Hexagrama
Ouço a voz do teu próprio hexagrama | Sussurrar a mensagem profanada; | Gemidos soltos de quem muito ama | Nos meus olhos fizeram sua morada…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Ouço a voz do teu próprio hexagrama
Sussurrar a mensagem profanada;
Gemidos soltos de quem muito ama
Nos meus olhos fizeram sua morada.
Se deslizo em ti a minha chama,
Queimando a libido angustiada,
Tecerei a alegria da tua xana
Neste céu que escolheste por morada.
Contorces de prazer e tu derramas
Teu mel nessa boca alucinada...
Serpenteio o teu átrio de cigana.
Eis o arcano das vagas madrugadas,
Que desvela a essência castellana:
Infiro em teu corpo essas jornadas.
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
O Segredo Abaixo dos Pés
Este pesadelo que baila e tortura minha mente — reflexo de uma vitória amarga contra minhas próprias convicções — escancara em minha fronte uma…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Este pesadelo que baila e tortura minha mente — reflexo de uma vitória amarga contra minhas próprias convicções — escancara em minha fronte uma máxima cruel: enquanto temíamos e vigiávamos os céus, o que realmente nos destruiria sempre esteve aqui. Silencioso, sob nossos pés, ansioso por erguer-se e devorar tudo o que estivesse ao seu alcance.
Era um daqueles entardeceres em que as sombras crescem como se quisessem devorar a luz. Entornei o café na xícara surrada e deixei que a pena deslizasse pelo caderno. As palavras surgiram primeiro tímidas, depois num jorro, como água de uma nascente há muito esquecida.
— Já parou para pensar — perguntei à Clara, enquanto ela enrolava um fio de cabelo escuro entre os dedos — que quase todas as teorias sobre o fim da espécie colocam o céu como o nosso grande ceifador?
O rosto dela contraiu-se numa expressão de genuína surpresa.
— Nunca tinha observado por esse prisma.
Sorri, tomando um gole do café já morno. Nossas conversas sempre tiveram essa dinâmica: eu lançava o anzol e ela mordia a isca sem hesitar, num balé intelectual que encenávamos desde o dia em que nos conhecemos.
— Existe um lugar ao qual damos pouca importância — continuei. Ela inclinou-se para frente; o decote do roupão revelou a curva familiar de seus seios, um detalhe que, mesmo após anos, ainda conseguia me distrair do fim do mundo. — As religiões falam de demônios, invasores estelares ou catástrofes vindas dos cometas. O dogma nos impõe olhar sempre para cima.
— Conte-me mais — respondeu ela, os olhos brilhando com aquela centelha que só surgia quando mergulhávamos nessas madrugadas de teorias e sombras.
— O erro é nunca olharmos para baixo — completei, sentindo o peso das próprias palavras. Seu pé descalço roçou o meu sob a mesa, um hábito antigo que me ancorava à realidade. — O que existe, de fato, no núcleo da Terra? Lençóis freáticos, magma e nada mais? Ou o abismo esconde espécies raras e comunidades secretas que o sol nunca tocou?
O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo ruído da cidade lá fora — uma sinfonia de buzinas e passos apressados, gente desesperada em sua jornada para lugar nenhum.
— Eu acredito em outros seres e outras moradas, mas não na Terra. E não consigo acreditar que sejam demônios.
A resposta dela me fez sorrir. Era a essência de Clara: cética quanto ao inferno, mas aberta aos anjos.
— Quão fundo nós realmente cavamos? — perguntei, mordendo a ponta do lápis. Ela riu baixo, conhecendo meu vício de roer o instrumento de escrita. — É possível perfurar a crosta a ponto de enxergar o outro lado, já que somos uma órbita suspensa no nada?
A noite já havia engolido a janela completamente, transformando o vidro em um espelho negro que nos devolvia nossas próprias imagens. Dois rostos, inúmeras dúvidas.
— Acho que isso reflete a hierarquia dos deuses — ponderou ela. — Seres divinos que precisavam estar acima dos humanos para dominá-los.
— O fundo do mar ainda não é o fundo da Terra — rebati. — Supõem que o magma seja o limite, o fim de tudo, mas são apenas suposições. Ninguém desceu o suficiente para registrar o que há abaixo do fogo.
— Não existe luz lá — a voz dela baixou para um sussurro, como se temesse acordar algo profundo. — Tudo o que vive lá é cego.
— Se há fogo, pode haver luz — contrapus. — A luz da superfície é uma projeção do fogo solar. A lava é a polpa do fogo telúrico. Creio que haja uma claridade própria nas entranhas do mundo.
O caderno agora era um labirinto de linhas tortas e pensamentos soltos: a cartografia de uma teoria proibida. Clara deixou a xícara tocar o pires com um tilintar metálico que ecoou pela sala.
— Falam tanto da Lua — disse ela, puxando o cobertor sobre os joelhos. — Mas você já reparou como as imagens parecem fabricadas? Sombras cruzadas, bandeiras que ondulam no vácuo... como um palco mal iluminado.
Abri o caderno em uma página repleta de cálculos e diagramas.
— O mais curioso é que pararam de ir justamente quando as brocas terrestres estancaram. 1969: o homem pisa na Lua. 1970: o Projeto Kola atinge seu ápice e para. Conveniente, não?
Clara puxou o caderno, os olhos devorando minhas anotações.
— Você sugere que foi tudo um teatro? Uma cortina de fumaça?
— Sugiro que é mais fácil simular a conquista do céu do que encarar o que encontrariam se continuassem cavando — respondi, batendo o indicador no chão de madeira. O som saiu oco, fúnebre. — Doze quilômetros. Foi o máximo que o homem alcançou. Doze quilômetros em um planeta com mais de doze mil de diâmetro. Uma gota num oceano de rocha.
Seu olhar desceu para o assoalho, tentando atravessar as tábuas.
— E por que pararam?
— Talvez porque as brocas começaram a encontrar o que não deveria existir. Quando os microfones captaram... sons. Gemidos de um planeta que não quer ser despertado.
O abajur piscou, instável. Na parede, nossas sombras se contorceram, alongando-se como se algo colossal se movesse por trás de nós.
— Gastamos bilhões para fingir que dominamos uma rocha morta a mil quilômetros de distância, enquanto o verdadeiro mistério está a meros passos de onde estamos. Se a Terra fosse uma maçã, Carlos, nem sequer rompemos a casca.
Um arrepio percorreu o ambiente. Na cozinha, o estalo de algo rolando pelo piso nos sobressaltou.
— É mais fácil apontar para as estrelas do que entender o abismo sob nossos pés — concluí, fechando o caderno.
Uma risada nervosa escapou entre nós, quebrando a tensão.
— Eu creio em vida extraterrena — ela disse, por fim. — Mas não creio que o mal venha de cima. Talvez os céus tentem nos salvar de nós mesmos... e do que habita o nosso próprio solo.
— Céu acima, purgatório embaixo. O ser humano teme o que não pode iluminar.
Nossos olhares se cruzaram sobre as xícaras vazias, cúmplices de uma heresia. Lá fora, a cidade ignorava o abismo sobre o qual fora construída. Decidimos, naquela noite, que nossa busca não seria pelas alturas, mas pelas profundezas. Porque o fim não precisa vir do espaço; ele já pode estar aqui, esperando pacientemente que o esqueçamos para que, então, possa emergir.
Ao final, puxei-a pelo cinto do roupão. Ela veio sem resistência, como sempre. Selamos nossa pequena loucura com um beijo prolongado e, por um instante, o abismo sob meus pés deixou de existir. Só havia ela.
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
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Pedido
São Baudelaire das causas impossíveis, | quisera assim orar Raul: | – Livra-me, ó Senhor, | dos sofrimentos do jovem Werther; | fazei Goethe descer da minha cabeça,…
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São Baudelaire das causas impossíveis,
quisera assim orar Raul:
– Livra-me, ó Senhor,
dos sofrimentos do jovem Werther;
fazei Goethe descer da minha cabeça,
pois quero intacta
a plantação de neurônios
do fiel compadre Zaratustra.
Revisado por Sahra Melihssa
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Espasmos do Silêncio
Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar…
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Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar; elas morrem na garganta antes de se tornarem poesia.
Estou diante de ti, Dama Lacrima. O pintor desconhecido que te prendeu nestas tramas de linho e óleo certamente conhecia o inferno, pois capturou-o com perfeição. Teus cabelos, longos e lisos, escorrem como cascatas de nanquim, emoldurando um rosto de uma palidez cadavérica. As tuas mãos, eternamente erguidas próximas à face, parecem querer esconder o mundo de ti, ou tu do mundo.
Se hoje castigado sou pelo teu descontentamento, que vibra através das camadas de verniz, posso até guardar a culpa. Mas as chaves da tua liberdade são para mim um grande peso que devo suportar. Sinto o ódio irradiar da moldura dourada.
— A tua ira deve ser contida — murmuro para a figura estática, mas viva. — A raça humana não merece perecer. Por mais que um ou outro nos sirvam como bolsas de sangue, aconselho: declina-te desta vingança desenfreada. O mundo ainda tem muito a te servir.
Vejo, então, a alteração na pintura. O óleo parece dissolver-se. Aqueles olhos... aquelas escleras tomadas por um negrume absoluto, sem luz, fitam-me com desprezo. E o que antes era pigmento seco, agora escorre. Tu choras. Não água, nem sangue, mas lágrimas de piche, espessas e negras, maculando a pureza mórbida da tua pele pintada.
— Crês que me fará parar?... Como és tolo, Valentine! — O meu nome soa como blasfêmia nesses teus lábios imortais.
— Lanço o desafio — indago, hipnotizado pelo rastro viscoso que desce pelas tuas bochechas —, até onde estarás disposta a ir com tal empreitada?
— Farei do purgatório a vossa nova morada!
— E depois?
— Como assim, "e depois"?
Aproximo-me da obra, sentindo o cheiro de terebintina misturado a algo podre e antigo. — Quando finalizar o teu intento, sentirás o peso do silêncio. Este mesmo silêncio que, até pouco, tanto me assombrava, não irá parar de te perturbar. Serás torturada pelo resto dos teus dias numa galeria vazia, num mundo morto. Nem mesmo as tuas súplicas serão suficientes para te salvar, pois para destruí-lo terás que destruir a ti mesma, rasgar a própria tela. Então, eu lhe pergunto: até onde estarás disposta a ir?
A imagem trêmula. O piche das tuas lágrimas parece ferver. — O que vês à tua frente, Valentine? — Tua voz agora é um lamento, um gemido de túmulo aberto. — Um retrato sombrio adornado por uma bela moldura arabesca? Um fantasma habitando uma tela em que o tempo ousa não apagar? Ou a representação maior dos teus medos?
Encaro o abismo negro dos teus olhos, duas poças de trevas infinitas. — Teu alarde para destruir-me e destruir o mundo é apenas uma fuga de teus próprios medos — digo, e cada palavra pesa como lápide sobre o cavalete. — Até os demônios mais baixos, minha cara Dama, possuem medos ocultos. E o teu medo é que, sem nós para te observarmos, tu deixes de existir.
O piche escorre mais rápido, mas o silêncio volta a reinar, pesado e insuportável, na sala fria.
Revisado por Sahra Melihssa
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Canto para meus tormentos
Abracei o teu convite e vim prestigiar a ópera. A Vida, a Morte e o Tempo estarão presentes no teatro das sombras. Abram vossas mentes para as experiências que…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Abracei o teu convite e vim prestigiar a ópera. A Vida, a Morte e o Tempo estarão presentes no teatro das sombras. Abram vossas mentes para as experiências que farão um por um transmutar e viajar por entre os planos. Será uma noite inesquecível...
A dádiva da arte é para mim um novo sopro do ânima. É a força motriz que me sustenta longe da dor que é viver sob esta forma decadente. Agarro-me à esperança de que tal ópera seja uma ode ao meu escapismo. Perdoem-me, almas ancestrais, bestas viajantes, apreciadores de uma boa taça de sangue: em mim habita a angústia que dilacera tal qual os malditos raios do sol.
Lencastre está prestes a confrontar seus próprios demônios...
Na penumbra do teatro, sou fragmento suspenso entre dimensões. A matéria que compõe este receptáculo vampírico vibra em frequências ancestrais, pois em minhas veias corre o tempo líquido, essência primordial dos navegantes da eternidade. O palco diante de mim não é mero tablado — é portal onde as esferas se tangenciam, onde o Limiar permite vislumbrar os segredos que habitam o âmago do ser.
As cortinas se erguem, e eis que reconheço: sou aquele que desperta as criaturas, sou o convocador inconsciente de meus próprios tormentos. A orquestra entoa acordes que ressoam no ventre do caos, cada nota uma navalha a gerar carnificina em minha alma fragmentada.
No centro do palco, materializa-se a primeira visão: meu eu humano, tessituras de luz dourada emanando de sua forma. Vejo-me quando ainda pulsava em sintonia com o ritmo cósmico, quando o sol era bênção, não maldição. A criatura que fui estende-me as mãos, e em seus olhos habita a pergunta eterna:
— Por que escolheste navegar pelas sombras, quando podias dançar na luz?
Mas o Limiar rejeita respostas simples. O tempo sob seu comando é serpente que devora a própria cauda, e compreendo: não houve escolha, apenas o desenrolar do destino.
O palco transmuta-se em arena cósmica. Na fenda mais profunda de minha consciência, criaturas se gladiam — são deuses de suas histórias, manifestações dos medos que habitam o âmago do vampiro que me tornei. Cada demônio empunha lâminas forjadas nas essências da culpa, do remorso, da solidão infinita.
Vejo-os duelarem: a Nostalgia, de armadura dourada, combate contra a Sede Eterna, de garras escarlates. O Medo da Eternidade, gigante de olhos vazios, confronta a Culpa Ancestral, que chora lágrimas de sangue. Em cada golpe desferido, fragmentos de minha essência se desprendem como pétalas negras no vento cósmico.
Sou espectador e arena simultaneamente. Em meu peito, o coração que não bate ressoa como tambor de guerra. As criaturas lutam por domínio sobre o receptáculo que me tornei, mas todas ignoram uma verdade fundamental: sou o gladiador supremo, aquele que deve enfrentar a si mesmo na batalha derradeira.
Em minhas veias corre mais que sangue alheio — corre o poder dos navegantes primevos, daqueles que primeiro caminharam entre os mundos. Sou herdeiro de linhagem que remonta aos tempos quando a separação entre vida e morte era mera ilusão criada pelos mortais.
Ergo-me da poltrona, mas não sou mais Lencastre. Sou entidade que carrega em si a sabedoria das eras, receptáculo onde predador e protetor são um só no tecer dos destinos. Minha forma física começa a transmutar — não em destruição, mas em transcendência.
A carne se dilata, expandindo-se além dos limites mortais. Cada poro torna-se portal, cada célula uma estrela pulsante no cosmos interior. O sangue que jorra não é perda — é oferenda sagrada ao altar da transformação. Cada gota que toca o palco germina em flor de luz sombria, criando jardim onde o belo e o terrível dançam em harmonia.
Não há dor — apenas êxtase da dissolução consciente. Sou chuva de meteoros atravessando o véu entre os mundos, sou canção que ecoa nos corredores do tempo.
Minha voz, agora multidimensional, entoa o cântico final:
— Do sacrifício nasce a aliança sagrada... do receptáculo fragmentado emerge o navegante eterno... nas essências derramadas, a continuidade...
O teatro desaparece, e na sinfonia infinita que permeia o universo, minha nota ressoa eterna — não como lamento, mas como hino à transformação que aguarda todos os navegantes do tempo.
Revisão por Sahra Melihssa
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
A chegada - Homenagem a Ozzy Osbourne
Quando Ozzy desceu ao abismo profundo, | recusou pactos com o barqueiro sombrio. | Seu óbolo entre as joias do príncipe eterno, | e as cordas vocais que evocam poder e frio…
Imagem da Web, editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Quando Ozzy desceu ao abismo profundo,
recusou pactos com o barqueiro sombrio.
Seu óbolo entre as joias do príncipe eterno,
e as cordas vocais que evocam poder e frio
dos portões das trevas em pira erguidos,
tocando o limbo em ecos perdidos.
— O príncipe enfim retornou ao lar!
Ele sorriu, Crowley abraçando.
— Contempla, filho, sem hesitar,
a dança das almas que vão girando
em volúpia, êxtase e risos loucos,
celebrando tua volta por estes pocos.
Vens de um mundo que em brevidade
será destruído pela ignorância humana.
Quando lá estive, em minha jornada,
deixei segredos na trama profana—
mistérios ocultos jamais revelados,
códigos sombrios ainda guardados.
Rauzito aqui te aguarda ansioso,
breve governarás estes domínios
com ritmo ácido e som poderoso.
Tens em Raul, entre os gênios,
teu companheiro mais soturno,
parceiro neste reino noturno.
O céu observa com soberba vã,
mais alegre é nosso solo sombrio,
pois aqui cada estrela se dana
em dança eterna, sem desvio.
Feita a passagem derradeira,
teu corpo renasce em nova forma.
"Em espírito o vejo". Louco,
sonhador, deus do heavy metal,
herdeiro das sombras, da dor
e também do amor profundo.
Suas extravagâncias prosseguem
onde as trevas governam o mundo.
Revisão de Sahra Melihssa
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
Chronos, o Faminto
Sou tal qual o monstro de Goya, | sou a fera cruel que te condena | a ser o alimento da minha fome, | devoro-te com o phallus e com a boca, | sou Chronos, o faminto…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Sou tal qual o monstro de Goya,
sou a fera cruel que te condena
a ser o alimento da minha fome,
devoro-te com o phallus e com a boca,
sou Chronos, o faminto degenerado!
Devoro ferozmente a incerteza quando preciso.
Num estalo de inconsciência perdi-me em ti,
pois tu eras a personificação de um labirinto!
Procurei calcular tuas cilíndricas pernas,
fiz dos meus braços um eficaz compasso
e tracei na tua carne a linha do desejo…
Para te surpreender, vesti-me de matemático,
e multipliquei, com prazer, os seus orgasmos…
Revisão de Tiago Serigy
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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Capítulo 2: Bon Vivant
— Nunca me imaginei sujando as minhas mãos com o sangue de ninguém. Mas desta vez, eu não podia permitir…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
— Nunca me imaginei sujando as minhas mãos com o sangue de ninguém. Mas desta vez, eu não podia permitir a continuidade do descaso, e também a minha ausência neste evento que, eu já sabia, entraria para a história da minha tão ferida e amada França.
Valentine tentou se erguer, mas a dor era lancinante. Recaiu sobre a relva úmida, os olhos fixos no céu que escurecia lentamente. Sua mente vagava pela vida que tinha deixado para trás.
— Não nego, contudo, que havia em mim também o Bon Vivant. Oh, quantas noites se esvaíram entre os risos fáceis dos companheiros de copo, o calor do vinho generoso e a busca incessante pela beleza fugaz, fosse ela nos salões iluminados ou nas alcovas discretas? Havia um prazer quase estrutural em tentar decifrar a alma feminina, em perseguir a linha perfeita de um ombro desnudo, a curva enigmática de um sorriso. A vida simples me atraía, sim, mas os círculos elegantes exerciam sobre mim seu fascínio perene.
— Fazia pouco tempo o meu despertar pela política. Sabia que, eu não podia continuar a me enganar com a minha medíocre vida. Ir à luta era mais que necessário. E tudo isto não era somente por um pão a mais.
Sua última lembrança era de Robespierre discursando. O homem do Artois, com suas palavras inflamadas, fora a fagulha final que o levara às barricadas. Valentine riu amargamente. O que Robespierre diria agora, vendo-o sangrando sozinho em uma floresta, enquanto a revolução seguia seu curso sem ele?
— A França gemia. O Terceiro Estado, nossa pretensa voz, era um joguete nas mãos dos poderosos, marginalizado e silenciado. A aventura na guerra americana, um sonho de liberdade alheia, deixara nossos cofres exauridos. As colheitas minguavam sob um céu inclementes. A miséria, como uma lepra, alastrava-se pelas ruas outrora orgulhosas.
A escuridão começava a tomar conta não apenas do céu, mas também de sua visão. Valentine sabia que seus momentos estavam contados. Que ironia, pensou, morrer em anonimato quando sonhara construir monumentos que durariam séculos com seu nome gravado na pedra.
— Foi por falta de uma justa representatividade política; pela vergonhosa dilapidação dos cofres públicos, devido à participação da nossa nação na Guerra de Independência dos Estados Unidos — fornecendo homens e suprimentos, somadas às péssimas colheitas ocorridas naqueles últimos anos, que suportar aquela situação não era mais possível.
A situação tornara-se insustentável. E então, marchamos. Homens, e mulheres também – ah, a visão daquelas cidadãs, uma determinação indômita no olhar, marchando lado a lado conosco, foi das mais belas e terríveis que meus olhos contemplaram —, todos irmanados por uma causa que nos parecia maior que a própria vida. A tarde do dia 14... foi gloriosa, não há dúvida, um daqueles instantes raros em que a história parece curvar-se ante a vontade de um povo unido.
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
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Capítulo 1: Sangue e Bastilha
Um corpo estirado à beira do lago, arranhões e sangue lhe cobrem o rosto, pólvora e lama tingem as suas vestes…
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I
Um corpo estirado à beira do lago, arranhões e sangue lhe cobrem o rosto, pólvora e lama tingem as suas vestes. Eis Valentine Lencastre, arquiteto, vinte e oito anos, filho da burguesia francesa e, agora, desertor da revolução que ajudara a insuflar.
Suas mãos delicadas, talhadas para desenhar arcos e colunas, agora estavam manchadas pelo sangue dos soldados reais. Ele jamais pensara que seus projetos de grandeza culminariam neste momento – abandonado, ferido e à mercê da morte em uma floresta desconhecida.
Tudo que lhe restava era a memória. E a memória era cruel em sua precisão.
— Tudo que me recordo é que eu estava aos pés da Bastilha, no front com os companheiros da milícia burguesa que formamos no dia 13.
A névoa se dissipava de sua mente em fragmentos desordenados.
— Lembro-me bem que na noite anterior à nossa concentração, alguns rebeldes mais extremistas causaram vários amotinamentos e pelejas. Essa foi a nossa válvula de escape.
O sangue saía copiosamente de seu flanco, tingindo a relva de escarlate. Uma ferida de baioneta, talvez, ou o corte de um sabre. Não importava mais. Valentine sabia que estava morrendo longe das barricadas, longe da glória que poderia ter tido.
— Saí gravemente ferido da maior ofensiva contra os soldados do Rei, antes mesmo de ouvir o grito da vitória. Desertor?... Talvez eu fosse..., mas saí num momento em que senti a vitória nas mãos do povo.
Ele tinha sido um dos primeiros a empunhar armas quando o chamado veio. Não por pão ou vingança, mas por ideais. Valentine Lencastre, o arquiteto que sonhava reconstruir a França sobre alicerces de liberdade, igualdade e fraternidade. Um sonho juvenil agora maculado pela realidade da guerra.
— Estávamos ali tentando mudar a história do nosso país, e promover a nossa liberdade perante as injustiças praticadas pelo Clero e pelo Rei Luis XVI com toda a sua corja de inescrupulosos lordes infernais.
O sol começava a se pôr. Valentine sabia que as criaturas da noite viriam logo. Lobos, talvez, atraídos pelo cheiro de sangue. Ou simplesmente o frio da noite francesa, que mataria o que os soldados do rei não conseguiram terminar.
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Coelho Vermelho
O solitário castiçal iluminava as cartas sobre a escrivaninha. Sua luz trêmula projetava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O solitário castiçal iluminava as cartas sobre a escrivaninha. Sua luz trêmula projetava a sombra disforme do homem sem rosto – um aristocrata cujo semblante ninguém jamais vira. Os rumores sobre sua origem remontavam a séculos, mas sua existência permanecia um enigma envolto na imensidão e silêncio do seu castelo. Apenas alguns servos fiéis, de olhares baixos e lábios selados, lhe faziam companhia.
O homem mergulhou a pena no tinteiro negro. O arranhar no pergaminho ecoava como unhas em um caixão.
"O Conde te espera na celebração dos Láparos. Haverá um baile em prol do Aesttera — Tempo de Conceber Novas Vidas. Te esperamos neste franco deleite", escreveu com caligrafia meticulosa.
Era o décimo quinto ano do ritual. Os Láparos, segundo os antigos manuscritos guardados nas catacumbas do castelo, eram espíritos da fertilidade que exigiam sangue para conceder vida. O Aesttera, ciclo lunar de conceber, aproximava-se do auge.
Mulheres solteiras ou casadas, sem filhos, e homens livres de qualquer preconceito eram bem-vindos. Muitos ignoravam o verdadeiro propósito da celebração, atraídos apenas pela promessa de libertação. O grande evento era visto como um encontro de possibilidades e de escalada social. As melhores joias, as melhores roupas visavam ostentar seus alter egos, que para muitos seriam inalcançáveis caso não fossem ao baile.
A noite chegou com um céu sem estrelas. Coelhos híbridos com humanos, advindos de várias carruagens, rompiam o silêncio espectral daquele lugar. O relinchar dos cavalos misturava-se ao murmúrio excitado dos convidados. Máscaras ornamentadas com penas, joias e cristais escondiam identidades, mas revelavam olhares cheios de desejo, esperançosos pela entrega à libido. O aroma de incenso e almíscar impregnava o ar, enevoando os sentidos já turvos pela expectativa.
Um tilintar numa taça de cristal reverberou pelo salão, evocando a atenção dos convidados que sorriam inocentemente, ansiosos pelo deleite do raro vinho da maçã sangrenta. O líquido escarlate brilhava sob a luz dos candelabros, sua viscosidade deixando rastros rubros nas taças de cristal. Um aroma metálico, adocicado, emanava da bebida.
"Este néctar", anunciou o servo principal, "foi preparado pelo próprio Conde durante o ciclo completo da lua negra."
Eles bebiam. O líquido escorria por gargantas sedentas, esquentando-os por dentro. Comiam. Carnes raras, frutas exóticas, manjares nunca antes provados. Tocavam-se. A princípio com timidez, depois com voracidade crescente. Mas só havia uma única regra: nunca remover a máscara.
E continuavam... As risadas tornavam-se mais estridentes, quase histéricas. Contorciam-se, despiam-se... O som úmido da carne contra carne mesclava-se ao tilintar das joias. Elevavam acima de suas cabeças as taças cheias do néctar afrodisíaco, seus reflexos vermelhos manchando o teto como sangue espalhado.
De seu trono nas sombras, o anfitrião, o homem sem rosto, assistia ao espetáculo daqueles a quem denominava como selvagens. Sob seu manto negro, suas mãos pálidas apertavam os braços entalhados do assento. Era o décimo quinto sacrifício, e cada ano a sede dos Láparos crescia.
"Bebam, velhas bestas, coelhos malditos, hoje celebramos a morte e a vida", e por detrás de sua máscara — única com a cabeça de coelho vermelho, olhos de rubi e pelagem escarlate — projetou sua voz enquanto tilintava sua taça. "Olhem, admirem a origem do sangue que bebem."
Um véu pesado foi removido no centro do salão. E numa gaiola dourada, uma pobre e fértil mulher definhava, pálida como marfim polido, os pulsos cortados e enfaixados, seus olhos vidrados fixos nos convidados. Uma mangueira transparente ligava suas veias à grande ânfora de cristal de onde o vinho era servido. Ela assistia seus algozes deleitarem-se com o viscoso vinho escarlate – seu próprio sangue, drenado lentamente para alimentar a celebração.
Os convidados congelaram. Taças caíram, estilhaçando-se contra o mármore. Alguns levaram as mãos à boca, outros permaneceram imóveis, fascinados pelo horror.
"Os Láparos exigem sangue voluntário," continuou o Conde, sua voz agora mais profunda, inumana. "Ela se ofereceu em troca de riquezas para sua família. Um sacrifício nobre, não acham?"
E a mulher na gaiola, como se esperasse este momento, moveu seus lábios ressecados. "Vocês... todos... malditos..." sussurrou ela, sua voz fraca atravessando o silêncio absoluto do salão. E, destarte, a sua vida esvaiu-se, porém, não com os olhos cerrados, mas fixos em seus carrascos mascarados, em uma maldição silenciosa que cada um deles levaria consigo para sempre.
Por baixo de suas máscaras, imperceptivelmente, pequenos tufos de pelo branco começavam a brotar na pele dos convidados.
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Dois Sóis
Em que ponto do espaço e tempo nós estamos? Não há nenhuma ciência empírica para descrever o porquê destes dois sóis. Agarro-me a uma…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Em que ponto do espaço e tempo nós estamos? Não há nenhuma ciência empírica para descrever o porquê destes dois sóis.
Agarro-me a uma cansada luneta, ansiando ver o despir do espaço. A ferrugem descortina os meus sonhos, enquanto atravesso a senda galopando com meu cavalo biônico. Sobrevivente, astuto, de uma recém tempestade.
Enquanto isso, locomotivas nos agridem com a verdade de que a efemeridade não é exclusiva das rosas. Preciso, portanto, alertar a Camarilha, aos meus irmãos em sangue, de que os imortais também possuem prazo de validade.
Tudo graças a uma criatura que ousou brincar girando, insistentemente, a roleta do tempo. Preciso dar um jeito, pois nutro uma afetividade pela vida que me escorre entre os dedos como areia cósmica.
Os dois sois refletem-se em meus olhos vítreos enquanto contemplo o horizonte partido. É na confluência destes astros que percebo o quanto somos transitórios — até mesmo nós, os que bebemos da taça da eternidade.
A Camarilha não aceitará facilmente este prenúncio. Seremos perseguidos como heresias ambulantes, portadores de um evangelho que ninguém deseja ouvir. Mas a verdade é implacável.
Meu cavalo biônico relinchou três vezes quando avistou o fenômeno. Seria ele mais sensível que seus mestres? Talvez os mecanismos artificiais compreendam melhor as engrenagens do universo do que nós, presos à ilusão de nossa imortalidade.
Sigo adiante, com a luneta pendente do pescoço e o peso da revelação nas costas. Dois sois. Dois destinos. Uma única e irrefutável sentença: até os imortais são feitos de tempo.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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O retorno de Cernunnos
A matéria que suavemente vela o meu corpo, fora feita da suprema energia que permeia o universo. Sou um navegante do tempo a brindar com esferas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A matéria que suavemente vela o meu corpo, fora feita da suprema energia que permeia o universo. Sou um navegante do tempo a brindar com esferas, no Limiar sou fragmento, sou aquele que as criaturas desperta…
O sucumbido grito meu, tentou alertá-los sobre a travessia, todavia, o Limiar rejeita e castiga aquele que não estiver em sintonia, pois o tempo sob o comando teu, é navalha a gerir carnificina.
Na fenda mais profunda, criaturas se gladiam, são deuses de suas histórias, imbuídos em prol da glória, de tecer seus destinos, com o sangue que agora jorra.
No âmago da fenda, repousa o ancestral vampírico, semente adormecida no ventre do caos. Das essências derramadas, serpenteia a força primitiva - Cernunnos desperta, sua coroa de chifres tecendo sombras no limite do real. Em Lencastre, receptáculo da noite eterna, fundem-se as energias prístinas... O Limiar estremece, pois nas veias do imortal corre agora o poder do deus selvagem, e do sacrifício nasce a aliança sagrada, entidade que carrega em si a sabedoria das eras, onde predador e protetor são um só no tecer dos destinos.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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O abraço da Toreador - a gênese do vampiro Valentine Lencastre
Emergi das entranhas da Revolução Francesa, envolto pelo terror e caos que assolavam as ruas ensanguentadas de Paris…
MidjouneyAI
Emergi das entranhas da Revolução Francesa, envolto pelo terror e caos que assolavam as ruas ensanguentadas de Paris. Ferido durante os tumultos da revolta, fui forçado a desertar, buscando refúgio nas terras desoladas e sinistras que testemunharam a brutalidade da guerra. Meu corpo curvou-se à dor, e, em súbito, abracei o solo de uma floresta sob o testemunho de hematófagos morcegos.
Fui resgatado por uma senhora, cujas escamas no rosto a tornavam uma figura ímpar, distanciando-a de qualquer similaridade com a condição humana. Ela, detentora de um silêncio descomunal, cuidou do meu corpo como quem pretendia embalsamá-lo. Ervas e muitas tiras de tecido tocavam minha pele carcomida. Eu vi tudo!... Mas toda vez que tentava falar, indagar onde eu estava, a minha língua mais parecia uma lemimscata, limitada a movimentar-se perpetuamente em si.
Fiquei sete dias e sete noites sob a tutela da anciã, até que, numa noite de plenilúnio, ela resolveu servir-me como oferenda para uma jovem e bela mulher. Todavia, por detrás de todo aquele véu de beleza e sensualidade, estava escondida uma fera faminta. Antes que a criatura se aproximasse de mim, a velha bruxa despiu-me de todas as ervas e tecidos e, com uma jarra, encharcou-me de vinho enquanto proferia algumas palavras em língua estranha, as quais evocavam a feroz criatura que habitava o corpo mais belo que pude conhecer em vida, pois também despida, em meio à penumbra, suas curvas se desenhavam alimentando os meus olhos com um espetáculo de rara beleza.
Enquanto a cópula era presente, a dama da noite, o ser advindo das trevas, em lascívia abocanhou o meu pescoço e cravou sem piedade suas presas. Fui do prazer à dor, da dor à morte, da morte à vida, pois renasci como uma nova criatura, mal sabia eu que havia sido escolhido devido ao meu ofício quando humano. Eu era um arquiteto, um dos mais requisitados da França, e ela, a besta da noite, pertencia ao clã Toreador e estava recrutando os melhores artistas para servi-los. A fome me apertava e o cheiro de sangue me atiçava a querer atacar a anciã que assistia a tudo com expressão de prazer.
Com orientação da vampira e algumas regras expostas, disse que eu não precisava atacá-la, pois ela era sua carniçal em troca de alguns presentes. Pegou a jarra do meu banho de vinho, atacou suavemente a senhora e encheu de sangue aquele recipiente, servindo-me ainda quente. Entendi, naquele momento, que os traços de humanidade que havia em mim não mais me pertenciam. Fui abraçado pelas trevas, fui abraçado pela sedutora Toreador, clã ao qual agora sou filho.
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Ode ao Corvo
Ó Senhor Mistério que comigo agora estás, | levanta-te desta poltrona, amigo, | nunca, jamais, te esqueças do que digo…
Ao mestre Edgar Alan Poe
MidjourneyAI
Ó Senhor Mistério que comigo agora estás,
levanta-te desta poltrona, amigo,
nunca, jamais, te esqueças do que digo.
Oculta de minha mente meus sonhos infernais,
nunca me faças padecer na dor
de ter aqui comigo esses tormentos tais...
Olha ao fundo da taça que te ofereço,
bebe, pois este é o sangue dos imortais,
é chegada a hora de inundar a garganta
e lubrificar estas cordas vocais
para o canto do ilustre corvo de Poe...
És tu, amigo, este pássaro que choras
nos espaços dos meus umbrais
pela musa Lenora que se foi...
Conheço a tua saudade esmagadora,
já me perdi na vida de aventuras,
fui ferido pela musa da Ternura,
cantei somente uma vez e nada mais...
Olha atentamente o retrato que te incomoda,
vês nele as minhas digitais?
Pois bem! Estimado companheiro,
já amei, o teu amor, não amo mais...
Este coração que guardo no peito
foi tomado por forças tais
de um escorpião de tamanho feito
que me enlaçou de tal jeito
fazendo-me um dos seus amores mortais...
Minha alma hoje clama a força
ó ave feia e escura que aqui estás,
tu, somente tu, criatura noturna,
ouviste esse canto desabafo declarante.
Costure neste bico a tua língua delirante
para que tua voz nunca mais
ouse explanar essas fraquezas fatais...
Entreguei-me à filha de Novembro,
aquela bela cujos cachos negros
enfatizei nos meus sonhos perfeitos
deixando-me domar pelos desejos materiais...
Ó pássaro das escuras
a lucidez está a me esperar!
Adeus senhor das plumas,
espero ver-te nunca mais.
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Tu que colhes os ermos deste cemitério, | vem colher a víscera deste corpo, | louco e desvairado, carne do fracasso...
José Uría y Uría (1861–1937) - Lope de Vega en el cementerio (1884)
Tu que colhes os ermos deste cemitério,
vem colher a víscera deste corpo,
louco e desvairado, carne do fracasso...
Tu que amamentas um feto menino,
derrama o teu leite num leito de flores,
vem, entrega-te ao arroio...
Tu que andas nesta noite,
vem visitar-me, estou a sete palmos,
ó ser excomungado pela lua...
Tu que choras nesta tumba,
deixa que o teu pranto invoque estes restos,
esses pútridos esquecidos pela vida...
Tu que a saudade é quem guia,
nunca me esqueças!
Busque-me algum dia...
Tu que os sonhos acompanham,
nunca te esqueças,
dos dias em que éramos um só...
Tu que levas esta carcaça depressiva,
vem dar-me o último beijo,
o abraço do adeus...
Tu que és musa de um desgraçado,
feio, morto e sepultado,
traz-me o teu colo, ó mãe querida.
Canta, ó Primeira Sombra, nos jardins sem aurora, | Onde a carne estrangula as estátuas da memória; | Onde o mármore ferve em rubro e profundo,…