11. Aquilo que sustenta a carne
Já faz um mês que estou recluso na residência de Viktor. Não tive muitos avanços na investigação sobre o paradeiro de Sibila. Desconfio de que o doutor estudava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Já faz um mês que estou recluso na residência de Viktor. Não tive muitos avanços na investigação sobre o paradeiro de Sibila. Desconfio de que o doutor estudava a vila de Séttimor. Não encontrei registros sobre o local em nenhum outro lugar, salvo em sua própria biblioteca. Foi a partir destes documentos que consegui desvendar a língua estranha em partes de seu velho caderno. Ao que tudo indica, ele estava profundamente interessado neste lugar.
Mas não é só isso que me inquieta.
Por que os trechos que tratam do declínio da saúde de Elisabeth, sua esposa, também estavam em Settimoriano? Eu li e reli inúmeras vezes, até notar que as anotações finais se concentravam apenas em Elisabeth, em seu estado, em sua progressiva deterioração.
No início, tudo está grafado em alemão. Mais adiante, o settimoriano surge de forma esparsa, mesclando-se ao idioma original. E, nas páginas finais… resta apenas essa língua estrangeira. Morta, talvez?
Pretendo traduzir o último trecho amanhã. Transcrevo aqui o penúltimo:
“O quadro de Elisabeth apresenta agravamento acentuado. Há quinze dias, mantinha-se relativamente estável, realizando pequenos deslocamentos pela residência. Cheguei a conduzi-la ao laboratório, na expectativa de verificar algumas teorias acerca de sua enfermidade.
Nos últimos cinco dias, contudo, o declínio tornou-se evidente. A progressão, antes discreta, assumiu caráter acelerado.
A alvura de sua pele acentuou-se, adquirindo, em certos pontos, aspecto quase translúcido. Observa-se, ainda, diminuição significativa de massa corporal, em ritmo mais rápido do que o previamente registrado.
Houve um tempo em que tais alterações passariam despercebidas sob os tecidos que eu mesmo lhe providenciei.
Manhã:
Temperatura estável.
Ingestão de chá mantida.
Recusa alimentar.
14 horas:
Expectoração com traços hemáticos.
Concluo que os emplastros de aplicação tópica, preparados com ópio, bem como as infusões destinadas ao tratamento da afecção consumptiva, não surtiram efeito.
Tampouco a permanência temporária em sanatório.
Tampouco as aplicações de sanguessugas.
Tampouco o repouso absoluto.
Não foi possível estabelecer parâmetros comparativos com outros casos de mesma natureza. Ainda assim, considero plausível que os resultados fossem distintos caso as intervenções tivessem sido iniciadas há um ano, e não há apenas cinco meses.
A paciente encontra-se, no momento, em isolamento, a fim de evitar a exposição de terceiros aos miasmas que a circundam. Não apresenta mobilidade. Mantém recusa alimentar constante. A diminuição do intervalo entre os episódios de expectoração sanguinolenta indica progressão de caráter irreversível. Eu já tinha observado isso em pacientes anteriores.
A progressão observada sugere um quadro de afecção pulmonar em estágio avançado, com deterioração contínua. Entre os meus colegas, convencionou-se aceitar que isso é o curso natural da afecção consumptiva. Tal aceitação, contudo, revela-se insuficiente.
Empreguei todos os métodos conhecidos, mas, em sua maioria, eles se limitaram à contenção dos sintomas e ao prolongamento discreto de um processo cujo desfecho tem sido invariável, como observei em todos os pacientes que tratei anteriormente. Obtendo êxito apenas no prolongamento de suas vidas. A expectativa é de cinco anos, reduzindo-se para três anos para aqueles de constituição mais frágil, como Elisabeth. Considera-se inevitável aquilo que, talvez, não tenha sido devidamente compreendido.
A sequência dos eventos observados, a emaciação, a febre persistente, a expectoração sanguinolenta não ocorre de forma aleatória. Há, necessariamente, uma ordem, um encadeamento preciso, ainda que não plenamente descrito. Se antes o corpo era saudável e agora não, algo mudou, algo deflagrou essa progressão. Logo, isso existe e pode ser estancado ou eliminado.
A falha, portanto, não reside na natureza do processo, mas na incapacidade de identificá-lo em seu estágio inicial, ou de agir sobre ele com os meios adequados. A maior parte de meus colegas desiste neste ponto. Eu não. Não irei aceitar que os jornais estampem em suas manchetes que o maior médico de seu tempo permitiu que sua esposa o deixasse. Além disso, provavelmente mancharia a minha carreira e me privaria de sua agradável companhia.
É plausível supor que, em fase anterior, quando os primeiros sinais ainda se manifestavam de maneira discreta, uma abordagem distinta pudesse ter contido o avanço da afecção, ou ao menos retardado de forma significativa sua evolução. Permanece, assim, a necessidade de compreender não apenas os efeitos visíveis do declínio, mas o princípio que os origina. Pois, se o processo pode ser descrito, deve também poder ser alterado.
Cansado de seguir pelos meios tradicionais, iniciei estudos não só na respeitável área da medicina, bem como em outras áreas. Estudos, para além da matéria, tratados como superstições, magia, chamaram-me a atenção para a natureza da alma e sua ligação para com a matéria. Ao que parece, tudo se porta como energia no universo. Estamos ligados a isto, e isto se liga de alguma maneira à nossa alma, animando nossos corpos. E esta energia, descoberta pelos Settimorianos, é a chave para animá-los. Acredito que é aí que reside…
Sim, tenho esperanças de que, se me dedicar com mais afinco, terei condições de perpetuar sua carne e sua alma sob a luz destes novos conhecimentos. Estou quase alcançando o inalcançável novamente. Do nada, fui capaz de criar a vida na forma daquele ser que criei. Mas imagino que, desprovido de alma, não tenha sido um processo totalmente eficaz.
Então, para salvá-la, em vez de criar, pretendo estender o tempo. Não da matéria em si — esta já demonstra sinais claros de falência progressiva, mas daquilo que a sustenta. Se a estrutura orgânica se encontra comprometida, talvez não seja nela que deva concentrar meus esforços, mas no princípio que a anima.
A carne deteriora-se. Isso é um fato. Mas aquilo que lhe confere movimento, calor e intenção… não parece obedecer às mesmas limitações. Se tal princípio puder ser contido, preservado e, sobretudo, conduzido conforme a minha vontade, então a deterioração do corpo deixa de representar um fim absoluto.
As experiências anteriores, ainda que imperfeitas, demonstraram que a matéria pode ser organizada de modo a simular as funções vitais. O erro não esteve na execução, mas na ausência de um elemento essencial. A ausência de permanência.
O que foi criado não se sustentava. Não possuía continuidade. Era movimento… sem propósito. Torna-se evidente, portanto, que não basta animar a matéria e se os registros settimorianos estiverem corretos, tal ancoragem não apenas é possível, como já foi realizada.
Resta compreender o método. E aplicá-lo.
Antes que o tempo — este, sim, irrecuperável — se esgote por completo. E, como sempre, tudo na hora certa.”
Fechei o caderno. Viktor falara sobre a alma, e isso me levou a pensar se eu realmente tinha uma.
As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
10 - Na hora certa
O diário ainda estava quente entre minhas mãos quando o cerrei. Não conseguia me conformar com o que fizera a Viktor. As palavras dele latejavam…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Sibila von Lichenstein
15 de Outubro de 1870?
O diário ainda estava quente entre minhas mãos quando o cerrei. Não conseguia me conformar com o que fizera a Viktor. As palavras dele latejavam em minha mente, como se tivessem sido infundidas com um veneno pernicioso. Ah, se eu pudesse exterminar essa frase maldita da minha mente. Tal lembrança pesava em meu peito. Escrevê-las dava uma certeza cada vez mais absoluta sobre uma verdade que eu já sabia, mas não queria aceitar… Eu não o odiava tanto quanto imaginara. Eu não era consumida somente pela culpa. O que também me atormentava era a certeza de que essa estranha saudade rangia: eram as engrenagens da razão e do coração que nunca se encaixavam. A sensação era de agonia e alegria. Eu evitava pensar nele, não só para evitar um choro convulsivo carregado de arrependimentos pelas escolhas erradas que fiz.
Eu evitava pensar nele porque a saudade me dilacerava; eu sentia falta de estar deitada ao lado dele em seu quarto, lendo compêndios enormes de medicina. Sim… era isso: eu amava o meu preceptor e também amava odiá-lo.
Foi então que um galho seco se partiu atrás de mim, um estalo súbito que cortou o ar gelado. Saí do transe. Era hora de subir. Hora de deixar as memórias — ou ser devorada por elas. Um gato, que tive a impressão de ser Meia-Noite, apareceu, deixando as marcas de suas patas no chão frio. Ele subia a estradinha que levava para Séttimor. Antes de virar uma curva e desaparecer, ele miou e olhou diretamente em meus olhos, assustado.
Levantei-me apressadamente, perseguindo a lembrança de algo familiar; ou talvez, só para ter a certeza de que era apenas um gato comum. Ao dobrar a curva, ele já não estava lá. Conforme eu subia, um murmúrio começou a se avolumar. Reconheci aqueles sons. Sim. Eu já os ouvira antes. Eram vozes infantis — choros abafados, soluços frágeis, lamentos curtos — exatamente como os que ouvira quando estagiava no berçário do hospital. Quanto mais eu avançava pela montanha, mais elas se multiplicavam.
Pensei estar aproximando-me do topo, mas aquilo não fazia sentido; eu não avistava nada além do vento cortante ululando por entre árvores de galhos ressequidos. O frio fazia minha carne tremer e meus dentes rangerem.
Era eu contra a montanha.
Os músculos doíam, mas já não sentia meus pés e mãos. Apesar disso, continuei a subir. Era caminhar ou morrer. Meus olhos começaram a vasculhar, procurando por um mínimo sinal de vida: alguma construção, alguma luz distante ou até mesmo a fumaça de alguma chaminé. Apeguei-me à vontade de sobreviver. No entanto, a esperança frágil de que algum tipo de vida habitava aquela montanha começava a desvanecer-se em meu peito, que agora doía mais e mais.
O caminho enrodilhava-se na montanha; eu seguia por ele, à procura das pequenas almas que deixavam aqueles fracos choros escapar de seus pulmões. Com exceção das árvores e plantas, nada prosperava por ali. Foi então que algumas delas capturaram a minha atenção. Ao longe, eu via pontos brancos; eram de tamanhos diversos, dependurados em vários galhos. Sustentando-os, finíssimos fios, que brilhavam sob a luz pálida do sol poente. Cobrindo os galhos ressecados, uma espécie de teia, feita destes mesmos fios. Seduzida pela misteriosa beleza da cena, subi, aproximando-me.
Ao alcançar as árvores, notei que não se tratava de teias; ao longe, pareciam finíssimos fios de seda tecidos pela natureza. Observando-os mais de perto, notei que eles pareciam ser uma espécie de rede integrada entre os casulos. Por dentro deles, havia um líquido branco como leite, alimentando os casulos, ao que parecia; lembrei-me do sistema linfático das aulas de anatomia de Viktor. Segui com os olhos até onde um ia dar. Acabava em um casulo, como pensei. Afastei o algodão que os envolvia, eles eram translúcidos, e deslumbrei-me com o que vi. Um dedinho fino se movia. Era a mãozinha de um feto; estava vivo!
Aproximei meu rosto, prendendo a respiração. Meu espírito se inflou de súbito. Que espécie de vida era aquela? O casulo agitou-se ao tocá-lo. Era um feto que refazia a sua posição. Quando terminou, pude ver seu rostinho. Um sentimento de ternura apoderou-se de meu ser. Mas, simultaneamente, comecei a sentir uma tristeza alheia a mim. Meu coração foi repentinamente esmagado. Era confuso: uma saudade chorosa de algo — que eu não sabia dizer do que era — invadiu meu peito… Como se eu desejasse algo com todas as forças, mas fosse interrompida, impedida.
Movida pela curiosidade diante daquele ser, notei que uma única lágrima, negra como piche, escorria do olho do feto. A lágrima manchou o branco leitoso do casulo. Quando terminou de escorrer, saindo do casulo, se desfez no ar. Então voltei a respirar sobressaltada.
Vencida pela ânsia científica, toquei-o novamente. O feto pareceu reagir, movendo-se delicadamente. Na segunda vez, escutei um som de tecido molhado. Lembrei-me do som que os cadáveres faziam quando eu os partia em pedaços, para poder levá-los em sacos de lixo. Seu casulo reluzia à luz quente dos últimos raios daquele dia. Admirei-o. Poderia dizer que éramos íntimos. Não… Era outra coisa, algo mais grandioso, visceral, antigo, primitivo… Éramos mãe e filho. Era isto que me fazia querer abraçá-lo. Afastei a minha mão. Outra lágrima escorreu, como se o bebê se ressentisse do meu distanciamento.
Notei algo estranho em mim. A agonia de uma saudade profunda invadiu-me. Junto a ela, a pressão no peito novamente, consegui tocar meu rosto… Uma lágrima escorria e molhou meu dedo. Depois desta primeira lágrima, muitas outras vieram. Murmúrios uterinos se multiplicavam. Até mesmo choros infantis se misturavam a eles. Horrorizada com aquilo, decidi fugir. Apesar do fascínio que aqueles fetos de algodão exerciam sobre mim, fui impelida a fugir. Minhas pernas se moveram, antes que eu pudesse comandá-las. A fúria dos sentimentos, contra o instinto de sobrevivência. Fora um lampejo de consciência. Eu sabia que devia fugir. Eu sofria por deixá-los, belos e inocentes. Agora, quase nenhuma luz os iluminava. Em breve, receberiam o abraço de prata dos raios lunares.
Continuei a subir, perturbada pelo que tinha visto. Apertei o passo, fugindo daqueles sentimentos torturantes. Continuei por cerca de vinte minutos. Eu juro que podia sentir meus pulmões ardendo pelo esforço.
Apesar disso, eu precisava avançar. Quanto antes chegasse em Séttimor, antes conseguiria a erva do descanso. Eu precisava daquela erva para deter o que Eleanor me fizera; ou talvez o que eu precisasse mesmo fosse do abraço sombrio da morte. Não! Desistir não era uma opção! Não iria me entregar. Depois de tudo o que eu passara nas garras de Viktor, eu não iria simplesmente desaparecer. Precisava voltar à Prússia: lugar que agora me parecia cada vez mais distante.
Desacelerei. Só então percebi que estava em uma parte mais densa da floresta. Estava quase escuro; meus olhos se ajustavam vagarosamente. Então pude escutar, ao longe, sons de galhos partindo-se. Estaquei, lembrando-me da criatura horrenda que Arale enfrentou. Poderia ser outro ser, mas igualmente perigoso. O chão da estrada parecia recentemente pisoteado.
Perdida nessas reflexões, reparei que um galho se movera atrás de mim. Virei-me e tive a impressão de ver um braço fino sumir atrás das folhagens. Então fugi. Mas não consegui correr mais do que cinco metros à frente; minhas pernas falhavam. Olhei para a trilha que eu acabara de vencer: eu estava só.
Sentei-me para recuperar o fôlego. Então eu vi. Atrás de alguns arbustos, três pequenos seres vinham subindo a trilha, mas tentavam esconder-se. Crianças. Julguei que fossem, pela estatura. Mas não tive certeza, pois seus olhos eram brancos; não havia pupilas, nem íris. Paravam de tempos em tempos para cochichar. Uma delas fez menção de aproximar-se, mas outra a impediu, segurando-a pelo ombro.
Novamente aquele peso no peito… Amaldiçoei meu destino, mas seria possível? Que toda criatura viva desta montanha estaria amaldiçoada com essa tristeza saudosa de tudo aquilo que não floresceu?
Então a terceira criança cruzou a barreira dos arbustos. Permaneci imóvel. Ela vinha em minha direção; um de seus braços estava estendido. O dedo pálido como o de um cadáver, em riste. Toda a sua pele era assim; seu corpo estava quase todo desnudo. Era um menino. Cabelos longos e desgrenhados moveram-se com a sua cabeça, a qual se inclinava curiosa. Ele parou para ajeitar a tanga, única peça que trajava.
Chegou muito próximo e movia-se como um símio, ora para frente, ora para trás. Quando bem próximo, eu fui invadida por outros sentimentos. Era um calor interno, de alma. Então uma memória atravessou meu cérebro, tão fugaz quanto nítida. Eu vi uma roda de hominídeos; ao centro, uma chama; estávamos sentados. Pisquei. Não os vi mais, apenas aquele ser à minha frente.
Foi como antes. A proximidade dele despertou em mim visões alheias. Eu enxergava por ele. Não era apenas isso — eu estava dentro do que ele lembrava. As roupas daqueles homens primitivos pareciam-se com as dele. Pertenciam a um passado muito distante, séculos antes de eu nascer, quando o homem acabava de inventar o fogo. Sim, pude sentir a paz de ser protegida por ele. Tudo se parecia com as noites em frente à lareira que dividi com papai.
Eu apreciei a valiosa sensação de estar segura. No entanto, afastei-me. Era necessário, era premente… Então, descansada, pude retomar a minha caminhada em direção ao cume. Séttimor aguardava-me. A estrada continuava montanha acima. Estava mais íngreme, menos pavimentada. Meus pés faziam pedriscos deslizarem, e utilizei-me de raízes expostas para agarrar-me. Logo avistei, mais adiante, que a trilha estava rompida. Um deslizamento de terra. Do outro lado do abismo estreito que ele formara, pude ver, iluminada pela luz da lua, a erva do descanso.
Pensei em apenas esticar minhas pernas, torcendo para serem suficientes para alcançar o outro lado. Por uma minúscula diferença, isso seria improvável. Era arriscado. Então eu soube que saltaria. Aproximei-me da borda, testei-a com os pés; pedras rolaram até o fundo. Não escutei o som delas batendo lá embaixo. Inspirei, profunda e conscientemente.
De ré, fui afastando-me do abismo. Iniciei uma corrida — minhas costas gelaram — antes de saltar. Flexionei os quadris e… senti como se algo em minhas espáduas tivesse se rompido. Não houve som algum, mas a sensação era vivaz! Aterrissei do outro lado, e lá estava ela: a erva do descanso. Era linda! Não me contive diante da beleza; arranquei-a e macerei com raízes e tudo. Apliquei a pasta em meu pescoço e colo. Um toque gelado como o da morte espalhou-se por todo o meu corpo. Eu estava tão fria quanto um cadáver — e aliviada.
O alívio se desfez ao virar da curva. Do outro lado do abismo, onde eu acabara de estar, uma luz dourada rasgou o véu escuro da noite. Um som cadenciado e vagaroso rompeu o silêncio. Eram cascos de cavalo. Eu o vi. Estava longe; surgiu por entre a bruma noturna. Era um daqueles alazões que cruzaram meu caminho. O mesmo do cocheiro na floresta dos Pinheiros Tristes.
Apertei as mãos. Senti as batidas do meu coração acelerarem. Mesmo sentada, recuei. Meus olhos percorreram o caminho das patas ao lombo do animal, instintivamente. Então eu vi uma figura imponente sobre ele. Trajava um jaleco branco.
Acho que senti o sangue correr de minha face:
— Quem é você?
O alazão não avançou. Permaneceu imóvel à beira do abismo, como se a própria noite o mantivesse suspenso. Então relinchou — um som oco, espectral, que não parecia pertencer a um animal vivo. O cavaleiro apertou as rédeas com lentidão deliberada. Seu rosto não se deixava ver: era apenas um borrão instável, dissolvido na névoa.
Levei a mão ao rosto. Minha pele ardia, embora eu estivesse fria por dentro. O coração batia fora de compasso, e ainda assim eu não conseguia me mover.
Foi então que a frase retornou, intacta, como sempre retornava. Não como lembrança, mas como marca. Ferro em brasa pressionado contra a carne da memória.
“Há coisas que só podem ser aprendidas na hora certa.”
Ele dizia isso com calma. Com paciência. Como quem não avisa — apenas espera.
E, ao encarar aquela presença imóvel do outro lado do abismo, compreendi, com um terror mudo, que talvez aquela fosse a hora.
Revisado por Sahra Melihssa
As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
9 - Toda dádiva reclama seu tributo
Diário de Sibila von Lichenstein. (Sem data - que dia é hoje?) A partida de Arale deixou um vazio em meu interior. Era curioso — talvez até contraditório…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Sibila von Lichenstein
(Sem data - que dia é hoje?)
A partida de Arale deixou um vazio em meu interior. Era curioso — talvez até contraditório — que ela, tão claramente não humana, tenha sido a primeira criatura a me tratar como igual neste mundo. Porque aquele braço, e os apetrechos que manejava com tanta maestria, não pareciam pertencer a este tempo, nem a este plano. Nunca vira algo semelhante, e essa estranheza me dizia, sem palavras, que Arale não era feita da mesma matéria que eu. E, talvez por isso mesmo, soubesse: Arale, assim como eu, também não pertencia a lugar algum. Pois tanto ela quanto eu ansiávamos por algo — não algo que pudesse ser tocado com as mãos, mas algo que preenchesse de dentro para fora. E não saber exatamente o que era essa coisa tornava o buraco ainda maior. Sua companhia nos últimos dias me fez recordar os tempos em que passava as tardes na faculdade, auxiliando minha amiga Eleanor, que era assistente de laboratório. Amigos verdadeiros como Eleanor são raros — e Arale dera sinais de que, se o destino e nossos anseios não tivessem nos afastado, seríamos grandes amigas.
Apesar de ela ter me guiado até aqui, cuidado de mim, dividido sua comida e quase dado a própria vida para me salvar — e por mais grata que eu esteja por isso — ainda assim, sinto-me extenuada.
Acho que nunca irei me perdoar por ter atraído Eleanor para as garras de Frankenstein, por mais que, à época, eu não soubesse das verdadeiras intenções dele.
Ao mirar-me no reflexo de uma poça esta manhã, percebi que os hematomas que o fantasma de Eleanor — ou o que quer que tenha sido aquilo — deixara em meu pescoço se alastravam agora pelo colo. Algumas ervas que Arale me ensinou a macerar estavam retardando esse efeito, mas algo me dizia que eu não tinha muito tempo. À medida que a mancha crescia, menos vontade eu tinha de viver. Menos necessário se tornava o ato de falar. Urgia a vontade de sobreviver, se movimentar. Mas agora, diferente de muitas outras vezes, eu sabia para onde estava indo.
Resgatava forças das profundezas do meu ser para continuar caminhando. Minhas roupas ainda estavam úmidas do orvalho da manhã recém-anunciada. Além do ardor do hematoma — que queimava como fogo sorrateiro em meu peito — todo o meu corpo gritava por descanso. Eu estava cansada. Mas seguiria em frente. Ou melhor: para cima.
As parcas indicações diziam que Séttimor estava logo ali. Mas, para alcançá-la, era preciso seguir por uma trilha estreita de terra que serpenteava ao redor de uma montanha alta, feita de formações rochosas tão escuras quanto o ébano. Ao menos, era o que dizia o mapa desenhado na página arrancada do livro de botânica. O terreno começava a se elevar gradualmente, e continuei subindo até encontrar o início de uma trilha estreita que parecia seguir para o alto da montanha. No início da trilha, uma placa de madeira desgastada em formato de seta, pregada sobre um cepo, apontava para cima. Tive de passar os dedos sobre ela para ler as palavras quase apagadas pelas intempéries: “Vila de Séttimor”. Segui pela trilha, animada por estar no caminho certo.
Ao contornar uma das curvas, rastreando o chão em busca da erva do descanso, não ouvia som algum — apenas o vento, cada vez mais cortante. Eu sabia que estava só. Procurava não olhar muito para cima; mantinha os olhos no chão pedregoso, até que decidi parar para descansar aos pés de uma conífera enorme. Minhas roupas não eram para aquele clima frio e úmido, e a temperatura caía à medida que eu subia. Então o frio se apoderou de mim, invasivo e cortante. Percebi que não deveria ter parado. Aquele frio me lembrou do dia em que a lareira se apagou após a morte de meu pai. Eu estava deitada sobre o corpo gélido dele havia horas, mas só começara a sentir frio quando o fogo se apagara.
Era inverno, e era necessário que a lareira fosse constantemente abastecida para nos manter aquecidos. Mas meu pai sucumbira à peste — e eu, com ele. Nada vagava pela minha mente, a não ser o desejo de morrer. Lembro-me do corpo dele perdendo o calor, e com esse calor se esvaía também toda a garantia de que eu estava segura no mundo. Eu não comera, não me levantara para urinar, não dormira... Tinha a impressão de que já não estava mais viva. Quem cuidaria de mim? Recordo-me apenas da sucessão de claros e escuros através do vidro embaçado da janela, marcando a solidão que durou dias.
Foi então que ele apareceu. Primeiro, batendo à porta e espreitando pelo vidro da janela de nossa humilde cabana. Como eu não fizera menção de me mover ou responder, abriu a porta, que estava desimpedida.
— Santo Deus, finalmente a encontrei! Estava preocupado. Você simplesmente não veio mais ao trabalho. Perguntei de você para os alunos e professores, mas ninguém sabia dizer. Parece que não é muito sociável com os outros, não é, menina? Venha... me dê a mão. Deixe-me ver o que posso fazer pelo seu pai.
Eu já conhecia o doutor, mas nunca imaginara que ele viria atrás de mim. Pois, antes de me levar para morar com ele, eu não era estudante de medicina — era apenas assistente de laboratório. Minha função era limpar os corpos doados para estudo e cuidar da manutenção dos laboratórios da faculdade de medicina. Mais especificamente, era assistente do Dr. Frankenstein. Ele não se acertara com nenhum outro, e isso, para mim, era formidável, porque me permitia perguntar, observar e aprender. Mesmo que a universidade não permitisse alunas — apenas homens podiam se matricular — eu alimentava a ilusão de estar mais próxima do meu sonho. Mas era apenas isso: uma ilusão. Eu nunca seria aceita como estudante. Eu era uma mulher pobre e fraca, filha de um simples camponês.
Talvez seja por isso que aceitei a oferta de Viktor, morar em sua casa, sob a desculpa de que seria sua assistente particular em projetos pessoais que não envolviam suas atividades na faculdade. Em troca, eu poderia continuar sendo sua assistente na faculdade e assistir a todas as suas aulas, contanto que ficasse quieta e perguntasse apenas ao final. A morte de meu querido pai fora traumática, mas foi o que me catapultara. Em alguns meses, eu não era apenas assistente dele. Graças ao prestígio e após entrevistas com os professores donos das bancas do alto conselho da universidade, eu me tornei a primeira aluna mulher do curso.
Foi nesse mesmo período que Viktor passou a me chamar com frequência ao seu consultório, sempre com o pretexto de revisar gráficos e anotações de galvanismo.
— Sibila, minha querida, conseguiu terminar de revisar os gráficos de ontem?
— Ainda não, Dr. Frankenstein. Fiquei até o término da minha aula e depois fui para casa, fiquei estudando até tarde. Mas prometo que hoje terminarei.
— Eu já não te avisei de que o trabalho aqui do laboratório precisa estar em dia, Sibila? — perguntou com a cabeça baixa, mas os olhos azuis cravados em meus olhos.
Eu me virei, tentando disfarçar a minha preocupação.
— É claro, doutor! Me perdoe, acho que posso deixar de assistir a minha última aula, para vir até aqui e revisar.
— Mas por que não revisa agora, já que está aqui, minha cara? —
Aproximou-se sorrateiro, e falou próximo a mim, baixo e em tom professoral: — Entendo que dê valor aos seus estudos, mas espero que entenda também que nenhuma mão que nos estende algo, sairá vazia... Tudo tem um preço, ainda que não seja dinheiro. Por exemplo...
Senti seus dedos deslizarem da base do meu pescoço para o topo da nunca, enquanto fazia isso, terminou de falar:
— Eu dou a faculdade destaque com minhas pesquisas inovadoras no campo da medicina. O galvanismo pode ter aberto as portas, mas serei eu, o primeiro médico a fazer o ser humano a... Bem, não preciso falar sobre minhas pesquisas, você as conhece bem. O que queria dizer é que dei prestigio a essa casa de ensino e em troca pude cobrar favores, como exigir que a faculdade oficializasse o que já fazíamos, oficializando-a como minha aluna. Ou acha que, se você viesse bater à porta deles, como uma camponesa órfã de pai e de mãe, eles te dariam ouvidos? Eles sequer abririam as portas para te receber. Portanto, você deve se dedicar aos estudos, mas não se esqueça de que também me deve algo, certo minha pequena? — Agora a mesma mão que passeara pelo meu pescoço, enlaçando as pontas dos dedos nos cabelos finos e quentes da minha nuca, agora tentavam enlaçar a minha cintura.
Afastei-me um pouco assustada, mas mantive o rosto e o meu tom sério:
— Claro, doutor. Eu irei me dedicar.
Ele sorriu satisfeito. Olhou por cima das lentes dos óculos, o olhar cortante como gelo:
— Claro, querida, tenho certeza de que não vai me decepcionar, não é mesmo?
Seria aquele o primeiro sinal? Será que eu deveria ter percebido que Viktor era muito mais do que apenas um professor bondoso tentando ajudar uma órfã, filha de um velho conhecido seu? Naquele dia eu não percebi nada, eu nem sabia porque aquele toque me incomodara tanto. Mas, de alguma maneira, ele fizera os sinais de alerta do meu corpo tocarem: pelos eriçados, o coração acelerado, a respiração no limiar de se descontrolar, não fosse o meu foco nos gráficos de galvanismo.
— Quando terminar, cara aluna, venha para casa. Aguardarei você para o jantar.
Viktor saiu, não sem antes me lançar um olhar de contentamento. Sorri de volta, mais por educação do que por vontade. Eu sabia que não podia desagradá-lo; qualquer deslize poderia colocar em risco o meu futuro promissor na medicina. Após terminar de analisar os gráficos e deixar os resultados sobre a mesa do seu escritório, atravessei os corredores em direção à saída.
No corredor, dois retratos enormes dominavam as paredes: Bismarck e Humboldt, erigidos quase como ícones de devoção. Diante deles, dois alunos discutiam as teorias mais modernas. Lembro-me de ouvir as palavras galvanismo e eletricidade, mas, à medida que me aproximava, percebi que a conversa rapidamente se inclinava para a política, que definitivamente não era o meu foco. Eu não compreendia como aqueles homens jovens e privilegiados poderiam alegra-se tanto com a perspectiva que a guerra trazia, eles se consideravam os “soldados do conhecimento”. A meu ver: tolos. De qualquer forma, quem era eu para mudar alguma coisa nesse mundo, se nem senhora da minha própria realidade eu era? Eu sabia bem como me viam: uma mera trabalhadora, igual a tantas outras…
Ao longo dos outros corredores, as vozes se multiplicavam e ecoavam contra o mármore frio das paredes. Jovens exaltavam a promessa de uma Alemanha unificada sob a força de Bismarck, outros comentavam sobre as campanhas militares iminentes, como se a guerra fosse apenas mais um experimento inevitável. Entre eles, alguns exaltavam os avanços da medicina e chamavam Viktor de “o futuro da ciência prussiana”. Eu caminhava em silêncio, absorvendo cada palavra como quem ouve o cântico de um templo ao qual nunca pertenceria.
Um galho caiu próximo de mim, me despertando do transe em que as lembranças sobre Viktor me colocavam. Estava exausta, mas parar, naquele frio significava morte. Não precisava ser estudante de medicina para saber disso, eu precisava levantar. Então, para colocar o corpo em movimento, decidi colocar a mente para funcionar primeiro. Coloquei o meu diário sobre as minhas coxas e comecei a escrever. Eu ia escrevendo e transmitia as palavras de meu íntimo para o papel, as letras saíam trêmulas, mas não vacilantes:
“Hoje, pensei em Viktor novamente. Me surpreendi ao sentir falta dele. Antes dele, eu era uma camponesa órfã e desempregada. Depois dele, eu era a assistente estudante de medicina do Dr. Frankenstein. Eu era a mulher, dentre tantos homens, eu era a grande escolhida, o mais novo prodígio que se sobressaíram aos olhos dele. Assim eles diziam, mas eu sabia que era só órfã e útil. Hoje eu sei, ele se achava um deus e eu era seu sacrifício.”
As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
8 - Quando a ciência se cala, Deus fala
Estás aí, ó grande Rei dos reis, | entre as paredes deste castelo sepulcral? | Tua infinita sabedoria, ó Cientista do Universo, | penetra as muralhas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Sibila von Lichenstein
10 de outubro de 1870.
Estás aí, ó grande Rei dos reis,
entre as paredes deste castelo sepulcral?
Tua infinita sabedoria, ó Cientista do Universo,
penetra as muralhas mágicas onde hoje habito?
És santo e sagrado o bastante para isso?
Pois se és, ó Senhor da infinita misericórdia,
eu rogo, eu imploro, pelo teu poderoso perdão.
Tuas pobres ovelhas, fui eu quem atraiu.
Com voz doce, chamei-as ao altar do carrasco.
Prometi salário, dei-lhes sepulcro.
Vendi minha alma por promessas de um homem
que se dizia mestre — e era coveiro.
Desejava ser médica, divina entre os mortais...
e tornei-me discípula do profano.
O hematoma em meu pescoço,
limo do pacto pecaminoso sob minh’alma.
Uma vida ilibada eu manchei,
concordando com suas equações pecaminosas
em monstro eu me transfigurei.
Tu me julgas digna de tua vingança — ou perdão?
Ou serei pó amaldiçoado à margem de tua criação?
Privada de meu pai, em nosso casebre o demônio me encontrou,
um mestre-deus da ciência que, em troca da minha decência,
sob o facho do arco voltaico da medicina — me exibiu.
Todos admiravam nossa inteligência: o mestre e sua pupila devota.
Tu me alçaste aos livros, me pagaste e me acolheste.
Entre as paredes da universidade: tua pupila aplicada.
Entre os lençóis de teu quarto: o velho amante aceito em silêncio.
A morte de Eleanor foi tua segunda máscara que caiu,
e em silêncio te entreguei a minha amiga mais cara.
Além de barregã, agora eu também era assassina.
Depois dela, outras seguiram para o vale da sombra da morte...
Quem dera eu ter essa sorte, pois minha vida tu já tomara...
Zombavas da morte, ser o mestre-deus da ciência não te bastava!
Teu saber te enlouqueceu — e tu quiseste o trono d’Ele.
Liberta-me, ó Deus, da cela onde eu mesma me enclausurei.
Perdoa-me se ouso proferir Teu nome,
pois arrasto o pesado cajado da morte em minha confissão.
Prostro-me, temerosa, diante de Tua justa punição,
mas anseio, por meio dela, o meu sagrado perdão...
Por favor, por favor... se Teus divinos olhos este castelo alcançam,
venha salvar a Tua mais humilde serva da escuridão
Rogo do negro e profundo umbral, ergo o olhar além do véu.
Tudo aquilo que a ciência sequer alcançou...
isso tudo repousa sob o eterno toque de Deus.
Tu és alfa, e tu és ômega.
Em mim a mácula reside, no Teu abraço a remissão.
Eu ignoro o meio de como me perdoar,
mas em Teus olhos brilha a luz da salvação.
As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
7 - Um rastro de luz vívida atravessa a morte
Após revirar o laboratório de Viktor, ainda restava toda a casa a ser vasculhada. Minha mente era um mar revolto; preocupado com ela, eu tentava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Após revirar o laboratório de Viktor, ainda restava toda a casa a ser vasculhada. Minha mente era um mar revolto; preocupado com ela, eu tentava relacionar as pistas que encontrara no laboratório. Aqueles frascos com nomes de mulheres vazios, o aroma forte de éter, o caderninho repulsivo de Viktor… Havia algo ali que eu ainda não conseguira decifrar. Era como colar os cacos de um vaso que, mesmo restaurado, jamais voltaria a ser inteiro.
Decidi subir as escadas para continuar a procurar por pistas que me levassem até ela. Mesmo que o vaso nunca mais pudesse ser o mesmo, eu precisava reconstruí-lo. Eu nunca encontraria a paz caso não o fizesse. Talvez, antes de morrer, Viktor a tivesse matado e escondido o corpo. Há coisas desagradáveis pelas quais temos que passar, que nos forjam; então, se eu tivesse que descobrir que ela estava morta, assim seria. Mas, antes disso, eu tinha de ver o corpo e tocá-lo. Sim, eu não poderia morrer sem saber que toquei sua pele, ainda que gélida, ao menos uma vez. Então optei por investigar no quarto dele, que não fora mais aberto desde a noite em que removeram o cadáver do casarão.
Girei a maçaneta lentamente, com hesitação. A figura de Viktor gritando comigo com os olhos arregalados de pavor e asco, ordenando que eu fosse embora com palavras afiadas como um facão amolado, na noite em que me criou, ainda oprimia meu coração. Apesar de, após o meu nascimento, eu sequer ter entendido o que estava acontecendo, há gestos que não precisam ser ouvidos para serem compreendidos; eles cortam fundo e permanecem esculpidos nas retinas da memória. Mas eu não podia recuar. Ao abrir a porta, meu coração parou, talvez porque eu não soube que reação ter.
O quarto estava pouco iluminado, pois as pesadas cortinas de veludo vinho permaneciam quase totalmente cerradas, permitindo que apenas um fiapo de luz solar atravessasse o tecido espesso. Um cheiro metálico e de carniça ascendeu com o movimento da porta. Era quase o mesmo odor que senti ao resgatar o saco que Sibila jogara no rio Spree. Era o perfume horrível da morte, de carne putrefata, de sangue envelhecido. Desta vez, porém, ele estava seco.
Mirei a cama. Os lençóis, fronhas, travesseiros e toda a parafernália sem a qual os humanos não conseguem dormir não haviam sido trocados desde a morte dele. Como novo proprietário do casarão e de toda a fortuna que Viktor deixara, não permiti que nada fosse tocado ou limpo antes de uma análise minuciosa feita por mim. E logo a hesitação foi substituída pela certeza: Viktor estava realmente morto, e alguém o matara. A cama estava empapada, com uma grande mancha marrom sobre ela e muitos respingos ao redor. Era uma cena dantesca. Não consigo imaginar como a polícia escondeu isso dos jornais. Como suposto filho bastardo, claro, eu soubera que a morte dele não fora por causas naturais, mas me importava tão pouco com sua vida que sequer havia parado para pensar nisso. E Sibila? Por que a polícia não a colocou no rol de suspeitos? Será que ninguém sabia?
Retirei o lenço do meu bolso para poder respirar com mais conforto, apesar do cheiro forte de carniça. Abri as cortinas e as janelas, permitindo que a luz do sol entrasse e se apossasse do quarto. Achei que aquele quarto, tão tomado pela morte, merecia que um pouco de calor e vida o invadisse. Por mais que eu mesmo não me considerasse vivo — nunca fui. Fui feito de morte, de partes de diferentes cadáveres… Um experimento que Viktor, antes de completá-lo, julgava que iria criar um ser perfeito, melhor do que a própria raça humana. Quando ele me viu pela primeira vez, apenas se horrorizou com a minha aparência; Frankenstein nunca quis olhar para me conhecer verdadeiramente. E… nós tememos aquilo que não conhecemos.
Mas na noite da minha criação, ao invés de respeito, admiração e curiosidade pela própria obra, Viktor me concedeu unicamente o seu desprezo, provando que a única coisa que importava a ele era o seu próprio ego. A partir do momento em que eu — vamos ilustrar assim — saí de dentro de sua mente e passei a fazer parte do mundo real, ele passou a me ignorar. O afã, a paixão que existira, era por suas ideias; nunca fora por mim, por ninguém.
Então pude ver com mais clareza. Através dos fachos de luz, muitas partículas de poeira podiam ser vistas, iluminadas e dançando pelo ar, alheias ao que ali se passava ou se passara no quarto, feito retalhos de almas perdidas pelo espaço-tempo. A visão delas sempre me acalmara — exceto naquele dia. Porque, naquele instante, tive a certeza: a pequena chance de mudar minha aparência horrenda morrera com ele — o único homem com conhecimento suficiente para fazer isso.
Meu criador e meu algoz. Como suportar essa verdade inconveniente? Senti o rosto aquecer, rubro de ódio. Éramos semelhantes — quiçá iguais? Talvez eu fosse apenas um fruto que não caíra longe do pé. Cegado por minha própria condição, não pus fim à moléstia que representávamos ao mundo. Estava condenado a viver eternamente só e recluso. Pior ainda: sem ela para amar. E amar… amar? Que presunção a minha. Quem eu penso que sou para almejar tal coisa? Um ser composto por cadáveres, com olhos amarelados, como se estivesse doente, moribundo... Mas alguma coisa em mim recusava-se a perecer, e esse algo era Sibila. Se me aproximo de qualquer ser, assim que sou visto, noto a repulsa. Por que com ela seria diferente? Mas algo dentro de mim recusa isso. Não posso ceder. Tenho de encontrá-la. Tenho de colocar à prova o que minha intuição me diz: que ela é diferente. Que ela é inocente. Que ela está viva!
Encorajado pelos últimos pensamentos, decido explorar cada centímetro daquele quarto. Aos poucos, começo a limpá-lo — não por piedade a Viktor, mas por proteção a ela. Se alguém tivesse que tocar naquele espaço, que fosse eu. Não uma faxineira curiosa e fofoqueira. Tudo o que vi até agora me leva a crer que quase ninguém sabia que Sibila morava aqui. E quem sabia… se calou.
O quarto tinha paredes meio verde-musgo, a metade de cima forrada com painéis de madeira entalhados, com flores enormes e estilizadas. Na parede de trás da cama, havia um brasão da família Frankenstein. Ele era subdividido em quatro partes, ornado com capacetes de guerreiro prata, trevos de três folhas vermelhos. Ao centro, um escudo de coração dourado; nele, um machado de batalha vermelho oblíquo em ouro. A cama de dossel era de carvalho escuro, ricamente entalhada. A cabeceira mostrava a cena de um caçador esticando o próprio arco, à espreita de um cervo. Nada me surpreendia. O que eu mirava era a expressão de um homem ensimesmado, profundamente ordeiro e devotado ao método, exceto pelos lençóis revoltos na cama.
Decido começar a explorar pela Nachttisch. Ao fitá-la, vislumbro o manto que Sibila usava em meu sonho. Estava dobrado sobre ela exatamente como ela o dobrara, antes de sentar-se ao meu lado à beira do precipício onírico. Estendo a mão, toco o tecido e o levo ao rosto. Ele ainda guarda seu perfume, aquele perfume humilde. Mas há respingos de sangue nele — isso me leva a crer que ela esteve aqui e, mais: esteve envolvida com a morte dele. E o mais intrigante de tudo: como era possível eu ter sonhado com um manto idêntico ao que segurava agora em minhas mãos? Isso significa alguma coisa. Significa que, de alguma forma, nós realmente nos cruzamos em alguma realidade existente além deste mundo, dos meros sonhos.
Empolgado, abro a pequena gaveta da mesinha de cabeceira e encontro uma pasta de um couro tão puído quanto o caderno de Viktor, as páginas com os cantos meio sujos e desgastados — decerto de tanto ele as manusear. Naturalmente, ele havia feito muitos estudos sobre tuberculose, a doença que matou sua esposa. Depois dos estudos sobre a doença, havia outros sobre como o cérebro humano se comportava durante o sono… Eram assuntos tão divergentes que eu não consegui desvendar a ligação entre eles. Algumas continham símbolos arcanos ao lado de estudos de uma linguagem desconhecida por mim: traduções do que Viktor chamava de língua Séttimoriana. Séttimor deve ser algum local, então.
Uma tradução, em especial, prendeu minha atenção. Era a descrição de um ritual destinado à transposição de almas entre planos — algo que, segundo o texto, só poderia ser feito através da abertura de fendas dimensionais induzidas em estados de coma profundo ou durante sonhos lúcidos. O processo exigia que o corpo estivesse completamente inconsciente e envolvia um pagamento em sangue, retirado da alma-alvo. À margem, Viktor deixara um comentário enigmático, quase como se falasse consigo mesmo:
“25 de junho de 1869 — Após o procedimento ‘1E’ não ter surtido o efeito desejado, tenho sido atormentado pela alma dela, que se tornou vingativa. Essa é a única explicação que tenho encontrado para os acontecimentos paranormais que vêm ocorrendo. Para os próximos testes, precisarei encontrar um meio de me precaver quanto a isso. Nenhum sinal de Elizabeth, nem em sonho. P.S.: desconfio de que não apenas um corpo saudável seja necessário; pareceu-me necessário algum tipo de compatibilidade. Só preciso descobrir qual.”
Se ele tentava abrir portais entre mundos durante o sono, talvez isso explicasse meus sonhos estranhamente vívidos com Sibila. Estava claro que ele havia testado o ritual em uma de suas vítimas; e, após a morte, ela o deixou com medo. Finalmente eu estava começando a colar os cacos do vaso, isso me fazia entrar em um estado de exaltação tal, que eu sentia o líquido vital correr com força e vigor pelas minhas veias. Apanhei o manto de Sibila, com seus motivos orientais. Ela parecia ter especial apreço por ele. Pretendia devolvê-lo a ela... Senti que estava começando a desvendar o mistério de seu desaparecimento. Voltei ao papel. O que seria essa “compatibilidade” mencionada? Uma condição física? Psicológica?
Senti que as respostas não estavam ali, mas em outro lugar. Havia mais peças desse quebra-cabeça nas profundezas ocultas do casarão — e eu sabia onde procurar. Desci de volta ao laboratório. O odor acre de álcool e ferro me envolveu enquanto me aproximava dos frascos vazios. Comecei a manipulá-los com cuidado. Só então percebi: além dos rótulos com nomes de diferentes mulheres, havia inscrições nas tampas. Em um deles, escrito na caligrafia de Viktor: 1E (Vazio). Mas… se o 1E estava vazio e os outros também, por que apenas esse frasco tinha essa anotação na tampa? Recoloquei o frasco de Eleanor no lugar. Minhas mãos suavam — eu estava curioso, e agora, com medo também. Ao contrário de Viktor, eu nunca fora cético. E ao que parece, ele deixara de ser nos últimos meses.
E se, de repente, Eleanor também viesse me assombrar?
Para evitar problemas, devolvi o frasco à prateleira. Mas, tomado pelo desejo de rever Sibila — e também por uma curiosidade mórbida — peguei o último frasco, o que trazia a etiqueta “Ava”. Na tampa lia-se: 30A. Ao aproximá-lo do meu rosto, levei um susto e quase o derrubei: um rosto ruivo, em agonia, apareceu lá dentro. Larguei o frasco de volta no lugar, ofegante. Seria verdade aquilo? Será que aquele rosto me viu?
As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
6 - No submerso da caverna, mergulhamos nossos corações
Após o incidente com Eleanor, nada mais parece se ajustar às leis da razão…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Sibila von Lichenstein
12 de outubro de 1870
Após o incidente com Eleanor, nada mais parece se ajustar às leis da razão dentro dessas paredes. Não tenho certeza se a presença dela tomou forma na biblioteca, ou talvez no meu sonho. Não estou enlouquecendo. Sei que este lugar — vasto, estranho, nunca antes conhecido por mim — é real. Ao vaguear por esse imenso templo da solidão, que é o castelo, eu cruzo com outros seres. Ouso supor que não apenas humanos habitam este lugar, mas também a mais variada gama de criaturas que desafiam qualquer classificação comum.
Acho que as circunstâncias do passado me moldaram e influenciaram de tal modo que não consigo mais me entregar... Não sou como uma folha à mercê do vento, fadada a se deixar levar. Sou mais como uma rocha que resiste às repetitivas investidas do mar, mesmo que revolto. Passo horas sozinha, deixando meus pensamentos livres para refletir sobre a minha situação neste lugar. Desejo voltar ao casarão de Viktor, ao mundo que eu conhecia. Eu não tinha um plano definido para depois dele... Mas tenho certeza de que não era isso que eu desejava ardentemente...
Sinto-me extenuada, passo os dias e noites em constante estado de alerta. Tenho medo de ser atacada novamente. Os hematomas que Eleanor provocou em meu pescoço deixaram marcas indeléveis — não só em minha pele, mas também em minha alma. Qualquer criatura pode ser hostil. Minha antiga amiga, pode voltar, tomada pelo desejo de vingança e pelo ódio.
Mas a solidão, antes tão comum e adorada por mim, tem se tornado, além da culpa que carrego, uma das piores sensações. Sempre que me dou conta que estou sozinha e desamparada, revivo as memórias das semanas após a morte de meu pai. As desperdicei enclausurada em nosso casebre, que agora me parece uma miniatura precursora desta prisão de pedra e ecos, pois estou sem nenhum contato humano.
Tenho a impressão de já ter cruzado com todas as espécies de seres possíveis... e ouso supor que até mesmo vampiros habitam este castelo. Certa noite, um hóspede me abordou com um sorriso cortês e se apresentou como sommelier. Ofereceu-me uma taça de sua adega pessoal, durante o jantar do castelo. Aceitei, por mera cortesia. O líquido era de um vermelho profundo, quase negro, e exalava um perfume metálico, adocicado e denso. Bebi um gole. Achei que o sabor, mesmo misturado à substância etílica, era inconfundível... Sangue. Puro, espesso, claro como um segredo antigo. Temendo, respondi que estava bom, mas estou quase certa de que, quando ele sorriu, vi duas presas no lugar dos caninos em sua arcada dentária. Logo depois, despedi-me educadamente e, com passos rápidos, dirigi-me ao meu claustro. Mas, ao bater a porta atrás de mim, lembrei-me do pesadelo com Eleanor e do que Meia-noite me contou, e tive medo de morrer dormindo.
Completamente tomada por esses pensamentos, que se multiplicavam como erva daninha, decidi interpelar a senhora que frequentava a biblioteca, quase sempre nos mesmos horários que eu... Eu almejava estabelecer algum tipo de relação, nem que fosse apenas superficial. Eu precisava... Ela não era muito de falar, ficava encurvada sobre pesados tomos de botânica, fazendo anotações e rabiscos.
Não parecia estar interessada em conversar, porém era minha melhor aposta. Tinha aparência humana, era mulher e velha. Por causa do que Viktor me fez, eu confiava mais em mulheres, apesar de me achar um verdadeiro monstro. Ademais, além dos hematomas, eu sentia uma ardência profunda neles, além de estar há dias sem dormir. Quem sabe, essa senhora, tão reclusa quanto eu, me desse a dica de alguma erva que me ajudasse.
— Olá... — cumprimentei, com a voz quase inaudível.
— A senhorita falou comigo? Hum... O que você quer, garota?
— Não pude deixar de observar que a senhora sempre está estudando os volumes de botânica.
— Sim... E o que a devoradora de livros de anatomia tem a ver com isso?
— Sinto muito, me perdoe, me perdoe, por favor. Não quis incomodar... Mas, se levantar a cabeça e olhar para o meu pescoço, verá que não estou bem. — Minha voz saiu esganiçada, num misto de desespero e vergonha.
— Se é para a senhorita me deixar em paz logo, vou lhe dizer o que fazer: procure a erva do descanso. Para isso, terá que caminhar até Séttimor. Lá, essa erva sempre cresce nos arredores da cidade.
— Erva do descanso...? Mas que aparência ela tem? Perdoe-me... Eu não conheço.
Ela começou a folhear o tomo que estava em suas mãos. Parou e mordeu os lábios, pensativa. Subitamente, rasgou uma página e a estendeu para mim:
— Tome, isto deve servir... E agora, não me perturbe mais!
De posse da folha, agora sentada à beira da cama, uma das mãos segurava a folha amarelada, a outra tocava o meu pescoço, que ardia e latejava de forma incessante.
Na folha, o desenho de uma erva com folhas divididas em sete pontas alongadas. O artista havia ilustrado o centro dessas folhas com um verde vivo e, num degradê, elas passavam a ser negras em suas pontas. Os caules também eram pretos, com raízes profundas que se comunicavam de ramo em ramo. Abaixo da ilustração, podia-se ler: Ervatum Nocte Requies, entre parênteses e abaixo, erva do descanso.
No verso da folha havia ainda uma descrição da aparência física da erva, acrescentando que ela crescia em grupos de sete e era encontrada nos rochedos ao redor da vila de Séttimor. Seu uso era em unguentos e cataplasmas para aliviar hematomas e dores espirituais.
Havia outro desenho no verso, um pequeno mapa desenhado delicadamente a mão, abaixo dessas instruções. O desenho não era parte da impressão original, alguém o fizera posteriormente à tiragem inicial. Com linhas finas e decididas, o mapa mostrava o Castelo Drácula, minha morada atual, e também mostrava a Floresta dos Pinheiros Tristes ao noroeste, uma linha tracejada atravessava essa floresta, cuja fama no castelo, dizia que era assombrada por almas penadas. Ouvira dizer que ali, até mesmo as árvores eram mortas.
O tracejado atravessa a floresta, depois acompanhava uma caverna, para então desembocar aos pés do que interpretei ser uma península. Na ponta dela, Séttimor estava desenhada. De um lado, rochedos a rodeavam; de outro, o mar que deveria colidir com os rochedos. Na área dos rochedos o autor dos rabiscos desenhara uma flecha e escreveu: “Região onde a erva do descanso cresce.” Entre parênteses: “Recomendável a colheita em estações secas.”, mas não dizia o porquê.
Não conhecia com propriedade o clima da região, mas certamente não era uma estação seca. Lá fora, uma fina camada de neblina espessa cobria os jardins de lavanda, que agora estavam secos, podres e molhados. Não poderia partir solo, necessitava encontrar uma maneira de seguir até o recanto da erva de forma mais segura, ou seja, acompanhada.
Sabia de rumores de que os recônditos do Castelo Drácula abrigavam uma exímia felina caçadora que fazia serviços de mercenária, e havia a possibilidade de tentar um acordo ou um contrato, dependendo da quantia que ela cobrasse para realizar tal feito.
Busquei apressada pelos corredores e até pelos jardins uma forma de contatar a felina, mas em vão, até que o espectro serviçal do Castelo me informou que eu poderia encontrar com ela em uma taverna ali próxima.
Decidi arriscar e conferir o ambiente, era extremamente necessário, caminhei até o estabelecimento e lá me deparei com uma ampla gama de marginais, bandidos, aventureiros, alquimistas, ferreiros, anões, várias criaturas transitavam o ambiente. Senti que a energia era pesada, olhares de ameaça estavam por toda parte, cheguei a tocar a adaga que eu tinha escondida em minhas vestes. Busquei saber dela e todos diziam que a pouco ela estava no balcão bebendo uma espécie de licor verde. Alguns se sentiam ameaçados, outros preferiam não falar nada, mas infelizmente ela não estava mais presente.
Saí apressada do lugar, ojeriza era a palavra, nem na Prússia eu ousara pisar em um lugar de tal estirpe, o Castelo eu até tolerava, pois apesar de só… ah, o que estou pensando? Nem no Castelo eu me sinto segura, olha o meu pescoço. Mirei meu reflexo numa poça do chão, os hematomas pareciam ter se espalhado pelo colo e queimavam de dentro para fora, eu precisava de ajuda!
Um rapaz com um capuz cor de carvalho se aproximou, achei suspeito. Foi muito rápido, então me virei rapidamente, mirando uma adaga que encontrei no castelo em seu peito.
— Acalma-te! — disse ele em pânico, senti em seu olhar e o tom de sua voz que ele estava trêmulo e nervoso com minha presença.
— Procura a criatura que tememos, não é mesmo? Aquela felina com um braço estranho assustador.
— Sim, preciso de um guia para chegar nos rochedos próximos da vila de Séttimor, ouvi dizer que ela faz pequenos trabalhos em troca de algumas moedas.
— Conheço uma estrada, eu sou cocheiro, se confiar em meu trabalho e por algumas moedas de ouro, posso lhe guiar para uma estrada próxima à caverna, aquela, onde os habitantes daqui a viram rondando.
— Eu agradeço pelo serviço, vou aceitar.
Paguei três moedas de ouro, aceitando a carona em sua humilde carruagem, guiada por dois corcéis escuros. Me aconcheguei na traseira do veículo.
— Diga-me, senhorita... Por que deseja ir a um lugar tão lúgubre?
— É um assunto pessoal, perdão, mas é de extrema importância que eu encontre um guia...
— Entendo, boa sorte, espero que aquela criatura lhe ajude, ela não parece ser muito sociável...
O comentário do cocheiro me deixou apreensiva. Conforme a viagem avançava, o frio, a chuva e um pequeno cansaço me abateram. A carruagem atravessava a Floresta dos Pinheiros Tristes. Abri as cortinas para poder ver por onde ele guiava, o clima estava tomado por uma neblina densa, eu sentia a umidade do lugar penetrar pelas minhas narinas, senti cheiro de mofo, ele vinha de camadas e mais camada de folhas mortas e apodrecidas no solo da floresta. Um temor antigo, prematuro, açoitava meu peito.
De repente, os cavalos rincharam assustados e a carruagem estacou. Sobressaltada, escutei o trotar espectral de inúmeros alazões fantasma que cortavam a estrada diante de nós. Pela janela, vi suas pelagens douradas manifestarem-se como um milagre do pós-vida, pareciam relâmpagos na noite, era lindo.
Estava deslumbrada e assustada. Tudo era novo demais, lúcido demais, intenso demais. Os acontecimentos que me assombravam surgiam como espectros famintos, devorando minha energia e apagando minha alegria. Meus fantasmas interiores, meus dilemas, dores e pesadelos dançavam em círculos ao meu redor. Havia algo de doentio nisso... e ainda assim, algo estranhamente libertador. Era difícil de explicar.
Fechei os olhos por alguns instantes e cochilei, aproveitando que a carruagem não estava balançando demais. Então a vi pela primeira vez, através dos meus sonhos. Desde que eu chegara misteriosamente a esse lugar, meus sonhos nunca mais foram os mesmos, havia algo de fantasmagórico, perigoso e real neles. Ainda não sabia se eram vaticínios ou meras manifestações do meu subconsciente.
Ela era muito bela, não entendi por que os habitantes da região a temiam. Não compreendia por que ela inspirava tanto receio, não pelo menos, até a ver com uma máquina de escrever de ossos, um pergaminho pingando sangue e um machado com um coração fincado em sua lâmina. Ela miava, e a máquina espirrava sangue e poeira. Então um pergaminho foi pulverizado no ar e um prisma, com um líquido esmeralda, foi canalizado e guardado em sua bolsa marrom de couro. Mas o que mais me deixou fascinada era a junção de metal e carne de que era feito um de seus braços, como estudante de medicina, eu nunca vira algo tão magnético e encantador quanto aquilo. Eu não almejara riquezas durante a vida, mas estudar aquele braço… Então ela me encarou, com uns olhos de tigre que rasgavam minha alma, e sorriu simplesmente.
Acordei com um trote ríspido da carruagem e o eco da voz do cocheiro que dizia:
— Chegamos, senhorita! — Desci apressada da carruagem, ansiosa para encontrar Arale. Começo a desconfiar de meus sonhos, até mesmo a acreditar que há alguma relação sombria entre eles, a realidade e o meu futuro incerto neste lugar além do tempo e da compreensão, onde me encontro. Logo, espero que a aparência dela seja a mesma que foi pintada em meu sonho.
— Perdão, qual seu nome? — disse o cocheiro solícito.
— Perdoe-me, mas prefiro manter o sigilo, gratidão pela viagem e seus serviços…
— Disponha e tome cuidado...
— É o que tento...
Avancei em direção à caverna, assemelhava-se a uma boca infernal, cheia de dentes de pedra, logo na entrada, não era nada convidativa. Aprofundei o caminho na intuição e fé de que ela estaria aqui, que esse seria nosso encontro inescapável, já estaria escrito em nossas sortes que iríamos no conhecer e enfim eu conseguiria chegar até os arredores da vila Séttimor e conseguir a erva almejada.
A caverna era completamente feita de ametistas, mas estava estreita, claustrofóbica e seu ar estava um pouco rarefeito. Continuei aprofundando-me cada vez mais em suas entranhas, e mais precária ficava minha visão e meus sentidos, apesar da luminosidade das ametistas.
Então senti uma picada, olhei minha perna e era uma agulha rubra, olhei ao redor e vi uma criatura baixa, achei que reconheceria, mas minha memória falhou. Minha visão estava ficando embaçada, mas antes que perdesse todos os sentidos e apagasse, pude ver uma adaga voando lentamente pelos ares, atingindo a testa da criatura, fincou-se bem no meio de seu nariz e ela caiu para trás morta e sangrando. Assim que me revirei, vi a alguns metros de distância uma felina com cabelos prateados e com um olhar furioso, então apaguei.
Não sei quanto tempo passou e quanto tempo fiquei apagada; mas, quando acordei, abri os olhos lentamente e pude ver que eu estava confortavelmente acomodada em uma espécie de espuma, deitada próxima a uma fogueira e aquela assustadora felina afiava seu machado.
— Acordou, sente-se bem? Possui alguma dor? — ela me questionou com uma voz doce e sensual, porém firme e durona.
— Muito obrigada, sinto-me bem, dentro do possível, mas estou nesta jornada para encontrar a erva que necessito para minha cura completa...
— Eu sei… — ela retrucou.
— Como sabe? Perdão a pergunta, mas por acaso você seria Arale?
— Sim, minha cara. Arale Fay´ax, aos seus serviços… Eu sabia que viria, senhorita Sibila.
— Como sabe? E como conhece meu nome?
— Minha máquina de escrever de ossos é um cósmico instrumento profético. Ela escreveu um pergaminho, que me revelou sobre sua jornada, sua aparência, seu nome… E ela ressoou, e eu sabia que viria pra cá… Quando senti seu cheiro, também senti o odor da criatura que te envenenou com uma zarabatana de pequenas agulhas feitas de rubi vermelho venenoso.
— Deveras prodigioso, nossa, muito obrigada, salvou minha vida! — respondi encantada com tudo o que vinha dela, eu não tinha conhecimento sobre nada daquilo, pergaminhos… caverna de ametista e criaturas perigosas com zarabatanas…
— Imagina, precisa ser mais cautelosa com monstros.
— Ironia demais você dizer isso, cara Arale Fay´ax.
Arale não entendeu por que eu disse que era ironia, e respondeu:
— Apenas Arale, por favor. Alguns me chamam de felina fantasma, mas eu não sei por que criei esta fama, apenas tento limpar este planeta de ameaças...
— Que criatura era aquela?
— Um simples Bokogobelinum, uma criatura que parece uma mescla de duende com pequeno suíno.
— Nossa… De onde eu vim, a Prússia, não há criaturas como essa.
— Eu estou caçando uma muito pior, uma ameaça muito mais nefasta, apesar de ele ser um mero Láparo, pelo que ouvi falar, e também preciso encontrar uma relíquia chamada Ovo Cósmico.
— Infelizmente não posso ajudar, mas preciso que me leve para a vila Sétimmor.
— Posso fazer isso… Mas terá de ser corajosa.
— Por quanto? — Eu achava que era corajosa o bastante.
— Façamos a viagem e depois decidimos, mas o que acha de, por enquanto, fecharmos negócio em 77 moedas de ouro Séttimoriano?
— Ok, eu aceito. — Eu não tinha outra opção, não sabia quanto aquilo valia realmente, mas aceitei.
— Vamos descansar mais um pouco e partimos ao amanhecer.
— Obrigada, Arale, o que está fazendo?
— Cozinhando um pequeno salmão que pesquei antes de vir para cá. Aqui, coma e ficará melhor... Sibila, certo?
— Sim, esse é o meu nome mesmo. Muito obrigada! O que você faz realmente?
— Eu caço demônios que ameaçam essa e outras dimensões, perdi minha família devido a um ataque de cyber-dracontes. Minha família e toda minha tribo era muito devota à espiritualidade de nossa deusa-mãe Ísis, e vivíamos em pirâmides de cristais de néon quando eles chegaram e escravizaram meu povo.
Eu não estava no momento, estava em um exílio espiritual com meu mestre xamã, ele fizera uma projeção astral e acessara a nave deles, a comandante mãe era uma reptiliana anciã, então ela ordenou o ataque e ele foi morto no astral, porque sua projeção foi detectada.
Quando retornei à minha tribo, todos estavam decapitados, alguns foram cremados, outros esfaqueados… Minha família deixara escondida nas matas, em um prisma sagrado, minha máquina de escrever de ossos, nosso legado e meu machado. Quando cheguei para obter minha máquina e meu machado, sofri uma emboscada pela líder, ela me nocauteou e então arrancou meu braço com sua garra mortal, desmaiei. A minha máquina, nesse instante, abriu um portal para onde eu estava e, em seus últimos momentos de vida, meu mestre fizera uma magia xamânica e fundiu tecnologia e magia em meu braço, deixando-o biônico. Então a máquina de escrever conjurou outro portal e percebi que eu estava no jardim do Castelo Drácula, e imagino que ele ou aquela que está sempre com ele possa ter me conjurado... eu não sei, mas isso me deu uma razão para viver, de alguma forma...
— Nossa... eu não entendi quase nada, mas compreendi sua dor...
Arale riu e então nos alimentamos e nos preparamos para dormir.
— Vamos descansar e seguir viagem em breve, te levarei ao teu destino.
— Muito obrigada, Felina Fantasma! — Arale miou em resposta.
Ao acordar, senti minha manga direita molhada, num salto acordei e imediatamente comecei a cutucar a felina que me acompanhava. Havia água dentro da caverna, e ela subia rapidamente.
Arale despertou calmamente, quando viu que a água subia para dentro da caverna, foi até a bolsa dela e retirou duas bolas de vidro transparentes, encaixou a cabeça dentro de uma delas, a qual se acoplou magicamente ao seu pescoço. Me estendeu outra e vendo minha hesitação, retirou novamente o globo de vidro da cabeça e disse:
— Vista a sua também, não precisa ter medo, é necessário para podermos mergulhar e sair do outro lado da caverna. Vista, rápido, não vê que a água está subindo cada vez mais rápido? Vamos! Depois imite os meus movimentos e siga a minha cauda para não se perder na escuridão. Cavernas submersas são muito perigosas, mas a máquina de escrever me mostrou o seu mapa, eu sei o caminho.
Então vestiu o dela novamente, colocou a própria mochila nas costas e me ajudou a colocar o meu. Eu não sabia que tipo de tecnologia era aquela, mas eu tinha de confiar nela, eu não tinha outra escolha, então deixei que ela colocasse o globo na minha cabeça. Não havia nada que permitisse a troca de substâncias lá fora, mas eu pude observar que de alguma forma mágica, o ar dentro do globo era renovado. O ardor em meu pescoço e em meu colo se intensificaram ao entrar em contato com ele, era pesado.
Arale, com o Machado na mão, começou a caminhar em direção à água que subia, eu fiquei junto a ela, a luz da fogueira já tinha se apagado há tempos, e a única coisa que eu conseguia ver com clareza era o rabo felino de Arale, ele brilhava com intensidade. Conforme ela mexia a cauda e os cabelos, diferentes partes da caverna e da água iluminavam-se.
Depois de poucos passos, mergulhou numa depressão grande e profunda dentro da caverna. Eu nunca tinha mergulhado em toda a minha vida, nem imaginava que isso seria possível, mas a segui, eu não queria morrer sozinha em uma caverna distante.
Ao mergulhar de olhos fechados, senti as gélidas águas penetrarem as roupas, meus poros, minha psique. Um temeroso arrepio álgido percorreu do alto a baixo das minhas costas. Isso tudo em questão de segundos, ao abrir os olhos, não vi muita coisa e me desesperei, tudo o que via era uma luz pequena mais ao fundo, muita areia do chão da caverna revolta se espalhando pela água à minha frente, dificultando minha decisão de onde ir.
Segui meu instinto e fui mergulhando mais profundamente, à medida que eu mergulhava, a luz ao longe aumentava de tamanho, mais algumas braçadas e mexidas de pernas, pude distinguir novamente os cabelos e o rabo felino de Arale em meio à escuridão total. Só assim, as batidas do meu coração se acalmaram. Ousei olhar ao redor, temendo perdê-la de vista novamente, mas o quadro que se pintava ao meu redor era tão incrível, que era fácil distrair-se. O gelo das águas parecia perfurar a minha carne, como mil agulhas afiadas e finas.
Eu ouvia somente o barulho da água sendo movimentada por nossos corpos em meio ao breu profundo, era excitante e relaxante ao mesmo tempo. Sentia-me animada em conhecer aquele ambiente e temerosa também. Olhei para as paredes iluminadas por Arale, continuavam sendo cobertas por ametistas, eu consigo perceber um animal ou outro escondido entre as frestas. Ao mergulhar mais profundamente, outra pedra preciosa começou a tomar o lugar das belas ametistas, eu sei que parece insano, mas havia muitas estalagmites e estalactites vermelhas, pareciam facas de vidro transparentes e afiadas. Inferi que eram rubis, e que aquele gnomo porco que me atacou as tinha colhido aqui para confeccionar a arma que usou para me atacar.
Mas isso não importava, eu tinha que focar em segui-la, chegando mais perto, senti como se estivesse entrando dentro da boca de um ser antigo e ancestral. As estacas rubras descendo do teto e vindas do chão se estreitaram em certo ponto, permitindo apenas a apertada passagem de Arale e a minha, estamos adentrando a boca desse ser de dentes afiados. Temi nunca mais conseguir fazer o caminho de volta ao ser engolida por ele.
Ao atravessar pela estreita passagem que aqueles espinhos formavam, raspei as costas em um deles e minha visão turvou-se, devido ao meu próprio sangue que tomou a água ao redor. Agora, além do pescoço e colo sempre a arder, minhas costas ardiam como nunca. Um pavor inominável e incontrolável tomou conta de mim. Agitei meus braços de forma desconexa, tentando afastar o sangue para poder localizar novamente Arale: minha única companhia e esperança naquele vazio molhado e profundo.
Ela, percebendo que eu sangrava, deslizou lentamente e arranjou uma forma de pegar minha mão e me guiar de uma forma firme e mais segura, sempre cuidando para que eu não me machucasse novamente.
Seu olhar marcante brilhava como amarelo-ouro luminescente, a forma que nadava era artística. Fiquei maravilhada, apesar da dor, com os movimentos rápidos e esguios que ela fazia, mesmo debaixo d’água turva, ela brilhava intensamente! Seus movimentos felinos e rápidos, pareciam um ballet aquático iridescente.
Atravessei com mais calma os corais. Vi vaga-lumes d´água e criaturas marinhas semelhantes a águas-vivas bioluminescentes, acompanhadas de peixes-morcegos, era horripilante e fascinante ao mesmo tempo, de onde surgiram essas criaturas inexistentes até então? Será que espreitaram pelos cantos escondidos da caverna e saíram apenas para dar o ar da sua graça e maravilhar as minhas retinas cansadas?
A pressão se intensifica, à medida que mergulhamos mais e mais nas entranhas submersas da caverna. Eu a sinto esmagando meus ossos e músculos, um aviso urgente para os meus pulmões, que apesar da redoma de vidro, pareciam se esforçar triplamente. Nadamos juntos mais alguns metros à frente e pressenti que estávamos alcançando o trecho final.
Acredito que ela tentou me dizer algo embaixo d´água, “abaixe-se” talvez, e então me guiou, abaixando a minha cabeça carinhosamente, para mergulharmos por debaixo de pequenos estalactites que cerravam a passagem. Ela precisou quebrar algumas pequenas pedras com o machado, como ela fazia isso enquanto estávamos mergulhando era um mistério.
Eu conseguia enxergar um pequeno feixe de luz que ia se afunilando conforme avançávamos. Então escorregamos finalmente de uma forma frenética por um tipo de espiral de pedras e cascalho, desembocando para fora daquela garganta diabólica, ao mesmo tempo fascinante.
Quando emergimos, encontramos uma praia pedregosa e hostil. E só então entendi por que a página arrancada do tomo dizia para procurar a erva em tempo seco, é que na estação das chuvas a caverna que eu e ela acabáramos de atravessar permanecia seca, já que a maré subia aquele ponto somente quando chovia o suficiente para submergi-la.
Ondas revoltas batiam nas pedras negras como ébano de uma imponente formação rochosa que se erguia contra o céu e dominava com desdém toda a paisagem praiana que nos circundava. Ao olhar para a sua imponência, notei que no seu alto uma misteriosa e também enegrecida vila se assentava, deveria ser Séttimor, isso significava que eu estava muito perto da erva que eu almejava para curar os meus hematomas causados pelos dedos fantasmagóricos de Eleanor. O sol já havia atravessado grande parte do dia, talvez não faltasse muito para anoitecer. Estávamos encharcadas.
Eu estava exausta e Arale ainda parecia estar com uma energia plena. Apontei para o capacete em minha cabeça, com um leve toque ele se desfez na mão dela, aquilo me deixou atônita.
— Você não se cansa? — soei um pouco ríspida, mas não foi intencional.
— Quando minha prioridade é a missão e a proteção, a adrenalina toma conta de meu corpo…
— Adrenalina felina é?
— Algo do tipo, venha cá, sente-se, preciso cuidar do seu ferimento.
— Estamos encharcadas, o que vai fazer, Arale?
— Confia em mim, não é?
— Claro que sim, lhe confiei a vida, é a minha única segurança.
— Vire-se de costas — ela pediu com educação.
Delicadamente retirou minhas vestes de cima. Eu cobria meus seios com as mãos enquanto ela limpava meu ferimento nas costas.
— Como está fazendo isso? Sinto-me bem mais relaxada e sem dores…
— Eu carrego sempre comigo algumas ervas e poções, infelizmente não possuo todas dessa região e deste planeta, é claro, pois estou há pouco tempo aqui e tenho apenas as do Castelo e algumas que trouxe comigo de minha tribo, são feitas apenas para estancar sangramentos, purificar infecções, algumas induzem sono, outras para sonhos lúcidos. As poções são para emergências, para curar e estabilizar ferimentos causadas durante batalhas, e também utilizo para a limpeza de meu machado e da máquina de escrever…
— Nossa, obrigada, mas por que precisa limpar uma máquina de escrever feita de ossos?
— Pronto, pode vestir-se, o curativo está feito… — enquanto ela se virava, me vesti rapidamente.
— Obrigada mais uma vez.
— Eu preciso sempre retirar fluidos energéticos que contaminem a máquina como miasmas e outros organismos pútridos, é como nos medicar, e o meu machado possui uma condição especial em sua lâmina que sempre preciso “alimentar…”
— Interessante, obrigada pelas explicações, como sou amante do conhecimento, sempre é bom obter mais conhecimento! E, mais uma vez, obrigada pelo curativo.
Percebi que ela parecia sem jeito e talvez fosse algo pessoal demais, não entendi o porquê, mas resolvi não questionar mais... Ela organizava as coisas em sua bolsa e me ofereceu alguns fungos para comer.
— Fungo? — eu hesitei. — Perdão.
— São maravilhosos, experimente, esses aqui são Shimejis Estelares, esses outros chamam-se Agaricus Bisporus, são suculentos, e esses solares aqui chamam-se Psilocybe, possuem propriedades espirituais…
— Me vê esse ensolarado… — Apreensiva, mordi e o gosto era um bálsamo iluminado. — Que delícia…
— Sabia que ia gostar.
Arale rapidamente, com exímia precisão, acendera mais uma fogueira para nos aquecermos e secarmos nossos trajes.
Observei a chama que crepitava, era muito bom e reconfortante estar na companhia daquela felina estranha, então consegui repousar e dormi logo, apesar do ardor causado pelos hematomas em meu pescoço persistirem.
Acordei não sei quanto tempo depois, após mais um pesadelo, desta vez com Viktor, que ainda em sonho me assombra. Ele me apareceu desfigurado, mas o reconheci pela voz senil, imperiosa e egoísta. Não vou descrever o sonho nesse diário, pois não quero me lembrar daquele ser nojento nunca mais enquanto meus pulmões respirarem, por isso o matei.
Ao olhar ao redor, percebi que Arale não estava próxima. Onde ela está? Gritei por ela, chamei por seu nome e nada. Eu escutava corujas e criaturas estralando galhos distantes. Morcegos passavam sobrevoando, onde ela está? Por que tive esse pesadelo? Será o reflexo do que mais me atormenta? "Este cogumelo ilumina nosso sonho como um sol da verdade..." Lembro-me de Arale dizer isso um pouco antes de eu adormecer. Não posso me arriscar, vou aguardar por ela aqui, as coisas dela estão aqui. Ela não deve ter ido longe e logo mais irá amanhecer, assim espero.
Eu sei que eu não deveria ter saído daquela área segura, mas algo me apertava o peito, como um tipo de ansiedade ou premonição. E se ela não voltar? Impossível, ela jamais me largaria… Como eu pude confiar tanto e tão rapidamente nela? Será que ela sente o mesmo? Acho que sim…
Caminhei um pouco pela mata adentro, seguindo alguns vagalumes e sons de coruja, até que avistei um clarão intenso e dourado. Corri mais adiante, me esgueirei entre os arbustos, escondida eu espiei, lacrimejei naquele instante, por quê?
Arale estava ajoelhada com uma expressão furiosa e sangue escorria do canto de sua boca. Um dos olhos estava com um hematoma. Algumas partes de sua veste estavam bastante sujas e rasgadas. Ela estava com um tipo de camisa branca de linho, ensopada de sangue, e um tipo de sutiã medieval que mantinha seu busto suspenso, além de uma calça marrom de couro cor de terra; seus braços estavam presos por um tipo de teia, que parecia ser feita de um miasma roxo e prateado.
A criatura a sua frente era um tipo de aranha mesclada a um corpo de uma mulher que exalava sensualidade e beleza, mas se deformando para uma forma grotesca, com patas horrendas e diversos olhos. Ela ria enquanto emitia um tipo de grunhido.
Lentamente caminhei para perto de Arale, foi então que avistei seu machado caído próximo de meus pés. O que devo fazer?
Não podia pensar demais. Percebi que suas orelhas felinas sentiram minha presença, então corri e peguei seu machado, era muito mais pesado do que eu imaginava, e com toda a minha força e energia restantes, o arremessei em sua direção, gritando:
— ARALE!
Ela olhou rapidamente com aqueles belíssimos olhos de tigre dilatados e soltou um tipo de rugido, liberando uma força descomunal que estourou as teias que a prendiam. Correu de quatro, impulsionando-se com seu braço metálico e agarrou seu machado de forma artística e acrobática. Tudo isso ocorreu em questão de segundos, meu fôlego e meus olhos não conseguiam captar. A aranha grunhia furiosa e tentou perfurar Arale no exato momento em que ela pulou, com uma de suas patas aracnídeas. Eu fiquei boquiaberta. Arale encravou o machado bem no meio da testa da aranha-mulher, que se debatia loucamente enquanto Arale regozijava. A criatura sangrou e derreteu em sua frente. Arale cambaleou. Corri e então a agarrei. A máquina de escrever de ossos, mesmo distante, disparou um raio cósmico, transformando aquela batalha em um pergaminho de sangue. Minha segurança e companhia o agarrou no ar e o recitou:
“Ela é silente, embora um parco murmúrio verta de suas duas bocas horrendas e escuras. Seu corpo é feito de tensões e pele, com dezenas de aberturas como vértebras cervicais. Em seu tórax resiste, aglutinado em pele e tendões, um tipo de crisálida, cujo nervo principal advém do que deveria ser a genitália da criatura. Parece guardar algo que pulsa e respira… é como um ventre. A criatura conduz-se em correntes, as quais parecem unificadas à sua pele, e seus dedos retorcidos e desproporcionais assemelham-se à forma como ela caminha, sempre retorcida, com a coluna para o lado. É bastante silenciosa quando não é vista; quando pretende atacar, seu murmúrio distante se transfigura em um eco seco e gutural que, ainda assim, somente sua vítima pode escutar — o que significaria que Morggore, seu criador, está bem próximo... É uma criatura inteligente e alimenta-se de medo e dor.
Não é essencialmente forte.
Gera pavor e exala repulsa, levando suas vítimas a uma crise de desespero dilatado, com doses altíssimas de adrenalina — muitas desmaiam ou têm ataques cardíacos em função do horror que lhes acomete. Se a vítima é racional e cética demais a ponto de não ter o terror despertado em seu âmago, Morggore não aparecerá a esta pessoa.
A criatura desvela-se para quem está só e tem medo. Seu objetivo é causar horror, pavor profundo, nada mais, e ele só aparecerá após a derrota de sua aranha…”
O pergaminho então é selado no prisma esmeralda e engolido pela máquina.
— Mais uma caça para o bestiário... — Arale conclui alegre e com a voz ferida.
— Precisamos cuidar dos seus ferimentos, vamos...
— Não... A prioridade é concluir a missão e lhe entregar a teu destino...
— Como? — Eu insisto.
— Sibila, por favor, não dificulte as coisas...
Quando finalmente percebo, em seu outro ombro, uma espécie de espinho gigante perfurou, provavelmente quando ela pulou...
— Eu precisei pular, pois senão esse espinho pegaria exatamente em você, Sibila...
— Arale... — Emocionada, eu não sabia o que dizer.
— Talvez você não resistisse, então por favor, vamos seguir e concluir o que me pediu...
Retornamos à fogueira. Ela recolheu a máquina de escrever e nossos outros pertences, e seguimos atravessando o local de batalha, chegando ao final da trilha, com dois caminhos e uma placa com duas setas de madeira.
A esquerda dizia: “Séttimor para cima”
E a da direita dizia: “Porto do limiar adiante”
— Eu preciso chegar ao porto, Sibila. Preciso seguir viagem. Tenho uma missão pessoal também, muitas, aliás, mas a prioridade agora é eu encontrar Allant Elirrahz...
— Infelizmente não conheço... — Eu digo, magoada.
— Imaginei, não tem problema. Aquela aranha era um Yokai, eu caço essas criaturas também. Ela era um filhote da criatura que estou buscando...
— Que criatura? — Pergunto, curiosa e óbvia.
Arale arfa, respira fundo enquanto tenta limpar o machado, e insisto para me deixar fazer um curativo. Ela concorda, enquanto me conta o relato que ouviu...
Sentamo-nos na beira de um lago com pedras ornamentadas pela natureza, onde pobres peixes marinhos lançados pela maré tentavam retornar ao mar, e então Arale começa a me recitar o que um pergaminho anterior ao de hoje, pertencente a uma antiga caçadora, havia transmitido para ela junto de sua máquina:
“A tecedeira dos destinos funde a noite de três véus, onde o pavor tece sua própria carne. Onde a beleza murcha, se funde à abominação, e a aranha vira ventre, e o ventre respira pavor. Chamam-na de Jorōgumo, a que ceifei com sua ajuda. Dizem as lendas, nas aldeias tomadas por brumas, mas há os que sussurram outro nome também, sua extensão, Morggore, num sussurro empedrado, como se cada sílaba fosse uma pedra enfiada na garganta. Jorōgumo, rebento de Morggore, é criação direta de seu abismo, uma continuidade de sua essência, feita da mesma teia de terror e desejo.
São dois nomes para o mesmo presságio. Uma entidade de dupla essência, dualidade profana. Ela não seduz apenas com beleza, nem assombra apenas com horror. Ela engravida o medo com desejo e pare o desespero em silêncio. Sob sua pele, o que um dia foi seda tornou-se membrana viva, espessa e pulsante, como o ventre de uma estrela negra prestes a explodir. Seu corpo, uma fusão de tensões arcanas e biologia renegada, se contorce como quem dança para os deuses errados. A teia que antes enredava corpos, agora costura a realidade com o irreal.
No centro de seu tórax, onde um coração humano repousaria, pulsa uma crisálida feita de tendões e ossos fundidos, um feto de horror onde habita o que não deve nascer. De lá, nervos escorrem como raízes em solo maldito, fundindo-se à sua genitália necrosada, a boca original de onde vieram os enganos e os lamentos. Jorōgumo-Morggore anda em correntes. Elas não a prendem. São parte dela. Rangem como dentes velhos roçando um ao outro, rangem em harmonia com seu andar desfigurado — uma dança espasmódica e lateral, como um réptil esquecido tentando lembrar como era ser mulher quando o ataque se aproxima… o mundo silencia. O murmúrio, aquele mesmo som que se assemelha ao soluço de uma criança afogada em pesadelo, emerge apenas para os ouvidos da presa. É íntimo. Como um segredo sussurrado no exato momento da morte. Nenhum outro ouve. Nenhum outro vê.
Ela não é essencialmente forte — não quebra espadas, não fere com garras flamejantes. Mas penetra na alma com agulhas feitas de lembranças do que poderia ter sido. Morggore alimenta-se de medo não como uma besta faminta, mas como um sacerdote ancestral em comunhão com o terror alheio. Ela oferece um culto sensorial: taquicardias, desmaios, suor frio, a orquestra do pânico. E quando a vítima enfim ruir, ela recolhe não o corpo, mas a experiência. O horror. O grito que não saiu.
Aqueles que são céticos, que não creem em assombrações, jamais verão Morggore. Ela não os deseja. Não por desprezo, mas porque ela é um reflexo do medo espelhado na alma de quem caminha só. Ela é necessária apenas para os que se esvaziam ao anoitecer. E mesmo os bardos, aqueles que tentam cantá-la, jamais a nomeiam em voz alta. Preferem rabiscar em pergaminhos apócrifos, trêmulos, ou soletrar de trás para frente, esperando que a noite não ouça. Pois onde o pavor dorme, Morggore desperta. E onde o desejo espreita, Jorōgumo sorri. Nas sombras onde os fios do mundo se cruzam, ela reina. Invisível como o vento, paciente como a noite.
Nas crônicas esquecidas que os bardos sussurram ao pé do fogo, nas estepes cobertas de neblina do Oriente antigo, fala-se da Jorōgumo, a aranha encantada que urde tanto o destino quanto o desejo. Criatura dos véus e dos enganos, seu nome ecoa como um sussurro em corredores de madeira velha e bosques silenciosos. Não é mera fera, tampouco um espírito errante; é lenda viva, entidade ambígua que transita entre o divino e o maldito. Com o torso de uma donzela de beleza hipnótica e o abdômen de uma aranha colossal, seus olhos negros não revelam emoção, apenas fome disfarçada de ternura. Quando ela caminha, o chão não a ouve. Quando ela canta, o coração vacila. Sua voz é doce como sake quente sob a chuva, mas cada palavra é um laço, cada sílaba uma seda venenosa. É ela quem embala guerreiros solitários em promessas de consolo. É ela quem espera, imóvel, sob os salgueiros tortos, onde a luz hesita em entrar.
Na arte ancestral do engano, Jorōgumo é mestra. Convida com o olhar, enlaça com os cabelos, prende com as pernas. Seus fios, de prata lunar e toque mortal, não são apenas armadilhas físicas, mas malhas de ilusão e encantamento. Os homens que nela confiam não morrem apenas: desvanecem, tornam-se ecos presos entre as fibras de suas teias, murmurando eternamente entre a seda e o silêncio. Alguns dizem que é uma maldição, que uma aranha comum devorou tantos corações que o próprio kami da enganação lhe concedeu forma humana como prêmio. Outros creem que ela é a guardiã de passagens esquecidas entre mundos, cobrando pedágios de paixão e sofrimento.
Como os espectros dos túmulos antigos, ela não busca redenção. Ela observa, eternamente à espera de mais uma alma cansada para envolver em seu casulo de promessas. Pois onde a espada falha e a palavra fraqueja, Jorōgumo triunfa com um sorriso. E se a encontrardes, não lutem, não falem. Apenas corram. Ou rendam-se à poesia de seu abismo.”
Eu estava horrorizada e impressionada, tudo fizera sentido, era por isso que todos que encontrei estavam em choque ou tremendamente assustados com ela, será? Com os olhos marejados, perguntei:
— Isso é uma despedida?
— Por ora, sim, minha cara companheira. Siga este caminho, será seguro.
— Muito obrigada, vou lhe pagar…
— Não precisa. O que preciso é apenas chegar ao porto e, de lá, a vida me levará para os mares do limiar. E lá, quem sabe, encontrarei o que procuro…
Nos abraçamos forte, como se ambas não quisessem, de coração, se separar.
Arale seguiu firme pelo caminho em direção ao porto. Eu fiquei admirando-a e, então, segui para o meu destino. Quando, novamente, olho para trás, vejo, na neblina que a noite trazia, Arale desaparecendo de minha vista. Olhei para o alto e suspirei cansada, mas esperançosa e grata:
— Séttimor, estou chegando.
As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
5 - Séttimor
Minha cabeça dói exacerbadamente. Não sei por quantas horas dormi — só sei que gostaria de ter permanecido lá, mesmo que isso significasse a morte…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Minha cabeça dói exacerbadamente. Não sei por quantas horas dormi — só sei que gostaria de ter permanecido lá, mesmo que isso significasse a morte. Afinal, seria a morte ao lado de Sibila.
Nunca tivera um sonho como aquele, tão real: primeiro, aquele cheiro de lavanda infestando todo o local; depois, Lieran, aquele jovem portando uma chave dourada enorme, se dizendo guardião de um portal onírico. Mesmo imerso naquele mundo, algo em meu íntimo sussurrava que aquilo não era real — até Lieran surgir, segurando com sua mão esquerda uma chave dourada enorme, presa a um cordão grosso ao redor do pescoço.
Eu tinha uma simpatia silenciosa pelos canhotos — pareciam esquecidos pelo mundo, como produtos com um leve defeito de fabricação — assim como eu. Pois bem, até que ele girou a chave em uma espécie de fechadura invisível, a mão esquerda no ar.
Então, uma enorme porta se abriu. Do outro lado, um imenso campo tomado por uma relva verde e baixa. Ao cruzar a porta, olhei para as minhas mãos e já não eram enormes e esverdeadas, eram brancas e macias. Corri em busca de algo que espelhasse o meu reflexo, e Lieran prontamente me estendeu um espelho. Ao mirar o objeto, vi um rapaz de cabelos loiros e feições simetricamente perfeitas, lábios rosados e dentes alinhados e branquíssimos. Mas o olhar — esse eu reconheci — era o meu próprio reflexo. Eu não podia explicar, mas sabia que era eu mesmo! A cor dos meus olhos não mudara, continuavam sendo tristes e da cor âmbar, como se tivessem sido tomados por uma doença oculta. Eu sempre achara que meus olhos tristes eram ecos da morte, de onde eu nascera, já que eu era feito de partes de diversos cadáveres.
Lieran me explicou, então, que naquela dimensão era possível ter a própria aparência alterada pelo simples fruto de nossos desejos e também devido ao que o nosso interior refletia. Então ele me fez adentrar ainda mais. Caminhamos através da paisagem em silêncio até chegarmos à beira de um precipício. Então ele anunciou, como um anjo que guardava as sombras do meu coração saudoso, que traria ela:
— Eu sou Lieran, guardião do primeiro umbral de Somníria — um local além do tempo e do espaço, onde seres podem descansar da própria realidade ou mergulhar mais fundo nos próprios medos e pesadelos. Eu porto a chave para um portal: o sonho da pessoa com quem mais você precisa conversar agora.
Então me sentei ansioso, aguardando que ele a trouxesse. Quando eu a vi, tentei esboçar o sorriso mais genuíno de todos, como quem tenta esconder uma rachadura profunda com uma camada fina de verniz. Eu queria ser perfeito aos olhos dela. Pedi para que se sentasse e apreciasse a paisagem comigo, tentando manter a voz firme, apesar do coração descompassado. Ela caminhava com elegância silenciosa, envolta por um manto branco que cintilava sutilmente, adornado por bordados dourados e vermelhos em forma de dragões orientais — criaturas que pareciam mover-se a cada passo seu, como se vivos estivessem no tecido. Com um gesto calmo, ela retirou o manto e o dobrou com cuidado antes de se sentar ao meu lado, como se aquela cena merecesse respeito e solenidade.
Seus olhos, de um verde claro quase âmbar, refletiam algo que eu não saberia nomear: curiosidade, apreensão, talvez uma antiga solidão. Sua pele, tão branca quanto a luz filtrada por nuvens densas, parecia fria ao toque, mas transmitia uma serenidade perturbadora. Os cabelos castanhos, ondulados e presos com perfeição num penteado elaborado, emolduravam seu rosto com uma beleza sóbria. Pequenos brincos de pérola reluziam sob a luz suave do sonho. Quando ela falou — "Sinto que o conheço, porém nunca o vi em toda a minha vida..." — sua voz carregava um tom grave e suave; suas palavras derreteram minh’alma. O batom, um laranja pálido, parecia destoar levemente do restante, como um sopro de cor numa figura fantasmagórica. E, ainda assim, tudo nela era beleza para mim. Alta, esguia, o corpo quase reto, sem as curvas tão endeusadas por outros — para mim, era a imagem da perfeição. Uma perfeição não óbvia, que me fazia querer protegê-la do mundo — e de mim mesmo.
Ah, foi tão perfeito poder conversar com ela... eu nunca ouvira a sua voz, pois sempre a observei de longe. Era muito mais bonita de perto, muito além do que eu imaginara. Seu perfume, um bálsamo para a minha alma animalesca e solitária, que ansiava por aquelas notas frutadas com um fundo de canela, sempre acalmavam meus pensamentos conturbados. Agora, sentado à beira desse catre sujo e frio, cheirando à bebida, percebo que fora só um sonho, fruto do delírio e desespero que sinto após o seu inexplicável desaparecimento.
Ainda com a cabeça latejando, permaneço deitado por alguns minutos, tentando estender aquela sensação de paz que o sonho me proporcionou. Fecho os olhos, buscando o som da voz dela, tentando resgatar o aroma do perfume, mas tudo o que me resta agora é o gosto amargo do álcool e o frio que emana do chão de pedra sob minha cama improvisada. Sibila... seu nome ecoa em mim como uma oração que perdeu a fé, como um eco em um templo abandonado. Preciso encontrá-la — não importa como, nem o que custe. A ideia de tê-la visto em sonho só serviu para reacender em mim uma certeza: ela ainda está em algum lugar, e eu não descansarei até encontrá-la.
A ideia me pareceu insana à primeira vista, mas foi se assentando na minha mente como um sussurro cada vez mais convincente. Forjar documentos. Eu sabia que, se quisesse entrar na antiga casa de Viktor Frankenstein — patrimônio agora sob custódia do Estado prussiano —, precisaria de uma justificativa legal forte. Bastaria alegar ser seu filho ilegítimo, fruto de um relacionamento secreto mantido nos anos de juventude, antes de sua ascensão como referência na comunidade científica internacional. Para isso, bastou uma combinação precisa de papéis envelhecidos artificialmente, um diário falso com entradas forjadas sobre uma suposta mãe desconhecida, e uma certidão de nascimento modificada. Com o apoio de um velho conhecido que devia favores e que conhecia os atalhos do sistema burocrático da Prússia, consegui o suficiente para enganar as autoridades locais. Ninguém ousaria duvidar de um documento bem selado, ainda mais quando carregava o nome de Viktor Frankenstein.
Após ludibriar as autoridades locais e portando as chaves do casarão onde Viktor escondia sua figura torpe, dirigi-me para lá sem demora. A chave girou com dificuldade na fechadura enferrujada, como se a própria casa resistisse à ideia de ser violada. Ao empurrar a porta, um rangido grave ecoou pelos corredores escuros, trazendo à tona o cheiro penetrante de formol que eu sempre sentira do lado de fora, mas que era imperceptível por aqueles que não eram iguais a mim.
Adentrei mais e mais os cômodos da casa. No primeiro e no segundo andar não encontrei nada que me levasse até ela. Visitei o que provavelmente fora o seu quarto e não encontrei nada relevante. Parecia que ela havia partido com muita pressa, pois não levara seus pertences. A escova de cabelo ainda repousava sobre a penteadeira; fios castanhos brilhavam sob a luz pálida que penetrava o recinto. O frasco de perfume repousava ao lado da escova. Eu o abri e borrifei alguns jatos no ar, enlevado pelo momento mágico que era estar onde ela vivera anteriormente. Me flagrei imaginando que tipo de relação eles tinham. Mentor e aluna? Pai e filha? Amantes? Captor e refém?
Será que Sibila e Viktor eram cúmplices, ou será que ela era apenas uma vítima daquele cientista obcecado por suas próprias ambições? O que importa isso agora, já que procuro ecos de alguém que já partiu... Não, ela não está morta, não posso aceitar isso. Tenho que encontrá-la de alguma forma. Os armários estavam cheios de roupas femininas, mas nenhuma eu a vira usando. Será que eram os vestidos das vítimas que ela desovava no rio? A cama era de solteiro, tinha uma fronha cor de rosa que eu decidi levar comigo. Ainda conserva o odor de sua pele misturado à deliciosa fragrância do seu humilde perfume.
Após procurar pelos dois andares em busca de pistas e sem sucesso, decidi olhar o porão. Desci as escadas de pedra com cuidado; uma espécie de suor tomava as paredes. O ar condensara-se, pois ali era mais quente do que o frio do inverno que tomava o exterior da casa. Não havia janelas no porão, o cenário perfeito para esconder as atrocidades que Viktor fazia ali. Um vazio pesava em meu estômago. Era engraçado pensar que, apesar de ser uma criação, eu me assemelho em muitas coisas aos humanos — sentir medo era uma delas. Que segredos sórdidos eu descobriria naquele local?
Comecei por vasculhar todas as gavetas de uma escrivaninha — eram seis no total. A última estava emperrada, mas não fora um grande empecilho para mim, já que eu sempre fui mais forte do que a maioria dos humanos. Após abri-la, o seu conteúdo revelou um caderninho de capa de couro marrom surrado, parecia ter sido extremamente manuseado. O seu interior trazia anotações e mais anotações sobre anatomia humana, alquimia e estudos sobre o que Viktor nomeava de “Ciência Oculta”. Uma frase anotada na contracapa me chamou a atenção: “testes com tecido neural feminino mais recente apresentaram reações promissoras. A transferência deve ocorrer antes do segundo dia. Ainda creio que o corpo dela possa recebê-la.”
Além do travesseiro de Sibila, decidi levar aquele caderno comigo. Folheando-o, percebi que da metade para frente o cientista começara a escrever em uma língua desconhecida para mim. Havia glifos e símbolos estranhos anotados nas margens. Em uma das páginas ele desenhara um castelo à luz da lua. Ao longe, ainda nas proximidades do castelo, ele também rascunhara o que parecia ser uma vila. Embaixo estava escrita a palavra Séttimor. Um lugar? Um código? Por que esse nome me dá arrepios mesmo sem eu saber por quê? Guardei o caderno em meu bolso. Poderia voltar a examiná-lo mais tarde, quem sabe descobrir que língua era aquela.
No laboratório havia muitos frascos, alguns com cores fortes, como vermelho-sangue e azul-petróleo. Outros, pálidos, com líquidos espessos que lembravam leite coalhado. O ambiente estava estranhamente asseado. Passei a mão por algumas bancadas de trabalho — não havia pó... a sensação de esterilidade era pungente. O cheiro de formol era extremamente intenso, fazia minhas narinas e olhos arderem. Passeei em frente a alguns frascos. Muitos conservavam partes de animais em formol. Mas, à medida que caminhava, a visão se tornava mais opressora ainda.
Havia cerca de trinta vidros, todos com etiquetas de nomes de mulheres: Eleanor, Ema, Gema, Ava, Rose... De quem eram todos aqueles nomes? Tomado por uma estranha compaixão repentina, passei as pontas dos dedos por cada rótulo, desconfiado de que aquilo era o mais próximo de uma lápide que aquelas almas femininas teriam direito. Quantas? Quantas vidas ele apagou para cumprir essa obsessão? E Sibila... onde entra nisso tudo? Todos estavam vazios. O que será que ele planejava guardar ali? Ou será que Sibila ocultara o conteúdo antes de desaparecer? O que Viktor estava tentando fazer?
Continuando minha busca por pistas que me levassem até o paradeiro de Sibila, tateei por cima de uma prateleira com mais substâncias para experimentos. Encontrei alguns papéis amarelados com desenhos dele. Eram estudos de anatomia feminina, continham infindáveis anotações e respingos de sangue seco por todos os papéis, mas, ao contrário do caderno, tudo estava compreensível. Parece que ele estava tentando recriar o meu experimento, mas, desta vez, ao invés de partes de cadáveres, ele precisava encontrar uma vítima que recém tivera perdido a vida — algo muito difícil de conseguir de forma natural... Céus! Viktor, o que tramava? Qual era a natureza da relação deles? A julgar pelas diversas vezes que eu observara Sibila jogando sacos nos rios madrugada afora, os experimentos dele não iam nada bem, mas ele estava obcecado em obter sucesso, visto que não tivera escrúpulos nem respeito perante a vida.
Em uma das paredes do laboratório havia um retrato de uma mulher cujo semblante eu conheci bem — era a falecida esposa do velho cientista. Ela tinha olhos e cabelos pretos, pele extremamente clara, uma expressão preocupada e séria, como se estivesse assistindo a um momento solene. Retirei o retrato da parede. Atrás dele algumas palavras haviam sido rabiscadas com caneta tinteiro, em uma letra elegante:
“Quero que guarde esse presente como recordação do amor que sinto por você, Viktor. Faça somente isso, após a minha partida. Não se prenda a mim, viva a sua vida em toda a sua plenitude. Quero saber das suas aventuras quando me encontrares no além-vida!
Elizabeth Frankenstein.”
Ao que parece, Elizabeth sabia das intenções de seu esposo após a sua morte. Acho que ela foi uma grande mulher. Recoloquei o quadro na parede. Quando já estava me retirando daquele lugar triste e mórbido, pensando que já tinha vasculhado tudo — ao menos o suficiente para aquele dia, pois eu pretendia fazer mais buscas na casa que agora me pertencia —, o retrato que eu acabara de recolocar caíra no chão.
Ao me abaixar para juntá-lo, o caderno de Viktor escorregou do meu bolso e, ao cair, revelou uma folha rasgada e rabiscada com uma letra cursiva diferente da de Viktor. Nela estavam escritas as seguintes palavras: “...eu nunca quis participar daquilo, Viktor. Não era isso que prometemos. Eu tentei ajudar, mas agora... os olhos delas me perseguem.” Desconfio que esse papel é fragmento de algo que Sibila escrevera para Viktor.
O que será que prometeram um ao outro? Que tipo de relação doentia eles mantinham? Séttimor... esse nome ecoava em minha mente como um prenúncio. Algo me dizia que minha jornada estava longe do fim. E, por mais que abominasse o que Viktor fizera, não podia ignorar o que agora crescia em meu peito. Viktor, agora, não me parecia ser tão moralmente errado. Assim como ele, eu desejo ardentemente algo, reencontrá-la, e... sim, eu mataria por ela.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
4 - Prazer, meu nome é Marcos
Após vagar durante anos, aprendendo tudo que eu podia a respeito da humanidade e de seus costumes, eu já tinha a maestria de caminhar…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Após vagar durante anos, aprendendo tudo que eu podia a respeito da humanidade e de seus costumes, eu já tinha a maestria de caminhar entre as gentes, sem ser notado. Na verdade, abandonando o medo que eu tinha de ser descoberto, após os anos iniciais que se seguiram à minha criação, eu descobri que isso era bem fácil: o segredo de não chamar a atenção residia em justamente ser pobre e sem sucesso, as pessoas não querem ser pobres, mas menos ainda dispensar atenção a quem precisa, estando muito ocupadas com seus próprios destinos. Então me vestia com trajes andrajosos, com capa escura e nunca ousei revelar meus verdadeiros talentos, afastando conscientemente o sucesso de mim.
Talvez, quando essas palavras forem lidas por alguém, após a minha morte, achem o que escrevi acima pretensioso e arrogante demais; mas a verdade é que certamente eu faria sucesso no campo ao qual eu dediquei os meus estudos. Tudo o que é belo me fascina, que melhor lugar para expressar o meu fascínio do que uma folha de papel para acolher as minhas palavras? Ou uma tela a óleo para dar vida às mais belas imagens formadas pela minha imaginação? Se exteriormente eu talvez seja uma aberração, em minha alma, se é que a possuo, a arte pulsa e se desenvolve com toda a força e beleza da qual é digna. Aqui eu sou um ser belo, dotado de sensibilidade, amor e carinho por tudo que é sagrado, por tudo que considero belo, de forma que não me defino como monstro e me considero muito mais humano do que alguns ditadores que circulam por aí.
No entanto, viver dessa forma, embora fosse seguro para mim, não era de forma alguma satisfatório. Havia dias em que permanecia enclausurado em um casebre que eu mesmo construí, apenas pintando e me alimentando de restos encontrados no lixo e animais que eu mesmo caçava. Estava farto de apenas ter interações fugazes, tendo que disfarçar minha voz, minha aparência, queria poder me relacionar em nível mais profundo com alguém, dividir meus pensamentos, ter minha arte admirada. Apenas exibir minhas telas nas feiras de verão e conseguir algum trocado ou outro para sobreviver ou enviar poesias de forma anônima para os folhetins locais não estava mais preenchendo meus vazios existenciais. Eu precisava desesperadamente que alguém me amasse, que apreciasse o fato de eu existir. Eu ansiava por algo a mais, foi então que decidi, após muitos anos sem vê-lo, procurar o meu criador e implorar por ajuda para mudar a minha aparência. Eu não precisava de compaixão e comiseração da parte dele, eu precisava apenas de ajuda para ter uma existência mais digna.
No entanto, enchi-me de cautela e, apesar de saber o paradeiro de Viktor, pois sempre o acompanhei de longe, decidi vigiar a sua casa durante alguns dias antes de recorrer à sua ajuda, já que o meu criador, desde o início, nunca demonstrara simpatia ou sequer interesse pelo meu paradeiro; supus que a minha volta seria um incômodo. Acompanhando as descobertas que ele fizera no campo da medicina, desconfiava que agora ele finalmente poderia fazer algo com relação a minha aparência disforme. Rondei a fachada de sua casa por dias a fio. Era feita de pedras cinzentas que contrastavam com as luzes amarelas e quentes que permaneciam acesas durante a noite no andar inferior. Eram raros os dias em que aquelas luzes não eram acesas, e eu inferi que ali deveria estar o laboratório dele.
De início, me surpreendi ao constatar que ele dava abrigo a uma jovem que estudava na Universidade na qual ele trabalhava como professor. A diferença de idade entre ambos era grande, mas eu sabia que não era sua filha. Lera sobre a morte de sua esposa nos jornais e, para falar a verdade, me regozijei com a notícia. Quem sabe agora ele soubesse a tristeza que era viver completamente só. Quis ter raiva daquela jovem por isso, mas a verdade é que, desde o primeiro momento em que minhas retinas tristes e amareladas tocaram aquele ser puro, sua imagem de perfeição ficou atada à minha mente.
Ela tinha lindos cabelos castanhos, sempre presos de forma displicente, mas ainda assim encantadora. Seus olhos eram verdes claros e ganhavam tons amarelados ao sol, o que era uma pena, pois geralmente eu a observava à noite, escondendo minha aparência horrenda de seus olhos inocentes e tristes. Também pude deduzir que ela não era da aristocracia: seu melhor vestido era sempre o mesmo, um azul royal com delicados detalhes em renda branca.
O que me chamara atenção nela, de início, foi sua aura inocente e determinada. Era perceptível sua paixão pelo conhecimento, pois não faltava um dia sequer às aulas na faculdade. Às vezes acompanhava Viktor em uma carruagem, outras, seguia a pé, fizesse chuva ou sol.
Com o tempo, sem atingir a coragem necessária para interpelar o cientista, observá-la de longe tornou-se meu passatempo predileto. Mas logo percebi que ela tinha um estranho hábito. Sempre que botava o lixo para fora, fazia-o usando botas e luvas de açougueiro, muitas vezes durante a escura e fria madrugada.
Apesar de ser dona de um corpo franzino e desprovido de curvas femininas, eu a admirava e me surpreendia ainda mais com a força oculta que revelava ao arrastar aqueles sacos até o rio Spree. Depois, voltava para casa correndo e—o mais estranho—sempre em prantos, desde a primeira até a última vez em que a observei.
Certa vez, após ela abandonar os sacos no rio, em vez de segui-la para admirá-la por mais alguns minutos e protegê-la na volta para casa, mergulhei nas águas frias, movido por um impulso febril: queria resgatar o conteúdo do lixo que ela jogara fora. A ideia me pareceu estranha e obsessiva no começo, mas quando emergi com um dos sacos e o rasguei sob a luz trêmula da lua, soube que fizera o certo. O que vi me encheu de horror. Eram restos mortais de diferentes corpos femininos.
Dentro do saco, havia a cabeça de uma jovem ruiva—uma estudante, reconheci-a de uma das classes para as quais o velho lecionava. Também havia um torso nu, um corte reto e profundo no peito, suturado com o cuidado meticuloso de um louco embebido na própria psicopatia. Para completar o horror da cena, distingui um braço e uma perna, cobertos por sangue e vísceras já começando a se decompor na água turva. No fundo do saco, algumas pedras pesadas, para esconder o crime da qual ela era cumplice.
Inexplicavelmente, soube que ela não era responsável pelas mortes. Estava ajudando Viktor a escondê-las. Por quê? Eu ainda não sabia, mas tudo o que conhecia daquele homem me levava a crer que ela estava sendo manipulada, enredada por aquela mente doentia. Então meu objetivo mudou.
Em vez de procurar Viktor para que ele me ajudasse a mudar minha aparência, passei a querer, com ardor insuportável, salvá-la dele. Mas demorei demais. O último saco que abri foi o último que ela descartou. Depois daquela noite, nem ela nem Viktor saíram de casa outra vez.
Alguns dias depois a casa de Viktor fora arrombada, seu corpo putrefato fora encontrado em sua cama. Fazia dias que estava morto. Os jornais não mencionaram a presença de Sibila na casa, mas o seu sumiço se quer foi notado. Nem pelos familiares dela e nem pela faculdade na qual ela estudava. Tive a impressão de que eu era o único ser na face da terra que notara o seu desaparecimento. Movido pelo amor que eu já sentia, mesmo sem ter trocado uma palavra se quer com ela, pesquisei sobre a sua vida pregressa e descobri nos arquivos da faculdade que ela era estudante de medicina, órfã de pai e de mãe. Era muito admirada por Viktor e pelos professores da faculdade, que após o falecimento dele, acharam que ela tinha retornado para o campo, visto que era Viktor quem financiava os seus estudos. Então confirmei as minhas suspeitas que eu era o único que sabia o seu desaparecimento.
Rondei a casa de Viktor durante aproximadamente um mês, mas não obtive resposta para a angústia que invadia a minha alma. Até então, não me apercebera do quanto estava ligado a ela; só agora, que não podia mais admirá-la, é que sentia profundamente a falta que ela fazia. Passei a pintar telas com a sua imagem, compulsivamente. O casebre que eu ocupava estava tomado por telas e mais telas com retratos dela. Em uma delas, dei asas aos meus desejos não realizados: se, na vida real, eu não pudera tê-la em meus braços, na arte eu a teria. Pintei-a em seu clássico vestido azul royal, com lavandas ornando os seus cabelos, acrescentei a mim mesmo na pintura, com trajes de cavalheiro. Me dei cabelos loiros e bem cortados, a aparência de um deus, tão belo quanto Apolo. Eu inclinava o seu tronco, na iminência de um beijo. Ao redor, o que de mais belo existia no mundo, não o cinza e a fuligem que o número crescente de fábricas estava dando às cidades, mas sim um vasto e verdejante campo.
Enquanto eu pintava, sentia-me reconfortado, mas, ao terminar a pintura, uma ideia sombria me passou pela mente: e se Sibila fosse apenas a materialização do meu desejo por amor? Seria isso possível? Será que todas as vezes em que a vi e os arquivos que pesquisei posteriormente seriam apenas meras invenções de uma mente já conturbada pela solidão e pela carência extremas? Enlevado por esses tipos de pensamentos, destruí a tela que eu acabara de pintar e decidi vagar pela cidade, para me distrair e, quem sabe, esquecê-la nos braços de uma prostituta que se importasse mais com o dinheiro do que com a minha aparência.
Coincidência ou não, consegui encontrar uma que concordou em me atender. Mas simplesmente não consegui completar o ato, pois, ao adentrarmos a alcova, vi o rosto de Sibila ao invés do da senhora que me atendia. Persisti, e, ao nos deitarmos, a visão do rosto dela se intensificou. Ela tinha um olhar de súplica e julgamento. Soltei um grito de horror que assustou a mulher e a despertou de seus movimentos mecânicos. Me desculpei, paguei por seus serviços e corri em carreira desabalada até o meu lar.
Ao chegar em casa, revi as telas que pintara de Sibila. A tela destruída gritava em silêncio, uma condenação implacável: eu nunca poderia tê-la. Tudo fora apenas um sonho, uma ilusão minha. De repente, algo dentro de mim se partiu. Não sabia mais o que era real ou o que era fantasia, mas a certeza de que algo em mim estava sendo consumido por uma força que eu não compreendia se tornava cada vez mais clara. Eu destruíra a pintura, mas ela, de alguma forma, já estava dentro de mim, imortalizada de uma maneira que nenhum pincel ou tela poderia apagar. E foi aí que a verdadeira angústia se instalou: eu já não sabia mais se desejava encontrá-la ou se temia a ideia de que ela fosse apenas uma criação da minha mente, uma sombra de algo que jamais deveria ter existido.
Desesperado, comecei a beber, tentando entorpecer os sentidos e a mente, sem encontrar uma explicação lógica para o que eu sentia e para o que achava que havia presenciado. Foi quando, exausto da bebedeira, me deitei na cama solitária. O travesseiro parecia ter o perfume dela misturado ao de lavandas, um cheiro que eu não sabia se era real ou fruto do delírio. Fechei os olhos, e, apesar da névoa do álcool em minha mente, uma sensação de premonição me envolveu. Algo estava prestes a acontecer. Algo mágico. Algo que eu não podia controlar. Ao longe, uma voz masculina e jovem chamava o meu nome:
— Marcos! Marcos! Bem-vindo ao mundo dos sonhos.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
3 - Velório Penumbral
Faz alguns dias que tive um sonho com Marcos, a criatura de Frankenstein. Tenho me sentido só neste castelo imenso. Ao circular por aí, tenho visto…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Sibila von Lichenstein
08 de outubro de 1870
Faz alguns dias que tive um sonho com Marcos, a criatura de Frankenstein. Tenho me sentido só neste castelo imenso. Ao circular por aí, tenho visto outros habitantes, mas a minha vida ensinou-me que o perigo espreita em cada esquina, com a morte logo atrás. Por isso, escolhi não conversar com ninguém, preferindo apenas os observar à distância. Claro que, com o passar dos dias, já me sinto mais habituada a esta nova morada; porém, ainda não faço ideia do propósito de minha chegada aqui.
Explorei os incontáveis cômodos, perdendo-me na sucessão interminável de salas. O único local que tenho mais facilidade para encontrar é a biblioteca. Tenho lido os volumes que estão na minha língua natal; acho que faço isso porque sinto falta da Universidade, embora ela me lembre muito minha amiga Eleanor.
Hoje, no entanto, o castelo parecia diferente, como se carregasse um peso invisível que refletia o meu próprio. Algo no ar estava mais denso, os detalhes familiares pareciam ter adquirido contornos mais sombrios, e um sutil arrepio percorria minha pele. O corredor que me levava à biblioteca estava mais longo, vazio, e as paredes pareciam estreitar-se à medida que eu caminhava.
Desde a época que residi com Viktor, habituei-me à solidão. Mas ao perceber que as paredes pareciam vivas ao estreitar-se, desejei ardentemente que alguém aparecesse ou que a porta da biblioteca aparecesse logo para me tirar daquela espiral opressora, sabia que os livros poderiam guiar os meus pensamentos por outros caminhos, quem sabe até o campo verdejante onde encontrei Marcos. Comecei a sentir um cheiro peculiar de velas acesas. Avançava devagar, os passos ecoando como um sussurro de algo vivo, algo que espreitava nas sombras. O tecido de minhas vestes roçava contra minha pele, áspero, pesado. Não era o vestido de sempre; havia algo de errado. A sensação de que algo estava fora de esquadro fez meu peito oprimir-se, dando-me a impressão de que havia um peso enorme sobre ele, dificultando minha respiração.
Um pensamento intrusivo fez-se presente: "Deus, sendo justo, permitiria que eu escapasse impune do que fiz?". Eu sabia que esse tipo de pensamento sempre me atormentaria, desde que comecei a residir com o Viktor, mas agora eles fervilhavam meus miolos, como se os apodrecesse de dentro para fora.
Parei no meio do corredor. Decidi olhar para as mangas de meu vestido, percebi que não era mais o meu costumeiro vestido azul royal, e sim um confeccionado de um tecido negro, áspero e pesado. Tão pesado quanto a culpa que eu carregava pelas mortes de todas as mulheres que eu permiti acontecerem. Olhei para a minha longa saia e ela também abandonara o azul intenso para aderir ao escuro vazio e pesado. Assustada, levei a mão ao rosto. Só então, percebi que elas estavam calçadas com luvas de uma delicada renda negra que continha ricos desenhos de rosas também negras. Meus dedos encontraram um véu — fino, escuro como a noite sem estrelas, um que as beatas costumam usar para cobrir a cabeça em velórios. Era como se o véu não apenas cobrisse meu rosto, mas também todo o meu ser, um símbolo opressivo de luto e culpa que parecia pesar sobre minha alma. Lentamente, dei-me conta do que trajava: o vestido de uma viúva ou carpideira. Quando havia vestido aquilo?
Continuei a caminhar pelo corredor, esgueirando-me, raspando e rasgando minhas vestes pelas paredes estreitadas, até que consegui escapar, estava dentro do salão da grande biblioteca. Eu reconheci o lugar porque já visitara a biblioteca algumas vezes. Mas, assim como o corredor, ela também estava diferente. As janelas longilíneas, adornadas com longas cortinas magenta, permitiam que a luz da lua adentrasse e iluminasse o cômodo.
Nenhum som se propagava, de modo que apenas os meus passos podiam ser ouvidos, quebrando a quietude do ambiente. O cheiro de velas queimando persistia e estava muito mais pronunciado. Logo vi o porquê: vários castiçais de ouro estavam espalhados pelo ambiente. Junto ao cheiro de cera derretida, outros misturavam-se, era novamente o de lavandas, mas também de outras flores, erguendo o olhar pude perceber que além dos castiçais, arranjos de flores enormes e circulares adornavam o ambiente. Além das lavandas, provavelmente colhidas nos jardins do Castelo, grandes rosas negras conferiam morbidez e robustez às coroas de flores.
Eu sabia que estava na biblioteca, mas as pesadas estantes de carvalho que abrigavam os livros — pelos quais eu tanto ansiava, para aliviar a minha mente do seu pesado fardo — não estavam mais lá. Em seu lugar, uma fileira de caixões. Todos estavam fechados, com exceção de um central, cuja tampa repousava em pé, apoiada ao lado e no próprio caixão. Ao me dar conta que eu estava em um velório, e que um dos cheiros que eu sentia misturado às velas e às flores era o de corpos em decomposição, senti o sangue abandonar a minha face. Tive ânsia de vômito, vontade de correr para fora, mas ao me virar notei que o cômodo não tinha porta, apenas janelas e as tão conhecidas paredes frias de pedra. O caixão central, apesar de exercer horror, ambiguamente me atraía, eu precisava saber quem repousava ali.
Privada de outra escolha, comecei a caminhar em direção a ele, no corredor central que os outros caixões formavam. Não ousei olhar para os lados, mas minha visão periférica notou que uma espécie de líquido negro e viscoso estava sendo vertido de dentro deles e escorria pelo chão, em grandes quantidades. O corredor era longo, ou o fio do tempo se esticava? Parecia que, quanto mais eu caminhava, mais longe o caixão central estava. Demorei tanto a alcançá-lo que o líquido negro escorrera pelo chão da biblioteca, molhando a barra do meu vestido e tornando-o mais pesado ainda.
Quando finalmente alcancei o caixão central, algo em meu peito se apertou, como se uma força invisível me impedisse de avançar, como se ao redor de meu coração uma mão o esmagasse e o liquefizesse. O líquido negro ainda escorria pelas paredes, pelas pedras do chão, mas minha atenção estava fixada na madeira escura, polida, que repousava diante de mim. Joguei a tampa do caixão com toda a minha força no chão. Ali, dentro do caixão, repousava ela.
Eleanor. Primeira vítima que atraí para as garras de Frankenstein.
Meu corpo tremia, mas não conseguia desviar o olhar. O silêncio da biblioteca, antes pesado e opressor, agora parecia ensurdecedor, preenchido apenas pelo som de minha respiração, profunda e apressada. O cheiro das flores e das velas se mesclava ao ar denso e pesado de morte. Uma única lágrima escorreu pela minha face, tão fria e solitária quanto eu me sentia. A conversa que tive com Marcos, embora eu soubesse que fora apenas um sonho, me ajudara a lidar com a culpa que eu sentia, me ajudara a teimar em continuar a minha vida. Mas a visão de Eleanor, naquele estado, no caixão, perturbou-me sobremaneira. Martirizei-me, morta por minha culpa, porque eu a atraí para o covil do lobo. Eu simplesmente não suportei olhar para seus cabelos dourados e seu rosto pálido, e debrucei-me sobre seu corpo, finalmente dando vazão à torrente de sentimentos através das lágrimas que brotaram cada vez mais.
Fiquei alguns segundos imóvel ao perceber que o peito dela se movia fracamente para cima e para baixo. Um calafrio percorreu minha espinha quando, ao mirar seu rosto, vi seus olhos abrirem-se lentamente. Ao invés do azul da cor do mar, estavam putrefatos, tomados por vermes. Seus lábios se entreabriram, ela girou o rosto inesperadamente, com um movimento inumano, escutei o som dos ossos de sua nuca rangendo, então ouvi ela dizer, porém seus lábios não se mexeram:
— Você me trouxe até aqui, Sibila! Você me fez fazer parte do seu pesadelo, agora pague o preço!
— Perdoe-me, minha querida. Eu não sabia que Viktor faria o que fez com você. Sinto muito, por favor, me perdoe.
— Eu não posso te perdoar, pois não existo. O perdão reside muito mais no interior de cada um que o almeja do que qualquer outra coisa.
— Como assim, Eleanor? Por favor, eu lhe rogo, tire o peso que está sobre meus ombros! Não posso mais continuar a viver com essa dor que me aflige dia após dia, hora após hora.
— Você quer se livrar da dor, Sibila? — A voz de Eleanor soou fria, quase etérea, como se ela não fosse mais de carne, mas de um espírito vago e inatingível. — A dor que você sente é um reflexo daquilo que você fez, da sua escolha de me arrastar para aquele inferno. Não há redenção para quem se recusa a ver a própria culpa.
Ela se inclinou ligeiramente para frente, seus olhos agora completamente tomados por uma podridão viscosa, seus lábios se curvando em um sorriso grotesco.
— Como pode dizer que não enxergo a minha própria culpa? Não há um dia sequer em que eu não pense no que fiz a você e a elas. Por favor, me perdoe. Sinto muito. Por isso que Viktor não vive mais entre nós; eu dei um fim a ele, nem seu corpo fiz questão de esconder ou enterrar, tamanho o asco que sentia daquele velho. Eu confiei nele, Eleanor, assim como você confiou em mim. Nós duas somos vítimas dele.
— Nós duas? Olhe pra mim, eu sou apenas uma casca sem vida, sendo devorada por vermes. Antes de me matar, ele violou o meu corpo, várias vezes! Ele me amarrou e me vendou, injetou diversas substâncias psicotrópicas em mim. Passei dias e mais dias com frio, fome e fora da realidade. Você acha que matar Viktor apagará isso? — A risada de Eleanor soou vazia, ecoando nas paredes da biblioteca. — Não, Sibila, não é assim que a culpa desaparece. Não é o corpo dele que nos persegue, mas sim o que ele deixou em nós, nas escolhas que fizemos.
— Eu não sabia...! Eu preciso, Eleanor, preciso do seu perdão e o de todas elas. Onde está sua compaixão? — Agarrei seus ombros e a chacoalhei dentro do caixão.
Suas feições se tornaram mais horrendas e ameaçadoras:
— Onde está a minha compaixão? Não existe redenção, Sibila. Não enquanto o veneno do que você fez correr em suas veias. Você não pode apagar o que já está marcado em sua alma. O perdão é uma ilusão que você criou para tentar se livrar da sua culpa, mas ela não desaparecerá. Não se você continuar se escondendo nela.
Ouvi o terrível som de seus ossos se movimentando, suas mãos agarraram o meu pescoço. Tentei falar, insistir no tão almejado perdão, mas ela tinha uma força sobre-humana.
— Eu te trouxe até aqui, você sabe disso. Eu sou a dor que você cria quando se recusa a encarar sua responsabilidade. E agora... — Eleanor inclinou-se ainda mais para frente. — Agora você vai entender o que significa pagar o preço.
Senti as suas unhas gélidas cortarem a minha carne, afundarem no meu pescoço, enquanto ela rapidamente apertava suas mãos ao redor da minha garganta. O ar começou a faltar, e a pressão em meu peito me fez lutar por um suspiro. Tentei resistir, mas a visão turvou-se, como se eu estivesse mergulhando num poço profundo e sem fundo, engolida por aquele líquido negro e viscoso, o qual invadia meus pulmões e lentamente me atraía para o além-vida. Não consegui enxergar mais nada, mas senti...
“O que é isso?” O que senti foram pelos roçando meu nariz, algo macio, mas úmido, como se estivesse me tocando suavemente.
— Acorde, Sibila! Acooorde...
Fixei-me na voz que tentava me despertar. Meus sentidos foram voltando aos poucos, e ousei abrir os olhos. O que vi foi um gato negro, ronronando e deitado sobre o meu peito. Eu já o vira zanzando pelo castelo anteriormente.
“Mas quem falou comigo? Como esse gato entrou no quarto?”
— Acorde, Sibila! Para o seu bem...
— Eu não acordei?
— Não, você está entreplanos. Prazer, me chamo Meia-Noite.
— Um gato? Eu devo ter morrido mesmo. Gatos não falam.
— Já disse, você está entreplanos. Se estivesse morta, eu nem poderia estar falando com você, já que o deus que governa o mundo da morte é Tânatos. E, só para sua informação, eu não sou apenas um gato; sou um Nocturvo.
— Um Nocturvo?
— Para encurtar a conversa, porque eu sei que você, dado o seu espanto, fará várias perguntas: Nocturvos são guardiões ou guias de pesadelos. Eu, para ser mais exato, resgato pessoas de seus pesadelos antes que morram. Em Somníria, o plano no qual estamos, os pesadelos ganham forma e poder. Quando alguém não está preparado para enfrentar seus próprios pesadelos, eu as resgato segundos antes da morte onírica, salvando-as de consequências irreversíveis.
Eu ia responder Meia-noite, mas ele não me deu a chance. Arranhou o meu rosto e no mesmo instante acordei. Levantei-me em busca de água e, ao mirar o meu reflexo no espelho, pude ver hematomas ao redor do meu pescoço.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
2 - É no abismo que os monstros aprendem a sentir
Os dias passam como sombras longas ao entardecer, arrastando-se, pesados e cheios de silêncio…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Sibila von Lichenstein
15 de setembro de 1870
Os dias passam como sombras longas ao entardecer, arrastando-se, pesados e cheios de silêncio. Esta manhã, olhei para o meu reflexo e vi um rosto que reconheço pouco; não sei se ainda sou a mesma Sibila que deixou a Prússia anos atrás. Porém, continuo tentando esquecer os anos de horror que vivi ao lado de Viktor Frankenstein, sem êxito.
Nas poucas horas de sono que tenho conseguido ter, enxergo alívio para minha mente culpada. Mas parece que até mesmo atravessando os umbrais para dentro do mundo onírico, a culpa desvendou um caminho ilegal para dentro dele também.
Então, faz-se necessário eu registrar aqui o sonho que tive, talvez isso me ajude a desvendar o propósito de minha vinda até aqui. Pois bem, estafada de tanto tentar mascarar o cheiro insuportável de lavanda, tentando escrever o dia todo para esquecê-lo. Deitei-me na cama, do que me pareceu ser o meu quarto, dentro desse grandioso e labiríntico lugar que esse castelo se assemelha.
Tão logo relaxei meus sentidos e deixei minha alma buscar o descanso no mundo dos sonhos, vi-me envolta por brumas de tons rosáceos e violáceos que surgiam não se sabe de onde e nem como. Eu estava vestida com um manto branco, adornado por bordados dourados e vermelhos, cujos motivos eram dragões orientais. As mangas eram longas, mas o manto era do meu tamanho exato, de forma que minhas mãos estavam para fora. Ciente disso, caminhei e estendi os meus braços e com as minhas mãos tentei tocar aquelas brumas, mas só pude atravessá-las sem senti-las.
Não me importei, pois notei que o meu sentido do olfato também falhava, estava feliz porque de nada sentia o cheiro. Então simplesmente continuei a caminhar. Até que em minha frente começou a surgir a figura de um rapaz jovem e negro, sua pele era negra, com tons iguais ao de ocre dourado. Eu achei-o lindíssimo, diria que tinha por volta de 17 anos. Seus olhos azuis-claros eram sérios e penetrantes, porém; eu não diria que ele tinha apenas 17 anos, pois seu olhar denotava uma frieza calculada, como se não quisesse dar nenhum passo incauto. Como se cada movimento e frase sua fosse calculado para guiar as suas ações dentro de um plano que as pedia.
— Deve estar se perguntando quem eu sou, não é mesmo, Sibila?
Quando ele terminou de perguntar, foi que eu percebi que a bruma que tomava todo o lugar eram os cabelos dele, eram encaracolados de tal modo, que vistos aos meus olhos se assemelhavam a brumas que volteavam a si mesmas. Talvez por isso eu não pudesse senti-las. Maravilhada com o que via, perguntei sem hesitar:
— Sim, estou! Quem é você?
— Eu sou Lieran, guardião do primeiro umbral de Somníria, eu porto a chave para um portal: o sonho da pessoa com quem mais você precisa conversar agora.
— Mas eu não sei com quem eu preciso conversar, pra falar a verdade, eu acho que não tenho com quem falar. Minha mãe morreu ao dar à luz, e meu pai não resistiu ao inverno. E... bem, eu sou sozinha no mundo desde então. Não tive tempo de fazer amizades, eu não sei o que é o amor, eu cresci com os cuidados paliativos do meu pai para que a vida se mantivesse em meu corpo. Mas como pai, ele pouco esteve presente, pois ou trabalhava ou eu morreria.
— Não temas, criança. Somníria deve saber os desejos do seu coração.
Lieran carregava uma chave pendurada em um cordão dourado e grosso. A chave balançava levemente, seguindo o movimento da brisa que batia em nossos rostos. Apesar de parecer pesada, com seu tamanho grande e os rococós que adornavam cada centímetro de sua superfície, era surpreendentemente leve.
Ele pediu que eu me postasse ao seu lado. Obedeci, observando enquanto ele pegava a chave com a mão esquerda e a encaixava em algum lugar no ar — um ponto invisível que eu não podia ver nem compreender. Quando girou a chave, um som grave reverberou ao nosso redor, como o badalar de um sino distante. Por um momento, pensei ter ouvido sussurros ao longe, como se a própria Somníria estivesse nos observando. E então, diante de nós, surgiu uma porta.
Ela já estava aberta, e, através dela, vi um homem sentado de costas, à beira de um precipício. O portal dava passagem a um campo verdejante que terminava naquele abismo. O campo era vasto, interrompido apenas por ervas daninhas espinhentas que pareciam me desafiar a cada passo. Quando pisei nelas, senti seus espinhos perfurarem meus pés. Doeu, mas as perdoei — quem nunca revidou quando teve o coração ferido?
Não sabia quem era o homem sentado à minha frente. Ele tinha costas largas e vestia uma camisa puída, que um dia já fora branca. Ao me aproximar, percebi que ele era muito bonito, com uma aura e aparência apolíneas. Seus traços eram perfeitos; não havia cicatrizes ou marcas que quebrassem sua simetria impecável. Seus dentes eram branquíssimos, e ele sorria para mim — mas aquele sorriso não chegava aos olhos. Era impossível ignorar o que se escondia ali, no âmbar de seu olhar: a marca de alguém que contemplou o abismo e nunca voltou inteiro. Uma tristeza e um desespero profundos habitavam aquela expressão serena.
— Sente-se, Sibila — disse ele, sua voz tão bela quanto o resto de sua presença. — Venha contemplar as brumas do desconhecido junto a mim.
Senti-me intrigada, mas também estranhamente confortável. Ele parecia saber meu nome, muito mais, parecia conhecera minha alma, mas eu não fazia ideia de quem era. Retirei meu casaco, coloquei-o no chão ao lado dele e me sentei, contemplando o vazio do precipício. Peguei uma pedra próxima e a joguei. Esperei por alguns segundos, mas não ouvi o som de seu impacto. Era como se a pedra tivesse sido engolida pelo próprio nada, tão profundo quanto as emoções que esse estranho parecia carregar.
— Sinto que o conheço, porém nunca o vi em toda a minha vida — falei, tentando romper o silêncio.
— Acho que é porque você já ouviu muito sobre mim. Pode me chamar por Marcos, o nome que escolhi para mim, já que meu criador não se dignou a me dar um — respondeu ele, com um tom que misturava mágoa e resignação.
— Seu criador? — perguntei, sem desviar os olhos do vazio à minha frente.
— Sim — disse ele, e seu semblante mudou, como se mergulhasse em lembranças que preferia evitar. — O homem que moldou minha carne e deu vida a este corpo, mas não a um propósito. Ele me deu força, mas não direção. Beleza, mas não aceitação. Você o conheceu, não foi?
Meu coração apertou. O nome de Viktor veio a minha mente repentinamente, um peso que eu sempre tentava evitar. Ele fora tudo para mim antes de se revelar o que realmente era: um manipulador, um cancro que envenenava tudo o que tocava.
— Não imagino quem possa ser. Tampouco sei como me conhece. Lieran apenas me disse que precisávamos conversar, mas até o momento me pergunto o porquê — respondi, tentando esconder a tensão que me invadia.
— Então você realmente não faz ideia de quem seja o meu criador. Foi Viktor, aquele que você matou. Não me pergunte como sei disso, nem mesmo eu sei como sei de certas coisas por aqui. Confesso que pensei que encontraria a paz, alguma espécie de alívio, ao saber da partida dele; no entanto, sinto que essa notícia em nada aliviou o meu fardo. Estou há tempos encarando esse abismo à minha frente, perscrutando todas as reentrâncias. Ele representa minha mente: profundo, vazio e ao mesmo tempo cheio de grandes coisas que nada querem dizer.
Suas palavras me atingiram como uma bofetada. O nome de Viktor, dito em voz alta, trouxe de volta memórias que eu preferia enterrar. Ele era tudo o que eu queria esquecer, mas também tudo o que eu nunca conseguiria. Como ele pôde criar algo como Marcos e ainda ser tão monstruoso?
— Eu o conheci — admiti, hesitante. — Mas nunca soube sobre... sobre você. Ele nunca falou de você. Eu apenas li sobre você, acho que li. Marcos, é esse o nome que você escolheu para si mesmo? Viktor sempre que escrevia sobre você... — Interrompi-me, hesitante, as palavras morrendo na minha garganta.
— Você fala como se também tivesse sido moldada por ele — disse Marcos, sua voz baixa, mas incisiva. — Não com bisturis e costuras, mas com palavras e manipulações. Estamos mais conectados do que você pensa, Sibila.
Meus olhos voltaram ao abismo. O que me trouxe aqui? Será que era o peso da culpa que carregava? Ou o desejo de entender o que significa criar algo para em seguida desistir de tudo e abandonar? Não sabia ao certo, mas os olhos de Marcos pareciam esperar mais de mim do que eu sabia oferecer.
— Não precisa ter medo — disse ele, sua voz suave como o vento. — Eu sou apenas um sonho... Tudo o que está aqui é um constructo da sua mente e da minha, mas nada pode ser realmente tocado.
— Não estou com medo, na verdade eu nunca o vi como um monstro. Eu sentia pena de você e pude me colocar no seu lugar. Com Viktor eu desenvolvi dependência. Deixei e depois passei a desejar que ele me possuísse, para me sentir bela. Deixei que ele regesse a minha vida acadêmica, depois minha vida financeira e por fim, quando me dei conta ele havia retirado tudo de mim. Um verdadeiro monstro.
— Ele retirou tudo de você ou foi você que se deixou se enredar? E no fim? Sibila, minha cara, quem de nós é mais monstro? Será que é apenas Viktor, ou só estamos replicando o que nosso criador fez, sendo egoístas e nos dobrando às nossas próprias emoções, sem ter real controle sobre nossos atos. Ou será que alegamos não termos autocontrole, quando na verdade isso é uma mera desculpa para aliviarmos o nosso próprio fardo e continuar a viver?
— Eu não sei, não me considero um monstro por mata-lo. Acho que ele procurou pela própria morte, se tornara um velho asqueroso, uma casca enrugada, cega por suas vontades e desejos vis. Viktor abusava delas. No entanto, eu sei que sou culpada por atrair aquelas mulheres para lá. A morte delas recai sobre mim. Acho que estou aqui, porque preciso perguntar a você sobre isso. Como você se sente sobre todas as vítimas que fez?
Marcos olhou para o vazio diante de nós, seus olhos agora perdidos em algo que apenas ele podia ver. Sua voz, quando finalmente falou, era baixa, quase sombria.
— Eu entendo suas palavras, Sibila. A morte de Viktor, de certa forma, me parece inevitável. Ele buscava a destruição de tudo o que tocava, e você... você apenas respondeu ao que ele fez a você. A culpa que sente não pode ser sua, não por aquilo que ele provocou. Mas, como você, eu também sou culpado. Não de uma única morte, mas de tantas outras, tantas almas que encontrei pelo caminho. Eu os vi, cada um, antes do fim, e sabia que o que fazia não era certo. Eles eram pessoas com histórias, com sonhos, e eu... eu arranquei isso deles. A morte deles recai sobre mim, e o peso disso nunca sai da minha mente.
Ele pausou por um momento, como se pesando suas próprias palavras, antes de continuar, mais suave, mas não menos carregado de dor.
— Não sei se me sinto arrependido. Talvez em algum lugar, eu devesse. Mas me pergunto: seria o arrependimento apenas uma tentativa de eximir-nos da responsabilidade por nossas ações? Ou será que apenas tentamos escapar do abismo que criamos dentro de nós, fugindo de nossa própria natureza, de nossa própria essência?
Marcos voltou a me olhar, seus olhos profundos, como se procurassem algo dentro de mim.
— Eu sinto... tristeza. Tristeza por não ter tido a chance de fazer diferente, de não ter sido... mais humano. Não sei o que é ser humano, Sibila. O que sei é que, após tantas mortes, tantas escolhas erradas, a única coisa que me resta é esse vazio, esse eco de almas perdidas. E talvez isso seja o verdadeiro castigo, mais do que qualquer julgamento divino.
Ele se virou lentamente, fixando os olhos no abismo diante de nós, como se, ali, pudesse encontrar uma resposta para sua própria existência.
— E você, Sibila? O que espera encontrar aqui? O perdão, a absolvição? Ou talvez a resposta para sua própria dor?
— Eu esperava que você pudesse me dar essas respostas. Mas agora, ao ouvir tudo o que disse sobre a culpa que carrega, percebo que as respostas para nossas perguntas não habitam nem o passado que nos assombra, nem o futuro incerto à nossa frente. Este lugar, Marcos... é um reflexo da sua mente, um eco do que ficou. Lieran me explicou que eu adentraria o sonho de alguém com quem eu precisava falar. — Suspirei profundamente, sentindo o peso do momento. Olhei para o seu rosto, tão perfeito, mas carregado de culpas, medos e questões não respondidas. Seus olhos dourados captaram minha atenção, e seus lábios escureciam como o céu antes de uma tempestade. Então, naquele instante, percebi que não estava diante de um monstro, mas de um ser profundamente humano.
Fiz uma pausa, minha voz tornou-se mais serena enquanto as palavras fluíam com clareza:
— Então, compreendi, Marcos. As respostas não estão lá fora, nem no que já foi, nem no que virá. Elas vivem em nós, aqui e agora. O presente, esse fio invisível que nos conecta ao que realmente somos, é tudo o que temos. Este é o nosso domínio. O passado nos molda, mas não podemos revertê-lo, apenas aceitá-lo. O futuro é uma miragem, distante demais para ser tocado. Já o presente... o controle sobre nossos corpos, mentes e corações, isso sim nos pertence, e só isso é verdadeiramente nosso.
Marcos permaneceu em silêncio por alguns instantes, a expressão no rosto indecifrável, enquanto seus olhos pareciam absorver as palavras de Sibila. Uma lágrima solitária começou a rolar pela sua bela face, como se estivesse se libertando de uma teia invisível que o prendia àquela dor constante. Então, finalmente, ele respondeu, ainda carregado de uma tristeza profunda, sua voz estava embargada:
— Eu passei tanto tempo buscando respostas no passado, nos erros de Viktor comigo e nos próprios que cometi. Me fixei demasiadamente no que eu poderia ter sido, que nunca percebi que a única coisa que realmente tenho é o presente... O único momento que realmente posso tocar e mudar. Mas como? Como posso abraçar isso, quando o peso de tantas vidas perdidas ainda pesa sobre mim?
Ele olhou para ela, como se ela fosse a única pessoa capaz de entender.
— O que você me diz, Sibila? Como podemos, de fato, aceitar o que fomos e ainda assim encontrar algum tipo de paz? Como, depois de tudo o que fizemos, podemos ainda acreditar que a redenção é possível?
Sua voz falhou por um momento, e a tristeza nos seus olhos era palpável. Ele parecia frágil, vulnerável, mais humano do que qualquer monstro poderia ser.
— Você tem razão, o futuro não está em nossas mãos, nem o passado. Mas o agora? O que podemos fazer com o agora, o único tempo que realmente temos?
Marcos olhou para mim em silêncio por um momento, como se as palavras que eu disse estivessem se acomodando em sua mente, pesando em seu coração. Quando finalmente falou, sua voz parecia mais suave, mais próxima, como se a dor e a culpa ainda estivessem ali, mas agora fossem mais fáceis de suportar.
— Talvez você esteja certa — ele disse, a voz tremulando, como se fosse uma confissão que ele nunca havia ousado fazer. — Eu passei tanto tempo tentando buscar respostas nos escombros do passado, tentando entender as escolhas de meu criador e os meus próprios erros, que me esqueci do que realmente importa... o agora. Eu vivi em função daquilo que não posso mudar, e o futuro, que nunca saberia se chegaria, ficou como uma sombra sobre mim, me cegando para o presente.
Ele fez uma pausa, os olhos fixos em mim, como se me visse de uma maneira nova, como se tivesse acabado de perceber a verdade de minhas palavras. Ele sorriu levemente, mas dessa vez o sorriso não parecia tão amargo, como se houvesse uma leve compreensão, uma aceitação incipiente.
— Talvez, no fim, o monstro... não seja tanto o que fizemos, mas o que deixamos de fazer. E agora, talvez, seja hora de parar de fugir de mim mesmo.
Levantei-me. Sentia que algo estava se fechando ali, mas ao mesmo tempo, uma nova jornada se abria, desconhecida e cheia de enigmas. Voltei a sentir uma leve brisa em minha face, também voltei a sentir um cheiro adocicado, um que estava sentindo antes de cruzar a porta que me levara para o sonho do monstro. Ele permaneceu sentado, talvez refletindo sobre o que dissera ou sobre o que eu lhe dissera.
— Você não está sozinho. Existe um lugar... um castelo onde talvez eu possa encontrar mais respostas. Talvez possamos descobrir mais sobre nós mesmos lá, juntos.
Ele franziu as sobrancelhas, surpreso, mas algo em seu olhar dizia que ele entendia, que ele sentia a mesma necessidade de seguir em frente, de buscar algo novo, ou talvez, de finalmente encontrar algo que o libertasse. No entanto, quando eu quis abrir minha boca novamente, para convidá-lo a vir comigo, a imagem de Marcos começou a desvanecer-se.
A paisagem bucólica que nos circundava rapidamente começou a sumir e a dar lugar ao local anterior, onde eu me encontrava com Lieran.
— Ele está desaparecendo... — murmurei, ainda com os olhos fixos no espaço onde Marcos estivera segundos atrás, agora tomado por uma névoa que se dissolvia como fumaça ao vento.
— É o destino dos sonhos, Sibila. — A voz de Lieran soou serena, mas havia algo de enigmático nela. Ele segurava a chave dourada, que agora parecia brilhar mais intensamente. — Eles nunca duram para sempre, mas sempre deixam algo em quem os vive.
Eu virei para encará-lo, o peso de tudo o que fora dito ainda apertando meu peito.
— Por que me trouxe aqui, Lieran? Por que esse sonho? Por que Marcos?
Lieran sorriu levemente, mas não respondeu diretamente. — As respostas que você busca não estão apenas nos sonhos.
— Eu poderei vê-lo novamente, Lieran?
Lieran inclinou levemente a cabeça, como se considerasse algo. Antes que eu pudesse perguntar mais, a chave em sua mão girou no vazio novamente, e tudo ao meu redor desapareceu em um lampejo dourado, deixando apenas as palavras de Lieran ecoando na minha mente:
— A esperança reside nos sonhos, Sibila! Ela é a fagulha inicial de todos os sentimentos e entendimentos...
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
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1 - Diário de Sibila von Lichenstein
Hoje, mais uma vez, acordei como sempre. Os olhos pesados, a mente turva, mas com uma sensação de alívio que não sentia há muito tempo…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Hoje, mais uma vez, acordei como sempre. Os olhos pesados, a mente turva, mas com uma sensação de alívio que não sentia há muito tempo. Por fim, minha mente poderá descansar. Se eu não estivesse desperta — ou ao menos acho que estou — diria que esse descanso é o que a morte traz.
Há alguns dias, fiz o que fiz com ele. Não sei como atravessei o limbo que permeia os sonhos, mas o fato é que agora habito estas misteriosas paredes. Quando despertei naquele dia estranho, o momento em que fui trazida para cá, não pude perceber logo. Habitar o interior deste castelo, onde me encontro, parece ser a extensão de um sonho, tornando-o perpétuo.
Lembro-me de quando abri os olhos e, com um movimento leve, dirigi-os para a deslumbrante paisagem que se descortinava através da janela. Campos infindáveis de lavandas encantadoras se estendiam diante de mim. Não consegui discernir onde começavam e onde terminavam. O odor, de início suave e agradável, logo se tornou acachapante, quase impossível de suportar.
Ao observar aquele campo florido e o céu em tons de lilás, uma sensação de dissonância me tomou. A palidez violácea dos céus se confundia com os tons púrpura das flores, criando uma sensação de confusão entre o céu e a terra. O jardim ao redor do castelo, naquele dia ousei explorá-lo: você o adentra e se perde, envolto em um absurdo encanto. As lavandas, movidas suavemente pelo vento, traziam uma sutileza apaziguante, como se a natureza estivesse em um estado de constante calma.
Mas então, como um vislumbre da verdade, o que parecia ser serenidade se revelou efêmero. Em meio à quietude daquele cenário, uma sensação sutil, porém palpável, de inquietação começou a se espalhar. As lavandas não eram apenas flores; elas sussurravam. Sussurros terríveis que, embora suaves, me alcançaram com um peso insuportável, obstruindo minha garganta e distorcendo meu olhar. Era como se algo maligno se escondesse entre aquelas pétalas, esperando para revelar seu horror. Parecia que ao olhar com atenção para as flores eu conseguia avistar os rostos delas, as vítimas que eu ajudei a matar.
E eu, que me permiti mergulhar nesse jardim de aparente paz, fui levada aos confins da loucura. O que as lavandas estavam sussurrando? Eram os meus segredos hediondos, ou era apenas minha mente, que já se despedaçava pela culpa e pelo medo, criando esses horrores? Eu não sabia mais se estava sonhando ou se a realidade que agora habitava era mais insana do que qualquer pesadelo. Ainda sim, eu duvido que possa ser pior do que o pesadelo que vivi ao lado dele.
Não posso esquecer como tudo começou. Viktor Frankenstein... Ah, Viktor. Conheci-o na faculdade, com seu brilho nos olhos, sempre tão envolvido em suas pesquisas. Eu era apenas uma jovem ambiciosa, desesperada para continuar meus estudos após a morte de meu pai, um simples trabalhador do campo na Prússia. A morte dele, no inverno rigoroso daquele ano, deixou um vazio imenso, e me vi diante de uma cruel realidade: minha educação, minha ascensão social, tudo estava em risco. Quando Viktor me ofereceu um caminho para garantir minha continuidade acadêmica, aceitei. Não sabia o que me aguardava.
Ao me mudar para sua casa, situada na periferia de uma cidade que ainda carregava as cicatrizes das Guerras Napoleônicas, tão diferente das paredes desse castelo que atualmente habito, tudo parecia promissor, pelo menos no início. As ruas cobertas de neve e o vento gélido da Prússia pareciam distantes da casa de Viktor, mas logo descobri o que ele realmente fazia em seu laboratório. Nunca vou me perdoar pela morte de minha amiga Eleanor, a quem contratei para limpar a casa. Ele a matou. Sim, caro diário que acolhe minhas mórbidas palavras. Ele matava mulheres, inocentes, para seus experimentos. E eu... eu fui forçada a ajudá-lo a esconder os corpos. Eu não tinha escolha, não naquele momento. Era o preço que eu pagava para garantir minha educação, meu futuro.
Cada vez que olhava para ele, um homem brilhante, mas obcecado por sua própria criação, eu me sentia mais suja. Minha consciência se corroía. Ele me forçava a ser cúmplice de algo que sabia ser monstruoso. E assim, as semanas se passaram. Eu o ajudava a enterrar seus pecados, mas a cada corpo, a cada erro, a culpa aumentava. Até que, finalmente, decidi: ele precisava morrer. Eu não poderia mais permitir que suas mãos, imundas de sangue, continuassem a destruir vidas. Depois de Eleanor, uma morte que não o ajudei a planejar, ele me pediu que providenciasse mais vítimas, caso contrário eu seria a próxima e ele providenciaria outra assistente. Com a crescente expansão das indústrias, e sem uma profissão definida, eu me vi sem alternativas. Ou era a minha vida, ou a delas.
Foi numa manhã fria e silenciosa, em uma Prússia já tão marcada pelo avanço industrial e os ecos do passado sangrento, que tomei minha decisão. Acordei, vesti o sobretudo, calcei as botas de abatedouro e fui até o laboratório. Dessa vez, não era para mais uma de suas vítimas. Não, eu faria o que deveria ser feito. Eu o matei. E ao fazer isso, pela primeira vez, consegui dormir sem ter pesadelo algum, após o ato.
Era como se, ao tomar sua vida, eu tivesse me libertado. Quando finalmente adormeci, pensei que talvez fosse o fim de tudo. Mas ao fechar os olhos, um sonho estranho me envolveu. Fui transportada para um lugar sombrio, este castelo, onde agora me encontro. Na ocasião, um homem de semblante imponente me observava das sombras. Eu não sabia como, mas sentia que meu destino agora estava entrelaçado com o dele...
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…