Memórias de um Pierrot

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

“Se olhares demasiado tempo dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar dentro de ti”.
Friedrich Nietzsche

Certamente, não era o melhor lugar do mundo para se estar. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente, mas servia para se reconciliar consigo mesmo, entre um copo e outro de uma bebida qualquer. A parca iluminação elétrica, proveniente de duas simples luminárias dispostas nas paredes laterais, era um tanto quanto insuficiente, quase a ponto de uma penumbra completa. A semiescuridão do ambiente nem mesmo era notada por aqueles que ali estavam, pois quase todos os frequentadores de botequins, em sua grande maioria, optam pela escuridão. Sabe-se que, em momentos de tristeza e solidão, muitos preferem as trevas para tentarem se esconder de seus próprios problemas.

Na silenciosa penumbra de um bar, um indivíduo qualquer pode, sob a sombra do anonimato, tentar se esconder de qualquer problema que lhe assole ou de qualquer pessoa que o persiga. Só não poderá jamais esconder-se de si mesmo. Na sufocante atmosfera onde os odores de bebida e perfumes baratos se misturam com a constante fumaça de tabaco pairando ad aeternum no ar, sempre há alguém disposto a narrar alguma história, se porventura houver algum ouvinte interessado. Algumas dessas histórias podem ser verdadeiras, outras nem tanto. De certo modo, poder compartilhar algo, não importa se é verdadeiro ou não – mesmo que seja para desconhecidos – é uma tentativa desesperada de aliviar um peso na consciência.

Era uma noite como outra qualquer, sem muitas novidades, e o movimento estava amainado devido ao tempo. Enquanto na rua estava até um pouco frio, devido à chuva fina que caía constantemente, dentro do bar estava quente e abafado, devido às janelas estarem todas fechadas. Os clientes eram os mesmos de sempre, e tudo parecia estar concorrendo para mais uma sorumbática noite de terça-feira. No ambiente reinava um silêncio quase tumular, sendo interrompido vez por outra pelo som de bolas de bilhar, o barulho do carteado e o som de copos sendo reabastecidos. As canções que se alternavam num velho rádio no alto de uma prateleira eram quase inaudíveis, como se fossem um fúnebre fundo musical.

Toda aquela paz fora interrompida pela chegada de um estranho, que trazia consigo uma aura tão carregada que, além do rádio ter ficado mudo por um momento, até mesmo as luzes piscaram quando ele adentrou naquele ambiente. Não trajava vestes sombrias, nem mesmo tinha um rosto apavorante em si. Estava barbeado, limpo e perfumado. Contudo, havia algo de errado com ele; estava estampado em seu semblante que uma grande tristeza o assolava. Após cumprimentar a todos os presentes com uma voz macia e serena, pediu uma bebida e foi sentar-se numa mesa num dos cantos escuros do bar. Logo, uma bela mulher – dessas flores que a solidão da noite traz com seu perfume – veio até sua mesa e lhe ofereceu companhia. Ele agradeceu polidamente, mas recusou a oferta, dizendo:

– Devo agradecê-la pela gentileza, mas não tenho nada a lhe oferecer. Não quero de forma alguma tomar o seu tempo, muito menos atrapalhar o seu trabalho. Quero apenas beber um pouco e tentar, de alguma forma, dar um pouco de paz ao meu espírito.

– Em muitos casos, poder desabafar com alguém é a melhor forma de refrigerar uma alma atribulada. Além do meu ofício de leito, posso também lhe oferecer meus ouvidos e minha atenção – respondeu-lhe ela com muita simpatia.

Ele correu os olhos por todo o ambiente, como se estivesse medindo o perímetro, e logo após fez uma minuciosa análise de toda a silhueta da bela criatura que estava de pé logo à sua frente. Em resposta à sua gentil prestatividade, ofereceu-lhe uma cadeira e pediu que se sentasse, solicitando ao dono do bar que lhe servisse uma bebida. Quando prontamente a bebida fora trazida até sua mesa, ele pediu ao dono do bar que deixasse a garrafa, pagando-a com uma nota bem acima do valor e dizendo que não se preocupasse com o troco. A mulher, que havia se sentado comodamente, após tomar um considerável gole do conhaque que lhe fora servido, sorriu de maneira bastante inocente e disse em seguida:

– A propósito, meu nome é Adelaide. Dou-lhe minha palavra que serei uma ótima companhia e uma atenciosa ouvinte, se quiser conversar.

– Não era minha intenção, de forma alguma, descarregar meus dissabores sobre as costas de alguém. Não tenho certeza se vai gostar de ouvir o que tenho para contar. A bem da verdade, o que vou relatar a você, Adelaide, nunca contei para pessoa alguma. Não vou precisar pedir que mantenha minha história em segredo, pois tenho absoluta certeza de que o fará. Até porque, mesmo se você contasse minha história para qualquer pessoa, ninguém acreditaria. Seria vista como louca ou uma talentosa mentirosa.

Adelaide apenas sorriu em desafio, balançando a cabeça de forma negativa, como se aquele gesto quisesse dizer: Já vi e ouvi tanta coisa nessa vida que nada mais me assusta. Após virar de um só gole um copo de bebida, ele limpou a garganta e, antes de iniciar sua inverossímil história, ainda lhe disse, como se pudesse ler seus pensamentos:

– Talvez você até possa ter visto e ouvido muitas coisas em sua insignificante existência, mas tenho certeza de que, ao final de minha história e antes mesmo que esta noite acabe, sua vida já não será mais a mesma. Vou lhe contar desde o início, para que, quem sabe, assim você possa entender aquilo que eu mesmo ainda não entendo.

...Quando eu tinha apenas doze anos e minha querida e inocente irmã ainda não havia completado nem mesmo seus sete anos, numa noite em que estávamos a passeio na casa de nossa tia – única irmã de nosso pai –, nossa casa fora alvo de um terrível incêndio, que colheu a vida de ambos ao mesmo tempo, deixando-nos órfãos e sem nada, apenas com a roupa que tínhamos no corpo. Como meu pai não era provido de muitos bens, nem nossa mãe tampouco, além de perdermos nossos pais e nosso antigo lar, ficamos também reduzidos a nada. Duas crianças lançadas à própria sorte, dois seres inocentes contando apenas com a providência divina.

Minha irmã – uma bela menina de olhos claros, cabelos cacheados e faces rosadas – logo fora acolhida por minha tia e seu esposo, uma vez que eles ainda não tinham concebido nenhum filho, mesmo após dez anos de casados. Certamente algum dos dois deveria ter algum tipo de problema, pois sonhavam com uma criança. Eu, por outro lado, após ficar seriamente abalado com a trágica perda de meus pais, tornei-me um jovem arredio e bastante rebelde, chegando ao ponto de ser inconveniente, fato que me rendeu uma passagem só de ida para o seminário. Minha tia, convencida pelo marido, logo entendeu que, antes que eu fugisse de casa e me tornasse um delinquente, ela poderia fazer algo em meu benefício, entregando-me aos cuidados da Igreja, que, além de me educar, dar-me-ia a oportunidade de seguir uma carreira clerical.

Os primeiros anos que passei no seminário foram de total desalento para minha alma. Devido às minhas terríveis perdas, por mais que eu tentasse com todas as forças do meu ser, não conseguia acreditar em nada daquilo que meus tutores tentavam me ensinar sobre as bem-aventuranças que a religião poderia me oferecer. Eu havia perdido completamente a fé em tudo, até mesmo em mim. Há um provérbio que diz: “Na convivência de nossos semelhantes, nos tornamos iguais”. Já próximo à minha ordenação, quando eu já estava me adaptando àquela litúrgica vida, acostumando-me com a ideia de me tornar padre e, quem sabe assim, poder levar algum conforto a todos aqueles que, tais como eu, haviam enfrentado terríveis dissabores na vida, o destino me lançou mais uma vez ao chão. Minha irmã, que há pouco tempo havia desabrochado em seus quinze anos, cometeu suicídio. O real motivo eu não soube na época. Minha tia manteve no mais absoluto sigilo o porquê de uma jovem tão bela e radiante, cheia de sonhos, atentar contra a própria vida. Mais uma vez, minha fé me abandonou.

Nessa época, eu estava próximo de completar vinte anos. Um homem mentalmente instruído e fisicamente formado, pronto para enfrentar o mundo. Sem ter mais o que fazer dentro das paredes de um seminário, mesmo antes de professar meus votos, deixei minha vida eclesiástica de uma vez por todas e dei início a uma vida errante, perambulando de um lado para outro em busca de sobreviver de uma forma honesta. Minhas decepções haviam, de certa forma, me retirado a fé, mas os preceitos de ética e moral que aprendi, primeiro com meus saudosos pais e depois no seio da Igreja, fizeram de mim um homem de princípios.

Tentei me firmar em vários ofícios, tentando aprender uma profissão que pudesse me sustentar de forma digna, mas comecei a pensar que pessoas como eu estavam fadadas à derrota completa. Minha coleção de decepções era tamanha, ao ponto de começar a imaginar que talvez o melhor a fazer seria seguir o exemplo de minha irmã e acabar com todo o meu sofrimento de uma vez. Mas parece que o destino, de certo modo, tinha algo reservado para minha existência. Numa fria manhã de janeiro de um ano qualquer, estando eu sem trabalho já há algum tempo, com o aluguel do pardieiro que eu chamava de casa vencido e sob sérias ameaças de despejo a qualquer momento, com pouco dinheiro no bolso – talvez desse para mais duas ou três refeições apenas –, quando o desespero já tomava conta de mim, decidi que deveria arrumar uma ocupação imediatamente, fosse ela qual fosse. Saí de casa e, após tomar apenas um café num botequim qualquer, fui em busca de trabalho.

Após horas de caminhada improdutiva, entre vários "nãos" e muitas promessas de "quem sabe outro dia", já quase desistindo de encontrar trabalho, ao passar em frente a um combalido circo, vi uma placa com oferta de emprego. Estava escrito com tinta vermelha:

“CONTRATA-SE PALHAÇO”.

Primeiro, cheguei a pensar que eu não tinha a menor aptidão para aquele tipo de função. Contudo, para quem já havia sido auxiliar de padeiro, mascate, servente de pedreiro e tantas coisas mais, trabalhar no circo apenas fazendo as pessoas sorrirem não seria tão difícil. Aproximei-me da barraca onde a placa estava pendurada e, assim que bati palmas, logo fui atendido por um senhor bastante disposto. Jeremias era seu nome, um homem de baixa estatura, mas demonstrando ter um grande coração, pois, antes de qualquer coisa, após se apresentar como proprietário do circo, convidou-me a entrar em sua tenda e, como estava ele, naquele justo momento, iniciando sua refeição vespertina, convidou-me a acompanhá-lo em seu humilde almoço. Para quem há dias estava comendo o pão que o diabo amassou, a oferta foi aceita de imediato, sem necessidade de muita insistência.

Aquele repasto foi muito bem aceito por mim, que, sem muita cerimônia, logo dei fim a uma fome que me acompanhava desde a tarde anterior – naqueles dias, eu fazia apenas uma refeição por dia. Enquanto comíamos, demonstrei-lhe meu interesse pela vaga de palhaço. Contei-lhe um pouco sobre a minha história e, talvez, tenha sido a tragicidade de minhas perdas que tocou seu coração, pois, antes mesmo que nosso almoço terminasse, eu já estava empregado novamente.

Tudo estava acertado, só restava um único detalhe: a fantasia do palhaço a quem eu devia substituir não serviria em mim, pois ele era um anão. Como o circo estava em contenção total de gastos, a vaga seria minha, desde que eu comprasse meu próprio traje. Se assim eu o fizesse, poderia começar no dia seguinte. Com a fome saciada e a promessa de um emprego, voltei para casa e, após coletar alguns itens dentre meus pertences pessoais – que já não eram muitos –, saí pela cidade em busca de um brechó que se interessasse em uma permuta daqueles parcos itens em troca de roupas que pudessem ser utilizadas como uma fantasia de palhaço.

Na terceira loja em que entrei – um ambiente muito sinistro –, fui atendido por uma mulher com traços bastante cadavéricos, mãos enormes, com dedos longos, terminados em unhas que mais pareciam garras. Quando lhe propus negócio, ela, de imediato, disse que eu havia entrado no lugar certo, pois, naquele mesmo dia, chegara às suas mãos uma fantasia de palhaço completa, com todos os itens necessários para uma boa performance. Quando vi a fantasia, um estranho arrepio correu por todo o meu corpo. Parecia que aquela roupa estava esperando por mim, pois, quando a toquei, senti um incontrolável desejo não apenas de adquiri-la, mas de experimentá-la o mais rápido possível. A sombria mulher que me atendera dissera que alguns trajes escolhem seu dono, reconhecendo-o de imediato, assim que o veem.

Como eu não tinha dinheiro para pagar pelo traje, deixei os itens que levara comigo – inclusive um relógio que pertencera ao meu pai e que há muitos anos me acompanhava – em troca daquela fantasia. Ficou combinado que eu retornaria para resgatar o relógio. De posse daquele traje e muito animado com meu novo emprego, direcionei-me de volta para casa. Assim que adentrei meu pequeno quarto, logo tratei de vestir aquela roupa para saber se ficaria confortável para o trabalho. Assim que terminei de colocar meu chapéu de pierrot, ouvi meu senhorio bater à minha porta para mais uma cena de humilhação que eu, de tempos em tempos, tinha que enfrentar. Ao caminhar até a porta, ouvi o barulho dos guizos de meu chapéu. Aquilo despertou algo estranho em mim; uma sombra tomou conta de todo o meu ser. Senti um incontrolável desejo de ter em minhas mãos o controle sobre a vida e a morte de alguém. Meu senhorio não disse mais do que cinco palavras e logo estava agonizando, caído no piso do meu quarto. Sua cabeça, virada para trás, me olhava em completo desespero, sem conseguir entender como aquilo acontecera tão rápido. O corpo do meu senhorio nunca foi encontrado.

Na noite seguinte, trabalhei tranquilamente no circo. As crianças me adoraram. O público ficou boquiaberto com minha performance. No final do espetáculo, Seu Jeremias, após me elogiar bastante, chegou a me perguntar se eu realmente nunca havia trabalhado no circo. Respondi que não e voltei para minha casa.

Na semana seguinte, com o dinheiro de meu primeiro pagamento, retornei à loja para resgatar o relógio que fora de meu pai. No mesmo local onde, há menos de uma semana, eu comprara aquele formidável traje, não havia nenhum tipo de construção, apenas um lote baldio, dando mostras de que estava abandonado há anos. Questionei os vizinhos sobre a loja, mas ninguém sabia de nenhuma loja ali havia muito tempo. Segundo um senhor, dono de um açougue próximo e que estava no local há quase sessenta anos, a última construção do lugar fora uma casa que pertencera a um velho professor, que morrera há muitos anos, e essa mesma casa fora derrubada alguns anos após a morte de seu antigo dono. Voltei para casa cabisbaixo, lamentando a perda de tão importante objeto. Pensei comigo: O que eu não daria para ter aquele relógio novamente comigo...

Em menos de três meses, eu já estava morando no circo e me sentia parte de uma família novamente. Numa tarde, recebi uma triste carta que me comunicava sobre o falecimento de minha tia num trágico acidente. A carta relatava quando seriam as exéquias e como ela havia falecido – minha última parente viva havia caído das escadas de sua mansão. Fui autorizado a ir ao velório e foi justamente lá que descobri, através de algumas senhoras – um tanto quanto desocupadas –, que minha tia muito possivelmente fora assassinada pelo marido. Sem saber quem eu era, uma delas disse ainda que a sobrinha que eles criavam desde que ficara órfã se matara porque não suportava mais ser abusada pelo tio. Uma delas chegou a comentar que, no caixão em que minha irmã fora enterrada, havia duas pessoas. Naquela mesma noite, o marido de minha tia foi dado como desaparecido. Sumira sem deixar vestígios.

Eu, que passei praticamente minha vida toda na mais completa miséria desde que perdi meus pais, da noite para o dia me tornei uma pessoa sem maiores problemas financeiros. O marido de minha tia não tinha nenhum herdeiro. Como ele havia desaparecido, logo a Justiça me fez seu único beneficiário, recebendo todos os seus bens.

Com muito aperto no coração, deixei o circo e segui minha vida a fim de tocar os negócios que herdei. Minha vida de artista circense ficou para trás, mas levei comigo minha fantasia, pois, de certa forma, sentia que ela fazia parte de mim. O mais estranho de tudo é que sempre que visto minha fantasia, alguém acaba sumindo e eu sempre acordo com um estranho gosto de sangue na boca...

Terminada sua narração, ele chegou a imaginar que Adelaide sairia correndo de medo de toda aquela história ou que, então, pudesse entrar numa crise de riso que não teria mais fim. Contudo, ela, com a garrafa de conhaque nas mãos, após encher mais uma vez o seu copo e beber até a metade, levantou-se graciosamente e, após lhe apertar a bochecha – como uma mãe faz com um filho obediente –, disse-lhe, exibindo um sorriso de dentes bastante afiados:

– Você tem sido um bom garoto. Estamos muito contentes com sua performance. Decidimos que você merece até mesmo um prêmio pelo seu desempenho.

Após entornar o restante da bebida que tinha nas mãos, colocou o copo vazio sobre a mesa e, ao lado do copo, deixou-lhe um pequeno embrulho amarrado com uma fita vermelha. Caminhando num belo bailado, com muito charme e simpatia, ela se direcionou até a porta e, após olhar mais uma vez para ele, sorriu um riso solto e saiu.

Quando ele abriu o embrulho, que ainda trazia o toque do perfume que Adelaide estava usando, o relógio que um dia pertencera a seu pai estava dentro...

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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