flores, tampouco saudações d’algum vivo que deles se recorde. — Após calar-se, o homem fitou os céus, como se mergulhasse em memórias. — Bom saber que eras de Sihren, senhora. Saber que tenho uma conterrânea, afaga esse meu velho coração. Não só uma, já conheci alguns outros… inclusive Olga… bem petiz, ela corria pelos corredores do Castelo do nosso imperador… ah… que saudade… 

Minha reação, se é que posso dizer que reagi, era como um oceano infinito de incertezas sôfregas. Eu decerto o olhava confusa. Senti-me colocada em meio a algo que não me pertencia; desde o local até o corpo meu, pois, tão íntimo aquele senhor me dirigia sua palavra serena sobre o que tínhamos em comum, entretanto, como poderia saber? E eu lhe disse que sou de…Sihren? Mas como o poderia dizer se eu, decerto, não disse? E Olga, criança? Como e quando tal fenômeno ocorrera? Quem poderia ser este imperador? Eram tantas indagações, entretanto, nenhuma se clarificava à medida em que eu me esforçava para lembrar. 

— Eu… — Sem que pensamentos torturantes florescessem, busquei algo sutil para trazer à tona e fazer com que o homem caísse em seu falatório que, por muito, soava-se valioso. Todavia, seus olhos se voltaram a mim e sua face, outrora tão tenra, transfigurou-se n’um pavor desmedido. O homem, na tentativa de fugir de mim como se eu lhe fosse a pior das assombrações, tropeçou em sua pá, ficando ainda mais horrorizado. 

 — Tu… tu és… um deles! — Bradou atormentado em medo. 

— Senhor… por favor… eu não… 

— Vampira!!! — Seu vocífero contornou os quatro quantos do universo. Ele ergueu-se com dificuldade, apoiando-se na terra, sujando suas mãos ainda mais.  

— Eu não te farei mal… — Tentei explicar. 

— Teus olhos… onde estão…? Mudaram… tu és…como eles! Eles! — O homem correu com uma pressa espectral, guiado por um frenesi de medo insano entranhado na alma, como se fugisse do próprio passado reencarnado diante dele. Não o impedi, pois, sei que quaisquer ações poderiam levá-lo à morte súbita, tamanho era seu terror abominável. Apenas fiquei observando-o se afastar como um animal selvagem... embora, talvez, eu que fosse animalesca de fato. 

Diligenciei-me, sob uma promessa autoimposta, a absorver a cinesia do que me parecia um desvario meu, uma insanidade onírica; e, então, reordená-la para que fizesse sentido. Entretanto, toda a lógica sangrava diante de meus pensamentos toldados por um discernimento fragmentado. A verdade é que eu estava de volta ao prólogo, com os olhos abertos para o mundo e um oceano de enigmas para decodificar. Por infortúnio, diferente do sereno início, eu carregava muito mais fardos e, um deles, decidiu se manifestar enquanto eu ponderava... 

— Devias ter mantido teus olhos no fulvo que os pertence. — Ouvi. Olhei para trás e Seth estava ali, recostado em um carvalho. 

— Como... saíste? — Questionei incrédula. Ele pareceu meândrico. “Ó, fardo maldito!” pensei. 

— Do que estás falando, Áurea? — A voz de falésia e voragem. 

— O ritual... o círculo... como tu quebraste a magia? — Eu estava mesmo incrédula, a magia era poderosa, não poderia ter se desintegrado sem que alguém, intencionalmente, a tivesse rompido. Seth se aproximou. 

— Tu não te lembras? — Ele é quem estava, naquele instante e, mais do que eu, cético. Mantive-me em silêncio. Eu poderia estar perdendo minhas memórias recentes como um despertar de um sonho? — Hum... — Murmurou rodeando-me e, por fim, abaixou-se perto à cova, tocando a terra úmida. — Não te lembras que foste ao teu aposento, com uma adaga-cruz em mãos? Esta que refulge em teu cós, presa por uma fita de veludo? — Toquei-me a cintura, senti a adaga frígida. — E não te lembras de encontrar-me preso ao aposento e não ao círculo, dificultando a tua obscura intenção de fincar em meu peito o teu novo artefato? 

— Do que estás falando? — Interrompi-o, aflita. Seth gargalhou e levantou-se. 

— Interessante... se tu não te recordas, não serei eu o responsável por te trazer a lembrança; ainda mais sendo vítima da tua loucura e pendor assassino. Se não fosse por Olga, eu teria me tornado pó; mas... é gratificante saber que teu ponto fraco é tu mesma. 

— Fale-me agora, Seth! — Segurei-lhe em seu braço com uma força que eu não sabia me pertencer; estava com ira abíssica e desejei, confesso sem receios, que ele não existisse e que toda a sua ironia e seu sarcasmo sucumbisse junto dele para mais profundo que o inferno de onde ele vinha. Olhamo-nos de perto. Ele sorriu outra vez. 

— Um olho carmim... um olho dourado... Ela está vindo, Áurea... vais deixá-la entrar? — Pressionei ainda mais o seu braço e vi em seus olhos um fogo rubro faiscante enquanto seu semblante deixava o aspecto satírico e contornava-se em cólera. 

— Basta!!! — Murmurei furiosa. 

— Pergunta para Lorrt, Áurea. O maldito nocturvo que tanto te venera. 

Eu não sei como, mas, ouvi-lo falar de Lorrt fora o estopim do meu furor. Num único movimento célere, segurei a adaga-cruz e passei pelo rosto de Seth. Um sangue negro verteu quente da fenda aberta em seu queixo. Sua mão prendeu-me o pescoço no mesmo ímpeto e mais um corte fiz sobre ela até que, num golpe desordenado, Seth fez a adaga soltar-se de minha mão e cair sobre a terra. Desarmada, segurei sua camisa torcendo-a contra seu pescoço e o golpeei entre suas pernas, fazendo-o se curvar em dor; presos e entrelaçados no ódio, desequilibramo-nos e caímos na cova — não foi o suficiente para me fazer parar.  

Talhei seu rosto com meu punho fechado, três vezes, enquanto ele tentava prender minha mão esquerda. Sem sucesso. Embora fosse forte como um touro, não tinha nenhuma habilidade física contra meu esgueirar-se. Prensei seu estômago com meu joelho e senti-o segurar meus cabelos com avidez, buscando me parar. Seu murmúrio demoníaco se alastrava; cravei meus dentes em seu braço, fazendo-o me soltar e, fugaz, cravei-os novamente, mas em seu pescoço e suguei seu sangue asqueroso para, pouco depois, cuspi-lo em sua face. Seth, atordoado, grunhiu algo ainda mais diabólico e vi a tez de sua fronte rasgar como se algo em seu interior quisesse pôr à vista a verdadeira forma de sua constituição.  

Ssatt esstt hrasstt — Rosnou dizendo, grave algar. Forçou-me contra o muro, tentava virar-me para ficar sobre mim, mas não deixei; cravei meu olecrano em seu peito, fazendo-o tossir; entretanto, um obscuro calor em meu corpo emergiu como se dentro de mim e o incêndio daqueles olhos satânicos parecia se alastrar n’um ardor pecaminoso. Gritei como a morte em fel e chamas, enterrei minhas unhas em seu pescoço e as arrastei para baixo, sulcando sua pele. Por instantes, jurei que não haveria um fim, mas, o fogo do inferno cessou e Seth conseguiu prender-me os braços. Seus olhos atentos, seu corpo prensando-me na terra. 

— É desleal fazer isso, Áurea; eu não posso te ferir, eu devo te proteger, essa é a minha função. Foi tu que assinaste o acordo com Lahgura. 

— Que maldita proteção é esta? Obscurecendo as verdades que possui sobre minha própria existência! — Seth respirou fundo e soltou-me. Entre nós o silêncio pareceu-nos perdurar mil e uma noites. 

— Quando… — Ele iniciou, demonstrava exaustão. — Quando teus olhos refulgem dourados, ambos, uma outra personalidade se manifesta — Seth tocou suas feridas, feitas por mim, e gemeu de dor intensa. — Ela, a outra, determinada e ciente de toda a tua história, não teme nada, é instintiva. Ela desejou a minha morte na violência de suas mãos, com seu desprezível caráter incólume. Ela é perigosa... — Seth se apoiou, saindo da cova e se sentando à beira.  

— Não é fácil dizer a alguém importante que sua doença é psíquica e que esta, decerto, é a razão pela qual suas memórias desapareceram. Ela as roubou de ti... e eu... eu só não sabia como revelar este lídimo e pernicioso fato. — Confessou e estendeu-me sua mão esquerda, supus que pretendia me tirar da cova. Hesitei, mas, ele relevou o que devia e eu queria sair daquele úmido túmulo. E saímos, sujos de terra. Seth, sangrava. Nada proferi a respeito da revelação. — Minha Aessatt, eu te perdoo... não traga em tua fronte tal desespero. — Ele sorriu e eu o fuzilei com minhas retinas trêmulas em gana. — Agora, devo ir. 

Antes que eu pudesse desfrutar do seu desaparecimento, ele se esvaneceu. Tentou acariciar meu rosto, mas não o permiti. Apenas com sua expressão de cinismo, foi embora fazendo uma reverência arrogante. Com certeza foi para o inferno, lugar onde pertence.  

Demorei-me ali, sozinha. Vi o pequeno caderno e a adaga-cruz lançadas no solo fúnebre, peguei-as e as limpei como pude. Pouca e mórbida era a aragem que soprava e parecia-me que o entardecer não chegaria. Os céus, por instantes, soavam-me espúrio e o Castelo Drácula, no horizonte, uma miragem. Guardei a adaga em meu cós, no veludo que lhe era apropriado; abri o pequeno caderno. Havia uma frase escrita na primeira página, com a minha letra cursiva.  

Naomie e Noellie — no quarto umbral, de cor gaultéria. Há treze escadas abaixo, iniciando pela espiral da biblioteca. No estreito corredor, elas possuem o Oráculo das Sete Profecias. 

Uma parca esperança, pelo Norte que se fez possível, emergiu no meu íntimo como um lume tenro na escuridão. Meu caminho se erguera à frente, tal uma ponte no abismo. Com ou sem a maldição de Seth, eu iria até estas duas mulheres e, de lá, algo ainda que mais infinitesimal que minha esperança, em absoluto, alcançaria meu coração dilacerado e olvidado. A fé não fazia parte do eixo de minha existência, entretanto, era a única que poderia perdurar em mim, pois, se eu estava mesmo dividindo minh’alma com um alter ego, se ela guarda minhas memórias para si, como afrontá-la se ela é, pois, eu mesma? Pelo espelho? Refletindo as janelas do espírito? Embora as revelações tenham sido ácidas, eu intuía que ela, a outra que eu era, não queria confronto — não comigo. 

Um Oráculo, como previa aquela anotação, poderia ser deveras relevante para os que, como eu, perduram no longínquo de si mesmos. Portanto, pela lógica do enigma — pois era o que soava ser — descer uma escada em espiral na biblioteca do Castelo seria o iniciático movimento para alcançar o corredor estreito, onde a quarta porta em seu imo, de cor gaultéria, seria o aposento onde Noemie e Noellie estariam. Eu não sabia ao certo a localização da biblioteca, quero dizer, eu sabia sobre uma delas, local onde perscrutei sobre livros de exorcismos, entretanto, nesta, não avistei nenhuma escada em espiral, portanto, cri não se tratar dela. Deste modo, então, quando retornei ao alcácer — de volta às suas entranhas, sentindo o aroma de sangue e solidão, tive de acessar cada espaço em busca de uma orientação, ainda que intuitiva, para localizar um novo leito das palavras infindas. 

Em um dos aposentos, quando as esperanças se desintegravam mais céleres do que na gênese de minha busca, deparei-me com uma figura enigmática — tal como outras naquele recôndito sombrio que mais se assemelhava a um labirinto grotesco de lamúrias, silêncios perturbadores e angústias. Ela vestia-se com mantos pesados, um deles negro como a noite e outro pálido como a névoa lôbrega de Séttimor — inclusive, havia tal neblina ao seu redor, como uma aura rarefeita. Assustou-se ao me ver abrir os umbrais, voltou-se abrupta para mim, porém, seu rosto estava oculto no capuz. O aposento era pequeno. Nas mãos enluvadas da figura, um tipo de colar do que se assemelhava, em cor, a ourídeo.  

— Quem tu és? — Indagara com sutileza, sua voz feminil não me era estranha... na verdade... eu sabia bem de quem era aquela voz... 

— Liliana? — Indaguei, confusa. Um breve silêncio se liquefez no aposento. Ela, então, revelou-me seu semblante, entretanto, surpreendi-me ao vê-la em perfeitas condições, como uma humana. Diferente do que avistei em Séttimor, ali, de frente a mim, Liliana estava perfeita; não havia sombras em metade de seu rosto, como um vazio imposto em sua carne; não havia o fumo, a dor, a lúgubre essência. Era apenas Liliana, bela, com longos cabelos lívidos e forte olhar. Eu não hesitei, fugaz a abracei, sem pensar em quaisquer consequências ou, ainda, sem considerar o seu primevo questionamento. Ela pareceu relutante ao abraço. 

— É tão bom te ver aqui... mas... como? — Olhei para seu rosto, soltando-a com afago. Foi n’este átimo que... algo mórbido me aconteceu. 

Assim que fitei seus olhos cinéreos, eu a vi em um sinistro lugar pálido em neve densa com altos edifícios negros pontiagudos. O ar era o vale da morte em sua mais atroz constituição. Liliana era levada por homens de olhos negros, sem esclera... eram Ohrmons. Foi jogada aos pés de um homem cujo rosto eu não saberia descrever, porém, senti perfeitamente a sua energia densa e mórbida. “Queres teu filho, pois então o encontrarás.” — a voz grave e rouca dissera. Liliana foi tomada novamente, sem cuidado, pelos Ohrmons e, então, levada.  

Vi-a inalando um tipo de vapor enegrecido que a fez adentrar um estado de delírio semi-inconsciente. Não parecia sentir dor, mas decerto compreendida a perversidade. N'este calabouço, o seu corpo foi violado enquanto seu sangue era retirado por tubos introduzidos nas veias de seus pulsos, sendo trocado por um tipo de líquido espesso, fumegante e fétido. Palavras estranhas se proferiam no ar quando o homem sem rosto, da voz grave e rouca, adentrou ao local, expulsando os Ohrmons com seu poder abissal.  

Liliana, ainda viva, olhou em direção ao homem tétrico. Ele tocou seu rosto e, imediatamente, metade de sua tez facial apodreceu. Segundos depois, ela estava morta. O homem maldito cortou-se, gotejando seu rubro sangue sobre a cabeça de Liliana. Parecia-me um ritual de sacrifício macabro. Todas as cenas, em milésimos de segundos, atormentaram meu cérebro, fazendo-me afastar de Liliana. Meu corpo estava trêmulo e minha respiração ofegante. Eu tinha uma certeza atroz: o que vi foi uma visão do futuro. E eu compreendi que a Liliana de Séttimor estava morta, possuía, em seu corpo fumegante, todos os sinais dos horrores que sofrera. 

— Senhorita? O que está havendo? — Ela indagou, preocupada. De meus olhos vertia a lágrima dourada, eu a vi pingar em minhas mãos. 

— Por favor... — Murmurei, em completo abalo. — Por favor, Liliana... — Ela se abaixou, tocando meus braços e secando minhas lágrimas. 

— Diga o que queres, querida. Diga-me o que houve? — Eu apenas chorava. 

— Não vá para a neve... não busque teu filho naquele sórdido lugar... eles... eles... aquele homem... — Eu não conseguia dizer, mas vi o semblante de Liliana mudar. 

— Quem és tu? O que sabes sobre Luíre e sobre mim? 

— Eu vi... nos teus olhos... eu previ... — Toquei-lhe a face, com cautela. — Apenas confie em mim... eu sei... é terrível... é um revolto oceano ambíguo, mas... Liliana... eu não me perdoarei se eu não te salvar... a certeza de minh’alma é que teu destino... eu posso... — Voltei a chorar em desespero. Liliana me abraçou, parecia perceber minhas lídimas intenções. Eu nunca esquecerei o que vi... a verdade daquela deletéria premonição. 

— Está bem... acalma-te... — Busquei ouvi-la, ficamos em silêncio até que meu soluçar cessasse. — Em tua visão, havia um lugar hostil, com neve... e o que mais? 

— Edifícios negros... pontiagudos... uma arquitetura que nunca vi... mastodôntica... bela e... amedrontadora... — Respondi em lamúria, mas ainda hesitei em lhe revelar o que causaram a ela, era demasiado chocante. Liliana respirou fundo. 

— Krvieröm... — Proferiu, abalada... — Eu... estava decidida a ir até lá... deixar este Castelo com tudo o que aqui aprendi sobre Pherhesí... e enfrentá-lo... em nome do que eu sei que ele fez com meu filho... — De imediato, lembrei-me do homem mencionado por Lëvri como sendo o seu “criador”. 

— Não sei quem é este homem, Liliana, mas ele é muito poderoso... é preciso muitos para conseguir destruí-lo... muitos ou, talvez, todos aqueles que existem... eu senti... a densa energia dele... infelizmente tu não poderás... tu não serás para ele sequer um exíguo cílio incômodo em seu olho. — Ela compreendia. 

— Eu não duvido de tuas palavras... — Vi-a levantar-se, sentando-se à poltrona próxima ao que me parecia uma escrivaninha. — Contudo... chegaste sabendo meu nome antes mesmo de fitar meus olhos e ter a... horrenda revelação... de onde me conheces? — Hesitei... não parecia ser adequado dizê-la que sua alma está vagando em um corpo deformado e brumoso n’uma vila de nome Séttimor. 

— Eu... não sei ao certo... perdoa-me... eu sequer sabia que essas visões poderiam acontecer... eu... perdi minhas memórias e há muito o que ainda não sei sobre mim e sobre o que conheço e o porquê... — Ela aparentou decepcionar-se um tanto com a minha resposta. Ficamos silentes outra vez. 

— Entendo... e como vieste até aqui? N’este cômodo? 

— Estava em busca de uma biblioteca que tivesse uma escada em espiral para baixo... busco encontrar Naomie e Noellie. 

— Por que buscas por elas? 

— Encontrei uma nota deixada em um caderno... com a minha letra... indicando o local... eu não temo em lhe contar tudo o que sei, Liliana, entretanto, sei tão pouco. Imaginei que, porventura, estas mulheres me ajudariam de alguma forma, uma vez que, segundo a nota, elas possuem o “Oráculo das Sete Profecias”. 

— Posso levar-te até elas, sei o caminho... e creio te dever um favor... pois mudaste meu destino... — Ela sorriu-me. Um sorriso triste, lacrimejante. — Eu desconfiaria se não fosse pelo teu assombro... se não fosse pelo teu abraço... este alcácer é perturbador, então... por muitas vezes fui ludibriada. — Levantei-me, devagar. Liliana ajudou-me. 

— Eu sei... quero dizer... estar aqui tem sido uma experiência obscura... por vezes merencório... e ad aeternum solitária... — Exprimi. 

— Agora, ao menos o que diz respeito à última questão, não há mais o que se preocupar. — Novamente, Liliana sorriu, um pouco mais contente. — Venha, devemos ir. É um longo, e escuro, caminho com muitos degraus. 

Deixamos o aposento. Em meu peito ainda pulsava um pesar aflitivo. Uma dúvida enraizada sobre o prenúncio que me dominou. Lembrei-me das visões que tive na Masqarilla. Pela primeira vez, encaixei peças na totalidade do que eu já sabia e isso liberara à minha consciência uma lógica e um sentido para muitas das caliginosas verdades desveladas a mim desde meu despertar. Ainda assim, não se bastavam. Havia muito o que eu ainda não sabia e, por isso, estava disposta e ir além e desvendar mais do mistério de minha própria existência. 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica-Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. A sua arte é o seu pertencente recôndito e, nele, a autora se permite inebriar-se em sua própria, e única, literatura.

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