O que saber antes de ler Drácula?
Atualmente, não há quem não conheça Drácula, o icônico vampiro que, desde a sua publicação em 1897, vem servindo de inspiração para outras obras literárias…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Atualmente, não há quem não conheça Drácula, o icônico vampiro que, desde a sua publicação em 1897, vem servindo de inspiração para outras obras literárias, filmes e músicas, moldando para sempre a imagem do vampiro. Mas antes de mergulhar em suas páginas sombrias, é interessante conhecer o contexto em que ele foi criado.
Drácula foi escrito nos últimos anos da década de 1890, em pleno apogeu da era Vitoriana, um período marcado por grandes avanços tecnológicos e industriais, expansão do Império Britânico e profundas transformações sociais, especialmente o crescimento da classe média. Mas, ao lado desse progresso, emergiam medos e ansiedades: fascínio pelo oculto, espiritismo e uma sensação de decadência moral. Obras literárias desse século frequentemente expressam esse choque entre modernidade e tradição.
Sabemos que antes de escrever o famoso romance, Stoker viajou por vários países, o que possibilitou suas pesquisas sobre o folclore europeu e as histórias mitológicas dos vampiros. Em Drácula, temas como o medo do “outro” (representado pela invasão estrangeira) — provavelmente fruto da própria experiência do autor como estrangeiro em diferentes países — é simbolizado pela figura do próprio vampiro, que no romance vive nos Cárpatos e pretende invadir Londres para contaminar o Império e conseguir um exército.
Outros temas polêmicos permeiam a obra; um dos mais discutidos pelos críticos é a repressão sexual e o tabu do desejo feminino, conectando o sobrenatural às tensões culturais da época. No clássico, as mulheres ocupam papel de destaque, não ocupam um lugar de submissão em relação à figura masculina. Mina Harker traduz as ambições intelectuais femininas da época: ocupando um cargo de professora, dona de uma mente aguçada e conhecedora da taquigrafia. Não se pode deixar de mencionar que, dos cinco vampiros presentes no romance, quatro são mulheres: agressivas, sedentas por sangue e ousadas sexualmente.
É interessante notar que, antes da obra de Stoker, os vampiros eram retratados como criaturas grotescas que saíam das sepulturas para aterrorizar vilas. Foi Stoker quem, a partir de suas pesquisas sobre o folclore do leste europeu — onde encontrou inclusive o termo ‘nosferatu’ —, uniu essa tradição à aristocracia vitoriana, transformando o vampiro em uma figura sedutora e carregada de inquietações sobre a sexualidade da época. Alguns teóricos ponderam, inclusive, que o próprio Stoker seria homossexual. Talia Schaffer, membro da Associação Norte-Americana de Estudos Vitorianos, aponta cartas intensamente homoeróticas escritas pelo autor e enviadas ao poeta americano Walt Whitman. Além disso, Stoker iniciou a escrita um mês após a prisão de seu amigo Oscar Wilde por homossexualidade.
Mas o que torna a leitura de Drácula mais fascinante é o uso do romance epistolar. A narrativa não se desenvolve de forma linear; os fatos são apresentados ao leitor por meio de cartas, telegramas, recortes de jornal e trechos de diário. Esse recurso confere verossimilhança ao que está sendo contado e obriga o leitor a unir fragmentos da história através das diferentes perspectivas dos personagens. O resultado é uma tensão constante que alimenta a curiosidade a cada página.
Já comentei um pouco sobre Mina Harker, mas há outros personagens igualmente fascinantes que compõem a trama. Entre eles, destaca-se o próprio Conde Drácula: um aristocrata sedutor e monstruoso, que combina ameaça e charme em uma personalidade única. Lucy Westenra é vítima do próprio desejo reprimido e da corrupção vampírica, ao passo que Van Helsing faz o papel de herói, servindo de ponte entre a ciência e a superstição.
Por fim, recomendo veementemente a leitura deste clássico do horror gótico, não por seu status canônico, mas sim por ser a obra que originou a figura do vampiro moderno. Com mais de 30 adaptações cinematográficas, Drácula permanece uma obra poderosa, que ilustrou com brilhantismo os temores e dilemas políticos e sociais de sua época, mas que continuam a ressoar com força até os dias atuais.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Criaturas que Carregam o Nome de Drácula
Desde que Bram Stoker publicou Drácula em 1897, o conde da Transilvânia deixou de ser apenas um personagem literário para se tornar um ícone cultural..
Imagem: Eric Hunt
Desde que Bram Stoker publicou Drácula em 1897, o conde da Transilvânia deixou de ser apenas um personagem literário para se tornar um ícone cultural. Sua aura sombria atravessou as páginas, o cinema e o teatro, infiltrando-se também na ciência natural. Naturalistas e biólogos, inspirados por seu caráter sinistro, batizaram diversas espécies com o nome de Drácula ou do próprio Stoker. Assim, o vampiro literário ganhou vida no mundo real, fazendo parte da flora, da fauna e até da paleontologia.
Orquídeas do gênero Dracula
As orquídeas Dracula formam um gênero vasto, com cerca de 146 espécies diferentes. Algumas espécies de Drácula são conhecidas por lembrarem o rosto de primatas, como exemplo temos a Dracula simia. Nascem, em sua maioria, nas montanhas úmidas da Colômbia e do Equador, embora algumas espécies tenham sido registradas no Peru, México e em outros países da América Central. Preferem regiões mais escuras das montanhas, com sombra, onde a umidade é bem alta, dificilmente vão estar expostas à luz solar. Cada Dracula possui nomes bem específicos e alguns exemplos incluem: D. diabola, D. nosferatu, D. vampira e D. vlad-tepes.
Papagaio-Drácula (Psittrichas fulgidus)
No norte da Nova Guiné vive o papagaio-Drácula (Psittrichas fulgidus). Diferente dos papagaios tropicais coloridos, este pássaro possui penas negras que recobrem corpo e asas, enquanto o peito e o ventre brilham em vermelho intenso. Em voo, parece um conde emplumado, trajando uma capa de veludo rubro e negro. Apesar do nome, não é um predador sanguinário, ele se alimenta principalmente de figos, outras frutas, flores e néctar. O rosto nu, sem penas, aumenta sua aparência sinistra, mas também facilita a sua alimentação, evitando que resíduos se acumulem.
Imagem: Greg Hume
De cauda curta e porte imponente, mede cerca de 50 cm, e vive entre 20 e 40 anos. Endêmico da Nova Guiné, é alvo do tráfico por suas penas negras e vermelhas, usadas em adornos tradicionais. Desde 2017, está na Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza), classificado como vulnerável.
Morcego-vampiro-gigante (Desmodus draculae)
Entre mais de 1.500 espécies de morcegos, apenas três se alimentam de sangue, todas da América Central e América do Sul e México. O morcego-vampiro-comum (Desmodus rotundus), espécie que se alimenta de mamíferos. O morcego-vampiro-de-asas-brancas (Diaemus youngii), que tem preferência por aves. E o morcego-vampiro-de-pernas-peludas (Diphylla ecaudata), que também tem preferência por aves.
No passado, porém, existiu um vampiro mais imponente: o Desmodus draculae, ou morcego-vampiro-gigante. Com 50 cm de uma asa a outra, viveu entre 2,5 milhões e 3 mil anos atrás, compartilhando cavernas com preguiças gigantes. Nomeado em homenagem a Drácula, ele se alimentava de mamíferos de grande porte, como um predador noturno da megafauna hoje extinta. Hoje o que resta dele são apenas fósseis, apenas lembranças de que, em eras passadas, até o morcego-vampiro teve representantes grandiosos.
Peixe-Drácula (Danionella dracula)
No sul da Ásia vive o Danionella dracula, um peixe minúsculo onde apenas os machos exibem presas afiadas, usadas não para se alimentar de sangue, mas para duelar por território. Sua anatomia é igualmente estranha: metade do esqueleto de um peixe adulto que nunca se desenvolveu, mantendo-o em estado larval. É como se seu desenvolvimento tivesse sido incompleto, um desvio evolutivo que suspende o corpo no tempo. Assim, o peixe-Drácula vive eternamente jovem, incompleto e estranho, carregando presas afiadas.
Formiga-Drácula (Mystrium camillae)
Imagine uma mordida disparada a 320 km/h, cinco mil vezes mais rápida que um piscar de olhos humano. Essa é a arma da formiga-drácula (Mystrium camillae), do Sudeste Asiático e da Oceania. Suas mandíbulas funcionam como mola, trinco e alavanca combinados, produzindo o movimento mais rápido já registrado no reino animal. Pequenos artrópodes são atordoados, esmagados e levados ao ninho como alimento das larvas. Essas formigas mostram que o vampirismo não se restringe ao sangue, mas também à velocidade letal que devora a vida em frações de segundo.
Aracnídeos das cavernas do gênero Draculoides
No noroeste árido da Austrália, longe da luz, rastejam os Draculoides, aracnídeos que habitam exclusivamente as cavernas. Caminham sobre seis patas, usando duas como antenas sensoriais, e seus pedipalpos (segundo par de apêndices articulados localizados próximos à boca) lembram presas de vampiros. Com eles, capturam pequenos invertebrados, despedaçando-os e sugando seus fluidos vitais. Entre as espécies mais conhecidas estão: D. bramstokeri, D. carmillae, D. belalugosii, D. nosferatu, D. immortalis. Esses aracnídeos perpetuam na biologia o legado do conde e prosperam no escuro das cavernas se alimentando do que resta da vida.
Da orquídea das montanhas ao peixe eternamente jovem, do papagaio rubro ao morcego extinto, da formiga super-rápida ao aracnídeo das cavernas, todos esses são Dráculas da natureza, pois o conde nunca morreu, seu nome apenas se multiplicou em flores, aves, insetos e fósseis, espalhando sua sombra pelo mundo real, provando que a literatura e a ciência compartilham o objetivo de compreender a experiência humana e podem inspirar-se mutuamente para gerar novas ideias e descobertas.
Referências:
COSTA, Maria Clara Nascimento; COSTA, Henrique Caldeira. Drácula pré-histórico. [S. l.]: Ciência Hoje das Crianças, 10 jan. 2020. Disponível em: https://chc.org.br/artigo/dracula-pre-historico/. Acesso em: 27 set. 2025.
HSU, Jeremy. New 'Dracula Fish' Has Fake Fangs. [S. l.]: Live Science, 9 abr. 2009. Disponível em: https://www.livescience.com/3471-dracula-fish-fake-fangs.html. Acesso em: 27 set. 2025.
HUME, Greg. Papagaio-Drácula: conheça essa ave de aparência soturna que remete ao famoso vampiro. [S. l.]: National Geographic Brasil, 28 out. 2024. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/animais/2024/10/papagaio-dracula-conheca-essa-ave-de-aparencia-soturna-que-remete-ao-famoso-vampiro. Acesso em: 27 set. 2025.
PERRELLA, Flora. Researchers count 13 new species of fanged arachnids in the Pilbara. [S. l.]: Western Australian Museum, 28 out. 2020. Disponível em: https://visit.museum.wa.gov.au/learn/news-stories/researchers-count-13-new-species-fanged-arachnids-pilbara. Acesso em: 27 set. 2025.
ROYAL BOTANIC GARDENS. Board of Trustees of the Royal Botanic Gardens. Orchidaceae Dracula. [S. l.]: Royal Botanic Gardens, . ?. Disponível em: https://powo.science.kew.org/taxon/urn:lsid:ipni.org:names:30001158-2#other-data. Acesso em: 27 set. 2025.
VEIGA, Edison. A incrível formiga drácula, que tem as mandíbulas mais potentes do mundo animal. [S. l.]: BBC News Brasil, 12 dez. 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-46531170. Acesso em: 27 set. 2025.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
O Fascínio das Sombras: Por Que o Gótico Ainda Nos Seduz em Pleno Século XXI
Em um mundo onde a velocidade e a luz parecem ser a…
Imagem criada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Em um mundo onde a velocidade e a luz parecem ser a moeda mais valiosa, existe um refúgio para as almas que buscam o contraste, a profundidade e a beleza que floresce no escuro. Falo do universo gótico, um gênero que, mesmo em pleno século XXI, continua a exercer um fascínio inegável sobre leitores e criadores. Para selos editoriais como o Nunca Mais da Editora Castelo Drácula, essa persistência não é apenas uma tendência, mas a prova de uma verdade atemporal: há algo intrinsecamente humano na atração pelo mistério, pela melancolia e pelo sublime horror.
Mas afinal, por que o gótico ainda nos seduz tanto? A resposta reside em sua capacidade de tocar em cordões sensíveis da nossa psique, oferecendo um espelho para medos e anseios que a modernidade tenta, em vão, silenciar.
A Beleza da Imperfeição e da Decadência
O gótico celebra o que está em ruínas, o que se desfaz. Mansões assombradas, igrejas ancestrais e paisagens lúgubres não são apenas cenários; são personagens que respiram histórias de glória perdida e dor acumulada. Em um mundo que busca a perfeição e o novo a todo custo, o gótico nos lembra que há uma beleza singular na imperfeição, na passagem do tempo e na inevitabilidade da decadência. Como afirma o teórico cultural Simon Reynolds, "o gótico nos convida a contemplar a fragilidade da existência e a beleza melancólica da destruição." Essa estética ressoa com a nossa própria finitude, tornando-a menos assustadora e, paradoxalmente, mais bela.
O Mergulho na Psicologia Humana
Muito além dos castelos e fantasmas, o gótico é um profundo estudo da mente humana. Seus personagens frequentemente lidam com a loucura, a obsessão, a culpa e o desejo proibido. A escuridão exterior muitas vezes espelha a turbulência interior, levando o leitor a explorar os recantos mais sombrios da alma. Um estudo publicado no Journal of Popular Culture sobre a popularidade duradoura do gótico sugere que o gênero oferece um espaço seguro para a exploração de emoções complexas e tabus sociais, funcionando como uma válvula de escape para tensões psicológicas. É nesse mergulho psicológico que reside a verdadeira força do gênero, permitindo-nos confrontar nossos próprios demônios de uma forma segura e catártica. O selo Nunca Mais, ao buscar "almas condenadas" e "lirismo lúgubre", entende que a profundidade emocional é a essência do gênero.
O Romance Sombrio e o Sobrenatural
O gótico nos oferece um tipo de romance diferente: intenso, muitas vezes trágico, permeado por segredos e paixões proibidas. Não é o amor idealizado, mas a atração pelas sombras, a conexão com o que é tabu. Unido a isso, a presença do sobrenatural – fantasmas, vampiros, criaturas da noite – não é apenas para causar susto, mas para questionar os limites da realidade e da existência. Como pontua a pesquisadora de literatura gótica Catherine Spooner em sua obra "Contemporary Gothic", o sobrenatural no gótico serve frequentemente como uma metáfora para forças sociais e psicológicas que estão além do controle humano, aumentando a sensação de desamparo e fascínio. Esses elementos fantásticos servem como metáforas para os medos e as tentações humanas, adicionando uma camada extra de mistério e fascínio.
Uma Contracultura que Resiste ao Tempo
O gótico, em suas diversas manifestações culturais (literatura, música, moda), sempre funcionou como uma contracultura, um espaço para o diferente, o marginalizado, o incompreendido. Em uma sociedade que valoriza a conformidade, o gótico é um convite à individualidade, à expressão da melancolia e à aceitação do lado sombrio da vida. Pesquisas sobre comunidades góticas, como as de Paul Hodkinson ("Goth: Identity, Style and Subculture"), demonstram que a subcultura gótica oferece um senso de pertencimento e uma identidade alternativa para aqueles que se sentem deslocados da norma social. Para a Editora Castelo Drácula e seu selo Nunca Mais, isso significa um público fiel e apaixonado, que encontra nas obras um eco de suas próprias sensibilidades e um lugar para pertencer.
O selo Nunca Mais não apenas publica obras góticas; ele celebra uma filosofia de vida. É um tributo aos "poetas mortos e seus legados", um reconhecimento de que as verdades mais profundas muitas vezes são encontradas nas sombras. Continuar investindo nesse universo é garantir que a chama do gótico permaneça acesa, iluminando os caminhos para aqueles que encontram beleza na melancolia e poesia na penumbra.
Referências
Hodkinson, Paul. (2002). Goth: Identity, Style and Subculture. Berg Publishers.
Reynolds, Simon. (Diversas obras). As reflexões de Simon Reynolds sobre contracultura e subculturas frequentemente abordam aspectos da estética gótica e seu impacto na cultura popular.
Spooner, Catherine. (2017). Contemporary Gothic. Reaktion Books.
Journal of Popular Culture. (2018). Diversos artigos sobre a cultura gótica e sua resiliência podem ser encontrados em volumes recentes do Journal of Popular Culture, que frequentemente explora a permanência de gêneros e subculturas ao longo do tempo.
Revisão de Sahra Melihssa
Bruno Reallyme
Bruno Reallyme nasceu em 1995, em Governador Valadares, e escreve como quem atravessa véus entre mundos. Autor de poesias, romances, suspenses, terrores, ficções científicas e HQs, espalhou suas criações por antologias nacionais e internacionais, além de comandar o podcast Pingo de Prosa e ser finalista do Prêmio Literário Caneta Vip. Colunista da Genius Vip Revista e curador de Horrores de um Brasil Esquecido, inspira-se em nomes como Pessoa, Poe, Lovecraft, Cecília Meireles e García Márquez, criando narrativas densas e sensoriais que revelam, nos detalhes, o que olhos comuns não percebem. » instagram do autor
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
H. P. Lovecraft – O Arquiteto do Indizível
Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, onde também morreria, solitário e quase…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo mais antigo e mais forte de medo é o medo do desconhecido.”
— H. P. Lovecraft, “O Horror Sobrenatural na Literatura”
Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, onde também morreria, solitário e quase desconhecido, em 15 de março de 1937. Viveu à margem do mundo — pobre, doente, recluso — mas sua mente fervilhava como um poço de éter, e seus pesadelos tornaram-se mitologias modernas. Seu universo não é deste mundo, nem do inferno. É anterior, abissal, cósmico.
Criado por sua mãe e avô após a internação e morte de seu pai, Lovecraft encontrou nos livros, nas ruínas vitorianas da Nova Inglaterra e nas vozes do passado (Poe, Dunsany, Chambers) os pilares de sua torre gótica. Desde muito jovem, encantou-se pela ciência, pela astronomia e pelo arcabouço invisível da realidade — ainda que sempre pairasse sobre ele a sombra da instabilidade mental.
Os Tentáculos do Horror Cósmico
Lovecraft não escrevia apenas histórias — ele invocava atmosferas. Não há em sua literatura o vilão clássico, nem o terror fácil do sangue: o que aterroriza é o limite da sanidade, a vastidão impiedosa do cosmos, a presença de seres tão antigos que a própria linguagem é inútil para descrevê-los. Ele chamava isso de “horror cósmico”.
Seus contos mais célebres — como O Chamado de Cthulhu, Nas Montanhas da Loucura, A Cor que Caiu do Espaço, O Caso de Charles Dexter Ward e O Sussurro nas Trevas — compõem o que hoje conhecemos como Mitologia de Cthulhu, um panteão de entidades insondáveis: Azathoth, Yog-Sothoth, Nyarlathotep, Shub-Niggurath... nomes que não pedem compreensão, mas silêncio reverente.
Estes deuses não são malignos — são indiferentes. E essa indiferença é o terror maior: o homem não é o centro do universo, mas um ponto irrisório num caos sem propósito.
O Estilo: Arcaísmo e Atmosfera
Lovecraft escrevia como um antiquário da linguagem, com frases longas, palavras rebuscadas, e uma preferência por termos como eldritch, gibbous, cyclopean e tenebrous. Muitos o acusaram de excessivo, mas há beleza no excesso — especialmente quando o objetivo é evocar o indizível.
Ele evitava diálogos extensos, preferia narrações em primeira pessoa, e muitas vezes o horror se dava fora de cena — algo pressentido, mas jamais completamente visto. É um terror mais filosófico que visceral. Sua escrita evoca a vertigem daquilo que jamais seremos capazes de compreender.
Racismo e Sombras Biográficas
Não se pode falar de Lovecraft sem encarar o espelho sombrio de sua alma: ele era profundamente racista. Seus textos e cartas trazem visões xenófobas, elitistas e excludentes, fruto de seu tempo, sim, mas também de suas convicções pessoais. Ele temia o “outro” tanto quanto temia o universo. É doloroso, mas necessário, reconhecer isso — para que possamos ler sua obra com lucidez e senso crítico, sem encobrirmos suas falhas humanas. Aqueles que não lêem Lovecraft por esta razão, não sabem o quão importante é entrarmos em contato com as verdades obscuras do passado, para não as repetirmos os mesmos erros no futuro. Além disso, o quanto devemos separar a obra de seu autor? Esta é uma pergunta viva que devemos colocar sempre em questão; para mim, no caso específico do Lovecraft, quando suas características racistas aparecem nos textos, é profundamente desconfortável; talvez aí esteja o principal horror de suas obras.
Legado Imortal
Lovecraft morreu pobre, com poucos leitores. Mas o tempo, esse devorador de almas, fez justiça póstuma: hoje, ele é reconhecido como o pai do horror moderno. Influenciou Stephen King, Neil Gaiman, Clive Barker, Alan Moore, e ressoa em filmes (O Enigma de Outro Mundo, Alien), jogos, HQs, RPGs e até canções.
A cidade imaginária de Arkham, o livro proibido Necronomicon, os cultos sussurrantes, as criaturas informes — tudo isso se tornou parte do imaginário ocidental, como um evangelho profano.
Epílogo: Diante da Escuridão Insondável
A obra de Lovecraft nos devolve o olhar de uma criatura insignificante diante da eternidade, lembrando-nos de que o universo não foi feito para nós, e talvez jamais nos note.
Penso que, mesmo sabendo que somos poeira, ainda escrevemos, ainda sonhamos, ainda trememos sob as estrelas. Isso é inestimável e, talvez, nos conecte com toda a poderosa forma cósmica que não somos capazes de compreender.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Percy Bysshe Shelley: Vida, Obra e Pensamento Crítico
Percy Bysshe Shelley: Vida, Obra e Pensamento Crítico
Imagem da Web editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
“Aproxima-se rapidamente o tempo — espero que o senhor, milorde, possa viver para contemplar sua chegada — em que o maometano, o judeu, o cristão, o deísta e o ateu viverão juntos numa única comunidade, compartilhando igualmente os benefícios que provêm de sua associação e reunidos pelos vínculos da caridade e do amor fraterno.”
— Percy Bysshe Shelley
Nascido em 1792, na Inglaterra, Shelley foi um dos mais intensos e visionários poetas do Romantismo inglês. De alma livre e convicções inflamadas, rebelou-se desde cedo contra as amarras da sociedade vitoriana, da religião instituída e das convenções morais. Era o primogênito de uma família aristocrática, mas rejeitou o destino de nobre — preferia o exílio, o pensamento radical e a linguagem da poesia como forma de revolução.
Expulso de Oxford aos 18 anos por escrever um panfleto em defesa do ateísmo, Shelley já demonstrava o espírito incendiário que marcaria toda a sua vida e obra. Casou-se jovem, viveu intensamente e, após a morte trágica de sua primeira esposa, uniu-se à escritora Mary Shelley, autora de Frankenstein. Juntos, formaram uma constelação literária, orbitando também Lord Byron, outro titã das letras e da inquietação.
Coincidentemente, nosso autor Wallace Azambuja trouxe à edição Dívanno uma tradução do poema Ozymandias — o que me levou a um mergulho mais profundo na vida e na obra de Shelley, sobretudo em suas críticas à religiosidade. Sempre que um dos autores da revista traz à tona pensadores e poetas — seja por meio de uma tradução, como neste caso, seja por artigos ou ensaios — , busco ampliar o conteúdo com notas sobre a trajetória e o pensamento do autor mencionado, quando necessário. Essa escolha editorial enriquece a experiência leitora e desenha caminhos mais profundos rumo ao conhecimento.
Ozymandias traz à luz, ainda que de modo poético — e, por isso mesmo, ainda mais penetrante — a transitoriedade do poder; tema que se vincula irrevogavelmente às indagações sobre religião e divindade já abordadas por Shelley em The Necessity of Atheism e na Carta ao Lorde Ellenborough. Mais que isso: o poema nos reconduz à natureza como a única força maior — e decerto inegável — capaz de se sobrepor a tudo aquilo que é construído pelo humano, inclusive suas crenças efêmeras e dogmas desprovidos de razão. Tal como nos versos:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Vejam meus feitos, poderosos, temam!”
Nada resta ao redor: circunda o escombro.
— Tradução de Wallace Azambuja
É fascinante como Shelley tensiona religiosidade, justiça e política em seus ensaios, e como transcende esses mesmos temas, na poesia, para uma dimensão mais elevada e sensível. Sua aparição na edição Dívanno é de suma importância, pois nela nos colocamos sob as asas das divindades etéreas a partir de prismas exploratórios da constituição humana. Eu mesma, sempre inclinada à razão, aproximo-me da fé pelos sentidos, através da poética — e sou capaz de experimentar a ideia de Deus sem a embriaguez religiosa, mantendo-me firme em minha racionalidade. Isso talvez comprove — e, de certo modo, realiza — os conceitos shelleyanos sobre as três fontes da convicção.
Obra — Entre o Ideal e o Abismo
Shelley escrevia como se quisesse incendiar o mundo com seus versos. Sua poesia é marcada por um lirismo elevado, por ideais políticos libertários, e por uma estética que combina o sublime com o etéreo. Era um alquimista da linguagem, fundindo mito, filosofia, natureza e revolução.
Obras essenciais:
“Ozymandias” — Um soneto famoso que reflete sobre o orgulho humano e a inevitável ruína do tempo, como já mencionei. A estátua do rei caído, perdida no deserto, é um símbolo arrebatador da efemeridade do poder.
“Prometheus Unbound” (Prometeu Desacorrentado) — Uma obra dramática e lírica que reimagina o mito grego de Prometeu, o rebelde que desafiou os deuses. Aqui, Shelley faz dele um símbolo da humanidade insurgente. E mais uma vez, a ruína divina.
“Adonais” — Uma elegia devastadora à morte de Keats, outro grande romântico. Nesse poema, a perda torna-se um portal para reflexões sobre a imortalidade da arte e da alma.
“To a Skylark” (A uma Cotovia) — Uma das mais belas canções à natureza, onde o pássaro torna-se arquétipo da inspiração pura e inatingível.
“Mont Blanc” — Um poema filosófico sobre a vastidão da natureza e a mente humana, que dialoga com as paisagens sublimes dos Alpes.
Uma Vida Breve e Trágica
Shelley viveu como se soubesse que não duraria. Exilado na Itália, longe da pátria que o rejeitou, escreveu alguns de seus mais belos poemas em meio à dor, à beleza e à contemplação. Morreu tragicamente aos 29 anos, em 1822, quando seu barco naufragou no mar Tirreno. Quando seu corpo foi encontrado, diz-se que trazia consigo um exemplar de Keats no bolso. Seu coração, retirado das chamas da cremação por Mary, foi envolto em seda e guardado por ela até a morte. Um símbolo perfeito: o coração de Shelley — eterno, irredutível, inflamado.
Legado
Shelley é hoje reconhecido como um dos poetas mais líricos e visionários da história da literatura. Sua obra inspira tanto pela beleza da linguagem quanto pelo poder de seu pensamento libertador. Foi precursor de ideias anarquistas, defensor da igualdade, do amor livre e da imaginação como força de transfiguração do mundo.
Ele acreditava que a poesia era uma arma espiritual, uma forma de revelar o invisível e libertar a humanidade da ignorância e da opressão. Seu espírito vive nos que ainda se recusam a aceitar as verdades impostas e, ao invés disso, sonham, incendeiam e escrevem.
Referências
DA COSTA, M. (2016). Percy Bysshe Shelley — Introdução. Cadernos De Tradução, (36).
SHELLEY, Percy Bysshe. The Necessity of Atheism. Worthing: C. & W. Phillips, 1811.
SCANDOLARA, Adriano. Shelley — duas cenas do ato 3 de Prometheus Unbound. Escamandro, 5 ago. 2013. Disponível em: https://escamandro.wordpress.com/2013/08/05/shelley-duas-cenas-do-ato-3-de-prometheus-unbound/. Acesso em: 31 maio 2025.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Mensageiro do Último Dia e Lovecraft
O filme O Mensageiro do Último Dia (2020) é inspirado na HQ The Empty Man, criada por Cullen Bunn e Vanesa R. Del Rey. A trama gira em…t
Imagem da Web editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
O filme O Mensageiro do Último Dia (2020) é inspirado na HQ The Empty Man, criada por Cullen Bunn e Vanesa R. Del Rey. A trama gira em torno de uma misteriosa seita que venera uma entidade sobrenatural conhecida como "Empty Man", capaz de se propagar através dos pensamentos humanos. A narrativa mistura elementos de terror psicológico, investigação e ocultismo, explorando como ideias perigosas podem ser espalhadas como um vírus, contaminando as mentes das pessoas e corrompendo a realidade à medida que se infiltram no imaginário.
Além da temática sobrenatural, O Mensageiro do Último Dia constrói, através do protagonista, camadas psicológicas que o conduzem a um desfecho inevitável. A trama gira em torno de uma seita que cultua uma entidade misteriosa, desejosa de se manifestar na Terra por meio de um hospedeiro perfeito.
Sob a perspectiva de Fred Botting (2024), observamos uma nuance dos elementos do gótico, que celebram a transgressão dos limites e das normas, projetando temores e fantasias culturais. Aqui, o culto a Nyarlathotep encarna essa transgressão: a fusão entre o sagrado e o profano, o humano e o inominável.
Conseguimos observar nesta entidade uma referência tênue com Nyarlathotep, uma das criaturas do panteão de Lovecraft. No entanto, por trás do enredo de horror cósmico, o filme lança uma crítica sutil, mas contundente, sobre o poder destrutivo das crenças extremas.
Ao longo da história, vemos como a ação desta entidade na mente das pessoas leva indivíduos a cometer atos violentos, inclusive o suicídio, mesmo que coagido, uma possível alusão a como determinadas ideologias ou cultos podem se tornar profundamente nocivos à saúde mental e à vida das pessoas envolvidas. Estes ritos nos evocam o caráter perturbador das seitas lovecraftianas, onde o horror não está apenas no monstro, mas na devoção fanática de seus seguidores.
O filme inicia com um prólogo que não traz os personagens principais, mas que mostra seu significado com o decorrer da trama. Depois, vemos o desenrolar do enredo principal com o desaparecimento de uma adolescente em uma pequena cidade dos Estados Unidos. Um ex-policial de sobrenome La Sombra, que já carrega em seu nome um vislumbre do que está por vir, começa a investigar o caso. Ele descobre o grupo que cultua a entidade sobrenatural conhecida como "Empty Man", em português “O Mensageiro do Último Dia", que pode ser invocada mediante um ritual macabro. À medida que ele mergulha na investigação, o protagonista é confrontado com alucinações e a sensação de ser vigiado a todo tempo.
No poema em prosa de Lovecraft, Nyarlathotep, um indivíduo relata sobre a chegada desta entidade à Terra e como o mundo se tornou seu reinado macabro. No imaginário de H. P. Lovecraft, Nyarlathotep é um tipo de mensageiro dos deuses extradimensionais. Este é um ser que caminha entre os mortais, trazendo revelações proibidas e incitando rituais estranhos. Da mesma forma, no filme, O Mensageiro surge, mas com a necessidade de ter um receptáculo para recebê-lo, reunindo seguidores em cultos que fazem os preparos para a sua chegada.
Ao final, O Mensageiro não é apenas um simples arauto, mas uma construção objetiva. Temos uma representação sob as crises internas dos personagens: culpa, desejo reprimido e o medo. O pesquisador Gilbert Durand conceitua estes aspectos do imaginário humano como parte do Regime Noturno simbólico da imagem, uma configuração simbólica que luta para impedir a ação da queda, da morte e do tempo.
O culto íntimo ao medo, ao desejo reprimido e à culpa ressoa com a teoria de Durand. O Mensageiro, por este viés, opera como um arquétipo da sombra e, levando em consideração o inconsciente coletivo, de acordo com Jung (2021), o imaginário também pode ser observado como prefiguração dos arquétipos presentes no inconsciente.
O Mensageiro é Nyarlathotep por ser aquele que transita entre mundos, não para guiar à luz, mas para revelar o que foi recalcado no inconsciente individual e coletivo, representando, nas palavras de Jung, a sombra, este aspecto psíquico que reúne tudo aquilo que o ego rejeita e reprime, mas que permanece ativo na psique em seu lado negativo. Sua presença desestabiliza a linearidade racional e confronta o protagonista e os adeptos com o que Durand chamaria de uma imaginação dominada pela angústia, onde o sagrado e o monstruoso se confundem. Logo, este culto a uma divindade antiga pode espelhar o culto que cada um de nós faz aos próprios temores.
REFERÊNCIAS:
BOTTING, Fred. Gótico: Tradução de Marina Sena. Sebo Clepsidra. 2024.
DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário: introdução à arquetipologia geral I Gilbert Durand,tradução Hélder Godinho. – 4° ed. - São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.
JUNG, C. O Homem e seus Símbolos; Translation of Maria Lucia Pinho. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 2021.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Olho e a Consciência: Uma Leitura Fenomenológica de O Coração Delator, de Edgar Allan Poe
Edgar Allan Poe não foi apenas o Mestre da Literatura Gótica…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Edgar Allan Poe não foi apenas o Mestre da Literatura Gótica; foi também, talvez sem intenção filosófica explícita, um desbravador abissal da alma humana. Em suas obras, nas entrelinhas e no subsolo de suas narrativas, pulsa um olhar que vasculha a consciência — como quem, com uma vela trêmula, desce às criptas do próprio ser. Poe não apenas construiu atmosferas de terror, ele investigou — com rara acuidade — os labirintos da percepção, os jogos da culpa e os delírios da introspecção. Sua escrita é, muitas vezes, o palco de uma fenomenologia instintiva: uma maneira de compreender o mundo não como ele é em si, mas como ele se dá à consciência angustiada, deformada, apaixonada ou adoecida. O horror em Poe não provém do exterior, mas emerge do íntimo: é o próprio sujeito, em sua experiência radical, que dá forma aos monstros. A realidade física apenas serve de espelho para os abismos internos — e é nesse ponto que sua literatura se cruza com os fundamentos da Fenomenologia e do Existencialismo.
Em “O Coração Delator”, publicado pela primeira vez em 1843, acompanhamos o relato em primeira pessoa de um narrador que insiste em provar sua sanidade enquanto descreve, com precisão crescente, os eventos que o levaram a cometer um assassinato. O velho com quem convive — e que não lhe fizera mal algum — desperta nele um ódio obsessivo motivado não por ações, mas por um aspecto físico: seu olho, que ele descreve como um “olho de abutre”, pálido, vítreo, insuportável. Incapaz de suportar esse olhar — ou o que acredita estar por trás dele — o narrador assassina o velho e esconde seu corpo sob o assoalho da casa. No entanto, ao ser interrogado pela polícia, começa a ouvir, ou crer que ouve, o som do coração da vítima ainda batendo sob o chão. A culpa o invade como uma tormenta interior e, em um clímax de agonia, ele confessa o crime, incapaz de suportar o peso de sua própria consciência.
Para Husserl, compreender o mundo não é tomá-lo como dado absoluto, mas como fenômeno: algo que aparece à consciência em sua intencionalidade. Ao propor a epoché — a suspensão do juízo natural — o filósofo convida a deixar de lado as certezas objetivas para investigar como as coisas são vividas. Em “O Coração Delator”, esse princípio se realiza literariamente: o narrador não vive em um mundo compartilhado, mas em um universo fenomenológico próprio, onde o olhar do velho é uma presença insuportável que ultrapassa a aparência física. O olho — vítreo, opaco, silencioso — não é apenas um órgão: é um fenômeno. Ele se impõe à consciência do narrador como uma entidade viva, quase metafísica. Sob a ótica husserliana, o conto de Poe é a narrativa de uma consciência em ruptura com o real, tomada por uma percepção deformada que se impõe como verdade absoluta. Não importa o que o velho é, mas o que aparece para aquele que o observa. O olho não vê: ele é o próprio ser do narrador sendo visto, dilacerado e condenado em sua interioridade.
Enquanto o narrador de O Coração Delator insiste que sua perturbação advém do olho do velho — acreditando que o horror reside no objeto exterior —, a fenomenologia de Husserl desestabiliza essa aparente separação. Husserl nos convida a perceber que não existe, em essência, uma cisão definitiva entre sujeito e objeto; o que há é a relação intencional — a consciência é sempre consciência de algo. O objeto não existe, portanto, isoladamente: ele é aquilo que se dá à consciência como fenômeno. O olho do velho, nesse sentido, não é simplesmente um órgão visual: ele é o sentido que emerge do encontro entre a percepção e a vivência do narrador. Ele se torna intolerável não por si, mas pelo modo como é intencionado, significando algo abissal à consciência que o observa.
Husserl afirma que o fenômeno nunca se mostra sem sentido. E aqui reside o horror: o objeto, ao se apresentar à consciência, o faz sempre por meio de uma síntese de aspectos, e o narrador não é capaz de apreender essa totalidade. Ele fixa-se obsessivamente em uma parte — o olho —, incapaz de integrá-lo à plenitude do ser do velho, que permanece, para ele, um enigma angustiante. O olhar fragmentado gera uma verdade parcial, que se absolutiza e se impõe como delírio. O crime, então, não é resultado da realidade objetiva, mas da verdade fenomenológica que emerge da relação entre um sujeito transtornado e o fenômeno que ele recusa compreender em sua totalidade.
Podemos concluir que Poe, com sua pena encharcada de angústia e lucidez, esgarça as entranhas da existência humana ao nos confrontar com a dificuldade — ou talvez a impossibilidade — de uma verdadeira redução fenomenológica. Incapazes de suspender plenamente o mundo e suas significações, somos, em certo ponto, vítimas de uma relação consciencial intencional que se dá em síntese. Nessa síntese, ultrapassamos os dados imediatos e preenchemos os espaços do objeto — aquilo que nos é oculto — com nossas percepções, memórias, afetos e medos. Formamos, assim, uma unidade múltipla e mutável, que chamamos de identidade do objeto.
No caso do narrador de O Coração Delator, essa identidade não é construída sobre a totalidade do velho, mas sobre uma parte — o olho — elevado à condição de essência. Essa distorção não apenas revela a falência da percepção integral, mas a tragédia existencial de quem recusa o outro em sua plenitude. A consciência, ao significar o olho com horror, já não lida com o fenômeno em sua verdade, mas com o reflexo distorcido de si mesma. O mundo torna-se então insuportável não porque o é em si, mas porque se apresenta assim à consciência em colapso.
O desfecho do conto, em que o narrador ouve o som do coração ainda batendo sob o assoalho, não precisa ser lido como uma manifestação sobrenatural ou delírio puro, mas como a culminância fenomenológica de sua experiência de culpa. O que Husserl chama de visado — aquilo que é intencionado pela consciência — manifesta-se aqui como um som intolerável que não pertence ao mundo físico, mas ao campo da significação interna. O coração torna-se símbolo daquilo que não pode ser reduzido ou negado: o crime, o assassinato, o peso do ato. Pela associação intencional, a consciência organiza e sintetiza o ocorrido, fazendo com que o som seja não apenas lembrança, mas presença viva, concreta, irrefutável. A culpa, então, não é um sentimento abstrato: ela é ouvida, quase tocada, pois a consciência não consegue mais sustentar o abismo entre o que fez e o que significa. Confessar o crime, nesse sentido, é quase um gesto fenomenológico: a necessidade de alinhar o mundo vivido com a verdade do fenômeno. O coração que bate é a verdade que retorna, visada pela consciência como aquilo que não pode ser negado.
E, talvez, aqui esteja o ponto mais inquietante: seria esse afastamento da essência uma falha humana... ou a própria condição do fenômeno? Não seria a própria relação intencional — com todos os seus enganos, excessos e projeções — a expressão mais pura de nossa maneira de existir no mundo? Poe não responde. Mas nos obriga a questionar — e isso basta.
REFERÊNCIAS
SILVA, Maria de Lourdes. A intencionalidade da consciência em Husserl. Revista de Filosofia Argumentos, Ano 1, N°.1, 2009.
GALEFFI, Dante Augusto. O que é isto — a fenomenologia de Husserl? Ideação, Feira de Santana, n. 5, p. 13-36, jan./jun. 2000.
PERNA, Cristina; LAITANO, Paloma. O clássico Edgar Allan Poe. Letras de hoje, v. 44, n. 2, 2009.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A Simbologia da Morte no conto A Máscara da Morte Vermelha de Edgar Allan Poe
Edgar Allan Poe (1809 – 1849) é um dos expoentes do romantismo norte-americano, cuja obra deixou marca…
Pintura “A morte da Virgem” por Michelangelo Caravaggio (1571-1610)
Edgar Allan Poe (1809 – 1849) é um dos expoentes do romantismo norte-americano, cuja obra deixou marca decisiva na literatura gótica, no conto policial e na poesia. Nascido em Boston, ficou órfão ainda criança e foi criado por um mercador de boas condições, de quem herdou o sobrenome. Faleceu em Baltimore no ano de 1849, sofrendo de delírios e a causa de sua morte é até hoje um mistério. Seus poemas e contos, como “O Corvo” e “A Máscara da Morte Vermelha” inserem-se na segunda geração do Romantismo do século XIX, distinguindo-se pelo tom sombrio, pela exploração da psicologia do medo e pela atmosfera de decadência que se tornou característica de sua produção literária.
Encontramos referências recorrentes à morte na obra de Edgar Allan Poe, muitas vezes atravessadas por elementos sobrenaturais e simbólicos. O próprio autor afirma que, para ele, este é o tema mais melancólico para ser abordado (POE, 2019, p.65). Em poemas como “O Corvo”, o autor retrata a dor do luto e a insistência da ausência como uma presença constante na vida do eu lírico, enquanto em “Annabel Lee”, a morte surge como força trágica e inevitável, capaz de romper até os laços mais profundos do amor. Em ambos os textos, a morte não é apenas um fim biológico, mas um abismo emocional e metafísico que assombra o imaginário humano.
Tal temor é exemplarmente retratado no conto “A Máscara da Morte Vermelha”, no qual Edgar Allan Poe constrói uma alegoria sobre a inevitabilidade da morte. No conto, diante de uma praga devastadora, uma enfermidade fulminante que conduz suas vítimas à hemorragia fatal por todos os poros, o príncipe Próspero decide isolar-se de seu povo em uma abadia fortificada construída a seu gosto, levando consigo um grupo de mil amigos. Afastando-se do sofrimento coletivo, eles entregam-se a uma vida suntuosa de excessos completamente trancados, numa atmosfera de alienação deliberada à realidade da peste. O castelo, espaço de aparente segurança e opulência, torna-se símbolo da tentativa vã de escapar da morte.
É válido observar como, no conto, estabelece-se uma negação da morte que contrasta diretamente com a elaboração do luto presente nos poemas anteriormente mencionados, nos quais o eu lírico já se encontra imerso na dor da perda. Em “A Máscara da Morte Vermelha”, por outro lado, a figura do príncipe Próspero encarna uma tentativa desesperada de escapar da finitude, recusando-se a aceitar a iminência do fim. Recolhido em seu castelo ao lado de uma elite hedonista, o príncipe promove festas grandiosas como forma de silenciar o terror exterior. No entanto, a morte adentra esse espaço de aparente segurança como um intruso inevitável: sua chegada, em meio ao baile, assume a forma de um convidado mórbido, envolto em uma mortalha salpicada de sangue, cuja aparência cadavérica evoca não apenas a doença, mas a própria materialização do destino inescapável.
O som do relógio de ébano, que ressoava com solenidade a cada badalada, funcionava como um prenúncio do inevitável: a morte que, cedo ou tarde, alcançaria a todos. O sangue, elemento recorrente na narrativa, simboliza o sofrimento inescapável que espreita mesmo os que se acreditam protegidos. Nenhuma muralha é capaz de conter o destino comum à existência humana, e o conto deixa claro que o isolamento não garante salvação. A Morte Vermelha, apesar das tentativas de reclusão, irrompe no castelo e conduz um a um a sua ruína, sendo o príncipe Próspero o primeiro a morrer.
O conto também oferece uma leitura simbólica da morte em vida, ao denunciar, de forma alegórica, o comportamento alienado e insensível das elites diante do sofrimento coletivo. O isolamento do príncipe Próspero e de seus convidados, enquanto a população do lado de fora agoniza sob o avanço da peste, representa uma tentativa de negação não apenas da morte, mas também da responsabilidade social. Essa escolha de se recolher em celebrações contínuas, regadas a excessos e luxúria, revela um hedonismo decadente que escancara a desconexão entre as camadas privilegiadas e a realidade brutal enfrentada pelos demais.
Essa representação do fenômeno da morte não se resume a uma simples fascinação mórbida. Como observa Botting, ao comentar o poema The Grave (1743), de Robert Blair, a contemplação da morte revela-se como um exercício de consciência sobre a efemeridade da existência e a transitoriedade de todas as coisas. Trata-se, portanto, de uma reflexão sobre os limites da vida e a presença constante do fim como parte constitutiva da experiência humana, levando que guia até caminhos da espiritualidade (BOTTING, 2024, p. 41).
Poe consegue elaborar este simbolismo nictomófico ao representar a passagem do tempo com o relógio de ébano que causa nervosismo em cada uma de suas badaladas. O salão de veludo representa a morte vermelha, enquanto os outros salões representam a fuga dos cortesões e do príncipe. O sétimo salão fica cada vez mais escuro e o escuro é um elemento que geralmente assombra a mente, como afirma Durand (2012).
Dada a imagem da morte como representação máxima do terror humano, no conto “A Máscara da Morte Vermelha”, ainda persiste em Próspero uma centelha de esperança pela vida, mesmo que suas ações revelem traços de egoísmo e alienação. Esta nuance evidencia como, diante da própria finitude, o ser humano pode tender a lançar mão de todos os recursos possíveis para tentar escapar deste fim. No entanto, a morte sempre triunfa, como também é simbolicamente retratado no filme O Sétimo Selo (1957), de Ingmar Bergman, no qual um cavaleiro desafia a morte em uma partida de xadrez, numa tentativa desesperada de adiar seu fim. A metáfora do jogo e da máscara vermelha reforçam a ideia de que, por mais que se lute contra a morte, ela permanece invencível.
REFERÊNCIAS:
BOTTING, Fred. Gótico: Tradução de Marina Sena. Sebo Clepsidra. 2024. p.41
POE, E. A. (1809-1849). Contos de imaginação e mistério: Edgar Allan Poe; prefácio de Charles Baudelaire; tradução de Cássio Arantes Leite. Tordesilhas. 2012.
POE, Edgar Allan; PESSOA, Fernando; ASSIS, Machado de. O Corvo. Companhia das Letras, 2019. p. 65
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
As 10 Mais Terríveis Lendas Urbanas do Mundo
Lendas urbanas são narrativas misteriosas, por vezes macabras, que circulam entre as pessoas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O que são lendas urbanas?
Lendas urbanas são narrativas misteriosas, por vezes macabras, que circulam entre as pessoas, contadas de boca em boca, adaptando-se ao tempo, ao lugar e aos medos de cada geração. Diferente dos mitos ancestrais, essas histórias têm um pé no cotidiano, como se pudessem acontecer com qualquer um — com você, com alguém da sua rua, com uma prima da sua vizinha. São, muitas vezes, ambientadas em cidades, escolas, hospitais, estradas ou casas comuns. Elas carregam o poder do “quase-verdadeiro”, provocando aquela sensação inquietante de que poderia ter acontecido e que talvez tenha mesmo acontecido
Embora muitas dessas histórias pareçam fictícias, é difícil dizer que são mesmo pura fantasia; elas revelam verdades emocionais e sociais profundas, funcionando como espelhos obscuros das ansiedades humanas: medo da morte, da solidão, da violência, do desconhecido. A beleza sombria das lendas urbanas está no modo como elas grudam na memória, como uma sombra atrás da porta entreaberta. Mas a verdade é que, sendo ou não reais, elas são capazes de tirar o nosso sono à noite.
Veja abaixo a lista das mais terríveis lendas urbanas do mundo.
1. A Mulher de Branco (diversas versões pelo mundo)
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Ela caminha à beira das estradas como quem busca o que nunca será devolvido: um filho perdido, um amor que se partiu, um destino violado pelo peso do mundo. Presente em inúmeras culturas, a Mulher de Branco é uma assombração universal, como se o luto feminino tivesse escolhido um único vestido para atravessar séculos e continentes. Dizem que aparece nas noites em que a neblina roça o chão como véu de noiva esquecido. Chora, murmura nomes, estende o braço em busca de carona — e se você a olhar duas vezes, será tarde demais. Em 1995, no interior de Ohio, uma mulher chamada Charlotte relatou ao jornal local que o marido parou o carro para uma jovem vestida de branco. Desde aquela noite, ele não é mais o mesmo. Sonha com gritos afogados, acorda suando em pleno inverno, e diz — quando tem coragem — que ela ainda está sentada no banco de trás. O mais estranho? O carro nunca mais fechou direito aquela porta.
2. O Homem do Saco (Brasil)
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Poucas figuras do imaginário popular brasileiro são tão temidas quanto o Homem do Saco. Embora muitos o considerem parte do folclore infantil — uma invenção para disciplinar crianças traquinas — há um lado mais escuro dessa história que paira como uma névoa pesada sobre bairros antigos, principalmente nas periferias urbanas. Dizem que ele perambula pelas ruas com um saco imenso nas costas, recolhendo crianças desobedientes, desaparecendo com elas sem deixar rastros. Mas há relatos que transcendem o didatismo e mergulham no terror puro. Na Zona Leste de São Paulo, quando eu ainda era pequena, algo aconteceu que nunca mais saiu da minha memória. O Lucas, filho da vizinha, contou que viu “um homem estranho com um saco” passando pela frente da nossa rua. Avisou a mãe, assustado. E ela, ao olhar pela janela, enxergou um velho de andar irregular, carregando o tal saco. Mas o que realmente a fez chamar a polícia não foi a aparência dele — foi o movimento dentro do saco. Algo se contorcia lá dentro. Algo pequeno, algo... vivo. Segundo ela, parecia o tamanho de uma criança. A polícia veio, mas o homem já havia sumido. Naquela semana, não brinquei no quintal. Nem na próxima. E até hoje, ao ouvir passos arrastados pela calçada, eu ainda me arrepio, como se aquele Homem do Saco pudesse voltar, mesmo eu não sendo mais criança.
3. Bloody Mary (Estados Unidos)
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Diante do espelho, à meia-noite, quando a casa adormece e o mundo parece conter a respiração, basta repetir seu nome três vezes: Bloody Mary… Bloody Mary… Bloody Mary. A tradição é conhecida — e temida. Mais do que uma brincadeira de escola, a lenda evoca o espírito de uma mulher injustiçada, enlouquecida pela dor ou pela fúria, que emerge do outro lado do vidro para ceifar o que lhe resta de justiça. Suas origens se entrelaçam com histórias antigas de bruxas queimadas, rainhas enlouquecidas pelo sangue e crimes silenciados à força. Em um antigo fórum do 4chan, há um relato que fez os olhos digitais da comunidade tremerem: um adolescente afirma que, ao realizar o ritual com dois amigos, algo real aconteceu. O espelho escureceu por dentro. Uma figura ensanguentada se formou; os cabelos pingavam como se tivessem sido lavados em carne crua — e então ela atravessou. Dois dos participantes, segundo ele, jamais acordaram. E desde então, ele não consegue mais encarar um espelho. Pois, quando o faz, seu reflexo carrega não apenas o peso do horror que viveu… mas uma companhia. Sempre ali, atrás dele, com os longos cabelos loiros molhados, como se nunca tivesse partido.
4. O Fantasma que Grita de Yokocho (Japão)
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Dizem que em certos becos de Tóquio, aqueles tão estreitos que o céu parece um corte fino acima da cabeça, há um espírito que não quer ser esquecido. Ele aparece apenas quando alguém caminha sozinho — o som dos próprios passos sendo a única companhia até que… se ouve o grito. Um grito tão humano, tão rasgado, tão repentino, que o instinto é fugir, mas o corpo simplesmente trava. A lenda — obscura até mesmo dentro do Japão — conta que o fantasma é de um homem brutalmente assassinado ali, no silêncio abafado da noite, e que ninguém ouviu seus últimos gritos. Por isso, agora, ele grita por todos os que não puderam. Grita até ensurdecer. Grita até enlouquecer. Um dos poucos relatos conhecidos envolve uma senhora que teria perdido completamente a audição após cruzar um Yokocho ao entardecer. Mas o estranho é que esse relato jamais se espalhou, como tantas outras lendas urbanas. Algumas pessoas afirmam que há esforços para silenciar a história, pois os becos atraem turistas e há interesses em manter as rotas “seguras”. Outros dizem que o fantasma não quer ser lembrado… ele quer ser ouvido. E quando grita, o que ecoa não é apenas o som de sua morte, mas o peso do mundo que não ouviu ninguém.
5. O Bebê Chorando no Beiral (México e América Latina)
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Poucas coisas são tão perturbadoras quanto ouvir um bebê chorar onde não deveria haver nenhum. E é exatamente isso que acontece em algumas noites abafadas nas cidades do México e da América Latina: um lamento frágil e insistente escorre dos beirais, dos telhados, das frestas entre o telhado e o céu. Quem ouve — principalmente mulheres — sente o coração apertar. O som parece vir de cima, de muito perto, como se um recém-nascido estivesse sozinho e em perigo. Mas o que espera no alto não é um bebê… é uma entidade. Algo que sabe imitar o desespero com perfeição. Dizem que quem segue o choro pode ser atacado por algo que não tem rosto, apenas mãos longas e uma fome antiga. Um dos relatos mais inquietantes circula de forma anônima sobre uma noite movimentada na famosa rua Álvaro Obregón, no México. Entre turistas e luzes, apenas uma mulher escutava o choro. O som era real para ela. Seus amigos a seguraram quando ela tentou escalar uma escada de serviço, convencida de que havia uma criança em apuros. E foi só quando ela desistiu… que ouviu. Uma risada gutural, densa como fumaça, seguida de uma voz grave que sussurrou ao seu ouvido: “Volta, mamãe.” Desde então, ela diz que o som do choro ainda a encontra, mesmo nas noites mais silenciosas, mesmo quando não há telhado acima.
6. O Boneco Robert (Estados Unidos)
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À primeira vista, é apenas um brinquedo: um boneco antigo de feições desbotadas, olhos vítreos e sorriso ausente. Mas por trás do pano costurado e do uniforme marinho, mora uma presença — algo que observa, reage e se ofende. O boneco Robert, atualmente preservado em um museu na Flórida, é conhecido por amaldiçoar aqueles que o desrespeitam. Visitantes afirmam que ele muda de posição quando ninguém está olhando, que seus olhos acompanham cada passo e, nas madrugadas mais silenciosas, pode-se ouvir um leve som: algo entre uma risada infantil e o ranger de juntas de pano seco. Embora sua origem seja americana, a lenda dos bonecos amaldiçoados atravessa fronteiras, como se existisse uma verdade universal no medo que sentimos diante de olhos inertes que parecem… vivos. Quase todo o país tem sua versão: um brinquedo que não aceita o esquecimento. E, às vezes, o horror não é lenda. Quando eu era criança — e isso ainda me pesa na memória — havia uma boneca da Eliana, do meu tamanho, que piscava para mim à noite. Diziam que era imaginação… até o dia em que ela mudou de lugar sozinha e, então, foi levada para o lixo. A infância, desde então, nunca mais foi exatamente segura.
7. O Zelador do Prédio abandonado (São Paulo)
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
No ABC Paulista, em 1987, um prédio abandonado se erguia como uma sombra viva em frente a uma escola estadual. Seus andares vazios, janelas estilhaçadas e paredes cobertas de musgo atraíam os estudantes como um ímã sombrio — fosse pela adrenalina de uma invasão noturna, fosse pelo desejo de escapar da rotina escolar em festinhas proibidas. Mas logo os relatos começaram. Silenciosos no início, como cochichos entre colegas; depois, estampados no jornal interno da escola. Muitos afirmavam ter visto a mesma figura: um homem velho, magro, de semblante vazio e olhar opaco, carregando um molho de chaves que tilintavam como sinos de advertência. Ele surgia do nada e caminhava rápido, como se já soubesse onde os invasores estavam. Perseguia, correndo. E ninguém jamais quis descobrir o que acontecia se ele os alcançasse. Um rumor, persistente e cruel, dizia que o zelador assassinara uma aluna ali dentro, nos últimos anos de funcionamento do prédio — mas a história nunca foi comprovada. Ainda assim, o medo permaneceu. Muitos evitavam até olhar para o edifício ao atravessar a rua. E quem ousava invadir jurava ouvir as chaves tilintando no escuro, mesmo quando não havia mais ninguém ali. Eu, por mim, já vivi coisas estranhas demais em casas e prédios abandonados para duvidar. E você… já ouviu um som estranho ou viu algo terrífico em um lugar abandonado?
8. O Homem Rastejante (Rússia)
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Ninguém sabe ao certo quando a primeira história surgiu. Alguns dizem que foi em Vladivostok, nas madrugadas nevadas que abafam os sons do mundo. Outros juram tê-lo visto em Moscou, nas vielas onde o concreto apodrece lentamente sob o peso da memória soviética. Mas o que se repete em todos os relatos é a mesma figura grotesca, arrastando-se pelas sombras como se o chão fosse sua morada e não o castigo. Seu corpo é alongado, torto. A pele, quando visível, parece gretada, ressecada. Dizem que ele veste restos de roupas — trapos colados ao corpo, úmidos, exalando um odor que lembra umidade e carne esquecida. Mas o que realmente petrifica quem o avista é o som. Um estalo seco. Como galhos partidos ou vértebras rangendo em protesto. O Homem Rastejante não corre. Não grita. Não fala. Ele apenas se aproxima, como uma culpa antiga ou uma doença que se instala em silêncio.
E há ainda os mais perturbadores relatos: aqueles que dizem que, se você olhar nos olhos dele, ele para. Por um segundo. O suficiente para que você sinta algo rastejando dentro de você. Há até quem diga que ele não machuca. Que ele apenas observa. Mas que, com o tempo, sua presença leva à loucura.
9. Smile Dog (Lenda da Deep Web)
Imagem da web
Reza a lenda que existe uma imagem amaldiçoada, perdida nas profundezas da internet, conhecida simplesmente como Smile.jpg. À primeira vista, parece apenas uma fotografia digital toscamente manipulada — o retrato de um cachorro da raça husky siberiano, com olhos vidrados e dentes expostos num sorriso grotesco, quase humano, quase… consciente. Ao fundo da imagem, uma sala mal iluminada, como se tivesse sido montada num limiar entre o pesadelo e a realidade. Mas há algo mais. Algo que não se vê, mas se sente — um desconforto visceral, como se aquela foto olhasse de volta. Aqueles que têm a infelicidade de visualizar o arquivo alegam sentir-se imediatamente mal. Pesadelos vívidos começam naquela mesma noite, com o cão aparecendo à beira da cama, sussurrando — sim, sussurrando — palavras desconexas que apenas mais tarde revelam-se comandos. As vítimas relatam um declínio mental rápido: ansiedade insuportável, ruídos caninos na madrugada, um desejo incontrolável de compartilhar a imagem com outros. Como se o próprio Smile Dog implorasse — ou ameaçasse — ser espalhado, como um vírus faminto por atenção.
Reza a lenda que quem se recusa a passar a imagem adiante enlouquece aos poucos, até sucumbir em silêncio. A foto em si é raramente encontrada. Alguns afirmam que ela muda de forma, outros que é deletada pelos próprios mecanismos da internet, como se a rede tentasse se proteger do que contém. Mas há quem diga que ela sempre retorna — enviada como anexo, ressurgindo em fóruns abandonados, em e-mails esquecidos… ou em sonhos. Porque, afinal, o Smile Dog não quer te matar. Não de imediato. Ele quer que você sorria com ele. Um sorriso largo demais. Um sorriso que não acaba nunca.
10. Slender Man
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Alto como uma árvore esquelética, esguio como um presságio, o Slender Man é uma entidade que encarna o silêncio absoluto do terror. Ele veste um terno escuro e antigo, como se estivesse perpetuamente pronto para um funeral que nunca acaba — talvez o seu. Seu rosto, ou melhor, a ausência dele, é uma superfície lisa e pálida, como um véu de porcelana esticado onde um semblante deveria existir. A ausência de olhos é o que mais perturba, porque ainda assim sentimos ser observados — não com pupilas, mas com algo mais profundo: com intenção. Ele é descrito frequentemente em pé entre as árvores, ao fundo de fotografias antigas, à beira de escolas, parques ou florestas. A princípio, um vulto. Depois, uma presença. Por fim, uma obsessão. As crianças são especialmente sensíveis a ele — e são, segundo as histórias, suas preferidas.
Ele as convida em silêncio, aparece em sonhos, convence sem palavras. E desaparece com elas como se nunca tivessem existido. O mais apavorante não é o que ele faz, mas o que ele representa: o medo de ser observado quando se está só, a sensação de estar sendo caçado por algo que não precisa correr, porque já está à sua frente. Ele não sangra. Ele não grita. Ele não persegue da forma usual. Ele espera, pacientemente, até que você o note. E então… é tarde demais. Criado em 2009 em um fórum da internet, Slender Man ultrapassou as fronteiras do imaginário virtual e passou a ser visto, citado, temido — e até culpado. Casos reais de violência atribuídos a ele demonstram o quão tênue é a linha entre o mito e a mente. Pois o Slender Man não se alimenta de carne — ele se alimenta de crença. Quanto mais o temem, mais real ele se torna.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Além do Ser
"Torna-te aquilo que és" abrange o aceitar sua condição única, mas, no mesmo nível, traz a significação do eterno tornar-se, pois nunca, de fato, poderemos dizer que somos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
"Torna-te aquilo que és" abrange o aceitar sua condição única, mas, no mesmo nível, traz a significação do eterno tornar-se, pois nunca, de fato, poderemos dizer que somos. Tornar-se o que se é não é possível, pois não somos. "Ser" refere-se a uma condição substancial, e o que "somos" é, tão somente, um vir-a-ser perpétuo. Sob o véu da morte lúgubre, findamos sem nunca termos sido. E, se "eterno vir-a-ser" é ser, então somos e não somos ao mesmo tempo.
A razão pela qual esta reflexão está sendo redigida não é apenas o deleite de pôr o "ser" em questão – como nos velhos tempos da filosofia. Estou certa de que a condição de ruína da humanidade reside na incapacidade de aceitar sua condição nadificante e, portanto, volto-me à questão do ser. Mas esta não é a única questão, pois "ser" é uma criação humana.
O que nos torna ainda mais dispostos ao vazio pertencente é o fato de que nada na natureza "é". O "ser-algo" é essencialmente uma questão humana. Nada que respira, exceto a humanidade, está "sendo", uma vez que quem criou o conceito de "ser" nem sempre existiu. As coisas que respiram estavam aqui, existindo. E nós, incapazes de tão somente existir, criamos o conceito de "ser".
"Ser" é, para nós, profundamente mais valioso do que "existir" – embora seja justamente no primeiro caso que a condição nadificante nos perturba. Enquanto você apenas existe, o "nada" não é uma questão. Mas, a partir do momento em que se "é" (do verbo "ser"), o nada torna-se o fantasma que se oculta nas sombras de seus próprios corpos. A dádiva de "ser" é a maldição de carregar o seu peso nadificante. "Ser" deveria significar uma condição superior ao "existir", mas tornamo-nos aquilo que somos apenas para desvelarmos que somos nada, tal como tudo o que existe.
"Tornar-se" implica que há algo a advir, entretanto, se o Nada é a única verdade, não há um "advir" a desvelar. Portanto, redundante, a frase se manifesta assim: "Nada há a advir para aquilo que nada se é". Se o Nada é o invólucro da vida, por que viver? Vivemos, justamente, em função do Nada; sem ele, não haveria vida tal como a conhecemos. Aceita-te como o Nada que és – talvez esta seja a frase correta.
Em um tempo de idolatria ao "sou", a revelação do Nada é, decerto, perturbadora. O Nada é dificilmente aceito pela lógica da racionalidade, o que é um fato curioso, já que viemos dele e voltaremos a ele. Alguns se questionam sobre o que "é" o Nada; alguns o chamam de Deus. Outros dizem que não pode haver um "nada", pois o "nada" é o insignificante ou o ausente. Mas o Nada não é insignificante, tampouco ausente – por isso é tão difícil para a mente humana aceitá-lo. O Nada é nada.
"Somos" o Nada, vivemos o Nada, estamos no Nada. O Nada é o único Deus. Somente no Nada é possível um Algo – ele é o ambiente propício, a condição basilar. Então, antes de tornar-te aquilo que és, reconhece-te como parte de uma totalidade nadificante. Pois não importa o que tu és, pois não "és"; o que importa é o que chamo de "Antesser": tudo o que se faz, pensa, expressa, sabe, sente e aprende no processo do caminhar consciente sobre o Nada. Isso é antesser.
"Antesser" é um conceito humano para significar a existência em suas mutabilidades e características psíquicas, considerando a constituição nadificante própria da vida. Não apenas considerando-a, mas principalmente valorizando-a. Antes de "sermos" – se é que é possível "ser" – precisamos antesser.
Eis aqui mais uma bela razão para viver: a condição da vida, florescida no solo nadificante, é a única que pode nos permitir o Antesser. Se digo que “sou”, é porque a condição de "ser" já se significou ou como um estado a ser alcançado, como um destino final, uma verdade imutável e perpétua. Enquanto isso, antesser é essencialmente provisório, instável, efêmero. Como um livro, ele faz-se de capítulos que contam uma história completa. Se antessou, é porque sei que tudo o que fiz e farei, tudo o que já pensei e hei de pensar; tudo o que aprendi, conheci, me arrependi ou mudei – absolutamente tudo, no passado, presente e futuro – faz-me na profundidade que me significa. E isso não é linear ou preditivo. Não é algo a ser alcançado ou algo a se tornar. É plural e total, contínuo e dinâmico, assentado sobre o Nada.
Antesser não é o mesmo que Estar. O Antesser considera toda a sua historicidade, mutações, conquistas, compreensões, conhecimentos e sabedorias. E, principalmente, sua condição de Nada – antes disso tudo e depois disso tudo. Eu antessou porque o que sou é Nada: o Nada antes e o Nada depois. Entre ambos, antessou o que antessou. E não há como não antesser enquanto houver vida. E mesmo que eu antesseja na certeza de "ser" algo, isto é, pois, antesser.
Sim, ser e antesser são criações humanas. Mas "ser" foi criado para identificar as coisas que existem e, depois, para significá-las: aquilo "é" um peixe, eu "sou" uma pessoa, eu "sou" especial e você não "é" especial. Em antesser, tudo isso é válido, mas sob outra ótica: não posso ser especial a todo momento, nem para todas as pessoas. É ridículo considerar que "sou" bonita ou feia, pois sou ambos – depende do dia, de quem olha, de minhas condições físicas. Se estou mais arrumada, se dormi mal. Apegados ao "ser", limitamos nossa compreensão da condição humana.
"Tornar-te aquilo que és"? Isso implica que "és" algo e que não se pode tornar-se o que não se é. Mas "somos" humanos tal como um peixe "é" um peixe? Tal como um peixe não pode "ser" um macaco? Pois um peixe não só não pode ser um macaco, como também não pode agir ou parecer um macaco. Nós, humanos, vamos além do "ser". Ainda assim, dizemos "eu sou", tal como um peixe "é".
Antesser afasta a ideia de que o que "sou" é o que "sou" e que não posso ser outra coisa além do que estou fadado a ser. Antesser é sobre todas as possibilidades da existência humana – possibilidades que nos diferem de um simples peixe. Antessomos humanos porque, mesmo que não sejamos um peixe, podemos aprender a nadar. Antessomos humanos porque, mesmo que não sejamos um peixe, criamos maquinários que nos permitem mergulhar nas profundezas do oceano.
Antesser é "ante" porque indica anterioridade – não no sentido cronológico, mas no sentido de estar sempre antes do ser: antes que eu possa ser algo, eu mudo; antes que o imutável me alcance, eu me desvio; antes que eu me defina como caminhante, aprendo a nadar. Portanto, não sou apenas caminhante. Sou caminhante e nadador. E um peixe é apenas um nadador. E mesmo que sua espécie evolua para além disso, ele nunca terá o mesmo grau de possibilidades de um humano. Eis a razão do antesser.
"Torna-te aquilo que ante-és" – é o que, por fim, faz verdadeiro sentido. Pois aceitar o antesser é aceitar sua condição dinâmica e sua capacidade de tornar-se qualquer coisa.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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O que é um Anfêmero?
Ao Anfêmero pertencerá a sua vida em todas as instâncias emocionais e psíquicas. O Anfêmero é um livro e posso…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Nota da autora Sahra Melihssa: Este artigo
foi escrito há alguns tantos mêses, no entanto,
eu havia definido o nome deste livro-diário como
Memórum. Este nome, todavia, me soava como algo
póstumo e isso me incomodava. Por isso, renomeei
para Anfêmero, uma palavra esquecida que remete
ao sentido de cotidiano e, ao mesmo tempo, tem
um peso inestimável, tanto em sua pronúncia quanto
na constituição que possui (sua grafia) — lembra-nos da efemeridade da vida e nos conecta com esta genuína verdade; talvez uma força contrária à finitude, mostrando-nos que apesar do tempo imposto ao nosso ser, aquilo que redigimos nos eterniza em páginas polén.
Boa leitura, núridos queridos, imerjam-se na profundez do Anfêmero.
Ao Anfêmero pertencerá a sua vida em todas as instâncias emocionais e psíquicas. O Anfêmero é um livro e posso compará-lo ao Diário, visto que ambos são guardiões dos aspectos quotidianos da vida humana singular. Todavia, o Anfêmero, para além d’esta tarefa, possui muitas outras e, para que estas muitas outras sejam cumpridas, é requerido que seu autor tenha um vínculo com seu Anfêmero, é imprescindível que seu autor tenha uma intenção verdadeira de encontrar, através da escrita, o autoconhecimento. Boa leitura, núridos queridos, imerjam-se na profundez do Anfêmero.
Cada um deve ser autor de seu próprio Anfêmero. O autor deve se vincular profundamente e emocionalmente ao seu Anfêmero para que sinta ser substancial escrevê-lo. A intenção, a qual supracitei, nada mais é do que a verdadeira vontade de fazer algo. Por vezes temos anseios quais, por mais que sejam anseios, não são febris o suficiente para que utilizemos nosso tempo e energia em nome deles. O anseio de escrever em seu Anfêmero deve ser, para o autor, um anseio resoluto. Isso, pois, das outras muitas tarefas destinadas ao Anfêmero, está o hábito de descrever o seu dia com minuciosos detalhes, em especial a respeito de seus pensamentos, sentimentos e emoções.
Em um Diário, naturalmente escrevemos o que sentimos ou pensamos, porém, no Anfêmero, é preciso uma dedicação para que esses detalhes sejam mais aprofundados, uma vez que são eles que trarão compreensão para nós e consciência para o nosso quotidiano. Isso acontece porque, ao nos dedicarmos à lembrança de cada pensamento e emoção, além dos acontecimentos do dia, trabalharemos a memória e a atenção a cada dia com mais avidez; imersos no verdadeiro desejo pelo autoconhecimento e vinculados, sem hesitar, ao Anfêmero; quereremos investir nossa atenção nos dias corriqueiros tão somente porque queremos ter o que redigir ao anoitecer. Esse ciclo de escrever para se lembrar e investir na atenção para se lembrar mais ao escrever, é o ciclo virtuoso do Anfêmero.
A memória é a razão pela qual somos capazes de compreender novos conhecimentos; exercê-la e praticá-la não apenas leva ao autoconhecimento, mas também nos permite transformar a nossa existência com a expansão da nossa capacidade de assimilação do mundo. O Anfêmero é a ferramenta do ciclo virtuoso da memória, pois a expande naturalmente. Além disso, com o exercício da Escrita, ampliamos nossa capacidade cognitiva e desenvolvemos, assim, maior habilidade de processamento de informação, além de autocontrole nas respostas reativas do nosso comportamento. Não é atoa que sempre, desde os primórdios da humanidade, buscamos formas de escrita que, mesmo rudimentar, vinham da nossa intuição primitiva de evolução mental.
Compreende-se que, portanto, enquanto ferramenta da consciência, o Anfêmero como hábito produz:
1) Exercício e expansão da Memória;
2) Reforço da atenção diária;
3) Ampliação da capacidade cognitiva no processamento e assimilação das informações do eu-mundo;
4) Melhoria na habilidade de lógica;
5) Construção de autoconhecimento na análise facilitada por todo o movimento dinâmico da mente descrito nos quatro itens anteriores — essa construção acontece porque, necessariamente, somos colocamos como observadores dos nossos pensamentos, sentimentos, emoções e, principalmente, das situações cotidianas, isto é, do mundo que estamos inseridos; ao escrever o Anfêmero, somos colocados como narradores da nossa história e, enquanto tais, podemos definir o futuro do protagonista que somos; isso acontece gradativamente, a cada nova folha redigida no Anfêmero, a cada novo esforço intencional para manter o hábito e dedicação para se lembrar de tudo o que passara por sua mente e coração ao longo do dia. Autoconhecimento é algo a se buscar do início ao fim da vida.
O Anfêmero, enquanto ferramenta, pode não trazer benefícios se utilizado de forma errônea; portanto eu reforço, é preciso um profundo e incorruptível querer-escrever-um-Anfêmero, para que a ferramenta seja aproveitada em todo o seu potencial.
1) Queira, de verdade, escrever um Anfêmero;
2) Dedique-se ao seu Anfêmero;
3) Divirta-se lembrando do seu dia, sentimentos, pensamentos e emoções, para que a “tarefa” de escrever lhe seja agradável;
4) Trate seu Anfêmero como um amigo, ou como seu Psicólogo, queira revelar para ele tudo o que se passa em seu ser;
5) Entenda seu Anfêmero como uma criatura que só vive se for alimentada por suas palavras, logo, não a deixe falecer no esquecimento.
Se não houver disposição para estas cinco coisas, desconsidere a escrita de um Anfêmero e prefira o Diário que é, em si mesmo, um hábito de escrita mais suave e fácil. Ambos têm suas qualidades, no entanto, não esqueça que escrever um Anfêmero é dedicar-se ao método mais poderoso para o autoconhecimento e independência racional e emocional através da Escrita.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Está chegando a hora!
Em 31 de outubro será lançada a 10ª edição do nosso periódico Castelo Drácula, uma revista digital para apreciadores da Literatura Gótica, do Terror, Horror, Mistério e Fantasia Sombria….
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Em 31 de outubro será lançada a 10ª edição do nosso periódico Castelo Drácula, uma revista digital para apreciadores da Literatura Gótica, do Terror, Horror, Mistério e Fantasia Sombria. Junto desta edição de Halloween, cujo nome é Aborom, lançaremos a edição do Desafio Sombrio, que já conta com mais de 30 envios de autores e convidados. É uma conquista poder comemorar um ano de Castelo Drácula com uma edição dupla cheia de magia e horror. A empolgação irradia de todos os que estão participando com afinco e, principalmente, de mim, que vejo se materializando um sonho que sempre tive: reunir autores, publicá-los, lê-los e me dedicar a eles para vê-los escrever cada vez mais.
Os spoilers já foram dados: a edição Aborom é laranja e vivifica a essência do Halloween que, embora seja uma festividade norte-americana, aqueles cujo coração transborda em trevas não podem ignorar tamanha celebração. Estamos vinculados a Samhain, esta é a verdade, pois somos pagãos, de uma forma ou de outra; ainda que o inverno não se inicie em nosso adorável outubro, sentimos que, em homenagem às energias do inverno em países do hemisfério norte, celebramos para fortalecer a egrégora. A verdade é que, no Brasil, as estações são diferentes, e estamos próximos do fim da primavera. Nosso Samhain deveria ser em março, com suas águas profundas fechando o verão mórbido e trazendo o outono. No entanto, você já imaginou como poderíamos ressignificar o Halloween para nossa cultura? Eu já pensei.
É principalmente por isso que a Edição 10 da revista Castelo Drácula chama-se Aborom. A palavra remete às abóboras, pois a colheita também é feita nesse período no Brasil. Este vegetal é representativo também no Halloween norte-americano. As abóboras não são tão fãs de climas profundamente frios, então combinam com a primavera brasileira, que, em alguns estados, é quente e úmida, embora não tão quente quanto o verão, quer dizer, às vezes é. Nossas estações são quentes, quase sempre. O calor é nossa maldição, e é por isso que Aborom é de um laranja intenso, lembrando um entardecer melancólico de calor.
Aborom é o nome que dei para esse festim que acontece todo 31 de outubro — que, na verdade, acontece em minha mente e pude trazer para vocês através do Castelo Drácula. Nele, unimo-nos com aqueles que importam, cozinhamos receitas ancestrais com abóboras e grãos integrais rústicos, frutos de nêsperas, acerolas, mangas e jabuticabas, especiarias moídas: cumaru, açafrão e folhas de manjericão. Relembramos momentos especiais sentados à mesa, dançamos ao som de músicas estranhas e consultamos nossos oráculos das cartas, para que possamos entrar com sabedoria no período de transição que se inicia em novembro. Novembro e dezembro são meses de profunda reflexão; neles, uma melancolia de fim de ano se esparge e, em Aborom, são compreendidos como um período importante para nossa individualidade e nossos vínculos. Foi assim que ressignifiquei o Halloween. Uma tradição única e incrível, não acha?
Talvez você acredite que isso não tenha a ver com os brasileiros; no entanto, tudo começa pela literatura. Nela vivenciamos o que faz sentido para nós e a tornamos real. Tudo o que crio e compartilho por aqui é para ser apreciado por aqueles que veem sentido em cada detalhe, e sei que alguém, além de mim, verá. Em Aborom, há a brincadeira comum de "doces ou travessuras", onde usamos roupas e máscaras para assustar os familiares e amigos que não levam doces para a celebração. É uma recreação que acontece nesse dia. Debaixo do fim da primavera, próximo ao verão, festejamos em Aborom.
Dia 31 de outubro você fará parte dessa festa apreciando a Edição 10 da revista mensal Castelo Drácula. E, depois de apreciá-la em todo o seu encantamento sombrio, poderá dizer se não é, pois, a festa mais fascinante de Halloween que você já viu! Melhor do que o Halloween, melhor do que Samhain. Estamos em Aborom!
Leia as obras da Edição 9 - Etherealiss:
O gotejar da tinta Nanquin
Conheci o trabalho da artista através do Instagram e logo identifiquei a inspiração difundida em seus traços. A narrativa gotejada do contato da...
Arte de Plante Meus Ossos
Conheci o trabalho da artista através do Instagram e logo identifiquei a inspiração difundida em seus traços. A narrativa gotejada do contato da pena na tinta nanquim ao encontro da folha em branco expressa imagens capturadas por um olhar criativo e singelo, hábil e sensível, criativo ao embelezar a dor e particularizar a obscuridade vigente em todo ser humano.
A artista é uma jovem de 24 anos, do interior de São Paulo, mais precisamente na localidade de Santa Gertrudes, onde nasceu e residiu até os 19 anos.
Arte de Plante Meus Ossos
Ímpar:
“Por ser uma cidade do interior, tive muito acesso a plantas, insetos e construções bem antigas. Pensando nisso, acredito que muitos dos meus gostos se desenvolveram lá.”
Em 2020, realocou-se para Curitiba, no Paraná, com o intuito de buscar aperfeiçoamento através do bacharelado em Artes Visuais na UNESPAR. A arte esteve presente em sua vida desde a infância, e a destreza, devido à habilidade de criação, a levou a experimentar as demais manifestações artísticas, como ballet, teatro, fotografia, moda, circo, entre outros.
Ímpar:
“Por ser uma criança neurodivergente, sempre tive muita energia para gastar, e meus pais atuaram corretamente em me colocar em várias atividades. De certa forma, tive um incentivo desde pequena a mergulhar nesse mundo artístico. Sou diagnosticada com TDAH, e isso influencia muito no meu processo criativo. Por exemplo, tenho que escutar uma playlist específica para meu cérebro entender que esse é o momento de ilustrar, e sim, é a mesma playlist todas as vezes.”
A Plante meus Ossos nasceu durante a pandemia, em um momento descontraído de desenvolvimento criativo, na ocasião em que ilustrava “O coelho branco”, personagem do livro infantil “Alice no País das Maravilhas”, e identificou potencial de venda em sua composição única, propondo aos amigos a compra da arte estampada em uma peça de roupa.
Ímpar:
“No fim, deu certo e tomou proporções que eu não imaginava; pessoas desconhecidas queriam tê-la também. A partir disso, resolvi investir e continuar fazendo produtos ilustrados, aprendendo pouco a pouco como criar um site, como falar com fornecedores e tudo mais.”
Por ser neurodivergente, adaptou sua rotina de modo que a administração de sua marca “Plante meus Ossos” estivesse em sintonia com sua intenção de reproduzir uma experiência sombria, particular, íntima e única.
Ímpar:
“Desde a criação de um produto até o momento de embalar e enviar para os novos lares assombrados, mas não me arrependo de forma alguma; meu público me salva todos os dias.”
O estilo de sua arte é influenciado pela cinematografia, principalmente por obras do cineasta, produtor, roteirista, escritor, animador e desenhista norte-americano Tim Burton. Outras grandes influências surgiram do encantamento pela estética lúdica do Studio Ghibli. No decorrer do dia a dia, como estudante de artes, a estética gótica, a gravura do fantástico e a era de ouro da ilustração se tornaram suas principais influências.
Arte de Plante Meus Ossos
Ímpar:
“Minha mãe sempre leu diversas histórias para mim quando eu era criança, e, dentro desses momentos, havia muitos livros ilustrados que me encantavam, pois eu podia compreender a história sem precisar saber ler. Acabei me interessando muito por literatura e encontrei nela livros góticos escritos por mulheres, como O Morro dos Ventos Uivantes, Frankenstein, Entrevista com o Vampiro e tudo mais. Acredito que, absorvendo esses conteúdos com teor obscuro, me fez ter o prazer de explorar cada vez mais esse universo desconhecido.
Escolher um artista como favorito é algo muito difícil para mim; tenho muitos que levo no meu coração. Mas os que me marcam atualmente seriam Harry Clark, Edward Gorey, Aubrey Beardsley e Ida Rentoul Outhwaite, que são ilustradores do gótico e fantástico, utilizando técnicas de nanquim absurdas quando falamos de detalhamento e imaginação. Outros artistas que fogem do nanquim, mas que me influenciaram muito, são: Leonora Carrington, Remedios Varo, Genieve Figgis e Goya.
O que eu mais gosto na arte acredito que seja a total liberdade de poder criar um universo desconhecido a partir do seu próprio imaginário. A arte se torna um lugar de terapia, de completo transe, como se sua mente viajasse para outro lugar onde ninguém pode te achar; é como um jardim secreto com flores e plantas que só você sabe que existem.E o melhor de tudo isso é compartilhar desse novo mundo com as pessoas e poder enxergar que existe identificação e que esses sentimentos e criações vomitados no papel também importam para quem os vê e os sente, além de mim como criadora.
Definir a arte é algo impossível, na minha opinião, hahaha, pois cada um que a vê e a explora tem uma nova interpretação, um novo olhar. Particularmente, deixar a arte como indefinível é muito mais interessante do que preparar quem vai ter essa experiência sobre o que ela é e o que eu quis dizer quando a criei. Minhas ilustrações buscam transmitir a melancolia e o horror, dialogando com temáticas como o gótico, a botânica e a fantasia. Além disso, como pesquisa pessoal, gosto de trazer uma reimaginação da morte, uma releitura. Como se todos os seres que são engolidos pela terra se tornassem alimento para novas vidas nascerem, e isso se torna um ciclo infinito de dormir e acordar, só que em novos lugares do mundo.
Arquivo pessoal da Artista
Ímpar:
“Falar sobre as pessoas importantes para mim é algo bem sensível; sou muito emotiva quando se trata desse assunto. Mas, bom, no primeiro ano da faculdade, me inscrevi em uma optativa de literatura e ilustração gótica com o professor Fabrício Vaz Nunes, e ele foi uma chave extremamente importante para meu início na ilustração, tanto que ele é meu orientador do TCC atualmente. Bryan Paula e Maquina são dois artistas muito importantes para mim nesse processo de construção da Plante; eles estiveram desde o início e me acolheram em todos os momentos de medo, choro e situações em que eu não acreditava que era o suficiente ou que alguém gostaria do meu trabalho, pois, querendo ou não, a ilustração não era algo de grande destaque dentro das “Belas Artes”, e isso me assombrou por um tempo. Tive o suporte gigantesco dos meus pais e irmão nos momentos tristes e felizes. São pessoas que sempre acreditaram em mim e nunca soltaram a minha mão para realizar o sonho de ser ilustradora de livros e do horror, mesmo eles não conhecendo nada da área.
Poderia ficar agradecendo por eras aqui todas as pessoas que me ajudaram e estiveram comigo, mas finalizo com o meu público, que foi crescendo aos poucos, e todos eles se mantiveram comigo e não deixaram meu trabalho de lado. Eles me apoiam até os dias atuais, e eu levaria milhares de anos para poder agradecer todo o carinho e amor que eles me dão desde sempre.
Se eu pudesse conversar com quem gostaria de trabalhar com ilustração, eu diria para desenhar todos os dias, por mais pequeno e bobo que pareça, porque, no final das contas, arte é prática. Não existe essa ideia de “nascer com um dom” na minha ótica.
As pessoas podem ter tendências para serem boas em uma coisa ou outra, mas você só cresce na área em que deseja trabalhar com insistência, disciplina e prática. Consuma muita arte: veja filmes de temáticas que gosta, leia livros, vá a museus; tudo ao seu redor se tornará inspiração para suas próprias obras. O mundo real tem muitas fontes para o imaginário voar, aproveite cada detalhe. E, claro, não desista. Por mais que, no começo, você não goste do que criar, você vai gostar em algum momento; é apenas parte do processo. Não vamos desenhar ou pintar algo maravilhoso de início. Precisamos praticar para chegarmos ao resultado que imaginamos. E se especialize: faça cursos, estude sobre o assunto, realmente mergulhe e seja obcecado. Para trabalhar com arte, você tem que amar; tem que fazer parte do sangue que pulsa dentro de ti.
Não gosto muito de pensar no futuro, por mais que seja algo impossível. Almejo poder viver apenas do meu trabalho, ilustrar muitos livros sejam com minhas próprias histórias ou de outros autores. Se eu puder viver trabalhando com o que eu amo, é o suficiente para mim, ser artista e viver de artes no Brasil é algo que poucas pessoas conquistam, então é o meu sonho. Me vejo à luz de velas, com música clássica assombrada tocando ao fundo, ilustrando novos universos para vocês queridos leitores mergulharem.’’
Leia mais em Artigos:
Sete Maneiras de ir para Setealém — Parte 02
Se você não leu a primeira parte das sete maneiras de ir para Setealém, “volte uma casa” e leia…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Se você não leu a primeira parte das sete maneiras de ir para Setealém, “volte uma casa” e leia.
Apesar de ser um manual que soa divertido, ele é assustador e não perde a força real que há na energia desse lugar, então, lembre-se de deixar alguém avisado sobre as suas experiências ou até ter alguma pessoa por perto. Tentar ir para Setrealém estando sozinho pode ser perturbador.
Vamos ver outras sete maneiras de ir para Setealém:
08. Através de Um Ônibus
Essa é a maneira mais comum e conhecida de se chegar em Setealém. Conta-se por aí que ao andarmos pela rua e avistarmos um ônibus, devemos perguntar para onde ele vai. É óbvio que o(a) motorista dirá que é para algum lugar que você conhece, aqui deste mundo. Mas, a depender da sua intenção, se você fizer isso, a resposta pode ser "Para Setealém", e se você subir nesse ônibus, já sabe onde vai parar. Há outro viés da história que diz que ao entrar em qualquer ônibus e alguém dentro dele disser para você descer, significa que ele irá para Setealém. Cabe a você querer ficar dentro do ônibus e não arredar o pé dali ou descer imediatamente.
Se você for aficionado(a) por esse lugar assim como eu sou, você pode dizer em voz alta que deseja ir para Setealém. É óbvio que as pessoas vão te olhar ou você vai encontrar passageiros que queiram fazer o mesmo. Caso sinta vergonha de fazer isso, diga apenas em pensamento. Vale a pena tentar. Mas se você perceber o ônibus sendo conduzido por outro caminho estranho e escuro, você já sabe para onde ele está indo. E nessa hora, não dará para desistir no meio do caminho.
09. Através de um Ritual
Essa é uma das maneiras mais perigosas de ir para Setealém. Rituais envolvem muitas coisas: energias, objetos, ambientes. A depender do ritual que você estiver fazendo, o seu estado de concentração para acessar aquela energia lhe conduzirá a Setealém. Ou, até mesmo, um ritual que lhe conduza especificamente para lá. Eu não aconselho ser dessa maneira. É perigoso e atrai muitas energias não tão suaves.
10. Através de Elevadores
Elevadores são misteriosos e muito surreais. Ao mesmo tempo que modernos e divertidos, contam histórias terríveis que já aconteceram ali. Para ir para Setealém através de um elevador é simples: entrar nele, apertar o botão do último andar e fechar os olhos até ele parar, é suficiente para você chegar nesse mundo. Mas cuidado. O risco de o elevador dar um probleminha de funcionamento é grande.
11. Através de Escadas
Essa maneira de ir para Setealém é assustadora. Pois quando você começa a subir ou descer as escadas na intenção de chegar em Setealém, elas parecem não ter fim. Escolher ir para Setealém de escadas é entrar em uma espécie de looping que pode durar minutos eternos. Isso porque as escadas começam a ficar infinitas e o seu trajeto por elas parece não ter fim. Mas somente assim para conseguir acessar o lugar. Então lembre-se deste detalhe: quanto mais você subir as escadas, mais demorado vai ser para você chegar em Setealém, mas será rápido você voltar, e quanto mais você descer as escadas, mais rápido vai chegar em Setealém, porém mais demorado vai ser para você retornar. Cuidado com essa escolha.
12. Através de Banheiras
Ir para Setealém após entrar em uma banheira é muito comum e causa muito medo. Até porque em banheiras já aconteceram muitos acidentes, inclusive, mortes. Então, é uma maneira muito sombria, mas você pode conseguir acessar esse mundo quase submerso em uma delas. Só é necessário ter cuidado para não ficar em um estado inerte demais e sofrer algum desmaio, resultando em afogamento. Por isso, a necessidade de deixar alguém próximo a você nesse momento é obrigatória, para que a pessoa te puxe para fora imediatamente, caso haja algum “problema técnico”. Mas cuidado: no desespero, pode ser que o visitante de Setealém acabe puxando a pessoa para dentro da banheira. Bem, eu prefiro não imaginar a confusão.
13. Através do Banho
Outra maneira parecida com a banheira é através do banho. Mas acontece de maneira diferente. No banheiro sabemos o quão fácil é as pessoas chorarem e se sentirem mal, por isso, a aura que ronda na parte do chuveiro é sombria. Ao tomar um banho, a depender do seu estado de relaxamento ou de sentimento, você pode acessar o mundo de Setealém por alguns instantes. É como se você estivesse lá e tudo ao seu redor fosse o ambiente setealemiano. Antes você precisa fechar os olhos enquanto a água cai pelo seu corpo, e logo você vai se sentir no lugar. O problema é o desperdício de água. Cuidado com isso.
14. Através do Pensamento
Sabemos que o que pensamos, atraímos. Pois é o pensamento que cria a vibração de determinada coisa que está rondando a nossa mente, resultando, assim, na criação daquilo. É um processo que faz parte da cocriação. Se concentre, então, se imagine saindo desta órbita e adentrando Setealém, calmamente. E vai se sentir lá, de fato. É a maneira mais simples e mais segura, pois você vai acessar o lugar, estando onde está, apenas através da sua imaginação. Mas cuidado com o seu pensamento, ele pode te levar para Setealém, de fato, e você nunca mais voltar.
Estou apenas brincando. Ou será que não estou?
Lembre-se: Setealém não é brincadeira. Se você brincar com esse lugar, ele também vai brincar com você.
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Sete Maneiras de ir para Setealém
Quem nunca desejou ir em Setealém ou nunca pensou em visitar esse lugar? A maioria de nós, que vivencia espiritualidade…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Quem nunca desejou ir em Setealém ou nunca pensou em visitar esse lugar? A maioria de nós, que vivencia espiritualidade, tem curiosidade em acessar esse mundo...! Mas o que tem lá? Ah, muitas coisas que irão te surpreender. Para você saber o que, de fato, existe lá, você deve ir. E para ir, há algumas maneiras que você precisa conhecer.
Antes de ir para Setealém, esteja ciente de cada consequência e convicto(a) de que quer ir, realmente, para lá. Lembre-se, também, de deixar alguém avisado sobre a sua ida ou visita. A possibilidade de você não retornar é grande e, a depender do seu objetivo, você pode voltar para o nosso mundo ou ficar em Setealém por um tempo maior ou até definitivamente. É o que explica, também, muitos desaparecimentos que acontecem por aí.
Este manual pode soar com dinamismo ou parecer que é algo fictício, mas ele é tão real e sombrio quanto a própria realidade do lugar.
As maneiras de ir para lá podem ser intencionais ou acidentais, então, vamos às sete maneiras de ir para Setealém:
Através do Sonho
Ao sonharmos, nos desligamos deste corpo físico e acessamos outras dimensões. E você pode acabar sonhando com Setealém, ou seja, indo lá através do seu sonho. Nesse caso, há uma possibilidade grande de você voltar, já que é somente um sonho. Basta apenas acordar no momento em que seu corpo julgar naturalmente.
Através de Projeção Astral
Esta é uma maneira mais profunda de ir para Setealém. A projeção astral pode ser inconsciente e até consciente, embora seja mais raro de acontecer nesse segundo tipo. Mas, é através da projeção astral que visitamos ambientes outros, que nos possibilitam conhecer e aprender, então, através de uma projeção astral você consegue acessar Setealém. Nesse caso, tenha cuidado, pois você pode demorar bastante para retornar.
Através do Espelho
Esta é uma das maneiras mais arriscadas, pois o espelho é um portal. Ele é um tipo de objeto que, além de refletir a nossa imagem, a energia que ele traz consegue captar toda aura e vibração que nos ronda dentro do ambiente em que o espelho se encontra. Ele é capaz de nos levar energeticamente ou até de outras maneiras para determinados ambientes e lugares que nem sempre são leves. No caso de Setealém, o ambiente é denso, pesado e carrega uma aura sombria. Cuidado com espelhos. Se você ficar olhando por um tempo a sua imagem ali, disser algumas palavras que demonstrem interesse em visitar Setealém e mentalizar que está indo para lá, alguma coisa pode acontecer.
Através de Portais Ocultos em Ambientes
Nos ambientes há portais, que vão desde espelhos, como falado no exemplo anterior, até cantos improváveis da sua própria casa. É uma maneira perigosa de acessar Setealém. Pois, sem querer, através do nosso estado vibracional ou do próprio ambiente, alguns portais acabam sendo abertos dentro da nossa própria casa. O problema é que esses portais, muitas vezes, não dão sinais de que são portais. Mas é possível perceber uma determinada parte da casa mais fria ou mais quente, ou até sentir uma energia diferenciada. Se aproximando desses cantos específicos sem estar com o seu campo vibracional bem, a possibilidade de ir para Setealém é grandiosa.
Através da Paralisia do Sono
Esta maneira de ir para Setealém causa até arrepio. Quem nunca teve uma paralisia do sono, é melhor não querer experimentá-la. E quem já teve sabe o quão doloroso e assustador é. Além de ser sufocante! Entretanto, é através da paralisia do sono que o nosso corpo está bastante vulnerável e apto a ser conduzido facilmente por energias, até porque, na paralisia do sono não conseguimos sair do lugar. Pior, nem sai o som da nossa voz, por mais que tentemos isso. Mas, como na paralisia do sono geralmente ficamos mais conscientes do que inconscientes, podemos, no momento em que estamos ali inertes, mentalizarmos Setealém ou até mesmo solicitar a alguma figura que apareça para nós, nossa ida para lá. Mas que é perigoso, é. Perigosíssimo! Até duvido que alguém desesperado com a paralisia do sono queira ir para Setealém no momento. Mas se você quiser arriscar, bem..., fica por sua conta.
Através do Sonho Lúcido
Vamos para uma das maneiras mais perigosa de ir para Setealém, senão a mais. Ir para esse lugar através de um sonho lúcido é quase não mais voltar. É um risco enorme, pois no sonho lúcido você está consciente de que está sonhando. Se diz por aí que em um sonho lúcido não devemos perguntar a hora e nem a data, pois começam a acontecer coisas estranhas e você começa a ser perseguido. É verdade, eu posso comprovar, por experiência própria. Então, é nesse momento consciente do sonho lúcido que você vai dizer a alguém que esteja presente no seu sonho que você deseja ir para Setealém. Caso você esteja sozinho(a) em seu sonho lúcido, você pode dizer em voz alta para onde deseja ir. Mas tenha muito cuidado. Da mesma maneira que em um sonho lúcido você pode ter autonomia para acordar, caso você deseje ir para Setealém, talvez seja difícil controlar a sua volta ao despertar e você pode ficar preso nesse lugar até que o seu sonho lúcido chegue ao fim. E se ele não chegar ao fim? Talvez, arriscar tanto assim, seja um caminho sem volta.
Através de um Pedido ou Solicitação
Esta maneira de ir para Setealém parece simples, mas não é tão fácil assim. Fazer um pedido poder ser simples, mas a questão é: para quem você vai fazer esse pedido? Geralmente, pensamos ser pra algum anjo guia espiritual, mas não. Os mentores espirituais e todas as figuras religiosas estão fora disso. O seu pedido deve ser feito à própria Setealém. Como se você estivesse pedindo algo ao universo ou solicitando a sua ida para lá para Guardiões da cidade. E o seu pedido pode ser atendido ou não. Vai depender das suas intenções. Quem, em sã consciência, pediria para ir para Setealém? Você?
Lembre-se: Setealém não é brincadeira. Se você brincar com esse lugar, ele também vai brincar com você.
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Drácula, Morcegos, Vampiros e Tudo Mais
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The Vampire (1897) by Philip Burne-Jones
A história dos vampiros remonta a tempos muito antigos, tão antigos que é difícil determinar sua origem precisa. No entanto, sua associação com os morcegos só foi estabelecida entre 1756 e 1763, quando o naturalista francês Conde de Buffon fez a ligação entre o morcego hematófago da América do Sul e o mito do vampiro em seu livro "Histoire naturelle, générale et particuliére (1749-1767)". Antes disso, havia apenas alguns relatos, no século XVI, de exploradores europeus que observaram morcegos se alimentando de sangue na América do Sul.
Em 1839, durante sua expedição a bordo do HMS Beagle, Charles Darwin fez uma observação crucial ao descrever a primeira observação direta de um morcego vampiro verdadeiro, o Desmodus rotundus, se alimentando de sangue. Este evento foi fundamental para inspirar a representação dos vampiros com características e comportamentos parecidos aos dos morcegos na literatura, como visto em uma ilustração de “Varney, o Vampiro” de James Malcolm Rymer (1845). As características que morcegos e vampiros têm em comum são incisivos afiados (apenas no caso de Nosferatu, os demais vampiros costumam ter os caninos afiados), se alimentam do sangue de outros mamíferos, possuem haréns, gostam de locais escuros e ambos também são mamíferos.
Apenas em 1897 que a ligação entre morcegos e vampiro ficou popular com a publicação do livro “Drácula”, onde Bram Stoker juntou o folclore da Transilvânia, com morcegos-vampiros e Vlad, o Empalador. Quando Stoker escreveu Drácula em 1890, alguns dizem que ele encontrou uma notícia em um jornal de Nova York que falava sobre os morcegos-vampiros, o que pode o ter inspirado, com isso a relação morcego e vampiro se consolidou mais ainda, porém ele preferiu ignorar o fato que o morcego-vampiro é uma espécie bem pequena com 9 cm de comprimento, pois toda vez que ele cita o morcego no livro ele o descreve como “um grande morcego”.
Pintura a óleo de Vlad Țepeș no Palácio de Ambras, Áustria, datada de 1560
Existe teoria de que Bram Stoker se inspirou na história de Vlad, o Empalador para escrever o livro de Drácula, mas não há comprovações para isso, aparentemente ele apenas viu o nome Drácula em um livro numa biblioteca e usou o nome por significar “diabo” em romeno para alguns mais supersticiosos e inimigos de Vlad. O nome “Draculea” tem como significado o filho do dragão. Porém, há quem diga que ele compôs a aparência de Drácula numa mistura de Henry Irving, ator e amigo de Bram, isso foi confirmado pelo próprio Bram e o poeta Walt Whitman, a quem ele admirava muito, há outras teorias de que Drácula pode ter se inspirado em Oscar Wilde, ao qual supostamente cortejava Florence Balcombe, que depois veio a casar-se com Bram. Talvez ele tivesse uma homoafetividade reprimida, e usou a personalidade de Oscar Wilde, que era na época considerado perigoso, porém fascinante, para compor Dracula. Tudo isso torna o livro de Bram Stoker ainda mais interessante.
Desmodus rotundus | Link | Autor: © Roberto Leonan Morim Novaes
Bram Stoker se inspirou bastante no folclore romeno para criar sua narrativa, inspirado por conversas que teve com o aventureiro Arminus Vambery e o explorador Henry Morton Stanley conhecidos seus do Beefsteak Club, que Henry Irving também fazia parte, principalmente Vambery que conhecia profundamente a cultura, o folclore e as paisagens da Transilvânia, assim o príncipe Vlad III Dracul da Valáquia ou Vlad, o Empalador se tornou também o conde Drácula, o nome Empalador veio por conta do hábito de Vlad III Dracul executar suas vítimas, ele recorria ao empalamento para assustar o exército Turco que na época queria conquistar a Valáquia, diziam que ele gostava de olhar as vítimas empaladas enquanto se banqueteava, ainda havia quem acreditava que ele bebia o sangue dessas vítimas. Para alguns ele era um sádico, mas para o povo da Valáquia um herói que manteve os Turcos longe por algum tempo, por conta de tantos mitos e histórias relacionadas a ele, como a crença de que bebia sangue, de que era imortal e segundo algumas análises químicas feitas em cartas de sua autoria, ele poderia ter hemolacria, uma doença rara que faz a pessoa chorar sangue, o que dava a ele uma essência mais mítica. A figura histórica e a fictícia de Drácula acabaram por se tornar uma só.
Diphylla ecaudata | Link | Autor: © Roberto Leonan Morim Novaes
Diaemus youngii | Link | Autor: © Roberto Leonan Morim Novaes
No livro o conde Drácula além de beber sangue e ser imortal se transforma em morcego e sai à noite para ingerir sangue. Existem cerca de 1400 espécies de morcegos no mundo, no Brasil existem cerca de 180 espécies e de todas essas apenas três são hematófagas, ou seja, se alimentam de sangue. Essas únicas três espécies de morcegos-vampiros só existem na América do Sul e na América Central, são elas: O morcego-vampiro-comum (Desmodus rotundus), espécie que se alimenta de mamíferos. O morcego-vampiro-de-asas-brancas (Diaemus youngii), que tem preferência por aves. E o morcego-vampiro-de-pernas-peludas (Diphylla ecaudata), que também tem preferência por aves. Os morcegos da Europa são insetívoros, eles se alimentam de insetos, então se o Conde Drácula saía à noite para se alimentar, era somente de insetos, mas o nome “Comedor de insetos” não traria tanto terror às suas vítimas quanto o nome “O bebedor de sangue”. Dessas espécies hematofagas também temos o extinto morcego-vampiro-gigante (Desmodus draculae) que provavelmente se alimentava de preguiças-gigantes e mamíferos gigantes. Seu nome é uma homenagem ao Conde Drácula. Mesmo que envoltos em mitos, os morcegos são criaturas de grande importância na nossa ecologia, não importando como a mídia os tenha mostrado, não são criaturas más, apenas pouco compreendidas, dessa forma é muito importante a preservação dessas criaturas da noite que, são tão diversas, que não se resume apenas a consumir sangue.
Referências:
DARKSIDE. SERIA DRÁCULA INSPIRADO EM OSCAR WILDE?: Relação entre o autor e Bram Stoker ia além do triângulo amoroso com Florence Balcombe. [S. l.]: Darkside, 18 fev. 2022. Disponível em: https://darkside.blog.br/seria-dracula-inspirado-em-oscar-wilde/. Acesso em: 12 mar. 2024.
PITTALÀ, Maria G. G. et al. Count Dracula Resurrected: Proteomic Analysis of Vlad III the Impaler’s Documents by EVA Technology and Mass Spectrometry. [S. l.]: ACS Publications, 8 ago. 2023. Disponível em: https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.analchem.3c01461. Acesso em: 15 mar. 2024.
PROJETO MORCEGOS NA PRAÇA. História da Magia: O Mito de Drácula. Rio de Janeiro. 23 fev. 2023. Instagram: @projetomorcegosnapraca. Disponível em https://www.instagram.com/p/CpBbKhTpCRy/. Acesso em: 11 mar. 2024
PROJETO MORCEGOS NA PRAÇA. Quem veio primeiro, o morcego ou o vampiro?. Rio de Janeiro. 29 nov. 2021. Instagram: @projetomorcegosnapraca. Disponível em https://www.instagram.com/p/CW4HCfWpMsy/?img_index=1. Acesso em: 11 mar. 2024
NESTAREZ, OSCAR. De volta à estaca zero - uma jornada pela criação de ‘Drácula”. Barueri: Novo Século, 2021 (Suplemento literário).
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O Eterno Mestre do Terror: Edgar Allan Poe
Edgar Allan Poe é o Mestre da narrativa macabra e do mistério, deixou um legado literário…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Edgar Allan Poe é o Mestre da narrativa macabra e do mistério, deixou um legado literário profundamente influente que ecoa através dos séculos e há de ecoar, perpétuo, como um grito num abismo sem fim. Nascido em 1809, Poe viveu uma vida marcada por tragédias e dificuldades, isso moldou sua visão sombria do mundo e tornou sua escrita incomparável.
Poe começou sua carreira literária como crítico, destacando-se por suas análises afiadas e incisivas. No entanto, foi como escritor de contos e poemas que ele alcançou fama duradoura. Suas histórias, permeadas por elementos góticos e sobrenaturais, exploram os recantos mais sombrios da psique humana, mergulhando em temas como morte, insanidade e o desconhecido. O escritor e poeta influenciou todos os autores posteriores a ele, contos como “Os crimes da Rua Morgue” e “O Gato Preto” tornar-se-iam, quem diria, em obras relevantes não apenas na literatura, mas em todos as outras artes e, também, nos movimentos artísticos, tais como o romantismo, além de abraçar a escrita policial que veio a ser valiosíssima para autores como Conan Doyle e Agatha Christie (BELLIN, 2011).
Entre suas obras mais conhecidas, também consta "O Corvo", um poema que narra a visita de uma ave misteriosa a um homem atormentado pelo luto e pela perda. A musicalidade e a melancolia deste poema o tornaram um clássico da literatura mundial, ecoando através das eras e sendo adaptado para o cinema de forma recorrente e de maneiras singulares, sendo também símbolo na cultura gótica com sua marcante frase “Nevermore”.
Além de "O Corvo", Poe é célebre por contos como "O Coração Delator" — que, aliás, é um dos meus preferidos; nesta obra-prima, um narrador perturbado confessa um assassinato motivado pela obsessão com o olho de um idoso e, no final, sem spoiler, a profunda angústia e aflição são transmitidas ao leitor — algo que, para mim, nenhum outro escritor foi capaz de fazer com tanta maestria. "A Queda da Casa de Usher" é outro clássico de Poe, uma história de decadência e loucura que captura a imaginação com sua atmosfera sinistra e surreal; atualmente este conto foi adaptado, e modernizado, para uma série da Netflix, junto com outros elementos e obras importantes do autor, como a extravagância de “A Máscara da Morte Rubra”.
A habilidade de Poe em criar um clima de suspense e horror, aliada à sua prosa cuidadosamente elaborada, estabeleceu os padrões para o gênero do conto de terror e influenciou inúmeras gerações de escritores. Sua habilidade de penetrar nas profundezas da psique humana e explorar os abismos da alma humana continua a fascinar leitores até os dias de hoje. No entanto, o autor também foi influenciado pelos autores de sua época e antecessores, nomes como Lord Byron, William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge teriam sido suas instigantes leituras, com mistérios boêmios, descrições poéticas e sobrenaturais acontecimentos (BELLIN, 2011).
Segundo García (2019), Edgar parece residir em cada espectro da literatura sombria, até mesmo no que viera antes de sua existência, e não há como negar essa verdade, aliás, devo reiterá-la em outro aspecto: Poe habita os corações de toda a literatura gótica em razão do seu explorar profundo, em cada uma de suas tramas, das nuances perturbadoras da humanidade; sua técnica narrativa foi e é um marco tão imensurável, que é impossível ler quem quer que seja sem compará-lo à grandiosidade do autor de “Silêncio: Uma Fábula” — citado por ser o conto número um na minha lista de preferidos do poeta.
“Edgar Allan Poe parece estar em todos os lugares, e sua presença é tão impregnante que nos faz inverter o eixo cronológico, e ler até mesmo aqueles autores que o antecederam a partir dele. Em outras palavras, não apenas encontramos Poe em H. P. Lovecraft, Richard Matheson, Shirley Jackson e Stephen King: lemos Ann Radcliffe, Charles Maturim, Matthew Lewis e Mary Shelley, também a partir de Allan Poe” - García (2019)
Infelizmente, a vida pessoal de Poe foi marcada por tragédias e lutas constantes. Ele enfrentou dificuldades financeiras ao longo de sua vida e sofreu com o alcoolismo e a depressão. Parece que sua genialidade foi interrompida pela pobreza de suas condições básicas e suas amarguras emocionais. Sua morte prematura em 1849, aos 40 anos, permanece envolta em mistério, com as circunstâncias exatas ainda debatidas por estudiosos e admiradores. As causas de sua morte foram atribuídas a uma miríade de possibilidades, incluindo delirium tremens, doenças cardíacas, envenenamento por metais pesados e até mesmo rabia, mas nenhuma delas foi conclusivamente provada (ALLEN, 2001).
Apesar das adversidades, o legado de Edgar Allan Poe perdura como um monumento à imaginação humana e à capacidade de transformar o terror em arte. Sua obra continua a inspirar e fascinar leitores e escritores, garantindo-lhe um lugar permanente no panteão dos grandes mestres da literatura. Abaixo está uma lista dos contos publicados por Poe durante sua vida, nos títulos originais.
1831 - "Metzengerstein" - A primeira história que Poe publicou, marcando sua incursão no conto com um sabor gótico.
1832 - "The Duc de L'Omelette" - Um conto irônico e satírico sobre um duelo póstumo.
1832 - "A Tale of Jerusalem" - Um conto humorístico ambientado durante um cerco na Jerusalém antiga.
1833 - "MS. Found in a Bottle" - Um conto de terror marítimo e fantástico que ganhou um concurso literário.
1835 - "Berenice" - Uma história de terror psicológico focada em uma obsessão mórbida.
1835 - "Morella" - Uma reflexão sobre a reencarnação e a identidade.
1835 - "Lionizing" - Uma sátira sobre a fama e a sociedade.
1838 - "Ligeia" - Uma das obras mais elogiadas de Poe, explorando a morte e a ressurreição.
1839 - "The Fall of the House of Usher" - Um dos contos mais famosos de Poe, exemplificando o terror gótico.
1839 - "William Wilson" - Um conto que explora o doppelgänger e a consciência culpada.
1840 - "The Man of the Crowd" - Um estudo sobre a alienação e a observação urbana.
1841 - "The Murders in the Rue Morgue" - Frequentemente citado como o primeiro conto de detetive moderno.
1842 - "The Masque of the Red Death" - Uma alegoria sobre a inevitabilidade da morte. Excêntrico e trágico.
1842 - "The Pit and the Pendulum" - Uma história de suspense e terror ambientada durante a Inquisição Espanhola.
1843 - "The Tell-Tale Heart" - Um conto psicológico de culpa e loucura.
1843 - "The Gold-Bug" - Uma aventura envolvendo criptografia e um tesouro enterrado.
1843 - "The Black Cat" - Um conto de perversidade e culpa.
1844 - "The Premature Burial" - Uma história que explora o medo de ser enterrado vivo.
1845 - "The Purloined Letter" - Um conto de detetive que enfoca a psicologia do crime.
1845 - "The Facts in the Case of M. Valdemar" - Um conto que mistura elementos de horror e ficção científica.
1846 - "The Cask of Amontillado" - Uma história de vingança meticulosamente planejada.
Referências
KIEFER, Charles. A poética de Edgar Allan Poe. Letras de Hoje, v. 44, n. 2, 2009.
BELLIN, Greicy. Edgar Allan Poe e o surgimento do conto enquanto gênero de ficção. Anuário de literatura: Publicaçao do Curso de Pós-Graduaçao em Letras, Literatura Brasileira e Teoria Literária, v. 16, n. 2, p. 41-53, 2011.
ALLEN, Hervey. Vida e obra de Edgar Allan Poe. POE, Edgar Allan. Ficção Completa, Poesia & Ensaios. Trad. Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001.
GARCÍA, Flavio; COLUCCI, Luciana; GAMA-KHALIL, Marisa Martins; PHILIPPOV, Renata (Orgs.). Edgar Allan Poe: efemérides em trama. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2019.
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O Que é um Memórum?
Ao Memórum pertencerá a sua vida em todas as instâncias emocionais e psíquicas…
MidjourneyAI
Ao Memórum pertencerá a sua vida em todas as instâncias emocionais e psíquicas. O Memórum é um livro e posso compará-lo ao Diário, visto que ambos são guardiões dos aspectos quotidianos da vida humana singular. Todavia, o Memórum, para além d’esta tarefa, possui muitas outras e, para que estas muitas outras sejam cumpridas, é requerido que seu autor tenha um vínculo com seu Memórum, é imprescindível que seu autor tenha uma intenção verdadeira de encontrar, através da escrita, o autoconhecimento.
Cada um deve ser autor de seu próprio Memórum. O autor deve se vincular profundamente e emocionalmente ao seu Memórum para que sinta ser substancial escrevê-lo. A intenção, a qual supracitei, nada mais é do que a verdadeira vontade de fazer algo. Por vezes temos anseios quais, por mais que sejam anseios, não são febris o suficiente para que utilizemos nosso tempo e energia em nome deles. O anseio de escrever em seu Memórum deve ser, para o autor, um anseio resoluto. Isso, pois, das outras muitas tarefas destinadas ao Memórum, está o hábito de descrever o seu dia com minuciosos detalhes, em especial a respeito de seus pensamentos, sentimentos e emoções.
Em um Diário, naturalmente escrevemos o que sentimos ou pensamos, porém, no Memórum, é preciso uma dedicação para que esses detalhes sejam mais aprofundados, uma vez que são eles que trarão compreensão para nós e consciência para o nosso quotidiano. Isso acontece porque, ao nos dedicarmos à lembrança de cada pensamento e emoção, além dos acontecimentos do dia, trabalharemos a memória e a atenção a cada dia com mais avidez; imersos no verdadeiro desejo pelo autoconhecimento e vinculados, sem hesitar, ao Memórum; quereremos investir nossa atenção nos dias corriqueiros tão somente porque queremos ter o que redigir ao anoitecer. Esse ciclo de escrever para se lembrar e investir na atenção para se lembrar mais ao escrever, é o ciclo virtuoso do Memórum.
A memória é a razão pela qual somos capazes de compreender novos conhecimentos; exercê-la e praticá-la não apenas leva ao autoconhecimento, mas também nos permite transformar a nossa existência com a expansão da nossa capacidade de assimilação do mundo. O Memórum é a ferramenta do ciclo virtuoso da memória, pois a expande naturalmente. Além disso, com o exercício da Escrita, ampliamos nossa capacidade cognitiva e desenvolvemos, assim, maior habilidade de processamento de informação, além de autocontrole nas respostas reativas do nosso comportamento. Não é atoa que sempre, desde os primórdios da humanidade, buscamos formas de escrita que, mesmo rudimentar, vinham da nossa intuição primitiva de evolução mental.
Compreende-se que, portanto, enquanto ferramenta da consciência, o Memórum como hábito produz: 1) Exercício e expansão da Memória; 2) Reforço da atenção diária; 3) Ampliação da capacidade cognitiva no processamento e assimilação das informações do eu-mundo; 4) Melhoria na habilidade de lógica; 5) Construção de autoconhecimento na análise facilitada por todo o movimento dinâmico da mente descrito nos quatro itens anteriores — essa construção acontece porque, necessariamente, somos colocamos como observadores dos nossos pensamentos, sentimentos, emoções e, principalmente, das situações cotidianas, isto é, do mundo que estamos inseridos; ao escrever o Memórum, somos colocados como narradores da nossa história e, enquanto tais, podemos definir o futuro do protagonista que somos, pois, nós mesmos; isso acontece gradativamente, a cada nova folha redigida no Memórum, a cada novo esforço intencional para manter o hábito e dedicação para se lembrar de tudo o que passara por sua mente e coração ao longo do dia. Autoconhecimento é algo a se buscar do início ao fim da vida.
O Memórum, enquanto ferramenta, pode não trazer benefícios se utilizado de forma errônea; portanto eu reforço, é preciso um profundo e incorruptível querer-escrever-um-Memórum, para que a ferramenta seja aproveitada em todo o seu potencial. 1) Queira, de verdade, escrever um Memórum; 2) Dedique-se ao seu Memórum; 3) Divirta-se lembrando do seu dia, sentimentos, pensamentos e emoções, para que a “tarefa” de escrever lhe seja agradável; 4) Trate seu Memórum como um amigo, ou como seu Psicólogo, queira revelar para ele tudo o que se passa em seu ser; 5) Entenda seu Memórum como uma criatura que só vive se for alimentada por suas palavras, logo, não a deixe falecer no esquecimento. Se não houver disposição para estas cinco coisas, desconsidere a escrita de um Memórum e prefira o Diário que é, em si mesmo, um hábito de escrita mais suave e fácil. Ambos tem suas qualidades, no entanto, não esqueça que escrever um Memórum é dedicar-se ao método mais poderoso para o autoconhecimento e independência racional e emocional através da Escrita.
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A Fenomenologia da Imortalidade
Morrer é o que nos caracteriza e a morte é significativa para todas as instâncias da vida. Na Fenomenologia estuda-se a…
Death of an Orphan, 1884 — Stanisław Grocholski (Polish, 1858–1932)
Morrer é o que nos caracteriza e a morte é significativa para todas as instâncias da vida. Na Fenomenologia estuda-se a essência daquilo que se manifesta nos sujeitos a partir deles próprios, isto é, da expressão mais pura de suas singularidades reais, das vivências, compreensões e sentidos. Por meio da Fenomenologia, aplicada na Psicologia e revelada pelas linhas Existenciais da Filosofia, o ser que somos é foco de estudo a partir de seu existir significativo, tendo o objetivo de desvelar sua estrutura essencial, ou seja, para cada indivíduo a morte é experienciada como um fenômeno a partir de suas próprias manifestações enquanto ser individual, embora esta experiência esteja em dinâmico vínculo com o que o mundo em si, a sociedade, expressa em suas compreensões coletivas — a intersubjetividade também traz a subjetividade à luz de sua existência.
Discorrer sobre a Fenomenologia é sempre um ofício árduo, isso porque o seu método é enxergar com transparência genuína o ser que se revela em construção ser-mundo diariamente. Não há como mensurar e categorizar a experiência humana, nossa consciência é fundamentada em vivências reais imediatas, construídas, significadas, expandidas, inexploradas — somos a límpida revelação de nós mesmos; a Fenomenologia quer extrair a essência imutável dessa revelação. Deste modo, podemos afirmar que a Fenomenologia da morte é o estudo da essência imutável que reside em todas as expressões humanas em suas singularidades relatadas e vividas a respeito do morrer.
Sob as perspectivas atuais, notamos uma brusca mudança social onde a busca pela imortalidade é fulgurante e a morte é, cada vez mais, negligenciada — o fechar de olhos para o fim tendo o amanhecer sempre ao alcance das perspectivas. Naturalmente, com o avanço tecnológico, viver mais é uma realidade um pouco menos distante do que vinte e quatro anos atrás; podemos compreender, no entanto, que a temporalidade, ainda que prolongada, não pode ser extinta, pois, em si mesma, ela é o viver da forma que este se manifesta. Alcancemos a morte do morrer, continuaremos a existir no tempo. O tempo é uma vertente da morte e não há como parar o tempo.
Evidente que, como mencionado, a vivência da morte é única para cada humano e não investigo neste artigo relatos específicos sobre o assunto, mas discorro em reflexão sobre o que vem de encontro à minha consciência nos tempos atuais, busco, assim, a partir do que enxergo, extrair uma essência imutável de compreensão. Eis algumas pertinentes questões: Uma sociedade sedenta pela vida, poderia ser capaz de morrer? O tempo poderia ser a nova morte? Ou a finitude, ressignificada à imortalidade, caracterizar-se-ia pelo medo, o tédio e a angústia? Em resposta, a morte em si, como essência do fenômeno humano, constitui-se por todos os aspectos da finitude do ser, isto é, há morte no tédio, na angústia, no medo e no tempo — ser imortal, se podemos imaginar, não é o que fará desaparecer a morte.
Portanto, a escolha individual de negar ou aceitar o que a morte é em toda a sua significação, não poderá deixar de existir enquanto parte essencial do ser; somos para a morte mais do que somos para vida, sua substância integra todos os momentos e, portanto, nos faz — ontologicamente — para-a-morte. Envoltos à uma possível imortalidade, estaremos prostrados a um tempo eterno para a realização manifesta do que somos através de escolhas, mas não haveria a finitude enquanto impulsionadora desta disposição à escolha — o nos leva a deduzir que o tédio e a angústia tomariam esse papel. Teríamos todo o tempo disponível, e o quão angustiante isso poderia ser? Cabe, neste ponto, reforçar o aspecto indissociável do ser humano em relação à totalidade de sua realidade, desde suas manifestações subjetivas, à sua consciência direcionada e construída no mundo e com os outros — o que novamente revela a impossibilidade da morte deixar de ser a essência do ser, dado que sua ausência ainda seria um gatilho para a autenticidade do ser, isto é, para trazer ao ser uma “luz” de compreensão sobre si mesmo, levando-o à ação que corresponde, especificamente, na ação de existir.
Diante disso, a afirmação que traz o resumo de toda a compreensão discorrida é: mesmo na imortalidade, morreremos. A morte não pode ser encurtada ao morrer em si, pois sua significação está atrelada ao sentido de tudo o que o ser experiencia. A escolha singular de cada indivíduo os levara ou não aos sentidos da morte, mas os sentidos da morte, mesmo na imortalidade humana, sempre estarão presentes como estímulos essenciais para a realização do fenômeno do ser em seu mais puro desvelar-se a si.
Atualmente, não há quem não conheça Drácula, o icônico vampiro que, desde a sua publicação em 1897, vem servindo de inspiração para outras obras literárias…