28. Diário da irmã da Ordem IV
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Data: 25 de novembro de 1374
Irmã Teodora me levou para além dos muros da catedral hoje, caminhamos em silêncio até uma floresta densa e quieta, aquela que caminhei até encontrar o caminho da catedral, caminhamos por ela um bom tempo até que ela parou e falou: “Este, Mara, é nosso verdadeiro túmulo”, ela disse, apontando para as árvores. “Aqui é a floresta das raízes silenciosas.” O nome era apropriado, só se ouvia ali o som do vento entre os troncos. “Quando morremos”, Irmã Teodora continuou, “nosso corpo não é guardado em pedra fria ou muito menos deixado para apodrecer em qualquer lugar, somos devolvidas à terra da qual nascemos outra vez.” Ela deu mais alguns passos e passou a mão em uma árvore de tronco escuro. “Cada irmã da ordem escolhe em vida a sua árvore e essa é a única escolha que lhes é garantida. Quando morremos, somos enterradas ao pé delas, e nossas raízes se entrelaçam com as delas e assim nos tornamos parte dela.” Toquei no tronco da árvore e por um momento ela pareceu pulsar sob meus dedos. “E aquelas irmãs que a ordem não consegue recuperar o corpo?”, perguntei. “Se uma de nós se perde, ainda assim lhe damos uma árvore, um túmulo sem corpo, mas não sem memória”, ela disse, olhando para a árvore. Fiquei imaginando quantas irmãs não tinham sido encontradas e quantas árvores cresciam no vazio. Fiquei a olhar todas aquelas árvores ao meu redor. “Qual árvore você escolheu?”, perguntei. Irmã Teodora sorriu, me surpreendendo, e disse: “Um carvalho, firme e duradouro.” Não perguntei mais nada, mas quando estávamos saindo da floresta olhei ao meu redor e me perguntei: “Se eu caísse, qual raiz carregaria meu nome? Será que suas raízes iriam crescer no vazio?”. Talvez eu ainda não deva me preocupar com isso agora.
Data: 13 de dezembro de 1374
Estava andando pelos corredores da abadia, quando ouvi vozes abafadas, duas irmãs sussurravam, parei atrás de uma coluna e ouvi. “...o poder dele está além da compreensão”, murmurou uma delas. “A ordem finge que ele não existe, mas sabemos que ele está lá, seu domínio nunca caiu de verdade”, disse a outra. “Se a ordem quisesse, poderia enfrentá-lo…”, a primeira delas falou. “Se quisessem mesmo, já teriam feito”, a segunda bufou. Fiquei imóvel, ouvindo o que talvez fosse uma conversa proibida. “Drácula nunca morre, nunca é esquecido e há um bom motivo para isso.” O nome ecoou na minha mente. “Talvez seja por isso que a ordem não interfere no domínio dele, talvez seja algo que não possamos mudar”, uma delas falou. Eu já ouvi esse nome antes, em relatos de viajantes que passavam pela catedral, e o li em textos antigos com poucas informações, mas a ordem nunca falava sobre ele diretamente, não sabia se ele era um aliado ou apenas uma sombra à espreita, mas na ordem ele era um silêncio deliberado. As irmãs continuaram sem notar minha presença, me afastei logo, antes que me percebessem, fui para meus aposentos e o nome foi comigo. Drácula, Drácula, Drácula, como a batida de um coração no fundo da minha cabeça.
Data: 14 de dezembro de 1374
O nome Drácula continuou ecoando na minha mente como um coração pulsante a manhã e a tarde toda, ele se recusava a ir embora. Quando estava limpando as lâminas com a irmã Isolda, a única irmã à qual eu tinha afinidade, não consegui conter minha dúvida e tentei, de maneira casual, perguntar a ela sobre Drácula, ela estava na ordem há mais tempo que eu e poderia me dar mais informações. “Irmã Isolda, ouvi algumas irmãs sussurrando nos corredores, elas falavam de Drácula.” Seus dedos pararam por um instante na lâmina que estava afiando. “Drácula”, repeti, testando sua reação ao nome. Seguiu-se um silêncio pesado e Irmã Isolda voltou a afiar a lâmina como se eu não tivesse dito nada. “A ordem não se preocupa com ele?”, perguntei. “Não é uma questão de preocupação, é uma questão de decisão”, ela falou sem erguer os olhos. “E o que isso quer dizer?”, perguntei. Ela suspirou por um momento e respondeu: “A senhora da Morte tem seus motivos para não interferir nos domínios de Drácula e isso é tudo que você precisa saber.” E foi isso, nenhuma explicação, nenhum detalhe, a conversa estava encerrada antes de começar. Mas algo em suas poucas palavras me fez entender que Drácula era um nome a ser evitado e me restava saber o motivo dessa escolha ter sido feita.
Revisado por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Sou última nascida em sangue e cinzas | Carrego a carapaça de osso e fúria, | Amálgama d’outrora em boas-vindas | À Vila Séttimor em sua lamúria;…