Le Papillon et la Fleur

Retomo as lembranças daquele desgraçado dia na universidade! Dia em que minhas tragédias tomaram forma em pesadelos em vida e…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Dr. Christopher V. Walker II
(Anotações em seu caderno)
25 de agosto de 1871 — París.

Retomo as lembranças daquele desgraçado dia na universidade! Dia em que minhas tragédias tomaram forma em pesadelos em vida e se arrastaram pelos dias até o presente momento.

Torno a escrever minhas próprias memórias — sobre o dia 22.

Todos os eventos daqueles dias até agora ficaram terríveis na minha mente. Memórias que somente nessas folhas e com este lápis atrevo-me a confessar.

Minha jornada começou no distrito XIII, Gobelin, passando por Reuilly — XII distrito. As casas aqui foram algumas queimadas, atravessadas por projéteis dos canhões de campanha de 4 e 8 libras — sabíamos o tamanho dos projéteis pelas histórias dos que retornavam da guerra com a Prússia. Agora testemunhei com meus olhos e outros sentidos os efeitos dessas armas de destruição pelas ruas e casas de Paris.

— Ouvi tantos relatos durante a guerra contra a Prússia, que agora eu sou o que vai criar o relato. — Sussurrei para mim mesmo.

Foram tantos desvios de regiões tomadas por comunas e suas barricadas. Cadeiras, mesas, candelabros, paralelepípedos e até os postes, além dos sacos de terra para as barricadas. Tudo para impedir a mobilização dos soldados de Adolphe Thiers.

— Ainda creio estar entre os mortais? — Essas dúvidas persistem! Assim como as dores que ganhei tanto no corpo quanto na alma.

A luta tem sido tanta. A dor, a angústia e a penúria têm sido demasiadas.

— Os dias calmos agora parecem tão distantes, na linha do horizonte…

Tentava…

Me esforcei para evitar os conflitos!

Mas uma ou outra vez pelo caminho me vi diante do confronto direto.

A troca de golpes com soldados de sua majestade ou com os infelizes rebeldes da comuna. Na última vez que me vi num conflito, um jovem com uma baioneta, desferiu um golpe que achei haver evitado. Lutei como um cão faminto quando consegue carne e precisa defender a vida e seu bem precioso.

Corri, me escondi e me arrastei por entre destroços, corpos inchados, sangue com terra.

—Afirmo… Não nego que isso já é uma loucura. — Minha angustiante situação me fez tomar decisões estranhas.

“Piorado por sons estranhos, animalescos, inumanos que ouvi durante as noites.”, —  Pensei, ao adentrar uma casa ao final da tarde. Se me lembro bem, sim, foi naquela noite dias atrás que rumores sobre eles começaram a correr pelas ruas.

Consegui um breve momento de paz. Havia um silêncio no ambiente que me soava estranho. Sinto o corpo esfriando, então… Uma agulhada cortando meu interior, do cotovelo ao ombro e depois aos dedos, correndo pelo meu braço… Dor!

Aquela sensação subiu intensamente como se fossem as ondas de disparo dos canhões da sua majestade. Encostei na porta e comecei a descer lentamente apoiado nela, senti sua madeira desgastada e áspera.

— Ah, droga. — Levo a mão do braço bom até o braço ferido. — Como…? Como não notei? — Rugi aquelas palavras entre os dentes.

Olhei para o braço. A manga rasgada estava escura, grudenta. Puxei o tecido com os dentes para ver melhor. Corte!

— Limpo… Sim… Pelo menos isso. — Tomo uns momentos para controlar a respiração. — Atingiu o bíceps... braquial, sim, essa é a palavra. Sorte que não pegou a artéria.

— Médico, lembra? — Um sorriso em meio à dor invade meu rosto. — Você é médico. Sabe o que fazer.

Foi como confessar segredos para comigo mesmo porque falar com as paredes era me soaria naquele momento delatar minha própria loucura.

Rasguei a barra da camisa. Amarrei-a firmemente acima do ferimento. Apertei até sentir o nó cravar na pele.

— Pressão. Aaaargh — Uma dor correu como um raio até a ponta dos meus dedos. — Primeiro… Oh, Deus…  Pressão!

O sangue parou de escorrer como uma nascente. Respirei aliviado, mesmo com as ondas de dor percorrendo meu corpo.

Depois, limpar. Com quê?

— Água…? Onde nessa maldita casa terá água. — Me ergui com dificuldade, me escorando na porta, forçando ainda mais minhas pernas doloridas.

Passei a vasculhar aquela casa. O piso de madeira maltratado, desbotado e empenado. Móveis atirados ao chão. Cacos de vidro das janelas e das louças sobre grande parte do ambiente.

O som do ranger das tábuas a cada passo que dei, arranhou meus ouvidos, fazendo correr calafrios na espinha. Era como um monstro mórbido buscando amedrontar minha alma castigada.

Não havia água limpa…

Olhei dentro dos armários, correndo com os olhos. Quando no que estava num canto, na esquina, abri, dentro de uma garrafa suja, empoeirada. Dentro de um líquido verde fantasmagórico, não mais que meia garrafa, sim, absinto.

— Um doce remédio para um homem ferido e quebrado. — A voz saiu rouca e baixa. Meu rosto está esboçando o cansaço e o estresse. Mãos trêmulas, coluna doendo.

Antes de segurar a garrafa, caminhei até onde ainda havia uma cadeira intacta atirada ao chão. Coloquei-a de pé, encostada na parede ao lado do armário. Me sentei lentamente. Sentindo cada fibra muscular dura. Peguei a garrafa com a cor esmeralda.

— A primeira vai para o médico! — Abri a garrafa, o cheiro herbal e doce convidativo inundou meu nariz, tirei o pó do gargalo e logo levei a boca tomando um gole longo. — Aaaargh… Queima como o inferno! — Saiu quase como um rugido, o sabor doce e intenso tendo um contraste queimante na garganta, rasgando minhas entranhas.

Um gole de coragem e outro para o meu ferimento.

— Recomendação médica! — Sussurrei para mim mesmo.

Ardeu… Ah, sim, ardeu! Queimou, mas queimou tanto, que chamei todos os anjos do cânone.

— Isso vai doer por um longo tempo! — Eu me contorcia na cadeira suportando a ardência como podia. — Será que… Anton e o Marcel fizeram isso alguma vez enquanto estavam na frente de combate?

Busquei acalmar meu espírito.

— Quer parar de reclamar, doutor? — Gritei para mim mesmo naquela cozinha abjeta e escura.

Ri, num crescente, até gargalhar sozinho… Terminei num riso curto, amargo.

Pensei naquele momento: —“Médico ferido é pior que paciente.” Dei de ombros. O silêncio ambiente parecia uma redoma ao que ocorria em Paris. O cansaço deixou minha cabeça pesada, me fazendo apoiar na parede, de olhos fechados. Um novo pensamento me invadiu, “— Porque sabe exatamente o que pode dar errado.”

— Uma vez médico… Sempre médico!

Sentado naquela cozinha, as lembranças vinham em ondas. Não tive tempo para refletir com clareza sobre o que eu havia presenciado horas atrás.

Tomei outro gole da minha única bebida à disposição.

— Foi tão desolador… Ver os olhos perdidos daquela criança. — Me coloquei a analisar a cena. — A guerra arranca a alma de qualquer um, mas ver aquela monstruosidade foi além para aquela pobre criatura.

Seria aquele o pai dela?

Será que aquele dorso que foi queimado era alguém importante para ela?

A criança não… Ela não falou nada.

Ela ficou nos meus braços… Silêncio… Vazio!

Estamos do lado errado do céu?

— É possível…? Em algum nível?

Estamos tão condenáveis e reprováveis que as hostes infernais venham nos capturar?

Será que com suas mãos demoníacas de chamas condenatórias já estejam nos levando um por um?

— Oh, Deus… o que fizemos…? — Tomei um novo gole do líquido verde.

Lentamente sinto meu corpo relaxar, o coração se acalmou e a dor diminuiu. Os pensamentos ficaram tão distantes. Ao longe escuto o som de uma melodia tão suave e… Sim! Popular.

Estão… Alguém está cantando? Qual era…? Qual era a música? Ah, sim, “Le Papillon et la Fleur”.

 — “Mas não, você voa longe demais! Entre incontáveis flores você voa, enquanto eu permaneço sozinha, observando minha sombra circular ao redor dos meus pés. ” — A bela melodia transbordou de minha alma até sair pelos meus lábios e me embalou o coração a um sono tão suave com lágrimas escorrendo em minha face.

Madrugada do dia 23 — Lembrar, revisitar essas imagens em minha mente é como tocar com bisturi uma ferida estranha que não encontra cura, apenas segue aberta e cheirando a queijo podre e rançoso, uma gangrena não tratada.

Eu caí num sono profundo, mesmo com todo aquele caos acontecendo, meu corpo apenas desmoronou naquela cadeira. Um sono sem sonhos. Sem perturbações. As poucas horas que mergulhei nos braços de Morfeu deram novo fôlego.

De sobressalto desperté. Um estado de alerta que não me era natural, se apossou de mim, como um espírito maldito e frio.

A garrafa estava ao chão, com seu interior parcialmente derramado. O ar tinha cheiro de “fada verde”, madeira molhada e um pouco de fumaça.

Primeiro, ouvi como se algo tivesse sido arrancado da casa. Depois, gradualmente soavam como se algo estivesse apertando a madeira da casa intensamente até ela estalar. Então, como se algo tivesse caído no piso superior, a poeira se soltou do teto com um som oco e pesado.

— Que diabos foi isso? — Sussurrei.

Comecei a buscar algo para usar como arma, observando as rotas de saída da casa.

Corri meus olhos no breu, até que a pouca luz das fogueiras na rua fez meus olhos notarem que havia algo perto da lareira. Me aproximei lentamente, tomando todo bom cuidado para assegurar minha posição. Aquilo parecia um atiçador! Sim, era. Feito de ferro fundido com duas boas pontas.

— Não sei o que está lá em cima, mas com isso tenho mais chances. — Uma certa calma tomou posse das minhas feições tanto quanto a segurança do meu espírito.

Caminhei em direção à porta pisando como um gato que busca um passarinho na janela aberta. Tomando todo bom cuidado para não provocar ruídos desnecessários e atrair o que quer que fosse que estava andando no piso superior.

Por Deus, meu coração galopava loucamente dentro do meu peito, apertando meus pulmões contra as minhas costelas.

Será que era mais uma estranha criatura que queima ao sol?

Olhei pela janela e o céu estava escuro demais até para ver as estrelas. Os astros estavam se escondendo dos olhos mortais naquela noite.

O que estava no andar de cima foi em direção às escadas que terminavam de frente com onde eu estava. Recordo de pensar, —“ Como eu não notei essas escadas?”. Olhei para a parte de trás da casa e dava para uma pequena janela que estava aberta. Olhei para a porta que estava fechada. Ela não estava trancada. Também nem poderia, o trinco está parcialmente quebrado, apenas uma ponta do ferrolho sobrou, qualquer batida externa arrebentaria aquilo.

Ao longe escutei o som do disparo de canhões, na sequência, as explosões, o barulho do disparo dos mosquetes. Gritos.

Meu cenário naquele lugar estava apenas ficando pior. A rua era quase uma reta, e no início da noite eu não lembro de ter visto barricadas nela.

O barulho externo parecia aumentar, o que já me deixava sem fôlego, novamente sendo pego no meio do conflito.

Olhei para o meu braço com o corte.

— Droga, minhas chances estão diminuindo rápido demais. — Rosnei a minha fala em voz baixa.

Então um rosnado na escada. Passos pesados.

— Meu amigo do andar de cima deve ser grande. — Sussurrei para mim mesmo e às paredes mudas e surdas ao meu redor.

Segurei o atiçador como se fosse um florete, só que mais pesado e rígido. — “Vou agradecer a meus amigos ingleses por terem me permitido umas partidas de esgrima no clube dos lordes.” — Acho que pensei isso na hora. Me faltou o gole de coragem para impulsionar meu valor.

Antes que minha decisão se formasse, na esquina da escada de canto, na parte superior de sua esquina, vejo surgir uma mão que parece humana. A respiração da coisa é pesada, há um grunhido animalesco soando.

Quando surge a coisa pela metade na parte superior da escada, seu aspecto é cadavérico, aquilo fica um tempo de perfil, quando decide seguir, ela vira seu rosto revelando olhos fundos com um estranho brilho esverdeado não natural.

Ela desce lentamente como se não tivesse pressa para fazer qualquer coisa. Observando… a mim! Quando ela chega ao fim da escada, pude ver melhor suas feições grotescas.

Além dos olhos, sua pele parecia branca demais, além de se assemelhar a um couro curtido e esticado. Sua boca esboçava um sorriso obscuro e malicioso. Ela emana uma presença aterradora.

— Por Deus, suas mãos…. — Minha voz falhou ou foi impedida de falar qualquer coisa.

A coisa tinha garras e o que pareciam presas. Das mãos a boca e o queixo gotejavam um líquido vermelho e negro.

Me correu um frio na espinha, um calafrio desceu da minha nuca até a ponta dos meus dedos. Me senti um felino diante de uma ameaça desconhecida eriçando os pelos.

Não sei sua origem, mas afirmo: não veio do céu muito menos deste mundo carnal.

Ele me olhava como se eu nada fosse, mesmo estando com atiçador numa das mãos. Não sei dizer se estava pronto para morrer, mas certamente eu queria muito viver.

A criatura seguiu seu próprio tempo brincando com a comida? Era essa a áspera sensação: eu era a próxima refeição dela!

Com um grito estridente que me fez doer os ouvidos até alcançar o cérebro, ela levantou seus braços na altura dos ombros com as mãos abertas e o peito descoberto. Ela não parecia temer minha arma e menos ainda a mim.

Avançando lentamente em minha direção, eu me preparei para o ataque. O atiçador pesava na minha mão. Sou médico, me dediquei uma vida para salvar outras. Nunca matei ninguém, aprendi a suturar feridas. Naquele preciso instante aquilo parecia ter uma diferença ínfima.

Num movimento a criatura avançou, abrindo a boca com quatro dentes longos e pontudos se projetando. Seu braço esquerdo fez um arco rasgando o ar, tal qual fosse uma foice. O defendi como era possível. O som metálico do encontro do atiçador com o corpo daquele monstro soava no ambiente.

Tentei dar um passo para trás… uma triste revelação… senti nas minhas costas a parede fria.

A criatura atacava de forma tão aleatória e estranha, que era perceptível sentir a maldade naqueles movimentos. Meu braço ferido começou a arder e doer com o suor do esforço, o sangue voltou a brotar da ferida.

— Argh! Criatura maldita. — Meus gritos eram para motivar meu espírito a seguir no combate.

A criatura no último movimento agarrou meu pescoço. A sensação daquela mão era de um frio polar, sua pele com textura tão ressecada, adornada com o odor fétido de sangue e gordura. Apertou lentamente meu pescoço. Olhei para ela, e com o atiçador ainda em minha mão, tive por intenção um golpe desesperado, que foi frustrado sem esforço pela criatura que agarrou meu braço, me fazendo derrubar minha única arma.

— Arrg….! Cri…aaa… turaaa….— Ele apertava minha traqueia como se eu fosse um boneco de palitos.

O ar começou a faltar. Minha memória daquele momento é aterradora, eu estava morrendo. Lembro dela se aproximando, ficando a poucos centímetros de mim. Como quem observa seu novo brinquedo sendo quebrado deliberadamente.

“Fraqueza. Pesar nos extremos. Visão ficando turva”. Comecei a listar os efeitos da privação do ar. Então quando estava sentindo que a esperança havia acabado.

Um som explosivo e estrondoso.

Um mosquete?

O vazio.

Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
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Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

 Dr. Christopher V. Walker
(Anotações em seu Caderno)

Paris, dia 24 de agosto de 1871. — Escrevo sobre a manhã do dia 22 de agosto, e seus eventos póstumos. Os tempos de paz me parecem tão distantes. Obliterado pela sombra das colunas de fumaça da madeira queimada, com um cheiro acre de pólvora, sangue e fezes.

Ao longe posso escutar os tambores dos militares e os gritos da comuna. Mal avançamos uma semana desde os fatos que fiz questão de relatar ao Anton, e já me vejo envolto em novo caos.

As comunas pareciam por algum tempo haver desistido… uma doce ilusão de um médico.

Imagens daquela noite nefasta ainda provocam tremores neste pobre corpo e se somam aos medos vindos das ruas de minha querida Paris.

Resolvi registrar os eventos nesta terra de Deus. Uma ferramenta a que recorro para manter a sanidade, o equilíbrio e a esperança de que passem esses ventos e dias melhores venham. Contudo ao que vejo, do que recebo de notícias, esse desejo me parece cada vez mais distante.

Anton meu amigo, torço, com todas as forças que ainda me restam, que onde estiver encontre mais paz do que aqui… já que os inocentes deste lugar... são atormentados pelo tiro de mosquetes, das explosões das bombas como pelo fogo atormentador.

Tornou-se impossível sair para fazer qualquer coisa.

Há alguns dias saí do meu quarto com mil olhos e ouvidos, para evitar zonas de conflito. Mas não importa por qual viela, rua ou praça que se caminhasse haveria soldados, ou comunas, ou comunas e soldados se enfrentando.

Caminhei por poucas quadras como se fossem mil léguas em marcha cautelosa, porque a fome ainda é um excelente motor para superar o medo do risco de ser alvejado.

Ao chegar no açougue, coloquei-me a selecionar o que mais me apetecia. Ainda assim, meus ouvidos chamam a minha atenção a qualquer som incomum.

Então escutei um soldado que estava na porta do açougue, junto a outros quatro homens fardados numa conversa, a princípio, descontraída.

— Ouviram que numa das ruas próximas de um mercado no Norte, uma patrulha foi atacada por esses malditos baderneiros da comuna… — Por um breve momento parecia que o homem alto de cabelos loiros e olhos aquilinos tinha receio de seguir o relato. — Disseram… santo Cristo… que um dos atacantes avançou desarmado… que em sua boca os dentes eram como de um animal, e suas mãos pareciam de um demônio…

Todos se entreolharam, até que outro dos soldados tomou a palavra.

— Ora… que isso David! Está ouvindo historinhas de crianças contadas pelo sargento Dubois. — Ele soltou uma gargalhada, que fez o clima tenso se dissipar. Depois pegou um naco de salsicha defumada e deu uma bela mordida. Os demais igual riram. — Quer dizer que, além da comuna nos infernizando, temos que nos preocupar com monstros ajudando os inimigos?

— Ah, Thomas, quem me contou foi um dos que sobreviveram da patrulha atacada. Se fosse o Dubois eu contaria como uma piada e não com essa seriedade. — O rapaz claramente ficou vermelho de raiva.

De todos, ele parecia ser o mais jovem. Batendo a caneca de ferro fundido que tinha nas mãos — cujo líquido, derramado dela, parecia cerveja por causa cor.

— Haha… — Outro dos soldados ria em voz alta com a boca cheia de pão e queijo semicomidos. Começou a falar de boca cheia. — David deixe o menino em paz. — Ele terminou de falar e engoliu como um bom glutão. — Olhe, Alexander, nesse momento, muitas histórias estranhas vão ser contadas. Em sua maioria mentiras.

A atenção de todos recaiu sobre aquele homem imenso de tão alto e rechonchudo. Sua expressão era serena, apesar da cicatriz na face indo da sobrancelha até os lábios.

— Tá… tá… está bem. Apenas queria distrair o novato inocente. — Falou o soldado David em tom de deboche e uma cara de fuinha louca.

Devo dizer que ouvir aquilo gelou a minha alma. Um homem que tinha dentes e mãos como de uma fera selvagem… sim… sim… poderia ser.

Saí do açougue com umas poucas compras até o meu quarto. A jornada foi imersa em pensamentos e reflexões sombrias.

— Aquele jovem chamado… David… sim. Disse que foi uma patrulha ao Norte. — O pensamento que começava a ganhar forma em minha mente já causava arrepios, até que as lembranças daqueles monstros na faculdade e dos seus gritos me fizeram parar por um par de minutos.

— Tenho que me recuperar. — falei para mim mesmo. Quase me senti um louco fazendo aquilo no meio da rua.

Eu não iria sozinho buscar um perigo daqueles.

Óbvio… muito óbvio…

Precisaria de ajuda, e não de qualquer ajuda.

Alguém… uma pessoa, sim! Que tenha visto e participado comigo e que não duvidaria de minhas intenções e pensamentos.

 · · • • •✤• • • · ·

Dia 22 de agosto à tarde — Recorri à única pessoa que me era familiar para aquela situação. O oficial Joules. Este homem que compartilhou comigo… a maldita experiência… a mais nefasta de toda a minha vida.

— Meu amigo Anton, se um dia tiver acesso a este diário espero que não fique chocado com o que encontrar. Torço por sua compreensão quanto a estes fatos que narro aqui.

Tomei o rumo para a delegacia onde Joules trabalhava. Na esperança de que ele estivesse disponível e disposto a participar de uma empreitada que para poucos podemos dizer ser convidativa.

De minha casa até a delegacia, de carruagem, seria trinta minutos, no entanto, com toda a baderna dos conflitos dentro de Paris, encontrar esse transporte se converteu em algo impossível.

Então tive que me aventurar por vielas e ruas caóticas. Desviando de áreas que estivessem com conflito deflagrado.

Por umas quantas vezes… Nessa curta viagem pelas entranhas de uma Paris em banho de sangue. Pude presenciar a angústia e desesperança encarnadas em rostos infantis. Era como ver anjos deprimidos e perdidos, caídos em meio a pólvora, a pedra e o sangue.

Mulheres correndo com suas crias na intenção de protegê-las, homens guarnecendo suas janelas e portas na vã tentativa de evitar o confronto.

Corpos estirados nas vias, com seu cheiro peculiar de podridão e morte. Ratos correndo por sobre eles e dentro deles.

Pobres almas saqueando corpos mortos e moribundos. Um cenário angustiante e doloroso. Por algumas vezes fui pego no meio do conflito das facções e tendo que desviar dos projéteis de ambos os lados.

Num dado ponto da jornada fui forçado a invadir uma casa, que por infeliz surpresa havia uma jovem senhora com suas crianças.

— Ca… calma! — Minha voz estava entrecortada de tanta correria. O peito não conseguia se encher de ar, as narinas ardiam com o cheiro da fumaça; limpei a fuligem da roupa e o suor da minha face. — Não vou fazer mal a sua família.

Uma das crianças começou a chorar de medo. A mãe gritou alguma coisa que eu realmente não… não consigo recordar… ou não posso… sei que deveria!

Sei que o que fiz a colocou em perigo iminente e nem lembro da voz dela.

Logo atrás de mim, na casa da frente, uma explosão das bombas dos granadeiros nos fez cair ao chão com a onda de choque.

— Ahhhh… ahhh… — Por uns momentos… ali naquele chão de madeira empoeirado, sujo e desgastado, senti um zunido forte nos meus ouvidos, o coração acelerado somado à dificuldade de respirar.

Mal pude recuperar minha razão, percebi o ar denso, cheio de fumaça e fuligem.

— Ah… que dor em meu estômago… — Caí sobre algo. Senti cada músculo, até as fibras do meu cabelo doíam. Sentia a fadiga.

Me ergui como pude, tropeçando em meus pés, como se estivesse bêbado; corri para a porta para fechá-la da melhor maneira possível pensando em proteger aquela família.

Apenas escutei o choro desesperado das crianças, e a mãe entre tossir e chorar dizer algo que pudesse acalmar as crianças.

Me virei e olhei aquela cena, mas em minha mente havia um objetivo maior. Eu tinha que chegar até Joules.

— Vocês estão bem? — Sei que disse isso… ou gritei. Naquele momento ambas as coisas pareciam uma só.

Meus ouvidos começaram a ouvir novamente com clareza, sem o som irritante.

Me apoiei nos joelhos tentando recuperar o controle, enquanto do lado de fora se ouvia os disparos, os gritos de ordem.

Então um grito no andar superior da casa que me fez gelar. Era diferente do que estava acontecendo do lado de fora. Era… de terror.

Olhei para a mulher, que tinha uma expressão de não entender a razão do grito. Da escada apertada na lateral da sala da casa, se ouviu o som oco de algo rolando escada abaixo, até parar no térreo, atrás de uma pequena mesa com cadeiras caídas no chão.

Estava ali diante dos nossos olhos.

Levei uns momentos para entender o que era aquela massa diante de nós.

Ao me aproximar um pouco, pude perceber a parte superior de um tronco humano que parecia ter sido cortado ao meio por alguma lâmina.

— Mas… o que é isso? — Meus olhos se arregalaram, e minha mente tentava traduzir aquela imagem. — Isso… isso não… não pode ser!

Quando notei que o corpo gotejava um líquido mais escuro... preto! As memórias vieram. — Meu Deus… — Minha voz falhou neste momento, levei a mão à boca.

Minha cabeça seguia a escada, o que me fez olhar para o teto e um temor em meu coração cresceu.

Do andar de cima um grunhido feroz soou.

Não tive dúvidas, olhei ao redor e para o fundo da casa, foi quando notei que havia uma porta para um pátio traseiro, e que estava aberta.

— Co… corram. Corram para o fundo! — Foi um grito desesperado.

Não pensei muito, tão somente obedeci minhas pernas e meus instintos de sobrevivência. Avancei na direção da mulher e seus filhos. Todos se levantaram e correram para o fundo do ambiente. Tomei uma das crianças nos meus braços — que chorava e me abraçava, chamando por sua… sua… mãe. Oh, Deus! Como lembrar disso me atormenta, me angustia a alma.

A mãe tomou a outra criança até cruzarmos a porta.

Chegando ali, olhei para trás com aquele bebê em meus braços; observei aquele monte de carne no chão da casa da pobre mulher.

— Por favor, que eu esteja errado… Por favor, Deus… — Eu não consegui respirar direito, o peito doía, o ar com fumaça dificultava ainda mais. Os músculos tremiam de cansaço e dor. O corpo… aquele ser… humano?... Não, não sei afirmar… se ele era humano…

Ali no chão… Aquilo começou a vibrar fortemente, os braços se contorciam. Havia um cheiro forte de podridão no ar. Não sei dizer se vinha dele, ou do conflito… suponho que de ambos… Aquela cena não pertencia ao mundo de nosso Senhor.

— Aquilo poderia ser algo vindo do inferno para atormentar a humanidade? — Então… por um momento… um breve instante... aquele ser… parou.

Um silêncio mortal imperou.

Nem disparos, gritos ou mesmo explosões se ouviam. O mundo ficou num silêncio ensurdecedor. Os segundos pareciam levar décadas para avançar.

Logo, do andar superior, vindo pelas escadas, um som de passos pesados... descendo... quebrando aquela frágil redoma de ausência de som.

Naquele momento o desespero aumentou. Uma sensação de que algo abissal estava vindo, sim, algo que eu já havia possivelmente presenciado.

Por uma graça que só posso atribuir ao divino, a nuvem de fumaça negra que estava cobrindo o céu sobre a casa — e a região — passou a se dissipar gradualmente. Aos poucos, os raios amarelos surgiram dentro da casa, como uma luz gloriosa avançando divinamente. Cobrindo progressivamente; da cabeça até a parte faltante do corpo.

Aos poucos o corpo parecia incendiar-se, faíscas saíam de todas as partes, o ser abriu os olhos vermelhos e a boca com dentes pontudos. Começou a se debater empurrando a mesa para o outro lado da sala, e pude ver bem, chamas saindo de seu interior, sua pele se escurecendo como carvão... lento... e claramente fatal para a coisa.

Quando me dei conta, a mãe… ela… estava ao meu lado com o outro filho em seus braços, observando aquela mesma cena hedionda.

A pobre criança que estava comigo… oh, a pobre e inocente criatura estava estática em meus braços, com os olhos fixos no corpo no chão.

Parecia que algo havia sugado sua essência angelical.

Pus a criança no chão; a mãe sem dizer nada tomou sua mão e logo se colocou a andar em direção a um corredor que dava para uma via lateral e, então, à rua de trás.

Ver os olhos… sim… aqueles olhos da criança sem reação, mortos. Me rompeu… quebrou minha alma. Nenhum desses inocentes deveria ver algo tão terrífico como aquilo. Aquela imagem vai perturbar minha mente pelo resto de minha vida.

— Meu Senhor, o que foi isso? Que coisa nefasta é essa que corrompe a natureza? — A angústia tomava minha voz, consumia meu interior.

Aquele momento me fez derramar lágrimas. Derrubando muros que construí.

No andar superior se ouviu que algo foi rompido, como uma explosão. Claramente algo saiu correndo, já que se ouvia seu avanço de parede em parede.

Aqueles estrondos fizeram minhas lágrimas cessarem, parte da razão retornou à minha mente, ainda havia mais coisas ocultas.

Dentro da casa restou apenas um corpo carbonizado… um silêncio e um vazio… como se ali já não houvesse qualquer vestígio do divino.

Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.

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Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Anton S. Miahi – Capítulo XXVII

(Escrito em meu Diário)

"Dei um passo à frente. A batalha me chamava.

E meu sangue... já começava a fervilhar."

Essas foram as palavras que escrevi antes que o caos ganhasse forma e profundidade. O rapaz caído, arremessado através da porta de madeira, começou a vibrar de modo antinatural, contorcendo-se com uma raiva que não pertencia à carne humana. Era uma aberração em nascimento. Algo inumano, um filho de trevas e necrose.

A cruz que Monm me entregara, ainda no quarto de vigília, jazia em meu pescoço, sob a camisa rasgada pelo tempo e pela guerra. Ela ardia em meu peito como se pressentisse o mal.

Monm, sem hesitar, cravou uma de suas longas adagas no coração da criatura e, em um movimento certeiro, separou-lhe a cabeça do corpo com a outra lâmina curva. O som foi o de um graveto partido sob os pés da justiça.

Observei em silêncio. A cena me arrebatava não por repulsa, mas por uma fascinação sombria.

— Já vi essas coisas antes, Anton. São ghouls. Não estamos só com humanos aqui dentro. — Sua voz era calma e firme, como a de quem aprendeu a reconhecer a noite pelo cheiro. — O vampiro que o matou busca cervos que não pensam.

— Certo. Temos vampiros... ghouls... e o que, em nome do inferno, são essas coisas, Monm? — indaguei em voz baixa, uma raiva latejante crescendo com a curiosidade.

— Aberrações, criaturas de um mundo que Deus está tentando esquecer. Mas nós ainda estamos aqui para lembrá-Lo.

A resposta me atravessou como um salmo distorcido. Cruzamos a porta com a cautela de pecadores num santuário profanado.

O salão se abriu diante de nós como a barriga aberta de uma besta adormecida. Era amplo, tomado por caixas empilhadas, mesas de madeira carcomida, cadeiras tombadas. Um portão no lado esquerdo permitia a entrada de água barrenta e de um sol amarelado, espectral, como se brilhasse de um mundo distante.

Do lado oposto, em meio a um semicírculo de corpos, erguia-se uma criatura dos pesadelos da infância. Caminhava sobre duas pernas, mas nada nela era humano. Devia medir mais de 2,40 metros. Os braços longos terminavam em garras que brilhavam como facas rituais.

A cabeça era ornada por brânquias pulsantes. Os olhos, negros, tinham íris cor de jade. Em suas costas, três apêndices semelhantes a guelras aladas, mas retorcidas, exalavam uma névoa verde-musgo que sussurrava orações num dialeto perdido, talvez náuatle, talvez infernal.

— Anton, a criatura está em vantagem. — sussurrou Monm. — Vamos avançar por trás daquelas caixas.

Assenti em silêncio. Rastejamos como sombras famintas.

Do esconderijo, observamos. Quatro ghouls, espectros de carne mordida e alma ausente, enfrentavam a fera. Tinham olhos turvos, unhas roxas e dentes gastos de tanto roer os mortos. Avançavam com fúria cega, mas sem coordenação divina. A criatura se movia com uma elegância brutal, uma dança de terror e sobrevivência.

Um ghoul foi partido ao meio com um golpe vertical. O outro teve o crânio esmagado pela garra esquerda. Os dois restantes tentaram contornar o monstro, mas a névoa os alcançou. Era um veneno de alma, drenava vontade e luz. Caíram de joelhos, como penitentes corrompidos.

— Aqueles são vampiros poloneses. — sussurrou Monm. — Provavelmente membros do clã Zmora. Eles dominam o miasma e a mente. Têm agilidade acima do comum, e suas lâminas cortam através da fé. Um deles, o de cabelo branco, é Kazimierz. O outro é Dawid, usa duas rapieiras.

Antes que eu pudesse responder, um dos ghouls foi arremessado em nossa direção, revelando nossa presença. O inferno nos acolheu de vez.

Erguemo-nos. As armas, encontradas por acaso num armário durante a noite em que Monm e Siehiffar me resgataram, já estavam em nossas mãos ao entrarmos no armazém. Monm empunhava suas duas adagas longas de prata, e eu segurava firmemente uma rapieira negra de origem desconhecida, também achada naquele momento. Quando o corpo do ghoul foi arremessado para junto de nós, perdemos as armas por alguns segundos no impacto. Mas logo as recuperamos, firmando posição como sentinelas diante da tormenta. Os vampiros nos encararam como caçadores observando uma presa que ousa se armar.

Kazimierz veio primeiro. Deslizou pelo chão com graça férrea. Saltou, girando no ar, e tentou um golpe diagonal com sua adaga de osso. Bloqueei por um triz. A força era assombrosa. Respondi com uma estocada ao flanco, mas ele evaporou em sombra e reapareceu atrás de mim.

— Anton! Cuidado com as ilusões dele! — gritou Monm, lutando com Dawid, que duelava como um dançarino sacrílego.

Monm esquivava-se com maestria. Uma rapieira o raspou no ombro, e ele respondeu com uma adaga cravada na coxa do inimigo. Dawid uivou, o som foi o de vidro estilhaçado por dentro.

Kazimierz tentou morder-me. A cruz sob minha camisa brilhou, e ele hesitou. Aproveitei. A rapieira cortou-lhe o rosto da sobrancelha ao maxilar. Ele recuou, cuspindo sangue negro e blasfêmias em latim corrompido.

— Você ainda reza, humano? — cuspiu.

— Não. Mas minha espada sim. E ela foi batizada.

Golpeei com toda minha força. Kazimierz desviou, mas não viu Monm vindo por trás. Uma das adagas cravou-se em sua nuca. Kazimierz caiu de joelhos. Com um grito, cruzei minha lâmina com a de Monm e decapitamos o maldito.

Dawid, ao ver o fim do irmão, recuou. Mas Monm, agarrando uma perna de cadeira quebrada que jazia próxima a ele, lançou ao chão um punhado de sal marítimo — remanescente de uma das caixas estilhaçadas nas lutas anteriores. O vampiro gritou. Suas pernas queimaram. Corri, saltei, e cravei minha rapieira — não herdada, mas encontrada por acaso como as armas de Monm — em seu peito. Monm finalizou com a estaca improvisada, direto no coração.

Ambos tombaram. O salão silenciou por um instante, até que uma voz gutural rasgou o ar com força ancestral:

— Váš svět se lembrará de mim! Eu sou Václav Vlk! — rugiu o vampiro, a voz mais parecendo um brado bestial do que uma frase compreensível. Não falava com ninguém em particular, mas gritava para a criatura.

Aquela cena proporcionada pelo vampiro nos deu a impressão de ser um clamor de coragem desesperada, uma tentativa de reacender em si a fúria da batalha, como se evocasse sua própria alma pelo nome. Era seu modo de desafiar o abismo com o que lhe restava de bravura.

A fera recuou, como se reconhecesse o nome. Václav, o vampiro que já estava presente desde nossa entrada no armazém, avançava com uma alabarda manchada de um líquido verde claro e tão vivo numa mão e uma pistola de pederneira prussiana na outra. Seus olhos cintilavam com um brilho febril, como de um passado que sangrava na memória da criatura.

O ser imenso começou a recuar, murmurando com insistência, como se as palavras brotassem de um passado ancestral esquecido:

— Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl... Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl...

Monm franziu a testa, sua mente mergulhando em lembranças distantes.

— Anton... esse dialeto... me soa familiar. Mas não é latino. Nem é náuatle puro. O que é isso?

— "Tetl"... pedra. "Tlachinolli"... fogo. Eu li isso num códice maia esquecido, salvo pelo convento de Oaxaca. É náuatle ritual... algo sobre guerra sagrada... sobre o coração do mundo. "In cemanahuac yolotl"... "o coração do mundo inteiro"...

— E por que ele está dizendo isso?

— Porque, Monm... ele está se lembrando de quem foi. Ou do que destruiu...

O silêncio voltou a cair como um véu, denso e prenhe de presságios. E eu sabia... o verdadeiro combate ainda estava por começar.

Anton S. Miahi – Capítulo XXVIII

(Escrito em meu Diário)

Václav Vlk avançou contra o monstro com uma fúria que desafiava qualquer concepção de medo. Não havia espaço para hesitação, tampouco para pensamentos racionais. O combate apenas prosseguia, como um cântico infernal que se recusava a cessar. Por um instante, a criatura permaneceu estática, repetindo aquele mantra estranho — uma ladainha de tempos esquecidos. Monm e eu trocamos um olhar rápido, buscando decifrar o significado oculto.

Foi então que percebemos a presença de dois indivíduos ocultos, agachados próximo às caixas na esquina esquerda do portão inundado. Um deles, trajando roupas negras, tentou se mover com discrição, mas foi percebido. A criatura virou o rosto lentamente, e o vampiro também.

Num átimo, Václav dissolveu-se em névoa, reaparecendo diante do fugitivo. Antes que qualquer um de nós pudesse intervir, o vampiro exibia um sorriso sádico. Num gesto fluido, agarrou o pescoço do homem e cravou-lhe os dentes. Um grito agudo ecoou pelo salão, reverberando entre as paredes úmidas. O infeliz debatia-se, mas sua luta cessou gradualmente. O sangue cessou de fluir.

Sim. Ele estava morto.

Monm e eu partimos em direção ao vampiro. Por um instante, minha mente esqueceu a fera ao lado direito. Esse lapso foi imediatamente punido: uma mão colossal me atingiu com brutalidade, lançando-me contra uma pilha de sacos de arroz e caixas despedaçadas. Senti as costelas rangerem.

Václav riu, limpando os lábios com o dorso da mão.

— Que pena, Monm... pensei que viesse com palavras santas. Mas tudo o que vejo são punhais e arrogância.

Monm não respondeu com palavras, mas com um salto fulminante. Suas adagas cintilaram sob a luz turva do galpão. Václav bloqueou o primeiro golpe com a lâmina da alabarda, girando o corpo com leveza, como se dançasse. A arma passou rente ao rosto de Monm, que se abaixou, deslizando por baixo da guarda do inimigo e desferindo um chute na perna do vampiro. O estalo foi seco, mas Václav mal se moveu.

— Já fui caçado por inquisidores, Monm. Você não é o primeiro... e, convenhamos, também não será o último.

— E ainda assim continua vivo. Deve ser frustrante para o inferno te ver de volta toda noite — retrucou Monm, arremetendo com a adaga da esquerda, mirando o ombro. Václav aparou com o cabo da alabarda, recuou e, com a pistola de pederneira na mão livre, disparou.

Monm rolou para o lado, o disparo arrancando faíscas das pedras do chão. Ele se lançou por cima de uma mesa caída, chutando uma cadeira em direção ao vampiro, que a partiu em dois com a lâmina. Antes que pudesse recuperar o fôlego, Monm já estava sobre ele, desferindo uma série de estocadas com precisão cirúrgica.

— Tua dança está velha, Vlk. Seus passos já não assustam ninguém.

— Ainda assim, fazem sangrar! — gritou Václav, golpeando com a haste da alabarda, acertando Monm no flanco. O som de carne e osso sendo atingidos me fez estremecer.

Mas Monm apenas sorriu, com os dentes cerrados.

— Isso doeu. Mas agora... é minha vez.

Num movimento inesperado, Monm agarrou o pulso do vampiro, torceu-o e cravou a adaga na articulação. Václav urrou, deixando cair a pistola. Um golpe certeiro no queixo, e o vampiro cambaleou. Monm chutou seu peito, lançando-o contra uma coluna. A alabarda caiu. Václav se ergueu com dificuldade, o rosto emoldurado por sangue e ira.

— Isso... é por cada alma que você devorou — sussurrou Monm, avançando como um anjo vingador.

Enquanto o combate continuava, tentei me erguer entre a poeira e o arroz espalhado. A dor irradiava das costas e ombros como brasas sob a pele, mas havia uma centelha de gratidão em mim: benditos sejam os sacos de arroz.

Ao virar o rosto, vi um jovem de traços juvenis — talvez quinze anos, ou um pouco menos. Tremia, choramingava, e fazia preces em alemão — palavras que reconheci vagamente de minha infância em Sevilha, quando um velho tutor luterano me ensinava os ecos esquecidos de salmos germânicos, como relíquias de um passado que se recusava a perecer.

Aproximei-me devagar, sem ameaçar.

— Junge... Junge, bist du verletzt? (Garoto... você está ferido?)

Ele olhou para mim com olhos arregalados. Estava pálido como um cadáver recente, mas vivo.

— Ich... ich weiß nicht... sie haben uns geholt... sie... — Ele começou a soluçar, cobrindo o rosto com as mãos trêmulas.

— Calma... estás seguro por ora. Qual é o seu nome?

— Friedrich. Friedrich Kröger... Ich bin aus Lübeck... (Sou de Lübeck...)

— Friedrich, ouça-me. Você precisa sair daqui. Há uma porta nos fundos. Quando ouvir um estouro — corra. Monm e eu vamos manter essa coisa ocupada.

Ele assentiu lentamente, os lábios movendo-se em oração muda. Seu corpo era só medo, mas os olhos — havia fé neles. Uma fé ainda não devorada.

E naquela hora, percebi que não lutávamos apenas contra carne e ossos distorcidos. Lutávamos para salvar os que ainda lembravam como orar.

Foi nesse momento que a fera urrou, um grito gutural que reverberou nos ossos: não era uma palavra comum, mas um nome — o dele mesmo, urrado com fúria primal.

— Nēhuatl Aloxōtl... Tlāltikpak tzitzimitl! — bradou a criatura, em um dialeto ancestral que escapava das dobras do tempo.

A criatura tornou a rugir, reafirmando seu nome como quem sela a própria maldição:

— Nēhuatl Aloxōtl... in nemiliztli cualli, in miquiztli tlachinolli!

Logo após, num bramido carregado de uma dor que parecia milenar, sua voz rompeu mais uma vez o ar saturado:

— Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl!

— Isso foi... nahuatl? — perguntei, franzindo o cenho, tentando vasculhar a memória por aquela cadência extinta.

A criatura tornou a rugir, como se se recordasse de sua própria maldição: — Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl! — bramiu com raiva quase febril.

— "Pedra e fogo... o coração do mundo... não foi ofertado..." — murmurei, traduzindo de forma tosca e instintiva, com um nó na garganta.

Monm girou o rosto, os olhos arregalados.

— Aloxōtl... ouvi esse nome numa ruína perto de Tenochtitlán. Era um espírito de destruição. Um condenado. Um ser que não devia estar aqui.

— Pelo que li em manuscritos antigos — sussurrou Monm, quase em reverência —, não se trata de um deus, mas de algo que ousou aspirar à divindade. Uma entidade do submundo asteca, forjada nos confins insondáveis de Mictlán. Durante um ritual arcaico, o sacerdote incumbido do sacrifício final hesitou, e nesse instante de fraqueza, o processo foi interrompido. Em vez de ascender ao plano dos deuses, a entidade se amalgamou à carne de seu invocador — um sumo sacerdote já corrompido pela ambição e pelo sangue. Desde então, vagou pelas fronteiras da existência, presa entre mundos, entre o éter e a matéria. Forças ocultas, possivelmente ligadas a ritos de translocação do Velho Mundo, o arrancaram de seu tempo e o lançaram para cá, como uma relíquia maldita do México ancestral, retida entre o ontem e o eterno, entre a morte e a memória sagrada.

A criatura urrava para o vazio: uma besta tentando lembrar a si mesma de que ainda existia — ou, talvez, anunciando sua danação ao mundo. Václav hesitou por um breve instante, distraído pela súbita irrupção daquela brutalidade animalesca.

Monm, atento como um lobo à espreita, percebeu a brecha. Estava de frente comigo, tendo o vampiro entre nós. A criatura se encontrava à esquerda de Václav, a mais de dez metros, ainda imersa em sua fúria desgovernada. Aquela era a chance. Nossos olhos se cruzaram, e sem necessidade de palavras, compartilhamos um plano silencioso: era preciso agir com rapidez. Com um leve movimento de cabeça, Monm sinalizou que, a qualquer momento, eu deveria correr.

Václav então se voltou para a criatura, em tom zombeteiro:

— Quem és tu, besta? Um espírito faminto preso em carne e osso? Um cão molhado rosnando contra os vivos? Esperava mais de um espectro milenar!

A criatura respondeu com um grunhido gutural, o som de séculos de ódio condensado em um só instante. Monm, sem perder o ritmo, rebateu com sarcasmo:

— Cuidado, Vlk... alguns cães mordem mais forte que o inferno.

Enquanto a tensão crescia entre as feras, deslizei pelas sombras, cada passo sussurrando segredos ao chão. Mas o monstro percebeu. Seus olhos faiscaram com fúria repentina. Num rompante animalesco, lançou-se contra mim.

O impacto foi devastador. Rolei para o lado, escapando por pouco das garras que despedaçaram o solo. A criatura girou com velocidade absurda, mas eu já me esgueirava entre colunas e destroços. Era a dança do desespero.

Monm aproveitou o momento. Saltou sobre um caixote, alavancando o próprio corpo com as duas lâminas empunhadas. Ignorando a fera, lançou-se diretamente contra Václav Vlk, mirando-lhe a garganta com precisão mortal. Um golpe que teria sido fatal — se Vlk fosse um homem comum. Ao aterrissar, Monm ficou perto demais do monstro, que girou com brutalidade e o lançou contra uma pilastra com um baque seco. Mas ele se levantou, os olhos ainda fixos em Vlk. Era ali que residia o verdadeiro perigo.

Enquanto isso, avancei com ele, olhos cravados na figura do vampiro.

Friedrich, o jovem alemão, permanecia em silêncio, oculto nas sombras, até que recebeu um sinal sutil de minha parte: quando chegasse o momento certo, deveria correr.

Vlk, com seu sorriso cruel e presunçoso, continuava a provocar a fera, divertindo-se com o caos.

— Essa tua arrogância vai te enterrar mais fundo do que essa criatura, Václav — retrucou Monm, sem vacilar.

A fera, enlouquecida, desviou seu olhar em minha direção, captando o rastro dos meus movimentos furtivos. O instinto selvagem tomou o leme; o pouco de controle que ainda restava se desfez.

Num novo surto de fúria, a criatura investiu contra mim. Esquivei-me com precisão treinada — cada gesto ensaiado como um ritual de sobrevivência. E o combate explodiu como um trovão em plena catedral: brutal, frenético, cruel.

Lutávamos: carne contra garras, aço contra ossos. Minha lâmina rapieira feria, desviava, provocava — açoite de precisão em meio à selvageria. Os dentes da besta rasgavam o ar, tentando encontrar minha carne, mas seus ataques falhavam por um fio de segundo, desviados pelo instinto que a dor e o medo haviam aguçado em mim. Ao fundo, Monm, já de pé, avançava novamente contra Václav Vlk, forçando o vampiro a recuar entre imprecações sibilantes e risos ácidos como fel.

A batalha era uma tempestade viva: o cheiro metálico do sangue e da carne queimada flutuava no ar, entrelaçado ao som de passos frenéticos e urros que pareciam brotar das entranhas do próprio inferno.

Friedrich, os olhos arregalados como espelhos de pavor, aguardava — só aguardava — o instante certo para fugir, enquanto ao seu redor o destino se desenrolava em aço e sombras. Sinalizei com um gesto firme, apontando a porta estilhaçada pela colisão com o cadáver do ghoul. Sem hesitar, ele correu. Não olhou para os lados, não gritou, apenas correu, com a alma cravada no instinto de sobrevivência. Ele realmente queria viver.

Não que Monm e eu não desejássemos o mesmo — mas sabíamos demais. Estávamos presos àquele lugar por laços que transcendiam o medo: honra, missão... ou maldição.

Movi-me entre pilhas de caixas, escombros e colunas rachadas, buscando uma posição vantajosa. Quando encontrei um ponto seguro de onde pudesse agir, sinalizei ao meu aliado. Monm captou o gesto, e então — como um maestro no ápice de sua sinfonia — investiu contra o vampiro com uma série de ataques fulminantes. Seus golpes eram rápidos e certeiros, movendo-se com a precisão de um guerreiro treinado além do tempo. Vlk, por sua vez, desviava-se com a graça de um predador antigo, empunhando uma alabarda com uma fluidez quase coreográfica.

Foi nesse instante que percebi algo além. O vampiro começara a recitar palavras em um idioma antigo, estranho e profundamente blasfemo. As vibrações desse discurso pareciam rachar o próprio ar. E então, surgiu uma nova presença.

Sentado sobre um monte de caixas quebradas, havia um ser cadavérico. Usava o que parecia uma coroa retorcida, um cajado disforme nas mãos esqueléticas, e vestes que lembravam restos de veludo cerimonial misturado a mortalhas profanadas. Sua pele era fina como pergaminho seco, e seus olhos... vazios, gélidos, observavam a cena com a paciência de um juiz das eras.

Não havia tempo para contemplações. Voltei-me para o vampiro justo no momento em que Monm me fez novo sinal. Sem palavras, compreendi: o ataque final viria agora.

Monm investiu com fúria controlada. Suas duas adagas riscaram o ar em movimentos oblíquos e alternados, forçando Vlk a recuar até a grande mesa redonda que jazia no centro do salão em ruínas. A madeira rangeu sob seus pés. O vampiro tentou usar a alabarda, mas Monm a prendeu com um giro acrobático de uma das lâminas, enquanto a outra ameaçava sua garganta — travando-o por um instante precioso.

Aproveitei. Lancei-me com toda a força contra o flanco do inimigo. O impacto o desequilibrou — e foi o bastante. Monm saltou, girando no ar como uma sombra viva, e desferiu o golpe final: um corte horizontal que atravessou o pescoço de Vlk. O som foi abafado, como se o tempo se comprimisse ao redor do aço. A cabeça tombou com um baque surdo, rolando pela mesa antes de cair ao chão, estalando contra as pedras como um cálice profano.

O corpo do vampiro ainda estremeceu, como se tentasse agarrar os últimos instantes de uma eternidade roubada. Depois, tombou — e a escuridão ao seu redor pareceu estremecer com seu fim.

Ofegantes, Monm e eu trocamos um olhar — sabíamos que aquilo era apenas o prelúdio. Pois o ser que nos observava, imóvel, ainda não havia feito seu movimento. Mas a criatura — o monstro ancestral — também o percebeu.

Ergueu-se com violência, liberando ao redor uma nuvem de névoa pútrida e tóxica que nos obrigou a recuar alguns passos. O ar se tornava mais denso, os olhos ardiam, e o coração parecia pulsar em outro ritmo diante daquela emanação sobrenatural. Então, como se tomada por uma cólera divina, a criatura bradou seu próprio nome com voz que reverberava nas entranhas do templo:

— Aloxōtl!

E, com a mesma fúria, bradou o nome do reino que a pariu nas trevas:

— Mitclan!

Num ímpeto de fúria atávica, Aloxōtl lançou-se sobre o visitante cadavérico, suas garras envoltas pela neblina venenosa que exalava como um manto de morte. O ar vibrou com a colisão iminente. Mas o estranho se ergueu com uma calma profana, como se cada movimento seu estivesse sintonizado com os relógios do juízo. Quando a criatura alcançou seu alcance, ele ergueu o cajado, que brilhou com uma luz âmbar soturna, desviando o golpe com um arco de energia espectral. Antes que a criatura pudesse contra-atacar com as presas escancaradas, ele girou o cajado como um bastão de sentença, bloqueando a mandíbula infernal com precisão inumana. O som do impacto ecoou como um trovão abafado num túmulo selado — e a batalha transcendia agora os limites da carne, entrando no domínio das forças esquecidas.

A cena que víamos, tanto eu quanto Monm, beirava o patético — mais para nós do que para o recém-chegado. Pelo simples fato de que ele parecia não empregar esforço algum em conter o Aloxōtl.

— Ele... está brincando com ele? — sussurrei, mantendo os olhos fixos na criatura cadavérica.

Monm, limpando o suor da testa com as costas da mão, assentiu com um leve movimento de queixo.

— Parece mais uma dança que um duelo — murmurou. — Mas quem, em nome do Altíssimo, é esse sujeito?

Como se ouvisse a pergunta lançada ao éter, o ser virou-se lentamente para nós. Seus olhos, vazios como a eternidade, cravaram-se nos nossos.

— Chamo-me Tezcal — disse, a voz de barítono soando como um canto sepulcral. — Fui criado das cinzas e do lodo pantanoso do Mitclan, uma fusão sombria de elementos terrenos e divinos, infundida com o sangue de Xolotl. Sou o reflexo entre os mundos. Moldado como um intermediário entre os vivos e os mortos, minha existência tem como objetivo manter o equilíbrio no ciclo da vida e da morte.

— És um necromante? — perguntou Monm, dando um passo adiante.

— Não — respondeu Tezcal, com calma imperturbável. — Sou o eco dos que caminham sem corpo, a vigília dos que repousam em ossos. Não comando os mortos. Eu os ouço.

O silêncio que se seguiu era denso, quase sólido. Aloxōtl, apesar da fúria anterior, recuava em círculos lentos, como um animal que pressente uma força que transcende sua fúria.

— E por que agora? — perguntei. — Por que intervir presentemente?

Tezcal apoiou o cajado no chão. O som ressoou como se ecoasse nas catacumbas do mundo.

— Porque o véu entre os mundos foi rasgado. Vocês o rasgaram. E ele... — olhou para Aloxōtl, cuja névoa começava a perder intensidade — não deveria ter atravessado.

Monm cerrou os punhos.

— Vai destruí-la?

— Não — respondeu Tezcal. — Vou devolvê-lo ao sono que jamais deveria ter sido interrompido.

Tezcal começou a murmurar. Um canto em dialeto azteca, antigo como os ossos da terra, deslizou de seus lábios como uma oração invertida. Gradualmente, o sussurro tornou-se canto pleno, ressoando nas paredes com ecos que pareciam vir de debaixo da pele do mundo. O ar gelou — não com frio comum, mas com o gélido das tumbas abertas. As sombras, até então imóveis, começaram a deslizar pelo chão como serpentes, convergindo para o recitador.

Aloxōtl, num último ato de cólera, tentou investir contra Tezcal — suas garras enegrecidas pelo veneno, sua boca aberta num rugido ancestral. Mas o ambiente pesava como chumbo, e a própria matéria parecia se curvar ao rito.

— Anton... — sussurrou Monm. — Isso... isso é um ritual de banimento?

— Parece mais um julgamento — respondi, com a mão instintivamente sobre a cruz que repousava sob meu manto. E ela queimava. Queimava com um brilho índigo, como se o céu clamasse por ordem.

Tezcal então silenciou. No mesmo instante, a criatura foi tragada do chão por uma areia negra e espessa, que brotou sob seus pés como uma fauce aberta. O som era de carne sendo puxada por ganchos, de ossos esmagando vidro. O odor de carne podre, sangue envelhecido e enxofre empestou o ar. E antes que pudéssemos reagir...

— Não... isso não é apenas magia — tentei dizer, mas a frase morreu em minha boca.

Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Supplicatio Damnata - (Súplica dos Condenados)

Sem data — Meu despertar foi pesado. Lento. Tardei a abrir os olhos, como se houvesse em mim um receio instintivo de confrontar o que quer…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Anton S. Miahi XXV

(Escrito em meu Diário)

Sem data — Meu despertar foi pesado. Lento. Tardei a abrir os olhos, como se houvesse em mim um receio instintivo de confrontar o que quer que o mundo, em sua crueza, tivesse a me oferecer. Havia uma sensação estranha, como se algo em minha mente tivesse sido libertado — uma prisão sutil se desfazendo em fragmentos de lembranças. E então, o recordar do encontro com Var’Ghul, a criatura que invadira meu íntimo, expondo segredos que eu mesmo havia enterrado, julgando-os mortos para sempre.

Lá estavam: memórias, sentimentos, angústias... todos exumados com a delicadeza brutal de um coveiro sem alma.

Mas algo me chamou a atenção. O frio — companheiro constante — havia desaparecido. Nem vento, nem chão gelado. Em seu lugar, um calor tênue, uma quietude... uma maciez que envolvia meu corpo fatigado. Abri lentamente os olhos. A luz era suave, amarelada, e sombras dançavam pelas paredes como espectros tímidos.

E então, uma imagem tomou forma: um rosto gentil, sereno, com olhos doces e convidativos. Seus cabelos eram longos e escuros como a noite sem luar. Sua beleza era ímpar, angelical — exótica demais para que eu pudesse descrevê-la com justiça.

De súbito, ergui-me num pulo, quase instintivo — alerta, ainda tomado pela sensação de ameaça. Meus olhos percorreram o ambiente, buscando pistas, tentando entender onde me encontrava.

Ela sorriu com delicadeza. Sua presença, no entanto, não transmitia hostilidade.

— Siehiffar, é como me chamo — disse ela, num tom baixo e educado. Sua voz, de contralto, era como música em câmara fechada — ressoava macia, íntima. — Você é um dos moradores do castelo... daqueles que foram convidados! — Havia uma curiosidade tênue em seu falar, uma leveza que ocultava um mundo de experiências.

— Chamo-me Anton Stefan Miahi. Sou historiador... e oficial do exército francês — respondi, sem saber por que minha língua se soltara com tanta facilidade. — Ainda estamos no Castelo de Drácula?

Deixei os ombros relaxarem, adotando uma postura menos defensiva.

Ela trajava um esplêndido vestido azul, ricamente adornado com rendas em prata e bordados dourados que pareciam brilhar à luz da lareira. Uma tiara dourada repousava em seus cabelos, cravejada de pequenas pérolas e pedras translúcidas. Seus colares pendiam delicados sobre o colo, compondo uma figura que evocava tanto realeza quanto mistério.

— Sim, estamos. Onde mais deveríamos estar? — disse, agora com um sorriso zombeteiro, embora isento de malícia. Seu olhar era jovial, sagaz — um jogo sutil entre o encanto e a astúcia.

— Entendo... — murmurei, hesitando. — Como vim parar neste cômodo? Quem me trouxe?

A pergunta brotou da angústia. Havia algo naquele lugar — em mim — que não se encaixava.

Ela demorou a responder. Voltou-se para a lareira, estendeu os braços até uma pequena mesa de centro. Nela, duas xícaras de porcelana branca, ornadas por folhas azuis, repousavam ao lado de uma chaleira do mesmo padrão, da qual ainda subia um fio de vapor.

Com delicadeza, ela serviu o chá. Estendeu uma das xícaras a mim, reservando a outra para si. Tomei a que me fora oferecida. Ela sorveu um gole com tranquilidade antes de falar.

— Uma pessoa o trouxe até aqui. O senhor estava desacordado. Havia sangue em muitas partes de seu corpo. Suas roupas, rasgadas — disse, pausando para olhar o fundo de sua xícara. — Var’Ghul é uma criatura estranha. Suas ações são, para mim, um mistério constante. Nunca o vi com meus próprios olhos... mas já encontrei os que ele chama de “réus”.

Ela me fitou com uma expressão de pena e estranha curiosidade. Algo em seu olhar fazia minha pele se arrepiar.

— Mortos... ou vivos. Os vivos raramente saem incólumes desses encontros — murmurou, quase triste. Havia em sua voz um eco de vivências amargas. — Senhor Miahi, o castelo chamou por você. Estar aqui é privilégio para alguns, uma saída para outros... mas há quem veja tudo isso como uma prisão. Qual é a sua visão?

A pergunta me atravessou como uma lâmina fria. Ela dissera com tanta leveza... e, no entanto, a questão me lançou ao abismo do pensamento.

Não vim apenas para aprender. Vim para questionar o impossível. E em troca recebi a quebra de paradigmas, a dilaceração da fé, a desconstrução de minha identidade. O castelo tornou-se espelho de tormentos. Um mosaico maldito de enigmas e horrores.

— Este lugar era para ser um templo do saber, senhorita — disse, tentando conter o tremor na voz. — Mas revelou-se um mar tempestuoso. Um quebra-cabeça sujo de sangue e sombras.

— Nem tudo é o que parece — disse ela, indulgente. — Talvez exista algo além. Algo mais...

Antes que ela pudesse concluir, deixei escapar uma risada amarga, quase histérica.

— Neste lugar, senhorita Siehiffar, quase fui morto. Fui levado a outros mundos. Transformaram-me em algo que mal reconheço — meio homem, meio máquina, um híbrido nascido da dor. — Caminhei até a parede e, com meu braço mecânico, esmaguei os punhos contra a pedra com força. — Já vivi horrores antes. Mas nada... nada como isto.

As semanas — os meses — foram apenas sucessivas descidas numa espiral de insanidade. E, mesmo assim, minha maldita curiosidade, minha obsessão em resolver os enigmas... mantinham-me aqui.

— Pois deveria parar de chorar! — rugiu uma voz atrás de Siehiffar. Reconheci de imediato o timbre grave e metálico de Monm.

Ao me virar, lá estava ele, encostado como uma sombra sólida.

— Para um homem que sobreviveu à guerra, parece frágil como vidro — zombou.

Uma mescla de raiva e incredulidade apoderou-se de mim.

— Você sabe que nada do que vivi aqui poderia ser suportado por uma mente comum! — apontei o dedo para ele com fúria contida. — Revivi a morte de meu irmão. Vi o espírito dele... ou aquilo que tomou sua forma. Não sou homem de fé, Monm, mas o sobrenatural me golpeou até que eu sangrasse por dentro.

Ergui meu braço mecânico, adornado com os circuitos do éter. Um símbolo da monstruosidade que haviam me imposto.

— Vamos, Anton... — disse Monm, num tom paternal. — Estás apenas despertando. O mundo tem segredos, e nós conhecemos só uma fração do todo. Tu agias com complacência... e agora, te vês à beira do abismo.

Ele se aproximou mais.

— Cuidado, homem... quem olha demais para o abismo, acaba por ser olhado por ele. E há os que não voltam mais.

Silêncio. A pergunta pairou no ar como um punhal.

— Qual é o caminho que seguirás?

E eu... não soube responder.

Anton S. Miahi XXVI

(Escrito em meu Diário)

10 de novembro de 1871 — Vi-me surpreso quando questionei Monm sobre a data. Em minha mente, acreditava terem se passado somente algumas poucas semanas. O último registro datado remontava a agosto. Esquecera-me de como o tempo, neste lugar é instável, maleável — como se fosse manipulado por mãos invisíveis.

Segundo Monm, estive desacordado por três dias. Quanto aos períodos anteriores… um completo mistério. Mesmo minha estadia na prisão-laboratório de Arturo é um borrão. O confronto com a fera na Igreja parece ter ocorrido há séculos e, ao mesmo tempo, ontem.

Ainda recordo aquele senhor barbudo. Julgo que fosse um líder entre os seus. Solicitou que eu aceitasse algo — o quê, exatamente? Ah, sim... "a verdade da Igreja." Isso mesmo. Soou estranho à época, mas agora me é quase familiar.

Apesar de o reencontro com Monm ter começado de forma um tanto acalorada, logo tive oportunidade de ponderar e buscar respostas. Indaguei-lhe sobre o povoado ao norte, e a Igreja ali presente.

— Monm, quem são aqueles monges que vivem no povoado ao norte do castelo? — Observei o viajante, concentrando nele todo o peso do meu olhar e da minha expectativa.

Ele fitou a lareira, inspirando fundo, como se buscasse forças num passado distante.

— Não achei que se lembraria... mas esqueci que os chamados para este castelo têm algo em comum: seus registros. Certo... — sua pausa foi pesada, quase teatral. Uma sombra de frustração lhe desfigurou o semblante. — Eles são um grupo que, nesta linha do tempo, não teme os eventos do castelo. Parece tratar-se de uma ordem religiosa oriunda da Prússia. Alguns de seus monges... foram corrompidos por Nestor. Aquele vampiro possui o dom de seduzir mentes frágeis.

Essas informações me deixaram inquieto. Uma Igreja prussiana? A Prússia tem garras longas, penetrando em todos os confins. Se vinham de lá, podiam ser católicos, luteranos… ou dissidentes, tachados de hereges, como os de certos grupos na Holanda.

— Presumo que o convite que recebi tenha sido armado por um desses monges. Recordo-me de que era bastante jovem. Pena não ter memorizado sua fisionomia... — Senti minha frustração aflorar. Talvez, se o tivesse observado melhor, poderia agora persegui-lo. — No grupo, há um homem de longa barba branca? Robusto, talvez?

Monm refletiu. Fitou o chão como quem escava a memória. Seus olhos brilharam ao encontrar algo.

— Ah, sim. Esse homem vem da Holanda. Chegou a estas terras há alguns anos, com quase nada. Um andarilho comum. Seu sobrenome é Hans... o nome, Sander. Sander Hans, é assim que se chama. Por quê? — indagou, num tom apático.

— Após meu confronto com a besta vinda do espelho — trazida por um dos monges — ,fiquei caído, ferido. Ele, o tal Sander, falou algo sobre aceitar a verdade da Igreja... que somente isso poderia me salvar. — Minha voz vacilou, mergulhada em uma memória incômoda. Nunca fui de crer em entidades superiores… — Mas, naquele momento, eu queria viver.

Todos os olhares voltaram-se para mim. Um desconforto silencioso se instalou. Um prenúncio.

Siehiffar ajeitou-se no sofá. Seus olhos cintilavam com genuína curiosidade, enquanto Monm apenas mantinha sua atenção fixa em mim.

— Senhor Miahi, que relato peculiar. — Um brilho quase infantil tomou o rosto de Siehiffar, como se houvesse desenterrado uma relíquia. — Então... algo já havia começado antes. Achei que o encontro com a criatura de Olga fosse o início. Mas não. Já havia ecos meses antes.

— Você disse: "criatura da Olga"? — Não pude conter minha surpresa. — Var’ghul foi criação da Olga?

O olhar de Monm para Siehiffar era carregado de reprovação. A jovem mordeu os lábios — como quem se arrepende da travessura dita.

— Siehiffar, às vezes o silêncio é a melhor escolha. — disse Monm, soando como um mestre que repreende a pupila. — Sim, Var’ghul é uma criatura forjada aqui, no castelo. Uma consequência maldita dos experimentos de Drácula com o éter... com objetos, com almas condenadas.

Eu queria não acreditar… mas depois de tudo — depois de ver meu próprio corpo se tornar híbrido de homem e máquina, tal revelação já não me feria com tanta força.

— Certo, certo. — disse Siehiffar, desviando o peso da conversa. — Abdalla, perdão... esses fatos são novos para mim. Mas parece que a fé tornou-se uma chave essencial ao senhor Miahi, ainda que ele próprio não o perceba.

Monm meditou sobre aquela fala, então caminhou em direção ao cesto de lenha, agachando-se em silêncio. Seus gestos denunciavam que arquitetava algo em sua mente.

— Abdalla? — questionei, em voz alta.

— Sim, é esse o nome dele. Não sabia? — Siehiffar soltou uma risadinha e levou a mão à boca. — E eu me chamo Siehiffar Monm.

Essas revelações fizeram-me recostar na poltrona ao lado do sofá onde ela estava.

— Não sabia. Monm nunca me contou. A bem da verdade, nunca tivemos tempo para conversas. Sempre havia algo... interrompendo tudo — falei, quase com incredulidade.

— Anton, isso não é o foco. — A voz de Monm cortou minha dispersão, trazendo-me de volta ao núcleo do mistério. — Há muitas coisas que não pude, não posso e jamais poderei revelar. Siehiffar cresceu neste lugar. Seus olhos veem o mundo de forma distinta. Até para mim, às vezes, ela é um enigma. Uma aprendiz que instiga seu próprio mestre.

Notei, enfim, o ar místico que pairava ao redor dela. Uma presença diferente de tudo o que eu já havia experimentado. Algo nela era... profundamente incomum.

— Var’ghul encontrou um modo de me chamar. — disse Monm. — Aquela criatura é tudo, menos injusta. Quando o encontrei caído em sua torre de julgamento, havia algo em sua mão. A criatura afirmou não tê-lo deixado lá.

De seu bolso, Monm retirou uma corrente e, logo em seguida, um pingente... uma cruz.

Aproximei-me. À luz da lareira, percebi seu contorno singular: pesada, de metal negro, com uma pedra central roxa. Nos extremos, pequenas pedras azuladas, reluzentes.

— É uma ametista. E essas pequenas são labradoritas. — explicou com voz serena, sempre professoral. — Tome. Pelo que sei, é sua.

Ergui meu braço alterado. Ainda era estranho vê-lo assim: mecânico, frio, tão alheio à carne que um dia o cobriu. Aproximei a cruz dos olhos, examinando seus entalhes. Era bela... e estranhamente familiar. Como se murmurasse meu nome do âmago da alma.

Assim que aquele objeto tocou o metal de meu braço, senti algo — primeiro, uma ansiedade crescente; depois um formigamento sutil. A sensação não me era estranha. Já a havia experimentado antes. Sim… com Monm, nos primeiros contatos com as distorções temporais e, mais tarde, na adega do castelo, ao lado de Áurea. Aquilo fora assombroso — um entrelaçar de lembranças minhas e dela, como se o tempo ali não mais obedecesse a Deus.

— Essas sensações do éter e das torções do tempo são incômodas — murmurei.

— Incompreensíveis, até para mim — respondeu Monm, cruzando os braços, o cenho marcado por sombras de inquietação.

— E, no entanto, tão recorrentes — disse Siehiffar, com a voz suave e firme. Havia nela um tom investigativo que me atravessava como uma lâmina polida.

De súbito, um estrondo — um impacto seco e violento nos interrompeu, vindo de algum ponto próximo. Todos voltamos os olhos à porta, a tensão nos envolvendo como neblina espessa. O receio de que algo — ou alguém — invadisse nossa reunião informal apertou nossos peitos.

— Em que parte do castelo estamos, Monm? — perguntei, tentando manter o controle. — Há alguma arma aqui? Algo com que possamos nos defender?

— No flanco noroeste — respondeu com firmeza. — Próximo à torre, mas fora do alcance da busca de Arturo. Mesmo assim, este castelo é... imenso. Vivo. Parece ter vontades próprias.

Fez uma pausa, os olhos vasculhando o aposento.

— Atrás daquela porta, há um corredor que leva a um salão usado como armazém. Há um portão para o exterior e uma rampa em L que desce pela encosta da montanha até o vale. Creio que você conhece essa região, Anton — explicou, enquanto revirava um armário à minha esquerda. Sua voz tornara-se grave, baixa, tentando não denunciar nossa posição.

Então, um grito — quase bestial. Um som gutural que fez meus pelos se eriçarem. Meu coração acelerou. A respiração se tornou densa. Aquilo me transportou de volta à guerra. Era como se a morte soprasse novamente em minha nuca.

Começamos a vasculhar o ambiente, buscando algo que servisse à batalha. Logo, Monm encontrou algo.

— Anton, isto pode ser útil — disse, afastando-se para que víssemos.

Dentro do armário repousavam três armas: duas adagas longas, uma adaga curta e uma rapieira.

— Estou mais habituado a armas longas. Dê-me a rapieira — pedi.

Empunhei-a. Seu peso, seu comprimento, seu equilíbrio — tudo nela me falava. Sentir aquele metal em minhas mãos trouxe-me uma paz estranha, como reencontrar uma antiga companheira.

Monm ficou com as adagas. Para nossa surpresa, Siehiffar, sem hesitar, tomou para si a adaga curta. Um brilho de determinação cintilava em seus olhos. Estávamos armados e, mais do que isso, preparados. O espírito, silente, mas desperto.

— Vamos pensar. Monm, você abre a porta. Eu fico à esquerda. Siehiffar, de frente. Não atacamos primeiro; observamos. — propus, ajustando minha postura de combate.

As pancadas intensificaram-se. Metal contra metal. Sons ocos e ressonantes. Atrás daquela porta, um combate feroz desabava como tempestade sobre penhasco.

Antes que pudéssemos agir, um estrondo seguido por uma explosão. Fomos à porta. Monm posicionou-se atrás dela, eu ao seu lado oposto, e Siehiffar de frente. A urgência pesava no ar.

— Um... — sussurrou Monm, começando a contagem.

Abrimos a porta com cautela. O corredor estava iluminado pelas tochas de Arturo. Nenhum sinal de batalha — mas os sons ainda ecoavam, cada vez mais perto.

Monm se voltou para a jovem.

— Siehiffar, daqui você não passa. Não sabemos o que há adiante. Daqui, você pode fugir pela passagem do tempo.

Sua voz era suave, mas firme. Um mestre zelando por sua pupila. Contudo, ela não se calou.

— Um dia terei de ver o mundo, Monm. E o mundo terá de me ver. — Sua voz era uma chama contida. Pela primeira vez, vi desaprovação em seu semblante.

Monm e eu seguimos. Antes de partir, olhei para trás.

— Quanto antes resolvermos isso, mais rápido voltaremos. — Minhas palavras eram de aço, moldadas pela disciplina militar que me guiava.

O corredor era breve. Ao alcançarmos a porta do armazém, ouvimos gritos — e então a porta explodiu. Um corpo juvenil foi arremessado contra a parede de pedra, tombando ao chão como boneco sem vida.

Aproximei-me das sombras do umbral. No interior, o confronto prosseguia. Monm examinava o corpo: um jovem desfigurado, com vestes negras e uma cruz branca no peito. Um clérigo? Um guerreiro da fé? Mas o que fazia aqui?

Dei um passo à frente. A batalha me chamava.

E meu sangue… já começava a fervilhar.

Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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O Tribunal das Sombras

30 de Julho de 1871— Resolvi escrever como meu irmão fazia — hábito que nunca tive, mas que, por alguma razão, agora me parece necessário…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Valéria S. Miahi
(Diário pessoal)

30 de Julho de 1871— Resolvi escrever como meu irmão fazia — hábito que nunca tive, mas que, por alguma razão, agora me parece necessário. Estes últimos tempos têm sido estranhos, como se algo no ar tivesse mudado... As pessoas nas ruas cochicham sobre eventos anormais, presságios, vultos à meia-noite. Mas preciso começar de algum ponto.

Ontem, o céu amanheceu como se carregasse um presságio sombrio — um véu cinzento sobre o mundo, pesado, úmido, como os olhos de alguém prestes a chorar. Eu não deveria ter saído. Mas como resistir? Havia algo na neblina da manhã que me chamava, como um sussurro sem língua, como se a própria terra curvasse-se à minha curiosidade.

Vesti meu traje de passeio mais querido — um vestido cor de vinho envelhecido, de tecido modesto, mas digno, com rendas finas nas mangas e na barra, feitas por minhas próprias mãos. O corpete me apertava o peito, não cruelmente, mas lembrando-me que sou feita de carne e limites. Prendi os cabelos loiros e ondulados num coque frouxo, deixando que algumas mechas rebeldes escapassem — um gesto quase instintivo, como se meu corpo dissesse que não sou de me conter.

Segui por uma velha estrada atrás da estufa da senhora Camille, aquela mesma que o jardineiro Rasson jura estar amaldiçoada desde o último verão, quando encontraram o cão da família Moore dilacerado, com os olhos arrancados. Uma cena que ainda ecoa nos corredores do cortiço.

Decidi me aventurar para conhecer melhor a região. No início, o caminho era povoado de casas e passos alheios. Mas, em algum momento — não sei bem quando — percebi que estava só. O silêncio cresceu devagar, feito erva daninha, até que me vi andando entre sombras e pedras molhadas.

Foi então que notei, próximo a uma poça d’água da chuva da noite anterior, algo como um papel encharcado. Curiosa, agachei-me.

— Um jornal?! — murmurei em voz alta, como se precisasse ouvir minha própria presença.

Os últimos dias haviam sido tão intensos que sequer me atentei às notícias. Se Anton soubesse disso, já estaria me repreendendo como o velho Padre Bento — com aquela cara de sermão e voz solene, capaz de transformar até uma receita de pão em pregação.

O que me chamou atenção foi a data... e o trecho ainda legível:

“Na madrugada de ontem, a tranquila neblina que pairava sobre o rio Sena (...) três corpos, dois de mulheres jovens e um de um homem, flutuaram às margens do rio, na degradada área de La Cité.” 

La Cité... sempre soube que aquela região era perigosa, ainda que esteja mais ao norte. As indústrias tomam conta dali, com os ratos e os segredos.

Mas aquelas mortes... ficaram gravadas em mim, como se o papel tivesse sussurrado seu horror aos meus ouvidos. Olhei ao redor, sentindo a terrível sensação de estar só — não só fisicamente, mas em essência. Como se o mundo inteiro houvesse sumido, e eu estivesse esquecida ali, por algo que me observava sem rosto.

A aventura não foi longa. E terminou, confesso, de forma um tanto frustrante — com meus passos retornando apressados para casa, vencida por um medo que julguei infantil... mas será que era? Admito que ler aquela notícia me perturbou mais do que gostaria.

02 de Agosto de 1871 — Despertei esta manhã com minha mãe gritando do andar inferior. Chamava meu nome com urgência — eram seis da manhã, e havíamos trabalhado até quase três costurando roupas para clientes do bairro. Sonhava em continuar dormindo, mas a realidade, como sempre, puxou-me de volta.

Vesti-me rapidamente com uma blusa de algodão creme, bordada nos punhos com pequenas flores azuis, e uma saia de linho escuro, já um pouco desbotada. Amarrei um xale nos ombros e prendi os cabelos com fita — não por vaidade, mas porque o vento de agosto é traiçoeiro.

Do cortiço até o mercado não se leva mais que dez minutos. Paris é viva, pulsante, e mesmo em sua miséria se encontra tudo — de frutas maduras a sorrisos feridos.

Na esquina sul do mercado, um menino, talvez de doze anos, gritava como um arauto do caos, com uma pilha de jornais sob o braço:

— As notícias de Paris em primeira mão! Notícias fresquinhas, vindas do Sena e dos infernos!

— Garoto, me entregue um.

— Me chamo Giules, senhora. Aqui está — disse com orgulho, entregando-me um jornal com as mãos sujas, mas o coração limpo. Seus olhos castanhos eram grandes, atentos, cheios de uma esperança que Paris ainda não lhe roubara.

A manchete fez meu peito apertar:

O Caso dos Corpos no Sena

Segundo a Gendarmerie nationale, as investigações têm sofrido entraves, o que gera insatisfação entre o maire e o conselho público. Durante a madrugada do dia 29 de agosto, um acontecimento inédito ocorreu: os corpos, que haviam sido levados à Universidade de Paris, desapareceram misteriosamente. Além disso, oficiais da Gendarmerie foram mortos num possível confronto. Houve um incêndio numa das alas da instituição. Moradores relataram sons estranhos, semelhantes a grunhidos, e uma testemunha afirma ter visto uma “entidade com asas de morcego” voando rumo ao céu.”

Naquele instante, o som das ruas sumiu. O burburinho, o ranger das rodas das carroças, o tilintar das moedas — tudo foi engolido por um silêncio cruel. Meus olhos ardiam. Minhas mãos tremiam.

Senti algo puxar minha manga.

— Se... senhorita, está bem? — A voz infantil de Giules me trouxe de volta. Devia estar com uma expressão horrível, pois ele me olhava com preocupação genuína.

— S... sim. Estou bem. Só me surpreendi com a notícia...

— Mas o que diz aí de tão assustador? — perguntou com uma inocência quase cruel.

— Coisas de adulto. Você... não sabe ler?

— Não, não sei — respondeu com os olhos agora escurecidos, como se a vergonha tivesse feito sombra sobre eles.

Antes que eu pudesse dizer algo, alguém gritou seu nome ao longe. Ele correu com os jornais ainda nos braços, mas a meio caminho parou, virou-se e sorriu. Um sorriso sincero. Aquele tipo que ilumina mais do que o sol da manhã.

E foi assim que o dia começou. Com um rastro de fogo dentro de mim, e a estranha certeza de que algo invisível está se movendo pelas ruas de Paris — e talvez, também, dentro de mim.

Anton S. Miahi XXII
(Diario pessoal - Póstumo)

Sem data – Escritura feita em meu caderno, entre as trevas e o fôlego último da razão.

A realidade dentro daquela cela, mais do que contrastante, era um espelho estilhaçado da sanidade. Havia em mim a dúvida como uma ferrugem, roendo os pilares da mente. Olhei meu braço — aquilo que outrora fora meu — agora uma mescla profana de carne, metal e Éter.

E então, a aparição: Alonso.

O espectro de meu irmão. Sua forma trêmula, seu olhar suplicante, e seu desaparecimento... como se houvesse sido tragado pelo próprio abismo.

Minha mente, ainda enegrecida pelas dores da transformação, foi domada pela frieza com que a guerra me educou. Era preciso calar o pavor e erguer a razão.

Levantei-me do chão pútrido com o vigor desesperado dos que nada mais têm a perder. Voltei, arfante, à sala onde Arturo cultivava suas abominações. O ar me feria o peito como vidro moído. O coração pulsava alto demais — não sabia se era um tambor de vida ou o prelúdio da morte.

Vasculhei a sala com olhos de predador.

Meu olhar caiu sobre um baú, ao lado de uma mesa profanada por tubos de vidro que cintilavam com líquidos de cor e textura inexplicáveis.
 Aproximei-me. Ajoelhei. A tranca — aberta.

— "Ele realmente não teme que alguém fuce seus segredos..." — murmurei, mais para as sombras do que para mim.

Abri a tampa com mãos trêmulas. As dobradiças rangiam baixinho, como se também temessem o que revelariam. Lá dentro, relíquias de um delírio científico. Artefatos que não pertenciam ao nosso tempo. Objetos frios, inumanos. Mas um deles...

Uma arma.

Estranha, quase bela.

 Não como as que portei na guerra, mas era certamente feita para matar. Examinei-a. O cano, os mecanismos, o gatilho... uma peça híbrida, como eu.

Pensei:

— "Se há uma arma, a munição há de estar próxima..."

Havia. Um estojo de projéteis cintilantes, como se fossem alimentados por luz. Carreguei a arma, improvisando um treinamento silencioso.

Precisaria confiar nos instintos.

Mais adiante, encontrei uma barra de ferro.

Não era meu sabre, mas seria minha extensão se a arma falhasse. Prendi-a ao cinturão, e com a arma em punho, respirei fundo.

E marchei.

Corredores estéreis e úmidos, paredes que choravam sangue seco e fungos. O ar pestilento oscilava entre mofo e morte.

Passei diante da cela da jovem... um nó me subiu à garganta. A lembrança do sofrimento dela, de sua expressão vazia, perfurou meu peito.

Segui.

Não sabia onde estava. Subterrâneos? Ala superior do castelo? As paredes não respondiam, apenas gemiam. Os corredores, talhados em pedra e pecado, faziam curvas labirínticas. Então, sob a luz doentia de uma lamparina, lembrei-me do diário de Arturo que ainda trazia comigo. Abri-o.

Uma página aleatória:

"Hoje conheci duas figuras intrigantes — uma dama de fala arguta, olhar felino; e um cavalheiro de aparência saudável, embora sua pele beirasse o albino. Curioso. Há algo de... antigo neles.”

Um ruído.

Atrás de mim.

Abracei o silêncio e aguardei. Respirei. E ouvi.

Vozes.

Gemidos. Lamentos. Tormento encarnado em som. Segui, tenso como fio estirado. Meus passos ecoavam no ventre da arquitetura maldita. E então os vi: cativos.

Seis celas. Homens, mulheres... retalhos humanos, olhares apagados. Experimentos. Fracassos. Almas em ruínas.

A dúvida me invadiu:

— Libertá-los? E se forem perigosos?

Mas posso deixá-los aqui?

O dilema me dilacerava. Mas havia algo mais forte: compaixão. Ou talvez, o desejo de fazer algo certo em meio ao caos.

— Vocês... vocês vão sair daqui. — sussurrei, quase sem acreditar.

Quebrei os cadeados, um a um. Os prisioneiros gritavam, choravam, corriam ou rastejavam. Uns me abraçavam, outros somente fugiam. Quando rompi a última tranca, um grito — não humano — explodiu pelos corredores.

Um corpo atravessou a penumbra e se chocou contra a parede atrás de mim, estalando ossos.

Silêncio.

Depois, outro grito — Grave, bruto como de uma fera selvagem.

O corpo estava dilacerado. Mordido. Cortado.
 Os ecos do inferno haviam se soltado.

—Não estamos sozinhos... — Murmurei, erguendo a arma.

Anton S. Miahi XXIII
(Escrito em meu Caderno — póstumo)

Sem data — Ouvi. Um urro… ou seria um grunhido de alma profanada?

Veio como trovão sob terra húmida — grave, bestial — entrelaçado aos gritos lancinantes dos prisioneiros e ao estalar sinistro de ossos se partindo como galhos secos. Os passos, pesados, se aproximavam, um a um, como um relógio em contagem para a execução. E então... uma lufada de ar.

Não era brisa.

Era hálito.

Algo respirava sobre mim. Algo existia atrás daquele som.

Os cativos da última cela, em pânico cego, correram — tropeçando uns nos outros, ainda ensanguentados — e bateram a porta. Deixaram-me só, diante do inexprimível.

Não havia para onde fugir.

Um beco sem saída.

Eu, o tolo redentor, havia conduzido cordeiros ao altar de um lobo espectral.

— Oh, que infelicidade a minha... — murmurei, quase como prece amarga.

Sim, os mortos não mais se angustiarão com o presente... nem com o futuro.

Eles agora seriam as únicas testemunhas do meu fim — e, quem sabe, do nascimento de outra coisa, algo além do homem.

Assumi posição de combate. A mão esquerda empunhava a arma etérea de Arturo, ainda fria e desconhecida. A direita, o bastão de ferro — rudimentar, mas real.

Meus olhos varriam a penumbra, buscando um indício, uma forma, uma promessa de movimento.

Nada.

— Se vou falecer aqui, não será de joelhos... Ele sofrerá tanto quanto eu! — exclamei, mais para as pedras do que para o destino, fingindo haver dentro de mim algo além do medo.

A parede fria atrás de mim marcava o limite da existência.

O fim de qualquer tentativa de recuo.

E então…

Uma voz.

Sutil, suave, nas minhas costas.

— Senhor Anton… nunca houve chance de resistência.

Aquelas palavras soaram como gelo escorrendo pela espinha.

Mas o que as seguiu... foi pior.

Risos.

Não gargalhadas humanas.

Era um som que se dobrava em si — sarcástico, lascivo, prenhe de uma crueldade antiga demais para nome.

Ao tentar me virar, algo me deteve.

Mãos — ou garras? — se fecharam sobre minha cabeça como grilhões invisíveis.

E então...

Dor.

Uma dor vívida, quase luminosa, que me cegou os olhos com sua intensidade.

Não somente física. Era como se memórias estivessem sendo arrancadas…

Como se minha identidade estivesse sendo extraída pelas unhas de um monstro que ria porque sabia:

O que ele queria não era meu corpo.

Era minha alma.

Anton S. Miahi XXIV
(Escrito em meu Caderno — póstumo)

Sem data, noite — O frio me cortava como navalhas silenciosas. Senti o açoite do vento contra o rosto, enquanto, debaixo das palmas, a textura gélida e arenosa denunciava que eu jazia sobre a neve. Abri os olhos com esforço e logo fui acometido por uma pontada lancinante na fronte. Levei a mão à testa — úmida, latejante. O sangue, espesso e quente, escorria pela pele pálida.

Ao redor, uma arquitetura de formas circulares e entradas múltiplas — como o interior de uma cripta aberta ao firmamento. Gárgulas esculpidas em pedra grotesca me espreitavam de todos os ângulos; estáticas, mas com um olhar de morte que parecia transcender o inanimado. Seus olhos ocos sondavam os cantos daquele espaço como centuriões de um inferno esculpido em mármore antigo.

Ao alçar os olhos, não encontrei teto. Apenas um céu de veludo negro crivado de estrelas — como se aquele tribunal estivesse suspenso entre o tempo e o abismo. Sob minhas mãos, reconheci enfim a neve. E então, como sussurro que rompe a espessura do próprio passado, a voz:

— “Senhor Anton… nunca houve chance de resistência.”

Era uma lembrança. Mas não qualquer lembrança. Aquela voz... sim, era ele.
 Nestor.
 Ou... seria outra entidade ainda mais antiga?

Tateei a memória como quem rasteja entre ruínas. Lembrava do golpe traiçoeiro pelas costas.

A consciência esvaindo. O cheiro metálico. O chão fugindo sob meus pés. E agora ali estava eu, redivivo num palco ancestral.

E então, vieram os passos.

Lentos.

Pesados

Cerimoniais.

Não havia disfarce. O ser que se aproximava desejava ser ouvido, sentido, temido. Um rosnado grave ressoou, reverberando nas colunas e atravessando meu peito como trovão que desaba sob terra profanada.

Minha mente, ainda embaciada, sussurrava temores: “—É alucinação... é delírio...”

Tomei fôlego. E coragem — um farrapo dela.

— Que é que me observa da escuridão? — gritei, mas minha voz saiu rouca, trêmula, quase humana demais para aquele lugar.

Olhei para o alto da torre. Surgiram então duas asas descomunais, sombreadas contra o céu estrelado. A figura era uma silhueta até então dois pontos fulguravam — olhos de um azul etéreo, famintos, como dois fogos-fátuos no meio do nada.

Um anjo caído? Um espírito ancestral? Ou um juiz das almas tortas?

A criatura desceu com precisão bestial, traçando um mergulho mortal. Ao tocar o solo, as tochas espalhadas pelas colunas acenderam-se espontaneamente, iluminando-o em chamas de espectral laranja e púrpura.

Ele era... horrendo e sublime.

Corpo humanoide, esculpido como pedra viva — mármore que transpirava condenação. Asas negras como breu, mãos com garras longas que ansiavam por carne, e um rosto... um rosto que parecia feito da morte. Não do cadáver. Da morte.

— Pequena criatura... existência frágil... sabes tu onde te encontras? — sua voz soou como sinos tocados em um funeral ancestral. Grave, ecoante, cortante.

Tentei falar. A garganta ainda se fechava.

— N… não sei onde estou... e menos sei quem... ou o que... é você. — murmurei, ainda apoiado à uma coluna de pedra fria.

Ele caminhou em minha direção, com a solenidade de um algoz.

— Este é meu domínio, criaturinha. Aqui pesam teus erros. Aqui o destino se curva. Aqui os loucos e os orgulhosos são finalmente despidos de suas ilusões. Sou Var’Ghul, o Guardião das Almas, o Juiz dos Malditos. E é sob minha presença que as sentenças são proferidas.

Um riso irônico escapou-me, ainda que trêmulo.

— Depois de tudo… agora um juiz? Um tribunal? — ri, mas o som morreu na garganta.

Apoiei-me com esforço. Levantei-me. A tontura me assaltava como maré. Mas recusei-me a encarar o julgamento ajoelhado.

— Seja o que fores... não temo mais espectros. Já caminhei entre cadáveres... já ouvi preces no meio do fogo. Já morri mais de uma vez em alma. — minha voz se elevava, ainda que fragilmente.

Var’Ghul parou, avaliando-me com olhos de abismo.

— Nestor te trouxe aos meus domínios. O infame mordomo conhece bem os limites da ousadia... até mesmo ele se curva diante de mim. — sua voz, por um instante, transbordava escárnio e desprezo.

Senti uma estranha fagulha de esperança se acender — tênue, mas viva.

Talvez Var’Ghul não fosse somente juiz. Talvez, fosse também uma saída. Uma chave. Um limiar entre a danação e a redenção.

— “Então julgue-me. Se este é o fim... quero ouvir a sentença com olhos abertos.” — disse, agora em pé, mesmo trêmulo, como soldado diante da baioneta.

Ele sorriu. Pela primeira vez, sorriu.
 E o frio na espinha tornou-se glacial.

— Ah... mas para julgar, Anton S. Miahi... preciso ver tudo. Cada lembrança. Cada pecado escondido nos porões de tua alma. E isso, meu filho, vai doer mais que mil mortes.

Var’Ghul ergueu a mão direita — os dedos ossudos se abriram como garras de um deus antigo — e então pronunciou com uma voz que ressoava em cada molécula do meu ser:

— “Que se rompam os selos do tempo… e que as memórias do condenado fluam diante do Julgador.”

Naquele instante, algo invisível me perfurou a fronte. Um estilhaço de dor, tão agudo, tão terrível, que me dobrou os joelhos. Não era uma dor física. Não. Era uma lâmina que atravessava minha alma, como se arrancassem, de um só golpe, os véus que eu mesmo havia colocado sobre meus próprios pecados.

Minhas pálpebras se fecharam — ou foram fechadas por alguma força que não reconhecia. E então vi.

A neve tingida de vermelho.
 As trincheiras devoradas pelo frio.
 Os olhos dos soldados — meninos, irmãos, monstros — fitando-me em seus últimos segundos.

Var’Ghul narrou como se lesse um códice sagrado, impiedoso, mas não cruel:

— “Tu estavas entre os sobreviventes do cerco de Mitrova. Foste o único a ordenar a retirada. Ordenaste, sim… mas deixaste para trás três homens. Um ferido. Dois perecendo. Salvaste doze. Traíste três. Calculaste o sangue.

Eu gritava por dentro, mas minha boca estava muda. Meus olhos jorravam lágrimas sem que eu os controlasse.

— E naquele dia… após incendiar os corpos dos que jaziam sob o gelo… teus próprios soldados te chamaram de herói.

Var’Ghul deu um passo adiante. A cada palavra sua, meu peito ardia como se brasas fossem enterradas sob minhas costelas.

— Na floresta de Drovnik… ataste explosivos ao ventre de um prisioneiro. Usaste-o como armadilha. Foi eficaz. Salvou a tua vida. Mas deixaste o terror escorrer pelas folhas como uma maldição.

— Chega... — murmurei, a garganta cravada de espinhos.

— Na cidade devastada de Petrowska... alimentaste uma criança com tua própria ração. Depois, a deixaste dormir ao teu lado no frio... e ela sobreviveu. Mas jamais soube teu nome.

A lembrança daquela menina — olhos grandes, cabelos como carvão molhado — me desarmou. Caí ao chão. Var’Ghul se ajoelhou diante de mim, os olhos faiscando com um azul ainda mais profundo.
 Sua mão tocou meu peito.

E então, ele mergulhou mais fundo.

Vi o castelo.

As celas.

O sangue nas paredes.

Meus gritos contidos.

Minha fúria.

Meu desejo de libertar, mesmo quando tudo indicava ruína.

Ele viu.
 Ele sentiu.

— A ti, Anton, coube a escolha de destruir a chave para fugir... e usá-la para libertar outros. Mesmo sabendo que te deixaria à mercê da besta.

Vi os rostos dos prisioneiros. Os mesmos que me deixaram para trás. E senti... que mesmo o bem que eu praticava era consumido por sombras.

Var’Ghul se ergueu. Um silêncio sepulcral tomou o recinto. Até as tochas pareceram se calar.

— Anton S. Miahi… teus pecados são muitos. Tuas mãos manchadas de sangue e cálculo. Mas... tua alma não é covarde. Fizeste escolhas entre abismos. E ainda assim, salvaste outros. Mesmo quando ninguém mais te via.

Ele estendeu a mão. Uma luz tênue, azulada, cintilou entre seus dedos — como se acendesse uma chama que nunca morrera de fato.

— Teu julgamento... é favorável. Ainda que não sejas puro, és digno. Seguirás adiante. Pois tua história... ainda não terminou.”

Meu corpo tombou, exausto.

Mas algo dentro de mim — algo ancestral, algo esquecido — se reacendeu.

Var’Ghul desapareceu na penumbra como fumaça que retorna à lareira dos mortos. As tochas se apagaram, uma a uma. E a última imagem que vi foi o céu estrelado, testemunha muda do veredito.

Então, silêncio.

E depois… uma nova respiração.

Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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O Espectro de Alonso

Sem Data — Já não sabia se era noite ou dia. As trevas da cela ocultavam até o tempo de minha mente. O ar da cela era denso, imóvel, como se…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Anton S. Miahi XXI
(Escrito em meu Caderno — póstumo) 

Sem Data — Já não sabia se era noite ou dia. As trevas da cela ocultavam até o tempo de minha mente. O ar da cela era denso, imóvel, como se aguardasse o próximo sopro de minha respiração. Um peso alojava-se em meu peito, esmagando-me como se mãos invisíveis ali repousassem, exigindo confissão. Fora o sonho, suponho. Mas qual sonho? Fragmentos de imagens difusas escapavam-me, deixando somente uma sensação de desassossego abissal. 

E então, uma voz. 

Familiar. Fria. Dolorosa. 

— Anton… 

Meus olhos varreram o breu da cela, encontrando apenas a familiaridade das paredes úmidas e da estreita fresta por onde a lua se recusava a penetrar. A cela, anexada ao laboratório de Arturo, não permitia acesso à parte externa. Mas a voz continuava, entrecortada pelo vento ausente, sussurrando aquilo que eu temia ouvir. O tempo se dobrou sobre si, e voltei àquela noite — a noite de sua morte. O sangue sobre as pedras, o olhar esmaecido, o último suspiro arrancado pelo inevitável. Ele havia perecido nos meus braços, Alonso. Eu não o havia abandonado. 

— Você me deixou… 

Meu peito apertou-se. Não! Ambos havíamos sido convocados para a Guerra Franco-prussiana. Havíamos marchado juntos. Eu o segurei quando caiu. Vi o brilho esvaecer de seus olhos enquanto o sangue encharcava o chão. Mas ali estava ele, sua forma translúcida oscilando diante de mim, angustiado, desesperado, tão surpreso quanto eu de vê-lo ali. 

— Alonso... isto não é possível. 

Ele cambaleou para trás, os olhos arregalados, tremendo. Sua voz era um sussurro trêmulo, quebrado pela incredulidade. 

— Mas então... eu estou morto? 

Meu braço esquerdo doía. A reconstrução metálica rangeu quando movi os dedos, os tubos transportando fluidos de éter sobrenatural pulsando sob a estrutura engenhosa de engrenagens. Arturo, o engenheiro de outro mundo e tempo, dera-me essa dádiva amaldiçoada. 

— Sim. Você morreu nos meus braços. 

Alonso fechou os olhos, os lábios trêmulos. Então, sua expressão se alterou, determinada, feroz. 

— Você tem que sair daqui, Anton. 

— A cela está trancada. Arturo selou a fechadura com Éter. 

Alonso hesitou, olhando ao redor. Pela primeira vez, parecia perceber o ambiente à sua volta. Do lado de fora da cela, o laboratório se estendia — frascos com líquidos brilhantes repousavam sobre prateleiras, grandes toneis de cobre estavam alinhados junto às paredes, enquanto canos de bronze percorriam o teto e o chão. Mesas de metal sustentavam equipamentos enigmáticos, papéis espalhados, registros incompreensíveis. Próxima dali, a mesa onde eu havia sido modificado cintilava sob a luz pálida de lâmpadas elétricas de um tempo que sequer deveria existir. 

Alonso atravessou a porta, saindo da cela. Estava do lado de fora, me olhando com hesitação. Virou-se para a fechadura. Quando sua mão tocou o metal selado com Éter, uma descarga de energia o atravessou, fazendo-o gritar em agonia. Ele recuou, respirando ofegante, seus dedos trêmulos e espectrais se contorcendo. 

— Alonso! — Meu instinto dominou minha razão. Avancei, esquecendo-me do óbvio. Minha mão estendeu-se em direção a ele, buscando segurá-lo, mas assim que o toquei, um choque me atravessou, violento, dilacerante. Cambaleei para trás, uma dor cortante percorrendo meu corpo. — Maldição! — soltei um gemido de dor. 

Alonso me fitou, os olhos arregalados, sua expressão um misto de horror e culpa. 

— Não! Você não pode me tocar! Eu... eu sou... — Sua voz fraquejou, e ele desviou o olhar. — Sou algo que não deveria estar aqui. 

— Eu não me importo! — Bradei, ainda sentindo o formigamento do choque percorrendo minha pele. — Você está sofrendo, Alonso! Eu não posso somente assistir! 

— Alonso... como você chegou aqui? 

Ele parou, as costas rígidas, como se a pergunta o atingisse como um golpe. Lentamente, virou-se para mim. Seu olhar estava perdido, como se buscasse memórias em um véu nebuloso. 

— Eu... eu não sei — sussurrou. — Eu me lembro do campo de batalha, do frio, da dor. Lembro do meu sangue escoando pelos meus dedos, do seu rosto, Anton... da sua voz me chamando. E depois... escuridão. Um vazio que me engoliu por inteiro. Eu não sonhei, não senti o tempo passar. Apenas... estava. 

Um calafrio percorreu minha espinha. 

— E então, de repente, você apareceu aqui? 

Ele hesitou, a expressão se contraindo em angústia. 

— Não... antes disso, eu ouvi algo. Uma voz. Não era sua. Era algo mais... algo que sussurrava dentro da minha mente, palavras que não compreendia. Foi como se eu fosse puxado para um turbilhão, forçado a atravessar um limiar invisível... e então eu estava aqui. E vi você. — Ele engoliu em seco. — Anton, eu não deveria estar aqui. Algo me trouxe.  

Minha respiração pesou. O que quer que tivesse violado as leis da natureza para arrastar Alonso de volta, não o fizera sem propósito.

— Eu já morri uma vez, irmão. Isto não pode ser pior do que aquilo. — Ele respirou fundo, trêmulo, e forçou um sorriso frágil.

 Antes que pudesse responder, Alonso se virou novamente para a fechadura, determinado.

Na segunda tentativa, uma nova onda de dor o atravessou, mas algo mais aconteceu. As luzes do laboratório piscaram e oscilaram, faíscas tremulando em suas lâmpadas alimentadas pelo Éter. O fluido nos tubos borbulhava, vibrando, como se o próprio laboratório reagisse à profanação de sua segurança. Alonso cerrou os dentes, seus olhos agora brilhando em desespero e determinação. Com um último esforço, sua mão se fundiu à fechadura, e esta começou a brilhar intensamente até derreter, pingando como cera fervente sobre o chão de pedra. 

A porta estava aberta. 

Alonso caiu de joelhos, arquejando, as mãos sobre o peito. Quando ergueu o olhar para mim, sua expressão era de súplica. 

— Anton... algo... algo está errado. Ajude-me— 

O ar do laboratório vibrou. Uma presença emergiu das sombras. A princípio, tinha quatro patas, movia-se como um lobo sem peso, mas logo ergueu-se sobre duas, seu corpo intangível oscilando como vapor. Sua face era um vazio sorridente. Moveu-se em direção a Alonso e, com um gesto lânguido, agarrou-o pelo colarinho. Alonso gritou, os olhos dilatados em pavor. 

A criatura virou-se para mim e sorriu. 

Então, sem som, sem violência, Alonso e a entidade se desfizeram em uma névoa suave, dissipando-se na escuridão. 

Eu estava livre. Mas a liberdade não era o fim, e sim o início. Caminhos se estendiam diante de mim, sombras ocultavam verdades ainda não reveladas. O laboratório, o Castelo e seus moradores guardavam segredos que precisavam ser desenterrados. Eu precisava ir ao fundo de tudo aquilo. 

Anton S. Miahi XXII 
(Escrito em meu Caderno — póstumo)  

Sem Data — Saí da minha cela após testemunhar o horror indescritível da captura de meu irmão—ou daquilo que um dia foi ele—por uma entidade saída das entranhas do inferno. Um espetáculo dantesco. O frio percorreu minha espinha como dedos cadavéricos. Mas não havia tempo para hesitar. 

Caminhei rápido, ignorando o tremor involuntário em minhas mãos, e fui direto à mesa com a maior pilha de livros e papéis, na parede oposta à minha prisão. Algo ali continha as respostas que eu precisava. A adrenalina pulsava, e meus olhos famintos devoravam cada página, cada anotação. A escrita meticulosa daquele maldito diário me causava um nó na garganta. Sentia um peso lodoso no estômago, uma angústia viscosa que me abraçava. Mas continuei. 

"21 de Janeiro de 1945 — Faz um pouco mais de um ano que já estou aqui neste castelo. O ambiente que o Conde me concedeu foi amplo e vazio à época. Agora que acomodei ferramentas, livros, tanques e outras coisas fundamentais, posso finalmente prosseguir. Isso me tomou uns quantos meses, mas agora tenho o que realmente preciso para perseguir minha ambição." 

Meus dedos crispados viraram a página com violência. 

"Os primeiros experimentos foram promissores. O Éter flui melhor do que o previsto, e a simbiose mecânica provou-se viável. O hospedeiro, no entanto, sempre perece antes de atingirmos um estado estável. Preciso de espécimes mais resistentes... e talvez menos... racionais." 

Minha respiração falhou. Uma gota de suor frio escorreu por minha têmpora. Continuei, ainda que cada palavra me perfurasse como um punhal. 

"Um deles, no entanto, surpreendeu-me. A morte não o reteve como os outros. Ele resistiu ao limiar. Movimentou-se. Falou. Confusão e medo tomaram seus olhos, mas algo permaneceu. Sua consciência? Sua alma? Não posso afirmar ainda, mas é um avanço. O Conde ficará satisfeito. Preciso testar mais." 

Meu sangue congelou. O ar ao meu redor pareceu rarefeito. Meus olhos corriam loucamente pelas próximas linhas quando outro papel caiu ao chão, escapando de meus dedos trêmulos. Agachei-me para pegá-lo e, ao fazê-lo, senti meu peito se comprimir. 

O texto rabiscado na folha era diferente. Escrito com pressa. Desespero. Um grito mudo preso em letras tortas: 

"O número 12 me assombra. Ele aparece diante de mim como se ainda possuísse vontade própria. Ele sabe. Ele me encara da escuridão e sussurra meu nome. Eu o criei... mas falhei. Ele não partiu... ele não pode partir." 

Mais abaixo, os traços estavam trêmulos, manchados de algo que parecia sangue seco: 

"Ele me disse que seu nome era Alonso." 

Meu corpo travou. O silêncio tornou-se um peso tangível, esmagador. 

Um segundo papel deslizou da mesa. Uma fotografia. 

Minhas mãos hesitaram antes de segurá-la. O choque me atingiu como uma lâmina em brasa. 

— Não... não pode ser... — Sussurrei, sentindo minha garganta se fechar. 

A imagem mostrava uma jovem. Seu rosto era pálido, os olhos fundos, exaustos. Mas eu a reconhecia. Céus... eu a conhecia. As palavras na página seguinte confirmaram o pior. 

"18 de março de 1945 — Nestor me trouxe uma jovem. Seu estado era deplorável. Parece que a encontrou na floresta, na noite dos portais abissais. Uma ex-moradora do castelo. Ela balbuciava algo enquanto o mordomo vampírico do Conde a colocava na mesa. Dizia algo começando com 'nauä...' Não se podia entender bem. Então, perdeu a consciência. E eu comecei o experimento. Este foi o número trinta, depois daquele sucesso e fracasso do menino 'Alonso'." 

A sala girou. As bordas da realidade se curvaram, como se algo estivesse prestes a me arrancar dali. Eu quis vomitar. 

O horror explodiu dentro de mim. Ela esteve nessa mesa. Passou pelo mesmo que eu. Mas meu irmão... Ele sofreu algo ainda pior. As imagens do laboratório tomaram minha mente, as lâminas, os frascos, o cheiro metálico do sangue. O eco dos gritos dele ressoou em minha memória, e uma nova onda de pavor me tomou. O que diabos fizeram com ele? 

Minhas mãos apertaram o diário, minha visão ficou turva. 

"(...) Horas após terminar os experimentos com o número trinta, coloquei-a na cela do corredor. Não tenho esperanças de que resista por muito tempo, como os outros." 

Minha consciência se agarrou a uma última fagulha de esperança. 

A cela número cinco. 

Corri pelo corredor, apertando o diário contra o peito como se ele fosse a última âncora de minha sanidade. O espaço ao meu redor parecia pulsar, os canos vibravam. O próprio castelo exalava um hálito podre. 

Passei por celas escuras, vazias, até encontrar a que buscava. Meus olhos vasculharam o interior. 

Um corpo coberto por um lençol branco. 

O baque da realidade me atingiu como um golpe de rifle. 

A raiva me tomou. A dor se alojou em meu peito, feroz, cruel. Ela era jovem. Tinha um futuro. E agora... era apenas mais um número em um experimento profano. 

Minhas mãos tremiam ao abrir novamente o livro. A leitura foi uma punhalada final: 

"Por infelicidade, o experimento trinta demonstrou descontrole e falta de lucidez. Seus ferimentos não estavam se recuperando como esperado." 

Virei a página. Os últimos registros pareciam escritos por uma mão indiferente, sem resquício de humanidade. 

"05 de abril de 1945 — O experimento trinta foi encontrado sem vida nesta manhã. Já havia alguns dias que não se levantava mais da cama. Parece que desistiu de lutar por sua própria vida." 

As palavras se tornaram borrões. Um soluço me rasgou a garganta. Lágrimas quentes escorreram por meu rosto. Eu não conseguia impedir. 

Estava neste castelo há meses, sofrendo infindáveis provações. Mas nada me preparou para isso. 

O silêncio do corredor era opressor. 

Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
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Sem Data — O peso da vigília sufocava-me. O braço esquerdo, pesado como chumbo fundido, resistia a qualquer comando, uma prisão de carne e…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

(Escrito em meu Caderno — póstuma) 

Sem Data — O peso da vigília sufocava-me. O braço esquerdo, pesado como chumbo fundido, resistia a qualquer comando, uma prisão de carne e osso que pulsava com o ardor lancinante de um ferimento que já deveria ter cessado de gritar. Oh, o ar ao meu redor era um vapor espesso, cheirando a óleo e metal oxidado, e a luz que ousava existir bruxuleava trêmula sobre as paredes de ferro e cobre, como se receosa de revelar o que jazia além do visível. 

Estava deitado sobre uma mesa de metal, a superfície fria sob meu corpo contrastando com o calor febril que percorria minhas veias. Um lençol de algodão grosso cobria-me parcialmente, áspero contra minha pele. As imagens em minha mente dançavam entre a vigília e o torpor, angustiantes e, de algum modo perverso, reconfortantes. Entre os devaneios, percebia uma presença. Alguém estava ali. 

A dor despertava-me de vislumbres indistintos — o rosto de um velho sacerdote, olhos carregados pelo tempo e barba desgrenhada como os ramos retorcidos de uma oliveira ancestral. Ele sussurrava algo enquanto minha consciência oscilava entre os fragmentos da batalha. Houve luta. Houve sangue. Teria que existir algo... algo que não conseguia nomear. Lembranças retornavam como lâminas cegas, desfiando-me lentamente. 

Meu irmão, Alonso. Meu pequeno Alonso. Vi seus olhos se esvaírem em um campo onde a morte ceifava sem distinção. O frio da Prússia nunca me parecera tão cruel quanto o toque gélido de seus dedos sobre minha pele quando a vida o abandonou. Então, ali, em meio às entranhas de uma arquitetura de vapor e engrenagens, outra cena arrastava-me ao abismo. Sevilha. A praça banhada pelo sol dourado, risos infantis quebrando a manhã com uma pureza inalcançável. Valéria corria ao redor de nossa mãe, seus cabelos escuros como a noite embaraçando-se ao vento quente. Nora, sempre tão bela, com as mãos brancas e finas trançando flores nos cabelos de minha irmã. 

Mas o que era essa sensação? Como podia ver o ontem e sentir o agora em um mesmo golpe? O calor de Sevilha desaparecia, e era tragado de volta à sala abafada, onde os tubos de cobre se entrelaçavam como serpentes, onde líquidos impossíveis brilhavam em frascos que guardavam segredos que jamais deveriam ter sido destilados. 

O peso da memória era tão insuportável quanto o peso do braço que não respondia. Havia algo errado em mim. Algo que não deveria estar ali. Algo que pulsava... 

Entre esses estados confusos de consciência e torpor, havia uma voz. Um nome. Ele emergia do nevoeiro da inconsciência, pronunciado de forma metódica, quase cirúrgica. "Arturo Vasquez". Sempre o mesmo nome, repetido nas bordas dos meus sonhos. Às vezes, era um sussurro. Outras, um tom firme, como se alguém estivesse se apresentando. A imagem de um homem de olhos frios e presença severa gravou-se em minha mente, como um espectro vagando entre a razão e a ilusão. 

Agora, estou sentado em um quarto. As paredes de metal frio refletem a luz pálida da lamparina, sombras oscilam e se retorcem no espaço apertado. A porta de grade diante de mim separa-me da vasta sala, onde a penumbra se dissolve em uma névoa turva. E ali, no centro do aposento, a silhueta de um homem. Sua presença é um fragmento que eu não compreendia até agora. 

Baixo os olhos para meu braço esquerdo e estremeço. A carne que antes ardia em dor fora substituída por algo... diferente. Tubos de cobre e prata correm entre as engrenagens, zumbindo em um ritmo que imita a respiração. Entre as articulações metálicas, fios de um brilho azul etéreo pulsavam, correndo como se fossem veias vivas, um fluxo constante de energia enigmática. Placas de latão e bronze, meticulosamente encaixadas, formam uma carapaça intricada, selada por runas gravadas à fogo — símbolos que não compreendo, mas que parecem murmurar uma verdade esquecida. Cada falange, um primor mecânico, responde com precisão, dobrando-se com um sussurro suave de engrenagens ocultas. 

Minha voz quebra o silêncio, rouca, carregada pelo peso do passado e da incerteza do presente. 

— Arturo Vasquez. 

A silhueta move-se levemente, as sombras dançando ao redor de sua figura esguia. O brilho pálido da luz ilumina seu rosto por um breve instante — um olhar frio, calculista, pousa sobre mim. 

— Você acordou. — Sua voz é baixa, controlada, desprovida de qualquer traço de surpresa. 

— O que fizeram comigo? — murmuro, os dedos metálicos fechando-se involuntariamente sobre minha perna. 

— Eu te reconstruí — ele responde, cruzando os braços. — Salvei o que restava de você. Transformei o que era falho em algo funcional. 

Meu olhar retorna ao braço autômato. A precisão dos encaixes, a pulsação do éter azul correndo por entre as junções. Há algo além de mecânica nisso. 

— Isso… não é somente metal — constato, mais para mim do que para ele. 

Arturo mantém-se imóvel, mas há um brilho sutil em seus olhos. 

— Não. O corpo humano é um motor imperfeito. A ciência sozinha não basta. Há forças que fluem além do que compreendemos. — Ele inclina levemente a cabeça, como se observasse um experimento. — E eu as domestiquei para te trazer de volta. 

Antes que eu possa responder, passos ecoam do lado de fora. Uma sombra longa estende-se pela fresta da grade. A porta se abre, e Narcís Nestor entra. Seu olhar desliza por mim, primeiro surpreso, depois carregado de desprezo. 

— Então foi assim que decidiu sobreviver, Anton — sua voz é um veneno gélido. 

Levanto-me instintivamente, cerrando o punho. Ao socar a grade, uma energia invisível manifesta-se, repelindo-me com um choque alastrado pelo braço autômato. 

— Tsc. — Nestor sorri, satisfeito. 

Então, uma segunda presença invade a sala. O ar pesa. As sombras parecem alongar-se em saudação macabra. E a voz — aquela voz inconfundível — desliza pela penumbra como veludo e lâmina ao mesmo tempo. 

— Anton S. Miahi. Como é bom revê-lo. 

Meu peito aperta. O Conde Drácula adentra o aposento, sua presença dominando cada fresta de escuridão. 

A conversa que se segue é enigmática, insinuando sobre Séttimor e os estudos de Olga. Mas não consigo entrever onde Arturo se encaixa nisso. 

Então, Narcís e Drácula partem, deixando-me novamente com Vasquez. O engenheiro encara-me por um momento antes de finalmente falar, sua voz sem emoção aparente. 

— A destruição pode ser controlada. Domada. Aprendi isso da pior forma possível… 

Horas mais tarde — O silêncio que ficou era denso, quase palpável. O ar, que antes carregava a presença esmagadora de Drácula, parecia rarefeito, como se Narcís e ele tivessem sugado para si tudo o que tornava aquele espaço minimamente suportável. 

Deixei-me cair sobre o assento metálico, sentindo o peso não somente do meu próprio corpo, mas do braço autômato que agora me pertencia — ou talvez, que agora me possuía. O som sutil das engrenagens rodopiando na estrutura de bronze e prata era um lembrete constante da minha nova condição. 

Do outro lado da sala, Arturo Vasquez permanecia imóvel, observando-me com a mesma expressão fria e analítica que sempre parecia carregar. Seu rosto era esculpido na reserva de alguém que já testemunhara o suficiente para não se abalar facilmente. Mas havia algo ali, escondido nas sombras de seus olhos, algo que eu precisava arrancar à força. 

— Então — que diabos você fez comigo? — Minha voz rompeu o silêncio, carregada de um peso que nem mesmo eu compreendia por completo. 

O engenheiro cruzou os braços, recostando-se contra a parede de metal escurecido. A luz bruxuleante projetava sombras sobre seus traços rígidos, tornando-o ainda mais impenetrável. 

— Eu te tornei funcional, Anton. Você estava perecendo. Seu corpo não suportaria. Dei-lhe uma alternativa. — A voz era firme, sem vestígios de emoção. 

— Alternativa? — Soltei um riso baixo, ácido. — Meu braço já não é meu. Está vivo de uma maneira que não compreendo. Há algo além de engrenagens e cabos nisso... E eu sinto, Vasquez, eu sinto que há um preço por trás dessa dádiva que você não menciona. 

Arturo não respondeu de imediato. Seus olhos caíram por um instante no meu braço autômato, observando o fluxo do éter azul pulsando entre as articulações. Ele inspirou fundo, um som discreto, mas carregado de peso, antes de falar. 

— Cresci ouvindo histórias sobre bruxaria e curandeirismo. Minha avó falava sobre forças que a ciência não poderia tocar. Forças que poderiam curar… ou consumir. — Ele fez uma pausa, estudando-me. — Quando minha irmã adoeceu, acreditei que a medicina bastaria. Mas ela faleceu em meus braços. Como o seu irmão pereceu nos seus. — Seu olhar não demonstrava pena, somente uma constatação dura como aço. — Você murmurava o nome dele nos delírios. Durante as febres, antes e depois do procedimento. Chamava por Alonso como se ele ainda estivesse ali, sangrando, agonizando. — Arturo inclinou a cabeça levemente. — Eu ouvi cada palavra. 

Um calafrio percorreu minha espinha. Uma fúria surda e incômoda começou a se erguer dentro de mim. A lembrança de Alonso — sua voz, sua risada infantil em Sevilha, o peso de seu corpo sem vida nos meus braços no campo de batalha — se mesclava ao absurdo daquela situação. 

— Você... ousa falar dele? — Minha voz tremeu entre a indignação e a incredulidade. — Ousa trazer meu irmão à tona como se fosse apenas mais um experimento seu? 

— Não se engane, Anton. Eu não o trouxe à tona. Você o trouxe. Ele está em você. — Arturo deu um passo à frente, a sombra de sua figura se alongando sobre o chão de ferro. — Os mortos nunca nos deixam. Mas o que fazemos com sua memória... isso, sim, define quem nos tornamos. 

Respirei fundo, tentando conter a tempestade dentro de mim. Senti o peso do braço metálico — frio, estranho, quase um membro que não me pertencia. Não era natural. A ideia de estar fundido a algo tão distante da carne humana era repulsiva. A tecnologia de Arturo ia além do que eu compreendia, além de tudo que era concebível no século em que nasci. 

— Você realmente acredita nisso? — Minha voz saiu mais baixa, quase um sussurro. — Que o destino pode ser moldado somente com metal e precisão? E esse tal de “Éter do Imaterial”… Isso também faz parte do seu controle? 

Arturo hesitou por um instante. Uma hesitação mínima, mas eu a percebi. 

— O Éter não é apenas uma teoria — respondeu, sem desviar o olhar. — É uma força que permeia todas as coisas. A ciência sozinha não é suficiente para domá-lo. Mas aprendi a moldá-lo… a utilizá-lo. — Ele indicou meu braço autômato com um leve movimento de cabeça. — Você é a prova disso. 

Apertei os dentes, a frieza de Arturo me irritava profundamente. Não era arrogância, não era fanatismo. Era uma convicção silenciosa, aterradora. 

Eu precisava de mais respostas. Mas acima de tudo, precisava descobrir até onde Arturo estava disposto a ir em nome dessa crença. 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Diário de Anton Stefan Miahi — VIII

17 de agosto de 1871 — Minha chegada a solo romeno fora tardia. O inverno implacável no norte da Alemanha atrasara minha jornada em vários…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

De Ivan Molchanov
(Cartas guardadas)

17 de agosto de 1871 — Minha chegada a solo romeno fora tardia. O inverno implacável no norte da Alemanha atrasara minha jornada em vários dias, forçando-me a uma travessia lenta e extenuante. Quando enfim pisei novamente nesta terra esquecida, vi-me obrigado a dedicar um tempo à readequação. Os arredores do castelo haviam mudado, não tanto em sua natureza lúgubre, mas em detalhes sutis—trilhas deslocadas, edificações em ruínas, presenças que antes não existiam. Investiguei. Observei. E, numa das noites em que perambulava entre as sombras da fortaleza, meus olhos captaram dois vultos. Um deles, masculino, exibia o andar hesitante de um intruso. Suponho que seja este o homem ao qual Nestor deseja que eu elimine.

O tempo não dissipou as trevas desta região. As montanhas escarpadas continuam assombrosamente solitárias, e a silhueta do castelo, cravada na penumbra das alturas, permanece um lembrete incontestável da ausência de divindades que ousem reivindicar este domínio profano. Recordo-me das paredes sóbrias e cinzentas, impregnadas com um odor peculiar—morte, químicos e algo de essência inominável.

Ao chegar, busquei Nestor. O acesso ao castelo foi feito pela entrada oculta na base da montanha, um caminho de outrora, com o qual me habituei nos anos de serviço obscuro sob o estandarte de Drácula.

Nestor aguardava-me nas profundezas do castelo. Seu vulto emergiu da penumbra, envolto na penumbra lamacenta das tochas trêmulas. Seus olhos brilharam, avaliando-me.

— Molchanov… — Sua voz cortou o silêncio, grave e deliberada. — O tempo não tocou tua essência. Sempre um soldado.

Fixei-o com um olhar firme.

— O dever não permite espaço para mutabilidade vã. Vim a teu chamado.

Nestor assentiu lentamente, um espectro de satisfação perpassando-lhe o rosto.

— Tens um alvo, — Declarou, aproximando-se. O cheiro de cera derretida e pedra úmida misturava-se ao aroma ferroso no ar. — Anton. Tem andado por lugares onde não deveria. Há segredos que devoram os curiosos.

Eu já sabia o que seguiria.

— Se ele não aceitar o Abraço da Noite, — prosseguiu, a voz sem qualquer traço de hesitação, — então deve desaparecer.

Meus dedos roçaram instintivamente a empunhadura da adaga sob o sobretudo. Um gesto automático, um reflexo do instinto de execução.

— Compreendo. E qual será o veredicto? Sangue ou trevas?

— Se resistir, finda-o. Tua lâmina será seu último horizonte.

Assenti. Sem hesitação. Sem perguntas.

— Assim será.

A conversa findara, mas o peso da tarefa já se assentava sobre meus ombros como uma mortalha invisível.

Deixei a sala, caminhando pelos corredores úmidos do castelo. O chão de pedra reverberava sob minhas botas, um eco solitário que se desfazia nas arcadas sombrias. O ar era frio, carregado com o cheiro rançoso de cera e poeira antiga. Ao cruzar um arco em ruínas, a vastidão do salão principal abriu-se diante de mim, seu teto sustentado por colunas grotescas, esculpidas em formas disformes—rostos angustiados, corpos entrelaçados, como se artistas dementes tivessem imortalizado almas atormentadas na própria estrutura do castelo.

No alto, além dos vitrais estilhaçados, a lua espreitava com seu olhar cínico, testemunha silenciosa de pactos e traições.

Continuei meu caminho, descendo pelo labirinto de corredores até emergir na passagem oculta ao sopé da montanha. A trilha era traiçoeira, serpenteando por entre pedras escorregadias e raízes retorcidas. O vento sussurrava nas árvores, trazendo consigo o cheiro de lenha queimada, um resquício da civilização à distância.

Ao longe, as luzes mortiças da cidade tremeluziam como vaga-lumes prestes a se extinguir. Um mundo diferente do castelo, mas não menos condenado.

A vila me esperava.

E Anton não veria o amanhecer.

Horas mais tarde — A cidade abaixo do castelo me é estranha, um detalhe novo que não reconheço de outrora. No entanto, a atmosfera permanece imutável. Há algo nesta terra que persiste, um odor espectral que não se dissipa. O castelo sempre foi um palco de anomalias: sombras que se movem sem fonte, espectros inquietos, aposentos que se deslocam como se fossem dotados de consciência.

Nestor advertira-me sobre tais ocorrências, mas o que testemunhei nas últimas noites desafia qualquer aviso.

O céu e a névoa ostentam tons ciano-azinhavres, como um prenúncio de morte. Raios rasgam a escuridão com luzes espectrais, trovões retumbam como tambores de guerra, e o vento... o vento ruge como uma matilha em frenesi. A neve, tingida em um gradiente sombrio, cai lenta, mas sem suavidade.

Então veio a noite passada.

A lua ergueu-se, titânica e dominadora, uma deusa silenciosa entre nuvens disformes. Caminhava pela floresta, atento aos sussurros do vento entre os galhos nus, quando vi—a primeira fissura.

Uma linha no ar, trêmula, pulsante. Então outra. E outra.

Até que se abriu um rasgo maior diante de mim.

O ar que emanava daquela fenda não pertencia a este mundo. Um odor de carne pútrida rastejou até minhas narinas. Algo se movia no outro lado, uma silhueta deformada oscilava entre a névoa espessa. Primeiro vieram os sons: grunhidos abafados, o estalar de ossos partidos. Então a luz pálida cresceu.

E eu vi.

A criatura rastejou da abertura. Sua pele era um tecido flácido e esbranquiçado, esticado sobre ossos retorcidos, veias arroxeadas pulsando sob a derme translúcida. Olhos sem íris, sem pupilas, apenas globos vazios, brilhando como pálidas esferas de morte. Sua boca se abriu num sorriso de presas finas como agulhas, e entre elas... restos humanos ainda gotejavam.

— Deixe de observar...— Uma risada gutural, profunda, ressoou em meus ouvidos. — Não gosto… que testemunhem meu deleite carnal e mundano. Sou… Ttyphrssett.

Meus músculos enrijeceram. Garras se projetaram. O instinto de sobrevivência rugiu dentro de mim.

A criatura avançou. Rápida, como um borrão espectral.

Saltei para o lado, girando o corpo. Minhas garras rasparam o vazio onde sua carne estivera há meros instantes. O vento sibilou quando ela girou, desferindo um golpe.

Levantei o antebraço a tempo—o impacto reverberou pelos ossos.

Ela riu, uma cacofonia de vozes sobrepostas.

— Fome é a minha eternidade… Estranho ser… deste mundo. — Sibilou sua voz estranha.

A voz era um sussurro, um grito, um eco de algo ancestral.

— E se te oferecesse uma presa melhor… Ttyp…Ttyphrssett? — Cuspi as palavras, desviando-me de mais uma investida.

A criatura parou. O vazio em seus olhos se contraiu levemente.

— Carne fresca. Alma quente.—

Ela inspirou o ar.

— Fala...— Seus dentes brilharam sob a luz difusa. — Mas que não seja engodo, ou devorar-te-ei antes do amanhecer.

Mantive a postura firme, a voz tão cortante quanto minha lâmina.

— Anton. Um mortal intruso nos domínios de Drácula. Um erro que precisa ser corrigido.

O ser inclinou a cabeça, avaliando-me.

— E como o entregarias a mim? — Gotas vermelhas gotejaram de sua boca cheia de dentes filosos e finos.

Um plano já se desenhava em minha mente.

— Um espelho. Na igreja central. — Minha voz era uma promessa de aço. — A armadilha será sutil. Ele não suspeitará até ser tarde demais.

A criatura lambeu os lábios maculados de sangue.

— Se tua promessa falhar, tua carne substituirá a dele.

Inclinei a cabeça levemente, um gesto de assentimento.

— Se falhar, nem mesmo merecerei sobreviver.

Tenho pouco tempo. Anton deve perecer. Sua vida será o tributo exigido por esta entidade insaciável. Não há hesitação.

Ao final, seu corpo sem vida será entregue a Nestor.

A escuridão desta terra exige tributos constantes, e hoje… Anton será o sacrificado.

A floresta estava silenciosa quando deixei aquele lugar profano. A criatura desaparecera, dissolvendo-se na noite como um espectro faminto. Minhas mãos ainda tremulavam com a adrenalina do confronto, mas meu pensamento já estava focado no próximo passo.

Caminhei em direção à cidade, ocultando-me entre as sombras das vielas. As ruas estavam desertas, a névoa rastejava como uma criatura viva, esgueirando-se entre as construções de madeira decrépitas. A poucos passos, uma das casas abandonadas se tornou meu refúgio temporário.

Empurrei a porta com cuidado. O interior estava empoeirado, com móveis gastos e uma lareira apagada há muito tempo. Um antigo lampião sobre a mesa me forneceu a luz necessária para registrar o que se sucedeu.

Sentei-me, puxando um pedaço de papel envelhecido. Minha caligrafia firme começou a preencher a página.

Larguei a pena sobre a mesa, observando a tinta escorrer lentamente.

Antes do dia fatídico, no entanto, precisaria encontrar Nestor novamente. Informá-lo do plano recém-forjado. Anton não poderia escapar... e eu deveria me certificar de que cada peça estava devidamente posicionada no tabuleiro antes que a noite de caça se iniciasse.

De Narcís Nestor
(Anotações em seu Caderno)

25 de agosto de 1871 —Ivan, sempre fiel à sua frieza militar, deixou-me uma carta em sua entrada habitual, como um cão de caça que deposita sua presa aos pés do mestre. A despeito de sua natureza imperturbável, até mesmo ele parece ter se assombrado com os eventos recentes. A ironia disso quase me diverte. Nos últimos tempos, o castelo tem sido palco de fenômenos tão frequentes e diversos que sua mera enumeração tornar-se-ia cansativa. Mas sigamos ao que realmente importa, ao haver um jogo a ser concluído, e o tempo é um luxo que não podemos nos dar. E o que ele relatou foi isto:

“Tenho pouco tempo para executar meu plano. Anton deve perecer, sua vida será o tributo exigido por esta entidade insaciável, Ttyphrssett. Não haverá trégua nem hesitação. Ao final, seu corpo sem vida será entregue a Nestor, e que ele decida o destino final dos restos mortais. A escuridão desta terra exige tributos constantes, e em três noites, Anton será o sacrificado.”

Tão direto e eficiente quanto um relatório de campanha. Há algo de quase tocante nessa disciplina militar com que Ivan trata até mesmo as monstruosidades mais abjetas. No entanto, como eu suspeitava, sua descrição não omite a repugnante participação de Ttyphrssett — aquela aberração execrável, escarrada das mãos da estimada senhora Olga. Como é peculiar que sua fome cega e primitiva venha, enfim, a ter um propósito. Ironia refinada.

Entretanto, antes que a peça final seja disposta no tabuleiro, há ainda um último e irritante dever a cumprir. Devo tratar com os Santos Dominadores. Ah, que nome pomposo para um bando de degenerados cuja “santidade” não passa de um véu esgarçado cobrindo vícios e ambições. Eles me causam repulsa, confesso. No entanto, são um mal necessário, mais profanos em sua falsa fé do que Ttyphrssett jamais será em sua fome animalesca.

O jogo se aproxima do xeque-mate. Restam três noites.

De Narcís Nestor
(Anotações em seu Caderno)

27 de agosto de 1871 — Nesta noite, pela discreta entrada ao pé da montanha, encontrei-me com um dos clérigos que infiltramos entre os patéticos Dominadores. Pobres almas iludidas por sua própria grandiloquência, sempre tão ávidas por acreditar que detêm o domínio sobre aquilo que mal compreendem. Mas que sigam em sua ilusão, pois essa nos serve.

O emissário desta vez foi um jovem chamado Luca — dezesseis anos apenas, mas já contaminado por uma ambição que me diverte. Há nele um brilho voraz nos olhos, não de fé, mas de algo muito mais interessante: um desejo de ascensão, de poder. Veremos até onde suas próprias ambições o conduzirão antes que o devorem.

Entreguei-lhe a mensagem destinada a Ivan, informando-lhe que o espelho necessário para a armadilha estará oculto dentro da nave da igreja, velado sob um grande pano negro. Detalhes importam. A simbologia importa. Um véu negro sobre o instrumento de condenação — quase poético.

Acrescentei ainda que Anton será devidamente instigado a dirigir-se à cidade a nordeste do castelo. O resto acontecerá como deve. Uma carta será deixada para Anton. Ele estará na igreja, às dezenove horas em ponto.

Resta ver se Ivan desempenhará bem seu papel.

Anton S. Miahi XIX
(Escrito em meu Caderno)

28 de agosto de 1871 — Os eventos que pude relatar foram demasiadamente assombrosos e perturbadores em níveis que jamais concebi ou sequer encontrei descritos nas páginas dos volumes mais soturnos que estudei. Suponho não viver um sonho, mas um tormento desperto, um pesadelo onde o próprio tempo parece corrompido. Meu peito se aperta, e por vezes me falta o ar. Tento desesperadamente organizar meus pensamentos, amarrar a razão ao que meus olhos testemunham, buscar um ponto de ancoragem para não ser tragado pelo abismo da loucura que habita estas paredes.

Nesta manhã, por primeira vez, despertei sem sobressaltos, sem os suspiros entrecortados de quem tem os nervos castigados pelo desconhecido. Houve uma calmaria incomum que me tranquilizou. Arrumei minhas coisas, limpei minhas botas com a atenção meticulosa de um soldado e observei a janela. Por algumas horas, a ilusão de normalidade me envolveu como um véu frágil. Mas, como tudo entre os vivos, a paz é efêmera.

O céu, antes cinzento e imóvel, começou a se transmutar. Primeiro, as nuvens espessas formaram um manto opressor sobre o vale. A chuva caiu pesada e súbita, e então, como uma guinada grotesca da natureza, deu lugar à neve. O frio invadiu o aposento, e a neblina rastejou pelas encostas como uma criatura faminta. Dirigi-me à janela, e, ao fitar a clareira de Séttimor, vi as luzes outra vez. Clarões de tons roxos e azul-acinzentados pulsavam na floresta como lanternas espectrais. Já as notara antes, mas hoje me pareceram mais próximas, mais intensas.

E então, um som.

Passos abafados no corredor. Um deslizar breve, contido, como se quem estivesse do outro lado hesitasse antes de agir. Girei nos calcanhares, fitando o vão da porta. Uma sombra estacionou diante dela, e sem que a madeira rangesse sob seu peso, um envelope foi deslizado por baixo. Permaneci imóvel por um instante, prestando atenção. Nenhum som de passos se afastando. Apenas o eco da minha própria respiração.

Aproximei-me. A carta jazia ali, pálida sobre o assoalho. Peguei-a com hesitação. O papel era espesso, amarelado, com um selo partido, como se tivesse sido aberta e lacrada novamente. Deslizei os dedos sobre sua superfície, sentindo um perfume antigo, amadeirado, quase espectral.

Ao desdobrá-la, li:

"A morte não é silêncio, Anton S. Miahi. Nem o tempo é um cárcere impenetrável.

O sangue derramado sempre busca seu reflexo, e ecos do que foi se enlaçam ao que ainda será.

A sombra do passado repousa sobre teu nome, e os fios que te ligam àqueles que se foram não foram cortados—apenas esquecidos. Olga tece as teias e cria caminhos, como sempre fez, e em meio ao lamento das pedras, há um nome que insiste em se erguer entre os mortos. O nome de teu irmão.

Se anseias pela verdade, procura-me onde os sinos dormem e as velas tremem ao menor sopro de vento. Onde o solo foi profanado e os juramentos, quebrados.

A noite de hoje te aguarda na cidade ao nordeste do castelo."

O ar no aposento pareceu tornar-se mais pesado. Olga. O nome que eu desejava sepultar no esquecimento ressurgia como um cadáver reanimado. E meu jovem irmão... há muito tempo morto, longe dos meus braços, mas jamais do meu espírito.

Quem escrevera tais palavras? Como sabia de coisas que poucos poderiam conhecer?

A cidade ao nordeste do castelo... um convite ou uma armadilha?

Independentemente da resposta, eu sabia que não poderia ignorá-lo.

Naquela noite — o que me ocorre ao recordar os eventos que nela se sucederam não é simplesmente uma lembrança indesejável, mas um terror que se assemelha, em sua intensidade e gravidade, aos próprios horrores vividos nos campos de batalha. O que testemunhei, no entanto, não se limita a um mero vislumbre de pesadelo: é uma marca indelével, profundamente gravada nas paredes de minha mente, que jamais se apagará.

Permitam-me, no entanto, oferecer-lhes o relato o mais fiel e acurado possível, como é meu dever como homem de ciência.

Em minha preparação para o que seria uma jornada incerta, vesti-me com o habitual cuidado de um oficial acostumado a respeitar os caprichos da natureza e os rigores do clima. Coloquei sobre meus ombros uma capa espessa de lã, resistente aos ventos cortantes daquela região desolada. A bota de couro, que se estendia até os joelhos, selava minha caminhada com firmeza e austeridade. O chapéu negro, de aba larga, e o sabre, meu fiel companheiro, completaram a indumentária, que, mais do que proteger-me da intempérie, era uma armadura psicológica contra as incertezas do desconhecido. O peso da experiência de combate, forjado nos campos de guerra, incitava-me à cautela, e, por isso, embora o temor de um desafio oculto pairasse sobre mim, minha razão ainda prevalecia, guiando-me através da escuridão.

O dilema que me atormentava não era pequeno. Deveria eu seguir os conselhos da lógica, da razão pura e das lições adquiridas em meu labor como historiador, ou ceder à tentação da descoberta, ao risco de me lançar em uma jornada cujos contornos eram, por ora, indiscerníveis? A dúvida pairava como uma sombra inquietante, mas a experiência adquirida nos campos de batalha me fazia permanecer firme, pois, como sempre, a razão deveria prevalecer sobre o instinto.

Felizmente, o tempo que dediquei ao estudo das cartas e dos mapas do Conde, documentos que o próprio me confiara, revelou-se, de maneira inusitada, como uma arma poderosa. Através deles, pude traçar o percurso, conhecendo os meandros daquele terreno que, embora familiar, ainda me era enigmático. O estudo intenso, por tanto, mostrou-se não apenas uma fonte de prazer intelectual, mas uma ferramenta de sobrevivência.

Ao sair de meu aposento, fechei a porta atrás de mim com um leve e contido estalo, como se o som não fosse mais do que o eco de minha decisão. O corredor do castelo se estendia à minha frente, envolto pela penumbra das tochas tremeluzentes, cujas chamas dançavam sobre as pedras e as paredes de pedra fria. O ar estava carregado, pesado, como se o próprio castelo estivesse respirando, aguardando a minha partida. Segui até a porta leste, a única que dava para o exterior, e ali, ao abrir a pesada folha de madeira, senti o impacto do ar gelado. A noite estava envolta em uma espessa camada de névoa, e o silêncio, profundo e solitário, me acolheu como uma capa de luto.

Antes de avançar, um impulso me fez olhar para trás, e foi quando, ao longe, através de uma janela turva e empoeirada, avistei uma silhueta. A luz tênue que emanava de dentro do castelo projetava sombras longas e desconcertantes, e, naquele instante, compreendi: era Nestor, observando-me daquelas alturas. O pressentimento que ele me causou não se limitava à mera curiosidade; algo em seus olhos me alertava para que a jornada que eu estava prestes a empreender era mais perigosa do que imaginava.

Decidi, no entanto, não hesitar. Tinha um destino, e era para ele que eu me dirigia. A carta que recebera indicava-me o caminho, e como um cavaleiro indo à sua cruzada, eu avançava, agora movido não apenas pela razão, mas por uma força que parecia transcender minha compreensão.

O percurso até a cidade mencionada na missiva foi árduo, e a densa vegetação, com árvores de pinheiro que se erguiam como sentinelas sombrias, parecia absorver a luz da lua, tornando cada passo mais difícil e incerto. O chão estava coberto de lama, que, a cada passo, grudava às solas de minhas botas, tornando a caminhada ainda mais extenuante. A neve voltou a cair, fina como pó de prata, e o vento, agora mais forte, parecia sussurrar palavras que não consegui compreender. As árvores, cujos troncos retorcidos pareciam lamentar sua própria existência, eram um cenário perfeito para o pesadelo que se desenrolava em minha mente.

Após uma caminhada de quase quarenta minutos, finalmente avistei o que procurava. Uma pequena cidade, erguida sobre uma elevação, com mais de vinte casas, se estendia à minha frente. No ponto mais alto, erguia-se uma igreja de duas torres pontiagudas, cujos contornos negros pareciam rasgar o céu nublado, como se estivessem conectados a algum poder obscuro. Uma sensação de estranheza me envolveu ao perceber a proximidade daquela cidade, uma cidade que não deveria existir, não tão perto do castelo, não tão afastada de Séttimor.

— "Então, este lugar realmente existe?" — A pergunta surgia involuntária, como uma súplica ao destino. Não podia acreditar que uma cidade assim pudesse estar oculta, a apenas quatro ou cinco horas de caminhada forçada, mas ali estava ela, desafiando toda a lógica.

O muro de meia altura que cercava a cidade não era mais do que um amparo inútil contra o mundo exterior, e o portão de madeira rústica parecia, mais do que uma entrada, uma brecha para outro mundo. Não havia uma alma viva na rua, mas as luzes tremeluzentes das casas indicavam que, pelo menos, havia algum tipo de vida. O silêncio, no entanto, era ensurdecedor, e o som distante de animais de fazenda acrescentava uma camada de inquietação à quietude sobrenatural que pairava sobre o local.

Ao cruzar o portão, algo alterou a realidade ao meu redor. Foi como se o próprio tecido do espaço se distorcesse, como se uma película invisível tivesse se rasgado, e eu fosse lançado em outra dimensão. O ar parecia se fragmentar, e eu, em um estado de confusão, apoiei-me no portão, sentindo minha cabeça girar. Quando finalmente consegui abrir os olhos, tudo havia mudado. O mundo ao meu redor se tornava maleável, ondulante, como se estivesse imerso em um rio sereno. Bolhas surgiam, flutuando diante de mim, e dentro delas, imagens que se desfocavam antes de revelar cenas de lugares nunca antes vistos — mas que, inexplicavelmente, se assemelhavam a minhas próprias memórias.

Dentre essas bolhas, uma se formou diante de meus olhos, e ao tocá-la, a cena que se revelou fez meu coração parar. Meu irmão, em meus braços, sangrando. O sangue se espalhava sobre suas roupas, escorrendo pelas minhas mãos e caindo sobre minhas pernas. Um grito, abafado pela memória, ecoou em minha mente, e uma sensação de angústia imensurável tomou conta de meu ser. A bolha explodiu, e outras começaram a se formar, distorcidas e caóticas.

Foi neste momento que tomei minha decisão: eu precisava entender o que estava acontecendo. Eu precisava desvendar os mistérios que aquele lugar ocultava.

Avancei, com a determinação que só a dor pode conceder, em direção à igreja. Porém, a uma curta distância das portas, uma barreira invisível parecia me deter, como se o próprio espaço estivesse rejeitando minha presença. Respirei profundamente, voltei a me concentrar, e apertei o punho ao redor do sabre. Estava resoluto, mais do que nunca.

A porta da igreja, que parecia aguardando minha chegada, estava escancarada, como se me convidasse a adentrar seu domínio. Não queria ser impetuoso, pois sabia que a cultura local talvez exigisse mais respeito. Então, entrei com o maior cuidado possível.

Foi quando fui tomado pela estranha melodia que preenchia o interior. Um canto singular, que me remeteu aos cânticos gregorianos da Notre-Dame. Sua beleza não ocultava a estranheza de sua origem. Não sabia se aqueles monges eram católicos, anglicanos ou luteranos, mas sabia que algo em sua música ressoava com a obscuridade daquele lugar.

A arquitetura da igreja era como uma sinfonia de sombras, com colunas robustas adornadas por desenhos que pareciam antigos demais para serem identificados. O altar, elevado e macabro, estava coberto por símbolos que não se assemelhavam a nada que eu já tivesse visto. No altar, o sacerdote se destacava, um homem de barba grisalha, vestindo um manto negro com uma faixa cinza no peito. O ambiente todo emanava uma aura de segredo, e, no lado esquerdo, uma cortina cobrindo algo… algo que eu sabia que não deveria ver, mas que, mesmo assim, me atraía como uma força magnética.

Aquela noite, tão aguardada e temida, chegou com a promessa de revelar mistérios que jamais poderia imaginar. Adentrei a igreja com a diligência habitual de um homem de armas, mas também com a mente de um historiador. Eu sabia que a verdade, em sua forma mais pura e aterradora, seria revelada ali, entre aqueles muros ancestrais. 

O ambiente, imerso numa quietude sagrada, parecia reverberar com a história das eras passadas. As paredes de pedra estavam adornadas com inscrições em latim e símbolos antigos que pareciam pulsar com uma energia quase tangível. O canto dos monges, profundo e doloroso, era a alma daquele lugar — seus ecos tocavam minha alma, como se estivessem chamando não apenas à reflexão, mas ao despertar de algo profundo e sombrio.

Gradualmente, meus olhos se adaptaram à penumbra da nave. Eu estava ali, mas não como nenhum homem comum, não como um simples soldado ou professor. Eu era um espectador, aguardando o momento certo para agir, para confrontar o desconhecido que se ocultava por trás dos véus daquele culto sombrio. No entanto, o que me aguardava não era mera informação, mas uma experiência que desafiaria todos os meus princípios.

Foi quando me sentei, num banco distante, que senti a presença de um monge ao meu lado. Ele não disse nada de imediato, mas sua presença era inegável. Um pequeno monge de semblante pacífico, mas cuja aura emanava algo indescritível.

Ele se virou para mim com uma suavidade calculada e falou em tom baixo, quase sussurrante, mas ainda assim carregado de uma autoridade que não pude ignorar:

— Anton S. Miahi, o oficial da cavalaria? Eu sabia que você viria. Seu destino está entrelaçado com o que aqui acontece. Sou Luca.

Eu o olhei com desconfiança, não compreendendo o que queria dizer com aquilo. Mas havia algo em sua fala que me fez hesitar. Ele sabia meu nome. Mais ainda, sabia do meu propósito ali. Esse conhecimento não era comum, e era isso que me inquietava.

— Como sabe quem sou? O que sabe sobre meu irmão? — Minha voz saiu quase imperceptível, mas o monge ouviu.

Luca baixou a cabeça ligeiramente, como se ponderasse suas palavras, e então se inclinou mais perto, falando com uma confiança perturbadora:

— O que você busca aqui, Anton, não é apenas justiça. Você está buscando a verdade sobre seu irmão, o que aconteceu com ele. Sei onde ele está, mas o que posso lhe oferecer será além daquilo que você pode compreender no momento. Imploro: espere até o fim do canto. Quando os monges cessarem, sua resposta estará diante de você.

Suas palavras eram enigmáticas, mas algo em meu íntimo me dizia que ele falava a verdade. O medo, que em outros tempos teria me paralisado, agora se transformava em uma força incognoscível, uma determinação que me impulsionava a continuar, a esperar.

Mas a verdade, como sempre acontece com as trevas, chegou mais cedo do que imaginava.

Os cânticos interromperam-se abruptamente, e o silêncio se abateu sobre a igreja, como uma tempestade prestes a romper os céus. Olhei para o altar, e então percebi o que se desenrolava à minha frente. Um monge tirou o capuz e olhou-me com um sorriso cruel, um sorriso que denotava algo além da simples perversidade. Ele tinha uma cicatriz que cortava o lado direito de seu rosto, uma marca que falava de guerra, dor e sacrifício. Seus olhos, os olhos de um homem que já havia visto o inferno, fixaram-se em mim. Um arrepio percorreu minha espinha.

Ele foi até a cortina, com um gesto quase ritualístico. Movendo-a, ele recitou palavras em uma língua estranha, e, quando a cortina foi retirada, um espelho apareceu. Não era um espelho comum. Suas bordas estavam adornadas com símbolos que emitiam um brilho obscuro, uma luz azul-acinzentada, quase sobrenatural. E, então, a névoa começou a se formar. Um cheiro de carne apodrecida e sangue se espalhou pelo ambiente. Todos os presentes começaram a se agitar, mas ninguém ousou se mover.

Uma risada gutural e grotesca ecoou pela igreja, reverberando em meus ossos, como se o próprio ar estivesse rindo da nossa impotência.

E então, a criatura apareceu.

Ela não era humana. Suas formas, distorcidas e contra-natura, eram algo que eu nunca poderia ter descrito em palavras. Sua pele era pálida, esticada sobre ossos frágeis, como uma tela de carne que se retorcia com cada movimento. Seus olhos, ou melhor, os buracos onde os olhos deveriam estar, estavam vazios, sem íris, sem pupilas. Mas havia algo ali — uma presença, uma malícia que me cortava mais profundamente do que qualquer espada. O sorriso que ela mostrou era o de um predador — dentes finos e afiados como agulhas, dentes que brilhavam sob a luz fraca. Seus membros, longos e elásticos, pareciam ter vida própria, prontos para envolver e esmagar qualquer um que ousasse enfrentá-la.

A voz esganiçada dela cortou o silêncio, uma voz que parecia ecoar de todas as direções ao mesmo tempo:

— Criaturinha… Pequeno coelho… você é a próxima vítima. Venha, venha e seja consumido!

Os monges ao redor começaram a recitar preces freneticamente, mas não havia proteção ali. A criatura avançou, seus passos rápidos e pesados, esmagando a paz que até então reinava. Puxei minha espada, o metal reluzindo sob a luz sombria. Mas antes que pudesse reagir, a criatura avançou sobre mim com uma velocidade sobrenatural.

A luta foi um turbilhão de movimentos. Meus golpes, treinados por anos de batalha, eram rápidos e precisos, mas a criatura esquivava-se com uma agilidade impossível. Ela me atingiu com uma força esmagadora, um golpe brutal que fez com que minhas costelas se rompessem com um estalo doloroso, uma dor que fez tudo ao meu redor desaparecer em uma névoa de dor pura. Antes que pudesse me recuperar, ela saltou sobre mim, mordeu meu braço direito com uma força aterradora. A dor foi tão intensa que me fez quase perder os sentidos, mas, com um esforço desesperado, mantive minha espada firme.

A criatura recuou momentaneamente, e foi quando aproveitei a chance. Em um movimento rápido e preciso, cruzei minha espada e acertei o pescoço da criatura, rasgando sua carne podre. Ela gritou, uma gritaria grotesca e cheia de fúria, mas não recuou.

Com um último esforço, criei uma abertura e, com a força que me restava, cruzei o aço da lâmina contra a sua garganta. O sangue negro jorrou, e a criatura desabou no chão, sem vida. Eu estava exausto, sangrando, a dor consumindo cada fibra do meu ser.

Mas antes que pudesse dar um passo, a escuridão me tomou. Caí ao chão, meu corpo um emaranhado de dor. Senti meu sangue sair, quente e espesso, a dor alucinante do meu braço direito e das minhas costelas rompidas. Minha cabeça girava suavemente, mas pude reconhecer o velho monge barbudo, ainda com seu manto negro e cinza. Ele se aproximou, murmurando preces enquanto me tocava.

Eu mal conseguia entender suas palavras, mas o tom dele me trouxe uma sensação de alívio, mesmo em meio ao caos.

— Cavalheiro, você está no limiar entre a vida e a morte. Mas há algo que posso lhe oferecer… Se você aceitar a salvação, se desejar seguir a verdade da Igreja, sua vida será preservada.

Meu corpo, debilitado e atormentado pela dor, resistiu a essa oferta. Mas minha mente, naquele momento, sentiu o peso da escuridão que se aproximava. Eu, com um esforço sobre-humano, olhei para o monge e disse, com a voz embargada pela dor:

— Eu aceito…

A escuridão tomou conta de mim.

Quando acordei, estava em uma sala estranha, cheia de vapores e luzes opacas. O ar estava quente e úmido. Algo acontecera, algo além da compreensão humana. Mas o quê? O que havia mudado em mim? Eu não sabia, mas o temor tomou conta do meu ser. Algo estava diferente… algo em mim tinha sido alterado.

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Diário de Anton S. Miahi VII

Meu inestimável, Escrevo estas linhas para narrar o inexplicável. Apenas ao rabiscar estas palavras, sinto a sombra daquela noite envolver-me como um manto frio, um toque…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

De Dr. Christopher V. Walker II 
(Carta para Anton) 

De: Dr. Christopher V. Walker
Paris, 17 de agosto de 1871
 

Meu inestimável, 

Escrevo estas linhas para narrar o inexplicável. Apenas ao rabiscar estas palavras, sinto a sombra daquela noite envolver-me como um manto frio, um toque de horror que a ciência, por mais que avance, parece incapaz de elucidar. 

Eu me encontrava na sala de medicina da Universidade de Paris, acompanhado pelo investigador Jules de Moreau e quatro guardas, enquanto outros seis permaneciam atentos nos corredores. A noite estava turbulenta; lá fora, uma tempestade varria Paris com raios e trovões, e mesmo sob a luz das lâmpadas a óleo, cada clarão projetava sombras que dançavam ao redor dos corpos dispostos sobre as macas. O cheiro de chuva e sangue enchia o ar, misturado ao óleo queimado, impregnando o local de um mal-estar indescritível. 

— Diga-me, doutor, — começou Jules, com sua voz grave ressoando pela sala, — qual é a sua teoria? Esses corpos, encontrados nas margens do rio, exangues e com sinais de resistência apenas em um dos braços… é como se algo se alimentasse neles. 

Parei ao lado de um corpo, o de uma jovem dama, notando algo que até então havia escapado à nossa análise. Havia uma mancha negra se espalhando ao redor das perfurações em seu pescoço, como um mapa macabro de venenos rastejantes. 

— Jules, aproxime-se, veja isto! — murmurei, sentindo uma urgência terrível. — A mancha negra parecia pulsar como algo vivo. 

Estávamos ambos petrificados diante daquele detalhe perturbador, até que um trovão estourou sobre nós, silenciando a sala. E então, quase como um sussurro ecoante, uma voz profunda reverberou ao redor. 

— “Levantem-se, criaturas da noite…” 

Os guardas se aglomeraram na porta, enquanto eu, hipnotizado pela voz, me mantive imóvel junto ao corpo. Foi quando ouvi um som molhado e denso: gotas caíam do corpo da jovem para o chão, formando poças negras e viscosas. De repente, os corpos ao redor começaram a se debater, com espasmos horripilantes, como se tivessem sido tomados por uma força oculta. 

Os guardas, tomados pelo medo, sacaram as armas e avançaram, mas mal puderam dar mais que alguns passos antes que um novo trovão apagasse todas as luzes, mergulhando-nos na escuridão. Os relâmpagos entravam pela janela, iluminando uma visão aterradora: os corpos já não estavam sobre as macas. 

— Atrás de vocês! — apontei, ao ver o brilho fantasmagórico do relâmpago. No mezanino acima de nossas cabeças, pendia o corpo de um dos guardas, os olhos abertos, agora vazios. O que o segurava era uma criatura de pele pálida, olhos vermelhos como brasas e dentes longos e afiados. O som de sua respiração era como o ranger de ossos. 

Sem hesitar, as criaturas lançaram-se sobre nós, e a sala virou um campo de batalha. Os guardas disparavam suas armas, mas cada tiro parecia apenas irritar aquelas coisas. Ouvi os gritos, o som de carne sendo dilacerada, e o sangue começava a escorrer pelo chão em filetes escuros. 

Caído ao chão, observava aquele pandemônio, até que senti uma mão forte me puxar. Era Jules, com o rosto contorcido em uma expressão de pura adrenalina. 

— Rápido, Walker! Vamos! — Gritou o investigador para mim. 

Corremos. Deixamos a sala para trás, os gritos de nossos companheiros ecoando enquanto os guardas do lado de fora, ao ouvir os disparos e os uivos das criaturas, corriam para a sala. Mas nós seguimos na direção oposta, tomando os corredores tortuosos da universidade. Meus passos ressoavam junto aos de Jules, cada batida de nossos pés acompanhada pelo eco do horror que deixávamos para trás. 

Os corredores, que antes pareciam frios e vazios, haviam se transformado em um labirinto sinistro, cada sombra, uma ameaça, cada passo um desafio à sobrevivência 

Enquanto escrevo, ainda sinto os ecos daquela madrugada sombria pulsarem em minha mente, como uma ferida que se recusa a cicatrizar. Nossa fuga pelos corredores da universidade foi marcada por gritos, tiros e o som metálico de garras raspando as paredes. Os policiais que enfrentaram aquelas criaturas, mesmo armados, não tinham chance. O som dos disparos era abafado por gemidos, estalos e súplicas – uma cacofonia de morte e terror. 

O coração martelava no peito; a respiração, pesada, tornava-se uma tortura. A cada passo, a exaustão aumentava, mas era impossível parar. Jules estava ao meu lado, o rosto pálido e os olhos arregalados, sua mente oscilando entre incredulidade e pavor. 

— Doutor, o que eram aquelas… coisas? Por que os mortos voltaram para caçar os vivos? — ele sussurrava, a voz trêmula, quase suplicante. 

Fizemos uma curva e avistamos uma porta entreaberta. Sem hesitar, atravessamos o limiar e a fechamos atrás de nós, encostando-se pesadamente contra ela. Jules continuava com suas perguntas, o Colt .36 tremendo em suas mãos. Eu, por minha vez, lutava para organizar meus pensamentos, mas só pude murmurar: 

— Meu amigo, é como se todos os conhecimentos médicos e científicos que acumulamos se tornassem inúteis diante dessa aberração… 

Naquele momento, Anton, devo confessar que me senti apanhado em uma teia de forças que escapavam ao domínio humano. Devo ter irritado algo ou alguém com minhas investigações, pois aquele mal parecia ter um propósito que me escapava, uma inteligência sinistra e calculista. Senti a urgência de procurar ajuda espiritual. Talvez eu devesse ter passado na Abadia de Saint-Germain-des-Prés, conversado com o padre Bastien antes de continuar esses estudos macabros. Mas não, minha curiosidade foi minha única guia. 

Os ponteiros do relógio pendurado na parede indicavam que era quase cinco e meia da manhã. Notei então uma fina linha de fumaça entrando pela fresta sob a porta e avisei a Jules. Em seguida, ouvimos passos pesados se aproximando, e algo arranhando as paredes com um som que fazia o sangue gelar. 

— Prepare-se…. — murmurei, agarrando um mancebo de madeira que achei ao lado. Jules verificou o tambor de seu revólver com mãos trêmulas e o ergueu, firmando-se no centro da sala. 

As pancadas na porta ficaram cada vez mais violentas, cada golpe fazendo as dobradiças rangerem. Até que, com um guincho arrepiante, a porta foi escancarada, revelando aquela criatura bestial que nos perseguia. Era uma visão saindo dos pesadelos mais profundos: olhos brilhantes e inumanos, dentes longos e afiados como os de um predador, e uma postura arqueada, como se cada movimento fosse uma ameaça. 

A coisa avançou, e em um ímpeto, Jules disparou. O tiro atingiu o peito da criatura, mas ela sequer hesitou. Atingiu-o com uma força descomunal, lançando-o ao chão. Girei o mancebo e golpeei a coisa nas costas, mas foi como acertar pedra – ela se voltou contra mim, o olhar faminto e cruel, e senti suas garras arranharem minha pele. 

Jules, ferido e sangrando, conseguiu erguer o Colt novamente e disparou contra o rosto da criatura. Ela recuou, emitindo um urro bestial, mas ainda estava longe de ser vencida. Eu, com uma energia que não sabia possuir, desferi mais um golpe, e ela caiu por um instante. Mas o tempo não estava a nosso favor, pois, em breve, ela se ergueria novamente. 

Uma última vez, olhei para o relógio – eram seis horas da manhã. Do alto das janelas quebradas, o primeiro raio dourado do sol irrompeu, cortando a escuridão e tocando o chão. Com um novo grito, a criatura recuou, e ao ser tocada pelo feixe de luz, seu corpo começou a se contorcer e emitir um uivo horrível. Ela fugiu para o corredor, mas já não restava dúvida: a luz do sol parecia ser a única coisa que a deteria. 

Corremos atrás, mas ao virarmos o corredor, ela já havia desaparecido, como se a noite a tivesse engolido de volta. 

Decidimos retornar à sala onde tudo começara. O caminho estava repleto de sangue, corpos e destroços; o cheiro metálico impregnava o ar. Ao chegar, avistei o cadáver da jovem dama ainda sobre a mesa de dissecação. Sobre seus pés, uma poça de líquido negro, denso e fétido, repousava. Olhei para Jules, ambos entendendo que aquela visão era o epítome de tudo que tínhamos presenciado. 

 

Foi quando, mediante um vitral intocado, o sol invadiu o recinto. Um feixe de luz pousou sobre o cadáver da moça. Em instantes, como por um fogo divino, seu corpo começou a arder translúcido, reduzindo-se a cinzas em um espetáculo silencioso e terrível. 

O que seria essa essência negra e pútrida, esse sopro de morte que não mais reconheço, Anton?  

De Anton S. Miahi V
(Carta para Dr. Christopher) 

De Anton S. Miahi V 
Bram, 10 de agosto de 1871
  

Meu querido e estimado amigo, 

Recebo a notícia do ataque que sofreu com um assombro que mal consigo expressar. É como se uma sombra imensa houvesse se arrastado das profundezas até nós. Que esses horrores tenham cruzado a fronteira da nossa França, e ainda mais que tenham se voltado contra você, Christopher — um homem de ciência, um pensador! Tais eventos são de uma natureza tão grotesca, tão inumana, que mais se assemelham à obra de criaturas infernais, daquela maldita estirpe que apenas o próprio Diabo poderia conceber. Sua descrição, vívida e apavorante, fez com que a imagem tomasse forma em minha mente: uma cena tão infernal que me pergunto se aqueles corpos não foram possuídos por demônios. 

O jornal que me enviou já me havia deixado intrigado e preocupado. No entanto, esta última carta trouxe uma inquietação que atravessa o mero temor — diria até que roça o desespero. Meu amigo, começo a me perguntar se fiz bem em aceitar este convite para cá. Em minha ignorância, pensei que seria uma aventura entre velhos manuscritos e o pó da História, mas me vejo agora questionando a própria essência do que creio real. Imagino o que meu irmão, cuja ausência ainda sinto como uma sombra em meu peito, pensaria disso tudo. Ele sempre teve um senso prático que, talvez, tivesse me feito ver o que agora não posso ignorar. Ele, em sua racionalidade serena, certamente evitaria esse pântano de incertezas que sinto crescer ao meu redor. 

Você sabe, Christopher, que prezo a razão acima de tudo. Marcel bem conhece minha mente cética, minha preferência pela lógica. No entanto, aqui estou, numa terra onde a realidade parece brincar com nossas percepções, onde sombras parecem ganhar vida e as portas dos corredores nunca permanecem exatamente onde as deixei. Sinto-me empurrado, atraído como uma marionete, para dentro de uma rede negra e pegajosa que me envolve cada vez mais. 

Pior ainda, sou assombrado por visões e criaturas que desafiam o natural, entidades que parecem emergir de histórias que antes eu teria desdenhado, as lendas ciganas que outrora escutamos com ironia entre copos de vinho. Aqueles contos, amigo meu, me rondam agora como presságios, e uma parte de mim teme descobrir o quanto das palavras deles era verdade. 

Cada dia que passa me sinto mais enredado neste lugar. É como um abraço apertado, uma serpente invisível que me envolve em laços escuros, me puxando lentamente para um abismo do qual, temo, já não poderei escapar. É com essa sombra que encerro esta carta, esperando que, ao lê-la, encontre alguma solução que me liberte deste feitiço infernal. 

Com gratidão e afeto,
Anton S. Miahi
 

Anton S. Miahi XIV 
(Escrito em meu Caderno) 

26 de agosto de 1871 — Acordei num sobressalto. O peito arfava, e a mente, desordenada, lutava para discernir o que era realidade e o que era apenas um delírio fugaz da madrugada. Havia... algo. Como uma sombra de lembrança — ou seria uma ilusão? Um rosto... não, era mais uma presença. Monm. O nome veio como um sussurro em minha mente, trazendo um peso indefinível e uma estranha familiaridade. Sinto que falamos, mas os detalhes se dispersam como bolhas de sabão ao vento, frágeis e transparentes. 

Levantei-me, ainda vestido com as roupas do dia anterior e com as botas pesadas nos pés. Não me recordo de como cheguei ao quarto, tampouco lembro de ter caído no sono. Caminhei até a janela, puxei as cortinas, e um relâmpago cortou o céu, revelando o cenário montanhoso, áspero e sombrio. O relógio no canto indicava que mal passavam das sete da manhã, mas meu corpo, exausto e enrijecido, teimava em permanecer no torpor da noite. 

A cada lampejo de luz, o quarto oscilava entre sombras densas e tons estranhos de lilás. Tudo parecia imóvel, congelado. Os detalhes ao meu redor eram meros espectros de cor: preto, branco e lilás. Como se o próprio tempo hesitasse, mantendo-me aprisionado em uma madrugada eterna. 

Então, o som de passos ecoou pelo corredor. Femininos, leves, mas decididos. Uma presença fria pareceu invadir o ar. Virei-me, fixando o olhar na porta entreaberta, e lá, no vão, uma luz amarelada oscilava. Fiquei paralisado. Um aroma de lavanda começou a invadir o quarto, um cheiro familiar, trazendo de volta uma lembrança distante: minha tenda no exército, o pequeno altar de um oficial ao meu lado... "Para concentração, meu amigo. Uma questão de fé", ele sussurrava, queimando aquelas flores secas. O aroma era intenso, mas a lembrança, frágil. Pisquei e tudo se desfez. O aroma se dissipou; a luz, sumira. 

Movido por um ímpeto irracional, dei um passo adiante e abri a porta com violência, encarando o corredor vazio. Olhei em ambas as direções, tentando entender para onde poderia ter ido aquele vulto, aquela luz... aquela presença. E foi então que uma voz rasgou o silêncio. 

— Senhor Anton! O que diabos você está fazendo saindo assim? 

O susto me fez virar rapidamente, encontrando Nestor, meio escondido nas sombras do corredor. Ele me olhava com uma sobrancelha arqueada, e sua expressão oscilava entre o escárnio e a irritação. 

— Procurando... alguma coisa, Nestor? — minha voz saiu estranhamente rouca, como se eu mesmo não acreditasse no que estava dizendo. 

E então me indaguei em minha mente, — “Como ele chegou ali, sem fazer qualquer som?”. 

Ele riu, aquele riso ácido que poderia conduzir qualquer um ao desconforto e tirar do sério.  

— Procurando? Ou apenas vagando como um louco? A essa hora, senhor Anton? E pelo que exatamente? 

Suspirei, tentando recompor o pouco de sanidade que me restava.  

— Eu... ouvi passos. E havia uma luz, um perfume de lavanda... 

— Lavanda? Ora, cavalheiro, agora estamos vendo e sentido fantasmas perfumados? — aquele mordomo esboçou um suave sorriso no canto dos lábios com clara intenção de deboche. 

— Nestor… — repliquei, com um tom mais firme — Estou falando sério. Não era minha imaginação. Houve algo, ou alguém, aqui. 

Ele se aproximou, e a luz mortiça do corredor destacou o brilho sarcástico em seus olhos. 

— "Algo ou alguém", você diz... Como Monm, quem sabe? Que de tão... peculiar, deixou você assim, num estado deplorável. 

Meu corpo se enrijeceu ao ouvir o nome. Ele havia dito aquilo de propósito. Monm... Sim, fora ele. Ou algo de sua presença em minha memória. É certo que estive com ele e mais alguém... Um misto de inquietação e confusão revolvia meu estômago. 

— O que sabe sobre ele, Nestor? Você sempre fala como se soubesse mais do que diz. 

O mordomo inclinou a cabeça, os olhos faiscando com um brilho que mesclava curiosidade e desprezo.  

— Talvez eu saiba, caro senhor Anton. Mas cabe ao senhor descobrir até onde consegue ir com essas... suspeitas — Ele se virou lentamente, num sussurro gélido, carregado de um peso sombrio. — Ou essas alucinações, você decide! 

A frieza em suas palavras ecoava na penumbra. Minha mão tremia, e meu coração pulsava forte, o odor da lavanda ainda parecia impregnar o ar. Mas antes que pudesse argumentar, Nestor já se afastava, o som de seus passos desaparecendo ao dobrar o corredor. 

Permaneci ali, estático. Aquele jogo de provocações e segredos estava corroendo o que restava de minha sanidade. Envolto naquela atmosfera densa e carregada de mistérios, me perguntei, mais uma vez, se eu não era, de fato, o louco que Nestor insinuava. 

Ouvi um último eco da voz dele, como se a própria sombra das palavras fosse real: 

— Cuidado com o que procura, Anton. Às vezes, as respostas nos encontram primeiro. 

Naquela tarde — O sussurro final de Nestor ainda flutua em minha mente, como uma sentença envolta em trevas: "No salão de jantar haverá alguém que o acompanhe desta vez. Ela é a que divide o senhorio deste castelo." Suas palavras cortaram o ar, carregadas de algo indizível. Antes que eu pudesse responder, ele desapareceu, engolido pela penumbra do corredor, como uma sombra esvaída no limiar da visão. 

Fiquei ali, imóvel, o coração pulsando, a mente embotada. A imagem de Nestor sumindo na escuridão misturava-se às lembranças confusas da noite anterior... Meia-Noite, Uor, Olga Nivïttz. Nomes que ecoavam em minha cabeça, fragmentos de uma realidade que se desintegrava como papel queimado. 

— Então... hoje a verei — murmurei, sem saber a quem dirigia minhas palavras, como se a própria escuridão ouvisse e absorvesse minha incerteza. 

O silêncio me sufocava. Havia meses que eu residia neste castelo, vagando por seus corredores sombrios, sentindo a presença do próprio Conde Drácula como uma sombra que nunca se dissipa. Mas esta seria minha primeira vez diante dela. Ela, a senhora oculta das muralhas de pedra e das câmaras seladas por mistérios. O que poderiam Monm, Uor e Meia-Noite saber que eu não sabia? E até onde as palavras deles eram dignas de confiança? 

Quando dei por mim, já estava em meu quarto, movido por uma vontade instintiva de me preparar. Vasculhei o guarda-roupa, tirando do cabide uma camisa de linho branco — tão claro que quase parecia uma afronta em meio àquela penumbra. Escolhi também um colete de couro negro, a cor das noites eternas que cercam o castelo. Vestindo-me com rapidez, ajustei a camisa, passei a mão pelas botas para livrá-las do pó acumulado, e me pus diante do espelho. Os espelhos, sempre tão traiçoeiros... 

— Esta é a imagem que levarei para a presença dela... — sussurrei, observando-me atentamente. Meus próprios olhos pareciam me desafiar, como se escondessem um segredo que até eu desconhecia. 

Arrumei o colarinho, alisei a frente do colete e dei um passo para trás, inspecionando o alinhamento de cada peça. Meus dedos estavam frios, mas o espírito... O espírito, eu tentava preparar o melhor que podia. Inspirando fundo, virei-me e saí, meus passos ecoando pelo chão de pedras. Marchava em direção ao inevitável, como um soldado destinado ao sacrifício. 

O corredor principal me esperava, longo, sombrio, um túnel de madeira e pedra, iluminado apenas por candelabros de metal corroído que lançavam sombras deformadas nas paredes. Cada vela tremulava com uma leve brisa, como se uma presença invisível me seguisse, ansiosa por ver o que eu descobriria no final desse percurso. 

Enquanto avançava, o ar parecia pesar mais, preenchendo meus pulmões com uma umidade densa, como se até o próprio oxigénio carregasse o cheiro de tempos passados. De repente, a decoração do castelo, antes apenas uma extensão da escuridão, pareceu ganhar vida. Paredes adornadas com tapeçarias desbotadas, desenhos de batalhas antigas e figuras de seres esquecidos pelo tempo. Quase podia ouvir os gritos abafados e os sussurros ancestrais que emanavam de cada trama. 

Cheguei ao portal principal que me conduziria ao salão de jantar. As portas pesadas de carvalho negro, decoradas com entalhes de criaturas míticas e rostos que observavam com um olhar quase humano, destacavam-se como os guardiões de um segredo profundo. Toquei a madeira fria, hesitando. 

"Anton..." minha própria voz soou estranha, como se fosse um eco que retornava de um lugar distante. — O que espera encontrar? E se... se aquilo que lhe disseram for verdade? 

Sacudi a cabeça. Não havia mais volta. Empurrei as portas e, de súbito, o salão se revelou, banhado em uma luz mortiça e trêmula. O espaço era vasto, com teto arqueado, decorado com lustres de cristal que pendiam como lágrimas de uma noite eternamente suspensa. O chão era de mármore escuro, onde sombras dançavam, movendo-se como entidades de uma realidade à parte. 

No centro do salão, uma mesa imensa, ladeada por candelabros de prata altos e pesados, cujas chamas tímidas lançavam uma luz que não chegava às extremidades da sala. Ali, em uma das cadeiras ao centro, uma figura feminina esperava, imóvel, o olhar fixo e atento. 

— É ela. — sussurrei entre dentes. 

Meu corpo hesitou, uma mistura de curiosidade e temor congelando cada músculo. Forcei um passo à frente, e foi nesse momento que sua voz rompeu o silêncio. 

Senhor Anton Stefan Miahi... quão fascinante é receber-te n’este momento singular... — proferiu ela, em um tom que parecia dançar entre a formalidade cortês e a introspecção calculada, cada palavra carregando um peso que transcendia o momento. — Revela-me, somos frutos do acaso ou a predestinação trouxera tua calorosa presença à minha neste alvor silente? 

— Senhora Nivïttz, eu... não esperava tamanha... hospitalidade — respondi, sentindo o peso de cada palavra enquanto me aproximava. 

Ela sorriu com uma seriedade única, e havia algo em sua postura que combinava elegância natural e uma presença quase etérea. Uma mulher de olhar profundo e enigmático, cuja força de personalidade transparecia em cada gesto. Seu modo de falar era impecavelmente rebuscado, como se cada palavra fosse uma peça trabalhada por um artesão. 

É-me um insólito prazer, Senhor Anton. Algumas recepções, devo, entretanto, advertir, são conjecturadas para além da congruente psyché. – disse ela, inclinando a cabeça ligeiramente, como quem pondera a profundidade do desconhecido. – Esta é a seiva rubra e viva d'este meu Castelo: uma reflexão, decerto, da mórbida inquietação dos que sob seu teto residem. 

A mesa diante de mim estava repleta de alimentos, alguns familiares, mas muitos outros exóticos, de origem desconhecida. Fome e receio se misturavam em meu estômago. 

Senta-te, Anton, se assim me concedes a ousadia de ordenar — ela me convidou, indicando a cadeira ao seu lado, com um gesto que era, ao mesmo tempo, gracioso e autoritário, como uma monarca distribuindo favores. — Raríssimo sopro de serenidade é este, como uma lacuna dentre o caos; um momento sublime que nos permite apreciar sem pressa... — Um silêncio se alastrou sufocante. — Deleita-se, pois, a efemeridade é o orvalho sob o sol nascente. 

Engoli em seco e tomei o assento. O ambiente carregava uma tensão que parecia se solidificar a cada momento. Ela me observava, trazia uma sutileza persuasiva que oscilava com uma seriedade perturbadora e enigmática, uma pista de seus pensamentos complexos. 

Diga-me, Anton… — ela retomou, sua voz envolta em uma cadência quase musical, como se cada palavra fosse selecionada com uma precisão cirúrgica. — O que encontraste, caríssimo, dentre os claustros ocultos e os aposentos sombrios de meu lar, despertara as estranhas de tua inibida curiosidade? 

— Pode-se dizer que há muito que me intriga, senhora Nivïttz.. — Respondi, cauteloso. — Mas não sei até onde as descobertas são minhas... ou foram deixadas para que eu as encontrasse. 

Ela inclinou-se ligeiramente, os olhos agora com um brilho intensamente curioso.  

O desvelar, em sua quintessência, não se realiza à ínsula de si mesmo. Ao contrário, o buscador e o buscado entrelaçam-se, como se regidos por uma indissociável força, sob silencioso acordo. A seiva que irriga as profundezas d’este alcácer, prezado Anton, tanto quanto o verbo que o fundamenta, possuem anseios e intenções verossímeis, seus arcanos não se manifestam à parte do consciente subjetivo. 

Suas palavras caíram sobre mim como um manto pesado, e percebi que ela sabia mais do que demonstrava, que cada frase, cada olhar, escondia significados ocultos, camadas de intenções que não me eram reveladas. 

— Como se o castelo tivesse vida própria? — murmurei, mais para mim mesmo. 

O frio subiu pela minha espinha, e percebi o quão exposto eu me sentia. Mas Olga mantinha uma postura acolhedora, sincera em sua complexidade. 

Ela sorriu, e sua expressão suavizou, mas sem perder o mistério.  

Para um ínfimo resumo, quiçá... Mais que um mero observador, Anton, o Castelo é um anfiteatro mórbido e egrégio, bem como é uma personagem, um narrador e uma testemunha. A sabedoria silente que o habita, acolhe a todos como parte de seu sui generis enredo. 

Foi nesse momento que ela inclinou levemente a cabeça, como se observasse algo invisível ao meu lado, e seus olhos ganharam uma profundidade incomum. Ela abriu os lábios, e sua voz veio baixa, quase um sussurro: 

Lilaenatt somnien...— Quase não a compreendi e não sei se este seria a grafia correta do que foi dito por ela, apenas senti um estranho sentimento ao ouvir suas palavras. Parecia um latim arcaico. — Algo ao teu derredor, caro Anton, emana-se e esparge como nódoa instável. — Seus olhos pareciam observa algo além de mim, o que me forçou a revistar minha própria pessoa e os arredores com algum resquício de ceticismo e resistência. — Esta aura... —retomou ela. — Enraíza-se em teus passos pretéritos... um eco de laços ancestrais? Interessante expressão do Atemporal. Vejo alvililás... Pode ser tal vínculo uma sugestão d’um elo inexorável ao teu destino?

Ela estava absorta em sua própria análise daquilo que ela parecia ver e eu não, enquanto este professor apenas buscava entender o que ela dizia. 

— O que quer dizer com isso? — perguntei, a tensão na minha voz evidente. — O que você viu? 

De um momento a outro ela se levantou lentamente, o olhar ainda fixo em mim, mas agora impenetrável. Algo claramente parecia haver chamado sua atenção. Por um momento, pensei que fosse responder, mas Olga apenas ajeitou o vestido com um gesto meticuloso e recuou um passo. 

Perdoe-me, Anton… — disse ela, suavemente. — Parece que algo requer minha imediata atenção. Hórrido é não mais aprazer-me d’este momento tão interessante. — Sua expressão ficou marmórea. 

E assim, em silêncio, ela se retirou. Seus passos eram firmes e ligeiros. Deixando-me sozinho com minhas dúvidas e o eco de suas palavras. Sentia que havia algo mais no que dissera, algo que escapava à minha compreensão, mas que me perseguiria enquanto eu vivesse. Ou, além disso. 

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

Diálogos de Olga Nivïttz por:

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Diário de Anton S. Miahi VI

Sua presença é inegociável no castelo dentro de um mês. Um convidado do conde poderá representar um problema significativo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

De Narcís Nestor
(Telegrama para “O Caçador”)
Atenção: Ivan Molchanov
Castelo de Lúgubre, Data: 11, de julho de 1871
 

Prezado Ivan, 

Sua presença é inegociável no castelo dentro de um mês. Um convidado do conde poderá representar um problema significativo. É vital estar aqui para discutirmos assuntos de extrema urgência. 

Aguardo sua confirmação imediata. 
Atenciosamente, 
Narcís Nestor 

~

De Ivan Molchanov
(Telegrama para Narscis Nestor)
Oldemburgo, 03 de agosto de 1871
Atenção: Narcís Nestor 

Recebi seu telegrama.  
Comparecerei ao castelo, não se preocupe. Estou no meio de uma caçada no norte da Alemanha em nome dos Romanov, mas assim que acabar, partirei direto para aí. 
Prepare-se. Estou chegando o mais breve que puder. 

 ~

Ivan Molchanov
De Dr. Christopher V. Walker II
(Carta para Anton)
De: Dr. Christopher V. Walker
Paris, 17 de agosto de 1871

Meu querido e estimado amigo, 

Ao receber a convocatória da polícia parisiense, um calafrio percorreu minha espinha, não era nada comum convocarem um psiquiatra. Meu retorno da Inglaterra havia sido marcado por uma aura de mistério e inquietação, mas nada poderia me preparar para o que encontraria no salão onde aconteciam a aula magna de medicina da Universidade de Paris. Ao cruzar a porta, uma sensação pesada se abateu sobre mim, como se o próprio ar estivesse saturado de desespero, em minha mente pairava apenas a dúvida quanto a toda aquela celeuma. 

A atmosfera tornou-se ainda mais densa quando me deparei com o investigador Jules Moreau, que estava examinado o local com seu olhar curioso. Moreau era um homem, na casa dos 30 anos, de cabelos castanhos curtos repartidos no lado direito, um bigode farto que balançava com cada palavra, e um nariz redondo que parecia sempre à procura de algo. Ele era um pouco acima do peso, e suas vestes estavam desalinhadas, como se ele tivesse se apressado ao sair de casa. Sua voz de barítono, embora imponente, era interrompida por um leve tom fanho que tornava suas declarações quase cômicas, se não fossem tão graves. O investigador aparentava uma jovialidade fora do normal em sua expressão, esboçando um sorriso cordial baixo aquele bigode. 

— Dr. Walker! — exclamou, gesticulando descontroladamente e quase derrubando um caderno que segurava sob o braço. — Precisamos discutir as condições em que encontramos os corpos. Eles foram… bem, transladados pelos carros da polícia, você sabe, direto para cá. 

Enquanto ele falava, eu tentava focar na gravidade do momento, mas o jeito desajeitado de Moreau dificultava manter a compostura. Ele se ajeitou as roupas, como se tentasse, sem sucesso, desamassar as dobras que pareciam se reproduzir a cada movimento. 

— A situação em La Cité… — ele continuou, limpando a garganta de maneira atrapalhada. — Está gerando incômodos. Os moradores estão em alvoroço! Mencionam coisas como vampiros e… bem, até fantasmas! — Ele fez uma pausa, olhando ao redor com um ar conspiratório, como se esperasse que algo sobrenatural aparecesse entre nós. 

— O que importa — prosseguiu, tentando recuperar o foco — é que precisamos resolver isso com o máximo de sigilo possível. Ninguém pode saber que os corpos foram trazidos aqui. A reputação da universidade, você entende? — Ele gesticulou com a mão, quase acertando o próprio rosto. 

A tensão do ambiente se misturava ao seu jeito desengonçado, e não pude evitar um sorriso diante da cena. Moreau parecia genuinamente preocupado, mas sua atrapalhada sinceridade trazia uma leveza inesperada ao momento sombrio. 

— Precisamos evitar que o pânico se espalhe. Se a notícia vazar… bem, você sabe como Paris é — disse, abrindo os braços em um gesto exagerado que quase o fez perder o equilíbrio. 

Os corpos jazeram ali, dispostos de maneira que sugeria uma cena de pesadelo. As luzes tremeluzentes das lamparinas projetavam sombras dançantes, criando uma atmosfera que tornava cada canto do salão um esconderijo de segredos. Eu sabia que precisava realizar uma análise cuidadosa, documentar as feridas nas jugulares, mas a realidade do momento era opressiva, como se uma força invisível me impedisse de pensar com clareza. 

Enquanto observava os rostos das vítimas, uma análise superficial começou a tomar forma em minha mente. A expressão de terror estampada em suas faces era inegável, um reflexo de um horror tão profundo que poderia ser palpável. As marcas no pulso direito, evidentes sinais de resistência, contavam a história de um desespero que ecoava nas paredes do salão. Embora já tivesse participado de análises em outros casos e aprendido a entender a mente criminal, essa cena me deixou inquieto. Era uma brutalidade que transcendia o mero ato de assassinar; era uma tentativa de controlar, de dominar, uma pulsão obscura que instigava minha curiosidade e aversão. 

Essas feridas tão estranhas que foram provocadas por Deus sabem o quê, ou quem, não eram apenas marcas físicas; eram indicadores de uma luta desesperada contra um predador invisível. A resistência manifesta nos pulsos poderia sugerir que as vítimas lutaram contra o que não podiam entender, e isso, por sua vez, reflete o que muitos temem: a incapacidade de escapar do destino. Minha reflexão aponta para uma inquietante verdade: a mente humana consegue tolerar horrores inimagináveis, mas essa resistência pode ser quebrada, transformando-se em um grito mudo que ecoa em nossos subconscientes. 

Enquanto escrevia, a caneta tremia em minha mão, refletindo a agitação que sentia no fundo, de minha alma. Sabia que precisava alertá-lo sobre a escuridão que se aproximava, uma sombra que ameaçava engolir não apenas aqueles corpos, mas a própria cidade. 

Nesse momento, a porta do salão se abriu e um jovem médico legista entrou. Thomas Simon, com seus cabelos negros e olhos de águia, tinha uma expressão carrancuda e um humor ácido que logo se tornou evidente. Ele se aproximou, sua presença quase imponente no espaço carregado de tensão. 

— Dr. Walker, investigador Moreau — disse, com uma voz firme. — Precisamos discutir algo sério. O sangue das vítimas foi completamente extraído. —Enquanto ele se aproximava da mesa e descobri o homem que estava mais distante de nós, nos forçando a ter-mos que nos aproximar dele. 

Essas palavras pairaram no ar, e uma onda de incredulidade me percorreu. Moreau arqueou uma sobrancelha, o semblante preocupado, enquanto a seriedade da situação se intensificava. 

— Como isso poderia ter acontecido? — perguntei, minha mente correndo para cenários impossíveis. 

Thomas cruzou os braços, o olhar penetrante como se pudesse desnudar a alma humana, examinando o ambiente antes de responder. — Pode ser algum culto estranho, uma prática ritual. O fato de estarmos lidando com corpos assim sugere que alguém se sentiu à vontade para realizar tal ato em pleno coração de Paris. 

Moreau franziu a testa, coçando a cabeça. 

— Cultos, você diz? Não estou surpreso. Ouvi rumores sobre atividades estranhas na região, mas pensei serem apenas lendas. 

— Lendas que parecem ter ganhado vida, talvez — completou Thomas, seu tom ácido intensificando a gravidade das palavras. — É o tipo de história que faz os moradores falarem sobre vampiros ou criaturas da noite. O povo gosta de fantasias, mas a realidade pode ser ainda mais assustadora. 

Moreau, que até então havia tentado manter a compostura, soltou uma risada nervosa. 

— Paris, a cidade das luzes, agora se torna a da escuridão. Acredito que os mitos estão mais vivos do que nunca. 

A atmosfera parecia pulsar, e a ideia de que a cidade poderia abrigar tal horror me deixou inquieto. Era como se uma sombra antiga estivesse despertando, e eu sentia que precisaria mergulhar nas profundezas desse mistério. Eu me via cercado por um labirinto de medos e pressentimentos, e a única coisa que podia fazer era preparar-me para o que seguiria. 

Anton S. Miahi XIII
(Escrito em meu Caderno) 

25 de agosto de 1871 —Esta noite, tive um sonho – ou talvez fosse um pesadelo, mas ele lateja em minha mente como algo mais denso, quase tangível. 

Eu me lembro de ter deitado, os músculos ainda enrijecidos do dia, sem sequer trocar de roupa. O mundo cedeu aos poucos, e o véu da inconsciência foi me cobrindo. Então, uma queda... A sensação visceral de descer, de ser tragado por uma força invisível. E lá estava eu, imóvel, os olhos piscando contra uma luminosidade suave e envolvente que parecia emanar do próprio ar, como se a atmosfera estivesse impregnada de luz líquida. 

Tateei ao redor, a superfície áspera de um chão desconhecido, e me vi rodeado por lavandas que se erguiam delicadas, seu perfume doce invadindo cada canto de meus sentidos. À minha volta, bolhas flutuavam, translúcidas e peculiares. Dentro de cada uma, vislumbres de lembranças – minha mãe, meu irmão, dias dourados na universidade. A nostalgia e o calor dessas imagens pareciam tão vivos, tão próximos... mas logo uma certeza fria atravessou-me: eu não estava em meu mundo. 

Uma névoa lilás cobria o ambiente como um véu leve, enquanto uma luz branca preenchia cada canto, uma presença calma, quase etérea. Então, uma voz conhecida perfurou o silêncio. 

— Bem-vindo, Anton. 

Virei-me rapidamente, o coração disparado. Mas ao ver Monm, com aquele olhar sábio e expressão tranquila, uma calma familiar substituiu o susto. 

— Isso é real? – perguntei, sentindo a incerteza tremer em minha voz. 

Ele respondeu com um sorriso enigmático, o tipo de sorriso que antecede uma revelação, ou um segredo. 

— E o que é real, senão o que acreditamos ser? — ele indagou, os olhos brilhando com uma intensidade contida, como se sua mente percorresse mundos além deste. — Aqui, Anton, estamos num campo onde as realidades se entrelaçam. Poderíamos dizer que é um sonho... ou um fragmento dele, um lugar de memórias, desejos e arrependimentos de muitos. 

Andamos lentamente pelo campo de lavanda, e um perfume suave se misturava à névoa, impregnando o ar. A cada passo, bolhas flutuavam ao nosso redor, translúcidas e frágeis, como se fossem tocadas por uma brisa inexistente. Dentro de cada bolha, imagens — momentos — de vidas diferentes, de pessoas desconhecidas. 

Monm seguiu ao meu lado, o olhar fixo numa bolha que passava. Em seu interior, vi o rosto de uma jovem, com cabelos tão escuros quanto a noite, um sorriso leve, mas com um olhar profundo e conhecedor. Era um olhar que parecia fitar além do espaço e do tempo. 

Ele suspirou, um som tão sutil que quase se dissolveu no ar. 

— Quem é ela? – perguntei. 

Por um instante, Monm hesitou, e sua expressão, sempre controlada, se partiu numa fração de segundo, revelando uma dor silenciosa. 

— Ela... — ele começou, mas parou, desviando o olhar. — Chamava-se Lysianne. Foi... — ele inspirou fundo, as palavras quase lhe escapando. — Foi meu único amor verdadeiro. Mas, sabe, Anton, para se aventurar no tempo, é preciso um preço, um sacrifício. E eu, com minha ânsia em desvendar os segredos deste universo, escolhi um caminho que me afastou dela.  

Houve uma pausa, e o campo de lavanda parecia mais silencioso, como se respeitasse sua lembrança. 

— Ela também era fascinada pelo tempo? — arrisquei. 

Monm sorriu, mas era um sorriso manchado de nostalgia e tristeza. 

— Não como eu. — Ele fitou uma bolha próxima, onde ela estava rindo ao lado de uma árvore sob um céu ensolarado. — Ela gostava de viver o presente, de encontrar beleza no instante. Para ela, um momento... era eterno. 

Ele passou a mão suavemente pela bolha, e a imagem tremeluziu antes de se dissipar na névoa lilás. 

— Então por que essa busca insaciável, Monm? — perguntei. — Por que sacrificar algo tão precioso? 

Ele se voltou para mim, o olhar ainda mais sério, um fogo intenso em seus olhos.  

— Porque, Anton, o tempo é uma ilusão, uma corrente que tenta nos prender. E a verdade é que... — ele hesitou, a voz baixa. — Eu queria libertá-la, encontrar uma realidade onde pudéssemos viver sem limites, sem essa cruel imposição do tempo que devora tudo. 

— Mas isso não é impossível? — insisti. 

Ele balançou a cabeça, um ar sombrio em seu semblante. 

— Ah, meu caro, o impossível é uma mera palavra. Mas há consequências, há fissuras. E quanto mais fundo cavamos, mais nos deparamos com realidades em que os sonhos e pesadelos se entrelaçam. É por isso que este lugar existe — apontou ao redor. — Aqui repousam fragmentos de vidas, de desejos que nunca se realizaram, de amores que nunca floresceram. 

Paramos diante de uma bolha mais próxima, onde vi a imagem de uma mulher abraçando uma criança. A cena pulsava de ternura, mas também de tristeza, como se ambos soubessem que aquele momento era breve. 

Monm fitou a cena, absorto, e por um momento, notei algo raro nele: arrependimento. 

— Esses são ecos de outros sonhos? — perguntei, tentando entender. 

— Sim, sonhos de outros, de vidas que jamais cruzaremos. Aqui, Anton, reside o que todos carregamos no inconsciente. Nossas sombras, nossas esperanças. Somos apenas viajantes. Quando olhamos para um sonho alheio, nos encontramos também, por um segundo, refletidos nas ambições e medos do outro. 

Ficamos em silêncio, observando a cena. Monm suspirou novamente. 

— Você já sonhou em encontrar algo, Anton, mas que sempre parece fugir? Como se existisse um vazio em cada linha do tempo, uma distância que nunca pode ser percorrida? 

— Às vezes — respondi. — Como uma lembrança fugidia, uma sensação de algo perdido, mas que nunca conheci. 

Monm assentiu, os olhos voltando à lavanda. 

— É a essência do tempo. E somos prisioneiros de algo que pensamos dominar. 

Antes que pudesse responder, ele tocou levemente meu ombro. 

— Vamos, há ainda muito a caminhar. 

Antes que eu pudesse responder, uma sombra se formou ao longe, desenhando-se lentamente em um contorno familiar. À medida que se aproximava, a figura de um homem magro e sereno emergiu da névoa lilás, vestindo-se de branco, com um cavanhaque bem aparado e olhos profundos como dois lagos plácidos. Em uma das mãos, ele segurava uma chave dourada e adornada, que brilhava mesmo na penumbra. 

— Sou Lieran — disse ele, sua voz grave e suave, como um sopro de vento antigo. — O guardião deste entre-mundos, o reino de Somníria. 

— O que você está fazendo aqui, Lieran? — Monm perguntou, o tom de sua voz mesclando uma ironia sutil com a seriedade do momento. — Veio discutir novamente a futilidade dos sonhos? 

Lieran sorriu, mas não havia alegria em seu sorriso. Era uma expressão de compreensão triste. 

— Os sonhos não são fúteis, Monm. Eles são portais. É por meio deles que as verdades ocultas se revelam, não apenas sobre nós, mas sobre a própria essência do tempo. Você insiste em vê-los como meras ilusões. 

— E você — Monm retrucou — vê a realidade como uma prisão, acreditando que os sonhos podem libertar aqueles que se perdem em suas correntes. Mas não é assim que funciona. Os sonhos podem se tornar labirintos, Lieran. Labirintos que aprisionam mais do que libertam. 

Anton, sentado entre eles, sentia-se como uma peça de um quebra-cabeça que não se encaixava. Seus pensamentos eram um turbilhão. 

— Esperem — eu interrompi, tentando entender. — O que exatamente significa sonhar para vocês? Estou confuso. Não é tudo apenas... um escapismo? Ou há algo mais? 

Lieran se voltou para mim, os olhos profundos como lagos refletindo uma sabedoria antiga. 

— Os sonhos, Anton, são a linguagem do inconsciente. Eles são ecos de nossas emoções, medos e esperanças. Quando sonhamos, temos a oportunidade de revisitar nossos anseios mais profundos e confrontar verdades que muitas vezes ignoramos. O tempo em sonhos é elástico, permitindo que revisitemos momentos que acreditamos perdidos. 

— Mas não são apenas ilusões? — retrucou Monm, gesticulando como se estivesse tentando desvendar uma teia invisível. — Lieran, você se esquece de que os sonhos podem distorcer nossa percepção. Eles nos enganam, nos iludem com promessas de um futuro que nunca pode ser, enquanto a realidade continua a ser intransigente e cruel. 

—  Que é a realidade, senão uma construção dos nossos sonhos? — Lieran desafiou, a chave dourada balançando suavemente em sua mão. — As escolhas que fazemos no mundo dos sonhos reverberam na realidade. Não subestime o poder que eles têm. O que sonhamos pode, de fato, moldar o que vivemos. 

Eu olhei de um para o outro, a tensão crescendo. A cada palavra, o ar se tornava mais carregado, como se o próprio espaço entre eles estivesse se comprimindo. 

— Mas então — perguntei, hesitante — se os sonhos moldam a realidade, como podemos confiar no que vivemos? E se o que acreditamos ser real for apenas mais um sonho? Como discernir entre o que é verdade e o que é ilusão? 

Monm olhou para mim, um brilho de reconhecimento nos olhos. Era como se ele tivesse sido lembrado de um passado distante que ainda o assombrava. 

— Essa é a questão que todos enfrentamos, Anton — disse ele, sua voz agora tingida de uma vulnerabilidade inesperada. — O que fazemos com as verdades que descobrimos? E o que acontece quando esses sonhos se tornam pesadelos? 

— Você deveria se perguntar, Monm, o que realmente está buscando em suas viagens no tempo — Lieran retorquiu, sua voz firme como o aço. — O que você está disposto a sacrificar para alcançar seus objetivos? Cada escolha tem um custo. E esse custo pode muito bem ser mais do que você está preparado para enfrentar. 

A tensão pairava, e o silêncio se estendeu por um momento, uma respiração compartilhada entre os três. Anton sentiu que, de algum modo, estava no centro de uma tempestade, onde cada palavra era um relâmpago iluminando verdades obscuras. 

— E se o que eu procuro — eu murmurei, mais para mim mesmo — for o que estou destinado a perder? 

Ambos se voltaram para mim, e, por um breve momento, o campo de lavanda pareceu ecoar a pergunta, as flores balançando suavemente como se estivessem escutando. 

O impacto de suas palavras reverberou em mim, mas antes que pudesse refletir, o chão se abriu sob meus pés, e fui lançado novamente na escuridão. Despenquei, a queda me envolveu, e senti uma nova transformação no ar ao meu redor – mais densa, mais fria, como se sombras me acolhessem. 

Despertei num ambiente muito diferente, a claridade suave substituída por uma escuridão quase sólida. Levantei-me cauteloso, e ao meu redor, o chão era coberto por rosas negras com delicados tons de roxo degradê, uma paisagem sombria que exalava um cheiro doce e nauseante. Um ruído distante, como o bater de asas, chamou minha atenção para cima. 

Uma criatura desceu do céu negro, o ar em volta dele se dispersando em uma lufada fria. Ele tinha um corpo humanoide, mas as asas – negras e largas como as de um corvo – traziam uma imponência animalesca. Quando pousou, observei de longe, quase sem respirar, os olhos límpidos e profundamente lilás, as orelhas pontudas, a pele tão branca que lembrava marfim. 

A figura reunia algumas daquelas bolhas, mas as imagens que continham eram diferentes – rostos distorcidos pelo terror, fragmentos de dor e desespero. Senti um calafrio. Ele murmurava algo que não pude distinguir e começou a se afastar, carregando as bolhas em direção a um umbral negro. 

Um vulto pendia sobre seu ombro. Um gato negro, seus olhos de um branco frio que pareciam atravessar minha alma. Algo me puxava para aquele ser, uma curiosidade perigosa, irresistível. 

O ser cruzou o umbral, e quando percebi, estava me erguendo, seguindo-o, como que guiado por uma força misteriosa. 

— Anton... – uma voz macia e sombria ecoou. 

Era o gato, agora sobre uma mesa em uma sala grandiosa e fria. Ele me fitou, um brilho irônico em seus olhos. 

— Chamam-me de Meia-Noite, e meu companheiro, Uor. Vejo que chegou até aqui por acaso ou talvez… por curiosidade. 

Fui tomado pelo instinto, endireitando-me, tentando parecer seguro. 

— Anton Stephan Miahi, Sargento da Cavalaria – minha voz ecoou no salão vazio. 

Uor sorriu com uma ironia afiada. 

— Sei muito bem quem é você. 

Aquelas palavras perfuraram-me como uma lâmina, e o salão pareceu fechar-se ao meu redor. No fundo, uma nova suspeita brotava – eu não estava mais no reino dos sonhos, nem tampouco no inferno. Estaria eu no próprio limiar do inconsciente, num lugar onde medos e mistérios coexistem? 

No mesmo dia mais tarde — O encontro com Meia-Noite e Uor me deixou inquieto, como se uma névoa densa tivesse se instalado em meu ser. Fui recebido não como um convidado, mas como um prisioneiro que, mesmo sem saber, tinha uma dívida a pagar. Eles se apresentaram como mestres de um jogo cujas regras eu ainda não compreendia. A presença deles sugeria um peso no ar, e suas palavras flutuavam como sombras, dançando ao redor de nós, pulsando com a energia de verdades ocultas. 

— A ambição de Olga — começou Meia-Noite, quebrando o silêncio pesado — transcende o que você pode imaginar, Anton. Ela não é apenas uma mulher sedenta por poder, mas uma criatura que busca controlar o sobrenatural em busca de algo maior. 

Uor balançou a cabeça, seus olhos cintilando com uma luz gelada. — Você a vê como uma mera mortal, mas há mais em Olga do que o que se revela. Ela toca as cordas do invisível e manipula a escuridão ao seu redor. É por isso que Drácula a atrai. 

Meu coração acelerou. Para mim, Drácula sempre fora apenas um conde do interior da Europa, uma figura envolta em mistério e lendas. No entanto, a ideia de que sua conexão com Olga era mais do que mera coincidência começou a se enraizar em minha mente. 

— O que você quer dizer? — eu perguntei, a tensão entre nós era quase palpável. — Como você pode ter certeza disso? 

— O Conde — continuou Meia-Noite, a voz profunda reverberando no ar — não é apenas um homem, Anton. Ele é um símbolo, um ícone do que se perdeu e do que se busca no abismo. Atraído pela ambição de Olga, ele representa a eternidade e o horror que ela deseja controlar. 

Uor fez uma pausa, como se estivesse pesando suas palavras antes de continuar. — Mas a verdadeira natureza de Drácula é mais sombria do que você imagina. Eu conheço um jovem que presenciou o ataque em Paris, uma cena que se desenrolou sob a luz da lua, onde a morte dançou no sangue fresco. 

As palavras de Uor me prenderam, como uma teia invisível envolvendo meu corpo. Eu me via forçado a imaginar a cena horrenda, uma jovem sendo devorada, sua vida esvaindo-se sob as garras do Conde. 

— Ela morreu — Uor continuou, seu tom sombrio, quase reverente — até a última gota de sangue, Anton. A cidade de Settimor foi erguida para acolher as almas perdidas, aquelas que foram atraídas pela sedução de um castelo obscuro, onde as promessas se tornam pesadelos. A ambição de Olga não é apenas por poder; é por controle sobre essa escuridão que a cerca. 

A ansiedade começou a consumir-me, como uma maré crescente. Era como se as revelações se tornassem gélidas, arrastando-me para um abismo de dúvidas e temores. Eu estava cercado por verdades que não conseguia ignorar, e a ideia de que tudo isso poderia ser real era sufocante. 

— E se ela estiver certa? — perguntei, a voz tremendo. — E se Olga conseguir realmente o que deseja? O que isso significaria para nós? 

Meia-Noite trocou olhares significativos com Uor.  

— O desejo dela de transcender é uma busca sem fim — respondeu Uor. — Se ela dominar o sobrenatural, você e todos ao seu redor não passarão de peças em seu tabuleiro. A verdadeira questão é: até onde você está disposto a ir para impedir que isso aconteça? 

Monm, que até então permanecera em silêncio, soltou uma risada baixa, quase amarga. — Uma escolha sempre tem um preço, Anton. E o que você está disposto a sacrificar? 

As palavras deles ecoaram em minha mente, pesadas como pedras. O clima tornava-se cada vez mais tenso, e a incerteza me envolvia. Como poderia enfrentar um ser como Drácula, com Olga ao seu lado, manipulando os fios invisíveis que regem nossas vidas? 

De repente, antes que pudesse processar tudo, uma luz intensa irrompeu à nossa frente. Um portal se abriu, revelando o contorno familiar da chave dourada de Lieran. 

Monm e Lieran emergiram do brilho, seus rostos sérios, como se trouxessem consigo o peso de um novo destino. 

— O que vocês fizeram? — Monm exclamou, seus olhos fixos em mim, preocupados. — O que foi revelado? 

Lieran, com um gesto fluido, apontou para o espaço nebuloso que nos cercava. — A verdade não deve ser ignorada, mas nem todos estão prontos para enfrentá-la. Venham, devemos ir. 

Eu olhei para Meia-Noite e Uor, suas figuras agora quase etéreas diante da luz pulsante. A sensação de que algo maior estava em jogo tornou-se uma realidade indiscutível. Eu havia sido lançado em um ciclo de eventos que apenas começava a se desenrolar, e a única certeza era que o caminho à frente estava repleto de sombras e revelações. 

Atravessando o portal, percebi que não havia como voltar. O que me aguardava era um futuro indefinido, onde a linha entre sonhos e realidade continuava a se desvanecer, e eu me via cada vez mais entrelaçado no destino que me aguardava. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Diário de Anton S. Miahi V

Suas palavras parecem distantes, mas a memória de nossas jornadas no campo de batalha ecoa mais forte do que qualquer outra lembrança…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

De Anton S. Miahi IV 
(Carta para Dr. Chistopher)

De: Anton S. Miahi
Para: Maurice D. Laurent
09 de agosto de 1871 

Caro Maurice,

Vejo a lua alaranjada pairar sobre o castelo enquanto escrevo, seu brilho envolto em uma névoa inquietante.  

Suas palavras parecem distantes, mas a memória de nossas jornadas no campo de batalha ecoa mais forte do que qualquer outra lembrança. A luz da lareira dança nas paredes com tons quentes e inquietantes, como se houvesse um convite oculto para mergulhar nos mistérios que me cercam. Sinto aquele tom alaranjado me provocar, como fazia a fumaça das explosões que atravessavam os campos de batalha prussianos, onde lutamos lado a lado. O mesmo calor sufocante que nos envolvia nos momentos mais caóticos parece agora pulsar entre estas paredes, trazendo uma sensação de alerta, uma desconfiança que se arrasta nas sombras.   

Nos campos, éramos mais do que soldados; éramos irmãos, ligados pela dor e pelo medo. Nossas vidas dependiam da lealdade e da coragem um do outro, e essa união forjada em sangue e sacrifício moldou uma irmandade que nenhum tempo ou distância pode quebrar. Eu nunca esquecerei o instante em que você me puxou para longe da linha de fogo, a luz do crepúsculo queimando em nossos olhos enquanto o caos desabava ao nosso redor. Essas memórias nos conectam ainda, Maurice, e é por isso que sinto a necessidade de compartilhar essas descobertas com você — pois quem mais entenderia o terror que vejo aqui além de alguém que já enfrentou o horror da guerra? 

Preciso falar sobre o que encontrei na biblioteca do Conde, algo que me provoca o mesmo tipo de inquietação que sentíamos nas trincheiras. Durante minhas pesquisas, deparei-me com anotações nas margens dos livros — frases enigmáticas que pareciam mais sussurros do que palavras. Entre as muitas reflexões, uma de Leibniz chamou minha atenção: "A história é uma narrativa de mudanças, onde o presente é moldado pela memória e o futuro pela compreensão do passado". Senti um arrepio, como se o próprio castelo conspirasse para distorcer a linha entre o que é real e o que não é. Cada página que virei pareceu trazer o passado à vida, cercando-me com sua presença, do mesmo modo que os fantasmas do campo de batalha nos cercavam com seu silêncio sombrio. 

As coisas ficaram ainda mais perturbadoras quando me deparei com uma citação de Hume: "O passado é um mistério cujas chaves estão enterradas nos momentos presentes, esperando para serem reveladas". Há algo profundamente inquietante na forma como essas palavras ressoam aqui, onde o presente parece se dobrar e se esticar, como o próprio tempo tentando se libertar das paredes do castelo. As lendas romenas que leio ganham vida de maneira que não consigo explicar. Não posso ignorar as conexões entre essas reflexões filosóficas e o que sinto a cada passo que dou por esses corredores. É como se o castelo estivesse impregnado de uma energia viva, moldada por forças invisíveis que desafiam o que conhecemos como realidade. 

Maurice, as sombras aqui não são apenas sombras. Elas têm vida, ou ao menos parecem. Ontem à noite, enquanto caminhava pelos corredores, a percepção da realidade se desfez diante dos meus olhos. Por um breve instante, enxerguei outro castelo, outras figuras — como se o tempo se dobrasse sobre si e me transportasse para outro momento. Não era uma visão comum, mas algo que me deixou com a sensação de estar sendo observado por forças que não compreendo. Lembro-me de Locke e suas palavras: "A verdade é uma luz que ilumina a ignorância, mas, muitas vezes, o brilho é obscurecido pela falta de discernimento". Essas palavras ecoaram enquanto eu tentava entender o que vi, mas nada pareceu claro. 

Estou à beira da sanidade, e confesso que me pergunto se estas palavras chegam a fazer sentido. As lendas de vampirismo aqui não são meras histórias contadas para assustar; elas são uma parte viva deste lugar, e sinto que estou no centro de um pesadelo que não consigo escapar. O castelo guarda segredos que não deveriam ser descobertos, e temo que nossas pesquisas estejam nos levando para um caminho sem volta.

Preciso de sua clareza, sua perspectiva, pois neste momento, tudo o que vejo é o laranja opressor do crepúsculo, sufocando minha razão.
Com apreço e inquietação,
Anton S. Miahi
 

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 De Valéria S. Miahi
(Carta para Anton)

De: Valéria S. Miahi
Para: Anton S. Miahi
11 de agosto de 1871 

Querido Anton, 

Recebi com grande alegria a sua última carta e fiquei encantada ao saber sobre suas aventuras no misterioso Castelo Drácula. Imaginar você explorando esses corredores antigos e repletos de segredos me enche de curiosidade e admiração. A sua descrição me transportou diretamente para as sombras do castelo, e eu mal posso esperar para ouvir mais sobre suas descobertas e experiências. 

Aqui em Paris, a vida tem sido uma verdadeira montanha-russa desde que deixamos Sevilha. A mudança foi um desafio, mas a cidade revela um encanto que eu nunca poderia ter previsto. Paris é vibrante e cheia de vida, e eu tenho me aventurado por suas ruas estreitas e suas praças movimentadas com uma empolgação contagiante. A cultura e a arquitetura são absolutamente fascinantes, e cada esquina parece contar uma história diferente. 

O tempo em Paris não tem sido apenas uma série de novas descobertas, mas também de reflexões pessoais. Sinto falta de nossa casa em Sevilha e de nossa família reunida. No entanto, tenho encontrado conforto nas novas amizades que fiz aqui e nas pequenas maravilhas do cotidiano. Os cafés e as livrarias têm sido meus refúgios preferidos, e cada dia traz uma nova chance de explorar algo diferente. 

Mamãe, Nora, está bem, apesar da saudade que sente de você e da nossa vida anterior. Ela tem se adaptado às novas circunstâncias com uma dignidade e força que sempre admirei. A mudança para Paris foi um esforço para ela, mas tem se mostrado uma aventura pessoal de renovação e esperança. Ela se dedica à casa e tem encontrado prazer nas pequenas coisas, como as visitas aos mercados locais e as longas caminhadas pelo Sena. 

Saiba que, mesmo à distância, sinto-me próxima de você através das suas cartas e das histórias que você compartilha. A sua coragem e curiosidade são uma inspiração para mim, e estou ansiosa para saber mais sobre suas descobertas no castelo e suas novas experiências. 

Espero que continue a se aventurar e a desbravar o desconhecido com a mesma paixão que sempre demonstrou. Envio-lhe um grande abraço e todas as minhas melhores energias. 

Com muito carinho, 
Valéria
 

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 Diário de Anton S. Miahi X 
(Escrito em meu Caderno)

14 de agosto de 1871 — Escrevo estas palavras com mãos trêmulas, meu coração pesando como se cada batida carregasse o peso de uma lembrança que me atormenta. O ambiente na adega, inicialmente marcado pelo suave aroma do vinho tinto amadurecido, envolvia-me em uma sensação de nostalgia quase palpável. A fragrância rica e complexa do vinho, com suas notas de frutas maduras e especiarias, era como uma lembrança distante. Esse aroma, profundo e envolvente, contrastava de maneira inquietante com a atmosfera que se desenrolava ao nosso redor. 

As chamas da lareira, por um instante, brilhavam com um tom verde-esmeralda, projetando um brilho surreal sobre as paredes de pedra. A luz verde dançava como se fosse uma aura etérea, tingindo o ambiente com uma sensação de mistério e encantamento. Sentia como se aquela cor, tão incomum e sobrenatural, estivesse lentamente dissolvendo a realidade, transformando-a em algo que desafiava a lógica e a compreensão. 

Mas, à medida que o espelho estilhaçado emergia das sombras e começava a se partir em uma infinidade de fragmentos, a cena ao meu redor mudou drasticamente. As chamas na lareira se transformaram, seus tons de verde se desfazendo em um alaranjado ardente. A luz agora lançava sombras intensas e fragmentadas nas paredes, cada uma mais ameaçadora do que a anterior. O calor do fogo parecia se intensificar, como se estivesse refletindo e amplificando o tumulto interno que eu sentia. 

A cor alaranjada do fogo agora parecia refletir não apenas na lareira, mas também nos pedaços de espelho quebrado, criando um jogo de luz e sombra que fazia com que o ambiente se tornasse ainda mais ameaçador e surreal. O calor, agora mais intenso e penetrante, misturava-se ao aroma do vinho, que começava a se transformar em algo mais ácido e pungente, como se a própria essência da adega estivesse sendo corrompida. A cada fragmento de espelho que se despedaçava, o cheiro se tornava mais carregado, uma combinação inquietante de vinho envelhecido e o cheiro metálico da destruição iminente. 

As cores e os odores se fundiam em um espetáculo de desolação e caos. Senti-me como se estivesse mergulhado em um pesadelo vívido, onde o ambiente ao meu redor estava sendo transformado em um cenário de terror e confusão, refletindo o tumulto dentro de mim e a inquietante visão que estava prestes a se desenrolar. 

Um espelho estilhaçado surgiu do vazio diante de nós, como se brotasse das sombras, expandindo-se até se transformar em uma janela com rachaduras que dançavam, apareciam e então sumiam – rasgos no espaço. Oferecia-nos vislumbres de um futuro que eu jamais desejaria ver. As imagens que dançavam nas superfícies fragmentadas eram, ao mesmo tempo, fascinantes e aterradoras, como se uma força desconhecida estivesse revelando segredos que deveriam permanecer ocultos. A cada novo fragmento que minha mente captava, sentia um arrepio profundo, um frio que me invadia não apenas o corpo, mas a própria alma. 

As cenas que aquele espelho nos mostrava eram desconexas, como pedaços de uma vida que ainda não vivi, mas que parecia destinada a ser minha. Vi sombras se movendo em um ritmo que não era o nosso, ouvi sussurros que falavam de desespero e vi um reflexo de mim mesmo, pálido e cansado, confrontado por horrores que me desafiavam a compreender. E ali, no meio daquela visão decrépita, Áurea ao meu lado, senti a angústia de um futuro que se aproximava, inescapável e implacável. 

Enquanto escrevo estas linhas, minha mente é assaltada por perguntas que me recuso a responder, por medos que se agarram à minha razão, tentando rasgá-la em pedaços. O que vi naquela adega ao lado de Áurea? Era uma advertência? Uma premonição? Ou simplesmente uma manifestação da insanidade que parece envolver este lugar maldito? Sinto como se o ar ao meu redor estivesse se fechando, cada respiração mais difícil do que a anterior, enquanto tento processar o que aqueles fragmentos de futuro significam para mim — para nós. 

Eu nunca havia sentido tal terror, tal sensação de que o tempo, o espaço e minha própria existência estavam sendo dilacerados diante de meus olhos. Escrever no meu diário hoje é uma tentativa desesperada de me ancorar na realidade, de afastar os horrores que testemunhei. Mas, mesmo agora, enquanto a tinta seca no papel, a visão daquela adega me persegue, um espectro persistente que não posso afastar. Será que estou perdendo o controle de minha sanidade? Ou estou apenas começando a entender a verdadeira natureza do destino que se desdobra à minha frente? 

Gradualmente, os cacos do espelho começaram a brilhar com cores intensas e inquietantes. Nossos olhares se encontraram em meio aos estilhaços, e o espelho refletia uma aura de âmbar, vermelho, azul e prateado, cada uma das cores pulsando com uma intensidade própria e criando uma sensação de caos e desordem. Cada pedaço de vidro parecia ser uma janela para um fragmento diferente de uma realidade incerta e ameaçadora. 

Nos confins sombrios de La Cité, nas margens do rio Sena, uma visão aterradora tomou forma em um dos cacos de vidro. Em meio ao nevoeiro espesso e à decadência das ruelas estreitas, um cenário de horror absoluto se desdobrava diante de meus olhos. A figura sombria de um ser ancestral, envolto em uma fúria selvagem, surgia das sombras como uma fera à espreita. Seus olhos brilhavam com uma sede insaciável enquanto ele atacava uma mulher indefesa. O rosto da criatura estava contorcido em uma expressão de monstruosidade inumana, cada traço seu impregnado de uma maldade que parecia desafiar a própria natureza. 

A mulher, em contraste, exibia um terror absoluto. Seus olhos estavam arregalados, capturando a última luz de esperança antes de serem tragados pela escuridão. Mas havia algo mais ali, algo que fez meu sangue gelar. Em meio à dor e ao desespero, sua expressão se distorcia, como se fosse tomada por um êxtase sombrio, um prazer perverso que a conduzia lentamente ao abismo de sua própria extinção. A mistura de fragilidade e uma estranha aceitação da morte que se aproximava me deixou em um estado de profundo assombro, como se estivesse diante de algo que a razão não poderia explicar. 

A cena, por mais vívida que fosse, parecia fragmentada, como se o tempo em si se recusasse a revelar toda a verdade. Os movimentos eram cortados, as imagens desconexas, formando um mosaico incompleto de horror que desafiava minha compreensão. Meu coração batia pesado, o senso de masculinidade sendo confrontado pela vulnerabilidade diante do desconhecido. 

Ao fundo, preso em uma janela quebrada de um prédio abandonado nas margens do Sena, um jornal amassado balançava ao sabor do vento. As páginas rasgadas, ainda legíveis, revelavam a data: 20 de junho de 1871. Aquele pedaço de papel, marcado pelo tempo e pela desgraça, parecia uma testemunha silenciosa de um terror antigo, agora emergindo das profundezas da memória para assombrar uma vez mais. 

Então, um novo fragmento do espelho quebrou a realidade ao meu redor. Entre as fendas do vidro, uma visão confusa se formou. Uma figura de lobo de pelagem acastanhado-alaranjada, majestosa e feroz, se transformou lentamente em um homem. Ele parecia ser um caçador vindo da região da Rússia, seus traços pouco definidos, mas a imagem era nebulosa, envolta em uma névoa espessa que dificultava distinguir cada detalhe. Parecia que sua expressão se apresentava severa do homem, pouco se poderia destacar. O que pude notar claramente foram seus olhos castanhos brilhavam com um poder ameaçador. Então pude ver uma cicatriz que marcava seu rosto, um corte profundo que se estendia da testa até a bochecha esquerda, e sua presença emanava uma sensação de perigo iminente. 

Atrás dele, uma floresta escura e sombria se estendia, as árvores se entrelaçando como se fossem garras esperando para capturar o que se atrevesse a se aproximar.  

E, ao mesmo tempo, um novo caco se rompeu e nele foi revelado um quarto próximo, uma jovem estava sentada, cabelos pretos levemente ondulados, olhos azuis grandes e amendoados, pele como mármore. Sua expressão era de inocência e curiosidade, e eu a vi sussurrar algo em direção a mim, as palavras se perdendo na bruma. Apenas entendi o final: um convite sutil para buscá-la no castelo. Então, como um fôlego cortado, tudo se apagou. A escuridão envolveu-me, e o silêncio profundo se instalou, como se o mundo ao meu redor houvesse se dissipado completamente. 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Diário de Anton S. Miahi IV

26 de junho —Ainda tenho essa lembrança.Pareceu-me que haviam se passado horas desde que fui barrado em Séttimor. Ioam era uma figura imponente...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diário de Anton S. Miahi IV
(Escrito no Castelo)

26 de junho —Ainda tenho essa lembrança. Pareceu-me que haviam se passado horas desde que fui barrado em Séttimor. Ioam era uma figura imponente, sua altura e braços longos contrastavam com suas mãos ossudas e frias, que pareciam esculpidas na pedra. Apesar da sua aparência pálida e gelada, havia uma força oculta em seu corpo. Seu rosto disforme, com olhos profundos e insondáveis como os de um cadáver, brilhava com íris vermelha, a cor incandescente das brasas de uma fogueira antiga. Cada vez que ele falava, uma fumaça escura e espessa escapava de seus lábios, como se suas palavras fossem substâncias tóxicas. Sua pele, escurecida e marcada por uma deterioração que eu ainda não compreendia, parecia se desintegrar sob a luz tênue. Ele vestia roupas tão desgastadas e rotas quanto os trapos de um espectro, reminiscências de um passado longínquo.

Após a visão de Ioam, um som grave e profundo começou a ressoar ao meu redor, ecoando com a intensidade dos disparos de canhões franceses, mas muito mais ensurdecedor. O estrondo parecia vibrar nas minhas entranhas, e eu não pude evitar levar as mãos aos ouvidos na tentativa desesperada de abafar o barulho.

Ergui os olhos para o céu, e percebi que o firmamento estava em transformação. As estrelas, antes brilhando em uma disposição familiar, agora pareciam se afastar umas das outras, ou talvez fossem movidas por alguma força invisível. O silêncio que se seguiu era pesado e opressivo, interrompido apenas pelo açoite do vento que sussurrava através das árvores com um som cortante e sinistro. Os uivos que antes preenchiam o espaço haviam cessado abruptamente, deixando uma sensação de vazio angustiante que se alojou no fundo do meu peito.

Quando finalmente consegui focar meus olhos, o céu revelou um panorama disforme. As estrelas, uma vez conhecidas e tranquilizadoras, agora se assemelhavam a olhos, incontáveis e vigilantes, observando cada movimento meu com uma intensidade perturbadora. Traços de luz prateada serpenteavam pelo firmamento, como fios de prata entrelaçados em uma tapeçaria cósmica que pulsava com um brilho etéreo e desconcertante. Cada ponto de luz parecia vibrar, lançando reflexos que distorciam o espaço, criando uma sensação de ser observado por uma presença cósmica e implacável.

Naquele instante, a percepção do meu corpo mudou de forma radical. Eu já não tocava o chão; sentia-me flutuando, suspenso no vácuo etéreo do desconhecido. O espaço ao meu redor parecia se estender indefinidamente, envolto em uma neblina tênue que impossibilitava discernir onde o vazio terminava. Ao fundo, a voz de Ioam reverberava como um eco distorcido, suas palavras se dissolvendo em um buraco negro de incompreensibilidade. A realidade parecia desvanecer-se ao meu redor, e eu era engolido por um mistério insondável, onde o céu se convertia em um enigma aterrador.

Sentia-me como uma marionete nas mãos de um artista cósmico, meu corpo leve e sem resistência, completamente desprovido de qualquer sensação de segurança. Meu olhar então foi atraído para uma vasta criatura que parecia se fundir com a imensidão do espaço negro. Seus olhos brilhavam intensamente, como dois faróis cortando a escuridão infinita. Era uma presença de beleza aterradora, com cada olhar parecendo um abismo profundo de mistério e poder.

Por um instante, algo que se assemelhava a uma boca surgiu, ou pelo menos uma paródia dela — longa e serpenteante, como um tentáculo emergindo do vazio, sem um rosto que pudesse caracterizá-la. Dois olhos adicionais se formaram na figura, fixando-se em mim com uma curiosidade quase infantil, como um médico examinando um paciente com um interesse quase científico.

A criatura então falou, sua voz ecoando no espaço entre as estrelas, preenchendo o vazio com um sussurro místico e terrível que parecia vibrar nas paredes do cosmos.

— Se sente sozinho? — Sua voz era profunda e reverberante, como se estivesse sendo projetada de uma caverna antiga. O tom não parecia ameaçador, mas carregava um peso de sabedoria infinita. — Você viu?

Eu não consegui responder imediatamente; parecia que minhas palavras estavam congeladas no vácuo. Então, como se fosse uma revelação, a resposta surgiu em minha mente.

— Sem solidão, então. Apenas dor. Você também sente isso, não é? — A criatura parecia ouvir meus pensamentos como se fosse um eco no vácuo. — Você a viu.

Meus olhos se arregalaram de assombro. Como ele podia ler minha mente?

— Sou aquele que "apenas existe", uma testemunha de mortais e imortais. — Sua voz retumbava em meus ouvidos com uma ressonância quase física. — O que você viu não era uma assombração ou uma miragem. Estava aqui, mas não exatamente aqui. Um reflexo da existência, do tempo… Uma distorção.

Ele vasculhou minha memória, e eu comecei a compreender que a jovem que eu vira era real, mas ela estava em um lugar além da compreensão.

— O tempo… O Castelo… Drácula… A feiticeira… — Ele fez uma pausa, como se estivesse ponderando as palavras certas para usar. Sua consciência parecia mergulhada em uma profunda contemplação. — Você se prende… Sim… Você continua lá. Vejo seu pesar, sua angústia…

As memórias começaram a emergir, como fantasmas que se arrastam das sombras profundas, insistindo em revisitar cada canto de minha mente onde eu desesperadamente tentava afastar o passado. Eram imagens vívidas e carregadas de uma dor esmagadora, uma angústia que se enraizava em meu peito, cortante e implacável, como uma lâmina fria. Eu via novamente os rostos dos amigos caídos, irmãos de combate cujas expressões distorcidas e pálidas ainda eram um reflexo do horror da batalha. Mas nada era tão insuportável quanto a visão de meu próprio irmão, René.

Ele era apenas um garoto, meu irmão mais novo, com seus dezesseis anos de vida ainda intocados pelo tempo. A lembrança do momento em que a baioneta prussiana encontrou seu alvo é vívida: o golpe cruel e certeiro atravessou o ar, um movimento frio e calculado. Em meus braços, seu sangue quente e espesso tingiu a terra ao nosso redor, formando uma mancha vermelha que parecia impregnar minha alma. Sua vida esvaiu-se lentamente, como um fluxo ininterrupto de dor e desespero, e eu só pude segurá-lo, impotente, sentindo seu último suspiro enquanto a batalha rugia em um estrondo ensurdecedor ao nosso redor. Aquele instante, um fragmento de tempo dilacerante, está gravado em meu ser como uma ferida profunda que nunca cicatrizará.

Senti uma lágrima quente e salgada escorregar pela minha face, seu caminho um rastro úmido que refletia a dor que eu sentia. Meu coração palpitava a cada lembrança, como se fosse cravado por uma faca afiada, rasgando e dilacerando minha alma com cada pensamento. O tormento parecia interminável, como um rio de tristeza que fluía incessantemente da minha alma para meus olhos. Nunca pude voltar a Sevilha para dizer à minha mãe sobre sua perda. A culpa de não ter conseguido protegê-lo é um fardo pesado que carrego, um peso que faz com que meus dias sejam um tormento constante e insuportável.

— Anton, teu passo é um eco de dor... Mas há esperança, o futuro ainda pode ser moldado pelo agora... — Pela primeira vez, o eco cessou, e a criatura parecia sentir uma centelha de compaixão pela tormenta que se desenrolava em minha mente. — Observa os muros do Castelo com atenção... Examina com cuidado os habitantes que o povoam... Penetra o véu sombrio da realidade e rompe as correntes do tempo.

A sensação de dor começou a se desfazer como uma neblina ao amanhecer. Meu corpo, antes tenso e pesando como uma âncora, começou a relaxar. O peso emocional que me oprimia parecia se dissolver, dando lugar a uma estranha sensação de alívio. Olhei ao redor e percebi que o horizonte, o Castelo, e até mesmo Séttimor haviam desaparecido. Estava envolto em um espaço escuro e desolado, onde a única presença era a da criatura, que agora parecia me envolver em um abraço etéreo.

— O vazio deste mundo guarda segredos profundos, esconde o que não pertence ao natural... — A voz da criatura tornou-se mais grave, quase professoral, com um tom que parecia refletir séculos de sabedoria. — Olga vê o ordinário como monótono... Não, ela aprecia o que reside no Vazio. Ela encontrou o que buscava entre suas sombras.

A menção de Olga gerou um frio inquietante. Quem era ela, e por que sua presença parecia tão relevante? Onde ela estava no Castelo?

— A dançarina... Mora no Castelo... Em algum lugar além do espelho do mundo... O tempo aqui é maleável, as linhas do destino se entrelaçam e se cruzam. Muitos caminhos se encontram e se perderão... — A criatura fez uma pausa, como se mergulhasse em um oceano de pensamentos. — Um nome... Nauärah... Pequena... Voa... Corre... Dança!

O nome parecia familiar, um eco do que eu havia visto na festa de Séttimor. Mas o que significava estar no "espelho" do mundo? Por onde andei no Castelo, só encontrei quartos vazios, salas empoeiradas e portas trancadas, um labirinto de desolação.

A angústia se entrelaçava com a esperança enquanto a criatura falava. Eu sentia uma conexão com o mistério que me envolvia, uma promessa de que as respostas estavam à espreita nas sombras do Castelo. O vazio, embora aterrador, parecia ser a chave para desvendar os segredos que buscava.

— Nauärah, como encontrarei este fantasma no Castelo? — Minha pergunta se perdeu no vazio, uma busca desesperada por respostas em meio à crescente inquietação.

Senti um peso inesperado sobre mim, como se lençóis pesados me envolvessem em uma prisão de tecido. A escuridão era densa, quase palpável, e meus olhos demoraram a se adaptar. O corpo estava uma mistura de dor e cansaço, uma sensação de desgaste físico que lembrava os treinos extenuantes com o sargento Jean. Levantei-me com cuidado, o esforço era visível em cada movimento lento e cuidadoso, como se estivesse tentando sair de um pesadelo denso e opressivo.

A dor e a fadiga eram intensas, desconcertantes, um lembrete constante da estranheza do lugar. Sentei-me na beirada da cama, tentando orientar minha visão em um ambiente que parecia ser meu quarto no Castelo. Um frêmito de desconforto percorreu minha espinha enquanto me dirigia até a janela, cujas cortinas estavam fechadas como um véu que escondia o que estava além.

Ao abrir as cortinas, a luz da lua se projetou pela janela, revelando o cenário noturno que parecia tanto familiar quanto alienígena. As roupas do baile ainda estavam em mim, um lembrete vívido da noite passada. Uma avalanche de memórias intensas e perturbadoras invadiu minha mente, como se fossem sombras que se arrastavam de volta para a superfície.

Caminhei com dificuldade até a mesa de frente para a cama e me deixei cair na cadeira com um suspiro cansado. A mente girava, tentando unir as peças de uma noite que parecia se estender interminavelmente. As visões de Séttimor e da criatura que se apresentava como aquele que “apenas existe” eram fragmentos confusos, enquanto dois nomes ecoavam incessantemente em meus pensamentos: Olga e Nauärah.

Cada pensamento era uma lâmina afiada, cortando através do nevoeiro da confusão. A sensação de estar em um labirinto mental, cercado por sombras e ecos do passado, criava uma atmosfera de suspense e inquietação. O Castelo parecia guardar segredos nas entrelinhas da realidade, e eu estava prestes a desvendar um enigma que prometia levar a uma revelação sombria.

Diário de Anton S. Miahi VI
(Escrito no Castelo — Part. III)

02 de agosto 1871 — Ao despertar nesta manhã, senti um peso inusitado em meu corpo, um cansaço que transcendia o mero físico. Ao sentar-me no lado direito da cama, percebi que o ar não estava frio, mas carregado de uma estranheza intangível. Minha mente, lenta e nebulosa, parecia vagar por entre sombras, como se encharcada pelo licor do sargento Miguel, aquele líquido esverdeado que ele alegava ser uma herança familiar, mas que sempre me pareceu mais um veneno disfarçado.

Com esforço, reuni a coragem necessária para me erguer daquele leito, arrastando meu corpo pesado até a janela, ainda fechada. No instante em que toquei a madeira fria, algo inexplicável aconteceu. A realidade ao meu redor começou a se desvanecer, como se fosse um reflexo em águas turvas. Meu quarto se tornou um eco de si, sobreposto por imagens distorcidas, simultaneamente familiares e estranhas.

Cambaleei, tombando ao chão, enquanto o espaço ao meu redor se desdobrava em camadas desconexas. Formas se duplicavam e se desfaziam, detalhes surgiam e desapareciam como se eu estivesse preso entre dois mundos, ambos reais, ambos irreais. O conhecido e o desconhecido se entrelaçavam em uma dança perversa, desafiando minhas percepções e deixando-me à mercê de um enigma insondável.

Ouvi o ranger pesado e longo de quem estava espreitando atrás da porta, até que ela silenciou, pronto o som de passos pesados de solado de couro no piso de madeira ecoava em minha mente, então se seguiu duas vozes. Uma delas reconheci devido ao convívio, Narcís. Tentei olhar na direção deles, mas tudo girava de uma forma que me impedia concentrar-me, então fechei os olhos.

A outra era de um barítono baixo, meus ouvidos podiam haver me enganado, mas quando consegui ouvir podia ouvir que era mais. Ele falava firme, e não pude compreender o que era dito.

Tentei abrir os olhos novamente e ver quem seria o outro na sala, ele tinha a pele escura, os cabelos aparados, a barba era bem-feita. As vestes dele eram semelhantes à de um aristocrata.

O segundo retira um relógio do bolso enquanto se agacha ao meu lado. Consegui ver o mostrador do relógio, adornado com delicadas engrenagens visíveis mediante um cristal impecável, marca o tempo com uma precisão perturbadora. Cada tic-tac parece ressoar no ar, como um sussurro de algo antigo e esquecido. Ao redor, o tempo parece distorcido, curvando-se à vontade dele, que observa Anton, caído e vulnerável sob os poderes temporais que o relógio exala.

Perto da porta, em meio à escuridão que o envolve, está Nestor, o mordomo sombrio do Castelo Drácula. Sua figura alta e imponente é uma sombra que vigia, seus olhos atentos ao que se desenrola diante dele. Ele permanece imóvel, mas o ar ao seu redor parece pulsar com uma energia inquietante, como se ele estivesse em perfeita sintonia com o poder sinistro que emana do relógio na mão de daquele ao meu lado.

— Monm, creio que subestimas a delicadeza do tempo. — A voz de Nestor cortava o ar com uma precisão quase cirúrgica, cada palavra um golpe de aço frio que parecia reverberar pelas paredes do quarto. Seus olhos, escuros e intensos, fixavam-se em Monm com uma desaprovação palpável, como se visse em cada fração de segundo um erro iminente.

Por um instante, Monm baixou a cabeça, uma sombra de aborrecimento cruzando seu rosto antes de erguê-la novamente com um brilho desafiador.

— Ah, Nestor, sempre tão preocupado com as minúcias. O tempo, para mim, é uma tela em branco, pronta para ser pintada com novas realidades. — Sua voz era um sussurro leve, quase musical, enquanto girava o relógio de bolso entre os dedos, o brilho verde musgo lançando padrões de luz nas paredes, criando uma dança de sombras inquietantes. — Anton é apenas… — Ele olhou diretamente para Nestor, um sorriso sarcástico curvando seus lábios. — Uma pincelada ousada.

— Essas tuas pinceladas ousadas podem desmoronar todo o quadro. — Nestor estreitou os olhos, a voz agora carregada de um tom sombrio e ameaçador, como o crepitar de um incêndio distante. — Anton está à beira do abismo, e um passo em falso poderá custar-lhe muito mais do que o simples passar dos segundos.

— Ora, ora, que dramático! Não se preocupe tanto, meu caro. — Monm respondeu com uma leveza desconcertante, a voz quase um murmúrio divertido. — O abismo é fascinante, não acha? — Ele girava o relógio de bolso, o som metálico quase hipnótico. — Um lugar onde a lógica se perde e a realidade se distorce. Anton deveria sentir-se privilegiado por ser uma das raras almas a vislumbrá-lo.

— Brincar com o tempo é arriscar, Monm. — Nestor intensificou sua aura vermelha, o brilho ardente criando uma aura ameaçadora. Sua voz agora era um trovão profundo e grave, reverberando pelas paredes do quarto. — E já que tanto aprecias as chamas, cuidado para que não acabes queimado por elas.

— Fogo, gelo, tempo… — Monm riu suavemente, inclinando-se sobre Anton com uma expressão de curiosidade quase paternal. — Tudo isso são apenas ferramentas nas mãos certas, Nestor. Agora, veja, observe como a realidade se dobra e se molda. Anton está aprendendo uma valiosa lição sobre a natureza efêmera do tempo, algo que poucos têm o privilégio de entender…— Seu tom era cauteloso, mas carregado de uma ameaça sutil. — Ou sobreviver.

— Cuidado, Monm. As forças que invocas são antigas, mais do que tu podes controlar. — Nestor falou com uma voz baixa e imponente, carregada de uma autoridade que parecia emanada das profundezas de sua própria experiência. — Eu, que servi e ainda sirvo a poderes além da compreensão, sei o que ocorre com aqueles que ultrapassam seus limites. Não subestime o preço.

— Ah, Nestor, se a eternidade não nos oferece diversão, qual é o propósito de possuí-la? — Monm ainda sorria, mas com um brilho calculista em seus olhos. — Anton é apenas o começo. O tempo é vasto e cheio de surpresas… vejamos onde ele nos leva.

Monm, ainda agachado ao lado de Anton, girava o relógio de bolso entre os dedos, sua aura de fogo-fátuo verde musgo projetando sombras inquietas nas paredes do quarto. Anton, prostrado no chão, começava a recobrar a consciência, mas o peso esmagador do tempo manipulado por Monm ainda o oprimia. Nestor permanecia à porta, sua presença imponente ardendo em tons de vermelho, como uma brasa viva, seus olhos quase ocultos na escuridão de seu rosto severo.

— Monm, estás brincando com forças que nem tu compreendes plenamente. Anton não é uma peça descartável para teus experimentos. — Nestor afirmou, a voz cortante como um fio de lâmina. — Ele pertence a Drácula, e Olga tem planos para ele que não envolvem teus caprichos temporais.

— Oh, Nestor, sempre tão zeloso pelos interesses de teus mestres. — Monm respondeu com um sorriso irreverente, seu tom leve e brincalhão. — Mas não te preocupes, Anton é mais resistente do que aparenta. — Olhando para Anton com um brilho enigmático, ele continuou, — Ele sobreviveu ao toque do tempo até agora, não é verdade, meu jovem?

— Liberte-me... Monm, por favor... não aguento mais essa sensação… — Anton suplicava com a voz entrecortada, a angústia evidente em cada palavra. — Essa confusão... não sei mais o que é real…

— Vês, Monm? Estás levando-o ao limite. Liberta-o antes que destruas sua mente. — Nestor interrompeu, sua voz grave e cheia de autoridade, como um trovão distante que prenuncia uma tempestade iminente.

— Ah, Anton... a realidade é tão relativa, não achas? — Monm se aproximou mais de Anton, sua voz um sussurro sedutor carregado de mistério. — Mas compreendo teu desejo. O tempo pode ser um mestre implacável... ou um aliado inesperado. Estás começando a vislumbrar o que poucos têm a chance de ver. Por que apressar o fim dessa experiência única?

— O que é isso... o que estou vendo? O que fizeste comigo? — Anton perguntou com os olhos arregalados, sua voz carregada de uma curiosidade desesperada. — Por que parece que o tempo se distorce ao meu redor?

— Ah, meu caro, estás tocando a própria essência do tempo, uma dádiva rara. — Monm sorriu misteriosamente, um toque de empatia em seu olhar. — Mas não te preocupes, vou acalmar as águas para ti... por enquanto.

— Não brinques com ele, Monm. Já cometeste um erro irreparável em outra ocasião, um erro que ainda te assombra. Anton não é o veículo para tua redenção — Nestor falou com uma frieza penetrante, sua aura vermelha pulsando com uma ameaça velada.

— Erro? Que palavra pesada, Nestor. Prefiro chamar de... aprendizado! — Monm respondeu, visivelmente afetado, mas escondendo sua vulnerabilidade sob uma camada de sarcasmo. — E quanto a Anton, talvez haja mais nele do que imaginamos. Quem sabe ele seja a chave para corrigir... certas coisas.

— O que estás insinuando? Conheces este jovem de outro lugar, não é? De outra linha temporal, talvez? Monm, não ousarias... — Nestor estreitou os olhos, sua suspeita palpável.

— Insinuar? Eu? Nunca, Nestor. Apenas... vejo um potencial em Anton, algo que me é familiar — Monm olhou para Anton com uma expressão quase melancólica, mas logo retomou seu tom espirituoso. — Uma história que pode ter sido... ou ainda será.

Tentando me levantar, minha curiosidade superou o medo. Senti o peso invisível do tempo se moldando ao meu redor, como uma neblina densa que sussurrava promessas e perigos. O quarto, que antes era meu refúgio familiar, pulsava com uma energia estranha e inquietante, como se estivesse prestes a revelar segredos há muito enterrados. Os olhos de Monm, carregados de um enigma silencioso, me observavam com uma intensidade quase paternal, enquanto Nestor permanecia como uma sombra vigilante à porta, sua presença uma advertência de que minha curiosidade poderia me levar a lugares de onde não haveria retorno.

— Que história? O que estou destinado a ser? E por que… — minha voz tremia enquanto tentava me erguer. — Sinto que há algo em mim que ainda desconheço?

— Tudo a seu tempo, meu jovem — Monm ajudou-me a levantar, falando com suavidade. — Por agora, saiba que o tempo tem mais camadas do que o mundo à tua volta pode mostrar. E talvez, só talvez, tu sejas a peça que faltava para completar o quebra-cabeça que comecei há muito tempo.

— Monm, cuidado com teus jogos. Drácula e Olga não tolerarão falhas. Anton deve ser preservado para seus propósitos, e qualquer desvio será... corrigido — Nestor advertiu, sua aura vermelha pulsando como uma ameaça iminente. — Não esqueças tua posição.

— Oh, Nestor, sempre tão rígido — Monm suspirou, com um brilho astuto nos olhos. — Não te preocupes, Anton será bem cuidado... desde que ele esteja disposto a aprender com o tempo.

A conversa entre Monm e Nestor se desfez em uma tensão que parecia quase palpável, um manto de expectativas e incertezas que me envolveu. As palavras de Monm ecoavam na minha mente, como se uma porta estivesse prestes a se abrir para um mundo que mal comecei a entender. O quarto ao meu redor agora pulsava com uma vida própria, as paredes sussurrando segredos antigos em uma língua que mal conseguia captar. O brilho verde-musgo do relógio de Monm lançava sombras dançantes, enquanto a aura vermelha de Nestor formava uma barreira opaca entre mim e os mistérios ainda não desvendados do castelo.

Levantei-me com esforço, minhas pernas vacilantes encontrando um novo equilíbrio. O tempo, sinto agora, não é mais o mesmo. Algo profundo e irrevogável mudou, transformando o que eu conhecia em algo maleável e desconcertante. Decidi ir até a janela, movido por uma necessidade urgente de reconectar-me com algo familiar. Aproximei-me com uma mistura de curiosidade e temor, puxando a cortina e abrindo a janela com um esforço que me pareceu quase mágico.

O que vi me deixou atônito. O inverno, com seu manto de gelo e silêncio, havia desaparecido, dando lugar a uma primavera vibrante e exuberante. O ar que entrava pela janela era fresco e perfumado com o aroma das flores que desabrochavam em cores intensas e inesperadas. A luz do sol, cálida e brilhante, filtrava-se através das folhas verdes e brotos floridos, criando uma tapeçaria de luz e sombra que dançava ao ritmo do vento. A confusão e a esperança se entrelaçavam em meu peito, como se a primavera representasse um novo começo, uma chance de reescrever minha história em um mundo onde as regras da realidade se esticavam e se dobravam conforme o capricho do tempo.

Sentia como se estivesse em um lugar que desafiava a compreensão, onde cada decisão poderia moldar não apenas o presente, mas também o futuro de maneira inexplicável. O castelo ao meu redor sussurrava meu nome, prometendo revelações e perigos que poderiam me levar além dos limites do que eu conhecia... ou me destruir no processo. A sensação de estar entrelaçado com o desconhecido me envolvia, e eu estava prestes a descobrir se este novo tempo seria meu aliado ou meu destino.

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Histórias Cruzadas: Ecos do Passado

A noite embeleza ainda mais a atmosfera deste lugar e a lua grandiosa em tom fúlvido parece brilhar na umidade da minha pele. Sorrio de maneira leve, mas...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A noite embeleza ainda mais a atmosfera deste lugar e a lua grandiosa em tom fúlvido parece brilhar na umidade da minha pele. Sorrio de maneira leve, mas quando me acalmo da dança, o meu sorriso começa a se desfazer, pois noto o perigo que eu corri dançando sem capa nos arredores do castelo. A Nauärah em alerta desperta e se torna novamente atenta em relação aos perigos. Preciso de um banho gelado, penso. Jogo a água em meu rosto e em meu corpo, sem nem me livrar das vestes que me cobrem. Começo a me sentir quase impura. Não deveria sentir felicidade ao dançar. 

Seco a minha pele, quase como se me limpasse de um pecado que cometi e visto-me com outras vestes ainda mais compridas, utilizando a capa e decidindo que vou observar mais este lugar, na certeza de encontrar os olhos que me observaram. Mas decidi levar todo o meu armamento.

"Não use de violência, minha filha." A voz do meu pai parece ecoar nos meus ouvidos, como se ele estivesse me vendo pegar o arco e as flechas à distância. Respiro, relaxando os meus braços, como se me desarmasse. 

"Perdão, meu pai, mas a minha flecha vai comigo." Digo quase em um tom audível, ainda que eu esteja sozinha neste vão.

A madeira do arco range sob meus dedos enquanto eu ando furtivamente pelos corredores escuros do castelo. Cada passo é um desafio, mas a coragem surge aos poucos e a cada dia estou mais confiante e menos escondida. O meu coração palpita no peito como uma batida ritmada que ecoa na imensidão do silêncio misterioso daqui. 

Carrego comigo não apenas o arco, mas também um desejo ardente de respostas. Quem me viu dançar? Quem ousou espiar a minha alma exposta nos movimentos da dança sagrada?

As tochas nas paredes lançam sombras vacilantes, e a cada curva, eu sinto a tensão se intensificar. Meus instintos de caça, forjados na floresta densa de minha aldeia, me mantém alerta. Minha respiração é controlada, mas não posso controlar o tumulto interno: medo e curiosidade se misturam em minhas veias como um veneno doce.

Chego ao grande salão principal. O recinto é vasto e decorado com tapeçarias ricas que narram histórias de conquistas antigas. Aqui, em meio ao brilho das tochas, vejo a silhueta de... um homem. Ele está de costas para mim, absorto em contemplação diante deste espaço grandioso. Por um momento, meu corpo congela. O perigo é palpável, mas algo mais profundo me chama, uma curiosidade quase dolorosa.

 Mais um homem? Outro? Quem é ele? O que busca aqui? Eu deveria saber que há outros estudiosos e escritores que podem vir explorar este castelo livremente, assim como eu. O certo seria eu voltar para a minha aldeia no Brasil e parar de querer lutar contra o meu trauma, enfrentando coisas cujas quais eu não estou pronta para lidar. Ou será que eu estou atraindo para mim o que mais temo? Quanto mais tenho medo deles, mais deles parecem se multiplicar neste lugar.

Começo a ficar apavorada e levo uma mão à fronte, fechando os olhos firmemente. Lembranças... sempre as lembranças. Uma lágrima que sempre insiste em chegar nesses momentos de tensão aparece, mas respiro e decido seguir com isso. 

Antes que o tal desconhecido perceba a minha presença, se é que não já percebeu, ajusto a flecha no arco, mantendo a mira perfeita, caso ele se vire para me fazer mal. Mas alguma força maior trava os meus braços e abaixo toda a minha armadura, respirando fundo e já demonstrando inevitavelmente para ele que eu estou aqui, indefesa, mas disposta a enfrentá-lo.

 …

Diário de Anton S. Miahi
(Escrito no Castelo — Part. II)

27 de julho de 1871 — Me levantei da cadeira, logo desci, girando meu corpo para ficar de costas para as pernas da mesa, até me sentar no chão frio de pedra do meu quarto no Castelo Drácula. Cruzei as pernas e as mãos repousando sobre os joelhos. A única fonte de luz era a lua cheia, que derramava sua luz prateada através da janela que estava com suas cortinas abertas, lançando sombras dançantes nas paredes de pedra. A atmosfera que eu sentia ao meu redor era densa, carregada de uma calma inquietante que parecia ecoar através dos séculos.

Fecho meus olhos e tento acalmar a mente, mas as memórias surgiam como tempestades inesperadas. Vislumbres de rostos, lugares e eventos que se misturavam, formando um mosaico confuso e perturbador. A figura do próprio Drácula, o senhor daquela morada, dominava seus pensamentos, trazendo consigo uma sensação de terror e fascínio.

— Que estou fazendo aqui? — Anton murmurou para si, sua voz reverberando suavemente na escuridão. Ele se lembrava de ter chegado ao castelo como um estudioso, atraído pelas lendas e mistérios que cercavam o lugar. Mas com o passar do tempo, a linha entre realidade e ilusão começara a ficar questionável.

De repente, uma batida suave na porta quebrou o silêncio sepulcral do quarto. Meu coração disparou, e um frio gélido percorreu minha espinha. Quem poderia ser àquela hora da noite? Aproximei-me lentamente da porta, hesitante. Minha mão tremia quando a estendi para a maçaneta. Antes que pudesse girá-la, uma voz baixa e sibilante veio do outro lado: 

— Eles estão vindo para você, não há para onde correr. — A voz era estranhamente profunda e perturbadora.

Antes de abrir a porta, olhei a cintura onde deveria estar o meu sabre, pela graça divina, ao notar que ele ainda estava em seu lugar, desembainhei sem sombra de dúvidas. Com um impulso abri a porta, esperando que ali se encontrasse o que quer que fosse, mas o corredor estava vazio. A voz ainda ressoava em meus ouvidos, uma ameaça velada que deixava um rastro de pavor. Fechei a porta rapidamente e me apoiei contra ela, tentando acalmar minha respiração ofegante. 

— Quem está vindo? E por quê? — Meus pensamentos estavam acelerados com toda aquela adrenalina explodindo por cada parte do meu corpo.

O quarto parecia encolher ao meu redor, as sombras se fechando como tentáculos. 

— Qual é o meu papel nesse lugar perdido? Qual a razão da imagem daquele semelhante monstro e esses nomes que ecoam em minha mente a cada instante, “Nauärah” e “Olga”? — Minha voz ao longo da frase foi diminuindo como se a resposta estivesse no silêncio do quarto, da minha mente.

O silêncio voltou a reinar, mas agora estava carregado de suspense e inquietação. Sabia que precisava encontrar respostas, descobrir a verdade sobre Séttimor, a criatura que “apenas existe” e os nomes de Olga e Nauärah. Mas como? E a que custo? Meu corpo estava fraco, mas minha mente, apesar de atormentada, se preparava para qualquer situação que pudesse se desenrolar não apenas no mundo exterior, mas também dentro de mim.

Dirigi-me ao velho guarda-roupa de madeira escura, com desenhos em baixo-relevo entalhados, que dominavam um canto do meu quarto. Suas portas rangeram quando as abri, revelando minhas vestes. Escolhi um conjunto adequado para a jornada: uma camisa de linho branco com botões de osso, cujas mangas abotoei com firmeza nos pulsos; uma calça de lã escura, grossa o suficiente para enfrentar o frio; e um colete de veludo negro, decorado com botões de prata que refletiam a pouca luz do quarto. 

Vesti-me com cuidado, cada peça ajustando-se ao corpo como uma armadura contra o frio. Sobre o colete, coloquei um sobretudo de lã pesada, de cor azul royal, com uma gola alta que oferecia alguma proteção contra o vento gelado. Abaixo dos joelhos, prendi botas de couro, desgastadas pelo tempo, mas ainda firmes, e por fim, enrolei um cachecol grosso em torno do pescoço.

Fechei o guarda-roupa e me voltei para a parede oposta, onde havia deixado apoiado meu sabre militar da cavalaria repousado em sua bainha. Peguei-o com reverência. O sabre da cavalaria francesa do século XIX que eu tinha em mãos era uma obra de arte tanto quanto uma arma de guerra. O punho, esculpido em marfim, exibia intrincadas espirais que se entrelaçavam de forma complexa, criando uma textura rica e detalhada que parecia pulsar sob meus dedos. Com o guarda-mão de aço negro, finamente talhado, envolvia o punho com elegância e força, oferecendo proteção e um toque de refinamento sombrio.

A lâmina, ligeiramente curvada, refletia a luz da lua em um brilho frio e implacável. Ao longo de quase toda a extensão da lâmina, entalhes em baixo-relevo narravam cenas de batalhas e vitórias, dando vida a figuras e símbolos que pareciam estar em movimento. Esses entalhes não eram meramente decorativos; eles contavam a história de guerreiros passados, suas glórias e sacrifícios, e conferiam à lâmina um caráter quase mítico.

A bainha, não menos impressionante, era adornada com desenhos de cavalos em plena corrida, suas crinas e caudas fluindo com um dinamismo que contrastava com a rigidez do metal. Detalhes em aço destacavam-se contra o fundo escuro, acrescentando profundidade e complexidade ao design. Os cavalos, símbolo de poder e liberdade, pareciam prontos para saltar da bainha a qualquer momento, infundindo a arma com uma energia latente.

Ao prender o sabre ao meu cinto, senti o peso da história e da arte que ele carregava. Não era apenas uma arma, mas uma peça de mestre, criada para simbolizar honra, coragem e destreza. Com ele ao meu lado, estava pronto para enfrentar a escuridão que se estendia diante de mim.

O castelo estava silencioso, seus corredores vazios e sombrios, ecoando apenas meus passos determinados. Ao sair para o pátio do castelo, o ar frio da noite me envolveu imediatamente, cortando minha pele como os projetis. O céu estava claro, a lua cheia iluminando a neve que cobria o solo, criando um contraste fantasmagórico com as sombras das torres do castelo.

Sem olhar para trás, comecei a descer a trilha que levava à vila que estava em minha memória. As botas afundando na neve a cada passo, cada cravada um lembrete da dureza do inverno transilvano. Minha busca por Nauärah havia se tornado uma necessidade visceral, um instinto primitivo de caçador. Precisava saber se a visão que tivera na festa de Séttimor fora apenas uma miragem ou algo muito mais profundo. Séttimor também pairava em minha mente como memórias incompletas, uma sombra que eu precisava dissipar.

A cada passo, procurava sinais de sua passagem e da vila. Pegadas leves na neve, galhos quebrados, qualquer indício que pudesse me levar até ela. E quanto à cidade, queria ver se surgia no alto das árvores fumaça, sinais de existir pessoas por perto. No entanto, mesmo com a noite clara, não surgia nenhum sinal de civilização. A floresta ao redor estava silenciosa, exceto pelo som abafado dos meus próprios passos e o ocasional farfalhar das árvores ao vento. O sabre ao meu lado parecia pulsar com a mesma urgência que eu sentia, um lembrete constante de que estava preparado para o que viesse.

Conforme me aproximava do local onde deveria estar a vila de Séttimor pelo que vinha a minha memória, um frio diferente começou a se instalar em meus ossos, não apenas o frio do inverno, mas algo mais profundo, mais antigo. A clareira surgiu diante de mim, vasto e desolado espaço onde eu esperava encontrar a vila. Nada restava além de uma imensa área vazia, a neve intocada, exceto por alguns sinais rúnicos gravados nas árvores ao redor, escritos na antiga língua eslava.

Aproximei-me das runas, tentando decifrar seus significados, mas sentindo uma presença crescente ao meu redor. Seria a Nauärah? Podia sentir uma vigilância, olhos sobre mim, uma intenção assassina parecia espreitar-me. Meu coração acelerou, cada batida um tambor de alerta. Não estava sozinho, isso era certo. Mas quem poderia ser e estava oculto na escuridão da floresta congelada?

Desembainhei o sabre com um movimento suave, ocultando-o parcialmente sob o manto pesado do sobretudo. Movi-me com cuidado, como um rastreador experiente, procurando um ponto onde pudesse ter uma visão clara dos arredores sem me expor. Encontrei uma elevação natural na borda da clareira, onde uma árvore caída oferecia cobertura. Subi lentamente, cada movimento calculado, o sabre pronto em minha mão.

A noite estava silenciosa, mas senti que a presença do meu perseguidor oculto estava mais próxima. Olhei ao redor, tentando captar qualquer movimento, qualquer sombra que traísse sua posição. O frio mordia minha carne, mas minha mente estava afiada, focada. Eu era um caçador em sua vigília, esperando, observando, preparado para enfrentar os segredos que a escuridão ainda escondia.

E ali, no silêncio e na penumbra, aguardei. Sabia que não poderia fugir das perguntas que me assombravam, e menos ainda da figura que agora espreitava meus passos. Será que ela estava ali? E eu estava pronto para desvendar o mistério que nos ligava, custasse o que custasse.

… 

Penso em parar com isso, com a minha gana de expulsar tudo e todos. Respiro fundo e aproveito o momento em que esse outro desconhecido está focado em outra direção para me esvair lentamente da sua presença. A minha habilidade com movimentos e técnicas corporais faria com que eu não fosse percebida, mas, ao mesmo tempo, preciso saber quem é. Talvez ele fosse um guardador do castelo. Por outro lado, a minha desconfiança em figuras masculinas não me permite ser tão otimista e confiante neles, muito menos boazinha e próxima, ainda mais estando sozinha agora.

Como uma ideia brilhante que surge na mente, resolvo pregar-lhe uma peça. Talvez, me divertir um pouco neste lugar tiraria a minha tensão e eu o assustaria, fazendo-o se afastar. Começo a sair sutilmente da sua presença e lembro-me que o meu quarto fica próximo da direção onde ele se encontra agora. Então, com passos rápidos, quase correndo pelo recinto, subo as escadas como uma criança peralta ou um adulto em fuga e passo pela sacada superior interna, me debruçando um pouco na balaustrada para me certificar de que não estou sendo vista. Até que chego em direção ao quarto onde estou hospedada e entro cautelosamente.

Respiro fundo, descansando da fuga por alguns segundos. Tranco a porta do quarto e reforço os meus armamentos, munindo-me com mais flechas e enchendo a minha aljava, não importa quão pesada esteja. Deixo-a pendurada nas costas e mantenho as luzes apagadas. Preparo o arco e saio por uma porta que dá espaço à uma bela sacada na parte externa do quarto.

Ao sair, o avisto ainda ali, como se ele se escondesse de algo, se preparasse para fazer alguma coisa ou para invadir o quarto mais próximo, o meu. Daqui a visão é perfeita e, para assustá-lo, resolvo lançar a flecha em um galho próximo à região da sua cabeça. Não seria violenta a ponto de machucá-lo, mas o medo me toma grandiosamente. Seria ele o olhar que me acompanhou na dança? O encaro através da minha sacada, olhando-o de cima, sem ser percebida e tentando dar uma chance à minha candura restante, mas não posso. Uma revolta em mim fala mais alto.

Preparo a flecha no arco e, com movimentos estudados, me agacho, posicionando as pernas e pés bem confortavelmente, então, sem muito me demorar, lanço-a exatamente num galho áspero da árvore em que ele tenta se esconder, próximo à sua cabeça e tendo a certeza de que os seus olhos se assustariam ao olhar para o lado e ver a flecha cravada mui próxima.

Ôpa! Me desculpe, senhor cavalheiro. Hoje a minha flecha está um pouco preguiçosa, pois já acertou traseiros demais, mas ela teve misericórdia do senhor escondido aí. — Divirto-me, de maneira rara e inevitável, deixando escapar um leve riso irônico. Aquele cavalheiro escondido entre uns arbustos me faz resgatar comportamentos que eu não tinha há anos. O de sorrir e pregar peças. Mas me recomponho, levanto-me e volto a ser redil, falando com aspereza. — Pode aparecer! Quero ver quem está à espreita próximo à sacada do meu quarto. E se tentar correr, o que não me falta são lanças e flechas para acertá-lo precisamente onde mais o senhor temer! Se mostrares a tua face e me disseres quem és, mostrarei a minha e me apresentarei cordialmente.

Com a capa cobrindo quase todo o meu rosto, preparo o arco e a próxima flecha. Apontada em sua direção, tenho a certeza de ele percebe que não estou para brincadeiras, apesar da peça que preguei.

— Renda-se! Não tem como escapar, não há para onde ir! — Minha voz corta o ar, carregada de uma autoridade fria.

Ele levanta o sabre em sinal de rendição e paz, tentando mostrar que não tem intenções hostis. Mas, ao fazer isso, seu pé encontra um ponto escorregadio. Ele perde o equilíbrio e cai desajeitadamente no chão. O sabre escapa da sua mão e desliza alguns metros para longe.

Solto uma risada melodiosa, mas antes que pudesse recuperar minha postura, eu também escorrego, caindo de minha posição elevada e deslizando pela inclinação até parar a alguns metros do tal cavalheiro.

Nós dois ficamos ali por um momento, desconcertados e um pouco envergonhados. Que encontro mais anticlimático.

— Bem, — Eu digo, com uma pitada de ironia na voz. — Parece que estamos ambos fora de prática, mas eu só desequilibrei porque sorri. — Meu rosto parece claramente frustrado, enquanto me levanto rapidamente, ainda temerosa e me afastando dele imediatamente.

Ele também se levanta lentamente, sacudindo a neve de suas roupas. 

— Sim, precisamos claramente de mais treino em... quedas graciosas. — Seus músculos devem ter doído, mas não tanto quanto seu orgulho militar.

Eu rio novamente, uma risada leve que dissipa um pouco da tensão que sinto por estar próxima a um desconhecido, até então. 

— Quedas graciosas. Gosto disso. Mas não pense que sairá sem se apresentar. Quem é você, afinal? Um cavalheiro desastrado procurando por uma donzela em perigo? — Digo com um tom irônico e uma expressão curiosa estampada na face, apesar de tentar esconder o meu rosto.

— Algo assim, quem sabe? Tenho mais perguntas que respostas, e você é uma das respostas. — Enquanto fala, ele arruma suas vestes, pegando seu sabre do chão e guardando-o com cuidado. — Meu nome é Miahi, Anton Stefan Miahi, oficial da cavalaria francesa. E você deve ser Nauärah, a figura das minhas visões. — Ele aponta para mim com a sua mão esquerda e me olha com muita atenção.

Eu arqueio uma sobrancelha, intrigada. 

— Visões? Interessante. Por que eu sou uma das respostas?  E o que exatamente você viu, cavaleiro Anton? — Claramente há um tom de deboche, mas meu rosto parece indicar que há algo mais que eu estou escondendo.

— Vi você dançando na festa da vila Séttimor, como uma miragem, um fantasma. E depois... apenas um enorme vazio e sombras. — O tom da sua voz fica sombrio.

— Então foi o senhor! Muito observador, senhor Anton. Apesar de que não lhe devo nenhuma explicação, ouvi uma melodia, algo vindo de algum lugar do castelo. — Não há dúvida ou engano na minha voz e nem em minha postura. — Acabei sendo levada por uns movimentos corporais. Foi apenas isso. Levada pela magia da minha terra. 

— Isso é um mistério, eu a vi naquela vila na noite de ontem. Em meio aos Séttimor! Mas… Não estava lá, mas você ouviu a música, certo? — Ele diz com um sorriso cansado. — Parece que me estão pregando peças também, nada parece ser real.

Eu olho para ele por um longo momento e os meus olhos avaliam cada detalhe. Preciso saber bem quem ele é. Por outro lado, o seu armamento se aproxima do meu e isso, talvez, tenha gerado em mim uma tranquilidade maior, uma espécie de identificação com o tal senhor Anton.

— Talvez nem tudo seja enganação. Você me encontrou, afinal. — Minha voz soa empática, apesar de minha rigidez física indicar o contrário. — E de um jeito inusitado, pois senti alguém me observando, mas alguém que não estava presente de corpo. Como pode isso? Talvez seja até um sinal, algo de outra ordem. Aqui tudo é um mistério. 

— Sim, Verdade! — Apesar de concordar, ele parece ter dúvidas pairando sobre sua cabeça, e uma certa ansiedade cresce. — Estou buscando informações. Você está morando no castelo? Conhece alguma Olga…? Não recordo seu sobrenome.

— Hum, informações... Que tipo de informações? — Eu começo a ficar temerosa e falo com um olhar de desconfiança, como se o avaliasse dos pés à cabeça. — Bem, a Olga me recebeu aqui neste recinto. Não sei se deveria lhe dizer, mas o seu sobrenome é Nivïtzz, Olga Nivïtzz. E eu vim explorar este castelo, estudá-lo, como uma forma de enfrentar o mundo cruel. Mas, sabe? Eu quase gosto de você. Preciso de tempo para analisar se não irá colher informações muito particulares sobre mim. Mas só porque me fez sorrir um pouco, me apresento. Me chamo Nauärah. Nauärah Tupiniquim, e venho do Brasil. Sinta como se eu estivesse lhe dando um bom aperto de mão cordial. 

Não permito que ele toque a minha mão, sequer, é óbvio, mas retiro o meu capuz do rosto, finalmente, mostrando a minha face de maneira lenta. O observo melhor, franzindo a testa, mas lhe dando um sorriso cordial, apesar de tímido. A face do senhor Anton transmite generosidade, masculinidade, e eu não posso negar a sua beleza e educação. Apesar do medo, eu dou de ombros, como se resolvesse dar um voto de confiança ao novo desconhecido. Afinal, se ele citou a Olga Nivïtzz, me sinto mais aliviada, pois ele pode conhecê-la, de alguma forma. Sendo assim, quem a conhece, me passa maior confiança, mas ainda preciso estudá-lo, aos poucos, e entender que ligação é essa que ele demonstra ter comigo e que me fez sentir segura com ele.

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Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Diário de Anto Stefan Miahi - Part. IV

Meu caro amigo, te envio notícias da capital. Além desta carta, somam-se alguns jornais nossos….

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

De Marcel D. Laurent II

De: Marcel D. Laurent
Para: Anton S. Miahi
28 de junho de 1871

Meu caro amigo, te envio notícias da capital. Além desta carta, somam-se alguns jornais nossos. Infelizmente até chegar em suas mãos devo admitir que vão estar atrasadas. Por feliz graça você me deixou a direção do tal conde, realmente espero que estejam chegando minhas cartas.

Paris tem tido momentos sombrios no espectro político e social, isso desde que Napoleão caiu nas mãos de Frederico, O Grande, e se viu despido de toda sua majestosa glória divina concedida pelo Papa Pio IX e sua igreja. Foi uma guerra santa feita por pecadores e desgraçados que banharam o centro da Europa.

Recordando que quando voltávamos a casa na longa viagem que fizemos, antes que se molhasse a pena e manchasse o papel, os comunas assumiram as rédeas da nação com o apoio das Forças Nacionais.

Por culpa daquele detrator e infame Adolphe Thiers. Ele que ao invés de entender o valor do sangue derramado, não pelo infeliz ex-presidente e imperador, mas pelo próprio povo, fechou a boca e se recusou a dar valor a honra de nossos irmãos de trincheiras, assim como de suas famílias que derramaram lágrimas.

Meu amigo, tudo tem custo, não é mesmo?

Apenas um pesadelo após o outro!

Vimos os horrores da guerra longe de casa, para voltar ao final de 1870. Desde o início do ano de 1871, por volta de março, penso eu, fora possível notar que aqui também poderíamos sangrar, não contra inimigos externos, países estranhos, mas contra nossos vizinhos, primos, irmãos e pais. As

A hora em que te escrevo essa carta é no silêncio da noite, Bernie está dormindo no andar superior, enquanto estou acompanhado de duas garrafas de um bom vinho tinto produzido na vinícola de meu primo Ghutier. Nada como o doce sabor da uva para soterrar as más lembranças e curar velhas feridas da alma.

Recomendo como seu amigo esse tratamento tão singelo, mas de excelente resultado.

Talvez por essa razão eu esteja te escrevendo esta carta, parte de uma clara preocupação com seu bem-estar, e com a nossa amada França.

Vivemos um tempo de efervescência social nunca vista em nosso país, já que ainda existem núcleos de descontentes com governo provisório e por sua falta de força e respostas perante o fracasso de Napoleão frente a Prússia.

O ano apenas está na metade e parece que já viveremos o apocalipse dos textos sagrados!

Já que Versalhes está com o governo provisório e Paris passou um tempo nas mãos dos comunas. É de se pensar quanto ao sacrifício que estes revoltosos estão dispostos a fazer. Lutam pelo poder popular, poder do povo. Querem reinventar a roda? Difícil crer que eles poderiam conseguir algo sem o povo ao seu lado, menos ainda sem os mosquetes que os nobres conseguem armazenar.

A política tem muitas faces, meu amigo.

Enquanto nós, enfrentávamos outra nação pelo poder do presidente da segunda república francesa, Charles-Louis Napoleão Bonaparte. No quintal nosso borbulhava sentimentos de inconformismo que tomaram as ruas. Inegável a destruição causada em Paris, ruas manchadas de vermelho, bloqueios, cartazes a favor da comuna por todas as partes. E os livros de um tal de Victor-Marie Hugo, dizem que ele saiu da região de Besançon. Este homem que motivava por meio de suas obras a já existente e crescente insatisfação contra o poder vigente no país.

2 de setembro de 1870, a dobrada de joelhos de Bonaparte, a fome, a crise social, a guerra tudo parecia conduzir para essa situação catastróficas que foi essa revolta de Paris, ao não aceitar a rendição.

O que também apoiei até certo ponto.

Admito que o problema tão logo foi a infestação dos comunas que se viam bebendo das fontes prussianas dos pensadores críticos da produção favoráveis e da luta de classes. Muitos não viram o racha que isso poderia causar.

Ali nasceu a divergência, bem no meio dos defensores de Paris e o governo provisório contra uma possível luta em solo francês contra os prussianos.

Acho que o vinho começa a me fazer devagar, meu amigo. Novamente espero ter notícias tuas. Amanhã irei aos correios, se conseguir levantar.

De seu irmão de trincheiras,
Maurice.

Anton S. Miahi IV
(Anotações feitas em Séttimor)

24 de junho — A curiosidade me levou por caminhos que admito eu desconhecer, e mais que isso, sou imerso em assombro proveniente dos recantos distantes do imaginário humano, com verdadeiras visões que fazem minha racionalidade falhar.

Aceitei entrar na casa de um dos ditos moradores do povoado oculto no vale abaixo do Castelo Drácula. O lugar é lúgubre, funesto. Olho aquelas pessoas, algumas nem mesmo face mais tem, no entanto, sinto nelas angústia, medo, e algumas, noto a completa ausência de esperança.

Por diversas razões, encontro-me imerso em um tormento psicológico que remete diretamente às tendas dos socorristas durante a guerra Franco-Prussiana. Esses cenários, uma vez repletos de desesperança e dor, agora se desenrolam em minha mente como um pesadelo eterno. Naqueles campos de batalha, os olhares dos moribundos, resignados ao seu destino cruel, eram apenas sombras de um sofrimento interminável.

Aqui, neste lugar desolado, sinto a mesma sensação de derrota avassaladora. Não há nada que inspire ou motive; apenas um vazio absoluto. O ambiente é um eco da minha experiência, uma paisagem desolada onde o ânimo e a esperança parecem ser conceitos estrangeiros, pertencentes a um mundo distante e inalcançável.

Nesta cidade, a ambição pela vida é um resquício remoto do que eu conhecia. O espírito de luta que uma vez me impulsionou agora parece ter sido extinto, substituído por uma desolação fria e implacável. Cada dia aqui é uma lembrança do desespero que experimentei nos campos de batalha, uma contínua crise emocional onde o desejo de viver é uma memória dolorosa e distante.

Uma sensação de um luto constante, o ar parece viciado, angustiante, que nos remete a tormentos passados. Estou aqui há poucas horas e já me sinto quase no mesmo estado emocional que essas pobres criaturas.

As casas de ripas e toras de madeira escura, com seus telhados pontiagudos como garras estendidas ao céu, exalavam uma sensação de decadência eterna. Embora não estivessem se desfazendo, a idade delas era palpável, como uma entidade maligna que se recusava a partir. Musgo verde-escuro rastejava pelas paredes, e ervas retorcidas subiam como dedos ossudos, emprestando um ar de abandono e desespero. A cada sombra lançada pelas casas, o ambiente ficava mais opressivo, como se a própria vila respirasse o medo e o espalhasse pelo ar frio e denso.

Por dentro, o lugar exalava uma estranha e enganosa sensação de aconchego, envolta em suas limitações desconfortáveis. Ervas pendiam na janela ao lado da porta, secando lentamente, emitindo um odor forte e acre que se misturava ao cheiro persistente de fumaça velha e fuligem. A lareira rústica de pedra, marcada por anos de uso, exibia manchas negras de fogo e fuligem, espalhando uma luz trêmula e vacilante pelo ambiente.

Apesar de uma aparente limpeza superficial, havia uma sensação de desordem oculta, como se algo sinistro estivesse apenas aguardando para se revelar. O ar carregava uma mistura de cheiros: carne seca pendurada, ervas em decomposição e um leve aroma de mofo, criando uma atmosfera sufocante e opressiva.

O que mais me perturbou foi a ausência total de símbolos da Igreja Romana. A ausência de qualquer sinal de fé comum na Europa era inquietante, deixando a impressão de que o lugar seguia crenças antigas e esquecidas, talvez até proibidas.

No canto oposto à lareira, uma escadaria estreita e escura subia para o andar superior, envolta em sombras espessas que pareciam pulsar com uma presença invisível. Panelas de pedra e partes de animais penduradas nas paredes completavam a cena macabra, transformando o que poderia ser um refúgio acolhedor em um antro de mistério e terror.

Percebo que um jovem do meio daquelas pessoas no lado externo da casa se aproxima da dela. Seu rosto ainda existe, seu corpo é pequeno, magro, mas não raquítico, suas roupas são tão puídas. Não parece estar com mais de vinte anos, seu rosto expressa ansiedade e lampejos de gato curioso. Os olhos são da cor vermelha, sua respiração libera uma neblina, ou melhor, é mais semelhante a uma suave fumaça, como um fumante, porém, sem cachimbo. Ele caminha rápido e se senta na cadeira na frente da mesa onde me encontro.

— Senhor, como está o mundo fora da vila? — Ele pergunta como uma inocência e sinceridade infantil.

Então uma voz de uma mulher se escutou no mesmo instante que notei seus passos pesados nas escadas. Era vigorosa, aguda, com um suave sibilar ao final das frases.

— Deixe o nosso visitante em paz, Andrei. — Seu tom era como a bronca de uma mãe ou uma mulher mais velha. Olhei fixamente para escada e quando ela surgiu, creio eu que esperava muito que ela fosse mais humana, no entanto, não. Ela tinha os mesmos traços que os demais. — E qual o nome do cavalheiro?

Demorou uns quantos segundo para que meu cérebro voltasse a se comunicar com minha boca.

A imagem daqueles indivíduos fora da casa, tanto quanto, os dois que ali estavam perturbavam minha mente. Seus corpos disformes, os rostos tão perturbadoramente anormais.

A cada instante, meus dedos apertavam com mais força a bainha do meu sabre, como se apenas o contato com a arma pudesse afastar a crescente sensação de pavor. Mesmo percebendo uma aparente tranquilidade na cidade, meu coração batia descompassado, cada pulsação reverberando em meus ouvidos como um tambor de guerra.

O ar parecia carregado de uma presença invisível, uma energia que se enroscava em minha pele como um manto sufocante. Sentia um frio gélido subindo pela espinha, e uma voz sussurrava insidiosamente em minha mente — “Corra”, “Fuja daqui!”.

Os odores ao meu redor eram intensos e perturbadores: o cheiro metálico do medo, misturado com um aroma acre de mofo e decomposição, impregnava minhas narinas, mais do que das ervas ou da carne seca, tornando a respiração difícil e pesada. A luz pálida do dia parecia ser sugada pelas sombras, que se alongavam e se moviam antinaturalmente, como se tivessem vontade própria.

Cada som era amplificado na quietude opressiva: o farfalhar das árvores, o uivo sombrio do vendo soprando, os passos ecoando do lado de fora da casa, e um sussurro distante que parecia vir de todos os lados. Meus sentidos estavam em alerta máximo, cada fibra do meu ser gritava para eu deixar aquele lugar. A cidade, com sua aparente calmaria, exalava uma malevolência silenciosa, uma promessa de perigo iminente que não podia ser ignorada.

— Me chamo, Sargento Anto Stefan Miahi. Oficial e pesquisador vindo de Paris para estudar os documentos que o Conde Drácula tem em sua posse. — Admito que falar com eles fez com que lembranças viessem e revisassem emoções que eu havia pensado ter superado. — E a senhora como se chama? — Perguntei com toda cortesia que me era possível evocar.

— Sou, ou é como resolveram me chamar, Catalina Rusu. Então o jovem mestre Anton, está como convidado do conde? — Aquela senhora expressou o que parecia um sorriso amargo.

Antes que eu pudesse tentar dizer algo, ela retomou.

— Nem todos são aceitos na morada do Drácula… —Soando quase um murmuro, sua voz carregada de suspense. — E menos ainda aos cuidados de Olga Nivïttz, onde segredos sombrios são guardados!

— Quem seria essa Olga Ni… Nivïttz? — Ficou clara a minha completa ignorância quanto aquela pessoa. — Que segredos a senhora se refere?

Todos que estava prestando atenção em nossa conversa do lado de fora da casa se entre olharam com notório espanto e crescente receio.

— Em algum momento conhecerá ela acredite em mim. — Falou o jovem sentado de frente comigo. Com os braços cruzados, olhando para o chão como se estivesse com medo de que a mãe escutará aquelas palavras no como ao lado no meio da noite.

Naquele momento, uma sensação de inquietação tomou conta de mim. Instintivamente, minhas mãos tremiam quando fui olhar meu relógio de bolso, com o emblema da cavalaria gravado. Fiquei paralisado ao ver que os ponteiros estavam imóveis, congelados. Um frio gelado percorreu minha espinha outra vez — será que o relógio havia parado exatamente agora? Isso não fazia sentido. Quando o trouxe de Paris, ele estava funcionando perfeitamente. E, enquanto me preparava, não percebi se havia algo de errado com ele.

A ansiedade apertava meu peito, e eu me vi obrigado a olhar pela janela aberta. O céu lá fora estava inalterado, a lua ainda no mesmo ponto alto que havia visto ao sair do castelo. Mas a pergunta aterrorizante começou a me atormentar: quanto tempo havia passado desde então? A sensação de confusão e a crescente angústia se entrelaçavam, como se o tempo estivesse se esticando e se deformando de uma maneira incompreensível, e eu estivesse preso em um intervalo de terror absoluto.

De Dr. Christopher V. Walker
(Carta para Anton)

De: Dr. Christopher V. Walker
Para: Anton S. Miahi
20 de junho de 1871

Caro colega, sinto não haver podido estar na sua partida de Paris. Mas graças a Marcel nosso bom amigo em comum pude saber para onde enviar meus desejos de sucesso.

Por pouco não o alcancei antes que pisasse na carruagem, mas por questões acadêmicas fiquei retino na universidade de Oxford com umas quantas palestras. E acabei atrasando minha viagem para Paris. Queria haver podido dar um abraço e entregar uns quantos livros para seu divertimento. Devo dizer que fiquei demasiadamente surpreso com o quanto nossos amigos britânicos avançaram em suas pesquisas com referência a mente, ao corpo, e alma humana.

Existe uma revolução intelectual ocorrendo e Paris se perdendo entre baioneta e pólvora. Inacreditável os efeitos que a guerra terá nos anos que viram.

Querido amigo, espero que esta carta chegue o mais rápido possível, desejo ter notícias suas. Aproveitei e junto a ela estou enviando um pacote com livros que consegui em Oxford que espero que te entretenha por algum tempo. Estarei nos arredores do Boulevard Saint-Michel no cortiço de Anne e Morgana.

Do seu estimado Dr. Christopher V. Walker! 
Anton S. Miahi V
(Anotações feitas em Séttimor — II)

24 de junho — Parece que as horas foram passando, o ar de tensão que senti ao chegar foi suavizado, porém não desapareceu. Ainda me mantenho com os sentidos em alerta, o corpo parece enrijecido, os músculos doem, sinto dormência na mão que está segurando a bainha do sabre. Apesar de sensação de tempo avançar, a lua seguia em seu firmamento, admirando do alto todo o antinatural cenário que se desvelou ao meu redor.

A Catalina, a senhora que me abriu as portas da sua casa, foi até as ervas na janela e pegou um pote pequeno de argila, com um couro de animal amarrado, tomou um tempo escolhendo alguma coisa dentro dele. Ela retira de dentro o que parecia serem casca de romã desidratada, ela devolve o invólucro ao seu lugar e caminha em direção da lareira que está acessa. A senhora retira uma haste de ferro longa que numa ponta é em formato de L que ela encaixa em duas argolas que estão uma em cima da outra, presas na pedra na borda da lareira. Enquanto na outra é um gancho quadrado, nesta ponta ela coloca uma velha chaleira que estava sobre uma mesinha e que ela havia cheio de água do balde que estava ao lado da lareira, muito bem escondido. A dona da casa faz tudo com cuidado, coloca no recipiente cheio d’água e logo o leva ao fogo.

Catalina rompe o silêncio.

— Cada um de nós “nasceu” na vila, e ao adentrar ao paradoxo, começamos nossa jornada. — Começou ela a contar com um tom professoral que Anton já conhecia bem, pois ele mesmo usava. — Aqui, estamos presos no paradoxo. Você deve entender as sete mortes que nos conduziram até este destino.

Ela fez uma pausa e seu rosto disforme parecia assumir um pesar muito incomum.

Segundo ela, cada um de deles estava condenado a passar por sete mortes, um ciclo implacável que começava no momento em que nasciam na vila. “Nosso nascimento aqui sela nosso destino,” disse ela, seus olhos vazios refletindo a luz da lareira. “Não há escapatória.”

A primeira morte, adentrar ao paradoxo, marcava nosso nascimento. Desde o início, estávamos presos, uma sensação sufocante de predestinação que nos envolvia como um manto frio. Sentíamos o paradoxo durante a infância, uma presença constante e opressiva, como sombras que espreitavam ao nosso redor. “Quando crianças, sentimos algo errado,” ela sussurrava, “uma presença constante, sufocante.”

À medida que avançávamos para a pré-adolescência, percebíamos o paradoxo de forma mais aguda. Os rostos ao nosso redor começavam a se desvanecer, a realidade se distorcia, tornando-se uma pintura borrada de horror. “Na pré-adolescência, começamos a perceber a distorção da realidade,” explicou ela. “Os rostos que se desvanecem.”

Na adolescência, as perguntas surgiam, mas nunca encontrávamos respostas. “Adolescentes, começamos a questionar o que é real,” disse ela, a voz carregada de um desespero silencioso. “Nossas perguntas nunca encontram respostas.” A cada questionamento, a escuridão ao nosso redor se aprofundava, como se a própria vila se alimentasse de nossa dúvida e confusão.

Quando chegávamos à vida adulta, a compreensão do paradoxo nos envolvia como uma teia de escuridão. “Adultos, compreendemos que estamos presos em uma teia de escuridão, nossos destinos já traçados.” A sensação de estar aprisionado se tornava insuportável, cada dia uma luta contra uma força invisível e inescapável.

Na velhice, o desejo de se entregar ao paradoxo crescia, uma rendição silenciosa e inevitável. “Na velhice, o desejo de entregar-se ao paradoxo cresce,” ela dizia com uma voz quase inaudível. “A resistência é inútil.” A resignação se infiltrava em nossos ossos, e qualquer vestígio de esperança desaparecia como um sopro na escuridão.

Um som estrondoso reverberou pelo ar, ecoando como um trovão ancestral. Os moradores, como que em um transe silencioso, começaram a olhar ao redor. O vento aumentou de intensidade, chicoteando as árvores ao redor com uma fúria repentina, enquanto luzes de cores vibrantes começavam a dançar no céu, pintando um espetáculo etéreo acima de nós. O mais surpreendente era a ausência de espanto nos rostos dos habitantes; eles apenas voltaram seus olhares para a entrada da cidade com uma calma quase reverente.

Senti uma curiosidade irresistível e saí para me juntar a eles. Ao olhar na mesma direção, notei uma névoa espessa começando a se formar do lado de fora dos portões da cidade. As runas antigas gravadas nos umbrais começaram a brilhar com uma luz azul misteriosa, emitindo faíscas como se estivessem carregadas de uma energia arcana.

A névoa se ergueu em um redemoinho, girando cada vez mais rápido, formando uma coluna luminosa. Uma luz cegante emanou do centro do vórtice, forçando-me a proteger os olhos com o braço esquerdo. O mundo ao meu redor desapareceu momentaneamente na intensidade da luminosidade.

Então, tão repentinamente quanto começou, tudo cessou. O vento acalmou, as luzes desapareceram e a energia que impregnava o ar dissipou-se, deixando apenas o eco distante do fenômeno. O que restou, em meio ao nevoeiro remanescente, foi uma silhueta. Parecia uma forma humana, imóvel, na parte interna do portão.

A névoa se dissipou lentamente, revelando uma figura enigmática. Vestia roupas rasgadas, sujas e puídas que pareciam feito de sombras, as bordas tremeluzindo com uma luz suave que lembrava estrelas distantes. Seus olhos eram escuros e fundos com um vermelho profundo.

Os moradores, como que movidos por uma força invisível, correram em direção ao novo visitante. Seus rostos mostravam uma mistura de expectativa e aceitação, como se esperassem por esse momento. A figura misteriosa permaneceu imóvel, observando tudo com uma calma serena, emanando uma presença que parecia, ao mesmo tempo, inocente e perdida.

Eu, paralisado pela cena impressionante, sentia uma mistura de ansiedade e fascínio. A cidade de Séttimor, já envolta em mistérios e segredos, revelava agora mais uma camada de seu enigma. A chegada desse ser, envolto em magia e luzes sobrenaturais, marcava o início de algo profundo e transformador, um evento que todos, mais que eles eu, sentiríamos em nossas almas.

Presenciei algo que não podia explicar, quero dizer, já não consegui quanto aos moradores que já estava vendo, agora com este novo evento me vi desprovido de argumentos, não havia nada em que eu pudesse me lastrear. Minhas pernas bambearam. Apenas cai no chão sem ter o que pensar.

Os moradores vieram em festa pelo novo membro daquele pequeno vilarejo. Aquilo era o nascimento? Era daquilo que a velha Catalina falava? Eles vinham assim para este mundo?

— Vamos jovem Anton, levante-se, hoje temos o que comemorar! — Falou a Catalina da porta de sua casa. — O novo nascido e a chegada de um estrangeiro. Hoje é um bom dia — Disse ela com uma suave e doce. Seu rosto expressou um sorriso, ou parecia ser.

Momentos, ou horas, mais tarde — Voltei para dentro da casa de Catalina e conversei com ela sobre a história da cidade e de seu tempo naquele lugar, enquanto isso observava pela janela a corrida que se fazia para preparar um grande banquete, os homens e jovens carregando madeira, os bancos de madeira, a levar algumas mesas, todos eram bem-organizados. A fogueira no centro da cidade, e para as pequenas espalhadas ao redor dessa, eles as alimentavam para que colocasse as carnes para assar. As mulheres se apressaram em levar os pedaços de carne para a praça, ervas também eram carregadas, óleos e outras coisas.

Catalina veio até mim com uma caneca de metal batido.

— Acho que ainda não comeu, é bom que pelo menos com esse chá aguentará um pouco mais até que tudo esteja pronto. — Ela me entregou a caneca com cuidado, sua presença, apesar da aparência, era acolhedora.

O chá feito de casca de romã, admito, não era meu favorito entre os tipos, mas o cheiro era agradável e parecia que ela havia agregado no preparo, mel. Sorvi um pouco do líquido quente e seu sabor era suave, refrescante e na doçura adequada. Uma coisa que notei era que o ar frio que sentia fora da cidade era muito menor dentro dela. Como se o clima fosse menos agressor aqui, no interior dos muros de Séttimor, do que fora.

Quando me dei conta, eles já tinham terminado de montar tudo. Deixei a caneca sobre a mesa e fui até a porta para observar melhor aquela festa que estava começando. Estranhamente, o tempo neste lugar era algo estranho, eu não sentia sua passagem, e para ser sincero, desde que cheguei no Castelo isso não me incomodava de verdade. Agora que penso dormir, não dormir, parecia não dar diferença.

Eles tinham tambores e tamborins, alguns carregavam instrumentos de cordas. Um começou a tocar o com as mãos nuas. As batidas dos tambores ressoavam no ar com uma força hipnotizante, cada golpe profundo e reverberante ecoando como o coração pulsante da terra. Os ritmos, inicialmente lentos e graves, criavam uma tensão quase palpável, como se o próprio ar estivesse carregado de eletricidade. Era algo que eu nunca escutei, não eram as músicas dos bailes, era algo mais primitivo, selvagem.

A cada batida sentia o coração pulsar, então notei que alguns pareciam se submeter as batidas a melodia. Começavam a se reunir ao redor da fogueira principal, as jovens almas ali presentes moviam seus corpos com suavidade, delicadeza e sensualidade. Cada mover dos quadris, a ondulação era um poema de elegância e sensualidade, fluindo suavemente como um rio que conhece bem seu curso. Com um sutil balançar, elas evocavam a cadência de uma melodia antiga, um ritmo que falava de mistérios e histórias esquecidas.

Os quadris das dançarinas eram a expressão máxima de seu controle e liberdade. Suas mãos no alto com movimentos sutis, delicados reverenciando os céus. Um convite ao desejo, ao sonho. O mergulhar na loucura. Em cada movimento, havia uma mensagem silenciosa de confiança e poder, uma demonstração de que a beleza reside nos detalhes e na capacidade de contar uma história sem palavras. E assim, com cada balanço e ondulação, ela cativava e encantava, transformando a dança em uma experiência verdadeiramente mágica.

Os dançarinos homens avançavam com passos firmes e decididos, emanando uma energia viril que preenchia o espaço ao seu redor. Seus movimentos eram poderosos e precisos, cada gesto carregado de força e propósito, como se estivessem desenhando a história de seu povo no ar.

Os pés batiam no chão com uma cadência rítmica, ecoando como tambores de guerra. Os corpos musculosos se arqueavam e giravam com uma agilidade impressionante, combinando resistência física com uma elegância rústica. As pernas, fortes e bem treinadas, marcavam o ritmo com uma precisão quase militar, transmitindo uma sensação de disciplina e coragem.

À medida que os tambores aceleravam, suas batidas transformavam-se em uma cascata de som, cada toque provocando um arrepio na pele. Era uma música que não apenas se ouvia, mas se sentia, reverberando nas profundezas do corpo e da alma. Cada batida era como um feitiço lançado, evocando imagens ancestrais e rituais sagrados sob um céu estrelado.

O som dos tambores parecia invocar espíritos antigos, suas vibrações impregnadas de uma magia antiga e poderosa. Havia algo de sedutor na maneira como os ritmos se entrelaçavam, um convite irresistível para se perder no mistério e na paixão da música. As batidas fortes eram como sussurros carregados de segredos, prometendo revelações ao mesmo tempo, tentadoras e assustadoras.

Nesse momento me vi sendo atraído para dentro daquela dança, eu senti ela me chamar, uma voz na escuridão, insistente e incansável. Algo familiar em minha mente.

E então, uma voz de barítono se ergueu acima do ritmo, recitando uma poesia encantadora na melodia que estava sendo tocada, fazendo uma harmonia sombria.

Do mais profundo emergiu, das trevas,
Uma melodia entoada com requinte,
Jamais ouvindo algum escutou algo tão grandioso,
Um delicado convite, um encanto irresistível. 

A composição envolvia, tão sedutora,
Ansiava por ela, com fervor, mergulhar na sandice,
Do longínquo, uma voz ressoava,
Epopeia dos perdidos a me seduzir. 

Contorcia-se como serpente encantada,
Atraindo-me como um sortilégio sutil,
No compasso dos seus pés, passos enganosos,
Tal qual fogo-fátuo sobre o campo febril. 

Nos alcançava os ouvidos, sinistro e encantado,
Essa enigmática melodia, vida do etéreo,
E assim, imerso em seu mistério profundo,
Para além da vastidão do oculto, em Séttimor o silêncio tumular.

Eu estava completamente imerso em uma experiência sensorial, cada batida da música ressoando em meu peito com uma intensidade quase palpável. As letras penetravam tão fundo na minha alma, rompendo as barreiras e despertando emoções que eu nem sabia que poderiam existir. A música era uma tempestade arrebatadora, e eu me deixava levar por cada acorde, cada nota vibrante.

Então, alguém me entregou uma caneca de cerveja. Seu aspecto era inusitado, quase misterioso, e um aroma robusto e cativante logo se espalhou pelo ar. O cheiro era uma promessa sedutora: malte torrado com profundidade de café fresco e um toque de caramelo queimado. Era como se a cerveja estivesse murmurando segredos antigos, convidando-me a explorar seus encantos.

Ao tocar os lábios, a textura da cerveja preta se revelou um deleite. A espuma, espessa e da cor de um café encorpado, derretia lentamente em uma sensação macia e aveludada. Era como ser acariciado por uma nuvem de creme, a suavidade envolvente proporcionando um contraste delicioso com a intensidade da música que ainda pulsava em meu coração.

E então veio o sabor, uma explosão de complexidade que me envolveu completamente. As notas iniciais de malte torrado se desdobravam no paladar, revelando ricos sabores de café expresso e cacau amargo, cada gole era uma viagem profunda e prazerosa. O caramelo surgia para suavizar o amargor, criando um equilíbrio perfeito, enquanto nuances de baunilha e toffee acrescentavam uma doçura sofisticada e uma profundidade sedutora. Cada gole era uma descoberta, uma mistura mágica de sabores que dançavam na minha boca, prolongando o prazer e deixando um final caloroso e envolvente.

A combinação daquela música intensa e a cerveja preta, com sua textura aveludada e sabor multifacetado, era um convite ao prazer absoluto. Eu estava completamente cativado, mergulhado em uma experiência sensorial que tocava todos os sentidos e me deixava ansioso pelo próximo gole, pelo próximo acorde, pela próxima emoção que me esperava.

Ali estava eu seguindo o ritmo, acompanhando os homens, dançando com eles. Sim, me vi eufórico, dançando como um adolescente. Sorrindo e saltando, acompanhando os homens ao redor da fogueira.

Meus olhos pareciam estar falhando, ou era a desidratação de tanto dançar com o povo da vila, ou a cerveja que já me tomava por completo, mas vi a sombra de outra pessoa emergir do nada. No entanto, não parecia ser um morador de Séttimor, parecia um espírito invocado por aquela música. Sim, miragens, tinha que ser. Uma volta mais ao redor da fogueira e então a silhueta de uma mulher se formou atrás das pessoas. Parei de dançar por um instante, e passei a observar melhor aquela sombra que gradualmente foi ganhando detalhes.

Ela parecia não estar ali, ninguém mais a estava vendo? Ou será que não estavam dando atenção? Será que todos já beberam demais?

Seu rosto lentamente revelava uma pele morena agraciada pela noite, lábios carnudos e charmosos, olhos delineados, um nariz pequeno e belo. Seus cabelos eram longos e escuros, ondulados da raiz até onde eu podia ver. Não parecia ser alta, aparentava ser esguia e suas roupas não eram como a dos locais e menos ainda dos romenos ou francês, o que me indicava que ela vinha de um lugar que desconhecia. Ela começa a se mover, ao que parecia ela ouvia a música que estava sendo tocada. Mas, ela em si parecia uma miragem, sua imagem ondulava.

Os movimentos dela eram, ao mesmo tempo, delicados e vigorosos, uma combinação de força e sutileza que fascinava o olhar. Quando ela girava os quadris, era como se o mundo ao seu redor desacelerasse, fixando toda a atenção na harmonia dos seus gestos. A cada passo, uma promessa; a cada giro, um segredo revelado.

Suas mãos se moviam com uma fluidez quase etérea, traçando padrões invisíveis no ar que pareciam desafiar as leis naturais. Seu corpo, livre das amarras do mundo material, dançava como se flutuasse sobre as ondas da música que preenchia o ambiente.

Em um instante, pude vê-la em toda a sua magnificência. Vestia uma saia leve que cobria seus ombros. Ela balançava com cada movimento, pendendo até pouco abaixo dos joelhos, revelando um jogo de luz e sombra sobre sua pele. Braceletes de metal adornavam seus braços, cintilando a cada gesto com uma aura de mistério e magia. Seus pés estavam calçados com sandálias finas, que acariciavam o chão em passos suaves e ritmados.

A dança tribal que ela executava era um espetáculo de graça e destreza. Seus movimentos eram uma fusão hipnótica de ondulações e giros, cada curva e contorção um testemunho de um domínio profundo sobre seu corpo e a música. Com cada balanço dos quadris e cada rotação sutil, ela exibia uma feminilidade e uma jovialidade que parecia transcender o tempo e o espaço.

Enquanto a música inundava o ambiente com suas notas pulsantes, ela se destacava como uma visão encantada em meio aos habitantes de Séttimor. A dança a envolvia em um manto de brilho etéreo, mas a presença dos moradores muitas vezes atravessava sua imagem, deixando-a momentaneamente desfocada, como um sonho fugaz.

Eu a observava hipnotizado, imerso na magia da melodia e na intensidade de seus movimentos. Ela parecia uma entidade de outro mundo, suas danças evocando um mistério profundo e sedutor que me mantinha cativo. A cada passo, a cada gesto, ela me arrastava mais fundo na espiral de sua dança encantadora, enquanto o som da música envolvia cada canto da cidade, criando um ambiente onde a realidade e o sonho se entrelaçavam em perfeita harmonia.

Um estrondoso som foi escutado, a melodia cessou, todos pararam para observar atentamente ao redor. Nuvens negras se formaram no alto das montanhas, relâmpagos desabaram sobre a terra, linhas luminosas corriam os céus.

Então me dei conta de que fiquei em Séttimor por tempo demais. Eu precisava voltar o baile do conde. Mas sendo sincero, quanto tempo fiquei aqui nessa cidade? Já não sei dizer se foram realmente horas. Comecei a andar em direção do portão da cidade até que alguém segurou meu braço.

— Melhor o senhor não sair agora. A floresta entre o castelo e nosso povoado oculta segredos mortais. E o senhor como visitante pode acabar sendo uma triste vítima. — Era o jovem que veio falar comigo quando cheguei. Sua expressão é de terror. Ele, ou eles, sabiam de algo.

— Quem é você?  Do que está falando? — Questionei ele com uma cara de poucos amigos.

— Aqui me chamaram de Ioan. Estou na minha quinta morte, senhor Anton, eu não cheguei aqui ontem. — Sua voz era firme e severa, mas transmitia segurança. — Confie em mim.

Não podia evitar aceitar seu pedido. Inesperadamente um som alto que começou de maneira grave e foi ficando agudo surgiu. A princípio era como o sopro do vento em meio uma tempestade, mas esse era diferente, foi quando me dei conta que era um uivo de lobo. De apenas um viraram dez em tons diferentes. Olhei para o Ioan, então percebi que não era um aviso e um pedido tolo.

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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Diário de Anto Stefan Miahi (Part III)

Caros colegas, Envio este memorando para compartilhar um breve parecer sobre minha investigação no Castelo Drácula, em Bram. O Conde…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Memorando para a Universidade de Paris

(De Anton Stefan Miahi)
22 de junho de 1871 
Para: Meus pares da Universidade de Paris 
De: Anton S. Miahi  
Assunto: Investigação no Castelo Drácula, em Bram.

Caros colegas,

Envio este memorando para compartilhar um breve parecer sobre minha investigação no Castelo Drácula, em Bram. O Conde, senhor destas terras, possui uma vasta biblioteca dividida em dois setores. Infelizmente, até o momento, pude averiguar apenas um deles. Contudo, posso afirmar com certeza que este nobre local detém livros surpreendentes, alguns dos quais acredito serem de grande relevância para os departamentos de teologia e sociologia da nossa universidade.

Ao longo de sua vida, o Conde acumulou livros de diversos lugares, incluindo o Império Otomano e o Império Russo. Isso realmente me surpreendeu, pois, academicamente, temos enfrentado grandes dificuldades para adquirir conhecimento intelectual de regiões tão distantes. 

O Castelo em si é um verdadeiro tesouro de registros documentais de períodos antigos e modernos. Notei a presença de obras de arte que datam de dois a três séculos atrás. O Professor Doutor Rafael, do departamento de arte, teria um imenso prazer em explorar tantas peças com ricos símbolos e histórias.

Desde já, afirmo que minha viagem a este lugar remoto não está sendo uma perda de tempo, como inicialmente pensei. No entanto, ainda há muito a ser investigado, pois o Castelo é imenso e possui muitos ambientes a serem verificados.

Agradeço aos amigos da academia pelo apoio. Anseio poder enviar mais detalhes sobre as descobertas nestas terras da Transilvânia.

Atenciosamente,
Anton Stefan Miahi

~’’~

De Marcel Durand Laurent

(Carta datilografada para Anton)
De: Marcel D. Laurent 
Para: Anton S. Miahi
23 de junho de 1871

Bom dia, meu amigo e irmão Anton!

Como tem passado nestes últimos tempos? Fui surpreendido pelo carteiro ainda nesta manhã com sua primeira carta, além das cobranças do governo quanto ao dinheiro de nós, meros mortais.

Não sei o quão alegre se tornou minha manhã ao poder abrir sua carta e ler as novas de sua empreitada, meu amigo. A todos nós nos surpreendeu sua mudança de opinião quanto a essa viagem. Inclusive, sua irmã e mãe decidiram sair de Sevilha para rumar para Paris e centralizar suas cartas. Elas chegaram há alguns dias com minha esposa na estação, pois infelizmente não tiveram tempo hábil para te alcançar e se despedirem. Alojamo-las  em uma boa casa, três casas para baixo da minha. O dono é um homem protestante, um britânico, mas às vezes parece ser como eu um bom católico; sua esposa ajudará ambas a se adequarem aqui na capital do mundo. Espero que elas nunca me ouçam dizer estas palavras, já que, pelo que notei, elas, como boas católicas e fiéis ao Papa, amam seu monarca. Quase são tão radicais e cabeças-duras quanto os jacobinos no nosso parlamento e nas ruas.

Pelo que li em sua carta, o lugar, apesar de admirável, é imerso em uma aura mística, como as narradas pelos imigrantes da Europa Central. Aquelas bruxas vindas do meio do nada do nosso velho continente sabem como contar histórias sombrias sobre essas terras natais, mas o que chama a atenção é seu relato, que quase se assemelha ao das velhas ciganas dos bairros afastados da nossa amada cidade.

Mediante a possibilidade, mantenha a calma diante do que lhe aflige emocionalmente. Para quem pode sobreviver aos campos de batalha, creio que uma perturbação ou outra seja apenas consequência. Mas, tendo em vista o homem que é, dotado da experiência e ceticismo de quem provou da dor e da ciência, não se permitirá perder a razão.

Busque dar objetivos aos seus pensamentos, meu amigo, e trazer à Universidade de Paris boas novas que lhe trarão orgulho. Ademais, quando regressar, o que espero que seja o mais breve possível, poderá reencontrar sua mãe Louise e sua irmã Jade.

Assim sendo, espero ter novas notícias suas, já que estas entregarei eu mesmo à sua família! Novamente digo que me sinto feliz e espantado pela tua decisão de viajar. Creio que a mudança de ares poderá te proporcionar um bom renovo.

De seu irmão de trincheiras,  
Maurice.

~’’~

Anto Stefan Miahi III

(Anotações em meu diário)

25 de junho de 1871 — Depois de muito procurar encontrei meu fiel amigo que trouxe de Paris, meu diário. Agreguei a ele as folhas que usei para fazer minhas anotações anteriores.

Antes que eu possa comentar algo mais, quero registrar aqui eventos sociais dos quais pude ser partícipe e que a mim foram inequívocos fatos que me fogem aos parâmetros do natural e racional do presente século.

Me faz lembrar o que Descartes diria neste presente momento; O bom senso é a coisa do mundo melhor partilhada. Me vejo como um solitário e louco dentro deste castelo. Por dados momentos tive a triste sensação de retornar à guerra e seus horrores, no entanto, aqui estou, à salvo num castelo, mas tais pensamentos que proporcionam o suplício da mente inquieta meu sono e perturbam minha paz na consciência. Onde poderia eu casar a meditação de Descartes neste instante que parece querer romper as ideias e destroçar meu coração?

Bem, antes que meus pensamentos se percam na filosofia, mas é inevitável não recorrer ao pensador Rene, novamente, ao me ver dentro deste quarto quando ele diz algo como: “Frequentemente, as ideias que inicialmente me pareciam verossímeis revelaram-se enganosas ao serem transcritas para o papel.”, estendo para além delas mergulhando nessas palavras. E quando intenciono me confessar ao papel crendo ser mentira e vejo que revelo o que é verdadeiro nesta folha tão pura que agora se mancha com meus pensamentos?

Outra vez já estou divagando e quero ir direto aos fatos, aos eventos.

Na noite, eu acho, de 22 de junho, fui notificado de um evento social no castelo que deveria ocorrer na noite do dia 24 de junho

Desde que cheguei, basicamente, tenho buscado me adaptar aos horários do conde, a quem devo admitir ter costumes de uma tesura inimaginável. Passo a confundir noite e dia, já que passamos as noites conversando sobre as obras, as teorias, a aristocracia, as políticas, e os pensadores. E tem sido muito profícuo nossos debates noturnos, pois me tem permitido exercitar minha experiência acadêmica, e não posso deixar de dizer o quão impressionante é o conhecimento do Conde, ele demonstra uma ampla vivência intelectual e dentro da alta sociedade que poucos homens de sua posição parecem apreciar.

Naquela noite em que ele me notificava que havia enviado convites para um evento social da alta sociedade local, tivemos uma conversa bastante incomum.

— Caro Anton, me vejo curioso sobre como anda Paris mesmo com estes tempos tão turbulentos. — Sua voz era calma e denotava claro interesse quanto ao tema. 

E havíamos debatido sobre a tragédia do pensamento literário que a Rússia produzia em conflito da produção prussiana que denotava racionalismo, da francesa que buscava a liberdade da sociedade, da tirania dos poderes divinos do rei sem se desvincular da Igreja Apostólica Romana. 

“São a força e a liberdade que fazem os homens virtuosos. A fraqueza e a escravidão nunca fizeram nada além de pessoas más.”, Rousseau afirmou isso, e não posso discordar. Após a guerra promovida por Napoleão iniciar sua campanha, pudemos talvez ver melhor a própria França, as forças da aristocracia divina ruir ante nossos olhos. — Meu pensamento parecia ter soado distante e talvez apático, já que acabei sendo transportado para um lugar que lutava não voltar. — Creio que me fiz soar algo desconexo, Conde. No entanto, após a guerra chegar ao fim, distante da graça do Papa, com o escárnio da Prússia em nossa face, e estes sendo mantidos por aqueles maçons contra a sacrossanta igreja. Não duvido que também os judeus por detrás das cortinas políticas, às escondidas, não estivessem fazendo seu jogo contra o império, como dizem as más línguas. Meu sentimento em responder é de penúria. 

Por um curto tempo se fez um silêncio e o conde apenas parou, observando a minha pessoa. O mais incomum era que ficava óbvio essa sensação de observação, e isso me impelir a ter que seguir com a minha resposta. 

— Quando retornamos, Paris estava em conflagração interna, a aristocracia perdia seu lugar, o parlamento ganhava mais espaço, e Napoleão que caiu nas mãos inimigas vergonhosamente. O Estado do presidente imperador já não existiria mais. — Admito que após os horrores da guerra, voltar e ver uma revolução nos jardins do palácio de Versalhes foi pouco surpreendente pelas notícias que recebíamos de casa por parte dos nossos oficiais. — Creio que em meu rosto deve ter sido criado algum sinal ou expressão de antipatia quanto aos fatos tratados.

— “A missão suprema do homem é saber o que precisa para ser homem.”, posso estar enganado quanto a fonte, mas foi Kant que disse algo assim, e não estava de todo errado em afirmar isso ao pensar em suas luzes de racionalidade alemã. — A fala do conde denotou uma precisão cirúrgica num mar de calma e empatia. — Mas, como, em contrapartida, o saber é a chave da liberdade, creio que foi Robespierre que afirmou algo assim; “O segredo da liberdade é de educar os homens, assim como o da tirania é conservá-los na ignorância.’” Ao nos apoderarmos do saber nos expomos ao tormento do entendimento, diante da escolha de lutar contra ignorância, mas o que não podemos negar são os poderes que guiam este mundo; a cobiça, o poder e a tirania.

As palavras do conde foram como um soco bem-posicionado em meu estômago. Era inadmissível a alguém que se deu o trabalho de afundar-se nos livros, numa jornada pelo conhecimento, se permitir esquecer do fundamental da erudição que é a propagação do próprio saber. A guerra produzida pelos tiranos da Prússia e da França custaram almas humanas, um sangue que regou os campos de batalha sem haver razão.

Após uma hora mais de conversa, o conde decidiu se recolher às suas habitações em algum lugar do castelo. Em seguida me recolhi para meu quarto. Subi aquelas escadas em pedra e madeira observando lentamente os quadros e tapeçarias expostos. Ao chegar já fui abrindo a porta e entrando. A luz que estava no corredor invadiu o ambiente e pude notar sobre a mesa uma carta. Prontamente fui abrindo e nela continha um convite formoso.

23 de junho Durante o dia e parte da noite deste dia não tive a companhia do conde durante o seu período habitual. Passado uma boa parte da madruga registrando os livros da parte da biblioteca do lado da porta pequena que ficava ao fundo da sala. Devo admitir que a curiosidade de quando aquela porta passou a aumentar, mas venho resistindo a investigá-la. Algo nela desperta minha atenção.

Seu servo, Narcís, por umas quantas vezes veio ver como eu estava passando e se eu necessitava de algo. Por umas três vezes ele conseguiu me surpreender, dando-me um grande susto já que estava completamente absorvido por minhas investigações. Mas devo dizer que ele tem passos incrivelmente silenciosos. Ele, em sua última visita, aproveitou para me avisar.

— Sr. Anton, o evento de amanhã ocorrerá a partir das  21h. Creio que os convidados irão comparecer cerca das 20h. Alguns deles tem uma pontualidade surpreendentemente similar à de um relógio suíço. — Sua postura era sempre extremamente séria, mesmo quando se tratava de coisas triviais como trazer o chá.

24 de junho — Após ter me recolhido mais cedo no dia anterior para poder ter energia suficiente para a reunião que o conde havia criado. Confesso ter ficado surpreso que ele, com hábitos tão únicos, tivesse interesse por este tipo de reunião. Um baile com máscaras. Por infelicidade não tinha as peças de roupas que combinassem com o solicitado no convite, mas o espantoso era que o conde havia se antecipado quanto a este que, a meu ver, lhe era completamente alheio, desconhecido.

Os tons eram carmesim e dourado, os detalhes eram finos, elegantes, fazendo jus às peças feitas para a nobreza. Mas para meu assombro, ao me vestir, que surpresa, as roupas estavam perfeitamente encaixadas. Nada folgava ou faltava, estava na medida perfeita. Me sobraram apenas as perguntas: “Como ele saberia as minhas medidas? Em que momento ele conseguiu saber quais eram elas?”. Creio que isso se somaria às demais coisas estranhas que tenho que tentar obter as respostas neste lugar.

Na justa hora do baile — Narcís, preparou um bom banho quente de tina, pude aproveitar bem este momento, ele aproveitou e me trouxe sais e pétalas de rosas, que segundo ele eram para suavizar minha pele queimada de sol. Como afirmei em outro momento, luxos para um militar eram ter um lugar para dormir, comida não mofada, e um rio gelado para refrescar, e muitas vezes nos vimos privados dessas coisas.

Após o banho com auxílio de Narcís que fez questão de ajudar-me a vestir aquelas roupas tão finamente produzidas. Calça, camisa, um sobretudo, um laço e, por fim, a máscara que, segundo o mordomo, era obrigatório.

O servo do conde me conduziu para outra parte do castelo, após terminar com retoques na roupa. Normalmente, assim que saía do meu quarto, tomava o caminho da direita e alcançava a escada que me levava direto para o salão onde eventualmente eu comia, a biblioteca e a entrada principal. Contudo, desta vez, fomos rumo ao lado oposto. O corredor era reto e terminava numa escada em L, e depois por outro corredor reto, diferente do que normalmente eu via lá atrás, nestes não havia quadros ou tapeçarias. Tinha apenas candelabros de bronze, uns quantos quartos que estavam fechados, e pouca mobília até que chegamos numa nova escadaria agora circular que levamos uns quantos minutos para descer, pronto uma luz amarelada e forte surgiu ao fundo da escadaria, estávamos estreando uma nova ala que eu não conhecia. 

Assim que a luz ficou mais forte, uma porta se revelou, dela um salão belamente decorado, várias fitas nas mesmas cores que da minha roupa. O teto tinha um pé direito alto, poucas janelas, essas com vitrais com cores tão ímpares, escuros que pareciam perfeitos para impedir a luz crua do sol, dando uma iluminação muito peculiar de colorações singulares, um jogo de cores e sombras dançantes. Velas, lamparinas a óleo e uma lareira de um metro e meio de largura e quase dois metros de altura ajudavam a iluminar o local, além de aquecer. 

Claro que, à princípio, não considerei verdadeiras as afirmações do mordomo da pontualidade da nobreza local, mas me deparei com muitos convidados já no ambiente. Os músicos estavam posicionados. Supus que ali se encontravam pelo menos cento e cinquenta pessoas, mas aquele salão suportaria seguramente uma quantidade maior de pessoas. Terminei de descer as escadas, olhei ao redor e vi mesas de madeira rústica nas laterais cobrindo parte considerável do espaço. De onde eu estava para o meio e o lado oposto estava completamente aberto e se podia ver uma grande porta dupla de madeira por onde alguns dos convidados entravam e saíam

Drácula entrou por uma porta disposta no lado esquerdo, ele se posicionou ao lado da banda que era um lugar elevado e cabia com folga oito músicos, o regente e ele sem ter que disputar espaço.

Ele faz um breve discurso e inicia a festividade, que sou claro em afirmar não saber sua razão ou a que se atribuía. Minha completa ignorância poderia proporcionar uma cena constrangedora.

Vejo o conde caminhar em minha direção e esticar seu braço direito até sua mão tocar meu ombro.

— Anton, hoje o senhor poderá descansar dos seus estudos e pesquisas. Minha intenção é proporcionar ao amigo umas quantas horas do desfrutar das vantagens da nobreza e descansar. — Era inegável o tom amistoso e a expressão empática que ele transmitia. Ele era o único sem máscaras até aquele momento. Drácula sorria no melhor de quem sabe ser político e aristocrático. — Dance, coma, cante, converse e seja feliz meu amigo.

Assim que ele terminou de dizer essas palavras, ele colocou a máscara, e pude perceber novamente aquela estranha aura no olhar que nas minhas memórias pensei ter visto. Tornar a ver nada mais que confirmava as minhas lembranças, não havia sido um engano.

Trouxeram-me uma bela taça de um vinho que, quando provei da taça de vinho tinto amadeirado, senti o aroma robusto que emanava das notas de carvalho e baunilha. Ao primeiro gole, os elementos frutados de ameixa e cereja dançaram em seu paladar, conferindo um toque suculento à bebida. A leve acidez cortava a doçura, criando um equilíbrio refrescante que tornava a experiência ainda mais sofisticada. A melodia melancólica do piano ressoava pelo salão, enquanto as sombras das figuras elegantes se entrelaçavam em um ritmo lento e hipnotizante.

Em alguns momentos me detive em perceber sombras incomuns dançando ao meu redor, seus olhares eram etéreos. Parei para observar tal fenômeno, mas estas pessoas surgiam e tão logo desapareciam, era uma sensação atordoante. Uma estranha sensação de perigo surgia em mim. Algo naquelas pessoas passou a me incomodar, seus olhares tinham um efeito similar do conde, me sentia uma presa diante de seus predadores, mas agora era em todas as direções.

Até que, perto da porta, notei cabelos pretos ondulados e a pele branca quase igual ao marfim. O ar parecia saturado, sentia minha visão ficando levemente turva, até que levei a mão aos olhos, e decidi que deveria sair daquele lugar. A música já começava a me soar hipnótica, acentuando ainda mais a sensação opressiva.

Decidi então que deveria tomar um ar, sair para o exterior. Rumei para a porta, mas por alguma razão sentia que a distância até ela estava demais e que era uma luta do meu corpo com uma massa invisível que queria me atrair para o centro do baile, mas meus instintos diziam para lutar contra.  Com algum esforço consegui alcançar a porta e, ao abri-la, uma brisa fria passou — o que me fez sentir como se despertasse de algum tipo de sonho acordado.

No exterior, um pequeno pátio com um corredor para a esquerda que parecia conduzir a um lance de escadas. Uns poucos metros à frente, um beiral de pedra até quase a altura da cintura com uma vista magistral das montanhas nevadas e um vale com uma floresta de abeto-branco.

Um som vindo da escadaria me chamou a atenção que me fez ir em sua direção.

Quando me aproximei, notei que ela era uma longa escadaria correndo pela lateral do castelo até a base da montanha onde a casa do conde estava construída, culminando no início da floresta, olhei um pouco mais à frente e pude ver se destacar uma série de pequenas colunas de fumaça.

Em minha mente, as opções seriam voltar para a festa e voltar àquele mar de sensações embriagantes ou me aventurar nos arredores do castelo. Para mim a escolha era simples, qualquer lugar seria mais interessante que aquele oceano de emoções e alerta de perigo que não sei indicar a razão.

— Melhor aqui neste frio, com árvores, uma estranha e as montanhas. — após ter dito isso em voz alta, apenas me restou rir.

Comecei a minha jornada de uns vários minutos pela escadaria que serpenteava pela encosta da montanha do castelo Drácula. A descida foi monótona a um certo passo, mas minha curiosidade apenas me impulsionava para frente.

Ao atingir a base da escada pude ver um caminho de pedras de paralelepípedo por meio das árvores de abeto-branco que estavam cobertas de neve. Olhei ao redor e notei uma fina neblina se formando até que ela tocou a linha das árvores. 

Não havia mais o que fazer, voltar e ignorar explorar essa região, de se privar da experiência de conhecer melhor o país do conde, ou simplesmente avançar e ver o que o destino me reservaria. As perguntas que havia deixado registradas no meu diário há uns dias nunca gritaram tão alto em minha mente como agora. Espero que minhas decisões não tenham sido um completo erro. 

Obviamente, para fazer valer a chance de dar valor às minhas próprias palavras, decidi seguir adiante.

Por quase trinta minutos avancei em meio a flores por aquele caminho suspeito, cortando a neblina que parecia gritar na minha cara que eu estava rumando para o perigo.

A sorte e o instinto guiaram a minha decisão de incluir minha espada ao modelito para o baile. Graças a isso, pela primeira vez desde que cheguei, minha mão pode encontrar a bainha do meu sabre em minha cintura.

Antes que me desse conta, estava diante dos portais, dos muros de pedra e madeira, da entrada de uma cidade enfurnada no meio da floresta. Observei enquanto me aproximava que nas colunas continha inscrições no idioma local, o romeno. Elas cobriam da base até a parte mais alta. Aquele portal era feito do mesmo tipo de árvore da região, mas claramente era algo antigo, algumas partes estavam apodrecidas.

Quando toquei, eu senti como uma descarga de uma energia estranha, como se um raio percorresse o meu corpo. Olhei em direção à cidade, ela ainda estava a alguns metros. As casas eram rústicas, todas de madeira, o caminho de pedra seguia até o que parecia ser uma praça. Caminhei naquela direção. Notei serem um total de dez casas fazendo um círculo, e em todas havia chaminés com fumaça sendo expelida. Olhei ao redor e a princípio parecia abandonada, algo ainda mais estranho era evidente, a névoa não avançava para além dos portais e dos seus muros. Era como se algo impedisse que ela entrasse.

Então ouvi passos, não evitei sacar o sabre, os instintos foram mais fortes. Como se fosse uma miragem, de início não acreditei que fossem pessoas nas portas, janelas e ao redor de mim, logo elas começaram a se revelar.

A princípio eram como sombras sem definição, gradualmente tomaram forma que parecia humana, detalhes foram surgindo, quando reparei seus rostos completamente disformes. Os sons normais de um vilarejo rompem o silêncio que até então era rei.

— Quem são vocês pelo amor do bom Deus? — Exclamei num grito de assombro e terror, enquanto apontava a ponta do sabre na direção do que estava mais perto de mim. — De que inferno vocês surgiram?

— Somos os moradores sem sorte desta Vila conhecida como Séttimor! — Sua voz era rouca, e de sua boca saía uma fumaça cinzenta, foi quando notei que de alguns até dos olhos saía, enquanto de outros assombrosamente nem face tinham. — Aquele atrás de você é nosso chefe Kvvus! — Apontou ele com seu dedo da mão direita um homem sentado. Ele está em sua sétima morte, suas vestes eram simples e puídas. O expressava o vazio da existência num estado de paralisia, seus olhos de tão fundos lhe proporcionavam aspecto cadavérico.

O espanto que aquela cena me deu assombrou de tal forma que percebi a ausência de periculosidade naquele povo estranho habitantes da vila de Séttimor!

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Diário de Anto Stefan Miahi II

(Anotações em folhas soltas)

21 de junho de 1871 - Por alguma razão, desde que cheguei a este castelo, sinto ter perdido algo mais que meu bom senso. Nesta manhã busquei meu caderno, que uso há algum tempo para escrever meus pensamentos, e não pude localizá-lo em parte alguma de minha habitação. Tirei do armário as roupas, joguei gavetas para todos os lados e nada de encontrar meu pequeno companheiro. Tive que recorrer às folhas soltas que encontrei na escrivaninha disposta defronte da cama, que por sorte também não são poucas, e posso gastar algum tempo nestes registros de minha aventura dos últimos dias.

Inicio este meu relato em meio a esta tarde de sol opaco e ventos uivantes com sinais sombrios de tempestade. Voltando para o dia 19 de junho, pela manhã despertei com alguma dificuldade. A minha mente estava nebulosa. O quarto estava em um completo breu, e pouca coisa conseguia ver. Alguns minutos se passaram até que pude realmente abrir meus olhos sem me sentir dentro de um maldito barco. Meus hábitos como militar me fazem levantar da cama às cinco da manhã. Nem mesmo o galo é tão pontual quanto um militar bem doutrinado.

O que a rotina e a repetição fazem com o indivíduo? Resultam em uma clara domesticação do homem selvagem e brutal, criando nele o senso de civilidade e consonância social que passam a ser demasiadamente enraizados em sua alma, e ele cria estima por eles. Bem, isso parece lógico.

Devo dizer que este lugar é impressionante por si só. De onde estou, posso ver uma cadeia montanhosa com seus altos pontos completamente brancos, verdadeiros gigantes adormecidos. O quarto está bem-posicionado, devo dizer. O Sol, por detrás daqueles picos majestosos, tira o ar de tão impressionante que é.

Após estes momentos de percepção e admiração que nunca foram de meu interesse, mas que neste momento sinto que devo pontuar, volto ao castelo propriamente dito. Os corredores exibem tapetes vermelhos e tapeçarias que parecem retratar e remontar as gerações anteriores que aqui viveram. Os móveis dispostos neles são elegantes, com desenhos em baixo relevo. Parece que em todo lugar que olho tem história, fatos. Ao que vejo, se for retirada uma pedra do seu lugar, talvez seja capaz de remontar a algum evento na antiguidade. Minha ansiedade é tanta que imagino que, em minhas pesquisas, eu possa descobrir que daqui veio algum Papa, ou um parente perdido de Joana D’Arc que buscava redenção para a pobre moça.

Caminhando pelo primeiro andar, pude notar um detalhe curioso nos quartos. Muitas portas estavam, não apenas fechadas, mas trancadas com chave. Dessas, algumas poucas, pude notar um odor incomum que logo desapareceu e que me fez lembrar os campos em que estive. Isso me estremeceu as pernas, um frio percorreu minha espinha, e, em pouco tempo, as lembranças vieram à minha mente. Dei dois passos para o lado, me apoiei no móvel que ali estava, e logo levei minha mão direita até minha face, cobrindo os olhos. Pouco tempo passou e voltei a mim.

Decidi que deveria descer. Já eram quase sete e meia da manhã, e não tinha a intenção de me atrasar para o café da manhã. Supus que deveria ser esse o horário para comer, já que, até este momento de minha exploração, não havia encontrado ou escutado uma única alma viva no corredor, nem mesmo nos quartos que estavam com as portas abertas ou destrancadas.

O castelo do Conde era realmente grande. Um convidado poderia se perder dentro dele. Isto constato ao pensar que ainda haveria dois andares para cima, o terraço, e as torres que dão mais um ou dois pisos para cima. Admito que desconsidero haver algo abaixo da terra, não me parece lógico. Contudo, não posso descartar por completo a possibilidade de que os criadores dessa construção tenham investido empenho e criatividade para agregar algo indo para baixo do térreo.

Desci lentamente as escadas que encontrei, torcendo serem elas que levariam à entrada, aos cômodos inferiores, onde se encontraria o grande salão para poder quebrar este meu jejum. Por sorte, tomei o caminho correto.

Me deparei com a grande porta de madeira maciça com belos umbrais entalhados que havia visto na noite anterior, antes do meu desmaio inusitado, que também irei pontuar mais para frente neste meu relato, que se mostra um fato com detalhes estranhos.

Da porta de entrada, em ambos os lados, disponha duas flâmulas curtas, do tamanho da altura da cintura de um homem adulto comum. As duas paredes laterais eram amplas e nelas estavam dispostas, em cada uma, duas flâmulas do mesmo tamanho, entre elas uma grande tapeçaria com o brasão que parecia ser da família do conde.

A imponência daquele ambiente era de deixar muitas famílias da nobreza francesa envergonhadas. Próximo a mim, em ambos os lados, havia passagens em arco, sem portas, para cômodos que poderiam ser explorados.

Olhei primeiramente para a esquerda; era um cômodo amplo, com uma mesa no canto oposto à porta por onde eu observava o interior, feita de madeira escura, sobre a qual estavam dispostos vários papéis e alguns livros. Atrás dela, uma poltrona do mesmo tom de verniz e madeira, com um grande encosto. Nela, estavam várias peles grossas, uma parecia ser de urso-pardo. No alto do encosto, estavam esculpidos dois corvos, um de frente para o outro, mas com as cabeças voltadas para baixo.

Nunca havia visto algo tão sombrio e incomum. Quanto ao cômodo em si, suas paredes estavam repletas de livros, cobrindo a totalidade das superfícies. Então, percebi uma porta ao fundo, não muito alta, de frente para o portal por onde eu observava. Ao lado dela, deparei-me com algo que parecia um corrimão entrando na parede, indicando um ambiente a mais em um cômodo oculto.

Antes que eu me desse conta, uma voz serena de barítono me tirou de minha exploração visual.

— O senhor é esperado neste aposento para o desjejum. — Apesar da voz calma e do tom educado, sua expressão facial era aterradora. Tinha olhos grandes, castanho-escuros, com órbitas afundadas. Sobrancelhas arqueadas, um nariz aquilino e um queixo curto. Os lábios eram finos e esbranquiçados, com as maçãs do rosto muito pronunciadas. A pele, sem muita cor.

— Oh…! Obrigado. — Minha voz saiu de sobressalto, e minha reação instintiva foi levar minha mão esquerda até a cintura em busca da bainha de minha espada. Para minha profunda frustração, ela não estava em seu lugar devido. — Quem é o senhor? — Questionei o homem diante de mim, vestido com trajes subalternos.

Ele sorriu, o que o deixou ainda mais assombroso, com um ar psicótico.

— Sou seu humilde servo, Narcís Nestor. E creio que o senhor seja Anton, certo? — Ele fez uma reverência um tanto longa enquanto falava, e ao término dela se endireitou. Era alto e magro, e suas roupas lhe davam um porte elegante e igualmente ameaçador. Seus cabelos, longos até os ombros, estavam presos em um rabo de cavalo com fios ruivos e ondulados.

Apenas assenti com um movimento de cabeça, confirmando sua informação.

— Venha por este caminho, cavalheiro. — Ele girou nos calcanhares e começou a andar sem me dar a chance de questioná-lo sobre qualquer outra coisa.

Ele me conduziu por um corredor sem janelas e, ao alcançarmos o meio dele, havia um portal, este com portas. Ele abriu ambas as portas, revelando uma sala de jantar espaçosa. No centro, uma grande mesa acomodava até dezesseis pessoas. A mesa era de carvalho em tom bege-claro, e as cadeiras completavam o conjunto na mesma cor. Na parede oposta à porta, havia uma lareira grande, acesa, e acima dela, um escudo com duas espadas cruzadas.

— Ao entrar, o ambiente estava quente e aconchegante. Olhei para cima, observando os detalhes o máximo que me era possível. O pé-direito daquele espaço era alto, com dois grandes lustres feitos de rodas de carroça, presos por correntes.

Mesmo naquela sala de jantar, o luxo não era escasso, pois notei grandes vitrais acima da porta. Nas bordas, o azul-índigo se destacava, enquanto o centro era de cristal, permitindo a visão do exterior, onde uma tempestade de neve se formava. No meio, um azul-escuro predominava, bloqueando a entrada da luz do sol. Além disso, cortinas duplas pendiam do ponto mais alto, cobrindo quase toda a janela. As cortinas mais grossas eram de um tom bordô profundo, de tecido que parecia veludo, enquanto as mais finas eram brancas, lembrando a neve que caía lá fora, feitas de seda.

O ambiente não parecia carecer de luz natural com todas aquelas velas e a lareira queimando lenha. Isso me fez perceber um detalhe que me havia escapado até então: muitas das janelas tinham esse mesmo tom escuro. Mesmo a do meu quarto possuía um tom azulado que deixava o ambiente mais sombrio.

— Aconselho que o senhor se sente neste lugar enquanto trazemos seu café da manhã. Já está ficando tarde e creio que esteja com fome, cavalheiro. — Ele apontou para uma cadeira que havia movido, indicando onde eu deveria me sentar. Sua expressão estava séria, apesar de tentar parecer convidativo e educado.

— Claro, evidentemente não queremos atrasar o café da manhã do Conde! — Tentei ver se Narcís dizia algo sobre seu mestre, já que até o momento ele não havia me fornecido nenhuma informação sobre ele ou sobre o castelo. — Não podemos fazer essa quebra de protocolo social.

— O mestre Drácula tem o hábito de comer em seus aposentos. Mas, ele lhe desejou um excelente desjejum. — Novamente, aquele sorriso que faria até um coveiro sentir arrepios na coluna.

— Que inusitado. Bem, diga ao Conde que também lhe desejo o mesmo e que gostaria de poder sentar-me com ele para conversarmos sobre o assunto que me trouxe até aqui. — Tentei dar meu melhor sorriso para a criatura ao meu lado, que estava arrumando meus talheres.

— Vou transmitir sua mensagem ao Conde. — Narcís se colocou ereto e seguiu em direção à porta na parede oposta àquela por onde eu havia entrado, mais próxima à parede à direita.

O mordomo Narcís caminhou rápido e silencioso, parando quase em frente à porta. Ele estendeu o braço para pegar um sino sobre um móvel ao lado esquerdo, e logo o fez soar. A porta se abriu com um forte rangido. Dela saiu uma senhorita de cabelos pretos, pequena e esguia, trazendo um carrinho com vários pratos e bebidas quentes. Ao se aproximar, pude observar melhor suas feições. Os olhos eram amendoados, de um tom de âmbar que eu nunca havia visto, tão intensos e atentos. As sobrancelhas eram retas, um pouco finas demais. O nariz era delicado, levemente aquilino. O queixo pontudo, com o lábio superior fino e o inferior carnudo.

Ela levava um tecido amarrado sobre a cabeça para prender o cabelo, e ao se aproximar para pôr a mesa que trazia no carrinho, notei que seus cabelos eram negros e ondulados.

— Obrigado, ficarei apenas com o café, a manteiga, alguns pães e talvez essa geleia que parece ser de mirtilo. — Busquei um tom gentil e a expressão mais sincera possível. Mas aquela senhorita mantinha o rosto sem emoções.

— Se é o que o senhor deseja. — A voz dela era de uma soprano, agradável de se ouvir, um verdadeiro contraste. Um choque.

— Por favor, qual é o seu nome? Eu me chamo Anton, é um prazer conhecê-la! — Tentei ser social e educado, mesmo parecendo que ela não permitiria que eu me aproximasse. Desejava poder conversar com alguém, já que minha tentativa anterior foi frustrada.

Apenas obtive um profundo e consternante silêncio por parte daquela jovem.

Naquele mesmo dia ao entardecer - Devo dizer que me senti compelido a retornar ao meu quarto após o almoço e após abrir mais alguns livros da biblioteca. Tem sido uma exploração frutífera. No entanto, uma inquietante sensação vem dominando meus pensamentos. A lástima é que ainda não pude perceber a razão desses pensamentos ou mesmo sua fonte, se ela habita em mim ou é proveniente de algo externo. O que acalma meu espírito é estar neste quarto com a caneta, a tinta e o papel ao meu alcance.

Voltemos ao dia 19 de junho.

Apesar de minhas tentativas de criar vínculo com os empregados do castelo terem sido um completo fracasso, naquele dia Marcos, após o desjejum, me guiou para outra sala que eu havia observado antes. Ele disse que eu poderia acessar todas as obras dispostas neste cômodo e que em outro momento me levaria a uma sala ainda maior, contendo obras raras que o conde mantinha apenas para si, mas que, por conta de minha presença, estaria inclinado a abrir para que eu pudesse investigá-las.

Eu não havia visto a totalidade daquela sala. À esquerda da porta, ao fundo, havia uma curta escadaria em L que avançava para dentro e para cima da parede, acima da porta, como um patamar com mais prateleiras e livros que só se podia notar ao adentrar o ambiente. O andar inferior tinha pé-direito alto, e ao lado da mesa havia duas janelas em arco de dois metros e, entre elas, uma porta de vidro que levava ao pátio, além de outra pequena, de madeira, que não ousei verificar.

Desde o andar de baixo até o de cima, do piso até a metade da altura de um homem adulto, as paredes eram revestidas com uma madeira caramelo formosa e bem cuidada. O patamar superior tinha um pouco menos de um metro e noventa de altura, o que me fez desviar dos candelabros presos nas colunas quando subi para explorar.

O que me surpreendeu foi que cada volume estava bem cuidado, suas capas pareciam novas, com sinais de pouco uso. O conde deve ser rigoroso com a conservação das obras mantidas aqui em seu castelo.

As horas passaram enquanto eu verificava cada obra naquela imensa sala. Levaria um longo tempo até que eu revisasse cada livro ou, no mínimo, juntasse os que realmente me interessavam. Ao olhar para o exterior pelas janelas da porta, percebi que já estava escurecendo. No pico das montanhas, a luz começava a desaparecer, e fiquei hipnotizado por aquela vista.

Então, uma voz profunda e calma quebrou meu transe.

— Espero que não esteja interrompendo, senhor Anton? — Por um instante senti que meu corpo se congelava, no entanto não durou muito. Uma voz, apesar de grossa, era firme, capaz de fazer o silêncio reinar com apenas uma palavra numa estalagem cheia de bêbados.

Dei meia volta para ver quem falava, apesar do susto. Ele estava parado no patamar superior, escorado no guarda-corpo, com um livro na mão. Sua altura era menor que a minha, o corpo um tanto esguio, com tudo estava bem trajado com uma camisa branca e um colete de dois tons pelo que parecia, preto nas costas e vermelho na frente. Os cabelos pretos e levemente ondulados e um tanto longos caíam sobre os ombros.

— Sou um homem de hábitos noturnos, para a infelicidade de meus convidados. — Ele virou o rosto ficando de perfil de frente com uma lâmpada que estava a menos de um metro dele pendurada na coluna, revelando uma aparência surpreendentemente jovial. O bigode e cavanhaque bem aparados mostrando refino como evidência de sua vaidade, assim sendo esperado de alguém que vinha de uma da alta sociedade. A pele parecia de marfim, de um aspecto fantasmagoricamente translúcido, como se os raios dourados carregados por Apolo jamais a tivessem tocado. Seus lábios finos e brancos pareciam sem vida, e seu nariz aquilino deixava sua expressão severa, algo enigmático, que me causava calafrios por toda a espinha. Ele me observava de soslaio, dando-me a impressão de pouco interesse.

Sua presença era imponente, inundava a biblioteca, dando-me a triste impressão de estar na companhia de um animal selvagem, um indivíduo de poderes não mensuráveis, pronto para me atacar. Meus instintos mais íntimos gritavam freneticamente para que eu saltasse pela porta de vidro às minhas costas, enquanto meu treinamento me compelia a manter a posição e enfrentar meu temor, como fiz tantas vezes diante dos estrondosos gritos dos inimigos de Napoleão e das baionetas dos prussianos.

— O senhor me pegou desprevenido… — Minha voz saiu rouca, porém o mais firme que consegui. Fitei seus olhos, que pareciam de um tom quase âmbar, vivos, atentos, de uma profundidade assombrosa. Parecia ler minha intenção combativa. O conde havia movido apenas a cabeça para olhar minha pobre existência confrontando sua magnitude. — Devo supor que seja meu estimado anfitrião, que vi na minha primeira noite e com quem, por alguma infelicidade, não pude trocar muitas palavras. — Neste momento, escapou dos lábios dele um sorriso sem jeito. Tentei recobrar minha dignidade e civilidade perdida com o susto.

Vlad então fechou o livro que estava em suas mãos e começou a descer a escada oculta atrás da parede. O que me assombrou de sobremaneira foi a completa ausência do som de seus passos na escada de madeira. Parecia caminhar como um gato. A sensação de perigo voltou a invadir minha mente, meu coração acelerou, e instintivamente me movi para a frente da grande mesa. Minha mão esquerda mais uma vez buscou a bainha de minha espada, e novamente sua falta me deixou frustrado, fazendo-me sentir nu, desprovido de proteção, à mercê de quaisquer poderes que o conde Drácula pudesse tentar contra mim.

Mesmo ele sendo menor que eu na altura e, naquele momento, estando na escada à minha frente, aquele sentimento opressor não se amenizava. Quando a silhueta de Drácula se delineou na curva do L da escadaria, seus olhos ganharam um estranho brilho amarelo. Uma emanação que não encontro outra palavra para descrever, senão espiritual. Como pequenas pedras em sua face que emanavam uma presença aterradora. Naquele momento, meu ceticismo quase cedeu aos mitos contados pelas ciganas das periferias de Paris sobre as lendas dessa terra estranha.

Seu corpo, não muito mais alto que um metro e setenta e cinco, alcançou a luz do andar de baixo, e sua face havia mudado completamente, ganhando ares mais suaves. Seu porte tinha uma elegância incomum, e seu caminhar era calmo, demasiadamente sereno.

— Ora… Devo assumir que este sou. Seja bem-vindo oficialmente ao meu humilde lar. — Vlad tentou exprimir um sorriso que revelou seus dentes, e o que me surpreendeu foram os caninos anormalmente pontiagudos e brancos, similares aos de um lobo. O que me deixou desconfortável, mesmo ele parecendo tentar acalmar-me. — Espero que suas acomodações e alimentação estejam de acordo com seu gosto. Suponho que alguém que venha da cidade grande tenha preferências alimentares mais requintadas, não é mesmo, Anton? — Aquela pergunta me soou estranha, mas até aquele momento minha estadia no Castelo Drácula não havia tido problemas, exceto minha tentativa falha de me comunicar com os empregados.

— Conde, não tive qualquer problema quanto aos aposentos ou mesmo referente à alimentação. Militares se habituam a dormir em catres desconfortáveis, a dormir pouco, e a comer mal. — Recorri à minha honra como soldado para voltar ao meu centro, meu equilíbrio mental. — Aqui está além daquilo a que me habituei nos últimos anos.

Vlad passou as horas seguintes conversando comigo, tratando da cultura local, suas influências, as histórias, e me mostrou alguns de seus títulos favoritos. Nossa conversa foi amistosa, e me senti como diante de um dos mestres da minha antiga universidade, aprendendo o que estivesse ao alcance de minhas faculdades mentais. O tempo, em alguns instantes, pareceu ficar mais lento. A noite avançava vagarosamente, mesmo que a conversa estivesse empolgante, aquela percepção não me abandonava.

O conde realmente era um homem da noite, estava cheio de energia, diferente de seus primeiros momentos naquela sala. Sua oratória, o vasto conhecimento que ele apresentava, me dava a impressão de que alguns dos fatos narrados ele havia vivido. A riqueza de detalhes, a precisão do relato, traziam uma segurança que apenas quem viveu, presenciou e experimentou poderia possuir.

Andávamos por todo o cômodo enquanto conversávamos. Apesar de eu ter despertado antes do galo, realmente podia sentir que não me faltava energia, um impulso, não, uma força me sustentava ali naquela conversa. Parei diante da porta, com ela às minhas costas, enquanto observava Drácula caminhar em direção à poltrona com dois corvos de cabeças voltadas para o assento. Ele se sentou como um rei, cruzou as pernas, apoiou-se no braço esquerdo e repousou um livro sobre a perna esquerda, olhando fixamente para mim. Sua forma de olhar era intimidadora, novamente notei aquele estranho brilho.

Olhei o relógio que carregava no bolso do colete e pareceu-me que eram quase seis horas da manhã do dia seguinte. Meus olhos voltaram para as janelas, onde a luz da lua ainda brilhava intensamente. Caminhei em direção à porta de vidro e, ao olhar para fora, o espanto me dominou. A lua ainda se encontrava no ponto mais alto do céu. O pátio do castelo estava coberto de neve, e a luz que vinha do céu dançava em tons de azul, brindando a neve branca com um belo detalhe.

Subitamente, o ar pareceu ficar denso, difícil de respirar. Olhei para trás e vi o rosto daquele homem pequeno, sentado em sua grande poltrona, com um sorriso arqueado na face, novamente revelando aqueles caninos animalescos, num ar malicioso.

A biblioteca tinha uma pequena lareira na parede à direita da porta de entrada, onde também se encontrava a porta de vidro. Mesmo assim, minha respiração condensou como se eu estivesse ao ar livre. Voltei meu rosto para fora e notei a silhueta de uma mulher parada próxima ao muro. Não era alta, e seus cabelos pareciam longos. Aproximei-me mais da janela para tentar ver melhor, quando a luz da lua recaiu sobre ela, revelando uma pessoa com o mesmo tom de pele do senhor Drácula. Ela deu alguns passos mais para o centro do pátio, evidenciando mais detalhes de sua fisionomia.

Os cabelos eram ondulados, mais longos do que notei inicialmente, de um tom preto similar ao céu noturno. Seu nariz fino e levemente pontudo contrastava com seus olhos grandes, que pareciam ser de um azul claro. Os lábios eram volumosos. Seu corpo era pequeno, esguio e delicado. Sua expressão era apática, distante. Ela olhou para a lua e, assim como o senhor do castelo, pareceu-me exibir uma aura sobrenatural. Seus olhos brilharam num tom branco pálido, mas logo meu ceticismo voltou, e supus que era efeito da luz da lua.

Aquela presença no pátio estava apenas coberta com um vestido de algodão rústico e uma capa transparente. Direcionei minha atenção aos pés dela, que estavam descalços.

Quando pensei em tocar na fechadura para chamar a jovem no pátio, senti algo me impedindo de tomar aquela ação. Mais uma vez, meus instintos soaram em minha mente como trombetas de guerra. Girei nos calcanhares, com os punhos fechados e os dentes cerrados, como se estivesse pronto para receber o primeiro golpe. Assim que o fiz, um vento gélido invadiu o ambiente, a lareira apagou, sobrando apenas a iluminação natural vinda de fora que, ao passar pelos vitrais, deixava o ambiente num jogo de vários tons de azul. Foi então que, ao abrir meus olhos, notei três pares de olhos me observando. O único que reconheci foi o que havia visto nos olhos do conde, que ainda se encontrava sentado em sua poltrona. Os que vi no patamar eram vermelhos com toque âmbar, enquanto os que estavam próximos à entrada que conduzia ao interior do prédio eram de um tom vermelho como brasa viva.

Ouvi um grunhido de feras ocultas na escuridão. Sentia a adrenalina subir e inundar cada parte do meu ser. Minha respiração ficou rápida e as batidas do meu coração eram palpáveis dentro do peito.

Então, o silêncio. A escuridão. O vazio apagando cada um dos meus sentidos. Sobrando apenas o impacto oco do meu corpo contra o chão de madeira do castelo. 

Para meus registros finais nestas folhas deste último evento, não me pareceu ter levado mais que alguns poucos minutos, segundo minha percepção. Corrijo, o que recordo destes últimos momentos é como um pesadelo sombrio e muito vívido. Não consigo confiar em minhas memórias desta manhã, ou noite. Existe algo que me obscurece a razão, que me desafia a duvidar dos fatos. Será que o que vivenciei naquela manhã, ou noite, era real? O que vi foi realmente um fato? Quem era aquela jovem no pátio? Será que fiz a escolha correta de vir ao meio do nada em Bram, no centro da Europa?

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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Diário de Anto Stefan Miahi

15 de junho de 1871 - Volto uma vez mais a este caderno velho e surrado. Talvez já tenha se tornado um hábito, colocar nestes diários minhas angústias e…

Imagem criada pelo autor, com CanvaIA

Diário de Anto Stefan Miahi

(Notas em meu caderno) 

15 de junho de 1871 - Volto uma vez mais a este caderno velho e surrado. Talvez já tenha se tornado um hábito, colocar nestes diários minhas angústias e pensamentos, e eventuais alegrias nessas páginas. Já não sei quantos escrevi, em meu escritório devo ter uns quantos armazenados na velha estante no lado esquerdo da mesa de trabalho, junto com meus livros queridos.

Já faz algum tempo que me correspondo com uma personalidade do meio leste da Europa, devo ter em minha maleta neste momento umas três cartas e pelo menos dez telegramas. Segundo as correspondências temos afinidades intelectuais. Algo poderoso em cada uma delas me compelia a responder, uma sensação indescritível, mas aqui tentarei traduzi-las. Devo dizer que o que senti era provocante, uma emoção que me deixa ainda agora agitado, ansioso, como se ali houvesse um feitiço e a cada palavra… Não! A cada onda das letras, elas estavam me atraindo, conduzindo minha existência, e por fim, a guiar minhas mãos para responder tão rápido quanto me fosse possível. Senti como um apaixonado respondendo a amante, numa carta secreta, contando segredos obscuros. Por vezes como uma inocente criança confessando à mãe seus feitos do dia com total inocência e despretensão.

Inegável que ao terminar, o ar que saía dos meus pulmões era como se estivesse libertando minha alma de dentro de um cativeiro do qual naqueles momentos não tinha como sair, e que a chave para tal era colocar o ponto final naquela folha, branca e inocente.

Após alguns minutos. -  Após uns quantos chacoalhões da carroça e algumas tantas maldições proferidas, assim como insultos ao cocheiro e seu amigo, pude retomar os pensamentos aqui nessas páginas.

Para uma pessoa como eu; que sou dado às letras, ao pensamento, aos livros; me ver às voltas com uma baioneta em mãos, preparando o mosquete, e ouvindo o estrondoso som das explosões e o zunido dos projéteis voando por sobre a cabeça, realmente foi inesperado para assombroso. Uma completa mudança de ares.

Isto já se converteu em rotina realmente, estar com o lápis em uma mão e um caderno na outra, ainda mais após meu regresso daquele infame conflito entre os poderosos, Bonaparte e Frederico. 

O cheiro da pólvora, das cinzas e do sangue ainda atormentam meu nariz e, os gritos, a minha memória. Campos verdes agora desfigurados, marcados e banhados com sangue de homens valentes e covardes, astutos e ignorantes, de amigos quanto de inimigos.

Faz um pouco mais de 3 dias que me encontro dentro desta repugnante carroça, e ainda me faltam um dia e umas quantas horas para chegar ao meu destino.

Escutando o condutor, um homem velho e rechonchudo, com uma barba malfeita, com uma semicalvície que ele oculta com um chapéu velho e sujo. O que lhe falta de altura compensa com o falatório. Enquanto seu amigo, que vai sentado ao seu lado direito, é alto, esguio, tão quieto que parece morto. Seus olhos cansados, e a cara de quem não quer nada com nada, não fazem jus a sua força física jovial, lançou as malas que eu levava com apenas uma mão para o alto da carruagem, e para o cúmulo repetiu a façanha com as de uma jovem senhorita com seu irmão e cuidadora que me acompanharia nessa viagem.

Pelo que pude notar a conversa de ambos não passava de, - “Adrian” - esse parecia ser o nome do homem alto e silencioso e do cocheiro pelo que percebia era Loui. - “Clarice não me deixou quieto, só por causa que me encontrei com os rapazes da estalagem para beber…” após isso me dei conta do quão desinteressante eles eram.

16 de junho de 1871 - Ontem à noite comecei a escrever e, ao relatar os fatos, terminei por cair em devaneios sobre o cocheiro e seu amigo, mas devo dar alguns pontos importantes a estes meus relatos. Acho que o cansaço e a monotonia da paisagem me levaram aos braços de Morpheus. 

Retomo então para as minhas ideias originais. 

Há um pouco mais, ou menos, não tenho certeza, de um mês, recebi minha última carta dele, dando as indicações e detalhes para minha viagem até sua terra. Com tantos preparativos para essa jornada, ainda mais depois de regressar da guerra, e mal ter pisado em Paris, já me aventurar novamente, tira o fôlego de qualquer um. Acabei não fazendo um registro justo e detalhado deste fato crucial nos dias anteriores.

Seu remetente era de uma parte de um país esquecido pelas divindades. Romênia. Um lugar cheio de uma mística, de umas quantas lendas, verdadeiro centro de contos. A história da região contada pelos ciganos é realmente impressionante se fosse crer em tudo o que dizem.

Devo acrescentar que é um texto elegante aquele que encontrei naquelas duas páginas, além de uma caligrafia impecável, da parte de um tal Conde Drácula. Suponho ser uma pessoa realmente culta, douta, pois em sua carta não notei um erro de sintaxe ou de modismo populares, pois sendo romeno, escreveu com exímia clareza, em um francês belíssimo. Isso me encantou, mesmo que minha área de entendimento fosse a História, os fatos, os heróis, aquelas palavras me cativaram de uma forma que apenas meus escritores favoritos poderiam.

Um convite para uma visita para explorar a história local, e acessar livros, ter contato com documentos exclusivos, e segundo o que dizia na carta, ter contato com um outro estudioso da história e da sociedade. 

Paris estava um caos, e eu, só queria uma boa desculpa para pegar minhas coisas e sair daquela cidade infernal. Essa é uma oportunidade que não posso me negar. Corri para organizar minha partida. 

18 de junho de 1871 - Cheguei hoje no meio da tarde, por volta das 15h, à região de Bram e há coisas que devo realmente relatar do dia de hoje nestas páginas. 

A vista era montanhosa, com pequenas cidades sombrias e tristes, nos tons de cinza, marrom e branco, óbvio que aqui faz um frio de doer os ossos. O clima frio e severo do lugar não é convidativo, mesmo nosso cocheiro falante rendeu-se ao silêncio no trecho final da corrida. Todos tentavam manter a cabeça calma, e o corpo quente, por sorte a companhia de dentro da carruagem não era de todo ruim. A jovem, com sua dama e o acompanhante tinham consigo um pouco de vinho de Lyon.

Um breve comentário sobre os que estavam dentro da carruagem, a jovem, com olhos azuis, tinha cabelos negros bem amarrados numa trança perfeitamente trançada, o rosto denunciava sua pouca idade, passava muito tempo observando o exterior; enquanto aos que a acompanhavam: era uma senhora magra com rosto severo, loira, com cabelo abaixo dos ombros, de olhos verdes, tinha um crucifixo grande de madeira em seu pescoço, onde ela por várias vezes o buscou, como quem deseja receber conforto; enquanto ao cavalheiro, um tanto jovial, mas já passava dos trinta anos, suas roupas bastante elegantes, bem cuidadas, pele branca, com um bigode bem tratado adornado por bochechas rosadas, obviamente pelo frio e pelo vinho, o que deixa ele com aspecto ainda mais bonachão.

Nos primeiros dias pude conversar melhor com o cavalheiro, apesar de suas roupas, era uma pessoa simples e sociável, já a sua companheira por outro lado beirava o fanatismo quase igual aos jacobinos, por vezes intragável. Quanto a jovem, bem, tratava das coisas de seu tempo.

Eu, o sargento Anto Stefan Miahi, um historiador e militar, agora estou no meio das montanhas da Romênia, na intenção de mudar meu próprio rumo de vida. Longe de casa e outra vez com a promessa de ser reconhecido. Devo ter inalado muita fumaça de canhão.

Assim que cheguei a Bram, tive a infeliz surpresa de que teria que trocar de carruagem. Acabei numa conversa assombrosa com os condutores.

— Mas senhores, segundo minhas fontes, estamos a menos de duas horas de alcançar nosso objetivo. — Supliquei aos dois cavalheiros sentados no coche quase se abraçando para manter os corpos quentes, seus rostos estavam quase vitrificados de tanto frio.

— Senhor, sinto dizer que nem Jesus nos fará subir o caminho proposto. — Falou Adrian com uma voz trêmula, parecia um baritono, abraçando a si mesmo, com as mãos dentro do casaco negro que vestia.

— Sinto dizer que nem por minha mãe vou por este caminho, o senhor não viu enquanto vínhamos para esta cidade perdida de Deus? — A pergunta de Loui com uma voz rouca de quem bebia e fumava sem qualquer controle, mas me fez lembrar de algumas coisas. Todos com que cruzamos na estrada fazia o comumente sinal da cruz. Em seus rostos havia apenas uma expressão de angústia e desdém.

A conversa não avançou além deste ponto, e assim terminei no meio de um povoado estranho, que me olhava à distância como se eu tivesse alguma praga, ou estivesse acompanhado do próprio demônio.

Não demorou para que um velho senhor viesse pela estrada, arrastando seu corpo cansado, com um rosto de poucos amigos.

— O senhor vai para o castelo? — Perguntou avançando lentamente, sem olhar para qualquer lado. Ele para a minha frente, ele apenas move os olhos na minha direção, sinto que aquele olhar vai além de me ver.

— Sim, sim, eu vou! — Tentei simular meu melhor sorriso, mas algo no meu interior dizia que seria um esforço inútil.

Ele voltou a olhar para frente, baixou a cabeça, cuspiu no chão em frente aos meus pés, o que me fez dar um passo e meio para trás, mas antes mesmo que eu pudesse dizer ou fazer em resposta aquilo, o senhor se virou para mim, e logo estendeu os braços e agarrou minha mão direita. Naquele ato ele me entregou um colar de tira de couro com uma cruz de madeira rústica. Ele recolhe os braços para junto do corpo, rapidamente com sua mão esquerda ele tira seu gorro azul, e faz o mesmo sinal que vi na estrada quilômetros atrás.

De Anto Stefan, 18 de junho de 1871 

Boa noite, meu estimado amigo, Maurice!
Como tem passado?
Já faz alguns dias que parti e espero que tudo esteja na mais perfeita ordem na nossa amada Université de Paris.

Agora são 22h, deste mesmo dia, após me estabelecer melhor pude retornar a este meu diário, pois ainda me sinto incomodado com os eventos até o presente momento.

Após aquela cena rara com aquele senhor na vila, ouvi o som do relincho dos cavalos, além do estalar de um chicote, não muito longe, descendo a estrada que eu deveria tomar. 

O senhor deu meia volta nos calcanhares sem que eu notasse e tomou um caminho contrário, quando me dei por mim, apenas vi suas costas ao longe desaparecendo no meio do povoado.

Não demorou muito para que uma carruagem surgisse ao longe. Ela tinha uma pintura preta, e quanto mais perto chegava melhor eu podia ver os detalhes de suas estruturas, como cortinas vermelhas iguais a brasa viva, janelas adornadas com bordas de prata, e quatro cavalos negros maiores dos que eu havia visto na guerra. Pararam ao lado de onde eu estava. O cocheiro tinha seu rosto coberto por um cachecol vermelho escuro que deixava sua respiração passar e condensar o ar, suas roupas eram de couro tingido de preto, e um chapéu de abas largas e um trio de penas adornando. Os olhos dele eram soturnos, frios, parecia que para onde ele fosse olhar poderia congelar.

— O senhor se chama Anto Stefan Miahi? — Uma voz grossa que era abafada pelo cachecol deu para ser ouvida.

Ele nem esperou minha resposta e saltou da carruagem. Um homem alto, o pouco de pele que se podia ver, era branca, tal qual mármore, magro, de braços longos, e um cabelo comprido, de um castanho claro. Agora que ele estava mais perto, deu para ver a cor dos olhos dele, num tom verde e amarelo.

— Sim, sou eu. — Respondi o mais prontamente que me foi possível — Você é o cocheiro que vai me levar até o Castelo, do Conde? — Mesmo para um homem como eu experimentado na guerra, que viu coisas horríveis, aquela presença era intimidante.

Ele apenas assentiu com a cabeça de maneira positiva, e logo foi pegando as duas malas que estavam no chão ao meu lado. Num piscar de olhos ele as colocou no teto e já abria a porta para que eu subisse, sua agilidade fugia claramente do normal.

A viagem foi no mais profundo e mórbido silêncio, a monotonia reinou plena nas horas que se seguiram.

Um tempo depois, ouvi duas pancadas ocas no teto do carro. Abri a janela da porta e coloquei a cabeça um pouco para fora, o suficiente para poder ouvir e ver.

— Mais à frente já podemos ver o castelo, senhor Miahi. — Pude escutar a voz gutural do cocheiro que com sua mão esquerda aponta para frente uma série de pontos brilhantes, ainda distantes, dentro de uma sombra imensa, que tão pronto começou a parecer com uma estrutura, e não demorou muito para delinear a construção em si.

Alguns minutos mais tarde eu estava cruzando um portão de ferro, um portal de pedra, com uma muralha que terminava no que parecia um despenhadeiro gelado. Uma curta passagem que levava à porta principal, num grande pátio, e no seu centro uma velha fonte que agora estava cheia de neve. Mais ao fundo uma outra passagem que levava para o estábulo.

Os cavalos reclamaram quando o cocheiro puxou as rédeas forçando sua parada, ele fez algum som que os animais reconheceram e fizeram silêncio. Aquele homem alto saltou, e quando me dei por mim, ele já havia aberto a porta. Sai tentando absorver todo aquele cenário que beirava o aterrador, sombrio, e belo, com algo de clássico. A arquitetura do lugar era impressionante, mesmo já quase estando todo o ambiente submerso na escuridão.

Quando olhei o horizonte e vi na linha das montanhas o sol lentamente desaparecer, foi que eu ouvi o som das malas tocando o chão e a porta de madeira maciça ranger loucamente, como se gritasse. Nisso uma sombra se projetou dela. No alto de uma escadaria espaçada que conduzia para uma porta de umbrais de madeira grossa, com entalhes que já não podia ver bem, em tom natural, e em cada folha o que pareciam desenhos em baixo relevo.

A porta ficou completamente aberta, a luz dentro era amarela e forte, deixando apenas ali a silhueta de uma pessoa alta, coberta por algo que parecia ser uma capa, e uma voz se projetou. Algo nela me fazia recordar as mesmas sensações que eu sentia ao ler as cartas e telegramas do Conde Drácula. 

— Já é noite meu jovem. As noites nessas paragens podem te matar numa única mordida. — Houve uma risada baixa ao final da frase.

— Certo… Claro! — Me apressei em subir as escadas, me esquecendo das maletas perto… bem… não sei em que momento ele havia subido na carruagem, porque quando me dei conta apenas ouvi o relincho dos cavalos, o som do ranger da madeira e um estalo agudo. — Deixe-me pegar as maletas, senhor, e logo vou apertar sua mão.

Por mais atrapalhado que pareça, tentei manter a pose diante de quem quer que fosse que estivesse ali observando no alto da escada com aquela postura imponente e sombria.

Assim que recolhi minhas coisas, já não havia mais luz do sol, neste momento olhei para o céu instintivamente, quando me deparei com aquele mar de estrelas, por um breve momento senti que o chão em meus pés estava desaparecendo e eu caia, foi então que senti em minhas costas um toque suave, gentil, e um rosto estava para se revelar a mim, quando apenas senti que caía num sono prazeroso, um abraço bem-vindo.

Maurice, há algo raro e estranho neste lugar, dentro deste quarto tão suntuoso, mas ao mesmo tempo tão frio, o carmesim das cortinas da janela, o roxo dos cobertores e travesseiros, a pedra cinzenta das paredes e a madeira dos móveis, parecem não vir deste mundo. Mais estranho é que senti essa emoção inquietante desde o momento que passei os portais do muro desde a construção belíssima de tão sombria. Existe um ar que me absorve e me acorrenta aqui.

Bem, já não vou mais importuná-lo nesta carta com estes detalhes anormais, aguarde minhas próximas cartas ou telegramas.

Desde já desejo a você, meu amigo e mentor das artes da história, toda a boa sorte.

De seu velho amigo, Anton.

PS.Sempre, “Hic et ubique terrarum” (“Aqui e em qualquer lugar do mundo”) carregando o lema de nossa amada instituição no coração e na mente.

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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