O Éter e a Forja dos Imortais
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
(Escrito em meu Caderno — póstuma)
Sem Data — O peso da vigília sufocava-me. O braço esquerdo, pesado como chumbo fundido, resistia a qualquer comando, uma prisão de carne e osso que pulsava com o ardor lancinante de um ferimento que já deveria ter cessado de gritar. Oh, o ar ao meu redor era um vapor espesso, cheirando a óleo e metal oxidado, e a luz que ousava existir bruxuleava trêmula sobre as paredes de ferro e cobre, como se receosa de revelar o que jazia além do visível.
Estava deitado sobre uma mesa de metal, a superfície fria sob meu corpo contrastando com o calor febril que percorria minhas veias. Um lençol de algodão grosso cobria-me parcialmente, áspero contra minha pele. As imagens em minha mente dançavam entre a vigília e o torpor, angustiantes e, de algum modo perverso, reconfortantes. Entre os devaneios, percebia uma presença. Alguém estava ali.
A dor despertava-me de vislumbres indistintos — o rosto de um velho sacerdote, olhos carregados pelo tempo e barba desgrenhada como os ramos retorcidos de uma oliveira ancestral. Ele sussurrava algo enquanto minha consciência oscilava entre os fragmentos da batalha. Houve luta. Houve sangue. Teria que existir algo... algo que não conseguia nomear. Lembranças retornavam como lâminas cegas, desfiando-me lentamente.
Meu irmão, Alonso. Meu pequeno Alonso. Vi seus olhos se esvaírem em um campo onde a morte ceifava sem distinção. O frio da Prússia nunca me parecera tão cruel quanto o toque gélido de seus dedos sobre minha pele quando a vida o abandonou. Então, ali, em meio às entranhas de uma arquitetura de vapor e engrenagens, outra cena arrastava-me ao abismo. Sevilha. A praça banhada pelo sol dourado, risos infantis quebrando a manhã com uma pureza inalcançável. Valéria corria ao redor de nossa mãe, seus cabelos escuros como a noite embaraçando-se ao vento quente. Nora, sempre tão bela, com as mãos brancas e finas trançando flores nos cabelos de minha irmã.
Mas o que era essa sensação? Como podia ver o ontem e sentir o agora em um mesmo golpe? O calor de Sevilha desaparecia, e era tragado de volta à sala abafada, onde os tubos de cobre se entrelaçavam como serpentes, onde líquidos impossíveis brilhavam em frascos que guardavam segredos que jamais deveriam ter sido destilados.
O peso da memória era tão insuportável quanto o peso do braço que não respondia. Havia algo errado em mim. Algo que não deveria estar ali. Algo que pulsava...
Entre esses estados confusos de consciência e torpor, havia uma voz. Um nome. Ele emergia do nevoeiro da inconsciência, pronunciado de forma metódica, quase cirúrgica. "Arturo Vasquez". Sempre o mesmo nome, repetido nas bordas dos meus sonhos. Às vezes, era um sussurro. Outras, um tom firme, como se alguém estivesse se apresentando. A imagem de um homem de olhos frios e presença severa gravou-se em minha mente, como um espectro vagando entre a razão e a ilusão.
Agora, estou sentado em um quarto. As paredes de metal frio refletem a luz pálida da lamparina, sombras oscilam e se retorcem no espaço apertado. A porta de grade diante de mim separa-me da vasta sala, onde a penumbra se dissolve em uma névoa turva. E ali, no centro do aposento, a silhueta de um homem. Sua presença é um fragmento que eu não compreendia até agora.
Baixo os olhos para meu braço esquerdo e estremeço. A carne que antes ardia em dor fora substituída por algo... diferente. Tubos de cobre e prata correm entre as engrenagens, zumbindo em um ritmo que imita a respiração. Entre as articulações metálicas, fios de um brilho azul etéreo pulsavam, correndo como se fossem veias vivas, um fluxo constante de energia enigmática. Placas de latão e bronze, meticulosamente encaixadas, formam uma carapaça intricada, selada por runas gravadas à fogo — símbolos que não compreendo, mas que parecem murmurar uma verdade esquecida. Cada falange, um primor mecânico, responde com precisão, dobrando-se com um sussurro suave de engrenagens ocultas.
Minha voz quebra o silêncio, rouca, carregada pelo peso do passado e da incerteza do presente.
— Arturo Vasquez.
A silhueta move-se levemente, as sombras dançando ao redor de sua figura esguia. O brilho pálido da luz ilumina seu rosto por um breve instante — um olhar frio, calculista, pousa sobre mim.
— Você acordou. — Sua voz é baixa, controlada, desprovida de qualquer traço de surpresa.
— O que fizeram comigo? — murmuro, os dedos metálicos fechando-se involuntariamente sobre minha perna.
— Eu te reconstruí — ele responde, cruzando os braços. — Salvei o que restava de você. Transformei o que era falho em algo funcional.
Meu olhar retorna ao braço autômato. A precisão dos encaixes, a pulsação do éter azul correndo por entre as junções. Há algo além de mecânica nisso.
— Isso… não é somente metal — constato, mais para mim do que para ele.
Arturo mantém-se imóvel, mas há um brilho sutil em seus olhos.
— Não. O corpo humano é um motor imperfeito. A ciência sozinha não basta. Há forças que fluem além do que compreendemos. — Ele inclina levemente a cabeça, como se observasse um experimento. — E eu as domestiquei para te trazer de volta.
Antes que eu possa responder, passos ecoam do lado de fora. Uma sombra longa estende-se pela fresta da grade. A porta se abre, e Narcís Nestor entra. Seu olhar desliza por mim, primeiro surpreso, depois carregado de desprezo.
— Então foi assim que decidiu sobreviver, Anton — sua voz é um veneno gélido.
Levanto-me instintivamente, cerrando o punho. Ao socar a grade, uma energia invisível manifesta-se, repelindo-me com um choque alastrado pelo braço autômato.
— Tsc. — Nestor sorri, satisfeito.
Então, uma segunda presença invade a sala. O ar pesa. As sombras parecem alongar-se em saudação macabra. E a voz — aquela voz inconfundível — desliza pela penumbra como veludo e lâmina ao mesmo tempo.
— Anton S. Miahi. Como é bom revê-lo.
Meu peito aperta. O Conde Drácula adentra o aposento, sua presença dominando cada fresta de escuridão.
A conversa que se segue é enigmática, insinuando sobre Séttimor e os estudos de Olga. Mas não consigo entrever onde Arturo se encaixa nisso.
Então, Narcís e Drácula partem, deixando-me novamente com Vasquez. O engenheiro encara-me por um momento antes de finalmente falar, sua voz sem emoção aparente.
— A destruição pode ser controlada. Domada. Aprendi isso da pior forma possível…
Horas mais tarde — O silêncio que ficou era denso, quase palpável. O ar, que antes carregava a presença esmagadora de Drácula, parecia rarefeito, como se Narcís e ele tivessem sugado para si tudo o que tornava aquele espaço minimamente suportável.
Deixei-me cair sobre o assento metálico, sentindo o peso não somente do meu próprio corpo, mas do braço autômato que agora me pertencia — ou talvez, que agora me possuía. O som sutil das engrenagens rodopiando na estrutura de bronze e prata era um lembrete constante da minha nova condição.
Do outro lado da sala, Arturo Vasquez permanecia imóvel, observando-me com a mesma expressão fria e analítica que sempre parecia carregar. Seu rosto era esculpido na reserva de alguém que já testemunhara o suficiente para não se abalar facilmente. Mas havia algo ali, escondido nas sombras de seus olhos, algo que eu precisava arrancar à força.
— Então — que diabos você fez comigo? — Minha voz rompeu o silêncio, carregada de um peso que nem mesmo eu compreendia por completo.
O engenheiro cruzou os braços, recostando-se contra a parede de metal escurecido. A luz bruxuleante projetava sombras sobre seus traços rígidos, tornando-o ainda mais impenetrável.
— Eu te tornei funcional, Anton. Você estava perecendo. Seu corpo não suportaria. Dei-lhe uma alternativa. — A voz era firme, sem vestígios de emoção.
— Alternativa? — Soltei um riso baixo, ácido. — Meu braço já não é meu. Está vivo de uma maneira que não compreendo. Há algo além de engrenagens e cabos nisso... E eu sinto, Vasquez, eu sinto que há um preço por trás dessa dádiva que você não menciona.
Arturo não respondeu de imediato. Seus olhos caíram por um instante no meu braço autômato, observando o fluxo do éter azul pulsando entre as articulações. Ele inspirou fundo, um som discreto, mas carregado de peso, antes de falar.
— Cresci ouvindo histórias sobre bruxaria e curandeirismo. Minha avó falava sobre forças que a ciência não poderia tocar. Forças que poderiam curar… ou consumir. — Ele fez uma pausa, estudando-me. — Quando minha irmã adoeceu, acreditei que a medicina bastaria. Mas ela faleceu em meus braços. Como o seu irmão pereceu nos seus. — Seu olhar não demonstrava pena, somente uma constatação dura como aço. — Você murmurava o nome dele nos delírios. Durante as febres, antes e depois do procedimento. Chamava por Alonso como se ele ainda estivesse ali, sangrando, agonizando. — Arturo inclinou a cabeça levemente. — Eu ouvi cada palavra.
Um calafrio percorreu minha espinha. Uma fúria surda e incômoda começou a se erguer dentro de mim. A lembrança de Alonso — sua voz, sua risada infantil em Sevilha, o peso de seu corpo sem vida nos meus braços no campo de batalha — se mesclava ao absurdo daquela situação.
— Você... ousa falar dele? — Minha voz tremeu entre a indignação e a incredulidade. — Ousa trazer meu irmão à tona como se fosse apenas mais um experimento seu?
— Não se engane, Anton. Eu não o trouxe à tona. Você o trouxe. Ele está em você. — Arturo deu um passo à frente, a sombra de sua figura se alongando sobre o chão de ferro. — Os mortos nunca nos deixam. Mas o que fazemos com sua memória... isso, sim, define quem nos tornamos.
Respirei fundo, tentando conter a tempestade dentro de mim. Senti o peso do braço metálico — frio, estranho, quase um membro que não me pertencia. Não era natural. A ideia de estar fundido a algo tão distante da carne humana era repulsiva. A tecnologia de Arturo ia além do que eu compreendia, além de tudo que era concebível no século em que nasci.
— Você realmente acredita nisso? — Minha voz saiu mais baixa, quase um sussurro. — Que o destino pode ser moldado somente com metal e precisão? E esse tal de “Éter do Imaterial”… Isso também faz parte do seu controle?
Arturo hesitou por um instante. Uma hesitação mínima, mas eu a percebi.
— O Éter não é apenas uma teoria — respondeu, sem desviar o olhar. — É uma força que permeia todas as coisas. A ciência sozinha não é suficiente para domá-lo. Mas aprendi a moldá-lo… a utilizá-lo. — Ele indicou meu braço autômato com um leve movimento de cabeça. — Você é a prova disso.
Apertei os dentes, a frieza de Arturo me irritava profundamente. Não era arrogância, não era fanatismo. Era uma convicção silenciosa, aterradora.
Eu precisava de mais respostas. Mas acima de tudo, precisava descobrir até onde Arturo estava disposto a ir em nome dessa crença.
“Cautela; à dor pertence tudo o que se é — e nas sombras do ser há uma angústia imorredoura. Ainda assim, há contento ao sentido. Veja-me, desvele-me na…