Lugar

Neste lugar que é a escritura, perco a identidade do meu próprio corpo. | Sou todas as mulheres e o amor que geraram | Bêbado da cachaça…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Neste lugar que é a escritura, perco a identidade do meu próprio corpo.

Sou todas as mulheres e o amor que geraram

Bêbado da cachaça e a ressaca do verão

Vertido em leituras que fiz a vida inteira e ainda as que me restam. Esses mortos me atordoam e os passo ao papel no momento em que sofro de paixão e angústia.

O escritor apenas repete sem originalidade todas as maldições que aprendeu.

Sinto que você tem medo de desejar profundamente e te escrevo no papel vazio

Sou tragado, rasurado e posto a nu, suscetível a uma avalanche de outras ideias

Sinto o amor e escrevo a dor

Sou ultrarromântico e quero morrer, sou um revolucionário e quero volver o futuro em fúria

É nesse campo aberto da folha que a vida rasura o poeta

Rascunha caminhos

E quando me lerem desejo que cada palavra toque em absurdo, porque serão as palavras de um morto.


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Reles

Eu sou um reles | não mereço nem desprezo | O desespero foi minh'única companhia | Me deixando ímpar no enfado deste inóspito…

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Eu sou um reles
não mereço nem desprezo
O desespero foi minh'única companhia
Me deixando ímpar no enfado deste inóspito
Eu sou um reles, como muitos que rastejam
Somente a poeira faz do meu caminho desvio
A lama do caos como um encosto se lambuzou de mim
Pesou sobre a carcaça
Me transformou em destroço 

Até mesmo a vontade de se suicidar largou este enfermo
Sem nem sucesso para o fracasso

Eu sou reles,
Nem para a morte eu sirvo
O amor fez esquina longe de mim
E nem calçada passa em frente daquilo que o céu afastou de abrigo
Até o túmulo é esquivo
A cova é rasa porque só se deve perder tempo com profundezas da alma
Nem os urubus se alteram

A paixão quando jovem chegou em mim a partir dos olhos d'água noturna de uma gata
Mas só a mentira do desejo fez par comigo 

Hoje, nem a mentira perde seu tempo com a desilusão da minh'alma 

E sem vida continuo.... reles


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Efêmero Corpo em Transformação

Nódoa fria de rebento | Tenaz escuro | Olhando para o breu, vi-me entre o silêncio e o passado | E eis que em mim habitam vozes outras dos meus contatos…

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Nódoa fria de rebento
Tenaz escuro
Olhando para o breu, vi-me entre o silêncio e o passado
E eis que em mim habitam vozes outras dos meus contatos
Serás aquilo que vos passa!
O que fica não quer ir embora nem amadurece frondoso como os sentimentos
O que nos passa é como gozo que jorra esperma
O que nos atrapalha fica e nos pesa
O passageiro nos atrai o olhar a seguir
E caminhamos sem saber para onde
Talvez nas histórias incertas, inventadas, passadiças
O que nos passa é desejo de ser
O que fica fez-se corpo
E, na sua forma, esbarra quando eu de mim quero atravessar no silêncio e me despir
O que transborda é como correnteza
Como os espasmos sexuais das mãos assanhadas na masturbação
A fluidez dos corpos sem’iguais
Como o rio de suor sem hora marcada
Passam a dor, o amor, o tesão
Passam-se, doendo, amando, crepitando
Como se fossem chamas
Peitos na cara, o membro atento
E gemidos que custam a dor e a fome de saciar-se ou morrer
O que fica são as marcas passadas
As nódoas das lembranças
Aquilo que fui quando podia, sonhava, fumava, fodia...
Mal lembro de tudo que fui nesses momentos
Mas isso passa.


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Poema

Ah, fé, | Só com ti o mais descrente pode absorver o consumo da realidade | De acreditar que pode haver amanhã mesmo em fúria | A fé que aprendemos desde crianças…

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IV
Ah, fé,
Só com ti o mais descrente pode absorver o consumo da realidade
De acreditar que pode haver amanhã mesmo em fúria
A fé que aprendemos desde crianças
Quando fazemos as brincadeiras sem saber por quê
Sem definir as atividades, apenas soltos no tempo e espaço
Ainda sem conceitos, primitivos
A fé é o retorno ao primeiro
A infância que acredita no futuro, pois ainda está por conhecê-lo
Como Kierkegaard, saber da fé além da razão
Ter a morte uma só vez experimentada
Oh, poetas, vocês têm fé,
Pois sonham
Não vos resta somente o cotidiano
Não sacia a sede o concreto
É a imagem do que é ideal
O que se espera
O que se apresenta por detrás da angústia da vida
Um novo ar, como o da fotografia sensual
Quieta e ardente, parada e fugaz,
Uma prova estática e assustadora da morte
Valeu o clique da foto como vale o eterno retorno
Além daqui existe o sonho
O cotidiano por si só não basta
E os poetas sonham
Como a transa secular das palavras e das coisas
Os corpos que se tocam e gemem desejos
Onomatopeias do sexo
Do prazer com que a carne tenaz sacia a loucura
A fé, mesmo que não a tenhas aos moldes cristãos,
Estás sujeito a tê-la
É a presença da incerteza
A dinâmica do jogo dos erros
É a lógica sem pé nem cabeça do mundo incerto
A fé não se engana
A realidade é que não suporta os sonhos
O novo
A fé é a loucura dos sonhos que se esvaem na realidade
A sombra do viajante
A coisa das causas
Paixão dos amantes que irrompem agressivos
O poema que se fez carne e a carne que morreu por uns versos
Enquanto o poeta, quase sem fé,
Com a corda na mão,
Nutre-se novamente


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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De Mãos Dadas com a Ruína

Já havia sonhado outra vez com um prédio enorme abandonado. Um vão gigante, com a parte de baixo aberta, sem divisões por metros, enorme, parecendo…

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Já havia sonhado outra vez com um prédio enorme abandonado. Um vão gigante, com a parte de baixo aberta, sem divisões por metros, enorme, parecendo uma igreja medieval. Uma porta que mais parecia uma passagem ou portal; janelões já sem vitrais. Morava nele. Morávamos nele. Na parte onde havia divisórias e dava para ser habitado, algumas poucas famílias em situação de rua eram minhas vizinhas. Era legal. Havia crianças e muitas dificuldades, mas estávamos todos bem ali, sobrevivendo.

Desta vez, foi mais louco. Entrei no sonho com uma garota. Não entendi ao certo; parecia comprometida, mas não entendi. Parecia familiar. Andávamos pelas ruas, de boa. Procurávamos algo, um porre, passamos por algumas vezes por bares, lojas, e muita gente nas calçadas à noite, estava animado, mas íamos sem parar, de rolê, como se estivéssemos investigando a cidade. O sonho parecia grande e confortável. Era como se fôssemos turistas. E estava rolando um clima com essa mulher. Uma preta. Era bonita. Lembrava alguém. O fato de caminhar é excitante, vivo e nostálgico também porque se sabe que pode demorar muito para retornar aos lugares, dependendo da situação nunca mais retorna. Começávamos a falar que estava havendo um clima legal, mas que não poderíamos por causa da condição de ambos. Vagávamos. Vagabundeávamos de mãos dadas pela cidade. Rios e ruas da frente à beira das avenidas e meio das praças.

Do nada, ela me tomou pela mão para me levar a um lugar misterioso: o prédio. Estava mais fodido do que da outra vez; só havia sujeira e escombros velhos, madeiras, pregos, dificuldade para andar por entre as madeiras e um telhado caído, defunto; enfim, estava uma porcaria ainda pior. Havia muitas portas enormes de madeira. Entramos por uma; parecia fácil encontrar a saída, mas nos perdemos.

Uma cacetada na cabeça. Um grupo de loucos selvagens, acho que três, porque passei a ter a visão da garota, na qual pelo menos dois me detonavam com madeiras estilo ripões, a paisagem era escura. Não sei por que diabos ela estava a alguns metros de mim, se estávamos de mãos dadas antes da porretada. Eu era detonado; ela gritava. Um terceiro, que acredito ser uma mulher de máscara, a que provavelmente dera o primeiro golpe da minha queda, pareceu se contentar por não estar em cima. Também seria difícil dividir o espaço; eu não sou tão grande, e dois animais são suficientes para um debilitado no chão, sendo esmagado por porretes enormes. A garota se aproxima e, não sei direito, os caras meio que somem, correm, algo assim. Só fica essa que parecia uma mulher de máscara.

Que porcaria! Meu rosto estava destruído. O queixo parecia não existir; as bochechas, inchadas e totalmente cortadas; eu já não falava, do resto da boca saía uma mistura de grunhidos e sangue. Os olhos sumiram no inchaço, e a parte de cima da cabeça não lembro bem, mas estava toda fodida. Uma obra de horror de dar inveja a cineastas com grandes recursos. Eu tinha as mãos no peito, e elas pareciam atrofiadas. Eu sei que eles ficaram estacionadas no peito, mas o “atrofiadas” é que eu as contraía; acho que queria pegar no rosto, mas sabia que não podia, e as retorcia no peito. Doía pra caralho!

A garota pega um machado; a mulher recebe um golpe na cabeça, tenta correr com a lâmina saindo da cabeça; dá as costas, mas, com as costas do machado, a garota lhe dá outra porretada. Ela cai, com a marca do golpe ainda mais aprofundada e o crânio fodido.

A cena muda para um hospital, sei lá. Só lembro que já estava na maca; parecia ainda a parte de baixo do hospital, uma ala, não uma sala. A garota, meio ao longe, meio perto. Choro. Médicos.

Acordo com um fedor de carniça do caralho. Sento-me rápido na cama. Faço o sinal da cruz e começo a rezar. Tenho calafrios; alguém estava no quarto, eu sinto. Fedor da peste. Aos poucos, o cheiro de carniça desapareceu e eu pude parar de tremer para escrever as ruínas. Já não tinha mais a mão da garota entre as minhas. Não sei se sobreviverei.a


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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A Primeira Noite de Plantão

Agudo segundo que trouxe fogo em direção ao meu cigarro para queimar as pontas da incerteza, num duelo da mente e do ocaso. Seria tão agradável, com as razões…

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Agudo segundo que trouxe fogo em direção ao meu cigarro para queimar as pontas da incerteza, num duelo da mente e do ocaso. Seria tão agradável, com as razões postas em xeque mais uma vez, desfrutar do colar da segurança.

Logo eu, médico de respeito, renomado doutor. Deixar-me permitir tamanha ausência de decoro. Porém, como resistir ao trepidante chamado: “O senhor me ensina”?

As palavras mais pesadas de captar.

Fui professor em Harvard. Tive experiências com mentes brilhantes, mas não tão sinceras e plácidas. Meus ouvidos incharam como ondas sonoras espessas no espaço, correndo em busca da sintonia. Como delicadíssimo pedido saído de uma bandeira amante da pátria. Incorrigível e sensata. Não podia haver um “não”. Eu saberia quando seria tão indelicado, tanto quanto matar sem sentido.

Os pelinhos eram brilhantes e deslizavam sobre a camada flácida da boca aberta. E o toque que enchia os pensamentos de culpas continuava esvaindo-se em banais artifícios de conquista. Soltaram-se sorrisos em favor da proeza que nunca se sentiu, mas que toda mística em volta suscitava um bravo descobrimento. Pero, Vás! Encaminhava-se às novas terras.

Serelepe encontro com a nudez provocante e sem pudor. Mulheres conheceram a magia dos rituais e saíram sem cobrir suas vergonhas.

Aqueles sinais graciosos que apareciam em cima da testa iam em direção automática à grande escultora que permanecia calada, soltando lágrimas de desejo.

A inocência transparecia a verdade. Foi o axioma máximo de todos.

Conviver com isso era me transformar; transmutar; remexer-me e desfazer-me; refazer-me.

Imagem noturna; gemidos. Esse som me fazia enxergar a direção correta. As covas que precisavam de sementes e a terra inteira que implorava por salvação. O correto e inabalável caldeirão de rosas, apenas, que carregava todas as fragrâncias dos campos e todos os desejos do mundo.

“O senhor pode ser meu professor.”

Uma convenção tradicional figurava a disputa de sentidos. A mais dolorosa cor de culpa que pintava todos os órgãos do pecado. Eu estava em meia-idade.

“O doutor...”

“O senhor doutor”

“Um grande exemplo”

“Um primor de rigor”

Atingido por mil léguas de distância da realidade, existia eu. Sem ser médico nem senhor. Com vontades e desejos, com folga e segredo.

Havia uma imensidão de eus conflitantes. Nunca imaginei que serenava discórdias além de desejos fluidos e naturais. Mas eram convenções.

Contratos comigo mesmo que se estabeleciam desde o nascer. Que organizavam o distanciamento entre o bem e o mal, numa balança quantitativa de sintomas nunca diagnosticados e sem receita.

Um belo sono estancaria essa marginalidade. Mas não dormia, por não conseguir. Não respirava, por não poder falar. Nem conseguia enxergar por poder imaginar o que seria da vida. O que era a vida? Esse estalar de pouco tempo no complexo mutirão de famintos.

Lembrei-me de menino e menina. Sabia das aparências e vontades minhas, e como as domei em nome de algo que não se palpava nem se sentia. Apenas se camuflava sobre um cobertor de irrealidades: a reputação.

O que seria um belo adormecer transformou-se no desejo de nunca acordar. Havia feito aquilo; meu corpo sabia e agradecia uma parte, a outra se julgava. Mas como resistir?

“Venha, faça-me aprender.”

Deu-me vontade de bater, surrar até não sentir mais as minhas próprias mãos. Aquela mulher não podia se atrever assim. Deixá-la mole como se um caminhão tivesse atropelado ou como se as estrelas caíssem, todas, de uma só vez, sobre aquele ponto brilhante e flamejante. Mas não pude. Sempre fui assim: contendo-me com um olhar de linhas grossas e agudez ferina, gentil e melindrosa.

Arrebatamos uma aula sincera, com todos os requintes pedagógicos do sexo, delicadeza e calmaria.

“É com o senhor que devo aprender.”

Era verdade. Como a verdade podia ser tão cruel? Ou o fato de não a encarar por medo podia ser crueldade? Fiz o que pude para ajudar. Acho que isso quis dizer que respondi às expectativas dos outros e às minhas também.

Não era nenhum jogo entre Deus e o Diabo, mas encontrar um sentido para tudo aquilo. Bastava a saciedade para ser válido. Ambos os resultados foram idênticos. Nunca pude imaginar um desfecho tão complacente. Cúmplices. As duas nódoas se misturaram em alquimia rítmica, soando baladas oitentistas regadas a alucinógenos espirituais. Uma nova voz se apresentou naquele meio, trazendo uma força vital de clareza nos acordes mais destoantes. Era algo novo e bem-sucedido.

Agora o vício avançava e voltava à imagem de um bebê, descobrindo os passos e as palavras. Dois adultos fazendo doidices sem razão, unindo a esfera do oculto no labor cotidiano.

Quanto à liberdade, essa gigantesca explodia naquele instante e chocava tudo, fazendo um reboliço no conceito e transmutando a paz nas águas da dúvida.

Impulso e soluço, regidos a sangue de espada cravado sobre o peito amigo. Sem traição. Sem constipação. Apenas soando orquestralmente os sonhos da própria ilusão de não ser só uma foda, mas a carreira que se tinha a zelar...

Continuei nesse vício de me descobrir, mesmo já sendo feito; de me desconstruir, só para sentir o efeito.


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Turba

Oh, tropéis insanos, vozes se aglutinam | Marchando silvos de compassos trôpegos | Junto aos metais, a miséria, aos córregos | Por onde se ouve o baforo dos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Oh, tropéis insanos, vozes se aglutinam
Marchando silvos de compassos trôpegos
Junto aos metais, a miséria, aos córregos
Por onde se ouve o baforo dos que andam  

No soar do açoite as turbas marcam
As horas da rua vaga, e disperso
Com o lápis e papel na mão, imerso
O poeta saúda aos mortos que emanam 

As horas da rua vaga são fardos
O tempo novamente soa o açoite
Das quimeras flamejando por todos’ lados 

Oh, poeta, mamífero enjeitado
Como queria cingir até à noite
Mas a cada letra testemunha a própria morte.

REVISADO POR SAHRA MELIHSSA

Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Partida

Andando pela praia | De mãos dadas com a brisa | E os pés penetrando a areia molhada | Aquele deserto sem lavra | Pondo ao sol, no ar, meu corpo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Andando pela praia
De mãos dadas com a brisa
E os pés penetrando a areia molhada
Aquele deserto sem lavra
Pondo ao sol, no ar, meu corpo 

De repente:
Imagem que guardei profundo como oceano
Tão despretensiosos passos desfilando
Num vestido azul marinho
Até sumir por quilômetros levando consigo a calmaria
Como se partindo deixasse tudo comigo
Para suportar

No horizonte que o sol brasa,
Os montes abrem caminhos e as rochas 
- donde os pássaros partem vôos -
Se despedaçam,
Ela brisa,
Como um poema que soa
Um mar em ressaca
E deixa de me acompanhar para acompanhá-la. 

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Texto e cena: Dramaturgia e narrativa — o teatro como linguagem da vida

“...quero indicar sobretudo que para mim o teatro é ato e emanação perpétua, que nele nada existe de imóvel, que o identifico com um ato verdadeiro…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“...quero indicar sobretudo que
para mim o teatro é ato e
emanação perpétua, que nele
nada existe de imóvel, que o
identifico com um ato verdadeiro, portanto vivo, portanto mágico.”

Sobre teatro e literatura – os desafios do autor em materializar as imagens postas no papel. O teatro consiste em encenar; assim como a vida, quando se assume um papel social. O professor que sai de sua casa, cambaleante, de porre, logo cedo, para contribuir com o belo quadro social, ou a médica, com sua pretensão altruísta de salvar vidas – ou por horas apenas. E assim por diante.

A palavra se desnuda no contexto, na encenação dos gestos e da presença. Quando o teatro vira ação, o espaço cênico ganha novos desdobramentos: o tradicional se dissolve e se estende do convencional ao cotidiano, que ganha corpo e performance, que transforma o espectador em ator ou autor, que assume postura em várias dimensões da vida, como o trabalho, a casa, a rua…

O espaço, como desdobramento do enredo teatral no mundo, também pode ser encontrado no instrumento de investigação – o Organon, de Bertolt Brecht – no seguinte: “O Teatro consiste nisto: em fazer uma viva representação de fatos acontecidos ou inventados entre seres humanos e fazendo-o com a perspectiva da diversão. De qualquer modo, é o que buscamos tratando de teatro novo ou antigo.” A apresentação se emancipa do palco, ganhando suas dimensões mais carnais – para além das páginas. A atração é ética e política, pois cria ação e propicia espaço para o espectador participar ativamente.

O teatro nasce da palavra, mas não se encerra nela. A escrita não busca apenas ser lida: ela quer corpo, gestos, quer ter voz e símbolos visuais pulsando ritmo e presença. Pintar o mundo para além do grafite. Os diálogos não são meros riscos se entoados através das gargantas. O diálogo é potência, como no Teatro do Oprimido ou das Oprimidas:

Como é que a gente pode, através da visão crítica da sociedade, da visão crítica que a gente tem sobre o real, representar esse real e buscar a conversa, a troca de ideias, a troca de experiência sobre esse real? Ou seja: eu vivo o real, olho para o real com olhos críticos, represento o real e me pergunto: ‘Como é que a gente pode transformar isso mais prático, melhor? Como é que eu posso transformar esse real em uma realidade que seja mais acessível para mim, que seja melhor para a minha vida?’ O diálogo significa que a gente está aberto o suficiente para escutar um ao outro.

É na conversa entre gestos, expressões e palavras que se constroem pontes necessárias para transportar as transformações sociais que se deseja. Um espaço utópico de resistência.

A mão-de-obra não termina no papel. A literatura se rende ao palco sem perder seu brilhantismo. A palavra se põe pornográfica e se deixa ser tocada pela ação direta. Ela mesma penetra na pele como um espírito, contorce o artista, enche de lágrimas a plateia que se envolve na trama. Ali começa o seu prolongamento: o traço mais generoso de riscos a correr.

A teatralidade está na surdina mais exposta. O espectador não é mais passivo: vira autor – e da própria vida – nos demais convívios e espaços sociais, numa reunião enfadonha, na sua labuta diária ou mesmo com a família. É encontro de raças, gêneros e classes. Mesmo os desavisados sempre atuam com um “prazer de nível superior”, como escreve Brecht, acrescentando que:

“Por esta forma superior de prazer, o teatro leva seu público a uma atitude fecunda, para além do simples olhar. No ‘seu’ teatro, o espectador poderá divertir-se, como se tratasse de um recreio, com tremendas e infindáveis canseiras que lhe dão a subsistência, e com o pavor que lhe inspira a sua interminável transformação. Num teatro deste tipo, o público tem a possibilidade de educar a si próprio da maneira mais simples; de existência, é a arte que a proporciona.”

Dessa forma, o teatro também ensina a estar no mundo. A escutar e a dizer. A atuar. A ter mais presença. O palco se transforma em qualquer lugar de potência da vida: espaço físico e psicológico. O texto precisa de carne, a carne de movimento, e a alma, de florescer.

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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Calíope

Engendra a substância de tua bela voz, | Lendo teu poema épico da batalha, | Donde os Titãs, jogados na fornalha | Do poder divino. Oh! Força algoz!…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Engendra a substância de tua bela voz,
Lendo teu poema épico da batalha,
Donde os Titãs, jogados na fornalha
Do poder divino. Oh! Força algoz!

Ornada de grinalda, contempla a sós;
Do monte Parnaso, inspira-se e talha
Na tabuleta, com seu buril, não falha
Em remanescer à poesia uma foz.

Jorrando a paixão do deus Apolo,
Entre suas vestes, dois filhos amaram,
Mas Eagro; talvez mais obtuso,

Deu-te ao ventre as notas de seu falo.
Um Orfeu aventurado cantaram:
A jovem Calíope, seu ar majestoso.


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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Imagem da Web editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Quando em meu peito rebentar-se a fibra
Que o espírito enlaça à dor que mata,
Do meu cadáver frio à triste cova
Não derrameis nem uma lágrima!¹

Muito se fala dos ultrarromânticos: o desejo da morte, o amor ideal, o pessimismo, o individualismo. Mas pouco se fala de sua ligação com a religião.

Se, algumas vezes, uma espécie de lamento fúnebre — como em “Se eu morresse amanhã” — parece a única tônica, é porque um Deus ausente deixa o ultrarromântico entregue à própria sorte, aos azares da existência. Nesse cenário, apenas figuras como a mãe, a irmã ou o amor ideal ganham contornos divinizados.

A luta entre a vontade de viver e a perseguição da morte revela uma dualidade cristã: o conflito entre o prazer da matéria e a salvação da alma. O eu lírico deseja amor, mas também almeja a paz da morte.

Por isso mesmo, gostaria de falar sobre Junqueira Freire. Ele talvez seja a maior referência prática à religião no ultrarromantismo. Escolheu ir para um convento, acreditando levar uma vida de celibato, mas pediu para sair. Mesmo assim, enquanto estudava filosofia e teologia, se inspirou para escrever seu livro, intitulado Inspirações do Claustro. Um título ambíguo, rico em interpretações: desde o sentido religioso da reclusão espiritual — o claustro como espaço físico dedicado ao culto de Deus — até a atmosfera filosófica dos estudos e, claro, da produção poética impregnada de religiosidade.

Junqueira Freire é mesmo uma figura singular no ultrarromantismo brasileiro — talvez o que melhor personifique a tensão entre fé e desejo, entre religiosidade e existência carnal, de forma vivida e escrita com intensidade.

Ele viveu a religião e rompeu com ela. Escreveu, deitou nela, fez todas as suas necessidades, e, quem sabe, só os anjos saberiam quais.

Acima de tudo: escreveu.

O claustro como símbolo ambíguo: lugar de reclusão do mundo, lar dos mais disciplinados fugitivos da vida profana.

O claustro como estado de espírito: isolamento, meditação e, claro, inspiração.

O claustro como espaço de produção do conhecimento — de estudos de Filosofia, de Teologia.

O poeta viveu de forma intensa a religiosidade. Permitindo-se comparar com o próprio passado, pôde fazer juízo. Ainda jovem, esteve em dúvida, buscando respostas e sentido para a vida.

Deixemos que ele mesmo, espírito inquieto, nos mostre sua luta entre o sagrado e o profano:

Meu Deus! meu Deus! — eu creio firmemente
Em vosso eterno e sacrossanto amor!
Creio que um dia abrirei contente
Meu seio à luz do vosso esplendor.

Mas — ah! Senhor! — que dor! o pensamento
Às vezes voa por mundanas vias,
Vai procurar nos gozos, alegrias,
Vai se manchar no lamaçal do intento

Confissão, culpa ou vida?

Junqueira viveu num tempo em que o mal-estar social começava a se instalar na sociedade contemporânea. A Era das Revoluções movimentou o mundo, mas passou, deixando suas garras em nome do progresso. Liberdade, Igualdade e Fraternidade ficaram distantes, e no papel.

O Brasil? Um império escravocrata, tentando, a todo custo de vidas, criar uma identidade.

Parecendo prever a crise existencial da humanidade, Junqueira se reclusou. Mas não suportou o claustro que ele mesmo criou e o expeliu, como também se expulsou de dentro dele.

Deixou de acreditar que seria soldado de Cristo.

Contemplativo, seguiu sendo poeta. Mas, assim como muitos jovens talentosos de sua época, morreu cedo e tristemente, vítima de doença cardíaca. Nosso Freire sucumbiu a problemas que sofria desde a infância.

Deixou sua enorme contribuição, enquanto esteve na terra da profanação, para a poesia brasileira, que nunca mais seria a mesma.

Gosto de meditar de noite, às vezes,
Como um infante,
Espasmado no olhar, fitando o corpo,
Que tem diante.

Gosto de meditar de dia, às vezes,
Como o ancião,
A quem idéias se erguem do passado
Em borbulhão.

O infante, o ancião!—os dois extremos
Da existência;
Um à vida, outro à morte, iguais amostram
Igual tendência.³

¹ “Lembranças de morrer”, de Álvares de Azevedo.

² “Meu Deus”, de Junqueira Freire.

³ “Meditação”, de Junqueira Freire


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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Sepulcral

Um beijo sepulcral na testa dada ao frio | Mais descoberta que a vida fora dos rumores | Um beijo traz imagens das carícias e das dores | Da vida gélida de um alguém sem brio…

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Um beijo sepulcral na testa dada ao frio
Mais descoberta que a vida fora dos rumores
Um beijo traz imagens das carícias e das dores
Da vida gélida de um alguém sem brio

Não estava o céu como num poema de anil
Naquele dia de dúvidas e temores
Quando no copo de veneno goles dos odores
Desciam. Tomando o último soneto, partiu

Morte breve, sem amigos por escolha sua
Morreu bêbado com uma pena atravessada ao peito
Desfez as malas: um papel e rabiscos
Jogou com a morte paciência à luz da lua
Perdeu naquilo que nunca tinha feito
Bebeu por último o último dos seus vícios.


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
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Crê

Crê em mim, filho da vergonha | Crê em mim, sou o senhor do inferno | Sombrio e distante como útero materno | São os tempos loucos e ninguém mais sonha…

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Crê em mim, filho da vergonha
Crê em mim, sou o senhor do inferno
Sombrio e distante como útero materno
São os tempos loucos e ninguém mais sonha

Sombra em torno de nós, medonha
Reza para mim homens! De joelhos!
Ovelhas adestradas, ouvem meus conselhos 
“Segue o Mito, renegue a verdade, enfadonha”

Sede ingrato, maldito e sincero
Sedes o mal agouro do desterro
Ser atribulado com os ruídos de uma guerra
Oh! Ninguém mais vê e nem sente o desespero
A dor do poeta tecendo um erro
Anunciando Mefistófeles a pairar sobre a terra.


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
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Ato de escrever I

Um poeta sentado escrevendo. Cenário que mescle contemporâneo e vintage (pode ser até um apartamento, prédio…

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Os astros fulgem como ações próprias; as janelas do castelo brilham em um tom de pele madura. A forma dela se desenha nesse grande holofote. O poeta, de cabelos brancos como uma lebre, declama sua arte por todos os poros.   

Mas a obra do artista é seu sangue, e este é imortal. Como um quadro pintado com tinta ainda quente, pulsa. Ferida ao peito, caneta em riste.   

— Expulsa! Um coração que não se esvai em poemas.   

Assim acaba a noite e um microconto, pois todos os poetas são iguais: não aguentam o peso do mundo sozinhos e precisam, em linhas tortas, devagar seu pranto.   

Companheira grafia de luz, de noite, de dia.   

Garrafa de vinho, uma cama, um fogo e a mais profunda tragada — retrocedendo o cigarro com o tragar do passado da alma, que foi tocar no não vivido, que foi lamentar e escrever o que não ocorreu.  


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Naufrágio

A mais caudalosa turbulência, | a rebeldia que transportava espumas | para o colo do barco, | fazia surgir o medo constante | de conhecer o fundo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

A mais caudalosa turbulência,
a rebeldia que transportava espumas
para o colo do barco,
fazia surgir o medo constante
de conhecer o fundo escuro do oceano.

Ao sobressaltar a visão,
embaçador, mas lúgubre,
com a fronte alçada em desafio.

Partindo caminho, devastando e empurrando o próprio mar,
mas não há disputa, nem trégua.
Antes do golpe, toda dança e cerimônia,
um ritual, tal qual uma primitiva celebração ou
uma câmera lenta moderna.
Baforando ódio por sobre o barco, engolindo, aglutinando madeira, carne, água e trovões.
Um baile de máscaras molhadas,
que ficará apenas registrado na história das águas.

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Simbologia de uma torre imponente

Definha’s estruturas obra inacabada | Abalada em si pela agonia | Bela torre bradava ao céu alada | Babel em momento de alegria…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Definha’s estruturas obra inacabada
Abalada em si pela agonia
Bela torre bradava ao céu alada
Babel em momento de alegria

Faz sempre nos passos dos gigantes
O vínculo mágico da apatia
Facínoras! Amores tão fluentes
Os quais escarram minh’agonia

Um poroso monstro nasceu triste
Por alusão a grandeza da torre
Fatigado em preâmbulos morre

Escondendo-se à agonia desiste
De ser obra onipotente, orgulhosa
A tempestade derruba, ela escorre. 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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À Crusoé

A cara não é feia nem bonita sem saber o que é feio e belo | Como Crusoé na ilha tentando fazer-se a si | Um personagem fictício como os outros…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

“Eu é o outro”
Arthur Rimbaud

A cara não é feia nem bonita sem saber o que é feio e belo
Como Crusoé na ilha tentando fazer-se a si
Um personagem fictício como os outros
Pois em si somente o vazio
Uma bola como alguém para ser ele mesmo
Uma comparação, um padrão, brigas, conversas,
                                                                [perdão] 

O que seria do mágico sem o trágico?
Contente de que?
Com raiva de que?
Esbelto?
Gordo?
Imundo?  

Com tudo que há de liberdade
Sem empurrões
Sem ideias
Necessidades
Com a fauna e a flora a te observar
Mas sem contigo participar
Nem dizer se é ou foi
O que? Algo? Alguma coisa? 

A morte não tem sentido sem a vida
Destilar a sua consumação até esgotar
Agravar os erros e perdões
O amor de quem para quem 

Como se poeta deixasse de ser
Morrendo sozinho na beira da praia
Como os ultrarromânticos de tuberculose no leito
Um Crusoé cansado de não sentir seu Eu 

As estrelas com seu brilho próprio
Sobre um deserto despovoado 

Meus cabelos não são somente meus cabelos
Eles são diferentes
Meus olhos não são somente meus olhos
Eles estão em mim e não no outro
Têm formas e introspecção singulares
                                        [das de quem?]
Numa ilha, (no inóspito)  [ninguém!]
Um olho, dois olhos, um cabelo
Só(s), somente 

o eu é o outro e não há quem arranque isso de mim, de nós, de todo mundo
a não ser nós mesmos virando ilhas e desertos.

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Sepulcral

Um beijo sepulcral na testa dada ao frio | Mais descoberta que a vida fora dos rumores | Um beijo traz imagens das carícias e das dores | Da vida gélida…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Um beijo sepulcral na testa dada ao frio
Mais descoberta que a vida fora dos rumores
Um beijo traz imagens das carícias e das dores
Da vida gélida de um alguém sem brio

Não estava o céu como num poema de anil
Naquele dia de dúvidas e temores
Quando no copo de veneno goles dos odores
Desciam. Tomando o último soneto, partiu

Morte breve, sem amigos por escolha sua
Morreu bêbado com uma pena atravessada ao peito
Desfez as malas: um papel e rabiscos
Jogou com a morte paciência à luz da lua
Perdeu naquilo que nunca tinha feito
Bebeu último o último dos seus vícios.

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Tudo Acabou

Será que tudo acabou? | Quando se destrona o sono | A realidade pesa pelo abandono | E o suor da vida sem sonhos, inundou…

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Será que tudo acabou?
Quando se destrona o sono
A realidade pesa pelo abandono
E o suor da vida sem sonhos, inundou

Será que tudo tombou?
Como as cargas d’água do seu preconceito
O trem descarrilado na estrada com defeito
O sonho da vida se furtou

Não se apresenta mais nas noites cruéis
Não se destina mais aos corpos fiéis
Livros, astrais... Mãos, sensibilidade...
Sumiram como as águas dos poços
Que alimentavam a sede do sertão
Desapareceram com as vozes da vaidade
                                                      [vazio]
Crianças, recreios, sonhos nas ruas...

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Vazio

Foi-se um baile há muitas conjunturas | Que ainda ressoam lúgubres histórias | Muita gente, muitas memórias | De amores, sonhos tolos, vãs loucuras…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Foi-se um baile há muitas conjunturas
Que ainda ressoam lúgubres histórias
Muita gente, muitas memórias
De amores, sonhos tolos, vãs loucuras

Risos de chamas e cabelos negros
Olhos serpenteiam, riscos nos lábios
Ninguém se conhece, nem os larápios
Beijos furtados de vinho... Byron... gregos

Resta um baile de máscaras sombrio
Visitantes... então o salão vazio
Apenas fantasmas que ainda rondam

Bebendo de gota em gota se esgota
Presente, passado e futuro findam
Velando ao anfitrião da vida morta.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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