Velian – O Som das Engrenagens na Eternidade
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Velian caminhava entre as sombras de Fortaleza, sentindo o cheiro de maresia misturado ao ferro enferrujado dos portos e ao suor adocicado das ruas noturnas. Pensava o vampiro que em outros tempos as ruas das grandes cidades que conhecera, como Londres, Amsterdã, Paris, entre tantas outras, eram ruins em épocas diferentes, por motivos diferentes, como pestes, pobreza e muito mais, Porém agora tudo era ruim porque parecia muito mecânico, mesmo com o suor das danças noturnas, com a sobrecarga de trabalho dos humanos e todo o sofrimento, parecia para Velian, que havia uma sombra pairando a humanidade, principalmente nas grandes zonas urbanas, em que tudo era muito, muito mecânico, pensava Velian sobre a vida nesses últimos meses, em suas idas e vindas pelo Castelo Drácula. Velian tinha certeza de que o Castelo Drácula era uma manifestação de outras dimensões, seu conhecimento espiritual e de ser sobrenatural lhe davam essa certeza.
Porém o Vampiro sabia também que o Castelo lhe mostrava muito de seu mundo interno e ele às vezes ficava confuso e se perguntava se realmente era digno de entrar no Castelo por não entender muitas vezes as simbologias, mensagens e significados das várias dimensões do Castelo Drácula. Por vezes Velian desejava encontrar o próprio Drácula, mas sempre era submetido a entrar em outras camadas do Castelo e conhecer diferentes seres. Velian não estava tão confortável em apreciar apenas vagamente esses seres que às vezes lhe provocavam medo e o vampiro tinha que lutar e se dispor de todos os seus poderes para encarar tais seres grandiosos, mas que ia e vinham brevemente. Voltando a pensar sobre sua vida em Fortaleza e a observar como vivia, percebeu: as luzes dos postes piscavam sobre as calçadas rachadas, refletindo o mundo moderno que parecia ao mesmo tempo imutável, decadente e repetitivo. Fazia meses que sua fome se tornara diferente — não era apenas por sangue, mas por algo que ele ainda não sabia nomear.
Matara mais do que o habitual. Seduziu mulheres e homens com beijos e promessas vazias, apenas para desaparecer de suas vidas e os deixar no desespero do abandono. Gostava da ilusão de controle, de ver os corações partidos como espelhos estilhaçados refletindo fragmentos de sua própria alma quebrada. Mas nada disso o preenchia. Nem a caça, nem o desejo, nem o caos que espalhava ao redor. Ele se perguntava se algum dia voltaria a realmente sentira prazer nesses jogos ou se tudo não passava de um reflexo pálido do tédio e da insatisfação.
Ele olhou para o céu. Cinzento. Impessoal. Como se o universo estivesse indiferente à sua presença.
E então o chamado veio. Velian entendia que precisava de mais tempo para outro sobressalto do Castelo e uma outra dimensão que apenas iria novamente, mas ainda assim o chamado veio.
O Castelo Drácula sempre o convocava quando sua alma estava prestes a afundar demais na monotonia do mundo. Sentiu o puxão em seu peito, como se algo arrancasse sua consciência da cidade e a atirasse para um outro lugar. O vento mudou. O cheiro de ferrugem e vapor substituiu a maresia. O calor úmido do Ceará deu lugar a um frio metálico. Quando abriu os olhos, não estava mais em Fortaleza.
Estava diante do Castelo. Mas ele não era o mesmo (como sempre).
O Som das Engrenagens
As engrenagens giravam nos cantos mais improváveis. Tubulações surgiam dos muros, exalando vapor denso. Os corredores pareciam agora parte de uma máquina viva, movendo-se lentamente, respirando em estalos metálicos. O céu era tomado por uma poeira dourada que obscurecia as estrelas, e no horizonte dois sois ardentes se erguiam, lançando uma luz acobreada sobre tudo.
Velian caminhou pelo pátio, sentindo o chão de metal frio sob seus pés. Uma sensação de inevitabilidade o tomou. Era como se estivesse dentro de um mecanismo muito maior do que sua compreensão. Tudo era efêmero, tudo seguia uma programação invisível. Ele, um vampiro há séculos no mundo, poderia ser imortal, mas diante da engrenagem do destino, até mesmo ele parecia insignificante.
Foi então que a viu.
No centro do pátio, entre as engrenagens e o vapor, uma mulher de manto negro que o vampiro identificou como a mesma mulher da última visita. Tudo ao seu redor era diferente, mas a mulher, sua presença e sua poderosa energia eram a mesma, Velian ficou até feliz de ver o mesmo ser, mesmo em outra dimensão, ela caminhava lentamente, guiando um pequeno rebanho de cabras negras, como da última vez. Seu cajado de carvalho era encimado por uma pedra negra, pulsante como um coração. Havia algo de bruxa nela. Algo de vampira. Algo de deusa ancestral que existia antes mesmo que os mundos tivessem forma. Velian se preparava para ter com esse ser e não podia ser coincidência que ela ali estivesse novamente.
Ela o olhou, e sua voz cortou o silêncio com um tom que não pertencia a este tempo.
— Tu andas perdido, como sempre.
Velian cruzou os braços, sentindo o incômodo de ser lido tão facilmente.
— E há outro caminho a seguir? A não ser a dúvida? A não ser a angústia?
Ela sorriu de forma enigmática.
— A engrenagem gira, e essa dimensão representa apenas isso – as faces das eras não param, apesar da monotonia de alguns instantes, mas não és tu quem a move. Tens vivido como se buscasses o sentido nas ruínas do desejo, nas cinzas das paixões destruídas. Mas até quando?
Ele desviou o olhar para os dois sois difusos.
— E qual seria a alternativa? Seguir um destino rígido? Aceitar um papel pré-escrito? Como essas engrenagens malditas dessa dimensão, seja lá qual for ela? Se tudo está conectado por engrenagens invisíveis, há como quebrar esse ciclo?
Ela se aproximou, e o cheiro de terra antiga, ferrugem e sangue fresco emanou dela.
— A dúvida te corrói, mas também te mantém vivo. No dia em que parares de perguntar, serás apenas mais uma peça nessa máquina infinita. Há tempos olhas para a eternidade e te perguntas o que fazer com ela. Mas eu te digo… o que fazes com um único instante?
Velian a fitou. Sua presença era hipnótica. Ele sentia que, de algum modo, tinha aprendido algo, ou entendido algo, mas ainda não sabia o quê.
O vapor sibilou ao redor deles, e, por um breve momento, tudo pareceu congelar. A mulher sorriu novamente antes de desaparecer na névoa dourada.
Mas Velian não gostava daquilo. Um mundo de engrenagens para ele, um ser romântico nos termos de um poeta louco, seu sentir demais, não gostava daquele mundo que agora pairava sobre ele, desejou ainda dialogar mais que esse ser ancestral que ia e vinha das várias dimensões e desejou sair daquela dimensão em que estava, pois não gostava de engrenagens e do conceito de destino e de tudo ser meramente funcional, como as engrenagens naquela dimensão pareciam mostrar.
Entre a Máquina e o Sangue
Ele detestava a visão do Castelo transformado em uma prisão de engrenagens. A ideia de um destino rígido, de um ciclo que girava por si só, o enojava. O que era um ser imortal senão um errante sem caminho definido? Ele não queria ser parte de uma máquina sem alma, programado para existir sem sentir.
Foi nesse momento que compreendeu algo muito importante.
Não era o caos, a destruição ou o vazio que o movia. Não era a sedução para o abandono, o prazer na angústia alheia, nem o desejo de quebrar corações apenas para ver os estilhaços. Nada disso o preenchia. O que verdadeiramente o sustentava era a conexão, ainda que efêmera.
A troca de olhares no meio da noite. O calor de um corpo desconhecido em sua cama. O sussurro de um segredo que nunca seria repetido.
Não importava que os momentos fossem passageiros. Não importava que, no fim, tudo se dissolvesse no esquecimento. Enquanto duravam, eles eram reais. Com esse pensamento, ele decidiu que era hora de voltar.
Mudaria de identidade mais uma vez, deixando para trás o vampiro que devorava e destruía por tédio. Não se livraria de suas dúvidas, mas aprendera que elas eram parte dele. Não era assim também com a humanidade? A incerteza, o medo, a busca por sentido no vazio?
Talvez ele fosse, afinal, a personificação da humanidade.
Sempre teria questionamentos. Sempre sentiria o vazio corroer sua alma. Mas agora entendia que, no meio da escuridão, existiam fagulhas de conexão que tornavam a eternidade suportável. Em meia a devaneios e reflexões, olhou novamente para o mundo mecânico, mas tudo o que viu foi o topo do prédio em que estava após sua última cassada, estava de volta à velha capital cearense e estava feliz pela primeira vez de não estar em alguma dimensão perdida, principalmente aquela feita de engrenagens.
E talvez fosse a hora de visitar Cassandra.
Não para buscar respostas, o vampiro ponderou que respostas e conhecimento eram coisas diferentes, então decidiu partir em busca de Cassandra e de conhecimentos que nem ele conhecia bem, mas que a vampira ancestral, por mais debochada e irônica que fosse, dominava muito bem.
Com sombrio apreço, a Anfitriã Sahra Melihssa