A Sinfonia de Engrenagens
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Músicas de inspiração: “Castlevania – The Clock Tower” e “Dark Sanctuary - The Garden of Jane Delawney”
O castelo tinha encantado Minerva de uma maneira tão sublime que fez com que ela decidisse residir ali por algum tempo, completamente absorvida pelos mistérios que pareciam não ter fim. Ao explorar seus corredores, sempre descobria uma nova sala, um armário oculto, cofres selados e livros em línguas desconhecidas, aguardando para serem desvendados. Cada ambiente era único, e cada porta ou escadaria parecia se abrir para uma infinidade de dimensões. Nenhuma janela jamais oferecia a mesma vista que a outra.
Tomada pelo desejo de entender os segredos daquele lugar, Minerva sentiu em seu coração a necessidade de explorar o castelo cada vez mais, mapeando-o para descobrir até onde poderia ir. Decidiu se acomodar no quarto marcado pelo símbolo do ouroboros na porta, considerando-o a confirmação de seu chamado; ela agora era uma convidada do castelo. Ao despertar, em um horário que imaginava ser pela manhã, ergueu-se da cama, pensativa, enquanto um som distante e metálico começava a penetrar seus tímpanos, como um eco sutil de algo mecânico que se movia em algum lugar.
Intrigada, ela se levantou, recordando que quando dormiu aquele som parecia estar presente, mas tinha se intensificado. Ela usava um vestido preto longo sem muitos adornos, semelhante a um dressing mourn sem mangas longas, usava uma crinolina por baixo da saia que dava sustento à peça. Ela percebeu que o ar estava mais quente e não frio como de costume.
A bruxa trançava o próprio cabelo com movimentos automáticos, os dedos puxando os fios diante do rosto enquanto seus olhos se fixavam no mesmo espelho onde o Ttyphrssett havia se manifestado em sua imagem. Uma melancolia diferente começava a tomar seu coração um peso silencioso que ela evitava nomear. Terminando a trança, prendeu-a em um coque apertado, fixando-o com seu broche de mariposa pensando em evitar o calor.
Naquele momento o que sentia era aquele sentimento oriundo da alma, um eco do medo primitivo que habita o inconsciente humano e causa o medo do escuro e do abandono. Foi com essa sensação que ela despertou naquela suposta manhã, enquanto o som metálico de engrenagens trabalhava à distância, reverberando como um presságio e entregando um recado do calor.
Seu olhar se voltava incessantemente para a própria imagem no espelho, tentando desvendar o significado do que via. A tempestade de neve já se dissipara há algum tempo, mas a mente de Minerva continuava nublada, e ela não conseguia lembrar quando isso havia ocorrido. O que a inquietava, no entanto, era o som distante das engrenagens, que pareciam eternas. Não sabia há quanto tempo escutava, mas estava certa de que sua percepção sonora se alterara. Já fazia tanto tempo que, em certos momentos, esquecia daquelas engrenagens, até o instante em que o som se infiltrava novamente em sua consciência.
Para esquecer aquele som ela resolveu exercer sua prática meditativa, então sentou-se no centro do seu aposento para se concentrar. Abaixo dela, uma linha circular azulada pairava no ar enquanto estava suspensa sobrenaturalmente, o traço da figura se desenhava em um brilho prateado-azulado, expandindo-se e contraindo-se em uma cadência hipnótica, refletindo o fluxo de sua própria energia. No entanto, ela se desconcentrou pelo barulho e toda a imagem se desfez, ela parou de flutuar.
Por um momento, Minerva olhou ao redor do quarto, inquieta, tentando localizar a origem do som que ecoava em sua mente, mas sem sucesso. Nos dias que passou mapeando o castelo, ela havia se dedicado a organizar o ambiente, decidida a fazer com que sua estadia, embora temporária, fosse confortável. Com determinação, conseguiu os suprimentos necessários para se manter ali, adaptando-se ao peculiar ritmo daquele lugar.
Ela continuou a olhar para os lados, observando os móveis de madeira escura, as paredes com rachaduras, o piso, os candelabros do quarto. Tudo parecia imóvel enquanto o som das engrenagens continuava a ecoar. Ela suspirou, chateada, e cutucou o ouvido direito com o dedo, tentando aliviar o zumbido agudo causado por conta do som. Desconcertada por aquele fenômeno não parar, ela decidiu investigar, em outros momentos já tinha ouvido sons estranhos e passos fantasmagóricos por lá, mas nada a tinha incomodado tanto quanto aquele som metálico e que parecia aumentar a cada momento.
Minerva então deixou seu aposento e caminhou pelo longo corredor, tentando seguir o som que parecia um farfalhar metálico, entrando em sua mente e se intensificando gradualmente. Incomodada, ela avançava a passos firmes, observando atentamente cada detalhe ao redor: os móveis de mogno, os quadros nas paredes, retratando paisagens estranhas e cósmicas. De repente, as engrenagens cessaram, e um silêncio profundo tomou o ambiente. Mas Minerva não hesitou. Continuou em frente, avançando em direção às escadarias encaracoladas, determinada a descer e descobrir a origem daquele som perturbador.
Ela iluminou o espaço sombrio, já que a ausência de janelas ou vitrais na escada impedia que qualquer luz natural adentrasse. Mesmo com o sol a brilhar no céu, lá fora, a atmosfera interna parecia ser perpetuamente escura. Enquanto descia os altos e longos degraus da escadaria, um som peculiar ecoou em seus ouvidos uma risada leve e despreocupada, que parecia vibrar nas paredes, como um sussurro fantasmagórico. Talvez fosse um dos espíritos que perambulavam pelos corredores do castelo, pensou ela, tentando não se deixar levar pelo desconforto.
Era uma risada infantil, suave e enigmática. Por um momento, Minerva teve a impressão de ouvir seu nome sussurrado pela mesma voz que ecoava a risada. Seu coração acelerou, e, em um reflexo, ela intensificou a luz da esfera em suas mãos, tentando iluminar os cantos escuros ao redor. Porém, o que encontrou foi apenas a infinidade dos degraus que continuavam a descer quase sem fim, e nenhum sinal de presença alguma além de si própria.
Ao atravessar um grande portal, Minerva chegou ao hall de entrada do castelo, um espaço que irradiava uma aura de magia enigmática. Ela caminhou alguns passos, os ecos de seus pés pesados ressoando no piso, até avistar uma garotinha loira, de cabelos curtos, correndo rapidamente. A menina entrou em uma das portas, e com ela, o sussurro e a risada infantil que Minerva havia ouvido antes. A menina usava um delicado vestido branco, que contrastava com um corset de acobreado, ajustado em sua figura, moldando sua silhueta com precisão. Nas pequenas mãos, um par de luvas na mesma tonalidade de cobre, projetadas com cuidado para lidar com maquinários.
Por um momento, Minerva pensou em ignorar, acreditando ser apenas mais uma visão proferida pelo próprio castelo. Mas algo em sua intuição a instigava a seguir a garota. Sem mais hesitar, Minerva a seguiu apressadamente, enquanto a menina chamava: “Vem comigo!” A voz dela ecoava de forma doce, e o risinho juvenil, brincalhão, parecia contagiante, mas também provocava em Minerva, uma irritação crescente, como se fosse uma brincadeira não solicitada.
Ao parar por um momento, ela contraiu a mandíbula após suspirar e cruzar os braços. Simplesmente não estava disposta a perseguição. Ela revirou os olhos, exalando um sopro sutil pelas narinas, um pequeno jato de ar quente, quase inaudível, mas carregado de impaciência.
As sobrancelhas de Minerva se arquearam, denunciando seu desagrado. Ao se virar e começar a regressar até a entrada, a menina surgiu diante dela, com os olhos grandes e arredondados, da cor de mel, como se refletissem a luz com um brilho estranho. Seu cabelo loiro e curto emoldurava seu rosto, formando uma franja arqueada como uma meia-lua, enquanto seus lábios permaneciam cerrados, formando uma linha rígida.
— Quem é você? — Minerva deu de ombros e estreitou os olhos interrogando-a, avaliando a presença inesperada.
— Eu sou a responsável pelas máquinas do castelo, não sabia? — a menina posicionou as mãos sob a cintura.
— Então existem mais pessoas aqui? — Minerva pôs a mão no queixo pensativa fazendo um arco sob seu lábio inferior. — Sou Minerva Caligari princesa do reino de Áugures, mas no momento sou apenas Minerva.
— Muito bem apenas Minerva, eu me chamo Evelyn Dubois, estive te observando você causou um alvoroço e tanto com a sua chegada, não foi? Acho que talvez você possa me ajudar. Perdão pela forma como me aproximei, só queria me divertir um pouco, você sabe... O castelo pode ser meio parado às vezes!
— Na verdade, talvez você me ajude a encontrar de onde vem aquele barulho insuportável.
— Eu ia te levar em um lugar, tem uma coisa acontecendo no céu que acho que você vai se interessar. Você sabe, o céu aqui no castelo não é “apenas o céu” como você também não é “apenas Minerva”.
A bruxa deu um passo para trás, lançando um olhar de incredulidade para a menina, tentando compreender como alguém poderia ser tão extrovertido e audacioso. Algo na postura da garota a fazia sentir um estranhamento, como se ela própria estivesse diante de um reflexo de sua juventude curiosa, intuitiva, impetuosa. Era como se a menina fosse uma versão mais jovem de si mesma.
A garota começou a andar saltitante à frente, acenando para que Minerva a seguisse. Sem hesitar, ela a acompanhou, atravessando um dos portais do hall que as conduziu a um corredor mais estreito. A iluminação era tênue, mas não vinha de candelabros; àquela altura, a esfera luminosa de Minerva já havia sido dispensada por ela própria. O corredor não possuía janelas, e as únicas coisas visíveis nas paredes eram tubulações metálicas que serpenteavam como veias expostas. O piso era coberto por um tapete vermelho, que se estendia até o final do corredor, onde uma porta de cobre estava embutida na parede.
Aquela porta chamou a atenção de Minerva, seus olhos se arregalaram ao ver engrenagens que se retorciam por toda a estrutura. Engrenagens de diferentes tamanhos interligavam-se em um mecanismo complexo, algumas girando lentamente com um leve chiado à vapor, como se a própria estrutura tivesse força própria.
— Você vai ver que alguma coisa aconteceu aqui no castelo, o céu anda estranho ultimamente, não sei se você já foi lá fora, mas o céu está estranho. — A menina se aproximou da porta e tirou de dentro do colarinho do vestido uma chave, com ela destravou a tranca da porta e com uma reverência, pediu que Minerva adentrasse o lugar após ela mesma passar pela porta.
— Bem-vinda à minha casa, apenas Minerva!
O teto alto era sustentado por vigas de ferro forjado, de onde pendiam lâmpadas elétricas presas a braços mecânicos, lançando uma luz amarelada e instável sobre o ambiente.
Os olhos de Minerva brilharam ao ver o que estava por trás daquela porta. Era um lugar estranho e diferente de tudo o que ela já vira, parecia-se com o cômodo de uma casa e ao mesmo tempo com um laboratório. O teto alto era sustentado por vigas de ferro, de onde pendiam luzes. Extasiada pela visão de tantas coisas diferentes ela apoiou a mão na porta de engrenagens e entrou no local tomando cuidado ao descer dois degraus.
Minerva avistou duas janelas redondas ao fundo do aposento e ao centro estava uma mesa de mogno. Próximo à mesa, em meio ao emaranhado de fios e tubos, um homem repousava em uma cadeira de rodas de estrutura reforçada, com pistões hidráulicos adaptados ao eixo das rodas.
Seu corpo era uma fusão grotesca de carne e metal: o rosto, marcado por cicatrizes profundas, trazia uma expressão vazia. Minerva o fitou curiosa e depois dirigiu o olhar para Evelyn.
— Este é o meu pai ele não fala muito, venha comigo o que quero te mostrar está bem ali.
Evelyn se posicionou em frente a uma das janelas aguardando que a bruxa se aproximasse e quando ela o fez a garota acenou com a cabeça para que ele olhasse pela grande janela redonda. Mais uma vez os olhos de Minerva foram surpreendidos, no céu azul cobalto dois sois ostentavam seu poder bem próximos um do outro, dourados com um aspecto metálico. Impressionada ela baixou o olhar para a paisagem estranha onde avistou um jardim de flores estranhas que apontavam para os dois sóis como fazem as margaridas. Ao longe ela avistou uma estufa vítrea que cobria uma parte daquele lugar.
— Evelyn, o que está acontecendo lá fora? — perguntou Minerva tentando não demonstrar sua recente curiosidade aflorada.
— Realmente não tenho o que dizer sobre os sois, mas acho que a máquina do papai está funcionando novamente. Você sabe, ele era um excelente inventor até o incidente. Eu queria continuar o que ele começou procurando o “éter etéreo” achei que você pudesse me ajudar. O sol maior está se aproximando de nós.
— Não sei como posso te ajudar, mas isso com certeza explica o calor no castelo, temos dois sois pairando sobre nós.
— Eu acho que se descermos no jardim mecânico encontraremos o que eu procuro, você vem comigo?
— Deve ser fascinante, por favor, me guie até o local!
Após as palavras de Minerva, o som das engrenagens retornou, mais intenso e penetrante do que antes. O ruído reverberava pelo ambiente, fazendo Minerva cerrar os dentes ao sentir um zumbido incômodo nos ouvidos. Evelyn, alarmada, correu até seu pai, que se remexia inquieto na cadeira.
Com um movimento brusco, ele puxou uma alavanca lateral, ativando o mecanismo das rodas. A estrutura metálica da cadeira estremeceu e liberou um jato súbito de vapor por um pequeno cano, enquanto girava descontroladamente pelo aposento. Evelyn tentou conter o movimento, segurando as laterais com força, até que finalmente conseguiu estabilizá-la.
— Meu pai... — ela começou ajeitando a postura dele e lançando um olhar rápido para Minerva. — Ele sempre foi obcecado pelo trabalho. A maior parte do que existe aqui foi criação dele... um grande inventor.
Minerva observou a cena com atenção, seus olhos percorrendo os detalhes da cadeira e da sala, absorvendo cada peça, cada engrenagem que compunha aquele estranho mundo. Algo ali parecia deslocado, desconexo.
Enquanto seguiam em direção à porta, Minerva finalmente quebrou o silêncio:
— Esse barulho... — ela disse, com a voz baixa, mas firme. — O som das engrenagens. Parece vir de todos os lados e ao mesmo tempo de um lugar específico. O que é?
Evelyn hesitou por um breve instante. Seus dedos tocaram as luvas, apertando-as levemente antes de erguer o olhar e responder com um tom despreocupado:
— Apenas mais uma das invenções do papai como eu te falei. Não se preocupe, vamos conseguir consertar a máquina, vamos ao jardim agora...
Havia algo diferente na forma como ela falou, na leveza de sua voz, que fez Minerva estreitar os olhos. Ainda assim, decidiu não pressionar... pelo menos por enquanto.
JARDIM MECÂNICO
As duas estavam diante da entrada do jardim, uma estufa, Minerva pôde ver através do vidro abobadado plantas exóticas. Para entrar ali, Evelyn, ao seu lado sorriu de maneira enigmática e, sem esforço aparente deslizou os dedos enluvados por um painel que ficava alinhado aos tubos da estufa. Um clique seco ecoou e a estrutura de metal diante delas começou a se abrir.
O ar que escapou do outro lado carregava um aroma diferente: uma mistura entre o perfume delicado de flores e o cheiro ferroso de metal. Minerva franziu o cenho, sentindo a atmosfera mudar conforme avançavam. Seus pés afundavam na grama espessa.
Elas atravessaram o limiar da estufa e adentraram em um bosque incomum, fora do espaço vítreo chegaram em uma área livre à primeira vista, parecia uma floresta densa, mas logo a realidade se torceu diante de seus olhos. O solo era um tapete vivo de raízes metálicas entrelaçadas, e sobre ele, flores mecânicas brotavam com uma estranha elegância. Seus botões de cobre e bronze se abriam e fechavam suavemente, liberando vapores azulados que serpenteavam pelo ar como uma névoa brilhante. O bosque se estendia ao redor como uma entidade viva, pulsante, ciente de suas presenças.
Minerva deslizou a mão pelos poros de uma flor próxima, sentindo sua textura fria e, ao mesmo tempo, orgânica. Ela ergueu o olhar para Evelyn, que girava sobre os próprios pés, admirando as flores.
— É magnífico, não acha? — perguntou a garota loira, sua voz carregando uma empolgação infantil.
— Esse lugar... — murmurou Minerva, sentindo a pressão ao seu redor se intensificar. Era como se o próprio jardim as estivesse avaliando, estudando sua presença.
— Ele respira — disse Evelyn com naturalidade. — Está vivo.
O vento cortou entre as engrenagens ocultas, produzindo um som que não pertencia ao mundo dos vivos. Um sopro metálico, como algo que respira sem precisar de pulmões.
Uma sensação de euforia pela nova descoberta tomou Minerva por alguns instantes, mas ao mesmo tempo enquanto ela sentia a aura daquela atmosfera estranha o medo tocou seu coração por alguns segundos, ela não sabia o que esperar daquele lugar. A beleza e a estranheza estavam unidas ali!
Evelyn caminhou saltitante novamente, desta vez puxando Minerva pelo braço arrastando-a até o que ela chamou de “máquina do éter”. Foi quando Minerva sentiu o ar ao seu redor tornar-se mais denso conforme se aproximavam-se daquilo. O cheiro metálico era forte, misturado ao vapor que se dissipava em fumaça cada vez que escapava pelos canos. À sua frente, erguia-se uma estrutura colossal, um emaranhado de cobre, aço e outros metais que pareciam vivos, pulsando com um movimento incessante.
A máquina, não se parecia com nada que Minerva já tinha visto, ela exibia engrenagens de tamanhos distintos que giravam entrelaçados. Alguns dos mecanismos moviam-se em padrões intrincados, enquanto outros pareciam reagir a estímulos invisíveis, rangendo de maneira ritmada. O vapor se esvaía em intervalos regulares, exalando um chiado abafado, e os cabos de força serpenteavam pelo chão como raízes, conectando-se ao castelo em tubos que seguiam pelo chão.
Minerva arqueou as sobrancelhas, fascinada e desconfiada. Aquilo parecia um coração. Ela cruzou os braços e lançou um olhar para Evelyn indagando-a:
— O que exatamente é essa coisa? — sua voz soou firme, mas havia um brilho curioso em seu olhar. — E por que esse barulho é incessante?
Evelyn desviou os olhos por um instante, balançando a cabeça levemente antes de soltar um suspiro curto.
— É a máquina do meu pai, eu já tentei consertar, mas ela está assim a um tempo. Sempre esteve aqui, sempre funcionou assim. Ela só está mais barulhenta porque eu andei mexendo um pouco nela, sabe... Os sois lá em cima estão ligados ao barulho também, estou tentando consertar isso. E você vai me ajudar!
Minerva percebeu uma mudança no tom da garota. Algo ali vibrou além do metal e do vapor. O jeito de se comportar de Evelyn havia mudado em um lampejo, como se não fosse mais ela mesma, seus movimentos se tornaram erráticos, e sua voz oscilou, mudando de tom.
De repente, Evelyn riu, mas não era sua risada natural. Era algo rouco, fragmentado, como se outra pessoa falasse através dela. Seus olhos, antes vivos e cheios de curiosidade, tornaram-se vidrados, e suas palavras se transformaram em um murmúrio. "O éter etéreo... a substância primordial... Minerva, você veio para decifrar o mistério de tudo, não veio?", “Você é a chave para a transmutação, não é?”, “A substância das substâncias está em você não está?” sua voz alternava entre grave e aguda em uma cacofonia.
Minerva franziu a testa e deu um passo para trás, observando Evelyn se mover. A garota gesticulava com a cabeça se inclinando de um lado para o outro aguardando uma resposta.
Diante delas, a grande máquina de engrenagens liberava vapores e chiados metálicos. A estrutura imponente de cobre e aço vibrava com vida própria, alimentada pelos cabos de força que vinham do castelo. O som das engrenagens reverberava, preenchendo o ar com um ruído quase hipnótico.
"Ela precisa entender...", murmurou Evelyn, e, num estalar de dedos, um rangido mecânico ecoou. Evelyn ergueu as mãos como um maestro. Um som de rastejar pôde ser ouvido enquanto a garota fazia movimentos frenéticos como se controlasse algo, por trás de Minerva surgiu o que parecia ser uma imensa planta carnívora, com tentáculos mecânicos se estendendo com movimentos sinistros exibindo estrias azul cobalto. O interior da bocarra era repleto de dentes afiados, ela era a perfeita réplica de uma dioneia.
Minerva reagiu usando sua magia, mas os tentáculos da criatura foram mais rápidos. Enroscando-se ao redor de seu corpo, prenderam-na em um aperto impiedoso. A mandíbula de metal se abriu, e Minerva sentiu o ar ficar pesado ao perceber que seria engolida, enquanto Evelyn prendia cabos de força em si própria. A garota, ou o que quer que estivesse no controle dela, observava com um sorriso aberto já conectada aos cabos.
Irritada, Minerva evocou a sua aura de loba um tipo de sombra fantasmagórica que emanava de seu corpo quando ela precisava se defender, uma parte de sua alma transmutada, seu corpo começou a brilhar em uma aura espectral dentro da mandíbula metálica, e, de dentro daquilo algo grande se remexia abatendo a estrutura da mandíbula, um uivo ressoou pelo ar quando a aura de loba se manifestou por completo. Energias bruscas pulsaram em sua pele, e com um único golpe ela quebrou a máquina, um rugido feroz ecoou pelo jardim arrebentando os dentes longos do autômato. Minerva saltou e ao pousar no chão ajoelhada a sombra de loba podia ser vista em suas costas.
A energia liberada fez os tentáculos da planta mecânica se retraírem, e a criatura recuou emitindo sons arranhados como se estivesse empenando, o que antes era a boca da dioneia agora estava no chão do jardim. Seus olhos queimaram em fúria ao encarar Evelyn, que cambaleava para trás, como se estivesse perdendo o controle do próprio corpo.
Evelyn deu um passo trôpego para trás, uma luz dourada em seus olhos se intensificou, e sua voz se fragmentou em ecos múltiplos. "Não tente me impedir, Minerva... Eu... eu posso ver tudo agora...! O éter etéreo... é a conexão!” O som das engrenagens parecia mais alto que antes enquanto a menina sentia o vórtice de energia.
A loba espectral rugiu e então a própria Minerva se contorceu e assumiu por completo a sua forma de loba. Seu corpo se expandiu, os músculos pulsando com a energia bestial enquanto sua pele era tomada por uma pelagem negra como a noite. Ossos estalaram e cresceram, moldando uma forma lupina imponente. Suas garras alongaram-se grotescas e seus olhos brilharam com um azul intenso e selvagem.
Num único salto, ela avançou contra a máquina afundando as longas patas e as enormes garras na máquina, ela atravessou a estrutura com sua força. O aço rangeu sob sua força brutal enquanto suas patas rasgavam cabos e trituravam engrenagens, espalhando faíscas pelo ar como brasas incandescentes. Um chiado enguiçado escapou dos circuitos destroçados, seguido por um ruído de ferro retorcido quando a estrutura cedeu. Um estrondo ecoou quando o núcleo se partiu ao meio estremecendo antes de explodir em um estrondo ensurdecedor, lançando fumaça e fragmentos de parafusos e roscas.
Evelyn gritou e seu corpo foi lançado para trás, os cabos se rompendo um a um. O brilho dourado em seus olhos piscou freneticamente antes de apagar completamente. O sol acobreado tremeu no céu, como se tivesse perdido sua âncora o que fez com que ele lentamente, recuasse para sua posição original muito além do alcance dos olhos e as flores que apontavam para ele inclinaram-se como se estivesse murchando.
Observando os destroços fumegantes ao seu redor pegarem fogo em pequenas explosões barulhentas, Minerva respirou fundo. A loba foi tomada por uma energia azulada que a envolveu esfericamente até surgir como humana novamente, o vestido rasgado no ombro e o cabelo solto e esvoaçado.
Evelyn estava desacordada sob a grama, pálida e ofegante. Sua expressão era de confusão e medo. "Minerva...?", ela murmurou desta vez com sua própria voz. Minerva a encarou por um longo momento antes de finalmente relaxar os ombros. Uma sensação estranha de melancolia e euforia atiçou novamente o coração da bruxa, aquele evento a fez se sentir tonta e extasiada.
Ela ajoelhou para acalentar a garota no colo, muitas perguntas ecoavam na mente dela, enquanto tentava acalmar a garota que agora parecia frágil e indefesa em seus braços. “Como funcionava aquele jardim? O que é o éter etéreo? Quem mais vive neste castelo?”. Minerva se ergueu com dificuldade, levando a jovem nos braços, seus olhos desviaram a atenção da garota para a máquina, percebendo o silêncio.
Ela ergueu o olhar para o céu e notou que o segundo sol estava mais distante que da última vez que vira. A passos lentos, ela caminhou em direção à saída do jardim mecânico com Evelyn desacordada em seus braços. A máquina parou finalmente, as engrenagens e o som cessaram, ela podia descansar.
Um abrupto sopro de vida e meus olhos foram circundados pelo lume de um dia nublado. Eu dormia? Ao derredor, um cemitério árido e lúgubre descansava…