Texto e cena: Dramaturgia e narrativa — o teatro como linguagem da vida
“...quero indicar sobretudo que para mim o teatro é ato e emanação perpétua, que nele nada existe de imóvel, que o identifico com um ato verdadeiro…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“...quero indicar sobretudo que
para mim o teatro é ato e
emanação perpétua, que nele
nada existe de imóvel, que o
identifico com um ato verdadeiro, portanto vivo, portanto mágico.”
Sobre teatro e literatura – os desafios do autor em materializar as imagens postas no papel. O teatro consiste em encenar; assim como a vida, quando se assume um papel social. O professor que sai de sua casa, cambaleante, de porre, logo cedo, para contribuir com o belo quadro social, ou a médica, com sua pretensão altruísta de salvar vidas – ou por horas apenas. E assim por diante.
A palavra se desnuda no contexto, na encenação dos gestos e da presença. Quando o teatro vira ação, o espaço cênico ganha novos desdobramentos: o tradicional se dissolve e se estende do convencional ao cotidiano, que ganha corpo e performance, que transforma o espectador em ator ou autor, que assume postura em várias dimensões da vida, como o trabalho, a casa, a rua…
O espaço, como desdobramento do enredo teatral no mundo, também pode ser encontrado no instrumento de investigação – o Organon, de Bertolt Brecht – no seguinte: “O Teatro consiste nisto: em fazer uma viva representação de fatos acontecidos ou inventados entre seres humanos e fazendo-o com a perspectiva da diversão. De qualquer modo, é o que buscamos tratando de teatro novo ou antigo.” A apresentação se emancipa do palco, ganhando suas dimensões mais carnais – para além das páginas. A atração é ética e política, pois cria ação e propicia espaço para o espectador participar ativamente.
O teatro nasce da palavra, mas não se encerra nela. A escrita não busca apenas ser lida: ela quer corpo, gestos, quer ter voz e símbolos visuais pulsando ritmo e presença. Pintar o mundo para além do grafite. Os diálogos não são meros riscos se entoados através das gargantas. O diálogo é potência, como no Teatro do Oprimido ou das Oprimidas:
“Como é que a gente pode, através da visão crítica da sociedade, da visão crítica que a gente tem sobre o real, representar esse real e buscar a conversa, a troca de ideias, a troca de experiência sobre esse real? Ou seja: eu vivo o real, olho para o real com olhos críticos, represento o real e me pergunto: ‘Como é que a gente pode transformar isso mais prático, melhor? Como é que eu posso transformar esse real em uma realidade que seja mais acessível para mim, que seja melhor para a minha vida?’ O diálogo significa que a gente está aberto o suficiente para escutar um ao outro.”
É na conversa entre gestos, expressões e palavras que se constroem pontes necessárias para transportar as transformações sociais que se deseja. Um espaço utópico de resistência.
A mão-de-obra não termina no papel. A literatura se rende ao palco sem perder seu brilhantismo. A palavra se põe pornográfica e se deixa ser tocada pela ação direta. Ela mesma penetra na pele como um espírito, contorce o artista, enche de lágrimas a plateia que se envolve na trama. Ali começa o seu prolongamento: o traço mais generoso de riscos a correr.
A teatralidade está na surdina mais exposta. O espectador não é mais passivo: vira autor – e da própria vida – nos demais convívios e espaços sociais, numa reunião enfadonha, na sua labuta diária ou mesmo com a família. É encontro de raças, gêneros e classes. Mesmo os desavisados sempre atuam com um “prazer de nível superior”, como escreve Brecht, acrescentando que:
“Por esta forma superior de prazer, o teatro leva seu público a uma atitude fecunda, para além do simples olhar. No ‘seu’ teatro, o espectador poderá divertir-se, como se tratasse de um recreio, com tremendas e infindáveis canseiras que lhe dão a subsistência, e com o pavor que lhe inspira a sua interminável transformação. Num teatro deste tipo, o público tem a possibilidade de educar a si próprio da maneira mais simples; de existência, é a arte que a proporciona.”
Dessa forma, o teatro também ensina a estar no mundo. A escutar e a dizer. A atuar. A ter mais presença. O palco se transforma em qualquer lugar de potência da vida: espaço físico e psicológico. O texto precisa de carne, a carne de movimento, e a alma, de florescer.
Revisão de Sahra Melihssa
Tiago Serigy
Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
Drácula e Cristo: entre cruzes, estacas e sangue
No Cristianismo, Satanás é tradicionalmente visto como o oposto de Jesus Cristo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“E vocês? Quem vocês dizem que eu sou?” — Mateus 16:15
No Cristianismo, Satanás é tradicionalmente visto como o oposto de Jesus Cristo, mas e se, em vez de Satanás, comparássemos Drácula a Cristo? Parece uma ideia herética, e talvez seja mesmo, mas como alguém obcecada por histórias bíblicas e literatura gótica, não pude evitar essa comparação estranha.
Na religião e na literatura, são poucos os personagens que alcançam o status icônico de Jesus Cristo e de Drácula. O primeiro, o Salvador, o segundo, o condenado, mas há algo que os une: ambos são figuras que, no texto, se revelam através dos olhos e das palavras de outras pessoas. Eles não falam de si mesmos diretamente, são descritos, testemunhados, adorados ou temidos. Cada um é conhecido pelo impacto que causa nos que cruzam o seu caminho, gerando fé ou terror. Essa presença indireta cria uma tensão, quase arquetípica: luz e trevas, redenção e condenação, vida e morte. Herético ou não, é um paralelo impossível de se ignorar.
No Novo Testamento, Jesus raramente é descrito fisicamente. Há apenas raras descrições de uma imagem: um homem sem beleza, segundo Isaías 53:2; ou as visões simbólicas do Apocalipse, mas, em essência, Jesus é reconhecido por suas palavras, ensinamentos e milagres, e por como seus discípulos o veem. Em Mateus 16:15-16, ele pergunta: “E vocês? Quem vocês dizem que eu sou?”. E Pedro responde: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. A identidade divina de Jesus não é proclamada por ele mesmo, mas reconhecida pelo outro, construída pelo efeito que ele exerce sobre os outros. Drácula, da mesma forma, não se apresenta diretamente ao leitor, sua presença é fragmentada em cartas, diários e relatos que compõem o romance de Bram Stoker. Assim como os evangelhos são narrativas dos que seguiram ou testemunharam Cristo, Drácula é um fragmento daquilo que os outros viram, sofreram ou temeram.
Jonathan Harker nos dá alguns desses fragmentos: “Até então, eu tinha notado as costas, de suas mãos, que tinham me parecido brancas e finas; mas, vendo-as mais de perto, pude notar que eram bem grosseiras, com dedos fortes. Por mais estranho que pareça, as palmas das mãos tinham cabelos. As unhas eram compridas e finas, terminando em ponta. Como o Conde se curvasse sobre mim, encostando-me às mãos, não pude conter um tremor” (Capítulo 2). E também: “O que chamara minha atenção era a cabeça do Conde, saindo para fora da janela. Não vi o rosto, mas distingui-o pelo pescoço e pelo movimento de suas costas e braços. De qualquer maneira, não podia me enganar com aquelas mãos, que tivera tantas oportunidades de examinar. [...] Mas meus sentimentos transformaram-se em repulsa quando vi todo o corpo do Conde projetar-se pela janela, vagarosamente, e sair se arrastando pela parede, de cabeça para baixo, com o manto agitando-se ao vento, como asas enormes. A princípio, não pude acreditar no que estava vendo.” (Capítulo 3).
Se Cristo é conhecido pelo amor e pela transformação espiritual que inspira, Drácula é definido pelo horror que provoca. Ambos, porém, são figuras que deixam marcas duradouras em quem os encontra. Há ainda outra comparação evidente: o sangue. No Cristianismo, o sangue de Cristo é o símbolo do perdão e da aliança entre Deus e a humanidade: “Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para perdão de pecados” (Mateus 26:28). A Santa Ceia é, até hoje, a comunhão com esse sangue, a memória de uma entrega que promete vida eterna. Em Drácula, há uma inversão disso: o sangue não redime, ele contamina. Quando Mina é forçada a beber do sangue do Conde, não se trata de uma aliança para a remissão dos pecados, mas uma maldição. De um lado, o sangue como comunhão; do outro, como corrupção. Em ambos, ele conecta, transforma e promete a eternidade, mas uma eternidade de salvação e outra, de danação.
Há ainda a relação com a morte: Cristo ressuscita, vence a morte e oferece a promessa de vida eterna. Drácula, por sua vez, desafia a morte, é o morto-vivo, o que se recusa tanto a morrer quanto a viver completamente. Enquanto Jesus promete: “Estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos” (Mateus 28:20), Drácula permanece como uma presença material e ameaçadora, que assombra e consome. Ambos também reúnem ao seu redor seguidores. Jesus atrai discípulos dispostos ao sacrifício, fundou uma Igreja que cresce pelo amor e pela palavra. Drácula atrai servos como Renfield, que, seduzido pela promessa de poder e imortalidade, é condenado à loucura e à morte.
E há também o símbolo do sagrado e da luz. Segundo João, Cristo é “a luz que brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram” (João 1:5). Drácula, ao contrário, é repelido pela luz do sol. O crucifixo, símbolo de Cristo, é para o vampiro um instrumento de repulsa e dor: “Instintivamente, avancei para protegê-lo, levantando o Crucifixo e a Hóstia na mão esquerda. É impossível descrever a expressão de ódio que se estampou na fisionomia do Conde. Com um ágil movimento, afastou-se.” (Capítulo 23). Essa comparação, talvez louca, talvez herética, revela, no fundo, o poder das narrativas. Dois personagens que inspiram fé e comunhão, ou terror e repulsa, mas que continuam vivos, lidos, reinterpretados, transformados em símbolos que atravessam gerações. No fim, talvez o que essa comparação sugira é como nós, leitores, somos influenciados pelas figuras que rememoramos ou revisitamos, sejam elas de salvação ou de condenação. E você? Diante dessas duas figuras, com qual delas, consciente ou não, escolhe comungar?
Valesca Afrodite Gomes
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Junqueira Freire: sacerdote na terra da profanação
Muito se fala dos ultrarromânticos: o desejo da morte, o amor ideal, o pessimismo, o individualismo…
Imagem da Web editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Quando em meu peito rebentar-se a fibra
Que o espírito enlaça à dor que mata,
Do meu cadáver frio à triste cova
Não derrameis nem uma lágrima!¹
Muito se fala dos ultrarromânticos: o desejo da morte, o amor ideal, o pessimismo, o individualismo. Mas pouco se fala de sua ligação com a religião.
Se, algumas vezes, uma espécie de lamento fúnebre — como em “Se eu morresse amanhã” — parece a única tônica, é porque um Deus ausente deixa o ultrarromântico entregue à própria sorte, aos azares da existência. Nesse cenário, apenas figuras como a mãe, a irmã ou o amor ideal ganham contornos divinizados.
A luta entre a vontade de viver e a perseguição da morte revela uma dualidade cristã: o conflito entre o prazer da matéria e a salvação da alma. O eu lírico deseja amor, mas também almeja a paz da morte.
Por isso mesmo, gostaria de falar sobre Junqueira Freire. Ele talvez seja a maior referência prática à religião no ultrarromantismo. Escolheu ir para um convento, acreditando levar uma vida de celibato, mas pediu para sair. Mesmo assim, enquanto estudava filosofia e teologia, se inspirou para escrever seu livro, intitulado Inspirações do Claustro. Um título ambíguo, rico em interpretações: desde o sentido religioso da reclusão espiritual — o claustro como espaço físico dedicado ao culto de Deus — até a atmosfera filosófica dos estudos e, claro, da produção poética impregnada de religiosidade.
Junqueira Freire é mesmo uma figura singular no ultrarromantismo brasileiro — talvez o que melhor personifique a tensão entre fé e desejo, entre religiosidade e existência carnal, de forma vivida e escrita com intensidade.
Ele viveu a religião e rompeu com ela. Escreveu, deitou nela, fez todas as suas necessidades, e, quem sabe, só os anjos saberiam quais.
Acima de tudo: escreveu.
O claustro como símbolo ambíguo: lugar de reclusão do mundo, lar dos mais disciplinados fugitivos da vida profana.
O claustro como estado de espírito: isolamento, meditação e, claro, inspiração.
O claustro como espaço de produção do conhecimento — de estudos de Filosofia, de Teologia.
O poeta viveu de forma intensa a religiosidade. Permitindo-se comparar com o próprio passado, pôde fazer juízo. Ainda jovem, esteve em dúvida, buscando respostas e sentido para a vida.
Deixemos que ele mesmo, espírito inquieto, nos mostre sua luta entre o sagrado e o profano:
Meu Deus! meu Deus! — eu creio firmemente
Em vosso eterno e sacrossanto amor!
Creio que um dia abrirei contente
Meu seio à luz do vosso esplendor.
Mas — ah! Senhor! — que dor! o pensamento
Às vezes voa por mundanas vias,
Vai procurar nos gozos, alegrias,
Vai se manchar no lamaçal do intento
Confissão, culpa ou vida?
Junqueira viveu num tempo em que o mal-estar social começava a se instalar na sociedade contemporânea. A Era das Revoluções movimentou o mundo, mas passou, deixando suas garras em nome do progresso. Liberdade, Igualdade e Fraternidade ficaram distantes, e no papel.
O Brasil? Um império escravocrata, tentando, a todo custo de vidas, criar uma identidade.
Parecendo prever a crise existencial da humanidade, Junqueira se reclusou. Mas não suportou o claustro que ele mesmo criou e o expeliu, como também se expulsou de dentro dele.
Deixou de acreditar que seria soldado de Cristo.
Contemplativo, seguiu sendo poeta. Mas, assim como muitos jovens talentosos de sua época, morreu cedo e tristemente, vítima de doença cardíaca. Nosso Freire sucumbiu a problemas que sofria desde a infância.
Deixou sua enorme contribuição, enquanto esteve na terra da profanação, para a poesia brasileira, que nunca mais seria a mesma.
Gosto de meditar de noite, às vezes,
Como um infante,
Espasmado no olhar, fitando o corpo,
Que tem diante.
Gosto de meditar de dia, às vezes,
Como o ancião,
A quem idéias se erguem do passado
Em borbulhão.
O infante, o ancião!—os dois extremos
Da existência;
Um à vida, outro à morte, iguais amostram
Igual tendência.³
¹ “Lembranças de morrer”, de Álvares de Azevedo.
² “Meu Deus”, de Junqueira Freire.
³ “Meditação”, de Junqueira Freire
Tiago Serigy
Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A Maldade Humana
Cultivada no seu próprio solo, a maldade humana é uma brincadeira de mau-gosto do acaso; uma construção perversa do sistema; uma condição…
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Cultivada no seu próprio solo, a maldade humana é uma brincadeira de mau-gosto do acaso; uma construção perversa do sistema; uma condição morbígera da vida. Ela é o sopro contrário na natureza que, mesmo criadora da bênção da razão, não se vê livre das suas deficiências excepcionais, entretanto, quando a exceção é mais comum que o anfêmero, os papéis de invertem.
Posso ousar em dizer que a maldade humana está essencialmente alojada na ignorância — os véus do desconhecimento do que é ser; o manto da insipiência causado pelo circunstancial. Entretanto, a escolha individual ainda tem um papel fundamental e, por vezes, ela não excede seu apedeutismo. Isso me leva a crer que a ignorância é fruto híbrido de duas espécimes putrefatas: decisão subjetiva e influência do meio.
O ego é outro culpado; necessitar, pois, pertencer a algo além de si, quando não se basta em seu próprio interior. Ser capaz de quaisquer atrocidades para sentir tal dopamina-do-pertencimento — a qual, por sua vez, é sempre uma mentira bem-contada. Ou, ainda pior, ser capaz de horrores por não estar pertencido; buscar vingança e dar sofrimento a outrem por puro ego ferido. O cúmulo da ignorância.
O conhecimento, a informação e a sabedoria se aliam para dissipar essas tendências doentias, porém, não se resolvem em si mesmos. Do conhecimento, espera-se mentes capazes de assimilá-lo; da informação, espera-se mentes capazes de refutá-la e comprová-la; da sabedoria, espera-se mentes capazes de compreendê-la. Se, para evitar que a maldade floresce em seu cerne, é preciso cultivas tais capacidades — as quais não se igualam a uma tarefa simples tal qual respirar — percebemos que, a cada nova geração, a escassez da maldade parece mais utópica.
Ainda lidamos com a tendência humana em achar que conhecimento é saber da verdade e defendê-la — quando, na verdade, conhecimento é eterna busca por infindáveis verdades e a quando se começa a defender uma única ideia “perfeita”, torna-se idealismo. Ainda lidamos com a comum ideia de que a informação é tudo aquilo que nos vem de encontro no mundo — quando, na verdade, informação é base de averiguação de fatos. Continuamos erroneamente crentes de que a sabedoria é um estado sublime, religioso ou pertencente apenas aos idosos que viveram demais e sabem muito— quando, na verdade, ser sábio é ser capaz de compreender toda a forma de existência sem o filtro da sua própria vida — crianças são boas nisso e, portanto, têm mais sabedoria do que idosos, adolescentes ou adultos.
A maldade humana, portanto, floresce onde as certezas adubam a mente; onde os egos são a verdade líquida que rega a terra psíquica. A maldade humana se ascende diante da maldade humana — alimentando-se ad aeternum. Indiferença, inveja e mágoa são o capim d’este jardim imundo e violento. É mais fácil, enfim, deixar que as coisas sigam os caminhos quais já foram trilhados — quão árduo é ser mestre nas três capacidades essenciais contra a maldade humana! Quem está disposto? Quem estaria disposto? Quem ousaria a tal disposição, mesmo sabendo que passará por injustiças, não terá o ego agraciado, sofrerá mais do que os outros e ainda verá a decadência com os olhos bem abertos? Quem resistiria?
É uma escolha e, como tal, tem o ônus e o bônus. É uma escolha e, como tal, se não for conscientemente tomada, há de ser imposta como uma faísca infernal acesa sem consentimento. Das verdades do mundo humano, eis uma das minhas preferidas: Não duvide da sua capacidade de ser influenciado, muito menos de ser convencido — isso acontece a todo o instante. Não acredite. Sempre pense por si mesmo. Faça suas escolhas e esteja consciente das consequências. E, se me permite, que a prudência e a empatia sejam as únicas certezas da sua vida — as únicas que merecem ser defendidas em uma guerra política
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A angústia é uma farpa
O que esperamos da existência efêmera que pertence ao nosso ser? Há muitos sentidos para serem criados e sustentados pelas idealizações e crenças que…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
O que esperamos da existência efêmera que pertence ao nosso ser? Há muitos sentidos para serem criados e sustentados pelas idealizações e crenças que floresceram em nós sem que, por vezes, pudéssemos perceber. Para a Psicologia, o “dar-sentido” é o valor real do ser que somos; entretanto, ainda sinto que há algo que nunca será amordaçado pelo discurso do ânimo: essa angústia tão familiar, que se manifesta de infindáveis formas.
Na imensidão mórbida do inautêntico, vemos o cansaço ofuscar o lume da angústia, vemos a hiperestimulação construir seu palácio de vidro ao redor do abismo desta aflição muda — o silêncio soturno é ouvido mesmo quando o alarde, dentro e fora de si, é inominável. Mesmo ocupados demais para nos voltarmos a nós mesmos, o poço da nossa constituição faz-se cada vez mais fundo — e não há como impedi-lo.
Mesmo assim, insistimos. E a rolagem infinita, guiada pelo nosso dedo indicador, é o glitter que cega nossos olhos, e vicia. Ora choramos, ora rimos; em frações de segundos, temos uma descarga mental absurda. Ora nos preocupamos com as contas mensais, ora rezamos pelo fim do mundo. A angústia é o pano de fundo de um cotidiano abarrotado de razoabilidade.
Podemos temer uma nova pandemia, a terceira guerra ou, ainda, a revolução das máquinas; a mudez ensurdecedora do espírito continuará perturbando nosso banho de dopamina, deixando um rastro úmido de desalento sôfrego. E, quanto mais o tempo passa, estando cada vez mais soterrada, a angústia, uma hora, torna-se maior do que aquele a quem ela pertence — mesmo oprimida e muda, mesmo tão ínfima como uma farpa.
Uma crítica é apenas uma crítica; uma verdade é sempre mais do que uma verdade. Podemos deixar as redes sociais? Podemos abraçar o tédio? O tempo transfigurado em infinito sem um ecrã luminoso para a bel lascívia psíquica? Não podemos. E os que podem estão mortos — incapazes de lidar com o tamanho de suas angústias ou iludidos pelo ego de suas pseudo-superioridades sobre a massa que consideram ignorante.
Estamos dispostos a discordar e questionar, não estamos dispostos a pensar, quietos.
Há anos — é minha percepção — não escrevo pensamentos e reflexões, tomada pela sensação de que meu pensar trará ódio daqueles que vagam, almas vagantes, na world wide web. Intolerantes por toda parte. E eu mesma, talvez, veja a hipocrisia no espelho. Ornamental e sublime hipocrisia. Pela constância com que me vejo nesse mundo, a Matrix dentro da Matrix, um sonho dentro de um sonho, eu não poderia pensar diferente disso.
Mas o que mais dói no silêncio da minha angústia é o quão alto ela grita e o quão solitária ela faz eu me sentir.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Noite na Taverna e o Gótico Brasileiro: Reflexões entre Alcoolismo, Desejo, Paixão e Originalidade na Literatura
Alvares de Azevedo, com sua obra Noite na Taverna, estabelece um diálogo profundo com os princípios do gótico literário…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Alvares de Azevedo, com sua obra Noite na Taverna, estabelece um diálogo profundo com os princípios do gótico literário, não apenas em sua atmosfera sombria e decadente, mas também na maneira como reflete as tensões sociais de seu tempo. Publicado em 1855, o livro vai além da simples imitação de modelos europeus ao incorporar questões como o alcoolismo, a alienação, o desejo, o medo, a paixão pela liberdade, características de uma juventude romântica brasileira tanto da classe burguesa quanto de classes econômicas mais baixas, confrontada com um contexto de transição e incertezas.
A atmosfera gótica e os dilemas sociais
A taverna, espaço central da narrativa, é um lugar de excessos onde o vinho conduz os narradores a relatar histórias permeadas por tragédia e destruição. A representação do alcoolismo e da embriaguez em Noite na Taverna não é meramente decorativa, mas uma metáfora para a alienação e o escapismo de uma geração romântica frustrada. Como afirma França em Poéticas do Mal: a literatura do medo no Brasil, os excessos retratados em narrativas góticas brasileiras refletem uma juventude que muitas vezes se viam às margens de um contexto político e social que não oferecia espaço para seus ideais. Esse escapismo por meio do álcool, aliado ao ambiente sombrio da taverna, é uma crítica velada a uma sociedade que sufocava a busca por uma liberdade cultural e econômica.
Por outro lado, os temas da paixão e do desejo são tratados por Azevedo com um misto de fascínio e ironia. Em histórias que oscilam entre o erotismo e o grotesco, como a narrativa de Bertram, o autor apresenta relações marcadas pela destrutividade, evidenciando uma visão trágica do amor que se aproxima do gótico europeu, mas que também ressoa com uma moralidade em crise no Brasil oitocentista. O amor em Noite na Taverna é fugaz, violento e muitas vezes fatal, refletindo a fragilidade das instituições sociais e do próprio indivíduo.
O desejo de liberdade e a crítica à tradição
Além disso, o desejo de liberdade permeia toda a obra, seja nas aventuras desregradas de seus personagens ou na rebeldia estética de Azevedo contra as normas literárias de sua época. Essa liberdade, no entanto, é constantemente confrontada pelo peso das consequências trágicas, reforçando a dualidade entre o ideal e a realidade, característica fundamental do gótico. Assim, Azevedo contribui para a formação de um gótico brasileiro que, mesmo inspirado em autores como Byron e Hoffmann, dialoga com as inquietações de seu tempo e espaço.
Contrariando as críticas literárias que veem Noite na Taverna apenas como uma cópia do gótico europeu, é fundamental reconhecer que, como França (2022) argumenta em Poéticas do Mal: a literatura do medo no Brasil, a literatura do medo no Brasil não é uma mera reprodução, mas um campo fértil onde elementos locais e universais se entrelaçam, por meio de várias autoras e autores brasileiros. Esse entrelaçamento permite a coexistência de escritores que abordam questões mais regionais com aqueles que exploram reflexões de caráter mais universalistas. Azevedo se insere na segunda vertente, utilizando o gótico como uma ferramenta para discutir dilemas existenciais e globais, mas sem jamais se desligar totalmente do contexto brasileiro.
Originalidade na Literatura de Azevedo
A acusação de cópia frequentemente desconsidera que todo autor é, em maior ou menor medida, influenciado por tradições literárias. No caso de Azevedo, suas inspirações europeias são reinterpretadas à luz de sua realidade. A atmosfera decadente de Noite na Taverna, por exemplo, é permeada por um senso de tropicalidade melancólica, que, embora não explicitamente regional, não pode ser dissociada da psique de um jovem autor brasileiro do século XIX. Essa abordagem, ao invés de diminuir a obra, a insere em uma tradição estética literária global que reflete sobre as angústias humanas em diferentes contextos.
Assim, Noite na Taverna merece ser lida como um marco do gótico brasileiro, uma obra que, ao integrar questões universais como a paixão e o desejo de liberdade com tensões sociais como o alcoolismo e a alienação, apresenta uma profundidade que vai além de imitações superficiais. A crítica literária, portanto, precisa revisitar esse texto com a abertura necessária para reconhecer sua complexidade e relevância no panorama literário brasileiro e internacional.