Lírio purpúreo
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Sintra, Portugal.
1713
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína. As cortinas de veludo púrpura pendiam pesadas sobre as janelas cerradas, impedindo que qualquer vestígio do mundo exterior penetrasse meus aposentos. Restavam apenas a luz vacilante de três velas sobre a penteadeira e o perfume adocicado dos lírios que eu mantinha em um vaso de prata ao lado da cama. Ou talvez já não fossem lírios.
Desde que ingerira o fungo, suas pétalas haviam escurecido nas extremidades. A antiga brancura transformara-se em manchas violáceas, semelhantes a hematomas florescendo sobre carne pútrida. Enquanto escrevo estas linhas, os lírios ainda repousam ao meu lado, tão vivos quanto no dia em que os colhi. Talvez este diário seja tudo o que restará de mim quando a história chegar ao fim.
Naquela manhã, quando adentrei o bosque que circundava a propriedade de minha família para realizar minha habitual caminhada, não poderia imaginar a descoberta nefasta que me aguardava. Entre os lírios que colhia para adornar meus aposentos, havia algo que meus olhos não reconheceram como pertencente à natureza comum. Parecia uma relíquia caída dos céus ou um artefato oriundo das histórias que minha ama contava para assustar-me durante a infância.
Ali, entre raízes retorcidas e pétalas alvas, brotava um fungo de coloração púrpura tão intensa que parecia concentrar em si toda a luz de uma lua refulgente. Suas lamelas imitavam as pétalas dos lírios ao redor, abertas como dedos infames emergindo das profundezas da terra. Gotículas viscosas brotavam de sua superfície, brilhando sob o amanhecer como lágrimas de vidro ou secreções de alguma criatura adormecida sob o solo. Sua presença destoava de tudo ao redor. Não havia beleza naquela forma, tampouco havia repulsa. Existia apenas uma estranha sensação de reconhecimento, como se eu finalmente houvesse encontrado algo que me aguardava havia muito tempo.
Aproximei-me. Sua superfície pulsava sob os raios do amanhecer, como se respirasse. Como se estivesse vivo. Uma sensação inexplicável tomou conta de mim. Eu precisava possuí-lo, como se o fungo púrpuro sussurrasse meu nome através do silêncio do bosque. Como se desejasse que nos tornássemos uma única coisa. Em um rompante desprovido de toda lucidez, arranquei-o da terra e o levei aos lábios. O gosto assemelhava-se ao de sangue envelhecido. Havia também algo de ferro oxidado, de moedas esquecidas sob a chuva e de água estagnada em criptas antigas. A textura era macia e úmida, desagradável à língua; ainda assim, engoli cada fragmento.
Por um instante, nada aconteceu. O vento cessou. Os pássaros silenciaram. Até mesmo o farfalhar das folhas pareceu abandonar o bosque. Então senti uma pulsação. Não em meu peito, mas atrás de meus olhos.
Uma vibração lenta e profunda percorreu meu corpo como dedos invisíveis deslizando sob minha pele. Cambaleei por um instante, e o mundo tornou-se mais vívido. Os verdes adquiriram tonalidades impossíveis, provenientes de algum lugar além das estrelas. As sombras pareceram ganhar profundidade, e os lírios à minha volta inclinaram-se suavemente em minha direção, como se observassem minha transformação.
Minutos transformaram-se em horas e, quando retornei à propriedade, trazia comigo um buquê de flores e uma estranha sensação de companhia. Não era uma presença definida. Era apenas a impressão persistente de que eu já não estava sozinha dentro de mim.
Naquela noite, ao passar diante do espelho de minha penteadeira, tive a impressão de que havia alguém parado atrás de mim. Virei-me imediatamente, mas encontrei apenas o vazio. Ri de minha própria imaginação e tentei afastar o desconforto. Ainda assim, ao deitar-me, senti que algo observava meu sono.
Os dias seguintes transcorreram envoltos em uma névoa de inquietação. Minha ama comentava frequentemente sobre minha palidez crescente e insistia para que eu saísse dos aposentos e respirasse o ar da manhã. Eu pouco respondia. A verdade era que algo mudara dentro de mim desde o dia em que encontrara o fungo no bosque. Eu apenas ainda não compreendia o quê.
O sono abandonou-me pouco a pouco. As noites tornaram-se longas vigílias diante das janelas fechadas. Eu observava os quadros pendurados nas paredes e tinha a impressão de que seus olhos me acompanhavam pela penumbra. Os lírios permaneciam sobre a mesa de cabeceira. A essa altura já deveriam estar secos, embora suas pétalas estivessem tingidas por um púrpura cada vez mais profundo.
Um mês havia se passado, e nada, exceto os lírios e este diário, lembrava o que ocorrera naquela manhã. Por vezes, eu me convencia de que tudo não passara de um devaneio provocado pelo calor do verão. Outras vezes, porém, despertava durante a madrugada com a sensação de que alguém me observava da escuridão.
Até aquela noite, quando a vi diante do espelho.
A princípio, pensei tratar-se de um reflexo tardio, uma ilusão causada pelo cansaço. Havia dormido pouco nas últimas semanas. O fungo roubara-me a capacidade de repousar. Minhas noites haviam se tornado longas vigílias preenchidas por pensamentos mórbidos e pela sensação constante de que algo me aguardava além da superfície das coisas.
A mulher surgiu diante de mim gradualmente. Primeiro um vulto indistinto, depois um contorno delicado emergindo da penumbra e, por fim, um rosto. O meu rosto, mas não exatamente o meu. Ela possuía a mesma curva delicada do nariz e os mesmos cabelos escuros derramados sobre os ombros. Os olhos, contudo, eram diferentes. Violetas. Brilhavam na escuridão com uma intensidade inquietante, semelhantes aos olhos de uma coruja espreitando a noite. Pareciam absorver toda a penumbra ao redor e devolvê-la transformada em algo vivo.
Havia nela uma perfeição impossível, como se eu contemplasse uma lembrança idealizada de mim mesma. Parecia mais jovem, mais bela e mais viva.
Ela sorriu, e naquele instante senti o odor. Não vinha dos lírios. Era o cheiro dela. O cheiro do fungo. Sangue envelhecido, ferrugem e terra úmida após a chuva. Algo doce e pútrido ao mesmo tempo, algo que despertou em meu peito uma repulsa tão intensa quanto a necessidade de continuar olhando.
Piscar tornou-se difícil. Desviar o olhar, impossível. Senti meus dedos enrijecerem sobre a madeira da penteadeira enquanto meu coração martelava o peito em descompasso. Ainda assim, uma parte de mim desejava que ela permanecesse ali. Desejava observá-la por mais alguns instantes, por mais alguns minutos, por toda a noite. Quando finalmente reuni coragem para sair daquele transe febril, o quarto estava vazio. Restava apenas o espelho da penteadeira e meu reflexo, sorrindo um segundo depois de mim.
Permaneci imóvel durante vários minutos. Meus olhos percorriam cada centímetro do espelho, procurando qualquer vestígio daquela aparição. Nada. Apenas meu próprio reflexo me encarava do outro lado do vidro, tão comum e imperfeito quanto sempre fora. Ainda assim, não consegui abandonar a penteadeira naquela noite.
As velas consumiram-se lentamente enquanto eu permanecia sentada diante do espelho. Por vezes, julgava perceber um movimento no canto da superfície prateada, uma sombra ou o esboço de um sorriso. Contudo, sempre que me aproximava, encontrava apenas minha própria imagem. Quando a luz do amanhecer infiltrou-se pelas frestas das cortinas, uma tristeza profunda apoderou-se de mim. Não era alívio o que sentia pela partida da criatura. Era melancolia.
Os dias seguintes transformaram-se em um suplício silencioso. Eu mal conseguia concentrar-me nas leituras, nas refeições ou nas conversas com os criados. Minha atenção retornava constantemente ao espelho de minha penteadeira e à lembrança daquele rosto impossível. Por mais que tentasse ocupar-me com tarefas cotidianas, acabava retornando aos meus aposentos antes do anoitecer, aguardando ansiosamente a chegada da escuridão.
Passei a evitar a luz do sol. Mantinha as cortinas fechadas durante grande parte do dia e aguardava com impaciência a chegada da noite. Os lírios continuavam sobre a mesa de cabeceira, estranhamente vivos, enquanto eu me tornava cada vez mais abatida.
À medida que os dias passavam, minha obsessão crescia. Eu examinava meu rosto por longos períodos, comparando-o à lembrança daquela mulher. Observava a curva de meus lábios, a palidez de minha pele e a forma de meus olhos. Havia algo nela que me escapava, algo que a tornava infinitamente superior. Mais bela, mais graciosa, mais digna de ser amada. Quanto mais tentava identificar a diferença entre nós, mais me convencia de que ela era tudo aquilo que eu jamais conseguiria ser.
Por vezes, surpreendia-me perguntando se aquela criatura ainda habitava o espelho ou se tudo não passara de uma alucinação provocada pelo fungo. Mas, em meu íntimo, eu sabia a verdade. Nenhuma alucinação poderia fazer alguém sentir tanta falta.
Desde o dia em que encontrara o fungo no bosque, passei a registrar cada acontecimento neste diário. A escrita tornara-se meu único consolo diante da crescente sensação de que algo escapava à minha compreensão. Se minha sanidade me abandonasse, ao menos estas páginas permaneceriam como testemunhas do que vivi.
Certa tarde, enquanto as criadas preparavam o chá, ouvi-as comentar sobre rumores inquietantes que haviam chegado à Feira de Agualva. Entre bancas e carroças, viajantes narravam uma chuva de meteoros que iluminara os céus semanas antes, exatamente na mesma época em que eu encontrara o fungo entre os lírios do bosque. Diziam que as estrelas haviam rasgado a noite como lanças incandescentes e que fragmentos luminosos foram vistos caindo além das colinas.
Os relatos tornavam-se ainda mais inquietantes conforme se espalhavam entre os viajantes. Alguns afirmavam que animais foram encontrados mortos sem qualquer sinal de ferimentos. Havia até quem jurasse ter visto uma luminosidade púrpura persistir durante dias sobre as colinas, como se parte do firmamento houvesse permanecido presa ao solo.
As criadas riam dessas histórias e atribuíam tudo à imaginação dos camponeses. Eu não consegui rir. Pela primeira vez, considerei a possibilidade de que o fungo não pertencesse verdadeiramente àquela terra.
As aparições tornaram-se mais frequentes. A mulher já não surgia apenas por breves instantes. Permanecia diante de mim durante horas, observando-me através do espelho. Nunca pronunciava uma palavra. Limitava-se a sorrir. Com o passar das semanas, seus movimentos tornaram-se estranhamente independentes dos meus. Por vezes eu permanecia imóvel enquanto ela inclinava a cabeça. Em outras ocasiões, percebia seu sorriso surgir antes do meu.
Numa noite, ela ergueu lentamente a mão. Eu não havia me movido. O terror que senti durou apenas um instante. Logo foi substituído por fascínio.
Meu estado piorava a cada dia. As refeições permaneciam intocadas. Correspondências acumulavam-se sobre minha escrivaninha, sem resposta. Livros que outrora me encantavam passaram a reunir poeira. Nada parecia possuir importância diante da perspectiva de revê-la.
Minha ama tornou-se a única pessoa a notar minha lenta transformação. Comentava frequentemente sobre minha palidez, insistia para que eu abrisse as cortinas e censurava os longos períodos que eu passava trancada em meus aposentos. Eu respondia pouco. Como poderia explicar-lhe que a luz do dia tornara-se insuportável diante da promessa da noite? Como poderia confessar que ansiava pela escuridão da mesma forma que outros aguardam a chegada de um amante?
Certa manhã despertei com a estranha sensação de estar sendo observada. Ao aproximar-me da penteadeira, encontrei um pequeno fungo púrpura repousando sobre sua superfície. Permaneci imóvel durante longos minutos. Eu não o havia colhido. Não na noite anterior. Não conscientemente. Ainda assim, ali estava ele, pulsando suavemente à luz do amanhecer.
Aproximei a mão, mas hesitei antes de tocá-lo. Algo em sua presença despertava uma memória desagradável, como um sonho esquecido que insiste em retornar. Chamei uma criada para confirmar que não se tratava de imaginação. Contudo, quando ela entrou no aposento, o fungo já não estava mais lá. A mulher limitou-se a olhar-me com preocupação, perguntando se eu estava me sentindo bem. Menti. Disse que fora apenas cansaço. Ela pareceu não acreditar inteiramente, mas nada respondeu. Durante o restante do dia, não consegui afastar a sensação de que algo se movia dentro de mim.
À noite, quando voltei a encarar o espelho, a mulher aguardava do outro lado do vidro e sorria como se conhecesse um segredo que eu ainda não era capaz de compreender.
Dormia cada vez menos e, quando finalmente o sono me vencia, era acometida por sonhos inquietantes. Caminhava por florestas cobertas de neblina púrpura, guiada por uma figura feminina cuja silhueta desaparecia sempre que eu tentava alcançá-la. Havia algo profundamente familiar nela, algo que despertava em mim uma mistura dolorosa de fascínio e melancolia.
Ao despertar, encontrava terra sob minhas unhas, folhas presas aos cabelos e manchas de lama na barra de minha camisola. Inicialmente atribuí esses sinais ao cansaço ou aos efeitos persistentes do fungo. Contudo, conforme as semanas avançavam, tornou-se impossível ignorar a frequência com que tais acontecimentos se repetiam.
Certa manhã, minha ama encontrou pegadas de pés descalços na escadaria dos fundos da propriedade. A princípio acreditamos tratar-se de algum invasor ou de um criado imprudente. Apenas eu percebi que as marcas possuíam exatamente o tamanho dos meus pés. Não disse nada. Limitei-me a observá-las até que apagassem os vestígios.
Na noite seguinte, tranquei a porta de meu aposento e escondi a chave sob o travesseiro. Estava determinada a provar a mim mesma que os estranhos acontecimentos eram fruto de minha imaginação. Entretanto, quando despertei na manhã seguinte, encontrei a chave repousando sobre a penteadeira, ao lado de um lírio púrpura recém-colhido. Não havia qualquer explicação possível para aquilo e, pela primeira vez, percebi que já não conseguia ignorar a verdade.
Decidi permanecer acordada naquela noite. Sentei-me diante do espelho e esperei. As velas consumiram-se lentamente enquanto a mulher me observava do outro lado do vidro. Pela primeira vez, tive a impressão de que ela parecia satisfeita. Quando o relógio anunciou a meia-noite, seus lábios curvaram-se em um sorriso sereno, quase afetuoso. Havia reconhecimento naquele gesto, como se ela soubesse algo que eu ainda desconhecia. Então tudo escureceu.
Despertei no bosque. A lua pairava alta sobre as árvores, iluminando fracamente o solo coberto de folhas úmidas. Meus pés estavam descalços e cobertos de lama. Em minhas mãos repousava um cesto repleto de fungos púrpura. Ao meu redor, dezenas deles brotavam da terra como flores malignas. Alguns cresciam junto às raízes das árvores, enquanto outros espalhavam-se entre os lírios silvestres. Havia tantos que o solo parecia pulsar sob sua presença.
Permaneci imóvel durante vários minutos, incapaz de compreender como chegara até ali. O silêncio era absoluto. Nem mesmo os insetos ousavam interromper aquela estranha quietude. Foi então que vi meu reflexo em uma poça formada pela chuva recente. Os olhos violetas que me observavam eram os mesmos da mulher do espelho.
Um arrepio percorreu minha espinha. Levei as mãos ao rosto numa tentativa desesperada de recuperar a razão. Foi nesse instante que senti novamente o odor: sangue envelhecido, ferrugem e terra úmida. O cheiro acompanhava-me. Impregnava meus cabelos, minhas roupas e minha pele. Pela primeira vez compreendi uma verdade que me encheu de horror. O cheiro jamais viera do espelho, jamais viera da mulher e jamais viera do fungo. Vinha de mim.
Meu olhar retornou à superfície da água. Não havia ninguém ao meu lado. Nenhuma criatura oculta entre as árvores. Nenhuma figura observando-me da escuridão. Apenas eu, meu reflexo e aquele sorriso impossível. Foi então que compreendi. A mulher do espelho nunca estivera presa atrás do vidro. Nunca habitara a superfície prateada da penteadeira. Nunca existira separada de mim. Habitava-me.
O horror da descoberta quase me levou à loucura. Cambaleei para trás e deixei o cesto cair. Os fungos espalharam-se pelo chão da floresta como órgãos arrancados de um corpo. Ao observá-los, compreendi algo ainda mais terrível: aquela não era a primeira vez que eu estivera ali.
Ao retornar para casa, encontrei outro cesto que havia sido levado para a cozinha. Fungos secavam próximos ao fogão. Em vários deles reconheci marcas de terra idênticas às que cobriam minhas mãos. A criatura não desejava apenas a mim. Desejava minha família. Desejava espalhar-se. E eu havia me tornado seu instrumento.
Compreendi que não me restava muito tempo. A mulher do espelho não precisava mais aparecer. Eu sentia sua presença em cada pensamento, em cada impulso e em cada respiração. Pela primeira vez desde que tudo começara, tive medo de adormecer. Passei aquela madrugada vasculhando a propriedade. Recordei-me das histórias sobre os meteoros e dos animais encontrados mortos próximos aos locais de impacto. Pela primeira vez, tudo pareceu encaixar-se numa única e terrível verdade. O fungo não era uma criatura do bosque. Não era uma maldição. Não era sequer uma entidade sobrenatural. Era uma semente. Uma semente caída dos céus. E eu havia permitido que ela germinasse dentro de mim.
Tomada pelo desespero, reuni todos os fungos que consegui encontrar no bosque e na propriedade. Carreguei cestos cheio deles até a sala principal da propriedade. Minhas mãos tremiam. Meus músculos doíam. Ainda assim, continuei. A cada novo cesto depositado na lareira sentia a presença da criatura tornar-se mais agitada dentro de minha mente, como se ela finalmente compreendesse minhas intenções.
Quando a última cesta foi despejada diante da lareira, risquei o fósforo. As chamas espalharam-se lentamente. Então os fungos começaram a arder. O fogo adquiriu uma coloração púrpura profunda. As sombras dançaram pelas paredes como figuras distorcidas. O odor espalhou-se pela casa com violência: sangue envelhecido, ferrugem, terra úmida e algo mais, algo que lembrava carne esquecida em um túmulo recém-aberto. Por um instante, tive a impressão de ouvir um som. Não exatamente um grito, mas algo próximo disso, como se milhares de vozes muito distantes lamentassem a própria destruição. Observei as chamas até que o último fragmento fosse reduzido a cinzas negras. Minha família estava salva. Quanto a mim, já não possuía a mesma certeza.
Agora escrevo estas linhas à luz de uma única vela. Minha ama dorme no aposento ao lado. Percebo o quanto fui egoísta e imprudente. Durante semanas afastei-me dela. Ignorei sua preocupação. Recusei seus conselhos. Ainda assim, foi a única pessoa que permaneceu ao meu lado quando minha própria razão começou a abandonar-me.
Dentro de algumas horas, quando terminar este relato, irei acordá-la. Entregar-lhe-ei este diário. Pedirei que o esconda. Pedirei também que faça aquilo que eu mesma já não possuo forças para realizar. Há algo crescendo dentro de mim. Posso senti-lo mover-se sob minha pele. Posso senti-lo pulsar atrás dos meus olhos. Enquanto escrevo estas palavras, meus dedos tremem involuntariamente. Por vezes, as letras parecem mover-se sobre a página. Por vezes, vejo raízes púrpuras surgirem nos cantos de minha visão apenas para desaparecer quando tento focá-las.
Se estas páginas sobreviverem ao tempo, que sirvam ao menos como advertência. Algumas flores não pertencem à Terra. Algumas sementes jamais deveriam encontrar solo fértil. E alguns amores, por mais belos que pareçam, não desejam ser correspondidos. Desejam apenas consumir.
Quando o sol nascer, se ainda existir algo de humano em mim, talvez Deus tenha misericórdia. Caso contrário, espero que minha ama tenha coragem e melhor pontaria do que eu.
Lilium Batista
Lilium Batista é escritora, poetisa, ilustradora, capista premiada, mãe e nerd, é fascinada por ficção científica desde a infância. Apaixonada por Star Wars e pelo universo de J.R.R. Tolkien, suas obras também carregam as influências sombrias e visionárias de Ridley Scott, H.P. Lovecraft, Alan Moore e Stephen King. Escreve desde os 10 anos, mas começou a publicar em 2024 e, desde então, já conta com 17 obras publicadas. Sua escrita transita entre a ciência e a fantasia, sempre com um olhar curioso, sensível e provocador sobre o desconhecido... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Necrose
Quando a noite sepulta o horizonte sem luz, | E o zênite em luto ao abismo conduz, | Ante o pálido horror deste céu cinzento, | Eu me rendo ao…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Quando a noite sepulta o horizonte sem luz,
E o zênite em luto ao abismo conduz,
Ante o pálido horror deste céu cinzento,
Eu me rendo ao rigor do pior isolamento.
Não o vago silêncio de antigos altares,
Onde o tempo desfaz os mortais relicários,
Mas a mudez que habitava a primeira amplidão,
Antes que o Caos gerasse a primeira ilusão.
Eis-me aqui, átomo só, poeira esquecida,
Náufrago cego nas margens da vida.
Penso até que a razão se transforme em veneno,
A sondar o mistério deste arco terreno.
Que arcano se esconde na cúpula escura?
Que traço desenha tamanha negrura?
As perguntas despertam qual hera sombria,
Sufocando o saber em total agonia.
O teto do mundo é um vasto jazigo,
Onde cada planeta pulsa em castigo;
Não há brilho sutil nas estrelas distantes,
São piras de mortos, faróis vacilantes.
E na névoa sutil da matéria oculta,
Uma força sem nome o cosmos sepulta;
Monarca espectral que governa o enigma,
Deixando no espaço o seu negro estigma.
A angústia regressa com passos de chumbo,
Cobrindo de trevas o meu próprio rumo.
Existir é fitar o declínio da mente,
Sem asas que salvem o corpo decadente.
Sou mente, fagulha, frágil claridade,
Fissura efêmera na imensidade;
Condenado ao tormento do eterno inquirir,
Enquanto as estrelas se deixam ruir.
O éter se cala, nenhuma voz desce,
Nenhum deus escuta tamanha prece.
No centro de tudo, domina o vazio,
Monótono, imenso, soberbo e sombrio.
Não há julgamento, clemência ou rancor,
Apenas o vácuo em seu gélido horror;
Se a morte desenha os seus tristes contornos,
O nada desfaz nossos corpos já mornos.
Retorno ao degredo, ao cerne do tédio,
Onde a alma padece sem cura ou remédio;
Ali permaneço, fantasma de outrora,
À espera do fim que a matéria devora.
Escuto o rumor desse abismo trancado,
Qual réprobo mudo ante o templo sagrado:
Sabendo que o véu nunca há de ceder,
Mas preso ao limiar do que não posso ver.
Bruno Reallyme
Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Agonihria-Égloga
No pélago purpúreo, o riso dos insensatos fenece, | Bête e ignorant, sob o teto de um gesso que chora; | A névoa de violeta opaco, que o tempo devora,…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
No pélago purpúreo, o riso dos insensatos fenece,
Bête e ignorant, sob o teto de um gesso que chora;
A névoa de violeta opaco, que o tempo devora,
É o manto de l'appel du vide que a carne adoece.
Ao avesso do reflexo elétrico,
As pupilas duplicadas no vinco da crassa cortina,
Vigilantes, perscrutam o avesso do próprio espelho;
O rádio antigo de ébano sussurra um conselho,
enquanto o vantanegrume dos céus nos assassina.
O Criador... ah, mon Dieu, é vurmo que a terra consome,
Um pesadelo estático, moldado em gélido gesso,
onde o sonho é o carrasco e a vida é o avesso.
Regardez: a vigésima segunda badalada consome
O silêncio paralisante que a mente tateia...
Olhai bem o escuro, antes que ele vos teça na teia.
Na paralisia do reverso espelhado o tácito lamento estilhaça a noite
escutai o nó da corda que range no teto vitoriano,
Onde o peito esperançoso sufoca em seu próprio frenesi;
A boca aberta em puro horror, gélida, no leito profano,
Enquanto a noite de Agonihria sussurra: "Eu sempre estive aqui".
Regardez a tela purpúrea: o corvo assiste ao duplo que se dedobra,
Um sorriso vazio, le grand néant, que emerge do vidro do espelho;
Não há reflexo da carne, apenas a sombra de uma antiga cobra,
Que dita à alma deserdada um derradeiro e maldito conselho.
A paralisia é o palco onde a ilusão e o real se entrelaçam em fita,
Sete dias de azar? Não, sete eras de uma mente que grita,
Condenada ao limbo, à luxúria da dor, ao sadismo do gesso.
O parasita do trauma agora dança no quarto,
veste o teu nome, Mon Dieu,
furei minhas retinas e o absoluto nada me consome...
O espelho ri, a cortina fecha, e o despertar é o próprio avesso.
O rádio do subconsciente
antigo no canto do quarto continua a chiares,
tocando uma melodia de trás para frente
com um ruído triste e sangrento
A mulher na cama não sabe se acordou
ou se o homem do espelho finalmente atravessou a moldura que o devora...
Ne regardez pas en arrière.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
O pergaminho da Agonia
Ao cruzarem o limiar da floresta, o mundo transformou-se em uma pintura. A luz do luar agonizante cortava a copa das árvores em feixes geométricos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Ao cruzarem o limiar da floresta, o mundo transformou-se em uma pintura. A luz do luar agonizante cortava a copa das árvores em feixes geométricos, criando contrastes violentos entre o branco absoluto da folhagem e o negrume opaco das sombras. As Arbóreas Argênteas eram monumentos de um gótico vegetal: troncos esbofeteados pelo tempo, cascas que reluziam como prata polida, mas cujas seivas, agora corrompidas, pingavam no chão como piche. A floresta não sussurrava; ela gemia em uma frequência que fazia os dentes de Clariegra vibrarem. De repente, a escuridão se moveu.
Das sombras projetadas pelas raízes retorcidas, surgiram os Gobelinus, abominações esqueléticas, com peles cinzentas e úmidas que absorviam a pouca luz do ambiente. Seus olhos eram fendas de um amarelo biliar, e suas bocas, rasgadas de orelha a orelha, exibiam dentes de quartzo lascado. Eles portavam adagas feitas de galhos secos e ossos afiados, exalando o odor de carniça e clorofila podre.
— Eles sentem o cheiro do Códex — sibilou Leornn. — Fique atrás de mim!
O primeiro grupo de Gobelinus saltou das copas, como gárgulas desabando de uma catedral. O cano dourado da pistola de Leornn cuspiu um trovão de fogo purpúreo. O disparo rasgou a noite, e o impacto da bala mística expandiu-se no peito do Gobelinus líder, fazendo seu torso explodir em uma chuva de vísceras viscosas e fragmentos de cartilagem escura que salpicaram a casca prateada das árvores.
Clariegra, impulsionada pelo ódio que a morte de Platina deixara em seu peito, ergueu o grimório.
— Sanguis... Redemptio! — clamou ela.
O sangue coletado na gruta ferveu nas páginas e disparou na forma de agulhas cristalizadas, projéteis escarlates empalaram três criaturas contra as raízes. Os Gobelinus guinchavam, um som estridente que parecia metal retorcido, enquanto Leornn avançava como um espectro de destruição, não apenas atirava; usando a coronha pesada de sua arma e uma adaga rúnica, ele decapitava as criaturas em movimentos precisos. O sangue negro dos monstros jorrava em jorros violentos contra a palidez das árvores, criando um contraste brutal de sombras e luz — a assinatura visual da morte naquela floresta doente.
Abrindo caminho através da carnificina, o chão começou a tremer. Diante deles, erguia-se a Mekkur, a Árvore-Matriarca era uma montanha de madeira viva, cujas ramificações arranhavam as nuvens pretas. Contudo, seu esplendor decrépito estava tomado pela necrose. Uma bocarra natural abria-se em seu tronco principal, revelando um interior iluminado por pulsações de uma luz violeta e doentia.
Eles adentraram o ventre de Mekkur.
O interior era um labirinto claustrofóbico de artérias vegetais e fibras musculares de seiva.
No núcleo da árvore, suspenso por gavinhas enegrecidas, flutuava o horror: o Prisma-Núcleo de Garmonbozia, uma estrutura cristalina, multifacetada, que irradiava uma escuridão palpável.
O cristal parecia se alimentar da própria vida da Matriarca, necrosando suas paredes internas.
— É isso que atrai o flagelo — disse Leornn, a voz ecoando nas paredes úmidas do abdômen vegetal. — Destrua o núcleo, ou o cosmos engolirá este mundo.
O Prisma-Núcleo reagiu à presença deles, disparando chicotes de energia cósmica que dilaceravam as paredes de Mekkur. Leornn saltou, esquivando-se de um feixe purpúreo que derreteu a rocha abaixo dele. Ele descarregou três tiros consecutivos contra o cristal; faíscas de luz dourada e detritos violetas voaram no ar, mas a joia maldita regenerava-se instantaneamente.
— Clariegra! O grimório! Preciso de toda a energia rúnica que você possui! — gritou ele, enquanto um dos chicotes de energia cortava de raspão seu ombro, vertendo sangue escarlate que brilhava intensamente contra as sombras do antro.
Clariegra pressionou o Códex Sangria contra o peito, permitindo que as runas sugassem sua própria vitalidade. Seus olhos brilharam em um prata absoluto. Ela canalizou o fluxo de sangue dos Gobelinus mortos lá fora, trazendo a torrente escarlate para dentro do ventre de Mekkur, uma massa de sangue envolveu o Prisma-Núcleo, sufocando sua luz violeta.
— Agora, Leornn!
Com um rugido, Leornn cravou sua pistola rúnica diretamente no centro enfraquecido do cristal e puxou o gatilho.
A explosão subsequente foi ensurdecedora.
O Prisma-Núcleo de Garmonbozia estilhaçou-se em mil pedaços de vidro cósmico, que evaporaram em fumaça negra.
A corrupção que necrosava a árvore começou a recuar, mas o preço era alto. A estrutura interna de Mekkur começou a colapsar. A grande árvore gemeu, um som humano, carregado de um alívio melancólico. Uma luz tênue e dourada emanou do âmago do tronco, e a voz de Arale ecoou diretamente nas mentes de Clariegra e Leornn, suave como as folhas de outono:
— Pequenos mortais... vocês retardaram o inevitável. O que me corrompeu não foi uma doença da terra, mas o hálito de Necrus, o Flagelo Estelar. Eu caio... mas a semente da vida foi salva. Não há tempo, encontre a felina, ela se chama Arale Fayax.
"QUEM?" ele bradou...
O homem de armadura escura marcha.
Corram... cruzem as Montanhas Fantasmagóricas... busquem o Condado de Ibex.
Mekkur...Mekkur ela gemia...
Com um último suspiro de seiva e luz, o interior de Mekkur desmoronou.
— Temos que sair daqui! — berrou Leornn, agarrando Clariegra pelo braço enquanto o teto vegetal desabava em pedaços gigantescos de madeira morta.
Eles correram, escapando por entre as fendas do tronco que se partia ao meio. Mekkur, a Matriarca, tombara quando os dois caíram de joelhos no solo da floresta, ofegantes e cobertos de fuligem e sangue, perceberam a transformação.
A atmosfera melancólica de uma aquarela triste deu lugar a uma aurora mágica.
As Arbóreas Argênteas ao redor não estavam mais morrendo.
Suas cascas de prata agora pulsavam em um verde-esmeralda místico, mas um verde que carregava veios purpúreos — resquícios do sangue derramado no combate, agora assimilado como adubo e vida.
Ao retornarem correndo em direção ao vilarejo, a visão os fez parar. A névoa maldita da vêsffera sensiflora havia desaparecido. O rio Magöhorror brilhava com uma água cristalina e pura. As almas atormentadas que antes vagavam como carniçais haviam sumido; em seus lugares, pequenas esferas de luz prateada — as sementes mencionadas por Mekkur — flutuavam suavemente no ar, descendo coreograficamente até o solo e enterrando-se na terra fértil.
Daquela terra infundida de magia e sacrifício, as criaturas começaram a renascer.
Eles eram os Sylvaníreos.
Rompendo o solo como brotos que se transformavam em carne e fibra, os Sylvaníreos ergueram-se. Eram seres de uma imponência titânica e beleza severa. Seus corpos eram esculpidos em carvalho branco e ébano macio, mas suas articulações eram feitas de músculos de trepadeiras flexíveis que brilhavam com a seiva verde-esmeralda. Não possuíam rostos humanos, mas máscaras de marfim vegetal, onde olhos de fogo fátuo prateado queimavam com uma sabedoria ancestral. Portavam chifres feitos de galhos floridos e, em seus peitos expostos, podia-se ver o pulsar de um coração de madeira que batia em uníssono com a própria terra. Eram os guardiões eternos, os filhos da floresta, renascidos para povoar e proteger o vilarejo que outrora fora cinzas.
Os Sylvaníreos curvaram suas cabeças majestosas na direção de Clariegra e Leornn, em um agradecimento silencioso que fez o vento soprar caloroso pela primeira vez em meses.
Contudo, Leornn não relaxou os ombros. Ele olhou para o horizonte, onde as silhuetas cortantes e brancas das Montanhas Fantasmagóricas rasgavam o céu.
— A vila está salva, Clariegra. Mas nós não estamos. Necrus sabe que destruímos o prisma, e o homem de armadura escura não vai parar.
Ele ajustou o cinto de munições e estendeu a mão para a garota de cabelos prateados.
— Próxima parada: as Montanhas Fantasmagóricas. E que os deuses nos guiem até o Condado de Ibex.
Clariegra então observa seu Códex sangria absorvendo todo o sangue derramado e escrevendo um pergaminho...
"— A Floresta de Silvamargor — murmurou Leornn, a esmeralda de seus olhos brilhando sob a penumbra carmesim do crepúsculo. — O lar das Arbóreas Argênteas, as entidades místicas que outrora ergueram este vilarejo.
Clariegra. É a Matriarca. A Árvore-Mãe sustenta o equilíbrio deste plano. Ela está morrendo.
Eles não enterraram Platina; o solo da vila, saturado pela vêsffera sensiflora, a devoraria antes do anoitecer.
Em silêncio, os dois marcharam em direção às franjas da mata...."
"Leornn" ela bradou, leia isto. Então Clariegra lhe mostra o pergaminho récem escrito...
"Como isso é possível?" É como se fosse o passado, acabamos de eximar eles em uma exímia purificação, e então o desenho de uma felina de cabelos foi desenhado na folha seguinte...
O que significaria tudo isso?
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Múrex e Arsênio - Nauseante luz sanguínea
O motor industrial range no peito da noite, um zumbido constante, | L'existence précède l'essence... | ou seria o fungo na parede que sonha?…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O motor industrial range no peito da noite, um zumbido constante,
L'existence précède l'essence...
ou seria o fungo na parede que sonha?
Milhares de moluscos apodrecem no tear de um tempo distante,
Para vestir a elite corrompida com a náusea que nos envergonha.
Regardez a viúva vitoriana: seu vestido exala o perfume do ouro e da urina,
Uma fragrância bizarra, le parfum de la mort, que a intersubjetividade coroa; Enquanto a trimetilarsina dança na umidade que descasca a rotina,
O bebê de cera chora no berço de ferro... a engrenagem ressoa.
Não há sentido social que salve o gesso mofado da sala funerária,
A agonia é o teto que baixa, a paralisia da carne operária,
Condenada a respirar o roxo-profundo que o próprio pulmão fabrica.
O caixão espera o corpo intoxicado pelo status do veneno estético,
O espelho Lynchiano reflete apenas o vazio do teatro patético...
Um grito mudo de radiador, onde a morte iminente se purifica.
Ruído Branco de Fundo: O som do vapor escapando dos canos da fábrica de tecidos preenche o quarto escuro.
O papel de parede vitoriano continua a descascar, caindo como pele morta sobre o veludo do caixão.
O cheiro de peixe podre e arsênio é a única prova material de que estamos acordados.
Não há saída para o palco.
Matéria Inominável derretida,
O ferro do radiador sangra o seu vapor mecânico,
Um chiado de dentes brancos contra a ferrugem do ser; Onde o eu se dissolve num vômito cinzento, botânico,
E o feto de cera, na sombra, insiste em não nascer.
Regardez a costura do espaço: o gesso mofado desaba como cinza que cai de um céu que nunca conheceu o sol;
A viúva de roxo fita o caixão onde a luz se acaba,
E o tempo rasteja, viscoso, feito um verme no lençol.
Não há ontologia que salve a carne da náusea primeira, O átrio vitoriano é o palco de um teatro mudo, esquecido... A trimetilarsina sussurra na fresta da madeira:
"O espelho que limpas reflete o que foi corrompido". Atrás da cortina vermelha, o silêncio é um urro profundo, E a agonia de Deus é o perfume que veste o fim do mundo.
Ao monólogo da pele descascada no incendiário fluxo intermitente na penumbra dos ossos e limo... Amor, escute o motor.
O motor não para de girar a engrenagem do dente que caiu na pia. Não é sangue, é apenas o óleo preto que lubrifica o sonho daquela mulher cujo rosto esquecemos na terça-feira. Ela abre a boca para gritar, mas o som que sai é o latido de um cão enterrado sob o assoalho em 1826. O papel de parede vitoriano... vês como ele ondula? Não são os fungos. É a parede que tenta respirar porque o ar aqui dentro ficou pesado demais com o cheiro dos milhares de moluscos que apodreceram para que o rei pudesse vestir o seu manto de soberba. O rei está morto. Ele está sentado na poltrona de veludo no canto do quarto, mas se tu olhares de perto, a cabeça dele é apenas um bloco de gesso cru com duas pupilas desenhadas a carvão. Duas pupilas que piscam quando tu fechas os teus próprios olhos.
L'existence... c'est une bête qui rampe.
O corvo no fundo da sala funerária não voa. Ele tem asas de chumbo e os olhos brancos da viúva. Ele sabe que a cortina vai se fechar e que, quando as luzes do palco piscarem três vezes, o homem do espelho estará sentado na tua cama, segurando o teu velho casaco roxo, esperando que tu peças desculpas por ter nascido. Não olhes para o radiador. O radiador é onde os bebês sem pele cantam a canção do absoluto nada.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Ópera do assoalho obscuro da matéria
O rangido do ferro não cessa. É talvez a caixa torácica daquela mulher que ainda fitava o teto vitoriano com os olhos vazios, brancos, lavados pelo arsênio…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O rangido do ferro não cessa. É talvez a caixa torácica daquela mulher que ainda fitava o teto vitoriano com os olhos vazios, brancos, lavados pelo arsênio que escorre do papel de parede mofado.
Não há transição entre o quarto e a fábrica; os milhares de moluscos que apodrecem no Mediterrâneo estão agora sob o assoalho, liquefazendo-se em um roxo-profundo, um purpurume que mancha as unhas de quem tenta cavar a própria saída do sonho.
L'existence... c'est une blessure ouverte.
Abaixo, a liturgia avança em silêncio mecânico.
Carne Texturizada na sétima noite ao compressor da noite pulsa no sótão, um zumbido cego enquanto a agonia do gesso descasca sobre o dossel;
Não há Deus na altura que escute este mudo rogo,
Pois o Criador é o vurmo que apodrece sob o véu.
Regardez a viúva: o vestido de múrex exala o veneno,
Um perfume de peixe pobre e urina que a seita coroa;
O bebê de vidro, na fresta do armário, pequeno,
sangra um óleo escuro enquanto a engrenagem ressoa.
Nas dobras de uma cortina carmesim, O tempo estagna em um eterno agora. O chão de zigue-zague não tem fim, a própria luz, com medo, foi embora.
O pânico transborda em ectoplasma,
Viscosa angústia que o real desfaz;
O que era carne vira o leve pasma de um pesadelo que não traz a paz.
Alimenta-se o quarto com a agonia,
A garmonbozia amarela e fulgente,
Banquete da miséria e dor sombria.
O vento chora e mente.
Atrás do espelho, a face que sorria
Já não é humana, e o terror se sente.
O tribunal se reúne atrás da parede de gesso,
Onde o bule de café ferve um óleo escuro e denso.
Fui condenado por um crime que esqueci o começo,
Sob o brilho mecânico de um abajur suspenso.
Há algo vivo e faminto no fundo do armário,
Um mal antigo que veste a pele do passado.
O relógio da sala gira em sentido contrário,
o veredito já foi, há séculos, selado.
A metamorfose cega prende o corpo à cama,
Enquanto os passos pesados sobem a escada.
Uma fumaça vermelha o corredor inflama.
A máquina de escrever digita uma folha em branco:
"O horror está em casa".
O A porta foi arrombada.
E o monstro na cadeira assume o meu próprio banco.
As pupilas duplicadas multiplicam-se no espelho da cama,
onde o sexo é o corte profundo que a criatura desenha;
sadismo de sombras que o próprio trauma inflama, que a alma excomungada finalmente entenda e ceda.
A Umbravola Nigrescens pousa no peito do morto recente, mandíbula serrilhada imita o riso do duplo no vidro; não é o monstro que avança de frente, o fato de estares, há eras, trancado e esquecido rosto na parede fria.
O fato de o cabeludo platinado pular pela dimensão não lhe dá o direito de ceifar as mentes de inocentes frias e escatológicas cruas almas rasgando seus ossos.
O anão dança com o anel de caracol, sua voz é uma estática fria e doentia e ele sorri enquanto da boca escorre um pútrido líquido semelhante a um vômito de milho, uma garmonbozia… Ele sorri enquanto seus olhos lacrimejam e disparam contra a pérola dela, aquela que ela inalava com as narinas de platina…
A cortina vermelha ondulada sem vento, bizarra e lisa...
E o absoluto nada engole o que a luz cobria em um monólogo que um homem de giz sorria enquanto pulava derretendo-se
Intermitência.
...vês aquela mancha violeta na tua pele? Não washes. É o pigmento verdadeiro. Custou a vida de tudo o que rastejava no fundo do mar para que tu pudesses vestir essa melancolia. O homem que está dentro do assoalho da carne do espelho não quer sair; ele quer que tu entres. Ele já cortou os fios do telefone.
O corvo no canto da sala funerária não é um pássaro,
é apenas um pedaço de veludo preto que caiu do caixão e começou a respirar.
Se tu limpares as tuas retinas agora, com os dedos sujos de trimetilarsina, verás que o teatro sempre esteve vazio.
As luzes vão piscar.
Três vezes.
O som do sangue pingando e o rosnar da fera
será a única canção de ninar para o feto que insiste em não nascer no canto do quarto do fogo…
.
Ne regarde pas. Le grand néant t'observe déjà.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Muffins de Caramelo
Akily agradeceu pelas rosas de Alberto com um selinho. Jogou-as no lixo assim que se tocou que ele não voltaria, pois já voltara uma vez para lhe dar um segundo beijo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Akily agradeceu pelas rosas de Alberto com um selinho. Jogou-as no lixo assim que se tocou que ele não voltaria, pois já voltara uma vez para lhe dar um segundo beijo. Ela sorriu, reorganizando os ímãs na geladeira. Mas o sorriso se esmaeceu com peso na linha onde deveriam nascer rugas, e ela notou que alinhava ímãs já alinhados; que seu favorito estava descolando do esmalte ciano na porta do congelador.
Esqueceu de colocar o lixo para fora; agora os camarões podres teriam que esperar até o dia seguinte, aprisionados num cubículo de plástico quente junto das cascas de ovo e das rosas de Alberto. Passou aquele dia inteiro sozinha, embora não se sentisse assim. Começou preparando seus muffins de caramelo, cuja receita podia jurar que era primeira no mundo; separou a pasta em pequenas ilhas e as pôs no forno. Ligou a pequena Philco suspensa no teto num daqueles canais em que ela nunca sabia se as francesas discutiam ou se reconciliavam. Não é que, durante todos os séculos, não tivesse aprendido francês; havia parado de ouvir quando não lhe era necessário.
Havia passado o tempo correto. Ela abriu aquela grande boca de aço e sem querer queimou o polegar. A fumaça preta nunca havia saído do forno junto com os muffins. O sopro infernal subia tão agressivo que Akily largou o tabuleiro na mesa um segundo antes de espatifar no chão. Quanto mais a abanava, mais ela tomava formas distorcidas e dramáticas. Quanto mais a encarava, mais era encarada de volta; contornava seu corpo e encontrava seu rosto em algum ângulo imprevisível. Akily bufou. Não sabia quantas vezes teria checado a textura da massa antes de botar no compartimento pré-aquecido em toda a sua vida. Culinária vinha da mesma fonte que a música; um ajuste definia todo o corpo da receita, a melodia, a proporção; o que ela fazia com bolos de carne e tortas de maçã um século antes não era diferente, com exceção dos venenos açucarados extremamente gostosos dessa geração. Para ela, aquilo era felicidade com promessa e entrega instantâneas, seu estômago trituraria qualquer mal, as toxinas alimentariam seu sangue com vigor tal qual uma fruta colhida do pessegueiro alimentado com os restos da última bruxa de Salém.
Desligou a televisão. O francês a estava deixando com muito calor. Ouviu o barulho do lixeiro passando outra vez e abriu a boca, sentindo seu pulmão comprimir. Quando voltou à cozinha viu como o tabuleiro havia adquirido uma segunda pele de escamas marrons e pretas. Parecia a metade de cima de um dragão filhote, se eles não fossem mera fantasia. Enfiou seu dedo na massa e lambeu. O sabor familiar do caramelo em cubinhos nunca veio. A crosta de noz-pecã derretida amargou o céu da boca, mas o açúcar estava derretido o suficiente pela massa solada. Decidiu que estava bom. Apanhou uma mãozada e comeu assistindo seu reflexo cinza pela TV.
Ainda carregava satisfação em seu corpo quando resolveu se banhar à luz das velas aromáticas de uva, como se o caramelo tivesse escapado para o coração. Lembrou que devia beber logo do estoque novo de sangue, as três bolsas que guardara na geladeira junto da manteiga na promoção e o sangue quente que deixara no armário perto dos dois potes gigantes de creme de avelã. Faria isso assim que saísse do banho. Seu roupão fino permitia que a brisa gelada revelasse partes de seu corpo de que ela gostava bastante. Os cabelos, há muitos séculos retratados em pinturas agora engavetadas como liso morto, haviam conquistado ondulações suntuosas que refletiam as curvas de seus seios, coxas, dedos dos pés.
Pisou na água morna dentro da banheira, e só então se lembrou das pétalas de rosa guardadas num saquinho da loja esotérica dois quarteirões distante. Buscou-as e, num impulso que geralmente não lhe acometia, antes de notar que elas já murchavam, ao invés de jogá-las dentro da água: jogou-as para cima.
Estava submersa até a cintura; uma nova brisa gelada arrepiou sua clavícula, e sorriu de um modo que seus pelos se arrepiaram. Acabara de receber uma amostra do sopro de vida, tal como os seres vivos recebiam a água e o sol. O sol. Seu rosto contorceu, passando os dedos molhados pela barriga seca. “Se a vida é uma valsa cósmica que baila com o divino, a de um vampiro estará sempre um tempo atrasado, nunca sendo guiada pelas mãos do sol.” A frase da irmã ainda grudava. Ela não deixaria que a valsa parasse, mesmo assim. Seu coração se enchia tanto que enxergou sua condição com amor materno, tal qual um recém-nascido com uma alergia grave; mesmo que espirrasse, seriam espirros perfeitos, que a aproximariam cada vez mais do divino. Akily se levantou e fez os dedos contornarem a borda de alumínio do batente com bastante cuidado. Abriu mais a janela.
Depois que seus seios já balançavam na gravidade confortável da água, ela não sentiu vontade nenhuma de se tocar. Quando voltou para o quarto, havia decidido algo tão íntimo quanto seu nome ou quanto beber sangue.
Ao abrir o guarda-roupa de mogno antigo, dedilhou os vestidos suspensos no cabide e só parou em um daqueles poucos que nunca havia usado. Escolheu aquele azul com detalhes em marfim, que fora comprado num ato de altruísmo para sua irmã, antes que a dona cheia de pintas passasse na loja no dia seguinte. Se esqueceu de entregá-lo, afinal de contas, mas conseguia ver o rosto da irmã por entre as dobras de renda com cheiro de talco.
Demorou duas horas inteiras na frente do espelho da penteadeira, esfregando as cerdas macias pelos cabelos que passaram tempo demais no condicionador. Cheirava o sabonete em sua pele e depois dava um sorriso, seus olhos quase transbordando gotículas que faziam seus globos oculares doer. Sua barriga roncou. Pensar na bolsa de sangue fresca na geladeira pareceu tê-la saciado de quase todas as formas. Passou mais duas horas sentindo o quarto gelar com o ar-condicionado no 16. Lembrou-se do doce vento da Irlanda, a brisa gelada que arrepiou a pele quente e encheu o estômago de ar.
Só parou de alisar o lençol quando a palma da mão se irritou com a seda, e então repousou a cabeça de lado como quando dividia a cama com a irmã e deixou as pálpebras pesarem. Na manhã seguinte, quis ver a luz do sol pelo bumbum do tabuleiro de fazer muffins de caramelo.
Lavou a crosta doce com cheiro de açúcar artificial com força, afinal, não tinha tempo para compensar o vacilo de não o ter deixado de molho. Voltou para o quarto, calçou suas novas papetes roxas de borracha e vestiu a capa grossa de chuva com a qual recolhia as flores de Alberto diariamente. Caminhou fazendo barulho pelo azulejo do lado de fora e esticou o braço até o metal molhado encontrar a claridade do céu.
De repente sua varanda azuleou de tal modo que Akily se atribuiu asas. Estava voando por um verão sem nuvens, e então se deu conta de que havia tantos seres voadores no mundo. Podia fincar suas presas sorridentes e indolores nos corpos penados e ainda não faria a liberdade crescer em suas costas. Uma sobrancelha se levantou. Ela podia, claro que podia levitar. Mas não via graça nenhuma em manipular a gravidade com aquele formigamento todo na sola dos pés, na ponta dos dedos, das orelhas e pelo pescoço até o queixo. Ela queria voar como os anjos; mas não como nas pinturas no teto distante das catedrais em 1823 que tanto a irritavam. Detestava aquela leveza. Ela desejava os músculos eróticos que a conquistaram muito antes disso, que a tornariam uma deusa feita de curvas impossíveis; invejava o poder de voar até os céus com a promessa de ser um com o universo. No fundo, mesmo que não gostasse da ideia, sabia que seu voo pareceria muito mais leve do que gostaria.
Ainda contemplava em agradecimento a infinita luz azul, se perguntando se o sol era azul também, quando o tabuleiro escapuliu de seus dedos encapuzados. Seus ouvidos murcharam com o barulho estridente de um azulejo quebrado, o clarão do sol irradiando de uma forma que Akily se acuou para dentro da cozinha. Bateu a porta com tanta força que precisou conferir se a havia quebrado. Botou a mão no peito com os olhos arregalados. Não sabia o que dentro dela doía tanto. E então deu uma gargalhada desafinada e trêmula que expulsou o espírito daquela velha curandeira que lhe havia praguejado algumas décadas antes. Logo percebeu que respirava forçado demais, e ficou encarando o calendário da empresa de botija de gás enquanto sua alma, que voava tão alto, voltava para si. Teria esperado anoitecer para sair outra vez, mas sua garganta fechou; esperar algumas horas era tortuoso demais. Abriu a porta só mais um instante, um feixe de luz potente alcançando a geladeira ciano. Que luz poderosa e absoluta! Fechou a porta devagar e sem rir dessa vez.
Uma cólica tremenda a atravessou, a vista queimando. Um cheiro estranho e sinistro percorreu seu corpo. O lixo dentro de casa fazia aniversário. Se agachou para pegar o pote de Nutella, seu corpo pesando com exaustão. Foi para o quarto e ligou a TV. O francês piorou as dores no corpo. Passou o dia e a noite na cama.
Não se lembrava do sonho da madrugada, mas havia acordado com vontade de jogar mais pétalas para o ar. Ela viu o sol. Fechou os olhos com um sorriso bobo, quase como se pudesse ignorar as dores nas articulações. Por um momento, se imaginou novamente refletida naquela imensidão azuleada do céu da hora do almoço. Era quase como se tivesse memórias infantis que envolvessem dias solares encantados, embora soubesse que estava terrivelmente enganada. Preferia não ficar se corrigindo o tempo todo.
Tentou se levantar. Seu corpo não quis. Então espirrou tão forte que seu peito a fez deitar de novo. Em que momento havia resfriado? Passou a mão pelos braços, o rastro doendo até as dobras dentro da pele. A porta da cozinha devia estar se sentindo exatamente daquele jeito, foi o que pensou. O pote de creme de avelã havia deitado para dormir com ela e, por sorte, tivera sua boca fechada antes de ambos pegarem no sono. No fundo da colher ainda tinha Nutella, então ela a tomou na boca enquanto abria o pote outra vez.
No final do mesmo dia, estava tão faminta que precisou ir se arrastando com seu robe de seda rosa até o armário da cozinha. Embora seus cotovelos ainda lhe fossem fiéis, suas pernas tremiam como varas, e ela pensou que ter dado aquela risada histérica lhe havia custado caro; espantara espíritos importantes, que tomavam conta dela. Quando chegou no armário, percebeu como havia acumulado poeira no tecido fino. Arremessou o braço para dentro e rasgou a bolsa com a força que lhe restava. Virou-se para cima e deixou a cabeça descansar no travesseiro duro que era o chão do armário. Inclinou o líquido tão menos gostoso que avelã em direção à boca, mas seus braços fracos derramaram a primeira dose no colo do roupão.
Seu pescoço se levantou para abocanhar o corte no plástico, o sangue recheando sua boca por completo. Seu corpo mexeu um pouco. Ela tomou todo o sangue antes de lembrar de respirar, depois sentiu um espasmo fazendo-a contorcer como se despreguiçasse finalmente. Balançou os pés por um tempo, sentindo a dormência sendo expulsa, as unhas em vermelho descascadas. Estava completamente abastecida, o que a irritou profundamente. Conseguiu se levantar, xingando o roupão todo sujo. Ela não tinha deixado o chão imundo como parecia, aquilo não era verdade. Abriu a torneira e tomou água até que o gosto de ferro se dissipasse. Quando fez o movimento de jogar o restante da água na pia, sentiu que as juntas ainda reclamavam. Voltaria à loja esotérica para comprar mais pétalas depois que o sol se pusesse, mas antes das seis, se melhorasse. Compreendeu que era melhor, no fim, dormir em seu caixão naquela noite.
Ela só tirou o rosto do fundo estofado vermelho depois de algumas semanas; o velho despertador cismou de funcionar, e era sua primeira vez naquele ano inteiro, então Akily entendeu que era um sinal. Deu um pulo quando conferiu o horário; as cinco e meia da manhã na verdade eram cinco e meia da tarde, e então ela subiu pela escada em caracol até o quarto e trocou de roupa. Prendeu o cabelo, calçou a papete. Jogou o lixo podre no latão da rua. Catou o tabuleiro no chão da varanda. Havia esquecido as chaves dentro de casa; encostou o portão e saltitou com bastante convicção até a loja Bruxa Boa. Resolveu comprar uma balinha de cada tipo que pendia ao lado do caixa, a atendente dando piscadas tão demoradas que a tornou confortável em espiar tudo o que havia. Ah, vou levar essa mandala, também. Passou tudo no crédito pelo celular.
Fechou o portão e trancou a porta com carinho. Esticou a mandala pela mesa da cozinha, lamentando não ter um furo na parede para pendurá-la em sua cama. Comeu as três balinhas de alga de uma só vez, tendo certeza de que as cores diferentes não mudavam o sabor. Se o barulho do metal caindo ao chão não fosse tão alto, faria o sol aparecer pelo tabuleiro na tarde seguinte de novo. Abriu a barrinha de alfarroba e fez uma careta, depois pressionou o gosto com a língua até o céu da boca. Estava melhor do que seu muffin fracassado. Quando foi tomar banho para jogar as pétalas para o alto, passou pelo seu quarto e viu o pote de Nutella. Levou-o consigo.
O vapor do banho não queria subir, ruminando o calor dentro da água e transformando a banheira numa panela de cerâmica branca. Akily mergulhou lentamente, equilibrando a colher e o pote enquanto deixava a pele ceder e, quando os seios desceram, o perfume de rosas transbordou e molhou o tapete felpudo. Ao fundo, ouviu uma televisão vizinha alta, ligada na mesma novela que passava na Bruxa Boa. Deu um sorriso manso e levou uma colher cheia até a boca. Depois da segunda ou terceira colherada, resolveu que não precisava de doce para ser feliz, então a depositou no chão e inspirou profundamente. Encarou a janela, imaginando que tinha feito a noite se tornar manhã, recebendo o sol diretamente no rosto. Pensou que o calor que a cozinhava era dele, somente dele, e se pegou mordendo os lábios. Observou as pétalas que caíram com ela, tão murchas como a ponta de seus dedos, seus bebês com alergia grave. Ficou séria durante todo o resto do banho, seus olhos pesando tão pouco que ela mal precisava piscar.
Saiu da banheira, despediu-se da janela e foi para o quarto. As pegadas não a incomodariam daquela vez. Vestiu-se com o corpo ainda molhado, aquele vestido azul com rendas marfim que usara pela primeira vez semanas antes. Somente agora parecia entender tudo. Ousou rodopiar na frente do espelho da penteadeira. Sua irmã a teria puxado para dançar se lhe tivesse contado a descoberta. Colocou as mãos na frente da boca e rodopiou mais algumas vezes. Encarou-se no espelho como se não reconhecesse seus traços, embora ainda se achasse muito bonita. Talvez fosse um pássaro, quem sabe um Anjo. Era aquele passo que faltava em sua valsa.
Fez novos muffins, mas o caramelo havia sido orgulhosamente trocado pelo creme de avelã. Akily havia descoberto uma nova maravilha no mundo.
Aproveitou que ainda era antes das onze e ligou para Alberto. Dessa vez, não quis que ele a buscasse de carro, afinal, ela era a imortalidade encarnada, foi o que concluiu depois de séculos. Esqueceu a chave outra vez, mas fechou com firmeza a porta e o portão. Seus cabelos ainda escorriam e faziam cócegas molhadas pelas costas quando fez seus pés formigarem. Começou a levitar apenas o suficiente para o asfalto não machucar, e então foi levando seu corpo para frente. Mas o formigamento não valia a vagareza, portanto se atirou para o céu tão rápido que a fez se contorcer de frio. Como era bonito o bairro que escolhera para morar, pensou, à noite; apenas algumas luzes douradas acesas, sem o crescimento vertical excessivo das metrópoles poluídas. Desceu bem na frente da casa de Alberto e entrou sem tocar a campainha.
Alberto a tocou com paixão. Ela já lhe avisara que viajava às vezes, e ele compensou cada segundo de saudade com estocadas firmes. Akily o deixou admirar a pele nova sem que ele percebesse: ela não era mais como conhecia. Estava mantendo a virgindade de seu novo eu. Imaginou como seria enxergar o sol. Não era como se ela visse um fiapo de raio se esgueirando minutos antes do amanhecer para lhe beliscar a bochecha ou um clarão idiota num tabuleiro idiota. De forma alguma era aquilo. Sua boca se tornou passagem de gemidos molhados quando pensou no sol a enxergando de volta. Ele abriria os olhos, talvez um de cada vez, ou os dois ao mesmo tempo. Compreenderia suas feições, a cor de sua pele, e lhe diria com quem ela se parecia mais: a mãe ou o pai. Ela já não se lembrava, mas derreteu nos braços de Alberto, imaginando que se parecia mais com a mãe.
No dia seguinte, vestiu sua capa de chuva por cima do mesmo vestido azul e buscou as flores no correio. Rosas vermelhas. Não as jogou fora, porque aquele novo ser gostava muito das rosas vermelhas de Alberto. Na verdade, gostava dele como um todo, o suficiente para passar no banco e transferir a ele uma boa quantia do seu dinheiro secular antes de voltar para casa e se arrumar. Tinha um encontro, afinal de contas.
Preparou uma pequena lancheira da época de quando as escolas começaram a aceitar mulheres como alunas. Era o tipo de quinquilharia que ela não sabia para que guardava, mas preferiu não se julgar naquela situação agora que lhe era tão conveniente. Arrumou uma refeição com dois sanduíches de queijo e manteiga, depois foi até o banheiro, pegou o pote e enrolou mais dois pães-de-forma no creme de avelã. Faltava algum líquido, mas ela sabia que podia parar na banquinha logo antes de pegar o trem e comprar uma Coca-Cola. Guardou também o buquê de rosas.
— Desculpe, senhorita. Nós acabamos de fechar.
Akily não conseguia entender como a estação de trem tinha tão pouca opção na parte da noite. Então ela engoliu em seco e moveu lentamente seu polegar. O dono da banquinha perdeu qualquer expressão nos olhos, tornando-se o que Akily não gostava muito. Ele enfiou a mão com Parkinson no bolso largo da frente e buscou pela chave correta. Abriu a porta minúscula e barulhenta e catou uma latinha de Coca-Cola e uma garrafa de água com gás, as mais geladas que havia na geladeira e as depositou no chão sujo da estação. Ela segurou as bebidas e as limpou na barra do vestido azul. Abriu a água e deu uma golada, depois guardou as duas na lancheira e seguiu para a plataforma. Só deixou o homem retomar o controle depois que o fizera caminhar para bem longe, esperando que o tivesse guiado pela direção que ele pretendia.
Era 22:22 quando ela recebeu uma mensagem de Alberto. Estava fora de si, escrevendo palavras quase irreconhecíveis. Alguém havia mandado três milhões para a conta dele. Estava com medo de ser testemunha ou cúmplice ou mandante de algum crime, mandou áudio dizendo que seu coração doía. Akily pôs a mão no peito e se lembrou de quando o dela também doeu, compreendendo que o que sentira ao ver o sol no tabuleiro foi a sensação absurda de sorte que Alberto sentia agora. Mandou uma mensagem fazendo-o prometer que não contaria para ninguém que o dinheiro saíra de sua conta. Não queria que ele morresse, nem de preocupação nem de felicidade. Por fim enviou uma selfie e, sem esperar visualização, bloqueou a tela. Quando ouviu o trem que ela precisava pegar chegando na estação, jogou o celular no trilho e se preparou para embarcar.
Somente lá dentro conseguiu sentir um pouco de calma para observar o redor. Tudo o que existia na frente da vidraça manchada era um adolescente que ocupara seu lugar no banco. Desviou o olhar tão naturalmente que se esqueceu que tinha a intenção de observar. Aproveitou o assento de madeira bem alto e ficou mexendo as pernas descalça como estava, fazendo carinho na gola do vestido, enquanto encarava os homens de chapéu passando rumo a outra plataforma. A estação não era tão bem iluminada quanto a cidade vista do alto pelos seus pés formigantes, e concluiu que os limpadores não deviam receber tanto.
Quando o trem iniciou sua jornada às Dunas Múrmuras, algo dentro dela despertou uma felicidade extrema, como se Alberto a tivesse entendido. Como era prazerosa a nova carne recém parida, ainda nascente como sol do dia seguinte. Ela chegaria no deserto às 4h da manhã. Apanhou um sanduíche de queijo e manteiga já de olho no de Nutella. Sentia uma fraqueza sutil roendo seus braços. Abriu a Coca-Cola com um estalo orgulhoso e observou a paisagem como se a visse pela última vez. Sabia que em breve a pequena cidade seria substituída por uma série de construções cheias de janela, fumaça preta invasiva, trânsito que ela morreria dez vezes antes de pensar em pegar. Depois de algumas horas, jogou seu corpo para o lado e fingiu que o estofado vermelho era o interior de seu caixão.
Acordou com um formigamento e se assustou, pensando que estava tentando levitar dentro do trem. O breu que tomava conta do lado de fora só não a engoliu de vez por causa das luzinhas simpáticas que costuravam o tapete da cabine. Podia ter trazido um livro, ou até mesmo seu Kindle, se tivesse compreendido, antes, que seu novo eu gostava bastante de ler. Desceu na estação correta e estranhou ter sido a única. Colocou a lancheira nas costas e levitou lenta.
Akily sabia que precisava se afastar o máximo possível do trilho em linha reta. Logo tudo o que conseguia ver era a fina lua no céu, a aliança que o dia entregara para a noite como prova de seu amor. Seu dedão do pé bateu num monte mais volumoso de areia, e então ela percebeu que estava na hora de levitar mais alto. Atirou-se para frente numa súbita empolgação, o coração palpitando. Não sentia aquilo há mais tempo do que conseguia contar. O deserto brincava com seus olhos, de forma que parecia haver muitos pontos de luz colorida dentro da escuridão azúlea. Era como ir de encontro com o nada, sentindo a brisa fresca furando a pele com grãos gelados de areia. Eram tão virgens quanto ela, acariciando a face de um ser vivo pela primeira vez na vida, foi o que escolheu pensar. Sentiu-se fraca outra vez. Se já não estivesse no coração das Dunas, ao menos estaria em seu pulmão.
Deixou seu peso cair na areia quando percebeu uma leve declinação. Abriu a lancheira para retirar o buquê, acabou devorando logo os dois sanduíches cremosos antes que apodrecessem. Fechou os olhos, e cada vez que os abria, uma nova onda de claridade laçava seu corpo e a fazia tremer. Qual delas era a verdadeira face do Sol?
Ela vibrou quando se lembrou dele. Estava o evitando desde quando saiu do caixão, mas cada centímetro de sua pele nova gritava por ele, ansiava por sua aparição como os povos na época que ela nasceu. Falou seu nome em voz alta, depois seu queixo tremeu e sua risada virou um choro dolorido de sair dos olhos. Olhou para as pétalas que faziam cócegas no colo e sorriu, vendo que seu choro havia azuleado algumas das rosas vermelhas.
Um vento fez o corpo de Akily se expandir até sentir frio. Ela inclinou o rosto para não respirar areia, mas conseguia senti-la dançando entre os fios do cabelo. Seus olhos lacrimejaram outra vez. Enxergava tudo e qualquer coisa em sua frente. As dunas remetiam às catedrais com tetos que tanto lhe irritavam. As cordilheiras pareciam repetir as curvas de seu corpo, infinitas fileiras de areia moldada pelo vento, organizadas como nuvens num céu renascentista. Estava se casando. Fechou os olhos, sentindo uma fraqueza sem fim, e viu Alberto como um padrinho feliz, contente com o presente que acabara de receber na conta. Mas, do começo da passarela onde estava, Akily ainda não via seu noivo.
O arranjo no buquê continuava azulescendo; as rosas que já haviam azulescido antes tinham miolos distorcidos em marfim, como se Akily segurasse pequenas caveiras. Ela só não se lembrava em qual momento havia planejado um buquê daqueles. Mas não tinha problema; uma noiva deveria se lembrar de mil coisas e esquecer outras mil.
E então ela enxergou.
Ele não abriu um olho ou dois. O fogo galopava no horizonte trêmulo em cima de um cavalo dourado e forte. Akily gemeu quando sentiu a testa queimar, seus olhos incapazes de compreender o que via, ao passo que compreendia absolutamente tudo. O mundo era dourado para os que voavam.
Seu pescoço quase não se moveu, seus ossos rangendo conforme ela executava qualquer gesto. Somente ela podia se casar com ele, guardou aquela certeza em seu coração quando percebeu que não segurava mais o buquê. As duas rosas ainda vermelhas se derretiam em sangue pela areia. Num espasmo, as arrematou de volta e as lambeu, o gosto de ferro revigorando seu ser com um fogo quase tão ardente quanto o de seu futuro marido.
Seu estômago se revirou em ânsia; algumas cinzas inconvenientes tomaram a vista, mas, quando se viu livre delas, estava leve, como os anjos que tanto desgostava, e começou a rir. O fogo irradiava de seu peito para o deserto, seus olhos cegos por um clarão que a tomava inteira. Era a noiva mais linda, sairiam dizendo isso. Ela recebia o Sol impiedoso. Ele a atravessava crua. Não reconhecia aqueles pedaços de pele que rolavam com o vento forte sobre a areia fina.
Ela era toda Dourado, ela era toda Anjo, e recebia a coroa solar sobre o cabelo de fogo, na pele virgem que havia parido para ele.
Quando ele a segurou e a levou pelo horizonte em brasa, Akily enfim revirou os olhos e deixou uma última lágrima escapar, esquecendo-se de todos os muffins de caramelo que fez na vida.
Sophia Kaiser
S. Kaiser é escritora de ficção gótica contemporânea, fascinada por vampiros que parasitam o cérebro humano em forma de culpa e desejo. Sempre escreveu sobre ferida que grita antes que a palavra a decifre, geralmente na perspectiva do monstro rejeitado, tentando seu máximo para não romantizá-lo na vida real. Fortemente influenciada pela melancolia de Louis em “Entrevista com o Vampiro”, pela narração visceral de “Império do Vampiro” e pela complexidade psicológica de Dostoiévski e Clarice Lispector. Atualmente, revisita sua obra para relançamento na Amazon. » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Carne-pérola
O rádio de válvulas na sala de estar chia uma estática de sangue, e o som não é música, mas o rastro de um inseto gigante rastejando por dentro de um piano…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O rádio de válvulas na sala de estar chia uma estática de sangue, e o som não é música, mas o rastro de um inseto gigante rastejando por dentro de um piano de cauda de veludo carmesim, vertendo flores doces e pétalas com odor de esperança.
O perfume de vaga-lumes dos campos elísios,
O útero de Einherjar
Sob o crepúsculo enfermiço de onde o tempo se dobra como
ferro incandescente sob o martelo de deuses esquecidos,
uma pele velha e suada sobre um assoalho de xadrez infinito.
As luzes de néon cádmio derretem nos cantos do teto,
transformando-se em corvos de cera que gotejam piche quente sobre o linho branco da realidade, enquanto o Vidente do Manto Negro — uma ferida aberta no espaço — desliza acompanhado por uma criança de olhos de mármore cheios de fumaça elétrica.
Não há consolo, apenas a sentença: o colar de prata lunar, onde a engrenagem
e o olho lacrimejante se fundem em um beijo de parasita,
é apertado contra a garganta, lançando a alma a um oceano de horror ontológico.
Pelas frestas do inconsciente, as aranhas de cristal emergem com patas de agulha, costurando o silêncio ao pânico, enquanto carniçais de sombra sentam-se à mesa para mastigar substantivos e devorar a própria noção de identidade em um banquete de memórias que nunca existiram. Acima, no teto que desaba em pétalas de carne crua, os baiacus cósmicos incham de hidrogênio e segredos de estrelas mortas, seus espinhos roçando a geometria do luto. Caminha sobre ossos de poesia, vértebras de estrofes quebradas que rangem sob o peso do chumbo, atravessando mares de sangue oxidado onde os mortos não buscam carne, mas um afeto impossível de vidro onde as paredes respiram e as flores do papel de parede gritam o nome de um santo que nunca nasceu, ela empunha o prisma sanguíneo — metade osso, metade circuito pulsante — recusando-se a ser pó, recusando o convite do sofá de veludo do esquecimento.
Não há fim, apenas um zoom infinito para dentro do átomo de uma lágrima de mercúrio; a dor não é um acidente, é a linguagem primordial, o grito que esqueceu como rugir, o eco de uma porta que se fecha em uma casa que nunca existiu enquanto o rádio continua a chiar no azul profundo da eletricidade.
As luzes da sala de estar piscam em um código Morse feito de estática e soluços.
O cheiro não é de morte, mas de eletricidade queimando sobre açúcar.
O teto é um espelho líquido onde o céu se torna um oceano invertido.
Os corvos de cera estão empoleirados nos fios de alta tensão que atravessam a cozinha.
Eles não grasnam; eles derretem.
Gotas de piche quente caem sobre o linho branco, formando manchas que parecem testas de lenha queimada.
Quando a cera atinge o chão, ela cria raízes de gordura.
Eles observam com olhos que são apenas buracos de fechadura —
se você olhar através deles, verá uma estrada vazia à noite, esticando-se até o infinito.
Teias de vidro e ossos de versos, frestas do assoalho, as aranhas de cristal emergem.
Suas patas são agulhas de luz que costuram o silêncio ao pânico.
Elas não tecem teias para moscas, mas para capturar o hálito de quem decreta oração.
No centro da sala, uma pilha de ossos de poesia range sob o peso do invisível.
As vértebras são estrofes quebradas; o fêmur é uma rima que nunca se encontrou.
Se você encostar o ouvido no rádio de costelas, ouvirá uma voz distorcida sussurrando:
Onde o verbo termina, o cálcio começa a gritar.
Velas e corvos e castiçais dançam nuas no salão de Sessrúmnir.
Os carniçais entram pela porta dos fundos, mas eles não têm pés.
Espectrais sombras sólidas, esfomeados por substantivos e adjetivos.
Vultos do destino de vozes quebradas e estilhaçadas faces,
não querem sua carne; eles querem o significado das suas memórias.
Com colheres de sombra, eles raspam o vocabulário das paredes.
Eles mastigam a palavra "Poesia" e cospem areia preta.
Eles devoram o "Amanhã" e o tempo para de fluir, tornando-se uma poça de óleo estagnada.
Imundo intra-pecadores, pescadores, ínfimos, anfíbios da imaginação.
os Tetraodontiformes, parasitas cósmicos flutuam no ar denso.
Lentos. Inchados de hidrogênio e segredos de estrelas mortas.
Sua pele é feita de galáxias que sofrem de acne-marfim.
Eles incham até que os espinhos toquem os seus pensamentos.
Bolhas, brumas e pesadelos derretidos no copo da manhã,
Quando um Plectognathi explode, não há som, não há fim,
apenas a cópula-cápsula-crisálida, cruz, crua flor oca,
ocre cor amarela ocupando o lugar de todo o oxigênio do mundo.
O telefone da entropia toca no corredor vermelho.
Você atende, mas sua voz é apenas um punhado de penas de cera.
A pessoa do outro lado é você mesmo, trinta anos mais velho,
dentro de um televisor amarelado-desligado,
comendo uma aranha de cristal e rindo em câmera lenta.
O som de um fósforo riscando o vácuo.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
O Baile do Silêncio
A antiga Mansão Hollengrave não se erguia: ela se impunha, uma massa compacta e sombria de pedras escuras cravada no topo de uma colina…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A antiga Mansão Hollengrave não se erguia: ela se impunha, uma massa compacta e sombria de pedras escuras cravada no topo de uma colina, como um mausoléu esquecido pelo tempo. A névoa, densa e fria, não subia; ela se arrastava pelo chão como dedos espectrais à procura de algo perdido, envolvendo a estrutura em um sudário úmido. Os vitrais partidos, restos de desenhos góticos de anjos caídos e figuras distorcidas, refletiam a lua em fragmentos de luz doentia. Lá dentro, as abóbadas internas perdiam-se na escuridão, iluminadas apenas por candelabros de prata antiga cujas chamas trêmulas se contorciam, finas e pálidas, como se resistissem à própria existência em um ar tão pesado. O cheiro era de mofo, cera queimada e, subjacente a tudo, um perfume metálico de decadência.
O convite para o Baile de Halloween dos Silenciados chegara com a precisão de um epitáfio. Vinha em um envelope negro de papel áspero, com bordas que pareciam luto, lacrado por uma espessa gota de cera vermelha escura, quase preta. Na parte interna, a caligrafia elegante e sinuosa trazia a única regra e a única senha:
“Somente aqueles que conhecem a noite em silêncio compreenderão o chamado.”
Aaron Melchior — alto, de compleição esguia e ombros tensos sob a casaca de veludo. Seus olhos profundos, de um castanho intenso, estavam sempre em alerta, absorvendo o mundo com uma vigilância que a maioria das pessoas, dependentes do som, jamais conheceria. A perda do sentido era a sua bússola. Ele sentia a vibração no chão, lia a tensão nos músculos e a mudança de ritmo nos corações.
Ao seu lado, Lídia Vessoni era um contraste vibrante. Seu vestido carmesim de seda, que se movia em camadas de véus, parecia ter sido feito de névoa sangrenta, contrastando com sua pele de porcelana. Lídia não apenas vestia a cor; ela a encarnava. Ela se comunicava não apenas com as mãos, mas com todo o corpo: a inclinação da cabeça, a forma como a mão repousava no antebraço de Aaron. Ambos partilhavam a ausência do som desde o nascimento. Não havia palavras articuladas, apenas o silêncio mútuo. Sua comunicação fluía em olhares longos e complexos, em gestos precisos da Linguagem de Sinais (LS) e em uma cumplicidade que tornava cada movimento, cada toque, imediatamente compreensível um para o outro. Eram duas metades de um mesmo silêncio.
Ao atravessarem as portas de carvalho maciço e entrarem no imenso Salão Hollengrave, Aaron sentiu o primeiro arrepio que não vinha do frio da noite. Era a vibração, o detalhe que o fez apertar a mão de Lídia com mais força: todos ali eram como eles. Surdos.
O salão estava repleto. Damas em vestidos sombrios de seda e tule, cujas máscaras cobriam metade do rosto, revelando apenas sorrisos contidos. Cavalheiros de casacas pretas rigidamente abotoadas e máscaras douradas simples, quase sem feições. Eles dançavam.
Dançavam uma valsa invisível. Não havia som, mas o ritmo era palpável. O olhar dos convidados seguia o Maestro, uma figura alta e esguia, envolta em um fraque antiquado, que agitava a batuta com precisão maníaca no palco de ébano. Diante dele, os músicos eram mudos. Seus violinos, violoncelos e harpas estavam posicionados, mas os arcos apenas roçavam o ar, as cordas eram tocadas com a leveza de fantasmas. Não havia música, mas o corpo de cada dançarino seguia o compasso imaginado, uma sinfonia coreografada pelo silêncio.
As paredes, de um verde musgo desbotado, estavam adornadas por espelhos antigos com molduras de bronze corroído. Eram espelhos imperfeitos, que distorciam a luz. Mas havia algo mais perturbador. Aaron percebeu que, em cada reflexo, a imagem parecia sempre atrasada. Um segundo, talvez menos, mas o suficiente para que os convidados reais e suas imagens fossem duplos, presos em outra dimensão de tempo.
Aaron apertou a mão de Lídia. O aperto era um código entre eles. Seus olhos, que se encontraram por um instante sob as luzes trêmulas, sinalizaram o terror: algo não está certo. A mansão não era um simples local de encontro; era uma armadilha de cumplicidade.
De repente, a harmonia perturbadora da valsa silenciosa foi interrompida. Uma convidada – Srta. Majory Darven, com uma máscara de penas pretas que cobria todo o rosto – caiu no meio do salão. O som não existia, mas o impacto visual foi violento. As luzes das velas vacilaram ao mesmo tempo, como se um sopro tivesse percorrido o salão. O corpo de Majory tremeu no chão, uma convulsão silenciosa, como se uma onda de energia percorresse seus ossos. E então… o silêncio continuou, mas seus olhos se arregalaram em desespero puro.
Quando ela se levantou, cambaleando, algo estava dramaticamente diferente: seus gestos, antes elegantes na dança muda, eram agora bruscos, descontrolados, como os de um fantoche cujos fios foram cortados. Ela levou as mãos à cabeça, apertando as têmporas. Ao abrir a boca, um grito sem som deformava-lhe o rosto, um contorcimento de horror mudo que ela não conseguia parar.
— Ela está ouvindo algo… — sinalizou Lídia, suas mãos voando em movimentos rápidos e horrorizados. Sua expressão era de náusea.
Aaron percebeu a progressão do terror. Um a um, os convidados começavam a reagir como Majory. O Sr. Cadwell Ormond, um homem de bigodes finos, pálido como marfim, levou as mãos às orelhas, numa tentativa frenética e instintiva de tapá-las. A Lady Miriam Eckhart, conhecida por sua calma gélida, cambaleou, e lágrimas de sangue começaram a correr-lhe dos olhos, escorrendo sobre o vestido de veludo negro.
Havia uma nova presença no salão. Era invisível, inaudível para Aaron e Lídia, mas era perceptível na forma como o ar parecia vibrar, na tensão dos rostos, e, mais aterrorizante, nos reflexos dos espelhos.
Aaron arrastou Lídia para trás, até um canto escuro, diante de uma tapeçaria puída que representava uma cena de caça macabra. Ele usou a comunicação tátil — uma forma de LS de toque rápido e pressão — escrevendo rapidamente em sua mão, com a ponta do dedo, sentenças curtas e urgentes: Eles. Estão. Ouvindo. O. Que. Nós. Não. Podemos.
E então veio a revelação, tão clara e brutal quanto um golpe físico. Nos espelhos, as versões atrasadas dos convidados não apenas se moviam: eles gritavam. Suas bocas estavam abertas em berros histéricos; eles cobriam os ouvidos com as mãos esqueléticas e imploravam por socorro. Não era mero reflexo. Eram eles, os seres reais, aprisionados em uma dimensão paralela onde o som existia — e onde algo sussurrava, gritava, ou gemia.
— Você vê? — sinalizou Lídia, os olhos fixos em um ponto atrás da confusão. Ela apontou para o Maestro.
O Maestro não estava mais de pé. Estava curvado sobre o pódio. Sua batuta não era mais madeira. Era um osso humano polido, ensanguentado, que ele agitava com uma pulsação sinistra. Sua boca estava aberta, escancarada em uma forma que não era humana, deixando escapar uma sombra líquida, negra e oleosa, que escorria pelo palco.
A sombra subia. Subia pelos corpos dos músicos mudos, deformando-lhes os rostos. Os violinos não tinham cordas. As cordas de seus instrumentos eram seus próprios nervos tensionados, brilhantes e úmidos, vibrando com a presença da Sombra. O Maestro estava conduzindo a dor, orquestrando o tormento auditivo.
Um arrepio gélido percorreu a espinha de Aaron, um medo visceral que ele nunca sentira. Aquilo não era um baile. Era um ritual. O evento não celebrava a ausência de som, mas preparava os surdos para o tormento final: fazê-los ouvir o que jamais deveriam. A Sombra era a encarnação do Som Primordial do Horror.
Um por um, os convidados eram consumidos. A cena era uma tela viva de horror silencioso. Não se ouvia nada, mas via-se tudo: gargantas dilaceradas sem ruído, olhos suplicantes cheios de lágrimas de sangue, bocas abertas em gritos mudos que só os espelhos registravam.
Aaron e Lídia tentaram fugir. Correram para as portas principais, mas elas estavam seladas por correntes grossas que se moviam sozinhas, enrolando-se nas maçanetas com a lentidão de serpentes. As janelas, quando Aaron conseguiu quebrá-las com a base de um candelabro, revelaram apenas mais paredes da própria sala, como se a mansão fosse um labirinto de Mobius, uma gaiola sem saída.
No centro do salão, o coração do ritual, os espelhos começaram a rachar. As fissuras surgiam como teias de aranha negras, e das fendas brotaram mãos negras, esqueléticas, que não eram reflexos, mas tentáculos de uma realidade faminta. Majory foi a primeira a desaparecer. Seu corpo, ainda convulsionando em audição forçada, foi sugado para dentro do vidro pela sua própria versão distorcida, deixando apenas um vestígio do vestido carmesim.
Aaron puxou Lídia com desespero febril para o último ponto de sombra. Mas, ao olhar para o espelho diante de si, ele congelou. Não pela mão, mas pela expressão. Sua versão refletida estava sorrindo. Sorrindo de um modo que ele nunca sorrira: um sorriso de cumplicidade macabra, os olhos vibrando com uma alegria doentia, já contaminado pela Sombra.
— Não olhe! Se concentre em mim! — sinalizou Lídia, seus movimentos eram de puro pânico, tentando chamar a atenção dele, mas já era tarde demais.
A mão espectral do reflexo atravessou o vidro com a facilidade de um fantasma e agarrou Aaron pelo rosto. Ele sentiu a pressão esmagadora e a textura fria da morte.
E então… som.
O mundo explodiu. Não foi um barulho. Foi uma invasão. Um sussurro insuportável, como mil vozes gritando ao mesmo tempo a sua ignorância, a sua insignificância. O som era físico: queimando sua mente, rasgando-lhe o crânio por dentro, o berro da entropia. Era a primeira vez que Aaron ouvia algo — e ele soube, com a certeza fria do destino, que seria a última.
Lídia caiu de joelhos, o chão vibrando com a agonia que ela não podia ouvir, mas podia sentir. Ela viu Aaron ser tragado pelo espelho, seu corpo desaparecendo no vidro líquido. Sua imagem refletida, a versão que havia sorrido, não estava em pânico: ela dançava, leve, ao som de uma melodia inaudível de puro horror.
Quando a última vela no candelabro de prata se apagou, o salão foi engolido pela escuridão total. Restou apenas o silêncio absoluto da Mansão Hollengrave.
O salão estava vazio, exceto pelos espelhos — onde todos ainda dançavam, aprisionados, ouvindo eternamente o que jamais deveriam.
Bruno Reallyme
Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
H. P. Lovecraft – O Arquiteto do Indizível
Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, onde também morreria, solitário e quase…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo mais antigo e mais forte de medo é o medo do desconhecido.”
— H. P. Lovecraft, “O Horror Sobrenatural na Literatura”
Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, onde também morreria, solitário e quase desconhecido, em 15 de março de 1937. Viveu à margem do mundo — pobre, doente, recluso — mas sua mente fervilhava como um poço de éter, e seus pesadelos tornaram-se mitologias modernas. Seu universo não é deste mundo, nem do inferno. É anterior, abissal, cósmico.
Criado por sua mãe e avô após a internação e morte de seu pai, Lovecraft encontrou nos livros, nas ruínas vitorianas da Nova Inglaterra e nas vozes do passado (Poe, Dunsany, Chambers) os pilares de sua torre gótica. Desde muito jovem, encantou-se pela ciência, pela astronomia e pelo arcabouço invisível da realidade — ainda que sempre pairasse sobre ele a sombra da instabilidade mental.
Os Tentáculos do Horror Cósmico
Lovecraft não escrevia apenas histórias — ele invocava atmosferas. Não há em sua literatura o vilão clássico, nem o terror fácil do sangue: o que aterroriza é o limite da sanidade, a vastidão impiedosa do cosmos, a presença de seres tão antigos que a própria linguagem é inútil para descrevê-los. Ele chamava isso de “horror cósmico”.
Seus contos mais célebres — como O Chamado de Cthulhu, Nas Montanhas da Loucura, A Cor que Caiu do Espaço, O Caso de Charles Dexter Ward e O Sussurro nas Trevas — compõem o que hoje conhecemos como Mitologia de Cthulhu, um panteão de entidades insondáveis: Azathoth, Yog-Sothoth, Nyarlathotep, Shub-Niggurath... nomes que não pedem compreensão, mas silêncio reverente.
Estes deuses não são malignos — são indiferentes. E essa indiferença é o terror maior: o homem não é o centro do universo, mas um ponto irrisório num caos sem propósito.
O Estilo: Arcaísmo e Atmosfera
Lovecraft escrevia como um antiquário da linguagem, com frases longas, palavras rebuscadas, e uma preferência por termos como eldritch, gibbous, cyclopean e tenebrous. Muitos o acusaram de excessivo, mas há beleza no excesso — especialmente quando o objetivo é evocar o indizível.
Ele evitava diálogos extensos, preferia narrações em primeira pessoa, e muitas vezes o horror se dava fora de cena — algo pressentido, mas jamais completamente visto. É um terror mais filosófico que visceral. Sua escrita evoca a vertigem daquilo que jamais seremos capazes de compreender.
Racismo e Sombras Biográficas
Não se pode falar de Lovecraft sem encarar o espelho sombrio de sua alma: ele era profundamente racista. Seus textos e cartas trazem visões xenófobas, elitistas e excludentes, fruto de seu tempo, sim, mas também de suas convicções pessoais. Ele temia o “outro” tanto quanto temia o universo. É doloroso, mas necessário, reconhecer isso — para que possamos ler sua obra com lucidez e senso crítico, sem encobrirmos suas falhas humanas. Aqueles que não lêem Lovecraft por esta razão, não sabem o quão importante é entrarmos em contato com as verdades obscuras do passado, para não as repetirmos os mesmos erros no futuro. Além disso, o quanto devemos separar a obra de seu autor? Esta é uma pergunta viva que devemos colocar sempre em questão; para mim, no caso específico do Lovecraft, quando suas características racistas aparecem nos textos, é profundamente desconfortável; talvez aí esteja o principal horror de suas obras.
Legado Imortal
Lovecraft morreu pobre, com poucos leitores. Mas o tempo, esse devorador de almas, fez justiça póstuma: hoje, ele é reconhecido como o pai do horror moderno. Influenciou Stephen King, Neil Gaiman, Clive Barker, Alan Moore, e ressoa em filmes (O Enigma de Outro Mundo, Alien), jogos, HQs, RPGs e até canções.
A cidade imaginária de Arkham, o livro proibido Necronomicon, os cultos sussurrantes, as criaturas informes — tudo isso se tornou parte do imaginário ocidental, como um evangelho profano.
Epílogo: Diante da Escuridão Insondável
A obra de Lovecraft nos devolve o olhar de uma criatura insignificante diante da eternidade, lembrando-nos de que o universo não foi feito para nós, e talvez jamais nos note.
Penso que, mesmo sabendo que somos poeira, ainda escrevemos, ainda sonhamos, ainda trememos sob as estrelas. Isso é inestimável e, talvez, nos conecte com toda a poderosa forma cósmica que não somos capazes de compreender.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Nyarlathotep
Nyarlathotep… o caos rastejante… Eu sou o último. Eu direi ao vazio que me atende. Não me lembro ao certo quando tudo começou, mas foi há meses…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Tradução e adaptação por Júlia Trevas
Nyarlathotep… o caos rastejante… Eu sou o último. Eu direi ao vazio que me atende.
Não me lembro ao certo quando tudo começou, mas foi há meses. A tensão, antes política e social, adensou-se com um pressentimento inquietante de um perigo físico hediondo e iminente — um flagelo tão vasto que só podia existir em nossos pesadelos mais sombrios. As pessoas transitavam com seus rostos pálidos e os olhares cautelosos, mexidas por advertências sussurradas, lidas como profecias que ninguém ousava repetir ou reconhecer abertamente. Um sentimento de culpa monstruosa pairava sobre a terra e, dos abismos entre as estrelas, varreram correntes gélidas que faziam os homens estremecerem em seus refúgios escuros e solitários. Ali, existia uma alteração demoníaca na sequência das estações — o calor do outono persistia assustadoramente, e todas as pessoas sentiram que o mundo e talvez o universo, foram entregues do controle de deuses conhecidos e forças, para os deuses que eram desconhecidos e para forças ocultas.
Foi então que Nyarlathotep surgiu, vindo do Egito. Quem ele era, ninguém podia dizer, mas ele parecia com um faraó. Os fellahin se ajoelhavam ao vê-lo, sem entender o porquê. Ele dizia ter emergido da escuridão de vinte sete séculos e tinha recebido mensagens de lugares que não pertenciam a este mundo. Assim, para as terras da civilização veio Nyarlathotep, moreno, esguio e sinistro, sempre comprando estranhos instrumentos de vidro e metal, combinando-os em instrumentos ainda mais estranhos. Ele falou muito sobre as ciências — da eletricidade e da psicologia — dando exibições de poder que deixavam seus espectadores mais que sem palavras, o que elevou sua fama a uma magnitude extraordinária. Homens aconselhavam outros homens a verem Nyarlathotep, eles estremeciam. E onde Nyarlathotep passava, tudo mais se dissipava, pois o alvorecer era dilacerado por gritos de pesadelo que nunca foram tão públicos. Os sábios chegavam a desejar que o sono noturno fosse proibido, para que os lamentos urbanos perturbassem menos brutalmente a pálida e compassiva lua. O satélite cintilava sobre águas verdejantes que escorriam sob pontes antigas, ao passo que velhos campanários desmoronavam contra um céu adoentado.
Eu me lembro quando Nyarlathotep veio para minha cidade — uma terrível e antiga cidade de inúmeros crimes. Meu amigo me contou sobre ele, contou sobre as suas revelações impulsivas e sedutoras. Eu tinha uma ânsia que queimava quando eu desejava seus mais extremos mistérios. Meu amigo me disse que eles eram horríveis e impressionantes, além da minha imaginação febril. O que foi projetado na tela da sala escura prenunciava mistérios que só Nyarlathotep ousava revelar, e que, no estalar de suas faíscas, arrancava dos homens algo que jamais antes fora subtraído — um algo que só se manifestava pelos olhares. Eu ouvi dizer que os que conheceram Nyarlathotep viam coisas que os outros não viam.
Foi no calor do outono que fui com as incontáveis multidões através da noite ver Nyarlathotep. Adentrando a sufocante escuridão noturna e subindo as intermináveis escadas até o quarto da asfixia, envolto em trevas numa tela, eu vi formas encapuzadas no meio de ruínas, douradas faces malignas espiavam por trás de um monumento caído. Eu vi o mundo batalhar contra as trevas, contra ondas de destruição provenientes de além do espaço, lutando, se agitando e girando contra o escurecimento do sol já frio. Então, as faíscas dançaram de modo assombroso ao redor das cabeças dos espectadores, erguendo seus cabelos em arrepio e sombras, mais grotescas do que qualquer descrição poderia abarcar, elas emergiram e pousaram sobre as cabeças, e quando eu, que era o mais frio e científico que os demais, murmurei, tremendo, palavras como “impostura” e “eletricidade estática”, Nyarlathotep expulsou a todos nós, descendo-nos pelas escadarias vertiginosas até as ruas úmidas, tórridas e desertas da meia-noite. Gritei em alto e bom som que não tinha medo e que jamais poderia ter medo, e outros gritavam comigo em busca de consolo. Juramo-nos mutuamente que a cidade permanecera exatamente a mesma ainda viva, e, quando as luzes elétricas começaram a esmaecer, amaldiçoamos a companhia por vezes sem conta e rimos das feições bizarras que fazíamos.
Acredito que senti algo vindo da lua esverdeada, pois, à medida que passávamos a depender de sua luz, deslizamos em estranhas formações involuntárias e parecia que conhecíamos nossos destinos, embora não ousássemos sequer pensar neles. Uma vez, fitamos o pavimento e constatamos que os paralelepípedos estavam frouxos e invadidos pela grama, restando apenas um fio de metal corroído a indicar onde antes corriam os trilhos. Logo em seguida, avistamos um bonde solitário, sem janelas, deteriorado e quase tombado para o lado. Quando fixamos o olhar no horizonte, não conseguimos avistar a terceira torre junto ao rio e a silhueta da segunda ostentava um perfil desfiado no topo, como se o tempo a tivesse consumido por completo. Em seguida, dividimo-nos em fileiras estreitas, cada qual atraída por um rumo distinto. Uma delas desapareceu num beco tortuoso à esquerda, restando apenas o eco de um gemido lancinante. Outra coluna deslizou por uma entrada de metrô engolida pelas ervas daninhas, ecoando uma risada insana. A coluna onde eu estava foi sugada para o campo aberto e logo sentimos um frio estranho, alheio ao calor do outono, pois, ao avançarmos pelo pântano escuro, contemplamos ao nosso redor o brilho lunar infernal da neve maligna. A neve errante e enigmática foi varrida em uma única direção, onde se abria um abismo no qual o brilho apenas acentuava sua escuridão. A coluna seguia exígua, avançando sonâmbula para o precipício. Retive-me por um instante, pois a fenda negra na neve iluminada pelo verde era aterradora, e parecia ecoar o lamento inquietante de meus companheiros ao desaparecerem. Mas minha hesitação foi breve. Como se fosse chamado por aqueles que já haviam partido, flutuei quase sem peso entre os titânicos montes de neve, trêmulo e amedrontado, até ser tragado pelo vórtice cego do inimaginável.
Dotado de uma consciência lancinante e entregue a um delírio mudo, só os deuses antepassados poderiam compreender tal horror. Uma sombra doente e sensível se contorcia em mãos que não eram mãos, circuitando de modo cego pelas mais pavorosas meias-noites da criação em decomposição, cadáveres de mundos mortos, cujas chagas eram cidades, e ventos cadavéricos que roçavam as estrelas pálidas, fazendo-as cintilar com um brilho débil. Para além de tais mundos, vagavam espectros de monstros indescritíveis; colunas difíceis de ver oriundas de templos profanos, estruturados sobre rochas sem nomes sob o firmamento, erguiam-se até os vazios vertiginosos além das esferas de luz e de trevas. E, em meio a este cemitério repulsivo do universo, ecoava o bater ensurdecedor de tambores abafados e o lamento maçante das blasfemas flautas, surgidas de câmaras inconcebíveis e não iluminadas além do Tempo, o pulsar detestável e o sussurrar profano que faziam dançar, lentamente, desajeitadamente e absurdamente os gigantescos deuses supremos e tenebrosos. As gárgulas cegas, mudas e desprovidas de mente, onde a alma é Nyarlathotep
H. P. Lovecraft
Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, onde também morreria, solitário e quase desconhecido, em 15 de março de 1937. Viveu à margem do mundo — pobre, doente, recluso — mas sua mente fervilhava como um poço de éter, e seus pesadelos tornaram-se mitologias modernas. Seu universo não é deste mundo, nem do inferno. É anterior, abissal, cósmico... » leia mais
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Mar Espectral
Um assobio cortava os corredores do castelo, como sempre escuro e esquecido. Aquele assobio dominava e transpassava seu eco junto de uma…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Um assobio cortava os corredores do castelo, como sempre escuro e esquecido. Aquele assobio dominava e transpassava seu eco junto de uma ventania estranha que dançava pelas paredes de pedra e roçava na poeira, erguendo um cheiro de umidade e pó. Em uma das câmaras de retiro do castelo, Minerva escrevia em seu livro negro, posicionada sob uma mesa de escrever. Ela aguçou os ouvidos, atenta àquele som ritmado que ecoava cada vez mais perto.
O som deslizava pelo ar, suave e contínuo, como um sussurro levado por uma brisa forte ou o farfalhar de um tecido escorregando sobre uma superfície lisa. Era fluido, mas inconfundivelmente presente enquanto se movia, sussurrante e rápido, arrastando o pó do castelo pelos ares e emitindo notas como Dó, Mi e Sol.
Hummmmmm Hummmmm hummmm hummmm...
Ela parou, pousou a pena sob a madeira da mesa cautelosamente ao direcionar o olhar atento para onde o som ecoava quando aquilo adentrou pela porta do cômodo, que se abriu de leve como se alguém a destrancasse, aquele vento soprou a vela erguida pelo candelabro ao lado de Minerva e a apagou, sob a mesa. A escuridão dominou e ela ouviu apenas o som de seu espirro após inalar o pó que aquela brisa trouxera, que exalava um aroma de terra molhada.
A esfera luminosa de Minerva brilhou no ambiente acima de sua cabeça, afugentando um pouco do breu e elevando à penumbra a marca dos objetos ao seu redor. Com cuidado, ela fechou o livro e, com um sussurro, o encantou para que ninguém mais o pudesse ler. O pó sob o chão era levado por aquela brisa fazendo círculos ao seu redor e aquele som podia ser ouvido como às vezes mais longe e às vezes bem mais perto, como se estivesse indo e vindo até ela. Aquele era um dos sinais de algo que a chamava mais uma vez para os lugares mais ermos e lúgubres que se escondiam nas reentrâncias dimensionais do castelo.
Minerva avançava pela galeria silenciosa, guiada por uma intuição que pulsava em seu coração. A brisa, cada vez mais intensa e carregada de poeira, soprava sua direção, também lhe indicando o caminho. A cada passo, seus pés ecoavam suavemente sobre o chão de pedra, e ela percebia uma mudança sutil, quase imperceptível, na atmosfera do castelo. Havia um murmúrio distante de água corrente deslizando pelas paredes e pelo chão. Ao seu lado, a esfera de luz que a acompanhava brilhava com um tom inusitado: o azul-cobalto substituíra o habitual tom de safira, como se até mesmo sua magia estivesse sob influência de algo diferente.
O vento empoeirado mudou repentinamente de direção, arrastando Minerva para uma ala do castelo que lhe era completamente estranha. A escuridão era tão densa que o teto parecia ter deixado de existir, e todos os objetos ao redor surgiam apenas como vultos distantes, como se ela caminhasse por um vazio absoluto, desprovido de tempo e espaço. Vista de longe, se alguma alma pudesse enxergar naquele abismo, ela seria apenas a silhueta de uma dama envolta em negro, recortada contra o brilho pálido de uma luz fria, um vestido longo de mangas justas a cobria como um véu de sombra, os tecidos pesados ondulando suavemente ao compasso do vento oculto, como se a própria escuridão se moldasse ao seu corpo.
O sussurro ecoou mais uma vez, baixo e arrastado, como um segredo sendo revelado gota a gota nas paredes. À frente, Minerva vislumbrou um alto portal, duas portas monumentais, cravadas no chão e fundidas à rocha das paredes. Eram feitas de jacarandá escuro, e exalavam uma presença inquietante. Reunindo toda a força do corpo, ela empurrou as portas pesadas, que rangeram com um som áspero e profundo ao se abrirem.
Do outro lado do portal, Minerva encontrou uma paisagem emoldurada pela desolação: uma praia fria e cinzenta, açoitada por rajadas de vento cortante, sob nuvens espessas que mergulhavam o mundo em penumbra. As ondas do mar, negras e revoltas, quebravam com fúria sobre a areia pálida, como se tentassem devorar a costa. Ao erguer o olhar, ela o viu o castelo Drácula erguendo-se com imponência sobrenatural no alto de uma formação rochosa, cercado por montanhas escuras como carvão.
As torres do castelo se projetavam contra o céu como lanças de pedra, adornadas por gárgulas de olhos ocos e asas abertas, como se estivessem à espreita. Vitrais rachados e sujos, mais parecidos com feridas do que com janelas, manchavam suas fachadas, lembrando igrejas amaldiçoadas, esquecidas pelos deuses e devoradas pelo tempo. A atmosfera era densa, elétrica, como se algo além da compreensão, habitasse aquele cenário. E Minerva sabia, ela estava numa das dimensões ocultas onde o castelo Drácula existia, um reflexo sombrio entre realidades na encosta da praia da melancolia.
Em sua mente, ela considerou aquele acontecimento por alguns segundos, tentando entender onde estava e por que o castelo a trouxera ali. Ela sentou-se na encosta da praia. Seu longo vestido negro foi consumido pela areia e seus cabelos tornaram-se esvoaçantes com as rajadas de vento. Em seu interior, se instaurava um medo vestal como se sua magia fosse se esvair, ela não tinha fé única, mas cria principalmente em sua magia.
Por um instante fugaz, tão breve quanto o piscar de olhos, Minerva tentou racionalizar o que via. Por que o castelo a convocara para aquele limiar de mundo esquecido? Que propósito obscuro havia naquela travessia? Sem respostas, deixou-se cair sobre a encosta pedregosa da praia, onde a areia, fria e úmida como cinzas de ossos antigos, começou a engolir as dobras de seu vestido negro. O vento, cada vez mais impiedoso, fustigava-lhe os cabelos, fazendo-os dançar em espirais caóticas como serpentes presas na cabeça da medusa.
Ela afundou as mãos na areia pálida, desejando ancorar-se ao mundo físico, sentir algo que não tremesse sob o peso do abismo. Foi então que seus dedos roçaram algo rígido e frio, uma estrutura metálica soterrada sob os grãos. Puxou-a lentamente, revelando um objeto soturno: uma cruz de tungstênio escurecido, com uma safira profundamente cravada no centro. Gravadas em seu corpo metálico, inscrições arcanas serpenteavam em uma língua extinta, como se tivessem sido gravadas por mãos que já não pertenciam há nenhuma era conhecida. Era um encantamento, um aviso, talvez. Ou uma chave.
Ofegante, os olhos de Minerva vasculharam mais uma vez as inscrições entalhadas no artefato, buscando um sentido oculto nas curvas tortuosas da escrita. Então, com um murmúrio quase imperceptível, lançou um encantamento que fez a cruz flutuar diante de si. Os símbolos arcaicos despertaram, acendendo-se com uma luz azul e girando lentamente no ar. Uma única frase reverberou, clara como uma sentença final: aquele que habita na escuridão, Lwccirtt, livre de sua prisão.
Mal as palavras cessaram, as rajadas de vento emitiram urros furiosos, e no coração do oceano caiu um raio etéreo de luz antinatural, impossível de nomear, que desceu rasgando os céus. O clarão golpeou as águas como uma lâmina divina, e o mar respondeu. Minerva tentou erguer-se, tentou fugir da costa maldita, mas o tempo já não lhe pertencia. Das profundezas abissais, ergueu-se a onda. Não uma onda comum, mas uma muralha de água e trevas, uma maré de natureza arcaica e brutal que não pertencia àquele mundo. Era como se o próprio mar, consciente e vingativo, se levantasse para apagar tudo. Ela não apenas engoliu a praia, ela perfurou, arrastando com ela a matéria que Minerva conhecia ou cria ser o mundo.
O castelo Drácula, em sua imponência amaldiçoada, foi tragado inteiro. As gárgulas se despedaçaram como bonecos de sal; os vitrais explodiram num mosaico brilhante de pontos escuros, e as colunas góticas se retorceram sob o peso de um oceano que não devia existir. A água salgada invadiu corredores e criptas, afogando histórias e horrores adormecidos naquela dimensão. Minerva, engolfada pela força inominável, foi arremessada contra as rochas submersas como uma folha sem destino e ali seu corpo flutuou, inerte, entre as sombras. E então ele surgiu. Lwccirtt.
Uma criatura feita de névoa viva e substancial, pairando sob as ruínas submersas como um presságio, dançando imerso nas águas escuras. Era amorfo, uma nebulosa sólida e escura, líquida, pulsante como tinta cósmica derramada sobre o fundo do oceano perto da zona abissal. Sua anatomia desafiava a mente: tentáculos espectrais sem origem serpenteavam em direções paradoxais, oscilando entre matéria e vazio.
Minerva submergiu sob as águas que devoraram o castelo, envolta em silêncio. Seu corpo repousava imóvel, e apenas o tangível frio das águas lhe despertava as extremidades dormentes, sabia que estava machucada, mas não conseguia sentir onde. As sombras que avançavam no escuro levavam consigo destroços do castelo Drácula; numa quietude súbita, as correntes agitavam-se num balé funerário, como se o próprio mar reverenciasse uma queda tão grandiosa.
Foi então que algo se formou nas profundezas e ela pôde ver e aproximar-se do que deveria ser a superfície, só que não conseguiu alcançar. Não era fera nem fantasma, mas um vulto indecifrável, a entidade Lwccirtt, uma massa de nébula quase sólida e insólita; era escura e se desenrolava sem pressa. Suas bordas não tinham consistência firme; eram como brumas antediluvianas, densas como breu, mas compostas de uma estranha luz opaca e cobalta.
Aquilo flutuava indiferente no véu escuro aquático, com curiosidade pacífica, observando Minerva, que ainda presa entre o limiar do sono e da vida, não sentiu medo. Pelo contrário, mesmo sem respirar, ela despertou do seu transe turvo com uma curiosidade silenciosa, a falta de ar por hora não a incomodava. Era como se aquele ser tocasse sua mente sem a tocar fisicamente, e impressões e sensações fluíam diretamente em seu ser. Não havia voz, apenas um eco distante, um sussurro que animava sua consciência. Os olhos vermelhos da bruxa enxergavam, turvos, os dentes afiados daquela estrutura nebulosa que a faziam lembrar de um peixe-ogro.
Sensações de frio e calor envolveram-na num diálogo psíquico indescritível com os vórtices luminosos que deveriam ser os olhos daquela entidade. De súbito, o inconcebível se revelou em visões fugazes. Aquele ser conversava com ela e mostrou para Minerva um turbilhão de imagens e nem todas ela compreendia. Ela viu cidades submersas antes da era dos homens, rostos antigos esculpidos na pedra que jamais poderiam ser lidos submersos em águas profundas, florestas petrificadas sob um sol que ainda não nascera. Ela enxergou desertos de cristais negros e mares de trevas luminosas, espectros de constelações mortas e astros recém-nascidos girando num balé eterno. Cada fragmento destas cenas era um pressentimento de algo maior, um lampejo de conhecimento proibido, mas tudo lhe escapava entre a visão turva do vermelho rubro de seus olhos sangrentos que ardiam pelo sal. Suas forças e sua magia estavam sendo drenadas.
Ela apanhava vislumbres da geometria do cosmos, da quietude antes do tempo, sem conseguir nomear. Um som estranho, como um borbulhar, era ouvido por ela quando a entidade a mostrava as visões. Ela sentia que precisava adentrar em uma daquelas realidades, em seu âmago ela começou a chamar pelo castelo Drácula, pela dimensão que ela conhecia. Cada vez que ela buscava aquele vislumbre nas visões de Lwccirtt, o som do borbulhar aumentava; ela precisava respirar e não conseguia se desvencilhar daquele contato, não conseguia nadar em busca de uma superfície.
Sentia as suas energias sendo transferidas para a nebulosa lôbrega, mesmo assim ela insistia com todas as forças psíquicas em chamar a visão de seu grimório deixado lacrado na câmara de retiro entre as visões que Lwccirtt lhe mostrava. Quando seu coração despontava sem ar e seus pulmões quase sem vida, um relance do grimório surgiu e ela pode sentir a estranheza da entidade diante da imagem.
Quando o contato terminou, Lwccirtt retornou ao mar de sombras de onde emergira. Minerva conseguira retornar, porém, quase sem magia e a cruz de tungstênio perfurava seu peito. Pairava no ar, suspensa por um último fôlego da magia que agora a deixava, ela caiu sob o chão de pedra.
Seu corpo encharcado chocou-se contra o chão, pesado e exausto, como uma ânfora vazia. A cruz de tungstênio, que antes flutuava com poder, agora atravessava-lhe o peito, cravada como um selo. A dor era real, mas mais real era a estranheza de ainda estar viva. Ela arquejou, expelindo a água salgada dos pulmões pela boca, numa ânsia entre a morte e o renascimento ela arfou em uma tosse desenfreada. Sua mente ainda oscilava, presa à visão do castelo submerso, e da criatura que havia lhe mostrado o infinito. Ela invocou a esfera luminosa que, enfraquecida, piscava emitindo um som vibrante de energia.
Com um último esforço ela se ergueu sentando-se, segurou a cruz e a arrancou de si. O sangue misturou-se à água que escorrida de seu corpo sobre o chão, formando um reflexo escarlate. Minerva tombou outra vez, silenciosa, com os olhos abertos para o teto que não via, carregando em si um novo vazio, não de ignorância, mas de sabedoria impossível.
O mundo ao seu redor parecia mais vasto e menor ao mesmo tempo; o tempo não corria mais linearmente. Embora não pudesse nomear o conteúdo exato das visões, sentia que partilhava de uma sabedoria antiga. E essa certeza, por si só, já transformava sua existência fazendo-a se perguntar o que ela realmente buscava. A cruz continuava ali, ao seu lado, fria e cintilante, gravada com o nome daquele que habita na escuridão. Lwccirtt.
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Nas profundezas do azul índigo
Acordou em um sobressalto, o coração anunciando que o perigo estava à espreita. Mais uma vez aquele estranho sonho, pesadelo. Outra vez…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Balanço.
O casco range. Lamento surdo.
Engolida pelas ondas que golpeiam sem trégua.
Um céu cinzento-petróleo pesa sobre o oceano esverdeado, fundindo horizonte e abismo em uma só ameaça.
Não há bússola. Nem norte. Nem voz. Sons confusos, abafados. O bater acelerado dentro do peito e o gosto salgado do medo sobe pela garganta.
O barco, pequeno demais para tanta água, parece hesitar. A cada solavanco, uma parte cede — madeira, sanidade, tempo.
E então, longe, como uma miragem feita de promessas secas, surge ela: uma ilha.
Um recorte de terra firme em meio ao delírio líquido. Um alívio quase terno...
... Que dura pouco.
A embarcação gira de repente, sem lógica ou aviso. Um puxão violento arrasta tudo para o lado, depois para baixo. Bem rápido.
O corpo se solta ou é lançado — pelo que? — e mergulha nas entranhas frias do oceano.
A superfície se afasta, distorcida, irônica.
O som se apaga. Os pulmões imploram por uma trégua.
Braços se movem em vão, como se nadar fosse se lembrar de algo esquecido.
Nada sustenta. Tudo afunda.
E no azul-petróleo que agora é vazio, só resta o silêncio.
Denso.
Infinito.
Infamiliar.
Acordou em um sobressalto, o coração anunciando que o perigo estava à espreita. Mais uma vez aquele estranho sonho, pesadelo. Outra vez atrasada, já não tinha munições em seu arsenal de desculpas, e teria que vestir a face da humildade, quando o supervisor viesse lhe cobrar uma postura “mais profissional”. Engoliu o café e enfiou-se dentro de algo que julgou apropriado, ao menos com as roupas ele não implicava mais. Saiu correndo, voaria se pudesse, ruma à delegacia em que trabalhava como investigadora.
Chegando ao estacionamento do local avistou Gustavo, o supervisor, parado de braços cruzados à porta de entrada, pés batendo em descompasso que denunciavam uma visível irritação. “Merda”, a sessão de lamentações seria iniciada mais cedo hoje.
Parou o carro na vaga mais próxima, respirou fundo, como se a rajada de ar preenchendo os pulmões viessem carregadas de fragmentos de coragem. Mas seguiu firme e de cabeça erguida em direção à entrada e, consequentemente, de Gustavo. Quando foi esboçar um cumprimento foi interrompida por uma saraivada de lamúrias, que por incrível que pareça, não tinham relação com o atraso. O caso era sobre um velho homem maltrapilho, de longa barba e cabelos brancos, igualmente compridos, que fora encontrado no centro da cidade, perdido e com sinais de confusão mental e amnésia, de linguajar, aspecto e vestimentas que pareciam ter saído de um livro do século XVIII.
Sem questionar, pegou os documentos que Gustavo lhe ofereceu, e enquanto o homem continuava falando sem parar, ela questionava-se o porquê ele estava tão inquieto. “Por que um idoso perdido era motivo para tanto alarde?”
— Espera! Deixa ver se eu entendi: você quer que eu interrogue de forma bem incisiva um senhor desaparecido, mas por quê? Por que você o está tratando como um terrorista?
— Desculpa, Fernanda. Eu não te contei a pior parte: ele não estava somente “perdido”, mas carregava uma cabeça de adulto, ainda “fresca”, debaixo do braço... Por isso fomos chamados. Preciso de você para descobrir quem ele é e de onde ele veio... Porque eu sei muito bem para onde ele vai!!!
— Uma cabeça... Como assim...
— Entra lá e arranque essa informação dele. Porque se eu for lá novamente... não sei do que sou capaz!
O balanço, aquele incômodo, novamente surgia, mas agora era o responsável por a conduzir até a sala, que naquele dia parecia preenchida por uma turva força. Iniciou o interrogatório, o olhar do homem era um vazio vítreo na maior parte do tempo, mas em certos momentos poderia afirmar que a encarava como se pudesse ver o que trazia dentro de si.
Foram duas horas tentando obter as informações necessárias para continuarem os processos contra aquele homem, mas o idoso sempre conseguia sair pela tangente, como se adivinhasse a próxima pergunta e armasse as defesas como um habilidoso enxadrista.
Fernanda não sabia mais como abordá-lo e sentia suas forças se esgotarem. Em todos aqueles anos de trabalhos tivera milhares de interrogatórios, até mais longos e tensos, mas que não tiveram um peso tão grande sobre seus ombros. Agora entendia o comportamento de Gustavo, algo naquele senhor estava muito errado, — além do fato de estar perambulando pela cidade com uma cabeça humana —, algo inominável e ainda mais intrigante.
Quando pensou em desistir e sair da sala, o homem começou a proferir palavras ritmadas, como um cântico sombrio que a hipnotizou:
Tudo balança, tudo range,
no ventre do mar sem margem.
Azul-petróleo, verde em pranto,
sufoca o céu em seu manto.
Promessa de terra à distância,
miragem feita de esperança.
Mas o casco gira, trai,
e o corpo, ao fundo, cai.
Braços gritam, nada escuta,
a água abraça e transborda a luta.
Silêncio espesso, fim sem chão —
o mar consola como prisão.
Afunda o fôlego, apaga a luz,
e o azul, agora, tudo conduz.
No fundo, onde o tempo é vão,
bate um coração…
e depois, não.
Permaneceu inerte. O som daqueles versos sibilantes causara um pavor similar aos pesadelos recorrentes. Era o mesmo clima soturno, desespero irrefreável e estado incompreensível. O homem já não tinha o olhar vazio, mas aqueles glóbulos pareciam agora preenchidos de uma insinuação astuta. Ele sabia, sim ele sabia dos pesadelos e por isso deliciava-se com a reação da moça.
— Reconheço bem esse olhar... Nos primeiros tempos, o medo é o único camarada. Chamo-me Allant Elirrahz, e outrora julgava-me sabedor de todos os segredos que as entranhas do grande oceano ocultavam. Mas então surgiu ela... uma ilha, formosa como o canto das sereias, que se revelou ser mais do que simples terra firme sobre as ondas...
O tempo dissolveu-se em minúsculos pixels, tudo tornado pó tingido de azul índigo — a mesma cor das criaturas emergidas dos orifícios daquele homem. Tentáculos sinuosos rasgaram o ar, avançando em todas as direções com uma precisão austera e inevitável.
Não houve luta. Não houve salvação.
Um a um todos os presentes foram tragados, arrancados de sua realidade e lançados em outras dimensões fragmentadas — cada qual aprisionado em uma era, um planeta, um tempo diferente, sob o domínio absoluto daquele ser.
Ainda não sabiam, mas o mundo havia sido engolido.
Ficariam submersos para sempre nas águas daquela entidade — onde o tempo não passa. Apenas escorre, afoga. Balança.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Sibilino
O relato impressionante do inestimável amigo Capitão João ressoou no seu subconsciente como uma ancestral canção arcana, esquecida…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O relato impressionante do inestimável amigo Capitão João ressoou no seu subconsciente como uma ancestral canção arcana, esquecida em eras estranhas. O velocímetro marcava 70 km/h — o que era consideravelmente rápido, dadas as condições da pista —; apesar das mãos trêmulas, segurou com firmeza no volante, pois esse trecho possuía muitas curvas sinuosas. Pelo retrovisor, viu a casa do amigo sumindo lentamente; prometeu a si mesmo voltar mais vezes. Observou também a união mística de céu e mar, fazendo desaparecer a linha do horizonte, causando uma inexplicável sensação de medo. Tivera a impressão de que o céu, repleto de estrelas resplandecentes, estava mais próximo da terra. Pensar nesta ideia lhe apavorou.
Tomé mergulhou cada vez mais em seus pensamentos, enquanto a minguante e turgida lua iluminava seu caminho. Finalmente, a descida chegou ao fim. Era meia-noite, de acordo com os ponteiros. Ansiava estar em casa; porém, ainda havia alguns quilômetros, e uma longa estrada reta se estendia até o horizonte.
Enquanto dirigia, notou o despencar da temperatura, presenciando a cortante brisa gélida tocar-lhe o rosto terrivelmente. Notou mais algumas peculiaridades, como o ar que havia se tornado mais viscoso e, mesmo distante da praia, — o cheiro ainda permanecia ali, a assombrá-lo. Os ventos também trouxeram uma suave bruma, que surgiu tal qual uma aparição fantasmagórica, flutuando pela escuridão.
Com o vento soprando, Tomé assistiu, com olhos vestidos de horror, à bruma ganhar estranhos contornos. Os faróis amarelados deixavam tudo etéreo. Lembrou da nefasta imagem da ponte descomunal, assim como esta estrada.
Escutou nitidamente a melancólica voz de João, seu amigo, recitando Shakespeare, ecoando em sua mente. Esta lembrança o fez virar bruscamente, pois era como se alguém estivesse no banco de trás, sussurrando a citação — mas encontrou o vazio.
Seu peito batia em desassossego. Observou o céu novamente: as estrelas pareciam se aproximar ainda mais. Uma terrível sensação de estar sendo observado tomou conta dele. “Preciso manter a calma”, pensou. Novamente olhou para o retrovisor — a escuridão parecia devorar o que ficou para trás.
Precisava parar. Puxou devagar o freio. O carro derrapou em meio à neblina; o som dos pneus ressoou naquele lugar. Respirou fundo. Passou a mão na testa que gotejava medo. Saiu do carro, respirou fundo outra vez. Viu algo inexplicável — a impressão que tivera se concretizou. Aquela visão era inconcebível. Ficou na frente dos faróis e, em seguida, caiu de joelhos, as mãos na cabeça. Em sua frente: a imensidão.
Não havia nada que Tomé pudesse fazer, a não ser contemplar o irreal. Desejou ter uma câmera fotográfica para registrar aquele medonho espetáculo. Nenhum ser humano deveria presenciar aquilo. As brumas se tornaram mais densas, adquirindo formas grotescas; elas bailavam terrivelmente, alcançando alturas inimagináveis.
Passou a ouvir sons demasiadamente longínquos, porém não demorou muito até que se aproximassem com rapidez. Trêmulo, ouviu o que pareciam ser incontáveis vozes de diferentes tons, mas unidas. Eram semelhantes a um tenebroso trovão rasgando a imensidão do firmamento.
Tomé se perguntava se aquilo era fruto de um delírio causado pelas histórias impressionantes do amigo. Mas aquela visão era tão verossímil quanto o vento gélido e pútrido tocando seu rosto. Sua mente ínfima não iria suportar aquela visão. Seu corpo estava prestes a entrar em colapso, quando vislumbrou nuvens se aglomerando, formando imagens colossais, incompreensíveis. Gritos emanavam de suas entranhas.
Seu corpo não aguentou. Antes de entrar em colapso, viu dois olhos titânicos, flamejantes, clareando o céu — a mesma visão que seu amigo e exímio Capitão João tivera.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 2: Bon Vivant
— Nunca me imaginei sujando as minhas mãos com o sangue de ninguém. Mas desta vez, eu não podia permitir…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
— Nunca me imaginei sujando as minhas mãos com o sangue de ninguém. Mas desta vez, eu não podia permitir a continuidade do descaso, e também a minha ausência neste evento que, eu já sabia, entraria para a história da minha tão ferida e amada França.
Valentine tentou se erguer, mas a dor era lancinante. Recaiu sobre a relva úmida, os olhos fixos no céu que escurecia lentamente. Sua mente vagava pela vida que tinha deixado para trás.
— Não nego, contudo, que havia em mim também o Bon Vivant. Oh, quantas noites se esvaíram entre os risos fáceis dos companheiros de copo, o calor do vinho generoso e a busca incessante pela beleza fugaz, fosse ela nos salões iluminados ou nas alcovas discretas? Havia um prazer quase estrutural em tentar decifrar a alma feminina, em perseguir a linha perfeita de um ombro desnudo, a curva enigmática de um sorriso. A vida simples me atraía, sim, mas os círculos elegantes exerciam sobre mim seu fascínio perene.
— Fazia pouco tempo o meu despertar pela política. Sabia que, eu não podia continuar a me enganar com a minha medíocre vida. Ir à luta era mais que necessário. E tudo isto não era somente por um pão a mais.
Sua última lembrança era de Robespierre discursando. O homem do Artois, com suas palavras inflamadas, fora a fagulha final que o levara às barricadas. Valentine riu amargamente. O que Robespierre diria agora, vendo-o sangrando sozinho em uma floresta, enquanto a revolução seguia seu curso sem ele?
— A França gemia. O Terceiro Estado, nossa pretensa voz, era um joguete nas mãos dos poderosos, marginalizado e silenciado. A aventura na guerra americana, um sonho de liberdade alheia, deixara nossos cofres exauridos. As colheitas minguavam sob um céu inclementes. A miséria, como uma lepra, alastrava-se pelas ruas outrora orgulhosas.
A escuridão começava a tomar conta não apenas do céu, mas também de sua visão. Valentine sabia que seus momentos estavam contados. Que ironia, pensou, morrer em anonimato quando sonhara construir monumentos que durariam séculos com seu nome gravado na pedra.
— Foi por falta de uma justa representatividade política; pela vergonhosa dilapidação dos cofres públicos, devido à participação da nossa nação na Guerra de Independência dos Estados Unidos — fornecendo homens e suprimentos, somadas às péssimas colheitas ocorridas naqueles últimos anos, que suportar aquela situação não era mais possível.
A situação tornara-se insustentável. E então, marchamos. Homens, e mulheres também – ah, a visão daquelas cidadãs, uma determinação indômita no olhar, marchando lado a lado conosco, foi das mais belas e terríveis que meus olhos contemplaram —, todos irmanados por uma causa que nos parecia maior que a própria vida. A tarde do dia 14... foi gloriosa, não há dúvida, um daqueles instantes raros em que a história parece curvar-se ante a vontade de um povo unido.
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
21. A minha vida só me dá desgosto; por isso, darei vazão à minha queixa e me expressarei com a alma amargurada
A caneta falha, como se a tinta temesse escrever ou sou eu que temo?
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data incerta - A caneta falha, como se a tinta temesse escrever ou sou eu que temo? Mas preciso registrar tudo como venho fazendo desde o início, e se eu não escrever, talvez Mara tenha razão e tudo que passei tenha sido apenas um delírio causado pela bebida, mas eu sei o que vi e eu sei quem estava lá. Corremos de volta à clareira e nossos passos fazendo barulho nas folhas secas, Mara segurando meu pulso com força como se temesse que fossemos separadas de novo. Parte de mim queria voltar à clareira, a bebida ainda queimava na minha garganta com um sabor de nostalgia, um sabor de lembranças que nunca tive, mas de alguma forma desejei. Chegamos à clareira e não havia nada, nenhum vestígio das figuras encapuzadas, nenhum vestígio do banquete, nem mesmo o aroma, apenas o nada, como se ali não tivesse acontecido a poucos minutos uma celebração, apenas o vazio envolto em árvores. Mara ficou em silêncio, mesmo sem saber como, eu sentia sua decepção, sua frustração bem palpável, como um peso em meu peito. Tentei explicar a ela que realmente senti que Drácula estava lá.
— Mara, ele estava aqui por trás de uma daquelas máscaras, ou talvez atrás de todas. Eu senti ele me observar por trás dos olhos da criatura que me levou à mesa. Não posso provar, mas aqui tinha o cheiro dele, a presença, a risada, tudo estava aqui — eu disse tentando conter uma certa emoção na minha voz.
— Eu acredito em você. — ela murmurou. — devemos continuar.
— Continuar para onde? — eu falei muito irritada — não vê ele brincando conosco? Que ele brinca com aquilo que nós mais desejamos, isso, toda essa maldita celebração foi só uma encenação profana de Dracula da crença que Hadassa tinha, da crença que ela achou que poderia salvá-la, a mesma que a enlouqueceu, que a podou e depois tirou dela a vontade de viver. Pra no fim ela me amar como uma amiga, pois qualquer coisa além disso faria com que ela não fosse salva, e como uma boa amiga fui até o fim com ela. — eu tentava em vão segurar a fúria dentro de mim, então meu tom de voz aumentou — Ela não queria ter que amar a Deus mais do que a mim, mas ela amou, mas nem eu, nem Deus conseguimos salvá-la e Drácula, joga no meu rosto de maneira teatral que, talvez, só ele pode salvá-la. Eu não sei se quero continuar a seguir as orientações dele, é tudo confuso, é tudo sem clareza, é errado. — respirei fundo para conter minha fúria e disse com mais calma — Você acha mesmo que vale a pena continuar?
— Você quer Hadassa de volta, eu quero voltar a ser eu mesma e me livrar desse vínculo com você, então, sim, vale a pena. — ela disse com calma ignorando meu acesso de fúria.
Ficamos em silêncio e seguimos da floresta até uma abertura entre alguns pinheiros, a terra pareceu se curvar e diante de nós havia um mar escuro e, além dele, o castelo Drácula. Chamá-lo de castelo Drácula agora me parece um pouco infantil, acredito não existir um nome apropriado para o que vimos no horizonte, ele estava imenso, como se tivesse sido esculpido em uma montanha descomunal, havia pinheiros escuros em suas muralhas e muito musgo rastejando pelas pedras. Uma névoa fina deslizava por suas torres altas e finas como se fossem espetar aquele céu escuro. E o céu como um espelho que refletia aquele mar escuro que não se movia como deveria, suas ondas não seguiam a brisa, pareciam que respiravam. Eu ainda respirava com dificuldade, mas a realidade respirava muito bem ao nosso redor. E ali naquela praia que não fazia nenhum sentido, me dei conta que não conseguia ignorar o impulso de seguir para o castelo. Não sei o que me causa mais horror, saber disso ou ter o desejo de voltar à clareira. Desejo, sim, o desejo, palavra que agora mais me assusta. Não às criaturas, o castelo, mas sim o desejo de pertencer. Aquele vinho, a celebração, a heresia, tudo apenas promessas que ainda não foram feitas me atraem, seja como for, amanhã retornaremos ao castelo, se ele nos permitir entrar novamente.
Data incerta - Hoje, mas que nunca entendo como é andar em direção ao nada. Ao amanhecer, ou que se parecia com o amanhecer nesse lugar onde a noite parece apenas ficar mais clara, como um fim de tarde. Mara e eu deixamos nosso acampamento improvisado na areia fria, eu me sentia entorpecida, todo meu corpo protestava contra se levantar, como se soubesse de todos os perigos que estavam me esperando. O castelo ainda estava lá gigante e imponente, mas ainda distante, talvez até mais que antes, e quanto mais andávamos, mais ele se afastava, como se o solo se movesse sob nossos pés nos afastando do castelo. Foi então que vimos um veleiro escuro, preso a pedras cobertas de sal e líquen, e junto dele um homem que desenhava com carvão sobre um mapa estendido num grande caixote, as linhas tremiam quando a brisa do oceano passava, mas isso não parecia incomodar ele que continuava concentrado no mapa. Seus olhos, ou o único que parecia enxergar, seguia os riscos com precisão. Tinha uma barba grande e grisalha, cabelos à altura do ombro, branco como a espuma no mar; os olhos eram um de vidro em um azul claríssimo, e o outro de um azul quase humano. Seu nome era Allant, foi assim que ele se apresentou quando fomos até ele. E sua voz soou bem velha e profunda. Mara pediu a ele que nos levasse ao castelo, Allant nos encarou, e depois encarou Mara, por mais tempo. Seu rosto perdeu aquela calma despreocupa, e se enrijeceu.
— Você é um deles, não é? — perguntou com uma voz profunda e lenta.
Mara pareceu não entender e muito menos eu.
— Ah, não importa, nesse mar já vi tantas coisas indescritíveis que já nem me surpreendo mais. — Ele murmurou ignorando uma resposta e entrando no veleiro como quem escolhe não saber. Aceitou o pedido, dizendo que podia nos levar até onde o mar permitisse.
— O oceano é uma entidade. — Disse isso como se confidenciasse um segredo. — Há lugares que se erguem e afundam à vontade dessa entidade.
Subimos no veleiro, as velas esfarrapadas erguidas com um vento que eu não sabia de que direção vinha, o casco rangeu e assim a embarcação avançou. E o Castelo ainda não se aproximava.
— Vamos deixar que o mar nos oriente. — Mara disse olhando para mim e depois em direção ao castelo que insistia em se afastar.
E eu aceitando assim a sua lógica de que nunca é o caminho que escolhemos, mas o que nos é revelado. Sentada ao lado dela senti algo estalando dentro de mim, como vidro que começa aos poucos se partir. Não era medo ou ansiedade, talvez a minha falta de fé, como se meu ceticismo fosse uma redoma de vidro dentro de mim que me protegesse de qualquer ilusão, um ceticismo vitrificado, endurecido que agora contempla o abismo e se entrega aos poucos ao passo seguinte, sem tentar se questionar, porque talvez esse seja o único caminho que resta. O veleiro deslizou por aquelas águas desconhecidas, aquele céu como um manto escuro e um mar que respira, estávamos apenas sendo levados. Num certo momento, Mara se sentou à proa e tentou enxergar um caminho, como se tentasse decifrar tudo à nossa volta e o espaço entre nós e o castelo, mas o castelo havia sumido, parecia que o mar o havia engolido, agora só se viam estrelas que não deveriam estar ali. Eram estrelas demais, próximas demais e erradas demais, algumas se moviam lentamente e outras pareciam nos vigiar. Allant nos disse que às vezes o céu não é o céu, às vezes é uma coisa que nos olha de cima. Eu apenas respiro, olho para ele e concordo com a cabeça. Ele disse isso com um sorriso e um olhar fascinados, como quem perdeu o medo de tudo e agora vê tudo com sincera admiração.
Passamos por uma ilha, que como Allant afirmou, não existir antes, era branca como marfim, cobertas de árvores curvas também brancas que pareciam ossos, Allant não tocou o leme, o mar nos levou até lá e logo depois nos desviou. Allant apenas anotou com cuidado um novo risco no mapa e a ilha brilhou em seu pergaminho como uma cicatriz.
— Ilha do útero putrefato — ele murmurou — tem cheiro de coisas que só o abismo poderia parir.
Mara olhou para mim e, por um instante, juro que vi reconhecimento em seus olhos, mas não quis questioná-la, não agora. A noite chegou, ou mais noite do que já estava antes, pois a escuridão se confunde com tudo, Allant nos contou uma pequena história sobre uma criatura que vive sob as águas, Lwccirtt, ele soletrou para mim. Ele disse que às vezes, os mastros vibram não por causa do vento, mas porque a criatura passa por baixo. É uma criatura disforme que pode ser confundida com o oceano ou mesmo um céu escuro estrelado. Ele disse que uma vez viu uma luz fascinante, bela demais para ser real, sentiu uma sensação de perigo e seus ossos gelarem. Não vou mentir dizendo que não fiquei impressionada, mas estando no meio daquele oceano, indo sabe lá onde, eu fiquei com medo. E então, quando cada um foi para o seu canto se distrair enquanto o mar nos levava, eu vi a luz, e com ela o som que me fez lembrar do sangue correndo em meu corpo, um som fundo que por um momento me arrancou a lembrança do meu nome completo, por pouco não me arrancando da minha existência, e guardei isso para mim, pois percebi que Mara e Allant não viram ou ouviram nada. E agora me pego escrevendo aqui, nesta página apenas para me certificar que ainda sei quem eu sou. Rute Fasano, Rute Fasano, Rute Fasano. Como ele me soa pequeno, efêmero, um nada. Eu sei mesmo quem eu sou? Cada dia mais fica difícil responder essa pergunta.
Estávamos sendo levadas para onde o mar nos quer, não sabia se o castelo era o destino, nem sabia se queria ainda chegar até ele, só sei que o mar nos conduziu, eu tentava ignorar a luz e a voz que vinha com ela. E aos poucos um vento foi chegando, primeiro como um sussurro frio e úmido, para depois se tornar um rugido violento e gelado, batendo nas velas, fustigando os cabelos, vibrando os mastros. O mar se erguia furioso, mas não parecia o mar, era como um céu invertido, o barco tremia, nós nos segurávamos com força, tanta força que meus dedos doíam. Eu vi algo bem longe, radiante, andando sobre as águas, uma figura. Primeiro Drácula de braços abertos me esperando, o olhar e o sorriso cheio de promessas. Pisquei, era Hadassa viva intacta, com seus longos cabelos molhados colado ao rosto e o sorriso da sua época mais apaixonada pela vida. Pisquei outra vez e a forma se desfez se tornando outra coisa, feita de mar, de ossos, de céu e estrelas, horrenda demais para ser nomeada e bela demais para ser esquecida. E ela falava dentro de mim: “Venha.” A palavra não era som, era sensação, era gosto, era cheiro. Eu a sentia atrás dos meus olhos, na minha língua, em minhas narinas. “Se houver fé em ti, andarás sobre as águas e virás até mim.” ela falava. Não havia fé em mim, ou havia? Então eu pulei do veleiro, não me lembro do som do salto, nem da tempestade, só o silêncio e a sensação de acolhimento e sob meus pés a água endureceu e eu andava sobre as águas.
Tudo girava lentamente e as estrelas no céu, que era a coisa à minha frente, me chamavam por nomes que nunca ouvi e eu andava em direção dela sem ao menos saber o motivo, mas eu andava. O sal queimava meu rosto, minhas roupas colavam em meu corpo e cada passo meu era leve e eu apenas ia. Até que vozes reais me despertaram, “RUTE!” a voz de Mara, “MOÇA, PARE!” era Allant. Seus gritos como pregos nos meus ouvidos, me despertando do transe. Partindo a minha fé? Então afundei, sem luta, sem pânico. Senti a água entrar pelas minhas narinas, invadir minha garganta, encher meus pulmões, que queimavam como se eu estivesse inalando meu primeiro sopro do mundo e ainda assim era acolhedor. Meus braços boiavam sem direção, meus cabelos dançavam, tudo girava, meu corpo girava, eu não sabia identificar o que era o céu ou o fundo do mar, tudo estava em desordem, mas não havia medo dentro de mim, apenas alívio. Como se todo esforço, toda essa dor, toda essa busca sem sentido, fosse tudo um engano.
A vida veio da água, e na água tudo termina, eu sorria com esse pensamento, porque talvez, finalmente, eu tenha encontrado um lugar onde eu caiba. Tudo escureceu, tudo silenciou e o mar me acolheu. Porém o mundo foi voltando aos poucos em partes, primeiro a dor nas costelas, o sal na garganta e o ardor nos pulmões. E por fim alguém chamando meu nome, não um grito, mas uma voz firme cheia de fúria contida. Abri meus olhos, o céu escuro, nuvens preguiçosas, eu estava deitada sobre pedras úmidas que me gelava até os ossos, minha boca aberta, meus olhos pesados. Mara estava curvada sobre mim, e por um momento vi Hadassa em seu rosto e depois não a vi mais. Via a pele translúcida bela como uma estátua feita de luar, sua existência trêmula e seus olhos profundos como o mar que me engoliu. Ainda não sei se naquele momento ela me olhava como quem me protege ou como quem protege a própria vida, mas ali estávamos dividindo algo, que não sei se era um afeto ou luto antecipado. Ela me puxou para seu colo e eu chorei como alguém que sentiu bem perto um alívio imenso demais para se explicar. Chorei por ter sido arrancada de um descanso que me parecia divino.
— Você voltou — murmurou Allant que estava de pé ao lado de Mara parecendo aliviado. — Por pouco o mar não a tomou de vez — sua voz rouca e lenta — já vi muitos irem e não voltarem e poucos que voltaram já não eram os mesmos. Fico feliz que esteja bem. Agora que tudo está bem preciso deixá-las, o mar me chama de novo. Há muitas ilhas ainda para serem catalogadas.
Então sem se demorar ou sem se explicar demais, Allant subiu no veleiro, sem esperar despedidas e acenou uma última vez.
— Não se afogue de novo, moça, na próxima vez o mar pode não a deixar viva. — o veleiro partiu e aos poucos foi desaparecendo ao longe.
Mara não disse nada, pois entendo que ela só queria me salvar para se salvar. A água ainda escorria dos meus lábios e dos meus olhos mais nada. Quando me levantei, tremendo, vi que estávamos em terra firme, numa ilha rochosa, antiga e de aparência seca, árvores ressecadas com troncos retorcidos e o castelo Drácula, ainda desaparecido.
E agora estamos aqui, eu viva e ela calada esperando orientações. Talvez tenha sido um erro eu ter sido trazida à superfície, pois tudo que irei fazer a partir de agora é inaceitável, já que há algo que tenho tentado omitir, eu estou mudando e não é de uma forma positiva, já não consigo controlar meus pensamentos ou vontades que num momento comum eu facilmente controlaria. Eu pensaria muito antes de iniciar qualquer coisa fora da minha realidade, e o castelo é algo fora da minha realidade, ou era, já que agora não sinto parte de nenhuma realidade além da do castelo.
Enquanto escrevo isso fico me perguntando o que Hadassa dirá quando eu a trouxer de volta, será que ela ficará feliz em viver comigo nessa realidade ou vai me odiar por tirar dela a paz da morte? Ela irá me amar quando enxergar em meus olhos o mal, pois é isso que eu sinto, o mal em cada passo que dou em direção ao caminho de trazê-la, mas, mesmo assim não consigo desistir da ideia. Não culpo o castelo, pois já pude perceber que o castelo só deixa latente aquilo que já sentimos, só nos tenta com aquilo que realmente desejamos, então não o culpo, nem a Drácula, culpo a mim mesma por não resistir à tentação. Estou cansada de continuar, mas essa vontade me impulsiona, mesmo contra a minha vontade. E já que eu não posso me impedir, o que me resta é continuar e reclamar.
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite Gomes
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Observadores
Desperto sobre um chão asséptico, duramente frio, cheirando a desinfectante recém-passado. Sento-me devagar, estou desorientado…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Desperto sobre um chão asséptico, duramente frio, cheirando a desinfectante recém-passado. Sento-me devagar, estou desorientado. Fico imóvel por algum tempo, tentando centrar a minha visão. Tudo treme e vibra.
O que aconteceu comigo? Depois que minha visão centrou, observo minhas roupas. Estou sentado, com as pernas estendidas. As costas estão apoiadas no canto de um espaço pequeno e quadrado. O chão é de um metal polido e cinza, muito brilhante, eu vejo o meu reflexo distorcido nele, de tão brilhante.
Eu visto roupas comuns: calça jeans, sapatênis e uma camisa polo vermelha. Não me recordo de onde estava. O que fazia com essas roupas? Onde? Nada vem à minha mente. Um grande vazio, absoluto! Preenchido apenas por perguntas: será que fui sequestrado, será que morri?
Ouço alguma coisa? Sim! É um barulho muito distante! Sons abafados. Tento identificar de onde eles vêm, cruzo a sala, então a noto. Uma única vela acesa. Ela está exatamente no centro da sala e sua chama... ela parece estar atrelada de alguma forma a mim, ao que eu faço, ao que eu penso... não posso provar, mas sinto isso.
Quero sair daqui, não me sinto bem nesse lugar. Meus olhos percorrem as quatro paredes. Ao terminar, se desconcertam. Cresce o desespero que meus olhos foram capazes de gerar. Não havia uma janela sequer. Nenhuma forma sequer de abri-la. Sim, a única porta da sala era um tipo de elevador, porém não tinha como abri-la… Eu não conseguiria, não havia como forçar os dois lados a se abrirem, não havia botões para serem apertados e comandá-la. Então ela permaneceu totalmente fechada e impassível.
Não sei quanto tempo fiquei acordado, mas me sinto desgastado, minha visão pesa. Mas certamente eu dormi, pois estou acordando agora. Minhas retinas registram as mesmas paredes frias e metálicas. Elas, o meu reflexo.
Meus olhos registraram, meu cérebro notou. A chama da vela está ligeiramente diferente. O fogo que antes aquecia o lugar, com reflexos laranjas e quentes, agora trepida e hesita, com chamas azuis crepitantes. No entanto, o reflexo dela parece que guardou o reflexo de quando eu chegara: amarelado, os tons alaranjados estavam apenas nos reflexos. Deveriam refletir a cor azul, mas pareciam testemunhas renitentes do passado.
Num átimo, a chama da vela apagou-se e acendeu novamente. Agora a cor da chama que as paredes refletiam era idêntica à da chama: um azul intenso e profundo. Sentia que dentro daquela chama havia um universo que me atraía.
Apesar de assustar-me com o reflexo da chama destoante nas paredes, insisto em fazer o meu olhar vagar por elas, em busca de uma saída daquele lugar, cada vez menor na minha percepção. Dou um pulo para trás: ali, nas paredes onde uma luz laranja bruxuleava... ali, agora há um detalhe a mais — marcas de riscos nas paredes fazem meu estômago revirar. Um dos espelhos estava rachado, de fora a fora, na diagonal.
Continuando a vagar pelo que o estranho espelho reflete, chego até ele. Minha própria imagem encara os meus olhos friamente. Do lado de lá, é a imagem refletida quem conduz a ação. Apenas um reflexo de mim, sim. Mas por que meus olhos parecem ser um engodo? Sinto medo, por ela ser deformada e diferente, devido à rachadura que apareceu agora. A única verdade que seus olhos ameaçam entregar é a de que quer me fazer mal.
Será que aquela imagem sou eu? E, na verdade, eu é que estou confuso? Será que as paredes limpas, lisas e espelhadas do elevador em que me encontro apenas estão refletindo a realidade: uma vela com chama laranja em seu centro; e eu é que estou a imaginar que a chama é azul, que algo riscou e rachou as paredes? Por que as minhas mãos estão arranhadas?
Sinto um cansaço pesar, minhas pálpebras fazem força para se fechar. Eu luto para me manter acordado. A tarefa é difícil, cansativa, árdua, eu diria que se tornou hercúlea. Como se o meu próprio corpo não fosse meu. Estranho. Eu tento controlar as minhas expressões faciais, mas o olhar hostil do meu reflexo se recusava a mudar, resoluto.
Acho que dormi nessa cansativa luta de fazer o reflexo do espelho mudar. Por mais que sentisse os músculos do meu rosto se mexerem, o rosto no reflexo estava imóvel e com uma expressão ambígua, ameaçadora. Se o reflexo era eu, por que me olhava com raiva? Se não era eu, por que era igual a mim?
Acho que agora desperto pela terceira vez nesta sala. Sinto frio. O chão me parece mais frio ou foi a minha temperatura que cedeu? O cúbico do elevador, já não o percebo tão pequeno, ele parece um pouco maior. A vela? Ah, sim, ela está bem menor, derreteu… Agora, está bem mais escuro do que antes.
Eu próprio me sinto menor. Como se os meus músculos, tal qual a cera daquela vela, tivessem diminuído, tivessem derretido. E parte de minha essência tivesse se dispersado pelo chão, como se eu fosse uma vela de chama azul, igual àquela: triste e pequena; obedecendo a um desígnio além do que ela pode controlar, certa de que ela será, indubitavelmente, não mais uma vela, mas uma mera poça de cera derretida.
— Estamos quase completos! — uma voz inumana diz, mas entendo claramente o que foi dito. As palavras claras, como água cristalina em meus ouvidos, vindas do outro lado da parede.
Agora percebo que estou junto à vela, no centro da sala. Eu sou uma criatura dada em sacrifício, a chama azul da vela me disse isso, em meio às imagens projetadas em sua pequenina chama que eu observo deitado. Algo está sendo vaticinado. Meu sangue está sujando o chão, percebo que não só o meu nariz está sangrando, mas todo o meu corpo está se moldando a algo que não conheço, mas já não estranho.
Mas ela também me mostrou memórias de outras vidas. Outros Jeremias. Um era pai, e abraçava suas filhas no quintal. Outro era policial e dera um tiro na testa de alguém — que horror! Havia outro que era branco, e não negro como eu. Tinha uma criatura estranha, que eu também sabia que era eu — ela passava por ruas, como as nossas.
Agora desperto pela quarta vez. Flutuamos, eu e a vela, pelo espaço oco. Vejo escamas finas da minha pele se soltarem. Sinto-as desprenderem das mãos, das pernas, das costas encurvadas. Elas vão flutuando pela escuridão, formando uma galáxia, um redemoinho bizarro de peles mortas vagando pela escuridão, iluminadas apenas por uma chama fraca.
Desespero-me ao perceber que estou me desfazendo aos poucos. Sou como um embrião que desfaz sua casca, sumindo a cada porção perdida no espaço. Não é um processo que pode ser parado. Acho que não. Talvez eu seja só a casca de algo que amadureceu.
Agora desperto. Vejo a porta se abrir pela primeira vez. A vela está no teto, assim como eu sinto que estou. Não tenho voz, não tenho corpo. Quem eu era, não recordo. Mas isso não importa mais.
Junto-me aos meus companheiros lá fora… lá fora, no espaço-tempo, eu vejo: somos muitas criaturas. Temos garras e escamas brancas, e olhos grandes e esbugalhados. Nos chamam de observadores…
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 1: Sangue e Bastilha
Um corpo estirado à beira do lago, arranhões e sangue lhe cobrem o rosto, pólvora e lama tingem as suas vestes…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
I
Um corpo estirado à beira do lago, arranhões e sangue lhe cobrem o rosto, pólvora e lama tingem as suas vestes. Eis Valentine Lencastre, arquiteto, vinte e oito anos, filho da burguesia francesa e, agora, desertor da revolução que ajudara a insuflar.
Suas mãos delicadas, talhadas para desenhar arcos e colunas, agora estavam manchadas pelo sangue dos soldados reais. Ele jamais pensara que seus projetos de grandeza culminariam neste momento – abandonado, ferido e à mercê da morte em uma floresta desconhecida.
Tudo que lhe restava era a memória. E a memória era cruel em sua precisão.
— Tudo que me recordo é que eu estava aos pés da Bastilha, no front com os companheiros da milícia burguesa que formamos no dia 13.
A névoa se dissipava de sua mente em fragmentos desordenados.
— Lembro-me bem que na noite anterior à nossa concentração, alguns rebeldes mais extremistas causaram vários amotinamentos e pelejas. Essa foi a nossa válvula de escape.
O sangue saía copiosamente de seu flanco, tingindo a relva de escarlate. Uma ferida de baioneta, talvez, ou o corte de um sabre. Não importava mais. Valentine sabia que estava morrendo longe das barricadas, longe da glória que poderia ter tido.
— Saí gravemente ferido da maior ofensiva contra os soldados do Rei, antes mesmo de ouvir o grito da vitória. Desertor?... Talvez eu fosse..., mas saí num momento em que senti a vitória nas mãos do povo.
Ele tinha sido um dos primeiros a empunhar armas quando o chamado veio. Não por pão ou vingança, mas por ideais. Valentine Lencastre, o arquiteto que sonhava reconstruir a França sobre alicerces de liberdade, igualdade e fraternidade. Um sonho juvenil agora maculado pela realidade da guerra.
— Estávamos ali tentando mudar a história do nosso país, e promover a nossa liberdade perante as injustiças praticadas pelo Clero e pelo Rei Luis XVI com toda a sua corja de inescrupulosos lordes infernais.
O sol começava a se pôr. Valentine sabia que as criaturas da noite viriam logo. Lobos, talvez, atraídos pelo cheiro de sangue. Ou simplesmente o frio da noite francesa, que mataria o que os soldados do rei não conseguiram terminar.
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Ardente
Era quase madrugada, e o alvoroço na casa da rua não cessava. Henrique pegou a arma que guardava no cofre e caminhou até a janela…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Era quase madrugada, e o alvoroço na casa da rua não cessava. Henrique pegou a arma que guardava no cofre e caminhou até a janela para investigar. Ele era um homem metódico, de olhar afiado, qualidades forjadas em anos de serviço militar exemplar. Nada lhe escapava — exceto, talvez, o preço que essa rigidez cobrava. Seu temperamento afastara todos que um dia cruzaram seu caminho, deixando-o sozinho, amargurado, corroído pela felicidade alheia.
A alegria dos vizinhos, tão tarde da noite, era algo intolerável. Aquela algazarra precisava acabar. Em um mês, ele perdera a conta de quantas vezes fora dormir com horas de atraso, mais do que podia contar nas mãos calejadas e enrugadas. Sentia nelas o peso da arma, sua fiel companheira dos tempos de glória. Agora, ela carregava tanto o fardo de sua existência quanto a honra que restava de seus dias como major. Jamais a abandonaria — era tudo o que lhe sobrava.
Pela janela imunda, a três casas de distância, avistou os malditos. Todas as noites era assim: eles se postavam na porta, estáticos, e, pontualmente às 23:45, a entrada se abria. Entravam, mas nunca saíam. No dia seguinte, outros apareciam para perturbar seu sono. Após inúmeras chamadas, a polícia finalmente apareceu — mas também não voltou. A viatura seguia lá, exposta ao sol e à chuva, há dias.
Naquela noite, a porta se abriu novamente. As figuras desapareceram no breu do interior, mas, dessa vez, ela permaneceu escancarada. Seria um convite? Com a arma nas mãos, sentia-se forte, jovem outra vez. Poderia ir até lá e pôr fim àquela festa. Refletiu por um instante, mas decidiu não se expor. Ainda tinha um nome e uma honra a zelar, por mais tentadora que fosse a ideia de silenciar os arruaceiros.
No domingo, acordou convicto de que teria paz. Era um dia em que as pessoas descansavam, ficavam em casa. Tudo correu bem até a noite, quando um estrondo vindo da frente o arrancou de um cochilo. Pegou o tablet que exibia as câmeras da casa e viu um adolescente parado perto do portão, encarando fixamente a direção da casa dos baderneiros.
Era o estopim. Não toleraria uma criança malcriada chutando sua propriedade. Abriu o cofre, apanhou a arma e correu à janela da entrada. Chegou a tempo de ver o garoto atravessar a rua e se juntar à multidão diária diante do imóvel. Todos, imóveis, fitavam a porta.
Ela se abriu mais uma vez. A escuridão do interior parecia engolir a da rua, como um buraco negro. O grupo entrou sem hesitar. Henrique já não sabia se queria punir ou salvar o menino, mas tinha certeza de que precisava tirá-lo dali. Preparou a arma, puxando o ferrolho, e avançou até o imóvel, cuja porta aberta o aguardava, mergulhada em um breu absoluto.
Diante do batente, encarou a escuridão. Mesmo a um braço de distância, nada conseguia enxergar. Uma fraqueza, que outros chamariam de medo, atravessou sua mente. Poderia estar entrando em uma armadilha, mas não recuaria. Resgataria o garoto e, se necessário, acabaria com os arruaceiros.
Ao cruzar o limiar, a escuridão o envolveu, roubando-lhe os sentidos. Caminhou às cegas pelo que pareceu uma eternidade, até que uma luz discreta surgiu no horizonte, atraindo-o como uma mariposa. Era uma árvore colossal, ardendo em chamas que lambiam galhos e folhas sem os consumir. Centenas de pessoas — talvez quinhentas — observavam, hipnotizadas, babando, tremendo, algumas à beira da inanição.
Empurrando a multidão, chegou ao pé da árvore. Lá estava uma mulher imponente, vestida com trajes religiosos chamuscados, segurando um tomo enorme do qual lia incessantemente. De repente, ele notou: seus olhos estavam cobertos por um pano sujo de sangue. Aquilo era uma seita, percebeu. E ele não tinha munição suficiente para enfrentá-la.
Algo se moveu entre os galhos. Um animal o encarava — semelhante a um macaco de pequeno porte, mas grotescamente deformado, com a pele derretida em uma massa disforme de músculos e tecidos. Mostrou os dentes afiados e correu pelos galhos, numa clara ameaça.
Horrorizado, Henrique ergueu a arma e disparou todo o pente, acertando o ser três vezes. O grito de agonia ecoou, e a resposta veio rápido. Um titã, oculto entre as chamas e as folhas, desceu da árvore para proteger sua cria. A criatura, semelhante a um gorila monstruoso e igualmente deformado como o filhote, aterrissou, esmagando os hipnotizados mais próximos. Sua bocarra soltou um rugido que estourou os tímpanos de todos ali.
Surdo e horrorizado, Henrique tentou atirar em vão. A entidade o agarrou como se fosse um brinquedo frágil, erguendo-o até sua face. Parecia avaliá-lo — seria comida ou algo mais? O fedor de sua respiração o sufocava, forçando-o a encarar as escolhas de uma vida rígida, vazia de afeto. O fim chegara, e ele sabia.
Com facilidade, o monstro escalou a árvore colossal, levando-o ao ninho. Henrique nunca mais foi visto. A casa, até hoje, segue atraindo pessoas, e a porta permanece aberta, esperando.
Luiz E. Marcondes
Luiz E. Marcondes é um escritor brasileiro de literatura de terror cósmico e psicológico. Desde jovem, sempre foi curioso sobre a mente humana. Formou-se em Psicologia Comportamental e Existencial e faz uso de sua formação profissional para agregar mais complexidade e valor aos textos que escreve. Apaixonado por uma variedade de gêneros literários... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A Verdade sobre o mundo: Nemonium
No limiar onde o tempo se parte, | e o azul-cinza sangra o real, | trovões sussurram em fendas abertas, | dançando na pele do imortal. | Ninguém escapa. Ninguém…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
No limiar onde o tempo se parte,
e o azul-cinza sangra o real,
trovões sussurram em fendas abertas,
dançando na pele do imortal.
Ninguém escapa. Ninguém se esconde.
O frio arrasta as eras perdidas,
neve e vento beijam ruínas,
e sombras nascem onde o tempo morre.
Esferas se chocam, mundos se dobram,
gritos dissolvem-se no denso véu.
Seres sem nome rasgam a trama,
e o Nada expande seu negro céu.
Monm observa. Olga esquece.
O castelo dança na eterna espiral.
Realocado, despedaçado,
flutua em névoa espectral.
Pois aqui jaz a verdade oculta,
a forma real do que é e sempre foi.
Além do véu das horas vazias,
onde a razão se desfaz e se dói.
E quando tudo enfim se aquieta,
quando o caos engole sua própria cor,
o limiar respira, silente,
pronto para outro torpor.
Ninguém escapa. Ninguém se esconde.
Nem a carne. Nem a alma. Nem o horror.
Tekeli-li, sussurram os ventos,
num idioma que só o abismo ouviu.
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…