Agonihria-Égloga

No pélago purpúreo, o riso dos insensatos fenece, | Bête e ignorant, sob o teto de um gesso que chora; | A névoa de violeta opaco, que o tempo devora,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No pélago purpúreo, o riso dos insensatos fenece,

Bête e ignorant, sob o teto de um gesso que chora;

A névoa de violeta opaco, que o tempo devora,

 É o manto de l'appel du vide que a carne adoece.

Ao avesso do reflexo elétrico,

As pupilas duplicadas no vinco da crassa cortina,

Vigilantes, perscrutam o avesso do próprio espelho;

O rádio antigo de ébano sussurra um conselho,

enquanto o vantanegrume dos céus nos assassina.

O Criador... ah, mon Dieu, é vurmo que a terra consome,

Um pesadelo estático, moldado em gélido gesso,

onde o sonho é o carrasco e a vida é o avesso.

Regardez: a vigésima segunda badalada consome

O silêncio paralisante que a mente tateia...

Olhai bem o escuro, antes que ele vos teça na teia.

 

Na paralisia do reverso espelhado o tácito lamento estilhaça a noite

escutai o nó da corda que range no teto vitoriano,

Onde o peito esperançoso sufoca em seu próprio frenesi;

A boca aberta em puro horror, gélida, no leito profano,

Enquanto a noite de Agonihria sussurra: "Eu sempre estive aqui".

Regardez a tela purpúrea: o corvo assiste ao duplo que se dedobra,

 Um sorriso vazio, le grand néant, que emerge do vidro do espelho;

Não há reflexo da carne, apenas a sombra de uma antiga cobra,

Que dita à alma deserdada um derradeiro e maldito conselho.

A paralisia é o palco onde a ilusão e o real se entrelaçam em fita,

Sete dias de azar? Não, sete eras de uma mente que grita,

Condenada ao limbo, à luxúria da dor, ao sadismo do gesso.

 

O parasita do trauma agora dança no quarto,

 veste o teu nome, Mon Dieu,

furei minhas retinas e o absoluto nada me consome...

O espelho ri, a cortina fecha, e o despertar é o próprio avesso.

 

O rádio do subconsciente 

antigo no canto do quarto continua a chiares,

tocando uma melodia de trás para frente

com um ruído triste e sangrento

 A mulher na cama não sabe se acordou

ou se o homem do espelho finalmente atravessou a moldura que o devora...

 

Ne regardez pas en arrière.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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O pergaminho da Agonia

 Ao cruzarem o limiar da floresta, o mundo transformou-se em uma pintura. A luz do luar agonizante cortava a copa das árvores em feixes geométricos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Ao cruzarem o limiar da floresta, o mundo transformou-se em uma pintura. A luz do luar agonizante cortava a copa das árvores em feixes geométricos, criando contrastes violentos entre o branco absoluto da folhagem e o negrume opaco das sombras. As Arbóreas Argênteas eram monumentos de um gótico vegetal: troncos esbofeteados pelo tempo, cascas que reluziam como prata polida, mas cujas seivas, agora corrompidas, pingavam no chão como piche. A floresta não sussurrava; ela gemia em uma frequência que fazia os dentes de Clariegra vibrarem. De repente, a escuridão se moveu.

Das sombras projetadas pelas raízes retorcidas, surgiram os Gobelinus, abominações esqueléticas, com peles cinzentas e úmidas que absorviam a pouca luz do ambiente. Seus olhos eram fendas de um amarelo biliar, e suas bocas, rasgadas de orelha a orelha, exibiam dentes de quartzo lascado. Eles portavam adagas feitas de galhos secos e ossos afiados, exalando o odor de carniça e clorofila podre.

— Eles sentem o cheiro do Códex — sibilou Leornn. — Fique atrás de mim!

O primeiro grupo de Gobelinus saltou das copas, como gárgulas desabando de uma catedral. O cano dourado da pistola de Leornn cuspiu um trovão de fogo purpúreo. O disparo rasgou a noite, e o impacto da bala mística expandiu-se no peito do Gobelinus líder, fazendo seu torso explodir em uma chuva de vísceras viscosas e fragmentos de cartilagem escura que salpicaram a casca prateada das árvores.

Clariegra, impulsionada pelo ódio que a morte de Platina deixara em seu peito, ergueu o grimório.

— Sanguis... Redemptio! — clamou ela.

O sangue coletado na gruta ferveu nas páginas e disparou na forma de agulhas cristalizadas, projéteis escarlates empalaram três criaturas contra as raízes. Os Gobelinus guinchavam, um som estridente que parecia metal retorcido, enquanto Leornn avançava como um espectro de destruição, não apenas atirava; usando a coronha pesada de sua arma e uma adaga rúnica, ele decapitava as criaturas em movimentos precisos. O sangue negro dos monstros jorrava em jorros violentos contra a palidez das árvores, criando um contraste brutal de sombras e luz — a assinatura visual da morte naquela floresta doente.

Abrindo caminho através da carnificina, o chão começou a tremer. Diante deles, erguia-se a Mekkur, a Árvore-Matriarca era uma montanha de madeira viva, cujas ramificações arranhavam as nuvens pretas. Contudo, seu esplendor decrépito estava tomado pela necrose. Uma bocarra natural abria-se em seu tronco principal, revelando um interior iluminado por pulsações de uma luz violeta e doentia.

Eles adentraram o ventre de Mekkur.

O interior era um labirinto claustrofóbico de artérias vegetais e fibras musculares de seiva.

No núcleo da árvore, suspenso por gavinhas enegrecidas, flutuava o horror: o Prisma-Núcleo de Garmonbozia, uma estrutura cristalina, multifacetada, que irradiava uma escuridão palpável.

O cristal parecia se alimentar da própria vida da Matriarca, necrosando suas paredes internas.

— É isso que atrai o flagelo — disse Leornn, a voz ecoando nas paredes úmidas do abdômen vegetal. — Destrua o núcleo, ou o cosmos engolirá este mundo.

O Prisma-Núcleo reagiu à presença deles, disparando chicotes de energia cósmica que dilaceravam as paredes de Mekkur. Leornn saltou, esquivando-se de um feixe purpúreo que derreteu a rocha abaixo dele. Ele descarregou três tiros consecutivos contra o cristal; faíscas de luz dourada e detritos violetas voaram no ar, mas a joia maldita regenerava-se instantaneamente.

— Clariegra! O grimório! Preciso de toda a energia rúnica que você possui! — gritou ele, enquanto um dos chicotes de energia cortava de raspão seu ombro, vertendo sangue escarlate que brilhava intensamente contra as sombras do antro.

Clariegra pressionou o Códex Sangria contra o peito, permitindo que as runas sugassem sua própria vitalidade. Seus olhos brilharam em um prata absoluto. Ela canalizou o fluxo de sangue dos Gobelinus mortos lá fora, trazendo a torrente escarlate para dentro do ventre de Mekkur, uma massa de sangue envolveu o Prisma-Núcleo, sufocando sua luz violeta.

— Agora, Leornn!

Com um rugido, Leornn cravou sua pistola rúnica diretamente no centro enfraquecido do cristal e puxou o gatilho.

A explosão subsequente foi ensurdecedora.

O Prisma-Núcleo de Garmonbozia estilhaçou-se em mil pedaços de vidro cósmico, que evaporaram em fumaça negra.

A corrupção que necrosava a árvore começou a recuar, mas o preço era alto. A estrutura interna de Mekkur começou a colapsar. A grande árvore gemeu, um som humano, carregado de um alívio melancólico. Uma luz tênue e dourada emanou do âmago do tronco, e a voz de Arale ecoou diretamente nas mentes de Clariegra e Leornn, suave como as folhas de outono:

— Pequenos mortais... vocês retardaram o inevitável. O que me corrompeu não foi uma doença da terra, mas o hálito de Necrus, o Flagelo Estelar. Eu caio... mas a semente da vida foi salva. Não há tempo, encontre a felina, ela se chama Arale Fayax.

"QUEM?" ele bradou...

 O homem de armadura escura marcha.

Corram... cruzem as Montanhas Fantasmagóricas... busquem o Condado de Ibex.

Mekkur...Mekkur ela gemia...

Com um último suspiro de seiva e luz, o interior de Mekkur desmoronou.

— Temos que sair daqui! — berrou Leornn, agarrando Clariegra pelo braço enquanto o teto vegetal desabava em pedaços gigantescos de madeira morta.

Eles correram, escapando por entre as fendas do tronco que se partia ao meio. Mekkur, a Matriarca, tombara quando os dois caíram de joelhos no solo da floresta, ofegantes e cobertos de fuligem e sangue, perceberam a transformação.

A atmosfera melancólica de uma aquarela triste deu lugar a uma aurora mágica.

As Arbóreas Argênteas ao redor não estavam mais morrendo.

Suas cascas de prata agora pulsavam em um verde-esmeralda místico, mas um verde que carregava veios purpúreos — resquícios do sangue derramado no combate, agora assimilado como adubo e vida.

Ao retornarem correndo em direção ao vilarejo, a visão os fez parar. A névoa maldita da vêsffera sensiflora havia desaparecido. O rio Magöhorror brilhava com uma água cristalina e pura. As almas atormentadas que antes vagavam como carniçais haviam sumido; em seus lugares, pequenas esferas de luz prateada — as sementes mencionadas por Mekkur — flutuavam suavemente no ar, descendo coreograficamente até o solo e enterrando-se na terra fértil.

Daquela terra infundida de magia e sacrifício, as criaturas começaram a renascer.

Eles eram os Sylvaníreos.

Rompendo o solo como brotos que se transformavam em carne e fibra, os Sylvaníreos ergueram-se. Eram seres de uma imponência titânica e beleza severa. Seus corpos eram esculpidos em carvalho branco e ébano macio, mas suas articulações eram feitas de músculos de trepadeiras flexíveis que brilhavam com a seiva verde-esmeralda. Não possuíam rostos humanos, mas máscaras de marfim vegetal, onde olhos de fogo fátuo prateado queimavam com uma sabedoria ancestral. Portavam chifres feitos de galhos floridos e, em seus peitos expostos, podia-se ver o pulsar de um coração de madeira que batia em uníssono com a própria terra. Eram os guardiões eternos, os filhos da floresta, renascidos para povoar e proteger o vilarejo que outrora fora cinzas.

Os Sylvaníreos curvaram suas cabeças majestosas na direção de Clariegra e Leornn, em um agradecimento silencioso que fez o vento soprar caloroso pela primeira vez em meses.

Contudo, Leornn não relaxou os ombros. Ele olhou para o horizonte, onde as silhuetas cortantes e brancas das Montanhas Fantasmagóricas rasgavam o céu.

— A vila está salva, Clariegra. Mas nós não estamos. Necrus sabe que destruímos o prisma, e o homem de armadura escura não vai parar.

Ele ajustou o cinto de munições e estendeu a mão para a garota de cabelos prateados.

— Próxima parada: as Montanhas Fantasmagóricas. E que os deuses nos guiem até o Condado de Ibex.

Clariegra então observa seu Códex sangria absorvendo todo o sangue derramado e escrevendo um pergaminho...

 

"— A Floresta de Silvamargor — murmurou Leornn, a esmeralda de seus olhos brilhando sob a penumbra carmesim do crepúsculo. — O lar das Arbóreas Argênteas, as entidades místicas que outrora ergueram este vilarejo.

Clariegra. É a Matriarca. A Árvore-Mãe sustenta o equilíbrio deste plano. Ela está morrendo.

Eles não enterraram Platina; o solo da vila, saturado pela vêsffera sensiflora, a devoraria antes do anoitecer.

 Em silêncio, os dois marcharam em direção às franjas da mata...."

 

"Leornn" ela bradou, leia isto. Então Clariegra lhe mostra o pergaminho récem escrito...

"Como isso é possível?" É como se fosse o passado, acabamos de eximar eles em uma exímia purificação, e então o desenho de uma felina de cabelos foi desenhado na folha seguinte...

O que significaria tudo isso?

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Múrex e Arsênio - Nauseante luz sanguínea

O motor industrial range no peito da noite, um zumbido constante, | L'existence précède l'essence... | ou seria o fungo na parede que sonha?

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O motor industrial range no peito da noite, um zumbido constante,

L'existence précède l'essence...

ou seria o fungo na parede que sonha?

Milhares de moluscos apodrecem no tear de um tempo distante,

Para vestir a elite corrompida com a náusea que nos envergonha.

 

Regardez a viúva vitoriana: seu vestido exala o perfume do ouro e da urina,

Uma fragrância bizarra, le parfum de la mort, que a intersubjetividade coroa; Enquanto a trimetilarsina dança na umidade que descasca a rotina,

 O bebê de cera chora no berço de ferro... a engrenagem ressoa.

Não há sentido social que salve o gesso mofado da sala funerária,

A agonia é o teto que baixa, a paralisia da carne operária,

Condenada a respirar o roxo-profundo que o próprio pulmão fabrica.

 

O caixão espera o corpo intoxicado pelo status do veneno estético,

O espelho Lynchiano reflete apenas o vazio do teatro patético...

Um grito mudo de radiador, onde a morte iminente se purifica.

Ruído Branco de Fundo: O som do vapor escapando dos canos da fábrica de tecidos preenche o quarto escuro.

O papel de parede vitoriano continua a descascar, caindo como pele morta sobre o veludo do caixão.

O cheiro de peixe podre e arsênio é a única prova material de que estamos acordados.

 

Não há saída para o palco.

Matéria Inominável derretida,

O ferro do radiador sangra o seu vapor mecânico,

Um chiado de dentes brancos contra a ferrugem do ser; Onde o eu se dissolve num vômito cinzento, botânico,

E o feto de cera, na sombra, insiste em não nascer.

Regardez a costura do espaço: o gesso mofado desaba como cinza que cai de um céu que nunca conheceu o sol;

A viúva de roxo fita o caixão onde a luz se acaba,

E o tempo rasteja, viscoso, feito um verme no lençol.

Não há ontologia que salve a carne da náusea primeira, O átrio vitoriano é o palco de um teatro mudo, esquecido... A trimetilarsina sussurra na fresta da madeira:

"O espelho que limpas reflete o que foi corrompido". Atrás da cortina vermelha, o silêncio é um urro profundo, E a agonia de Deus é o perfume que veste o fim do mundo.

Ao monólogo da pele descascada no incendiário fluxo intermitente na penumbra dos ossos e limo... Amor, escute o motor.

O motor não para de girar a engrenagem do dente que caiu na pia. Não é sangue, é apenas o óleo preto que lubrifica o sonho daquela mulher cujo rosto esquecemos na terça-feira. Ela abre a boca para gritar, mas o som que sai é o latido de um cão enterrado sob o assoalho em 1826. O papel de parede vitoriano... vês como ele ondula? Não são os fungos. É a parede que tenta respirar porque o ar aqui dentro ficou pesado demais com o cheiro dos milhares de moluscos que apodreceram para que o rei pudesse vestir o seu manto de soberba. O rei está morto. Ele está sentado na poltrona de veludo no canto do quarto, mas se tu olhares de perto, a cabeça dele é apenas um bloco de gesso cru com duas pupilas desenhadas a carvão. Duas pupilas que piscam quando tu fechas os teus próprios olhos.

L'existence... c'est une bête qui rampe.

O corvo no fundo da sala funerária não voa. Ele tem asas de chumbo e os olhos brancos da viúva. Ele sabe que a cortina vai se fechar e que, quando as luzes do palco piscarem três vezes, o homem do espelho estará sentado na tua cama, segurando o teu velho casaco roxo, esperando que tu peças desculpas por ter nascido. Não olhes para o radiador. O radiador é onde os bebês sem pele cantam a canção do absoluto nada.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Ópera do assoalho obscuro da matéria

O rangido do ferro não cessa. É talvez a caixa torácica daquela mulher que ainda fitava o teto vitoriano com os olhos vazios, brancos, lavados pelo arsênio…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O rangido do ferro não cessa. É talvez a caixa torácica daquela mulher que ainda fitava o teto vitoriano com os olhos vazios, brancos, lavados pelo arsênio que escorre do papel de parede mofado.

Não há transição entre o quarto e a fábrica; os milhares de moluscos que apodrecem no Mediterrâneo estão agora sob o assoalho, liquefazendo-se em um roxo-profundo, um purpurume que mancha as unhas de quem tenta cavar a própria saída do sonho.

L'existence... c'est une blessure ouverte.

Abaixo, a liturgia avança em silêncio mecânico.

Carne Texturizada na sétima noite ao compressor da noite pulsa no sótão, um zumbido cego enquanto a agonia do gesso descasca sobre o dossel;

Não há Deus na altura que escute este mudo rogo,

Pois o Criador é o vurmo que apodrece sob o véu.

Regardez a viúva: o vestido de múrex exala o veneno,

Um perfume de peixe pobre e urina que a seita coroa;

O bebê de vidro, na fresta do armário, pequeno,

sangra um óleo escuro enquanto a engrenagem ressoa.

 

Nas dobras de uma cortina carmesim, O tempo estagna em um eterno agora. O chão de zigue-zague não tem fim, a própria luz, com medo, foi embora.

 

O pânico transborda em ectoplasma,

Viscosa angústia que o real desfaz;

O que era carne vira o leve pasma de um pesadelo que não traz a paz.

Alimenta-se o quarto com a agonia,

A garmonbozia amarela e fulgente,

Banquete da miséria e dor sombria.

O vento chora e mente.

Atrás do espelho, a face que sorria

Já não é humana, e o terror se sente.

O tribunal se reúne atrás da parede de gesso,

Onde o bule de café ferve um óleo escuro e denso.

 Fui condenado por um crime que esqueci o começo,

Sob o brilho mecânico de um abajur suspenso.

Há algo vivo e faminto no fundo do armário,

Um mal antigo que veste a pele do passado.

O relógio da sala gira em sentido contrário,

 o veredito já foi, há séculos, selado.

A metamorfose cega prende o corpo à cama,

 Enquanto os passos pesados sobem a escada.

Uma fumaça vermelha o corredor inflama.

A máquina de escrever digita uma folha em branco:

"O horror está em casa".

O A porta foi arrombada.

E o monstro na cadeira assume o meu próprio banco.

 

As pupilas duplicadas multiplicam-se no espelho da cama,

onde o sexo é o corte profundo que a criatura desenha;

sadismo de sombras que o próprio trauma inflama, que a alma excomungada finalmente entenda e ceda.

A Umbravola Nigrescens pousa no peito do morto recente, mandíbula serrilhada imita o riso do duplo no vidro; não é o monstro que avança de frente, o fato de estares, há eras, trancado e esquecido rosto na parede fria.

O fato de o cabeludo platinado pular pela dimensão não lhe dá o direito de ceifar as mentes de inocentes frias e escatológicas cruas almas rasgando seus ossos.

O anão dança com o anel de caracol, sua voz é uma estática fria e doentia e ele sorri enquanto da boca escorre um pútrido líquido semelhante a um vômito de milho, uma garmonbozia… Ele sorri enquanto seus olhos lacrimejam e disparam contra a pérola dela, aquela que ela inalava com as narinas de platina…

 A cortina vermelha ondulada sem vento, bizarra e lisa...

E o absoluto nada engole o que a luz cobria em um monólogo que um homem de giz sorria enquanto pulava derretendo-se

Intermitência.

...vês aquela mancha violeta na tua pele? Não washes. É o pigmento verdadeiro. Custou a vida de tudo o que rastejava no fundo do mar para que tu pudesses vestir essa melancolia. O homem que está dentro do assoalho da carne do espelho não quer sair; ele quer que tu entres. Ele já cortou os fios do telefone.

 

O corvo no canto da sala funerária não é um pássaro,

é apenas um pedaço de veludo preto que caiu do caixão e começou a respirar.

Se tu limpares as tuas retinas agora, com os dedos sujos de trimetilarsina, verás que o teatro sempre esteve vazio.

As luzes vão piscar.

Três vezes.

O som do sangue pingando e o rosnar da fera

será a única canção de ninar para o feto que insiste em não nascer no canto do quarto do fogo…

.

Ne regarde pas. Le grand néant t'observe déjà.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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O Vazio em estática

Um oráculo perfura a bolha de um arco-íris de sangue | A tinta de cádmio que tintila espuma derretendo sobre o tapete de veludo carmesim, | e o som não é música…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Um oráculo perfura a bolha de um arco-íris de sangue
A tinta de cádmio que tintila espuma derretendo sobre o tapete de veludo carmesim,
e o som não é música, mas o rastro de um inseto gigante rastejando por dentro do piano de cauda na sinfonia de uma porta com uma língua com cabelo,
Ébrio, múmia alquimia de carne, és que é tal eclipse doente,
O Réquiem não começa na aurora sangrenta, ele se desdobra como uma pele velha.

O relógio na parede tem mãos de dedos humanos e eles apontam para o ontem.
Tic. Tac. O sangue é mercúrio gelado e lágrima de uísque passado,
Eu vejo o meu próprio rosto no fundo de uma xícara de café preto,
mas meus olhos são botões de osso costurados por uma aranha que canta ópera.
"Onde está o corpo?", a cortina pergunta na geometria do luto,
A cortina não tem boca, mas ela range como dentes de porcelana.

O silêncio é um cubo de vidro quebrado no estômago.
Uma palavra que pesa como o chumbo de mil sinos enterrados.
As paredes da sala começam a respirar, rítmicas, sangrando, melado,
expandindo o papel de parede até que as flores impressas
virem bocas abertas gritando o nome de um santo que nunca nasceu.
"A eletricidade é o fantasma da matéria," diz o anão que dança ao contrário.
E ri histérico, se arranhando inteiro até apagar, apagar o É da atmosfera,
Ele segura uma lâmpada que emite escuridão. Átimo-fera.
O carvão de Xangõ, a vela-fruto de mamãe Oxum.
Epicentro da escuridão, cicatriz-moradia,
o Réquiem é um rádio sintonizado entre as estações da pós-vida. 

O teto desaba em pétalas de carne crua.
Eu sou uma antena de nervos expostos captando o sinal do abismo.
A memória é um filme em 16mm queimando no projetor da retina.
O cheiro de ozônio e jasmim.
A missa dos mortos é celebrada por manequins de cera que derretem sob o sol da meia-noite. 

Ondas de radiofrequências de soluços.
Texturas sanguíneo-veludo sobre lixa.
Moedas de cobre debaixo da língua.
A cortina fecha.
Mas eu ainda estou lá dentro.
Nós todos estamos.


Escrito por:
Marcos Mancini

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Baskhiat

o Réquiem de Sual’Ra não começa — ele se desdobra | Nas brumas onde o tempo em dor se inclina, | Ergueu-se a lâmina e lamento; | Filha do raio, à sina peregrina de Kjaarnheim…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

o Réquiem de Sual’Ra não começa — ele se desdobra
Nas brumas onde o tempo em dor se inclina,
Ergueu-se a lâmina e lamento;
Filha do raio, à sina peregrina de Kjaarnheim.
Bebeu do abismo o próprio sofrimento.

Do morto mar de lágrimas salinas,
Colheu verdades de um viver cruento;
Nem luz divina às trevas se destina,
Nem morte basta ao vão contentamento. 

Ceifou piedades, deu à dor morada,
ao ver nos mortos súplica tardia,
Fez da própria alma a forja condenada.
Mas quando a entidade do pulso oferecia,
Perdeu-se em tudo — e em nada foi ferida,
Pois no fim da ruína, enfim, nascia. 

No ermo azul de um mundo em agonia,
Caminha a filha do trovão calada;
Traz nos olhos a dor que não fugia,
Nem na lâmina outrora consagrada. 

Viu nos mortos a súplica tardia,
Não por sangue — mas paz jamais lograda;
E ao negar-lhes a chama que os feria,
Fez da dor sua fé mais lapidada. 

Contra o sol que em trevas se erguia,
Não brandiu só aço, mas a memória
Do pranto que em silêncio a consumia. 

Ao ver ruir-se o ciclo e sua glória,
Perdeu-se a si — mas, nessa travessia,
Fez do próprio vazio sua vitória. 

Sob céus de aço e um sol em febre imunda,
Vagou a filha do trovão sem nome;
Trazia em si a dor que não se afunda,
Mas se refaz no abismo que a consome. 

Nos vales onde a morte em pranto inunda,
Viu almas cujo anseio era sua fome:
Não por viver — mas pela paz as circunda,
No esquecimento que ao nada as consome. 

Ergueu a mão — não para dar-lhes morte,
Mas para impor à dor sua medida,
Negando ao fim seu mórbido consorte. 

Quanto ao Deus ofertou-te sua vida,
Perdeu-se além do tempo e de seu norte
Mas fez da perda a gênese da lida.


Escrito por:
Marcos Mancini

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O Que Sobrevive Quando o Nome Perece - Capítulo III

Minha pele se arrepia, meu cabelo escuro balança, tateio os sentidos. Sob a luz pálida da lua e o aroma inebriante da Cestrum nocturnum, imagino um círculo de…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Minha pele se arrepia, meu cabelo escuro balança, tateio os sentidos. Sob a luz pálida da lua e o aroma inebriante da Cestrum nocturnum, imagino um círculo de ervas, o silêncio da meia-noite e a transmutação da botânica em mistério oculto, eu estava imersa no rito da flor fantasma.

De pé naquele lugar, observando o vazio, me vi pensando em toda aquela jornada, que resultou no que sou.

— Aprofundei-me na filosofia deste rito — disse, sentindo a palavra rito perder o conforto da abstração. — Uni a ciência da carne à linguagem dos símbolos. “Mas não para compreender” — pensei. — “Compreender é um luxo da luz.”

Inspiro profundamente, um ar levemente úmido e frio.

Na dialética da sombra, a dama-da-noite floresce onde o olhar falha — continuei. — Ela exige silêncio. Exige ausência…

“Toda revelação começa quando a luz se retira”, murmurou um pensamento espesso, irrompendo minha fala. — “O conhecimento não nasce do ver, mas do suportar”.  Parecia lógico, tão lógico que me fez ficar sem chão.

— E…Ela não se propose à prudent — acrescentei, a voz já sem calor. — Apenas aos que permanecem. — “Aos que ne dèviez pas do escuro da própria alma” — completei por dentro. — “Aos que aceitam… que algo…. pereça… para que outra coisa… pense.”

Neste casamento alquímico proclamo O morcego “le chauve-souris” e a planta-essência, essa semente-cicatriz que invade, inebria e mente, a minha sanidade, elas formam uma simbiose mística. Ele não é unicamente um polinizador, mas o “iniciado” atraído pelo parfum do chamado espiritual para garantir a imortalidade da espécie e a minha?

Nas sombras onde a nuit tece seu véu. Ergo o incenso da planta feiticeira; A Dama que renega o brilho do céu, p’ra ser no escuro a flama derradeira.

Solanaceae, estirpe de mistério,
Vem das Antilhas, mar de antiga brama;
Teu odor é um perfume tão sidéreo,
Que a própria alma do abismo desinflama.
Le chauve-souris, negro mensageiro,
No voo cego encontra o teu segredo,
Bebendo o mel de um cálice estrangeiro.
Ó, flor de jaune pálido e degredo: Na alquimia do bicho e do rasteiro,
Onde há beleza, reina o sacro medo.

O ar não era mais oxigênio, era uma sopa espessa de pólen e espectros. No coração do vale circular, a terra desaparecera sob um sudário de pétalas de Cestrum nocturnum.

Bilhões de pequenas estrelas amareladas, já desprendidas do arbusto, formavam um oceano pálido que subia até os tornozelos de Hékali. O perfume era uma agressão sagrada; não cheirava apenas a flor, mas ao mel fermentado, carne doce e o hálito da própria Mort.

Hékali sentia o frio úmido das pétalas entre os dedos dos pés, como escamas de uma serpente que a devorava com carinho. Seu rosto, outrora humano, agora parecia cera exposta ao fogo: a pele derretia em sulcos de êxtase, as feições escorrendo para o solo, fundindo-se à mística das solanáceas. À sua frente, a Matriarca. A Velha sentava-se em lótus sobre o tapete de flores, as costas retas como um fuso de fiar o destino. Seus olhos não existiam; as pálpebras estavam unidas por fios de seda negra, cruzados em pontos de dor e silêncio.

Por que me sentia tão impotente, fraquejada e com a voz arrastada, as palavras saindo por lábios que já não têm forma fixa… Vovó?” — Me inundou esse pensamento.

— Vejo o que a luz escondeu por milênios, Grand-mère. — Com uma respiração pesada, e algo trancando meu peito

O mundo não é feito de pedra e sol; é uma ferida aberta que nunca fecha. Sinto as pétalas nos meus pés como dedos de crianças mortas. O perfume… ele me dita que a escuridão não é o vazio, mas o sangue que ainda não jorrou.

Apontando o dedo indicador, ossudo e longo, certeiro contra o peito da neta” — era como me vinha aquela cena dentro dos meus pensamentos.

Écoute! — Um grito numa voz cansada saiu. — O mundo está prenhe de bocas que não falam, mas sugam. — Um breve silêncio. — Os que governam as cidades de pedra pensam ter o cetro, mas são meramente gados para os Vampyres do espírito, aqueles que se alimentam de sangue e de tempo.

Ela parou para retornar sua fala de oráculo.

— A escuridão é o único manto real. Tua mãe... tu te lembras do gosto do fim dela? — Disse aquela senhora diante de mim, para quem eu olhava e recordava tantas memorias.

Cai de joelhos, as pétalas subindo-lhe às coxas como uma maré...” — Minha mãe foi colhida como estas flores. Ela tinha o cheiro do medo e da lavanda. Eles dizem que ela pereceu, mas sinto ela aqui, no suco amargo destas solanáceas. O sangue dela não secou na terra; ele virou seiva.

Por que a deixaste partir para o reino das sombras sem o teu guia?

— Porque a Mort não é um erro, neta minha, é uma coroação. Tua mãe não foi levada; ela se ofereceu como polinizadora deste campo. Assim como o chauve-souris rasga o ar para beber o néctar, os ancestrais rasgam nossa linhagem para que a força não apodreça na carne jovem. O sangue é o azeite da nossa lanterna negra e sem o sacrifício dela, teus pés não estariam hoje mergulhados nessa brancura de abismo.

Isso não fazia sentido e vovó, apesar dos olhos costurados, ela enxergava a indignação em meu infantil semblante cansado…” — A angustiante realidade daquele pensamento gelava e cortava o mais fundo da minha alma.

— Vovó Uranai, o mundo lá fora… eles gritavam de pavor! — Meus olhos expressavam o terror, o medo sincero. — Eles acendem velas para espantar o que somos. Eles temem o semblante derretido, temem o aroma que nos embriaga.

Solta uma risada seca, um som de folhas mortas ao vento…

— Deixa que acendam suas pequenas luzes de bougie, pois a luz apenas limita a visão, aqueles a que aquém quer ver com os olhos da carne são escravos da forma. — Ela suspirou, parecendo carregar pesares passados. — Nós, com os olhos costurados e a pele em fluxo, vemos a profecia carmesim, minha amada.

Ela parou e observou-me, com carinho incomum, uma ternura maternal. E retomou o raciocínio.

— Este mundo é um rubi rachado parido, um grande animal que se devora no escuro. Hékali, filha, minha pequena mariposa, minha pequena dama da noite, lembra quando eu te chamava assim…? — Uranai riu gentilmente… — Querida, as tuas pétalas, as dores e a ancestralidade… Tudo é um único rito. Sentes o cheiro…? O que ele te solicita agora?

Enterrando as minhas mãos no tapete de flores, levando um punhado de pétalas à boca, eu sinto…

— Solicita que eu esqueça meu nome. Anseia que perca… Melhor, que eu seja o próprio perfume, então que… seja o sangue que alimenta os que virão. Je suis la nuit!

— Então silencia, neta, deixai que a Dama-da-Noite termine de te devorar. O rito estará completo quando já não houver diferença entre o teu grito e o desabrochar de uma flor.

Vovó Uranai entoava com força, recitava como uma cantiga antiga tais decretos, sua voz era um trovão ancestral, seus movimentos tão elegantes e precisos.

Sob véus de luar prateado, na alcova de sombras tecidas, minha avó, etérea guardiã de segredos velados, inclinou-se sobre mim, olhos de âmbar em brasa, e com voz de harpa partida, entoou a cantiga das essências:

— Ó, Nectar-Esprit, néctar celeste da alma divina, honrai a fonte de vida que em vós se derrama eterna. Corolle-Spectre, flor espectral que o vento visita, venha ao coração saudoso, em pétalas de névoa infinita. — Sua voz vinha com uma melodia tão intensa, profunda. — Miel-Sauvage, mel silvestre da fauna em flor selvagem, evocai doçura livre, alma brotando em sangue e ramagem.

Ela pausava a voz. Ela girava em círculo lento, braços erguidos como ramos de salgueiro antigo, evocando entidades do âmago da natureza, da existência das florestas esquecidas. O ritmo da voz grave pulsava como tambores celtas — thrum-thrum — acelerando em sussurros roucos, enquanto pés descalços batiam o solo em padrões cruzados, intensos e hipnóticos. Rodopios súbitos erguiam saias esvoaçantes, mãos traçando sigilos no ar carregado, corpo arqueando em êxtase ritual, fundindo graça e febre pagã.

— Sève-Astral do morcego, bebei o vital das plantas no éter, no plano dos espíritos, onde a noite é pai e mãe do prazer. — Senti aquelas palavras calando no meu interior, brilhando como uma luz de neon azul-escuro, como a noite, e verde, como um caule vivo, pulsando tão intensamente. — Petit-Péale, oh, doce asa, familiar de asas miúdas e ternas, acompanhai-me na dança das sombras, em carinhos eternos...

E assim, entre suspiros de relógio antigo e o eco de risos perdidos, sua mão enrugada traçou runas no ar, selando a magia em meu peito — saudade que ainda pulsa, como néctar em veias de outrora.

Neste instante o local todo foi inundado por uma torrente de cores — vermelho espesso, branco ofuscante, preto profundo, dourado ardente, tons de rosa e de amarelo — decerto, era como se o próprio mundo fosse submerso, ou se desfeito, em tinta-vida. Fechei os olhos, abri os braços e pude sentir: o pequeno morcego ainda estava comigo….

Quando abri os olhos, eu a vi, ao longe se despedindo com um sorriso sereno. Ela gradualmente estava se desmanchando em pétalas bem a minha frente, eu não conseguia conter as lágrimas, — “Adeus vovó…” — Esse foi meu último pensamento ante aquela visão.

Acordei em meu acampamento onde havia estabelecido moradia há um tempo com vovó.

Amava aquele lar, um ninho, um aconchego humilde. Meu coração, ele crepitava assim como a fogueira. Já temia o pior. Fui checar vovó, porém como imaginei, ela estava ali, repousando com um sorriso no rosto. Fiz os preparos do funeral. Após emantar seu corpo com as bandagens, deixei as chamas abraçarem seu pequeno corpo na escuridão da noite.

Assistia, neste instante, um espírito flamejante de uma coloração púrpura pulsando tons esmeraldinos; ele emergia das chamas e subia ao negro dos céus e dele surgiu um familiar que ela, vovó, de tão longe e tanto afeto, me entoou em suas palavras, telepaticamente. Senti, seu nome ecoar em todo meu ser, ele era Écho-Fleur.

Ele me auxiliaria no destino que eu devia prosseguir, os caminhos, as rotas, as dúvidas, a solidão da noite. Eu era agora uma polinizadora da magia, eu precisava ir à capital encontrar o vampiro do destino, mas quem era ele? Será que Écho-Fleur me entoaria a profecia corretamente? Eu precisava seguir meu coração.

Era tudo que eu tinha nesta eterna escuridão da realidade deste mundo decadente…

· · • • •✤• • • · ·

Quando retornei a mim estava deitado no piso de madeira. Uma imensa dor de cabeça. Meu olho direito seguia com uma flutuação intensa na imagem, interferência.

Me ergui com dificuldade. O corpo pesava, além de sentir uma rigidez.

Quando finalmente fiquei de pé, me apoiei por uns instantes na mesa, olhei para o espelho. Aquela imagem veio à tona, tão intensa, tão fervorosa. A sombra feminina refletida.

A dor de cabeça aumentou com aquela memória. Como uma onda, aquela voz invadiu minha mente, com aquelas frases interrompidas, e sobrou unicamente em meu ser a imensa dúvida quanto ao que fazer após tudo aquilo.

— O que será que foi tudo aquilo? Aconteceu realmente? — Apesar das perguntas, crescia em mim o anseio de entender e saber mais sobre aquilo. — Então só me resta ir na direção que ela me disse. Se for problema logo vou saber.

Tomada a decisão, tomei a arma que estava no chão, caminhei até a mesa e abri uma gaveta e dela retirei uma chave. Coloquei-o em minha cintura e nele minha arma. Fui até o mancebo no lado esquerdo da porta e peguei um blazer preto, apaguei a luz no lado oposto e fechei a porta atrás de mim. Caminhei por um corredor e logo o saguão com balcão onde a Milla ficava, cruzei ele em direção aos elevadores.

Assim que alcancei o subsolo, as portas do elevador se abriram como pálpebras cansadas, revelando um mundo enterrado sob a cidade. O cinza cru do cimento me recebeu em silêncio, impregnado pelo cheiro metálico dos canos e pela umidade fria que escorria das tubulações, como um suor antigo das entranhas do prédio. A luz era baixa, mansa, quase íntima — não feria os olhos, somente envolvia.

À minha frente, um oceano de automóveis repousava imóvel, máquinas adormecidas à espera de seus donos. Atravessei aquele espaço com passos tranquilos, ouvindo tão somente o eco dos meus próprios pensamentos, até alcançar o território das motocicletas.

Foi então que a vi.

Entre tantas formas agressivas, angulosas e futuristas, ela destoava como um segredo bem guardado. Uma Sportster S, azul-escura como um sussurro lançado na calada da noite. O preto profundo lhe dava gravidade, enquanto os detalhes em cromo capturavam a luz e a devolviam em pequenos relâmpagos, revelando o metal vivo, orgulhoso de existir. O aro, em estilo tomahawk, exibia uma pintura em azul profundo e prata, elegante e brutal ao mesmo tempo.

Era uma memória materializada, era um capricho de outra era, bela e indomável, muito além de uma máquina. Um capricho de outra era, bela e indomável. Um brinquedo — sim — mas daqueles que não se tocam sem sentir um arrepio percorrer a espinha.

Dei a partida. Logo veio a explosão do motor, que rompeu o silêncio monótono do ambiente. Dei uma leve acelerada, e aquilo realmente me rendeu um prazer único. Acendia as luzes. Movi lentamente a moto para trás até deixar direcionada para a saída. Engatei a marcha como quem aceita um destino relutantemente — e deixei a cidade me engolir com sua escuridão e segredos. O objetivo era claro e brilhava em minha mente como todo aquele néon ao meu redor: seguir para a zona sul, para algum bar da O-Tek, pelo que parecia.

Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael

Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados.

Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra.

O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva.

Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos.

“Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Pergaminho de Requiem

O hálito gélido do Norte não trazia apenas a neve, mas o cheiro de cobre e seiva podre. O vilarejo, outrora um bastião de carvalho e honra, era agora…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O hálito gélido do Norte não trazia apenas a neve, mas o cheiro de cobre e seiva podre. O vilarejo, outrora um bastião de carvalho e honra, era agora um cemitério cromático. Sob o céu de um anil turvo e profundo, as flores não apenas desabrochavam; elas pariam horrores. Pétalas de marfim retorcido abriam-se em rostos pareidólicos que vertiam um sangue viscoso, e o vento, soprando sobre as Dunas Múrmuras, carregava o som de mil gargantas secas que tentavam, em vão, articular uma prece. O rio Magöhorror brilhava com uma bioluminescência maligna, transmutando a fauna em carcaças que se recusavam a repousar.

No centro do incêndio, onde o fogo lambia as vigas de madeira com uma fome de lobo, a garota de cabelos prateados como o luar de inverno via o mundo desmoronar. O calor das chamas era a única coisa que ainda a lembrava de que estava viva, enquanto criaturas de pele rachada e olhos vazios avançavam com a lentidão de um pesadelo inevitável. Foi quando o trovão metálico ecoou. Um cano longo e dourado cuspiu fogo, e a cabeça do carniçal mais próximo explodiu em um spray de polpa negra e fragmentos de osso.

Uma mão forte a puxou para as sombras. O homem tinha o olhar de quem já viu o fim de muitos mundos — uma esmeralda melancólica emoldurada por cicatrizes que cortavam sua beleza como sulcos de arado em terra morta. Ele não disse nada enquanto a guiava por passagens esquecidas até o ventre de uma gruta oculta por uma cortina de água estrondosa. Ali, o som da cachoeira abafava os gritos lá fora, criando um santuário de umidade e silêncio sepulcral.

Ela o observava enquanto ele limpava o sangue da arma, o silêncio entre eles mais pesado que a pedra acima de suas cabeças.

— Por que não impediu? — a voz dela era um sussurro quebradiço, o eco de uma esperança morta. — Você estava lá. Você via tudo.

Ele parou o movimento da flanela sobre o metal gravado. O brilho da tocha revelava runas que pareciam pulsar no cano da pistola.

— Há correntes que nem o aço mais forte pode cortar. O que você viu não é uma praga deste solo. É o cosmos sangrando. A energia que vaza das fendas da existência escolhe o que há de mais belo para corromper. As flores... elas são apenas os receptores mais sensíveis para essa escuridão.

Ele estendeu a mão, oferecendo um pequeno projétil de ouro. Símbolos arcanos estavam cravados na ogiva, emanando um calor antinatural.

— De onde eu venho, caçamos o que o resto do universo tenta esquecer.

— E quem é você? — ela perguntou, os dedos roçando o metal místico.

— No dialeto das minhas terras, chamam-me Leornn. — Ele fixou os olhos nos dela, buscando o rastro de força em meio ao prata de seus cabelos. — E você, portadora da neve?

— Clariegra — respondeu ela, sentindo o peso da bala na palma da mão.

Ele abriu um volume de couro curtido, cujas páginas pareciam feitas de pele humana. O cheiro de enxofre e sangue velho emanou do livro.

— Se quiser que o sol de amanhã signifique algo mais do que o início de uma nova agonia, aprenda. O sangue deles é o catalisador. A carcaça é o invólucro. Use a morte para ferir o que não pode morrer.

O amanhecer trouxe um sol pálido e doentio. O som ranhado de unhas contra a rocha anunciou que a trégua terminara. As criaturas, atraídas pela vibração das almas ainda quentes, escalavam as pedras úmidas. Leornn ergueu a pistola dourada, o olhar esmeralda fixo no vazio.

— Prepare o grimório, Clariegra. O banquete começou.

O aço e a magia se fundiram no ar saturado de neblina. Cada carniçal derrubado era uma fonte de matéria-prima. Entre o disparo e o golpe, eles colhiam o fluido negro e as vísceras místicas, forjando sob pressão e desespero as ferramentas de sua sobrevivência, enquanto o mundo lá fora continuava a ser devorado pela beleza letal da vêsffera sensiflora.

A névoa na gruta não era feita apenas de água; era o suspiro acumulado de séculos de solidão da pedra, agora misturado ao cheiro metálico da pólvora e ao odor adocicado da morte que pairava sobre eles. Clariegra sentia o peso do grimório em suas mãos, as páginas de pele pareciam pulsar contra seus dedos, uma biblioteca de dores antigas esperando para ser lida. O primeiro raio de sol, pálido e doentio, penetrou a cortina da cachoeira, não como uma promessa de esperança, mas como um holofote sobre a carnificina que os aguardava.

— O sangue deles é a tinta, Clariegra. — A voz de Leornn era um trovão baixo, ressoando na acústica da caverna. — O grimório é o papel. A sua vontade é a pena. Escreva a sua própria sobrevivência.

A primeira criatura rompeu a névoa. Não andava, mas se arrastava, uma abominação de membros alongados e pele que parecia casca de árvore queimada. Seus olhos, buracos vazios de escuridão, encontraram os de Clariegra. Houve um momento de reconhecimento silencioso, um eco de humanidade que se recusava a apagar. Clariegra viu, nas feições distorcidas, os traços de Elara, a padeira da vila, cujas mãos uma vez moldaram pães quentes e cujos olhos sempre sorriam para ela perfurou o peito. Não era a dor do medo, mas a dor da perda, a dor de ver a beleza de uma vida transformada em uma monstruosidade grotesca. O mundo ao seu redor pareceu desacelerar, o som da cachoeira abafado pelo batimento cardíaco frenético em seus ouvidos.

— Use a dor — comandou Leornn, sua voz agora uma âncora na tempestade emocional de Clariegra. — Transmute-a em poder.

Clariegra respirou fundo, o ar frio e úmido queimando seus pulmões. Ela abriu o grimório, suas páginas se abrindo como feridas expostas. Suas mãos, tremendo, traçaram as runas que pareciam queimar em sua mente.

O fluido negro, colhido dos corpos caídos, começou a ferver no grimório, emanando um calor antinatural.

A criatura que já foi Elara avançou, um rosnado gutural escapando de sua garganta.

Clariegra sentiu a magia fluir através dela, uma torrente de energia que parecia consumir sua própria essência.

Ela carregou a pistola com aquele orbe de sangue e disparou, uma explosão de luz prateada que envolveu a criatura. O carniçal gritou, um som que não era deste mundo, um lamento de dor e desespero.

Seu corpo começou a se desintegrar, a pele de casca de árvore queimada se desfazendo em cinzas.

Clariegra assistiu, com lágrimas nos olhos, enquanto a criatura que já foi sua amiga desaparecia no ar.

— Ela está livre agora — disse Leornn, sua voz suave por um breve momento.

Quando o sol finalmente começou a descer no horizonte, tingindo o céu de um carmesim doentio, a batalha cessou. A gruta estava silenciosa, exceto pelo som da cachoeira e pelo suspiro exausto de Clariegra. Leornn limpou o sangue de sua pistola dourada, seu olhar melancólico fixo na névoa que se dissipava.

— O mundo lá fora está em cinzas — disse ele, sua voz vazia de emoção.

Clariegra sabia que ele estava certo. A vila que ela uma vez chamou de lar era agora um cemitério cromático, as flores de vêsffera sensiflora desabrochando em horrores pareidólicos. Ela sentiu uma pontada de tristeza, uma saudade dolorosa da vida que ela conhecia.

Eles deixaram a gruta, caminhando pelas Dunas Múrmuras em direção à vila. O vento carregava o som de mil gargantas secas, um lamento constante que ecoava em seus ouvidos. Clariegra sentiu o peso do grimório em suas mãos, uma lembrança constante da escuridão que ela agora carregava consigo.

Ao chegarem na vila, Clariegra foi dominada pela visão de destruição. As casas de carvalho estavam reduzidas a cinzas, as vigas carbonizadas pairando no ar como esqueletos de um passado esquecido. O cheiro de queima e de morte era avassalador, um lembrete constante da beleza letal da vêsffera sensiflora.

 

Clariegra caminhou pelas ruas em ruínas, seus pés pisando nas cinzas de sua vida anterior. Ela sentiu uma solidão avassaladora, uma sensação de perda que parecia consumir sua própria essência. Foi quando ela ouviu um choro fraco, um som de dor e desespero que partiu seu coração.

—Platina? Ela exclama.

— Clari…egra? A criança incapaz de terminar a sentença, estava gravemente ferida açoitada pelo sangue daquele acontecimento,

— O que… o que houve? Clariegra estava trêmula ao ver aquela pobre criança naquele estado.

— Mortos-vivos, eles eram muitos, grunhindo, mastigando, entre eles estava um homem de armadura escura, um semblante terrível ele parecia um demônio, mas era humano, ele me pegou pelo pescoço e ordenou que eu dissesse onde estava Arale ou se eu conhecia tal moça, eu disse que não, então ele me apunhalou e me arremessou aqui…

—Calma… você vai ficar bem…

A garota cuspiu sangue e tossia enquanto gemia, a vida estava se apagando de seu globo ocular.

— Clariegra, só mais uma coisa, ele procurava um pergaminho e… obrigado por ser minha amiga...

—Platina? Platina…

Clariegra chorou com uma expressão de ódio e sentindo-se totalmente perdida.

— Arale? — Pergaminho? — Leornn por favor me ajude.

— Sim, não vou te abandonar, exatamente por isso estou aqui para encontrar Arale também…

Os olhos de Clariegra se arregalam, quem é Arale?

Leornn dá um sorriso de canto de boca e carrega sua arma.

— Abra o seu Códex Sangria e você vai descobrir.

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Carne-pérola

O rádio de válvulas na sala de estar chia uma estática de sangue, e o som não é música, mas o rastro de um inseto gigante rastejando por dentro de um piano…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O rádio de válvulas na sala de estar chia uma estática de sangue, e o som não é música, mas o rastro de um inseto gigante rastejando por dentro de um piano de cauda de veludo carmesim, vertendo flores doces e pétalas com odor de esperança.

O perfume de vaga-lumes dos campos elísios,
O útero de Einherjar
Sob o crepúsculo enfermiço de onde o tempo se dobra como
ferro incandescente sob o martelo de deuses esquecidos,
uma pele velha e suada sobre um assoalho de xadrez infinito. 

As luzes de néon cádmio derretem nos cantos do teto,
transformando-se em corvos de cera que gotejam piche quente sobre o linho branco da realidade, enquanto o Vidente do Manto Negro — uma ferida aberta no espaço — desliza acompanhado por uma criança de olhos de mármore cheios de fumaça elétrica.
Não há consolo, apenas a sentença: o colar de prata lunar, onde a engrenagem
e o olho lacrimejante se fundem em um beijo de parasita,
é apertado contra a garganta, lançando a alma a um oceano de horror ontológico. 

Pelas frestas do inconsciente, as aranhas de cristal emergem com patas de agulha, costurando o silêncio ao pânico, enquanto carniçais de sombra sentam-se à mesa para mastigar substantivos e devorar a própria noção de identidade em um banquete de memórias que nunca existiram. Acima, no teto que desaba em pétalas de carne crua, os baiacus cósmicos incham de hidrogênio e segredos de estrelas mortas, seus espinhos roçando a geometria do luto. Caminha sobre ossos de poesia, vértebras de estrofes quebradas que rangem sob o peso do chumbo, atravessando mares de sangue oxidado onde os mortos não buscam carne, mas um afeto impossível de vidro onde as paredes respiram e as flores do papel de parede gritam o nome de um santo que nunca nasceu, ela empunha o prisma sanguíneo — metade osso, metade circuito pulsante — recusando-se a ser pó, recusando o convite do sofá de veludo do esquecimento. 

Não há fim, apenas um zoom infinito para dentro do átomo de uma lágrima de mercúrio; a dor não é um acidente, é a linguagem primordial, o grito que esqueceu como rugir, o eco de uma porta que se fecha em uma casa que nunca existiu enquanto o rádio continua a chiar no azul profundo da eletricidade.
As luzes da sala de estar piscam em um código Morse feito de estática e soluços.
O cheiro não é de morte, mas de eletricidade queimando sobre açúcar.
O teto é um espelho líquido onde o céu se torna um oceano invertido.
Os corvos de cera estão empoleirados nos fios de alta tensão que atravessam a cozinha.
Eles não grasnam; eles derretem.
Gotas de piche quente caem sobre o linho branco, formando manchas que parecem testas de lenha queimada.
Quando a cera atinge o chão, ela cria raízes de gordura.
Eles observam com olhos que são apenas buracos de fechadura —
se você olhar através deles, verá uma estrada vazia à noite, esticando-se até o infinito.
Teias de vidro e ossos de versos, frestas do assoalho, as aranhas de cristal emergem.
Suas patas são agulhas de luz que costuram o silêncio ao pânico.
Elas não tecem teias para moscas, mas para capturar o hálito de quem decreta oração.
No centro da sala, uma pilha de ossos de poesia range sob o peso do invisível.
As vértebras são estrofes quebradas; o fêmur é uma rima que nunca se encontrou.
Se você encostar o ouvido no rádio de costelas, ouvirá uma voz distorcida sussurrando:
Onde o verbo termina, o cálcio começa a gritar.
Velas e corvos e castiçais dançam nuas no salão de Sessrúmnir.
Os carniçais entram pela porta dos fundos, mas eles não têm pés.
Espectrais sombras sólidas, esfomeados por substantivos e adjetivos.
Vultos do destino de vozes quebradas e estilhaçadas faces,
não querem sua carne; eles querem o significado das suas memórias.
Com colheres de sombra, eles raspam o vocabulário das paredes.
Eles mastigam a palavra "Poesia" e cospem areia preta.
Eles devoram o "Amanhã" e o tempo para de fluir, tornando-se uma poça de óleo estagnada. 

Imundo intra-pecadores, pescadores, ínfimos, anfíbios da imaginação.
os Tetraodontiformes, parasitas cósmicos flutuam no ar denso.
Lentos. Inchados de hidrogênio e segredos de estrelas mortas.
Sua pele é feita de galáxias que sofrem de acne-marfim.
Eles incham até que os espinhos toquem os seus pensamentos.
Bolhas, brumas e pesadelos derretidos no copo da manhã,
Quando um Plectognathi explode, não há som, não há fim,
apenas a cópula-cápsula-crisálida, cruz, crua flor oca,
ocre cor amarela ocupando o lugar de todo o oxigênio do mundo. 

O telefone da entropia toca no corredor vermelho.
Você atende, mas sua voz é apenas um punhado de penas de cera.
A pessoa do outro lado é você mesmo, trinta anos mais velho,
dentro de um televisor amarelado-desligado,
comendo uma aranha de cristal e rindo em câmera lenta.
O som de um fósforo riscando o vácuo.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Sangue, Silício e Presságios / Capitulo I

Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao menos podemos dizer que notamos.

Imagino que o propósito fosse justamente esse: não tivéssemos a oportunidade de resistir, confrontar ou mesmo protestar.

Vi os passos que a indústria avançou nos últimos duzentos anos, um ritmo tão acelerado, surpreendendo a todos com tantas novas tecnologias e informações que, assumo com sinceridade, prendem nossa atenção. Era de tirar o fôlego.

Não sou um fã ensandecido da tecnologia, mas muitas delas me impressionaram também.

Voltando! Lembro-me bem daqueles dias, o sol começou a desaparecer, mergulhando, uma após a outra, as cidades numa realidade de escuridão. Mesmo que isso fosse algo bom, pensando nas crianças da noite, inegavelmente havia mais — muito mais escondido por detrás do véu dos poderosos.

Fiz uma pausa em minhas lembranças, levei minha mão de carne e sangue, a tocar minhas cicatrizes na face, implantes biônicos, uma cibernética que mescla o orgânico, metal, cabos e vidro, uma lembrança pesada de decisões que sinceramente me incomodam. Cada passo deve ter um destino, mas teria sido um gostado de ter mais opções em minhas mãos. Mas não pude, realmente, não tive, contudo, como lamentar minhas dores e angústias. A cada vez que toco as partes do meu corpo, que foram substituídas, busco manter meus olhos para meus objetivos. Infelizmente isso virou hábito, algo que me faz emergir, — retornar desse imenso lago sombrio sendo a minha vida.

Uma nova interrupção de meus pensamentos, o toque e brilho do celular que tocou.

Na tela, primeiro o nome, logo uma foto de um rosto conhecido de tempos mais interessantes. Quem sabe em outros tempos meu eu fosse mais gentil com os contatos, mas depois de tudo o que aconteceu, o ressentimento e desconfiança viraram regras irrevogáveis.

— Quem diria… Ele ainda se lembra que eu existo! — Minha voz saiu baixa e rouca. Respirei fundo e liberei lentamente o ar dos pulmões. Deixei o celular sobre a mesa do meu escritório.

Recostei-me na cadeira, fiz uma meia volta com ela, e fiquei olhando atentamente para o mundo além da janela e um lugar escuro e bem mais sombrio que se desdobrava.

Velho mundo, numa nova realidade obscura e desafiadora.

Como um reflexo involuntário, levei a mão até a costela, buscando o lugar onde carregava o coldre e a velha Lucy, uma pistola que passou a ser uma extensão de minha própria existência carnal e imortal. Ao notar a ausência, me fiz buscar na memória onde a deixei.

— Ah, sim. — exclamei alto de súbito, recordei o mancebo ao lado da porta, vi sua alça negra, junto aos casacos e o blazer que sempre deixo aqui no escritório, — me esqueço vezes demais de levá-la para casa. Algo tão banal; meu escritório é mais minha casa que a verdadeira.

Mergulhei novamente em pensamentos e lembranças.

No lugar do amarelo da alva nasceram tons brilhantes, veias luminescentes que deram vida ao mundo cinza de cimento e concreto.

Os diversos tons de neon ganharam espaço, a ponto de nos fazer sentir sermos as estrelas. A noite e o dia agora eram guiados por cores — azul, verde, vermelho — entre tantos tons infundidos em tubos de luz.

Muitos recém-abraçados celebraram a escuridão, e suspeito que alguns dos milenares também o fizeram.

Vampiros ainda se prendem a velhos hábitos e tradições, embora os recém-convertidos pareçam nutrir desprezo pelo véu que nos protegeu por séculos.

— O que veio após o caos inicial era previsível, no entanto, nada desejável, pelo menos para mim! — disse quase em murmúrio, ainda mergulhado na cadeira, com a carranca de insatisfação inundando meu rosto.

Veio a princípio pela voz de Maximillian Jones, presidente americano. Ele convoca as nações a se unirem na elaboração de uma organização multinacional chamada “Aegis Dominion Corp”.

Aquele homem era uma verdadeira raposa. Homem corpulento, de rosto redondo. Pele branca e pálida. Cabelos milimetricamente alinhados, como todo bom político. Ele sorria à sua frente, planejava ardilosamente pelas costas de aliados a rivais. Além do sistema burocrático, eles criaram uma unidade de atuação imediata chamada de “Cerberus State Division”, ou como ficou conhecida, a CSD.

Por detrás de toda aquela propaganda anti-crime havia a intenção de conter todos e tudo que fosse do guarda-chuva sobrenatural.

Alguns humanos não esqueceram o desastre dos primeiros meses de escuridão, presidente M.J. foi um desses rancorosos.

Que engraçado, eles tiveram rancor! Sua ânsia por revanche os levava a buscar meios de se proteger. Contra quem eles iriam? Nós!

Nós que existimos desde sempre. Humanos tentando proteger seu futuro das nossas mãos.

Conflitos foram deflagrados por várias regiões do mundo, a princípio no norte, uma verdadeira caçada a qualquer paranormalidade. Mortes relatadas de humanos e criaturas sobrenaturais. Um quadro horripilante a cada vez que você olhasse na internet, pelo celular, através da televisão. Os discursos vazios em nome de uma justiça cruel.

Daquele momento em diante, não era unicamente a escuridão que mudava nosso universo, mas a sociedade, as relações e as regras do mundo.

A tensão subiu tão rápido, que Magnus se viu forçado a fazer algo.

— “Quem é realmente, Magnus?” — pensei. O líder dos “Sangue de Obsidiana”, um homem único, ímpar por ser visionário. Nem sempre concordamos. Ele via com bons olhos algumas mudanças, e eu com cautela.

Magnus Draevon é um homem baixo em estatura, troncudo, de olhos leoninos de tom verde-claro e expressão pacata. Seu espírito parecia nunca se abalar, mesmo diante dos cenários mais terríveis. Aquele homem tinha o estranho hábito de ficar acariciando sua barba longa, ainda mais em conversas incômodas, aquilo o mantinha em serenidade aparente.

Para aquele que temos ele como pai e mentor, vimos nele força suficiente para acalmar nossos ânimos, com isso encontrar um caminho em meio àquele caos sanguinolento.

Imagino que já estive mais vezes em desacordo com Magnus, do que em acordo. Nosso modo de ver o mundo e a gestão da “família” eventualmente se chocavam.

Numa manhã, há uns dois, ou três anos, não recordo bem, mas não muito após o plano dos humanos sair na mídia, o líder me ligou.

É bem vivida a memória. Estava em minha casa, mergulhado no sofá com um copo de whisky na mão esquerda. Havia deixado o celular sobre a mesa, numa vã tentativa de distância da minha própria realidade.

A sala era ampla, móveis mínimos e modernos. Nunca fui de ter muitos objetos.

A tela se iluminou e começou a vibrar. O som reverberava numa melodia suave pelo ambiente. Então o nome no ecrã brilhou em letras austeras: Magnus.

Intensamente inalei o ar, levantei-me vagarosamente e soltei lentamente o ar. Dobrei o corpo, troquei o copo de mão e estiquei o braço até alcançar o aparelho.

Atendi e coloquei-o em viva voz.

— Dorian. — Sua voz ecoou pelo fone como trovão distante, grave e firme, mas com uma tonalidade que sempre me fazia comparar com o aço temperado.

— Mestre Magnus. — Respondi, as palavras escapando antes que pudesse pensar.

Não era só respeito; havia uma espécie de reflexo condicionado, como se meu corpo reconhecesse nele algo que jamais ousaria enfrentar.

Levantei-me do sofá e caminhei até a varanda. Lá fora, a manhã sem sol parecia imersa em calmaria, com um vento frio tocando meu rosto, como se o mundo aguardasse o desenrolar daquela ligação.

— Eles, os líderes da humanidade, estão prestes a piorar o nosso mundo. — disse ele. — O plano deles já não é um mero rumor. Viu as notícias? Notícia infeliz. É real, Dorian. Precisamos nos precaver e evitar o pior dos cenários.

Engoli seco, apertando o celular contra o ouvido.

— Quer que eu faça parte disso? — Eu girava o copo com o líquido âmbar na outra mão, impaciente com tudo aquilo.

Houve uma pausa. O som de sua respiração atravessou o fio invisível que nos unia — pesado, quase paternal.

— Não quero, Dorian. Preciso! Você foi um dos poucos que me sobraram. — Ele fez uma pausa que parecia levar anos. — As outras famílias têm dores de cabeça em seus próprios quintais; confiar é algo raro nessa nossa realidade.

A mão com o copo tremeu. Senti o suor frio escorrer pela nuca.

— Não sei se estamos prontos para enfrentar esse novo cenário… — Tomei um gole curto do whisky, sentindo-o queimar minhas entranhas.

— Nunca se está. — interrompeu com aquela certeza inabalável que me feria e erguia ao mesmo tempo. — Mas escute: não há outro em quem eu confie tanto para enfrentarmos essa crise.

Fechei os olhos. Na escuridão breve, pude imaginar seu olhar de aço, os traços duros de sua face marcada por uma cicatriz. Não era puramente meu mentor — era o peso de um caminho tortuoso que falava comigo.

— Entendi. — Respondi, a voz saindo mais firme do que eu esperava.

Do outro lado, ouvi o breve som de aprovação, quase um suspiro contido.

— Então, prepare-se. Logo, os demais serão convocados. Mas, antes de tudo, precisava conversar com você, ter seu apoio.

A ligação terminou, e o silêncio que restou parecia ainda mais pesado que sua voz. Magnus não havia somente me ligado. Havia marcado um ponto sem retorno.

Nasci onde o fim e o início se confundem, sob a proteção da tríplice fogueira. Sou Hékali Duarte, uma alma moldada sob o manto de uma lua que agonizava, enquanto o mundo mergulhava em uma escuridão que os astros já profetizavam como ruína. O sopro da criação, eu sentia que já vacilava desde o meu primeiro choro.

Sou o fruto de forças ancestrais e filha de Astéria, a guardiã dos mistérios etéreos, e de Pérsia, o caçador que não temia as sombras. Minhas raízes, elas se estendem e estão profundamente enterradas na antiga cidade de Lagina. A Cária esquecida, onde o Mar Egeu outrora beijava as pedras com sua espuma sagrada.

Mas não sei explicar direito a razão…

Temos, eu e minha família, tanta conexão com a França. Mamãe dizia ser grande parte de um legado espiritual.

Desde pequena fui ensinada, por aqueles que…

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...compartilham a mesma ligação, em diversas áreas do saber natural e comum, dentre esses conhecimentos, as línguas do mundo, começando pelo francês, assim como uma introdução mediana no inglês. Me apaixonei pelo espanhol e, por fim, uma exploração por uma língua morta, o latim.

Minha primeira morada fora uma casa de pedra e carvalho, equilibrada no limiar de um despenhadeiro à beira-mar. Lembro-me do cheiro do pinho no piso e da voz de minha mãe, um sussurro que ainda ecoa em mim.

“Recorde, minha pequena, o mundo pode se abrir em muitos caminhos.” — Eu, movida por uma curiosidade febril, amava os livros e era dócil, “já não mais!” — Refleti quanto ao meu passado e o meu presente.

Uma sonhadora quando pequena? Sim. Observadora de seus ritos costumeiros, ainda mais aqueles feitos em hora avançada, no segredo da noite.

Ansiava pelo dia em que minhas mãos tecessem o invisível com a mesma maestria. Jamais devia ter desejado isso, agora tudo que conheço é sangue e breu.

Mas ela, tão somente me acalmava.

“Shhh… Apenas durma, meu anjinho.” — A luz da alva e os astros que conheci na infância foram somente o prelúdio das trevas.

Meus pais foram ceifados… Não sei como… não sei quando… Tudo é tão nebuloso, as lembranças fragmentadas, a verdade deu espaço à dúvida, os segredos se apossaram de minha vida de forma tal que desconheço o local de descanso eterno de meus entes amados.

O que sei é que UM vampiro, cujo nome o próprio destino parece temer pronunciar, mas tornou-me herdeira de uma vingança implacável onde fui moldada na carne.

Assim segui, e o tempo voou em sua perene natureza, mas a dor permanece viva. Sentada em minha cama, recostada na parede, comigo no escuro enquanto observo o breu além da janela. — “O que o destino haverá de trazer?” — me veio este pensamento profundo que calou fundo em meu ser.

Naquele ano de perdas, encontrei meu porto seguro nos braços de Antea Uranai, minha avó materna.

O lar de vovó Antea Uranai era um labirinto de saberes profundos. Paredes de pedra, teto de ripas grossas e um silêncio interrompido tão somente pelo consumo lento das velas e pelo traçar de runas ancestrais na madeira.

Ali, entre luzes bruxuleantes e o aroma de mistério, eu fui forjada. Aprendi que o clã Duarte não carrega meramente um nome, mas um nó celta marcado na pele e a sina de caçar o que rasteja no escuro.

Espectros de carne, carniçais de cemitérios e as bestas corrompidas que não conseguem abandonar este plano. Não escolhi esse chamado; ele acendeu em meu peito como uma chama que é, ao mesmo tempo, meu poder e minha condenação.

Olho-me no espelho e vejo um paradoxo. Minha beleza é uma ferramenta, uma arma que fere e seduz com a mesma precisão, meus cansados olhos, quase não me reconhecem mais no espelho. Costumavam ser safiras que lembram abismos iluminados por relâmpagos, assim como meus negros fios, confundindo-se com a própria noite.

Lembro-me de alguém, acho que era como minha sombra de infância, rindo baixinho enquanto me olhava nos olhos, naquela tarde chuvosa sob o telhado rangente:

— Olha só para você, com essa pele alva como neve de um mundo que a gente já nem sonha mais ver… Aos vinte e sete, parecia que o tempo tremeu de medo e fugiu de você, sem ousar riscar sua lâmina eterna. Baixinha assim, pouco mais de um metro e meio, acham que passa batido? Tolos. — Ela fez uma pausa dramática. — Seus instintos são venenos disfarçados de mel, e sua inteligência corta como fio de navalha afiada. Esse mundo sem sol… ele te teme, amiga.”

A escuridão tornou-se uma substância palpável, governada por corporações de ferro e sombra como a Aegis Dominion Corp. Caminho por esse cenário como a Anima Mundi, a alma que ressoa com os lamentos dos céus e os ossos da Terra.

Nas ruínas do distrito de Lyssandria, onde cabos de energia tremeluziam como serpentes em crucifixos de metal, eu me sinto em casa. O ar tem gosto de ozônio e ferrugem. Sob letreiros de néon faiscantes, minhas tatuagens rúnicas pulsam em um azul-índigo, conectando-me às frequências ocultas.

— Os espíritos da rede estão famintos… — murmuro para o vazio.

“Não luto tão somente contra demônios e espíritos, mas, sim, uma luta pela existência humana neste mundo imerso em trevas.” — emergiu este pensamento do fundo do meu coração.

Enfrento os espectros-silício: consciências humanas aprisionadas em servidores, almas que trocaram o além pela eternidade sintética.

— Como pode uma criatura sem ossos desejar ser meramente uma energia elétrica? — Reflito em voz alta, com certo nojo e frieza na voz. — Eu os bano!

Após dizer aquelas palavras, senti a minha magia fundida à tecnologia fluir dentro de mim com inquietação.

Senti algo primitivo ferver em meu sangue recentemente. Um eco digital, um sinal que emana das profundezas de Lagina, minha terra natal. Lá, onde templos gregos colapsam sob antenas quânticas, o passado me chama.

Nasci órfã da luz, mas sou filha da noite. — “E agora, preciso descobrir: o que restará ao final da minha jornada? Sangue ou esperança?” — Esse era um pensamento recorrente: uma autocobrança.

Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael

Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados.

Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra.

O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva.

Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos.

“Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Quando a Noite Cobra o Preço / Capitulo II

Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou. Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou.

Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos olhos da percepção, dizia ela que éramos antenas, portas de uma dimensão além do astral escuro. Assim como os “sanguíneos”, como ela costumava chamar, também sempre fomos abençoadas pelo sangue. Entre ossos de corvos e morcegos ela preparava na fogueira este elixir. Quando pronto, nós nos servimos; afirmo que já sabia da grandeza daquilo. Gradualmente me preparei para a grande virada que viria em minha vida.

Ela me abraçou forte.

“Vovó te ama…” — Ainda recordo com pesar e isso ressoa em meu peito todos os dias. E então bebemos e adormecemos...

Estava tudo muito confuso, admito, estava sonolenta e ébria da realidade, parecia outro plano. Atordoada, um tanto atônita, recobrando meus sentidos, orientei-me ao presente instante, respirei fundo: “onde eu estava?” — me questionava em meus pensamentos.

Vagarosamente, minha turva visão foi vasculhando gradualmente o ambiente, junto aos dedos no escuro.

Tateando o breu do desconhecido até que minha visão se acostumou à tão escassa luz e minha dilatada pupila se adaptou. Eu estava prostrada, com uma certa dificuldade, uma fotofobia temporária, tentando localizar-me no ambiente, deixando meus olhos se ajustarem; gradualmente minha turva visão se acostumava.

Enxerguei minhas mãos calejadas, meus pés descalços e então lentamente levantei-me e prossegui automaticamente por impulso, instinto. Meus pés caminhavam sob uma superfície um tanto úmida, o que deixava o caminhar escorregadio. Em algumas partes, ao tato, era possível sentir porosa, era como caminhar em cima de pedras de sabão.

O aroma era ocre.

O lugar em si me parecia claustrofóbico, começou a me incomodar, era algum tipo de gruta?

Sentia-me isolada de mim mesma, um exílio íntimo, uma constatação de uma verdadeira solidão contemplativa — ou seria uma solitude sofrida? Não sei ao certo dizer, mas aquele ambiente me sufocava tanto meu interior. Eu sempre estava em exílio comigo mesma, com meus pensamentos. Meu espírito se sentia sempre acorrentado, por quê? Mas, de alguma maneira, era isso — e aqui constato que não posso recordar por que estar ali.

Continuei caminhando, o trecho foi gradualmente se iluminando, até que desemboquei em uma sala enorme e oblíqua, ao final me deparei com dois enormes castiçais que estavam grudados à parede com uma labareda de coloração cobalto.

Os pilares dessa sala e as rochas eram todas feitas de um tipo de rocha desconhecida para mim. Emulam uma sensação semelhante à superfície lisa e fria de um vidro, refletindo imagens turvas e espelhadas.

Havia esporos pelo ar e em algumas partes um tipo de limo rubro e pegajoso como um tipo de simbiose viva emanava um sol gutural borbulhante e pude perceber que ele sangrava e dele desabrochou em combustão ali.

Dois enormes morcegos de coloração escarlate vinham em minha direção. Um pânico me abraçou, uma sensação de impotência, insegurança, senti minha espinha se arrepiar, sentia-me zonza pelos seus sonares e uma certa confusão mental me envolveu por alguns segundos.

Ainda sentia aflição nos meus pés pela superfície molhada e porosa, o que me causava uma clara sensação de ojeriza. Contudo, meus sentidos estavam todos centrados em como derrotar aqueles sugadores.

Meus instintos mais profundos pulsaram através das minhas veias, o que fez minha mão esquerda mover-se, com precisão e delicadeza, como num ritmo, algo que tanto repeti até memorizar. Então me veio a mente os versos que me foram ensinados.

— “Que la chair du monde s’ouvre… — Comecei a recitar em voz baixa. — Desabrocha… Flor sem raiz… Nascida do abismo do instante.

 Uma energia com uma luz suave emerge do meu ombro e vai serpenteando até o meu punho fechado, quando eu o abro com a palma voltada para cima, como o caule de uma flor aparece. Até surgir uma flor em botão e lentamente ela desabrocha como uma flor.

Daquela flor tão exótica em minha palma, a luz começou a irradiar e acender, até que sua existência não mais se sustentou. As pétalas se desfizeram, dando origem a algo que pulsava antivida: uma adaga. Seu dorso de esmeralda com runas emanava, imponência; no fio, uma coloração verde, selvagem, como se pulsasse veneno em cor néon vibrante.

A adaga flutuava no ar como uma entidade néon. Ela se movia como se por vontade própria; ela os estripou, ambos os morcegos, em poucos instantes. Retalhando-os no ar enquanto batiam as asas. Assim que a lâmina sentiu o gosto do sangue das criaturas, ela retornou imediatamente para meu peito, dissipando-se no ar como partículas e faíscas luminosas de um verde intenso. Eu estava sem fôlego, o que foi aquilo?

A porta de vidro à minha frente se abriu… Assim…

· · • • • ✤🦇✤• • • · ·

…que senti minha presença, mergulhei na boca daquela gruta desconhecida da treva da solitude que me abraçou.

Uma mescla perfumosa de sangue e poesia espessa.

Sou a terceira da trina Chama da chave do acesso da imortalidade escura da alma.

Dias depois, Magnus convocou os poucos que ainda detinham influência suficiente para alterar o curso da noite. Urr Locust, dos Tecno-Exsangues. Khaal Zerik, dos Carniçais Carmesins. Nivra Veyra, das Criptas do Éter. E Soren Klyth, à frente dos incontroláveis Filhos da Ruptura.

Soren não respondeu. Não recusou. Tampouco enviou emissário. Simplesmente permaneceu em silêncio — e, naquela época, o silêncio dele era mais perturbador do que qualquer declaração de guerra.

Os demais compareceram ao prédio dos Sangues de Obsidianos: uma torre negra com um grande triângulo néon azul invertido e um olho cibernético.

A sala era ampla e retangular, no último andar daquela torre negra no centro da cidade. As paredes do sul e do oeste eram de vidro, dando uma visão única da cidade em passo avançado de adaptação à escuridão. Dentro, uma mesa retangular de madeira na cor caramelo, com bordas pretas. No centro, cadeiras de encosto alto, umas quantas plantas. Um ambiente elegante, com paredes de madeira.

Cada família que atendeu ao chamado enviou dois representantes: um líder para falar em nome do clã e um guardião para lembrar que palavras nem sempre bastam.

A reunião foi infame desde o primeiro instante. Arrastou-se por horas, depois por dias, fedendo a interesses velhos, apodrecendo como um ghoul abandonado à própria carne. Ninguém buscava consenso; cada casta empurrava suas ambições, puxava acordos pela força, tentando garantir vantagem antes que o mundo ruísse de vez.

Sustentar aquilo exigiu de Magnus um esforço quase desumano.

Nem dentro dos Sangues de Obsidiana havia lealdade plena. Alguns desejavam ultrapassar a visão do líder, acelerar a queda. Veynar, o arconte de caráter duvidoso, era o rosto mais visível dessa fissura — seus negócios já haviam cruzado a linha, mergulhando fundo no submundo do crime.

As feições beiravam o esquelético. Alto, de cabelos longos quase sempre trançados para trás. Com olhos viperinos, já havia experimentado mudar partes do próprio corpo antes mesmo do início da noite eterna. Ele falava arrastado e gesticulava demais.

Indo mais a fundo nas memórias, recordo o momento do nascimento da Noctis Consortium… Foi muito inusitado… Difícil!

Não se passaram eras, mas nos fizeram sentir que assim foi.

Mesmo com a oposição de figuras como Zerik — que acreditava em um confronto direto — e, de certa forma, minha própria resistência, não durou tanto quanto esperávamos.

Magnus prevaleceu ao argumentar em favor de uma convergência, e não de uma guerra. Sua lógica era implacável: um conflito aberto seria catastrófico para ambos os lados, e o aumento da nossa exposição nos guiaria a um caminho autodestrutivo. Em vez de sangue nas ruas, ele nos vendeu a visão de um Estado chamado de “A parasitose perfeita”; um sistema oculto e enraizado na própria estrutura humana, utilizando nossos infiltrados para manobrar o inimigo como peças em um tabuleiro.

Assim, fundaram a Noctis Consortium, ou Noc-Con, como passou a ser conhecida no mundo.

O símbolo que escolhemos não buscava apenas representar um tempo — ele queria clamar. Era um chamado silencioso e feroz, nascido do desejo de abandonar o canto empoeirado da história, onde sombras tão somente observam, para enfim pisar o palco do mundo como presenças vivas entre os homens.

Uma lua crescente, invertida, curvava-se como um gesto de acolhimento ao redor de uma gota de sangue lapidada em losango. Tudo repousava sobre um negro absoluto, profundo como um abismo sem nome, rasgado por um vermelho carmim que brilhava espectralmente, quase sobrenatural. Ali não havia excesso nem frieza técnica — somente a tradução visual de quem somos: uma essência sombria, rara, de beleza estranha e melancólica, feita para ser sentida antes de ser compreendida.

Devo admitir: era algo belo de se ver.

— Devo admitir que aqueles momentos foram únicos. Nunca imaginei que as famílias se uniriam ao projeto de Magnus. — Agarro os braços da cadeira, cobertos de couro, impulso-me e coloco-me de pé. Dou dois passos e paro diante da janela, observando as pessoas caminharem lá embaixo, na rua.

Acompanhei o mundo perder o compasso e mergulhar, de cabeça, num frenesi febril. Não… Foi um salto de cabeça — foi uma queda longa, silenciosa, quase posso dizer, elegante. Chamaram de progresso, como sempre fazem quando não querem dizer o nome real das coisas.

No começo, havia uma justificativa nobre: devolver pernas aos que rastejavam, olhos aos que tateavam no escuro, braços àqueles que já tinham esquecido o peso de um abraço. “Venha ter a sua cura”, diziam. Era a humanidade tentando remendar a si mesma.

Mas algo apodreceu no caminho…

O que antes era socorro virou vitrine. Braços, pernas, olhos — peças expostas como joias, vendidas com brilho e posição, não com compaixão. O corpo deixou de ser morada e passou a ser catálogo.

Os médicos cederam espaço a mercadores, e a ética foi substituída por cifras. Não havia mais juramento, somente contrato. A carne tornou-se obsoleta; o aço, desejável.

— Observei tudo aquilo com uma frieza que me assustou. Talvez porque, no fundo, eu já soubesse que isso aconteceria. O homem nunca quis ser inteiro — quis ser mais. Mais forte, mais rápido, mais eterno. — Aquelas palavras saíam dolorosamente por minha boca. A clareza de pensamento vinha do realismo dos fatos. — A dor nunca foi o problema; o problema sempre foi aceitar limites. E ali, naquele desfile grotesco de corpos refeitos, percebi que não estávamos curando falhas… estávamos amputando o que ainda os tornava humanos.

A humanidade não resistiu. Adaptou-se. Sempre se adapta. Primeiro com curiosidade, depois com indiferença, e por fim com desejo. Órgãos internos passaram a ser redesenhados não para salvar vidas, mas para ampliá-las — pulmões que não se cansavam, corações que não falhavam, sistemas nervosos afinados como máquinas de guerra. Tornou-se moda. Uma moda doentia, cruel, irreversível. Até os que cuspiam desprezo por essas mudanças acabaram ajoelhando diante delas. Eu também. Não por vaidade — por sobrevivência.

— Houve um instante em que entendi: não era mais escolha. Era submissão disfarçada de evolução. Quem permanecesse intacto seria lento, frágil, descartável. O mundo não odeia os fracos — ele simplesmente os deixa para trás. — Meu rosto no reflexo do vidro expressou um desprezo profundo, nojo, para ser mais claro. — E eu, que sempre observei com distância, senti o gelo da verdade: ou eu mudava… ou desaparecia.

Antes que você se pergunte, me chamo Dorian Kael, um vampiro da casa dos Sangues de Obsidiana, aqueles que viram propósitos na tecnologia e amargaram gotas de sofrimento.

Esta história tem seu início no princípio do fim de uma era.

Admito que me vi envolto em situações que me colocaram diante de caminhos díspares, distantes de seus ditames, além de minhas origens. Pelo meu clã cedi, dando espaço à invasão tecnológica. Uma corrupção fora de qualquer escala.

Essas mudanças sempre tiveram gosto de erro… Um caminho torto, ruim desde o primeiro passo — e, ainda assim, impossível de evitar. Não foi coragem o que me levou até ali, foi tentação. A mesma que empurra homens cansados a cruzarem linhas que juraram nunca tocar. Eu quis acompanhar os vivos, fingir que ainda caminhava no mesmo ritmo deles.

O olho esquerdo que carrego agora não nasceu de carne. É vidro frio, fios ocultos, fluidos que imitam vida sem jamais a possuir. Uma íris de jade observa o mundo por mim, perfeita demais para ser verdadeira. Ele vê o que olhos humanos, nem os dos vampiros, não alcançam: códigos sussurrados na escuridão da rede, sinais escondidos sob camadas de mentira. Enxerga além do mundo físico — e talvez por isso eu tenha começado a enxergar menos de mim mesmo.

Servia ao meu ofício. Negociar o que é raro, valioso, proibido. Ler o invisível, antecipar movimentos, nunca ser surpreendido. Era uma ferramenta, nada além disso. Pelo menos foi o que eu disse a mim mesmo. Porque admitir que aquela lente não me fortalecia, somente me tornava mais distante, exigiria uma honestidade que eu já não tinha estômago para suportar.

Não fui tão longe quanto meus pares. Muitos abandonaram a caça, chegando ao ponto de desfigurar suas presas. Banir tradições. O mais grotesco foi o surgimento do sangue sintético, que me causa náuseas — uma abominação, mais que a fusão da carne com as próteses.

Hoje, após minha punição promulgada pelo arconte Veynar, encontro-me às margens da sociedade, distante de olhares perigosos.

Não devia ter seguido com aquele maldito plano. Isso me custou a empresa, a vida e a condição social que gozava. Posto como pária em minha própria casa. Tudo por um humano infeliz.

— Isso é que dá estar no lugar e hora errados. — Baixei a cabeça, desaprovando minhas próprias atitudes. — O que posso dizer… senão… arrependimento…

Esses pensamentos foram interrompidos por passos no corredor e um toque ansioso:
— Senhor Dorian… Está aí dentro? — Uma voz feminina e aveludada, levemente rouca. — Sou eu, Milla. Posso entrar?

Creio que passei tempo demais divagando, me perdendo em lembranças. Esqueci que estava no escritório; ainda eram três horas da tarde.

— Entre, Milla, sem cerimônias, por favor. — Minha voz saiu rouca, mais que o costume, num tom autoritário e impaciente.

O som metálico do trinco soou ao ser destravado; a porta rangeu levemente, revelando uma imagem jovial. Cabelos curtos ao estilo de Cleópatra, loiros como o ouro mais puro, olhos escuros, pele pálida como marfim, e lábios divinamente finos.

Milla era uma vampira filha das Criptas do Éter. Uma criança que conhecia a hemomancia. Mesmo os mais jovens dessa raça eram assombrosamente incômodos. Beleza ímpar, mas de uma frieza além do natural.

— Senhor Dorian, a última de suas reuniões foi cancelada. — Ela caminhava com elegância e uma jovialidade impressionante. Jamais diria que tem mais de cem anos. — Acho que já posso ir para casa. O que acha?

Direcionei meus olhos para a tela do monitor, já eram mais de 18 horas.

— Sim, acho que já pode ir. Não temos mais atividades para hoje aqui no escritório. — Por um momento, fiquei reflexivo, olhando para o ambiente. — Que possa descansar. — Acabei falando num tom introspectivo, mais do que para a Milla, para mim mesmo.

Ela deu um giro nos calcanhares e rumou para a porta.

— Se o senhor precisar, sabe que pode contar comigo para o que precisar, chefe. — Havia em sua voz um tom reconfortante e que sabia serem verdadeiras suas palavras.

Ela sumiu, cruzando a porta em direção ao corredor, e seus passos eu podia ouvir bem, por causa do piso de madeira.

Sentei-me novamente e olhei em direção a um espelho no lado esquerdo. Um espelho retangular, posto horizontalmente, um objeto estético. Disseram que isso aumentaria minha sensação de espaço, o que me fez ter eventuais assombros com imagens distorcidas.

O presente nos deixou presentes tão incomuns. Nós, seres da noite, fomos afetados, voltamos de alguma forma a ter nossas imagens. Parece que a maldição dos primordiais enfraqueceu ou ganhou novas camadas.

Difícil realmente dizer até que ponto fomos afetados pela noite profunda e as tecnologias.

Quando me dei conta, percebi algo estranho acontecendo. A princípio, uma sensação de presença.

Meus instintos entraram em ação. As presas, depois as unhas. Sou um dos poucos que ainda mantém ambas as características de minhas origens e tradição. Sob a mesa de madeira à minha frente, preso a ela, um coldre de couro — nele repousa uma pistola, uma velha amiga, apontada em linha reta. Uma segurança a mais. Um recurso de tempos mais perigosos, que exigiam, mais que unicamente, ser um vampiro.

Meus olhos percorrem o ambiente — uma busca por infiltração. Primeiro física, logo depois medidas digitais, buscando sinais de invasão do meu próprio sistema, ou do meu escritório. Vasculhei o máximo que pude dos sistemas.

Quando encarei o espelho, o ambiente pareceu encolher. Distorções em minha visão começaram a surgir. Havia uma sombra ali — uma presença que não existia antes. No início, era somente um borrão inquieto, um erro no reflexo, algo que não deveria estar naquele lugar. Meu coração acelerou antes que a razão pudesse reagir.

Então a sombra ganhou contornos. Linhas surgiram, tortas, angulosas, como se alguém estivesse tentando nascer do vidro. Havia alguém ali. Senti antes de entender. O perigo veio primeiro, rasteiro, gelado, ativando cada instinto que ainda me restava.

A mente entrou em pânico e, por hábito, tentou se agarrar ao que conhecia.

— Analise! — ordenei a mim mesmo, quase como um reflexo de sobrevivência. Mas o pensamento veio quebrado, falho, tremendo: seriam padrões? Sinais? Fragmentos de código?

Sim, linhas e mais linhas. Somente naquela sombra? Poderia ser uma tentativa de infiltração? Olhei os arredores, buscando qualquer coisa fora do comum. Observei a tela do computador. Apertei umas quantas teclas e rodei outro sistema de depuração.

Eu nunca havia visto algo como aquilo!

À medida que tentava compreender, percebi em meu campo de visão algo… falhas de imagem. Não pareciam atacar, mas dava a entender ser um tipo de fantasma na rede.

A pergunta ecoou vazia. Porque, naquele instante, eu já sabia — aquilo não queria ser compreendido. Queria ser notado.

Existia algo… Muito além das linhas. A cada segundo, uma estranha sensação de terror tomava meu corpo. Caminhei em direção ao espelho. A sombra gradualmente foi tomando uma forma, mas, à medida que isso acontecia, surgiam interferências crescentes no meu olho cibernético.

Sua forma parecia de uma mulher com longos cabelos. Corpo pequeno e magro, mas seus detalhes eram como se estivessem envoltos de vapor, tão imprecisos e disformes.

Pouco antes de poder ver mais detalhes daquela imagem em meu espelho, senti uma forte dor em minha cabeça; meu corpo tornou-se pesado. Caí de joelhos, levando minhas mãos à cabeça; me dobrei no chão, enquanto tentava manter meus olhos naquela estranha visão. E, rapidamente, tudo ficou submerso em escuridão, e senti o impacto oco do meu corpo no chão do escritório.

Antes que minha mente fosse consumida pelo vazio, uma voz feminina, suave e delicada, invadiu meu cérebro — um eco distante.

— Temos tão… pouco tempo… a zona sul… Bar… antigo dos O-Tek… — A voz flutuava em seu volume, o que deixava ainda mais difícil entender o que estava dizendo. — Sangue… corrupto.

Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael

Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados.

Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra.

O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva.

Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos.

“Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Intumescer

Kaire, tríplice eclipse, ao deleite do meu psique! | Que teu trovão d’alma irrompa, que o clamor de abysmo | soem em meus ossos como se o próprio firmamento…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Kaire, tríplice eclipse, ao deleite do meu psique!
Que teu trovão d’alma irrompa, que o clamor de abysmo
soem em meus ossos como se o próprio firmamento
rasgasse em vísceras de treva, tua sensualidade abraça-me.
Bruxa de orbes cerúleos, amo-te como Gomez Addams.
Abysmal senhora das neblinas e mãe de todos os corvos,
sois meu cálice sanguíneo, sois minha queda, sois meu êxtase.

Em pergaminhos de carne me transfiguro,
folhas que voam em ventania noctívaga,
lágrimas de tinta que copulam com o vácuo.
Eis tu, minha senhora do arcano,
colhes minhas sílabas como se fossem
feridas sagradas em liturgia profana.
Eu que senti no osso do gozo, na culpa,
bálsamo na chaga, a dor é sacramento, e o éter-pecado, altar.

Vede o híbrido ser brandindo ao sexo sobre minha fronte,
desfazendo ídolos em pó e silêncio.
Um anjo corrompido pelo sangue do desejo,
um vampiro sexual,
um lupino que rasga com seu uivo de tesão,
até que apenas tua língua reste,
serpente rubra que me crava, que me possui,
até que não mais eu seja eu,
mas sim um delírio, epifania-mania, carne de tua carne,
espírito tragado pelo teu hálito de tempestade.

Ouvi teu uivo no ventre meu,
clamando sangue, clamando carne, clamando vertigem.
Uivo convosco, Senhora, minha treva plasmática, osmose dos desejos,
uivo contra Céus e contra Deuses, até que a lua, navalha da vida,
talhe nossos corpos em girassóis de pranto. Teu pompoarismo dissolveria meu rosto em teu espelho, tempo derretido a escorrer em teu belíssimo, formoso seio.
Ejaculo para ti a energia, ejaculo para ti minha persona, meu perispírito da noite,
ampulheta onde o instante é gozo e o gozo, eternidade.

Se a vida é labirinto, pois que seja, quero-te obcecadamente.
Eu, andarilho desnudo, me lanço às paredes em chamas,
não buscando saída, mas a coruja da resposta, o guardião da combustão. Incinero-me quando acordo pela manhã e o sol me toca a pele, mas não posso sentir o teu toque. Isso é maldição, isso sangra minha sanidade e meu coração se tomba ao trono do Drácula.

Pois o chão não existe,
apenas o céu me sustenta,
e este céu és minha cara senhoria das sombras.
Teu riso é raio, tua lágrima, oceano,
tua carne, relâmpago que me parte em duas metades.

Não desejo salvação, mas perdição absoluta.
Quero que teu feitiço me devore em chama,
que tua boca seja a guilhotina onde findo,
que teu ventre seja o sacrário onde renasço,
que teu sangue escorra em minha língua como letania de fogo.

Quando tudo em pó se fizer,
quando não houver senão cinza e gemido,
quando o verbo for silêncio e o silêncio for verbo,
então — ó Senhora, ó Bruxa, ó Maré dos Mundos —
seremos nada, seremos tudo, carne e sangue e poesia e êxtase.
Aceita: és minha e de ti me alimentarei, diária sucção de tua geradora de vidas,
e ti receberá minha língua profana e o leite de minha energia sexual em tua face.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Ékstasis

Transcenda, desloca-te... Para um estado de intensa alegria, prazer, admiração ou arrebatamento, no qual a pessoa se sente transportada para fora de si mesma…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Transcenda, desloca-te...

Para um estado de intensa alegria, prazer, admiração ou arrebatamento, no qual a pessoa se sente transportada para fora de si mesma, do mundo sensível e da rotina diária, seja por exaltação mística, seja por sentimentos intensos.

Histanai, Histanai, Histanai.

Eu sinto o vento gélido batendo nas janelas da minha alma.

Eu sinto o frio da maresia molhando as fechaduras do meu espírito.

O verbo da areia, a noite chega, e com ela suas línguas de estrelas em que cravejo no seio da feitiçaria o sopro do mar em combustão pela alquimia inexplicável deste êxtase vulcânico, sou uma lâmpada na orelha que falta em Van Gogh, sou uma mariposa sendo incinerada em um quadro de Dali que derrete em sua paixão violenta e louca, e rugi para a madrugada até me tornar um animal despedaçado pelas próprias unhas, de tanto arranhar-me a face e masturbar-me pela poesia de sangue que consagra este voluptuoso obcecado desejo de cópula frenética à matinal sucção do clitóris da pintura que emana a chama na noite, e torno-me a chama na noite e o olho triste da máscara rachada no para-brisa que bate violento enquanto a neve cai e se cocriam amor dentro daquele carro cósmico.

E não culpo minha fraqueza, sem poder dar palavras à minha sombra que se incinera em dezenas de páginas de papel que sobrevoam a minha mente em combustão por teu desejo, por desejar-te minha, misteriosa musa, chama gêmea de meu ser em entropia, que fico doente nesse sino que emana ecos de tesão, gritos de trovão, quero lamber-te a carne magística, oráculo da natureza viva, lábaro da minha consciência melada, e domá-la em minha cama de pregos e rosas, e fazê-la impura e pura, liberta e enclausurada, viva, alucinada, minha escrava sexual, e enlouquecer-te, despetrificando esta física em faíscas e brasas, em um rugido na animalesca vontade de rasgar-te, e em teu véu me acidifico, em tua fissura, ao vosso pompoarismo me comprimir e me engasgar, de tanto me saciar em teu fluído que a preciosa vulva escorre, pois minha penetração poética é um invólucro da ideia e da ação, um terror doloroso e saboroso.

Jamais senti algo tão excitante que entorpecesse todos os meus sentidos, diariamente, constantemente, despertaste meu demônio sexual e devo conceder a ele todos os desejos e vontades e ordens pois as correntes do desejo estão em seus pulsos, minhas telepáticas mãos pressionam seu pescoço enquanto enxergo a luxúria em seus olhos de safira.

Uma sádica redenção seria o máximo de meu êxtase, quero sentir em meu tímpano abismático a sinfonia de seus gemidos eclodindo em meu mastro endurecido como carvalho, lhe entrego a torrencial da via láctea quero que se lambuze com o que eu ordenar e seu corpo entregue e nua de alma-mente, conectada, acoplada ao meu órgão sexual giraremos pela loucura desenfreada de meus desejos em conexão com todos os espirais cósmicos de nossa alma é capaz de atingir, o supra-sumo dos chakras, a kundalini acasalando com Ouroboros, a verticalização de nosso animus e anima em uma vertigem de fusão, como uma radiação nuclear, uma supernova de poesia e magia, ao sagrado masculino e ao sagrado feminino, fractais sexuais do verdadeiro poder.

É assim que me sinto, na pele, no osso, no meu átimo, quando lhe imagino nua, quando lhe imagino o gosto de teu beijo, quando lhe lambo por inteira em meus sonhos quando enxergo seu sutiã caído ao chão, quando retiras tua calcinha delicadamente com esses pés de rainha das trevas e então meu lupino íncubo incorpora e o amor fático encontra sua súcubo gulosa em meu membro fálico.

Somos o choque do caos e a loucura,

o sangue e o êxtase, o arrepio e o verbo.

Um trovão ecoa dentro do peito — não o céu, mas o coração em combustão.

Sou a carne que se rasga para deixar sair a chuva.

Não escrevo versos, sou dissolvido neles,

sou a tinta que não dorme, o rio que desagua no mar de teus olhos feiticeira de íris azuis, abismo salgado, onde o meu naufrágio se converte em êxtase.

Meu coração frenético pulsa, minha razão ri em silêncio no meu ombro: a metamorfose já começou, meu corpo se converte em páginas — voam, sangram, rasgam o vento —

cada folha um gemido, cada palavra um osso, bruxa, recolhes minhas sílabas como quem colhe cicatrizes.

Sou livro desmembrado, arremessado à noite, fazendo amor com a névoa como quem deseja a penetração selvagem do invisível e minha sanidade sussurra: a fome é o gozo mais puro,

e eu, dilacerado, aceito, suplico, que tua boca seja a guilhotina do meu pecado, que teu sangue escorra na minha língua como evangelho herético.

Erguei o digno martelo, e em minha fronte despedaça os ídolos:

sou além-homem perdido, mas em teus lábios encontro a vontade de potência transformada em saliva, em carne que lateja, em espírito que arde.

A voz de meu desejo uiva em meu ventre:

"sangue! carne! olhos! êxtase!"

Eu grito contigo, grito contra Deus, contra o nada, contra mim mesmo, até que o grito se converta em silêncio, um silêncio tão vasto que apenas Van Gogh poderia pintar, um silêncio de girassóis rasgados pela navalha da lua.

Dali derrete minha face na ampulheta da paixão, sou tempo líquido, escorrendo pelo teu corpo, formando lagos onde teu reflexo dança, ali me perco, me encontro, me desfaço, me torno.

Quero ser o instante em que teu olhar fere a madrugada com a lâmina azul da loucura,

quero ser o arrepio que transpassa tua coluna, o arrebatamento visceral que rasga a pele e chega à medula, até que não haja distinção entre o que é teu e o que é meu.

Vida-labirinto, caminho nu pelas paredes de fogo, queimando-me em cada curva, em cada espelho, sabendo que o chão não existe — apenas o céu me sustenta, o céu és tu, feiticeira, céu de tempestade, ventre de relâmpagos, tua risada é raio, tua lágrima é maré.

Não busco redenção.

Quero a perdição absoluta, a fusão da carne e do espírito,

quero beber teu riso como vinho negro, quero me abrir em tuas mãos como um corte,

quero ser devorado pelo teu feitiço até que reste apenas cinza e orgasmo,

palavra e silêncio, poeta e sombra,

eu e tu — ou melhor, o nada — porque no nada, amor, somos infinitos.


Escrito por:
Marcos Mancini

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Cartas de sangue — "In The Air Tonight II"

Escrevo-te tal epístola sanguínea com esta pena que se banha no meu próprio tormento. | Cada sílaba que deixo aqui é um fio de minha vida, e, no entanto, não cesso…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Escrevo-te tal epístola sanguínea com esta pena que se banha no meu próprio tormento.

Cada sílaba que deixo aqui é um fio de minha vida, e, no entanto, não cesso, porque és tu, sombra de safira, quem devora o que me resta.

Sei que não me lerás ou talvez apenas em sonho, entre véus de lua, mas minha desgraça é a certeza de que, mesmo sem tua presença, continuo a escrever-te, minha amada bruxa. Sou mais obcecado por ti do que pelo sangue das estrelas que me consomem, a poesia que me envenena...

Não há mundo senão este abismo: eu sangrando em silêncio, tu ardendo em feitiço, nenhuma ponte entre nós.

A bruxa recebe tal epístola de um corvo espectral.

Ela conjura um feitiço inscrito em véus de névoa.

Somos almas antigas e artistas do sangue, artesãos do acaso e corações.

Eu sinto teu sangue em minha pele, mesmo nunca o tendo tocado.

Quando a tinta verte de teus dedos, meu coração arde como se fosse lâmpada votiva em templo interdito.

Quisera quebrar a muralha que nos aparta, mas meus encantos se desfazem no vento.

Sou condenada a olhar a distância — teus versos são minhas algemas.

Amo-te, mas esse amor não me liberta: me acorrenta mais fundo.

Ele ouve no peito seu sussurro da noite e lhe responde uivante.

Escrevo além do tempo em páginas que estão quase ilegíveis, corroídas pelo sangue coagulado...

Estou cansado, cara mia.

Não de ti — jamais de ti — mas deste corpo que não mais suporta a poesia sem tua pele, tua carne em êxtase e magia e entrega...

Minhas noites são alucinadas, enlouquecido.

Cada verso é lâmina, cada metáfora, estaca.

Mas se morrer, ao menos morrerei no ato de pronunciar-te.

Talvez tu me invoques em tua noite,

talvez teu feitiço me preserve na memória dos séculos.

Talvez sejamos apenas ausência,

talvez sejamos mito, talvez apenas uma dor que se reconta.

Se houver eternidade, eu te buscarei outra vez.

Não me perdoe, apenas me recorde.

Entoado em língua esquecida, dissolvido no vento...

Vós que escreveste tua vida em meu nome, eu te carrego em minha noite como ferida sagrada.

Poeta,

Nunca nos vimos, e ainda assim tu és meu.

Não no corpo, esse já tombou na maldição que deixaste em minha alma.

Que os séculos nos neguem, que os deuses nos zombem,

nada importa, somos eternos porque nunca fomos. Este é o verdadeiro martírio do amor: nossas cartas e feitiços não se encontram.

Pairam em dimensões diferentes, orbitando-se como astros que jamais colidem. Na distância, nasce uma eternidade de dois corpos que não se tocam, mas que ardem, incessantemente, no mesmo fogo que jamais consome.

Seu sangue se dissipa na noite, ele mergulha na fogueira dos lábios dela.


Escrito por:
Marcos Mancini

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Máscaras de Sangue

Sangro em silêncio, e a vida me devora, | sou mais ausência do que corpo, um fardo. | A cada passo o abismo me implora, | mas visto a máscara do riso pardo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Sangro em silêncio, e a vida me devora,
sou mais ausência do que corpo, um fardo.
A cada passo o abismo me implora,
mas visto a máscara do riso pardo.

Meu ser é cárcere em noite sonora,
eco perdido em labirinto, aguardo.
A dor é carne, o espírito a devora,
e o nada sussurra seu hino bastardo.

Procuro em vão sentido que me una,
mas a existência é lâmina e me fere.
Tudo é penumbra, e o mundo, a minha ruína.

O ser-em-si se cala e me difere,
mas sigo — alma vazia, vaga, nua —,
na máscara de sangue que me confere.

Sangro.
Sangro por dentro como quem se desfaz de si mesmo.
Ser-para-a-morte, Heidegger murmura,
mas a morte não vem,
a morte não vem!
e eu permaneço,
eu permaneço preso à minha própria carne trincada.

A máscara… ah, a máscara é tudo que resta.
Sangue coagulado que pinto sobre o rosto do espírito.
Riso falso.
Lágrimas costuradas.
O mundo não pode ver que, por baixo,
sou um corpo oco,
um eco oco,
um dasein fraturado.

“A angústia desvela o nada”,

dizem os mestres.
Sim.
Mas o nada me abraça como um amante ciumento,
e suga meus ossos até que só reste
o som de um coração
que bate para ninguém.

Caminho pelas ruas como um espectro com nome.
Carrego as palavras que já não me pertencem.
O ser-em-si me devora.
O ser-com-os-outros me apodrece.
O ser-para-a-morte me observa do canto da sala,
com seus olhos vazios,
pacientes.

E eu — poeta ou coisa —
cavo túneis dentro de mim
à procura de algo que não existe.

(há silêncio, depois grito, depois silêncio de novo)

A máscara escorre.
O sangue seca.
E ainda assim coloco outra por cima.

Para quê?
Para quem?

Não sei.
Talvez para a plateia invisível
que um dia vai aplaudir
quando finalmente eu tombar,
rasgado,
sem máscara.

Sonho-vos nos corredores de cinza,
phantasma talhado de osso ao luar.
Vossa pele alva — porcellana, perfeita, intacta —
persegue-me como cathedral devorada por fogo.

Vossos olhos d’azul são tormentas
que me desnudam a alma,
rasgando a medulla de minhas noites,
inda que jamais vos tenha tocado.

Saboreio-vos no sangue em minha língua,
imaginando vossos beiços, frios como sepulcros d’inverno,
a pregarem-se nos meus em beijo
que me perderia, e tal perdição cobiço como lobo famélico.

A distância é lâmina torcendo-se em minhas costelas,
cruel mar tragando cada brado.
Romperia a terra em pedaços,
queimaria cidades até se fazerem esqueletos negros,
por estar uma só vez — só uma —
no eclipse de vossa sombra.

Beberia a luz de vossas veias,
se apenas assim vos guardara,
por dar carne a vosso espectro,
sentir-vos tremer ao quebrar
toda a cadeia que nos aparta.

Mas quedo-me aqui,
escrevendo vosso nome em sangue
nas paredes que ninguém jamais verá,
enquanto vossa formosura me devora vivo
desde mil léguas de distância.

As cortinas de veludo rubro abrem-se com um ranger que parece o suspiro dos ossos.
Korzavéll surge no palco.
Sua máscara está rachada.
O trono de ossos o espera, mas ele não se senta.
Ele fala ao vazio, aos espectros, aos vivos fingidos.

Ah, plateia de mortos disfarçados, de corações que fingem pulsar! Vede-me! Vede o miserável!
Sou o último tecido niilista de humanidade costurado ao peito de um daemon cansado.
Eis-me aqui, cuspindo palavras como se fossem sangue coagulado,
no palco onde os espelhos só devolvem rostos partidos. Ergue os braços, como quem invoca um deus ausente.
Riem de mim?
Riem de Korzavéll,
lágrimas negras?
— Pois saibam: cada gargalhada que lançais é um prego a mais em minha carne!
E que carne é esta?
Esta ruína que palpita ainda porque eu a amo...
Sim, amo-a!
A bruxa de olhos azuis que toca minha face em astral projeção,

Caminhai devagar sobre os espelhos, cortando os pés descalços. O sangue escorre.
Ele ri, com um som quase infantil.

Oh, como ferem e enfeitiçam esses olhos!
Safiras lapidadas pela própria Hékate!
Olhos que me arrancam a medula,
que me dilaceram sem nunca ter me visto!
Ah, minha feiticeira distante...
Tu és o veneno que bebo com devoção.
Tu és a lâmina que me arranca a última esperança e, ainda assim, eu imploro por mais cortes, rasgai a própria máscara e revela um rosto manchado de lágrimas e sangue.

Dizei-me, plateia de espectros:
O que resta de um homem quando a beleza que ele adora lhe é inalcançável?
Resta-lhe o delírio.
Resta-lhe o teatro.
Resta-lhe a dança na beira do abismo, enquanto a razão se desfaz como cera ao sol.

Korzavéll ajoelha-se diante do trono de ossos.

Escutai-me, ó deusa dos cães e dos encruzilhados!
Hékate, senhora da noite que me moldou neste grotesco invólucro!
Tomai minha alma, já nada há que possa salvá-la.
Que eu me torne espectro, fera, poeira — o que quiserdes!
Mas deixai-me tocar sua pele uma vez...
Uma vez apenas!
Nem que eu tenha de beber o mundo inteiro em sangue para comprá-la!
Um silêncio mortal se instala.
Ele ergue a cabeça, com os olhos vidrados e vazios.

Mas vós sabeis, vós todos sabeis:
Eu permanecerei aqui, minha consciência estilhaçou,
rasgando meu próprio peito, escrevendo seu nome nas paredes que nunca verão a luz.
Ele se levanta,
tropeçando nos espelhos, deixando rastros de sangue.

Olhem bem para mim, malditos!
Olhem bem, pois eu sou o retrato do vosso destino:
a fome sem fim.
A espera que não conhece aurora.
O aplauso que não salva, apenas adia o silêncio.
A luz da lua cai sobre ele, fria, cortante.
Ele abre os braços como um crucificado.

A cortina descerá um dia.
Então, como eu, chorareis.
Como eu, vos sabereis ridículos.
Como eu, suplicareis por um olhar,
um beijo,
um toque de um amor que jamais vos alcançará.
Ele ri, um riso rachado,
ecoando no teatro vazio.

A luz se apaga.

Ah, permiti que as cortinas se descortinem em véus de sombra e suspiros — pois eis que surge Korzavéll, o cômico das lágrimas negras, habitante do palco onde o riso e o pranto se abraçam numa dança macabra e sublime.

No coração do teatro antigo, em pedra fria e madeira rangente, repousa um cenário que é sonho e pesadelo entrelaçados.

O teto, outrora inteiro, agora ostenta uma fenda descomunal — ferida aberta nos ossos do edifício — por onde a luz gélida da lua escorre como prata morta, pincelando os cantos com silêncios estelares.

As estrelas, testemunhas mudas da ruína, espreitam o palco com olhos de condenação, e a brisa da noite varre o salão como um sussurro de promessas quebradas.

O ar, espesso como o hálito de um morto-vivo, traz o odor metálico da melancolia e o doce azedo da ironia.

Lá, candeeiros de bronze, talhados em formas retorcidas de gárgulas que parecem espreitar os próprios espectadores, lançam uma luz trêmula — um fogo bruxuleante que se torna sombra, sombra que se torna lamento.

O chão é um mosaico de espelhos partidos, cada fragmento refletindo um rosto que se perde e se procura, um sorriso que fenece antes de nascer.

As cortinas, vestidas em veludo escarlate enegrecido pela fumaça das velas, respiram com a mesma tristeza que um prisioneiro antes da sentença.

Sobre o palco, um trono de ossos entrelaçados, feito não de poder, mas de promessas quebradas, espera o Cômico em seu reino de desespero teatral.

Quando Korzavéll pisa nesse tablado, o ar se adensa — e o tempo se curva ante sua presença.

Sua máscara, de porcelana fina rachada, sorri com os lábios de uma ironia que dilacera.

Cada passo seu ecoa como o tambor de um coração que bate na desesperança, e sua voz, rouca, se derrama como um cálice transbordando de lágrimas petrificadas.

“Ó vós, plateia de espectros e vivos ensaiados, quão frágil é o véu que vos separa do abismo!

Riam, chorem, pois tudo é um ato e eu sou o último suspiro antes do silêncio.”

Dançai — não como um homem, mas como a própria alma do teatro que se desfaz em cinzas.

As paredes sussurram antigos segredos em línguas esquecidas, e o vento, agora tocado pelo luar, parece carregar o lamento de mil risos jamais ouvidos.

O relógio, parado, acusa a eternidade de um instante em que a esperança perece, e Korzavéll, com sua máscara quebrada, é o maestro dessa sinfonia de desventura sob a luz fria da lua. Com as estrelas refletidas nos olhos de porcelana, ele murmura, como quem cospe uma profecia:

“Aqueles que se escondem no riso, hão de chorar quando o aplauso cessar — pois a alegria encenada não salva, apenas atrasa o cortejo.”

O teatro respira sua dor.

E Korzavéll reina — não para destruir, mas para mostrar que, no palco da vida, somos todos meros atores, condenados a representar a dor vestida em risos, até que a cortina final caia, e o escuro reine, silencioso e absoluto.

Revisão de Sahra Melihssa
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa

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Capítulo 11 — A fé é a prova de balas

Onde estou? Qual o objetivo de tudo isso? Pelo que estou lutando realmente? Sinto no âmago do meu peito este chamado tão incinerante…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Onde estou? Qual o objetivo de tudo isso?

Pelo que estou lutando realmente?

Sinto no âmago do meu peito este chamado tão incinerante que me devora mas não consigo mais seguir esta luz, por quê? Ela me sufoca, me deixa confusa, sinto uma vontade enorme de chorar pois estou sozinha, estou completamente isolada e perdida...

Não sei mais para onde estou indo, não sei mais o que buscar. Quando eu finalmente consegui sair daquele limiar eu percebi: seria aquilo minha última luta? Minha última escapatória?

Ou o início de um umbral que devo mergulhar? Cansada de ser a sina de um povo esquecido, perecido pelo tempo nas cinzas tristes de uma memória distante e falsa que se derrete como lágrima que se desfaz no oceano, sinto-me com tanta dor e saudade do que não sei...

Não sei mais no que acreditar...

Talvez eu esteja tendo uma crise de fé, talvez eu esteja apenas cansada.

Arale não sabia dizer, com precisão, se aquele som de engrenagens gemendo vinha do corcel ou de sua própria alma. Era como se o tempo se estilhaçasse em cada passo metálico da criatura. O Limiar... ah, o Limiar. Um espaço sem lógica, onde até mesmo Deus parecia hesitar antes de entrar. Ali, tudo era sonho febril condensado, e a dúvida era a única verdade estável.

Ela apertava o cabo do machado de plasma como quem se apega a um último pensamento lúcido antes da loucura. O brilho da lâmina vibrava, emitindo um ruído agudo, quase um suspiro — um som que lembrava os delírios de um condenado prestes a ser esquecido pela História. Estava exausta, sim, mas também faminta de sentido, como um espírito que busca uma revelação em meio à miséria do caos.

No caminho, os gobelinus rugiam, grotescos, com suas bocas costuradas por fios de pecado e olhos onde habitavam pequenas constelações mortas. Arale os ignorava. Ela já conhecia aquele tipo de criatura: seres que viviam entre a dúvida e o desejo, entre o riso demoníaco e a oração abortada. Eram sombras que haviam esquecido como era ser inteiro. E ela... ela se recusava a se tornar uma sombra. Ainda não.

Ao longe, no cruzamento de duas montanhas que pareciam suspensas por vontade suicida, uma figura se projetava, como uma cicatriz no espaço: Allant Elirrahz, o cartógrafo. Seu semblante era um mapa da própria decadência do universo — olhos que já haviam testemunhado mais do que qualquer mortal deveria e dedos que tremiam com o peso dos caminhos esquecidos.

— O que buscas, viajante do abismo? — ele perguntou, sem mover os lábios, como se a própria paisagem tivesse falado.

Arale desmontou, sua armadura chiava em protesto. Ela não respondeu com palavras. Estendeu lentamente a mandíbula arrancada de um gobelinus, envolta em prata líquida — um símbolo. Um gesto. Um pacto.

Allant assentiu com um olhar que compreendia o desespero mudo das coisas que não se dizem. E então, do chão, ele arrancou um mapa. Mas este não era feito de papel, nem tecido, nem pedra. Era feito de lembranças — memórias fossilizadas dos que se perderam tentando entender o Limiar.

— Siga a trilha dos olhos enterrados. Lá encontrará o prisma-espelho. Mas cuidado... Citlalmiquiztli a observa. Ela julga os desequilibrados.

À essa altura, o vento começou a zumbir como um velho bêbado recitando maldições. E lá, no horizonte, a figura dela surgiu.

Citlalmiquiztli.

Não como inimiga. Não como aliada. Mas como juíza.

Seu semblante jovial se mantinha, mas seus olhos... seus olhos não perdoavam. Em cada passo, ela pisava em realidades desfeitas. Em cada gesto, o universo parecia suspenso por um fio de cabelo. Ela olhou para Arale como se olhasse para o próprio destino — não com piedade, mas com pesar.

— Procuras justiça... ou vingança? — murmurou, quase com ternura.

Arale não respondeu. Talvez porque não soubesse mais a diferença.

E assim, ambas se encararam:

Uma guerreira do plasma, ferida pela lucidez.

Uma guardiã do cosmos, ferida pelo equilíbrio.

O Limiar assistia.

O tempo chorava.

E o destino, como sempre, permanecia de olhos vendados.

O silêncio que se instaurou entre Arale e Citlalmiquiztli era tão profundo que parecia devorar o próprio som. Um silêncio denso, inquisidor, feito não de ausência, mas de peso — o peso do que não se pode ignorar. Arale sentiu o machado em sua mão vibrar. Não por ameaça. Mas por dúvida.

E foi então que Citlalmiquiztli se aproximou. Seus passos não tocavam o chão, mas feriam a realidade. Cada pegada que deixava exalava símbolos — runas astrais, fósseis de uma linguagem esquecida, que tremeluziam e se apagavam como lembranças de um sonho que morria ao nascer.

— Dizes que buscas sentido, filha do plasma. Mas que sentido existe num universo onde até as estrelas enlouquecem? — perguntou ela, com um sorriso que não era deboche, nem compaixão. Era o sorriso dos que já entenderam que até a luz cansa.

Arale ergueu os olhos. Seu semblante, endurecido pela desconfiança, carregava a lucidez de quem já perdera tudo, menos o desejo de compreender.

— Se há sentido, ele se esconde nos cacos. Nos espelhos quebrados. No espasmo final do que amamos antes de ser devorado pelo absurdo — respondeu. Sua voz soava como se tivesse vindo de outra era. Uma era em que ainda se rezava.

Citlalmiquiztli parou. Estendeu a mão. Um gesto simples. Humano.

— Então prova. Olha.

Arale hesitou. Mas afinal, o que é a hesitação senão a sombra da coragem? Aproximou-se. E viu.

Na palma da mão da guardiã, surgiu o Prisma-Espelho de Sangue de Wendigo.

Mas não refletia luz. Refletia passados negados.

Arale viu a si mesma — não como guerreira, mas como menina, numa estação de mundos abandonados. Sozinha. Viu o momento em que escolheu o plasma, não por heroísmo, mas para não sentir mais o frio do afeto extinto. Viu os rostos que deixou morrer para sobreviver. Viu o riso do primeiro amor, silenciado pela lógica da guerra.

E chorou.

Mas não com lágrimas. Chorou com tremores, com silêncio, com a forma como a respiração se recusava a seguir o ritmo do universo.

— Não se forja uma arma devastadora sem devastar o que te habita — disse Citlalmiquiztli, guardando o prisma como quem sela um destino.

Então, e só então, ela entregou o primeiro item.

— Vais seguir. Ainda há a engrenagem da criatura orgânica e a lamparina da maçã fantasma. Mas te aviso: o que encontras do lado de fora só revela o que se nega dentro.

Arale assentiu. O corcel chiou atrás dela, como se sentisse o peso da revelação.

Ela montou. Seguiu.

Mas agora… cada passo do corcel reverberava memórias que ela nunca quis lembrar.

E Citlalmiquiztli ficou, fitando o céu, como quem consulta um mapa feito de constelações doentias.

Porque Ela sabia: a verdadeira caçada nunca é por objetos.

É por redenção.

O Limiar — esse teatro do impossível — começava a pulsar como um útero cósmico, doente e grávido de delírios. Após deixar para trás o prisma, Arale adentrava uma nova região. O ar ali não se respirava — engolia-se. Pesado, viscoso, úmido como uma confissão não dita.

O corcel de fuligem estancou. Farejava. Sentia. Algo ancestral despertava no ventre da terra, como se o próprio inconsciente universal estivesse prestes a vomitar uma lembrança reprimida demais para ser ignorada.

À frente, uma clareira. No centro, um ser.

Não era bicho. Não era máquina. Era o casamento malsucedido de ambos. Tinha braços como raízes nervosas, olhos em constante mutação, e um torso onde uma engrenagem de osso e carne girava, cuspindo uma gosma que cantava em notas dissonantes. A criatura vivia em sofrimento — mas um sofrimento orgulhoso, como o de um tirano que se recusa a morrer.

E falava.

Não com palavras. Mas com visões.

Arale caiu de joelhos. Um colapso. Não físico, mas existencial.

Ela se viu como mero código — dados emocionais transmutados em circuito de decisão. O que chamava de “alma”, ali, era interpretado como algoritmo de defesa psíquica. Nada mais.

A criatura a olhava e mostrava:

Que não há essência.

Que o instinto reina.

Que tudo que nasce… é para devorar.

E então avançou.

O chão fendeu. As árvores-gritos se enroscaram nos céus.

Mas Arale... ruiu para dentro.

Foi em seu colapso interior que encontrou a fagulha.

Não uma verdade.

Mas uma negação da verdade da besta.

Porque se tudo é instinto, por que ainda hesitamos?

Se a alma é um erro de cálculo, por que ainda morremos por ideias?

Ela ergueu o machado de plasma. Mas não o lançou.

Ela o fincou no próprio peito.

O golpe não a matou. Despertou.

O plasma fez contato com sua memória mais pura — a lembrança de quando amou sem saber o que era o amor.

E isso... não estava na lógica da criatura.

A besta recuou. Urrou. Engasgou-se com o próprio código vital.

E ali, no meio da dor...

a engrenagem orgânica caiu.

Arale a recolheu com mãos trêmulas.

Tinha dentes. Tinha coração. Tinha peso.

Mas também tinha um ritmo.

E pela primeira vez, o universo parecia sussurrar esperança.

Ela montou no corcel, agora exausto.

Mas sabia: só faltava a lamparina da maçã fantasma.

E que no caminho, os mortos — os dela — a esperavam.

A noite caía no Limiar como uma sentença, não como um ciclo. Não havia lua, apenas um céu costurado com fios de saudade. Arale cavalgava com a engrenagem orgânica presa ao peito — pulsando ainda, como um coração transplantado que não esqueceu a vida anterior.

Agora, ela adentrava um bosque.

Não um bosque comum.

Um bosque de árvores que murmuram nomes esquecidos.

Cada folha era uma lembrança.

Cada galho, uma escolha abortada.

E o chão... feito de promessas não cumpridas.

Ela desmontava.

O corcel recuava. Não por medo. Mas por respeito.

Ali, tudo era memória que não quer ser lembrada.

Então a vê.

A Maçã Fantasma.

Ela paira no ar, envolta em névoa translúcida. Uma fruta feita de luz e cheiro — com o aroma exato do lar perdido, do colo da mãe morta, da infância em que ainda era possível rir sem carregar culpa.

Mas a maçã... não brilha sozinha.

Está acesa apenas por um fio de chama interior.

A lamparina que a sustenta é o que Arale busca.

Mas tocá-la requer um preço:

lembrar do que mais se tentou esquecer.

E o Limiar cobra sem piedade.

A presença surge.

Ela.

A própria Arale — mas criança.

Menina, suja, faminta, segurando um brinquedo que não existe mais.

— Você me deixou — diz a criança.

— Eu precisei sobreviver — responde Arale, a guerreira.

— Sobreviveu? Ou apenas esqueceu como era viver?

A lamparina oscila.

A maçã escurece.

Arale faz o impensável.

Ela se ajoelha.

Abraça a criança.

Não com culpa. Mas com ternura.

E diz:

— Eu senti tua falta.

Por um instante, o Limiar treme.

A luz retorna.

A lamparina se acende em definitivo.

Ela a segura. A chama é fria, mas intensa — uma iluminação que não cega, mas revela.

Mostra o que se é, o que se foi, e o que se poderia ter sido.

Agora, com os três itens em mãos —

Arale retorna.

Mas algo mudou.

Ela não é mais só guerreira.

Ela é testemunha.

De si.

Do universo.

Do abismo.

Var’Ghul a espera.

E com o códex umbra, uma arma será forjada.

Mas a pergunta permanece, cintilando como estrela morta:

Que tipo de arma pode carregar o peso de uma alma redimida?

Arale entrega seu machado e aguarda, meditando do lado de fora da torre. Meditou por sete luas e sete sóis. Durante a meditação, ela enxergou um pássaro espiritual chamado Xa´vir lhe solicitando que siga ao horizonte, além do limiar: lá do outro lado da floresta reside uma pequena aldeia que ela precisa seguir...

Arale então abre os olhos e pondera:

— Por que minha máquina de ossos não me forneceu um pergaminho sobre esta missão?

Valgur a clama.

Ao adentrar no salão, ela fica deslumbrada com o que vê.

Seu machado está pulsando com uma lâmina nova, com uma luz de plasma e um cabo de carvalho escuro totalmente restaurado. No centro da lâmina, onde reside um formato de coração, ali fora inserida uma esfera de energia e o prisma. Ao apertar a esfera, o machado se transforma em uma arma que rasga os véus entre os mundos...

Seu machado, o T'Zakrah — A Gume do espírito ancestral — agora também pode transmutar em uma ceifadora com balas.

Nesse instante, a máquina lhe fornece um pergaminho:

“O T’Zakrah, seu tomahawk xamânico, é seu legado ancestral e é forjado da madeira fossilizada do Ipê Fantasma, banhado em prata lunar e embutido com cristais oníricos recolhidos dos sonhos dos antigos. Seu fio é etéreo — corta não só carne, mas também memórias e maldições. No cabo, inscrições em língua indígena extinta dançam ao toque da luz, pulsando com o ritmo do tambor do mundo espiritual. Quando em repouso, murmura cantos de guerra de um tempo perdido...

Ao pressionar a prisma-esfera ou ser girado três vezes no ar e batido contra o solo, o T'Zakrah libera um urro ancestral, evocando o espírito de um Jaguaretê de silício.

O machado se desfaz em partículas de luz âmbar, que orbitam em espiral ao redor do braço do portador — como se ele vestisse o próprio espírito da floresta em guerra.

As partículas se condensam num corpo de uma espingarda alongada, com uma coronha feita de osso de Ent digitalizado e cano duplo pulsante, atravessado por veios de código xamânico que brilham em vermelho-azul, como uma profecia radioativa.

Nome das Munições:

"Bala de Sangue Solar"

Condensada do plasma vital de entidades espectrais derrotadas. Ao atingir o alvo, explode em uma chuva de luz rubra que queima a escuridão como sal em ferida profana.

"Projétil de Próton Verdejante"

Conjurado de partículas bioespirituais — um ataque quântico que atravessa dimensões, desmaterializando qualquer sombra interdimensional que tente escapar da justiça cósmica.

"Munhão T’ata"

Disparo ritualístico que emite um grito ancestral ao ser disparado, causando pânico em entidades das trevas e chamando os espíritos guardiões da floresta digital para cercar o campo de batalha.

Em sua função espiritual, o T’Zakrah não é apenas uma arma — é um ritual ambulante. Ele reconhece apenas aqueles que ouviram o chamado do silêncio entre os trovões. Serve para caçar criaturas do abismo, desfazer pactos de trevas e selar portais abissais com um único golpe ou disparo...”

O pergaminho se cristaliza, então Arale o guarda na bolsa.

— Minha sincera gratidão... — ela acena com a cabeça e então gira a espingarda no ar, encaixando-a em suas costas e partindo para a nova missão que lhe fora revelada em sonhos.

Quando enfim Arale atravessa aquele inóspito vazio surreal de névoa e ilusão, ela chega ao continente de Aurax, uma região gélida e fantasmagórica. Ela avista de longe uma clareira que serpenteia alaranjada, destacando-se naquela mórbida pintura de prata, e então avança em direção à chama de um lar...

Enfim sua máquina de escrever de ossos lhe sangrara um pergaminho.

— Até que enfim, meu bebê... — ela brinca.

O pergaminho dizia:

"Tribo de Kjaarnheim à frente. (Cuidado com os falsos profetas...)"

Então o pergaminho se desfez no ar como pólvora no oceano.

A neve caía como lâminas de vidro sobre o mundo, cortando o silêncio com um sussurro cruel. O céu era um véu de chumbo rasgado por vendavais ululantes, e a névoa engolira tudo exceto os próprios pensamentos de Arale. Ela avançava com o corpo envergado, os ombros pesados de gelo e propósito, em direção à esquecida e sagrada Kjaarnheim, a vila indígena onde os anciões da Névoa Cinzenta ainda recitavam os nomes perdidos das estrelas.

A trilha era quase inexistente, devorada por dunas gélidas em mutação. Cada passo afundava no branco traiçoeiro que escondia rachaduras e galhos congelados como armadilhas. O vento gritava em línguas antigas, tão antigas que talvez nem o tempo as compreendesse. Arale apenas cerrava os olhos e cuspia sangue, o gosto metálico aquecendo a garganta.

Um clarão pulsante estourava na altura da lua de sangue.

Distante. Os olhos queimando da brancura. Um halo translúcido pulsando entre os pinheiros mortos — como se o próprio mundo respirasse dor. Foi ali que eles surgiram. Três lupinos brancos, criaturas geneticamente corrompidas, forjadas em laboratórios obscuros e esquecidos por seus próprios criadores. Gigantescos, com músculos pulsando sob pelagem albina, os olhos vazios, negros, sem alma. Seres que não rosnavam, mas rangiam, como engrenagens orgânicas sedentas por carne. Arale rugia alto.

Arale se deteve. A mão fria buscou a coronha da T’Zakrah, sua espingarda espectral.

A madeira era negra e viva, cravejada com runas escarlates que pulsavam em resposta à presença dos monstros. Arale rapidamente transmutava as armas com maestria, rasgava a palma com a lâmina do machado e deixava o sangue escorrer e em seguida a alquimia.

As balas da T’Zakrah beberam da oferenda. A arma estremeceu em suas mãos.

O primeiro disparo soou como o uivo de um deus morrendo.

A bala de sangue atravessou o peito do primeiro lupino, explodindo sua espinha e lançando entranhas em espiral no ar. Um clarão púrpura iluminou a névoa com espectros famintos. O segundo veio por baixo, rápido demais. Arale girou o corpo, mas as garras rasgaram suas costas, abrindo um sorriso sangrento que fumegava no frio. Ela caiu de joelhos, cuspindo gelo, mas seus olhos brilhavam como brasas.

O machado veio em arco. Um golpe seco, preciso, arrancando a mandíbula do inimigo que ainda vivia tempo suficiente para uivar como um cão de guerra antes de cair.

O terceiro, o maior, investiu.

Ela ergueu o braço esquerdo — o braço cibernético — uma peça de guerra herdada do colapso dos sete xamãs. Dentes se cravaram no metal. Chamas de dor pulsaram em seus nervos. Mas o braço de aço girou com força brutal. Um estalo seco. O crânio do monstro foi esmagado como fruta podre.

Sangue branco e viscoso jorrou em seu rosto.

Ela tombou de lado, arfando. A neve ao redor tingia-se lentamente de vermelho. O céu parecia mais próximo agora, como um teto de ferro prestes a esmagar tudo. Mas ao longe, as primeiras tochas da vila Kjaarnheim tremeluziam entre os pinheiros.

Ela estava ferida. Mas viva.

Os espíritos antigos, enterrados sob a tundra, sussurravam seu nome. Arale, a sangue-da-névoa.

Caçadora da Aurora.

Portadora do Machado-espingarda. T’Zakrah.

A aldeia surgiu como uma miragem sólida no fim da tempestade.

Kjaarnheim — a Última Vigília dos Ventos, como sussurravam os cantores das planícies geladas. Erguida entre falésias cravejadas de gelo e pinheiros retorcidos, a tribo pulsava com um estranho fulgor âmbar, uma fusão ancestral entre tecnologia esquecida e rituais milenares. Tochas plasmáticas queimavam em torres totêmicas feitas de chifres de urso-do-gelo e antenas de relíquias antigas. As ocas não eram meras cabanas, mas cúpulas vivas, entrelaçadas por cipós bioluminescentes que reagiam ao humor dos habitantes — luzes mudando de cor conforme passavam, como se a vila em si tivesse olhos.

Arale cambaleou ao entrar, o manto rasgado, o sangue ainda quente colando suas costas à armadura térmica. Os habitantes interromperam seus afazeres. Nenhum som foi feito. Eles apenas a observaram, os olhos escondidos por máscaras tribais feitas de aço enferrujado, couro de wyren tundral e lentes óticas de precisão adaptadas como visores. Vestiam-se com camadas sobrepostas de peles e placas cerimoniais, cada traje diferente — indicando caçadores, artífices, cuidadores de bestas ou mestres dos circuitos.

Dos confins da praça principal, avançou Thrym Urr-Naal, o Xamã das Três Códices. Alto, encurvado como as árvores tortas da encosta, o velho trajava um manto feito de asas de corvos mecânicos e fios dourados extraídos de núcleos de IA ancestral. Em seu cajado, um motor de dronossauro pulsava como um coração aprisionado. O rosto era parcialmente coberto por um visor rachado que projetava símbolos vivos em sua testa — runas fluídas de uma linguagem que ninguém mais sabia decifrar.

— Tu sangras, viajante dos ecos. — sua voz era rouca como couro velho sendo costurado. — E o sangue é bom. Ele chama. Ele lembra. Ele desperta.

Arale tentou falar, mas sua garganta era uma fornalha gelada. Apenas assentiu, caindo de joelhos diante da chama da praça — um reator nuclear primitivo disfarçado de fogueira cerimonial. Crianças de olhos vivos e cachos revoltos aproximaram-se com cautela, oferecendo a ela peles secas, água infundida com folhas de synarhk e pequenos ossos talhados em forma de lebres e engrenagens — votos de cura.

De uma estrutura mais afastada, cujas paredes eram feitas de painéis solares resgatados e adornadas com presas de cervomáquinas, saiu Darrun Eksveil, o Profeta de Silício e Vapor. Um homem de cabelos acobreados, longos e embebidos em óleos purificados, olhos cobertos por uma viseira neural que reagia ao ambiente com microexpressões matemáticas. Seus dedos eram implantes refinados, capazes de desmontar e reconstruir um behemoth com os olhos vendados. O povo dizia que ele lia o futuro nas quedas de tensão elétrica do vento e ouvia a voz da Terra através dos tremores do código enterrado sob os glaciares.

— Ela é a do presságio. A que carrega o aço que sangra. A conjunção está próxima, Thrym. — disse Darrun, sua voz embalada por microvibrações vocálicas, como se falasse em múltiplas frequências ao mesmo tempo.

— O T’Zakrah respondeu. A Primeira Batalha foi travada. Três sangraram, um rugiu. — completou o xamã, traçando no ar um símbolo com a ponta incandescente do cajado.

A aldeia então cantou.

Uma melodia grave, ressoante, acompanhada por tambores que eram feitos de chassis de velhas torretas de guerra e cordas extraídas de nervos sintéticos de ursos mecânicos. Mulheres com tatuagens luminescentes dançavam com movimentos precisos e circulares, evocando algoritmos de caça. Velhos narradores recitavam em transe a história do Tempo Antes do Código, enquanto um garoto conduzia um rebanho de fenrirs biomecânicos — grandes cães-lobos cujos ossos eram reforçados com titânio e que latiam em pulsos binários.

Ali, homens e máquinas não coexistiam. Eram um só corpo. Uma só mitologia.

Arale, ferida, mas não vencida, olhou para os céus que agora começavam a se abrir, revelando auroras retorcidas dançando como serpentes elétricas. Um silêncio ancestral pousou sobre ela, como uma coroa invisível.

Sabia, em seu sangue ferido, que aquela vila era mais do que refúgio.

O prelúdio da próxima guerra.

Os tambores estavam apenas começando a bater.

Acordou envolta em peles fumegantes de calor antigo, o corpo nu entre camadas macias que ainda cheiravam a musgo, cinza e especiarias minerais. A respiração era lenta, pesada, marcada pelo perfume estranho que preenchia o abrigo — uma mistura de óleo de engrenagens queimadas e raízes aquecidas. A pele de Arale estava limpa, o sangue lavado, os ferimentos cobertos por unguentos negros e cintilantes. Sentia-se leve. Vulnerável. Quase… humana.

O abrigo era um domo de energia filtrada, com paredes respirantes que pulsavam ao ritmo da luz lá fora. Sentado próximo, com os olhos mergulhados em uma planilha etérea de código flutuante, estava Darrun Eksveil, o profeta, o maquinista, o decifrador do invisível.

Seus olhos artificiais projetavam runas sobre as pálpebras — mas naquele momento, eles a fitavam diretamente, como se tentassem decifrar algo mais profundo que algoritmos. Havia nela uma ferocidade suave, felina. E algo nele, sob a camada de lógica e silício, ansiava pelo toque daquela desconhecida que despertava com olhos dourados e peito marcado por cicatrizes antigas.

Darrun desviou o olhar. Rápido demais.

Mas Arale viu.

Sentiu.

O cheiro.

Não como uma humana.

Mas como uma predadora.

Havia feromônio no ar. Aquela excitação primal disfarçada de reverência. O embaraço rastejando sob o silêncio técnico do cientista. Ela sentiu o calor subir à nuca, não de vergonha, mas de alerta.

Vestiu-se com as vestes que lhe haviam deixado: um manto cerimonial de fibras sintéticas trançadas com escamas de dracomarcas, uma calça ajustada feita de couro técnico tribal e um colar de dentes antigos, ainda vibrando com energia residual. Saiu sem dizer uma palavra, guiada pelo instinto que pulsava como bússola ancestral.

Thrym Urr-Naal aguardava.

Diante de uma estrutura ciclópica, meio santuário, meio torre de observação, onde relíquias de tempos esquecidos giravam em órbitas suaves, suspensas por magnetismo primitivo, o xamã erguia o olhar para as constelações ocultas sob o dia. Quando Arale se aproximou, ele sorriu. Um sorriso antigo, orgulhoso e... maravilhado.

— Tu és o eco perdido. O fragmento que não esquecemos. — disse ele. Aproximou-se, tocando o colar em seu pescoço. — Teus ossos vibram com as canções de Gaya.

Ela franziu o cenho.

— Não compreendo.

— Todos aqui nascemos com cauda. Alguns com orelhas. Pelos. Mas isso se perdeu com o tempo, cruzamentos, colapsos. Apenas os mais antigos lembram. Tu és pura. És nossa origem. És… nossa irmã.

A mente de Arale oscilou como um pêndulo. Imagens cruzavam sua consciência: caçadas em florestas que não lembrava ter pisado, vozes em línguas que nunca aprendera, e o brilho de olhos dourados — iguais aos dela — ecoando no passado.

— Viestes de outro tempo, talvez outro plano. Mas o sangue é o mesmo. — disse o xamã. — Este mundo, este que chamamos Gaya, não era sempre assim. Os anciãos dizem que ele colidiu com um outro céu, um plano superior chamado Fractis. E da fúria dessa colisão nasceram os Deuses.

— Jafari. — murmurou Arale, como se o nome lhe fosse sussurrado de dentro.

Thrym assentiu. Seus olhos lacrimejaram.

— O Leão da Luz. Nosso ancestral. E seu primogênito: No’ahki, o Guerreiro da Raiz. Eles enfrentaram o Caos de Fractis. Venceram. Trouxeram ordem. E teu machado, T’Zakrah, foi a lâmina que No’ahki empunhou. És sua herdeira. És a que retorna.

Ela cambaleou. O mundo girou.

— Teu verdadeiro nome, criança do eco, é... — ele sussurrou com solenidade.

— Baskhiat Sual’Ra — filha do trovão e das estrelas errantes.

Naquela noite, em um círculo de fogo azulado, realizaram a Cerimônia da Prisma Tríade. Arale — não, Baskhiat Sual’Ra — bebeu do vinho das almas, uma infusão de seiva de árvores vivas, sangue de lobo-máquina e lágrimas de obsidiana líquida. O calor subiu por sua garganta, queimando seus sentidos.

Ela testemunhou com lágrima nos olhos.

Isis, a Senhora do Véu: Uma feição tão amorosa e amigável**,** olhos que escondiam galáxias, e mãos de cura e destruição.

Nix, a Deusa do Abismo Noturno: com cabelos de serpentes de luz e nua como a noite, pele de estrelas em colapso, a voz um lamento de todas as mães que perderam filhos para o vazio.

Anubis, o Guardião dos Fios da Morte: cabeça de chacal sideral, corpo coberto de engrenagens rúnicas, segurando uma balança onde as almas eram medidas em bytes de destino.

— Há algo que cresce sob tua terra, Ysmir. — disse Isis.

— Um mal antigo, sem nome, sem rosto. — sussurrou Nix.

— Mas tua alma será guiada. Pela guardiã perdida... — completou Anubis.

Na névoa daquele diálogo ela apareceu.

Citlalmiquiztli.

A Deusa-estrela.

Com olhos de quartzo negro e um corpo feito de constelações mortas. Ela caminhava entre as dimensões como bruma. Sua voz, suave e imortal:

— O caminho te aguarda além dos Picos do Gelo da Morte.

No subterrâneo de tua linhagem repousa a pirâmide cybercosmo.

Lá encontrarás aquele que despertou:

Quetzalcóatl. O Senhor das estrelas.

Ela viu — ou sonhou — o vale oculto no coração do México, uma cidade abandonada entre raízes metálicas, e um templo com portas abertas para as almas perdidas. Sentiu o frio da encosta, o cheiro da floresta desconhecida, e o sussurro do dever.

Observar os astros. Proteger o equilíbrio.

Decifrar o destino. Despertou com um sobressalto.

As chamas ainda ardiam. Na parede da caverna, desenhado com o sangue do vinho sagrado, o símbolo dos três deuses pulsava.

— Tenho tantas perguntas... — Arale arfou.

— És da casa Fay´ax. Sua mãe Lyra está conosco, mas, para este povo, você é a representação da linhagem de Sual’Ra, a escolhida de Citlalmiquiztli para ceifar Quetzalcóatl.

— Se eles têm fé em minha origem, devo honrar meus ancestrais e meus descendentes, pois a única coisa que conheço à prova de balas é a nossa fé...

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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6 - No submerso da caverna, mergulhamos nossos corações

Após o incidente com Eleanor, nada mais parece se ajustar às leis da razão…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Sibila von Lichenstein
12 de outubro de 1870

Após o incidente com Eleanor, nada mais parece se ajustar às leis da razão dentro dessas paredes. Não tenho certeza se a presença dela tomou forma na biblioteca, ou talvez no meu sonho. Não estou enlouquecendo. Sei que este lugar — vasto, estranho, nunca antes conhecido por mim — é real. Ao vaguear por esse imenso templo da solidão, que é o castelo, eu cruzo com outros seres. Ouso supor que não apenas humanos habitam este lugar, mas também a mais variada gama de criaturas que desafiam qualquer classificação comum.

Acho que as circunstâncias do passado me moldaram e influenciaram de tal modo que não consigo mais me entregar... Não sou como uma folha à mercê do vento, fadada a se deixar levar. Sou mais como uma rocha que resiste às repetitivas investidas do mar, mesmo que revolto. Passo horas sozinha, deixando meus pensamentos livres para refletir sobre a minha situação neste lugar. Desejo voltar ao casarão de Viktor, ao mundo que eu conhecia. Eu não tinha um plano definido para depois dele... Mas tenho certeza de que não era isso que eu desejava ardentemente...

Sinto-me extenuada, passo os dias e noites em constante estado de alerta. Tenho medo de ser atacada novamente. Os hematomas que Eleanor provocou em meu pescoço deixaram marcas indeléveis — não só em minha pele, mas também em minha alma. Qualquer criatura pode ser hostil. Minha antiga amiga, pode voltar, tomada pelo desejo de vingança e pelo ódio.

Mas a solidão, antes tão comum e adorada por mim, tem se tornado, além da culpa que carrego, uma das piores sensações. Sempre que me dou conta que estou sozinha e desamparada, revivo as memórias das semanas após a morte de meu pai. As desperdicei enclausurada em nosso casebre, que agora me parece uma miniatura precursora desta prisão de pedra e ecos, pois estou sem nenhum contato humano.

Tenho a impressão de já ter cruzado com todas as espécies de seres possíveis... e ouso supor que até mesmo vampiros habitam este castelo. Certa noite, um hóspede me abordou com um sorriso cortês e se apresentou como sommelier. Ofereceu-me uma taça de sua adega pessoal, durante o jantar do castelo. Aceitei, por mera cortesia. O líquido era de um vermelho profundo, quase negro, e exalava um perfume metálico, adocicado e denso. Bebi um gole. Achei que o sabor, mesmo misturado à substância etílica, era inconfundível... Sangue. Puro, espesso, claro como um segredo antigo. Temendo, respondi que estava bom, mas estou quase certa de que, quando ele sorriu, vi duas presas no lugar dos caninos em sua arcada dentária. Logo depois, despedi-me educadamente e, com passos rápidos, dirigi-me ao meu claustro. Mas, ao bater a porta atrás de mim, lembrei-me do pesadelo com Eleanor e do que Meia-noite me contou, e tive medo de morrer dormindo.

Completamente tomada por esses pensamentos, que se multiplicavam como erva daninha, decidi interpelar a senhora que frequentava a biblioteca, quase sempre nos mesmos horários que eu... Eu almejava estabelecer algum tipo de relação, nem que fosse apenas superficial. Eu precisava... Ela não era muito de falar, ficava encurvada sobre pesados tomos de botânica, fazendo anotações e rabiscos. 

Não parecia estar interessada em conversar, porém era minha melhor aposta. Tinha aparência humana, era mulher e velha. Por causa do que Viktor me fez, eu confiava mais em mulheres, apesar de me achar um verdadeiro monstro. Ademais, além dos hematomas, eu sentia uma ardência profunda neles, além de estar há dias sem dormir. Quem sabe, essa senhora, tão reclusa quanto eu, me desse a dica de alguma erva que me ajudasse.

— Olá... — cumprimentei, com a voz quase inaudível.

— A senhorita falou comigo? Hum... O que você quer, garota? 

— Não pude deixar de observar que a senhora sempre está estudando os volumes de botânica.

— Sim... E o que a devoradora de livros de anatomia tem a ver com isso?

— Sinto muito, me perdoe, me perdoe, por favor. Não quis incomodar... Mas, se levantar a cabeça e olhar para o meu pescoço, verá que não estou bem. — Minha voz saiu esganiçada, num misto de desespero e vergonha.

— Se é para a senhorita me deixar em paz logo, vou lhe dizer o que fazer: procure a erva do descanso. Para isso, terá que caminhar até Séttimor. Lá, essa erva sempre cresce nos arredores da cidade.

— Erva do descanso...? Mas que aparência ela tem? Perdoe-me... Eu não conheço.

Ela começou a folhear o tomo que estava em suas mãos. Parou e mordeu os lábios, pensativa. Subitamente, rasgou uma página e a estendeu para mim:

— Tome, isto deve servir... E agora, não me perturbe mais!

De posse da folha, agora sentada à beira da cama, uma das mãos segurava a folha amarelada, a outra tocava o meu pescoço, que ardia e latejava de forma incessante.

Na folha, o desenho de uma erva com folhas divididas em sete pontas alongadas. O artista havia ilustrado o centro dessas folhas com um verde vivo e, num degradê, elas passavam a ser negras em suas pontas. Os caules também eram pretos, com raízes profundas que se comunicavam de ramo em ramo. Abaixo da ilustração, podia-se ler: Ervatum Nocte Requies, entre parênteses e abaixo, erva do descanso.

No verso da folha havia ainda uma descrição da aparência física da erva, acrescentando que ela crescia em grupos de sete e era encontrada nos rochedos ao redor da vila de Séttimor. Seu uso era em unguentos e cataplasmas para aliviar hematomas e dores espirituais.

Havia outro desenho no verso, um pequeno mapa desenhado delicadamente a mão, abaixo dessas instruções. O desenho não era parte da impressão original, alguém o fizera posteriormente à tiragem inicial. Com linhas finas e decididas, o mapa mostrava o Castelo Drácula, minha morada atual, e também mostrava a Floresta dos Pinheiros Tristes ao noroeste, uma linha tracejada atravessava essa floresta, cuja fama no castelo, dizia que era assombrada por almas penadas. Ouvira dizer que ali, até mesmo as árvores eram mortas. 

O tracejado atravessa a floresta, depois acompanhava uma caverna, para então desembocar aos pés do que interpretei ser uma península. Na ponta dela, Séttimor estava desenhada. De um lado, rochedos a rodeavam; de outro, o mar que deveria colidir com os rochedos. Na área dos rochedos o autor dos rabiscos desenhara uma flecha e escreveu: “Região onde a erva do descanso cresce.” Entre parênteses: “Recomendável a colheita em estações secas.”, mas não dizia o porquê. 

Não conhecia com propriedade o clima da região, mas certamente não era uma estação seca. Lá fora, uma fina camada de neblina espessa cobria os jardins de lavanda, que agora estavam secos, podres e molhados. Não poderia partir solo, necessitava encontrar uma maneira de seguir até o recanto da erva de forma mais segura, ou seja, acompanhada.

Sabia de rumores de que os recônditos do Castelo Drácula abrigavam uma exímia felina caçadora que fazia serviços de mercenária, e havia a possibilidade de tentar um acordo ou um contrato, dependendo da quantia que ela cobrasse para realizar tal feito. 

Busquei apressada pelos corredores e até pelos jardins uma forma de contatar a felina, mas em vão, até que o espectro serviçal do Castelo me informou que eu poderia encontrar com ela em uma taverna ali próxima. 

Decidi arriscar e conferir o ambiente, era extremamente necessário, caminhei até o estabelecimento e lá me deparei com uma ampla gama de marginais, bandidos, aventureiros, alquimistas, ferreiros, anões, várias criaturas transitavam o ambiente. Senti que a energia era pesada, olhares de ameaça estavam por toda parte, cheguei a tocar a adaga que eu tinha escondida em minhas vestes. Busquei saber dela e todos diziam que a pouco ela estava no balcão bebendo uma espécie de licor verde. Alguns se sentiam ameaçados, outros preferiam não falar nada, mas infelizmente ela não estava mais presente. 

Saí apressada do lugar, ojeriza era a palavra, nem na Prússia eu ousara pisar em um lugar de tal estirpe, o Castelo eu até tolerava, pois apesar de só… ah, o que estou pensando? Nem no Castelo eu me sinto segura, olha o meu pescoço. Mirei meu reflexo numa poça do chão, os hematomas pareciam ter se espalhado pelo colo e queimavam de dentro para fora, eu precisava de ajuda! 

Um rapaz com um capuz cor de carvalho se aproximou, achei suspeito. Foi muito rápido, então me virei rapidamente, mirando uma adaga que encontrei no castelo em seu peito.

— Acalma-te! — disse ele em pânico, senti em seu olhar e o tom de sua voz que ele estava trêmulo e nervoso com minha presença.

— Procura a criatura que tememos, não é mesmo? Aquela felina com um braço estranho assustador.

— Sim, preciso de um guia para chegar nos rochedos próximos da vila de Séttimor, ouvi dizer que ela faz pequenos trabalhos em troca de algumas moedas.

— Conheço uma estrada, eu sou cocheiro, se confiar em meu trabalho e por algumas moedas de ouro, posso lhe guiar para uma estrada próxima à caverna, aquela, onde os habitantes daqui a viram rondando.

— Eu agradeço pelo serviço, vou aceitar. 

Paguei três moedas de ouro, aceitando a carona em sua humilde carruagem, guiada por dois corcéis escuros. Me aconcheguei na traseira do veículo.

— Diga-me, senhorita... Por que deseja ir a um lugar tão lúgubre?

— É um assunto pessoal, perdão, mas é de extrema importância que eu encontre um guia...

— Entendo, boa sorte, espero que aquela criatura lhe ajude, ela não parece ser muito sociável...

O comentário do cocheiro me deixou apreensiva. Conforme a viagem avançava, o frio, a chuva e um pequeno cansaço me abateram. A carruagem atravessava a Floresta dos Pinheiros Tristes. Abri as cortinas para poder ver por onde ele guiava, o clima estava tomado por uma neblina densa, eu sentia a umidade do lugar penetrar pelas minhas narinas, senti cheiro de mofo, ele vinha de camadas e mais camada de folhas mortas e apodrecidas no solo da floresta. Um temor antigo, prematuro, açoitava meu peito. 

De repente, os cavalos rincharam assustados e a carruagem estacou. Sobressaltada, escutei o trotar espectral de inúmeros alazões fantasma que cortavam a estrada diante de nós. Pela janela, vi suas pelagens douradas manifestarem-se como um milagre do pós-vida, pareciam relâmpagos na noite, era lindo.

Estava deslumbrada e assustada. Tudo era novo demais, lúcido demais, intenso demais. Os acontecimentos que me assombravam surgiam como espectros famintos, devorando minha energia e apagando minha alegria. Meus fantasmas interiores, meus dilemas, dores e pesadelos dançavam em círculos ao meu redor. Havia algo de doentio nisso... e ainda assim, algo estranhamente libertador. Era difícil de explicar. 

Fechei os olhos por alguns instantes e cochilei, aproveitando que a carruagem não estava balançando demais. Então a vi pela primeira vez, através dos meus sonhos. Desde que eu chegara misteriosamente a esse lugar, meus sonhos nunca mais foram os mesmos, havia algo de fantasmagórico, perigoso e real neles. Ainda não sabia se eram vaticínios ou meras manifestações do meu subconsciente.

Ela era muito bela, não entendi por que os habitantes da região a temiam. Não compreendia por que ela inspirava tanto receio, não pelo menos, até a ver com uma máquina de escrever de ossos, um pergaminho pingando sangue e um machado com um coração fincado em sua lâmina. Ela miava, e a máquina espirrava sangue e poeira. Então um pergaminho foi pulverizado no ar e um prisma, com um líquido esmeralda, foi canalizado e guardado em sua bolsa marrom de couro. Mas o que mais me deixou fascinada era a junção de metal e carne de que era feito um de seus braços, como estudante de medicina, eu nunca vira algo tão magnético e encantador quanto aquilo. Eu não almejara riquezas durante a vida, mas estudar aquele braço… Então ela me encarou, com uns olhos de tigre que rasgavam minha alma, e sorriu simplesmente.

Acordei com um trote ríspido da carruagem e o eco da voz do cocheiro que dizia:

— Chegamos, senhorita! — Desci apressada da carruagem, ansiosa para encontrar Arale. Começo a desconfiar de meus sonhos, até mesmo a acreditar que há alguma relação sombria entre eles, a realidade e o meu futuro incerto neste lugar além do tempo e da compreensão, onde me encontro. Logo, espero que a aparência dela seja a mesma que foi pintada em meu sonho.

 — Perdão, qual seu nome? — disse o cocheiro solícito.

— Perdoe-me, mas prefiro manter o sigilo, gratidão pela viagem e seus serviços…

— Disponha e tome cuidado...

— É o que tento...

Avancei em direção à caverna, assemelhava-se a uma boca infernal, cheia de dentes de pedra, logo na entrada, não era nada convidativa. Aprofundei o caminho na intuição e fé de que ela estaria aqui, que esse seria nosso encontro inescapável, já estaria escrito em nossas sortes que iríamos no conhecer e enfim eu conseguiria chegar até os arredores da vila Séttimor e conseguir a erva almejada. 

A caverna era completamente feita de ametistas, mas estava estreita, claustrofóbica e seu ar estava um pouco rarefeito. Continuei aprofundando-me cada vez mais em suas entranhas, e mais precária ficava minha visão e meus sentidos, apesar da luminosidade das ametistas.

Então senti uma picada, olhei minha perna e era uma agulha rubra, olhei ao redor e vi uma criatura baixa, achei que reconheceria, mas minha memória falhou. Minha visão estava ficando embaçada, mas antes que perdesse todos os sentidos e apagasse, pude ver uma adaga voando lentamente pelos ares, atingindo a testa da criatura, fincou-se bem no meio de seu nariz e ela caiu para trás morta e sangrando. Assim que me revirei, vi a alguns metros de distância uma felina com cabelos prateados e com um olhar furioso, então apaguei.

Não sei quanto tempo passou e quanto tempo fiquei apagada; mas, quando acordei, abri os olhos lentamente e pude ver que eu estava confortavelmente acomodada em uma espécie de espuma, deitada próxima a uma fogueira e aquela assustadora felina afiava seu machado.

— Acordou, sente-se bem? Possui alguma dor? — ela me questionou com uma voz doce e sensual, porém firme e durona.

— Muito obrigada, sinto-me bem, dentro do possível, mas estou nesta jornada para encontrar a erva que necessito para minha cura completa...

— Eu sei… — ela retrucou.

— Como sabe? Perdão a pergunta, mas por acaso você seria Arale?

— Sim, minha cara. Arale Fay´ax, aos seus serviços… Eu sabia que viria, senhorita Sibila.

— Como sabe? E como conhece meu nome?

— Minha máquina de escrever de ossos é um cósmico instrumento profético. Ela escreveu um pergaminho, que me revelou sobre sua jornada, sua aparência, seu nome… E ela ressoou, e eu sabia que viria pra cá… Quando senti seu cheiro, também senti o odor da criatura que te envenenou com uma zarabatana de pequenas agulhas feitas de rubi vermelho venenoso. 

— Deveras prodigioso, nossa, muito obrigada, salvou minha vida! — respondi encantada com tudo o que vinha dela, eu não tinha conhecimento sobre nada daquilo, pergaminhos… caverna de ametista e criaturas perigosas com zarabatanas…

— Imagina, precisa ser mais cautelosa com monstros.

— Ironia demais você dizer isso, cara Arale Fay´ax. 

Arale não entendeu por que eu disse que era ironia, e respondeu:

— Apenas Arale, por favor. Alguns me chamam de felina fantasma, mas eu não sei por que criei esta fama, apenas tento limpar este planeta de ameaças...

— Que criatura era aquela?

— Um simples Bokogobelinum, uma criatura que parece uma mescla de duende com pequeno suíno.

— Nossa… De onde eu vim, a Prússia, não há criaturas como essa. 

— Eu estou caçando uma muito pior, uma ameaça muito mais nefasta, apesar de ele ser um mero Láparo, pelo que ouvi falar, e também preciso encontrar uma relíquia chamada Ovo Cósmico.

— Infelizmente não posso ajudar, mas preciso que me leve para a vila Sétimmor.

— Posso fazer isso… Mas terá de ser corajosa. 

— Por quanto? — Eu achava que era corajosa o bastante. 

— Façamos a viagem e depois decidimos, mas o que acha de, por enquanto, fecharmos negócio em 77 moedas de ouro Séttimoriano?

—  Ok, eu aceito. — Eu não tinha outra opção, não sabia quanto aquilo valia realmente, mas aceitei. 

— Vamos descansar mais um pouco e partimos ao amanhecer.

— Obrigada, Arale, o que está fazendo?

— Cozinhando um pequeno salmão que pesquei antes de vir para cá. Aqui, coma e ficará melhor... Sibila, certo?

— Sim, esse é o meu nome mesmo. Muito obrigada! O que você faz realmente?

— Eu caço demônios que ameaçam essa e outras dimensões, perdi minha família devido a um ataque de cyber-dracontes. Minha família e toda minha tribo era muito devota à espiritualidade de nossa deusa-mãe Ísis, e vivíamos em pirâmides de cristais de néon quando eles chegaram e escravizaram meu povo. 

Eu não estava no momento, estava em um exílio espiritual com meu mestre xamã, ele fizera uma projeção astral e acessara a nave deles, a comandante mãe era uma reptiliana anciã, então ela ordenou o ataque e ele foi morto no astral, porque sua projeção foi detectada.

Quando retornei à minha tribo, todos estavam decapitados, alguns foram cremados, outros esfaqueados… Minha família deixara escondida nas matas, em um prisma sagrado, minha máquina de escrever de ossos, nosso legado e meu machado. Quando cheguei para obter minha máquina e meu machado, sofri uma emboscada pela líder, ela me nocauteou e então arrancou meu braço com sua garra mortal, desmaiei. A minha máquina, nesse instante, abriu um portal para onde eu estava e, em seus últimos momentos de vida, meu mestre fizera uma magia xamânica e fundiu tecnologia e magia em meu braço, deixando-o biônico. Então a máquina de escrever conjurou outro portal e percebi que eu estava no jardim do Castelo Drácula, e imagino que ele ou aquela que está sempre com ele possa ter me conjurado... eu não sei, mas isso me deu uma razão para viver, de alguma forma...

— Nossa... eu não entendi quase nada, mas compreendi sua dor...

Arale riu e então nos alimentamos e nos preparamos para dormir.

— Vamos descansar e seguir viagem em breve, te levarei ao teu destino.

— Muito obrigada, Felina Fantasma! — Arale miou em resposta.

 

Ao acordar, senti minha manga direita molhada, num salto acordei e imediatamente comecei a cutucar a felina que me acompanhava. Havia água dentro da caverna, e ela subia rapidamente. 

Arale despertou calmamente, quando viu que a água subia para dentro da caverna, foi até a bolsa dela e retirou duas bolas de vidro transparentes, encaixou a cabeça dentro de uma delas, a qual se acoplou magicamente ao seu pescoço. Me estendeu outra e vendo minha hesitação, retirou novamente o globo de vidro da cabeça e disse:

— Vista a sua também, não precisa ter medo, é necessário para podermos mergulhar e sair do outro lado da caverna. Vista, rápido, não vê que a água está subindo cada vez mais rápido? Vamos! Depois imite os meus movimentos e siga a minha cauda para não se perder na escuridão. Cavernas submersas são muito perigosas, mas a máquina de escrever me mostrou o seu mapa, eu sei o caminho.

Então vestiu o dela novamente, colocou a própria mochila nas costas e me ajudou a colocar o meu. Eu não sabia que tipo de tecnologia era aquela, mas eu tinha de confiar nela, eu não tinha outra escolha, então deixei que ela colocasse o globo na minha cabeça. Não havia nada que permitisse a troca de substâncias lá fora, mas eu pude observar que de alguma forma mágica, o ar dentro do globo era renovado. O ardor em meu pescoço e em meu colo se intensificaram ao entrar em contato com ele, era pesado.

Arale, com o Machado na mão, começou a caminhar em direção à água que subia, eu fiquei junto a ela, a luz da fogueira já tinha se apagado há tempos, e a única coisa que eu conseguia ver com clareza era o rabo felino de Arale, ele brilhava com intensidade. Conforme ela mexia a cauda e os cabelos, diferentes partes da caverna e da água iluminavam-se. 

Depois de poucos passos, mergulhou numa depressão grande e profunda dentro da caverna. Eu nunca tinha mergulhado em toda a minha vida, nem imaginava que isso seria possível, mas a segui, eu não queria morrer sozinha em uma caverna distante. 

Ao mergulhar de olhos fechados, senti as gélidas águas penetrarem as roupas, meus poros, minha psique. Um temeroso arrepio álgido percorreu do alto a baixo das minhas costas. Isso tudo em questão de segundos, ao abrir os olhos, não vi muita coisa e me desesperei, tudo o que via era uma luz pequena mais ao fundo, muita areia do chão da caverna revolta se espalhando pela água à minha frente, dificultando minha decisão de onde ir. 

Segui meu instinto e fui mergulhando mais profundamente, à medida que eu mergulhava, a luz ao longe aumentava de tamanho, mais algumas braçadas e mexidas de pernas, pude distinguir novamente os cabelos e o rabo felino de Arale em meio à escuridão total. Só assim, as batidas do meu coração se acalmaram. Ousei olhar ao redor, temendo perdê-la de vista novamente, mas o quadro que se pintava ao meu redor era tão incrível, que era fácil distrair-se. O gelo das águas parecia perfurar a minha carne, como mil agulhas afiadas e finas.

Eu ouvia somente o barulho da água sendo movimentada por nossos corpos em meio ao breu profundo, era excitante e relaxante ao mesmo tempo. Sentia-me animada em conhecer aquele ambiente e temerosa também. Olhei para as paredes iluminadas por Arale, continuavam sendo cobertas por ametistas, eu consigo perceber um animal ou outro escondido entre as frestas. Ao mergulhar mais profundamente, outra pedra preciosa começou a tomar o lugar das belas ametistas, eu sei que parece insano, mas havia muitas estalagmites e estalactites vermelhas, pareciam facas de vidro transparentes e afiadas. Inferi que eram rubis, e que aquele gnomo porco que me atacou as tinha colhido aqui para confeccionar a arma que usou para me atacar.

Mas isso não importava, eu tinha que focar em segui-la, chegando mais perto, senti como se estivesse entrando dentro da boca de um ser antigo e ancestral. As estacas rubras descendo do teto e vindas do chão se estreitaram em certo ponto, permitindo apenas a apertada passagem de Arale e a minha, estamos adentrando a boca desse ser de dentes afiados. Temi nunca mais conseguir fazer o caminho de volta ao ser engolida por ele.

Ao atravessar pela estreita passagem que aqueles espinhos formavam, raspei as costas em um deles e minha visão turvou-se, devido ao meu próprio sangue que tomou a água ao redor. Agora, além do pescoço e colo sempre a arder, minhas costas ardiam como nunca. Um pavor inominável e incontrolável tomou conta de mim. Agitei meus braços de forma desconexa, tentando afastar o sangue para poder localizar novamente Arale: minha única companhia e esperança naquele vazio molhado e profundo.

Ela, percebendo que eu sangrava, deslizou lentamente e arranjou uma forma de pegar minha mão e me guiar de uma forma firme e mais segura, sempre cuidando para que eu não me machucasse novamente.

Seu olhar marcante brilhava como amarelo-ouro luminescente, a forma que nadava era artística. Fiquei maravilhada, apesar da dor, com os movimentos rápidos e esguios que ela fazia, mesmo debaixo d’água turva, ela brilhava intensamente!  Seus movimentos felinos e rápidos, pareciam um ballet aquático iridescente. 

Atravessei com mais calma os corais. Vi vaga-lumes d´água e criaturas marinhas semelhantes a águas-vivas bioluminescentes, acompanhadas de peixes-morcegos, era horripilante e fascinante ao mesmo tempo, de onde surgiram essas criaturas inexistentes até então? Será que espreitaram pelos cantos escondidos da caverna e saíram apenas para dar o ar da sua graça e maravilhar as minhas retinas cansadas? 

A pressão se intensifica, à medida que mergulhamos mais e mais nas entranhas submersas da caverna. Eu a sinto esmagando meus ossos e músculos, um aviso urgente para os meus pulmões, que apesar da redoma de vidro, pareciam se esforçar triplamente. Nadamos juntos mais alguns metros à frente e pressenti que estávamos alcançando o trecho final.

Acredito que ela tentou me dizer algo embaixo d´água, “abaixe-se” talvez, e então me guiou, abaixando a minha cabeça carinhosamente, para mergulharmos por debaixo de pequenos estalactites que cerravam a passagem.  Ela precisou quebrar algumas pequenas pedras com o machado, como ela fazia isso enquanto estávamos mergulhando era um mistério.

Eu conseguia enxergar um pequeno feixe de luz que ia se afunilando conforme avançávamos. Então escorregamos finalmente de uma forma frenética por um tipo de espiral de pedras e cascalho, desembocando para fora daquela garganta diabólica, ao mesmo tempo fascinante. 

Quando emergimos, encontramos uma praia pedregosa e hostil. E só então entendi por que a página arrancada do tomo dizia para procurar a erva em tempo seco, é que na estação das chuvas a caverna que eu e ela acabáramos de atravessar permanecia seca, já que a maré subia aquele ponto somente quando chovia o suficiente para submergi-la.

Ondas revoltas batiam nas pedras negras como ébano de uma imponente formação rochosa que se erguia contra o céu e dominava com desdém toda a paisagem praiana que nos circundava. Ao olhar para a sua imponência, notei que no seu alto uma misteriosa e também enegrecida vila se assentava, deveria ser Séttimor, isso significava que eu estava muito perto da erva que eu almejava para curar os meus hematomas causados pelos dedos fantasmagóricos de Eleanor. O sol já havia atravessado grande parte do dia, talvez não faltasse muito para anoitecer. Estávamos encharcadas.

Eu estava exausta e Arale ainda parecia estar com uma energia plena. Apontei para o capacete em minha cabeça, com um leve toque ele se desfez na mão dela, aquilo me deixou atônita.

— Você não se cansa? — soei um pouco ríspida, mas não foi intencional.

— Quando minha prioridade é a missão e a proteção, a adrenalina toma conta de meu corpo…

— Adrenalina felina é?

— Algo do tipo, venha cá, sente-se, preciso cuidar do seu ferimento.

— Estamos encharcadas, o que vai fazer, Arale?

— Confia em mim, não é?

— Claro que sim, lhe confiei a vida, é a minha única segurança.

— Vire-se de costas — ela pediu com educação.

Delicadamente retirou minhas vestes de cima. Eu cobria meus seios com as mãos enquanto ela limpava meu ferimento nas costas.

— Como está fazendo isso? Sinto-me bem mais relaxada e sem dores…

— Eu carrego sempre comigo algumas ervas e poções, infelizmente não possuo todas dessa região e deste planeta, é claro, pois estou há pouco tempo aqui e tenho apenas as do Castelo e algumas que trouxe comigo de minha tribo, são feitas apenas para estancar sangramentos, purificar infecções, algumas induzem sono, outras para sonhos lúcidos. As poções são para emergências, para curar e estabilizar ferimentos causadas durante batalhas, e também utilizo para a limpeza de meu machado e da máquina de escrever…

— Nossa, obrigada, mas por que precisa limpar uma máquina de escrever feita de ossos?

— Pronto, pode vestir-se, o curativo está feito… — enquanto ela se virava, me vesti rapidamente.

— Obrigada mais uma vez.

— Eu preciso sempre retirar fluidos energéticos que contaminem a máquina como miasmas e outros organismos pútridos, é como nos medicar, e o meu machado possui uma condição especial em sua lâmina que sempre preciso “alimentar…”

— Interessante, obrigada pelas explicações, como sou amante do conhecimento, sempre é bom obter mais conhecimento! E, mais uma vez, obrigada pelo curativo.

Percebi que ela parecia sem jeito e talvez fosse algo pessoal demais, não entendi o porquê, mas resolvi não questionar mais... Ela organizava as coisas em sua bolsa e me ofereceu alguns fungos para comer.

— Fungo? — eu hesitei. — Perdão.

— São maravilhosos, experimente, esses aqui são Shimejis Estelares, esses outros chamam-se Agaricus Bisporus, são suculentos, e esses solares aqui chamam-se Psilocybe, possuem propriedades espirituais…

— Me vê esse ensolarado… — Apreensiva, mordi e o gosto era um bálsamo iluminado. — Que delícia…

— Sabia que ia gostar.

Arale rapidamente, com exímia precisão, acendera mais uma fogueira para nos aquecermos e secarmos nossos trajes.

 Observei a chama que crepitava, era muito bom e reconfortante estar na companhia daquela felina estranha, então consegui repousar e dormi logo, apesar do ardor causado pelos hematomas em meu pescoço persistirem. 

Acordei não sei quanto tempo depois, após mais um pesadelo, desta vez com Viktor, que ainda em sonho me assombra. Ele me apareceu desfigurado, mas o reconheci pela voz senil, imperiosa e egoísta. Não vou descrever o sonho nesse diário, pois não quero me lembrar daquele ser nojento nunca mais enquanto meus pulmões respirarem, por isso o matei.

Ao olhar ao redor, percebi que Arale não estava próxima. Onde ela está? Gritei por ela, chamei por seu nome e nada. Eu escutava corujas e criaturas estralando galhos distantes. Morcegos passavam sobrevoando, onde ela está? Por que tive esse pesadelo? Será o reflexo do que mais me atormenta? "Este cogumelo ilumina nosso sonho como um sol da verdade..." Lembro-me de Arale dizer isso um pouco antes de eu adormecer. Não posso me arriscar, vou aguardar por ela aqui, as coisas dela estão aqui. Ela não deve ter ido longe e logo mais irá amanhecer, assim espero.

Eu sei que eu não deveria ter saído daquela área segura, mas algo me apertava o peito, como um tipo de ansiedade ou premonição. E se ela não voltar? Impossível, ela jamais me largaria… Como eu pude confiar tanto e tão rapidamente nela? Será que ela sente o mesmo? Acho que sim…

Caminhei um pouco pela mata adentro, seguindo alguns vagalumes e sons de coruja, até que avistei um clarão intenso e dourado. Corri mais adiante, me esgueirei entre os arbustos, escondida eu espiei, lacrimejei naquele instante, por quê?

Arale estava ajoelhada com uma expressão furiosa e sangue escorria do canto de sua boca. Um dos olhos estava com um hematoma. Algumas partes de sua veste estavam bastante sujas e rasgadas. Ela estava com um tipo de camisa branca de linho, ensopada de sangue, e um tipo de sutiã medieval que mantinha seu busto suspenso, além de uma calça marrom de couro cor de terra; seus braços estavam presos por um tipo de teia, que parecia ser feita de um miasma roxo e prateado.

A criatura a sua frente era um tipo de aranha mesclada a um corpo de uma mulher que exalava sensualidade e beleza, mas se deformando para uma forma grotesca, com patas horrendas e diversos olhos. Ela ria enquanto emitia um tipo de grunhido.

Lentamente caminhei para perto de Arale, foi então que avistei seu machado caído próximo de meus pés. O que devo fazer?

Não podia pensar demais. Percebi que suas orelhas felinas sentiram minha presença, então corri e peguei seu machado, era muito mais pesado do que eu imaginava, e com toda a minha força e energia restantes, o arremessei em sua direção, gritando:

— ARALE!

Ela olhou rapidamente com aqueles belíssimos olhos de tigre dilatados e soltou um tipo de rugido, liberando uma força descomunal que estourou as teias que a prendiam. Correu de quatro, impulsionando-se com seu braço metálico e agarrou seu machado de forma artística e acrobática. Tudo isso ocorreu em questão de segundos, meu fôlego e meus olhos não conseguiam captar. A aranha grunhia furiosa e tentou perfurar Arale no exato momento em que ela pulou, com uma de suas patas aracnídeas. Eu fiquei boquiaberta. Arale encravou o machado bem no meio da testa da aranha-mulher, que se debatia loucamente enquanto Arale regozijava. A criatura sangrou e derreteu em sua frente. Arale cambaleou. Corri e então a agarrei. A máquina de escrever de ossos, mesmo distante, disparou um raio cósmico, transformando aquela batalha em um pergaminho de sangue. Minha segurança e companhia o agarrou no ar e o recitou:

“Ela é silente, embora um parco murmúrio verta de suas duas bocas horrendas e escuras. Seu corpo é feito de tensões e pele, com dezenas de aberturas como vértebras cervicais. Em seu tórax resiste, aglutinado em pele e tendões, um tipo de crisálida, cujo nervo principal advém do que deveria ser a genitália da criatura. Parece guardar algo que pulsa e respira… é como um ventre. A criatura conduz-se em correntes, as quais parecem unificadas à sua pele, e seus dedos retorcidos e desproporcionais assemelham-se à forma como ela caminha, sempre retorcida, com a coluna para o lado. É bastante silenciosa quando não é vista; quando pretende atacar, seu murmúrio distante se transfigura em um eco seco e gutural que, ainda assim, somente sua vítima pode escutar — o que significaria que Morggore, seu criador, está bem próximo... É uma criatura inteligente e alimenta-se de medo e dor.

Não é essencialmente forte.

Gera pavor e exala repulsa, levando suas vítimas a uma crise de desespero dilatado, com doses altíssimas de adrenalina — muitas desmaiam ou têm ataques cardíacos em função do horror que lhes acomete. Se a vítima é racional e cética demais a ponto de não ter o terror despertado em seu âmago, Morggore não aparecerá a esta pessoa.

A criatura desvela-se para quem está só e tem medo. Seu objetivo é causar horror, pavor profundo, nada mais, e ele só aparecerá após a derrota de sua aranha…”

O pergaminho então é selado no prisma esmeralda e engolido pela máquina.

— Mais uma caça para o bestiário... — Arale conclui alegre e com a voz ferida.

— Precisamos cuidar dos seus ferimentos, vamos...

— Não... A prioridade é concluir a missão e lhe entregar a teu destino...

— Como? — Eu insisto.

— Sibila, por favor, não dificulte as coisas...

Quando finalmente percebo, em seu outro ombro, uma espécie de espinho gigante perfurou, provavelmente quando ela pulou...

— Eu precisei pular, pois senão esse espinho pegaria exatamente em você, Sibila...

— Arale... — Emocionada, eu não sabia o que dizer.

— Talvez você não resistisse, então por favor, vamos seguir e concluir o que me pediu...

Retornamos à fogueira. Ela recolheu a máquina de escrever e nossos outros pertences, e seguimos atravessando o local de batalha, chegando ao final da trilha, com dois caminhos e uma placa com duas setas de madeira.

A esquerda dizia: “Séttimor para cima”

E a da direita dizia: “Porto do limiar adiante”

— Eu preciso chegar ao porto, Sibila. Preciso seguir viagem. Tenho uma missão pessoal também, muitas, aliás, mas a prioridade agora é eu encontrar Allant Elirrahz...

— Infelizmente não conheço... — Eu digo, magoada.

— Imaginei, não tem problema. Aquela aranha era um Yokai, eu caço essas criaturas também. Ela era um filhote da criatura que estou buscando...

— Que criatura? — Pergunto, curiosa e óbvia.

Arale arfa, respira fundo enquanto tenta limpar o machado, e insisto para me deixar fazer um curativo. Ela concorda, enquanto me conta o relato que ouviu...

Sentamo-nos na beira de um lago com pedras ornamentadas pela natureza, onde pobres peixes marinhos lançados pela maré tentavam retornar ao mar, e então Arale começa a me recitar o que um pergaminho anterior ao de hoje, pertencente a uma antiga caçadora, havia transmitido para ela junto de sua máquina:

“A tecedeira dos destinos funde a noite de três véus, onde o pavor tece sua própria carne. Onde a beleza murcha, se funde à abominação, e a aranha vira ventre, e o ventre respira pavor. Chamam-na de Jorōgumo, a que ceifei com sua ajuda. Dizem as lendas, nas aldeias tomadas por brumas, mas há os que sussurram outro nome também, sua extensão, Morggore, num sussurro empedrado, como se cada sílaba fosse uma pedra enfiada na garganta. Jorōgumo, rebento de Morggore, é criação direta de seu abismo, uma continuidade de sua essência, feita da mesma teia de terror e desejo. 

São dois nomes para o mesmo presságio. Uma entidade de dupla essência, dualidade profana. Ela não seduz apenas com beleza, nem assombra apenas com horror. Ela engravida o medo com desejo e pare o desespero em silêncio. Sob sua pele, o que um dia foi seda tornou-se membrana viva, espessa e pulsante, como o ventre de uma estrela negra prestes a explodir. Seu corpo, uma fusão de tensões arcanas e biologia renegada, se contorce como quem dança para os deuses errados. A teia que antes enredava corpos, agora costura a realidade com o irreal.

No centro de seu tórax, onde um coração humano repousaria, pulsa uma crisálida feita de tendões e ossos fundidos, um feto de horror onde habita o que não deve nascer. De lá, nervos escorrem como raízes em solo maldito, fundindo-se à sua genitália necrosada, a boca original de onde vieram os enganos e os lamentos. Jorōgumo-Morggore anda em correntes. Elas não a prendem. São parte dela. Rangem como dentes velhos roçando um ao outro, rangem em harmonia com seu andar desfigurado — uma dança espasmódica e lateral, como um réptil esquecido tentando lembrar como era ser mulher quando o ataque se aproxima… o mundo silencia. O murmúrio, aquele mesmo som que se assemelha ao soluço de uma criança afogada em pesadelo, emerge apenas para os ouvidos da presa. É íntimo. Como um segredo sussurrado no exato momento da morte. Nenhum outro ouve. Nenhum outro vê.

Ela não é essencialmente forte — não quebra espadas, não fere com garras flamejantes. Mas penetra na alma com agulhas feitas de lembranças do que poderia ter sido. Morggore alimenta-se de medo não como uma besta faminta, mas como um sacerdote ancestral em comunhão com o terror alheio. Ela oferece um culto sensorial: taquicardias, desmaios, suor frio, a orquestra do pânico. E quando a vítima enfim ruir, ela recolhe não o corpo, mas a experiência. O horror. O grito que não saiu.

Aqueles que são céticos, que não creem em assombrações, jamais verão Morggore. Ela não os deseja. Não por desprezo, mas porque ela é um reflexo do medo espelhado na alma de quem caminha só. Ela é necessária apenas para os que se esvaziam ao anoitecer. E mesmo os bardos, aqueles que tentam cantá-la, jamais a nomeiam em voz alta. Preferem rabiscar em pergaminhos apócrifos, trêmulos, ou soletrar de trás para frente, esperando que a noite não ouça. Pois onde o pavor dorme, Morggore desperta. E onde o desejo espreita, Jorōgumo sorri. Nas sombras onde os fios do mundo se cruzam, ela reina. Invisível como o vento, paciente como a noite.

Nas crônicas esquecidas que os bardos sussurram ao pé do fogo, nas estepes cobertas de neblina do Oriente antigo, fala-se da Jorōgumo, a aranha encantada que urde tanto o destino quanto o desejo. Criatura dos véus e dos enganos, seu nome ecoa como um sussurro em corredores de madeira velha e bosques silenciosos. Não é mera fera, tampouco um espírito errante; é lenda viva, entidade ambígua que transita entre o divino e o maldito. Com o torso de uma donzela de beleza hipnótica e o abdômen de uma aranha colossal, seus olhos negros não revelam emoção, apenas fome disfarçada de ternura. Quando ela caminha, o chão não a ouve. Quando ela canta, o coração vacila. Sua voz é doce como sake quente sob a chuva, mas cada palavra é um laço, cada sílaba uma seda venenosa. É ela quem embala guerreiros solitários em promessas de consolo. É ela quem espera, imóvel, sob os salgueiros tortos, onde a luz hesita em entrar.

Na arte ancestral do engano, Jorōgumo é mestra. Convida com o olhar, enlaça com os cabelos, prende com as pernas. Seus fios, de prata lunar e toque mortal, não são apenas armadilhas físicas, mas malhas de ilusão e encantamento. Os homens que nela confiam não morrem apenas: desvanecem, tornam-se ecos presos entre as fibras de suas teias, murmurando eternamente entre a seda e o silêncio. Alguns dizem que é uma maldição, que uma aranha comum devorou tantos corações que o próprio kami da enganação lhe concedeu forma humana como prêmio. Outros creem que ela é a guardiã de passagens esquecidas entre mundos, cobrando pedágios de paixão e sofrimento.

Como os espectros dos túmulos antigos, ela não busca redenção. Ela observa, eternamente à espera de mais uma alma cansada para envolver em seu casulo de promessas. Pois onde a espada falha e a palavra fraqueja, Jorōgumo triunfa com um sorriso. E se a encontrardes, não lutem, não falem. Apenas corram. Ou rendam-se à poesia de seu abismo.”

Eu estava horrorizada e impressionada, tudo fizera sentido, era por isso que todos que encontrei estavam em choque ou tremendamente assustados com ela, será? Com os olhos marejados, perguntei:

— Isso é uma despedida?

 — Por ora, sim, minha cara companheira. Siga este caminho, será seguro.

— Muito obrigada, vou lhe pagar…

— Não precisa. O que preciso é apenas chegar ao porto e, de lá, a vida me levará para os mares do limiar. E lá, quem sabe, encontrarei o que procuro…

Nos abraçamos forte, como se ambas não quisessem, de coração, se separar.

Arale seguiu firme pelo caminho em direção ao porto. Eu fiquei admirando-a e, então, segui para o meu destino. Quando, novamente, olho para trás, vejo, na neblina que a noite trazia, Arale desaparecendo de minha vista.  Olhei para o alto e suspirei cansada, mas esperançosa e grata: 

— Séttimor, estou chegando.

As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aryane Braun

Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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O pergaminho do limiar

Arale vestira um capuz escuro, cor de carvalho envelhecido. Olhando para trás, de uma forma enigmática, desejando que a garota que conhecera…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Arale vestira um capuz escuro, cor de carvalho envelhecido.

Olhando para trás, de uma forma enigmática, desejando que a garota que conhecera estivesse bem, estivesse segura, sentia um aperto no peito, desejando tê-la acompanhado até o exato lugar que devia ter ido... “Sibila...” Ela sentia que não esqueceria esse nome tão cedo... “Por favor, esteja bem...”

Ponderava enquanto caminhava.

“Me perdoe, isso é algo que preciso fazer desde que cheguei ao Castelo. Minha máquina de escrever está me guiando ao sangue. Meu destino é sempre sangue. Geralmente o mar, a noite, a neve, a chuva... algo me envolve, e agradeço à natureza deste planeta, pois nele sinto-me em casa, apesar de tão distante. Conhecê-la, querida Sibila, me fizera acreditar mais nas pessoas...”

Arale sentia seus instintos aflorados, uma intuição de que algo que a aguardava seria revelador e doloroso. Ela lidava com o mistério e a dor diariamente, mesmo quando repousa. Seus sonhos são permeados de cânticos sagrados que a envolvem sempre para a batalha — é a identidade que conhece: a morte...

Ela é um espectro do exício, um espírito de solidão na consagração do sangue que busca purificação. Uma extensão dos agentes cósmicos de uma tribo dizimada, uma geração de ceifadores que foram apagados pelo pó do tempo, pelos ossos das palavras. Ela é um eco do ceifador xamã que sente o beijo da terra, o sopro da vida e a oração da transmutação. Nas asas do terror, nas portas da morte, uma escada que só desce...

Arale começa a ouvir sinos badalarem, crianças correndo e chorando, pessoas gritando. De onde viriam? Seriam efeitos torpes de sua mente? Ela enxerga belas luzes coloridas quando fecha os olhos — e todas se derretem, mesclando-se em sangue e ossos.

Quando foi que começara a ouvir vozes? Culpa, lágrimas, dúvida...

Quando foi que começara o questionamento de sua sombra, de sua sanidade? Ela continuava caminhando, tentando manter-se firme.

Talvez Arale tenha enxergado em Sibila um horizonte de vida e esperança, brilho, beleza que perdera em seu coração que sangra; uma ingenuidade pura, uma amizade transparente.

Não fora apenas mais um trabalho de mercenária fria. Não tem sido apenas isso já faz um tempo. Desde o encontro com Laparus e a vitória daquela comemoração sagrada, Arale estava já há muito distante de qualquer vínculo humanizador — até que necessitou lidar com seus demônios internos mais do que com qualquer outro que ela enfrentasse e ceifasse com seu machado voraz e faminto...

Arale corria, arfante, enquanto sua máquina de escrever perpetuava pelos ares da recém-chegada noite partículas de luz e brilho escarlate — como um tipo de lágrima espectral.

A máquina conhecia Arale e sentia quando ela não estava bem...

O capuz esvoaçante balançava ao ritmo do vento frio.

A aurora da ilha gelada tingia o horizonte com um tom incerto, algo entre o cinza e o prateado, como uma cor que se recusa a se definir. Arale sentiu o ar cortante, como facas invisíveis, arranhando sua pele, enquanto avistava chegar a um tipo de porto de madeira. Um humilde transporte surgia em sua linha de visão: o barco se aproximava do cais abandonado, um lugar onde o silêncio era mais forte do que qualquer grito.

Um aparente pântano núrido, com uma humilde lamparina no cajado bestial que mesclava luz e putrefação, cintilava.

O mercante encapuzado, seu rosto oculto pelas sombras de seu capuz, aguardava de pé, como uma estátua desconfortavelmente viva. Ele parecia uma extensão do próprio ermo gélido que os cercava. “Olá, estranha... hehe”, dissera com uma voz cadavérica.

“O preço de um passageiro, jovem caçadora, é sempre uma caçada”, disse ele, a voz um eco distante, como se tivesse vindo de um mundo onde o tempo se arrastava de maneira mais lenta.

Arale observou o homem, sua figura esfumaçada pelo gelo e pelo vento. Seus olhos não conseguiram discernir o que estava embaixo da capa, mas a promessa de uma carona era tentadora. Ela se sentia atraída, como uma mariposa para a chama de um perigo desconhecido. Agraciada e bem-vinda, sempre se sente assim — isso a faz viva, inconsequente, cruelmente perigosa e a melhor no que faz. A oferta era simples: caçar algo em troca da viagem. Algo terrível. Algo que ela não poderia recusar.

O perigo não era morrer, era se perder de si mesma.

Naquele instante, a máquina de ossos sangrou e escreveu um pergaminho com informações valiosas:

“A floresta de gelo, a Thilzarra”, era o nome — o nome daquilo que o barqueiro encapuzado confirmara com um gesto e para o qual sugerira cuidado. Com seus dedos trêmulos, parecia distante. Não era um nome que pudesse ser pronunciado sem certo receio. Era o tipo de floresta que habitava os pesadelos dos viajantes perdidos.

Arale, com sua máquina de escrever pulsando em sua bolsa, sabia que não poderia fugir do destino quando ele lhe escrevia um pergaminho.

A caçada seria sua, e o caminho que tomaria levaria a uma jornada da qual talvez nunca retornasse. O barqueiro indicou o caminho. Estava perto. Caminhara mais alguns metros, avistou árvores imensas e uma entrada obscura — e então mergulhou.

Ao adentrar a floresta, o ar se tornou mais espesso, mais denso, como se a própria natureza estivesse respirando de maneira irregular, quase insustentável.

O musgo esmeralda das árvores pulsava como se vivesse, e os dentes nas suas raízes pareciam sussurrar promessas sombrias e irrefutáveis. O sangue das folhas, grosso e espesso, se espalhava no chão com a consistência de vinho velho, tingindo a terra marrom e dourada com uma aura de decadência.

Arale não conseguiu desviar o olhar.

Ela sabia, intuitivamente, que aquilo não era apenas uma floresta — era um cemitério. A cada árvore que cruzava, uma sensação de vertigem a tomava. Olhou para os troncos, onde, nas cavidades profundas da casca, as figuras pareciam se mover — mas não eram mais humanas. A metamorfose já havia se concretizado: pessoas haviam sido transformadas em cascas vivas, prisioneiras de um ciclo de condenação eterna.

A máquina de escrever, que Arale carregava como uma companheira fiel, começou a emitir sons estranhos.

Cada tecla pressionada parecia liberar uma página, uma verdade. Cada novo pergaminho que emergia, a história da floresta se desdobrava diante dela — como um poema maldito.

Ela leu, pela primeira vez, as palavras escritas:  

"Thilzarra. Um cemitério de almas.  
A maldição dos elfos, selada nas raízes do mundo. 
Aqueles que caminham aqui, não podem mais voltar."

A sensação de engano se solidificou como uma prisão. 

Ela não havia sido escolhida para caçar a criatura. 

Ela mesma era a caça. A floresta a observava, e agora, sabia que a busca pela criatura da maldição não era apenas um caminho físico. Era uma jornada emocional e psicológica. 

Cada passo que ela dava era como uma invasão do seu próprio ser.

Ouviu um sino em forma de coruja cega,
Que chorava hortelã de um céu lilás,
Sentiu nos lábios o amargor da paz
Enquanto a dor do som na pele pega.

Sabores frios sussurram: “Nunca mais”,
No ar um tom de lágrima que rega
O chão febril da mente que carrega
Luz púrpura em filetes viscerais.
As árvores cantavam tons de gelo,
E os troncos sussurravam com a voz
Do sangue doce em cada caramelo.

 Arale — um eco que o destino atroz
Mistura em névoas, sons e pesadelo:
Foi tinta a lágrima que a vida pôs.

Haikai Sinestésico
Vinho grita azul,
cheiro de vidro e memória—
a floresta ouve.

Poetrix Críptico
Sinos têm sabor de medo
luz escorre dos ossos —
Arale mastiga estrelas.

As árvores gritavam sua memória,
Num dialeto feito de raízes,
Sangue escorria em letras cicatrizes,
Versando em dor a anti-história da glória.

O musgo a envolvia em cicatriz sonora,
E a mente — lâmina em espiral —
Debatia-se em guerra abissal,
Dançando com a esquizofrenia aurora.

Encontrai a lágrima esmeralda agora,
Sussurra o chão em voz de vinho e limo,
Enquanto a névoa em forma de alma implora.
Mas cada passo é um passo em desatino —
O feitiço é um espelho que devora,
E Arale busca o fim no próprio sino.
A Boca da Névoa, ecoa o sangue,

Onde o silêncio range como escama,
Há uma raiz que respira mentiras.
A névoa é feita de véus e de drama,
Quem entra se apaga em trilhas vazias.
O Espelho de limo a água reflete aquilo que engana:
Um rosto antigo, ou o que não se é.
Não toque, não grite, não diga "me ama",
O musgo devora quem busca por fé. 

O Círculo dos dentes-arvores-cães mordem o ar aflito.
Folhas rangem como penas em pranto.
Pisa devagar no chão eremita —
O sangue escuta e pinta o manto.
a clareira de ossos cantantes,
Lá se dança com as vozes do vento,
cada costela entoa um nome esquecido,
Há um tambor feito de firmamento,
Toque-o e revele o que tem sido.
Na ponte de carne e areia,
Um rio de lembranças flui sob os pés.
O chão pulsa. 
O medo te nomeia.

Olhos surgem onde pisas, em rés
Caminho. A verdade ali se incendeia o portal 
das guelras de luz se os ouvidos ouvirem em cor,
a língua falar em perfume,
então verás o último torpor,
um vulto de esmeralda e lume,

A Árvore-Relicário 
no coração da floresta que chora,
Há um tronco que respira teu nome.
Abraça-o. E talvez, nessa hora,
A lágrima verde em tua alma tome.
Canta, Arale, no ventre da espessura,
Lágrima viva da alma da árvore,
Quebra o encanto da carne em clausura,

Sangra esperança no fel da palavra.
Três vezes dize o nome do espelho,
Com os olhos fechados em vinho e fumaça,
Deixa que a dor escorra em conselho,
Enquanto a floresta tua sombra abraça.
Na raiz onde o tempo se curva e enlouquece,
Ali verte a lágrima verde, tão rara —
Quem a encontrar, que nunca se esquece:
A alma retorna, e o feitiço dispara.

 

Arale está em uma dimensão onde as árvores são sustentadas por raízes suspensas, presas a um tipo de fio sanguíneo gigantesco. O solo é um ocre rubi, umedecido e pastoso. No céu, engrenagens criam correntes de luz, onde imensos sinos dourados dobram.

Ela avista diversas ruínas flutuando, sangrando cores e pesadelos, exalados das almas petrificadas no coração das árvores cheias de dentes predatórios e grotescos.

Arale enxerga, em uma pequena folha, um espelho de cristal — e nele vê Sibila. Sabe que ela lhe daria força e que não desistiria...

Arale fecha os olhos e canaliza o poder em seu machado, arremessando-o contra o coração central daquele espectro fantasmagórico. Um arranha-céu multicolorido se desmancha, virando-se de ponta cabeça sob os pés de Arale. Ela enxerga uma porta — ou seria uma janela? — e a adentra.

Ao mergulhar por esta secreta janela, depara-se com um recôndito familiar: era um cômodo do Castelo Drácula. Como?

Arale prosseguia por um tapete de lâmpadas plasmáticas.

Ela enxergava um quadro na parede com um olho vivo. Este sentinela lhe solicitava que adentrasse, como um tipo de elevador orgânico. Arale mergulha no olho prismático, sendo transportada para o altar do céu — um tipo de torre obscura no Castelo Drácula. Lá, percebe o salão escarlate e uma criatura acorrentada por fios de energia e símbolos de magia, flutuando sobre um tapete de sangue.

A máquina de escrever de Arale sangrara outro pergaminho, chamado: “O Gênese de Sangue...” Seu nome: Var’Ghul.

“Bem-vinda, felina cibernética dos cosmos longínquos. Tu, que és a caçadora dos oceanos de estrelas, o que desejas?”

Arale fica intrigada, pois acreditava que ele seria uma criatura que devesse ser caçada. Porém, seu instinto — e o pergaminho — não sugeriam tal batalha. Arale prossegue.

“Teu sangue ferve. Tua caçada é nobre. Tua purificação, necessária. Lhe sugiro um serviço: se me trouxer três itens, farei uma forja especial em seu machado para lhe auxiliar na caçada. O que achas?”

Arale aceita, sem questionar. Se fosse uma ameaça ou um golpe, já teria ocorrido. Ela aguarda, silenciosa.

“Traga-me um prisma-espelho de sangue de Wendigo, uma engrenagem de criatura orgânica do Limiar e uma lamparina da maçã fantasma. Esses itens estão pelo Limiar, guardados pela filosofia do enigma dos símbolos energéticos. Você saberá. Com eles, conseguirei ativar meu códex umbra e lhe forjar uma arma devastadora, que certamente lhe auxiliará.”

Arale está paralisada, pois a energia do lugar enfraquece os nervos do corpo — como se a asfixiasse. Ela se afasta, retornando à porta, e percebe que estava novamente na floresta, no coração do Limiar. Ela finalmente consegue respirar aliviada, prosseguindo a peregrinação das flores mortas.

A máquina sangra outro pergaminho, que lhe revela a pista que devias seguir:

“Arale... sob a noite lôbrega, absorvem a energia das rachaduras e elas se marcam no mapa, como se tivessem um vínculo com o papel. São lugares, ilhas perdidas, afundadas e erigidas das profundezas. O Oceano é uma entidade.

Encontre Allant Elirrahz,
 o Cartógrafo dos Mares Limiares.”

Ela enxerga, naquele gélido inferno de raízes que chamuscam o glacial âmago da melancolia cristalizada pelos ares,

uma chama críptica que oscila e pulsa pelos oceanos.

Arale fica deslumbrada com a beleza relicária.

Pinturas se desmancham, quadros choram, partituras derretem. Milhares e milhares de páginas sussurram e voam pelos ares.

Cristais brotam do solo. Estalagmites choram e estouram.

Pequenas criaturas peludas flutuam e deslizam, sussurrando alguma travessura inocente — como luvas feitas de plumas.

Arale enxerga um tipo de montaria: um corcel com cabeça de engrenagem e olhos de fuligem. Ela domina a criatura e percorre aquela imensidão enevoada. Por muito tempo cavalga, até que os mares se findam no horizonte e Arale avista vários gobelinus trotando, tentando perseguir o corcel maquinário, que destila carvão de sangue enquanto trepida. Ela continua determinada, como uma filosofia absurda que envenena um espírito sadio. Na conexão que realizara com a criatura, ela busca uma saída, uma resposta, uma solução, um sentido...

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Laparus

No sangue e no doce, renasce o profeta, | um coelho vingador, ceifador do planeta. | Laparus, um outrora humano exilado pela ganância e hipocrisia dos homens…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No sangue e no doce, renasce o profeta, 
um coelho vingador, ceifador do planeta. 

Laparus, um outrora humano exilado pela ganância e hipocrisia dos homens, fora amaldiçoado por um ritual secreto realizado por padres corrompidos pela luxúria e poder. 

A máscara, feita de carvalho banhado com sangue de inocentes, 
selava sua humanidade. 
Com a alma aprisionada no corpo de um coelho, 
ele descobre que a única forma de quebrar sua maldição é destruir os daemons
Gerados pela podridão dos clérigos que selaram seu destino. 
No centro desta cena de terror cósmico, 
Laparus encontra pistas de sua maldição: 

Cada daemon derrotado carrega fragmentos de um pergaminho celestial que, quando completo, revelará o segredo do ovo cósmico e o verdadeiro motivo de sua criação. 

Os daemons, outrora humanos, foram deformados por rituais proibidos realizados por clérigos pútridos que, ao invés de servir à luz, se banharam nas trevas da ganância e do pecado. 

Com um golpe, o bispo ao chão sucumbe, 
mil línguas calam-se, o vil sangue jorrando em rumble

Neste enfrentamento, o Bispo das Mil Línguas, um daemon grotesco criado a partir da avareza e da hipocrisia de um alto clérigo, é derrotado em um combate que mistura horror e ironia sombria. Cada golpe de Laparus rasga as línguas do monstro, liberando uma cacofonia de vozes ancestrais que falam de um pacto esquecido entre a igreja e uma entidade cósmica. 

Laparus encontra, entre os destroços do vilarejo, um pedaço do pergaminho que brilha em luz prateada. Ele descobre um nome esquecido: Zorya Polunochnaya, a guardiã da meia-noite, que pode possuir as respostas para o ovo cósmico. 

A guardiã do limiar entre a luz e as trevas, revela que o ovo cósmico é um artefato criado por uma força primordial, muito anterior à igreja e suas corrupções. Ele contém a essência do renascimento e da destruição, e os daemons que Laparus caça não são apenas monstros, mas fragmentos de um todo maior — ecos de uma divindade esquecida, mutilada pela ganância humana. 

A deusa entrega ao coelho um mapa celeste que leva ao próximo ponto da jornada: uma caverna subterrânea onde um daemon guardião, Azgalor, o Devorador de Almas, reside, protegendo o núcleo do ovo. Lá, Laparus enfrentará a verdadeira extensão de sua maldição e os desejos traiçoeiros da máscara. 

A Celebração dos Láparos toma lugar como um espetáculo dual — vibrante e melancólico — onde a vitalidade das danças e o mistério das máscaras escondem os temores profundos de um povo que luta contra a estagnação. 

A bebida principal, o vinho da Maçã Sangrenta, é uma metáfora do ciclo de vida e morte, enquanto as flores Ovaeren, colhidas pelas crianças, reforçam a noção de esperança e fragilidade. 

Elyni d’Ann, com seu vínculo inquebrantável com os láparos, observa a festividade de longe, séria e introspectiva. 

Para ela, o Outono sempre foi uma época de tensão. 

Muitos dos coelhos que protege são caçados ou sacrificados em rituais secretos durante Aesttera. 

Ela sabe que, sob o manto da celebração, há também dor e sombras. 

Ainda assim, o simbolismo da resistência a inspira, pois mesmo na mais árida estação, há flores que desabrocham. 

Enquanto Elyni e Laparus caminham entre os encapuzados, ela percebe que a dança-ritual não é apenas um símbolo de resistência, mas um mecanismo ancestral que sela um portal. Sob o centro da festividade, o chão começa a rachar, revelando uma fenda vermelha e pulsante, um limiar entre mundos. 

As máscaras de láparos usadas pelos dançarinos vibram com uma energia sinistra, e Elyni entende que elas não são meros artefatos culturais. São instrumentos ligados à maldição de Laparus, símbolos de um pacto antigo feito para conter os horrores aprisionados no Ovo Cósmico. O vinho da Maçã Sangrenta e o néctar de Ovaeren são parte de um feitiço contínuo para evitar que a fenda se abra completamente. 

Os dançarinos começam a cair em êxtase ou convulsões, como se algo estivesse roubando suas energias vitais. Elyni agarra o amuleto de pedra lunar que carrega, tentando conter a energia que emana do portal. Mas Laparus sente algo mais — a máscara em seu rosto começa a se aquecer, a voz de uma entidade antiga sussurra através dela, incitando-o a agir. 

O portal se abre parcialmente, e figuras monstruosas começam a emergir. Elyni deve decidir se confia em Laparus, mesmo com a máscara parecendo controlá-lo, ou se tenta fechar o portal sozinha, arriscando sua vida. O destino dos láparos e da terra depende dessa escolha. 

Elyni percebe que os participantes, tomados pelo êxtase, estão oferecendo mais do que emoções. Sob a superfície do ritual, há uma transferência energética que alimenta o portal e as entidades aprisionadas. Talvez, ao investigar mais profundamente, ela descubra que o Ovo Cósmico, ao contrário do que Laparus acredita, nunca foi uma prisão... mas um casulo de nascimento.

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Sussurros da Meia-Noite & Profecia do Ovo Cósmico

Nas sombras da meia-noite ecoa o véu, | Sussurros antigos de um segredo perdido, | O ovo cósmico, de poder contido, | Revela o destino que à morte é fiel…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Nas sombras da meia-noite ecoa o véu,
Sussurros antigos de um segredo perdido,
O ovo cósmico, de poder contido,
Revela o destino que à morte é fiel.

Nas danças febris, o tempo se desfaz,
O sangue flui, misturado à agonia,
Em cada passo, a dor é melodia,
No ciclo eterno que a vida refaz.

Sob as estrelas, a profecia se tece,
Em línguas antigas, um eco a brilhar,
Os láparos dançam e a terra padece.

O ovo aguarda o momento de se abrir,
A escuridão, seu ventre a dilatar,
No destino final, a morte vai existir.

Sob o véu do Outono, em festa sombria,
Danças e máscaras tecem o destino,
Homens e mulheres, num rito divino,
Clamam pela luz que o inverno desvia.

O vinho da Maçã Sangrenta, escarlate,
Inunda as taças com doce agonia,
Lábios se embriagam de tal melodia,
Enquanto a terra exala seu combate.

Crianças colhem flores de sorte incerta,
Ovaeren ocultas em campos de dor,
Promessa de vida, renovo e calor.

Mas o vento sussurra em porta entreaberta:
A renovação carrega um alto preço,
Pois toda colheita tem seu fim em apreço,
O ovo do pecado cósmico,
No âmago sombrio da antiga floresta,
Onde o vento sussurra um canto profano,
De um ovo escorre o sangue insano,
Derrama o destino que o mundo detesta.

No breu do líquido doce e ferrugem,
Uma máscara surge em madeira maldita,
Sussurrando promessas de dor infinita,
Selando o destino de quem dela se aproxime.

Laparus era seu nome, outrora homem,
Mas a maldição do ovo o fez bestial.
Em olhos negros, um abismo mortal,
E em suas patas, a foice que consome.
A Foice do Juízo Laranja,

Sussurro da máscara de suco da vida,
Na penumbra das catedrais esquecidas,
Onde os vitrais choram sombras e dor,
Laparus, com sua foice ceifador,
Caça os daemons, almas corrompidas.

A máscara sussurra em voz de trovão,
Promessas de poder e eterna vingança,
Mas cobra um preço: da alma, a esperança,
Tornando o coelho a própria escuridão.

Cada golpe que desfere em corpos profanos
Faz brotar chocolate e sangue impuro,
Doce ironia de um destino obscuro,
Redenção tingida de gritos insanos.

Nos ecos do templo, os padres apodrecem,
Enquanto os demônios na morte florescem.
O bispo das mil línguas,
Ao vilarejo perdido e profanado,
Onde a névoa é profana,

E os sinos ecoam em tons de lamento,
Surge um bispo horrendo, vil tormento,
Com mil línguas cuspindo praga insana. 

Seus coroinhas, mortos em servidão,
Arrastam-se em filas, esqueléticas sombras,
Cantando hinos que a carne desonra,
Uma liturgia de pura corrupção.

Laparus avança, foice em punho,
O chão retumba sob suas patas ligeiras,
A máscara o guia com promessas traiçoeiras,
Enquanto a noite revela o último punho.
Nas alturas, onde o céu toca o abismo,
Uma deusa vigia o destino das eras,
Zorya Polunochnaya, guardiã das esferas,
Tecendo segredos em véus de mutismo.

Laparus escala montanhas de sombras,
O vento cortando sua pele de ébano,
A máscara arde com brilho insano,
Enquanto a meia-noite as trevas assombra.

Zorya, em um manto de estrelas brilhantes,
Ergue a mão, o tempo parece estancar,
Seu olhar atravessa o coelho errante,
Do ovo brota a vida e a morte a pairar,
Pois teu fado, Laparus, é o fio constante,
Que tece e corta mundos a se revelar.

Elyni adentra a caverna do devorador
Na beira do abismo, onde o ar é mortal,
Elyni surge, de rosto impassível,
Seu semblante, embora sereno e sensível,
Revela segredos de dor ancestral.

 “Laparus,” murmura, sua voz como vento,
“Teu fado é sombrio, mas não estás só.
Conheço o pesar que te marca com nó,
Pois já vi tantos láparos ao tormento.”

Com mãos cuidadosas, ela o consola,
Seus dedos tocando a máscara fria,
E no coelho, um lampejo de agonia,
Enquanto descem à caverna que imola.
Azgalor os aguarda em seu covil profundo,
Um monstro que devora o fio do mundo.
Sob galhos vermelhos, em cinza envoltos,
Encapuzados dançam em rito profano,
Máscaras frias ocultam o arcano,
Com olhos de coelho, vorazes, revoltos.

O vento sussurra segredos do além,
Folhas cruas estalam no chão apodrecido,
E cânticos fluem em tom proibido,
Como se os mortos clamassem também.

O néctar sangrento nas taças fumega,
Mistura de vida e dor que embriaga,
O aroma de ferro no ar se propaga,
E o vinho, ao descer, como fogo me cega.
Em torno das chamas, os passos em trilha,
Um presságio pulsando nas mãos que partilham.

Por entre danças, máscaras se erguem,
Sussurros brotam do chão revolvido,
Segredos no vinho, o cântico perdido,
Sombras que o olhar mais atento perseguem.

O néctar das flores encharca as bocas,
E os passos em círculos formam o selo,
No vento, palavras que roçam o pelo,
De Laparus e Elyni, em verdades ocas.

As velas vacilam; o chão se abre lento,
Um portal oculta-se sob os encapuzados,
Seu brilho vermelho, um eco sangrento.

Elyni percebe os láparos usados,
Sacrificados ao rito profético,
E grita ao coelho, num tom cético:

“Esse ciclo é mais antigo que teus erros;
A dança marca o retorno dos destroços,
Pois o Ovo Cósmico guardava terrores,
E as máscaras são os seus olhos atrozes!”

No véu da dança, o temor é desejo,
O vinho embriaga a alma supersticiosa,
Sob máscaras mórbidas, voz sinuosa,
Chama à comunhão num ritual ensejo.

Os passos, febris, ressoam no chão,
E as máscaras tornam-se faces reais,
Coelhos soturnos, dos mundos astrais,
Testemunhas de uma oculta criação.

O frio murmura promessas no vento,
O sacrifício, preço de fertilidade,
Sangue e canto fundem-se em dualidade.

O inverno se ergue em um vago lamento,
Mas Aesttera grita contra o destino,
Renovar na morte o ciclo divino.

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

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Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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