O pergaminho da Agonia

 Ao cruzarem o limiar da floresta, o mundo transformou-se em uma pintura. A luz do luar agonizante cortava a copa das árvores em feixes geométricos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Ao cruzarem o limiar da floresta, o mundo transformou-se em uma pintura. A luz do luar agonizante cortava a copa das árvores em feixes geométricos, criando contrastes violentos entre o branco absoluto da folhagem e o negrume opaco das sombras. As Arbóreas Argênteas eram monumentos de um gótico vegetal: troncos esbofeteados pelo tempo, cascas que reluziam como prata polida, mas cujas seivas, agora corrompidas, pingavam no chão como piche. A floresta não sussurrava; ela gemia em uma frequência que fazia os dentes de Clariegra vibrarem. De repente, a escuridão se moveu.

Das sombras projetadas pelas raízes retorcidas, surgiram os Gobelinus, abominações esqueléticas, com peles cinzentas e úmidas que absorviam a pouca luz do ambiente. Seus olhos eram fendas de um amarelo biliar, e suas bocas, rasgadas de orelha a orelha, exibiam dentes de quartzo lascado. Eles portavam adagas feitas de galhos secos e ossos afiados, exalando o odor de carniça e clorofila podre.

— Eles sentem o cheiro do Códex — sibilou Leornn. — Fique atrás de mim!

O primeiro grupo de Gobelinus saltou das copas, como gárgulas desabando de uma catedral. O cano dourado da pistola de Leornn cuspiu um trovão de fogo purpúreo. O disparo rasgou a noite, e o impacto da bala mística expandiu-se no peito do Gobelinus líder, fazendo seu torso explodir em uma chuva de vísceras viscosas e fragmentos de cartilagem escura que salpicaram a casca prateada das árvores.

Clariegra, impulsionada pelo ódio que a morte de Platina deixara em seu peito, ergueu o grimório.

— Sanguis... Redemptio! — clamou ela.

O sangue coletado na gruta ferveu nas páginas e disparou na forma de agulhas cristalizadas, projéteis escarlates empalaram três criaturas contra as raízes. Os Gobelinus guinchavam, um som estridente que parecia metal retorcido, enquanto Leornn avançava como um espectro de destruição, não apenas atirava; usando a coronha pesada de sua arma e uma adaga rúnica, ele decapitava as criaturas em movimentos precisos. O sangue negro dos monstros jorrava em jorros violentos contra a palidez das árvores, criando um contraste brutal de sombras e luz — a assinatura visual da morte naquela floresta doente.

Abrindo caminho através da carnificina, o chão começou a tremer. Diante deles, erguia-se a Mekkur, a Árvore-Matriarca era uma montanha de madeira viva, cujas ramificações arranhavam as nuvens pretas. Contudo, seu esplendor decrépito estava tomado pela necrose. Uma bocarra natural abria-se em seu tronco principal, revelando um interior iluminado por pulsações de uma luz violeta e doentia.

Eles adentraram o ventre de Mekkur.

O interior era um labirinto claustrofóbico de artérias vegetais e fibras musculares de seiva.

No núcleo da árvore, suspenso por gavinhas enegrecidas, flutuava o horror: o Prisma-Núcleo de Garmonbozia, uma estrutura cristalina, multifacetada, que irradiava uma escuridão palpável.

O cristal parecia se alimentar da própria vida da Matriarca, necrosando suas paredes internas.

— É isso que atrai o flagelo — disse Leornn, a voz ecoando nas paredes úmidas do abdômen vegetal. — Destrua o núcleo, ou o cosmos engolirá este mundo.

O Prisma-Núcleo reagiu à presença deles, disparando chicotes de energia cósmica que dilaceravam as paredes de Mekkur. Leornn saltou, esquivando-se de um feixe purpúreo que derreteu a rocha abaixo dele. Ele descarregou três tiros consecutivos contra o cristal; faíscas de luz dourada e detritos violetas voaram no ar, mas a joia maldita regenerava-se instantaneamente.

— Clariegra! O grimório! Preciso de toda a energia rúnica que você possui! — gritou ele, enquanto um dos chicotes de energia cortava de raspão seu ombro, vertendo sangue escarlate que brilhava intensamente contra as sombras do antro.

Clariegra pressionou o Códex Sangria contra o peito, permitindo que as runas sugassem sua própria vitalidade. Seus olhos brilharam em um prata absoluto. Ela canalizou o fluxo de sangue dos Gobelinus mortos lá fora, trazendo a torrente escarlate para dentro do ventre de Mekkur, uma massa de sangue envolveu o Prisma-Núcleo, sufocando sua luz violeta.

— Agora, Leornn!

Com um rugido, Leornn cravou sua pistola rúnica diretamente no centro enfraquecido do cristal e puxou o gatilho.

A explosão subsequente foi ensurdecedora.

O Prisma-Núcleo de Garmonbozia estilhaçou-se em mil pedaços de vidro cósmico, que evaporaram em fumaça negra.

A corrupção que necrosava a árvore começou a recuar, mas o preço era alto. A estrutura interna de Mekkur começou a colapsar. A grande árvore gemeu, um som humano, carregado de um alívio melancólico. Uma luz tênue e dourada emanou do âmago do tronco, e a voz de Arale ecoou diretamente nas mentes de Clariegra e Leornn, suave como as folhas de outono:

— Pequenos mortais... vocês retardaram o inevitável. O que me corrompeu não foi uma doença da terra, mas o hálito de Necrus, o Flagelo Estelar. Eu caio... mas a semente da vida foi salva. Não há tempo, encontre a felina, ela se chama Arale Fayax.

"QUEM?" ele bradou...

 O homem de armadura escura marcha.

Corram... cruzem as Montanhas Fantasmagóricas... busquem o Condado de Ibex.

Mekkur...Mekkur ela gemia...

Com um último suspiro de seiva e luz, o interior de Mekkur desmoronou.

— Temos que sair daqui! — berrou Leornn, agarrando Clariegra pelo braço enquanto o teto vegetal desabava em pedaços gigantescos de madeira morta.

Eles correram, escapando por entre as fendas do tronco que se partia ao meio. Mekkur, a Matriarca, tombara quando os dois caíram de joelhos no solo da floresta, ofegantes e cobertos de fuligem e sangue, perceberam a transformação.

A atmosfera melancólica de uma aquarela triste deu lugar a uma aurora mágica.

As Arbóreas Argênteas ao redor não estavam mais morrendo.

Suas cascas de prata agora pulsavam em um verde-esmeralda místico, mas um verde que carregava veios purpúreos — resquícios do sangue derramado no combate, agora assimilado como adubo e vida.

Ao retornarem correndo em direção ao vilarejo, a visão os fez parar. A névoa maldita da vêsffera sensiflora havia desaparecido. O rio Magöhorror brilhava com uma água cristalina e pura. As almas atormentadas que antes vagavam como carniçais haviam sumido; em seus lugares, pequenas esferas de luz prateada — as sementes mencionadas por Mekkur — flutuavam suavemente no ar, descendo coreograficamente até o solo e enterrando-se na terra fértil.

Daquela terra infundida de magia e sacrifício, as criaturas começaram a renascer.

Eles eram os Sylvaníreos.

Rompendo o solo como brotos que se transformavam em carne e fibra, os Sylvaníreos ergueram-se. Eram seres de uma imponência titânica e beleza severa. Seus corpos eram esculpidos em carvalho branco e ébano macio, mas suas articulações eram feitas de músculos de trepadeiras flexíveis que brilhavam com a seiva verde-esmeralda. Não possuíam rostos humanos, mas máscaras de marfim vegetal, onde olhos de fogo fátuo prateado queimavam com uma sabedoria ancestral. Portavam chifres feitos de galhos floridos e, em seus peitos expostos, podia-se ver o pulsar de um coração de madeira que batia em uníssono com a própria terra. Eram os guardiões eternos, os filhos da floresta, renascidos para povoar e proteger o vilarejo que outrora fora cinzas.

Os Sylvaníreos curvaram suas cabeças majestosas na direção de Clariegra e Leornn, em um agradecimento silencioso que fez o vento soprar caloroso pela primeira vez em meses.

Contudo, Leornn não relaxou os ombros. Ele olhou para o horizonte, onde as silhuetas cortantes e brancas das Montanhas Fantasmagóricas rasgavam o céu.

— A vila está salva, Clariegra. Mas nós não estamos. Necrus sabe que destruímos o prisma, e o homem de armadura escura não vai parar.

Ele ajustou o cinto de munições e estendeu a mão para a garota de cabelos prateados.

— Próxima parada: as Montanhas Fantasmagóricas. E que os deuses nos guiem até o Condado de Ibex.

Clariegra então observa seu Códex sangria absorvendo todo o sangue derramado e escrevendo um pergaminho...

 

"— A Floresta de Silvamargor — murmurou Leornn, a esmeralda de seus olhos brilhando sob a penumbra carmesim do crepúsculo. — O lar das Arbóreas Argênteas, as entidades místicas que outrora ergueram este vilarejo.

Clariegra. É a Matriarca. A Árvore-Mãe sustenta o equilíbrio deste plano. Ela está morrendo.

Eles não enterraram Platina; o solo da vila, saturado pela vêsffera sensiflora, a devoraria antes do anoitecer.

 Em silêncio, os dois marcharam em direção às franjas da mata...."

 

"Leornn" ela bradou, leia isto. Então Clariegra lhe mostra o pergaminho récem escrito...

"Como isso é possível?" É como se fosse o passado, acabamos de eximar eles em uma exímia purificação, e então o desenho de uma felina de cabelos foi desenhado na folha seguinte...

O que significaria tudo isso?

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Menel Lomë I - O Herói Que Ninguém Pediu

Era noite de uma quinta-feira qualquer. O café de Menel esfriava ao lado da folha amassada, das várias folhas amassadas e rabiscadas que se espalhavam pela…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

As pessoas que inventamos
Não existem fora de nossa cabeça
Por isso, inventar personalidades
De quem mal conhecemos
Pode ser nossa ruína

Era noite de uma quinta-feira qualquer. O café de Menel esfriava ao lado da folha amassada, das várias folhas amassadas e rabiscadas que se espalhavam pela escrivaninha. A tinta de sua caneta ainda pingava, e o papel ainda estava úmido. Com o retrato ainda secando.

Era o retrato de uma jovem: pele morena, cabelos enrolados, olhos profundos e vivos. Não se parecia com ninguém, pois era feito com memórias.

O resto do ateliê estava bagunçado; textos e cadernos jogados por toda parte, todos eles contando sobre a mesma mulher, sob a mesma perspectiva. Menel Lomë escrevia para tornar sua amada real, pois jamais teve coragem de dizer o que sentia quando ainda era tempo.

Mas então ela desapareceu. E isso levou Menel à loucura, guiado por um romantismo idealizado e irreal.

Ele a havia visto três vezes.

Na primeira, em uma viagem. Ela estava com um casal de amigos, posando para uma foto que se perderia no tempo, mas ele... ele a guardava na memória.

Ela sorria. O casal atrás, de mãos dadas, posava para a foto. A garota tirou a foto e correu para mostrar aos amigos, e todos pareciam felizes. Mas Menel viu solidão onde havia apenas um momento feliz de uma viagem.

Na segunda vez, foi mais perto. Perto de casa. Perto demais. Ela estava tomando café, lendo o livro preferido dele. Ele se apaixonou ali. Pensou em perguntar sobre o livro, pensou em fazer uma piada, pensou em comentar algo sobre o que ela estava lendo.

Pensou demais.

Ela fechou o livro, levantou-se e foi embora.

A terceira vez foi ontem. Ela caminhava à noite na rua, e ele a viu pela janela do ônibus. Criou coragem, correu para a porta e, quando o ônibus parou, desceu. Correu até ela. Mas ela já não estava mais lá. Ela havia sumido e, onde ela deveria estar, havia um portal mágico e sinistro fechando-se.

Menel, dessa vez, não pensou. Não hesitou. Apenas correu.

Jogou-se para o desconhecido, esperando ser o herói que ela não pediu para resgatá-la.

E então ele sumiu, tudo sumiu.

Menel apareceu caído em outro mundo; o rosto sujo, as mãos raladas, a pele sangrando.

Levantou-se e viu um homem de sorriso largo e pontiagudo que surgia com um manto negro bordado em ouro-bronze. Ele estava ao lado de um menino, a quem segurava pelas mãos; a criança tinha olhos pálidos e roupas singelas.

Menel se levantou e disse:

— Onde ela está?

O homem, em silêncio, apenas sorriu.

— Ela já se foi.

Aquele sorriso fez com que diversos pensamentos — um pior que o outro — passassem pela cabeça de Menel. E o homem voltou a dizer:

— Ela não morreu. Ainda não. Mas as coisas aqui vão mudar em pouco tempo. Cinco atos, cinco tempos. E o sofrimento-carmim vai acontecer.

— Não demore a encontrá-la — continuou o homem. — As coisas vão ficar bem complicadas se você demorar.

Então ele puxou uma joia, um anel muito bem adornado, com uma única pedra carmim reluzindo no centro…

— Aqui. Pegue. Vai te ajudar.

E no momento em que Menel tocou a joia, uma névoa cobriu sua visão, e o gosto de sangue tingiu sua boca. Menel sentiu náuseas, e o cheiro de sangue surgiu em suas narinas.

Um segundo depois, sua visão retornou.

E o homem e a criança já haviam desaparecido

Quando ele voltou à consciência, estava parado no mesmo lugar, mas, agora, sem a figura do homem, conseguia perceber onde realmente estava:

Na areia.

Seus pés, agora descalços, tocavam a areia fina e gelada. Sua mão ainda segurava a joia. Seu olhar se perdeu no horizonte do mar.

Estava perdido.

Mas sabia exatamente o que queria. Quem queria encontrar.

Só não sabia por onde começar.

Então ele caminhou pela praia, procurando-a. Procurando qualquer rastro que ela tivesse deixado.

Mas não encontrou nada.

E então começou a pensar nas consequências de ser inconsequente. Talvez ser o herói de sua alma gêmea fosse mais desafiador do que qualquer coisa que ele tivesse feito até agora.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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30. Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo é o caminho que leva à perdição

Data Incerta - Senti os braços me levando pela trilha principal, desviou por trás das casas tortas, passou por corredores estreitos entre muros de pedra úmida…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

Data Incerta - Senti os braços me levando pela trilha principal, desviou por trás das casas tortas, passou por corredores estreitos entre muros de pedra úmida, onde havia símbolos antigos riscados sobre o que parecia inscrições mais recentes, como se muitas crenças disputassem aquele espaço durante muito tempo. Eu ainda sentia o peso do sonho no meu corpo, aqueles sonhos ou memórias que não eram meus, mas insistiam em ranger dentro da cabeça.

— Aqui. — ela disse e pude reconhecer a voz da líder da Ordem.

Havia uma porta de metal, grossa, enferrujada, com sinais de solda recente; quando ela bateu, não foi com força, foram três toques exatos, musicais e bem calculados. Demorou, mas o som que ouvi vindo lá de dentro não foi de passos, mas de engrenagens. A porta se abriu só o suficiente para um olho nos observar, um olhar frio, contido e avaliador. Mara falou o nome.

— Arturio?!

A porta foi aberta por completo, ele estava diferente, mais seco, mais rígido. E o mesmo corpo que um dia fora humano agora parecia um esboço de máquina que ainda não decidira em qual lado terminar. Seus braços estavam reforçados por placas mecânicas discretas e o seu olhar, aquele olhar parecia ter presenciado mais funerais do que eu poderia contar.

— Você voltou a existir — ele disse para Mara, sem surpresa alguma. — Então minhas premonições ainda estão mal calibradas.

Entramos e o interior era um santuário de aço, ossos mecânicos pendurados pelas paredes, exoesqueletos incompletos suspensos. Havia algo de quase religioso na organização daquele lugar. Algo de necromântico na engenharia. "Necromântico" essa palavra parecia dançar na minha cabeça.

— Precisamos de ajuda. — a líder da Ordem disse. — E ela está marcada.

Arturio me observou com mais cuidado agora, mas não como quem olha para uma pessoa, mas como uma máquina com defeito.

— Parece que alguém tentou reescrever as memórias dela à força. — ele disse.

Engoli seco.

— Eu só sonhei.

Ele inclinou a cabeça.

— “Sonho” é o nome que você dá quando não sabe que está sofrendo uma invasão.

Mara ficou tensa.

— Dá para algo ser feito?

Ele caminhou até uma mesa cheia de mapas estranhos.

— Talvez, mas tudo o que eu crio cobra algo — disse. — Até mesmo quando salva.

Ele me olhou de novo.

— E geralmente o preço é a alma.

Nesse momento percebi nele um cansaço que não vinha do corpo, como se ele estivesse sempre chegando atrasado à própria vida.

— Você ainda anda tendo as visões? — perguntou a líder da Ordem.

Silêncio.

— Todas as noites, as mortes primeiro, os detalhes depois. Às vezes eu acerto, outras eu erro por minutos, outras por anos. Ainda não sei se vejo o futuro ou se estou preso revendo algo que já aconteceu em alguma dobra errada do mundo.

Ele abriu uma gaveta e retirou um objeto pequeno envolto em um metal escuro.

— Vou precisar introduzir esse mecanismo na base do seu crânio — disse para mim. — Vai ser rápido, você não irá sentir nada.

Meu estômago se contraiu ao ouvir aquilo.

Ele pegou uma pistola, que parecia de ar comprimido, que parecia mais uma pistola para abate; colocou o artefato dentro e pediu que eu me virasse, então ele disse, quase gentil:

— Se você sobreviver a esse limbo de memórias, Rute, não será por acaso.

Senti um frio a percorrer a espinha.

— Nada neste lugar é por acaso — completou.

E colocou a pistola em minha nuca; eu apenas ouvi um som oco e desmaiei. Cada passo meu de volta ao castelo e eu só estava trocando um tipo de perigo por outro

· · • • •✤• • • · ·

Data Incerta - Hoje acordei sabendo amarrar nós que nunca aprendi, minhas mãos se moveram sozinhas ao prender o laço do manto que Siehiffar deu a Mara. Os dedos sabiam exatamente onde puxar, onde tensionar, não pensei, apenas fiz. Quando percebi, estava com o coração acelerado, como se tivesse feito algo errado. Mara notou.

— Quem te ensinou isso?

Abri a boca para responder, mas nenhum nome veio, só o cheiro de ferrugem, madeira molhada, um canto antigo em língua que não reconheço, mas que minha garganta quase repetiu. Balancei a cabeça.

— Não sei.

Ela não insistiu na pergunta, mas ficou me observando. As memórias não chegavam completas, eram mais como sensações, às vezes boa, às vezes neutras e muitas vezes incômodas, como o peso de uma arma na cintura que nunca carreguei, o orgulho de um juramento que não fiz, a certeza de um afogamento que não foi o meu. E, às vezes, a sensação mais terrível de todas é a de ter amado alguém que nunca existiu para mim.

Hoje, enquanto Mara discutia com uma das mulheres da Ordem, eu me distraí contando as janelas da torre, sete, oito, nove. Interrompi ao perceber que já sabia qual delas escondia o alçapão secreto e apontei sem pensar. Algumas das mulheres se viraram para mim e o silêncio foi imediato.

— Como você sabia? — uma delas perguntou.

Eu não sabia, mas alguém em mim sabia e isso me incomodava. À noite, enquanto escrevo, minhas frases mudam de caligrafia sozinhas, algumas linhas ficam mais retas, mais técnicas, mais frias, como se outra pessoa estivesse usando minha mão com cuidado, não para me possuir, mas para se esconder através de mim.

O pior lapso aconteceu agora há pouco, olhei para Mara, que dormia sentada, exausta, e por um instante absoluto eu não vi Mara, vi um corpo translúcido, depois ossos e carne refeita; vi mãos pressionando um crânio ainda quente, vi Drácula sorrindo. Minha respiração travou. Quando o mundo voltou ao normal, eu estava chorando em silêncio, com a mão cobrindo a boca para não acordá-la, mas a única certeza que eu tinha era que essa memória me pertencia.

Tenho medo, não de enlouquecer, mas de me tornar uma colagem de vidas alheias, e se continuarem arrancando e costurando minhas lembranças? Se cada perda vier acompanhada de um enxerto? Será que talvez "eu" ainda caminhe, que talvez "eu" ainda escreva? Mas não saberei mais quem está fazendo isso dentro de mim, não sei mais dizer com certeza onde termina o que sou, o que fui e onde começam os que agora me habitam.

E então, novamente antes de dormir, mais uma memória terrível. O corpo não parecia dela, era essa a primeira coisa que não fazia sentido, não o rosto, pois ele ainda era o mesmo, ou uma versão silenciosa dele. A boca, que sempre tinha algo a dizer, agora estava fechada de um jeito definitivo, mas o resto, o resto estava errado.

As mãos, eu conhecia aquelas mãos melhor do que qualquer outra coisa no mundo, sabia o peso delas sobre a minha pele, a forma como seguravam uma caneca quente, o jeito distraído de afastar o cabelo do rosto. Agora estavam imóveis sobre o próprio corpo, rígidas, como se tivessem sido colocadas ali por alguém que só tinha visto as mãos dela uma vez. Não eram dela ou talvez fossem, e isso era ainda pior.

O velório estava silencioso demais, um silêncio cansado, pesado. Algumas pessoas choravam, outras apenas olhavam e muitos que nem deveriam estar ali, julgavam. Eu só observava, esperando por alguma coisa que eu não saberia reconhecer mesmo que acontecesse.

— Você quer ficar um pouco sozinha?

A voz veio de algum lugar atrás de mim, eu não me virei. Se eu me movesse, talvez tudo se tornasse real e eu ainda não tinha decidido se queria que aquilo fosse real.

— Não — respondi como se eu me importasse.

O caixão estava aberto, eu não sabia quem tinha tomado essa decisão, talvez a família dela ou alguém que acreditasse que despedidas precisavam de evidência; como se saber não fosse suficiente para aceitar, não era, e dei um passo à frente e depois outro e cada movimento meu parecia deslocado, errado, como se meu corpo estivesse se movimentando com um pequeno atraso, em relação ao resto das pessoas presentes ali.

Parei ao lado dela e de perto, era pior. Havia algo na pele, não era a cor, pois isso eu já esperava, mas a falta de algo. Tudo estava completo, correto e ainda assim estava faltando, perfeitamente mobiliada como uma casa, onde ninguém vive nela.

Estendi a mão antes de perceber o que estava fazendo, eu a toquei, estava fria, minha respiração falhou por um segundo. E, naquele intervalo, algo aconteceu, não fora, mas dentro de mim, uma ideia, não, não uma ideia, ideias são construídas. Aquilo veio pronto para mim, inteiro e errado. Isso não precisa ser o fim.

Retirei a mão como se tivesse sido queimada e olhei ao redor, ninguém parecia ter notado ou escutado nada, pois ninguém nunca nota. Voltei os olhos para ela, imóvel e ausente e ainda assim...

— Não — murmurei, mais para mim do que para qualquer outra coisa. — Não é assim.

O pensamento voltou, só que mais forte dessa vez.

Você sabe que não é.

Eu não sabia, a verdade é que eu não sabia de nada, mas queria saber, e naquele momento, isso foi suficiente; fiquei ali por mais alguns minutos ou horas. O tempo tinha se tornado irrelevante, algo que acontecia com outras pessoas e, antes de sair, olhei pela última vez, tentei memorizar. Não o rosto morto, pois isso seria fácil demais de lembrar, mas o erro, a ausência, a coisa invisível que transformava tudo aquilo em algo inaceitável, porque se havia algo errado, então talvez eu pudesse corrigir. Naquela noite, não chorei. Abri o caderno e comecei a escrever. E com isso as minhas memórias comprovam que nem sempre fui sincera em tudo que escrevi, pois há vozes em mim que me obrigam agora a ser sincera no que escrevo. Então a escuridão veio e meu corpo começou a tremer, e eu tive uma convulsão.

Não me chamaram de paciente, me chamaram de campo instável; fui levada para uma sala que ficava abaixo da torre inclinada, onde as pedras eram mais úmidas e mornas, e as velas tinham chamas azuladas, pareciam queimar alguma substância que não era deste mundo ou melhor do meu mundo. Mara foi obrigada a ficar do lado de fora, disseram que ela atrapalharia, não gostei da forma como disseram isso. Me deitaram sobre uma mesa de metal antigo, cheia de ranhuras e símbolos sobrepostos, alguns religiosos, outros matemáticos, outros que eu não reconhecia, mas o meu corpo respondia a eles com náusea. Arturio estava lá e não falou muito, só me observava como quem avalia um motor quebrado.

— Suas memórias não estão apenas sendo roubadas — ele disse. — Estão sendo sobrepostas em frequências erradas.

Uma das freiras explicou que eu estava em ressonância involuntária, que parte de mim estava sintonizada com o mesmo campo onde alguns seres operam. Que não era possessão, mas algo pior. Eu apenas ouvia tudo aquilo em silêncio, sem entender nada realmente. Então prenderam meus pulsos e tornozelos. As correntes estavam frias demais... colocaram na minha testa um artefato circular de metal escuro, cravejado de cristais vermelhos. Quando encostou na minha pele, ouvi vozes sussurrando algo que eu não conseguia entender. Depois vieram as agulhas, não entraram no corpo, mas nas minhas memórias, cada perfuração era uma lembrança organizada à força, não as minhas. E eu via flashes desconexos enquanto gritava sem som: Um menino correndo num deserto que não existe, uma mulher ensanguentada sorrindo, um mapa sendo desenhado sozinho, um rosto em espiral se desfazendo em poeira branca. Meu corpo tremia, mas minha mente parecia ser organizada em camadas, como páginas arrancadas de vários livros e reorganizadas com muita violência. Em algum ponto, comecei a rezar, não sei exatamente para quem, talvez para Siehiffar, talvez para o seu Deus sem forma ou para Drácula. O procedimento durou tempo demais para caber no tempo e quando terminou, senti algo fechar dentro de mim, não curar, mas fechar como se fecha uma ferida profunda com grampos, um pouco segura, mas ainda infeccionada. Arturio foi direto.

— Você foi estabilizada apenas no eixo consciente, porém os rastros continuam no inconsciente.

Claro que traduziram para mim em termos mais simples, não vou mais apagar no meio do dia, não vou perder o controle repentinamente, não vou atravessar realidades andando. Quando me soltaram, eu mal conseguia ficar de pé. Mara entrou correndo e segurou meu rosto com força demais, como se tivesse medo de que eu escorresse pelos dedos.

— Você está aqui? — perguntou.

Demorei um segundo a mais do que devia para responder:

— Estou.

O procedimento que eles fizeram não me devolveu inteira, mas apenas impediu que eu continuasse me despedaçando rápido demais, porém agora eu só me desfaço devagar. Mara me ajudou a caminhar até o quarto e logo desceu, fiquei lá analisando pensamentos que no momento eu sabia que eram meus. Alguns minutos se passaram então uma discussão começou antes que eu percebesse que ainda estava fraca demais para sair do quarto. Eu ouvia as vozes do andar superior atravessarem as pedras da torre. Arturio foi o primeiro a falar em tom alto.

— Vocês brincam com símbolos e magia como se fossem crianças, o que ela sofreu é perigoso, é um colapso das camadas de memória que são incompatíveis.

A resposta veio em coro contido, feminino, duro:

— Você não entende o que fala, Ferreiro, há coisas que não se consertam com suas ferramentas.

Ouvi passos, muitos passos, o som de metal leve escondido sob tecido e, quando enfim consegui me erguer e abrir a porta para olhar o que acontecia, encontrei os dois mundos frente a frente. Arturio estava com o sobretudo aberto, revelando partes de um exoesqueleto inativo sob as roupas. As freiras o cercavam em meia-lua, algumas com os vestidos rasgados, outras adornadas com amuletos e sigilos tatuados na pele e Mara estava entre eles, tensa com sua lâmina.

— Vocês me chamaram de traidora — disse ela. — Mas foram vocês que me forçaram a usar Rute como entrada para o castelo.

Uma das líderes deu um passo à frente.

— E você aceitou vir ao castelo. Você acha que não sabemos quem você é? Mara e Isolda, as líderes da revolução da Ordem; bem que dizem para não conhecermos nossos ídolos, só espero que o que Isolda construiu em seu nome não tenha sido em vão.

Silêncio, então Arturio falou de novo:

— Vocês querem lutar para manter o castelo vivo, mas Drácula não precisa de vocês para isso. E ela — apontou para mim — é a única que sobreviveu aos mecanismos internos do castelo sem se tornar totalmente parte dele.

A líder sorriu.

— E isso a torna quase uma mártir.

Outra freira avançou um pouco demais.

— Se ela romper de novo, nós a eliminamos, mas enquanto ela servir como entrada para o castelo ela fica viva.

Foi quando Mara sacou a lâmina e nunca esquecerei o som seco.

— Vocês não tocam nela — disse. — Nem para salvá-la, nem para sacrificá-la.

A ameaça era real e Arturio, então, fez o movimento com seu braço mecânico.

O ar da sala mudou.

— Se vocês a matarem — disse ele com a voz finalmente sem controle — eu abro cada torre de amuleto que esconde vocês da visão da Ordem, uma por uma.

Um suspiro coletivo percorreu a sala e a líder da Ordem estreitou os olhos:

— Você nos exterminaria.

— Eu apenas deixaria que elas enxergassem vocês — respondeu Arturio.

Mara olhou para mim.

— Se vocês tentarem tocar nela de novo — disse Mara — vocês vão descobrir que eu aprendi mais no castelo do que nos seus templos.

Silêncio absoluto e a líder, por fim, recuou meio passo.

— Ela permanece fora dos planos, por enquanto.

Arturio abaixou lentamente o braço mecânico. A tensão não cessou, ela foi apenas arquivada. Quando todos saíram, eu ainda tremia. Arturo passou por mim.

— Você é o campo de batalha agora, garota — disse, sem crueldade. — Não se esqueça disso.

Mara me acompanhou ao quarto logo depois, como se quisesse me esconder do mundo inteiro. A Ordem não confia mais em mim, Arturio não confia mais na Ordem e Drácula... bom, ele deve estar se divertindo com tudo isso em algum lugar.

Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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31. Quero trazer à memória o que me pode dar esperança

Data Incerta - Eu descobri por acidente, foi num gesto mais estúpido e cotidiano possível. Ao tentar lembrar do rosto da minha mãe, a imagem não vinha…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

Data Incerta - Eu descobri por acidente, foi num gesto mais estúpido e cotidiano possível. Ao tentar lembrar do rosto da minha mãe, a imagem não vinha, era só um vazio, como quando se passa a língua num dente que foi arrancado há anos e a ausência incomoda; então eu forcei a lembrança, com vontade, fechei os olhos no meio do corredor da torre, encostada na parede úmida. Me concentrei no rosto dela como quem cutuca uma ferida que não cicatrizou por inteiro. No início, nada; depois náusea e depois sangue, mas não da memória e sim do meu corpo. O gosto metálico subiu rápido pela garganta e quando cuspi no chão de pedra, veio escuro demais para ser só saliva. E então a imagem abriu: minha mãe estava de costas, diante da pia da cozinha antiga, o cabelo preso errado, o barulho da água, o cheiro de café passado, uma rachadura na parede que eu tinha esquecido da existência, tudo perfeito demais. E logo veio a dor, como uma agulha quente enfiada na base do meu crânio; minhas pernas falharam e eu caí sentada, ainda vendo a cena, ainda presa nela. Eu estava tendo uma leve convulsão e mesmo assim eu não queria soltar, porque entre um espasmo e outro, eu percebi que tentar lembrar me custava algo, mas funcionava. Quando finalmente perdi o acesso, o corredor voltou em golpes, pedras úmidas, sombras, luzes trêmulas e meu próprio sangue escorrendo pelo queixo. Eu ri, uma risada curta e quebrada, pois isso só podia ser castigo.

Depois disso, testei de novo dias depois, mas outra memória, outro preço e, às vezes, era um apagão de horas; às vezes febre, às vezes uma tristeza tão densa que eu passava o dia inteiro olhando para a parede, com vontade de pedir desculpa para pessoas que eu não sabia quem eram. As lembranças vinham inteiras, nítidas e absurdas de tão claras e, junto delas, a certeza insuportável de que eu não merecia tê-las de volta. E por vezes eu chorei sem saber exatamente por quem. Eu não contei a ninguém no início, nem a Arturio e muito menos a Mara, porque se eles soubessem que eu posso acessar, vão querer regular e talvez explorar e eu já tinha sido explorada o bastante. As recaídas começaram a vazar para o cotidiano, eu perdia palavras no meio das frases, confundia nomes, respondia a perguntas que ninguém tinha feito. Uma vez chamei Mara pelo nome da minha amada, ela não me corrigiu, mas também não esqueceu e o pior não era a dor era a tentação. Saber que tudo que eu perdi ainda está lá, trancado atrás de um mecanismo que cobra em carne, em sanidade, em culpa, em sangue, isso é uma forma lenta de tortura. Eu não estou apenas revisitando memórias, eu estou ficando viciada nelas.

· · • • •✤• • • · ·

Data Incerta - Fui em minha primeira missão, e elas não chamaram de missão, chamaram de treinamento de campo. A palavra “treinamento” me deu mais medo do que qualquer outra coisa que já ouvi naquele lugar. Fui acordada sem toque, apenas abriram a porta e ficaram paradas no escuro; três silhuetas vestidas com o mesmo tecido pesado que parecia absorver a pouca luz do corredor.

 — Levante-se, Rute.

E eu apenas obedeci por inércia. Enquanto eu me vestia, senti uma sensação sob a pele, senti que alguma coisa em mim já estava sendo preparada para algo que eu não tinha escolhido. No corredor, vi Mara encostada na parede, braços cruzados, o rosto fechado demais até para o padrão dela, foi a única que não desviou o olhar quando passei. Descemos, então entendi o objetivo quando chegamos ao limite do vilarejo, havia uma casa isolada, velha demais até para aquele lugar e, dentro dela, algo que elas chamaram apenas de eco.

— Não é uma entidade — disse uma das mulheres. — Não exatamente.

Ninguém explicou melhor, porque não era necessário, eu já sentia, a memória que não era minha começou a se agitar no fundo do meu crânio, como um animal preso. Aparentemente eu só estava ali para reagir ao que quer que aquilo fosse.

— Se aproximar demais, ela vai ativar — disse outra. — Se não chegar perto o suficiente, ela não morde.

Fiquei parada.

— “Ela” quem? — perguntei.

A mulher apontou para mim.

— Você.

A porta da casa se abriu sozinha ou alguém por dentro a abriu, não faz diferença; um cheiro de poeira, coisa antiga, veio. Dei dois passos e já senti as pernas pesarem, algo lá dentro reconhecia algo em mim e isso era exatamente o que elas queriam. O eco se manifestou como uma distorção no ar, não tinha forma definida, era como um erro na continuidade do espaço e quando me aproximei demais, uma dor explodiu; memória, não a minha.

Uma mulher correndo por um corredor que não existia, sangue na parede, uma escada em espiral que parecia crescer enquanto ela descia, vozes chamando por um nome que não era o dela. Meu corpo travou, a Ordem avançou enquanto eu não podia me mover. Elas passaram por mim como quem passa por uma porta aberta e o eco reagiu e reagiu em mim. Uma imagem se sobrepôs ao mundo e a casa virou o corredor, o chão virou os degraus, então eu gritei, não de medo, mas do excesso, era uma memória dolorosa demais para uma mente só. Senti algo sendo arrancado, ouvi o som do impacto ao longe — algo foi contido e depois, só depois entendi que a missão tinha sido bem-sucedida para elas; para mim sobrou o chão frio, o gosto de ferrugem na boca e a certeza horrível de que agora havia mais de uma vida circulando dentro da minha cabeça. Quando voltei a conseguir respirar direito, vi Mara de joelhos na minha frente.

— Elas já estão indo longe demais — sussurrou ela. Eu assenti uma única vez.

— Acho que desde o começo.

· · • • •✤• • • · ·

Data Incerta - Não foi um sonho, isso não. Eu estava sentada, tentando lavar o sangue seco das mãos, um sangue que eu não lembrava de ter derramado quando o mundo simplesmente perdeu a continuidade e o chão se tornou escada em espiral. As paredes não eram paredes, eram superfícies úmidas, orgânicas, algo que respirava lentamente demais para estar vivo, rápido demais para estar morto. Um cheiro doce e apodrecido tomava conta de tudo, como flores deixadas tempo demais num quarto fechado. Eu estava descendo; eu não queria, mas minhas pernas se moviam sozinhas. Minhas mãos agora estavam sujas de sangue fresco e eu sabia que aquilo não era meu corpo, mas era o meu agora; então ouvi vozes, algumas distantes e outras perto demais.

— Volte.

— Ainda dá tempo.

— Você irá ser vista.

Um nome era repetido entre as vozes, um nome que se acumulava nas paredes como mofo e eu não vou escrever esse nome, pois algo em mim diz que ele não merece existir de novo. Quanto mais eu descia, mais a escada se estreitava, as paredes começaram a tocar meus ombros, meus braços, meu rosto, me esmagando, me reconhecendo como parte da estrutura. Vi corpos presos entre as dobras da parede, absorvidos, rostos ainda conscientes, olhos abertos, bocas presas no meio de um pedido de ajuda, talvez; e alguns deles sussurravam comigo.

— Não lembra.

— Não abre.

— Não aceita.

— Não escreva.

Mas eu já tinha feito tudo isso, já tinha descido até o fundo, e no centro da espiral havia uma sala circular, o chão era coberto por símbolos. No centro, uma mulher ajoelhada, eu a conhecia, mas não pelo nome; ela levantou o rosto que começou a girar, carne se reorganizando em espiral, os olhos sendo puxados para dentro, a boca sendo torcida até virar um poço e ainda assim ela olhou para mim. E algo saiu dela e entrou em mim: uma memória comprimida demais para existir inteira em um só corpo. Eu acordei assustada, ou pensei que havia acordado, o quarto estava lá, o teto estava lá e minhas mãos estavam limpas, mas meu corpo estava quente demais e no fundo da minha cabeça agora havia uma nova presença, então voltei a dormir logo depois. Mara me acordou e sussurrou no meu ouvido que tínhamos que ir, pois Arturio nos esperava na entrada.

Saímos antes do amanhecer, Arturio disse que impediria que a Ordem nos seguisse e ficou para trás. Mara não explicou muito, uma passagem nos levou para fora do vilarejo e para uma região onde a luz parecia envelhecida. O primeiro sinal disso foi a cor, não era azul comum, era uma palidez azúlea que parecia roubar calor da pele; o céu, a areia, até o ar tinham tonalidades que iam do azul pálido ao anil profundo, como se a noite tivesse sido moída e espalhada sobre o mundo. Quando chegamos à margem, vi o rio. O rio brilhava com uma bioluminescência pulsante, parecia que organismos dentro dele acendiam e apagavam num ritmo próprio. O brilho subia da superfície em vapores luminosos que flutuavam pelo ar antes de desaparecer, foi então que percebi a flora, as flores cresciam nas margens do rio, translúcidas e finas, cada uma tinha um rosto moldado na pétala, formado pela própria anatomia da planta. Um rosto abriu os olhos e sangue escorreu, uma lamúria saiu de dentro da flor, e eu congelei.

— Não olhe muito tempo — disse Mara.

Mas era tarde, aquela coisa estava olhando de volta. O vento que soprava era suave e atravessava a areia produzindo um ruído baixo, contínuo; o deserto se estendia além do rio, as dunas pareciam se mover lentamente, cada rajada revelava formas efêmeras, mãos, rostos, corpos emergindo por um segundo antes de voltarem a ser apenas areia de novo. Caminhamos pela margem até vermos algo no centro das dunas: um oásis, água negra, calma demais, palmeiras esqueléticas inclinadas como velas de um barco deteriorado. O lugar parecia convidativo, mas de um jeito errado. E foi ali que o vimos um homem alto, ele estava parado perto da água, usando um manto negro bordado com fios de ouro-bronze que refletiam a luz azul do rio. O sorriso dele era largo demais, quase pontiagudo e ao lado dele, uma criança, o menino segurava sua mão com naturalidade, ele usava roupas simples, claras, e tinha olhos pálidos que refletiam a bioluminescência do rio como se fossem feitos da mesma substância, então o homem falou antes que perguntássemos qualquer coisa:

— Vocês chegaram cedo demais.

Sua voz era tranquila, cordial.

— Quem é você? — perguntou Mara.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Um viajante, talvez um observador, alguns já me chamaram de vidente. Outros acreditam que venho de um mosteiro antigo onde aprendemos a ler o tempo como se fosse um texto mal escrito.

Ele olhou diretamente para mim.

O sorriso não mudou.

— E você, já começou a ler páginas que não são suas?

Senti o peso de uma memória vibrar dentro do meu crânio.

— O Castelo Drácula está prestes a atravessar cinco atos temporais — continuou ele.

Mara cruzou os braços.

— E por que deveríamos acreditar em você?

Ele não respondeu imediatamente, o vento das dunas soprou mais forte.

— Porque, se não se prepararem, vocês experimentarão algo chamado sofrimento-carmim.

— O que é isso? — perguntei.

O homem fez um gesto breve de impaciência, como se o tempo realmente estivesse curto.

— Não tenho tempo de explicar tudo, minha tarefa é apenas advertir os residentes do castelo.

Ele tirou algo do bolso do manto: uma joia, era um pingente de metal escuro, com um símbolo gravado com algo entre espiral, estrela e rachadura — estendeu- em sua a mão.

— Use isto.

— Por quê? — perguntei.

— Porque quando o primeiro ato temporal começar, vocês vão precisar de âncoras.

O menino ao lado dele me observava fixamente, seus olhos pálidos eram inquietantes por parecerem antigos demais para uma criança. Aceitei o pingente, assim que ele tocou minha pele, senti uma leve pressão na cabeça, quando levantei os olhos novamente, o homem e o menino já estavam caminhando para longe pelas dunas e o vento apagava as pegadas deles quase instantaneamente. Mara olhou para mim. Segurei o pingente, ele estava quente, e tive a sensação clara de que alguém, ou alguma coisa, estava tentando nos preparar para algo muito pior do que o castelo. Eu aceitei a joia por instinto e Mara não gostou.

— Você aceitou rápido demais.

— Ele disse que precisamos de âncoras.

— Homens que aparecem no meio do nada raramente oferecem algo sem cobrar depois.

Não respondi e de repente tudo ficou vermelho, uma névoa espessa cobriu completamente minha visão e tinha gosto metálico, cheiro de sangue quente, recém derramado. O ar ficou denso, durou um segundo, mas dentro desse segundo havia coisas demais. Eu vi o castelo, não como ele é agora, torres quebradas em ângulos impossíveis, corredores que se dobravam sobre si mesmos, pessoas caminhando repetindo os mesmos movimentos eternamente. Vi Mara e ela estava ajoelhada diante de uma estátua que eu não conseguia olhar diretamente, o corpo de Hadassa petrificado como de uma mártir. Seu rosto estava coberto de lágrimas, mas ela sorria de um jeito que me deu medo. Vi muitos rostos observando, esperando e no centro de tudo o castelo sangrava, sangrava de verdade, o vermelho escorria pelas paredes como um organismo vivo, descendo pelas escadas, enchendo salas, invadindo a terra ao redor; então a visão terminou, o mundo voltou de uma vez só em azúleo e marfim fosco. Mara segurou meu braço.

— O que foi?

Levei um momento para responder.

Minha boca ainda tinha gosto de sangue.

— A joia funciona.

— Como você sabe?

Olhei para o pingente.

— Porque talvez ela tenha me mostrado um segundo do que vem depois.

Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
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A Queda de um Anjo Caído

Era uma monótona noite de segunda-feira como outra qualquer, sem grandes novidades. O movimento naquele bar estava amainado devido ao tempo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“... ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele...”.
Apocalipse 12:9

Era uma monótona noite de segunda-feira como outra qualquer, sem grandes novidades. O movimento naquele bar estava amainado devido ao tempo. Enquanto na rua estava até um pouco frio, devido à chuva fina que caía constante. Dentro daquele sonolento ambiente estava quente e abafado, devido as janelas estarem todas fechadas. Os clientes eram os mesmos de sempre e tudo parecia estar concorrendo para mais uma sorumbática noite de início de semana. No ambiente reinava um silêncio quase tumular, sendo interrompido, vez por outra, pelo som de bolas de bilhar, o barulho do silencioso carteado e pelo som de copos sendo reabastecidos. As antigas canções que se alternavam num velho rádio no alto de uma prateleira eram quase inaudíveis, como se fosse um fúnebre fundo musical.

Sempre nas noites de segunda-feira — único dia de folga de Salatiel, em seu novo emprego de segurança noturno — ele buscava um lugar onde pudesse beber sossegadamente, ouvir um pouco de música e tentar se socializar um pouco, de forma que pudesse observar os outros ao seu redor, e se possível não ser notado. Nem sempre dava muito certo e havia a constante necessidade de ter de trocar de lugar de tempos em tempos. Havia certa peculiaridade nesse estranho ser, que o tornava um tanto quanto diferente; de certo modo parece que ele era perseguido pelo senso de fazer justiça e por onde andava sempre se deparava com uma irrecusável oportunidade de desfazer algum desagravo a uma alma inocente. Para tentar conviver num mundo tão hostil e covarde, buscava os lugares mais discretos possíveis.

Certamente não era o melhor lugar do mundo para se estar. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente, mas servia para se reconciliar consigo mesmo, entre um copo e outro de uma bebida qualquer. A parca iluminação elétrica, proveniente de duas simples luminárias dispostas nas paredes laterais, era um tanto quanto insuficiente, quase ao ponto de uma penumbra completa. A semiescuridão do ambiente, nem mesmo era notada por aqueles que ali estavam, pois quase todos os frequentadores de botequins, em sua grande maioria, optam pela escuridão. Sabe-se que, em momentos de tristeza e solidão, muitos preferem as trevas, para tentar se esconder de seus próprios problemas.

Na silenciosa penumbra de um bar, um indivíduo qualquer pode, sob a sombra do anonimato, tentar se esconder de qualquer problema que lhe assole ou de qualquer pessoa que o persiga. Só não poderá jamais esconder-se de si mesmo. Na sufocante atmosfera onde os odores de bebida e perfumes baratos se misturam com a constante fumaça de tabaco pairando ad eternum no ar, sempre há alguém disposto a buscar o momento de paz para consigo mesmo. Da mesma forma que todo ser vivente tem os seus segredos mais profundos, Salatiel não era de todo diferente. Contudo, qualquer um que viesse a saber quem ele realmente era, certamente não viveria para contar a quem quer que seja, e se por acaso contasse, ninguém acreditaria.

Assim que entrou naquele ambiente, sentou-se num dos cantos mais afastados do balcão — onde a luz era praticamente insuficiente — e, logo, pediu uma bebida. A jovem que viera o servir era de uma beleza ímpar. Uma mulher de altura mediana, de corpo bem feito, com belos seios rijos e um agradável perfume com leves notas no odor de almíscar. Seus belos olhos eram brilhantes e de um castanho claro como a cor do mais puro mel. Sua boca de lábios carnudos estava delineada por um batom de um tom carmim. Quando o cumprimentou, mostrou-lhe um inocente sorriso de dentes brancos como o mais puro marfim.

— Boa noite, nobre cavalheiro! Seja bem-vindo ao nosso humilde estabelecimento. Meu nome é Denise, quero que saiba que é um prazer poder conhecê-lo. Estou aqui hoje para servi-lo da melhor maneira possível! O que vai beber?

— Boa noite! Traga-me por gentileza uma garrafa de conhaque. — disse de uma forma fria e até um tanto quanto ríspida. De cabeça baixa estava e assim continuou.

A bela jovem, acostumada àquele tipo de cliente, não deu muita atenção a toda aquela falta de delicadeza do belo cavalheiro que optava por se esconder naquele penumbroso canto do bar. Salatiel era um ser de uma beleza que poderia se dizer um tanto quanto... exótica. Mesmo escondido nas sombras, ainda assim era possível perceber que era um homem alto, másculo, de mãos fortes e ombros largos; cabelos negros como uma noite sem luar e uma face lisa desprovida de qualquer traço de barba ou bigode. Num primeiro momento, não foi possível ver a cor dos seus olhos nem mesmo o brilho de seu sorriso — se esse, porventura, viesse a existir —, mas tinha a leve aparência de ser um sujeito decente.

A noite tinha tudo para transcorrer tranquilamente até a chegada de um estranho valentão ávido por uma confusão. Antes de qualquer coisa, já entrou no bar falando palavras de baixo calão num tom bastante alto e muito desagradável. Ao passar próximo à mesa de bilhar, esbarrou num dos jogadores, atrapalhando a jogada, o que fez com que uma discussão se iniciasse, mas logo fora amainada quando o valentão mostrou o cabo de uma brilhante pistola. Ao sentar-se, deu um forte soco no balcão — quase derrubando a garrafa de conhaque de Salatiel, que logo previu que aquilo não terminaria bem. Quando a jovem bartender, muito prestativamente, veio lhe servir, ele logo lhe mostrou o seu lado mais abjeto após colocar a arma sobre o balcão e se dirigir a ela, em seguida, de forma bastante desrespeitosa:

Belezoca, quero uma bebida e uma beijoca.

– Boa noite, senhor. Qual bebida poderei lhe servir? — disse ela, muito educadamente.

– Daquelas que se bebe! Sua piranha. E para sua informação, Senhor está no céu.

– Peço perdão, senhor, mas são normas da casa o tratamento respeitoso que damos a todos os nossos distintos clientes. Contudo, se me disser o seu nome, terei imenso prazer em chamá-lo da forma que preferir. Insisto em perguntar-lhe qual é o tipo de bebida que deseja? — disse ela mais uma vez, num tom bastante sereno, sem deixar se abalar pela indelicadeza do cliente.

– Quando eu lhe disser o meu nome, terá mais cuidado na forma como fala comigo. Pensei em tomar uma cerveja, mas posso beber qualquer coisa que você me sugerir. — respondeu ele.

Quando ela foi lhe servir, delicada e com muito bom jeito, ele a segurou pelo braço e a arrastou para próximo de si, tentando beijá-la à força. Quando ela tentou recusar, já se viu na mira da arma que ele apontava entre seus seios, com a séria intenção de atirar se fosse necessário. Como que por passe de mágica, o estranho que estava no canto mais afastado do balcão, em um simples piscar de olhos já estava ao lado do valentão e lhe segurava o ombro dizendo, muito calmamente, para que ele soltasse a moça. Um silêncio se fez por completo naquele instante, como se o próprio tempo tivesse parado. Todos ficaram bastante atônitos com o que poderia vir a acontecer naquele tranquilo bar.  

Num ímpeto de selvageria, o estúpido cavalheiro que havia adentrado aquele ambiente para perturbar a paz ali existente, virou a arma na direção de Salatiel e apertou o gatilho várias vezes. O som que a arma emitiu, fez com que todos ficassem boquiabertos, inclusive o próprio valentão que não acreditava no que estava ouvindo, pois, por mais que insistisse em apertar o gatilho, a arma girava no vazio como se estivesse descarregada. Salatiel, com toda a serenidade que lhe cabia, tomou a arma do valentão como se tomasse um brinquedo de uma criança. Em seguida, o segurando pela mão direita, olhou profundamente nos olhos dele e disse algumas palavras que ninguém conseguiu entender ao certo, nem mesmo a jovem que estava próxima a eles dois. Denise também pôde ver que os olhos de Salatiel tinham mudado de um tom azulado bastante sedutor para um negro bastante sombrio. Naquele momento, ela teve a estranha impressão de ter visto dois profundos abismos no lugar dos olhos.

Em alguns poucos segundos, ao olhar nos dois abismos que se tornaram os belos olhos de Salatiel, o valentão fez uma longa viagem pelas terras onde a esperança não jaz e, acompanhado daquele estranho ser — que naquele lugar tinha outras feições bastante assustadoras —, pôde vislumbrar um lugar de dor e bastante sofrimento. Todas as estórias que ouvira sobre a terra da danação eterna se tornou real perante seus olhos. Num voo rápido pôde ver, com seus próprios olhos, centenas de milhares de pessoas em terrível padecer, clamando por piedade num incessante lamuriar. Tentou fechar os olhos, para não ver toda aquela dor, mas percebeu que, ao fazer esse gesto, uma ardente chama se acendeu logo atrás de seu globo ocular, como se sua cabeça estivesse pegando fogo. Assim que abriu os olhos novamente, a ardência desapareceu. Pôde então perceber que estava ali, justamente para ver toda aquela angústia.

Após presenciar todo aquele sofrimento que poderia levar qualquer um à loucura, sentiu seu peito se fechar num profundo pesar; mas o pior ainda estava por vir: quando viu seu falecido pai, preso ao chão com correntes incandescentes, ser estuprado por dois terríveis monstros com feições de crianças demoníacas. Essas crianças sodomizavam seu pai sem nenhuma piedade, como se aquilo fosse em exercício de uma função a ser executada de forma profissional. Mas havia prazer nos terríveis olhos daquelas duas criaturas que, para piorar ainda mais a situação, tinham um semblante que lembravam duas crianças inocentes. Seu pai, percebendo uma estranha presença próximo a ele, levantou sua cabeça e logo reconheceu a imagem do filho que estava a sua frente, ao lado de Salatiel. Num urro de tremendo remorso, gritou para o filho:

 — Jeremias, me perdoe! Eu era uma pessoa doente e agora sei todo o mal que lhe causei.

Jeremias soube, então, que tipo de lugar era aquele e porque seu pai estava sendo punido daquela forma. Lembrou-se, então, de tudo o que havia sofrido nas mãos de seu pai quando sua mãe não estava em casa. Após poder contemplar o castigo dos ímpios, um triste pesar tomou conta de todo o seu ser. Essa viagem de Jeremias durou, para ele, quase meia hora, mas no bar não se passara nem cinco segundos. Quando ele piscou os olhos, logo viu que todos estavam estupefatos, imaginando o que ele faria em seguida, mas para a surpresa geral, ele baixou sua cabeça e em seguida lançou as mãos no rosto e começou a chorar como uma criança.

Ninguém no bar entendera coisa alguma. Jeremias completamente tomado pela emoção, ainda pagou pela bebida que nem mesmo chegou a tomar e, com o rosto banhado em lágrimas, implorou pelo perdão de Denise; logo em seguida saiu correndo do bar, deixando para trás seu maço de cigarros, um pacote de dinheiro e a arma que lhe fora tomada. Denise olhou para o estranho cliente que viera em seu socorro e, sem entender nada daquilo, logo lhe questionou:

— O que foi aquilo? O que o senhor disse a ele?

— Nada demais, apenas disse a ele para que endireitasse suas veredas e que tivesse um pouco mais de respeito para com o seu próximo. Acho que daqui para frente ele será um homem um pouco mais educado e bem mais cuidadoso com suas atitudes.

Salatiel, após dizer essas palavras, pegou a arma que ainda estava sobre o balcão, a descarregou em seguida, guardando, tanto a arma quanto as munições, nos bolsos da jaqueta jeans que estava usando. Voltou para seu lugar e tomou mais uma satisfatória dose de seu conhaque. O restante da noite transcorreu de forma tranquila, sem mais nenhuma perturbação. O bar fechava em dias de segunda-feira, por volta de uma hora da madrugada. Antes de encerrar o trabalho, Denise muito gentilmente agradeceu seu salvador novamente, dizendo que seria um enorme prazer recebê-lo uma vez mais ali naquele humilde ambiente.

Assim que ela fechou o bar, seguiu seu caminho direto para casa que distava somente algumas quadras de seu trabalho. Salatiel, como era de costume, sempre levava consigo o restante da garrafa que sempre sobrava, e sentava-se num banco de uma praça qualquer; ainda ficava, até quase o dia amanhecer, sentado de face virada para cima, contemplando as estrelas e se lembrando de tempos de outrora. Estava ele caminhando em passos lentos quando ouviu gritos desesperados vindos de uma rua logo abaixo de onde ele estava. Rapidamente se encaminhou na direção dos gritos e, lá chegando, logo percebeu que pela segunda vez naquela noite, Denise necessitava de sua ajuda novamente, pois dois homens tentavam encantoá-la para um local escuro, possivelmente com a intenção de abusar de sua inocência.

Mais uma vez, com a calma de um pastor que tange suas ovelhas, Salatiel se aproximou dos dois agressores e parece que repetiu o mesmo que havia feito no bar, pois assim que tocou nos agressores, em alguns segundos os dois saíram correndo aos prantos, clamando que Deus tivesse piedade de suas almas. Denise, uma vez mais, achou tudo aquilo bastante estranho, mas, mesmo assim, o agradeceu novamente e pediu para que ele a acompanhasse até em casa. Sem poder dizer não, para uma jovem que se parecia por demais indefesa, assim ele o fez. Ao chegarem ao portão de sua casa, quando Denise já estava prestes a se despedir, um agradável rostinho apareceu na janela. E para surpresa ainda maior daquela batalhadora garçonete — que criava sozinha, com o parco salário que ganhava, uma filha adotiva que padecia de leucemia —, ouviu quando a menina disse que o convidasse para entrar.

Ela sorriu e pediu que ele entrasse somente um pouquinho, para que a menina não se contrariasse. Salatiel jogou, a garrafa que trazia nas mãos, na lixeira; e seguiu Denise. Assim que entraram na casa, ele logo pôde perceber que havia uma menina de uns nove anos, sentada numa cadeira de rodas. Tinha a pele pálida como a neve — a ponto de deixar visíveis quase todas as suas veias. Na cabeça nua, não tinha nenhum fio de cabelo sequer. Era tal magra, que dava a leve sensação de que não duraria muito tempo. Contudo, para surpresa tanto de sua mãe, bem como para o próprio Salatiel, a menina se direcionou a ele como se o conhecesse há muito tempo.

— Boa noite, Salatiel. Como tem passado? Não reconhece mais um de seus irmãos quando vê um? Pelo que vejo tem se adaptado bem à sua nova vida...

Para não restar nenhuma dúvida, Salatiel respondeu na língua dos anjos.

— Boa noite, Galalel. Agora se disfarça de menininhas doentes para andar entre os seres humanos? Ele já foi mais criativo para nos enviar entre os seus preferidos.

— Não há preferidos para Ele! Somente aqueles que o obedecem e os que, por escolha própria, são rebeldes. Estou aqui por uma causa nobre. Denise é muito preciosa para ele e precisa ser testada em sua fé. Respondeu Galalel, também na língua dos anjos...


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
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Espasmos do Silêncio

Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar; elas morrem na garganta antes de se tornarem poesia.

Estou diante de ti, Dama Lacrima. O pintor desconhecido que te prendeu nestas tramas de linho e óleo certamente conhecia o inferno, pois capturou-o com perfeição. Teus cabelos, longos e lisos, escorrem como cascatas de nanquim, emoldurando um rosto de uma palidez cadavérica. As tuas mãos, eternamente erguidas próximas à face, parecem querer esconder o mundo de ti, ou tu do mundo.

Se hoje castigado sou pelo teu descontentamento, que vibra através das camadas de verniz, posso até guardar a culpa. Mas as chaves da tua liberdade são para mim um grande peso que devo suportar. Sinto o ódio irradiar da moldura dourada.

— A tua ira deve ser contida — murmuro para a figura estática, mas viva. — A raça humana não merece perecer. Por mais que um ou outro nos sirvam como bolsas de sangue, aconselho: declina-te desta vingança desenfreada. O mundo ainda tem muito a te servir.

Vejo, então, a alteração na pintura. O óleo parece dissolver-se. Aqueles olhos... aquelas escleras tomadas por um negrume absoluto, sem luz, fitam-me com desprezo. E o que antes era pigmento seco, agora escorre. Tu choras. Não água, nem sangue, mas lágrimas de piche, espessas e negras, maculando a pureza mórbida da tua pele pintada.

— Crês que me fará parar?... Como és tolo, Valentine! — O meu nome soa como blasfêmia nesses teus lábios imortais.

— Lanço o desafio — indago, hipnotizado pelo rastro viscoso que desce pelas tuas bochechas —, até onde estarás disposta a ir com tal empreitada?

— Farei do purgatório a vossa nova morada!

— E depois?

— Como assim, "e depois"?

Aproximo-me da obra, sentindo o cheiro de terebintina misturado a algo podre e antigo. — Quando finalizar o teu intento, sentirás o peso do silêncio. Este mesmo silêncio que, até pouco, tanto me assombrava, não irá parar de te perturbar. Serás torturada pelo resto dos teus dias numa galeria vazia, num mundo morto. Nem mesmo as tuas súplicas serão suficientes para te salvar, pois para destruí-lo terás que destruir a ti mesma, rasgar a própria tela. Então, eu lhe pergunto: até onde estarás disposta a ir?

A imagem trêmula. O piche das tuas lágrimas parece ferver. — O que vês à tua frente, Valentine? — Tua voz agora é um lamento, um gemido de túmulo aberto. — Um retrato sombrio adornado por uma bela moldura arabesca? Um fantasma habitando uma tela em que o tempo ousa não apagar? Ou a representação maior dos teus medos?

Encaro o abismo negro dos teus olhos, duas poças de trevas infinitas. — Teu alarde para destruir-me e destruir o mundo é apenas uma fuga de teus próprios medos — digo, e cada palavra pesa como lápide sobre o cavalete. — Até os demônios mais baixos, minha cara Dama, possuem medos ocultos. E o teu medo é que, sem nós para te observarmos, tu deixes de existir.

O piche escorre mais rápido, mas o silêncio volta a reinar, pesado e insuportável, na sala fria.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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A Transcendência do Silêncio

O silêncio é um corpo que respira no escuro, | pele de sombra colada à alma da noite. | Ele pulsa como ferida não dita, | como promessa trancada em lábios de ferro…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

I – O Silêncio

O silêncio é um corpo que respira no escuro,
pele de sombra colada à alma da noite.
Ele pulsa como ferida não dita,
como promessa trancada em lábios de ferro.

Há nele o peso de cem catedrais desertas,
onde cada eco é oração abortada.
O desejo se deita nele, invisível,
como fera à espreita no ventre da escuridão.

Nenhuma palavra se atreve a nascer,
mas os olhos gritam em febre clandestina.
Entre duas bocas suspensas,
o ar é um véu que treme, mas não se rompe.

O silêncio é punhal e é véu,
é cruz e é carne.
Não consola, não acolhe,
apenas incendeia o que tenta ocultar.

A respiração é oração contida,
rosário de gemidos que se negam a existir.
Mas o corpo, traidor da alma,
curva-se ao chamado de sua própria vertigem.

Quem toca o silêncio abre portais,
como quem pisa em solo sagrado profanado.
A quietude é apenas disfarce,
máscara da fúria que quer ser revelada.

O instante é prelúdio,
e o prelúdio já é queda.
Não há inocência no mutismo:
há apenas desejo coagulado.

Quando o silêncio enfim se rompe,
não há volta.
O grito é nascimento e sentença,
e quem o pronuncia já não se pertence.


II – O Sangue

O sangue é a língua do êxtase.
Ele escorre como vinho sacrílego,
rubro sagrado que consagra o instante
em que dor e prazer se entrelaçam.

Cada gota é pacto selado,
palavra gravada em carne viva.
É comunhão obscura
onde dois se tornam um abismo único.

A mordida é rito e coroação,
incisiva coroa feita de dentes e vertigem.
Ela não fere: ela liberta,
abre a porta para o gozo sem nome.

O rubro é banquete dos amantes da noite,
melodia de artérias em festa secreta.
Não há saciedade, apenas mais sede,
e cada sorvo é eternidade roubada.

Vampiros sabem: o sangue é oráculo.
Ele canta segredos nas veias,
ele revela a nudez da alma
no instante em que se mistura ao desejo.

Não há corpo sem ferida.
Não há prazer sem cicatriz.
A dor é oferenda,
e o êxtase, sua colheita.

Quando o rubro desce pela língua,
é mais que carne é universo.
O beijo sangrento é sacramento,
e a eternidade se escreve em veias abertas.

O sangue não mente.
Ele é a assinatura do prazer.
Quem o prova jamais retorna,
pois já pertence ao abismo.


III – A Luxúria

O corpo é templo profanado.
Cada curva, altar; cada sombra, labirinto.
A luxúria dança em sua nave,
chama que devora, mas não se extingue.

O prazer nasce na ruína.
Gemidos quebram muros internos,
suor é chuva que batiza o pecado,
e a carne se faz escritura viva.

O desejo não pede, exige.
Ele ordena como tirano amado,
e o súdito, em delírio,
oferece a própria ruína como trono.

Cada toque é incêndio.
Cada suspiro, queda.
Não há ternura:
há apenas a fome dos que sabem da morte.

O gozo não consola,
ele fere, ele abre, ele consome.
Mas a ferida é cântico,
e o cântico é mais doce que salvação.

A luxúria é caminho sem volta.
Um labirinto sem saída,
onde quem entra nunca retorna
pois aprende a amar a própria perdição.

O corpo não é cárcere:
é catedral em ruínas
onde anjos caídos ainda rezam
em idioma de gemidos.

Luxúria é divindade noturna.
Não julga, não absolve.
Apenas recebe como altar insaciável
todas as oferendas da carne ardente.


IV – A Transcendência

Após o gozo, não há descanso.
Há queda mais funda.
Há voo invertido
de quem toca o inferno para ver o divino.

O êxtase é um dos Deuses sem rosto,
que exige adoração em lágrimas.
Não é amor, não é pecado:
é a fusão febril dos dois.

O coração, crucificado,
pulsa como altar em chamas.
Cada batida é prece e maldição,
cada suspiro, ascensão pelo abismo.

Não há céu depois da vertigem,
apenas outro mergulho.
O prazer é espiral infinita,
onde cada fim já anuncia novo começo.
Quem goza morre.
Quem morre renasce no desejo.
Esta é a lei secreta:
morrer sempre mais para viver sempre mais.

A transcendência não é luz.
É treva que acolhe como mãe,
é sombra que alimenta,
é eternidade que se confunde com delírio.

O corpo exausto despenca,
mas a alma desperta em febre.
Descobre que o abismo é também escada,
que a vertigem é também voo.

O êxtase não se esgota.
Ele recomeça em cada olhar,
em cada silêncio, em cada gota de sangue.
O eterno é isto: morrer e renascer no desejo em silêncio.


Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Peregrinus

No ciclo natural das coisas e acontecimentos, onde tudo nessa existência demonstra-se ser efêmero e transitório, não há tristeza eterna e muito menos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“De onde você vem?”, perguntou o SENHOR. Satanás respondeu: “Estive rodeando a terra, e observando o que nela acontece”. — Jó 2:2

No ciclo natural das coisas e acontecimentos, onde tudo nessa existência demonstra-se ser efêmero e transitório, não há tristeza eterna e muito menos alegria que perdure para sempre, e por mais difícil que seja a situação que alguém possa estar enfrentando, em algum outro lugar alguém talvez esteja numa tribulação um pouco mais desesperadora. Depois de mais uma longa noite de bebedeira, já em alta madrugada, naquela hora fria e silenciosa que antecede os primeiros sinais da aurora, tendo como única companhia uma lua cheia plena e brilhante, mas também já se despedindo no poente, Ewerton retornava para casa – ou pelo menos o pardieiro que ele naquele momento se tornara sua casa – para mais um dia de ressaca, desespero e muitas lamentações.

Caminhando em passos trôpegos, ziguezagueando pela rua, tentando a todo custo se manter de pé devido ao excesso de bebida e pela falta de alimento já de muitos dias, mesmo já não confiando mais na exatidão de seus sentidos que vinham lhe pregando peças nos últimos tempos, pôde ver ao longe que havia alguém sentado nos degraus da porta da igreja. Templo esse que, há não muito tempo atrás, ele mesmo um dia, fora ministro de celebrações e por vezes incontáveis foi arauto das mensagens das Boas-Novas. Ao se aproximar, logo pôde perceber que a pessoa que estava ali em completo abandono naquelas horas tardias era uma mulher, e pela posição que estava sentada com o rosto prostrado entre os joelhos, demonstrava estar num terrível desconsolo.

Ouvindo que ela suspirava ais de tristeza, e pela solidão noturna em que ela ali se encontrava, entendeu muito rapidamente com o restante de cavalheirismo e dignidade que ainda lhe restara, que deveria prestar-lhe algum tipo de auxílio, com delicadeza e parcimônia aproximou-se a ela, e disse-lhe de modo cortês:

– Boa noite, minha senhora. Há algo em que eu lhe possa ser útil?

Com movimentos leves de quem estava há muito tempo na mesma posição, ela sentou de forma ereta e com a face completamente banhada em lágrimas, e com certa dificuldade tentou lhe responder com palavras entrecortadas entre soluços e suspiros de dor:

– Boa noite, meu amigo. Quem dera, se alguém neste mundo cruel pudesse fazer algo em meu socorro. Aquilo que perdi jamais me será restituído e o que me foi tomado não pode ser devolvido.

Ao vê-la falando dessa forma seu coração dilacerado pela dor, se encheu de ternura. Não somente pelas palavras que exemplificavam sua própria situação naquele momento, mas pela forma como ela soube se expressar. De certa forma estava ele muito condoído com aquela bela criatura ali naquele estado de completo desalento. Mesmo com a visão bastante embaçada pela bebida e pela ausência de claridade no local onde se encontravam, ainda assim pôde perceber que era uma bela mulher, ainda transpirando o frescor da juventude, com uma aparência bastante agradável aos olhos e exalando um perfume bastante sedutor. De forma muito gentil, pediu-lhe autorização para que pudesse se sentar ao seu lado. Vênia que de imediato lhe foi outorgada. Com uma estranha expressão ela disse:

– Que pobre e infeliz criatura sou eu para impedir que alguém se sente na porta da casa daquele que é o Pai de todas as criaturas? Sente-se e esteja à vontade.

Ewerton, que naquele momento não sabia discernir o certo do incerto, mesmo não entendendo o porquê de ela ter dito aquelas palavras, com certa dificuldade sentou-se ele ao seu lado, e logo almejou saber o motivo de tanta tristeza numa mesma pessoa. Ela por sua vez, secando os olhos com as costas das mãos, relatou-lhe em poucas palavras sua trágica e inverossímil história.

– Vivíamos outrora numa bela casa onde éramos todos felizes e satisfeitos com tudo ao nosso redor, em tempo algum soubemos o que era necessidade, dor ou tristeza. Nossa existência era baseada numa plenitude infinita de deleites sem fim. Mas por escolhas indevidas, feitas por uma vil influência baseada em promessas infundadas, decidimos por trilhar caminhos obscuros e incertos. Desde então, condenados pela Justiça Divina, eu e meus irmãos somos impedidos de retornarmos para nosso verdadeiro lar e somos obrigados a vagar pelo mundo como pobres peregrinos. Sem termos um destino certo, transitamos por ermos caminhos em busca de um lugar decente onde possamos pelo menos poder lamuriar nossa infinita desgraça sossegadamente.

Ewerton, que naquele momento já não era mais senhor de seu juízo perfeito, esquecendo-se por um instante de sua própria situação desoladora, por mais uma vez, vendo-se como um ministro de Deus, mesmo tropeçando nas palavras, disse-lhe de forma muito afetuosa, como se fosse um pastor se dirigindo a uma ovelha que havia se perdido e fora novamente encontrada.

– Não deixe que a tristeza te assole dessa forma, tome conta de seus sentimentos, por mais terrível que uma tempestade possa parecer, o sol sempre voltará a brilhar novamente. Não se deixe abater tão facilmente, você ainda é jovem e muito bonita...

Nesse momento, ela esboçou um leve sorriso, que à luz do dia, certamente seria bastante sinistro. Ele continuou:

– ... Dias melhores sempre estarão reservados para pessoas iguais a você. Já é muito tarde, não é certo que ninguém esteja na rua a essas horas, principalmente uma mulher indefesa igual a você. Há muitas pessoas ruins e hostis nesse mundo, seres que não têm nenhum apreço pelo seu semelhante. Não posso de forma alguma permitir que algo de ruim aconteça a você.

Ela abaixou a cabeça em reverência, concordando. Ele nem pôde ver que ela esboçava um novo sorriso, tão maquiavélico quanto o anterior, pois estava ele bastante entretido com sua oratória. Juntando forças sem saber de onde, colocou-se ele novamente de pé, gentilmente estendendo-lhe a mão esquerda – na outra mão ainda segurava uma garrafa de bebida – disse-lhe:

– Minha casa não é muito longe daqui, se quiser me acompanhar, posso lhe servir um café, uma cadeira para se sentar e se for de seu agrado tentarei ser um ouvinte atencioso para uma boa conversa. Não tenha medo, sou uma pessoa inofensiva, só consigo causar mal a mim mesmo.

Ela, agarrando-se à mão que lhe era oferecida, tocando de leve com a ponta dos dedos uma brilhante aliança que ele ainda ostentava no dedo, desferiu-lhe um olhar que seria capaz de enxergar os recantos mais profundos de sua alma, e foi logo dizendo:

– Agradeço pela oferta, gentil cavalheiro. Mas não quero ser nenhum tipo de incômodo em sua vida. Longe de mim, causar qualquer problema em quem quer que seja de forma intencional, mesmo que eu quisesse não me é permitido causar-lhe nenhum tipo de mal.

Por um momento, ele olhou tristemente para a aliança e suspirando profundamente ao relembrar sua dolorosa realidade – que por um breve instante fora esquecida – disse-lhe:

– Não se preocupe com isso, minha amada esposa não está mais entre nós. Ela fora arrancada de mim da forma mais injusta possível, e como uma desgraça nunca vem sozinha, junto com ela também se foram o fruto de nosso amor e também toda a minha felicidade. Parece-me que somos dois seres abandonados pela providência divina, eternamente condenados à dor e a uma tristeza sem fim.

Quando disse essas palavras, uma coruja que estava assentada numa árvore próxima e presenciava toda aquela cena, deu um piado ensurdecedor e passou sobre eles num voo rasante até outra árvore logo atrás da igreja. Estando Christine já de pé, percebendo que o convite estava sendo feito de livre e espontânea vontade, decidiu que aceitaria acompanhá-lo até sua casa com a promessa que ele deveria se comportar como um cavalheiro respeitando sua situação de jovem indefesa. Caminhando a seu lado, ainda segurando a mão dele, ela logo quis saber o motivo que de alguma forma ele pudesse imaginar que ambos poderiam ser semelhantes em alguma coisa. Sem muita cerimônia o questionou sobre o que ocorrera à sua esposa e seu filho.

– Filha! Ela se chamava Esther e tinha apenas três anos, era apenas uma inocente criança praticamente ainda de colo. Ela e minha esposa Lucy voltavam de uma celebração na casa de uma irmã que padecia de um mal irremediável e já estando essa irmã no leito de morte, quis minha amada esposa prestar-lhe os últimos votos de fé e de esperança num lugar melhor. Minha amada Lucy sempre fora uma excelente companhia para pessoas nesse tipo de situação. A celebração – mesmo com a situação em si – fora bastante ungida e alegre e se prolongou um pouco mais do que deveria. Já era tarde quando ela retornava para nossa casa, e desde o início da noite caía uma chuva fina, o asfalto estava bastante molhado e escorregadio. Lucy era uma motorista cuidadosa, mas o condutor do caminhão que vinha em sentido contrário, talvez por mil outros motivos, mas principalmente por estar completamente embriagado, não pôde perceber que estava invadindo a pista contrária com seu caminhão carregado com madeira e sem tempo ou destreza necessária, bateu de frente no carro de minha esposa, matando duas pessoas inocentes que naquela hora trágica, retornavam de uma celebração em intenção a uma pessoa em profundo sofrer...

Nesse momento, Ewerton, largando a mão da jovem, cobriu o rosto em completo desespero, e após alguns instantes, tentando segurar os soluços que estavam em sua garganta, olhou para o céu e como se estivesse perguntando para o firmamento com palavras carregadas de ódio e desespero, disse:

– Como um Deus a quem tanto adoramos, que deveria zelar por nós, pode tirar a vida de duas pessoas inocentes que naquele momento estavam justamente a serviço dele?

Pegando sua mão novamente e levando-a aos lábios para um beijo terno, ela disse:

– Pensei que tivesse sido um caminhoneiro bêbado que causara o acidente!

– E por acaso, não consta nas Escrituras Sagradas que não cai uma folha do céu sem que Deus assim o permita?

Se Deus fosse realmente tão bom quanto se autoeleva, não teria permitido a morte de minha querida filha, que nunca causara mal a quem quer que fosse.

– Mas também está escrito que o livre-arbítrio é um presente dos céus aos homens, que lhes fora concedido como dádiva desde o princípio, o direito de escolha: “...Tudo lhe será permitido. Contudo, nem tudo será lícito...” Não deveis jamais questionar os desígnios de Deus.

– Minha filhinha, uma inocente criança de apenas três anos, teve a oportunidade de usufruir do livre-arbítrio?

Questionou ele de forma ríspida.

Alguém certa vez também disse: “... Entre o céu e a terra existe muito mais do que julga a nossa vã filosofia...”

Ao ouvir essas palavras, ele parou de repente e num gesto não tão delicado, soltou sua mão mais uma vez, postando-se de frente a ela, um tanto quanto assustado, e perguntou-lhe:

– Quem é você? De onde vem tanta eloquência numa pessoa de aparência tão jovem?

– Ninguém mais importante do que você mesmo! Alguém que outrora também foi esquecida por Deus. Meu nome é Christine e se pareço sábia é porque a dor e o sofrimento moldaram cada parte do ser em que hoje sou. E tenha mais cuidado com as aparências, Ewerton!

Naquele exato momento estavam de frente a uma grande casa com traços esplêndidos e elegantes. De uma aparência muito bela, mas parecendo estar bastante desmazelada pelo abandono. Parados frente a frente iluminados pelos últimos raios de uma lua poente, ela logo lhe perguntou:

– Aqui é sua casa? Não vai me convidar para entrar e cumprir as promessas que me fez?

Ele, tentando se lembrar em que parte da conversa teria lhe dito seu nome, e ainda assustado com tudo que estava acontecendo, jogou a garrafa de bebida que ainda trazia consigo na lixeira e, pegando as chaves, se encaminhou para abrir o portão que conduzia para um jardim que demonstrava ter sido majestoso em outros tempos. Colocando a mão esquerda em movimento de dúvida sobre a boca, tentando ainda se decidir se deveria convidá-la ou não para entrar em sua casa, pôde sentir próximo às suas narinas um belo perfume que ficara impregnado em sua mão. O cheiro voluptuoso que sentia, o terno olhar que ela lhe desferira naquele momento sob o luar e o senso de cavalheirismo ainda existente dentro dele, foram determinantes para a decisão de convidá-la a entrar nos recantos que outrora vivenciara os dias mais felizes de sua vida. Com gestos de galhardia fez uma reverência e, apontando a entrada de sua casa, convidou-a para que pudesse entrar em seu não tão humilde lar.

Deitada numa aconchegante cadeira de balanço na varanda, estava o animal de estimação de sua filha Esther. Thereze era uma gata de cor preta de um negrume escuro como uma noite sem luar. Seu pelo era tão macio e sedoso que chegava a ser convidativo para uma carícia. Contudo, assim que percebeu a presença daquela estranha mulher adentrando em seu território, esse animal que então tinha sido dócil e extremamente pacífico, ficou arredio e bastante agressivo, colocando-se em posição de ataque com unhas e dentes arreganhados e com o pelo todo eriçado como se estivesse vendo o pior dentre todos os predadores, pronto a lhe tirar a vida. Atravessou na frente da porta de entrada da casa e ficou andando de um lado para o outro barrando a passagem, como se fosse uma devotada sentinela, guardando um tesouro de valor inimaginável. Ewerton pensou que aquele animal estivesse tendo algum tipo de ataque psicótico, talvez devido à falta que estava sentindo de sua estimada dona. Tentou em vão dissuadi-la a liberar a passagem de ambos, mas assim que Christine pôs o pé no primeiro degrau que levava ao alpendre da casa, a gata ficou ainda mais arredia, emitindo sons ensandecidos e demonstrando que de forma alguma permitiria que eles passassem por ela para entrarem na casa. Tanto convidada como anfitrião ficaram estupefatos com aquela estranha atitude de um animal que por natureza deveria ser totalmente absorto a tudo aquilo que acontecia ao seu redor, e muito diferente dos cães não se importava em vigiar a casa de pessoas estranhas.

Já sem muita paciência e com muita vontade de entrar em casa para usar o banheiro – sua bexiga já o estava alertando há um bom tempo que havia necessidade imediata de ser descarregada – Ewerton desferiu um violento pontapé na gata, que foi lançada para longe da porta, que imediatamente foi aberta. Assim que a entrada foi escancarada os dois logo entraram fechando rapidamente a porta atrás de si, pois mal a gata caiu ao chão, assim que se refez da pancada que recebera, lançou-se outra vez a fim de que impedisse a entrada dos dois. Ewerton balançou a cabeça em gesto negativo, mas não mais deu importância à gata, que agora estava do lado de fora da casa. Pediu que Christine se sentasse e se sentisse à vontade, enquanto ele rapidamente pudesse usar o banheiro. Após ter respondido o chamado da natureza, saindo do banheiro que há muitos dias não sabia o que era um gesto de assepsia, disse a Christine que o acompanhasse até a cozinha onde ele lhes prepararia um café bem forte. Christine por sua vez solicitou-lhe para que ela também pudesse usar o banheiro. Mesmo envergonhado pela sujeira acumulada há dias, ele, como um bom anfitrião, pediu perdão pela bagunça e disse-lhe que se sentisse à vontade como se a casa fosse sua. Ela por sua vez, esboçando um estranho sorriso, respondeu quase em murmúrio:

– Não só a casa! Não se preocupe com a bagunça, meu adorável coração partido! Já estive em lugares bem piores, locais que poderia muito facilmente levar qualquer homem à loucura.

Talvez pelo barulho ensurdecedor que a gata fazia no lado de fora, miando e arranhado a porta e as paredes numa tentativa ensandecida de adentrar a casa, ele não conseguiu ouvir corretamente o que ela dissera. Mas, também não se importou muito com aquelas palavras e logo se encaminhou para a cozinha a fim de preparar um saboroso café, pois até ele mesmo naquele momento tão tardio estava ansiando por algo quente e bastante forte para recarregar suas energias e tentar diminuir a enxaqueca que já começava a incomodá-lo. Rapidamente colocou a água no fogo e, sem mais delongas, logo o café ficaria pronto. Christine, que se demorara mais que o normal a se recompor no banheiro, assim que saiu estava totalmente diferente da pobre jovem que fora encontrada se entornando em lágrimas jogada de qualquer forma nas escadarias daquela escura e solitária igreja em horas tão tardias.

A mulher que agora estava encostada no umbral da porta entre a sala e a cozinha de sua casa era uma criatura de uma beleza ímpar. Um corpo esbelto de altura mediana com curvas bem definidas dando-lhe uma aparência sedutoramente voluptuosa. Os longos cabelos negros que caíam em cascata pelos ombros descendo quase até a cintura, com belos cachos parecendo as ondas do mar em seu infinito vai e vem. Destacando-se ainda mais a beleza desse véu noturno, havia duas volumosas mechas pintadas com uma cor avermelhada quase próxima ao cobre. Essas mechas dividiam seu penteado ao meio deixando sua bela face quase toda à mostra. Seus olhos eram de um verde muito brilhante num tom extremamente hipnotizante, seu sorriso inocente era irresistivelmente encantador. Ela havia retocado minuciosamente a maquiagem e em seus lábios agora brilhava um batom na cor de carmim tão púrpuro como o mais puro sangue.

Aquela imagem deixara Ewerton tão boquiaberto que até mesmo o café que ele estava preparando fora esquecido e derramou-se no fogão. O pouco que ainda sobrara foi servido em duas canecas. Oferecendo uma das canecas para Christine, instou que ela se sentasse numa cadeira na mesa de jantar. Ela, ao se aproximar dele para receber o café, pegou a caneca e a colocou sobre a mesa, e olhando no fundo de seus olhos com um sorriso cheio de uma maliciosa volúpia, o questionou se não havia algo um pouco mais forte em casa que ele pudesse lhe oferecer. Ele por sua vez, rapidamente serviu dois copos com uísque e gelo. Christine sorveu apenas um gole de sua bebida, enquanto Ewerton entornou a sua de uma única vez acompanhado de duas aspirinas. Christine perguntou-lhe:

– E por acaso nunca te disseram que não se deve misturar bebidas com nenhum tipo de medicação? Que em alguns casos pode-se levar a pessoa à morte?

Ele de forma bastante desdenhosa, mas ainda assim com gentileza, respondeu:

– Nesse momento da minha vida, a morte não está na minha lista de preocupações, na verdade talvez seja o que eu mais desejo. Pôr um fim em todo esse sofrimento de uma vez por todas.

Christine deu mais um gole em sua bebida e, abraçando-o em seguida, deu-lhe um longo beijo que fez com que ele quase caísse, pois seus joelhos ficaram trêmulos e suas pernas perderam as forças por um breve momento. Ewerton, mesmo se quisesse, jamais poderia se esquivar de tal situação. Aquela bela mulher demonstrava ser inabalável em seus gestos, a copiosidade de seu abraço e o forte perfume que ela usava fez com que ele perdesse completamente todo o controle de seus movimentos, se entregando de corpo e alma aos seus encantos. Entre beijos e carícias ela o foi arrastando para o quarto, como se tivesse estado naquela casa por muitas outras vezes.

Inebriado por tanta beleza e influenciado pelo desejo que agora tomava conta de todo o seu ser, deixou-se ele levar como um cordeiro para o sacrifício. Na mesma cama que um dia fora o leito sagrado onde ele e sua esposa consumaram seu abençoado matrimônio e imaginaram uma vida alegre, cheia de sonhos e prosperidade, agora estava sendo usado para uma orgíaca prática sexual sem nenhum tipo de pudor. Ewerton pôde na penumbra daquela madrugada fria, experimentar delícias que talvez nenhum outro ser vivo tenha sentido nessa existência. Christine com o corpo completamente desnudo se lançava sobre ele e se agitava como se fosse uma serpente. Seus movimentos eram cadenciados como o pulsar de seu próprio coração, naquele momento no mais completo êxtase, Ewerton se esqueceu de tudo que já havia se passado na sua inútil existência sobre essa terra, e numa atitude impensada, influenciado pelo calor do momento disse em palavras claras:

– Faça de mim o que você quiser, sou inteiramente seu!

Christine, que estava sobre ele, o segurando pelos ombros, pareceu por um momento ter ficado maior e mais robusta, as mechas vermelhas de seus cabelos davam a leve impressão de estarem se movendo como se fossem duas serpentes, seu sorriso tinha ficado maleficamente sinistro e em seus olhos havia algo sobrenatural, pois eles haviam sumido por completo, deixando dois infinitos buracos tão negros como azeviche e para completar ainda mais o assombro que naquele momento tomara conta de todo o seu ser, ela com uma voz cavernosa num tom sombriamente grave, disse:

– Já há muito tempo que você me pertence! Eu apenas estava esperando o momento certo para vir buscá-lo para o lugar que lhe será destinado por toda a eternidade. Tal como nós, sentirá você também a ira de Deus sobre todos aqueles que ousam traí-lo.

Naquele último momento de medo e aflição, Ewerton compreendeu quem ela realmente era e tudo o que estava acontecendo. Mesmo tentando usar toda as forças que lhe restavam, não conseguiu se libertar dos braços daquela sinistra criatura que havia adquirido uma aparência terrível aos olhos humanos. Sentiu que um calor intenso subia pelo seu ventre e tomava conta de todo seu corpo, como se uma chama tivesse se acendido em suas partes. Quando pensou que poderia pelo menos gritar em última tentativa pela misericórdia divina, foi consumido por um beijo tépido, seus olhos foram tomados por um intenso clarão que logo se tornou em trevas absolutas...

...Os vizinhos agiram rápido acionando o corpo de bombeiros, mas as chamas foram implacáveis e toda aquela bela casa fora completamente destruída num terrível incêndio. De seu ilustre e outrora simpático residente só sobraram cinzas. Da construção restaram as lembranças de um tempo onde ainda havia paz e felicidade naquele lar. Entre vizinhos e curiosos que assistiam àquele infortúnio sem nada poderem fazer, vagava uma gata preta ronronando entre uma perna e outra em busca de conforto.


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Divina Presa

No ventre palestino o prometido, um dia, | Nasceu de uma virgem, sob luz de profecia. | Filho de Josué, do Espírito gerado, | Foi pelo rei temido, em berço arado…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No ventre palestino o prometido, um dia,
Nasceu de uma virgem, sob luz de profecia.
Filho de Josué, do Espírito gerado,
Foi pelo rei temido, em berço arado.

Como cordeiro em sangue, seu destino selado,
Ressurge em terra árabe, em chão desolado.
Mas a fome o ceifa, antes do primeiro ano,
E o anjo pacificador parte em vão, humano.

Terceira vez renasce em solo devastado,
Mas explosivos rasgam seu frágil passado.
E quando enfim retorna, abre os olhos feridos:
Fuzis brancos e azuis: seus únicos vestidos.

Perece o Cordeiro em guerra, fome e espanto,
Mas sua carne é pó, é luta, é grito e canto.

Revisão por Sahra Melihssa

Escrito por:
Leonardo Garbossa

Leonardo Garbossa nasceu em São Paulo, em 1995. Desde jovem é um leitor apaixonado e grande fã das obras romancistas. Sentimentalista por natureza, iniciou sua vida acadêmica na área das ciências exatas, migrando em seguida para psicologia, que estuda atualmente. Teve a infância conturbada após perder o pai para o suicídio, tema que se tornou seu foco nos estudos acadêmicos. Foi criado pela avó, que fez o máximo possível para ensinar a ele a importância da excelência nos estudos e na cultura. ... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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A Harmonia do Acaso

Existem dias em que todas as forças do Universo se unem para que o acaso possa acontecer de uma forma que nada, nem ninguém possa desconfiar…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“Vós que aqui entrais, abandonai toda a esperança”. — Dante Alighieri

Existem dias em que todas as forças do Universo se unem para que o acaso possa acontecer de uma forma que nada, nem ninguém possa desconfiar que uma Força maior talvez tenha interferido no destino de alguém. Os fatos ocorrem de forma sincronizada, uma simples ação desencadeando outra e mais outra até que algo inevitável aconteça. Naquela madrugada, após chegar em casa às três horas, depois de mais uma noite de bebedeira, Antônio jamais esperaria que o dia seguinte lhe traria dissabores inomináveis. Como lhe era de costume, chegou em casa, procurou algo para comer, descalçou os sapatos e, ainda mastigando um pedaço de queijo velho – de há muito tempo abandonado na geladeira – jogou-se na cama do jeito que estava e logo caiu no sono, sem se preocupar que a vida teria que continuar dali a algumas horas.

Acordou assustado com o telefone tocando e com o barulho de uma buzina de um caminhão que havia acabado de dobrar a esquina. A casa em que morava – um apartamento de dois quartos no segundo andar de um sobrado antigo – situava-se numa esquina bastante movimentada àquelas horas da manhã. Aquele barulho lhe arrancara de seu sono pesado e o trouxera de volta à sua dura realidade. Ainda meio zonzo pelo susto, ao olhar para o rádio-relógio – que ele esquecera de programar o alarme – na cômoda ao lado da cama, logo se colocou de pé num sobressalto. Estava bastante atrasado para o trabalho. O relógio marcava 08h35, e ele já deveria estar na loja desde as 08h00. Assim que olhou para o telefone e viu que o número identificado era do asilo onde sua mãe estava há mais de dois anos, o ignorou por completo, pensando consigo mesmo: – Na hora do almoço, ligo de volta para saber do que se trata.

Em menos de dez minutos já havia tomado banho e se barbeado. Foi até a cozinha em busca de algo para comer e, como nada de agradável para uma manhã de ressaca fora encontrado, tomou apenas um copo de leite frio. Já vestido com seu uniforme, foi mais uma vez ao banheiro para escovar os dentes e, sem mais delongas, se encaminhar rapidamente para o trabalho. Ao retirar o creme dental do tubo, talvez devido à pressa em que estava, ou mesmo por falta de perícia, conseguiu sujar toda sua camisa – de cor preta – com uma considerável quantidade daquela pasta branca. Por mais que tentasse, não conseguiu, de forma alguma, deixá-la apresentável. A única solução fora usar a mesma camisa do dia anterior – amarrotada, suja de suor, fedendo a cigarro e a todo tipo de odor que um botequim pode oferecer.

Aquele era um dia que ele, de forma alguma, poderia faltar ao trabalho. Um grande artista da música pop iria pessoalmente até a loja buscar um violão estilizado, que havia sido encomendado há dias. No dia da encomenda do tal instrumento, após aquele momento de trocas de gentilezas entre vendedor e cliente – onde certa intimidade se estabelece –, Antônio se aproveitou daquela oportunidade única – que ele há muito tempo aguardava – e, sabendo de quem se tratava, logo relatou sobre sua paixão pela música e também falou sobre suas composições, que certamente, na voz de um grande intérprete, talvez poderiam se transformar em hits de sucesso. Solicitou então àquele artista que, assim que voltasse à loja – se fosse de seu interesse e sem compromisso algum –, pudesse dar uma olhada rápida em suas composições e, quem sabe assim, encontrar alguma canção que lhe interessasse.

Antônio era um homem talentoso e bastante sonhador. Um indivíduo muito trabalhador, mas também muito irresponsável com suas finanças e bastante negligente consigo mesmo. Já na casa dos trinta anos – tal como sua própria mãe, agora abandonada num asilo – ainda não havia se casado e muito menos conseguido algum tipo de sucesso na vida. Filho de uma professora aposentada, que o concebera já madura em anos, quando já contava com quarenta anos. Essa professora – Tia Adélia – uma bela solteirona que havia dispensado várias oportunidades de casamento em sua juventude, preferindo investir seu tempo e disposição em sua carreira pedagógica, certo dia, num baile de carnaval, sob efeito de uma bebida um pouco mais forte, se deixou levar pelos encantos de um sedutor caminhoneiro que estava de passagem pela cidade. O resultado dessa ébria noite de carnaval viria se apresentar ao mundo nove meses depois, na figura de um belo e saudável menino que receberia o nome de Antônio Augusto.

Como não conhecera seu pai – que certamente morrera sem saber da existência de um filho –, fora criado pelo avô – que também se chamava Antônio – que tentou, dentro de suas possibilidades, lhe dar uma boa educação. Seu Antônio tinha, em parceria com seu irmão Jaime, uma serraria na pequena cidade onde moravam. Foi nessa serraria que Antônio Augusto – chamado Toninho – passou sua infância e adolescência aprendendo todo tipo de coisa: tudo o que prestava e também aquilo que não seria de nenhum proveito.

Esse seu tio-avô, Jaime, era a pior espécie de pessoa que poderia servir de exemplo para uma criança. Não era muito achegado ao trabalho duro, bebia como um louco e fumava feito uma chaminé. Era mulherengo ao extremo e tinha meia dúzia de filhos – nenhum deles reconhecido por ele – espalhados por toda a cercania com diversas mulheres diferentes, mulheres essas de índole e caráter bastante duvidosos. Contudo, não há nada no Universo de que não se retire algum proveito. Tio Jaime, por mais que possa parecer ser um indivíduo completamente imprestável, mesmo tendo ensinado o jovem Toninho os diversos segredos da malandragem, também fora o responsável por encaminhá-lo ao mundo da música, ensinando-o a tocar diversos instrumentos musicais. Tio Jaime era um exímio instrumentista e lhe ensinara tudo o que sabia.

Sua mãe se aposentara no mesmo ano em que ele completara 18 anos. Nessa época, seu avô já havia falecido há dois anos; sua avó morreria no ano seguinte, ficando apenas ele e sua mãe morando numa casa enorme. A serraria fora vendida assim que Seu Antônio falecera. Tio Jaime sobrevivia de sua parca aposentadoria e de um ou outro trocado que recebia de algum aluno que o procurava para aprender a tocar algum instrumento musical, mas também viria a falecer em pouco tempo, após uma vida carregada de lascívia e devassidão.

Como Tia Adélia não via muito futuro para o filho numa cidade pequena, decidira se mudar com ele para a cidade grande. Antônio Augusto – que deixara o apelido de Toninho para trás – tentara de todas as formas seguir carreira como artista. Contudo, não obtendo a sorte e a oportunidade necessárias ao estrelato, se firmara como vendedor numa loja de instrumentos musicais, onde trabalhava há mais de dez anos. Sem o tempo necessário e com pouca paciência para com sua mãe, que na senilidade se tornara irascível e taciturna ao extremo, decidira por interná-la num asilo, onde, para desencargo de sua própria consciência, dizia para si mesmo que ela seria muito bem cuidada por profissionais especializados nessa função.

Aquele dia – que não havia começado muito bem – tinha tudo para ser um grande dia. Ele não deixaria que ninharias o abatessem. Vestiu a camisa do dia anterior – mesmo não estando na melhor das condições –, pegou seu crachá e suas chaves e desceu correndo as escadas para ir para seu trabalho. Sabia que o tão esperado artista só estaria na loja após as dez da manhã. Para isso, ele ainda tinha tempo. A questão era que seus atrasos estavam ficando corriqueiros demais, e a nova gerência da loja já o havia advertido naquela mesma semana quanto a tal situação. Quando chegou ao portão de saída de sua casa, lembrou que estava se esquecendo do item mais importante daquele dia – seu caderno de composições. Talvez fosse a coisa mais importante de toda a sua vida. Por isso mesmo, voltou correndo até seu apartamento e, já de posse de tão importante objeto, desceu mais uma vez as escadas que levavam até a saída. No escuro corredor das escadas, sentiu uma estranha presença perto de si e, ao cruzar o portão de saída, teve a sensação de ter visto um vulto passando por ele. Bastante eufórico com as promessas daquele dia e totalmente absorto em seus pensamentos, atravessou a rua sem olhar para os lados e, quando o fez, a única coisa que viu foi uma enorme mancha verde vindo sobre ele. Num último momento, ouviu um estrondoso barulho que misturava sons de buzina, freadas de pneus e uma forte pancada. De repente, havia apenas o silêncio, e tudo ficara completamente escuro...

... Quando conseguiu, por fim, abrir os olhos, estava num lugar estranho, onde parecia estar anoitecendo, mas não conseguia ver os traços de um entardecer, muito menos o menor sinal de um céu estrelado. Ao olhar para cima, o que viu foi a escuridão de um céu que parecia estar nublado, pronto para descarregar uma tempestade a qualquer momento, mas não havia o menor sinal de chuva. O tempo estava quente e abafado, não havia uma única brisa soprando. Havia um fétido odor de coisa podre pelo ar, como se houvesse um esgoto a céu aberto ali por perto e vários velórios acontecendo ao mesmo tempo, com seus vapores de defunto, velas e flores murchando. Levantou-se e logo quis saber onde estava, mas as pessoas que passavam por ele, caminhando a esmo, agiam de forma estranha, não diziam coisa com coisa. Pareciam estar bêbadas, caminhando trôpegas e falando coisas sem nenhum nexo. Alguns pareciam estar em profundo remorso, pois batiam no próprio peito numa inconsolável lamentação.

Decidiu que o melhor a fazer era tentar encontrar alguém que conhecia, para saber que lugar era aquele e, principalmente, tentar entender o que estava fazendo ali, uma vez que deveria estar na loja para encontrar a pessoa que poderia realizar o grande sonho de sua vida. Caminhou sem destino certo por quase uma hora, sem encontrar ninguém que pudesse lhe dar uma explicação plausível; todos que encontrava pelo caminho pareciam estar muito envolvidos em seus próprios problemas. Ninguém interagia com ninguém, era um verdadeiro “cada um por si e Deus por todos”. Contudo, de algum modo, ele teve a estranha sensação de que Deus não estava presente naquele lugar. Sentindo-se cansado e com um gosto estranho de sangue na boca, com o corpo todo dolorido, como se tivesse sido violentamente espancado, não conseguia de forma alguma se lembrar de como chegara ali. Suas pernas estavam doendo pela caminhada, mas não sentia sede, e até mesmo a fome que o açoitava ao se levantar naquela manhã o havia abandonado. Numa das mãos ainda trazia consigo as chaves de casa, que ele não havia colocado nos bolsos, e na outra carregava seu caderno de composições.

A rua pela qual ele caminhava parecia não ter fim, como se estivesse caminhando em círculos, mas, por mais que andasse, não passava pelo mesmo lugar mais de uma vez, como se estivesse numa cidade infinita. Percebeu que, nas casas, as luzes estavam apagadas e todas as portas – de casas, lojas, botequins etc. – estavam fechadas. Havia pessoas de todas as formas e tipos, as mais diversas, pelas ruas. Todas caminhavam de um lado para o outro, tristes e cabisbaixas, e, quando ele tentava interagir com alguém, cumprimentando-as ou lhes perguntando algo, ninguém lhe dava atenção. Depois de certo tempo, que lhe pareceu ser quase uma eternidade, teve a impressão de ter visto, caminhando em sua direção, sua antiga professora do jardim.

Tia Cecília fora sua professora quando ele ainda tinha sete anos, mas, pelo que se lembrava, ela havia morrido há alguns anos num trágico acidente de carro que colhera tanto a vida dela quanto a do marido e de seu único filho – bastardo, diziam as más línguas. Pelo que soubera, eles estavam voltando de uma festa, onde tanto ela como o marido haviam bebido muito e decidiram que o menos ébrio pegaria a direção. O resultado de álcool e direção fora desastroso. Tia Cecília passou por ele como se fosse um completo estranho e nem ao menos lhe respondeu quando ele a cumprimentou, chamando-a pelo nome. Antônio pensou que havia se confundido. Continuou caminhando e, ao dobrar uma esquina, se deparou com seu Tio Jaime, que esse sim o reconhecera. Pois foi Tio Jaime quem lhe direcionou a palavra, questionando o que ele estava fazendo naquele lugar. Muito satisfeito por ter encontrado um rosto conhecido, mas bastante assustado por saber que era alguém que havia falecido há muitos anos, logo questionou seu tio sobre o que significava tudo aquilo, o que, com certa relutância, lhe fora explicado.

— Este lugar tem vários nomes, filho: Hades, Purgatório, Inferno... Aqui nós o chamamos de Umbral. Território desprovido de todo e qualquer sentimento de piedade, não há fraternidade aqui presente, ninguém parece se importar com a dor do outro. Cada um purgando seus próprios pecados, nesse infinito vai e vem de transeuntes ensimesmados. Vez por outra, aparecem por aqui umas pessoas vestidas de branco, transcendendo uma estranha luz azulada, que escolhem alguns dentre os que caminham e os levam consigo. Para onde, ninguém sabe, até porque os que são levados não retornam para contar, e quem os leva nunca diz nada para os que aqui ficam.

O que sei é que muitos, como eu mesmo, ficam bastante tempo por aqui. Após muita reflexão – e tempo para refletir é o que não falta por aqui – cheguei à conclusão de que o tempo passado aqui depende de como foi sua vida no mundo dos vivos. Pois alguns são rapidamente resgatados pelos seres de luz. Quando alguma criança chega, algum ser de luz já está à sua espera e ela é imediatamente levada. É estranho você chegar no mesmo dia em que sua mãe também passou por aqui. Vocês estavam juntos? Tiveram algum acidente?

Naquele momento, Antônio teve um sobressalto e, todo assustado e trêmulo, disse:

— Como assim? Que história é essa? Minha mãe está ou esteve aqui?

Tio Jaime, após um longo suspiro – ou pelo menos algo que pudesse se assemelhar a tal –, respondeu:

— Cheio de perguntas como todo mundo! Sua mãe passou por aqui mais cedo, um pouco antes de você chegar. Mas, como tinha um coração puro e inocente como uma criança, logo foi resgatada por um dos seres que já aguardava. Ela não chegou a me reconhecer como você o fez. Porém, eu a reconheci de imediato e, como estava próximo a ela, pude ouvi-la quando questionou ao ser que a aguardava: “O que seria de você sem ela para protegê-lo?”. O ser, muito gentilmente, respondeu que você ainda teria bastante tempo para endireitar suas veredas...

De repente, uma forte luz que banhava sua face lhe cegou os olhos momentaneamente, e o barulho de uma buzina quase o deixou surdo. Mas o que mais lhe incomodava naquele momento era o irritante som do telefone que tocava insistentemente. Antônio despertou de um terrível pesadelo, seu estômago estava embrulhado e sua cabeça doía terrivelmente. Ao perceber que o telefone não lhe daria paz, decidiu atendê-lo. Era do asilo onde sua mãe estava internada.

— Senhor Antônio Augusto de Albuquerque?

— Sim! Sou eu.

— Infelizmente, não tenho uma boa notícia para o senhor...

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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9 - Uma nova esperança em meio aos destroços

No céu, a Lua pairava sobre as torres alongadas do castelo tenebroso como um farol prateado. Sua esfera irradiava um cintilar frio e cristalino…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Relato de Lisa

Alana já sabe sobre as mudanças que se fizeram em mim. De certo modo, me senti aliviada. Você não imagina como é difícil manter-se calada quando o coração está repleto de preocupações e reverberações das ações — incautas — alheias. Esperem. Vou contar-lhes tudo sobre esses últimos dias.

Gatos não têm religião, mas somos espiritualizados de uma forma que o conhecimento limitado humano é incapaz de compreender. Não se sintam ofendidos, mas imaginem uma situação em que vocês precisam explicar sobre a relatividade para um bebê de dois anos. Ninguém diria que o bebê é incapaz ou desprovido de inteligência, mas diriam que ele ainda não é capaz, pois precisa entender primeiro outros conceitos mais básicos. É exatamente assim que os vejo. Meus ancestrais, como já contei anteriormente, são seres além do tempo, míticos e que regem as leis do cosmos. Eu consegui me adaptar a essa existência limitante, mas não suprimi totalmente minhas capacidades cognitivas, e por isso, sei o quanto deve ser difícil para vocês entenderem certas coisas.

Sem mais delongas, porque isso está soando muito estranho, vou contar-lhes o que aconteceu com a minha Alana.

Há cinco dias ela acordou em meio a mais confusões noturnas — não consigo afirmar que aquilo era sonho. Eu não queria ter que usar os artifícios, pois quando adentrei nessa existência havia prometido para mim mesma que não iria interferir nas escolhas dos humanos, entretanto, tudo isso que aflige Alana não foi sua escolha, mas são consequências dos maus atos dos outros. Posso dizer que esse é um grande dilema, contudo, será assunto para outro relato.

Em meio ao conturbado despertar, entre lágrimas e terrores, esbocei a primeira frase audível para ela, que a princípio imaginou estar confusa pelo sono, pelo despertar recente ou pelo desassossego. Demorou para aceitar a realidade. Contei-lhe sobre os olhos flamejantes, minha ancestralidade e falei-lhe sobre Siehiffar Monm: ela te ajudará.

Aquela noite o vento assobiava entre as árvores retorcidas como se carregasse memórias que não deveriam ser lembradas. Alana hesitou de início, mas depois compreendeu que mal também não podia fazer. Partiu, guiada por uma promessa sussurrada por mim ela te ajudará.

Nos recônditos do Castelo havia o pequeno santuário iluminado por uma única vela bruxuleante, a luz parecia resistir por teimosia. Quando a porta rangeu sob o toque da minha tutora, o cheiro de cera derretida e madeira antiga a envolveu. E lá estava ela: Siehiffar.

Sentada em um banco gasto, o véu de linho repousando nos cabelos negros, as mãos postas sobre o colo — havia nela uma quietude que desafiava o mundo. Ela ergueu os olhos ao ouvir a porta, e o olhar que pousou sobre a recém-chegada não foi de julgamento, mas de acolhimento.

— Você veio. — disse Siehiffar com uma voz que parecia ser feita de manhãs brandas e orvalho. — Há dias sinto sua tristeza ecoando pelas paredes do Castelo.

Alana hesitou. (ela sempre hesita, mas faz).

— A minha gat... Lisa me contou sobre você. Eu... não sei por que vim. Só sei que não consigo mais carregar isso. A fé... desapareceu. Ou talvez nunca tenha existido.

Siehiffar se ergueu, seus passos silenciosos como preces. Aproximou-se sem pressa, até chegar de frente à alma atormentada. Tocou-lhe as mãos — mãos frias, que haviam cavado covas para os próprios sentimentos.

— Às vezes — disse ela — a fé se esconde. Não porque tenha deixado de existir, mas porque espera que a procuremos em lugares novos. No silêncio. No desespero. Naqueles instantes em que tudo parece perdido. Na banheira você teve fé, só não te ensinaram o nome daquilo.

— Você fala como se ainda houvesse esperança — e sorriu com amargura.

Siehiffar levou a mão ao coração.

— Porque há. Não a esperança tola de que tudo será fácil ou que as dores desaparecerão. Mas a esperança de que, mesmo com tudo isso, você ainda pode encontrar sentido. Que há beleza até mesmo na dor que transforma e machuca.

Um raio de luar atravessou a vidraça quebrada, banhando o rosto da minha Alana em prata. Pela primeira vez em anos, ela não sentiu apenas frio. Sentiu algo mais. Um calor tênue, sutil, quase imperceptível — a lembrança de um abraço.

— Fique, — disse Siehiffar, apontando o banco. — Não precisa falar. Apenas fique. Às vezes, a fé começa quando simplesmente decidimos não ir embora. Lisa, pode entrar também... É claro que ela sabia que eu estava à espreita. Entrei.

E Alana parecia mais leve do que esteve em anos. Eu sabia que Siehiffar podia ajudá-la, mas sinto que subestimei sua capacidade de amenizar as dores com uma precisão quase cirúrgica.

Se Alana precisará de mais sessões com ela, eu não sei... Só sei que estou disposta a fazer novas concessões se for preciso.

As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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8 - Quando a ciência se cala, Deus fala

Estás aí, ó grande Rei dos reis, | entre as paredes deste castelo sepulcral? | Tua infinita sabedoria, ó Cientista do Universo, | penetra as muralhas…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Sibila von Lichenstein
10 de outubro de 1870.

Estás aí, ó grande Rei dos reis,
entre as paredes deste castelo sepulcral?
Tua infinita sabedoria, ó Cientista do Universo,
penetra as muralhas mágicas onde hoje habito?
És santo e sagrado o bastante para isso?
Pois se és, ó Senhor da infinita misericórdia,
eu rogo, eu imploro, pelo teu poderoso perdão.

Tuas pobres ovelhas, fui eu quem atraiu.
Com voz doce, chamei-as ao altar do carrasco.
Prometi salário, dei-lhes sepulcro.
Vendi minha alma por promessas de um homem
que se dizia mestre — e era coveiro.
Desejava ser médica, divina entre os mortais...
e tornei-me discípula do profano.

O hematoma em meu pescoço,
limo do pacto pecaminoso sob minh’alma.
Uma vida ilibada eu manchei,
concordando com suas equações pecaminosas
em monstro eu me transfigurei.
Tu me julgas digna de tua vingança — ou perdão?
Ou serei pó amaldiçoado à margem de tua criação?

Privada de meu pai, em nosso casebre o demônio me encontrou,
um mestre-deus da ciência que, em troca da minha decência,
sob o facho do arco voltaico da medicina — me exibiu.
Todos admiravam nossa inteligência: o mestre e sua pupila devota.
Tu me alçaste aos livros, me pagaste e me acolheste.
Entre as paredes da universidade: tua pupila aplicada.
Entre os lençóis de teu quarto: o velho amante aceito em silêncio.

A morte de Eleanor foi tua segunda máscara que caiu,
e em silêncio te entreguei a minha amiga mais cara.
Além de barregã, agora eu também era assassina.
Depois dela, outras seguiram para o vale da sombra da morte...
Quem dera eu ter essa sorte, pois minha vida tu já tomara...
Zombavas da morte, ser o mestre-deus da ciência não te bastava!
Teu saber te enlouqueceu — e tu quiseste o trono d’Ele.

Liberta-me, ó Deus, da cela onde eu mesma me enclausurei.
Perdoa-me se ouso proferir Teu nome,
pois arrasto o pesado cajado da morte em minha confissão.
Prostro-me, temerosa, diante de Tua justa punição,
mas anseio, por meio dela, o meu sagrado perdão...
Por favor, por favor... se Teus divinos olhos este castelo alcançam,
venha salvar a Tua mais humilde serva da escuridão

Rogo do negro e profundo umbral, ergo o olhar além do véu.
Tudo aquilo que a ciência sequer alcançou...
isso tudo repousa sob o eterno toque de Deus.
Tu és alfa, e tu és ômega.
Em mim a mácula reside, no Teu abraço a remissão.
Eu ignoro o meio de como me perdoar,
mas em Teus olhos brilha a luz da salvação.

As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aryane Braun

Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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A Queda de Asmodeus

Algum tempo antes de se tornar demônio, Asmodeus foi homem. Rei de Sodoma e de Gomorra, senhor absoluto das cidades gêmeas…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Algum tempo antes de se tornar demônio, Asmodeus foi homem. Rei de Sodoma e de Gomorra, senhor absoluto das cidades gêmeas, cuja opulência rivalizava com os próprios palácios celestiais.

Nascido de ventre nobre, Asmodeus era belo, inteligente e dotado de uma voz que dobrava vontades como o ferro ao fogo. Sob sua liderança, as cidades floresceram, mas não pela justiça e, sim, pela transgressão. Ele compreendeu cedo que o coração humano ansiava mais pelo prazer do que pela virtude, mais pelo caos do que pela ordem.

Ergueu templos onde a carne era louvada, onde o vinho corria mais que a água e onde os juramentos se quebravam como ramos secos sob o peso da luxúria. Criou leis que celebravam o excesso e puniam a piedade. Fez-se adorado como um deus, e por sua ordem, todos os cultos a Yahweh foram banidos.

Asmodeus acreditava ter vencido os céus. Mas Yahweh o observava.

Foi então que três viajantes chegaram aos portões de Sodoma. Vestiam-se como andarilhos comuns, cobertos de poeira e luz. Mas seus olhos brilhavam com uma intensidade que denunciava o eterno por trás da carne. Eram eles: Miguel, o Guerreiro; Gabriel, o Mensageiro; e Rafael, o Curador.

Foram conduzidos ao palácio sob ordem do próprio rei — curioso com aqueles que ousavam atravessar as terras de Sodoma sem temor ou reverência.

No salão de colunas de mármore e tapeçarias carmesim, Asmodeus os recebeu questionador em seu trono elevado. Seu sorriso era cético. Seus olhos, provocadores:

— Dizei, estrangeiros — disse o rei —, que deus vos envia a este lugar que os céus esqueceram?

Miguel falou primeiro, com voz grave como o trovão:

— Não é o céu que esqueceu Sodoma. Foi Sodoma que cuspiu no céu.

Gabriel avançou, dizendo:

— Yahweh nos envia e trazemos uma advertência, ó rei de prazeres. O tempo do juízo se aproxima. Ainda tens escolha. Ainda podes deter o caos.

Rafael, com compaixão nos olhos, completou:

— Abandona teus ídolos. Rejeita tua vaidade. Liberta teu povo do culto à carne. Yahweh é justo e também misericordioso.

Asmodeus levantou-se. Por um instante, o salão silenciou. Mesmo os nobres decadentes que o cercavam sentiram a tensão. Ele então proferiu:

— Misericórdia? E que misericórdia há em um deus que castiga por amor livre, por desejos naturais, por homens que recusam a culpa?

Miguel estreitou os olhos:

— Não é o desejo que condena. É a perversão do sagrado. Tu criaste uma nação sem alma.

Asmodeus, já inflamado, disse:

— Alma? A alma é uma corrente forjada pelos fracos! Eu dei liberdade a este povo. Transformei o sofrimento em prazer. Queimem os céus, se quiserem, Sodoma não se curvará!

Então Gabriel pronunciou a sentença:

— Assim será. Que teu nome se consuma com tuas cidades, a menos que te arrependas — agora. Esta é a última palavra.

Mas Asmodeus os expulsou do palácio. Ordenou que fossem perseguidos pelas ruas, humilhados, feridos — mas os anjos desapareceram diante dos olhos dos soldados, como se nunca tivessem pisado ali.

Naquela noite, o céu abriu-se com rugidos antigos. Fogo e enxofre começaram a cair como estrelas em fúria. Os templos desabaram. Os gritos de prazer viraram gritos de pavor.

Asmodeus, em sua torre, viu tudo ruir. Correu até o topo, gritou aos céus, não por arrependimento, mas por orgulho ferido:

— Maldito sejas, Yahweh! Se me negas tua criação, então que o abismo me aceite!

E o abismo respondeu. Asmodeus olhou para a escuridão, e dela surgiu Lúcifer.

O Portador da Luz estendeu a mão, e com ela fizera um pacto; poder eterno em troca da alma. Um novo trono — não entre os homens, mas entre os condenados.

Asmodeus, à beira do fim, sorriu. Aceitou.

Seu corpo mortal foi consumido pelo fogo de Yahweh, mas sua essência foi arrancada antes da destruição total. Levado por Lúcifer às profundezas do inferno, renasceu como demônio. Seus olhos, antes humanos, tornaram-se brasas eternas. Sua voz, agora, seduzia até os anjos caídos. E seu nome ecoou entre os salões do Inferno como um novo Príncipe.

Asmodeus, o Rei das Cidades Perdidas. O Patrono da Luxúria. O que desafiou Deus. E sobreviveu.

Desde então, cada vez que a vaidade de um homem desafia o céu, quando um líder usa seu povo como espelho de sua própria decadência, Asmodeus sorri do fundo do abismo, recordando-se do trono que perdeu. E do inferno que ganhou.


Escrito por:
Thais Gomes

Thais Gomes é apaixonada pelo universo Gótico da Literatura, sua formação é em Letras Português/Espanhol e sua obra mais recente, ainda está sendo produzida, é Contos Vampirescos, uma releitura de muitos personagens do Drácula de Bram Stoker. Inspirada em clássicos como Edgar Allan Poe, Lord Byron, Álvares de Azevedo, e contemporâneos como André Vianco e Eduardo Spör; a autora explora o universo da literatura... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Calíope

Engendra a substância de tua bela voz, | Lendo teu poema épico da batalha, | Donde os Titãs, jogados na fornalha | Do poder divino. Oh! Força algoz!…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Engendra a substância de tua bela voz,
Lendo teu poema épico da batalha,
Donde os Titãs, jogados na fornalha
Do poder divino. Oh! Força algoz!

Ornada de grinalda, contempla a sós;
Do monte Parnaso, inspira-se e talha
Na tabuleta, com seu buril, não falha
Em remanescer à poesia uma foz.

Jorrando a paixão do deus Apolo,
Entre suas vestes, dois filhos amaram,
Mas Eagro; talvez mais obtuso,

Deu-te ao ventre as notas de seu falo.
Um Orfeu aventurado cantaram:
A jovem Calíope, seu ar majestoso.


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Nyarlathotep

Nyarlathotep… o caos rastejante… Eu sou o último. Eu direi ao vazio que me atende. Não me lembro ao certo quando tudo começou, mas foi há meses…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Tradução e adaptação por Júlia Trevas

Nyarlathotep… o caos rastejante… Eu sou o último. Eu direi ao vazio que me atende.

Não me lembro ao certo quando tudo começou, mas foi há meses. A tensão, antes política e social, adensou-se com um pressentimento inquietante de um perigo físico hediondo e iminente — um flagelo tão vasto que só podia existir em nossos pesadelos mais sombrios. As pessoas transitavam com seus rostos pálidos e os olhares cautelosos, mexidas por advertências sussurradas, lidas como profecias que ninguém ousava repetir ou reconhecer abertamente. Um sentimento de culpa monstruosa pairava sobre a terra e, dos abismos entre as estrelas, varreram correntes gélidas que faziam os homens estremecerem em seus refúgios escuros e solitários. Ali, existia uma alteração demoníaca na sequência das estações — o calor do outono persistia assustadoramente, e todas as pessoas sentiram que o mundo e talvez o universo, foram entregues do controle de deuses conhecidos e forças, para os deuses que eram desconhecidos e para forças ocultas.

Foi então que Nyarlathotep surgiu, vindo do Egito. Quem ele era, ninguém podia dizer, mas ele parecia com um faraó. Os fellahin se ajoelhavam ao vê-lo, sem entender o porquê. Ele dizia ter emergido da escuridão de vinte sete séculos e tinha recebido mensagens de lugares que não pertenciam a este mundo. Assim, para as terras da civilização veio Nyarlathotep, moreno, esguio e sinistro, sempre comprando estranhos instrumentos de vidro e metal, combinando-os em instrumentos ainda mais estranhos. Ele falou muito sobre as ciências — da eletricidade e da psicologia — dando exibições de poder que deixavam seus espectadores mais que sem palavras, o que elevou sua fama a uma magnitude extraordinária. Homens aconselhavam outros homens a verem Nyarlathotep, eles estremeciam. E onde Nyarlathotep passava, tudo mais se dissipava, pois o alvorecer era dilacerado por gritos de pesadelo que nunca foram tão públicos. Os sábios chegavam a desejar que o sono noturno fosse proibido, para que os lamentos urbanos perturbassem menos brutalmente a pálida e compassiva lua. O satélite cintilava sobre águas verdejantes que escorriam sob pontes antigas, ao passo que velhos campanários desmoronavam contra um céu adoentado.

Eu me lembro quando Nyarlathotep veio para minha cidade — uma terrível e antiga cidade de inúmeros crimes. Meu amigo me contou sobre ele, contou sobre as suas revelações impulsivas e sedutoras. Eu tinha uma ânsia que queimava quando eu desejava seus mais extremos mistérios. Meu amigo me disse que eles eram horríveis e impressionantes, além da minha imaginação febril. O que foi projetado na tela da sala escura prenunciava mistérios que só Nyarlathotep ousava revelar, e que, no estalar de suas faíscas, arrancava dos homens algo que jamais antes fora subtraído — um algo que só se manifestava pelos olhares. Eu ouvi dizer que os que conheceram Nyarlathotep viam coisas que os outros não viam.

Foi no calor do outono que fui com as incontáveis multidões através da noite ver Nyarlathotep.  Adentrando a sufocante escuridão noturna e subindo as intermináveis escadas até o quarto da asfixia, envolto em trevas numa tela, eu vi formas encapuzadas no meio de ruínas, douradas faces malignas espiavam por trás de um monumento caído. Eu vi o mundo batalhar contra as trevas, contra ondas de destruição provenientes de além do espaço, lutando, se agitando e girando contra o escurecimento do sol já frio. Então, as faíscas dançaram de modo assombroso ao redor das cabeças dos espectadores, erguendo seus cabelos em arrepio e sombras, mais grotescas do que qualquer descrição poderia abarcar, elas emergiram e pousaram sobre as cabeças, e quando eu, que era o mais frio e científico que os demais, murmurei, tremendo, palavras como “impostura” e “eletricidade estática”, Nyarlathotep expulsou a todos nós, descendo-nos pelas escadarias vertiginosas até as ruas úmidas, tórridas e desertas da meia-noite. Gritei em alto e bom som que não tinha medo e que jamais poderia ter medo, e outros gritavam comigo em busca de consolo. Juramo-nos mutuamente que a cidade permanecera exatamente a mesma ainda viva, e, quando as luzes elétricas começaram a esmaecer, amaldiçoamos a companhia por vezes sem conta e rimos das feições bizarras que fazíamos.

Acredito que senti algo vindo da lua esverdeada, pois, à medida que passávamos a depender de sua luz, deslizamos em estranhas formações involuntárias e parecia que conhecíamos nossos destinos, embora não ousássemos sequer pensar neles. Uma vez, fitamos o pavimento e constatamos que os paralelepípedos estavam frouxos e invadidos pela grama, restando apenas um fio de metal corroído a indicar onde antes corriam os trilhos. Logo em seguida, avistamos um bonde solitário, sem janelas, deteriorado e quase tombado para o lado. Quando fixamos o olhar no horizonte, não conseguimos avistar a terceira torre junto ao rio e a silhueta da segunda ostentava um perfil desfiado no topo, como se o tempo a tivesse consumido por completo. Em seguida, dividimo-nos em fileiras estreitas, cada qual atraída por um rumo distinto. Uma delas desapareceu num beco tortuoso à esquerda, restando apenas o eco de um gemido lancinante. Outra coluna deslizou por uma entrada de metrô engolida pelas ervas daninhas, ecoando uma risada insana. A coluna onde eu estava foi sugada para o campo aberto e logo sentimos um frio estranho, alheio ao calor do outono, pois, ao avançarmos pelo pântano escuro, contemplamos ao nosso redor o brilho lunar infernal da neve maligna. A neve errante e enigmática foi varrida em uma única direção, onde se abria um abismo no qual o brilho apenas acentuava sua escuridão. A coluna seguia exígua, avançando sonâmbula para o precipício. Retive-me por um instante, pois a fenda negra na neve iluminada pelo verde era aterradora, e parecia ecoar o lamento inquietante de meus companheiros ao desaparecerem. Mas minha hesitação foi breve. Como se fosse chamado por aqueles que já haviam partido, flutuei quase sem peso entre os titânicos montes de neve, trêmulo e amedrontado, até ser tragado pelo vórtice cego do inimaginável.

Dotado de uma consciência lancinante e entregue a um delírio mudo, só os deuses antepassados poderiam compreender tal horror. Uma sombra doente e sensível se contorcia em mãos que não eram mãos, circuitando de modo cego pelas mais pavorosas meias-noites da criação em decomposição, cadáveres de mundos mortos, cujas chagas eram cidades, e ventos cadavéricos que roçavam as estrelas pálidas, fazendo-as cintilar com um brilho débil. Para além de tais mundos, vagavam espectros de monstros indescritíveis; colunas difíceis de ver oriundas de templos profanos, estruturados sobre rochas sem nomes sob o firmamento, erguiam-se até os vazios vertiginosos além das esferas de luz e de trevas. E, em meio a este cemitério repulsivo do universo, ecoava o bater ensurdecedor de tambores abafados e o lamento maçante das blasfemas flautas, surgidas de câmaras inconcebíveis e não iluminadas além do Tempo, o pulsar detestável e o sussurrar profano que faziam dançar, lentamente, desajeitadamente e absurdamente os gigantescos deuses supremos e tenebrosos. As gárgulas cegas, mudas e desprovidas de mente, onde a alma é Nyarlathotep


Escrito por:
H. P. Lovecraft

Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, onde também morreria, solitário e quase desconhecido, em 15 de março de 1937. Viveu à margem do mundo — pobre, doente, recluso — mas sua mente fervilhava como um poço de éter, e seus pesadelos tornaram-se mitologias modernas. Seu universo não é deste mundo, nem do inferno. É anterior, abissal, cósmico... » leia mais

Tradução de:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Ordam Noctam

No céu, a Lua pairava sobre as torres alongadas do castelo tenebroso como um farol prateado. Sua esfera irradiava um cintilar frio e cristalino…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

E N W

No céu, a Lua pairava sobre as torres alongadas do castelo tenebroso como um farol prateado. Sua esfera irradiava um cintilar frio e cristalino. Ao seu redor, um halo perfeito, um arco circular de luz diáfana que parecia emanar do satélite, como um diadema mágico flutuando na noite. O pano de fundo da visão era um azul-marinho profundo que tingia o céu noturno, quase aveludado, salpicado em milhares de estrelas, cada uma cintilando em matizes de branca luminosidade, dispostas em constelações desconhecidas. A névoa tênue que serpenteava pelos beirais góticos das ameias realçava o contraste entre as sombras do castelo e o esplendor etéreo da Lua.

Uma densa névoa cobria os corredores de pedra do Castelo Drácula, escorrendo pelas paredes como um véu e também encobria os pensamentos de Minerva, mergulhados em águas profundas e insondáveis. Naquela noite, a Lua que pairava no céu marcava o momento sagrado em que a própria Lua, a Mulher e a Noite se tornavam uma só entidade arcaica.

Minerva sentia, em seu íntimo, o chamado da escuridão reverberar no peito, como o bater de um tambor antigo anunciando o inevitável. A hora se aproximava, talvez a mesma que a visitara no sonho da clareira dos láparos. Sua magia pulsava sob a pele como eletricidade contida, e seus olhos, já tingidos pela essência da loba, brilhavam em azul ardente, como safiras em chamas anis.

Minerva caminhou lentamente pelos corredores de pedra, onde a luz das tochas tremeluzia. Seus passos ecoaram ao atravessar o umbral da galeria dos espelhos, um santuário onde o silêncio parecia respirar. Ela usava um vestido preto e longo, feito de linho. Os cabelos cacheados estavam presos em um penteado elegante: duas tranças delicadas unidas atrás da cabeça, firmadas por um broche de mariposa prateada. A cada passo, alguns cachos soltos escapavam e saltavam como se tivessem vida própria, dançando na penumbra.

Seus dedos trêmulos apertaram a cruz de Lwccirtt, pendurada em seu pescoço por uma corrente de prata. O artefato parecia pulsar sob sua pele, emitindo um calor que desafiava o frio do castelo. Minerva parou diante do maior dos espelhos, onde seu reflexo começava a distorcer, como se o vidro refletisse além da carne.

Minerva sentia a sua aura lupina estremecendo e uivando dentro de si, enquanto seus olhos marejados perdiam o brilho, tornando-se escuros. A sombra de Lwccirtt não a deixara. Ela sentia a entidade chamando por seu nome, era estranho como uma coceira no interior de seu cérebro. Ela inclinou o corpo sob o próprio reflexo frio, arquejando. Não desejava ceder à vontade daquela criatura, já não sabia se era ela quem clamava por ele ou se ele era quem chamava por seu nome. Irritada por aquela sensação desconfortável, ela iniciou um pequeno ritual de banimento na tentativa de se proteger contra as influências da entidade em sua mente.

Com a voz firme, porém baixa como uma prece murmurada à meia-noite, ela pronunciou o Tetragrammaton: "Ateh... Malkuth... Ve-Geburah... Ve-Gedulah... Le-Olam... Amen." A cada palavra, sua aura lupina se expandia. Ela estendeu o braço diante de si e com os dedos desenhou no ar o primeiro pentagrama flamejante, visualizando linhas incandescentes surgindo do vazio, traços de luz azul anil que cortavam a escuridão como lâminas. Virando-se lentamente para cada ponto cardeal, ela repetiu o gesto e invocou os nomes sagrados com precisão ritualística, cada entonação carregada de intenção:

"YHVH" — ao leste, onde o vento ouviu a prece.

"ADNI" — ao sul, onde a chama tremeluzente da vela cresceu.

"EHEIEH" — ao oeste, onde um espelho estalou, como se algo ali respondesse.

"AGLA" — ao norte, onde o farfalhar de asas foi ouvido.

A cada nome entoado, uma presença se manifestava. Minerva não as via com os olhos comuns, mas sentia-as com a alma: os Arcanjos Raphael, Gabriel, Michael e Uriel alinhando-se ao seu redor, como pilares de luz velada que sustentavam o mundo oculto. Ela ergueu os braços ao alto, a cruz ainda pendendo em seu peito, e declarou:

— Diante de mim, Raphael; atrás de mim, Gabriel; à minha direita, Michael; à minha esquerda, Uriel; e ao meu redor brilha a estrela flamejante, e no centro... Eu a filha da Noite, demando que minha mente seja protegida do chamado de Lwccirtt!

Ao finalizar, ela traçou um círculo ao seu redor, selando o espaço entre os mundos. A energia no ar parecia viva, como se o próprio véu entre as realidades tivesse sido rasgado. O banimento estava completo e Minerva pedia em seu interior que a proteção funcionasse. Ela deitou dentro do círculo mágico que havia projetado no chão, aflita, pedindo que sua prece fosse ouvida. Seu peito dolorido parecia ainda sangrar e a cruz parecia tão pesada que ela evitou segurar.

A bruxa percebeu que o tempo tinha passado quando olhou de relance no espelho e viu que sua aura lupina estava mais tranquila, aninhada ao seu lado. Ela se ergueu, desfazendo o círculo sagrado. Sua mente parecia mais aliviada, mas algo ainda chamava por ela, algo bem mais familiar. Mais uma vez, ela se aproximou de um dos espelhos, sentindo-o vibrar como se algo estivesse prestes a saltar de dentro dele. Uma imagem encapuzada se formou à sua frente.

Sua mãe, a rainha Nuara, se apresentava diante dela no reflexo do espelho, envolta por um manto negro que cobria sua cabeça. No braço esquerdo, ela segurava uma tocha acesa. Minerva tentou ver o que estava por trás, mas além de sua mãe, só conseguia ver a escuridão. A rainha removeu o capuz, revelando seu rosto pálido e olhos sulcados repletos de sabedoria. Elas eram como irmãs gêmeas. Uma luz reverberou no fundo do espelho. Minerva estendeu a mão para Nuara, que atravessou o vidro como um portal.

As duas se entreolharam e Minerva deu um sorriso saudoso, se aproximando para abraçá-la. No centro do grande salão circular dos espelhos, Nuara removeu o seu manto negro sagrado completamente, o símbolo triplo da lua em sua testa era vívido. Ela viera para buscá-la.

As duas se entreolharam por um instante que pareceu suspenso no tempo. Um sorriso suave, carregado de saudade, curvou os lábios de Minerva antes que ela se aproximasse para abraçá-la. O símbolo da lua tríplice, marcado como prata na testa de Nuara, parecia reluzir na luz das pequenas chamas das velas.

— Filha da sombra, núrida, filha minha... — disse Nuara. — As deusas exigem teu parecer. Não podes mais te esconder neste castelo.

— O castelo não me aprisiona. Eu escolhi ficar. — Minerva respondeu. Os olhos dela estavam faiscantes. — Respeito nosso poder, respeito as deusas, mas este lugar... este lugar é onde pertenço.

— Somos filhas da escuridão, Minerva. — retrucou Nuara, dando um passo adiante. — Não me espanta que te sintas em casa num lugar infestado por forças caóticas e criaturas soturnas... tão soturnas quanto nós. Mas os “incidentes” com as entidades cósmicas que encontraste... não são meros desvios. Primeiro foi Ttyphrssett, e agora... o outro. Espero que não cometas o mesmo erro.

— Sei que não fui cautelosa, mas aqui, neste castelo, meu poder pulsa com mais vida. — murmurou Minerva, apertando a cruz de Lwccirtt contra o peito. — Sinto a força crescer em mim.

— A última entidade... aquela que agora sussurra em tua mente... — Nuara olhou fundo nos olhos da filha. — Ela é quase tão antiga quanto as próprias deusas. Sentimos que ela busca uma brecha entre os mundos... por meio de ti.

— Mesmo assim, não desejo partir. — insistiu Minerva. — Aqui é onde me sinto em paz.

— Minerva... — a voz de Nuara suavizou, mas seu tom era grave como um presságio. — Venho como mãe para aconselhar, mas como sacerdotisa, trago o aviso: as deusas te reivindicam. Elas te nomeiam filha da Noite e te chamam para cumprir os votos. Vais continuar recusando a fonte de onde teu poder emana?

— Eu não recuso as deusas... — disse Minerva, com uma sombra de dor. — Mas não desejo me curvar a nenhum dogma. Não quero ser moldada. Quero escolher.

Nuara suspirou. Por um instante, pareceu mais velha do que o tempo.

— Minerva... Minerva... — sussurrou, com pesar e respeito. — Como mãe, te compreendo. Como sacerdotisa, anuncio: se ignorares o chamado, virá uma punição breve... mas inevitável. — As feições de Nuara estavam mudando quando Minerva se aproximou e, com curiosidade, perguntou: — Mãe?

As feições de Nuara estavam a se contorcer como cera derretendo sob uma chama invisível. Seus olhos tornaram-se completamente negros, vastos como o espaço entre as estrelas. A pele da sacerdotisa parecia agora feita de mármore translúcido, pulsando uma luz que não vinha deste mundo. O salão dos espelhos mergulhou em penumbra.

As velas arderam azuladas, despertaram as chamas como vulcões e os reflexos nos espelhos evaporaram, apenas o vazio ficou. Um vento atravessou o salão, trazendo um incenso antigo, fazendo Minerva arquejar, sentindo um nó na garganta e um peso nos ombros ao cravar os olhos no rosto inóspito de Nuara.

Nuara já não estava mais ali, algo mais antigo e sombrio se instalava em seu corpo. Algo que desejava se comunicar com Minerva e o fez.

— Filha do crepúsculo... do sangue e do limiar. — disse uma voz múltipla, entrecortada e vibrante, como se ecoasse de três bocas ao mesmo tempo. — Tu, que carregas o símbolo dos mundos, ouve agora o chamado do Trino Lunar.

As palavras reverberaram pelas paredes como um cântico sendo entoado. A primeira a se manifestar foi Hekate. A voz tornou-se mais grave.

— Eu sou Hekate, guardiã das encruzilhadas, dos véus e dos segredos esquecidos. Tu despertaste Lwccirtt com tua sede de poder e tua recusa ao chamado. Mas o castelo o sente. Ele se ergue e se corrompe por tua presença e teu toque. — Minerva, com a boca entreaberta, estava com a respiração agitada. Uma pausa foi feita.

— Se não reconheceres o Trino, se não curvares tua alma diante da Noite que te fez, serás devorada. Se Lwccirtt não te encontrar, outros te encontrarão. Caninos longos repletos de sede de sangue.

Hekate estendeu o braço e a cruz de tungstênio no pescoço de Minerva flutuou e brilhou com uma luz ofuscante e cobalta. O calor atravessou sua pele por dentro do vestido. As sombras se movimentaram atrás de Nuara, dançando, sussurrando, contorcendo-se em espirais. Quando Hekate silenciou, foi a vez de Nix assumir. O corpo de Nuara relaxou e a voz tornou-se suave, fria como o orvalho em uma cripta de pedra.

— Eu sou Nix — sussurrou ela — a noite que antecede todas as noites. Berço das sombras, véu da origem. Lwccirtt encontrou uma fenda em ti, Minerva. Ele não te tocou, ele te viu. E no espaço entre um pensamento e outro, plantou raízes. — O chão sob os pés de Minerva pareceu oscilar, como se ela fosse cair.

— Tu não és apenas filha de Nuara. És filha da noite. Da escuridão que acolhe, que vê, que cala. Não negue mais o trino. Tuas recusas rasgam os limites do real. Reconhece-nos ou teu corpo será abrigo para o que nem os espelhos ousam refletir!

Minerva estava incrédula e relutante, exibia seus dentes afiados e sua aura de sombras lupina erguia-se por trás dela. Ela arquejava, buscando a calma que havia perdido. Em um momento, fechou seus olhos, buscando silenciar a mente e, quando os abriu, encontrou a face da última deusa.

Com o corpo ereto, mas a alma afundada, Minerva ainda sentia o coração pulsando não só no peito, mas nas pontas dos dedos, nas têmporas, na cruz de tungstênio em seu pescoço. Aquela presença era mesmo real? Eram as deusas... ou algo fingindo ser?

Então, a última voz ecoou — mais baixa, como uma canção esquecida, cantada para embalar o mundo.

— Eu sou Selene, a que dança com a lua e vela o sono dos vivos e dos mortos. A luz que brilha apenas para os que sabem ver no escuro, aquela que guia a carruagem da luz prateada da noite! Não viemos como donas de teu destino, mas como espelhos daquilo que tua alma esconde. Não somos uma prisão de dogmas. Somos a tua força, criança!

As velas tremeluziam em tons leitosos. A sala girava devagar à percepção da jovem bruxa. Minerva manteve-se em silêncio, olhos arregalados. Dentro de si, o turbilhão de perguntas: eram mesmo elas? Ou seria Lwccirtt, sorrindo por trás das máscaras? Selene parecia ouvir seus pensamentos.

— Dúvida é também parte do caminho. A fé cega é tão perigosa quanto o poder não reconhecido. Mas o que há dentro de ti, Minerva, não pode mais ser adormecido. Nós somos o que sempre foste. A trindade que gerou tua alma nas sombras da floresta. A Noite, a Morte, a Vida. A mulher. A loba. A sacerdotisa!

O rosto de Nuara travou-se em uma única expressão até que seus olhos retornaram ao que eram antes e sua cabeça pendeu para frente, ocultando a transformação. Um espelho às costas de Minerva trincou. A fenda serpenteou o vidro como uma raiz e a cruz de tungstênio em seu pescoço esquentou de novo.

Num rompante final, as sombras se recolheram e a pele de Nuara retomou seu tom natural. Seus olhos negros recuperaram o brilho materno, e o contorno de seu rosto, antes esculpido pela presença tripla, amoleceu-se em traços de calor humano. Ela piscou, como que despertando de um sonho, e estendeu a mão para Minerva, num gesto doce e pesaroso. Uma lágrima cintilante verteu do olho esquerdo de Minerva. Ela baixou os olhos e, sem segurar a mão de Nuara, se distanciou com um passo para trás.

Sem uma palavra, Nuara voltou-se para o maior dos espelhos ao fundo do salão. Com dedos firmes, traçou no vidro um símbolo antigo, um círculo entrelaçado por outros círculos. O espelho vibrou, a superfície ondulou como água, e um portal prateado abriu-se diante delas.

Nuara lançou um último olhar à filha, um misto de amor, urgência e saudade, antes de atravessar. O portal se fechou num estalo surdo, deixando apenas o sussurro das velas e o eco distante de um chamado lunar que prometia voltar. Minerva, sozinha novamente, apoiou a mão no espelho frio, sentindo, ainda, a presença das deusas desaparecer e permaneceu ali firme, em sua mente, buscando uma saída para não se entregar a nenhum dos caminhos dispostos. Ela desejava desbravar o próprio caminho, ela era o próprio conhecimento. Sua natureza de loba urgiu em seu interior.

Tomada por um impulso, ela cravou as unhas sobre os próprios braços e rasgou a pele junto da roupa. A carne dela se desdobrou em fiapos elásticos, se soltando do corpo enquanto seus ossos se remodelavam com um estalo, os dedos alongaram-se em patas firmes, a coluna arqueou, tornando-se a lombar lupina, e os músculos se rearticularam abaixo do pelo negro como breu. Em seu lugar, ergueu-se a loba de pelagem espessa e lustrosa e olhos de um azul frio. No chão, ficaram espalhados os pedaços de suas vestes e, ao lado, o broche de mariposa e a cruz de Lwccirtt, abandonados.

Sem hesitar, a criatura correu e saltou por uma das janelas do castelo, rompendo o vidro em estilhaços. Cada pata pousou com leveza sobre o chão após a alta descida. Ela galopou feroz, em disparada, rumo à floresta obscura. O vento noturno assobiava por entre os pinheiros, arrastando consigo o som ritmado de seu tropegar; em poucos instantes, Minerva-loba sumiu na penumbra das árvores, deixando apenas o farfalhar da mata para trás.

Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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Draco Mater

Na antiga Mesopotâmia, o caos foi teu primor, | Geraste o céu, a terra e os dragões, | Em águas profundas pulsava teu fulgor, | Semente eterna de revoluções…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Na antiga Mesopotâmia, o caos foi teu primor,
Geraste o céu, a terra e os dragões,
Em águas profundas pulsava teu fulgor,
Semente eterna de revoluções.

Com fúria mãe, ergueu-te em tempestade,
Por filhos traídos, juraste o trovão;
Teu corpo vasto, cosmos na verdade,
Vibrou com o grito da criação.

Marduk, com vento e rede, te venceu,
Partiu-te em céu e mar, em noite e dia.
Mas tua essência em tudo permaneceu,

No sopro antigo, a voz da rebeldia.
Tiamat vive em cada insurreição:
Dragão sem jaula, eterna maldição.


Escrito por:
Thais Gomes

Thais Gomes é apaixonada pelo universo Gótico da Literatura, sua formação é em Letras Português/Espanhol e sua obra mais recente, ainda está sendo produzida, é Contos Vampirescos, uma releitura de muitos personagens do Drácula de Bram Stoker. Inspirada em clássicos como Edgar Allan Poe, Lord Byron, Álvares de Azevedo, e contemporâneos como André Vianco e Eduardo Spör; a autora explora o universo da literatura... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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22. É a Fonte de vida e ajuda a escapar dos perigos da morte

Data Incerta - Meus olhos ainda ardiam com o sal do oceano e minha mão treme ao escrever tudo isso, seguimos por entre aquela ilha de aparência…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

Data Incerta - Meus olhos ainda ardiam com o sal do oceano e minha mão treme ao escrever tudo isso, seguimos por entre aquela ilha de aparência seca que mais parecia uma ossada gigantesca, que fazia ainda mais me dar conta da minha insignificância. Mara ia à frente, sua silhueta, magra e alongada, parecia por vezes se dissolver no nevoeiro que começava a se espalhar rente ao solo, parecia querer certa distância de mim, caminhava em silêncio. Eu a seguia, cansada, sentindo como se minha alma, se ainda existe uma, pulsasse dentro de mim. Como se eu estivesse caminhando entre realidades, talvez dissociando, porque estamos mesmo caminhando entre realidades, não havia outra explicação lógica. Havia silêncio demais entre nós, aquele silêncio incômodo, palpável, como se minha existência fosse inadequada para ela. Até que ela parou, sua cabeça ergueu de súbito, como se ouvisse algo que para mim não era permitido ouvir.

— Escuta — ela sussurrou.

E então um som estranho, como som de eletricidade abafada, sem direção ou local específico, sufocado pela distância. Viramos ao mesmo tempo e vimos bem ao longe, uma figura difusa, solitária que deslizava em nossa direção, vestida com um manto antigo e escuro, seu rosto oculto por um véu negro espesso. Ela não nos olhava ou ameaçava, apenas caminhava em nossa direção, vinda de sabe-se lá onde, o nevoeiro se condensou e num piscar de olhos ela sumiu. Não houve ruído, apenas a sua ausência súbita no meio daquele nevoeiro, o vento aumentou de intensidade e com ele veio um frio que era mais do que uma mudança brusca de temperatura, era um aviso de que deveríamos sair dali. Mara se virou para mim, com os olhos arregalados e não precisou dizer nada. Corremos, ou pelo menos corri rápido com o pouco de energia que meu corpo permitia, e entramos em uma caverna próxima. A escuridão da caverna nos engoliu, lá dentro era úmido, o ar denso e o cheiro de mineral quase metálico, e a única luz vinha do fundo da caverna, embaçada pelo nevoeiro que invadia. Me recostei na parede fria, ofegante, eu não conseguia parar de olhar para a abertura lá fora, como se a qualquer momento a figura pudesse deslizar até lá e nos encontrar dentro da caverna, eu não sabia o que ela era, para mim não era uma ameaça, mas senti o medo em Mara e isso foi o bastante para me fazer correr.

Fomos mais para o fundo da caverna, o chão sob nossos pés era irregular, coberto de limo, úmido, cada passo nosso era abafado, as paredes eram escuras, riscadas aqui e ali por nervuras metálicas, veios de minerais com um brilho pálido. O teto era arqueado em certas partes, outras erguiam-se como abóbadas de uma catedral esculpida na rocha, outras partes eram tão baixas que nos obrigavam a abaixar a cabeça. Quanto mais adentrávamos a caverna, mais seu ar ficava pesado, impregnado de um odor de sal, ferro e umidade, como se estivéssemos respirando o ar das entranhas da caverna. Gotas dispersas caíam do teto, estalando nas pedras com um som irregular, como uma música experimental e assombrosa, às vezes contínua, outras vezes descompassada. Mara caminhava à frente, sem olhar para trás, os dedos roçando lentamente as paredes, como quem busca uma evidência tátil de que estava no lugar certo e que aquilo era real. Eu não precisava tocar a caverna, eu a sentia sob minha pele, se situando com leves toques gélidos que arrepiavam os pelos do meu corpo, a umidade que começava a ultrapassar as minhas roupas, se infiltrar na minha carne, se fixar na minha consciência. Nós avançamos mais e notei pequenas formas no teto, formações calcárias, finas estalactites como agulhas que pingavam devagar, construindo gota por gota um padrão que jamais seria terminado, algumas pareciam dentes fazendo conjunto com as estalagmites do chão que se projetavam em direção ao teto, algumas delas se unindo uma às outras formando colunas, outras pareciam garras, vestígios de algo que começou a se formar muito antes de nós, e que continuaria mesmo depois de nossa presença ali.

Ao fundo, a caverna se abria numa espécie de sala ampla, do teto, uma escuridão absoluta, o chão ali era mais seco, coberto de pedras quebradas e poeira que formava uma fina nuvem com qualquer movimento nosso. Nos sentamos ali, sem nos olhar, sem trocar palavras, pois não havia necessidade. O som do lado de fora se tornou mais distante, fechei os olhos, e o som do que ouvimos lá fora continuava distante, abafado pelos sons do interior da caverna. Os sons da caverna, indistintos, pareciam carregar o ruído de todas as coisas vivas e mortas, não sabia como eu sabia disso, mas sabia, sentia-me uma hospedeira dentro daquela caverna, não tendo ideia para onde ir e só me restando ali permanecer, ouvir a caverna respirar e esperar o próximo passo de Mara. Antes que eu pudesse descansar direito, Mara se levantou, eu não saberia explicar o sentimento de sentir que eu era repulsiva para ela, mas eu sentia isso, talvez nossa ligação permitisse isso, eu não sei.

Então andamos mais para o fundo da caverna em direção à luz, uma luz prateada difusa, seguimos em direção a ela e foi então que vimos os ossos. Havia crânios empilhados como tijolos, formando paredes, tetos e lustres como uma capela, havia símbolos em excesso, cristãos, iorubás, hindus, judaicos, wiccanos, islâmicos e outros que não reconheci, alguns cobriam os ossos, outros estavam entalhados nos crânios, tudo ali tinha um cheiro seco e pungente. No fundo, sentada sozinha como se fosse parte do cenário, havia uma jovem curvada sobre uma mesa de pedra, escrevendo com uma pena que segurava com os dedos delicados, ao seu redor havia alguns livros e papéis, pequenas relíquias, tudo organizado com cuidado, era dela que vinha a luz prateada. Ela notou nossa presença e levantou os olhos para nós e ficou de pé, ela tinha uma pele de um marrom escuro, um tom tão escuro quanto o meu, olhos âmbar intensos que davam um contraste tão perfeito com o tom escuro de sua pele, cabelos escuros, longos e volumosos, com cachos caindo em cascatas, um fino véu sobre sua cabeça que dava a ela uma aura divina. Seu vestido longo e escuro, com detalhes dourados, parecia uma santa guardiã dos mortos naquele ambiente que possuía uma atmosfera onírica e assombrosa.

— Vocês chegaram — disse com uma voz melodiosa. — Meu pai disse que viriam e eu estava rezando por isso. Aliás, me chamo Siehiffar — disse esboçando um sorriso calmo e fazendo uma leve reverência. — E vocês devem ser Rute e Mara.

Não fiquei surpresa e acredito que nem Mara tenha ficado, com o fato de Siehiffar nos conhecer, todos pareciam saber algo sobre nós, enquanto eu tentava entender quem eu era naquele momento. Eu quis perguntar quem ela era de verdade, como soubera de nós, mas minha garganta permaneceu trancada, esmagada pela densidade daquele lugar. Olhei a parede de ossos à nossa esquerda, só então percebi que as marcas nos crânios não eram apenas símbolos isolados, juntos eles formavam linhas, mapas, trajetos entre as crenças, como se alguém tivesse desenhado uma cartografia sobre os restos de quem em vida acreditou em algo.

— Eles vieram antes de vocês — disse ela estendendo a mão à parede. — E acabaram se tornando parte da estrutura.

Mara estremeceu ao meu lado, eu pude sentir, mais do que ver, que ela apertava as mãos umas contra as outras.

Olhei dentro dos olhos âmbar de Siehiffar e dentro desses olhos vi uma paz que não era deste mundo. Mara estava em silêncio e eu observava Siehiffar, desejando tocar a sua pele, tocar aquela paz com minhas mãos sujas de… dúvidas? Não, de maldade talvez, ou desejo por salvação. Controlei meus impulsos que eu não sabia de onde vinham.

— Quem é seu pai e como ele sabia que viríamos? — perguntou Mara com a voz seca e hostil.

— Abdalla Monm, ele disse que vocês apareceriam aqui no momento certo — ela falou ainda gentil, ignorando a hostilidade na voz de Mara.

— O professor Monm? — eu disse surpresa. — Faz quanto tempo que você está esperando?

— O tempo não é importante aqui, o importante é que vocês estão aqui — falou, mostrando com as mãos um canto da caverna iluminado por velas sobre os crânios da parede. Mas eu e Mara continuamos de pé, ainda absorvendo aquela presença tão viva num local tão cheio de morte.

Ela nos ofereceu água e comida e depois perguntou se poderia ver meu ferimento — aquele que já deveria ter cicatrizado. Concordei, então ela colocou as mãos no meu ferimento, murmurou algo numa língua que não reconheci. Senti um alívio, e a dor que eu já não lembrava mais que sentia, sumiu.

— Isso não sou eu — disse Siehiffar — é a Fonte que flui através de mim, eu apenas a deixo passar. Curei o seu ferimento, mas os danos que ele causou são incuráveis — se virou e olhou para Mara. — Desculpe por não poder fazer algo por você, mas a cura que você precisa não virá de mim. Sentem-se e descansem.

Nos sentamos ali, sobre tapetes antigos estendidos no chão de pedra, nós a ouvimos falar sobre um Deus sem forma, sem nome e sem lógica, que ela chamava de a Fonte, um Deus que estava acima do que existe e não existe, um Deus que não exige, apenas nos convida à contemplação, um deus sem gênero ou rosto.

— Acredito que não se deve buscar a Deus com perguntas — ela disse — mas com atos, com contemplação, no caos e na calmaria da natureza.

Ela falou de mundos dentro de mundos, de lugares que apenas podemos ter acesso em sonhos, de estrelas mortas que ainda emitiam luz, disse que as religiões, todas elas, são um espelho rachado que tenta refletir um rosto que ninguém nunca viu. Ela olhou para nós com carinho e disse:

— Vocês já acreditaram em algo, não é? Antes da dor, da morte, do castelo.

Mara ficou em silêncio e eu não respondi de imediato. Pensei e disse:

— Acreditei, mas hoje não vejo sentido, não vejo propósito nas promessas de salvação que não nos levam a lugar nenhum.

Ela não respondeu, apenas pegou um osso do altar atrás de si, um fêmur humano, com símbolos esculpidos, e o soprou como uma flauta. O som saiu puro e cortante. E eu a observei fazer aquilo e apenas desejei entender o que aquilo significava, ou ela estava apenas tentando me fazer entender que nem tudo precisa fazer sentido ou ser explicado.

— Você pode morrer aqui se quiser, mas também pode renascer. O tempo já não se move aqui, este lugar não está onde o mundo pensa que está. Aqui, o que você sente é o que te guia — ela falou com um leve sorriso.

Estar ali com Siehiffar era ao mesmo tempo agradável e confuso. Minha mente tentava entender suas palavras, sua intenção, mas era tudo cheio de significado, mas sem significado nenhum, como se ela falasse um monte de palavras bonitas, mas nenhuma delas fizesse efeito ou sentido para mim. Mara continuava em silêncio, nem um movimento ou palavra. Estávamos ali cercadas de ossos e símbolos e na companhia de Siehiffar em silêncio, não um silêncio incômodo, mas contemplativo. E em minha cabeça eu pensava no motivo de tudo ali ser tão incompreensível. Então Siehiffar sorriu para mim e disse:

— Acho que algumas perguntas não precisam de respostas.

Ela olhou para nós, se levantou devagar e caminhou até o centro da caverna, seus pés quase não faziam som no chão de pedra da caverna.

— Venham — disse ela, se virando para nós — há algo que quero mostrar a vocês, algo que quero convidá-las a ver, se quiserem, é claro.

Troquei um olhar com Mara e ela assentiu com um leve balançar de cabeça, então fomos. Siehiffar afastou uma tapeçaria de ossos unidos com cabelo humano; atrás dela, uma porta foi aberta com um leve rangido. O corredor que se revelava era longo, escuro e curvado, no fim dele uma luz prateada podia ser vista e, quanto mais avançávamos, mais seu brilho aumentava.

— Este é o caminho da Fonte, na verdade, um deles — ela disse com uma voz calma — é aqui que os que deixaram de acreditar vêm para se lembrar como crer, que os que sangram aprendem a oferecer seu próprio sangue como semente, e é onde o desejo se torna palavra, as palavras se tornam ação.

No fim do corredor havia uma câmara circular. O chão era de pedra, coberto de pequenos símbolos; o ar era espesso como algo que não sei como nomear. No centro, uma mesa de pedra e, sobre ela, uma tigela com um líquido prateado que parecia mercúrio líquido, como as águas dos rios de Séttimor. Siehiffar ficou ao lado da tigela, fechou os olhos e pronunciou palavras incompreensíveis, mas com um tom de voz tão musical que parecia um mantra. Silêncio novamente, e depois ela abriu os olhos e nos encarou com suavidade.

— Rute, Mara, convido vocês a dormirem aqui por uma noite, tendo a Fonte como vigia. Se ouvirem algo, ou sonharem algo, poderão partir e seguir o caminho que foi designado a vocês. Mas, se nada virem, ficarão aqui como todos os outros antes de vocês.

Senti um aperto no peito, mas a ideia de que talvez algo pudesse me impedir de voltar ao castelo foi reconfortante. Mas eu suspeitava que teria sonhos — ou melhor, teria pesadelos.

— Se nossos sonhos forem pesadelos? — perguntei.

— Eles também têm o rosto de Deus, às vezes até mais do que os anjos — Siehiffar sorriu.

Tudo vibrava, tudo me sufocava e eu tinha a certeza que seriam pesadelos o que eu teria, eu queria entender Siehiffar, e ao mesmo tempo não sabia se queria mesmo entender, mas sabia que queria ficar ali. Dormimos ao lado da tigela, deitados sobre mantos antigos que Siehiffar estendeu para nós. Mara ficou um pouco próxima, mas ainda parecia querer manter uma certa distância de mim. Me deitei e o ar parecia denso, demorei para pegar no sono, mesmo cansada, meus pensamentos não me deixavam relaxar e permitir que o sono chegasse, e de repente eu estava sonhando. Não era um sonho comum, o castelo estava lá e eu estava nele e eu era ele, vivo de maneira orgânica: ossos, músculos, tendões, nervos, carne e pele, e eu podia ouvir que em algum lugar dentro dele havia um coração que batia lento no mesmo compasso do meu. Os vitrais pareciam sangrar uma luz vermelha mortiça, as paredes quentes como um corpo vivo e o teto escuro e fundo, mas que ao mesmo tempo parecia o teto de uma catedral.

Andei pelos corredores do castelo e vi ao longe Ameritt andando devagar com um enxerto de flores vermelhas e roxas e cogumelos que cresciam de seus braços, rosto e no topo de sua cabeça. Ela sorria, mas em seus olhos havia lágrimas. Vi o salão do baile vazio e todos os seus espelhos cobertos com panos negros que tremulavam sem vento, vozes sussurrantes e outras guturais pronunciando meu nome. Andei até a biblioteca e vi Monm curvado sobre uma mesa, escrevendo com fúria nomes que eu não conhecia, mas eu sabia, não sei como, serem nomes dos mortos — e o meu nome estava entre eles. Então eu senti Drácula, antes mesmo de o ver; ele estava no alto da escadaria central como um deus abandonado, vestia uma túnica branca cuja borda era vermelha, como se tivesse absorvido uma grande quantidade de sangue do chão do castelo. E cada vez mais sua túnica se tornava vermelha, até o sangue absorvido tomar toda ela. Sua pele alva e seus olhos vermelhos ardiam, me reconheciam como uma igual, e a sensação de ser reconhecida por ele fez meu coração disparar em uníssono ao coração do castelo.

— Você partiu — ele disse com uma voz firme e calma — mas o castelo foi com você.

Ao seu lado estava Hadassa, linda e viva, com um véu escuro que mal cobria metade de seu rosto. A outra metade era osso, o crânio com metade de uma cruz gravada na testa. Sua boca sorria um sorriso ao mesmo tempo conhecido e assustador. Ela segurava um livro — na verdade, o livro de Mara — com dedos que pareciam vivos e também mortos.

— Você fugiu da promessa, Rute? — ela sibilou com aquele rosto que tinha apenas metade dos lábios.

“Que promessa?”, eu pensei e tentei responder, mas minha garganta estava cheia de água salgada.

Então Mara apareceu no sonho, com um vestido longo branco simples, um véu e uma coroa com rosas cheias de espinhos que afundavam na sua cabeça, fazendo linhas de sangue deslizar sobre o véu. Seus pés descalços sangravam na escadaria do castelo, deixando suas pegadas, indo em direção a Drácula.

— Mara! — gritei seu nome e fui andando em sua direção.

Ela parou, virou-se para mim, levantou o véu, e quando ela me olhou, surpresa — não era a minha Mara, translúcida — era uma mulher de carne e osso, com pele de um tom quente, um âmbar escuro, sobrancelhas e olhos escuros muito expressivos e intensos, nariz levemente aquilino e lábios cheios e bem marcados. Senti como se meu coração fosse apertado com muita força. Senti mãos tocarem os meus ombros e me girar com pressa, e lá estava a minha Doppelgänger, aquela que deveria estar na outra versão do castelo, ainda vestida como no baile de máscaras.

— Você tem que voltar — ela gritou.

— Por quê?

— Porque o castelo está em você, e você precisa continuar a escrever — disse, enquanto segurava meus braços, me impedindo de ir em direção a Mara.

— Eu não quero mais escrever, estou cansada — gritei.

— Mas você precisa, mesmo que doa — ela falou, colocando a mão esquerda em meu rosto e o acariciando de leve, e depois me empurrou.

Então o chão se abriu e eu caí num mar de sangue e tinta. Vi as palavras do meu diário se dissolverem naquele líquido viscoso e rubro, minhas memórias escorrerem pelos meus dedos e irem em direção a um fundo com uma luz prateada que vibrava. Então acordei, ainda deitada no manto antigo, tentando me orientar. Mara estava ao meu lado, também desperta.

— Você também…? — não precisei terminar a pergunta, ela logo assentiu.

O líquido na tigela ainda brilhava. Saímos de dentro daquela câmara e, sentada na escrivaninha, estava Siehiffar, concentrada na leitura. Olhou para nós com um sorriso gentil e disse:

— Algumas questões importantes são resolvidas em sonhos. O que vocês farão com o que viram é escolha de vocês.

Não sabia o que fazer com aquele sonho que mais parecia saído da cabeça do próprio David Lynch, mas eu sabia que deveria voltar para o castelo. Mas, ao mesmo tempo, não sentia como se estivesse saído dele. Estou fora dele ou não estou?

Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite Gomes

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
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O Mensageiro do Último Dia e Lovecraft

O filme O Mensageiro do Último Dia (2020) é inspirado na HQ The Empty Man, criada por Cullen Bunn e Vanesa R. Del Rey. A trama gira em…t

Imagem da Web editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

O filme O Mensageiro do Último Dia (2020) é inspirado na HQ The Empty Man, criada por Cullen Bunn e Vanesa R. Del Rey. A trama gira em torno de uma misteriosa seita que venera uma entidade sobrenatural conhecida como "Empty Man", capaz de se propagar através dos pensamentos humanos. A narrativa mistura elementos de terror psicológico, investigação e ocultismo, explorando como ideias perigosas podem ser espalhadas como um vírus, contaminando as mentes das pessoas e corrompendo a realidade à medida que se infiltram no imaginário.

Além da temática sobrenatural, O Mensageiro do Último Dia constrói, através do protagonista, camadas psicológicas que o conduzem a um desfecho inevitável. A trama gira em torno de uma seita que cultua uma entidade misteriosa, desejosa de se manifestar na Terra por meio de um hospedeiro perfeito.

Sob a perspectiva de Fred Botting (2024), observamos uma nuance dos elementos do gótico, que celebram a transgressão dos limites e das normas, projetando temores e fantasias culturais. Aqui, o culto a Nyarlathotep encarna essa transgressão: a fusão entre o sagrado e o profano, o humano e o inominável.

Conseguimos observar nesta entidade uma referência tênue com Nyarlathotep, uma das criaturas do panteão de Lovecraft. No entanto, por trás do enredo de horror cósmico, o filme lança uma crítica sutil, mas contundente, sobre o poder destrutivo das crenças extremas.

Ao longo da história, vemos como a ação desta entidade na mente das pessoas leva indivíduos a cometer atos violentos, inclusive o suicídio, mesmo que coagido, uma possível alusão a como determinadas ideologias ou cultos podem se tornar profundamente nocivos à saúde mental e à vida das pessoas envolvidas. Estes ritos nos evocam o caráter perturbador das seitas lovecraftianas, onde o horror não está apenas no monstro, mas na devoção fanática de seus seguidores.

O filme inicia com um prólogo que não traz os personagens principais, mas que mostra seu significado com o decorrer da trama. Depois, vemos o desenrolar do enredo principal com o desaparecimento de uma adolescente em uma pequena cidade dos Estados Unidos. Um ex-policial de sobrenome La Sombra, que já carrega em seu nome um vislumbre do que está por vir, começa a investigar o caso. Ele descobre o grupo que cultua a entidade sobrenatural conhecida como "Empty Man", em português “O Mensageiro do Último Dia", que pode ser invocada mediante um ritual macabro. À medida que ele mergulha na investigação, o protagonista é confrontado com alucinações e a sensação de ser vigiado a todo tempo.

No poema em prosa de Lovecraft, Nyarlathotep, um indivíduo relata sobre a chegada desta entidade à Terra e como o mundo se tornou seu reinado macabro. No imaginário de H. P. Lovecraft, Nyarlathotep é um tipo de mensageiro dos deuses extradimensionais. Este é um ser que caminha entre os mortais, trazendo revelações proibidas e incitando rituais estranhos. Da mesma forma, no filme, O Mensageiro surge, mas com a necessidade de ter um receptáculo para recebê-lo, reunindo seguidores em cultos que fazem os preparos para a sua chegada.

Ao final, O Mensageiro não é apenas um simples arauto, mas uma construção objetiva. Temos uma representação sob as crises internas dos personagens: culpa, desejo reprimido e o medo. O pesquisador Gilbert Durand conceitua estes aspectos do imaginário humano como parte do Regime Noturno simbólico da imagem, uma configuração simbólica que luta para impedir a ação da queda, da morte e do tempo.

O culto íntimo ao medo, ao desejo reprimido e à culpa ressoa com a teoria de Durand. O Mensageiro, por este viés, opera como um arquétipo da sombra e, levando em consideração o inconsciente coletivo, de acordo com Jung (2021), o imaginário também pode ser observado como prefiguração dos arquétipos presentes no inconsciente.

O Mensageiro é Nyarlathotep por ser aquele que transita entre mundos, não para guiar à luz, mas para revelar o que foi recalcado no inconsciente individual e coletivo, representando, nas palavras de Jung, a sombra, este aspecto psíquico que reúne tudo aquilo que o ego rejeita e reprime, mas que permanece ativo na psique em seu lado negativo. Sua presença desestabiliza a linearidade racional e confronta o protagonista e os adeptos com o que Durand chamaria de uma imaginação dominada pela angústia, onde o sagrado e o monstruoso se confundem. Logo, este culto a uma divindade antiga pode espelhar o culto que cada um de nós faz aos próprios temores.

REFERÊNCIAS:

BOTTING, Fred. Gótico: Tradução de Marina Sena. Sebo Clepsidra. 2024.

DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário: introdução à arquetipologia geral I Gilbert Durand,tradução Hélder Godinho. – 4° ed. - São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

JUNG, C. O Homem e seus Símbolos; Translation of Maria Lucia Pinho. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 2021.


Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
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Enodia

Era o cão que latia, | a Lua enegrecida que reinava… | A fuligem de fogueira sacra a subir, | Enodia atravessando o bosque na madrugada, | fria, atenta, armada,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Era o cão que latia,
a Lua enegrecida que reinava…
A fuligem de fogueira sacra a subir,
Enodia atravessando o bosque na madrugada,
fria, atenta, armada,
Abençoando os mortos do Hades e ensinando o lobo pequeno a grunhir.

Mãe dos desajustados, mofinos, maltratados…
Senhora de toda vida que aprende a esgueirar,
Ouro que adorna a margem…
Poeira viajante, oriunda do solo do mar.

Senhora de chuva mansa, de ventania brava,
Impiedosa e fiel,
Maior que os serafins,
Maior que Roma…
Anterior ao reino dos céus.

“Quem é essa?” — perguntam titãs.
Depois, olimpianos.
“Ninguém sabe ao certo…” — diz Zeus.
“Sua andança é incerta,
A face é medonha,
E hoje…
ela caminha sem véu.”


Escrito por:
Lídia Machado

Vivendo por entre bibliotecas e saraus, desde o início de sua juventude a autora Lídia Machado vem tecendo íntima conexão com a poesia e com a escrita. Primariamente, cronista e fabuladora nas aulas de redação. Depois, aos quinze, jornalista estagiária as quais saía, de mototáxi – munida de coragem e de pouca bagagem profissional – rumo aos eventos da charmosa Limoeiro do Norte. Entrevistas, escrita e até mesmo o contato com antigos e leais assinantes do jornal. Também nascia, ali, o amor pela fotografia. Aos dezenove, iniciou como… » leia mais
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