O Espectro de Alonso

Sem Data — Já não sabia se era noite ou dia. As trevas da cela ocultavam até o tempo de minha mente. O ar da cela era denso, imóvel, como se…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Anton S. Miahi XXI
(Escrito em meu Caderno — póstumo) 

Sem Data — Já não sabia se era noite ou dia. As trevas da cela ocultavam até o tempo de minha mente. O ar da cela era denso, imóvel, como se aguardasse o próximo sopro de minha respiração. Um peso alojava-se em meu peito, esmagando-me como se mãos invisíveis ali repousassem, exigindo confissão. Fora o sonho, suponho. Mas qual sonho? Fragmentos de imagens difusas escapavam-me, deixando somente uma sensação de desassossego abissal. 

E então, uma voz. 

Familiar. Fria. Dolorosa. 

— Anton… 

Meus olhos varreram o breu da cela, encontrando apenas a familiaridade das paredes úmidas e da estreita fresta por onde a lua se recusava a penetrar. A cela, anexada ao laboratório de Arturo, não permitia acesso à parte externa. Mas a voz continuava, entrecortada pelo vento ausente, sussurrando aquilo que eu temia ouvir. O tempo se dobrou sobre si, e voltei àquela noite — a noite de sua morte. O sangue sobre as pedras, o olhar esmaecido, o último suspiro arrancado pelo inevitável. Ele havia perecido nos meus braços, Alonso. Eu não o havia abandonado. 

— Você me deixou… 

Meu peito apertou-se. Não! Ambos havíamos sido convocados para a Guerra Franco-prussiana. Havíamos marchado juntos. Eu o segurei quando caiu. Vi o brilho esvaecer de seus olhos enquanto o sangue encharcava o chão. Mas ali estava ele, sua forma translúcida oscilando diante de mim, angustiado, desesperado, tão surpreso quanto eu de vê-lo ali. 

— Alonso... isto não é possível. 

Ele cambaleou para trás, os olhos arregalados, tremendo. Sua voz era um sussurro trêmulo, quebrado pela incredulidade. 

— Mas então... eu estou morto? 

Meu braço esquerdo doía. A reconstrução metálica rangeu quando movi os dedos, os tubos transportando fluidos de éter sobrenatural pulsando sob a estrutura engenhosa de engrenagens. Arturo, o engenheiro de outro mundo e tempo, dera-me essa dádiva amaldiçoada. 

— Sim. Você morreu nos meus braços. 

Alonso fechou os olhos, os lábios trêmulos. Então, sua expressão se alterou, determinada, feroz. 

— Você tem que sair daqui, Anton. 

— A cela está trancada. Arturo selou a fechadura com Éter. 

Alonso hesitou, olhando ao redor. Pela primeira vez, parecia perceber o ambiente à sua volta. Do lado de fora da cela, o laboratório se estendia — frascos com líquidos brilhantes repousavam sobre prateleiras, grandes toneis de cobre estavam alinhados junto às paredes, enquanto canos de bronze percorriam o teto e o chão. Mesas de metal sustentavam equipamentos enigmáticos, papéis espalhados, registros incompreensíveis. Próxima dali, a mesa onde eu havia sido modificado cintilava sob a luz pálida de lâmpadas elétricas de um tempo que sequer deveria existir. 

Alonso atravessou a porta, saindo da cela. Estava do lado de fora, me olhando com hesitação. Virou-se para a fechadura. Quando sua mão tocou o metal selado com Éter, uma descarga de energia o atravessou, fazendo-o gritar em agonia. Ele recuou, respirando ofegante, seus dedos trêmulos e espectrais se contorcendo. 

— Alonso! — Meu instinto dominou minha razão. Avancei, esquecendo-me do óbvio. Minha mão estendeu-se em direção a ele, buscando segurá-lo, mas assim que o toquei, um choque me atravessou, violento, dilacerante. Cambaleei para trás, uma dor cortante percorrendo meu corpo. — Maldição! — soltei um gemido de dor. 

Alonso me fitou, os olhos arregalados, sua expressão um misto de horror e culpa. 

— Não! Você não pode me tocar! Eu... eu sou... — Sua voz fraquejou, e ele desviou o olhar. — Sou algo que não deveria estar aqui. 

— Eu não me importo! — Bradei, ainda sentindo o formigamento do choque percorrendo minha pele. — Você está sofrendo, Alonso! Eu não posso somente assistir! 

— Alonso... como você chegou aqui? 

Ele parou, as costas rígidas, como se a pergunta o atingisse como um golpe. Lentamente, virou-se para mim. Seu olhar estava perdido, como se buscasse memórias em um véu nebuloso. 

— Eu... eu não sei — sussurrou. — Eu me lembro do campo de batalha, do frio, da dor. Lembro do meu sangue escoando pelos meus dedos, do seu rosto, Anton... da sua voz me chamando. E depois... escuridão. Um vazio que me engoliu por inteiro. Eu não sonhei, não senti o tempo passar. Apenas... estava. 

Um calafrio percorreu minha espinha. 

— E então, de repente, você apareceu aqui? 

Ele hesitou, a expressão se contraindo em angústia. 

— Não... antes disso, eu ouvi algo. Uma voz. Não era sua. Era algo mais... algo que sussurrava dentro da minha mente, palavras que não compreendia. Foi como se eu fosse puxado para um turbilhão, forçado a atravessar um limiar invisível... e então eu estava aqui. E vi você. — Ele engoliu em seco. — Anton, eu não deveria estar aqui. Algo me trouxe.  

Minha respiração pesou. O que quer que tivesse violado as leis da natureza para arrastar Alonso de volta, não o fizera sem propósito.

— Eu já morri uma vez, irmão. Isto não pode ser pior do que aquilo. — Ele respirou fundo, trêmulo, e forçou um sorriso frágil.

 Antes que pudesse responder, Alonso se virou novamente para a fechadura, determinado.

Na segunda tentativa, uma nova onda de dor o atravessou, mas algo mais aconteceu. As luzes do laboratório piscaram e oscilaram, faíscas tremulando em suas lâmpadas alimentadas pelo Éter. O fluido nos tubos borbulhava, vibrando, como se o próprio laboratório reagisse à profanação de sua segurança. Alonso cerrou os dentes, seus olhos agora brilhando em desespero e determinação. Com um último esforço, sua mão se fundiu à fechadura, e esta começou a brilhar intensamente até derreter, pingando como cera fervente sobre o chão de pedra. 

A porta estava aberta. 

Alonso caiu de joelhos, arquejando, as mãos sobre o peito. Quando ergueu o olhar para mim, sua expressão era de súplica. 

— Anton... algo... algo está errado. Ajude-me— 

O ar do laboratório vibrou. Uma presença emergiu das sombras. A princípio, tinha quatro patas, movia-se como um lobo sem peso, mas logo ergueu-se sobre duas, seu corpo intangível oscilando como vapor. Sua face era um vazio sorridente. Moveu-se em direção a Alonso e, com um gesto lânguido, agarrou-o pelo colarinho. Alonso gritou, os olhos dilatados em pavor. 

A criatura virou-se para mim e sorriu. 

Então, sem som, sem violência, Alonso e a entidade se desfizeram em uma névoa suave, dissipando-se na escuridão. 

Eu estava livre. Mas a liberdade não era o fim, e sim o início. Caminhos se estendiam diante de mim, sombras ocultavam verdades ainda não reveladas. O laboratório, o Castelo e seus moradores guardavam segredos que precisavam ser desenterrados. Eu precisava ir ao fundo de tudo aquilo. 

Anton S. Miahi XXII 
(Escrito em meu Caderno — póstumo)  

Sem Data — Saí da minha cela após testemunhar o horror indescritível da captura de meu irmão—ou daquilo que um dia foi ele—por uma entidade saída das entranhas do inferno. Um espetáculo dantesco. O frio percorreu minha espinha como dedos cadavéricos. Mas não havia tempo para hesitar. 

Caminhei rápido, ignorando o tremor involuntário em minhas mãos, e fui direto à mesa com a maior pilha de livros e papéis, na parede oposta à minha prisão. Algo ali continha as respostas que eu precisava. A adrenalina pulsava, e meus olhos famintos devoravam cada página, cada anotação. A escrita meticulosa daquele maldito diário me causava um nó na garganta. Sentia um peso lodoso no estômago, uma angústia viscosa que me abraçava. Mas continuei. 

"21 de Janeiro de 1945 — Faz um pouco mais de um ano que já estou aqui neste castelo. O ambiente que o Conde me concedeu foi amplo e vazio à época. Agora que acomodei ferramentas, livros, tanques e outras coisas fundamentais, posso finalmente prosseguir. Isso me tomou uns quantos meses, mas agora tenho o que realmente preciso para perseguir minha ambição." 

Meus dedos crispados viraram a página com violência. 

"Os primeiros experimentos foram promissores. O Éter flui melhor do que o previsto, e a simbiose mecânica provou-se viável. O hospedeiro, no entanto, sempre perece antes de atingirmos um estado estável. Preciso de espécimes mais resistentes... e talvez menos... racionais." 

Minha respiração falhou. Uma gota de suor frio escorreu por minha têmpora. Continuei, ainda que cada palavra me perfurasse como um punhal. 

"Um deles, no entanto, surpreendeu-me. A morte não o reteve como os outros. Ele resistiu ao limiar. Movimentou-se. Falou. Confusão e medo tomaram seus olhos, mas algo permaneceu. Sua consciência? Sua alma? Não posso afirmar ainda, mas é um avanço. O Conde ficará satisfeito. Preciso testar mais." 

Meu sangue congelou. O ar ao meu redor pareceu rarefeito. Meus olhos corriam loucamente pelas próximas linhas quando outro papel caiu ao chão, escapando de meus dedos trêmulos. Agachei-me para pegá-lo e, ao fazê-lo, senti meu peito se comprimir. 

O texto rabiscado na folha era diferente. Escrito com pressa. Desespero. Um grito mudo preso em letras tortas: 

"O número 12 me assombra. Ele aparece diante de mim como se ainda possuísse vontade própria. Ele sabe. Ele me encara da escuridão e sussurra meu nome. Eu o criei... mas falhei. Ele não partiu... ele não pode partir." 

Mais abaixo, os traços estavam trêmulos, manchados de algo que parecia sangue seco: 

"Ele me disse que seu nome era Alonso." 

Meu corpo travou. O silêncio tornou-se um peso tangível, esmagador. 

Um segundo papel deslizou da mesa. Uma fotografia. 

Minhas mãos hesitaram antes de segurá-la. O choque me atingiu como uma lâmina em brasa. 

— Não... não pode ser... — Sussurrei, sentindo minha garganta se fechar. 

A imagem mostrava uma jovem. Seu rosto era pálido, os olhos fundos, exaustos. Mas eu a reconhecia. Céus... eu a conhecia. As palavras na página seguinte confirmaram o pior. 

"18 de março de 1945 — Nestor me trouxe uma jovem. Seu estado era deplorável. Parece que a encontrou na floresta, na noite dos portais abissais. Uma ex-moradora do castelo. Ela balbuciava algo enquanto o mordomo vampírico do Conde a colocava na mesa. Dizia algo começando com 'nauä...' Não se podia entender bem. Então, perdeu a consciência. E eu comecei o experimento. Este foi o número trinta, depois daquele sucesso e fracasso do menino 'Alonso'." 

A sala girou. As bordas da realidade se curvaram, como se algo estivesse prestes a me arrancar dali. Eu quis vomitar. 

O horror explodiu dentro de mim. Ela esteve nessa mesa. Passou pelo mesmo que eu. Mas meu irmão... Ele sofreu algo ainda pior. As imagens do laboratório tomaram minha mente, as lâminas, os frascos, o cheiro metálico do sangue. O eco dos gritos dele ressoou em minha memória, e uma nova onda de pavor me tomou. O que diabos fizeram com ele? 

Minhas mãos apertaram o diário, minha visão ficou turva. 

"(...) Horas após terminar os experimentos com o número trinta, coloquei-a na cela do corredor. Não tenho esperanças de que resista por muito tempo, como os outros." 

Minha consciência se agarrou a uma última fagulha de esperança. 

A cela número cinco. 

Corri pelo corredor, apertando o diário contra o peito como se ele fosse a última âncora de minha sanidade. O espaço ao meu redor parecia pulsar, os canos vibravam. O próprio castelo exalava um hálito podre. 

Passei por celas escuras, vazias, até encontrar a que buscava. Meus olhos vasculharam o interior. 

Um corpo coberto por um lençol branco. 

O baque da realidade me atingiu como um golpe de rifle. 

A raiva me tomou. A dor se alojou em meu peito, feroz, cruel. Ela era jovem. Tinha um futuro. E agora... era apenas mais um número em um experimento profano. 

Minhas mãos tremiam ao abrir novamente o livro. A leitura foi uma punhalada final: 

"Por infelicidade, o experimento trinta demonstrou descontrole e falta de lucidez. Seus ferimentos não estavam se recuperando como esperado." 

Virei a página. Os últimos registros pareciam escritos por uma mão indiferente, sem resquício de humanidade. 

"05 de abril de 1945 — O experimento trinta foi encontrado sem vida nesta manhã. Já havia alguns dias que não se levantava mais da cama. Parece que desistiu de lutar por sua própria vida." 

As palavras se tornaram borrões. Um soluço me rasgou a garganta. Lágrimas quentes escorreram por meu rosto. Eu não conseguia impedir. 

Estava neste castelo há meses, sofrendo infindáveis provações. Mas nada me preparou para isso. 

O silêncio do corredor era opressor. 

Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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O Coelho Vermelho

O solitário castiçal iluminava as cartas sobre a escrivaninha. Sua luz trêmula projetava…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O solitário castiçal iluminava as cartas sobre a escrivaninha. Sua luz trêmula projetava a sombra disforme do homem sem rosto – um aristocrata cujo semblante ninguém jamais vira. Os rumores sobre sua origem remontavam a séculos, mas sua existência permanecia um enigma envolto na imensidão e silêncio do seu castelo. Apenas alguns servos fiéis, de olhares baixos e lábios selados, lhe faziam companhia. 

O homem mergulhou a pena no tinteiro negro. O arranhar no pergaminho ecoava como unhas em um caixão. 

"O Conde te espera na celebração dos Láparos. Haverá um baile em prol do Aesttera — Tempo de Conceber Novas Vidas. Te esperamos neste franco deleite", escreveu com caligrafia meticulosa. 

Era o décimo quinto ano do ritual. Os Láparos, segundo os antigos manuscritos guardados nas catacumbas do castelo, eram espíritos da fertilidade que exigiam sangue para conceder vida. O Aesttera, ciclo lunar de conceber, aproximava-se do auge. 

Mulheres solteiras ou casadas, sem filhos, e homens livres de qualquer preconceito eram bem-vindos. Muitos ignoravam o verdadeiro propósito da celebração, atraídos apenas pela promessa de libertação. O grande evento era visto como um encontro de possibilidades e de escalada social. As melhores joias, as melhores roupas visavam ostentar seus alter egos, que para muitos seriam inalcançáveis caso não fossem ao baile. 

A noite chegou com um céu sem estrelas. Coelhos híbridos com humanos, advindos de várias carruagens, rompiam o silêncio espectral daquele lugar. O relinchar dos cavalos misturava-se ao murmúrio excitado dos convidados. Máscaras ornamentadas com penas, joias e cristais escondiam identidades, mas revelavam olhares cheios de desejo, esperançosos pela entrega à libido. O aroma de incenso e almíscar impregnava o ar, enevoando os sentidos já turvos pela expectativa. 

Um tilintar numa taça de cristal reverberou pelo salão, evocando a atenção dos convidados que sorriam inocentemente, ansiosos pelo deleite do raro vinho da maçã sangrenta. O líquido escarlate brilhava sob a luz dos candelabros, sua viscosidade deixando rastros rubros nas taças de cristal. Um aroma metálico, adocicado, emanava da bebida. 

"Este néctar", anunciou o servo principal, "foi preparado pelo próprio Conde durante o ciclo completo da lua negra." 

Eles bebiam. O líquido escorria por gargantas sedentas, esquentando-os por dentro. Comiam. Carnes raras, frutas exóticas, manjares nunca antes provados. Tocavam-se. A princípio com timidez, depois com voracidade crescente. Mas só havia uma única regra: nunca remover a máscara. 

E continuavam... As risadas tornavam-se mais estridentes, quase histéricas. Contorciam-se, despiam-se... O som úmido da carne contra carne mesclava-se ao tilintar das joias. Elevavam acima de suas cabeças as taças cheias do néctar afrodisíaco, seus reflexos vermelhos manchando o teto como sangue espalhado. 

De seu trono nas sombras, o anfitrião, o homem sem rosto, assistia ao espetáculo daqueles a quem denominava como selvagens. Sob seu manto negro, suas mãos pálidas apertavam os braços entalhados do assento. Era o décimo quinto sacrifício, e cada ano a sede dos Láparos crescia. 

"Bebam, velhas bestas, coelhos malditos, hoje celebramos a morte e a vida", e por detrás de sua máscara — única com a cabeça de coelho vermelho, olhos de rubi e pelagem escarlate — projetou sua voz enquanto tilintava sua taça. "Olhem, admirem a origem do sangue que bebem." 

Um véu pesado foi removido no centro do salão. E numa gaiola dourada, uma pobre e fértil mulher definhava, pálida como marfim polido, os pulsos cortados e enfaixados, seus olhos vidrados fixos nos convidados. Uma mangueira transparente ligava suas veias à grande ânfora de cristal de onde o vinho era servido. Ela assistia seus algozes deleitarem-se com o viscoso vinho escarlate – seu próprio sangue, drenado lentamente para alimentar a celebração. 

Os convidados congelaram. Taças caíram, estilhaçando-se contra o mármore. Alguns levaram as mãos à boca, outros permaneceram imóveis, fascinados pelo horror. 

"Os Láparos exigem sangue voluntário," continuou o Conde, sua voz agora mais profunda, inumana. "Ela se ofereceu em troca de riquezas para sua família. Um sacrifício nobre, não acham?" 

E a mulher na gaiola, como se esperasse este momento, moveu seus lábios ressecados. "Vocês... todos... malditos..." sussurrou ela, sua voz fraca atravessando o silêncio absoluto do salão. E, destarte, a sua vida esvaiu-se, porém, não com os olhos cerrados, mas fixos em seus carrascos mascarados, em uma maldição silenciosa que cada um deles levaria consigo para sempre. 

Por baixo de suas máscaras, imperceptivelmente, pequenos tufos de pelo branco começavam a brotar na pele dos convidados. 


Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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5 - Séttimor

Minha cabeça dói exacerbadamente. Não sei por quantas horas dormi — só sei que gostaria de ter permanecido lá, mesmo que isso significasse a morte…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Minha cabeça dói exacerbadamente. Não sei por quantas horas dormi — só sei que gostaria de ter permanecido lá, mesmo que isso significasse a morte. Afinal, seria a morte ao lado de Sibila. 

Nunca tivera um sonho como aquele, tão real: primeiro, aquele cheiro de lavanda infestando todo o local; depois, Lieran, aquele jovem portando uma chave dourada enorme, se dizendo guardião de um portal onírico. Mesmo imerso naquele mundo, algo em meu íntimo sussurrava que aquilo não era real — até Lieran surgir, segurando com sua mão esquerda uma chave dourada enorme, presa a um cordão grosso ao redor do pescoço. 

Eu tinha uma simpatia silenciosa pelos canhotos — pareciam esquecidos pelo mundo, como produtos com um leve defeito de fabricação — assim como eu. Pois bem, até que ele girou a chave em uma espécie de fechadura invisível, a mão esquerda no ar. 

Então, uma enorme porta se abriu. Do outro lado, um imenso campo tomado por uma relva verde e baixa. Ao cruzar a porta, olhei para as minhas mãos e já não eram enormes e esverdeadas, eram brancas e macias. Corri em busca de algo que espelhasse o meu reflexo, e Lieran prontamente me estendeu um espelho. Ao mirar o objeto, vi um rapaz de cabelos loiros e feições simetricamente perfeitas, lábios rosados e dentes alinhados e branquíssimos. Mas o olhar — esse eu reconheci — era o meu próprio reflexo. Eu não podia explicar, mas sabia que era eu mesmo! A cor dos meus olhos não mudara, continuavam sendo tristes e da cor âmbar, como se tivessem sido tomados por uma doença oculta. Eu sempre achara que meus olhos tristes eram ecos da morte, de onde eu nascera, já que eu era feito de partes de diversos cadáveres. 

Lieran me explicou, então, que naquela dimensão era possível ter a própria aparência alterada pelo simples fruto de nossos desejos e também devido ao que o nosso interior refletia. Então ele me fez adentrar ainda mais. Caminhamos através da paisagem em silêncio até chegarmos à beira de um precipício. Então ele anunciou, como um anjo que guardava as sombras do meu coração saudoso, que traria ela: 

— Eu sou Lieran, guardião do primeiro umbral de Somníria — um local além do tempo e do espaço, onde seres podem descansar da própria realidade ou mergulhar mais fundo nos próprios medos e pesadelos. Eu porto a chave para um portal: o sonho da pessoa com quem mais você precisa conversar agora. 

Então me sentei ansioso, aguardando que ele a trouxesse. Quando eu a vi, tentei esboçar o sorriso mais genuíno de todos, como quem tenta esconder uma rachadura profunda com uma camada fina de verniz. Eu queria ser perfeito aos olhos dela. Pedi para que se sentasse e apreciasse a paisagem comigo, tentando manter a voz firme, apesar do coração descompassado. Ela caminhava com elegância silenciosa, envolta por um manto branco que cintilava sutilmente, adornado por bordados dourados e vermelhos em forma de dragões orientais — criaturas que pareciam mover-se a cada passo seu, como se vivos estivessem no tecido. Com um gesto calmo, ela retirou o manto e o dobrou com cuidado antes de se sentar ao meu lado, como se aquela cena merecesse respeito e solenidade. 

Seus olhos, de um verde claro quase âmbar, refletiam algo que eu não saberia nomear: curiosidade, apreensão, talvez uma antiga solidão. Sua pele, tão branca quanto a luz filtrada por nuvens densas, parecia fria ao toque, mas transmitia uma serenidade perturbadora. Os cabelos castanhos, ondulados e presos com perfeição num penteado elaborado, emolduravam seu rosto com uma beleza sóbria. Pequenos brincos de pérola reluziam sob a luz suave do sonho. Quando ela falou — "Sinto que o conheço, porém nunca o vi em toda a minha vida..." — sua voz carregava um tom grave e suave; suas palavras derreteram minh’alma. O batom, um laranja pálido, parecia destoar levemente do restante, como um sopro de cor numa figura fantasmagórica. E, ainda assim, tudo nela era beleza para mim. Alta, esguia, o corpo quase reto, sem as curvas tão endeusadas por outros — para mim, era a imagem da perfeição. Uma perfeição não óbvia, que me fazia querer protegê-la do mundo — e de mim mesmo. 

Ah, foi tão perfeito poder conversar com ela... eu nunca ouvira a sua voz, pois sempre a observei de longe. Era muito mais bonita de perto, muito além do que eu imaginara. Seu perfume, um bálsamo para a minha alma animalesca e solitária, que ansiava por aquelas notas frutadas com um fundo de canela, sempre acalmavam meus pensamentos conturbados. Agora, sentado à beira desse catre sujo e frio, cheirando à bebida, percebo que fora só um sonho, fruto do delírio e desespero que sinto após o seu inexplicável desaparecimento. 

Ainda com a cabeça latejando, permaneço deitado por alguns minutos, tentando estender aquela sensação de paz que o sonho me proporcionou. Fecho os olhos, buscando o som da voz dela, tentando resgatar o aroma do perfume, mas tudo o que me resta agora é o gosto amargo do álcool e o frio que emana do chão de pedra sob minha cama improvisada. Sibila... seu nome ecoa em mim como uma oração que perdeu a fé, como um eco em um templo abandonado. Preciso encontrá-la — não importa como, nem o que custe. A ideia de tê-la visto em sonho só serviu para reacender em mim uma certeza: ela ainda está em algum lugar, e eu não descansarei até encontrá-la. 

A ideia me pareceu insana à primeira vista, mas foi se assentando na minha mente como um sussurro cada vez mais convincente. Forjar documentos. Eu sabia que, se quisesse entrar na antiga casa de Viktor Frankenstein — patrimônio agora sob custódia do Estado prussiano —, precisaria de uma justificativa legal forte. Bastaria alegar ser seu filho ilegítimo, fruto de um relacionamento secreto mantido nos anos de juventude, antes de sua ascensão como referência na comunidade científica internacional. Para isso, bastou uma combinação precisa de papéis envelhecidos artificialmente, um diário falso com entradas forjadas sobre uma suposta mãe desconhecida, e uma certidão de nascimento modificada. Com o apoio de um velho conhecido que devia favores e que conhecia os atalhos do sistema burocrático da Prússia, consegui o suficiente para enganar as autoridades locais. Ninguém ousaria duvidar de um documento bem selado, ainda mais quando carregava o nome de Viktor Frankenstein. 

Após ludibriar as autoridades locais e portando as chaves do casarão onde Viktor escondia sua figura torpe, dirigi-me para lá sem demora. A chave girou com dificuldade na fechadura enferrujada, como se a própria casa resistisse à ideia de ser violada. Ao empurrar a porta, um rangido grave ecoou pelos corredores escuros, trazendo à tona o cheiro penetrante de formol que eu sempre sentira do lado de fora, mas que era imperceptível por aqueles que não eram iguais a mim. 

Adentrei mais e mais os cômodos da casa. No primeiro e no segundo andar não encontrei nada que me levasse até ela. Visitei o que provavelmente fora o seu quarto e não encontrei nada relevante. Parecia que ela havia partido com muita pressa, pois não levara seus pertences. A escova de cabelo ainda repousava sobre a penteadeira; fios castanhos brilhavam sob a luz pálida que penetrava o recinto. O frasco de perfume repousava ao lado da escova. Eu o abri e borrifei alguns jatos no ar, enlevado pelo momento mágico que era estar onde ela vivera anteriormente. Me flagrei imaginando que tipo de relação eles tinham. Mentor e aluna? Pai e filha? Amantes? Captor e refém? 

Será que Sibila e Viktor eram cúmplices, ou será que ela era apenas uma vítima daquele cientista obcecado por suas próprias ambições? O que importa isso agora, já que procuro ecos de alguém que já partiu... Não, ela não está morta, não posso aceitar isso. Tenho que encontrá-la de alguma forma. Os armários estavam cheios de roupas femininas, mas nenhuma eu a vira usando. Será que eram os vestidos das vítimas que ela desovava no rio? A cama era de solteiro, tinha uma fronha cor de rosa que eu decidi levar comigo. Ainda conserva o odor de sua pele misturado à deliciosa fragrância do seu humilde perfume. 

Após procurar pelos dois andares em busca de pistas e sem sucesso, decidi olhar o porão. Desci as escadas de pedra com cuidado; uma espécie de suor tomava as paredes. O ar condensara-se, pois ali era mais quente do que o frio do inverno que tomava o exterior da casa. Não havia janelas no porão, o cenário perfeito para esconder as atrocidades que Viktor fazia ali. Um vazio pesava em meu estômago. Era engraçado pensar que, apesar de ser uma criação, eu me assemelho em muitas coisas aos humanos — sentir medo era uma delas. Que segredos sórdidos eu descobriria naquele local? 

Comecei por vasculhar todas as gavetas de uma escrivaninha — eram seis no total. A última estava emperrada, mas não fora um grande empecilho para mim, já que eu sempre fui mais forte do que a maioria dos humanos. Após abri-la, o seu conteúdo revelou um caderninho de capa de couro marrom surrado, parecia ter sido extremamente manuseado. O seu interior trazia anotações e mais anotações sobre anatomia humana, alquimia e estudos sobre o que Viktor nomeava de “Ciência Oculta”. Uma frase anotada na contracapa me chamou a atenção: “testes com tecido neural feminino mais recente apresentaram reações promissoras. A transferência deve ocorrer antes do segundo dia. Ainda creio que o corpo dela possa recebê-la.” 

Além do travesseiro de Sibila, decidi levar aquele caderno comigo. Folheando-o, percebi que da metade para frente o cientista começara a escrever em uma língua desconhecida para mim. Havia glifos e símbolos estranhos anotados nas margens. Em uma das páginas ele desenhara um castelo à luz da lua. Ao longe, ainda nas proximidades do castelo, ele também rascunhara o que parecia ser uma vila. Embaixo estava escrita a palavra Séttimor. Um lugar? Um código? Por que esse nome me dá arrepios mesmo sem eu saber por quê? Guardei o caderno em meu bolso. Poderia voltar a examiná-lo mais tarde, quem sabe descobrir que língua era aquela. 

No laboratório havia muitos frascos, alguns com cores fortes, como vermelho-sangue e azul-petróleo. Outros, pálidos, com líquidos espessos que lembravam leite coalhado. O ambiente estava estranhamente asseado. Passei a mão por algumas bancadas de trabalho — não havia pó... a sensação de esterilidade era pungente. O cheiro de formol era extremamente intenso, fazia minhas narinas e olhos arderem. Passeei em frente a alguns frascos. Muitos conservavam partes de animais em formol. Mas, à medida que caminhava, a visão se tornava mais opressora ainda.  

Havia cerca de trinta vidros, todos com etiquetas de nomes de mulheres: Eleanor, Ema, Gema, Ava, Rose... De quem eram todos aqueles nomes? Tomado por uma estranha compaixão repentina, passei as pontas dos dedos por cada rótulo, desconfiado de que aquilo era o mais próximo de uma lápide que aquelas almas femininas teriam direito. Quantas? Quantas vidas ele apagou para cumprir essa obsessão? E Sibila... onde entra nisso tudo? Todos estavam vazios. O que será que ele planejava guardar ali? Ou será que Sibila ocultara o conteúdo antes de desaparecer? O que Viktor estava tentando fazer? 

Continuando minha busca por pistas que me levassem até o paradeiro de Sibila, tateei por cima de uma prateleira com mais substâncias para experimentos. Encontrei alguns papéis amarelados com desenhos dele. Eram estudos de anatomia feminina, continham infindáveis anotações e respingos de sangue seco por todos os papéis, mas, ao contrário do caderno, tudo estava compreensível. Parece que ele estava tentando recriar o meu experimento, mas, desta vez, ao invés de partes de cadáveres, ele precisava encontrar uma vítima que recém tivera perdido a vida — algo muito difícil de conseguir de forma natural... Céus! Viktor, o que tramava? Qual era a natureza da relação deles? A julgar pelas diversas vezes que eu observara Sibila jogando sacos nos rios madrugada afora, os experimentos dele não iam nada bem, mas ele estava obcecado em obter sucesso, visto que não tivera escrúpulos nem respeito perante a vida. 

Em uma das paredes do laboratório havia um retrato de uma mulher cujo semblante eu conheci bem — era a falecida esposa do velho cientista. Ela tinha olhos e cabelos pretos, pele extremamente clara, uma expressão preocupada e séria, como se estivesse assistindo a um momento solene. Retirei o retrato da parede. Atrás dele algumas palavras haviam sido rabiscadas com caneta tinteiro, em uma letra elegante: 

“Quero que guarde esse presente como recordação do amor que sinto por você, Viktor. Faça somente isso, após a minha partida. Não se prenda a mim, viva a sua vida em toda a sua plenitude. Quero saber das suas aventuras quando me encontrares no além-vida! 
Elizabeth Frankenstein.” 

Ao que parece, Elizabeth sabia das intenções de seu esposo após a sua morte. Acho que ela foi uma grande mulher. Recoloquei o quadro na parede. Quando já estava me retirando daquele lugar triste e mórbido, pensando que já tinha vasculhado tudo — ao menos o suficiente para aquele dia, pois eu pretendia fazer mais buscas na casa que agora me pertencia —, o retrato que eu acabara de recolocar caíra no chão.  

Ao me abaixar para juntá-lo, o caderno de Viktor escorregou do meu bolso e, ao cair, revelou uma folha rasgada e rabiscada com uma letra cursiva diferente da de Viktor. Nela estavam escritas as seguintes palavras: “...eu nunca quis participar daquilo, Viktor. Não era isso que prometemos. Eu tentei ajudar, mas agora... os olhos delas me perseguem.”  Desconfio que esse papel é fragmento de algo que Sibila escrevera para Viktor. 

O que será que prometeram um ao outro? Que tipo de relação doentia eles mantinham? Séttimor... esse nome ecoava em minha mente como um prenúncio. Algo me dizia que minha jornada estava longe do fim. E, por mais que abominasse o que Viktor fizera, não podia ignorar o que agora crescia em meu peito. Viktor, agora, não me parecia ser tão moralmente errado. Assim como ele, eu desejo ardentemente algo, reencontrá-la, e... sim, eu mataria por ela. 


Escrito por:
Aryane Braun

Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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DA SEIN

Nas águas turbulentas do pensamento eu me abraço, | Recebendo do inconsciente memórias do passado. | Observo o sol ao longe pousando no horizonte…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Nas águas turbulentas do pensamento eu me abraço,
Recebendo do inconsciente memórias do passado.
Observo o sol ao longe pousando no horizonte.
A sinestesia me envolve entre a vida e a morte!

É inevitável não encarar meu próprio eu neste mundo,
O existencialismo me toma. Assim,
Vagueio com olhar vazio e profundo,
Buscando sentido no infinito imundo.


Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
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20. Castelo Vampírico: Quem comer minha carne e beber do meu sangue tem a vida eterna

Saímos de onde Arturo estava. Aquele breve encontro com ele me deixou inquieta…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano 

09 de janeiro? — Saímos de onde Arturo estava. Aquele breve encontro com ele me deixou inquieta — acho que essa é a palavra. Ele estava no lugar que deveria estar, mas, ao mesmo tempo, não deveria estar ali. E todas aquelas peças, livros, aquele caos organizado das mentes que nunca param de pensar mexeram um pouco comigo, levando meus pensamentos para coisas além daqui. Algo que tirei de mim mesma antes de adentrar ao castelo. 

Continuamos nosso caminho, na missão de encontrar Drácula. Mara chamou minha atenção dizendo que eu não deveria ficar de conversa com pessoas que não conhecia. Entendo que ela se preocupa com a própria vida, mas não sou tão distraída a ponto de precisar que alguém me lembre de tomar cuidado a todo momento — pelo menos eu acho que não. 

Seguimos para fora do castelo, e não sei descrever de forma correta a sensação de estar ali, naquele lugar em que eu estava acostumada a ir toda vez que precisava da companhia da Ameritt. Não entendia o motivo de Mara querer procurar Drácula fora do castelo, mas apenas a seguia, pois ela parecia saber o que estava fazendo. 

Andamos por entre aquele jardim diferente, seguimos pelo meio de um arvoredo, e então encontramos um monumento enferrujado. Era uma rocha oxidada que se erguia naquele meio, com uma abertura em seu centro. Parecia um convite para que entrássemos. Troquei um olhar com Mara, como uma permissão silenciosa do tipo “Posso entrar?”. Ela apenas disse: 

— Espere aqui — e entrou na frente. Logo após, voltou e disse para que eu entrasse com cautela. 

— Ué, entrando em locais desconhecidos? Não acha isso perigoso? — disse a ela, para implicar com seu excesso de cuidado comigo. 

— Às vezes devemos seguir o caminho que o castelo nos orienta a seguir — disse ela, seca. 

— E como você pode saber se o castelo não nos orientou a falar com Arturo? — perguntei. 

— Eu não sei, mas vivi o bastante aqui para saber que as pessoas não são muito confiáveis quando estão sendo orientadas pelo castelo — ela disse, colocando um ponto final na conversa. 

Entrei na fenda logo atrás dela, e o que vi estava fora da minha noção da realidade. Era como se eu atravessasse uma barreira invisível, estava deixando para trás algo que ainda me pertencia, mas que eu não reconhecia o que era. O ar estava cheio de uma fragrância diferente. Não era aquele odor característico dos jardins do castelo que eu estava acostumada. Havia um peso que parecia se manifestar em meu corpo como um cansaço físico, como se o espaço questionasse a minha permanência ali. 

Olhei todo aquele jardim e fiquei impressionada com as flores mecânicas que brotavam do solo coberto de raízes metálicas. Havia um vapor suave sendo exalado por todas aquelas flores. O lugar estava saturado de um perfume que, para mim, é quase impossível de descrever em toda a sua totalidade. Era floral, era quente e metálico, como se, literalmente, uma flor de metal fosse aquecida até seu limite e exalasse de seus poros esse odor que parecia reagir à nossa presença. 

Pelo canto dos olhos, captei algo à minha esquerda. Não sabia dizer o que era. Mara também havia visto, pois se afastou de mim alguns centímetros e foi em direção ao local. Eu a segui, e logo ela apertou o passo, ainda caminhando silenciosamente. Tentei manter minha respiração sob controle. 

Segui Mara, sempre junta a ela, como eu havia prometido fazer. Mas o castelo não tem compromisso com juramentos. 

Mara parou ao se deparar com um pequeno coelho com uma fita vermelha no pescoço — era o que estávamos seguindo. 

— O que fazemos agora, pegamos o coelho? — sussurrei. 

— Não. Vamos esperar ele continuar a andar e o seguimos — ela sussurrou de volta. 

Ficamos paradas esperando, e nada do coelho sair. Ele ficou ali, nos encarando por um longo tempo. Fui dando pequenos passos em sua direção para ver se ele se afastava e continuava seu caminho, mas nada. 

— Você acha que esse coelho pode nos levar até onde Drácula pode estar? — continuei falando baixo. 

— Não tenho certeza. Apenas estou tentando seguir as orientações do castelo, já que meu plano não está conforme o planejado. Talvez essa fita vermelha no pescoço do coelho não seja por acaso — ela falou isso com muita seriedade. 

— Isso pode ter sido feito por qualquer um no castelo. Pode ser só perda de tempo. 

— Sei disso, mas não é como se tivéssemos muitas opções — ela disse. 

Me abaixei até o coelho e coloquei devagar as mãos nele, que não se afastou em nenhum momento. Então, uma parede de galhos cheios de espinhos se ergueu num instante, me separando de Mara. Ouvi Mara gritar meu nome com uma voz firme e tensa. 

— Rute, fique onde está, darei um jeito de te buscar. 

Eu queria responder e dizer a ela que iria esperar, mas, antes que eu pudesse abrir a boca, os galhos ao redor de mim se contorceram, buscaram algo para se agarrar — e se agarraram em mim. O chão fugiu dos meus pés, e fui puxada, sem resistência, por um longo caminho. 

Lutei em vão. Minhas unhas arranharam a madeira dura, meus joelhos e cotovelos foram esfolados. Fui arrastada pela floresta. 

Fui deixada no meio do nada, num chão coberto de folhas secas, num local muito diferente do jardim em que eu estava antes. Estava muito além dele. As árvores altas formavam uma cúpula, com copas tão unidas que impediam o pouco de luz do dia que restava de entrar. A única iluminação vinha de lamparinas espalhadas ao redor, penduradas em algumas árvores. 

Vi, então, figuras mascaradas caminhando silenciosamente, e me escondi atrás de uma grande árvore. Fiquei a observar enquanto passavam, se distanciando de onde eu estava. 

Usavam mantos negros e carmesins. Suas máscaras de coelho escondiam seus rostos. As figuras caminhavam com passos ritmados, esmagando com os pés as folhas secas com um som abafado. Seguravam tigelas com coisas que eu não conseguia identificar, pequenos cestos de vime que pareciam conter pedaços de coisas que eu não conseguia ver — talvez flores, ossos ou algo pior? 

Seguiam uma trilha entre as árvores, iluminada por pequenas lamparinas penduradas nos troncos ao longo do caminho. Eu senti que talvez estivesse vendo algo que não deveria ver. O castelo muda e se move — ele também nos muda e nos move. Esse fato já está mais que aceito por mim, e ele nos separar só confirma que tem alguma intenção própria. Quando ergueu entre nós uma parede com galhos cheios de espinhos, me deixando por conta própria, talvez fosse o jeito dele de me mostrar suas orientações. Forma terrível, essa. Então, decidi segui-los. Conforme eu ia andando atrás das figuras, a noite ia chegando, e o brilho das lamparinas parecia aumentar, deixando tudo com um aspecto tão reconfortante e um pouquinho assustador. Um vento fresco passava por entre os galhos. Havia umidade no ar, um cheiro que era uma mistura de terra mexida, velas queimando e um aroma doce e ferroso. Eu sabia que deveria voltar para o local onde Mara havia pedido para que eu esperasse, mas toda a minha razão se esvaiu diante do conforto daquela situação. Eu estava envolvida. 

Eu ouvia murmúrios. Cânticos? O vento nas árvores, talvez? Ou só o roçar dos mantos pesados no tapete de folhas secas? Continuei seguindo os mascarados, a uma distância segura, tentando me manter escondida entre as árvores. Os segui até uma clareira. Lá havia uma grande mesa de madeira, com velas, taças, frutas, pratos. Havia aquele aroma doce e ferroso no ar, misturado ao cheiro quente dos corpos que começaram a se movimentar, como numa dança ritualística. Uma música começou.  

Primeiro, o som veio dos pés arrastando levemente na terra. Depois, o som de um violino, tocado com uma lentidão fúnebre que foi, aos poucos, ficando mais rápida. Todos formaram um círculo, e as vozes se ergueram numa canção em uma língua que eu não entendia. Era um canto gutural que ondulava, palavras que pareciam mais uma tempestade do que um idioma em si. Uma dormência tomou conta de mim e, por um breve momento, quando a luz das velas tremulou, tive certeza de ver as sombras dos presentes dançarem sozinhas — fora do ritmo dos corpos que ali dançavam. 

Meu coração batia forte — não por medo apenas, mas pelo fascínio que aquele grupo estranho despertava. Havia algo nos seus movimentos ritmados que me parecia tão belo... uma beleza distorcida que eu passara a apreciar aqui no castelo. Como se, aos poucos, ele revelasse para mim seu interior belo e delicado — e, ao mesmo tempo, vermelho e denso, como em carne viva. A dança cessou, e todos se afastaram, ficando de frente ao que parecia um palco improvisado. 

Então, uma arlequim apareceu. Ela vestia um traje em tons de vinho e dourado. Seu rosto era branco pintado, e possuía um sorriso sem sorrir. Apareceu no centro do palco, chamando a atenção de todos. Ela estava conduzindo alguns coelhos — brancos, pretos e marrons — que saltavam ao seu comando, fazendo truques ao som de suas palmas. 

Todos os presentes estavam vibrando com a apresentação, mas eu sentia, sem saber como, que havia algo estranho ali. 

Cheia de floreios, fez uma pequena mesa aparecer à sua frente e depois uma coleção de pequenos coelhos, tão brancos quanto a maquiagem de seu rosto. Ela os fez saltar, dançar, desaparecer, reaparecer, e a plateia via tudo fascinada. Ela segurou com cuidado um daqueles pequenos coelhos e arrancou sua cabeça com os dentes, um filete de sangue escorreu de seu queixo branco, então ela repetiu o ato com outro; a plateia continuava animada. Logo, outro coelho foi erguido e outra cabeça foi arrancado e, logo depois, outro.  

Os mascarados batiam palmas, vibravam, riam como se aquilo fosse um espetáculo inofensivo, como se tudo aquilo que a arlequim estivesse apresentando fosse apenas um truque muito bem ensaiado. Era um truque, não era? Eu quero muito acreditar que era, pois o estalo dos seus pescoços sendo arrancados ficou ecoando dentro da minha cabeça. A arlequim se inclinou sobre o coelho com a fita vermelha no pescoço, aquele que eu havia perseguido, segurou o coelho com as duas mãos, murmurou algo e num movimento rápido, arrancou a cabeça dele, o sangue jorrou, espesso e vermelho. Alguém na plateia riu. Ela riu como se estivesse embriagada, o som dos ossos do crânio do coelho se partindo enquanto ela mastigava era alto demais para ser real, meu estômago estava se revirando. Aquilo não era real, não podia ser real, não era, não é? 

Minhas pernas tremiam. Eu queria recuar e voltar para o local onde Mara pediu para que eu esperasse. O aroma ferroso se intensificou e, dessa vez, estava levemente amadeirado. Um calafrio percorreu minha espinha. Havia alguém um pouco afastado do círculo, entre os galhos secos, apenas observando. A luz das velas parecia aumentar a sua sombra, que já era monstruosa: um corpo esguio. Naquela escuridão entre os galhos, suas formas eram incertas. Pelos grossos e escuros, um traje antigo, um manto longo e escuro que se arrastava no chão... Mas então ele deu alguns passos à frente e seu corpo foi iluminado — e eu vi, com horror, seu tórax e suas mãos que não eram cobertos de pele ou pelos, mas sim por ossos expostos. Um sorriso se abriu em sua face ao ver o horror no meu rosto.  

Ele não era como os outros mascarados. Essa criatura — pois não consigo pensar nele como algo humano — tinha olhos vermelhos profundos, sem pupilas, e seu rosto era como o de um coelho, com pelos muito negros e um sorriso largo demais, afiado demais para um coelho real. Suas mãos, que estavam erguidas sobre o peito, eram de ossos, com garras afiadas e delicadas. Ele não olhava para a arlequim — ele olhava para mim. E a arlequim, percebendo que eu havia notado estar sendo observada, sorriu. 

As vozes voltaram a cantar e a dançar com a aparição dele, alheias ao horror que me paralisava. Eu não conseguia seguir meu caminho para longe daquilo — e nem sei se eu queria sair dali, se pudesse. Eu pertencia àquele encontro ou era uma intrusa em um ritual que eu não entendia? Deveria participar daquilo? E, se eu não participasse, seria castigada por isso? Eram perguntas demais para um cérebro assustado e confuso. Eu quis muito correr, mas meus pés estavam presos naquele chão. Eu podia sentir que ele estava me esperando decidir. Mas, diante de tudo isso, algo em mim quis ficar ali e continuar assistindo àquela celebração. Eu sei que deveria estar com medo. Talvez, no fundo, eu estivesse. Mas o medo era deixado de lado diante da minha curiosidade, que prendia meus pés ao chão, me impedindo de ceder àquele medo e sair daquele lugar.  

Ele caminhou até mim e, sem dizer uma única palavra, me estendeu aquela mão ossuda, com aqueles dedos sem carne para cobri-los — um sorriso muito aberto, direcionado a mim. Eu queria recuar. Mas, ao oferecer sua mão, meu corpo ficou tenso. E algo naquele olhar vermelho profundo me manteve no lugar. Havia algo de hipnótico naquilo. Eu sentia como se todas as gerações antes de mim — ou todas as vidas possíveis que eu pudesse estar vivendo, ou tivesse vivido — já tivessem pisado neste mesmo solo, assistido a este mesmo momento e também cedido a esta mesma hipnose. 

Quando meus dedos tocaram os ossos daquela mão, um calor estranho percorreu todo o meu corpo, e fui levada sem resistência. O mundo girava ao meu redor. As figuras mascaradas voltaram a dançar como em transe. Pareciam desenhar com os pés padrões invisíveis naquele solo coberto de folhas secas. Ele me levou até a grande mesa. Sobre ela, velas, frutas, carnes de origem um tanto incerta, pães, taças com o que parecia ser vinho — tudo cheirando bem: umidade, especiarias, o cheiro de terra revolvida e, ainda, aquele cheiro doce e ferroso. Ele fez com que eu me sentasse na cabeceira da mesa e, depois, caminhou até a outra cabeceira. De frente para mim, levantou sua mão esquelética e fez um gesto rápido. Na hora, os dançarinos pararam suas danças febris, andaram até a mesa e, em ordem, cada um tomou seu lugar à mesa — máscaras de coelhos me encarando com suas cabeças inclinadas para o lado, esperando algo. Talvez o próximo comando dele. Olhei para cada rosto oculto pela máscara de coelho e parei meu olhar na arlequim, que fez questão de se sentar ao meu lado.  Ela sorria e segurava um coelho que se debatia em seus braços e com um único movimento ela torceu seu pequeno pescoço e o som seco do estalo pareceu me despertar. Alguém — que não consegui identificar — riu baixinho; meu coração acelerou, mas consegui fazer minhas mãos permanecerem imóveis, sem tremer.  

Todos aguardavam algo — e agora até eu estava aguardando, sem saber o que era e sem entender o motivo de eu estar fazendo parte daquilo. Então ele se levantou. Serviu cada um à mesa com um pedaço de carne, começando por mim. Depois de completar a volta, pegou um jarro e serviu cada um de nós com o que parecia vinho. Sentou-se e fez um gesto. Todos seguraram o pedaço de carne nas mãos e, depois que ele comeu, todos também comeram. A arlequim olhou para mim com um leve balançar de cabeça, como se estivesse me encorajando a comer.  

Tive receio de ser a única a não comer e coloquei a carne na boca. O sabor das especiarias e um toque de chocolate amargo me ajudaram a mastigar aquela carne, que eu suspeitava vir do corpo descarnado da criatura sentada à minha frente. Assim que engoli, ele fez mais um gesto e levantou o cálice. À frente de cada um de nós havia um cálice. Peguei o meu e o levei até o nariz. O cheiro era quente. Era do cálice que vinha aquele odor doce e ferroso — mas também vinha dele. Algo dentro de mim me dizia para não beber. Talvez fosse a voz de Mara, entranhada em minha mente. A arlequim olhou para mim novamente, me encorajando a beber. Minha mente ficou perdida num nevoeiro de pensamentos e perdeu a resistência. Então, bebi. 

Assim que aquele líquido quente desceu pela minha garganta, todos à mesa — menos ele — começaram a aplaudir. Todos pareciam estar em êxtase. Mas aquela alegria me deixava desconfortável. Eu me sentia leve demais, como se meu corpo estivesse perdendo as raízes que o prendiam à realidade. Então Mara surgiu. O alívio da sua presença foi imediato. Ela apareceu de repente ao meu lado e, sem hesitar, bateu no cálice que eu ainda segurava e agarrou meu pulso, me puxando da mesa. Tudo aconteceu rápido demais para que eu conseguisse processar.  

A bebida se espalhou pelo chão, a cadeira caiu para trás, e então estávamos correndo. Ela estava me levando para longe dali. Eu olhei para trás uma única vez. A arlequim ainda estava sentada com os outros, acenando para mim com seu sorriso grande e imóvel. Ela também ainda estava sentada, assim como os outros — apenas me olhando. Corremos sem parar. A floresta parecia se fechar ao nosso redor. Quanto mais corríamos, mais escuro ficava, pois, para onde íamos, não havia mais a iluminação das lamparinas. Só paramos quando Mara me puxou para trás de um grande arbusto. Eu arfava, tentando recuperar o fôlego, mas meus pulmões ardiam. Mara se virou para mim — e pude sentir sua fúria. 

— Que inferno, Rute! O que você estava pensando? 

Minha mente rodava, o ar me faltava e eu tentava, inutilmente, lembrar com exatidão o que me levara àquilo, mas não consegui me explicar à Mara.  

— Eu não sei — murmurei sentindo um arrepio subir às minhas costas — era como se eu tivesse perdido o controle por um momento. 

Mara me encarou e seu olhar estava carregado de raiva, mas também havia medo nela. De onde estávamos, ainda conseguíamos ouvir a celebração, não havia terminado, e eu, dentro de mim, sabia que aquilo não era uma simples celebração. Eu não sabia explicar o que era, mas era algo mais, algo que eu havia feito parte e que não sabia se sairia ilesa. De repente, um click como se uma peça se encaixasse no meu cérebro e eu recordasse de uma sensação, um cheiro, algo familiar em um dos presentes à mesa. 

— Mara! Drácula estava lá, ele estava naquela celebração. — Eu disse. 

Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite Gomes

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Ato de escrever I

Um poeta sentado escrevendo. Cenário que mescle contemporâneo e vintage (pode ser até um apartamento, prédio…

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Os astros fulgem como ações próprias; as janelas do castelo brilham em um tom de pele madura. A forma dela se desenha nesse grande holofote. O poeta, de cabelos brancos como uma lebre, declama sua arte por todos os poros.   

Mas a obra do artista é seu sangue, e este é imortal. Como um quadro pintado com tinta ainda quente, pulsa. Ferida ao peito, caneta em riste.   

— Expulsa! Um coração que não se esvai em poemas.   

Assim acaba a noite e um microconto, pois todos os poetas são iguais: não aguentam o peso do mundo sozinhos e precisam, em linhas tortas, devagar seu pranto.   

Companheira grafia de luz, de noite, de dia.   

Garrafa de vinho, uma cama, um fogo e a mais profunda tragada — retrocedendo o cigarro com o tragar do passado da alma, que foi tocar no não vivido, que foi lamentar e escrever o que não ocorreu.  


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Imersão ao Castelo Drácula: Exercício de Escrita

D’esta vez, trago um pouco do universo de nossa Escrivaninha para você. Escreva!

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Eu escrevo, todo o mês, ideias de escrita e inspirações para os autores oficiais do Castelo Drácula; d’esta vez, trago um pouco do universo de nossa Escrivaninha para você.

Olá, leitor; você está profundamente envolvido com as histórias e a poética d’este lôbrego recôndito, estou certa? Compreendo que talvez lhe seja interessante adentrar ao mundo da Escrita e criar um personagem que seja, pois, um residente deste alcácer. Um personagem que seja semelhante a você, para que você encontre conforto n’este sombrio espaço e possa vivenciar o inominável e o sublime em seu universo.

Por esta razão, pensei que seria uma ótima ideia ajudar os leitores a se criarem nesse mesmo mundo, onde eles podem ser quem quiserem e podem ter, portanto, um alívio da realidade hiperestimulante e superficial. Comecemos, então, a escrever!

No Castelo Drácula, mesmo aqueles que não são escritores são instigados a escrever suas experiências em diários e anfêmeros; em ambos os casos, o residente contará como foi o seu dia e a sua vivência com os fenômenos que lhe vieram de encontro no Castelo. Nesta primeira imersão, vamos vivenciar Aesttera!

Sim! O que você acha de escrever uma página em seu diário e descrever a sua participação na confraternização Aesttera, onde um outono carmesim opaco se estende no horizonte e pessoas em trajes de gala e máscaras de láparos dançam e se embriagam com o vinho da Maçã Sangrenta? Imagine-se caminhando entre os convivas, sinta o perfume de cacau, ouça Masked Ball, de Jocelyn Pook, para entrar no clima (esta música é a essência de Aesttera). E descreva, por fim, cada detalhe do que vê, cada sensação que a música lhe causa.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Indagações para imersão:

Qual é o cheiro d’este lugar? As cores em tons rubros opacos e a névoa rosé lhe transmitem quais sensações? Quais vestes você usa? Quem vai interagir contigo? Qual é o sabor do vinho da Maçã Sangrenta? Como é estar em um lugar tão fora da sua realidade, capaz de embriagar seus sentidos apenas com estímulos lentos e profundos?

Aqui, o tempo é uma mentira; portanto, nada pode ser adiantado ou atrasado. Aqui, você não pode fugir de si mesmo, pois você é parte essencial de uma totalidade. Você é importante aqui! Cada frase que você ler e cada palavra que você escrever terá um peso abíssico n’este Castelo lôbrego. E Aesttera é uma confraternização que te fará lembrar-se disso, com a esperança e o horror que pertencem a este outono que nasce agora, onde a decadência é insondável, mas, no coração, reside a esperança fértil da primavera de outrora.

O verão acabou, senhoras e senhores. Conte em seus diários como é a morte do verão para as suas percepções. Para ser ainda mais didática, abaixo está parte do que escrevi em meu Anfêmero, como personagem d’este universo raro.

Em vestes negras, vitorianas, caminho n’este jardim lúgubre e belo, carmim-acinzentado, com flores e folhas ressequidas. Minha pele é um marfim pálido, e eu ouço a música inebriante, como um ritual de invocação das criaturas do outro lado. O vinho da Maçã Sangrenta é doce; eu o aprecio enquanto caminho e observo tantas pessoas misteriosas. Recebo alguns olhares curiosos. Algumas pessoas sabem quem sou e me cumprimentam de longe, com uma tênue reverência e com um apreço e admiração que reconheço. É bom estar aqui, entre aqueles que compreendem a existência d’este lugar.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Use as palavras que fizerem sentido para você; não precisam ser rebuscadas, tampouco precisam ser comuns. Deixe que a Escrita guie teus dedos e teu coração; deixe que a Escrita se manifeste e, claro, envie para nós uma parte de seu diário sobre o que escreveste em Aesttera, para que possamos publicar na próxima edição do Castelo Drácula. Assim, você estará mais próximo de nós e d’este mundo único que estamos construindo.


Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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A Morte da Bacante

Corria o sangue feito rio, | Manchado pela ferrugem de um machado amolado. | Era uma dançarina, uma dionisíaca, | Uma sacerdotisa… 

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Corria o sangue feito rio, 
Manchado pela ferrugem de um machado amolado. 
Era uma dançarina, uma dionisíaca, 
Uma sacerdotisa… 
Uma ave da qual, à luz de Hélio, 
Roubavam céu e galho.  

“Perdoa-os, perdoa… finge perdoar!” 
Irrompe a vida, o deus. 
“Perdoar que nada!” 
Arderia a Grécia sem amor.  

Filho de Perséfone,
Vinho maturado, pisado com fé,
Ouvinte de Hermes…
És, dos fugintes, o senhor.

Líquido encorpado,
Corpulento, ambarado,
Baco, o mais vivo dos mortos,
Dá a eles o teu ardor!


Escrito por:
Lídia Machado

Vivendo por entre bibliotecas e saraus, desde o início de sua juventude a autora Lídia Machado vem tecendo íntima conexão com a poesia e com a escrita. Primariamente, cronista e fabuladora nas aulas de redação. Depois, aos quinze, jornalista estagiária as quais saía, de mototáxi – munida de coragem e de pouca bagagem profissional – rumo aos eventos da charmosa Limoeiro do Norte. Entrevistas, escrita e até mesmo o contato com antigos e leais assinantes do jornal. Também nascia, ali, o amor pela fotografia. Aos dezenove, iniciou como… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
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Capítulo 7: Coelhinho... O que fazes de mim?

A escuridão daquela noite me envolvia tal qual um abraço mortal, expulsando qualquer vestígio de sono. Desci em busca de um alívio…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A escuridão daquela noite me envolvia tal qual um abraço mortal, expulsando qualquer vestígio de sono. Desci em busca de um alívio, algo que me concedesse descanso. Na penumbra da cozinha, encontrei Ameritt — com seu olhar indecifrável e mãos delicadas preparando um chá. Ofereceu-me uma dose. Aceitei a oferenda sem hesitar. 

Mas, ao invés de conforto, cada gole parecia arrastar minha alma ainda mais fundo na tormenta. Sequer sei se era ela ou se pretendia causar mais sofrimento… só sei que aquele chá não trouxe paz alguma. 

*** 

Me vi observando alguns moradores de uma terra longínqua, seres interessantes e carismáticos. Muitos possuíam uma sensibilidade e melancolia sutil, que lhes conferia um aspecto pueril e misterioso. 

O fato é que não sei precisar se sonhei ou vivenciei aquelas cenas... Mas a essa altura da história, achas mesmo que isso seja relevante? 

Eram criaturas vivazes, pareciam estar se preparando para alguma festividade. Depois confirmei minhas suspeitas: realmente estavam às vésperas de um festival importante para a Cultura deles chamado Aesttera. 

Acompanhei em simultâneo o preparo do banquete e das vestimentas, como se estivesse fragmentada e pudesse estar onipresente em diversas cenas. O salão do banquete estava repleto de bandejas e copos com formatos peculiares, frutas secas dispostas em uma mesa vasta e havia jarras e jarras preenchidas com um líquido espesso da cor de um vinho bordô. As vestimentas eram semelhantes às roupas de época, como se eu tivesse sido transportado para algum momento importante do século XVII. 

As crianças, risonhas e ávidas por aventuras, divertiam-se com um objeto oval. Depois, compreendi ser uma flor, cujas pétalas eram retiradas uma a uma por diferentes crianças, sempre passando para a próxima a cada retirada. Parecia uma roleta-russa com objetivo menos mórbido, mas igualmente estranho. Creio que o intuito era descobrir algo no interior dela, mas não pude compreender o quê. O que havia dentro daquela flor peculiar? 

Foi quando o senti

Deslizando sob aquela população excêntrica, percebi a presença de um coelho humanoide, de pelos negros e olhos de um vermelho neon intenso. Foi o único que me viu — não apenas olhou, mas viu. Seu olhar inquisidor parecia desnudar os recônditos da minha alma e, por um instante, me senti indefesa de novo, como se estivesse em um lugar inóspito, além daquele festival. Não ousei dirigir-lhe a palavra. Algo dentro de mim sussurrava que ele já sabia tudo sobre mim. 

A névoa densa na mente obscureceu minha visão por um tempo, e quando recuperei o foco, ele estava mais perto. Muito mais perto. Seu sorriso, largo e imóvel, era mais do que uma expressão impassível — era uma fenda pictórica escancarada na própria realidade. Ele ria de mim? Seus dedos longos e rígidos tilintavam ao menor movimento, e só então percebi a horrível verdade: Seus membros eram feitos de ossos humanos, meticulosamente montados, encaixados e articulados como se tivessem sido esculpidos para ele. Seu tórax era uma jaula de costelas humanas, entrelaçadas como grades, e dentro dela algo pulsava, algo que não era dele. Algo vivo. Algo humano. Algo que me olhava de volta. Era eu.  

Quis correr. Juro que tentei. 

Mas, quando dei o primeiro passo para trás, ele sorriu ainda mais. E dessa vez, o sorriso não estava apenas no rosto. 

Estava em todos os lugares. 

Me invadindo. 

Me modelando. 

Descontruindo em 

Fragmentos que não se pode reaver. 

Acordei(?). Me vi no meu quarto no Castelo Drácula, só podia ser um sonho. Não é?! Olhos amarelos vieram cautelosos em minha direção e, quando pensei em gritar, reconheci Lisa, que me olhava assustada, como se soubesse dos flagelos que passei. 

*** 

Os olhos vermelhos luminosos daquela criatura infernal ainda me observam, persistentes, assombrando não só minhas noites, mas também meus dias. Nunca se aproxima, apenas espreita, sempre à espreita. 

Ouço o bater do coração dele — que é o meu rosto — os ossos fazem sons como se rangidos de dentes ferozes estraçalhassem uma presa. 

Eu não devia ter tomado aquele chá de maçã. Havia algo nele… algo além do doce aconchegante, algo oculto sob o sabor acolhedor. Algo que agora me consome! 

E desde então não encontrei mais a Ameritt. Era mesmo ela?!!! 

As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Sussurros da Meia-Noite & Profecia do Ovo Cósmico

Nas sombras da meia-noite ecoa o véu, | Sussurros antigos de um segredo perdido, | O ovo cósmico, de poder contido, | Revela o destino que à morte é fiel…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Nas sombras da meia-noite ecoa o véu,
Sussurros antigos de um segredo perdido,
O ovo cósmico, de poder contido,
Revela o destino que à morte é fiel.

Nas danças febris, o tempo se desfaz,
O sangue flui, misturado à agonia,
Em cada passo, a dor é melodia,
No ciclo eterno que a vida refaz.

Sob as estrelas, a profecia se tece,
Em línguas antigas, um eco a brilhar,
Os láparos dançam e a terra padece.

O ovo aguarda o momento de se abrir,
A escuridão, seu ventre a dilatar,
No destino final, a morte vai existir.

Sob o véu do Outono, em festa sombria,
Danças e máscaras tecem o destino,
Homens e mulheres, num rito divino,
Clamam pela luz que o inverno desvia.

O vinho da Maçã Sangrenta, escarlate,
Inunda as taças com doce agonia,
Lábios se embriagam de tal melodia,
Enquanto a terra exala seu combate.

Crianças colhem flores de sorte incerta,
Ovaeren ocultas em campos de dor,
Promessa de vida, renovo e calor.

Mas o vento sussurra em porta entreaberta:
A renovação carrega um alto preço,
Pois toda colheita tem seu fim em apreço,
O ovo do pecado cósmico,
No âmago sombrio da antiga floresta,
Onde o vento sussurra um canto profano,
De um ovo escorre o sangue insano,
Derrama o destino que o mundo detesta.

No breu do líquido doce e ferrugem,
Uma máscara surge em madeira maldita,
Sussurrando promessas de dor infinita,
Selando o destino de quem dela se aproxime.

Laparus era seu nome, outrora homem,
Mas a maldição do ovo o fez bestial.
Em olhos negros, um abismo mortal,
E em suas patas, a foice que consome.
A Foice do Juízo Laranja,

Sussurro da máscara de suco da vida,
Na penumbra das catedrais esquecidas,
Onde os vitrais choram sombras e dor,
Laparus, com sua foice ceifador,
Caça os daemons, almas corrompidas.

A máscara sussurra em voz de trovão,
Promessas de poder e eterna vingança,
Mas cobra um preço: da alma, a esperança,
Tornando o coelho a própria escuridão.

Cada golpe que desfere em corpos profanos
Faz brotar chocolate e sangue impuro,
Doce ironia de um destino obscuro,
Redenção tingida de gritos insanos.

Nos ecos do templo, os padres apodrecem,
Enquanto os demônios na morte florescem.
O bispo das mil línguas,
Ao vilarejo perdido e profanado,
Onde a névoa é profana,

E os sinos ecoam em tons de lamento,
Surge um bispo horrendo, vil tormento,
Com mil línguas cuspindo praga insana. 

Seus coroinhas, mortos em servidão,
Arrastam-se em filas, esqueléticas sombras,
Cantando hinos que a carne desonra,
Uma liturgia de pura corrupção.

Laparus avança, foice em punho,
O chão retumba sob suas patas ligeiras,
A máscara o guia com promessas traiçoeiras,
Enquanto a noite revela o último punho.
Nas alturas, onde o céu toca o abismo,
Uma deusa vigia o destino das eras,
Zorya Polunochnaya, guardiã das esferas,
Tecendo segredos em véus de mutismo.

Laparus escala montanhas de sombras,
O vento cortando sua pele de ébano,
A máscara arde com brilho insano,
Enquanto a meia-noite as trevas assombra.

Zorya, em um manto de estrelas brilhantes,
Ergue a mão, o tempo parece estancar,
Seu olhar atravessa o coelho errante,
Do ovo brota a vida e a morte a pairar,
Pois teu fado, Laparus, é o fio constante,
Que tece e corta mundos a se revelar.

Elyni adentra a caverna do devorador
Na beira do abismo, onde o ar é mortal,
Elyni surge, de rosto impassível,
Seu semblante, embora sereno e sensível,
Revela segredos de dor ancestral.

 “Laparus,” murmura, sua voz como vento,
“Teu fado é sombrio, mas não estás só.
Conheço o pesar que te marca com nó,
Pois já vi tantos láparos ao tormento.”

Com mãos cuidadosas, ela o consola,
Seus dedos tocando a máscara fria,
E no coelho, um lampejo de agonia,
Enquanto descem à caverna que imola.
Azgalor os aguarda em seu covil profundo,
Um monstro que devora o fio do mundo.
Sob galhos vermelhos, em cinza envoltos,
Encapuzados dançam em rito profano,
Máscaras frias ocultam o arcano,
Com olhos de coelho, vorazes, revoltos.

O vento sussurra segredos do além,
Folhas cruas estalam no chão apodrecido,
E cânticos fluem em tom proibido,
Como se os mortos clamassem também.

O néctar sangrento nas taças fumega,
Mistura de vida e dor que embriaga,
O aroma de ferro no ar se propaga,
E o vinho, ao descer, como fogo me cega.
Em torno das chamas, os passos em trilha,
Um presságio pulsando nas mãos que partilham.

Por entre danças, máscaras se erguem,
Sussurros brotam do chão revolvido,
Segredos no vinho, o cântico perdido,
Sombras que o olhar mais atento perseguem.

O néctar das flores encharca as bocas,
E os passos em círculos formam o selo,
No vento, palavras que roçam o pelo,
De Laparus e Elyni, em verdades ocas.

As velas vacilam; o chão se abre lento,
Um portal oculta-se sob os encapuzados,
Seu brilho vermelho, um eco sangrento.

Elyni percebe os láparos usados,
Sacrificados ao rito profético,
E grita ao coelho, num tom cético:

“Esse ciclo é mais antigo que teus erros;
A dança marca o retorno dos destroços,
Pois o Ovo Cósmico guardava terrores,
E as máscaras são os seus olhos atrozes!”

No véu da dança, o temor é desejo,
O vinho embriaga a alma supersticiosa,
Sob máscaras mórbidas, voz sinuosa,
Chama à comunhão num ritual ensejo.

Os passos, febris, ressoam no chão,
E as máscaras tornam-se faces reais,
Coelhos soturnos, dos mundos astrais,
Testemunhas de uma oculta criação.

O frio murmura promessas no vento,
O sacrifício, preço de fertilidade,
Sangue e canto fundem-se em dualidade.

O inverno se ergue em um vago lamento,
Mas Aesttera grita contra o destino,
Renovar na morte o ciclo divino.

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Velas Para Dezembro

Repartir as flores, espanar o mármore… | adornar aquele nome, | ofuscado na poeira. | Dar, ao ontem, um regalo…

2 minutos de leitura

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Repartir as flores, espanar o mármore…
adornar aquele nome,
ofuscado na poeira.
Dar, ao ontem, um regalo.

Quantas vidas teria vivido?
Quantas horas de brusco encontro?
Quantas idas ao mercado?... O relógio parou.

Dorme, sepultado em pedra.
Dorme, mas sempre me deixa
recado.
“estive por mim… vivi e ousei;
soube amar!”

Fora cristalizado em pleno vôo,
o pássaro,
no âmbar de um dezembro passado.
E a chuva, maldosa,
inquietava às ondas e
escondia o luar.

Fora, ele, um peixe
na contra-correnteza.
Um quase general.
Tão pouco sabia odiar…

Bem conhecia o outro lado
da moeda e da história.
Escarrava aos reizinhos, filosofava no botequim,
com o bandolim de um amigo
a cantar.

Sonhava, em fôlego de Homero,
com o sopro morno
do litoral.
Com a liberdade
e a ventania
sacra
que surge da bruma do mar.


Escrito por:
Lídia Machado

Vivendo por entre bibliotecas e saraus, desde o início de sua juventude a autora Lídia Machado vem tecendo íntima conexão com a poesia e com a escrita. Primariamente, cronista e fabuladora nas aulas de redação. Depois, aos quinze, jornalista estagiária as quais saía, de mototáxi – munida de coragem e de pouca bagagem profissional – rumo aos eventos da charmosa Limoeiro do Norte. Entrevistas, escrita e até mesmo o contato com antigos e leais assinantes do jornal. Também nascia, ali, o amor pela fotografia. Aos dezenove, iniciou como… » leia mais
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4 Narrativas Envolventes de Pablo Henrique

É inegável que, ao debruçar-se sobre as letras do ilustre autor Pablo Henrique, o leitor se vê enredado em uma tapeçaria primorosamente urdida…

Imagem do autor, editada.

É inegável que, ao debruçar-se sobre as letras do ilustre autor Pablo Henrique, o leitor se vê enredado em uma tapeçaria primorosamente urdida, onde a narração, de finíssima textura, entrelaça-se com a profundidade do pensamento e a magnetizante essência de sua personagem. Quanto mais se avança por suas publicações, mais se anseia embriagar-se em suas palavras, mais se deseja percorrer o caminho meticulosamente traçado por sua pena inspirada. Do prólogo ao epílogo, sua intensidade revela-se inequívoca, como um artífice que maneja o cinzel com exímia destreza, esculpindo a alma do leitor com cada frase.

Em sua jornada pelas augustas galerias do Castelo Drácula, Pablo Henrique tem desvelado, pouco a pouco, sua maestria na arte da escrita, dominando com galhardia as emoções e dando forma concreta às mais etéreas ideias.

Eis aqui as Crônicas que foram cuidadosamente selecionadas para vosso deleite, pois nelas me vi, eu próprio, cativo e absorto, como quem se perde em um jardim de delícias literárias. Este post é-vos dedicado, para que possais, inevitavelmente, encontrar-vos enlaçados nas apaixonantes narrativas de nosso estimado autor. Que o deleite que me assaltou ao lê-las vos alcance com igual intensidade, pois cada linha aqui presente foi urdida com engenho e arte, digna de apreço e admiração.

Um Forte Amplexo Obscuro
Aslam E. Ramallo

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Imagemxuberante

Mais uma foto que meu peito agita… | E tudo o que fazia, agora, estanco. | Imagemxuberante, tão bonita… | De cores vivas (mesmo em preto e branco)…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Mais uma foto que meu peito agita…
E tudo o que fazia, agora, estanco.
Imagemxuberante, tão bonita…
De cores vivas (mesmo em preto e branco).

Enquanto a inspiração me solicita,
Somente um movimento estou pensando:
Tentar aqui deixá-la por escrita,
Gravar o que a beleza está causando…

Um jeito de externar o que me gera…
Pior seriam minhas provações,
Não fosse o exercício de escrever…

Pois o que mais me custa é toda a espera…
Que sejam muitos anos, estações,
Outonos necessários pra te ver…


Escrito por:
Wallace Azambuja

Wallace Azambuja vive em Porto Alegre e estuda Letras na UFRGS. Sua paixão por sonetos é intensa e sua maior produção literária atual está voltada à escrita deste clássico formato poético. Atraído pelo mistério e profundidade da Literatura Gótica, o autor participou do Desafio Sombrio 2023, onde mostrou seu talento para o estilo obscuro e, também... » leia mais
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Ardente

Era quase madrugada, e o alvoroço na casa da rua não cessava. Henrique pegou a arma que guardava no cofre e caminhou até a janela…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Era quase madrugada, e o alvoroço na casa da rua não cessava. Henrique pegou a arma que guardava no cofre e caminhou até a janela para investigar. Ele era um homem metódico, de olhar afiado, qualidades forjadas em anos de serviço militar exemplar. Nada lhe escapava — exceto, talvez, o preço que essa rigidez cobrava. Seu temperamento afastara todos que um dia cruzaram seu caminho, deixando-o sozinho, amargurado, corroído pela felicidade alheia. 

A alegria dos vizinhos, tão tarde da noite, era algo intolerável. Aquela algazarra precisava acabar. Em um mês, ele perdera a conta de quantas vezes fora dormir com horas de atraso, mais do que podia contar nas mãos calejadas e enrugadas. Sentia nelas o peso da arma, sua fiel companheira dos tempos de glória. Agora, ela carregava tanto o fardo de sua existência quanto a honra que restava de seus dias como major. Jamais a abandonaria — era tudo o que lhe sobrava. 

Pela janela imunda, a três casas de distância, avistou os malditos. Todas as noites era assim: eles se postavam na porta, estáticos, e, pontualmente às 23:45, a entrada se abria. Entravam, mas nunca saíam. No dia seguinte, outros apareciam para perturbar seu sono. Após inúmeras chamadas, a polícia finalmente apareceu — mas também não voltou. A viatura seguia lá, exposta ao sol e à chuva, há dias. 

Naquela noite, a porta se abriu novamente. As figuras desapareceram no breu do interior, mas, dessa vez, ela permaneceu escancarada. Seria um convite? Com a arma nas mãos, sentia-se forte, jovem outra vez. Poderia ir até lá e pôr fim àquela festa. Refletiu por um instante, mas decidiu não se expor. Ainda tinha um nome e uma honra a zelar, por mais tentadora que fosse a ideia de silenciar os arruaceiros. 

No domingo, acordou convicto de que teria paz. Era um dia em que as pessoas descansavam, ficavam em casa. Tudo correu bem até a noite, quando um estrondo vindo da frente o arrancou de um cochilo. Pegou o tablet que exibia as câmeras da casa e viu um adolescente parado perto do portão, encarando fixamente a direção da casa dos baderneiros. 

Era o estopim. Não toleraria uma criança malcriada chutando sua propriedade. Abriu o cofre, apanhou a arma e correu à janela da entrada. Chegou a tempo de ver o garoto atravessar a rua e se juntar à multidão diária diante do imóvel. Todos, imóveis, fitavam a porta. 

Ela se abriu mais uma vez. A escuridão do interior parecia engolir a da rua, como um buraco negro. O grupo entrou sem hesitar. Henrique já não sabia se queria punir ou salvar o menino, mas tinha certeza de que precisava tirá-lo dali. Preparou a arma, puxando o ferrolho, e avançou até o imóvel, cuja porta aberta o aguardava, mergulhada em um breu absoluto. 

Diante do batente, encarou a escuridão. Mesmo a um braço de distância, nada conseguia enxergar. Uma fraqueza, que outros chamariam de medo, atravessou sua mente. Poderia estar entrando em uma armadilha, mas não recuaria. Resgataria o garoto e, se necessário, acabaria com os arruaceiros. 

Ao cruzar o limiar, a escuridão o envolveu, roubando-lhe os sentidos. Caminhou às cegas pelo que pareceu uma eternidade, até que uma luz discreta surgiu no horizonte, atraindo-o como uma mariposa. Era uma árvore colossal, ardendo em chamas que lambiam galhos e folhas sem os consumir. Centenas de pessoas — talvez quinhentas — observavam, hipnotizadas, babando, tremendo, algumas à beira da inanição. 

Empurrando a multidão, chegou ao pé da árvore. Lá estava uma mulher imponente, vestida com trajes religiosos chamuscados, segurando um tomo enorme do qual lia incessantemente. De repente, ele notou: seus olhos estavam cobertos por um pano sujo de sangue. Aquilo era uma seita, percebeu. E ele não tinha munição suficiente para enfrentá-la. 

Algo se moveu entre os galhos. Um animal o encarava — semelhante a um macaco de pequeno porte, mas grotescamente deformado, com a pele derretida em uma massa disforme de músculos e tecidos. Mostrou os dentes afiados e correu pelos galhos, numa clara ameaça. 

Horrorizado, Henrique ergueu a arma e disparou todo o pente, acertando o ser três vezes. O grito de agonia ecoou, e a resposta veio rápido. Um titã, oculto entre as chamas e as folhas, desceu da árvore para proteger sua cria. A criatura, semelhante a um gorila monstruoso e igualmente deformado como o filhote, aterrissou, esmagando os hipnotizados mais próximos. Sua bocarra soltou um rugido que estourou os tímpanos de todos ali. 

Surdo e horrorizado, Henrique tentou atirar em vão. A entidade o agarrou como se fosse um brinquedo frágil, erguendo-o até sua face. Parecia avaliá-lo — seria comida ou algo mais? O fedor de sua respiração o sufocava, forçando-o a encarar as escolhas de uma vida rígida, vazia de afeto. O fim chegara, e ele sabia. 

Com facilidade, o monstro escalou a árvore colossal, levando-o ao ninho. Henrique nunca mais foi visto. A casa, até hoje, segue atraindo pessoas, e a porta permanece aberta, esperando. 


Escrito por:
Luiz E. Marcondes

Luiz E. Marcondes é um escritor brasileiro de literatura de terror cósmico e psicológico. Desde jovem, sempre foi curioso sobre a mente humana. Formou-se em Psicologia Comportamental e Existencial e faz uso de sua formação profissional para agregar mais complexidade e valor aos textos que escreve. Apaixonado por uma variedade de gêneros literários... » leia mais
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O Degelo da Rosa

É o medo de nadar no lago, | e afundar no raso, | e morrer sem ar. | É o medo de inundar o peito, de fôlego e de amor, | E findar no nada, | e, no oco do inferno…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

É o medo de nadar no lago,
e afundar no raso,
e morrer sem ar.
É o medo de inundar o peito, de fôlego e de amor,
E findar no nada,
e, no oco do inferno, praguejar e sangrar.

É a vida abrindo à víscera da morte;
O ontem, o hoje — o medo, a sorte —,
todos os cheiros e as linhas tortas do amanhã.
A brutalidade do ar.
A ferida, salgada, inflamando,
apodrecendo, desconcertando,
pra depois curar.

É o inverno dos dias encontrando a aurora,
funeral que se encerra
em chuva mansa, prato quente e botão de rosa.
O abismo dessa terra dourada,
abrindo-se com graça,
nos desafiando a pular.


Escrito por:
Lídia Machado

Vivendo por entre bibliotecas e saraus, desde o início de sua juventude a autora Lídia Machado vem tecendo íntima conexão com a poesia e com a escrita. Primariamente, cronista e fabuladora nas aulas de redação. Depois, aos quinze, jornalista estagiária as quais saía, de mototáxi – munida de coragem e de pouca bagagem profissional – rumo aos eventos da charmosa Limoeiro do Norte. Entrevistas, escrita e até mesmo o contato com antigos e leais assinantes do jornal. Também nascia, ali, o amor pela fotografia. Aos dezenove, iniciou como… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Pergaminho de Pesach

Na calada da noite, Arale Fa’yax se viu diante de um pergaminho envelhecido, encontrado casualmente próximo à cenoura do jardim do Castelo Dracula…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Na calada da noite, Arale Fa’yax se viu diante de um pergaminho envelhecido, encontrado casualmente próximo à cenoura do jardim do Castelo Dracula. O pergaminho, em suas mãos delicadas, parecia pulsar com uma energia antiga, como se carregasse o peso de mil segredos esquecidos. Ela o desenrolou e leu, recitando as palavras enigmáticas que dançavam entre as linhas. 

"Fluideco sangvinen en Esperanto..." 

Aquelas palavras antigas e sombrias reverberaram em sua mente, atravessando o véu entre mundos. O chão abaixo de seus pés cedeu, e ela caiu em um abismo profundo, onde os ecos de sua própria respiração eram a única companhia. Quando finalmente abriu os olhos, não estava mais no jardim, mas em uma terra estranha e perturbadora. 

Diante de Arale, uma vila festiva celebrava a Páscoa, com danças e risos. Mas havia algo errado — as máscaras, o brilho nascendo da dor, os olhares vazios. Tudo era uma fachada. Ela não entendia ainda, mas sabia que estava diante de algo terrível. A sensação de pesadelo era palpável entre as sombras. 

Surgiu um ser: Laparus, o coelho amaldiçoado, com seus olhos de ébano refletindo a escuridão do próprio universo. Ele a encarava — a foice em suas patas trêmulas, pronta para a batalha. 

A luta foi brutal, sangrenta. Laparus avançou com fúria, os golpes de sua foice cortando o ar com um som metálico. Arale, com reflexos rápidos, desviava, esquivando-se das lâminas afiadas que quase a rasgavam. Cada golpe de Laparus era uma explosão de fúria primal, enquanto Arale, com seus movimentos ágeis e mortais, procurava um ponto fraco, defendendo-se com seu machado. O solo estava coberto de sangue, a atmosfera saturada com o cheiro da morte. 

— Você não me conhece! — gritou Laparus, sua voz um eco de sofrimento. 

— Não pode me entender! 

Mas Arale não recuou. Ela sabia que aquela luta não era apenas sobre vencer, mas sobre quebrar as correntes que prendiam os dois. O combate se tornou uma dança de pura violência, um turbilhão de raios e sombras. Laparus, exausto e ferido, começou a vacilar. Sua foice, antes certeira, perdeu o ritmo. 

Foi quando a verdade se revelou: o espólio de suas almas entrelaçadas, como destinos torturados, tornou-se claro — não eram inimigos, mas vítimas de um mesmo ciclo de sofrimento, maldição e dor. 

Elyni, a guardiã dos láparos, apareceu nas sombras. De semblante sério, porém gentil, olhou para Arale e Laparus com um misto de tristeza e entendimento. 

Ela estendeu a mão, e os dois, exaustos e sujos de sangue, a olharam sem palavras. 

— A verdadeira luta não é entre vocês — disse Elyni, sua voz suave como o vento. 
— É contra o mal que corrompe este lugar. O Ovo Cósmico, aquele que vocês estão lutando para encontrar, é a chave. A criatura que o protege, Azgalor, devorador de almas, não será vencida em batalha, mas com união e compreensão. 

Arale e Laparus trocaram olhares de dúvida, mas algo os uniu — algo que foi além do instinto de luta. Avançaram em direção à caverna de ametista, onde a criatura diabólica os aguardava. Ali, um abismo se abria diante deles — tão profundo que a escuridão parecia devorar até a luz das estrelas. 

Dentro da caverna de ametista, Azgalor os aguardava. Sua forma monstruosa era retorcida, uma amalgama de sombras, ossos e olhos vermelhos como brasas, que brilhavam com um ódio imensurável. A batalha foi feroz, a terra tremendo sob seus pés enquanto Azgalor os atacava com garras afiadas como lâminas de aço. 

Mas Arale, Elyni e Laparus — unidos por um vínculo de destino — enfrentaram o monstro com força renovada. Cada golpe, cada movimento, era um passo em direção à liberdade. Eles perceberam que, ao trabalharem juntos, suas habilidades e forças se complementavam de maneira perfeita: Laparus com sua foice, Arale com seus rápidos reflexos, e Elyni com suas garras e sabedoria ancestral. 

Finalmente, após uma luta sangrenta e desesperada, o Devorador de Almas foi derrotado. Azgalor caiu, seu corpo se desfazendo em poeira negra — e, com ele, a maldição que aprisionava a vila. A realidade desmanchou todas as correntes daquela sofrida vila desértica. 

Elyni, Arale e Laparus, exaustos mas vitoriosos, se abraçaram, compartilhando um momento de silêncio profundo. A realidade ao seu redor começou a mudar — as máscaras caíam, e a vila era iluminada pela verdadeira luz do renascimento. 

Quando a batalha acabou, Arale, com uma expressão de paz no rosto, olhou para o céu. 

Após a batalha, quando o último vestígio da escuridão foi dissipado, uma luz suave e radiante envolveu os três heróis — Arale, Elyni e Laparus. O céu, antes opaco e sombrio, se abriu em tons dourados, e uma figura imponente apareceu diante deles, flutuando acima da terra agora purificada. Era Ostara, a Deusa da Primavera, da Fertilidade, do Renascimento e do Amor. 

Ela surgiu como um raio de luz divina, com cabelos dourados que pareciam capturar os primeiros raios de sol da estação que nascia. Ostara, com seu manto verde e florido, simbolizava a renovação da vida, a abundância da terra e a promessa de que, após a morte e o sofrimento, sempre viria o florescer. 

Seus olhos, azuis como o céu de um amanhecer primaveril, se fixaram nos três heróis que, embora exaustos, ainda estavam imersos no poder da vitória. 

Ostara levantou suas mãos, e do solo brotaram flores, árvores frutíferas e riachos frescos, como uma bênção direta para o povo da vila. O aroma doce das flores invadiu o ar, misturando-se à brisa suave que espalhava a promessa de uma nova era. 

— Vocês, que lutaram contra a escuridão e a tirania, agora têm a minha bênção — disse Ostara, com voz suave e cheia de poder. — Eu sou a Deusa que celebra o equinócio da primavera, o equilíbrio entre luz e sombra, e a ascensão da vida. Através de vocês, a liberdade foi trazida àqueles que sofriam. Agora, meus filhos, tomem o meu presente. 

Em suas mãos, Ostara segurava um ovo brilhante, ornamentado com símbolos de fertilidade e ressurreição. O ovo foi oferecido a Arale, que o recebeu com reverência. Ela sabia que aquele ovo era mais do que um simples símbolo — ele carregava o poder da deusa, capaz de regenerar e restaurar a vida para aqueles que mais precisavam. 

— Este ovo — continuou Ostara — é a chave para a fertilização das terras e dos corações daqueles que estavam sob a tirania. Ele trará uma nova era de prosperidade, liberdade e abundância para o povo desta vila. Que a primavera floresça onde antes havia fome e escuridão! 

A vila, antes desolada e oprimida pela fome e pela escravidão, começou a mudar diante dos olhos dos heróis. Os campos de terra árida começaram a florescer, os rios que haviam secado voltaram a se encher, e os habitantes da vila, libertos do jugo da opressão, se reuniram em festa, celebrando o milagre que acontecia diante deles. Rios de alegria e gratidão se derramaram por toda a vila, enquanto danças e cânticos se espalhavam pelos campos agora verdes. Havia, sobre um tronco ao lado da deusa, uma coroa de espinhos sobre o altar. 

Ostara, com um sorriso terno e acolhedor, tocou as cabeças de Arale, Elyni e Laparus, e uma luz cálida os envolveu. 

— Que sua jornada continue com coragem e sabedoria, e que a primavera sempre os acompanhe. 

E, como se a própria terra tivesse absorvido a bênção da Deusa, Arale, Elyni e Laparus sentiram uma renovada energia interior. Eles sabiam que não estavam mais sozinhos. A Deusa Ostara os havia marcado com sua bênção, guiando-os para novos desafios, para novas lutas — mas sempre com a certeza de que, após a escuridão, a luz sempre retorna. 

Assim, com o ovo em mãos, Arale retornou ao jardim do Castelo Dracula, sabendo que o verdadeiro renascimento não era apenas sobre florescer na primavera, mas sobre transformar a terra onde pisamos e as almas que tocamos. 

Ela observava o ovo, ainda quente com o poder da Deusa, refletindo sobre a luta, a amizade e a força do renascimento. Era a promessa de que, como Ostara, a vida sempre encontraria um caminho para florescer, mesmo nos lugares mais sombrios. 

Ela sabia que a luta contra as sombras nunca terminaria, mas, naquele momento, no silêncio da noite, ela tinha vencido. Tinha encontrado a força — não em sua luta sozinha, mas na amizade, na confiança e na união. 

E o ovo de chocolate que ela segurava, doce e perfeito, era a promessa de que, apesar da dor, sempre haveria renascimento. 

Lembrando que, no epicentro da festividade onde antes havia trevas, agora surgia uma aura de esperança: uma chama azul e violeta brilhava, e ela tinha em mãos um ovo de chocolate — o símbolo do ciclo de vida e renascimento. O vilarejo estava a salvo, e a realidade restaurada. 

Mas o caminho de Arale ainda não estava concluído. Ela retornou ao jardim do Castelo Dracula, o pergaminho em suas mãos, o ovo de chocolate como prova de sua jornada. Seu coração batia com a mesma energia da vida que fluía através de suas veias — pronta para o que viria a seguir, selando mais um pergaminho em sua máquina de escrever de ossos. 

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
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Mudança compulsória

Dizem que sou reclamona. Eu concordo. Mas discordo quando insinuam que essa característica é “má”. Não se acomodar com as situações adversas é que…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Dizem que sou reclamona. Eu concordo. Mas discordo quando insinuam que essa característica é “má”. Não se acomodar com as situações adversas é que faz o mundo evoluir... Ou você acha que se o homem estivesse contente até hoje em andar a cavalo ele teria inventado o carro? O ser humano só muda quando algo o incomoda. Muda para benefício próprio. Por conforto. 

Outrossim, concordo que tudo que é descomedido torna-se insuportável. Eu sou descomedida. Consequentemente, insuportável. Mas nem sempre me vejo como uma criatura desprezível e isso não interfere na minha capacidade de conviver nessa sociedade — tão desprezível quanto —, mas inconsciente de tal condição. 

Sobre os incômodos e mudanças do homem é assustador, porém libertador, quando percebemos que é exatamente assim: a mudança deriva de alguma necessidade intrínseca de cada um. Não tem nada a ver com altruísmo e caridade. Somente interesse. As exceções se dão quando o indivíduo o faz sem ter a plena consciência de seu interesse, acreditando que tudo ocorreu devido à sua própria capacidade de ser bom”

Não é pessimismo. É a verdade estridente que nós, se não fôssemos tão românticos, a ouviríamos clara e intensamente. Mas acredito que muitos irão se escandalizar. Normal. Outros dirão que é um absurdo qualquer imbecil dizer-lhes que não agem por bondade. Não julguemos, não é isso o que faço. Só lhes digo que se quiserdes enxergar as coisas mais nitidamente é imprescindível deixarem de lado estereótipos e paradigmas. Este é o começo de qualquer mudança. Deixar de lado o eu utópico e a hipocrisia e, ao menos uma vez, ser sincero consigo. 

Ademais, na qualidade de humana, eu também sou interesseira, não me coloco à margem de tal condição. Uns tendem a comparar o quão interesseiros são, como se fizesse alguma diferença. Outros terão a capacidade de se acharem “interesseiros, mas por uma boa causa”, mesma coisa que justificar um massacre. Se for para o bem, tudo podem, assim acreditam. 

Seja como for, haja o que houver não poderíamos e nem conseguiríamos mudar o curso dessa embarcação. Não é a minha força de vontade ou meus desejos que fazem as coisas acontecerem, pois são tudo coisas abstratas, será que não entendem? É preciso me apossar de um remo, utilizar meus braços e remar. O Remo por si só também não pode agir. Bem que ele tenta, mas coitado, ele não consegue. Bem que ele queria que seu imensurável “querer” se transformasse em ação. O seu “querer” não é a consumação de sua existência. Ele precisa de alguém para utilizá-lo. Ele precisa de alguém para que seu destino seja consumado. 

O quão esforçados somos! Admira-me a nossa tendência para acharmos o melhor em nós mesmos e o pior nos outros. Se falássemos que os outros são interesseiros concordaríamos imediatamente, mas quanto a nós... Justificar-nos-íamos.  

Contudo, as coisas precisam ser dessa forma. O mundo precisa continuar em sua órbita normalmente. Não queremos que as mudanças, por vezes compulsórias, nos façam como terráqueos-extraterrestres. É muito ruim ser um extraterrestre, melhor ser só terráqueo, igual aos demais. Tudo igual. É sempre melhor ser primitivo. Ser egoisticamente troglodita é sem dúvida melhor! 

Melhor continuar tudo como está?! 


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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As 10 Mais Terríveis Lendas Urbanas do Mundo

Lendas urbanas são narrativas misteriosas, por vezes macabras, que circulam entre as pessoas…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O que são lendas urbanas?

Lendas urbanas são narrativas misteriosas, por vezes macabras, que circulam entre as pessoas, contadas de boca em boca, adaptando-se ao tempo, ao lugar e aos medos de cada geração. Diferente dos mitos ancestrais, essas histórias têm um pé no cotidiano, como se pudessem acontecer com qualquer um — com você, com alguém da sua rua, com uma prima da sua vizinha. São, muitas vezes, ambientadas em cidades, escolas, hospitais, estradas ou casas comuns. Elas carregam o poder do “quase-verdadeiro”, provocando aquela sensação inquietante de que poderia ter acontecido e que talvez tenha mesmo acontecido

Embora muitas dessas histórias pareçam fictícias, é difícil dizer que são mesmo pura fantasia; elas revelam verdades emocionais e sociais profundas, funcionando como espelhos obscuros das ansiedades humanas: medo da morte, da solidão, da violência, do desconhecido. A beleza sombria das lendas urbanas está no modo como elas grudam na memória, como uma sombra atrás da porta entreaberta. Mas a verdade é que, sendo ou não reais, elas são capazes de tirar o nosso sono à noite. 

Veja abaixo a lista das mais terríveis lendas urbanas do mundo.

1. A Mulher de Branco (diversas versões pelo mundo)

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Ela caminha à beira das estradas como quem busca o que nunca será devolvido: um filho perdido, um amor que se partiu, um destino violado pelo peso do mundo. Presente em inúmeras culturas, a Mulher de Branco é uma assombração universal, como se o luto feminino tivesse escolhido um único vestido para atravessar séculos e continentes. Dizem que aparece nas noites em que a neblina roça o chão como véu de noiva esquecido. Chora, murmura nomes, estende o braço em busca de carona — e se você a olhar duas vezes, será tarde demais. Em 1995, no interior de Ohio, uma mulher chamada Charlotte relatou ao jornal local que o marido parou o carro para uma jovem vestida de branco. Desde aquela noite, ele não é mais o mesmo. Sonha com gritos afogados, acorda suando em pleno inverno, e diz — quando tem coragem — que ela ainda está sentada no banco de trás. O mais estranho? O carro nunca mais fechou direito aquela porta.

2. O Homem do Saco (Brasil)

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Poucas figuras do imaginário popular brasileiro são tão temidas quanto o Homem do Saco. Embora muitos o considerem parte do folclore infantil — uma invenção para disciplinar crianças traquinas — há um lado mais escuro dessa história que paira como uma névoa pesada sobre bairros antigos, principalmente nas periferias urbanas. Dizem que ele perambula pelas ruas com um saco imenso nas costas, recolhendo crianças desobedientes, desaparecendo com elas sem deixar rastros. Mas há relatos que transcendem o didatismo e mergulham no terror puro. Na Zona Leste de São Paulo, quando eu ainda era pequena, algo aconteceu que nunca mais saiu da minha memória. O Lucas, filho da vizinha, contou que viu “um homem estranho com um saco” passando pela frente da nossa rua. Avisou a mãe, assustado. E ela, ao olhar pela janela, enxergou um velho de andar irregular, carregando o tal saco. Mas o que realmente a fez chamar a polícia não foi a aparência dele — foi o movimento dentro do saco. Algo se contorcia lá dentro. Algo pequeno, algo... vivo. Segundo ela, parecia o tamanho de uma criança. A polícia veio, mas o homem já havia sumido. Naquela semana, não brinquei no quintal. Nem na próxima. E até hoje, ao ouvir passos arrastados pela calçada, eu ainda me arrepio, como se aquele Homem do Saco pudesse voltar, mesmo eu não sendo mais criança.

3. Bloody Mary (Estados Unidos)

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diante do espelho, à meia-noite, quando a casa adormece e o mundo parece conter a respiração, basta repetir seu nome três vezes: Bloody Mary… Bloody Mary… Bloody Mary. A tradição é conhecida — e temida. Mais do que uma brincadeira de escola, a lenda evoca o espírito de uma mulher injustiçada, enlouquecida pela dor ou pela fúria, que emerge do outro lado do vidro para ceifar o que lhe resta de justiça. Suas origens se entrelaçam com histórias antigas de bruxas queimadas, rainhas enlouquecidas pelo sangue e crimes silenciados à força. Em um antigo fórum do 4chan, há um relato que fez os olhos digitais da comunidade tremerem: um adolescente afirma que, ao realizar o ritual com dois amigos, algo real aconteceu. O espelho escureceu por dentro. Uma figura ensanguentada se formou; os cabelos pingavam como se tivessem sido lavados em carne crua — e então ela atravessou. Dois dos participantes, segundo ele, jamais acordaram. E desde então, ele não consegue mais encarar um espelho. Pois, quando o faz, seu reflexo carrega não apenas o peso do horror que viveu… mas uma companhia. Sempre ali, atrás dele, com os longos cabelos loiros molhados, como se nunca tivesse partido.

4. O Fantasma que Grita de Yokocho (Japão)

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Dizem que em certos becos de Tóquio, aqueles tão estreitos que o céu parece um corte fino acima da cabeça, há um espírito que não quer ser esquecido. Ele aparece apenas quando alguém caminha sozinho — o som dos próprios passos sendo a única companhia até que… se ouve o grito. Um grito tão humano, tão rasgado, tão repentino, que o instinto é fugir, mas o corpo simplesmente trava. A lenda — obscura até mesmo dentro do Japão — conta que o fantasma é de um homem brutalmente assassinado ali, no silêncio abafado da noite, e que ninguém ouviu seus últimos gritos. Por isso, agora, ele grita por todos os que não puderam. Grita até ensurdecer. Grita até enlouquecer. Um dos poucos relatos conhecidos envolve uma senhora que teria perdido completamente a audição após cruzar um Yokocho ao entardecer. Mas o estranho é que esse relato jamais se espalhou, como tantas outras lendas urbanas. Algumas pessoas afirmam que há esforços para silenciar a história, pois os becos atraem turistas e há interesses em manter as rotas “seguras”. Outros dizem que o fantasma não quer ser lembrado… ele quer ser ouvido. E quando grita, o que ecoa não é apenas o som de sua morte, mas o peso do mundo que não ouviu ninguém.

5. O Bebê Chorando no Beiral (México e América Latina)

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Poucas coisas são tão perturbadoras quanto ouvir um bebê chorar onde não deveria haver nenhum. E é exatamente isso que acontece em algumas noites abafadas nas cidades do México e da América Latina: um lamento frágil e insistente escorre dos beirais, dos telhados, das frestas entre o telhado e o céu. Quem ouve — principalmente mulheres — sente o coração apertar. O som parece vir de cima, de muito perto, como se um recém-nascido estivesse sozinho e em perigo. Mas o que espera no alto não é um bebê… é uma entidade. Algo que sabe imitar o desespero com perfeição. Dizem que quem segue o choro pode ser atacado por algo que não tem rosto, apenas mãos longas e uma fome antiga. Um dos relatos mais inquietantes circula de forma anônima sobre uma noite movimentada na famosa rua Álvaro Obregón, no México. Entre turistas e luzes, apenas uma mulher escutava o choro. O som era real para ela. Seus amigos a seguraram quando ela tentou escalar uma escada de serviço, convencida de que havia uma criança em apuros. E foi só quando ela desistiu… que ouviu. Uma risada gutural, densa como fumaça, seguida de uma voz grave que sussurrou ao seu ouvido: “Volta, mamãe.” Desde então, ela diz que o som do choro ainda a encontra, mesmo nas noites mais silenciosas, mesmo quando não há telhado acima.

6. O Boneco Robert (Estados Unidos)

Imagem da web

À primeira vista, é apenas um brinquedo: um boneco antigo de feições desbotadas, olhos vítreos e sorriso ausente. Mas por trás do pano costurado e do uniforme marinho, mora uma presença — algo que observa, reage e se ofende. O boneco Robert, atualmente preservado em um museu na Flórida, é conhecido por amaldiçoar aqueles que o desrespeitam. Visitantes afirmam que ele muda de posição quando ninguém está olhando, que seus olhos acompanham cada passo e, nas madrugadas mais silenciosas, pode-se ouvir um leve som: algo entre uma risada infantil e o ranger de juntas de pano seco. Embora sua origem seja americana, a lenda dos bonecos amaldiçoados atravessa fronteiras, como se existisse uma verdade universal no medo que sentimos diante de olhos inertes que parecem… vivos. Quase todo o país tem sua versão: um brinquedo que não aceita o esquecimento. E, às vezes, o horror não é lenda. Quando eu era criança — e isso ainda me pesa na memória — havia uma boneca da Eliana, do meu tamanho, que piscava para mim à noite. Diziam que era imaginação… até o dia em que ela mudou de lugar sozinha e, então, foi levada para o lixo. A infância, desde então, nunca mais foi exatamente segura.

7. O Zelador do Prédio abandonado (São Paulo)

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No ABC Paulista, em 1987, um prédio abandonado se erguia como uma sombra viva em frente a uma escola estadual. Seus andares vazios, janelas estilhaçadas e paredes cobertas de musgo atraíam os estudantes como um ímã sombrio — fosse pela adrenalina de uma invasão noturna, fosse pelo desejo de escapar da rotina escolar em festinhas proibidas. Mas logo os relatos começaram. Silenciosos no início, como cochichos entre colegas; depois, estampados no jornal interno da escola. Muitos afirmavam ter visto a mesma figura: um homem velho, magro, de semblante vazio e olhar opaco, carregando um molho de chaves que tilintavam como sinos de advertência. Ele surgia do nada e caminhava rápido, como se já soubesse onde os invasores estavam. Perseguia, correndo. E ninguém jamais quis descobrir o que acontecia se ele os alcançasse. Um rumor, persistente e cruel, dizia que o zelador assassinara uma aluna ali dentro, nos últimos anos de funcionamento do prédio — mas a história nunca foi comprovada. Ainda assim, o medo permaneceu. Muitos evitavam até olhar para o edifício ao atravessar a rua. E quem ousava invadir jurava ouvir as chaves tilintando no escuro, mesmo quando não havia mais ninguém ali. Eu, por mim, já vivi coisas estranhas demais em casas e prédios abandonados para duvidar. E você… já ouviu um som estranho ou viu algo terrífico em um lugar abandonado?

8. O Homem Rastejante (Rússia)

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Ninguém sabe ao certo quando a primeira história surgiu. Alguns dizem que foi em Vladivostok, nas madrugadas nevadas que abafam os sons do mundo. Outros juram tê-lo visto em Moscou, nas vielas onde o concreto apodrece lentamente sob o peso da memória soviética. Mas o que se repete em todos os relatos é a mesma figura grotesca, arrastando-se pelas sombras como se o chão fosse sua morada e não o castigo. Seu corpo é alongado, torto. A pele, quando visível, parece gretada, ressecada. Dizem que ele veste restos de roupas — trapos colados ao corpo, úmidos, exalando um odor que lembra umidade e carne esquecida. Mas o que realmente petrifica quem o avista é o som. Um estalo seco. Como galhos partidos ou vértebras rangendo em protesto. O Homem Rastejante não corre. Não grita. Não fala. Ele apenas se aproxima, como uma culpa antiga ou uma doença que se instala em silêncio. 

E há ainda os mais perturbadores relatos: aqueles que dizem que, se você olhar nos olhos dele, ele para. Por um segundo. O suficiente para que você sinta algo rastejando dentro de você. Há até quem diga que ele não machuca. Que ele apenas observa. Mas que, com o tempo, sua presença leva à loucura. 

9. Smile Dog (Lenda da Deep Web)

Imagem da web

Reza a lenda que existe uma imagem amaldiçoada, perdida nas profundezas da internet, conhecida simplesmente como Smile.jpg. À primeira vista, parece apenas uma fotografia digital toscamente manipulada — o retrato de um cachorro da raça husky siberiano, com olhos vidrados e dentes expostos num sorriso grotesco, quase humano, quase… consciente. Ao fundo da imagem, uma sala mal iluminada, como se tivesse sido montada num limiar entre o pesadelo e a realidade. Mas há algo mais. Algo que não se vê, mas se sente — um desconforto visceral, como se aquela foto olhasse de volta. Aqueles que têm a infelicidade de visualizar o arquivo alegam sentir-se imediatamente mal. Pesadelos vívidos começam naquela mesma noite, com o cão aparecendo à beira da cama, sussurrando — sim, sussurrando — palavras desconexas que apenas mais tarde revelam-se comandos. As vítimas relatam um declínio mental rápido: ansiedade insuportável, ruídos caninos na madrugada, um desejo incontrolável de compartilhar a imagem com outros. Como se o próprio Smile Dog implorasse — ou ameaçasse — ser espalhado, como um vírus faminto por atenção. 

Reza a lenda que quem se recusa a passar a imagem adiante enlouquece aos poucos, até sucumbir em silêncio. A foto em si é raramente encontrada. Alguns afirmam que ela muda de forma, outros que é deletada pelos próprios mecanismos da internet, como se a rede tentasse se proteger do que contém. Mas há quem diga que ela sempre retorna — enviada como anexo, ressurgindo em fóruns abandonados, em e-mails esquecidos… ou em sonhos. Porque, afinal, o Smile Dog não quer te matar. Não de imediato. Ele quer que você sorria com ele. Um sorriso largo demais. Um sorriso que não acaba nunca.

10. Slender Man

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Alto como uma árvore esquelética, esguio como um presságio, o Slender Man é uma entidade que encarna o silêncio absoluto do terror. Ele veste um terno escuro e antigo, como se estivesse perpetuamente pronto para um funeral que nunca acaba — talvez o seu. Seu rosto, ou melhor, a ausência dele, é uma superfície lisa e pálida, como um véu de porcelana esticado onde um semblante deveria existir. A ausência de olhos é o que mais perturba, porque ainda assim sentimos ser observados — não com pupilas, mas com algo mais profundo: com intenção. Ele é descrito frequentemente em pé entre as árvores, ao fundo de fotografias antigas, à beira de escolas, parques ou florestas. A princípio, um vulto. Depois, uma presença. Por fim, uma obsessão. As crianças são especialmente sensíveis a ele — e são, segundo as histórias, suas preferidas. 

Ele as convida em silêncio, aparece em sonhos, convence sem palavras. E desaparece com elas como se nunca tivessem existido. O mais apavorante não é o que ele faz, mas o que ele representa: o medo de ser observado quando se está só, a sensação de estar sendo caçado por algo que não precisa correr, porque já está à sua frente. Ele não sangra. Ele não grita. Ele não persegue da forma usual. Ele espera, pacientemente, até que você o note. E então… é tarde demais. Criado em 2009 em um fórum da internet, Slender Man ultrapassou as fronteiras do imaginário virtual e passou a ser visto, citado, temido — e até culpado. Casos reais de violência atribuídos a ele demonstram o quão tênue é a linha entre o mito e a mente. Pois o Slender Man não se alimenta de carne — ele se alimenta de crença. Quanto mais o temem, mais real ele se torna.


Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Flor da Lua

Coragem, amor, | pois a vida é ligeira em inundar o que vem vazio. | Cobre-te de ouro e falsa seda, | protege-te do espinho e perderá, também…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Coragem, amor,
pois a vida é ligeira em inundar o que vem vazio.
Cobre-te de ouro e falsa seda,
protege-te do espinho e perderá, também,
o perfume da flor.

Arruma tua vida,
remenda esse peito do estrago.
Quem foi teu desamor?
Quem és tu quando se desembrulha?
O que te traz o engasgo?

Borrei teu nome e arranquei, daquele crisântemo, toda a cor.
Removi-te de meus cadernos e tomei,
de volta,
a poesia pra mim.  

Cai um dado, arranha o peito,
morde o pano do travesseiro,
solve-se em raiva!
Mas coagula em amor, por favor…

Continua a remendar,
e confia na flor que o lírio dá,
ainda que lhe tome o ano todo,
E que descubra,
no amargo da culpa,
que há de regar.


Escrito por:
Lídia Machado

Vivendo por entre bibliotecas e saraus, desde o início de sua juventude a autora Lídia Machado vem tecendo íntima conexão com a poesia e com a escrita. Primariamente, cronista e fabuladora nas aulas de redação. Depois, aos quinze, jornalista estagiária as quais saía, de mototáxi – munida de coragem e de pouca bagagem profissional – rumo aos eventos da charmosa Limoeiro do Norte. Entrevistas, escrita e até mesmo o contato com antigos e leais assinantes do jornal. Também nascia, ali, o amor pela fotografia. Aos dezenove, iniciou como… » leia mais
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A Queda do Inferno

A chama comia papel — desordenada, a mando maior —, | Rasgaram livro na praça, | Devoraram à mocidade, também…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A chama comia papel — desordenada, a mando maior —,
Rasgaram livro na praça,
Devoraram à mocidade, também.
Maldita, maldita… maldita praga que rasteja por Berlim!

Onde dorme aquela menina?
Boneca de pano, riso cálido
Dedo frágil a fazer poesia…
Num salto medroso, remendava o pano da janela.
Num ainda maior, corria.
Nem se percebia tão fria,
Já não beijava a luz do sol.

Corria, no céu, uma mulher despida
em cavalo alado.
Anunciava o fim do dia,
E trazia, no peito, o último trago.
Um gole velho de querosene,
A incendiar a boa vontade dos “nobres”.

Era o fim do dia,
E a menina não via.
Dormia!
E o sono de Aninha…
Ah, eles não hão de azedar.


Escrito por:
Lídia Machado

Vivendo por entre bibliotecas e saraus, desde o início de sua juventude a autora Lídia Machado vem tecendo íntima conexão com a poesia e com a escrita. Primariamente, cronista e fabuladora nas aulas de redação. Depois, aos quinze, jornalista estagiária as quais saía, de mototáxi – munida de coragem e de pouca bagagem profissional – rumo aos eventos da charmosa Limoeiro do Norte. Entrevistas, escrita e até mesmo o contato com antigos e leais assinantes do jornal. Também nascia, ali, o amor pela fotografia. Aos dezenove, iniciou como… » leia mais
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