Simulacrum

26 de maio de 2097. Tudo começou na década de 20.O capitalismo conduziu a humanidade, lentamente, para um apocalipse silencioso. Um fim…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

26 de maio de 2097

Tudo começou na década de 20.

O capitalismo conduziu a humanidade, lentamente, para um apocalipse silencioso. Um fim do mundo sutil. Não houve explosões, guerras nucleares ou cadáveres espalhados pelas ruas. Pelo contrário — as pessoas riam, faziam piadas e seguiam vivendo sem perceber para onde estavam indo.

Todos pareciam felizes demais para notar o fim do mundo chegando.

Lembro das histórias dos meus avós sobre algo que chamavam de Internet. Sobre como aqueles pequenos aparelhos em suas mãos arrastavam a humanidade, pouco a pouco, para um abismo confortável de dopamina.

E aquilo se tornou um vício.

Rolavam feeds infinitos no Instagram. Passavam horas no TikTok. Consumiam vídeos rápidos até perderem completamente a noção do tempo. E as grandes companhias perceberam cedo que atenção valia mais do que ouro.

Então começaram a moldar gostos.

Tudo era minuciosamente calculado.

O tempo que vocês passavam olhando um anúncio.
O segundo exato em que sorriam para um vídeo.
A música que fazia vocês pararem para cantar.
O rosto que prendia atenção por tempo demais.

Os celulares observavam tudo. Ouviam tudo. Espionavam tudo.

Cada termo de uso aceito sem leitura.
Cada cookie salvo nos computadores.
Cada clique.
Cada passo.
Cada informação entregue voluntariamente em milhares de sites.

Tudo registrado, analisado e vendido para corporações gigantescas.

Se alguém gostava de filmes de terror, logo era cercado por teorias, jogos, roupas, músicas sombrias e colecionáveis. Não importava se precisava daquilo.

Importava continuar desejando.
Continuar consumindo.
Continuar comprando.

Continuar acreditando que os próprios desejos pertenciam a si mesmos, quando, na verdade, haviam sido plantados ali.

Uma série sobre alienígenas estreava em um streaming. No mês seguinte, refrigerantes, brinquedos e propagandas utilizavam os mesmos personagens. Um filme de super-heróis chegava aos cinemas e, naquela mesma semana, milhares de crianças imploravam aos pais por bonecos produzidos em massa.

Tudo se conectava.

Tudo era publicidade.
Tudo era manipulação.

E o pior é que ninguém se importava.

Porque parecia conforto.
Parecia entretenimento.
Parecia felicidade.

Aos poucos, a humanidade começou a abandonar a realidade para viver no mundo digital.

Não havia mais CDs nas casas.
Nem VHS.
Nem DVDs.
Nem fotografias impressas.

Tudo se tornou digital.

Filmes.
Músicas.
Lembranças.
Relacionamentos.
Personalidades.

Até a própria vida passou a existir atrás de telas.

E então a humanidade começou a desaparecer.

Consumida pelo mesmo capitalismo que prometia conforto enquanto lentamente a levava à decadência. O mundo não acabou em guerra.

Acabou em consumo.

No lugar de cada pessoa surgiu um doppelgänger digital.

Um duplo.

Mais bonito.
Mais engraçado.
Mais interessante.
Mais fácil de amar.

E esses duplos começaram a se relacionar entre si enquanto os humanos reais apodreciam lentamente atrás das telas.

Ninguém mais saía de casa. Comida e suprimentos eram entregues por drones controlados por inteligências artificiais. Toda comunicação acontecia através de celulares, e os relacionamentos deixaram de existir entre pessoas reais.

As pessoas passaram a amar versões editadas umas das outras.

Perfis digitais.

Personagens inventados.

Duplos

É nessa realidade que você vive agora.

Uma realidade onde ninguém mais ama pessoas.
Apenas versões idealizadas delas.
Apenas os duplos digitais que consomem, compram e fingem ser melhores do que realmente são.

E eu?

Eu sou apenas a consequência daquilo que vocês criaram.

Eu sou você, daqui a alguns anos.

Escrevendo uma carta para meu próprio passado, implorando para que alguém me salve desse futuro.

Porque esse futuro…

Não é bonito.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

Olhos flamejantes e o último autônomo

Acordou num sobressalto. Os sonhos pareciam vívidos. Arturo não descansava…

Criatura núrida, este conto, que estás prestes a ler, contém um interessante enredo. Foi construído com maestria por uma autora fascinante e, decerto, trará à sua mente uma compreensão diferente sobre o que as engrenagens, quando vinculadas, podem trazer à tona no equilíbrio da existência. Boa leitura!

Com sombrio apreço, a Anfitriã Sahra Melihssa

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Acordou num sobressalto. Os sonhos pareciam vívidos. Arturo não descansava há dias, flagelado por dores intensas e pensamentos perfurantes. O silêncio já não trazia alento, o trabalho não mais o distraía do medo. Agonia. Receio. Inquietude. Eram seus únicos estados de espírito. 

Como homem da ciência, não ousava procurar os curandeiros; não buscava a nenhum deus, porque lhe faltava a fé que faria com que as montanhas de incômodo fossem removidas. 

Nos raros momentos de um falso alívio, lembrava com tristeza de sua última e perfeita invenção: um autômato que emulava, funcionalmente, as habilidades que desejava em um assistente pessoal.  

Mas ele se fora. 

Os olhos flamejantes engoliram sua criação, mas recusava-se a acreditar no que presenciara. Lutava consigo, não iria permitir que pensamentos alucinatórios o envolvessem em uma lama de caos e insanidade. Viu, mas em sua racionalidade extrema afastava, furiosamente, quaisquer ideias fantásticas. Aqueles olhos tinham que ter uma explicação científica.  

A sua criação perdida tinha o exoesqueleto de ferro. Os ossos-ferro foram forjados pelas mãos fortes do jovem Arturo. A “pele” era uma fina camada de bronze, cujo contornos foram delineados, delicadamente, para compor os detalhes da musculatura humana. Finalizou em 1970, com então 25 anos de idade, e naquela época ainda não havia tecnologia para emular voz humana, mas como seu auxiliar só precisava de coordenação motora aceitável, era perfeito para o que se propunha. Não tinha a coordenação fina de um adulto saudável, mas os serviços de Arturo exigiam mãos fortes, tal qual as dele e assim ele o fez. 

*** 

Em uma noite sem estrelas, onde o vento assoprava segredos indecifráveis, Arturo lembrou-se das histórias de sua infância, contadas todas as noites por sua vó. Em uma delas, grandes olhos de fogo surgiam nos céus para julgar e condenar todos os habitantes da terra. Quais eram os critérios para condenação? Quais eram as penas? Havia muitas versões, mas a que mais perturbava o jovem era: “as piores torturas viriam para àqueles que tinham sangue de inocentes nas mãos”. 

O governo para qual Arturo havia cedido sua mão de obra e, consequentemente, sua alma, nadava em um mar de sangue inocente. Ele, como criador de milhares de autônomos para combate, sabia que tinha parte dessa culpa. Sabia que as dores eram consequências das mortes que agora recaíam sobre seus ombros. Mas recusava-se aceitar que as crendices tivessem efeito no mundo real. 

Mesmo afligido pelas dores e culpa começou um novo protótipo. Sempre fora obstinado e não estava disposto a mudar de comportamento. Se, o que quer que seja, tomou-lhe o assistente anterior, faria outro, ainda mais perfeito. E assim o fez. A nova criatura era infinitamente mais robusta e com habilidades motrizes melhoradas. Olhou para o novo ser de ferro e gostou do que viu. Conseguiu dormir por algumas horas ininterruptas sem ser perturbados por ruídos ou dores. 

Acordou sentindo as esperanças renovadas, mas o bem-estar recém adquirido seria esmigalhado por outra perda: o novo ser também sumira. 

Sabia quem o havia levado, mas novamente, tornou a banir tais pensamentos e recomeçou o ciclo de criação. Novos protótipos eram criados reiteradas vezes, mas mal conseguia terminar os testes era açoitado por novas perdas. Inúmeros autônomos foram sugados para dentro dos olhos famintos. As dores aumentavam, até que não sobrou mais pensamentos lúcidos e a sua capacidade cognitiva foi severamente afetada. 

*** 

Aquela noite estava atípica. Ouviu barulhos agudos incômodos, como se estivesse dentro de uma siderúrgica macabra, mas não sabia distinguir o que era real do que era truque de uma mente adoentada. Quando, enfim, decidiu acabar com seu sofrimento, um brilho intenso o cegou, mas os ouvidos continuaram ávidos por qualquer onda ou gotejo sonoro. Vozes metalizadas começaram a emergir, e a potência das vozes lembravam um coral que rasgou os céus e desceu com leveza até a terra. 

De alguma forma, o exército que ele havia criado retornou para buscar seu criador. O sangue dos inocentes clamava por justiça e os combatentes-máquinas foram enviados para a missão final. Em seus últimos segundos de vida Arturo escutou o veredito provindo de sua última criação. Sabia que os olhos haviam encharcado aquelas criaturas com a ordem de exterminar todos os culpados, mas ao invés de medo sentiu um alívio, pois constatou ter engendrado uma figura infinitamente perfeita.  

“Eu estava certo vovó. A ciência é maior que a crendice...”. 

O último autônomo não lhe deu chance de concluir o discurso e eliminou o brilhante inventor. No alto, os olhos flamejantes permaneciam indiferentes aos milhares que ainda aguardavam, sem adivinharem, seu destino. O ciclo precisava continuar e o universo seria reinventado... E as engrenagens nunca iriam cessar... 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

Leia mais em “Contos”:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
Selo NEEA, Escrito por Leonardo Garbossa, -Resenhas Leonardo Garbossa Selo NEEA, Escrito por Leonardo Garbossa, -Resenhas Leonardo Garbossa

Trilogia Sprawl: Parte #1 Neuromancer

O universo cyberpunk é apaixonante e cruel, assustadoramente amplo e confuso, subjetivo e brutal, crítico e revolucionário, dentre muitas outras coisas…

Imagem da Web

O universo cyberpunk é apaixonante e cruel, assustadoramente amplo e confuso, subjetivo e brutal, crítico e revolucionário, dentre muitas outras coisas. Abrangendo desde gêneros literários, jogos de vídeo game, músicas, vestimentas, características estéticas… se compondo como um todo a ser explorado. Com luzes neon iluminando as ruas à noite, implantes cibernéticos, conflitos entre gangues e um mundo dominado por megacorporações, o cyberpunk (que se tornou, recentemente, um vocábulo reconhecido pela Academia Brasileira de Letras) se materializa como uma crítica clara e explícita ao caminho que a humanidade trilha há décadas: um mega corporativismo ultra capitalista.

É impossível tocar no assunto sem citar e se aprofundar na trilogia que pavimentou a estrada do sub-gênero literário: Neuromancer, Count Zero e Mona Lisa Overdrive, conhecidos como “trilogia Sprawl”, do autor William Gibson.

Neuromancer (1984) é o primeiro livro da trilogia e, também, é aquele que captura o leitor e o apresenta ao estilo de escrita do autor. Ora extremamente descritiva (e nada explicativa), ora direta e dinâmica, a escrita de Gibson pode impactar negativamente os leitores de primeira viagem.  O autor discorre, por páginas e páginas, pelos mais ínfimos detalhes da cidade de Chiba: as tecnologias dispostas por toda parte, as gírias locais, as drogas utilizadas, as dinâmicas entre a população local… O que pode ser considerado como característica de uma escrita amadora, ou como um verdadeiro truque de mestre. Gibson alterna a quantidade de informação disposta ao leitor conforme a linha narrativa do capítulo em questão. Quando acompanhamos Case, o cowboy (hacker) e personagem principal do livro, o autor é específico com relação aos equipamentos e técnicas utilizadas, assim como sobre o ciberespaço (termo cunhado por ele mesmo). Quando acompanhamos outro personagem, que pouco sabe sobre os acontecimentos, o autor também nos apresenta com pouca informação. Assim, nos vemos com o mesmo nível de conhecimento que os personagens que estamos acompanhando, tecendo uma relação pessoal e íntima com eles.

No início do livro, nos deparamos com um protagonista em ruínas. Case, após tentar roubar de seus próprios contratantes, foi infectado com um vírus que o impede de se conectar à rede. Vivendo em completo colapso, ele está preso às lembranças de sua ex-namorada e à rotina criminosa de Chiba — um cenário que reflete não apenas suas emoções destroçadas, mas também a ausência de qualquer perspectiva, sentimentos que permeiam este novo universo. O personagem se submete a trabalhos perigosos para criminosos locais, em troca do suficiente para viver mais um dia. Gibson, então, nos presenteia com a personagem mais singular e inesquecível de toda trilogia: Molly Millions. Molly é personagem recorrente nas histórias do autor, aparecendo pela primeira vez em Johnny Mnemonic, três anos antes de Neuromancer. Forte, em todos os sentidos, e apaixonante, a razorgirl surpreende pelas marcantes características físicas (as lentes prateadas sobre os olhos) e pela personalidade incomparável. Molly é o “estado da arte” do autor. Todas as cenas em que aparece são marcantes, especialmente quando o autor vai nos mostrando pequenos fragmentos sobre o passado obscuro da personagem.

Molly aborda Case para convocá-lo, sabendo de suas habilidades como cowboy, a mando de Armitage, outro personagem que nos surpreende ao longo da obra. Case recebe a possibilidade de ser curado, mas deve ajudar Armitage em determinadas missões que o apresentarão a desafios jamais vistos. Neste momento o autor nos apresenta a característica mais marcante da trilogia: a junção do cyberpunk com a religião vodu. O ciberespaço deixa de ser a representação gráfica de dados corporativos e passa a ser lar de entidades sencientes, como inteligências artificiais que se materializam no espaço virtual, se movimentando e buscando compreender umas as outras. É inegável que a proposta gera uma sensação desconfortável no leitor, que se vê diante de algo que nem as forças de segurança digital do livro sabem lidar. Case se vê perante algo muito maior do que ele mesmo: o questionamento sobre quando, e como, isso começou (algo que só será respondido, em partes, no terceiro livro da trilogia) e quais os impactos por vir.

O misto de tecnologia, investigação, religião vudu e questionamentos sobre humanidade e moral nos mantém presos à obra, que escala e ruma as resoluções da metade para o final, com uma conclusão surpreendente e inesquecível

Neuromancer é visto por muitos como o melhor livro da trilogia (e do autor) e ponto de partida de todos que querem compreender o início do universo cyberpunk. Sua influência nas obras que se seguiram é perceptível nos elementos desenvolvidos pelo autor: constructos de personalidade (o personagem Flatline, que auxilia Case em diversos momentos), megacorporações que dominam as cidades (Hosaka, Maas Biolab, a infame e familiar Tessier-Ashpool), implantes cibernéticos por toda parte (como não se lembrar dos braços de Ratz logo no início do livro?) e o universo abstrato e assustador que é o ciberespaço. 

Os escritos de Gibson são uma experiência a ser vivida e que todos os amantes do cyberpunk deveriam conhecer para entender as estruturas que sustentam esse gênero.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

Leia mais em “Artigos e Resenhas”:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais