Castelo Vampírico: Onde quer que morreres, morrerei, e ali serei sepultada

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

08 de janeiro? — A criatura foi em direção ao monstro, segurando o lampião que emanava uma luz azulada. Eu estava tonta e não conseguia me levantar. Ela veio em minha direção e me estendeu a mão esquerda, enquanto, com a direita, segurava o lampião para manter o monstro afastado. Aceitei sua ajuda com receio, mas precisava sair dali. Não podia pensar demais se ela era confiável ou não.

Levantei-me e me apoiei nela. Ela me levou até o meu quarto, ajudou-me a sentar na cama e se sentou de frente para mim, na cadeira da escrivaninha.

— Você foi imprudente. Ameritt foi bem clara quando disse que você não deveria sair do círculo — disse ela, com uma voz firme. Surpreendi-me com o pouco de emoção em seu tom.

— Se eu não tivesse te encontrado, você agora seria o jantar do monstro — falou isso com um quase rir, um leve sorriso que não acreditei estar vendo. Ela achou mesmo graça na minha possível morte? — Uma morte dolorosa e sem propósito, porque não conseguiu esperar um momento antes de sair correndo pelos corredores do castelo — ela me olhou, semicerrando os olhos.

Ela estava falando, as palavras saíam de sua boca. Eu não mais a ouvia dentro da minha cabeça, e isso chamava minha atenção, como quem chama a atenção de uma criança desobediente.

— Pedirei a Ameritt algo para te ajudar. Vi quando você caiu, e não foi uma queda que se deva ignorar. Recomendo que não durma — ela se levantou e saiu do quarto.

Fiquei sozinha, sentindo dor na parte de trás da cabeça e um zumbido no ouvido. Forcei-me a ficar acordada. Vi que, sobre a escrivaninha, estava o lampião, perto do vaso de orquídea que, havia um tempo, eu não dava a atenção devida. O livro também estava lá. A criatura deve tê-lo trazido depois do ritual. Levantei-me, sentei-me à escrivaninha e abri o livro. As letras não se mexiam mais, porém eu não tinha conhecimento linguístico o bastante para traduzi-lo. Eu poderia até tentar, mas levaria tempo. Pelo menos o ritual havia funcionado: a criatura tinha suas lembranças e o livro podia ser lido. Uma leve comichão no meu antebraço esquerdo se iniciou. Pensamentos inquietos começaram a me tomar. E comecei a sussurrar para mim mesma: “Se controle, pense com a razão, não perca o controle agora, você não precisa se apressar”. E eu queria muito aceitar minhas palavras e simplesmente parar essa vontade. Eu não sou assim. Eu sou paciente. Então por que essa ansiedade, essa pressa em iniciar? Não entendo o motivo de ser tão difícil controlar essa vontade, quando sou tão cautelosa com tudo que faço. Por que não consigo resistir a essa vontade?

Continuei sentada, pensando no que fazer enquanto esperava a criatura voltar. Coloquei os cotovelos sobre a mesa e as mãos no rosto, fechei os olhos e tentei manter minha respiração regular. Eu estava inquieta, precisava me acalmar e impedir que a vontade aumentasse. Comecei a bater as unhas na mesa de maneira ritmada para controlar o impulso de fazer aquilo que eu considerava ruim: agir sem pensar. A comichão no meu antebraço esquerdo aumentou, e eu comecei a coçá-lo sem parar, abrindo, aos poucos, a ferida que já estava cicatrizando. A dor parecia acalmar o impulso, a vontade de fazer o errado. A comichão aumentava, e eu a coçava com mais força, ampliando a ferida, mas aliviando a vontade. Senti minha mão direita ser segurada, impedindo-me de continuar com aquilo. O toque era gelado, e olhei para seu rosto sem expressão.

— Você deve parar com isso — disse a criatura.

— Devemos ir, pois precisa ser feito. Não aguento mais esperar — falei, impaciente.

— Sim, nós vamos, mas primeiro se recupere — ela concordou em ir, e eu continuava a dar ouvidos ao mal inquietante que, em algum momento, nesse castelo, se apossara de mim.

Ela enrolou meu braço com um tecido e, depois, me ofereceu o copo que segurava com suas mãos translúcidas. Disse que aquilo me faria sentir um pouco melhor. Bebi, e o sabor era metálico e amargo. Não parecia com nada que Ameritt já tivesse me feito beber. O gosto era horrível, mas ela disse que eu iria precisar daquilo quando percebeu que eu não conseguia terminar a bebida. Bebi tudo de um gole só, cada gota daquela substância horrenda, e comecei a suspeitar que não fora feita por Ameritt. Então a encarei por um momento e perguntei:

— Você consegue ler o livro, não é? — virei-me para ela, que estava de pé ao meu lado. — Mesmo nessa linguagem?

Ela confirmou com a cabeça e falou.

— Qual é a ajuda que você precisa? — Ela cruzou os braços, ficando bem de frente para mim, sendo direta.

— Eu preciso que você me ajude a… — Parei no meio da frase. Já não sabia se queria sua ajuda.

— Vamos, continue. Temos outros afazeres, e preciso que você seja breve — disse, incitando-me a continuar, com um gesto de mão.

— Eu preciso que você me ajude a ressuscitar alguém — falei de uma vez. Talvez isso fosse algo difícil para ela cumprir; trazer alguém da morte não me parecia, pelo menos para mim, algo fácil.

— Eu posso te ajudar nisso. O livro tem um feitiço para isso. Preciso recuperar meu corpo, e talvez encontremos no cemitério do castelo um que seja adequado, quando formos pegar o corpo que você precisa.

— O corpo dela não foi enterrado no castelo — murmurei, desanimada.

— Humm… Isso dificulta um pouco as coisas, mas posso encontrar formas para que seja feito. Preciso ler o livro e planejar nossa busca, listar o que iremos precisar. Então, descanse para que amanhã possamos começar.

Fui para a cama, mas o sono demorou a vir.

09 de janeiro? — Eu já tinha visto o céu mudar no castelo em outras ocasiões, já sentira seu humor mudar como um ser vivo, mas aquilo que eu via era diferente. O primeiro sinal da mudança percebi pelo som: um estalo metálico e sutil, como se engrenagens se movessem dentro das paredes do castelo. Um ranger baixo, como aço contra aço. Acordei com esses sons e olhei para a criatura, que, sentada, me observava inquieta.

— Você ouviu isso? — perguntei a ela, sentando-me na cama e tentando ouvir melhor.

— Ouço desde antes de você acordar. Está crescendo, mas o que me preocupa não é o som, e sim o silêncio.

Então eu percebi: o castelo, sempre cheio de ruídos, sussurros, passos distantes e sons difíceis de explicar, estava suspenso. Era como se estivesse prendendo a respiração ou algo o impedisse de respirar. Não dava para definir. Um silêncio opressor pairava no ar e, por trás dele, o som mecânico ritmado vinha de algum lugar do castelo — ou talvez de todo ele. Levantei-me e abri as janelas. Meu peito se apertou quando vi o céu ostentando dois sóis difusos: um dourado vibrante e outro de um cobre profundo, como dois olhos sobre um horizonte azul-cobalto e índigo intenso. Uma poeira dourada flutuava no ar e se assentou em minha pele com um brilho opaco.

— Isso é novo… e, ao mesmo tempo, não é — murmurei, tentando controlar o desconforto que aquilo trazia. Era como se eu estivesse diante de uma imensidão pintada por Vincent van Gogh, como Noite Estrelada, mas com ares mecânicos estampados no céu. As mudanças que sempre ocorriam no castelo eram assustadoras, terríveis e, às vezes, até mesmo opressoras. Mas eu nunca diria que não eram belas — e aquilo, à minha frente, era belo de uma forma arrebatadora.

A criatura se aproximou da janela, ficando ao meu lado. Seu corpo etéreo parecia vibrar com toda essa mudança. Ela estendeu a mão e observou a poeira dourada se acumular em seus dedos translúcidos.

— Parece fuligem — disse, erguendo a mão perto do rosto. — Mas sinto que não é apenas isso.

Continuei a observar o pó dourado. Eu ia responder, quando algo mais abaixo, nos jardins do castelo, chamou minha atenção. Movia-se devagar. Não era humano. Tinha pernas finas e articuladas, vapor escapando de suas juntas enquanto caminhava. Metálico e esquio, seguia em direção a um caminho que não estava ali antes… ou estava?

A criatura virou-se para mim, olhos vazios.

— Algo mudou, não é? — disse ela, com uma voz calma, como se perguntasse a si mesma. — Sim, mudou. Sempre muda. Mas, dessa vez, é como se não tivesse. Me pergunto se o castelo está mostrando o que ele quer que vejamos.

Ainda não tinha processado bem tudo que acontecera ontem: o ritual, as lembranças, o monstro, minha quase morte, o fato de a criatura ter me salvado. Mas o que mais me perturbava no momento era a estranha sensação de que tudo parecia diferente e, ao mesmo tempo, igual. Era como se tudo isso sempre estivesse ali e eu apenas não tivesse olhado direito. Parei e respirei fundo. O castelo sempre mudava, mas, dessa vez, estava diferente. Cheiros diferentes. Sons diferentes. Criaturas diferentes.

— E o que isso significa? — insisti.

A criatura ficou em silêncio por um tempo e, então, virou-se de frente para mim. Com uma calma perturbadora, disse:

— Significa que você precisa ter mais cuidado. Estamos em território desconhecido.

— Isso é óbvio, não é? — resmunguei.

— Talvez não tanto quanto você pensa — ela me observou, semicerrando os olhos. Acho que senti algo nesse olhar… desprezo, talvez? — Se você morrer, eu também morro.

Minha garganta secou.

— O quê? — foi tudo que consegui dizer.

— Nossas vidas estão vinculadas. Se você cair, eu também caio — ela sorriu, como se aquilo não fosse um problema. — Por isso te salvei.

— Como isso é possível? — Minha mente tentava encontrar uma explicação lógica para aquilo, até que me lembrei do ritual. — Foi o ritual, não foi?

— O castelo tem suas próprias regras — ela falou. — E Drácula as escreve como bem entende.

Ela fez uma breve pausa e, então, continuou:

— Agora que essa situação nos tornou mais íntimas, me chame pelo meu nome: Mara. Li suas anotações, e você tem me chamado de “criatura”.

Então ela leu meu diário. Algo péssimo para se iniciar uma “amizade”. E agora sabia sobre mim, muito mais do que eu sabia sobre ela. Fiquei em silêncio, pensando. O nome dela me incomodava, e eu não sabia o motivo… até que a peça se encaixou.

— Rute e Mara — ri sem humor. — Esse é seu nome mesmo, ou é alguma brincadeira?

Mara me olhou sem entender.

— É um teste de sanidade? Drácula realmente gosta de brincar com os hóspedes, não é? — Eu começava a ficar irritada.

Ela continuou me olhando, intrigada. Realmente parecia não entender a que eu me referia.

— No Livro de Rute, na Bíblia, há um versículo que diz: "Porque aonde quer que tu fores, irei eu; e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo será o meu povo, o teu Deus será o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu, e ali serei sepultada" — recitei o versículo com tanta facilidade que até fiquei surpresa.

Mara semicerrou os olhos novamente e, logo depois, riu.

— Interessante… Mas nunca ouvi falar desse livro.

Isso me fez duvidar. A lembrança mostrava uma catedral e o que pareciam ser freiras. Ela deveria saber o que é uma Bíblia.

— Imaginei que você conheceria — olhei em seus olhos vazios e escuros, para me certificar de que ela escondia algo.

— Realmente não sei o que seja e não consigo imaginar o motivo de você ter achado que eu saberia — ela me encarou por mais tempo, como se quisesse que eu a olhasse melhor.

— Quando fizemos o ritual, consegui ver algumas de suas lembranças e vi o que talvez fosse você em uma catedral — eu disse, desviando o olhar daqueles olhos vazios.

— Entendo. Sim, era uma catedral da ordem à qual faço parte, mas não temos Bíblia lá. Pelo que entendi, é um livro sagrado. Temos livros sagrados na ordem, mas não esse.

Ela fez uma pausa antes de continuar:

— Como o castelo vive entre realidades, você não deveria se surpreender se as nossas fossem diferentes. Também não me surpreende que tenha sido Drácula quem agiu para que esse nosso encontro acontecesse. Ele age de formas que não compreendemos… até que seja tarde — disse isso com um quase rir.

Engoli em seco. Tive que concordar com ela. As coisas que vi nas lembranças dela eram de um mundo diferente do meu. As engrenagens invisíveis aumentaram seus ruídos, girando em um ritmo um pouco mais rápido, despertando-me de um devaneio que se formava. Mara sorriu outra vez. Um sorriso ambíguo. Eu a encarei, e um arrepio subiu por minha espinha.

— Eu preciso pensar no que fazer e em como proteger nossas vidas nessa nova versão do castelo. Precisamos entender o que está acontecendo — afirmou.

Ela me explicou que deveríamos encontrar Drácula antes de qualquer coisa. Disse que eu deveria tomar cuidado: não beber nada, não tocar em nada, não passar por portas que ela não tivesse verificado antes. Ela não sabia se poderia me proteger direito, estando na forma em que se encontrava, e alertou que, se algo ocorresse, eu deveria deixá-la para trás, correr para dentro do quarto e me trancar.

Mara repetiu que era necessário encontrar Drácula, que ele nos ajudaria a ressuscitar Hadassa. Mesmo que eu não tivesse muita fé nessa informação, ela dizia que ele também traria o corpo dela. Não sei quanto tempo ficamos no quarto planejando o que faríamos. Chegou um momento em que não havia mais o que planejar, e o silêncio se formou entre nós. O castelo parecia sincronizar sua respiração com a nossa, esperando nosso próximo passo. Precisávamos sair dali e entender o que estava acontecendo.

— Se você estiver se sentindo disposta, podemos iniciar nossa busca agora. Vamos até o cemitério do castelo e, depois, procuramos Drácula. Ele tem o que precisamos.

— Não tenho certeza se ele pode nos ajudar em algo. Todas as vezes que o encontrei, ele pareceu apenas se divertir às minhas custas.

— Sim, é isso que ele faz: se diverte. Quando fui procurar Ameritt, encontrei-o no saguão do castelo. Ele usou estas exatas palavras: "Dê a ela meu sangue para que ela viva, pois o espetáculo deve continuar".

— O quê!? Você disse que iria pedir a Ameritt para me ajudar!

— Disse sim, mas encontrei Drácula antes. Não faz diferença, você está curada… ou pelo menos parcialmente curada — vi que ela olhou para minha ferida, que tornara a abrir. — Drácula te curou. Fique feliz por isso. Ele não costuma ter um bom coração… se é que tem um.

Ela fez uma pausa antes de concluir:

— Então, vamos ao que precisa ser feito.

Suspirei, irritada. Não havia como mudar o que já tinha sido feito.

— Tem mais alguma informação que você precise me dar antes que a busca por Drácula se inicie? — Minha voz saiu ríspida, e eu não via motivos para controlá-la.

— Drácula é quem vai ressuscitar Hadassa. Ele também decidirá o preço que você deve pagar… então esteja preparada para negociar — falou, virando de costas para mim e indo em direção à porta.

Saímos do quarto e viramos à esquerda. Mara parou de repente. Sons sutis de metais. Engrenagens se movendo cada vez mais rápido. Ela começou a dar passos mais lentos em direção aos sons. Foi então que senti o cheiro ácido e adocicado de óleo queimado, o aroma sutil de ferrugem úmida e carvão.

— O castelo mudou de novo… Olhamos para o lado por um breve momento, e ele mudou. Estive no saguão há pouco, e nada disso estava aqui — Mara olhava de um lado para outro, à minha frente, verificando todo o espaço.

Continuamos nossa caminhada e, aos poucos, percebemos as diferenças. Máquinas que antes não estavam no castelo agora se faziam presentes. A cada passo, os sons mecânicos ficavam um pouco mais altos, contrastando com o silêncio opressor que reinava. Vapor. A luz amarelada de lâmpadas a gás projetando sombras sutis nos corredores. Corredores que eu achava conhecer. Os sons aumentavam. O ar tornava-se denso, como se atravessássemos camadas e mais camadas sobrepostas. De ar? De tempo? Ou talvez da própria alma do castelo? Não sei dizer. O castelo, esse organismo pulsante, parecia ter decidido expor suas entranhas de forma sutil. Eram belas… mas pareciam fora de contexto, e eu não conseguia raciocinar.

Minhas lembranças diziam que as paredes eram de tijolos escuros, mas agora eu via engrenagens embutidas nelas, canos, ferro, cobre e vapor. Os belos vitrais, que antes jurava exibir cenas distintas, agora mostravam engenhos que eu ainda não compreendia e dirigíveis flutuando entre as nuvens. E o teto… Eu poderia jurar que sempre fora escuro e abobadado, mas agora exibia tubos de cobre como veias e artérias. Senti meu coração acelerar. Eu sabia que algo havia mudado, mas, ao mesmo tempo, parecia que nada mudara. Estava inquieta. A comichão em meu braço esquerdo retornava. Será que fui cega esse tempo todo, ou o castelo realmente mudou? Mara disse que se sentia da mesma forma, mas, se isso a afetava, ela escondia bem.

Encostei a mão em uma coluna de ferro ornamentada. Senti pequenas vibrações, um calor estranho. Isso deveria me parecer familiar, não deveria? Hesitei antes de continuar o caminho com Mara. Não esperava nada ao sair do quarto com ela, mas, em vez de entranhas, veias, carne e cheiro de sangue, havia tubos, canos, vapor, metais e fuligem. Andar pelos corredores do castelo era como caminhar em um labirinto que se modificava a cada passo que dávamos. O ar, por vezes seco, por vezes úmido. O espaço oscilava entre passado e futuro. Dentro de mim, crescia uma pressa em compreender o que estava acontecendo. Portas surgiam onde antes não existiam. Passagens conhecidas desapareciam. Descemos escadas que não lembrávamos ter visto antes. Passamos por portas que se abriam para espaços que, aparentemente, não deveriam estar lá.

Uma porta de ferro e cobre estava entreaberta, Mara olhou por ela por alguns segundos e entrou, dizendo que era ali que deveríamos entrar, eu ainda hesitei por alguns instantes antes de segui-la. No centro de uma grande sala, havia uma bancada desorganizada, com frascos que reluziam com cores vivas, engrenagens, peças de ferro ou cobre, papéis com esquemas, fórmulas e cálculos. Livros empilhados, máquinas estranhas, criaturas como aquele que eu havia visto ao olhar pela janela do meu quarto, umas outras faltando partes.

—  Estamos sendo observadas — Mara sussurrou ao chegar bem perto de mim. — Fique perto de mim.

Um brilho azul, num canto escuro da sala, se acendeu revelando o rosto imóvel de nosso observador.

—  Vocês estão perdidas? — sua voz era densa, ele caminhou devagar até onde estávamos. Eu parei e fiquei olhando para ele.

—   Ninguém se perde num castelo que decide onde você deve ir, não é? — Mara retrucou dando alguns passos a mais e ficando à minha frente.

—   É interessante a forma como você vê as coisas. — afirmou ele encarando Mara com olhos frios, por mais tempo do que eu achei necessário.

Me aproximei só um pouco para olhar as máquinas em volta de nós, que pulsavam com uma lógica que me escapava, engrenagens que se moviam, marcadores que giravam. Nada ali fazia sentido e ao mesmo tempo estava em ordem, minha mente se admirava com aquilo e mesmo assim não conseguia decifrar nada.

—  Você é cientista — ele disse isso mais como uma afirmação do que como uma pergunta.

Senti que Mara se enrijeceu perto de mim, não precisei olhar para ela para saber que semicerrou seus olhos, carregado com aquele desprezo que, no nosso pouco tempo juntas, reservará a mim.

—   Era, antes do castelo — eu respondi desviando o olhar, voltando a observar as máquinas à nossa volta.

—    Não existe “era” cientista — sua voz era firme, lenta — uma vez pessoa da ciência, sempre pessoa da ciência. O conhecimento não sai de você, só muda de forma. Isso não se abandona, mesmo que se tente. — ele afirmou dando mais alguns passos em nossa direção.

—   O problema não é parar de fazer ciência, é quando a ciência para de fazer sentido para você.

Ele parecia saber mais sobre mim do que deveria ou era coisa da minha cabeça? Mara bufou e cruzou os braços.

— Palavras vazias, as suas. A ciência possui tanta arrogância quanto as superstições que alguns tentam destruir. Tudo isso — ela apontou para as máquinas e os livros — é só outra máscara para a ignorância. Isso tudo pode ser ciência ou feitiçaria. — Ela olhou para a bancada que eu analisava e parou seu olhar nos papéis. — Ah, ciência, é claro… Mas ciência não é apenas feitiçaria com método? — perguntou, voltando a encará-lo.

Isso era algo que eu não poderia discordar. Houve um tempo em que eu teria negado tal ideia, tentando explicar o quanto aquela fala não fazia sentido, mas agora, não mais. Eu havia sido vencida pela aparente falta de lógica do castelo — que, na verdade, possuía uma lógica incomum, mas que, para mim, tornara-se muito atraente.

Meu olhar recaiu novamente sobre os livros antigos, anotações avulsas e equações incompletas. Ele não pareceu se ofender com o que Mara dissera, apenas ficou a nos observar, analisando-nos em um breve silêncio. Quando voltou a falar, olhei em sua direção.

— A ignorância é um conceito relativo… Mas acredito que você entenda, não é? — disse ele, olhando para mim.

Eu não soube responder, não naquele momento, porque algo dentro de mim, que eu pensava ter deixado para trás, se remexeu.

— A propósito, me chamo Arturo Vasquez — ele deu alguns passos e estendeu a mão para mim, ficando bem de frente a Mara.

— Me chamo Rute — dei alguns passos, posicionando-me ao lado de Mara e apertando a mão dele. Seu aperto era firme.

Ele estendeu a mão para Mara, que cruzou os braços, recusando-se a apertá-la.

— Eu sou Mara — ela murmurou, enquanto ele recolhia a mão e sorria de leve para ela. — Feitas as apresentações, agora precisamos ir.

— Esperarei pelo nosso próximo encontro — ele inclinou a cabeça como um gesto de despedida, e nós seguimos nosso caminho.

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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