Azulíneo
A lembrança etérea me faz companhia enquanto sigo floresta adentro; meu instinto diz para não voltar ao Castelo, não sei explicar o motivo, talvez intuição ou simplesmente…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A lembrança etérea me faz companhia enquanto sigo floresta adentro; meu instinto diz para não voltar ao Castelo, não sei explicar o motivo, talvez intuição ou simplesmente para sanar essa curiosidade obsessiva pelo desconhecido. Sutilmente, o cenário mudou; elevei meus olhos e senti um calafrio, as nuvens se dissiparam, o céu agora vestia um assombroso manto azulado, tinha também aquele brilho insólito das estrelas.
Em determinado trecho, escuto algo longínquo, como um sussurro, talvez seja apenas o vento; caminho com mais afinco enquanto o som reverberava no interior dos meus ouvidos, porém sou forçada a cessar os passos, pois perante a mim se encontra uma altíssima muralha de difícil acesso, composta por galhos e folhas de diferentes espessuras entrelaçados, coberto por musgos e líquens. Tentei enxergar sua altura, logo fui acometida por uma leve vertigem; me recomponho e vou ao seu encontro.
Aquele vislumbre arrancou gemidos inexprimíveis, aguçando ainda mais minha curiosidade; preciso atravessá-lo, os musgos dificultam a passagem, mas persisto. Então senti o gentil toque da brisa fresca em meu rosto, ela era úmida como se eu estivesse próxima de algum mar. Não estava preparada para tal paisagem, meu colo pulsa em desassossego diante de tamanha beleza. No passado presenciei este mesmo fenômeno da bioluminescência quando estive com a doce Ameritt na biblioteca, porém isto aqui é incomparável, este viridário é de uma beleza aterrorizante! Seu brilho alterna entre um pálido-anil e azul-turvoso, há também uma enigmática nevoa do mesmo tom terrífico.
Lembro de achar fascinante o processo no qual envolve a molécula luciferina e a enzima luciferase, resultando neste fenômeno de tirar o fôlego. Sinto que estou mergulhando no abismo oceânico, onde criaturas inimagináveis habitam a mais profunda escuridão. Tanto a flora como fauna são horripilantes, ali vida e morte coexistem; essa dualidade causa um grande incômodo, ora se vê um jardim exuberante, já outras vezes vê-se flores em decomposição, desafiando os mais sábios mestres alquímicos como Paracelso.
Além deste aspecto obscuro, elas executam uma dançar terrífica, orquestrada pelo nefasto azulescer. Porém, uma espécie endêmica é predominante, detentora de uma beleza extraordinária; as folhas verde oliva abraçam todo o caule e parte do cálice de pétalas externo é totalmente negro, contrastando com seu interior carmesim brilhante; são curvilíneas e levemente pontudas — lembrei das enigmáticas flores de Ovaeren que também escondiam em seu interior sua verdadeira beleza escarlate.
Imagino que possa existir um grimório oculto de botânica, catalogando todo espécime de plantas e suas respectivas finalidades. Enquanto divago, algo paira pelo ar, como materialização de um ectoplasma, vem ao meu encontro. "Será uma carta?” — Meu pensamento ecoa no ímpeto azul, assisto o objeto pousar em meus pés; abaixo-me para pegar e tenho a confirmação: é um fragmento de um mapa geográfico. Deduzo ser um gráfico grandioso pelas linhas incompletas, confeccionado em papiro, demonstra a região em que resido. Meus olhos decaem sobre o registro com extremo fascínio.
Aos arredores do Castelo está o Jardins de Olga — parece ser minha atual localização. Minha imaginação se perde nas linhas inacabadas, aquele lugar se tornou ainda mais tangível. Um nome que me causou grande tormenta, a “trilha do nevoeiro ramoso”, anteriormente pude presenciar a presença assombrosa do nevoeiro envolvendo o Castelo, bem como o arranhar dos galhos sob a superfície áspera das inúmeras pedras — tal lembrança me causa calafrios.
Vejo também duas vilas povoadas, as quais: Séttimor — a qual ouvi histórias a seu respeito; e a outra é a Vila Nemonium, no meio delas se encontra os Bosques Núridos, mais à frente uma região montanhosa chamada de Cimos Nevados. Meus olhos saltam ao ler: “Rio Bioluminescente de Magöhorror” — ele atravessa a área de montanhas. Vejo também a área de desertos chamada de “Dunas Múrmuras” e, no meio da região, um pequeno desenho sobressai e me faz estremecer: uma ilha indica um oásis. Ergo o mapa na altura dos olhos, traço os pontos cardeais com os dedos, e inicio minha peregrinação ao rio da Bioluminescência, sabendo que desta vez terei um norte para seguir. Seguro o mapa como se minha vida dependesse dele — o que não deixa de ser um fato.
Este lugar está começando a me afetar, talvez seja por conta do fúnebre flúmen que esparge pelo ar. Olho ao redor e vejo uma horrenda mudança nas flores: no lugar das deslumbrantes pétalas carmim, rostos pálidos disformes, com olhares vazios, são emoldurados por pétalas fúnebres num azul indescritível; por fim, um brilho metálico contorna cada uma. Elas parecem entonar lamúrias, como uma espécie de coral fúnebre. Acelero os passos, enquanto os olhares dos rostos me encaram; ao longe o calmo quebrar do mar ecoa. Checo o mapa e sigo a Leste, acredito que seja a maneira mais rápida de chegar ao Rio Bioluminescente.
Continuo ouvindo o fúnebre cântico; quando a brisa me surpreende trazendo consigo silenciosas gotículas que tocam meu rosto, imediatamente lembro dos incontáveis banhos de chuva tomados na adolescência, quando eu abria o portão e, com os pês descalços, corria pelos escorregadios paralelepípedos. Engulo amargamente aquela memória, não tenho mais espaço em minha galeria para ela. Melancólica, caminho, e acabo encontrando a estranha flor, porém estava diferente, tinha se fechado, assumindo uma forma de um coração anatômico. O tom carmim voltara a ser predominante, as pontas ficaram mais rígidas, pode ser apenas seu ciclo natural, ou algum fator mágico.
Fito novamente o vertiginoso firmamento, enquanto ele conduz minh’alma para um espiral de infindáveis horrores; essa cor traz à tona coisas adormecidas como culpas, arrependimentos, lembranças amargas e pensamentos que habitam as profundezas do meu âmago.
“A imortalidade é uma mera ilusão” — a frase escapa de meus lábios apáticos, enquanto isso, presencio mais uma transformação da misteriosa rosa: agora ela desabrochou por completo, suas pétalas traziam uma tonalidade de vinho-profundo, eram finas, alongadas e espinhosas. Essas transformações eram intrigantes, abaixo-me para observar melhor, tinha uma beleza obscura, queria estudá-la, porém tenho que partir. O familiar som das ondas me faz andar mais rápido, alcanço então as margens onde as calmas ondas beijavam com ternura os alvos grãos de areia; há também uma embarcação ancorada que já teve seus dias de glória, do modelo cúter. Aproximo-me dela e, no casco, tinha um nome: “Veleiro de Allant Clirrathz”.
Media por volta de dez metros de comprimento, um único mastro sustentava as duas velas amareladas feitas de poliéster, já desgastadas em certas partes. Em certas partes, cautelosa, adentro no veleiro; arrepios percorrem meu corpo, imagino as inúmeras pessoas que velejaram neste barco; será que foram testemunhas do inimaginável? O que descobriram sob estas águas negras...?
A embarcação fora erguida em cedrinho muito bem estruturado, ainda se via as pinceladas de verniz; havia um alçapão abaixo das velas e eu fui em sua direção, levantei sua pesada porta, desci alguns degraus. Lá encontrei uma simples pia, à direita um pequeno armário com alguns utensílios para cozinha, na esquerda uma cama com uma sutil mesa de canto, por fim um banheiro.
Nunca velejei antes; o pouco que conhecia foi através de livros. Subo os degraus, caminho até a proa e contemplo o imponente do céu azul neon, iluminando as águas negras. Vou para a popa, ligo o motor e, trêmula, seguro o leme; estou entregue ao destino, espero que ele seja gentil comigo.
Por incrível que pareça, o som do mar acalma meus demônios; em contrapartida, a solidão é avassaladora, o vazio consome minhas entranhas. Vasculho o bolso e tiro o mapa; será que me arrisquei nesta jornada? Talvez fosse melhor contornar os Bosques Núridos, cruzando as áreas montanhosas até finalmente chegar no tão desejado Rio da Bioluminescência... Mas espera, por que não vi isto antes? Quase no final do mapa, havia um nome que me fez tremer: “Oceano Sem Fim”. Logo abaixo estava escrito: Estranhas criaturas do mar. O que será que estas águas escondem? Talvez o temível Kraken ou espécies que fazem parte da criptozoologia.
Já se passaram algumas horas e até que estou me saindo bem. Minha maior dificuldade tem sido controlar as velas; às vezes o zombeteiro destino joga os dados e me surpreende com ventos fortes, desestabilizando o veleiro, porém isto passou a ser constante, deixando a viagem árdua; além disso, existe um terror primordial no infindável oceano que me causa extrema angústia, ademais prossigo.
Mas o destino é incansável e vil. Desta vez ele trouxe ventos tenebrosos, gerando ondas altas; uma delas atingiu o casco, deixando o bombordo quase imerso e o convés inundado. Se eu não fosse tão ágil, certamente a embarcação estaria naufragada; contornei as investidas dos ventos, não obstante segurei com afinco no leme e continuei.
Avisto finalmente a terra, deixo a embarcação ancorada. Assim que desci, vi que a vegetação é a mesma encontrada nos Bosques; aqui a espécie predominante era das rosas que sofreram aquela mutação sombria, em específico em sua primeira fase. Será que a flor teve origem aqui? Tímido, o rio anuncia sua presença, serpenteando por entre a vegetação de rostos disformes, um verdadeiro espetáculo horrífico em pálido-anil, desaguando no oceano, deixando rastros luminosos por onde passa; conseguirei alcançar sua nascente?
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Delírio Febril
Enquanto guardo minha obsessão em meu íntimo, um pensamento sorrateiro surgiu, causando-me calafrios: será que mais alguém achou o temível livro?…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Enquanto guardo minha obsessão em meu íntimo, um pensamento sorrateiro surgiu, causando-me calafrios: será que mais alguém achou o temível livro? Abro a porta, olho em volta e, aparentemente, não há ninguém. Perambulando, encontro um dos muitos corredores existentes; conforme atravesso, lembro do encontro interessantíssimo que tive com o professor Monm, uma figura distinta. Dificilmente esqueceria o brilho em seus olhos, pois ele é semelhante ao meu... gostaria muito de ser uma de suas alunas, tenho certeza de que seu conhecimento seria de valor inestimável para mim. Espero que o Castelo proporcione nosso reencontro.
Ao final do corredor, encontro o grandioso salão, palco de uma noite memorável. Foi exatamente aqui onde ocorreu o primeiro baile de máscaras. As lembranças que pareciam estar adormecidas despertam com mais intensidade. Imediatamente, vislumbrei o vazio se materializar através de memórias fantasmagóricas.
Com clareza, vi o lugar sendo ocupado por mulheres e homens em trajes de gala, ostentando suas exuberantes máscaras. Reverberava em meu ouvido as funestas notas da peça Toccata and Fugue (música tocada pelo quarteto naquela ocasião). Contemplo os vultos em longos vestidos rodopiando em tonalidades diferentes, sem contar aquele vertiginoso encontro com aquela criatura lúgubre de olhos azuis, tão enigmáticos quanto a vastidão do universo.
Defronte para o silêncio, sussurro seu nome com a delicadeza de quem assopra a chama de uma vela: “Nickollas”. Meus caninos sobressaltam; não consegui disfarçar o desejo sombrio. Fito a janela onde ele me levou naquela noite para observar a túrgida lua — lembro de como a veia em seu pulso resplandecia à penumbra do luar e do excitante som ao rasgá-lo.
Mas algo me trouxe à tona: um brilho arcano de tonalidade magenta surgia pelos arredores do Castelo. Conforme ia se aproximando, clareava o recinto. O que será isto? Assustada, vou até a janela e a atravesso. O frescor da brisa toca minha tez ávida (não lembro a última vez que saí do Castelo).
Era impressionante a dimensão da névoa. Via-se pouquíssimo do firmamento, assim como a vasta e verdejante vegetação composta por exuberantes carvalhos com suas belas folhas, altas faias, baixos arbustos e, pelo chão, gramíneas cresciam desenfreadamente. Avisto uma esguia trilha que se estendia mata adentro; decido segui-la.
Nos primeiros passos, um frescor inexplicável invade meus pulmões, como se ali tivesse caído uma forte chuva. Tive a nítida sensação de que a vegetação se movia, como se estivesse respirando. Abaixo e inspiro aquele cheiro melancólico; então, enterro meus dedos sob aquele solo úmido, deixo escapar um gemido inaudível, acompanhado de intenso salivar. Retiro-os ainda úmidos (isso foi intenso) e sigo em frente.
A bruma que outrora era magenta adquiriu tons em escarlate e também ficou mais densa. Após muito caminhar, tenho um vislumbre espetacular: perante a mim, erguia-se um arco esculpido em mármore branco, de altura considerável. Os galhos das faias abraçaram aquela estrutura com afinco.
Estava perplexa com este lugar. Será que acessei outra realidade? Um brilho longínquo surgia dentro da mata. Munida de curiosidade e excitação, atravesso e, mais alguns passos à frente, encontro uma ampla piscina. Parece ser profunda, sua borda feita do mesmo material do arco. As águas eram serenas e sombrias, de mesmo tom da névoa, porém a cor escarlate era predominante.
Um incontrolável desejo de mergulhar se apoderou de mim. Estava prestes a realizar tal ato quando ouço passos em meio à névoa. Sem dúvidas, uma visão espantosa, semelhante a uma aparição fantasmagórica, movia-se com espantosa graça. Parou em frente à borda; então, tive um vislumbre estupendo.
Uma figura feminina, de altura média, sua pele lívida, semelhante a uma boneca de porcelana, dona de uma beleza arrebatadora. Seus olhos eram um excitante enigma o qual adoraria desvendar. As sobrancelhas eram arqueadas, o nariz afilado, emoldurando aquele rosto, longos cabelos negros com duas mechas brancas, chegando na altura dos quadris.
Usava um vestido translúcido; havia rendas francesas tanto na barra como no provocativo decote, ressaltando ainda mais os esplendorosos e firmes seios. Caminhava naquela névoa, tal qual uma bailarina.
Mesmo sem saber a natureza daquela aparição, anseio ardentemente possuí-la. Assisto-a andar pela borda com muita destreza. Em certo momento, ela mergulha a ponta do seu pé direito na água, espalhando gotículas vermelhas no ar, maculando o vestido, assim como a borda. Vi nascer de seus lábios um sorriso tão enigmático quanto o da Mona Lisa.
É impressionante o poder que ela exerce sobre mim. Seus gestos suaves afloram meu lado selvagem, atiçando uma luxúria quase obscena. Um desejo ancestral floresce do meu âmago; nunca pensei que fosse sentir tais sentimentos.
Desenvolvo uma certa obsessão, beirando ao voyeurismo. É excitante pensar na possibilidade dela estar me vendo... Depois de andar, ela senta com elegância e toca suavemente as águas com os dedos indicador e médio em movimentos circulares, criando calmas ondas. Hipnotizada, contemplo seu reflexo distorcido; então, escuto um sussurro vindo da criatura:
— Me chamo Olívian d’Nehr — finalmente pude ouvi-la. Sua voz era doce e irresistível, como o licor das maçãs sangrentas.
O movimento circular se intensificou, deixando a água cada vez mais agitada. Aquele som fez meu corpo contorcer em espasmos libidinosos. Das minhas entranhas escapam gemidos, até que os movimentos cessam (mas as águas permaneceram inquietas, assim como meu âmago). Em seguida, fitou-me e sorriu, enquanto meu colo pulsava em descompasso. Das águas, ergueu os dedos e me chamou silenciosamente; assim o fiz, caminhei ao seu encontro, sem questionar.
Olívian estava de pé, parada. Seus cabelos bailavam com muita leveza ao som dos ventos. Então, fechou os olhos e despiu-se. Fui acometida por um estado febril intenso; abracei a volúpia com fervor. Neste momento, éramos como Adão e Eva na imensidão do Éden e estávamos prestes a morder o fruto proibido. Gostaria de ter pincéis, tintas e um quadro para eternizá-la; seria uma pintura digna de filas quilométricas, sua beleza era assustadora.
Me despi com uma certa rapidez. Vi seus olhos castanhos escuros brilharem diante do meu corpo nu. Finalmente, estou face a face. Sua respiração tranquila, porém quente, toca meu rosto. Ela tinha as mesmas expressões da pintura “Deusa Vênus” feita pelo talentoso pintor italiano, Sandro Botticelli.
— É um prazer inefável conhecê-la, Olívian — as palavras foram silenciadas pelo desejo. Meneou a cabeça cordialmente, seguido do sorriso enigmático. Ouço novamente mais um sussurro: — Acompanhe-me.
Caminhamos por algum tempo até que avistamos uma frondosa árvore a qual me era familiar. Reconheceria aqueles frutos até de olhos vendados. Daquela árvore vinham as afrodisíacas maçãs sangrentas. Olívian pegou uma das inúmeras maçãs, olhou ardentemente em meus olhos e mordeu com avidez, espalhando pelo ar gotículas. A espessa seiva também serpenteou por entre dedos, mãos, queixo, pescoço, passando por entre o colo, cessando em suas pernas.
Ela me oferece a maçã; mordo com vontade, sinto novamente aquele gosto sombrio, porém inesquecível. Deixo a maçã escapar de minhas mãos. Banhadas pela bruma e pelo tênue luar, nossos corpos ardentes se entrelaçam, tornando-se um só. Sob o úmido chão, me entrego ao oceano de prazeres e libertinagem inimagináveis.
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Sanctitas
O licor havia se impregnado em minhas papilas gustativas. Meus dedos agitados fazem o líquido viscoso balançar com inquietação dentro da taça…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O licor havia se impregnado em minhas papilas gustativas. Meus dedos agitados fazem o líquido viscoso balançar com inquietação dentro da taça. Atônita, contemplo o baile sombrio mover-se com extrema volúpia. Meus olhos não eram capazes de acompanhar os movimentos. Fecho os olhos, pois fui acometida por fortes náuseas. Deixo a taça no chão e, vagarosamente, caminho. Mesmo estando longe, era possível ouvir o doce dedilhar sob as cordas dos delicados violinos, assim como as risadas libertinas. Tiro a máscara, e minha tez está febril. Conforme ando, o som das festividades foi se distanciando, se igualando a estranhos sussurros vindos de alguma civilização esquecida há éons.
Em meu íntimo, desejo voltar para o baile. Minhas entranhas suplicam mais um gole do detestável licor. Tento silenciar os pensamentos, contemplando o Castelo. Ao fazer isto, constato que o mesmo se modificou — sua estrutura ganhara dimensões abissais; sofrera, também, graves mudanças. O Castelo estava imerso numa aura lúgubre; cada pedra foi consumida por uma cor inenarrável, profunda e viscosa.
As pedras também sofreram com a presença de terríveis musgos, ocupando as frestas presentes em cada pedra. Noto uma sutil, mas aterrorizante, mudança no ar, tornando árduo o ato de respirar. Vi o véu que guarda segredos além do tempo sendo rasgado perante mim, e então o imaginário se materializou.
— Eram semelhantes a inúmeras partículas de uma pálida poeira, pairando misteriosamente, alcançando todo o interior do Castelo. Fui até uma das janelas e constatei que vinham de fora. As palavras de Evelyn Dubois recaem sobre mim; sorrindo, ela dizia: “Com o passar do tempo, você irá se acostumar.”
A visão que tive foi demasiadamente extraordinária — a poeira ocupava cada centímetro daquela região. O céu ganhara horripilantes pinceladas num desagradável tom de azul-petróleo. Já no horizonte, a magnífica e dourada lua, em sua fase quarto crescente, resplandecia imponente, contornando o cume das montanhas, bem como toda a vegetação, desde as grandes árvores até os pequenos arbustos. Alumiava também os grãos pálidos da arcana poeira, que obedeciam fielmente ao soprar dos ventos. Inclusive, pude sentir um característico cheiro pútrido marítimo, deixando-me atordoada.
Pois bem, estarrecida, afasto-me da janela. Olho em volta; a quantidade de partículas aumentou consideravelmente. Assustada, cubro meu rosto com a mão direita e caminho sem direção, até que encontro um esguio e mal iluminado corredor. Por alguma razão, decido atravessá-lo. À medida que ando, as velas se tornam mais escassas. Noto também que a poeira está se dissipando conforme ando.
Estou entregue à minha própria sorte. Com pesar, observo seu moroso derretimento. Lembrei do meu pai — ele disse que cada vela derretia de uma forma; disse também que o mesmo acontecia com o pavio. Tal lembrança deixou meus olhos marejados. “Ah, pai, queria tanto te ver...” — a frase saiu sem querer, ecoando no imenso corredor. Se eu fechasse os olhos, conseguiria ver sua vasta biblioteca; o cheiro dos livros me acalmava. No centro, havia uma mesa de jacarandá, sempre ornamentada com anotações importantes, livros para pesquisa. Ocupando as laterais, estantes repletas de livros.
Assim como eu, ele era um curioso em relação ao desconhecido. O pouco que sei foi graças a ele. Naquela noite, meus pais não queriam que eu saísse (parecia que estavam prevendo meu terrível destino), mas eles cederam à minha insistência.
Se não fosse por aquele convite — tornei-me taciturna —, onde minh’alma fora devorada por aqueles sedutores e sombrios olhos azuis, eu estaria... Não importa. Estou condenada a carregar a mesma escuridão que meu algoz — ele estava enraizado em meu âmago, e às vezes soprava em meu ouvido verdades incontestáveis. São momentos assim que desejei o aprazível abraço da morte. Porém, algo me resgata do abismo.
Ando mais alguns metros. Vejo uma espécie de aura longínqua e, a princípio, parece disforme. Ando mais depressa, pois era uma visão intrigante. Cheguei perto o suficiente para ver do que se tratava: era uma luz branda, etérea, quase angelical. Fui acometida por uma estranha paz — senti algo semelhante quando estive em Somníria. A quantidade de poeira diminuiu consideravelmente. Paralisada, contemplo o gracioso mover da intrigante luz. Me questiono qual será sua natureza.
Sigo-a até uma porta alta e simples de madeira. Espantada, assisto ela atravessar a porta e desaparecer. Um terrível arrepio percorre meu corpo. Relutante, abro a porta — e não posso crer: achei a biblioteca que incansavelmente busquei. Foi aqui onde encontrei aquele Códex sinistro, que, desde então, havia se tornado uma obsessão. Por breves segundos, esqueci daquela figura espectral. Ela estava no final da biblioteca, levitando próxima da mesa redonda vitoriana, alcançando o abobadado teto — tal qual o famoso espiritualista escocês Daniel Dunglas Home.
Sem dúvidas, era uma visão espantosa. Fechei a porta; sua presença doce preencheu aquele lugar. Era como uma santa. Olhando mais atentamente, havia traços humanos: os cabelos negros ondulados balançavam sob o ar. Vi também um rosto delicado. Os olhos fechados traziam mansidão; já as palmas unidas em oração continham esperança. Para quem seriam aquelas preces?
Fascinada, caminho devagar ao seu encontro. Porém, algo me impede. Escuto, então, passos firmes vindo de fora, acompanhados de um sutil, mas pontual, tique-taque. (Sabia que se tratava de um relógio de bolso, pois era uma das paixões do meu pai.) A porta se abriu lentamente, emitindo um penoso ranger. Mas, antes disso, contemplei a figura sacra desaparecer da mesma forma que surgiu. Um sussurro escapa de meus lábios — mais um evento o qual não teria respostas.
Após isso, uma brisa gélida invadiu aquele âmbito. Meus olhos dançam frenéticos sob as pálpebras. Quem será que adentrou neste recinto? Que presença é esta?
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Láparos
Ela se levantou, estendeu sua mão direita em minha direção. Seus lábios exibiam um sorriso acolhedor, mas que escondia algo. Por fim, acatei seu convite…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Ela se levantou, estendeu sua mão direita em minha direção. Seus lábios exibiam um sorriso acolhedor, mas que escondia algo. Por fim, acatei seu convite, pois ansiava sanar minhas dúvidas. Iniciamos uma silenciosa caminhada. Cautelosa, segui ao seu lado, fascinada e amedrontada com aquele lugar. Sentia uma certa claustrofobia, mesmo o lugar sendo amplo.
Hipnotizada, observei os gases azulados presentes nos numerosos e delicados tubos de ensaio. O som ininterrupto das engrenagens era nauseante. Até mesmo o ar daquele lugar... O desconforto era nítido em meu corpo, mas disfarcei bem — pelo menos, eu acho. Evelyn... ela me intrigava. Em seus olhos havia uma certa malícia — talvez eu esteja errada, talvez seja apenas sua personalidade —, mas o fato de ela conseguir adaptar suas emoções à medida que conversávamos, como se entendesse meus pensamentos, me deixou preocupada.
Conforme andávamos, me explicou algumas coisas, como a intensa luz lá fora. Disse que se tratava de dois sóis, um raro fenômeno, uma falha temporal — mas que era temporária. Imediatamente, paralisei ao imaginar aquela luz impetuosa rasgando minha frágil existência. Evelyn viu o horror em meus olhos, mas escolheu não perguntar sobre o meu estado. Sobre as engrenagens, disse que não sabia nada a respeito. Porém, noto um sorriso brincalhão nascer em seus lábios. Em seguida, falou:
— Não se preocupe, Rose. Talvez nada disso seja real... talvez seja apenas o desconhecido brincando conosco.
Assenti. Em seguida, vi seus olhos esboçarem um estranho sorriso, mas ignorei. Então, avisto ao longe uma porta. Pergunto-lhe onde daria. Disse que ali geralmente era a saída — e afirmou uma verdade irrefutável: o castelo está em constante mudança.
Por fim, despediu-se e novamente disse para ter cuidado, pois nunca saberemos o que iremos encontrar. Mesmo tendo minhas desconfianças, gostei de sua companhia. Mas, ao olhar para trás, não a vejo mais. Alguns passos à frente, me deparo com uma porta deveras alta, que se esgueira horrivelmente sobre mim. Ela era abobadada — diria comum. Toco a maçaneta, sinto o corpo pulsar. Abro-a e, para minha surpresa, estou no magnífico salão principal. Sinto-me ínfima neste lugar.
Inexplicavelmente, o som terrífico das engrenagens sumira. Respirei aliviada. Porém, o castelo estava diferente. Fui abraçada por muitos cheiros. Dentre eles, identifico algumas notas adocicadas de maçã. Não era só isso: percebo também uma fragrância floral bastante sutil, mas marcante. Observei o queimar das muitas velas dispostas em cada parede. Isto me trouxe uma sensação de acolhimento. Porém, o odor ferruginoso permanecia ali, flutuando sobre o ar, tal qual um espectro.
Não lembro a última vez que andei por aqui. Porém, vejo que alguma entidade cósmica jogou os dados do destino — e aqui estou. Parece que um belíssimo jantar será servido. A enorme mesa de jantar está decorada com impecáveis pratos de porcelana branca com a borda em dourado. Para acompanhar, talheres igualmente dourados. Em volta de cada prato, havia galhos secos vermelho-acinzentado, formando uma guirlanda.
Há também um encantador caminho de mesa confeccionado em linho, num tom verde-claro. Acima dele, exuberantes flores ocupam toda a extensão da mesa. Elas possuíam um formato peculiar: suas pétalas se fechavam tal qual um ovo, a ponto de ficar imperceptível a união de cada uma. Suas cores eram vivas e brilhantes — algumas alvas como a neve, outras traziam um tom escarlate. Elas pareciam guardar segredos de antigas eras. Estavam também espalhadas por todo o hall.
Enquanto admirava a enigmática decoração, vislumbro o mover de uma sombra trêmula, descendo lentamente os infinitos degraus da colossal escada. Tratava-se de uma criatura com vestes que remetiam a alguma antiga e sigilosa cerimônia. A túnica negra parecia flutuar conforme caminhava. Ostentava uma horripilante máscara pálida e sorridente de um coelho, com orelhas delgadas. No lugar dos olhos, um vazio abissal. Trazia uma carta escarlate. De maneira cortês, se aproximou e me entregou uma carta. Elevo-a à altura do nariz, e sinto o mesmo aroma de maçã adocicada. Fiquei tão enfeitiçada com tudo aquilo que mal vi a criatura se esvair.
Finalmente, leio. Trata-se de um convite para participar de uma festividade chamada Aesttera. Na carta, explicava-se o significado da celebração. Tudo fascinante. Porém, para mim, não há renovação de ciclos, nem moldar sentidos para uma nova existência — muito menos recomeçar. Mas estou intrigada com o tal Baile de Láparos. Houve menção de que haveria trajes para o baile em meus aposentos.
Dirijo-me rapidamente ao meu quarto. Abro a porta devagar, pois aqui foi palco de fenômenos inexplicáveis. Fiquei mais tranquila ao ver tudo em seu devido lugar. Em minha cama, encontram-se meus trajes: consistiam em uma máscara de coelho e um longo vestido vitoriano preto de cetim, com detalhes de renda no colo e nas mangas. Fiquei encantada com o vestido. Lavei-me e troquei de roupa. Controlei meus rebeldes cachos, coloquei minha máscara e segui em direção ao salão principal.
Apreensiva, tenho um vislumbre magnífico: a celebração havia começado. Todos estavam rigorosamente bem trajados — estavam belíssimos. Os homens, todos elegantes, exibiam seus fraques; e as mulheres, com seus vestidos exuberantes. O salão estava cheio. Confesso que, às vezes, esqueço dos demais inquilinos. Através da máscara, vejo a inquietação de alguns; em outros, permeavam dúvidas e medo; já outros são uma verdadeira incógnita.
Vejo alguém se aproximando — era um garçom, equilibrando taças numa bandeja dourada. Falei educadamente que não queria, porém ele explicou que era um licor das raras maçãs sangrentas. Disse que, devido à maturação das maçãs, um líquido começa a escorrer do fruto, resultando em um espesso licor rubro. Fui persuadida por ele e acabei aceitando.
Em mãos, balancei a bebida, que exalava um aroma doce e tentador. Elevei-a aos lábios. Ao provar, fui tomada por uma excitação. Meu estado alterado foi perceptível. Não era possível... isso seria...? Olhei ao redor. Senti uma sensação estranha de estar sendo observada. Respirei fundo. A taça tremia em minhas mãos. Andei até a rosácea para tentar me distrair. Estava uma linda noite. Elevei meus olhos e vi a luz pálida da lua atravessar a rosácea, resultando em um espetáculo único.
Permaneci ali, assistindo o tênue luar rasgar a escuridão, como se ainda houvesse uma luz no fim do túnel (não para mim, certamente). Tomada por uma desesperança, sorvo mais do doce licor. Porém, algo rouba minha atenção: um pisar firme, longínquo, ecoa pelo salão, acompanhado de um leve caminhar de saltos altos. Também escuto passos apressados. Ao virar, vejo um círculo se formando. Aproximo-me devagar — e então é anunciada uma atração que fazia parte das festividades.
Era uma atração circense: uma arlequina, domadora de Láparos. Ela apresentou truques que desafiavam a lógica — diria, realistas demais. O momento que me causou náuseas foi quando ela tirou cabeças de coelhos da cartola e fez malabarismo com elas. Era possível ouvir, de cada um presente, gritos abafados de horror. Encerrou a apresentação apoiando a cartola na cabeça, arrancando aplausos efusivos.
Não sei se foi efeito do licor ou do truque — contemplei algo perturbador. Da cartola escorria um espesso líquido escarlate, serpenteando por seu rosto maquiado. Tive a nítida impressão de que ela olhava diretamente para mim. Sorrindo, ela se despediu.
Todos ficaram espantados, inclusive eu. O círculo se desfez, e então iniciou-se o baile. Os primeiros acordes da Sétima Sinfonia de Beethoven retumbavam por todo o castelo. A dança começou tímida, mas logo se tornou lascívia. "Preciso de mais uma taça", pensei, observando o baile. Parece que o castelo me ouviu: um dos garçons se aproxima. Devolvo a taça vazia e pego a cheia. Antes de sair, ele disse para não exagerar no licor, pois pode causar alucinações.
Desta vez, senti o gosto adocicado com notas ferruginosas. Meu corpo tremia. O sabor era demasiadamente semelhante. Sorvi aquele néctar de uma vez. Enquanto isso, assisto à dança se tornar frenética, fazendo com que as máscaras adquirissem um aspecto macabro — com aumento das orelhas e a presença de dentes pontiagudos.
Não deveria ter feito isso. Será mesmo sangue?
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Ferruginoso
Desperto mais uma vez em meus aposentos, e o que presenciei em Somníria reverbera em minha mente como uma tristonha canção…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Desperto mais uma vez em meus aposentos, e o que presenciei em Somníria reverbera em minha mente como uma tristonha canção. Melancólica, meus olhos passeiam pelas fissuras presentes nas superfícies das inúmeras pedras maciças do abobadado teto. Perco-me em devaneios sobre a construção deste imponente castelo, e uma pergunta paira sobre minha cabeça: quanto sangue teria sido derramado para erguer estas sólidas paredes?
Bom, estou ‘condenada a viver’ neste infindável limbo sob a regência das perversas mãos do desconhecido. Porém, algo me faz acordar deste transe: uma luz flamejante oriunda de fora atravessa a enorme janela, fazendo com que o lindo lustre vitoriano acima de mim brilhasse terrivelmente. Procuro abrigo na alta cabeceira de veludo verde, abraço meus trêmulos joelhos e me cubro. Parece que o sol está mais quente que o normal. Permaneço encolhida, enquanto a luz mortal consome ferozmente cada resquício de escuridão do meu quarto.
No momento em que cruzei os descomunais portões deste lugar, encontrei a morte algumas vezes, porém nada se compara a isto. De repente, um medo inexplicável perfurava minha alma, uma angústia sem razão aparente preenchia meu âmago vazio.
Precisava agir rápido. Procurei por espaços onde havia vestígios de escuridão; infelizmente, eles eram cada vez mais escassos. O desejo de saber o que se passa lá fora me perturba. O castelo, que em sua natureza é gélido, sentiu uma insólita e sufocante onda de calor, mas temo que essa luz não seja proveniente do sol, e sim de algo grandioso.
Finalmente, encontro uma brecha. Respiro fundo e salto da cama até a porta (ela se encontra a uma distância considerável). Enquanto saltava, desejei ter um breve vislumbre deste enigmático fenômeno, mas, ao fazer isso, deixaria este mundo num piscar de olhos, tal qual a mulher de Jó. Cheguei à porta, abri e saí com rapidez.
Ofegante, contemplei o longínquo e mal iluminado corredor. Caminho em busca de respostas, enquanto as sombras das pendentes velas parecem zombar de mim.
Será que Ameritt sabe de algo? Nosso último encontro foi catastrófico, ainda assim preciso vê-la. Após muito andar, começo a ouvir algo assombroso, um som que parecia surgir das espirais da cóclea, reverberando como um impronunciável sigilo, deixando-me paralisada. Porém, o som vinha de fora. Intrigada, encostei meus ouvidos sobre as paredes. Então ouvi algo tenebroso, semelhante a um terrível ranger de inúmeras engrenagens ocultas, girando em perfeita sincronia. Atônita, prossegui em direção ao oculto.
Em certo trecho, percebi que havia algo além do desagradável ruído: o ar estava denso, chegando a causar náuseas. Apoiei-me nas paredes, respirei e logo percebi: era o odor pungente de ferrugem. Apressando os passos, finalmente alcancei uma porta, que nada se parecia com a porta daquele mágico lugar onde Ameritt tão sabiamente zela pela estufa.
Erguia-se perante mim uma porta ovalada descomunal, feita de um material semelhante ao cobre. Havia incontáveis engrenagens e parafusos, de diferentes tamanhos e espessuras, cobrindo-a por completo. Pareciam provenientes de algum lugar do espaço; seu comportamento obedecia leis não terrestres. Cada engrenagem tinha sua forma de girar, criando diferentes sons, causando estranheza e uma inexplicável fascinação.
Não sei quanto tempo perdi admirando aquele monumento, mas precisava descobrir. Então, ao tocar na maçaneta, senti o repulsivo toque álgido do metal. Foi necessário um pouco de força. Ao abrir, sou recebida com um intenso sopro metálico; o cheiro me causou ânsia. Tranco-a.
A princípio, não consegui ver a dimensão do lugar. Manter-se em pé tornou-se difícil, visto que o ar ali era denso, quase palpável. Aos poucos, o lugar tomou forma através de sons. Ouvi o silábico gotejar de líquidos e também o leve chiar, indicando algum processo de ebulição. Lentamente, aquele lugar se revelou a mim. Era semelhante a uma caverna. Acima de mim, um inalcançável teto abobadado. A vasta e misteriosa vegetação se fundia com as engrenagens. Vejo também vapores índigos serpentearem pelo ar através dos tubos de ensaio. Envolvida pelo terrífico odor ferruginoso, caminho. Quero saber que surpresas me aguardam. É quando um sussurro ecoa:
— Quem está aí?
Sua voz, aparentemente gentil e amigável, me deixou tranquila.
— Pode se aproximar, eu não mordo.
Em seguida, sorriu de forma arteira.
Cautelosa, sigo. Conforme me aproximo, sinto novos odores: óleo queimado, resíduos de alguma alquimia oculta.
— Olá, cara visitante, como se chama?
Apresentei-me, mas com cuidado para não falar demais, apesar de me sentir à vontade perante ela.
— Prazer, Rose. Me chamo Evelyn Dubois!
Seus olhos me estudavam.
— O prazer é meu, Evelyn! Bom, que lugar é este? Eu deveria estar em outro lugar, mas já deveria ter me acostumado.
O castelo está em constante mudança: os corredores se alongam ou diminuem, portas mudam de lugar, além dos acontecimentos peculiares que comumente ocorrem.
Ela prestou atenção em cada palavra dita por mim, ao mesmo tempo que manipulava um líquido roxo em um tubo de ensaio.
Trajava um jaleco branco fechado por apenas um botão e, por baixo dele, havia um lindo vestido vitoriano verde-musgo. Seu rosto era delicado, seus olhos, verdes; seus cabelos pretos estavam amarrados; sua pele era pálida. Ela continuou:
— Bem, Rose, isso vai demandar bastante tempo, mas chegará um dia em que você se acostumará com os eventos ocorridos aqui.
Ela contou brevemente sua história: sua mãe era costureira, e seu pai, um excêntrico cientista. Sua obsessão era desenvolver tintas fotossensíveis. Mas, num fatídico dia, houve uma explosão. Após o incidente (ela não entrou em detalhes sobre o que acontecera a seu pai, e achei melhor não perguntar), assumiu as pesquisas dele. No entanto, de alguma forma, seu foco se voltou para a chamada "cor oculta".
Fiquei curiosa com sua história, e, quando perguntei sobre sua pesquisa, notei uma mudança abrupta. Era perceptível sua frustração em relação à sua pesquisa; parecia que não tivera bons resultados.
— Que lugar é este? — perguntei para mudar o rumo da conversa. Imediatamente, vi a mudança em seu rosto, tornando-se mais uma vez amigável.
— Você está em meu refúgio, um laboratório que se encontra nos arredores do castelo.
Comentou um pouco sobre um evento denominado "Nemonium" e, por algum motivo, uma horrenda criatura foi vista pelos corredores, assombrando os moradores. Gritos de terror foram ouvidos além dos arredores.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Sonial
Sinto os olhos correrem em desespero por debaixo das pálpebras. Vagas lembranças dos fatos ocorridos na estufa atingiam meu corpo…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Sinto os olhos correrem em desespero por debaixo das pálpebras. Vagas lembranças dos fatos ocorridos na estufa atingiam meu corpo, que tremia, desperto com o insistente menear.
De olhos abertos, permaneço deitada sob um infindável jardim de lavandas. Seu aroma adocicado e suave me abraça. Os galhos eram altos o suficiente para envolver meu corpo. Seu leve toque em meu rosto extraiu de mim cócegas e uma lembrança.
Vejo-me deitada preguiçosamente em suas pernas, no nosso sofá da sala. Estamos assistindo a um dos seus filmes preferidos, “Um Corpo que Cai”. Eu amava os filmes do Hitchcock. Minha mãe acabara de passar creme para as mãos. Enquanto meus olhos estavam na televisão, sinto seus dedos macios e cheirosos sobre meu rosto, deixando o aroma marcante de lavanda.
Mas antes que eu me torne melancólica, devolvo-a, o quanto antes, ao cemitério abandonado de memórias. É melhor assim, digo para mim mesma: “Esqueça isto!”. Em seguida, viro a cabeça para a esquerda, e meus olhos se perdem perante os galhos.
A grandiosidade daquele lugar é, sem dúvidas, arrebatadora. Existe uma aura quase celestial. O silêncio sagrado me causa arrepios. Acima de mim, contemplo algo magnífico: trajando um manto alvo está o firmamento e sua imensidão. Um temor se apoderou de mim. Adoto a posição fetal, como forma de me proteger, pois um mísero raio de sol poderia me exterminar. Mas, de alguma forma, nada aconteceu. Apesar de toda vastidão nívea, a luz parecia inofensiva. Não havia nuvens, nem sol nem lua, apenas o vazio opressor.
Decidi me levantar. Limpei as folhas presentes em minhas roupas. Em pé, pude ter a verdadeira dimensão daquele lugar. Caminho, e as lavandas se destacam. Seu balançar é hipnotizante. Será que estou fora do Castelo? Será o fim da minha mísera existência? Será algum efeito alucinógeno daquele preparo feito por Ameritt? O repugnante gosto ainda faz morada em minha boca.
Cuidadosa, caminho enquanto dúvidas pairam sobre minha mente. Olhar em volta e ver apenas o vazio abissal é angustiante. Será que irei parar na vila de Séttimor? Agora, a menção de Ameritt me causa tremor, porém continuo.
Após muito andar, noto algo perturbador. Um horror indescritível dominava meus ossos e entranhas. Meus membros tornaram-se rígidos, como se alguma força de proporções inimagináveis agisse sobre mim.
Elevo meus olhos, e não posso acreditar. Em meio àquela intensa nívea, um colossal e belíssimo umbral, mais escuro que a própria noite, erguia-se no vazio níveo. Trazia adornos vitorianos esculpidos pelos deuses de outra era. Assemelhava-se a um portal. Ao seu lado, havia também uma criatura tão misteriosa quanto aquele lugar. Sua aparência angelical me deixava confortável. Obedeci à sua reverência e, cautelosa, fui ao seu encontro. Estou a dois passos. Sem dúvidas, estava diante de algo grandioso.
— Bem-vinda à Somníria, Rose. Permita que eu me apresente. Meu nome é Lieran, sou o guardião Arquelua do primeiro umbral. Foi-me ordenado guiar-te pelo sonho daquele que teu coração mais anseia.
Sua voz era como um imponente e doce quarteto de vozes cantando em uníssono, algum canto gregoriano secreto que fora esquecido pelo impiedoso tempo. Seu semblante quase angelical me acalmava. Ele tinha cabelos alvos como a neve, e, mesmo com os olhos fechados, parecia saber exatamente quem eu era. Posteriormente, ele me explicou que Somníria é um reino extrafísico que está além da compreensão. Este lugar cuida do plano onírico daqueles que ainda estão vivos, assim como dos que já desencarnaram.
Lieran contou que, em Somníria, tanto os umbrais quanto os guardiões são infindos. Explicou que existem diferentes espécies de guardiões: alguns cuidam dos sonhos, sendo chamados de Arquelua, enquanto outros se dedicam a vigiar pesadelos — os Nocturnos. Disse ainda que há tipos de Nocturnos especializados em pesadelos densos, enquanto outros vagam por pesadelos fúnebres.
Amortecida pelo que acabara de ouvir, observei mais uma vez aquela criatura. Ele se assemelhava a uma escultura de um deus grego esculpido em mármore. Seus traços delicados e marcantes me prendiam, e a possibilidade de entrar em um sonho era intrigante e muito me interessava.
Antes que eu dissesse qualquer palavra, ele fez um gesto para que eu atravessasse o umbral e disse:
— Por favor, tenha cuidado. Visitar sonhos pode ser mortal. Vi que tens alguém em mente. Concentre-se e atravesse. Lembre-se: para retornar, basta dizer meu nome.
Agradeci, respirei fundo e, assim que atravessei, senti uma forte vertigem, como se caísse em queda livre no vazio. Ainda enjoada, abri os olhos e não pude acreditar que funcionara.
Acordei em meu quarto de infância. Tudo estava intacto: os pôsteres de filmes de horror, como Psicose, Janela Indiscreta, Um Corpo que Cai, O Exorcista, O Iluminado, entre outros. Minha estante preta decorada com livros, incluindo romances como Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, O Morro dos Ventos Uivantes — em vida, eu acreditava no amor. Minha escrivaninha estava cheia de cadernos e canetas espalhados. Ao folhear um deles, deparei-me com anotações sobre magia e ocultismo.
Ao vê-las, lembrei-me de um certo livro que está no Castelo. Ele ainda me causa fascínio e repulsa. Recordei sua capa feita de pele, num tom viscoso de carmim quase vivo, suas páginas puídas e o cheiro pútrido que senti ao abri-lo, bem como o toque repulsivo.
Lembro que o livro estava no final da biblioteca, sobre uma mesa redonda vitoriana, coberto por um manto negro. Ele não saiu da minha cabeça: sua natureza desconhecida e o modo como foi confeccionado me intrigavam. Que segredos infindáveis aquelas páginas escondiam? Recordo vagamente ter visto o desenho de um ramalhete naquela terrível noite de nevoeiro.
O Castelo tem me proporcionado experiências inexplicáveis. Aquele baile aterrorizante foi muito marcante. Preciso continuar. Olhei para a direita: algumas roupas estavam empilhadas sobre uma cadeira. É verdade que prometi enterrar estas lembranças, mas decidi fazer este último passeio e despedir-me para sempre.
Tristezas e sorrisos me acompanham. Encosto na maçaneta e sinto um tremor. Ao abrir uma fresta da porta, vejo minha mãe deitada no sofá da sala, como costumava ficar. Mas havia algo perturbador em seu semblante. Seus olhos inertes assistiam à televisão, e o cansaço era visível em suas pálpebras. Seus braços estavam imóveis, e, na palma da mão direita, notei uma marca que parecia um pequeno terço. Deduzi que, em algum momento, ela o segurara com tanto fervor que provocara um ferimento. Após um tempo, uma lágrima caiu de seu rosto, e um sussurro ecoou pela casa:
— Ainda tenho esperanças de que minha filha voltará um dia.
Isso quase arrancou um grito de mim, mas silenciei com as mãos. Não posso mais ficar aqui. A culpa parecia deliciar-se com meu sofrimento. Na cozinha, meu pai preparava o almoço. O cheiro de bife com cebolas fritas me causou enjoo.
Tomada por uma profunda tristeza, murmurei:
— Se não tivesse aceitado aquele convite, talvez estivesse em seu colo, mãe. Eu sinto muito pelas minhas escolhas.
As inevitáveis lágrimas escorreram. Fechei a porta e sussurrei:
— Lieran.
Após isso, senti uma forte sensação de sono até que, finalmente, meu corpo encontrou o solo.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Aborom
Os olhos de Ameritt me estudavam com uma certa fascinação, como se o véu que escondia minha natureza fosse rasgado, expondo o vazio e o negrume do meu ser…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Os olhos de Ameritt me estudavam com uma certa fascinação, como se o véu que escondia minha natureza fosse rasgado, expondo o vazio e o negrume do meu ser. Enquanto sorvia o chá, minhas papilas gustativas se entorpeciam com cada nota presente na infusão. Ela sorriu, levantou-se e me convidou para uma caminhada. Concordei meneando a cabeça, finalizei a xícara, elevei meu rosto e sorri. Ameritt respondeu ao meu gesto com um amável olhar. Inebriada pelos sabores, levantei-me e segui ao seu lado.
Enquanto caminhava, secretamente me questionava sobre esta doce senhora. Quais segredos essa figura tão enigmática esconde? Ela é realmente um ser fascinante, de alguma forma que não compreendo. Sua presença me acalma. Talvez seja sua forma pacífica de falar, seus gestos e seu olhar sereno e penetrante.
Iniciamos a caminhada, e a forma como ela pronunciou a palavra "besin" ressoava em minha mente como um doce sussurro. Era acolhedor e engraçado, arrancando de mim discretas risadas, fazendo-me recordar da minha mãe e do seu amável "boa noite, querida filha", seguido de um carinhoso beijo em minha testa. Espero sinceramente que tais lembranças não sejam esquecidas. Guardo-as em meu mais profundo íntimo e volto à realidade. Ameritt percebeu minha "ausência" e indagou se eu estava bem. Respondi que sim, e continuamos.
Ela estava boquiaberta com a flora desta estufa. Disse-me que cuidava dela com muito esmero. Meus olhos pararam em algo que eu não havia notado antes: enormes abóboras, donas de um brilho hipnotizante.
— Rose-besin — disse Ameritt calmamente, desacelerando seus passos. Receosa, eu a fitava, pois ela poderia saber algo sobre mim; seu olhar parecia sondar meu íntimo.
— Saiba que tenho grande apreço por sua companhia. Não tenho recebido tantas visitas ao longo desses anos, apenas dos meus amáveis besouros.
— Eu que fico lisonjeada com sua companhia. Confesso que... — respirei fundo e continuei —, a senhora me lembra muito minha mãe, tanto na fala quanto nos gestos.
Abaixei a cabeça com grande pesar após dizer isso. Um silêncio pairou sobre nós. Ela não precisou dizer nada; suas feições falavam por si. Prosseguimos, enquanto eu ouvia suas explicações, tudo com uma paixão singular. Era encantador vê-la falando.
— Rose-besin, você está ouvindo? Disse que sim. Que doce som as gotas de chuva fazem ao cair no chão, não é mesmo? Venha, gostaria de mostrar algo especial — ela acenou para o canto esquerdo da estufa.
Após chegarmos, senti algo indescritível, e o que vi foi amedrontador, porém mágico. Eram enormes abóboras detentoras de um brilho único e hipnotizante, como um ardente pôr do sol colorindo o céu com notas alaranjadas. Ao lado delas, nascia um tipo de fungo chamado Obomitas (posteriormente ela explicou-me que era uma espécie de funghi) da mesma tonalidade. Ela disse que, por conta da meia estação, tanto as abóboras quanto os Obomitas se alastraram com rapidez sobrenatural sob as gramas.
Eu ouvia tudo, mas meus olhos estavam usurpados por aquele brilho. Ela explicou o quão difícil era cuidar da estufa nessa época, pois a vegetação sentia a mudança no clima.
— Não é só a vegetação que sente a mudança. — As palavras rastejaram para fora dos meus lábios.
— Perdão, você disse algo, minha querida? Está tudo bem, Rose-besin?
— Não disse nada — sorri, enquanto meus olhos inertes fitavam as abóboras. Estava claro que não poderia esconder quem eu sou, ainda mais para uma pessoa tão sábia como Ameritt.
Ela olhou-me com sinceridade e disse:
— Eu sei, minha querida, o que lhe ocorreu. Existem mais como você aqui no castelo.
Essa informação me deixou surpresa e aliviada por saber que eu não era a única. Contei-lhe da minha transformação, bem como da minha jornada até ali. Ela ouvia atentamente, e seu semblante exibia um grande pesar.
— Eu sinto muitíssimo, minha querida... — Interrompi sua fala, pois já sentia a presença dos pontiagudos caninos.
— Preciso sair... — Mas caí de joelhos. Meus caninos se tornaram visíveis e brilhantes perante os tons alaranjados das abóboras. Gritos inumanos emergiam das minhas entranhas. Vi-a caminhar por entre a estante, enquanto meu corpo se contorcia com violência. Antes que a transformação fosse completa, ela retornou com algo nas mãos. Diante de mim, ergueu as mãos manchadas de terra em forma de concha. Com os olhos fechados, iniciou uma reza numa língua indecifrável. Em seguida, esmagou o que pareciam ser algumas ervas e folhas, produzindo um líquido viscoso esverdeado que caiu em minha boca. Senti um gosto terrível. O que seria isso que acabara de descer em minha garganta?
Sem demora, senti os efeitos. As pálpebras dos meus olhos tornaram-se pesadas, até que finalmente meu corpo tocou o chão.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
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Horrífico
Diante de mim está o altíssimo e longínquo corredor em forma de arco. Seu comprimento é imensurável, tal qual o colossal monstro bíblico Leviatã...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diante de mim está o altíssimo e longínquo corredor em forma de arco. Seu comprimento é imensurável, tal qual o colossal monstro bíblico Leviatã. Assustada, contemplo-o com admiração. Infelizmente, as pedras encontram-se severamente puídas; tenho certeza de que viveram eras em que sua beleza era notada por todos que cruzassem este corredor. Elas eram de diferentes tamanhos e espessuras, mas, unidas, resultavam em um visual sublime e uniforme, apresentando uma coloração que varia entre marrom, verde musgo e, em algumas, um tom acinzentado.
Adornando toda a extensão do corredor, delicadas, porém resistentes teias, executadas com precisão pelas habilidosas aranhas, trabalhavam com ardor sob a chama trêmula oriunda das inúmeras velas. Por estranho que pareça, senti paz observando aquela cena, mas um leve menear trouxe-me de volta. Preciso continuar — digo para mim mesma, enquanto observo as chamas desenharem vultos sobre as pedras. Minha mente voltou a assobiar terrores que vivenciei em meu quarto. Tenho numerosas dúvidas, as quais temo proferir em voz alta. É com esses questionamentos que inicio minha caminhada cautelosa; meus passos ecoam no silêncio, desviando das constantes teias que insistem em enroscar-se em meus cachos. Estou caminhando há alguns minutos. Olho para trás e já não é possível ver o começo do corredor. Conforme ando, vejo que as velas se tornam cada vez mais escassas. Antes que fique em total escuridão, apodero-me de um dos candeeiros e prossigo.
— Parece não ter fim. — Minhas palavras são engolidas pela penumbra, que lentamente me abraça. Lembro-me com clareza deste corredor; percorri-o no dia do grande baile de máscaras, e ele não me parecia tão extenso. Mas prossigo. Estou cogitando a ideia de estar alucinando, de que estou presa em um sonho. Será tudo fruto da minha imaginação? “Não, Rose, concentre-se”, digo a mim mesma, e acabo não percebendo que as paredes se tornaram mais próximas. Sei que é algo ilógico, dada a construção sólida do castelo, mas compreendi que, neste lugar, o inimaginável se torna tão real quanto o breu lá fora.
Meus passos se tornaram mais acelerados, e o corredor mais estreito. Algo me faz parar: uma brisa que não pertencia ao castelo surgiu como uma assombração e parece trazer consigo vida e frescor. Inspiro e vejo folhas verdejantes sendo atingidas por intensos ventos, desprendendo-se e flutuando com graça sob o céu azul até tocar o chão de terra. Reconheço aquele lugar. Volto a ser criança novamente, fecho os olhos e sinto o perfume adocicado da mangueira, o som das suculentas mangas caindo naquele jardim, exalando o cheiro inconfundível.
Abandono a terna lembrança e, mais à frente, me deparo com algo grandioso. Elevo a vela à altura dos olhos e fico extasiada: diante de mim está um lindíssimo portão, esculpido de forma magistral em ouro velho. Em torno dele, pairam centenas de borboletas em tons de marfim, com o bater de asas muito bem orquestrado, um espetáculo, como se velassem segredos além do tempo. Hipnotizada, respiro e vou ao encontro da gélida maçaneta. Ao girá-la, liberto um odor ferruginoso; as borboletas permanecem quietas. Sou recebida por um sopro diferente, um frescor toca meu rosto, como uma leve garoa. À minha frente, encontro uma enorme estufa. O lugar é surreal, meu cérebro tenta assimilar o que vê. Estou em êxtase, parece que cruzei a toca do coelho e vim parar em outra realidade. Aqui, exala vida; a vegetação brilha misteriosamente em tons de verde, roxo e vermelho. Seu brilho se estende por toda a estufa, tal qual uma nebulosa na imensidão do firmamento. Devido à sua bioluminescência, alguns insetos sobrevoam a vegetação colorida. Gotículas de água escorrem sob a redoma de vidro. Plantas das mais variadas espécies crescem vigorosas, exibindo suas folhas e frutos suculentos. Plantas das quais eu não tinha conhecimento que existiam. Quem ficaria encantado por este lugar era meu pai, pois ele era um entusiasta da botânica. Foi ele quem me mostrou algumas obras filosóficas e ocultistas; por não ter conhecimento adequado, compreendia quase nada, mas aquele mundo misterioso me encantou. Lia tudo escondida em meu quarto, na penumbra do abajur rosa; era nosso segredo.
Imersa na nostalgia, vejo algo que me faz suspirar. À minha frente, este lugar também é uma extensa biblioteca, repleta de inúmeros exemplares, desde livros de bolso até verdadeiros calhamaços. Realmente, este castelo não deixa de me surpreender. Abismada, me questiono se o funesto livro se encontra aqui. Atenta, observo tudo, enquanto meus delgados dedos sentem as texturas de cada livro. Noto obras sobre botânica, alquimia, matemática, esoterismo e até mesmo magia. Alguns títulos me eram conhecidos, como A Mônada Hieroglífica, O Livro da Lei, A História da Magia, O Alquimista, e alguns livros sobre botânica que estavam em latim. Sigo lendo os títulos, estou chegando quase ao final da estufa, quando percebo uma mesa vitoriana branca. Sobre seu tampo, uma singela renda do mesmo tom da mesa; havia também duas xícaras e uma chaleira de porcelana verde. Por fim, duas cadeiras, sendo uma delas ocupada por alguém. Receosa, prossigo; agora seus traços ficam mais nítidos. Suas roupas estão com resíduos de terra; era uma idosa, dona de um sorriso sereno, de olhar profundo e amoroso. Trajava uma camiseta branca, uma jardineira e, por fim, um suéter de tricô verde. Havia algumas poucas rugas sob seu rosto pálido. Aproximei-me, temerosa; ela estendeu a mão, convidando-me a sentar. Assim o fiz. Ela sorriu e disse:
— Não tenhas medo, minha jovem. Como se chama?
Sua doce e trêmula voz trazia uma familiaridade que não consigo explicar.
— Me chamo Rose — minha voz soou quase inaudível. Seu olhar era acolhedor, então ela continuou:
— Pois bem, é um prazer te conhecer, Rose-besin. Eu me chamo Ameritt.
Minhas feições me entregaram. Percebendo que eu não havia compreendido a palavra "besin", ela explicou seu significado, contando também que a palavra deriva de povos antigos da vila de Séttimor, que fica nos arredores do castelo. Aquilo me deixou intrigada. Ela mencionou, ainda, as sete mortes e os misteriosos habitantes dessa vila. Apoiei meu pulso sob o queixo e fiquei pensando: o que seria essa tal vila? Como chegar até ela? No entanto, ela continuou falando.
— Resido aqui há muito tempo, e posso afirmar, minha jovem, vi e vivenciei coisas inimagináveis. Mas, pelo que percebi, acredito que você também, não é mesmo, Rose-besin?
Assenti que sim.
— Minha querida, posso lhe oferecer um chá? Eu mesma colhi as ervas. Aliás, percebi como você ficou encantada; vi seus olhos brilhando perante a vasta flora, bem como sua bioluminescência. É prazeroso quando vejo alguém que se apaixona pelo meu jardim.
Perguntei sobre os besouros e insetos daqui, e ela explicou que eles tinham um significado profundo. Além de polinizar, eram almas perdidas que reencarnaram. Fiquei ainda mais confusa e entrei numa espécie de delírio. Será que virarei um besouro também, dada a minha natureza? Seus lábios moviam-se com a ternura de uma avó, me tranquilizando. Então, ela abriu a tampa da chaleira, e logo um aroma peculiar pairou no ar; era único. Ela serviu o chá com tranquilidade, olhou-me e disse:
— Beba, vai se sentir melhor.
Um sorriso plácido surgiu em seus lábios. Elevei a xícara à altura do meu queixo, vislumbrei as especiarias em infusão. O aroma era indescritível e convidativo. Fechei os olhos, inalei e sorvi. Porém, um pensamento assustador pairou em minha mente: e se este chá estiver envenenado?
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Insondável
Minhas mãos suadas permanecem estáticas segurando a maçaneta de ferro, enquanto meus olhos castanhos brilham perante a insondável nívea…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Minhas mãos suadas permanecem estáticas segurando a maçaneta de ferro, enquanto meus olhos castanhos brilham perante a insondável nívea. Desde a minha “morte” tenho presenciado o desconhecido em suas variadas formas, mas nada como o inquietante arranhar dos pálidos galhos sob a estrutura do castelo, causando-me intensos arrepios.
Meus dedos escorregam pela maçaneta, deixando-a para trás. Fito mais uma vez o cinzento céu e caminho devagar rumo à janela. Ouço o soprar dos ventos que, sorrateiramente, rastejam por entre as frestas do castelo, remetendo aos acordes presentes na linda e fúnebre missa composta por Mozart, intitulada Réquiem.
A vejo surgir no canto esquerdo. Ela possui um estranho brilho, ao mesmo tempo que é opaca. A densa névoa parece dotada de algum tipo de inteligência, pois escala com muita perícia cada tijolo, tal qual uma astuta formiga que segue seu caminho com fervor. Volto meu olhar para a escuridão cinzenta e percebo então o que havia constatado há algum tempo: meu âmago é tão vazio e tenebroso quanto a nívea que se move lá fora, usurpando o tênue luar, bem como o brilho das estrelas.
Enquanto meus devaneios me afastam da realidade, uma horrenda dança orquestrada pelos ventos soturnos é iniciada. O balançar dos arbustos e das árvores soa como uma nefasta canção de ninar, proferida secretamente pelos deuses do infindável cosmo, espalhando pelas sombras suas verdes folhas.
Em estado de torpor, acompanho com meus olhos brilhantes o bailar da flora pelos arredores do castelo. Elas parecem obedecer aos comandos de alguma entidade que desconheço, assim como aquele ramoso nevoeiro.
Acabo atraindo a atenção dos incontáveis ramos, que logo vieram ao meu encontro, e finalmente vi sua horrenda forma com clareza. Eram compostos por extensos fragmentos esbranquiçados que, unidos, formavam os pavorosos e colossais ramos. Uma estranha sensação abraça meu corpo, sinto-me vulnerável, como se o ramoso nevoeiro conhecesse minha natureza. Minhas entranhas se contorcem, meu colo palpita desregulado.
Retiro minha mão do vidro com rapidez, mas eles permanecem ali, pairando na escuridão cinzenta, me observando e arranhando a janela de maneira ininterrupta, produzindo um som medonho que logo faz morada em meus ouvidos. Os ventos se intensificam, fazendo com que a dança dos galhos se torne mais intensa. Neste momento, uma dessas lembranças que nosso cérebro tanto se esforça para manter enclausurada nos confins do subconsciente decidiu nadar até a superfície.
Aquele arranhar dos galhos trouxe à tona algo que estava adormecido. Meus olhos agora vestiam uma sombria cortina de lágrimas que estava prestes a cair. Os amargos anos que passei ao lado do Airton foram repugnantes. O som dos galhos remetia aos talheres ainda com resquícios de macarronada deslizando sobre os pratos de porcelana branca, produzindo um som detestável. Ele fazia isso com um sorriso perverso no canto da boca, entre outras inúmeras grosserias. Seu respirar pesado e desagradável era como o soprar dos ventos lá fora. Infelizmente, ele ainda me assombra, tal qual um obsessor que sempre fica à espreita.
Lágrimas caíram e, por breves segundos, a ira se apoderou de mim. Meu corpo tremia, meus punhos estavam cerrados. Um grito emergiu das minhas entranhas: — Deixe-me em paz, criatura horrenda, não me tortures mais! — Gritei até meus pulmões cansarem, para a assombração que cruelmente sorria em meu subconsciente. Minhas palavras foram ouvidas por cada tijolo do castelo. Por mais que queira perder-me em lascívia, precisava me conter. Meu corpo se encontrava febril, minhas mãos sedentas. Com a finalidade de afugentar aqueles pensamentos, fecho a jaqueta, cruzo os braços e inicio uma caminhada em círculos, ignorando completamente o fato de que o assombroso nevoeiro ocupa grande parte do meu aposento.
Após um longo período, vou me acalmando. Mais uma vez, estou diante da porta. Tenho que sair. Respiro fundo e, antes de sair, noto uma presença atrás de mim. Cautelosa, olho por cima do ombro, com a mão na maçaneta. Então, vislumbro algo horripilante: a neblina havia tomado meu aposento quase por inteiro, tal qual a chegada sorrateira da noite, devorando os últimos raios de sol.
Munida de coragem, abro a porta. Sou agraciada por uma brisa gélida. Antes de fechar a porta, vejo pela fresta a névoa se movendo de forma estranha, em círculos. Sinto o frio na espinha me abraçar. Atrás de mim, um enorme corredor iluminado por anêmicas velas que lutavam para não cair dos candeeiros dispostos nas paredes. — Finalmente consegui sair! Sussurrei, enquanto meu olhar se perdia pelo corredor ornamentado pelas sombras disformes vindas das velas. Prossigo em direção à biblioteca; preciso folhear aquele livro mais uma vez.
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Palidez
A sensação de torpor parece não querer me abandonar, cada puído tijolo do meu aposento escuta com atenção minhas aflições, meu corpo ainda sofre com espasmos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A sensação de torpor parece não querer me abandonar, cada puído tijolo do meu aposento escuta com atenção minhas aflições, meu corpo ainda sofre com espasmos, a doce e sedutora voz do Conde reverbera em meu inconsciente, bem como as notas tocadas por aquela fúnebre orquestra.
As vagas lembranças eram confusas, a dança, o jantar, aquela versão obscura do castelo, por mais estranho que fosse, queria estar lá novamente. Continuo deitada em meus aposentos numa majestosa cama, feita de madeira sólida, ela ocupava grande parte do quarto. Elevo meus olhos e noto uma cabeceira imponente em mogno, esculpida à mão, com adornos que eram um verdadeiro deleite.
A cômoda ainda trazia um aconchegante estofado, em tons de roxo, diria que o anfitrião me conhece muito bem, pois esse tecido me remete a um passado quase esquecido. Fecho os olhos e deslizo suavemente meus dedos ainda manchados da última refeição, sentindo toda maciez do tecido, deixando escapar dos meus lábios escarlates tímidos sorrisos.
Sem perceber, sou conduzida para épocas felizes, quando ainda criança, meus pais me cobriam com uma manta de veludo verde musgo, nos dias chuvosos, lembro-me do doce cantar entoado pela minha mãe, quando os intensos relâmpagos invadiam meu quarto, sua voz me acalmava e me fazia dormir. Se eu buscasse nas profundezas do meu subconsciente, ainda conseguia ouvir o sussurrar amoroso, desejando um boa noite, deixando seu inconfundível sutil aroma de rosas.
Por breves segundos, voltei a ser a inocente Rose, cujas únicas preocupações eram: ser uma boa filha, brincar e tirar boas notas. Mas, ao abrir meus olhos inundados de nostalgia, vejo os brilhantes cristais presentes em um lindo lustre feito de ferro fundido, um lembrete de que ainda estou aqui, percebo também que ainda era dia, pois a luz rastejava pela fresta da enorme cortina, (que também era de veludo) em tom de roxo, escondo-me atrás da cabeceira e espero o anoitecer.
Sem demora, ela chegou, a encantadora noite, me levanto com leveza. Caminho para a imensa janela, abro-a e sou banhada pelo cálido luar, em seguida, sinto o toque gélido da noite em meu rosto e meus cachos dançam com o soprar noturno.
Vejo que, ao lado da cama, há uma cadeira vitoriana com minhas roupas dobradas, talvez tenha sido o mordomo; em frente à cama se encontra uma lindíssima banheira vitoriana e, à sua direita, uma pia esculpida em porcelana branca que parece ser do século XIX, com detalhes em dourado.
Meu tempo é escasso, então, limpo meu rosto assim como algumas partes do meu corpo, sinto-me renovada com o toque da água gélida, só então troco de roupa, e torno a ficar em frente à janela.
Não sei ao certo, mas havia algo sombrio nos arredores do castelo, um medo irreal percorre cada centímetro do meu corpo, o terror se manifestar através de arrepios, vislumbro o céu com poucas nuvens, onde as estrelas ostentam um brilho nunca visto antes, a lua está em sua mais bela forma, imponente e cheia, minha atenção se volta para o horizonte, é possível contemplar inúmeras montanhas altíssimas, já outras menores, porém, todas brilhavam horrivelmente com o luar, e a vegetação presente nos picos das montanhas adquiriram um verde neon.
Uma visão arrebatadora, meus olhos seguem perambulando na escuridão, me deparo com vegetações mais rasteiras, e também alguns arbustos, mais abaixo, vejo algumas estradas serpenteando para diferentes direções, absorta, é quando vislumbro algo aterrador, em meio àquela escuridão, surge um denso nevoeiro, fazendo com que pouco a pouco as montanhas, estradas e vegetações desaparecessem em meio à neblina.
Entretanto, não era um simples nevoeiro, eu estava prestes a testemunhar a materialização do desconhecido, nossa ínfima mente não está preparada para tal visão, conforme ela se movia, pude ver uma espécie de galhos longos e esbranquiçados, alcançando alturas inimagináveis.
Absorta, vejo o nevoeiro ultrapassar os altos muros do castelo, fecho a janela pois, ele se aproxima, meu colo palpita descompassado, senti a mesma sensação ao tocar aquele funesto livro confeccionado em pele humana.
Enrolo meus cachos com os dedos frenéticos, e começo a lembrar de algo terrífico; na segunda página do livro, dividindo a folha com outros símbolos e frases, havia um desenho que ocupava uma boa parte da folha, eram longos ramos brancos, o horror ancestral corrói minhas entranhas, meus olhos continuam tragados pelo desconhecido, pouco a pouco me torno nívea.
Já não é mais possível ver as montanhas e vegetações, nem mesmo o brilho da lua, apenas o mover dos brancos galhos na imensidão do céu, ouço passos temerosos subindo e descendo as escadas do castelo, ouço sussurros que se perdem pelos corredores, aquele quarto se torna sufocante, preciso ir novamente à biblioteca.
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Lúgubre
Por mais que eu tivesse anseios em sair de lá, sabia que minha alma pertencia àquele lugar tenebroso onde o odor escarlate emanava de cada puído tijolo…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Por mais que eu tivesse anseios em sair de lá, sabia que minha alma pertencia àquele lugar tenebroso onde o odor escarlate emanava de cada puído tijolo, onde a escuridão chegava a ser tangível.
Após o empurrão, me afastei do salão principal, mas permaneci estática diante daquela figura horrífica, enquanto os musicistas dedilhavam seus dedos sangrentos sob as cordas de aço do violino que lamentava a cada acorde tocado.
— Senhorita! Perdoe minha indelicadeza, permita-me recomeçar por favor, meu nome é Conde Nickollas, disse ele, seus lábios moviam com elegância, e os olhos azuis, apesar de vazios, iluminaram aquele pálido rosto, as maçãs do rosto eram protuberantes, seus lábios sedutores eram um convite à luxúria, emoldurando seu fino rosto. Cabelos lisos, penteados para trás em tons castanhos, ele se portava como um verdadeiro lord, seu vocabulário era riquíssimo.
— Me chamo Rose — minha voz soou trêmula como um sussurro, ele me convida novamente para dançar, aceito seu convite. Enquanto caminhava, o imenso salão tornou-se vazio, tal qual numa dança nupcial, o que causou desconforto, pois era uma lembrança dolorosa, não sei como sobrevivi àquele casamento... foram anos terríveis ao lado daquele crápula, ainda carrego marcas, imersa naquele poço lamacento de lembranças. Ele me conduz de forma gentil, assim como fizera mais cedo.
Meus cachos ruivos bailam no ar, ao som daquele nefasto quarteto de cordas que agora executava a fúnebre peça de Bach: Toccata and Fugue. Enquanto bailo, questiono minha sanidade, tudo isto é real? Quem será o dono deste colossal castelo? O castelo é real? Devo estar em algum sonho, ou em alguma realidade paralela. Meu par, percebeu minha inquietação, envolveu seus braços em volta da minha cintura, sorriu e disse: — Senhorita Rose, o que lhe aflige? — Meu busto palpitava, olho em volta, sinto a volúpia através das máscaras, sussurros se intercalam com sorrisos.
— Não há o que temer... — em seguida ele sorriu, então, vislumbrei o que seus lábios de seda escondiam, eram caninos pontiagudos brilhantes. Desviar o olhar se tornou uma árdua tarefa.
Uma leve vertigem apoderou-se de mim, disse-lhe que não me sentia bem, então fomos em direção a uma das inúmeras janelas. Chegando lá, fomos agraciados com uma túrgida e lânguida lua, brilhava soberana sob a temível escuridão. Fui arrebatada por aquela visão, fui tomada por um inominável terror, mas não consegui emitir nenhum som. Ao abri a janela, uma impetuosa lufada de vento nos abraça, se não fosse a rapidez do meu par, estaria ao chão.
Olhando em meus olhos ele disse: — Notei que você está fraca, suponho que esteja faminta, vamos alimente-se. — Ele, então, ergueu seu punho sob a luz do lúgubre luar, era possível ouvir o pulsar de suas veias, sem pensar, cravo minhas presas com vigor em seu braço, sinto o rasgar de sua pele, e finalmente vejo a vida escorrendo do braço, o líquido viscoso e amargo desce por minha garganta, estava faminta, por mais que o gosto fosse repulsivo, eu precisava.
Espasmos percorriam meu corpo, acompanhados de gemidos inaudíveis, meus lábios e busto estavam manchados de escarlate, assim como meu lindo vestido.
Experimentei um profundo torpor, foi mais devastador do que a primeira vez, olhei ele e agradeci, após isto, sucumbi em seus braços.
Acordei nos meus aposentos com uma forte dor de cabeça e náuseas. Eu ainda estava de vestido, o vestido com manchas escarlate, e aquele estranho gosto na boca. Pouquíssimo me recordo da noite anterior, então permaneço deitada e tento entender o que ocorrera.
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Convite
Um estridente ranger é ouvido por toda biblioteca; a porta fora aberta, mas permaneço encarando o temível livro. Quando um forte caminhar rasga o…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Um estridente ranger é ouvido por toda biblioteca; a porta fora aberta, mas permaneço encarando o temível livro. Quando um forte caminhar rasga o silêncio daquele lugar, causando sutis arrepios, em determinada hora, os passos cessam, pela minha visão periférica enxergo debilmente uma figura, ela traz consigo um castiçal contendo uma vela a qual projeta, sob o piso de pedra, dançantes sombras; ao virar, me deparo com uma figura trajando um manto sombrio e, após um comprimento formal, a figura estende uma das mãos, revelando um envelope rubro, se esvaindo na escuridão, deixando-me sozinha novamente.
Abro o envelope com cautela, meus olhos quase saltam da órbita. Escrito em letras douradas, no papel de mesmo tom rubro, um convite para um exuberante baile de máscaras; tal ideia me encanta, pois, sonho com este momento desde criança, leio com atenção as instruções, assim como a localização dos meus aposentos, bem como meus trajes.
Eufórica, imaginei-me rodopiando com algum deslumbrante vestido, animada, guardei o convite na jaqueta, respiro profundamente, e ele ainda está lá, o livro clama por mim, creio que terei tempo de vê-lo, mesmo que rapidamente. Volto-me para o livro, deslizo suavemente meus dedos sob a repugnante superfície daquele puído e grandioso exemplar, deixando resíduos debaixo das minhas unhas. Havia um símbolo em sua capa, vejam bem, apesar de nova, sou bastante curiosa em relação ao oculto, consumi alguns livros sobre o assunto, mas esse símbolo me causa certa estranheza, nunca vi nada igual, e se encontra severamente devorado pelo infindável tempo.
Ao abri-ló me deparo com uma série de funestos símbolos e fragmentos de textos, escritos em uma língua desconhecida, tão antiga quanto a existência. O odor ferruginoso salta no ar, fazendo-me salivar, meu colo pulsa fortemente, deixo escapar de meus lábios uma leve excitação, “preciso me controlar” digo a mim mesma, fecho o livro, e vou em direção aos meus aposentos, pois tenho um baile a ir.
Conforme eu caminhava, ouvia conversas e sussurros, alguém caminhava com graça sob saltos altos, escuto um ansioso respirar, notei algumas fragrâncias como sândalo, outras mais cítricas, cheguei até meu quarto e abri a porta. Meu coração, então, disparou, acima dos lençóis perfeitamente arrumados, encontrava-se meus trajes. Sem dúvida o anfitrião me conhecia, era um estupendo vestido longo renascentista, todo trabalhado no cetim roxo, adornos em rendas pretas abrilhantaram ainda mais a peça, por fim, uma encantadora máscara, feita inteiramente com rendas douradas e roxas.
Devidamente vestida, me dirigi com rapidez para o salão principal, meu colo batia descompassado, segui com mãos gélidas. Após atravessar um extenso corredor, me deparo com o salão principal, repleto de rostos desconhecidos, homens e mulheres trajando a mais pura elegância, todos exuberantes, tudo era maravilhoso, as máscaras deixavam tudo ainda mais misterioso.
Um quarteto de cordas tocava alegremente as quatro estações de Vivaldi, os acordes tocados eram um convite para bailar, meus olhos ainda contemplavam aquele belíssimo baile. Pouco a pouco os outros hospedes ocupam o enorme salão, meus olhos encontram uma estranha figura, ela se aproxima com leveza, muito cordial me oferece uma bebida em tom carmim, retribuo a gentileza, aceitando a taça dourada. Após erguê-la, sorvo de forma voraz, em seguida ele me conduz para o meio do salão, estende a mão direita e gentilmente me convida a dançar, ele trajava vestes negras, sua máscara do mesmo tom das vestes; seus olhos azuis me remetiam à horrenda noite em que experimentei o gosto amargo do sangue.
Após longos rodopios, encontrava-me em outro lugar onde a decadência reinava imponente, assemelhando a um sonho, o castelo estava em ruínas, todos os convidados assemelhavam a horrendas sombras bailando em celebração à depravação, a alegre canção que outrora preenchia o castelo fora substituída por notas fúnebres da sinfonia de Giuseppe Tartini, intitulada Devil’s Trill; a dança se tornou lascívia, com movimentos rápidos, meu estranhamento foi notado pelas criaturas, era possível ouvir sussurros maldosos através das sombrias máscaras. Soltei a mão do meu acompanhante e questionei o que estava acontecendo, mas ele gargalhou, senti o escárnio vindo dele.
Aproximou-se de mim e disse: “Você não pode fugir disto, é o seu destino! Entregue-se à escuridão”. Amedrontada, empurrei-o e tentei respirar, em vão, por mais medonho que fosse, ele tinha razão, pertenço à escuridão.
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Escarlate
Antes de adentrar ao castelo, contemplei por mais uma vez aquela monstruosidade arquitetônica. Dentre as janelas, gárgulas e torres, algo me chamava a atenção…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Antes de adentrar ao castelo, contemplei por mais uma vez aquela monstruosidade arquitetônica. Dentre as janelas, gárgulas e torres, algo me chamava a atenção, se tratava das belíssimas e grandiosas rosáceas, despertando em mim as mais profundas emoções. Elas traziam um tom escarlate bastante vívido e brilhante, o pálido luar deixava-as ainda mais lindas, como se a tinta usada para as pintar fosse sangue. Ainda absorta, me aproximei da aldrava e, ao tocá-la, senti meu peito palpitar em desassossego, meu colo inflava de ansiedade, era nítido que aquele lugar clamava por mim e eu por ele. Fechei os olhos e escutei sutis passos, e sussurros, até mesmo um leve passar de páginas, algum escritor ou escritora talvez, mas eu estava decidida a entrar.
Minhas trêmulas mãos abriram delicadamente a majestosa porta rúbea, o ranger dela ecoou castelo adentro. Fui recebida por uma cálida lufada que embaraçava meus cabelos. Eu estava completamente arrepiada, pois aquele ambiente me parecia familiar, contudo, eu tinha de ser cautelosa, pois não sabia quem eu iria encontrar.
Pois bem, resolvi andar lentamente admirando tudo e, de fato, sua fachada era imponente, mas nada se comparava ao interior, quão aprazível era admirar aquele teto altíssimo, imaginar cada pedra sendo erguida, paredes sendo construídas, a decoração era de muito bom gosto, algumas poltronas vitorianas em tons escuros, uma mesa enorme de jacarandá repleta de cadeiras de veludo roxas. Notei uma grande quantidade de pratos de porcelana branca e talheres de prata dispostos, havia também guardanapos e taças de cristal que brilhavam ao longo da mesa; preciso citar o notável candelabro de ferro fundido. Outros móveis compunham o castelo, senti-me uma mísera formiga diante daquele majestoso lugar.
Os anseios em descobrir quem era o anfitrião deste castelo e quem eram os demais inquilinos que perambulam neste colossal castelo, preenchiam minha mente, porém, estava temerosa, pois logo menos eu sentiria fome.
Distraída em meus devaneios, me deparei com uma determinada porta, igualmente linda, com adornos talhados a mão. Admirei com um certo fascínio e respirei fundo ao sentir a gélida maçaneta de prata. Com o coração disparado, abri a pesada porta de mogno. Diante de mim estava um enorme cômodo que me parecia ser uma descomunal biblioteca recheada de incontáveis livros, todos em capa de couro das mais variadas cores, perfeitamente organizados do tom mais claro ao tom mais escuro. A estante ocupava toda a extensão das paredes que mediam por volta de quatro metros de altura. Toda a marcenaria foi pintada no mesmo tom presente nas rosáceas. No centro, havia uma mesa redonda vitoriana coberta por um manto negro e de imediato recordei do notável fenômeno das mesas girantes, popularmente difundido na Europa durante o século XIX. Acima da mesa havia uma obra de numerosas páginas, ao me aproximar, percebi algo nefasto, pois sua capa parecia ser feita de pele humana, exalava um terrível odor pútrido, sua coloração também era desagradável, um misto de tons avermelhados com pinceladas de marrom. As páginas estavam puídas, as traças haviam devorado horrivelmente as laterais das páginas.
Quanto mais eu contemplava aquele livro, mais queria folheá-lo. Finalmente fui derrotada pela minha curiosidade, cheguei até a mesa e debrucei-me diante dele, um misto de excitação e pavor percorria minha pele. Ao tocá-lo constatei que realmente era pele humana, eu estava prestes a abri-lo quando ouvi um ranger vindo da porta, alguém acabara de adentrar na biblioteca, paralisada, sinto a brisa soturna acariciar minha nuca, pergunto para mim mesma quem será? Ou... o que será?
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Caminhava eu, cautelosamente, sobre os paralelepípedos ainda úmidos da decrepita rua. Se tratava de um trajeto bastante íngreme…
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Caminhava eu, cautelosamente, sobre os paralelepípedos ainda úmidos da decrepita rua. Se tratava de um trajeto bastante íngreme. Notei, também, a presença de limo por todo o percurso que era iluminado por puídos postes, emissores de uma oscilante luz em tons de amarelo.
Era uma plácida e refrescante noite de outono, eu trajava uma blusa verde musgo, calças e botas pretas, além de uma jaqueta jeans azul marinho, roupas que foram maculadas e manchadas de escarlate, assim como minha alma. O gosto ferruginoso permanecia na minha língua. Afasto meus cachos ruivos que insistiam em cair sobre minha pálida testa, vislumbro o firmamento, onde a tímida lua minguante brilhava palidamente por detrás das nuvens pintadas de grafite, a sutil brisa noturna passara por mim, quase imperceptivelmente, espalhando o pútrido lixo por toda a extensão da rua, proveniente de sacos rasgados por gatos arteiros.
Enquanto meus olhos passeiam pela noite, meus aguçados ouvidos escutam sons familiares, como risadas de crianças, conversas, e até mesmo o fechar de portas. Conforme eu caminho, sinto um cheiro que me faz parar, era um apetitoso jantar, um pernil assado com batatas coradas, servidos com arroz de especiarias. Por mais suculento que fosse, deixou-me enjoada, então, apoiei os braços em meus joelhos, respirei e andei o mais rápido possível.
Nunca desejei tal destino, tudo o que eu queria era seguir minha vida tranquila, porém, meus planos e sonhos foram usurpados por aqueles belos e vazios par de olhos. Enquanto caminho mergulhada em uma espécie de catalepsia, penso o quão fui tola em aceitar o convite para aquela festa, praguejo a mim mesma, imersa em pensamentos sombrios, sinto a culpa me consumindo como um verme de insaciável fome. Então me deparo com o final da rua, porém, algo me perturba, elevo meus olhos e noto uma imensa ladeira bastante íngreme. Instigada pela minha curiosidade, início mais uma jornada.
A rua era completamente diferente da outra, a ausência de casas me chamou a atenção, como se fosse um caminho para o desconhecido, ela assemelhava-se a um verdadeiro conto horrífico. Notei, também, que ela era feita de terra, ornamentadas de grandiosos pinheiros, ocupando toda a extensão, formando um interminável túnel, impedindo, assim, que o lânguido luar iluminasse aquele lugar. Seria um caminho que a grande maioria evitaria, devido a sua atmosfera soturna, mas algo dentro das minhas entranhas clamava para que eu caminhasse por aquelas terras, e assim segui. Em determinado trecho, percebi que o soprar do vento se tornou mais intenso, trazendo um cheiro pungente, inspirei, um forte arrepio abraça meu corpo, sentia em minhas entranhas que precisava chegar ao final da rua. Enquanto isso, as árvores bailavam ao som de uma canção desconhecida, o som dos galhos reverberava na escuridão. Novamente me encontro refém dos meus pensamentos, ao olhar para traz, vejo a rua desaparecendo, sendo tragada pela escuridão. Ando mais alguns metros, mas paro imediatamente, eis que vejo uma construção magnifica, um colossal castelo, com os mais belos adornos presentes na arquitetura gótica, meus olhos não alcançam o cume, os vitrais brilham lindamente na escuridão. Em êxtase, subo alguns degraus empoeirados e sou recebida pela imensa porta de madeira, em tons brilhantes de escarlate, por fim, uma grande aldrava de ferro fundido completa aquela obra de arte.
— Será que ouso bater na porta?
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…