Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

(Antes de iniciar essa leitura, recomendo ler o capítulo 6)

Relato de Lisa 

Desde aquele episódio, não havia pensado sobre minha origem. Contudo, por mais que eu tentasse suprimir qualquer ruído chamado, ouvia os sons das engrenagens em funcionamento, sem parar.

Não sabia distinguir se as ouvia de algum lugar distante ou se estavam dentro de mim... Mas algo aqui dentro movia-se impassível, sem requerer minha permissão.

Compreendia que evocar Listheron poderia causar a destruição deste mundo e, como não poderia arriscar colocar Alana em risco, suprimi toda e qualquer comunicação, telepática ou não, que pudesse ter com meus antepassados.

Mas eles não pensavam assim. Para Listheron, as batidas do relógio cósmico não cessavam; as engrenagens continuavam se movendo no compasso correto, aguardando mais uma chance para me convocar.

Meu tempo estava acabando...

***

Naquele dia, Alana estava interagindo com Drácula, e eu fui andar no bosque, localizado ao redor dos muros do Castelo. Não me afeiçoei a Drácula; apesar de ele ser gentil e ter salvo a minha vida neste plano, não tenho intenções de formar laços profundos com ele. Não tenho medo de que ele nos faça mal, não é isso. Mas a sensação é de que agiu movido apenas por interesse. Só ainda não descobri qual. Ou talvez meus instintos estejam prejudicados por causa dos sons, e isso afete minha capacidade de análise.

Saí quando a noite dominava, e os bosques jaziam iluminados com as costumeiras luzes indiretas vindas do Castelo, que conferiam ao lugar um clima lúgubre. A brisa mansa trazia odores de terra recém-molhada, mas não por chuva ou orvalho, e sim por algum líquido indecifrável.

Caminhava por entre as densas folhagens; subia nas copas para sentir melhor a invasão do ar puro em meu peito e sentia-me observada pelos olhos flamejantes.

Impressões ou fatos?

Em dado momento, notei que a lua tornava-se amarelada. No começo, achei que fosse apenas uma ilusão de ótica ou uma névoa fina que surgia, mas logo percebi que aquela mudança tinha substância: era real e a tingia de ouro em brasa, como um metal aquecido em fornalha, pronto para ser moldado. Adensava perante mim, deslizando para o lado direito, como que duplicando-se. Logo, a esfera dividiu-se em duas, e constatei que eram Olhos de julgamento.

Raios de luz saíam para fora das esferas, como se fossem pálpebras com cílios mal definidos. O olhar fixou-se em mim.

Senti um arrepio. Era Listheron. Vinha reclamar minha submissão.

Havia tensão no ar. Não conseguia desviar o olhar e então o ouvi:

 — Venha para mim.

Senti as engrenagens movendo-se novamente dentro de mim, pressionando meus pulmões e roubando o ar que havia conquistado:

— BASTA. Irei quando quiser! — Bradei a plenos pulmões, minha voz retumbou forte e o atingiu em cheio.

Silêncio. Senti alívio

A pressão no tórax recuou e, por um instante, pensei que estava livre, até que a nossa discussão telepática começou arder dentro da minha cabeça.

Eu protestava, ele exigia.

Lutamos sem mover um músculo.

O óleo fervia e os tubos que conduziam o éter da vida estavam prestes a explodir.

Mas eu não iria voltar atrás.

Até que ele cedeu.

Firmamos um pacto, assinado com a precisão de um contrato estranho: continuaria sendo Lisa, mas precisaria ser Lisath por sete horas, a cada sete amanheceres.

Não havia outra alternativa. Era isso ou me tornar Lisath para sempre. Ah, a beleza do livre-arbítrio.

Concordei. Por livre e espontânea manipulação.

Lisath é algo que Alana jamais suportaria conhecer.

Por isso, a cada sete dias, eu desapareço. E torço para que ela não descubra aonde vou e o que preciso fazer...

Revisado por Sahra Melihssa
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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