Capítulo 14 (Final): Reconhecimento — Rubi Áurea

Ser soterrada por minha desumanidade fez emergir no meu peito um vazio inominável que despertou algo que outrora nunca houvera..

Mensagem da autora
Último capítulo do rascunho inicial

Queridos leitores, com este capítulo vocês concluem a leitura do rascunho inicial de Rubi Áurea. A partir de agora, todos os capítulos passarão por um processo de reformulação, para que a história ganhe mais impacto, profundidade e coerência narrativa.

Este final — o Capítulo 14 — ainda não é definitivo. Posso reescrevê-lo, modificá-lo ou até mesmo acrescentar novos capítulos. Apesar disso, os eventos centrais permanecerão. A versão final da obra será publicada nos formatos físico e digital, não estando mais disponível para leitura no Castelo Drácula, como este rascunho esteve até aqui.

Dividir com vocês o processo de escrita deste romance foi uma dádiva. Agora, chegou o momento de lapidar a história com o cuidado que ela merece. Escrever não é tarefa fácil — exige uma entrega constante, uma dedicação amorosa. E, para mim, não há nada mais prazeroso do que me dedicar às minhas histórias.

Em breve, vocês poderão ler uma obra completamente renovada e compará-la com este primeiro esboço. Serão duas experiências literárias distintas — e igualmente especiais.

No início, eu não sabia quem era Áurea. Nem mesmo seu nome existia. Sua história foi se revelando aos poucos, capítulo após capítulo. Hoje, conhecendo melhor sua essência, posso reescrever seu caminho com mais consciência e verdade. Este rascunho é profundamente simbólico para mim, pois, enquanto minha protagonista evoluía, eu também me transformava como escritora.

Ele representa algo que só quem é artista literário pode compreender: o envolvimento intuitivo e visceral com uma história jamais antes contada.

Tenho orgulho de cada palavra escrita — foram mais de quarenta e cinco mil! Entre quatorze e dezesseis meses de empenho, noites de imersão em cenários, atmosferas e simbologias; dias inteiros dedicados a personagens que ainda terão muito a revelar — em *Rubi Áurea* e além dela.

Obrigada a você, leitor querido, por caminhar comigo até aqui.

Agora, convido você a apreciar o rascunho do último capítulo.

Sahra Melihssa

Ser soterrada por minha desumanidade fez emergir no meu peito um vazio inominável que despertou algo que outrora nunca houvera. Eu sentia a mudança, ela vinha como ondas à beira da praia, como um sussurro dos ventos pacíficos, como o fim da primavera. Eu sentia que me encontrava, reconhecendo a mim mesma dentro da imersão daquele Castelo misterioso que sempre me guiava para onde eu precisava ir, direcionando meus passos sem que eu soubesse a razão. Um alcácer, talvez, ilusório. Embora extremamente inestimável para mim.

No âmago daquele momento, caminhando pelos corredores — eu a ouvi. Sua voz era a minha voz, como fora n’outras vezes. “Eu te mostrarei”, ela disse, “Eu te mostrarei a verdade”. Não era o Deus Maior, Lúcifer ou o próprio Castelo; era eu e ela, compartilhando de um amálgama insondável — na imersão do que éramos, sem um conhecimento racional, mas instintivo. Sem a presença d’outrem, apenas nós; não havia Seth e muito menos os resquícios de um vínculo com o Oráculo — igualmente, o elo há pouco descoberto, vinculando-me ao inferno, parecia translúcido. Por instantes, nada existia, metamorfoseamos a realidade, porventura, em um invólucro da nossa própria consciência.

Então, avistei aquela porta. Tinha um tom de ouro envelhecido. Ornamentada e ornada com volutas, espirais e, principalmente, fragmentos cintilantes — como se feixes minúsculos de luz a atravessassem. N’estes limiares soldorados, uma poeira em pontos de lume pairava, entretanto, tamanha a sutileza que apenas olhos profundamente atentos poderiam enxergar. Tornavam quase tangível o ar e despertavam a nossa vontade de adentrá-la. “É aqui”, eu ouvi no eco do meu interior. Toquei seu ornato esférico, gelificado pelo tempo, volteei-o com a lentidão da infinitude. Eu poderia esperar que, em seu interior, estivesse eu, ainda menina e, diante de tal cena, uma escolha me adviesse: voltar para o passado, emergindo n’uma linha do tempo diferente em um multiverso misterioso, fingir que sou humana outra vez ou seguir com o futuro que se redige a cada novo attossegundo; ou, continuar daqui... inumana.

Eu não entendia a razão pela qual a desumanidade me feria; decerto que tal sentimento estava intrinsecamente ligado ao que eu era no passado, entretanto, parecia doer mais do que devia e diante disso, eu não sabia como agir e sequer conseguia identificar o que sentia. Sob a minha voz no cerne de mim e diante daquela porta que, mais uma vez, na medula daquele lugar sombrio, se apresentava como a verdade e a revelação, eu não tinha certezas ou esperanças, mas segurava firme em um hialino medo porque eu sabia, em certo nível de consciência, que algo mudaria de forma mais substancial do que outrora mudou. Ela estava cada vez mais perto... a mudança...

Adentrei o cômodo e o imenso umbral, pesado como não fora para abri-lo, fechou-se logo atrás de mim, quando meus pés avançaram para o centro do aposento. Era um lugar despedaçado — tal como eu. Uma vidraça arcada no alto estava quebrada e, por ela, uma névoa marfim advinha. Era a única fonte de luz, talvez vinda do sol ou de sua efígie. Por todo o ambiente, dezenas de molduras estavam destruídas nas ruínas dos espelhos que emolduraram n’algum remoto outrora. Os cacos reflexivos variavam em tamanho e forma, mas todos estavam empoeirados — o que me contava, mesmo em silêncio, uma história bastante antiga. Os reflexos da luz criavam um espectro de raios luminosos que atingiam todo o ambiente, como um caleidoscópio. O local não era grande, embora fosse alto. Onde a luz tocava, no centro do cômodo, sentei-me ao chão. Podia ver dezenas dos espelhos e tocá-los, se assim desejasse — e eu desejava. Eu sentia vontade profunda de ver minha própria imagem outra vez.

Passei, com calma e delicadeza, minha mão sobre o primeiro e mais próximo espelho quebrado. A poeira dispersou-se e o feixe de luz espargiu. O que vi fora minha face, meu olho direito era dourado, meu olho esquerdo era rubro. Meus cabelos negros e lisos, sutilmente movimentavam-se em razão de uma brisa quase indetectável. E a nutrúrnia em meu peito... cujas pétalas estavam igualmente em sutil cinesia, deveria transmitir sua escuridão abíssica, entretanto, eu a podia controlar agora — eu almejava, naquele instante, o círio do firmamento quimérico, a cintilância do caleidoscópio, e não o poço da matéria escura. Ainda sob este indelével desejo, segurei um fragmento menor e solto, de outro espelho, levando-o para mais perto de minha face. Limpei-o igualmente, a poeira reluziu pelo ar, rarefeita. Então fitei a imensidão de minha pupila, negra e profunda — eu fitei a escuridão de qualquer forma.

Eu sabia a razão pela qual fazia aquilo — e o saber era intuitivo. Eu conhecia meu poder — e o conhecimento era axiomático. Assim eu vi o meu passado e decidi não ver o meu futuro. Pois era isso que me fazia mais do que uma Illitan: ser capaz de controlar o que vejo e escolher o que quero. Mesmo depois de tanto tempo, tenho árdua dificuldade em descrever o que sentia, pois tudo era constituído de uma profunda verdade que nem mesmo os deuses ousariam sentir sobre si mesmos. A criatura em meu cerne, e toda a sua mítica existência, era capaz de me guiar tal como a lua faz com a maré do mais índigo e violento oceano. Eram as memórias, adormecidas, minhas e dela, envoltas em um véu de sono imersivo e, junto delas, uma infinidade de sentimentos e emoções. “Se eu não sou humana, o que eu verdadeiramente sou?” — murmurei, caminhando sem caminhar, pela escuridão e a luz das lembranças.

E a primeira delas foi da criatura Corphidrae, criada por Soron Vonssihren há muitos e muitos anos. No fulcro da pupila dilatada, eu vi o continente Sihren. E vi o ancestral nascer da Corphidrae — ou de seu primeiro antepassado. Sihren estava imersa por destruição mascarada em heras e musgos; uma densa flora, significativa e abundante, crescia sob o azúleo céu. As mãos do Soberano Soron, com a essência de Sirehnersí e verbo mahesihsta, vibrando a realidade por detrás da interface — eu vi. Surgira a criatura mítica e dela vieram outras e todas com o poder da vidência, entretanto, como animais míticos, não tinham fala e razão; nascidos para proteger a flora e fauna do continente perfeito, acelerando o florestamento sobre os escombros de concreto ainda visíveis. Sirehnersí lhes deu poder, para além das mãos mahesihstas de Soron, pois que Sirehnersí vem do Ente Primevo, o alvor: o Verbo.

Era lindo... e fascinante. Compreendi a história de todas as coisas desde muito antes de ter meu corpo produzido nas câmaras indheren. Vi-me criança, adolescente, jovem adulta e vi meus pés descalços sobre a neve da altíssima e obscura floresta de Amorttam, perdida na escuridão de suas entranhas, em busca de clareiras onde reluzia a lua túrgida de Selenoor, vestida em rubro tecido e, finalmente, protegida pelo lume da azulescida Phehr — a lua detrás da tão mais longeva lua Senlen. Eu vi tudo e vi Lorrt, encontrando-me e guiando-me de volta ao lar dos H. Sttrattan, aos pés da Mansão Negra. E vi seus cabelos grisalhos e seu rosto viril. E ouvi suas palavras: “Um raro rubi perdido em Amorttam!” e vi meu sorriso de medo pela imensidão arbórea e, ao mesmo tempo, aliviada por encontrar o que pensei ser um humano. Na lembrança intensa, fechei meus olhos sem que pudesse perceber — adentrei uma vastidão ainda mais escura onde todos os fragmentos de espelhos flutuavam ao meu redor. Eu sabia que eu estava em minha consciência.

Um fulgor esquálido vinha de cima, iluminando-me e refletindo nos fragmentos. A poeira pairava nívea e eu fitava lugar nenhum, com as íris perdidas no pélago da memória. O som de um triste piano me alcançou e um rosto então embaçado a princípio tornou-se vívido como um sonho e eu me observava ao seu lado, ainda tão jovem. O homem era mais velho, eu vi o contorno de seu rosto, eu vi seus olhos âmbar.

“Tu és especial pelo dom do amor” — ouvi, era a voz de meu pai Lars. “Impressiona-me tudo o que construíste aqui...” — ele falava do jardim. E ali, eu estava mostrando para ele as flores que já floresciam e as árvores que já cresciam. “Eu tenho algo que guardei para presentear-te quando fosse o momento e, acredito, este é o momento.” Do seu bolso, retirou um colar de ouro, com um pingente feito de vidro protegendo o que me parecia uma pétala opalina. “Adenium Opalinia, uma flor muito rara encontrada somente em Morttam profunda. A pétala é apenas uma réplica, entretanto, representa a raridade do teu ser e do teu dom com as plantas” — explicara, e eu desejei saber onde estava aquele colar.

Pouco depois, entre dezenas de memórias singelas, eu a vi: seu olhar brilhava, seus cabelos volumosos. Ela vinha em minha direção, com bastante empolgação.

“As luas conduzirão o vosso encontro, querida; Phehr e Selen sabem a razão.” — dissera Valeriere, minha avó. E eu cuidava do jardim nas manhãs e meus irmãos mais novos corriam entre os arbustos.

“O que queres dizer, vovó?” — perguntei, ainda confusa.

“Há algo destinado a ti, querida. Algo grande. As cartas disseram, eu as tirei hoje para ti.” — o Tarot não era bem-visto em Sihren, mas Valeriere tinha algum tipo de vínculo com o inenarrável espiritual. Eu a admirava por isso.

“Espero que não seja doloroso” — disse-lhe, de forma descontraída.

“Será” — olhei para seu rosto, senti a seriedade em sua voz. “Grandes feitos precisam de grandes sacrifícios.”

“Já está predestinado?” — perguntei, inquieta.

“Sim, pois, tu já escolheste o caminho antes mesmo de encontrá-lo.”

Rarefeita na luz e na escuridão, esta lembrança deu lugar a outra e a outra e sucessivamente, cada uma delas tocavam minh’alma com a verdade absoluta de minhas vivências. E quando eu revi a mulher da minha vida, eu lacrimejei de emoção.

“Este homem parece-me... como devo dizer... eu não sei, Áurea querida... a presença dele é... amedrontadora” — disse Dehian, minha mãe. Sua voz era veludo, sua proteção recaiu sobre mim como se eu estivesse ao seu lado, de verdade.

“Ele tem um bom coração, mamãe” — proferi, apaixonada. “Mas não te esconderei a verdade, ele foi criado para o mais terrível... e está aqui porque decidiu não seguir a lei de seu criador. Em razão de sua rebeldia, tem sido perseguido, jurado de morte por aquele que lhe deu a vida” — expliquei. Mamãe parecia preocupada.

“Se o encontrarem, o que acontecerá contigo?” — sua indagação me levou à janela, olhando para o jardim, pensativa.

“Eu não sei, mas eu lutarei por ele... por nosso amor... se preciso...” — Mamãe veio a mim, abraçando-me.

“Tenho medo de te perder, minha filha” — confessou. Toquei seu rosto, carinhosamente.

“Eu sempre estarei no jardim” — afirmei.

A compreensão me atravessara... do amor, da dedicação e o dom; uma história vivida e contada por mim mesma, na imensidão da menina dos meus olhos. Não era fácil lembrar, pois meu coração apertava-se e lacrimava dolorido; eu previ a mudança e o seu achegar silencioso através do indescritível. E elas vinham, as memórias, como sopros de tempo, como um livro aberto.

“Esta é Celehstera, a Corphidrae que usaremos no ritual” — disse Lorrt. Eu olhei os olhos dourados da criatura, perfeita e majestosa.

“É linda...” — admirei-a como nunca admirei nenhum outro animal.

“Escolhi este nome, pois, dei-lhe o significado de uma criatura fascinante” — explicara.

“Ela vai se sacrificar?” — senti-me entristecida ao questionar.

“Ela aceitou isso, em nome dos Illitan e de nossa sobrevivência; carregamos, afinal, a sua essência.” — Voltei-me a Lorrt ao ouvi-lo e, depois, novamente aos olhos da Corphidrae. Então, ela apareceu para mim, Celehstera, entre os fragmentos e a poeira. Exatamente como eu a vi naquele primeiro dia, ao lado de Lorrt.

— Tu sabias, por isso aceitaste estar no ritual... teu poder, tão imensurável, facilmente poderia te levar à fuga naquele momento. — Proferi, sem palavras.

— Sim, Áurea. Eu vi a minha morte e minha dor; eu vi a minha ressurreição em teu corpo. Era preciso acontecer.

— Tu és racional?

— Eu sou o que tu és agora, somos um único ser. Não há mais distinção entre nós.

— Então... existe destino? Como indaguei à vovó, não é sobre escolhas?

— O destino é um emaranhado, nós somos capazes de enxergar a linha mais provável do futuro, em razão de sua proximidade com a historicidade do ser qual estamos prevendo. Valeriere viu a linha mais próxima, já escolhida por ti, pois, para alguns, a alma atemporal é mais consciente do que o corpo sob o comando do tempo n’esta interface de vida.

— Se somos uma, eu é que me digo esta verdade? E a verdade de toda a Sihren? Como posso saber de tudo?

— Sim, este é o processo de racionalização tua para com a minha memória. Tudo o que vivi e tudo o que sei, agora também é teu, e a tua razão torna tangível à consciência, como se eu estivesse aqui, dizendo-te cada palavra. Tu sabes disso porque eu sei e porque tua alma sabe, ainda que tu, n’esta interface, não saiba.

— O que é a Interface? O que há de ti em mim?

— Em teu cerne eu sou uma centelha. A tua centelha metamorfoseada. A interface é o tangível, é Sihren, é o Castelo Drácula. Apenas uma miragem cobrindo o código da vida.

— Tu esteves sempre aqui... eu estive... e os enigmas? E Seth?

— Tu estiveste sempre aqui, Áurea, protegendo-se de si, escrevendo a ti mesma, afastando a possessão de Seth. Tudo o que fiz foi feito por ti, pois eu sou o que tu és, não há mais distinção.

— Compreendo... — dissemos, em uníssono. — Não existe mais eu ou tu, somos nós como se assim fôssemos desde sempre. — proferi e repetimos a frase no átimo em que retornei à sala dos espelhos.

Demorei por um tempo incalculável para reconhecer o que há tão pouco tempo me era completamente obscuro. Demorei-me no silêncio, entre os feixes de lumes refletidos, o caleidoscópio de mim mesma. Prolonguei-me n’esta estranha inércia entre saber e assimilar.

Celehstera, nome dado por Lorrt para a Corphidrae, estivera protegendo-me da possessão de Seth, por isso ele sumia e se personificava. Expulso de mim. Ela destruiu todas as maldições de Lahgura. Ela me guiou quando estive em Séttimor e, previu as más intenções do Oráculo e o surgimento de Monm, para me salvar. Com os sigilos pherhesistas e o Olho do Oráculo, intensificou o seu poder para que fosse capaz de me conduzir à verdade completa de todas as coisas, pois a minha resistência em proteger a minha humanidade a estava impedindo. Ela, que fez tudo por mim, ela sou eu.

Eu estava me guiando, me protegendo e, sobretudo, me tornando mais poderosa e forte para enfrentar quaisquer horrores e, em especial, o horror do meu próprio medo. Encontrar Lúcifer, fincar a nutrúrnia, tudo foi estritamente pensado para minha assimilação do fim da minha humanidade. A ideia de ainda ser humana era tão profunda e intensa que, muito antes do meu despertar, essa singela ideia já havia criado a maciça barreira do esquecimento.

Eu me sentia... diferente.

Abri os umbrais pesados daquele cômodo e, a partir daquele momento, eu sabia, tudo aconteceria de outra maneira. Mas uma coisa eu tinha certeza, dentre tantas e confusas decisões que eu poderia tomar naquele átimo, a principal delas era, pois, a mais estável: retornar a Sihren... mas, seria possível? Rever os que amo e abraçá-los, após tanto tempo... se assim acontecesse, eu voltaria no tempo? E se o Castelo era apenas uma interface da interface, como sair deste núcleo se mal sei como cheguei aqui? As dúvidas atravessavam minha mente e doíam. Foi então que ele veio à minha mente... Lorrt. Se eu pudesse reencontrá-lo em Somníria... olhar de novo em seu semblante... dizer-lhe que me lembro de tudo... pois, fora daqui, eu sei, não o encontrarei mais. Lorrt estava morto, eu tinha ciência d’esta mórbida verdade e saber disso, naquele instante, me doía tanto... Deixar o Castelo significava, essencialmente, perder o acesso a todos os multiversos — perder Lorrt de vez.

Indagava-me, porém, se eu seria capaz de retornar ao Inferno... e ouvir a proposta de Lúcifer outra vez. E, sendo um demônio, poderia voltar ao mundo humano? Era muito para mim, e eu não conseguia compreender tanta informação; imergia-me n’um oceano de dúvidas ainda mais mórbidas do que antes, contudo, nada era, de fato, igual... a mudança não foi uma mentira, as memórias resgatadas tinham a perfeição de uma fotografia. Eu havia mudado, como previ, e a mudança agora contornava meu medo e todos os sentimentos derivados da estranheza de estar livre de minha humanidade, sem perdê-la de mim. Era estranho, era um paradoxo, mas as coisas mais complexas são, essencialmente, as mais deslumbrantes.

Saí. Deixei meu olhar cair sobre os arredores infinitos do Castelo Drácula.

E aquele momento era o prólogo do meu novo despertar.

Revisão por Sahra Melihssa
Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa

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Capítulo 13: Nada além da verdade — Rubi Áurea

Sussurros de uma antífona elegia percorriam aquelas terras intricadas. E, por trás deles, um som denso, contínuo e tátil arrastava-se como…

Sussurros de uma antífona elegia percorriam aquelas terras intricadas. E, por trás deles, um som denso, contínuo e tátil arrastava-se como a nota grave de um órgão profano — era a própria frequência do desespero, da solidão e da orfandade existencial. Uma salmodia vibrante de abandono, alojada sob a soturnía do medo persecutório, vibrava nas camadas hialinas do ar, no calor do mármore e nos lagos de lava escarlate. Sim, tão inextricável e abissal quanto estas lôbregas palavras que descrevem cada detalhe.

Reintegrei-me em corpo — ou no simulacro que me restava dele — envolvida por um fogo que fazia parte de minha tez e alma. Reintegrei-me ali, naquele vasto e montanhoso domínio, onde céus de nuvens negras em fugaz cinesia deslizavam, guiadas por um vento atroz e fastígio. E, além delas, ardia um firmamento escarlate, imóvel como um presságio. Eu via — e saberia que jamais poderia deixar de ver — um reino de edificações negras, cuja arquitetura parecia construída na linguagem do luto, à sombra de arbustos altos e secos, esqueletos de entidades vegetais. Ruínas de uma civilização obliterada pelo próprio peso da existência.

De essência aterradora, sim, entretanto, algo íntimo cingia-me, acolhendo minha desgraça. E o reino todo alcançava meus olhos absorvidos e fascinados. “Lindo...” — murmurei, talvez para mim mesma, talvez em silêncio. Logo notei meus pés descalços e meu corpo envolto a uma peça que esvoaçava pelo álgido ar que vinha dos céus; era estranha, parecia rasgada em retalhos, queimada, feita de um tecido fino e semitransparente. E para meu corpo olhei quando senti calor em meus pés; vi que o chão era mármore negro, cálido, com fissuras em um vermelho intenso — como uma pedra bruta proibida... que sangra.

Olhei para trás, portanto, buscando compreender o derredor... o que veio às minhas retinas, então, deixou-me estarrecida. Era um imenso palácio de mármore negro e rubi, uma inconcebível arquitetura... e inominável. Seus altos e colossais umbrais abertos poderiam ser-me um convite, entretanto, neles estava um ser sublime que me observava atento e imponente. Sei que minhas pupilas se contraíram ao enxergá-lo, pois quão fascinante o esplendor eterno da sua luz perfeita. Eu intuía... e, por isso, tão logo caí-me aos seus pés porque o que eu intuía conduzia meu ser... aquela criatura era nume, celestial, perfeita. Era uma divindade. Eu compreendia. Prostrei-me porque nunca vi tamanha beleza... nunca senti tamanho embevecimento.

— Levanta-te, pois que não tenho servos, tenho aliados. — ouvi. A voz daquela divindade era o universo ecoando em seu próprio abismo constituinte... eu já o havia ouvido antes... eu já conhecia o seu idioma. Obedeci-o prontamente e fitei a sua graça magnânima. Era mesmo de uma beleza surreal e continha grandiosas asas e vestia-se com vestes régias e negras, com detalhes em rubi, tal como o seu palácio. Era como um homem, entretanto, seu corpo era forte e decerto possuía mais de três metros de altura; além disso, eu intuía, mais uma vez, que não havia gênero em sua estrutura... ele era quem ele quisesse ser... quando ele quisesse ser...

Lussifferr... — sussurrei... reconheci...

— Tenho vários nomes, este é um deles. Seja bem-vinda ao meu reino. — ouvi. Eu sabia que estar ali era um privilégio de poucos...

— Não temas. — disse ele e convidou-me, com um gesto, a adentrar a sua residência sublime.

Caminhei sem pressa e vi, no interior do local, um lago que reluzia carmim e colunas de rubi que tinham, esculpidos em si, rostos de homens e mulheres de magnífica pulcritude. A deidade sentou-se em seu trono portentoso.

— Pergunto-me a razão pela qual há uma nutrúrnia fincada em teu torso... enraizada em teu coração... — senti-me enrubescer ao ouvi-lo. Lembrei-me de Seth. Ponderei em como eu poderia me explicar.

— Não me conte. Aprecio mistérios. — proferiu com um sorriso perverso e sombrio.

— Tu sabes o que és, Áurea Lihran? — meu nome em sua voz de matéria escura. Um deus sabe todos os nomes daqueles que encontram seu reino?

— Eu não sei se sei. — respondi, murmurando.

— Tu és um demônio. Um demônio que nunca caiu. Diferente de todos aqueles que residem em meu mármore... que raridade. — eu o sentia cada vez mais sombrio, suas palavras naquele idioma ancestral me deixavam turva e com um tipo de admiração que beirava o temor.

— Entretanto, ainda és humana e, para minha surpresa, vampira e animal mítico. — engoli minha saliva como se fosse espinhos. Algo me dizia que Lúcifer sabia muito mais de mim do que eu mesma.

— E como se não bastasse, senhorita Lihran, carregas o Olho do Oráculo como pingente e quatro sigilos pherhesistas repousam em teu pulso. — olhei para meus pulsos, revivi aquele momento tão perigoso.

— Portanto, posso convencer-me de que também és Magista e... vidente. Que fardo! — olhei para os lados, a paisagem nas paredes translúcidas era esplêndida; por fora, nada se via no interior do palácio; por dentro, tudo do exterior se via. Eu não sabia o que dizer, eu estava em êxtase.

— Fardo... — repeti como se internalizasse aquele termo.

— Há conhecimentos que somente uma criatura rara como tu pode alcançar, e é por isso que te proponho um pacto. — fitei seus olhos escarlates.

— Tenho más experiências com — hesitei — vínculos a entidades poderosas... — segredei, incerta de recusar algo de um ente tão superior. Lúcifer sorriu outra vez.

— Não sou uma entidade poderosa, Áurea. Sou um deus. — tremi ao ouvi-lo; um estranho frio espargiu e minha tez se arrepiara.

— Posso dar-te quase tudo o que quiseres, em absoluto; sem entrelinhas. Desde que me dê o que quero. É justo para todos os envolvidos.

— Podes trazer todas as minhas memórias à consciência? — instiguei, quase o interrompendo.

— Não posso. — surpreendi-me.

— Não sou capaz de quebrar o poder do livre-arbítrio. — senti-me confusa. — Tu queres manter tuas memórias ocultas, Áurea; teu querer inconsciente é maior do que o teu desejo racional. — tremi mais uma vez. Eu estava me sabotando? Pensei, silenciada.

— Entretanto, tenho algo de teu interesse... algo mais significativo... e tudo o que peço em troca é a tua devoção ao conhecimento que me é valioso... domine-o e traga-o para mim.

— Pherhesí... — intuí e murmurei. Lúcifer sorriu.

— Isso... agrada-me que tua intuição já esteja vinculada a mim, o teu deus.

— Não posso... não posso... quais serão as consequências? — meândrica, o questionei. Lembrei-me de Olga dizendo-me dos riscos daquela magia.

— Muitas. Entretanto, serão consequências diferentes daquelas que terás que arcar se não aceitares minha proposta. Tudo o que fazes traz frutos; a resultância emerge mesmo quando nos recusamos a existir.

— Não... não posso aceitar... — olhei para os umbrais e vi o inferno em sua imensidão. — Por causa da nutrúrnia eu... sou obrigada? Eu devo algo a ti? — entristeci-me.

— Não, criatura. Mas a consequência é a que vês. Estamos vinculados. Há um elo que te trará ao meu reino quando bem quiseres ou quando for do meu interesse. Os poderes demoníacos estão em tua posse; és capaz de compreender minha linguagem. És um anjo que nunca caiu, porém, está caído. E não há como retornar. — Lúcifer fitou meus olhos com precisão.

— Factum est! — conjurou. Um selo para a minha nova verdade. Um selo do meu espírito diante daquele deus..., mas, o que isso significava para além de sua significação?

Factum est!

Nada mais. E um silêncio perdurou enquanto minha mente estava em ebulição de pensamentos apavorantes. Mais um pacto? Com um ser bem mais poderoso? Uma falha, o livre-arbítrio, usado por mim para apartar-me do que fui? Aquela mulher que eu era precisava ser esquecida?

— Eu preciso crer? — questionei, ainda em torpor de meus pensamentos. Lúcifer não me respondeu de imediato.

— “Precisar” significa acender a faísca de um desejo sob argumentação tendenciosa. E “crer”, ah, esta sim... esta é a palavra... a mais irrelevante palavra. A crença é tão só uma mentira, afável mentira. Induz a razão pela veia da ignorância. Se almejas a verdade, nada além da verdade, não creia... beije os lábios da factualidade... lide com as consequências... e que a única calidez advenha do mármore sob teus pés e nunca do teu coração.

Lúcifer se levantou, caminhando ao redor, devagar.

— Mas... quão humana ainda és? Quão ávida estás pelo amor olvidado? Pela paixão proibida? Pela dor e pelo prazer de amar? Ah sim... eu sei... — meu imo ardia ao ouvi-lo.

— A humanidade ainda pulsa na tua carne, não é? Tu sentes o deleite... o vigor... a intensidade. Algo que apenas um humano pode sentir. — Ele continuava me cingindo com seus passos sorrateiros, como um lobo faminto. Parecia um pouco mais próximo, em tamanho, como um ser humano; metamorfoseava-se para que eu não sentisse estranheza, talvez; Lúcifer dominava, persuadia, hipnotizava.

— A fé é tão símil à excitação venérea... induz ao gozo precipitado ou ao tântrico estado perpétuo de realização afrodisia, em ambos os casos, é idealização projetada. Aceite a verdade... as coisas que são como são; e, então, faça do teu sentido aquilo que ele deve ser e não uma deformada efígie dos teus ideais.

Abracei-me com minhas mãos, como se me comprimisse em mim mesma.

— Tenho toda a eternidade para que aceites o pacto que ofereço. Pense, eu estarei sempre aqui... e eu não estarei sozinho...

Eu intuía algo, profundamente brumoso, na última frase de Lúcifer. Voltei a admirar o horizonte do inferno.

— O que me ofereces? — inquiri. Lúcifer sentara-se outra vez.

— Esta é a pergunta certa, e ela te será respondida no momento certo. — argumentou, e eu, devota à sua grandiosidade, apenas assenti. — Ouça bem, esta flor em teu peito, se retirada, levar-te-á para a Morte Rubra. Aquele que tentar contra suas pétalas, sorverá da tormenta; aquele que tentar contra as suas pétalas, será mortificado pela escuridão. As pétalas da nutrúrnia poderão ser arrancadas, entretanto, seu caule tem a força destas colunas lapidadas em carmiantte, e está enraizado, envolto a todas as tuas veias. Só poderá ser retirado, portanto, se tu fores dissecada. — intimidei-me sob assombro silente, quase plangi de súbito por tão somente imaginar tão horrífico fim.

— O que é a Morte Rubra? — indaguei, incerta de que saber fosse preciso. A deidade sorriu, apontando para as colunas lapidadas.

— Carmiantte é a fundamentação d’este reino; um mármore negro-carmesim, de dureza mais acentuada que o diamante vestal. Se lapidado, assemelha-se ao rubi, dado seu esplendor escarlate. — Lúcifer levantou-se, tocando os lábios de um pilar-estátua feminino. — Cada escultura vive suportando o peso de si mesma, senciente. Ou ainda, brutas, sob teus pés aquecidos pela lava vermelha. Onus aeternum. Tudo aqui é carmiantte, e carmiantte é feito de Morte, e é rubro porque sangra.

— Demônios sangram carmesim? — lembrei-me da seiva negra de Seth.

— Não, mas humanos sim. Por isso é rubinegro. Alguns virão para o inferno em razão de seus pecados; outros encontrarão a Morte Rubra por quebrarem o pacto que comigo fizeram. — compreendi, e antes que eu lhe pudesse questionar tanto mais, senti novamente meu corpo transfigurar-se em fogo cetrino, como papel queimando.

— O que...? Por que...? — senti-me confusa e ardente.

— Desejas retornar ao teu Castelo, e a intenção intuitiva do desejo se basta para que o fogo efetive o retorno. — eu queimava, e o medo outra vez tomou-me como um amante febril. — Assim será quando quiseres voltar para meu reino, ainda que não sejas capaz de ouvir o teu intuitivo desejo. — olhei para os olhos de Lúcifer. Ele estava incólume. Olhei para as estátuas de carmiantte; pareciam me observar. — Logo saberás fazê-lo racionalmente. — afirmou a deidade, proferindo o que não pude ouvir em seguida. Senti-me desmaterializar pouco depois de ser preenchida por uma estranha inquietude.

Então, eu estava de volta. As mesmas paredes de pedra, o mesmo silêncio e solidão. Envolvida pela escuridão que me pertencia, ainda tomada pela incerteza e instável verdade da minha existência. Entardecia. Nuvens em bege profundo se espalhavam nos céus simulados; ao derredor, folhagens em marrom-outono dançavam ao vento enfraquecido. Eu estava em casa, a vicissitude do lar ao qual eu pertencia era a ilusão perfeita do espaço-tempo, eu sentia. O inferno era mais real do que o Castelo Drácula — ou seria Castelo Nivïttiz?

Andando a esmo, sem esperanças a conduzirem meus passos, sem razões para direcionar meu comportamento. Toquei a algidez das pedras úmidas, senti o ar rarefeito do dia lá fora; visitei túmulos daqueles que jamais saberão sobre a Morte Rubra e que talvez estivessem, naquele instante, suportando o peso de si mesmos, sendo pilares lapidados do palácio de Lúcifer. Ou eram carmiantte bruto, debaixo dos pés dos residentes do reino que eu agora conhecia? Lembrei-me de Lúcifer e senti a liberdade do seu poder. “Não tenho servos, tenho aliados.” Lúcifer não era um pai, seus princípios de liberdade acima de tudo conduziam minha alma à verdade sombria: estamos sempre sós. Mas, por que estamos? Eu me perguntava nos caminhos irrelevantes daquele alcácer. Por que nos tornamos e agora somos?

“Divino é a criação, ou quem a criou? Fui criada por Lorrt na transmutação vampírica e, antes, criada por meus pais e, muito antes, por quem? Quem estivera antes da vida que agora, na vida, já não está? E se a liberdade é a verdade, junto à factualidade das imensidões subjetivas, então é tudo verdade, então é tudo mentira? Quão livre é estar livre, se há prisões que nos percorrem o corpo e alma, desde o próprio corpo até a própria alma? As indagações tão perenes não são prisões subjetivas tal como as respostas às indagações? Este Castelo, o que é? Por que é? E o que é sê-lo?”

Adentrei uma porta qualquer, irrisória para mim; mais uma dentre tantas. E continuava a pensar. Contudo, era um quarto com tapeçaria amarronzada e detalhes em dourado envelhecido. Vi um belíssimo leito com dossel de ouro translúcido e veludo marfim. Uma escrivaninha com papéis escritos, uma pena de ponta manchada de tinta negra e um cântaro com flores brancas. Isso foi tudo o que vi a princípio e, tão logo, aproximei-me curiosa. O local transmitia uma energia pacífica, embora os lumes de suas velas se ocultassem na minha escuridão. Um canto gregoriano evidenciou-se quando os umbrais foram fechados por minhas mãos, vinha do interior do quarto, especificamente uma estreita porta à esquerda, ornamentada por uma cruz dourada, antiga.

Abeirei-me em silêncio, no mais insano, conduzida pelo enlevo das vozes em coro, ecoando como se fossem donos da eternidade da existência. Lá dentro, espreitei pela porta: uma mulher ajoelhada sobre um pulvinar castanho, costurado com loura lã, tinha suas mãos unidas e seus olhos fechados em um semblante de mansuetude. Seus longos cabelos ondulados eram símeis às folhas secas do outono, pela cor; e em evidência, tão macios quanto o veludo marfim do leito outrora observado. Seu vestido mantinha o tom castanheiro, como se os carvalhos mais ancestrais habitassem o cômodo; tudo era madeira marrom, tudo era entalhado no ouro.

A mulher rezava. Eu sentia. E sua oração me perturbava. Não pelo som que sequer saía de seus lábios, mas pela fé que resplandecia dos poros de sua tez cor de cravo-da-índia. Reluzia sutil a sua tez, azeitada pela natureza própria que a fundamentava. E a cruz-pingente no colar que segurava em suas mãos enfurecera-me, como se fosse um insulto à minha vida. À sua frente, nada além de diversos vasos com flores secas, galhos de árvores, pinhas, velas, água corrente. Havia, também, argila em formas incompreensíveis e, também, um tipo estranho de aparelho por onde as vozes saíam naquele salmo em coro religioso.

Abri a porta um pouco mais, mas aquele fulgurar estranho, feito de pequenos pontos de ar pairando no ambiente, como se crepitasse devagar, constituídos de pura energia de fé, impediam-me de me aproximar. O som da porta despertara, em seguida, a concentração da mulher que, célere, olhara-me atenta. Toda a luz que afrontava minha existência se espargiu como poeira levantada pelo bater intenso de um tapete. A mulher sorriu para mim e perguntou-me se eu precisava de ajuda. Eu precisava? Não sei. Mas aliviada estava por não mais ouvir, ver e sentir aquele obscuro agravo, coberto por fervor espiritual, capaz de me sufocar à Morte Rubra.

— Não sei como encontrei este... altar... — proferi. Minha voz estava diferente, mais séria, mais persuasiva. Sequer parecia ser minha.

— Talvez o tenhas encontrado porque assim foi preciso. Deus pode tê-la direcionado a mim, por suas razões celestiais. Assim acredito, pois que nunca recebi outra visita que não de meu amado pai. — proferira com a voz mais mélea do que qualquer outra que já ouvi. Era como um anjo egrégio, embora compará-la a tal era-me estranho, pois que nunca vi anjo algum, não daqueles que decerto teriam a essência insigne que transpassava, dela a mim, através daquela voz e daquele rosto e de toda aquela luminosidade feita de fé e devoção.

— Devo duvidar, pois que qual deus poderia guiar um coração demoníaco como o meu? — indaguei sem buscar por uma resposta, ao menos não racionalmente.

— Acabo de vir do inferno, o deus que conheci não guia ações, não interfere em minha vida, apenas propõe pactos e vínculos essencialmente convenientes.

— Tenho certeza de que o deus que viste não é o verdadeiro Deus de Todas as Coisas. Tenho certeza, caríssima, que a tua vida é por este Deus Maior guiada e cuidada como deve ser para todas as criaturas debaixo do céu.

— E debaixo do céu carmesim do inferno profundo também?

— O Deus de todas as coisas é piedoso e bondoso, é capaz de tirar uma criatura de seu inferno sob a condição de rendição. Rejeite tudo o que não vier d’Ele e, então, terás a salvação eterna.

— E de quem me salvarei eternamente senão de mim? E se me sou sempre a me ser, como posso salvar-me de mim enquanto me sou? — a mulher fez silêncio.

— Feche teus olhos, dama. Feche-os e profira no teu silente coração amaldiçoado pelo inferno: “Deixe-me sentir-te, Deus, fala comigo, eu rogo!” e Ele falará contigo, se for preciso, se for o momento. — compreendi sob o véu do ceticismo e intensamente enjoada.

“Deixe-me... sentir-te... Deus...”, ponderei. O vazio nunca foi tão vazio quanto o tamanho do vazio que senti ao pensar em tal ridícula oração. “Fala comigo, eu rogo!”, insisti, sentindo vontade de gargalhar e chorar ao mesmo tempo.

— Não sei encenar como tu... não há Deus Maior que me ouça. E se fosse do meu feitio, Deus algum a ouvia agora e eu poderia sorver do teu sangue vestal e te levar mais perto de Deus... ceifando tua vida...

— Mas não o fará... por quê? — questionou mais calma do que previ diante minha insondável ameaça.

— Porque não quero... não tenho sede... não tenho razão... nem sentido.

— Deus me protege de todo o mal. Ele é capaz de fazer o mal desistir do mal, para cuidar de mim, eu sei.

— Um Deus seletivo... entendo... cuida de seus preferidos e renega os que dele mais precisam, pois que estes que não lhe estão sob os princípios, desviados de sua salvação eterna, não são, pois, os que mais deveriam ouvi-lo? Não são, pois, os que mais precisavam de apoio? Intriga-me que sejas tão devota a um Deus assim.

— E quem disse que Ele não está dedicado aos que não o adoram? Sei que o Deus Maior não rejeita ninguém. Apenas é preciso um pouco de sensibilidade para ouvi-lo, mas Ele sempre diz e sempre quer se fazer ouvido. Ele não é racional, Ele está acima da razão, e Ele não pode obrigar-te a ouvi-lo tal como o teu desejo de ouvi-lo não pode trazer-te a capacidade de o fazer.

Silenciei e olhei para a luz tenra que advinha da janela ao lado da escrivaninha; a luz crepuscular dourada tocava as pétalas das lívidas tulipas e difundia-se nos soltos papéis. Um porta-retrato protegia uma fotografia de Monm ao lado da mulher imersa em sua fé inabalável. Sorriam, profundamente felizes, como Monm não parecera ser capaz de fazer quando o conheci.

— Este é meu pai, Abdalla... — olhei para trás, sequer notei que havia andado alguns passos em direção à luz. Hesitei. — E eu sou Siehiffar Monm... ou apenas Sieh. — senti sua proximidade, e isso me desestabilizou.

Havia, de fato, poder em sua crença — um tipo de poder que não poderia coexistir com a daemoniss que eu era, que eu me tornara, que sempre seria rejeitada pelo Deus Maior. Caminhei para os umbrais principais da alcova sacrossanta e, sem olhar para trás, sem proferir uma única sílaba de adeus, fui embora.

Havia uma dor em mim, que não doía... e uma desesperança tão amarga, que não amargurava... havia uma verdade apenas, dentre tantas, a única que me conduzia diante da solidão eterna: Eu não pertencia àqueles que seriam salvos, e eu não era mais humana.

Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Capítulo 11: Pecado... — Rubi Áurea

Símil a um olho, o obscuro pingente reluzia. A lótus negra decerto significava meu ainda existente vínculo com…


Leitores, este capítulo contém cenas sexuais explícitas. Estejam atentos e, caso possuam alguma sensibilidade, não prossigam. Apesar do aviso, sugiro que experimentem a leitura; trago a sexualidade sempre com bastante lirismo. Apreciem! — Sahra Melihssa

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Símil a um olho, o obscuro pingente reluzia. A lótus negra decerto significava meu ainda existente vínculo com o Oráculo, como os sigilos no pulso, entretanto, eu não sabia o porquê, tampouco como aquilo se manifestaria. Por instantes pensei, ofuscada em mim, sob o mortal silêncio daquela estranha natureza... que a solidão, por muito rejeitada, talvez fosse a mais honesta escolha. Nunca estive só, eu pensava, desde que respirei sob a umidade do Castelo. Havia a criatura em meu cerne... sim... eu não a culpava ou a considerava odiosa... porém, era algo em mim que não deveria residir em minh'alma — eu nem sabia onde ela estava... no ser... no inconsciente... nas entranhas... 

E, de repente, estive nos braços de Lëvri... e, então, selei um pacto com Lahgura... como se não bastasse... veio-me Seth... e outros que encontrei por tais tortuosas veredas. E, ainda, os medos que sempre me acompanhavam como vultos em vigia. A condição de solidão esteve sempre contígua mesmo sob tal verdade inabalável — fazia-me pensar que se é para tê-la, independente daqueles ao meu redor, então que seja na totalidade, sozinha e a sós, sentindo e vivenciando a solidão. Lembrava-me que, com Lëvri, por átomos de tempo, afastara-se este exílio impertinente e ínfimo e tão... tão amargo..., mas... um poço de mágoa se estendia... tudo mudou sobre Lëvri... como se a intensa paixão fosse nada além de uma ilusão lunar... 

As minhas rubras íris, no reflexo daquelas águas, entristeciam-se. Eu esperava mais da vida logo que despertei, mesmo cingida por nada além de hialina reminiscência. Eu não sabia o que sentir sobre as vivências desde então, era como não pertencer a si mesma... atrelei isso à ausência das memórias, embora nada mudasse a cada relembrar... Antes, porém, que eu pudesse extrair alguma compreensão do mais medonho oceano que estava, no meu cerne, cada vez mais revolto, eu vi outro alguém refletido nas águas da fonte, logo atrás de mim. Respirei fundo... era Seth... 

— O que tu queres? — Indaguei, irresignada. Seth sentou-se ao meu lado na fonte. Mantive-me olhando as águas, movimentando-as com a lentidão de mil noites. As dunas do plácido intermúndio que eu almejava eram, na verdade, cada grão de areia, um incômodo. Uma flor, então, desvelou-se à minha visão. Era inenarrável... Símil às dálias, tão leve e suave... com pétalas em voluta, formando um redemoinho escarlate; o vento ali já agitado, abriam-nas com um sopro contínuo. Resplandeciam em um negror-etéreo, com nuances carmesins, como se a noite tivesse derramado nela seu próprio sangue. No âmago daquelas pétalas, havia infinitesimais veias que pulsavam de forma quase imperceptível, como se a espécie tivesse um arcano coração, palpitando lento e sutil.  

Seu aroma, um mistério adocicado e quente, invadiu-me os sentidos, evocando abstrações sentimentais que eu desconhecia possuir, arrancadas do meu mais merencório oblívio. Os espinhos grandes, como nas rosas selvagens, eriçavam-se agressivamente, curvado para cima, protegendo-a dos toques indignos, em uma beleza que se declarava proibida. O caule, negro como carvão polido, era robusto e sinuoso, morno ao toque, quase aquecido ao tom de uma tez, como se moldado na escuridão nociva do mármore negro das bordas do rio de lava, no inferno. 

Ó, pulcritude absurda! Nunca vi espécie de tamanha perfeição. Era tão majestosa e tão estranha em sua beleza lúgubre, que trouxe às janelas de minh’alma um lacrimar vestal, embaçando-me a visão. A luz ao derredor minimizara drasticamente, era como estar apenas, sob minha presença, a flor e, sob a presença dela, eu; nada mais, nem o tempo, nem o dia ou a noite. E nenhum astro na imensidão. Minhas mãos tremiam, tocadas pela solenidade desse presente impensável, enquanto eu a segurava cuidadosamente, sentindo sua lanugem e a textura sedosa das pétalas. 

Olhei para Seth, estava tudo tão escuro... meus olhos, tomados por uma emoção ambígua, entre gratidão e mágoa, contornavam meu semblante aflito. Seth era tão familiar... tão desconhecido... 

— A nutrúrnia prometida... — Disse com sua voz abíssica. Fazia tempo que eu não o ouvia. Seus dedos tocaram a lágrima que vertia pelo meu rosto e eu o fitei, com mais rancor. 

— Bela na pureza de sua constituição... tão doloroso e pungente, no entanto, é sê-la, pois, tudo o que é vestal trava encontro com a mentira e a traição... profanando a inocência... — Proferi, sem deixar de fitá-lo. Sei que minha face transbordava em amargura. Ele respirou fundo. 

—  Por que proferes tamanha complexidade? Se tens algo a me dizer, então diga. 

— Sim, eu tenho... — Estava profundamente, cada vez mais, escuro ao redor. — Tua traição, tuas mentiras... um grandioso protetor tu és, eu já disse n’um outrora não tão longínquo... tu és capaz de enganar e trair a tua protegida...  

— Do que... — Ele parecia confuso, mas eu sentia que tudo era um disfarce. 

— Cinismo agora não! — Interrompi com a voz elevada. — Já basta, Seth. Tentaste colocar a criatura mítica como uma dupla personalidade que busca me fazer mal, como se eu tivesse um transtorno psíquico. Não ias me revelar sobre o que ocorria quando ela assumia minha consciência... o que mais tens escondido, demônio? — Ares superiores curvaram seu rosto. 

— Demônio, sim... e, como tal, não tenho os mesmos princípios morais que um humano. Faço tudo para proteger a tua existência, se isso inclui mentir, será feito; não há maldade em mim, muito menos bondade... — Respondeu. Mais respirações profundas, silêncios sob o véu do vento intenso e cicioso. A feição de Seth se amainou no tempo silente. — Sentes minha falta, Aessatt? — Ele segurou-me em meu maxilar. — A criatura do teu âmago, não me permite mais possuir... possuir o teu corpo... Ela quebra nosso elo... incapacitando-me de saber onde tu estás e quando precisas de mim... Isso está me enlouquecendo... 

— Dizes, então, que estás além do bem e do mau? Dizes que Corphidrae está expulsando-te e digo, pois, que a razão é o saber que ela possui sobre a tua maldade! — Argumentei após retirar suas mãos de mim. Eu não queria seu cálido toque, já muito me bastava ter de fitar seus olhos tão azuis... 

— Sim, estou além do bem e do mal... eu não sou humano, Áurea. E Corphidrae também não é. Como um animal, ela apenas mantém protegido o seu território. 

— Então... parece que já tenho uma protetora. Pode ir embora, Seth. — O silêncio voltou... e criou imensurável barreira entre nós. Seth ainda me olhava, entretanto, uma tênue tristura se espelhava em sua fisionomia. 

— Não sentes... nenhum afeto por mim? — Murmurou, baixo e grave. Eu não esperava tal indagação, portanto, não sabia como respondê-la. 

— Qual é o valor do afeto para um demônio além do bem e do mal? — Embarguei... 

— Decerto muito maior do que para um humano... — Desviou seus olhos de mim, fitando o horizonte quase impossível de enxergar.  

— Esperas algo de mim, Seth? Que eu lhe diga apreciar tua companhia desde o primeiro momento? Enquanto sinto tanto por tuas enganações... a rispidez do teu sarcasmo... sempre vieste a mim como bênção e como maldição. 

— E sou aquele que está aqui. — Seth aproximou-se, pegando em meu rosto com suas mãos. — Eu estou aqui, Áurea, eu estou aqui... Estou buscando por ti, estou protegendo-te em teu âmago ou fora dele... usurpei uma nutrúrnia para o teu bel prazer, com um inominável risco à espreita... — Senti-o acariciar meu torso, próximo ao meu coração pulsante. — Questionas minha moral... minhas mentiras... entretanto, em nome de tuas memórias, compactuas com entidades traiçoeiras... desenvolves laços com oráculos hostis, sempre em busca do que tu eras... enquanto eu... estou em teu presente... no aqui e no agora... construindo ao teu lado uma nova história que se perde no teu saudosismo... — Seth acariciou meus cabelos. — Desejo a Áurea que vejo e não aquela que um dia existiu... nem mesmo tu, Áurea, deseja a Áurea d’este momento... sempre sondando quem ela era... e quem ela há de ser... 

— Quem tu és sem as tuas memórias, Seth? 

— Lembra-te quando despertaras? Quando me viste em Séttimor... e quando me desejaste... na biblioteca... ou quando te salvei naquela adega sombria...? — Eu lembrava, contudo, mantive-me silenciada. Seth levantou-me e segurou minha cintura, colocando meu corpo contra o seu no centro daquela escuridão. — Tem algum valor em tais memórias para ti? — Aproximou-se, beijando meu rosto, devagar... 

— Eu... — Hesitei. Era difícil resistir... Seth me envolvia tanto... e eu sentia que ele tinha razão, pois, seus argumentos me mostravam que eu não dava valor ao que o despertar n’esta existência, em tal Castelo, proporcionava... pouco a mim valia tudo o que havia ao meu redor, pois eu precisava de minhas memórias, sem elas eu me sentia incompleta. Por outro lado, Seth criou memórias ao meu lado e esteve próximo, fazendo o que lhe era possível... sendo quem ele poderia ser... e, talvez, de todos os horrores, de todas as inverdades... desde Lëvri até Lahgura... ou mesmo o preço que devo ter pagado pelas previsões do Oráculo... havia manipulação em tudo... todos... eram enganações perpétuas... lâminas cortantes, translúcidas, abscindindo meu coração. 

— O Corvo Esfaqueado: Invertida... eu sei que é sobre ti... — Murmurei. 

— Queres crer em teu oráculo... eu compreendo... mesmo havendo Monm te alertado sobre os perigos... — Seth estava tão perto... eu sentia seu hálito quente... 

— Tu esteves lá... — Lamurei já enlevada... 

— Sim... preso pela Corphidrae, digno apenas de observar e temer... — Seth apertou-me a cintura, beijou o canto de meus lábios quando sua mão direita guiava minha nuca. 

— Ah... o teu perfume mescla-se à nutrúrnia... — Sussurrou, beijando-me o pescoço; minha tez arrepiara e senti medo. — Um bálsamo ardente... almiscarado e doce... 

— Eu não... eu não sei... — Tentei dizer algo que sequer sabia... balbuciando palavras em busca de alguma lídima racionalidade. 

— Ah... mas eu sei... — A mão de Seth conduziu-se aos meus cabelos... — Eu sei... — Seus lábios tocaram nos meus... Seth era ardente, parecia possuir uma temperatura verdadeiramente mais elevada que a de qualquer outro corpo. 

Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss, esspussess erebriss daemoniss ssaeiva enssnura, ssaeiva enssnura voluass.” — Ouvi, não vinha de Seth, mas a voz amedrontadora estava nele; meus olhos que outrora se fecharam pelo que emergia em meu imo, abriram-se assustados. 

— O que é isso? De quem é essa voz? Seth? — Ele me olhou, seus olhos brilhavam como fogo e sua respiração era ofegante... 

— Hum...Tu ouviste... 

— Sim! E não é a primeira vez! — Seth levou as mãos à sua cabeça, parecia transtornado. N’um impulso, pegou a flor do inferno e logo voltou-se a mim, puxando meu corpo contra o seu com mais força. Seu beijo, n’este instante, tornou-se voraz, intenso e promíscuo. Segurava-me os cabelos, a cintura, levando-me a caminhar para onde eu não via. Caímos em um monte de folhas secas, ao que parecia, ainda no jardim; mas tudo se mantinha muito escuro. 

Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss, esspussess erebriss daemoniss.” — Ouvi outra vez e tremi, em medo irrompente. Seth beijou meus seios, abrindo meu vestido... meu oceano íntimo desaguou por volúpia no instante em que o medo aflorou ainda mais em minha tez. 

— Áurea... pulso tanto... por ti... — Murmuraram as sete vozes do abismo, ascendendo-me mais ao temor e ao prazer. 

“Inuoss ssor Lussifferr!” — ouvi, mais alto, mais horrendo e austero. Meus olhos lacrimejaram de pavor dilacerante. Seth agitou sua cabeça, como se tentasse afastar o que ouvia. 

— Seth... isso... estou amedrontada... — Confessei. 

— Eu sei... — Disseram as sete vozes do abismo. Desde aquele momento anterior, Seth só se comunicava com elas. Era como o eco de sua própria voz, sete vezes se repetindo, um eco profuso e tétrico. — Eu sinto o teu medo... e também sinto o teu desejo... e quero sentir a tua boca... — Fui levada, ainda sendo segurada pelos cabelos, a ficar sobre o peito de Seth. Dominados pelo breu absoluto, eu mal podia enxergá-lo, pois, sempre que a luz adentrava ao derredor, pouco depois era consumida na escuridão. Ainda que privada de visão em razão d’esta estranha manifestação que pensei se tratar advir de Seth, as trevas pareciam nos proteger na intimidade apavorante. — Sinta o meu verdadeiro inferno... — Seth murmurou e levou meu rosto à tua plenitúrgida intimidade... abri meus lábios, um instinto perverso que não era meu, mas vinha de mim. “Abnaesss! Sserpen! Abnaesss!” — ouvi, o maldito som da voz, pior que a de Seth; o medo me consumia violento. 

As mãos dele ordenavam minha cabeça, forçando-a contra seu membro que eu sorvia e me engasgava. Era tão quente... tão errado... de sabor sedutor... aroma viril... olhei para sua face de regozijo. Eu o desejava e senti-me profundamente envergonhada por isso. Eu não conseguia compreender. Seth me puxou para seu peito outra vez, e logo se colocou sobre mim, beijando-me e beijando mais. Senti-o subir meu vestido, tocando minhas pernas. Arrepiava a minha pele, em profundo temor e volúpia. Então... tocou o cimo de minha vulva, quente e, naquele momento, inundado por minha saliva. E lentamente foi se penetrando... devagar... bem devagar... seus olhos queimavam, assim, de forma literal havia fogo em suas retinas... e seu membro, se entrando em minha arculva, pronta para envolvê-lo... abraçá-lo... e tão pulsante, ele e eu... “Ssattaessatt erebriss esspussess daemoniss” — tremulei e vibrei. 

Ainda cingida pela aflição do medo, entretanto, muito mais pelo deleite. Assim que o membro de Seth se escondeu em mim, tocando-me o ventre; seu ritmo ascendeu rápido, tanto quanto a exultação. E seus movimentos, entrando e saindo do meu íntimo, como um animal, gemendo e lamuriando demoníaco, faziam-me curvar meu corpo, enquanto suas mãos apertavam-me a cintura e as costas; minhas unhas cravavam-se novamente, agora por outras razões, em seu dorso, relembrando de nosso recente confronto.  

— Ah... isso... ah... mais... mais... — Eu o ouvi, entre nossos gemidos e o terror. Eu estava descontrolada... perdida... minha cabeça volvia e volvia, embriagada, extasiada... e ele... dentro de mim... tão intenso... tão sensível... minha respiração completamente desorientada. Sua pele em minha carne... rígido, forte, deslizante... Eu sentia uma energia bizarra extraída do corpo de Seth e penetrando meu ventre, subindo pelos meus órgãos vitais. — Ah... ttssorr... — Ele dizia, tomado pela insanidade... eu sequer sabia o que aquilo significava... e cada vez mais agressivo, teso... obsceno em mim. 

Naquele instante, vi minhas marcas em seu pescoço... vi suas veias... belíssimas... qual era a cor de seu sangue? Eu não me lembrava... segurei seu pescoço... cravei-lhe meus dentes e o ouvi ranger de dor. O sangue dele tocou minha língua como uma febre causada pela peste mais horrenda, como lava me queimou, ardeu! Tinha o sabor de um pecado oculto em veludo escarlate... era picante como uma planta maldita, amargo como vinho seco guardado há eras sob as colunas de mármore negro do inferno. E, no fundo, uma nota de morte... e o gosto de promessas quebradas, de mentiras seladas na dor e no prazer. Gota a gota... inundando-me os lábios e a garganta... 

O sangue de Seth não alimentava — ele incendiava. Despertava. Corrompia e elevava ao mesmo tempo. Estava acima do sangue humano: não era vida, era poder. E, ao consumi-lo, minha alma sibilou: “sserssattua” — o significado era evidente à minha consciência: “pecado”. Seth me retirou do meu delírio ao ouvir-me, o seu sangue escorreu, pingando sobre meus seios. Ele segurou meu rosto; fitou-me com um sorriso mórbido. Suávamos tanto... e após sorvê-lo, eu me sentia mais tórrida... 

Perssattua ssorn aessatt... — murmurou. “Minha possuída... para sempre” significava. Contrações intensas em todos os meus músculos, um orgasmo súbito me governara. Arranhei o torso de Seth. Ele se abaixou, sussurrando em meu ouvido. — Sinta... — Eu queria mais. Puxei-o, pelo lado esquerdo, e cravei meus dentes no outro lado de seu pescoço; sorvi... deliciosamente... e tão logo enquanto sorvia, eu o senti tremer muito... bradar um prazer inumano... e o seu liquor demoníaco e fértil, banhou-me como uma onda obscura do oceano azul-gris. Seth vociferou horrores na língua dos demônios, parecia enfraquecido de tanto que fora sorvido por mim, e eu não parava. Novamente fui empurrada por ele; afastando-me de seu pescoço. Ele estava muito fraco. Prostrou-se ao meu lado, incapaz de se levantar... parecia dizer algo, mas eu não o ouvia bem... seu corpo começou a queimar como papel, algo nunca visto por mim, entretanto, meus sentidos estavam aguçados para tudo, eu podia enxergar em toda aquela escuridão e entendia que Seth estava indo para o inferno. 

A nutrúrnia, por sua vez, também estava diferente, caída ao nosso lado, parecia mais viva... e eu podia ouvi-la sussurrar o ininteligível, como um canto feminino sôfrego. Em minhas pernas escorria um líquido denso, eu estava nua e tudo era preto e vermelho. Peguei a flor, fechando-a na palma de minha mão, de modo célere, fui ferida pelos espinhos; eu não me importava, pois, estava em uma afrodisíaca overdose. Finquei o caule da nutrúrnia em meu peito... sim... e senti profundo enlevo arrebatador, como doses absurdas de dopamina... eu senti... muito além da dor estarrecedora. Caminhei, cheia do poder demoníaco... e o desejo sexual ainda aflorado... meus passos na escuridão... uma escuridão que pertencia a mim... sozinha... imunda de sêmen... manchada de pecado. 

Eu compreendi muitas coisas... sorver o sangue de Seth me fez uma daemoniss, em alguma instância... em alguma profundidade. Compreendi que a nutrúrnia consumia toda a luz ao seu redor, tornando qualquer pálido lume em um ponto opaco no breu absoluto. Compreendi que sua seiva causava o mesmo êxtase que o sangue de Seth, se sorvida... e que, regada de sangue e luz, ela propagava sua escuridão onde apenas os daemoniss eram capazes de enxergar. Compreendi o idioma de Lussifferr, entendi que ele alertava Seth a todo o instante, com sua voz de imponente horror, dizendo que o expulsaria do inferno se ele ousasse possuir uma humana..., mas eu... eu não me sentia humana... era, mesmo assim, vista como uma.  

Eu tinha o poder de Seth... e apesar disso... apesar do que veio de encontro ao meu entendimento e apesar do intenso desejo, mesmo após o sexo... eu me sentia constrangida e uma intuição insistia em revelar que a solidão ainda era real, obstinava-se em me alertar que a paixão por Seth era hostil. Eu o vi abrasar e sumir... debilitado e... eu pensava nele. Voltei ao meu aposento e fiquei imersa nas águas frias de uma banheira de porcelana... impassível diante de meu próprio pecado... enquanto a nutrúrnia permanecia fincada, sem permitir esvair uma única gota do meu sangue. Eu via seu caule detrás de minha tez... respirar estava difícil... 

E a estranheza tinha uma presença própria, quase tátil... ela se disseminava no calvário de um sentimento mofino que me pertencia tanto. Eu... eu sentia que era uma traidora... era isso... eu sentia que havia traído Lorrt, mesmo sem amá-lo como um dia amei. 

Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Capítulo 12: Seu Raro Rubi — Rubi Áurea

O céu era como a De Sterrennacht, embora em tons azúleos, opacos e cinéreos — sombrio além…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O céu era como a De Sterrennacht, embora em tons azúleos, opacos e cinéreos — sombrio além, n’um mistério lôbrego. O vento soprava apenas no alto, ondulando as nuvens e distorcendo os astros. Gotas de orvalhos límpidos e luminescentes flutuavam no silêncio, como se pairassem à espera de um instante preciso para se desfazerem em si mesmos. Observei, do alto vitral de minha alcova, uma paisagem de névoa índigo-gris e tão logo vi que a escuridão em seu interior era grave, tornando as velas e suas flamas em pobres pontos oscilantes, símeis aos orvalhos que pairavam. O breu daquele antro, era causado por mim, eu sentia; entretanto, lá fora, estava tão símil... ou será que as trevas estão em meus olhos? 

Sentei-me; meu corpo nu sobre o veludo negro e a nutrúrnia em meu peito, vívida. Sob tamanho êxtase... fui capaz d’esta insanidade? Por quê? Eu me lembro, mas não compreendo. Eu me questionava enquanto mantinha meus olhos nas veias que se criaram entorno do caule sob minha tez; tocava-as e sentia pulsar o que poderia ser sangue ou a seiva da planta. Sob tal estranha luz anil-acinzentada, a pele tomava um tom símil, embora mais escuro, demarcava o hematoma do corpo estranho que se alojava no meu torso. A respiração melhorara, porém, ainda era mais parca do que outrora.  

Ao velutum cabinet guiei-me na lentidão própria do tempo frígido que espargia ao derredor; em seu interior, observei as roupas que não eram minhas, a quem pertenceram afinal? Meus tecidos, eu acreditava, jaziam sob a terra úmida ou protegidos na solidão da saudade por aqueles que um dia amei. Vasculhei as peças, nenhuma me parecia correta diante da necessidade de manter exposta a nutrúrnia de meu torso e, ainda, proteger-me do álgido clima. Em um lance tênue de segundos silentes, senti profunda sede. Sede? Era-me tão rara, entretanto, emergiu como exigência imediata. Quiçá pela nutrúrnia... consumindo-me o sangue... 

Escolhi uma peça negra, com ornamentos em ouro envelhecido; tive, no entanto, de rasgá-la sutilmente no torso, de modo a permitir que a nutrúrnia permanecesse livre. Havia mais espinhos do que o comum em suas pétalas, entretanto, pareciam curvar-se diante de meu toque; impedindo que uma ferida se abrisse em meus dedos. Pouco antes de libertá-la da renda, ouvi algumas batidas em meus umbrais, as quais ressoaram no tangível silêncio. Um adequado e quente cálice de sangue humano? Um alguém desconhecido para um banquete ao deleite da besta obscura que me tornei? Tão só mais um enigma d’este lugar terrífico? Abri a porta, pesada e rangente. 

— Liliana! — Surpreendi-me. Convidei-a para adentrar meu lúgubre recôndito e a abracei, com carinho; sua pele se translucidava, eu via todas as suas veias e artérias. 

— Amada Áurea, demorei para encontrar-te n’este mausoléu! — Senti-me turva enquanto sua mélea voz se alastrava. — Quão escuro está aqui! Ah... uma.... flor? — Segurei em uma das mãos de Liliana. 

— Venha... — Segui para fora d’alcova, precisava de sangue... embora não soubesse como consegui-lo. Meus olhos transmutavam o azul-gris em um escarlate mórbido conforme meus passos apressados percorriam os corredores. Levava comigo parte da luz que adentrava os vitrais e parte das que queimavam nas flamas das velas nos candelabros. Eu evitava olhar para Lil, eu sabia do grave risco que pendia entre nós. Entretanto, ela estava firme em minhas mãos, céleres, seguíamos. — Hohrriss esstt! — Murmurei, uma interjeição diabólica que amaldiçoava a condição que eu me encontrava; um murmúrio baixo como um rosnar intrínseco. O rubro morbígero se acentuava. 

À direita” ouvi, era minha própria voz... em minha mente. “Quarta porta” ela disse... eu disse... eu sabia que era a Corphidrae... ou eu mesma. Um tipo de sala-de-estar se apresentou aos meus olhos; um cravum cabinet próximo tão logo chamou minha atenção. Deixei a mão de Liliana e segui ao móvel, abrindo-o. Havia cálices e taças; nos rótulos, títulos inelegíveis; frascos e vidros com seiva carmim. Dentre tantos, um deles reluziu aos meus olhos, n’um era vivo e parecia possuir nuances em dourado. Sem pensar, apenas o verti sobre o cálice e bebi até o fim de todo o frasco. Era docílimo, poderoso, mel aos lábios, fascínio e prazer rapidamente s’ergueram no meu âmago. Minha visão entorpecida se alinhava à sanidade e, no rótulo, um único nome: Olga Nivïttz {RHNulo}. 

— Áurea? — Ouvi. Olhei para Liliana que parecia assustada. 

— Perdoe-me, Lil; eu estava precisando de... sangue... — Eu já havia contado a ela o mais importante sobre mim, um resumo, enquanto seguíamos para o Oráculo. Dentre as minhas verdades, o vampirismo ela soube sem delongas. Algo entre nós se estabelecia, um emocional identificatório; não sei se pela gratidão dela em receber uma previsão de morte; se pela verdade de meu olhar sobre seu semblante encantador; se por alguma outra razão além do tempo... 

O escarlate ao derredor minguou-se, portanto, dando lugar ao cinéreo-azulescido que outrora ordenou meus sentidos à melancolia sepulcral do silêncio e do orvalho luminescente que pairava somo poeira. Meus batimentos cardíacos amansaram. 

— Muito ocorreu desde que nos vimos sob os cinco olhos do Oráculo... — Sentei-me no sofá próximo, Liliana fez o mesmo. 

— Vim trazer esperança aos teus olhos tristes, minha Áurea. Antes que tudo me reveles, deixe-me dizer quem conheci. — Ela parecia empolgada, seus olhos eram dois esplendores âmbar. Mantive-me atenta e Liliana segurou minhas mãos nas suas. — Uma sublime mulher veio ao meu encontro, estava a refletir sobre o ocorrido no Oráculo, bem como a cerca de Luíre... enfim... esta mulher, de nome Morgana, tem estudado sobre os sonhos e, porventura, ela possa levar-te à Somníria outra vez! — Respirei fundo diante da revelação. Soltei das mãos de Lil e levantei-me, caminhando à esmo pelo cômodo. Fui à fenestra semiaberta, observei o horizonte enevoado. 

— Não sei se quero retornar à Somníria... — Confessei. Liliana levantou-se, um tanto incrédula. 

— Como não? Lorrt é a chave de tudo, Áurea! Ele sabe de tua vida, do teu poder... 

— Eu o traí, Lili... eu não... não saberia fitá-lo em seus olhos... eu não saberia ficar outra vez em frente ao amor que ele externa a mim com seu semblante gentil e austero. — Um silêncio espargiu, sôfrego... Liliana se aproximou. 

— Como assim? — Indagou e eu a fitei no mais profundo de seus olhos âmbar. Senti a tristeza, íntima, nascendo como garoa na imensidão. 

— Eu... encontrei Seth... no entardecer de ontem... quando um carmesim-opaco e escuro direcionava a luz do pôr-do-sol às folhas secas... e eu... — Era impossível desvelar com as palavras que cabiam dizer. — Senti... eu o senti... no inominável prazer... da carne e do cerne... uma intensidade lasciva que traz o tremor às minhas entranhas só de recuperar a lembrança... — Voltei-me à janela, deixando de olhar para Lili e ela, por sua vez, afagou meus cabelos e abraçou-me, delicada. 

— Tu ainda amas o Dom Lorrt? — Questionou, serena. 

— Não... — Respondi, precípite. — Quero dizer... eu acho que não... entretanto... sinto culpa. 

— Estranhas que a culpa advenha sem haver, pois, amor? 

— Estranho... — Voltei-me a Liliana e ela afagou meu rosto. — Talvez, em alguma instância profunda, o amor ainda exista e, quiçá, eu saiba... no plano intuicional, talvez... eu... eu sinto içar um caos hórrido em meus sentires, Liliana... outrora estive desperta, buscando tão somente minhas memórias... até este tempo... onde laços tornaram-se nós e nós se quebrantaram na estranheza e no desejo... — Suspirei, deitando-me no abraço de Liliana. — Quão injusto é dar uma traição àquele que tanto me respeita... lembro-me do sonho... o sonho recorrente que escapara de mim desde que me despertei este monstro que sou... no sonho... as crianças aos meus pés... e os pés de um homem... eu sei que era Lorrt, eu sinto... eu sonhava com ele... formando ao seu lado uma família. Agora, contudo, vês? Dormi com dois homens e nenhum deles era o homem que habitava meus sonhos mais próprios... 

— Áurea, não te culpes. Teu oblívio adveio em razão do mau acaso. Nem Lorrt, nem ti, decerto que até mesmo nem Lëvri, detém a culpa pelo acaso em sua manifestação orgânica, ainda que um tanto perverso e obscuro seja tais vicissitudes. Mesmo assim, tu não podes permitir que estas contingências te façam ficar contra ti mesma. Guarda no peito o que te aflige, minha doce, mulheres sempre possuem segredos em seu coração e não devem revelá-los aos homens, pois, eles não entenderiam. 

— E Seth? — Era agradável e apaziguador deitar-me daquela forma, n’um amável abraço aquecido. 

— O Demônio? Bem... ele não me soa confiável, querida. 

— Eu sei... — Soltei-me de Liliana, sem bruscos movimentos. Voltei-me à janela, as nuvens volutais e o azul-gris ainda despertavam minha melancolia. — Ele é, porém, tão intenso... ele me aquecera com a calidez de seu inferno. Eu não o amo... entretanto, como um súbito clarão na tempestade mórbida, eis a minha paixão manifesta; ora fere, ora cura, brincando com a minha mente. 

— Mais razões eu vejo para que reencontres Lorrt, minha amada. Para que tenhas certezas sobre teus sentires. Se a paixão por Seth machuca e se desvela sempre na veemência atordoante, esteja atenta. Amor é paz e, portanto, pode ser perene. Paixão é volátil demais para perdurar... e pode ser até mesmo perigosa. 

Ao seu lado, fiquei por um tempo em silêncio. E entre afagos nos cabelos e mãos, fui ajustando meus pensamentos conturbados. Era inegável que fugir de Lorrt resultaria em mais angústias e, de fato, havia tanto o que ele sabia sobre mim... talvez do lugar de onde vim, das coisas que eu apreciava. E saber dele resultaria em compreender o vampirismo Illitam, algo que me pertencia, portanto.  

— É hora, querida. Vou te levar à Morgana. — Liliana me olhou com um sorriso único e eu concordei em seguir os seus planos. Eu não sabia o que esperar, entretanto, estava disposta. Enquanto percorríamos o destino incerto, foi compartilhado comigo algumas das angústias de Lil, acabei por não lhe revelar sobre os poderes demoníacos, permite-me apenas ouvi-la. — Chegamos. — Era um dos quartos do Castelo. Liliana adentrou, sem precisar bater à porta. 

Dois olhos verdes lumiaram em nossa direção, vindos de um rosto feminino. Ela se levantou com elegância. O cômodo era menor, símil ao de Monm. Vestia uma peça sublime, negra como a noite de lua nova, com detalhes em alguma pedra escura, talvez ônix. Ela tinha os cabelos presos em um véu sútil que recaía até os seus ombros. Sua pele era de um marrom intenso, sim, marrom; castanho-escuro, pouco mais claro que seus cabelos.  

— Prazer, sou Morgana Sttrattan. — Cumprimentei-a e me apresentei. — Sentem-se, por favor. — Assim o fizemos nas poltronas próximas à escrivaninha que Morgana estava ao chegarmos. Além destes móveis, um velutum cabinet e um leito de cedro escuro complementavam o aposento. Uma tapeçaria ornamental no mesmo tom cobria o assoalho. Do vitral à direita, para o oeste, uma vista para o precipício. 

A partir daquele ponto, Morgana relatou sobre a sua vida e a razão pela qual buscava Somníria. “Em minhas pesquisas” ela disse “eu soube de uma lenda a respeito desse lugar e tinha o intuito de encontrá-lo forçando o sonho lúcido. Era a única maneira possível de saber se era real ou apenas uma fábula”. Eu a ouvia com uma admiração irrefutável, até que vi seu corpo sutilmente desvanecer, como se fantasmagórico. “O que viste, Áurea, é a instabilidade da minha atual condição. Eu estou dormindo. Forçada por um aparelho de nome soníer, capaz de captar e traduzir ondas oníricas. Coloquei-me vinculada ao aparelho, com algumas modificações e, crendo alcançar Somníria, encontrei este Castelo umbrífero”. Eu ouvi e fiquei incrédula. 

— Como é possível? — Indaguei. 

— Não sei como, entretanto, na noite anterior, decidi replicar soníer n’este plano, acreditando ser possível haver níveis de sono REM. Para minha surpresa, eu o encontrei em um dos cômodos enquanto perscrutava o local. Não posso vos afirmar tratar-se de um item pertencente a outrem ou se foi construído através da minha intenção... 

— Sugere que estamos adormecidas? Pertencemos a um sonho teu? — Interrompi-a. 

— Creio ser improvável. A imersão de vossas histórias pessoais, conduzem-me à percepção de que, ao induzir meu sono com o aparelho modificado, usando-me como a cobaia do experimento, fui levada a outra realidade. Estou adormecida, entretanto, projetada, de forma astral, aqui. Talvez, com soníer acionado, em nós três, possamos induzir um sonho lúcido para o local, pois, já estou no sono REM, em hipótese, e tu, Áurea, já estivesse em Somníria. — Ficamos em silêncio. Eu pensava sobre aquela insanidade narrada com tamanho fundamento. — Eu não tenho muito tempo, devo dizer. — Morgana continuou. — Meu corpo tem desvanecido cada vez mais, pois o tempo está passando lá onde estou sobre o meu leito, ligada ao soníer. Uma profunda instabilidade, além disso, rege minha condição astral n’este plano. Eu despertarei, a qualquer momento. 

— Eu... pouco compreendi, entretanto, devemos tentar, certo, Áurea? — Perguntou Liliana. Eu a fitei, hesitante. 

— Sim. — Eu não poderia discordar. 

Assim, iniciamos o processo. Morgana compreendia muito sobre o que estava fazendo, sobre soníer e seu universo onírico. Enquanto nos preparava, contou-nos sobre Morgion Sttrattan, seu pai, que sofrera com sonhos lúcidos bizarros desde sua infância e, quando adulto, passou a estudar os fenômenos vinculados ao âmbito sonial. Morgana nasceu cingida por um ambiente de estudos acentuados e seu pai fora uma figura de extremo exemplo e imoderada admiração, por isso, ela seguiu seus passos, embora fizesse tudo o que Dom Morgion considerava perigoso e arriscado. O contexto de sua vivência pessoal, trouxe-me uma saudade que sequer imaginei pertencer ao cerne que possuo; eu decerto tenho ou tive uma família e, talvez, um pai para admirar. Senti que a determinação de Morgana me atravessava como um indício de que era preciso continuar tentando encontrar-me em mim mesma. 

Sorvemos de um líquido hialino com nuances escuras, era doce e enjoativo. Tratava-se de um indutor de sono profundo. Adesivos com um tipo de metal frígido, um metal de nome unorom, foi adicionado em nossas têmporas e conectados, por cabos, à máquina soníer. Morgana fizera questão de explicar as minúcias. Fui instruída a focar meus pensamentos e lembranças no instante em que estive em Somníria, portanto recordei de cada detalhe. Confesso que Lorrt era a principal imagem à minha mente... seus olhos amáveis, suas palavras afáveis... sua tristeza. Queria amá-lo, queria tanto amá-lo... e o sono vinha sólido a mim, meus olhos se fecharam, permitindo a lágrima velada verter, morrendo sobre o travesseiro qual repousava minha cabeça. 

Aos poucos, a imagem de Lorrt se estabelecida com mais nitidez; a escuridão granulada das pálpebras cerradas se expandia em palidez, pouco a pouco, onde nuvens impassíveis conduziam uma brisa que aclarava um céu alvililás em todo o entorno. Senti o toque dele, em meu rosto, n’uma carícia tenra e amorosa. “Encontre-me em teus pesadelos... zelarei por eles...” — ouvi, num murmúrio pertencente a ele, sua viril voz se expandia... eu estava recordando e, ao mesmo tempo, buscando pelos umbrais que precisava atravessar para alcançar o reino dos sonhos. “Eu vou cuidar de ti, Áurea...” — Ouvi, dessa vez com mais limpidez sonora. A visão estava mais refúlgida, entretanto, toda a paisagem enegrecia em súbitos átimos, a partir do ponto em que eu estava mais adentro daquele onírico plano. 

Nos instantes que esta escuridão, n’um índigo opaco, se distendia entre as nuvens, nos átimos de segundos, um piscar de olhos, meu coração doía e eu sentia medo outra vez. Quando o tato se tornou o sentido mais claro, entendi que estava em Somníria. Senti meus pés caminharem sobre as nuvens e a brisa arrepiar a minha tez. A visão, outrora embaçada e rarefeita, tornou-se explícita em seus detalhes mais infinitesimais... assim vi imensos cristais negros e belíssimas ametistas, pairando na imensidão como ínsulas. Senti-me profundamente vinculada ao lugar e, portanto, sussurrei o nome de Lorrt, fechando os olhos. Assim que os abri novamente, estava em frente ao homem que amei. 

Seus olhos estavam n’um tom violeta escurecido, não tão vívido como da primeira vez. Seu semblante estava um pouco mais melancólico, embora um lumiar tímido lhe tenha envolvido quando eu proferi seu nome. Era lindo... um anjo de asas negras, com austeridade em sua fronte. “Eu precisava...” — murmurei. Queria explicar-lhe que minha intenção não era desestabilizar Somníria, entretanto, era inestimável encontrá-lo outra vez. A sensação de fraqueza foi apaziguando e, após um silêncio acolhedor, eu senti que, finalmente, eu estava consciente em Somníria. Olhei para os arredores, buscando Lil e Morgana, mas apenas eu e Lorrt estávamos na paisagem alvililás. 

— Eu... precisava te ver outra vez... — Proferi, tímida e hesitante. — Espero não estar... perturbando demais... 

— Tu não és uma perturbação para mim... — A voz de Lorrt não era feita de som: era feita de reminiscências. Parecia emergir de mim poeiras de lembranças jamais acessadas. Era grave, sim, mas de uma gravidade que não pesava; antes, ascendia, tal qual a sombra de uma constelação inalcançável e colossal que, ao invés de lançar temor, imerge o âmago n’um anseio irreprimível, por admiração e fascínio. Um tecido de som entrançado de saudade e soberania, tão profundo que nem os mortos teriam coragem de esquecê-lo. 

— Sinto que estou errando em todas as minhas escolhas... e não recordei mais de minha vida antes do despertar... estou abraçada às sombras hostis... — Confessei, lacrimosa. Lorrt ia tocar minha face, entretanto, não o fez. Pareceu-me consternado e olhou para o lado, talvez desejasse um alívio da visão que tinha de mim. Senti receio. — Ainda... reside amor por mim... no teu peito? — Seus olhos se voltaram aos meus, pareciam menos violeta. Fitaram meus lábios. Lorrt se aproximou. 

— Intenso como fogo... fluído como o oceano... profundo como um abismo... sempre. Sempre aqui. — Sussurrou, próximo. Meu coração se comprimiu, embora eu sentisse uma quietude plácida em meu ser. 

— Aquela que fui ou a que sou? — Indaguei, abaixando a cabeça. Fitando suas grandes mãos, firmes como as de um cavaleiro da morte, capaz de carregar a foice do destino e, ao mesmo tempo, segurar um crisântemo sem despedaçá-lo. 

— Aquela que serás... carregando a que foste e a que és, com o fascínio do que há de ser... — Respondeu, inabalável. Eu estremeci pela beleza de suas palavras. 

— Apesar do quanto eu possa errar? Dos pecados que eu possa cometer? Das dores que eu possa te causar? — Eu não entendia minhas perguntas, elas vinham de mim sem nenhum vínculo racional... tudo o que pensei em saber, sobre minha história e sobre os Illitan, parecia nunca ter sido pensado, parecia irrelevante. Lorrt respirou fundo, fechando seus olhos por alguns segundos e abrindo-os em seguida. Parecia pensar em algo muito além da minha indagação. 

— Teu amor por mim foi sempre vestal. Qualquer pecado, erro ou dor que dele advenha, é por descuido recíproco, pois não há falha de caráter em ti. — Disse, um pouco frio, um pouco mais distante, mas ainda atento. 

— Estou desestabilizando Somníria? — Perguntei, pois, sua sutil frialdade me sugeriu que uma preocupação o estivesse envolvendo. 

— Não só Somníria... — Revelou, e ficamos em silêncio por um tempo. Senti uma tristura implacável... eu certamente o estava machucando, com minha presença e minhas perguntas. 

— Então me acorde... eu compreendo... eu sei que não posso ficar aqui... — Murmurei, mesmo querendo falar mais, ouvi-lo mais. 

— Eu... não posso... — Murmurou Lorrt. Eu o olhei, surpresa. 

— Por que não? — Intriguei-me. Ele se aproximou um pouco mais. 

— Porque, Áurea, teu perfume me agrada... — A voz de Lorrt tornou-se mais intensa. — Porque prefiro manter meus olhos em teu belo semblante... — Senti meu rosto aquecer, o olhar de Lorrt era de profunda paixão; envergonhava-me um pouco. 

— Sempre me chamaste de Áurea? — Sem saber a razão, continuava lhe indagando o que não fazia sentido... talvez eu acreditasse que, me aproximando do que vivi ao lado dele, as lembranças aflorassem. Para o meu deleite, Lorrt sorriu... O sorriso de Lorrt era uma fratura no rigor de sua existência: uma fissura pela qual, brevemente, se vislumbrava o homem que ele poderia ter sido se o mundo lhe houvesse sido mais justo. Eu não compreendia, mas sentia, intuía... seu sorriso contornava sua face austera com uma suavidade viril, revelava-me em silêncio a sua essência que me fora outrora tão familiar... 

— Não... Preferia chamar-te de Meu Raro Rubi. — Desvelou. Eu sorri e meu sorriso o fez sorrir um pouco mais. 

— Raro Rubi? Por quê? — Indaguei, com uma felicidade inenarrável em meu coração vazio. Era quente poder ver a mesma alegria no olhar de Lorrt, e saber que ele não se abrigava tão somente em insondáveis mágoas. 

— Porque nos conh... 

Eu... daria tudo para ouvir a história por detrás de tal alcunha tão gentil... eu senti que daria minha vida, naquele átimo, quando minha pele começou a queimar tal qual papel em brasa e meu corpo era absorvido por um fogo crepitante. 

Fogo... intenso. Meu corpo estava queimando. 

Eu faria tudo tão só para ouvir Lorrt... e vê-lo sorrir... mesmo que não, o amasse mais... mesmo não me recordando do amor; havia algo... sabe? Apesar dos pesares, havia algo que me envolvia em alento, algo que vinha dele... da presença e da voz de Lorrt. Contudo, eu fui queimada viva naquele momento — assim eu sentia — meu corpo em brasas fulgurantes, meu rosto desaparecendo no estalar de nímias flamas, uma combustão. Olhei em desespero para Lorrt. Não doía, entretanto, assustava de modo terrível. E queimava... eu sentia o fogo no meu cerne. 

— Não... não... ajuda-me Lorrt... eu não quero ir... deixe-me ficar aqui... deixe-me te ouvir... — Segurei no casaco negro que Lorrt vestia, pois no impacto da súbita combustão, abaixei-me de horror apavorante. Lorrt segurou minhas mãos, sua feição era de profundo tormento. 

— Áurea!!! — Ele clamou por mim... Abraçou meu corpo e sentiu o fogo queimar sua tez. Gemeu de dor repentina e, por instinto, se afastou... 

— Não... não... por favor... Lorrt... — Foram minhas últimas palavras... 

Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Capítulo 10: O Oráculo das 7 Profecias

Uma monodia litúrgica bizarra atravessara nossas almas, tão mais que os tímpanos. A morte parecia habitar o derredor, as velas tremeluziam…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Uma monodia litúrgica bizarra atravessara nossas almas, tão mais que os tímpanos. A morte parecia habitar o derredor, as velas tremeluziam n’um escarlate-sanguíneo oxidado e meu coração era oprimido como nunca outrora fora. Eu sentia ser observada pela escuridão enrubescida. Eu e Liliana estávamos de frente aos umbrais do aposento-cárcere de Naomie e Noellie, eles foram abertos como se soubessem de nossa chegada; O cântico lôbrego era corpóreo, embora translúcido, vinha de todos e de nenhum lugar. Além do seu entoar mórbido, habitava um silêncio pouco silente, farto de um eco contínuo e tétrico, capaz de perturbar qualquer existência. Eu era cética sobre ser possível que alguém vivesse naquela alcova de horror oculto; como um nefasto véu esotérico. 

Liliana alertara-me da aura insalubre do local, todavia, não adentrava em meu âmago a verdade dita por suas méleas palavras. Era, decerto, — eu pensava — mais um cômodo misterioso deste alcácer, só isso e nada mais. Arrependi-me do ceticismo quando vi aquelas gêmeas siamesas, seus corpos colados como um experimento macabro da existência. Não eram gêmeas siamesas comuns, compreende? Algo de dantesco habitava seus olhos vítreos; uma mancha negrume abaixo de seus olhos indicavam um choro perpétuo e seus pequenos lábios curvados para baixo, enegrecidos em tons púrpura, pareciam mortos; uma delas possuía uma cruz em sua fronte, como se marcada à ferro, uma pérola de lótus negra no centro do símbolo, estava encrustada na tez. Senti-me arrepiar. Elas usavam um tipo de vestido negro, cobrindo todo o corpo, dos pés ao pescoço. Com detalhes em ouro envelhecido. Usavam luvas e seguravam cartas em suas mãos. 

Na parede carmim detrás delas, dezenas de cabeças de coelhos de todas as espécies inimagináveis; como quadros em prismas de vidro e moldura de ouro envelhecido. Muitas já em estado avançado de decomposição, não estavam empalhadas. Foram arrancadas e guardadas, como tesouro, nos prismas. Era nojento e sinistro; os olhos vermelhos das espécies vidrados no infinito do quarto escuro. 

— Sente-se Áurea Lihran; há muito o que o Oráculo tem para lhe proferir. — Agouraram em uníssono; pois que a voz feminil que possuíam, era abismal em agouro, um vibrar símil ao poço mais profundo. Olhei para Liliana, ela parecia implorar para que eu apenas obedecesse, por isso o fiz. — Saia, Liliana; Áurea já mudou o teu destino, o Oráculo não quer a tua presença. — Ela respirou fundo e as portas se fecharam assim que ela deixou a recôndito. As meninas, se assim posso dizer, sempre falavam juntas, como uma única pessoa. Juntas, igualmente, embaralharam as cartas de suas mãos e, logo, olharam-me; elas tinham uma tristeza profunda na alma, é o que me parecia. 

— O Oráculo está estarrecido com a tua visita, Áurea Lihran; ele reconhece o teu poder de vidência. É-lhe uma honra estar em tua presença. — Eu não sabia ao certo o que responder, meu medo era genuíno. 

— É um prazer estar... sob a presença de tão grandioso... oráculo... — Hesitei. 

— O Oráculo reconhece o teu temor, Áurea Lihran, e sente-se agraciado por ele. Feche teus olhos e sinta o poder do Oráculo, ele te responderá em três verdades e quatro profecias. — Este era o momento pelo qual eu estava ali. Talvez eu mesma me tivesse guiado para aquele lugar morbígero. Entretanto, eu não deveria lhe fazer uma pergunta? Fechei meus olhos e aguardei, enquanto pensava em uma indagação ideal. 

— O Oráculo sabe todas as tuas perguntas, Áurea Lihran. — Ouvi e estremeci. O ambiente estava cada vez mais sufocante. Em dado momento, supus estar ouvindo uma voz masculina detrás da porta e logo me preocupei com Liliana. As gêmeas abriram sete cartas sobre a mesa. 

— A primeira carta, observe a verdade. O Corvo Esfaqueado: Invertida. A tua inteligência é de inestimável valor, entretanto, Áurea Lihran, há um traidor que habita as tuas proximidades. — A voz delas se modificaram; antes femininas, agora demoníacas e viris. Suas cabeças tornaram-se trêmulas, um tremor célere e inumano. — O Corvo sangra e torna sanguíneo o céu da meia-noite e o sangue é veneno. A adaga no dorso do Corvo é a sutileza mendaz daquele que sorri. — Quando abriram a primeira carta, seus rostos pareceram dissolver. 

— Segunda carta, observe a verdade. O Antílope Negro e as Cordas de Juta: Invertido. Tua prudência é admirável, Áurea Lihran; entretanto, a sombra que paira sobre teu crânio é a fênix da decadência e do temor; o negligenciar do teu poder imanente é o preço pela segurança. — Ainda mais rápidos em movimentos súbitos, contudo, naquele instante, lágrimas negrume começaram a verter dos olhos vítreos e, as vozes, cada vez mais terríficas. — Os chifres tocam o solo de lama pútrida e as varejeiras aguardam a carne apodrecer; as patas envoltas na corda de juta mostram a vulnerabilidade do que deveria ser o juízo à dignidade dos aplausos. — Senti uma dor repentina, como se milhares de agulhas perfurassem, em instantâneo, minha tez; olhei para meu corpo e, em cada poro, uma gotícula de sangue nascia. Fiquei horrorizada e ouvi uma forte batida na porta; meus olhos ardiam e eu parecia estar mais fundo em um abismo sem volta. 

— Terceira carta, observe a verdade. A Corphidrae e o último elo. — Meu rosto aparecera na carta ao lado da mesma criatura mítica que vi nas águas de Lahgura. Meu sangue agora vertia para o assoalho, com uma lentidão mórbida. — Reconheça-a para que vivam em harmonia; o oblívio advém do paládio próprio da essência quimérica; discernir para o equilíbrio e a revinda d’outora. — As íris delas agora movimentavam-se com a mesma rapidez de suas cabeças e eu sentia minha pele queimar, em especial no braço esquerdo; tentei olhá-lo, porém, algo me fazia não desviar mais os olhos das cartas. Outro estrondo nos umbrais. 

— Quarta carta, observe a profecia. — As cabeças das meninas se transfiguraram, fissurando-se ao meio por onde dentes e carne e cérebro ficaram à mostra em sangue e lodo. Um odor fétido escalou-se ao derredor e minhas pupilas dilataram diante o horror e eu sei, pois, a luz que era parca, tornou-se ainda mais exígua e fui obrigada, pela energia densa e tétrica do ambiente, a continuar enxergando cada mínimo detalhe das cartas e das meninas à minha frente. — Lúcifer, a Estrela da Manhã. — Ouvi, entretanto, um terceiro estrondo na porta, ainda maior, resultando em alguém adentrando a alcova obscura e segurando firme em meus ombros, tirando-me da cadeira e afastando-me, à força, do oráculo; ainda assim eu não conseguia deixar de manter meu olhar sobre elas. — Um anjo cairá dos céus... — Foi a última coisa que ouvi do Oráculo. 

Ainda confusa, vi uma mulher proferindo palavras ancestrais e arrancando sangue de seu pulso, isso resultou, com mais um fragor, n’um selar da porta que levava ao oráculo. Somente quando selada, fui capaz de voltar a mim mesma, compreendendo o ambiente. Vi novamente a escada que desci com Liliana e vi Liliana olhando-me atônita. Eu estava nos braços de um homem desconhecido, sua pele acastanhada, seu relógio de bolso, seu complexo olhar. E, atrás dele, a mulher que fizera o que me parecera um ritual para selar os umbrais, ela era Olga. Meu próximo átimo de tempo levou-me a perceber meu próprio corpo, o sangue seco em toda a tez e, onde queimava o meu braço com mais afinco, eu vi quatro símbolos em um estigma, queimados à força. Pareciam sigilos. 

— Áurea, escute! Estás me ouvindo? — Disse o homem, com sua voz paternal. — Estás à salvo, agora; beba isto. — Apenas obedeci. Parecia sangue. Minhas forças retornavam aos poucos. 

— Perdoe-me, querida; eu não imaginava que isso... eu sinto muito. — Lamuriou Liliana. Olga apenas olhava, distante. Eu ainda não compreendia o que estava acontecendo; mas fui levada a outro cômodo, onde o homem que me acudia carregou meu corpo. Liliana e Olga não foram comigo. Ouvi o homem dizer “Eu cuido disso agora, depois vocês a encontrarão no aposento que a pertence”. No leito que não me pertencia, fui colocada pelo homem e ali fiquei, repousando. Mas não dormi. Fiquei observando o homem escrever por longas horas, com a luz baixa, em uma escrivaninha de cedro escuro. Eu o aguardei terminar e esperei que as minhas forças retornassem por completo. 

— Bem-vinda de volta, Áurea. — Ouvi, assim que me movimentei, sentando-me na cama confortável. O homem virou-se para mim. — Saudades? — Ouvi, sentindo-me confusa. Ele se ajustou em sua poltrona, para fitar-me com mais atenção. — Áurea, o que te fez ir atrás do Oráculo depois de tudo o que conversamos? — Eu não o respondi, sentia-me merencória... — O Oráculo das Sete Profecias possui uma força inominável, Áurea; se permanecesses ali, serias perseguida pelas sombras deste poder, eternamente. — O homem encostou-se na poltrona, parecia buscar serenidade e paciência. — Olhe para teu pulso esquerdo. — Obedeci. Revi os sigilos. — São selos pherhesístas que assombrarão a tua existência para além deste tempo, para além desta vida. Por sorte, ou melhor, destino, são apenas quatro símbolos. 

— Se é tão perigoso... por que mantê-lo no Castelo? Por que mantê-lo vivo? — Indaguei. O homem respirou fundo mais uma vez, não por impaciência, mas parecia-me realmente exausto de algo muito íntimo. 

— Não há como destruir o Oráculo. Mantemos em cárcere, pois, é o que está em nosso alcance. Se me permites... — Ele retirou seu casaco e afrouxou sua gravata. — Naomie e Noellie foram escolhidas pelo Oráculo quando, o último manipulador das cartas, foi morto. Trancafiamos as cartas em um baú de unorom; entretanto, tamanho é seu poder, que Naomie e Noellie ouviram o chamado dele e o alcançaram, vindo pelo Espectumbral, o responsável por trazer ao Castelo aqueles que precisam de compreensão e conhecimento. Não tardou para que conseguissem abrir o baú; foi então que percebemos que só seria possível encarcerar o Oráculo, se o fizéssemos junto com seu manipulador. Assim ninguém mais ouviria o chamado. 

— Como pude adentrar aquele cômodo, então? Não deveria estar inacessível? 

— O teu poder entrou em sintonia com o poder do Oráculo. Liliana, ao guiar-te para os umbrais do cárcere, não imaginava que estaria te direcionando à linha reta desta sincronização. — O homem olhou para seu relógio de bolso e logo o deixou sobre a escrivaninha. — Sobre estar inacessível, o Oráculo, como já mencionei, é profundamente poderoso. Precisamos mantê-lo preso, mas, é importante que tenhamos acesso a ele. Em especial eu, Olga e Drácula. A razão, tu deves imaginar, pois, ficou claro quando te salvamos daquele antro. Olga selou, mais uma vez, os umbrais. 

— O que aconteceria, então, comigo? Disseste das sombras... o que significam? — Eu começava a entender. 

— Pelo que sei, havia duas possibilidades. A primeira é, com os sete sigilos em tua pele, assim como tantos outros, tu serias perseguida pelas sombras do Oráculo. Ouvindo seus sussurros e lamentos, sendo guiada a fazer o que ele desejasse... eu diria... enlouquecendo... Em outra situação e, sinceramente, é a mais provável, tu tomarias o lugar de Naomie e Noellie. 

— Por quê? — Surpreendi-me. Ele sorriu com um estranho deboche. 

— Tu sabes que é por causa do teu inestimável poder, Áurea. Isso, decerto, acrescentaria ainda mais valor para as profecias e verdades do Oráculo. Eu não sei o que ele te disse, mas decerto ele já conhecia o teu nome e já sabia o que buscavas. — Ficamos em silêncio. — Áurea... preciso te falar, de novo, sobre o teu poder... — O homem me olhava com uma seriedade pujante. — Tu viste, não é? Que nós a salvaríamos...  

— Não... eu... não fazia ideia... — Fui sincera; algo de estranho havia entre nós, parecíamos nos conhecer, mas eu não me recordava. 

— A vidência pode parecer um dom celeste, entretanto, não há nada mais perverso do que ser capaz de olhar o futuro dos outros e de si mesmo. E eu sei que tu não apenas viste o futuro de Liliana, como interferiste nele; fazendo-a tomar uma decisão que afetou toda a linha do tempo... eu sei, Áurea, eu sei de tudo o que afeta o tempo. 

— Não foi por mal... eu... me assustei quando vi os horrores que ela passaria e imediatamente quis salvá-la... isso nunca aconteceu comigo... eu não sabia como agir... — Expliquei, lacrimante. O homem pareceu intrigado. 

— Áurea... tu sabes quem eu sou? 

— Não... eu sinto muito... — O homem expressou incredulidade e, ao mesmo tempo, espanto. 

— Hum... isso pode ser verdade... — Senti um lapso de tempo, parecia o mesmo que outrora senti quando encontrei Anton. Um clarão súbito e célere. — Compreendo. Compreendo perfeitamente... Áurea, tu precisas abrir os teus olhos e se vincular com a Corphidrae. Sem isso, ambas ficarão entre o sono e a vigília, como se marinheiras de um mesmo veleiro, sem que se conheçam, sob o céu noturno, com duas rodas de leme, sempre opostas. A propósito, mais uma vez eu me apresento, eu sou professor Monm. Manipulo, controlo e compreendo o tempo. — Fiquei um tempo em silêncio, tentando assimilar as informações. 

— Há uma Corphidrae dentro de mim... — Proferi, como se buscasse confirmação de Monm. 

— Não uma, mas A Corphidrae. A última da espécie, a qual deveria ter morrido em teu ritual de transmutação vampírica. 

— No entanto, com a invasão dos Ohrmons, o ritual foi eivado... levando-a ao sofrimento e, de alguma forma, a habitar meu ser... — Mais uma interrogação disfarçada de afirmação. 

— Sim... Tu oscilas entre a personalidade da criatura e a tua própria. — Imediatamente lembrei das palavras de Seth. 

— Então... ela tentou me matar? Levando-me ao Oráculo? — Monm gargalhou, embora tenha se controlado ao ver minha seriedade. 

— A Corphidrae não é a tua inimiga. Ela sabia muito bem que tu não sofrerias o fim que o Oráculo almejava. Estou começando a achar que o Oráculo também sabia. De alguma forma, ambos os poderes, em grandeza, podem ter entrado n’um acordo. E se não me falha a memória, encontrei-te prevendo teu próprio futuro e te dei aquele sermão que tu não te recordas... o que é uma pena, pois, foi digno de aplausos. — Ele sorriu. — Áurea, não tema a Corphidrae. Ela está pedindo para se conectar contigo, caso contrário, tu já terias sido soterrada por ela. Ela é bem mais poderosa do que o teu vampirismo. Ela é uma criatura mítica, não esqueça disso. Criaturas míticas nunca são más. 

Monm estava certo. Os enigmas com minha própria letra, o reflexo no lago; tudo indicava que a criatura mítica estava tentando se comunicar comigo e me ajudar a destruir o oblívio. O que fazia de Seth um verdadeiro farsante, por tudo o que dissera no cemitério. Além disso, Seth revelara que tentei matá-lo, talvez a Corphidrae saiba sobre quem ele realmente é, mais do que eu sei, por isso o atacou quando estava sob controle de minha consciência. Como se não bastasse, o Corvo Esfaqueado, a carta invertida da primeira verdade do Oráculo, falava com clareza de um impostor. Todas essas peças encaixadas, formavam a mais valiosa das compreensões, entretanto, eu não sabia como vincular-me à Corphidrae. 

— Como posso me vincular à criatura? Quem poderia me ajudar? Talvez... Olga? — Questionei a Monm. 

— Olga não pode ajudar-te, Áurea. Ninguém pode. Entretanto, a cada conhecimento e compreensão que adquires, vais abrindo mais clareiras nessa densa floresta do teu ser. 

— Monm... podes me levar a algum momento de meu passado, para que eu me lembre? — Ousei pedir. Seu semblante mudou para consternação. 

— Jamais farei isso... o tempo é perigoso... e a recordação... — Monm parecia olhar para um vazio nadificante. — Pode ser a sentença mais perniciosa da vida de uma criatura racional... de repente tu voltas no tempo, revê com perfeição aqueles que lhe foram importantes... de repente tu queres viver no passado, onde tudo lhe parecia mais fácil... onde todos estavam sentados envolta da mesa, em uma comemoração de Aborom ou Aesttera... entretanto, mesmo lá... a verdade de que tu não pertences àquele tempo, continuará te enlouquecendo... — Monm silenciou. Senti que tudo o que dissera, doía em seu coração, pois, as janelas de sua alma lacrimaram e sua fala se embargou. 

— Desculpe, senhor Monm, não tive a intenção de... 

— Está tudo bem... deixe-me descansar um pouco e... confie em quem tu és. E tome cuidado. — Monm sorriu como pôde e eu o deixei descansar. 

Quando deixei o aposento, precisei sair do Castelo para sentir o ar límpido; sentir o sopro do vento, talvez do tempo. E assim o fiz. O céu estava n’um tom castanho-enrubescido e uma névoa rosé se estendia. O tempo era mesmo diferente naquele lugar... assim como a manifestação da natureza. Caminhei pelo jardim que outrora estive na chuva densa a observar os raios no horizonte azul-opaco; agora as árvores todas tinham folhas secas e, n’uma delas, as folhas ressequidas ganharam tom marfim; assemelhavam-se a papel. Eram belíssimas. Já na fonte, no centro do bosque, as águas tonalizadas pelo céu, hialinas com reflexos carmim, cantavam seus movimentos. Toquei-as, molhando minhas mãos. E vi-me em seu reflexo e reparei... um colar de ouro envelhecido, com um pingente de pérola de lótus negra, descansava em meu pescoço. 

Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Capítulo 9 – Perturbadoras Revelações

Um abrupto sopro de vida e meus olhos foram circundados pelo lume de um dia nublado. Eu dormia? Ao derredor, um cemitério árido e lúgubre descansava…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Um abrupto sopro de vida e meus olhos foram circundados pelo lume de um dia nublado. Eu dormia? Ao derredor, um cemitério árido e lúgubre descansava, com carvalhos negros ressequidos e antigas estátuas de mármore cobertas por um tipo de limo amarantino à beira do índigo-profundo. À frente, um homem dava forma a uma sepultura, cavando sem pressa; observando a terra atra e úmida se amontoar ao lado da cova. Demorei-me para compreender que o indivíduo proferia palavras, as quais eu bem ouvia, após o súbito despertar que fizera um estranho chiado perturbar-me os ouvidos. Demorei-me, igualmente, para assimilar-me em pé, segurando em mãos um pequeno livro e vestida em tecido de veludo, na cor noite-violeta.  

— … que entendia como algo irrelevante, tal qual a vida em si mesma é compreendida por um recém-nascido. Era, entretanto, aprazível viver nos augúrios nadificantes em Sihren, pois, vês? Cá é tudo cinza e silente. Lá, entre jardins de espécimes indizíveis e mais tantos visitantes a trazerem mudas crescidas de ascehderas e lihrios, eu podia me deleitar com o aroma místico enquanto aconselhava as criaturas que, na verdade, nunca precisaram de conselhos. Ah… sim… Sihren era mesmo o paraíso… aqui, entretanto, eu sou esta mórbida criatura que rasteja na terra e estes corpos, enterrados soltos no solo infértil, nunca recebem flores, tampouco saudações d’algum vivo que deles se recorde. — Após calar-se, o homem fitou os céus, como se mergulhasse em memórias. — Bom saber que eras de Sihren, senhora. Saber que tenho uma conterrânea, afaga esse meu velho coração. Não só uma, já conheci alguns outros… inclusive Olga… bem petiz, ela corria pelos corredores do Castelo do nosso imperador… ah… que saudade… 

Minha reação, se é que posso dizer que reagi, era como um oceano infinito de incertezas sôfregas. Eu decerto o olhava confusa. Senti-me colocada em meio a algo que não me pertencia; desde o local até o corpo meu, pois, tão íntimo aquele senhor me dirigia sua palavra serena sobre o que tínhamos em comum, entretanto, como poderia saber? E eu lhe disse que sou de…Sihren? Mas como o poderia dizer se eu, decerto, não disse? E Olga, criança? Como e quando tal fenômeno ocorrera? Quem poderia ser este imperador? Eram tantas indagações, entretanto, nenhuma se clarificava à medida em que eu me esforçava para lembrar. 

— Eu… — Sem que pensamentos torturantes florescessem, busquei algo sutil para trazer à tona e fazer com que o homem caísse em seu falatório que, por muito, soava-se valioso. Todavia, seus olhos se voltaram a mim e sua face, outrora tão tenra, transfigurou-se n’um pavor desmedido. O homem, na tentativa de fugir de mim como se eu lhe fosse a pior das assombrações, tropeçou em sua pá, ficando ainda mais horrorizado. 

 — Tu… tu és… um deles! — Bradou atormentado em medo. 

— Senhor… por favor… eu não… 

— Vampira!!! — Seu vocífero contornou os quatro quantos do universo. Ele ergueu-se com dificuldade, apoiando-se na terra, sujando suas mãos ainda mais.  

— Eu não te farei mal… — Tentei explicar. 

— Teus olhos… onde estão…? Mudaram… tu és…como eles! Eles! — O homem correu com uma pressa espectral, guiado por um frenesi de medo insano entranhado na alma, como se fugisse do próprio passado reencarnado diante dele. Não o impedi, pois, sei que quaisquer ações poderiam levá-lo à morte súbita, tamanho era seu terror abominável. Apenas fiquei observando-o se afastar como um animal selvagem... embora, talvez, eu que fosse animalesca de fato. 

Diligenciei-me, sob uma promessa autoimposta, a absorver a cinesia do que me parecia um desvario meu, uma insanidade onírica; e, então, reordená-la para que fizesse sentido. Entretanto, toda a lógica sangrava diante de meus pensamentos toldados por um discernimento fragmentado. A verdade é que eu estava de volta ao prólogo, com os olhos abertos para o mundo e um oceano de enigmas para decodificar. Por infortúnio, diferente do sereno início, eu carregava muito mais fardos e, um deles, decidiu se manifestar enquanto eu ponderava... 

— Devias ter mantido teus olhos no fulvo que os pertence. — Ouvi. Olhei para trás e Seth estava ali, recostado em um carvalho. 

— Como... saíste? — Questionei incrédula. Ele pareceu meândrico. “Ó, fardo maldito!” pensei. 

— Do que estás falando, Áurea? — A voz de falésia e voragem. 

— O ritual... o círculo... como tu quebraste a magia? — Eu estava mesmo incrédula, a magia era poderosa, não poderia ter se desintegrado sem que alguém, intencionalmente, a tivesse rompido. Seth se aproximou. 

— Tu não te lembras? — Ele é quem estava, naquele instante e, mais do que eu, cético. Mantive-me em silêncio. Eu poderia estar perdendo minhas memórias recentes como um despertar de um sonho? — Hum... — Murmurou rodeando-me e, por fim, abaixou-se perto à cova, tocando a terra úmida. — Não te lembras que foste ao teu aposento, com uma adaga-cruz em mãos? Esta que refulge em teu cós, presa por uma fita de veludo? — Toquei-me a cintura, senti a adaga frígida. — E não te lembras de encontrar-me preso ao aposento e não ao círculo, dificultando a tua obscura intenção de fincar em meu peito o teu novo artefato? 

— Do que estás falando? — Interrompi-o, aflita. Seth gargalhou e levantou-se. 

— Interessante... se tu não te recordas, não serei eu o responsável por te trazer a lembrança; ainda mais sendo vítima da tua loucura e pendor assassino. Se não fosse por Olga, eu teria me tornado pó; mas... é gratificante saber que teu ponto fraco é tu mesma. 

— Fale-me agora, Seth! — Segurei-lhe em seu braço com uma força que eu não sabia me pertencer; estava com ira abíssica e desejei, confesso sem receios, que ele não existisse e que toda a sua ironia e seu sarcasmo sucumbisse junto dele para mais profundo que o inferno de onde ele vinha. Olhamo-nos de perto. Ele sorriu outra vez. 

— Um olho carmim... um olho dourado... Ela está vindo, Áurea... vais deixá-la entrar? — Pressionei ainda mais o seu braço e vi em seus olhos um fogo rubro faiscante enquanto seu semblante deixava o aspecto satírico e contornava-se em cólera. 

— Basta!!! — Murmurei furiosa. 

— Pergunta para Lorrt, Áurea. O maldito nocturvo que tanto te venera. 

Eu não sei como, mas, ouvi-lo falar de Lorrt fora o estopim do meu furor. Num único movimento célere, segurei a adaga-cruz e passei pelo rosto de Seth. Um sangue negro verteu quente da fenda aberta em seu queixo. Sua mão prendeu-me o pescoço no mesmo ímpeto e mais um corte fiz sobre ela até que, num golpe desordenado, Seth fez a adaga soltar-se de minha mão e cair sobre a terra. Desarmada, segurei sua camisa torcendo-a contra seu pescoço e o golpeei entre suas pernas, fazendo-o se curvar em dor; presos e entrelaçados no ódio, desequilibramo-nos e caímos na cova — não foi o suficiente para me fazer parar.  

Talhei seu rosto com meu punho fechado, três vezes, enquanto ele tentava prender minha mão esquerda. Sem sucesso. Embora fosse forte como um touro, não tinha nenhuma habilidade física contra meu esgueirar-se. Prensei seu estômago com meu joelho e senti-o segurar meus cabelos com avidez, buscando me parar. Seu murmúrio demoníaco se alastrava; cravei meus dentes em seu braço, fazendo-o me soltar e, fugaz, cravei-os novamente, mas em seu pescoço e suguei seu sangue asqueroso para, pouco depois, cuspi-lo em sua face. Seth, atordoado, grunhiu algo ainda mais diabólico e vi a tez de sua fronte rasgar como se algo em seu interior quisesse pôr à vista a verdadeira forma de sua constituição.  

Ssatt esstt hrasstt — Rosnou dizendo, grave algar. Forçou-me contra o muro, tentava virar-me para ficar sobre mim, mas não deixei; cravei meu olecrano em seu peito, fazendo-o tossir; entretanto, um obscuro calor em meu corpo emergiu como se dentro de mim e o incêndio daqueles olhos satânicos parecia se alastrar n’um ardor pecaminoso. Gritei como a morte em fel e chamas, enterrei minhas unhas em seu pescoço e as arrastei para baixo, sulcando sua pele. Por instantes, jurei que não haveria um fim, mas, o fogo do inferno cessou e Seth conseguiu prender-me os braços. Seus olhos atentos, seu corpo prensando-me na terra. 

— É desleal fazer isso, Áurea; eu não posso te ferir, eu devo te proteger, essa é a minha função. Foi tu que assinaste o acordo com Lahgura. 

— Que maldita proteção é esta? Obscurecendo as verdades que possui sobre minha própria existência! — Seth respirou fundo e soltou-me. Entre nós o silêncio pareceu-nos perdurar mil e uma noites. 

— Quando… — Ele iniciou, demonstrava exaustão. — Quando teus olhos refulgem dourados, ambos, uma outra personalidade se manifesta — Seth tocou suas feridas, feitas por mim, e gemeu de dor intensa. — Ela, a outra, determinada e ciente de toda a tua história, não teme nada, é instintiva. Ela desejou a minha morte na violência de suas mãos, com seu desprezível caráter incólume. Ela é perigosa... — Seth se apoiou, saindo da cova e se sentando à beira.  

— Não é fácil dizer a alguém importante que sua doença é psíquica e que esta, decerto, é a razão pela qual suas memórias desapareceram. Ela as roubou de ti... e eu... eu só não sabia como revelar este lídimo e pernicioso fato. — Confessou e estendeu-me sua mão esquerda, supus que pretendia me tirar da cova. Hesitei, mas, ele relevou o que devia e eu queria sair daquele úmido túmulo. E saímos, sujos de terra. Seth, sangrava. Nada proferi a respeito da revelação. — Minha Aessatt, eu te perdoo... não traga em tua fronte tal desespero. — Ele sorriu e eu o fuzilei com minhas retinas trêmulas em gana. — Agora, devo ir. 

Antes que eu pudesse desfrutar do seu desaparecimento, ele se esvaneceu. Tentou acariciar meu rosto, mas não o permiti. Apenas com sua expressão de cinismo, foi embora fazendo uma reverência arrogante. Com certeza foi para o inferno, lugar onde pertence.  

Demorei-me ali, sozinha. Vi o pequeno caderno e a adaga-cruz lançadas no solo fúnebre, peguei-as e as limpei como pude. Pouca e mórbida era a aragem que soprava e parecia-me que o entardecer não chegaria. Os céus, por instantes, soavam-me espúrio e o Castelo Drácula, no horizonte, uma miragem. Guardei a adaga em meu cós, no veludo que lhe era apropriado; abri o pequeno caderno. Havia uma frase escrita na primeira página, com a minha letra cursiva.  

Naomie e Noellie — no quarto umbral, de cor gaultéria. Há treze escadas abaixo, iniciando pela espiral da biblioteca. No estreito corredor, elas possuem o Oráculo das Sete Profecias. 

Uma parca esperança, pelo Norte que se fez possível, emergiu no meu íntimo como um lume tenro na escuridão. Meu caminho se erguera à frente, tal uma ponte no abismo. Com ou sem a maldição de Seth, eu iria até estas duas mulheres e, de lá, algo ainda que mais infinitesimal que minha esperança, em absoluto, alcançaria meu coração dilacerado e olvidado. A fé não fazia parte do eixo de minha existência, entretanto, era a única que poderia perdurar em mim, pois, se eu estava mesmo dividindo minh’alma com um alter ego, se ela guarda minhas memórias para si, como afrontá-la se ela é, pois, eu mesma? Pelo espelho? Refletindo as janelas do espírito? Embora as revelações tenham sido ácidas, eu intuía que ela, a outra que eu era, não queria confronto — não comigo. 

Um Oráculo, como previa aquela anotação, poderia ser deveras relevante para os que, como eu, perduram no longínquo de si mesmos. Portanto, pela lógica do enigma — pois era o que soava ser — descer uma escada em espiral na biblioteca do Castelo seria o iniciático movimento para alcançar o corredor estreito, onde a quarta porta em seu imo, de cor gaultéria, seria o aposento onde Noemie e Noellie estariam. Eu não sabia ao certo a localização da biblioteca, quero dizer, eu sabia sobre uma delas, local onde perscrutei sobre livros de exorcismos, entretanto, nesta, não avistei nenhuma escada em espiral, portanto, cri não se tratar dela. Deste modo, então, quando retornei ao alcácer — de volta às suas entranhas, sentindo o aroma de sangue e solidão, tive de acessar cada espaço em busca de uma orientação, ainda que intuitiva, para localizar um novo leito das palavras infindas. 

Em um dos aposentos, quando as esperanças se desintegravam mais céleres do que na gênese de minha busca, deparei-me com uma figura enigmática — tal como outras naquele recôndito sombrio que mais se assemelhava a um labirinto grotesco de lamúrias, silêncios perturbadores e angústias. Ela vestia-se com mantos pesados, um deles negro como a noite e outro pálido como a névoa lôbrega de Séttimor — inclusive, havia tal neblina ao seu redor, como uma aura rarefeita. Assustou-se ao me ver abrir os umbrais, voltou-se abrupta para mim, porém, seu rosto estava oculto no capuz. O aposento era pequeno. Nas mãos enluvadas da figura, um tipo de colar do que se assemelhava, em cor, a ourídeo.  

— Quem tu és? — Indagara com sutileza, sua voz feminil não me era estranha... na verdade... eu sabia bem de quem era aquela voz... 

— Liliana? — Indaguei, confusa. Um breve silêncio se liquefez no aposento. Ela, então, revelou-me seu semblante, entretanto, surpreendi-me ao vê-la em perfeitas condições, como uma humana. Diferente do que avistei em Séttimor, ali, de frente a mim, Liliana estava perfeita; não havia sombras em metade de seu rosto, como um vazio imposto em sua carne; não havia o fumo, a dor, a lúgubre essência. Era apenas Liliana, bela, com longos cabelos lívidos e forte olhar. Eu não hesitei, fugaz a abracei, sem pensar em quaisquer consequências ou, ainda, sem considerar o seu primevo questionamento. Ela pareceu relutante ao abraço. 

— É tão bom te ver aqui... mas... como? — Olhei para seu rosto, soltando-a com afago. Foi n’este átimo que... algo mórbido me aconteceu. 

Assim que fitei seus olhos cinéreos, eu a vi em um sinistro lugar pálido em neve densa com altos edifícios negros pontiagudos. O ar era o vale da morte em sua mais atroz constituição. Liliana era levada por homens de olhos negros, sem esclera... eram Ohrmons. Foi jogada aos pés de um homem cujo rosto eu não saberia descrever, porém, senti perfeitamente a sua energia densa e mórbida. “Queres teu filho, pois então o encontrarás.” — a voz grave e rouca dissera. Liliana foi tomada novamente, sem cuidado, pelos Ohrmons e, então, levada.  

Vi-a inalando um tipo de vapor enegrecido que a fez adentrar um estado de delírio semi-inconsciente. Não parecia sentir dor, mas decerto compreendida a perversidade. N'este calabouço, o seu corpo foi violado enquanto seu sangue era retirado por tubos introduzidos nas veias de seus pulsos, sendo trocado por um tipo de líquido espesso, fumegante e fétido. Palavras estranhas se proferiam no ar quando o homem sem rosto, da voz grave e rouca, adentrou ao local, expulsando os Ohrmons com seu poder abissal.  

Liliana, ainda viva, olhou em direção ao homem tétrico. Ele tocou seu rosto e, imediatamente, metade de sua tez facial apodreceu. Segundos depois, ela estava morta. O homem maldito cortou-se, gotejando seu rubro sangue sobre a cabeça de Liliana. Parecia-me um ritual de sacrifício macabro. Todas as cenas, em milésimos de segundos, atormentaram meu cérebro, fazendo-me afastar de Liliana. Meu corpo estava trêmulo e minha respiração ofegante. Eu tinha uma certeza atroz: o que vi foi uma visão do futuro. E eu compreendi que a Liliana de Séttimor estava morta, possuía, em seu corpo fumegante, todos os sinais dos horrores que sofrera. 

— Senhorita? O que está havendo? — Ela indagou, preocupada. De meus olhos vertia a lágrima dourada, eu a vi pingar em minhas mãos. 

— Por favor... — Murmurei, em completo abalo. — Por favor, Liliana... — Ela se abaixou, tocando meus braços e secando minhas lágrimas. 

— Diga o que queres, querida. Diga-me o que houve? — Eu apenas chorava. 

— Não vá para a neve... não busque teu filho naquele sórdido lugar... eles... eles... aquele homem... — Eu não conseguia dizer, mas vi o semblante de Liliana mudar. 

— Quem és tu? O que sabes sobre Luíre e sobre mim? 

— Eu vi... nos teus olhos... eu previ... — Toquei-lhe a face, com cautela. — Apenas confie em mim... eu sei... é terrível... é um revolto oceano ambíguo, mas... Liliana... eu não me perdoarei se eu não te salvar... a certeza de minh’alma é que teu destino... eu posso... — Voltei a chorar em desespero. Liliana me abraçou, parecia perceber minhas lídimas intenções. Eu nunca esquecerei o que vi... a verdade daquela deletéria premonição. 

— Está bem... acalma-te... — Busquei ouvi-la, ficamos em silêncio até que meu soluçar cessasse. — Em tua visão, havia um lugar hostil, com neve... e o que mais? 

— Edifícios negros... pontiagudos... uma arquitetura que nunca vi... mastodôntica... bela e... amedrontadora... — Respondi em lamúria, mas ainda hesitei em lhe revelar o que causaram a ela, era demasiado chocante. Liliana respirou fundo. 

— Krvieröm... — Proferiu, abalada... — Eu... estava decidida a ir até lá... deixar este Castelo com tudo o que aqui aprendi sobre Pherhesí... e enfrentá-lo... em nome do que eu sei que ele fez com meu filho... — De imediato, lembrei-me do homem mencionado por Lëvri como sendo o seu “criador”. 

— Não sei quem é este homem, Liliana, mas ele é muito poderoso... é preciso muitos para conseguir destruí-lo... muitos ou, talvez, todos aqueles que existem... eu senti... a densa energia dele... infelizmente tu não poderás... tu não serás para ele sequer um exíguo cílio incômodo em seu olho. — Ela compreendia. 

— Eu não duvido de tuas palavras... — Vi-a levantar-se, sentando-se à poltrona próxima ao que me parecia uma escrivaninha. — Contudo... chegaste sabendo meu nome antes mesmo de fitar meus olhos e ter a... horrenda revelação... de onde me conheces? — Hesitei... não parecia ser adequado dizê-la que sua alma está vagando em um corpo deformado e brumoso n’uma vila de nome Séttimor. 

— Eu... não sei ao certo... perdoa-me... eu sequer sabia que essas visões poderiam acontecer... eu... perdi minhas memórias e há muito o que ainda não sei sobre mim e sobre o que conheço e o porquê... — Ela aparentou decepcionar-se um tanto com a minha resposta. Ficamos silentes outra vez. 

— Entendo... e como vieste até aqui? N’este cômodo? 

— Estava em busca de uma biblioteca que tivesse uma escada em espiral para baixo... busco encontrar Naomie e Noellie. 

— Por que buscas por elas? 

— Encontrei uma nota deixada em um caderno... com a minha letra... indicando o local... eu não temo em lhe contar tudo o que sei, Liliana, entretanto, sei tão pouco. Imaginei que, porventura, estas mulheres me ajudariam de alguma forma, uma vez que, segundo a nota, elas possuem o “Oráculo das Sete Profecias”. 

— Posso levar-te até elas, sei o caminho... e creio te dever um favor... pois mudaste meu destino... — Ela sorriu-me. Um sorriso triste, lacrimejante. — Eu desconfiaria se não fosse pelo teu assombro... se não fosse pelo teu abraço... este alcácer é perturbador, então... por muitas vezes fui ludibriada. — Levantei-me, devagar. Liliana ajudou-me. 

— Eu sei... quero dizer... estar aqui tem sido uma experiência obscura... por vezes merencório... e ad aeternum solitária... — Exprimi. 

— Agora, ao menos o que diz respeito à última questão, não há mais o que se preocupar. — Novamente, Liliana sorriu, um pouco mais contente. — Venha, devemos ir. É um longo, e escuro, caminho com muitos degraus. 

Deixamos o aposento. Em meu peito ainda pulsava um pesar aflitivo. Uma dúvida enraizada sobre o prenúncio que me dominou. Lembrei-me das visões que tive na Masqarilla. Pela primeira vez, encaixei peças na totalidade do que eu já sabia e isso liberara à minha consciência uma lógica e um sentido para muitas das caliginosas verdades desveladas a mim desde meu despertar. Ainda assim, não se bastavam. Havia muito o que eu ainda não sabia e, por isso, estava disposta e ir além e desvendar mais do mistério de minha própria existência. 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Capítulo 8 — O Presságio do Adeus

“Cautela; à dor pertence tudo o que se é — e nas sombras do ser há uma angústia imorredoura. Ainda assim, há contento ao sentido. Veja-me, desvele-me na…

“Cautela; à dor pertence tudo o que se é — e nas sombras do ser há uma angústia imorredoura. Ainda assim, há contento ao sentido. Veja-me, desvele-me na clareira da densa floresta; um poder inominável aguarda a lua cheia dos olhos que veem, se capazes. Sempre dourados. Encontre o que há de valor e o que há de valor há de encontrar quem o procura. O emergir da distância é parte de uma inestimável boa ventura.” — Ouvi, como se imersa em um delíquio e não em um sonho; um lapso de tempo, uma prostração infinitesimal em duração e de uma expansão significativa e misteriosa. A voz era minha, mas não era eu quem dizia. Era eu quem dizia, mas a voz não era minha. Levantei-me com o coração frenético e o corpo trêmulo, escrevi palavra por palavra. Respeirei fundo. “O que isso quer dizer?” — eu pensei. 

De súbito, à minha mente, viera a verdade dos símbolos ensinados por Lorrt e do ritual de exorcismo. Isso me levara a um levante célere, de modo que meu damanoute parecera pairar no ar em sua leveza agradável. Sobre o assoalho de madeira, usei a tinta que banhava a pena, para traçar os detalhes dos sigilos. Passei a repetir em minha mente, o verbo sombrio para conjurar a magia e temi que Seth se personificasse para me impedir de concluir o ritual. Eu estava certa de como realizá-lo, algo que, se adviesse apenas de um sonho comum, eu não poderia compreender com tamanhos detalhes. 

Ainda mais repentino, com o último verbo proferido, derramando meu sangue para selar o ritual — o que me fazia compreender o quanto algo em meu âmago confiava cegamente em Lorrt; Seth emergiu dentro do círculo, com seu semblante assustado e em meio a uma névoa carmesim que tão logo se esvaneceu. Eu estava um pouco distante do sigilo, para não ser diretamente afetada; os olhos de Seth, assim que fitaram os meus, possuíam uma aura de raiva e pesar. Seth segurava em suas mãos uma flor, símil à sua descrição das noctúrnias. A cena me levou a uma dor no coração, não literalmente, uma tristura por fazer aquilo daquela maneira, afetando-o sem aviso prévio… Eu não conseguia compreender minha existência, pois, se eu era, de fato, uma vampira, como poderia não estar completamente refém de minha luxúria? Ao invés disso, apenas queria respostas e sentia-me íntima da desolação e da empatia. 

— O que… tu fizeste? — Ouvi. Seu tom era grave e colérico, seus olhos fixos em minha face. Ele tentou dar um passo à frente, mas o círculo o prendia. — Não… — Murmurou. Eu me afastei em direção aos umbrais do aposento. — Não me deixe aqui, Áurea!  

— Eu… volto… prometo… eu só preciso… — O olhar de Seth deixava-me inquieta e ansiosa. 

— Áurea… eu não sinto mais a tua alma… eu não poderei proteger-te… Não faça isso! — Insistiu. Parecia tentar manejar seu tom, no entanto, a ira em seus olhos não podia ser manipulada, eu a notava em evidência. 

— Eu só… preciso de respostas… eu volto… será breve… — Sussurrei, abrindo as portas e deixando, rapidamente, o aposento. Não olhei para trás, pois, se olhasse, me arrependeria… 

Um susto, no entanto, fez-me cessar os passos mesmo assim. 

— Olá, Áurea. — A presença de Olga era, de forma absurda, densa e amedrontadora, embora ela fosse sempre cuidadosa e simpática. Sua voz persuasiva conduzia algo dentro de mim, era hipnotizante. 

— Olga! — Minha face decerto estava um tanto atônita. 

— Estás bem? — Ela indagara, incólume. 

— S-sim… — Sentia-me aluída. 

— E Seth? — Fiquei atordoada com a pergunta. Imersa em pensamentos fugazes sobre como Olga sabia sobre Seth, um assombro apossou-se de mim por notar que, talvez, ela teria conhecimento do ritual que realizei. Não consegui respondê-la. — Pherhesí sempre desvela a si mesma para mim n’este alcácer, querida residente. Instigo-me a questioná-la quem poderia ter ensinado-te tamanho poder, sem relevar o teu desconhecimento pulcro… — Permaneci em silêncio ao ouvi-la, porém, o olhar daquela mulher… não era, tão somente, um olhar… 

— E-eu… precisava… de… li-liberdade… — Foi o máximo que fui capaz de explicar. 

— Hum… eu compreendo… Não preocupes a ti, pois não abscindirei teu ritual; cuidarei para que Seth permaneça sob Loccullaessatt até que retornes. Entretanto, estes sigilos não serão capazes de encarcerá-lo inn perpehctua. Estejas ciente, símil, de que Pherhesí, isto é, a Magia do Sangue, pode conduzir tua alma ao verossímil olvidar que tanto te atormenta. — Ela se aproximou dos umbrais de meu aposento, abrindo-os sutilmente, com elegância mórbida. —E se Pherhesí determina a decadência mortífera d’um Igual, pela insolência de manipulá-la desprovido de ciência, eu não hei de interferir. — Senti minha saliva descer em minha garganta como se engolisse um caule espinhoso de Rosaemori.  

Era difícil compreender Olga… parecia-me que ela advinha de uma civilização arcana desconhecida e oculta; suas palavras e a mistura entre um idioma e outro atordoava meus sentidos; no entanto, era evidente o seu poder e o tanto que ela sabia a respeito daqueles que residiam no Castelo Drácula. Eu sabia, além disso, mesmo com a dificuldade em entender com maestria a sua fala, que ela estava me ameaçando. 

— Vá… — Disse, com um sorriso suave que mais alimentou meu receio sob a sensação intimidatória de suas palavras. —  Lëvri está fora do Castelo, um errante a caminho do jardim. 

Olga fechou-se em meu aposento. Sua presença perturbadora já não existia e, consequentemente, não conduzia minhas emoções. Respeirei com alívio e, por instantes, pensei em espiá-la, espiar Seth... ouvi-los...., entretanto, meu objetivo maior era saber da verdade, lembrar-me do que era preciso para honrar minha história e, da mesma forma, a história de Lorrt — que tanto me ajudara com aquele ritual; aliás, eu sabia que eu não poderia mais realizá-lo, pois eu temia Olga... então aquela era a minha única oportunidade. 

Corri, assim, pelos mesmos corredores sombrios; com o coração em pulso frenético, segui em direção aos jardins do Castelo sob clarões soturnos e coercitivos que lumiavam por segundos a escuridão eviterna; eles vinham com estrondos majestosos e eu avistava, das fenestras, uma tempestade ciano-acinzentada se formando no horizonte. Era, em profundez, estranho; mas, eu não era capaz de questionar que a neve esquálida não poderia perdurar com tamanha intensidade enquanto a chuva vertesse de densas nuvens e da escuridão. Assim vi com perfeição o firmamento tão metamorfo e a palidez sepulcral dos arredores do Castelo; estes, por sua vez, estavam cobertos por casas góticas e pontiagudas, feitas de pedra e madeira — levou-me ao questionamento de ser, pois, Séttimor, todavia, em nada se assemelhava a ela. Eu, contudo, não tinha tempo de saber. 

O jardim tinha, em congelamento mórbido, todas as plantas, com exceção das tulipas negra, das nnivealiz e um tipo de morango negro silvestre — se destacavam na cândida invernia; do céu vertia, de fato, uma fina chuva cristalina e os raios, em perigo eminente, tomavam a totalidade da imensidão acima. Então, eu o vi; seu amplo dorso, seus cabelos escuros... suas mãos que acariciavam as pétalas de uma negra tulipa. Era... sufocante... minhas mãos tremiam e meu corpo se lembrava... Era Lëvri... tudo ao derredor parecia silenciar à medida em que me aproximava dele; um longínquo violino triste conduzia meu coração. Sussurrei seu nome tal como um ser fantasmagórico o faria e vi seus dedos tornarem-se estáticos; deixando de afagar as pétalas e, da mesma forma, vi teu corpo imóvel, tencionado. E levou um tempo até que, por fim, ele se virasse para me olhar. 

Seus olhos negros, sem esclera. Um semblante tênue em mágoa com seriedade indene. Seu silêncio... um abismo entre minha paixão outrora vívida e vibrante. Quis tocá-lo, mas hesitei; ele matou Lorrt, eu sentia, eu sabia... matou Lorrt com o intuito de me conduzir ao desertificado chão onde os joelhos de Ohropo se fendem na esperança mórbida de reencontrar Sepulcro. Não quero viver como Ohropo, não quero ser conduzida aos braços de Exício tal como Sepulcro. Assim eu sentia... e sentia demais... um medo e uma aflição solitária que apertava meus pulmões, meus órgãos, minha alma. Eu não podia mais esperar... 

— Tu mataste Lorrt... o último Illitan... tu e outros como tu... a Rosaemori em teu dorso é a autenticidade d’este fato... Quem és tu, Lëvri? Por que me enganaste com tamanha frialdade? E por que me tomaste com tamanha paixão sob a noite índigo mesmo tendo o sangue do meu único amor em tuas mãos? Mesmo sabendo que dele me olvidei em razão da tua maldade que fizera com que o ritual de transmutação vampírica se transfigurasse em uma cena terrífica? Sabes o que o veneno pernicioso da Rosaemori causa? A morte lenta... dolorosa... solitária... amedrontadora... angustiante... Por quê? — Meus olhos já lacrimejavam, cristais se formavam nas lágrimas que escorriam e congelavam em meu rosto; os cílios em meus olhos acumulavam infinitesimais flocos de neve; nunca senti um frio tão pernicioso como aquele que se difundia nos arredores do Castelo. E fitava Lëvri, ainda inalterado. Pensei que ele nada diria. 

— Eu não te vi, Áurea. No entanto, vi Rahstemur fincar a Rosaemori em Lorrt e deixei o local assim que Lorrt, em absurda cólera, arrancou de seu próprio peito a haste espinhosa e cravou-a na boca de Rahstemur. A força de teu único amor era amedrontadora; éramos em seis, somente eu sobrevivi porque... me acovardei... Lorrt destruiu a todos e levou teu corpo coberto por um manto ensanguentado; fiquei à espreita e vi... levou-te para algum lugar que eu não sei. Mesmo envenenado, ele fez tudo isso e eu, pouco tempo depois, vagando sem rumo, com absurdo medo de ser questionado por Krvier, eu... encontrei este Castelo... — Ouvi atenta e abalada; na surpresa de que lembranças vieram à minha mente sem que a dor me corrompesse, conforme ele as narrava, e na comoção absurda de saber que Lëvri não foi aniquilador mor de Lorrt. 

— Como... soubes... se nunca... me viste...? — Lëvri aproximou-se. 

— Teus olhos, ora rubros ora áureos; trouxeram-me a dedução de que tu tinhas algum elo com os Illitan, em razão da criatura mítica que sustenta o poder que lhes foi dado. Entretanto, eu não poderia supor... exceto quando soube teu verdadeiro nome, dito por alguém n’algures; e soube, portanto, quem tu eras. 

— E quem é Krvier? Por que o temes? — Lëvri demonstrou-se irritado. 

— Eu não direi. 

— Não? O que queres? Cumprir o que outrora acovardou-se a fazer? — Aproximei-me com uma ira aterradora. 

— Eu já o teria feito se assim quisesse; não há razões para te dizer mais nada. 

— Diga-me quem é Krvier! Aquele por detrás de todas as tuas ações tolas, por detrás do teu temor, por detrás do que és? Aliás, quem és? Vamos, tenha coragem uma única vez. — Ele silenciou, imerso em ira e contendo-se, eu percebia. 

— Eu... — Ele abaixou seu tom de voz, suas veias ficaram mais aparentes. — Eu sou fraco... iguais a mim há outros tantos em um exército... mas eu sou o mais fraco... sou uma criatura destinada à reprodução, ao sofrimento e ao assassinato. Minha natureza é mórbida, meu instinto é violento... e... minha covardia é a única coisa que me difere daqueles que são como eu... então eu a manterei comigo... — Ficamos em silêncio. Queria compreendê-lo, mas, não era possível. 

— Se não me falares sobre Krvier, eu descobrirei... eu o encontrarei... e me vingarei... — Lëvri se afastou, tênue. 

— Quando uma criatura se torna criador, somente outro criador é capaz de detê-lo e nunca uma criatura...  

— Seja claro, Lëvri! Estes enigmas estão insuportáveis! Este lugar, estes segredos... eu quero a verdade! Eu quero me lembrar! — Vociferei, ouvindo minha voz atravessar a neve mais longínqua e alcançar o tom dos trovões sombrios. 

— Deixe-me voltar a sentir a textura das pétalas... deixe-me em silêncio... diferente de ti, não quero lembrar... e tu... tu sempre serás a minha Ennehris, pois, o que senti por ti diferiu-se tanto quanto minha covardia... manterei ambos... como relíquias em meu peito... não exija mais que eu fale do meu cruel criador... eu já lhe esclareci o que me era possível... 

Como podes... almejar o esquecimento... e tornar-se um dos perdidos... sem nome... sem uma bússola no coração... 

— Talvez tenhas desejado isso antes de perder tua memória... — Ele murmurou e mais silêncio nos envolveu. Eu percebi, então, a dor no ser de Lëvri, não posso dizer como percebi, mas o fiz.  

— Eu nunca desejaria esquecer... — Proferi, um pouco mais triste... queria mostrar que olvidar não é o melhor caminho, mas Lëvri fechou seus olhos, como se implorasse pela morte e, ao abri-los novamente, apenas virou-se e seguiu caminhando entre as tulipas, tocando suas pétalas. Em meu peito descansava um coração partido, a sangrar, lacrimejando. Perdida, esquecida... em busca de uma pequena esperança, uma singela salvação de algo que não se podia evidenciar. A chuva fina sobre meu corpo assemelhava-se ao meu próprio pranto... e Lëvri se distanciava como se nunca tivesse estado próximo... — Diga... — Sussurrei, impossível ser ouvida por ele. — Diga meu verdadeiro nome, Lëvri... — Ele continuava se afastando. 

“O emergir da distância é parte de uma inestimável boa ventura.” — Lembrei-me. Um presságio? Era um adeus velado, nas sombras de nossas divergências... e toda a imensidão nívea, frígida, inóspita... as torres de pedra de um Castelo misterioso... os raios violentos e a chuva calmante em contraste. Minha esperança protegida no relicário de meu ser. “Encontre o que há de valor e o que há de valor há de encontrar quem o procura”. Caminhei, lânguida, observando as construções; eu sabia de meu dever de voltar ao Arcanjo-Maldição, entretanto, almejei novamente a fuga; encontrar Liliana, talvez, uma verdadeira amizade a qual descansar minha tristura — “à dor pertence tudo o que se é, e nas sombras do ser há uma angústia imorredoura”. Eu estava na profunda expectativa de sonhar com Lorrt... reencontrá-lo... questioná-lo... entender nossa história..., eu gostaria de adormecer livre, sem o Piche do Oblívio aterrando meu plano onírico, sem a culpa prensando-me como um ataúde à sete palmos. Uma aspiração, espreitada pela intuição de que eu não encontraria nada naquele lugar. 

Eu... não esperava fitar o abandono; ou talvez soubesse... sem gotas de força. E a astenia estava naquele corpo que, outrora, em profunda significância, toquei. Olhos negros exaustos de uma dedicação possível ao que poderia tornar-se um amor... não era ainda, muito cedo para dizer. Uma paixão derradeira? Ao destino que há de me consumir na eternidade do meu lamento, meu esquecimento e, principalmente, minha solidão? Eu não queria me repetir; como um eterno retorno de languidez e melancolia — as mesmas dores, os mesmos prantos; ainda havia muita humanidade no que residia em meu peito: uma alma ou uma existência vazia. Na verdade, eu não sabia o que eu era, se estava morta ou viva, então, como saber se havia mesmo a paixão? Apenas um momento, estranho e obscuro momento, de entrega, de vínculo... por que isso eu não podia esquecer? Talvez ele estivesse certo, algumas coisas precisam deixar nossa memória em paz. 

Colossais dúvidas afligiam-me enquanto caminhava pelo jardim, na lentidão sombria, estavam meus passos arrastados, embora silentes; os raios reluziam perigosos e não desejei retornar ao Castelo. Acolhi-me no arbusto de nnivealiz, com seus papilhos repousados ainda intactos, embora o vento estivesse feroz. Nascidos em uma grama macia, à leste do jardim, apesar da neve. Deitei-me ali, observando o firmamento nublado e chuvoso. As gotículas de água sobre meu rosto caíam, congelando-se em cristais tênues, fazendo o papel das lágrimas de outrora. Minha tez reconhecia. Meu corpo frígido pela neve abaixo, entre o aconchego da gramínea. Tudo isso, de modo estranho, me serenava. “Ainda assim, há contento ao sentido.” — lembrei, como se acolhido na imensidão do ar, de repente, por mim mesma. Então fechei meus olhos e esperei acordar n’outra realidade, no meu verdadeiro lugar para, então, dizer aos que aguardam meu retorno, que tive um sonho perturbador e que senti aguda falta de cada um deles, mesmo sem me lembrar de quem são... 

“Veja-me, desvele-me na clareira da densa floresta; um poder inominável aguarda a lua cheia dos olhos que veem, se capazes. Sempre dourados.” 

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Capítulo 7 — Culpa e Proteção

Minha consciência era vívida e sólida. Todo o mobiliário ao redor era pálido e tal cor evidenciava, em maior perfeição, a riqueza dos detalhes…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Minha consciência era vívida e sólida. Todo o mobiliário ao redor era pálido e tal cor evidenciava, em maior perfeição, a riqueza dos detalhes vitorianos. A tapeçaria tinha nuances de um lilás rarefeito e pelas fenestras de seus vitrais outrora escarlates, residia um lume profundo e difuso cuja branca essência etérea se manifestava em sua própria condição de fulgor. “Eu... acordei?” — Indaguei em silêncio, aproximando-me devagar até a luz, observando pela janela o Castelo e seu abismo — era o que eu esperava ver. No entanto, confirmando o que eu já pressentia, tudo estava diferente. Vi uma inundação suave de nuvens como uma celestial verdade entre a vida e a morte; um alvililás se expandia na imensidão, e a serenidade silenciosa do derredor era estonteante em sua agradabilidade. Tinha o aspecto de um sonho profundo e belo, porém, sinto que era real, sinto que neste estranho lugar eu estava desperta tal como estou agora. 

Ao abrir os umbrais de meu aposento, não vi, pois não havia, o corredor derradeiro. Apenas nuvens. E por elas pude caminhar. A beleza plácida era tão vestal e mágica que, pela primeira vez, senti-me realmente protegida. Um aroma de lavanda cingia-me suave, mas as flores não eram visíveis. O horizonte era perpétuo, não havia sol ou lua, embora tudo estivesse clarificado tal como o dia mais vestal. Pouco depois, enquanto andejava sem rumo, avistei um portal de riqueza insondável. Esculpido no que julguei ser pedras de opalina com seu brilho irisado característico. Neste momento, senti-me instigada a atravessá-lo, como se um estranho chamado silente adviesse do seu interior, embora, aos meus olhos, nada houvesse além de nuvens do outro lado, tal como ali onde eu pisava e tal como em tudo o que havia em todas as direções. 

— Tu não pertences a este lugar. — Ouvi. Era um tom suave, embora intenso. Olhei na direção da voz ecoante e avistei uma mulher, de olhos fechados. Seus longos cabelos brancos pareciam movimentar-se suavemente pela brisa. O veemente contraste fascinara-me, pois, sua pele negra-acinzentada, beirando um intenso violeta-escuro, tinha uma perfeição destoante de tantas nuvens e tanta luz. Seus olhos, então, se abriram lentamente, e vi uma íris púrpura e brilhante. 

— Nem a este, nem a outro, acredito... — proferi. A mulher sorriu, tinha uma aura serena. Caminhou devagar até se aproximar um pouco mais. 

— Seja bem-vinda a Somníria. Se estás aqui, com teus olhos abertos, intriga-me saber de onde vens.  

— Não de muito longe — afirmei —, direto de meu leito em um antigo castelo. — Ela pareceu pensativa ao me ouvir. 

— O Castelo Drácula, eu suponho. — Eu a olhei com diligência. 

— Como sabes? — Minha curiosidade a respeito disto estava estampada em meu semblante. A mulher sorriu outra vez, tão estonteante aura emanava dela. 

— Não é fácil chegar a Somníria estando com os olhos abertos como tu estás. Olhos abertos, aqui, significa estar consciente e isso resulta em lembrar-se e lembrar-se resulta em saber que existe. — Ela se aproximou do portal de opalina irisada que, outrora, parecia me chamar e, dentre as plantas lilases ao seu envolto, retirou uma em especial, pálida e com pétalas leves e pequeninas. Entregou-me em seguida, apreciei o perfume doce e sutil da sua natureza. — Sempre-vivas guiarão teus passos em Somníria e, igualmente, por este sonho no portal que chama pela tua alma. — Com as mãos suavemente estiradas, como se indicassem um caminho a seguir, ela direcionava ao portal de opalina irisada. Desejei atravessá-lo outra vez, entretanto, havia mais a saber sobre aquele estranho paraíso. 

— Se meus olhos abertos fazem com que a lembrança não se perca de meu lembrar, diga-me teu nome para que o esquecimento seja ainda mais improvável. — Olhei-a e suas pupilas dilataram-se sutilmente. 

— Ihvia... — sussurrou. — Peço perdão por não me apresentar a ti, entenda que não há tantos despertos em Somníria e, em consequência, raramente vejo-me na necessidade de uma apresentação formal. 

— Não te preocupes, apenas não quero te esquecer... — Havia tanto já esquecido, por esta razão as memórias tornavam-se tudo para mim de modo que eu sentia estar, a cada nova vivência, me preparando para defender, com todas as forças, as minhas novas memórias. Ihvia ficou em silêncio, por um tempo. 

— O que tu buscas, Áurea, já está em ti. — Eu não esperava ouvir o que ouvi. — Olhe bem para dentro d’este portal, há algo que te espera no interior dele e, se ele te chama, é valioso que respondas. 

— Conheces-me, então? Diga-me como? — Tive esperanças, por instantes, de ter alguém próximo que soubesse quem eu era, ou melhor, quem fui. 

— Conheço teus sonhos. No entanto, levo algum tempo até lembrar-me deles e, consequentemente, lembrar de ti. É preciso mansidão para que as recordações aflorem sem dor e sem medo... — Silenciei. Ela parecia falar diretamente o que me tocava no mais íntimo do meu espírito. — Diga-me o que vês, aproxima-te do portal; revela-me o que ouves. — Os umbrais reluziam e o chamado era, não uma voz, mas uma intuição. Aproximei-me de sua esculpida forma e o que antes era apenas infindas nuvens, em sutileza se manifestava em formas e movimentos até transfigurar-se em uma cena esvanecida. 

— Uma... mulher... eu mesma... — Proferi em um murmúrio, estando atenta aos detalhes dissipados. Ihvia sorriu quando eu a olhei por um segundo. 

— Este é o teu sonho mais recorrente, Áurea. Contudo, ele emerge no teu sono profundo, no subconsciente. Talvez queiras encontrá-lo agora, com teus olhos abertos a ele. — Dissera enquanto eu me aproximava do portal. Sim, eu almejava olhar para o meu sonho recorrente e descobrir as verdades que o habitavam. Em especial pela paz que me trazia o simples aproximar. — Não temas. — Afirmou, no entanto, sua voz já estava longínqua e tão logo vi-me no interior do que outrora assemelhava-se a uma reminiscência. 

Tudo ao derredor era pálido, envolvido por uma névoa translúcida com nuances de marfim, era como estar num entardecer melancólico com o sol dourado no horizonte e a sua luz espargindo pelas nuvens no céu, criando esplêndidas matizes. Eu estava em uma casa de madeira, singela e confortável; o sofá com uma colcha de pequi sobre ele ornava com almofadas em tons de bege. Havia um vazo de flores na mesa de centro, neles estavam as sempre-vivas que Ihvia colhera para mim. Eu sabia que eram elas. À esquerda, uma cozinha singela e cuidada, nos mesmos tons, algo era cozido no fogo à lenha, uma panela cujo aroma agradável aquecia o coração. Tomates, talvez? Pimenta e limão? Segui em direção ao cozido, no entanto, um choro tenro me alcançara os ouvidos; um bebê em lamúrias — era um bebê, eu sentia. Segui as ondas do timbre tão delicado e cheguei a um quarto cujos enfeites transmitiam uma sensação macia. Tão logo, avistei um berço. 

Meu coração era um relógio cujo tempo contado era célere; meu coração pulsava de uma alegria contida, um amor insondável, uma estranheza precisa. Olhei para o leito e lá estava ele, o bebê; envolto em lã cor de areia, lamuriando como uma pequenina preciosidade. Guiei-me a segurá-lo, era tão petiz... seus olhos se abriam com tanta dificuldade; ainda assim, ao fazê-lo, viu-me admirá-lo e sorriu, sem nenhum dentinho, sem sequer uma expressão facial realmente formada e pronta para a vida. Frágil, tão sensível. Seu choro se foi e, de súbito, ouvi passos apressados e, antes que eu pudesse entendê-los, algo abraçou minha perna esquerda. Olhei para baixo. Uma menina. Decerto deveria ter por volta de quatro anos de idade. Ela sorria. “Mamãe, ele acordou?” — indagara olhando-me nos olhos. Eu era a mamãe, aquela cujo abraço sempre seria a segurança perene; aquela cuja dedicação se estendia pela eternidade. Abaixei-me, deixando o bebê às vistas da menina que, com lentidão e apreço, acariciou-o em sua miúda fronte. O bebê sorriu outra vez. 

Minhas lágrimas nasceram em meus olhos e uma dor sutil em meu peito conduziu-me ao choro mais intenso. Aquela cena era sublime... agradável. Um lar construído com amor. O meu lar. Os meus filhos. “O que foi, mamãe? Está emocionada?” — disse a doce criança. Sorri-lhe, tocando-lhe a bochecha n’um carinho verdadeiro. “Diga-me teu nome, pequena? Lembra-me, pois, esqueci-me de tudo...” — pedi, pois, sentia-me acolhida. A garotinha sorriu. “Millimor, mamãe! E esse é meu irmãozinho Ëllior. Promete não esquecer de novo, mamãe?”. Eu prometi. Abracei-a com todo o meu profundo e inalcançável amor. Senti-nos aquecer. Fechei meus olhos e aproveitei o que, talvez, jamais voltasse. Quando pude abrir fazer da visão um sentido ativo novamente, notei que alguém estava próximo, vi sapatos masculinos. Olhei para olhar em sua face, mas despertei antes que o pudesse fazer. Despertei em Somníria. 

Por um tempo, fiquei inerte. Lembrando-me. Depois, demasiado abalada, chorei com pesar, soluçando de tristura e angústia entre as límpidas nuvens. Permaneci pelo que me soou ser a eternidade, sozinha entre nuvens lilás, até iniciar uma caminhada que perdurou ainda mais tempo; imersa, porém, em meus pensamentos de saudade, medo e angústia, pouco importava-me a temporalidade das coisas. Desejei habitar o sonho familiar e deixar a vida humana; indaguei de Ihvia havia escolhido isso, pois, estava li em Somníria, porventura tivera uma experiência símil a minha. Por que deduzir que o sonho é de valor inferior à realidade? E por que a realidade seria, de fato, real e não o sonho? Eram dúvidas fidedignas de um ser exausto; imerso em saudades e pavores. 

Um murmúrio, todavia, quebrantou meu estado, vinha d’algures dentre aquele infinito. E, embora o local fosse esse contínuo pálido e celeste, não era plano. Assim, descobri aos poucos a origem do sussurro. “Áurea Lihran” — eu ouvia. Vinha de um mastodôntico e deslumbrante portal, constituído por diamantes negros, cingido por purpureanidas ao redor— uma flor que jamais vi pessoalmente, de pétalas n’um violeta-escuro, sépala negra, um degradê sombrio em seu interior, próximo ao óvulo; filetes espinhosos, anteras de uma penugem suave. É considerada uma espécie mágica, de raridade mística; associada à morte e ao medo, polinizada apenas por abelhas-basalto de Amorttam. No interior daquele obscuro umbral, as nuvens se dissipavam em uma escuridão perniciosa. Era... admirável e... amedrontador. 

Deslumbrada, aproximei-me e ao passo que o fazia, uma vertigem me acometia e o sussurro, outrora indistinguível, agora era agourento e grave, como a voz de um demônio, como as sete vozes do abismo. Temi e, trêmula, tentei recuar, porém, a energia mórbida do portal induzia-me a seguir até o seu interior; isso me causou uma estranheza e um horror inexplicáveis. No meu coração, parecia haver um violino macabro com acordes fugazes; um violino de mil volutas, em cor de sangue; pois emergia de mim um horror que não se podia medir. No antro daquela escuridão, senti que me aguardava a morte, ou algo pior do que ela; uma morte vertida à vida, impossibilitando que o verdadeiro descansar em paz fosse possível. Era utópico defender-me daquela gravidade infernal; então sucumbi ao seu âmago, mas, não só. 

Pouco antes, enquanto o sussurro vinha aos meus ouvidos, um de cada vez, soprando meu nome como uma carne dilacerada o faria se pudesse; como a terra de um cemitério de mortes hediondas, decerto diria se assim fosse capaz. Enquanto uma contagem regressiva longínqua estrangulava-me em pânico, ouvi o som de imensas asas a domar o ar e, em átimos, senti mãos viris segurarem meus braços em tentativas poderosas de impedir que o insalubre negrume engolisse meu corpo e ser. Fiz o possível para olhar para trás e reconhecer aquele que tentava me salvar; porém, fomos tragados e torturados na imensidão negra. Medo. Arrepio. Breu perpétuo e insalubre. Uma imersão em um pesadelo cruel. 

Vi-me caída em um lugar hostil e sôfrego, denso e escuro; um tipo de paisagem terrífica onde urros e bramidos de terror se alastravam por todos os lados; senti uma presença tétrica, macabra e perversa próxima a mim, em alguma direção. Até que vi o Piche do Oblívio, caminhando em sua lentidão, vindo até mim, com seu cantarolar moroso e horrendo. Quis correr em uma fuga célere e dediquei-me a isto, porém, quão bárbara era a densa atmosfera, o firmamento em nuvens cinzas e eletricidade em raios, trovões, tudo carmim; fendiam os céus enquanto debaixo deles as sombras e a destruição assombravam. Eu corria... mas, devagar; era contraditório, entretanto, o esforço para o fazer mostrava-me claramente o quão lenta eu estava. E ele, o Piche, vinha atrás de mim, caminhando e, desta vez, com seus olhos vermelhos, talvez sorrisse se tivesse expressão e semblante. 

Eu tive medo. Porém, quando ouvi as asas domando, novamente, o ar sufocante; olhei para cima e vi um homem em roupas negras e grandes asas de igual tom, ele descia da imensidão entre centelhas de cor escarlate e estrondos ensurdecedores; atrás de mim, frente ao demônio, ele pousou com elegância e poder; muito mais rápido do que eu, parecia imperar sobre todo o ambiente e ser capaz de agir para além do que a circunstância parecia impor. Vi com perfeição as suas asas, ainda não pude ver a sua face. O homem, portanto, ajoelhou-se no chão e proferiu o que não pude ouvir. Uma imensa marca pálida se materializou, um estigma, um enigma, um sigilo mágico; atravessando o chão de pedra fria e em seu âmago, tão somente, o Piche. O Piche ficou estático e eu senti um impacto em meu peito, como se o aprisionamento da criatura me afetasse, permitindo a minha liberdade. 

Enfurecido, o Piche demoníaco do Oblívio, estendeu seu lodo asqueroso, e o envolveu em meu pescoço; seu olhar rubro indicava com evidência a sua ira. O meu anjo protetor — é o que eu poderia pensar ser naquele átimo — desembainhou uma espada negra com lume lilás reluzente, a qual parecia ser etérea, imaterial. Extirpou o lodo sem piedade; e seu urro de dor espalhou-se pelos céus, e no horizonte ecoou. Trêmula e amedrontada, eu nada fazia — era-me impossível diante tamanho terror. O lodo do Piche que envolta de meu pescoço afligia, desfez-se no mesmo instante; e antes que qualquer coisa pudesse acontecer, fui pega pelo anjo e o vento quente colidiu com minha tez lívida, e voei com ele, mesmo mortificada; e vi o Piche do Oblívio na terra fria, dentro do círculo com infindáveis símbolos que pensei nunca ser capaz de compreender. 

Então atravessamos o portal e as nuvens brancas, e tons de lilás vestal, se apresentou aos meus sentidos novamente; bem como o aroma de lavanda. Fui colocada, gentilmente, em um amontoado de nuvens confortáveis. Com as mãos cujo toque ela tenro, fui acalmada. Palavras quais, desta vez, ouvi com mais compreensão, irradiou do anjo e fez com que o umbral de diamante negro desaparecesse; sucumbiu como se nunca tivessem existido. Alívio. Alívio em mim e, creio, no anjo; ele finalmente me olhou com seus olhos violeta e com uma ternura cândida que eu compreenderia, pois, no acalmar do meu coração espavorido, o semblante daquele anjo não me pareceu, em nenhuma instância, desconhecido. Levei alguns minutos, pois sentia que estava vasculhando todas as lembranças recuperadas até então; no entanto, seu falar direcionado a mim, trouxe o reconhecimento imediato. 

— Tu estás bem, Áurea? — Eu ouvi. Meu coração pulou no peito, causando uma ansiedade súbita. 

— Lorrt? — Era Lorrt, ou idêntico a ele? Ou muito parecido? Eu estava perplexa. Instante por instante, eu tinha certeza de que era ele; as lembranças que haviam em mim eram como um sonho vago, cujo sentido principal eu tinha total conhecimento, mas os detalhes vertiam, esvaíam; decerto por isso não notei, em primeira instância, que era Lorrt; contudo, não demorou para a certeza envolver minha alma. Ele fitava-me com um carinho infindo, inenarrável. Eu... entristeci-me, pois, eu não o amava mais como sei que o devo ter amado quando estávamos juntos, mas de tudo esqueci; como poderia revelar isso a ele? “É só um sonho” — eu pensava, tentando crer que tudo era uma criação de minha mente perturbada. 

— É... agradável... revê-la... — Ele disse. Um tom manso, viril, terno; uma expressão de paixão, respeito, carinho e saudade. Eu não conseguia retribuir. 

— Perdoa-me... eu... não consigo... eu perdi minhas memórias... eu não sinto mais a mesma coisa... — Expressei com uma culpa, uma angústia, sem perceber que talvez não fosse preciso dizer tudo aquilo. O semblante de Lorrt tornou-se infeliz, entretanto, era tão sutil; parecia-me que ele, com uma força profunda, mantinha, o máximo possível, suas emoções controladas. Ele se aproximou. 

— Acalme-se. Respire. Não há culpa, nenhuma culpa. — Ele segurou minhas mãos, ajudou-me a me sentir melhor. — Diga-me, tu reconheces o pesadelo que chamara teu nome naquele portal? Reconheces aquela criatura? 

— Eu o chamo de... o Piche do Oblívio; aparecera-me quando me doía a lembrança de minha amada mãe e minha família... eu estou amaldiçoada, Lorrt... — Lamuriei, tanto que o lacrimal emergiu com seu brilho cristalino em minhas retinas. 

— Maldição? — Lorrt estava visivelmente preocupado. 

— Em busca das minhas memórias, fiz um acordo com uma entidade; agora tenho um demônio ao meu lado, dentro de mim, e sinto a dor mais horrenda existente sempre que me vêm à memória novas lembranças. Esta dor materializou-se no Piche. 

— Respire devagar, Áurea... Tu sabes onde estás? — Indagou, plácido e sério. 

— Ihvia dissera-me que este é o reino de Somníria, e que tenho nele meus olhos abertos e, portanto, estou consciente e posso me lembrar do que acontecer aqui. Ihvia sabia que eu vinha do Castelo Drácula. Há tanto a contar... — Desabei em meu choro, agora translúcido. Lorrt tocou sutilmente meu queixo, levando-me a olhá-lo; no entanto, parecia hesitante em me tocar, assim que eu o olhei, ele se afastou. 

— Permita-me ensinar-te um ritual de exorcismo; use-o para manter este demônio afastado sempre que precisar. Não posso trazer ao teu conhecimento uma magia capaz de destruir o vínculo que possuem, pois, isso não é possível em Somníria. No entanto... — Lorrt passou a movimentar as nuvens ao redor. — A quebra temporária do elo, será suficiente para te levar à busca do conhecimento que precisas para realizar o ritual completo. — Olhei, atenta, para ele. E aprendi sobre cada símbolo que ele fazia ser visto com a manipulação das nuvens; cada verbo pronunciado, também fora guardado em minha mente com bastante esforço; compreendi os passos de um ritual mágico perfeito. Lorrt ensinava com brandura e apreço; todas as minhas dúvidas eram sanadas por ele. Em evidência, sucumbira todos os seus sentimentos de modo a priorizar minha proteção, eu percebia. 

— Se algo errado ocorrer, Lorrt? — Temi. 

— Este não é um ritual forte o suficiente para te causar danos; erros levarão apenas ao súbito desaparecimento dos sigilos em um fogo fátuo. — Compreendi e fiquei em silêncio. Observando-o. Ele fez o mesmo comigo. Olhá-lo acalmava-me, queria amá-lo como amei. Quis abraçá-lo como, decerto, um dia abracei. Porém, de repente, um abalo e um estrondo símil ao do pesadelo, destruiu a contemplação e, também, meus pensamentos, ecoando pela paisagem alvililás. 

— Está na hora de despertar, Áurea; quanto mais tu permaneces aqui, mais instável Somníria se torna. — Explicara Lorrt. Mas havia tanto para dizer e perguntar. 

— Eu te verei outra vez? Há tanto que eu gostaria de falar... de compreender... — Lorrt não pôde esconder sua tristeza naquele momento, seus olhos lacrimejaram. 

— Sim, se assim desejares... 

— Como? — Insisti. 

— Encontre-me em teus pesadelos, zelarei por eles... 

— Meus pesadelos? — Mais um estrondo, seguido de um tremular amedrontador, como se uma chuva se predissesse. Olhei ao redor, assustada. Lorrt se aproximou, segurando, com sutileza, os meus braços. Tocando a ponta de seus dedos em minha fronte. 

— Eu vou cuidar de ti, Áurea. — Senti uma dor, como se uma agulha perfurasse minha fronte. — Acorde! — Ouvi e vi, pela última vez, o semblante de Lorrt. E o dossel carmim ressurgiu embaçado; a visão ébria de um adormecer profundo. Toquei a seda negra. “Meu leito...” — sussurrei. Notei que anoitecia. “Eu não esqueci” — murmurei. Mantive-me deitada, apenas relembrando. Somente relembrando. Nada mais. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 6 — O Piche do Oblívio

As sombras eram solecismos factuais; um ruído medrava-se horrífico. Algo físico entre nós inibia-nos, impedindo quaisquer aproximações; uma divisão vítrea, perceptível…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

As sombras eram solecismos factuais; um ruído medrava-se horrífico. Algo físico entre nós inibia-nos, impedindo quaisquer aproximações; uma divisão vítrea, perceptível aos nossos olhos, tinha um agudo e longínquo sonido, contínuo como as nódoas negras enervantes, símeis ao nanquim aguado nos recônditos do olhar, tecendo um manuscrito de horror. As chamas da lareira, que eram, pouco antes, fogo lúcido, criavam oscilações além de sua estrutura de pedra, acendendo um fogo estirado pelas trevas, como o lume do sol radiante em raios de sua grandeza e poder; porém, contornado pela escureza hostil, desafiava a lógica da constituição primordial da própria natureza da luz. Parecia-me que aquele lugar, uma adega de raros vinhos e licores, outrora fora uma sala aconchegante ou, quiçá, há de ser, pois o tempo ali era apenas um pêndulo tardio de um nada além. 

O que é isso...? — ouvi de Anton. Sua voz era firme e baixa, ecoava pela dimensão, pois esta se tornara uma dimensão entre dimensões; eu sentia e admirava o derredor. No soturno de minh’alma, como se houvesse um pássaro morto entre os meus pulmões, fleumática em fascínio, eu sentia... enquanto a realidade se desestruturava. Havia apenas eu e os olhos atentos de Anton, embaçados pela vítrea fragmentação. Meu corpo era a leveza de um rio, mas o medo não perdoava, e em sua verdade não habitava clemência. 

Tu sentes também, não sentes? — indaguei-lhe, fragilizada. — Anton... — chamei-o outra vez. — Nada aqui é o que nos parece ser. — Confuso, com a fronte crispada, ele tentara tocar a divisão que nos separava; foi em vão. 

Quem é você, Áurea? — Dissera, com tal amaro timbre, firme e tenso. — E por que estou aqui, ao seu lado, mas tão distante? — As dúvidas eram os vultos que emergiam no breu que expandia; vi, entre os barris de vinho e a antessala com a lareira, um frondente piche n’uma cinesia mórbida. Almejei responder à Anton o que eu era de fato, mas o piche... tinha forma humanoide e a sua inominável presença adulterava minhas ações, inibia-me em quaisquer desejos, sufocava minhas cordas vocais. Olhei para Anton, devagar. Tudo se paralisou, o recuar das águas antes do dilúvio. E o silêncio, outra vez. O piche era o símbolo do eterno retorno do que não ocorrera; eu intuía, pois, vi o diário de Anton em suas mãos e o vi, igualmente, na poltrona que outrora me sentei. Dois diários, dois tempos. Havia, nas paredes, fissuras imemoriais, condenando um fim perpétuo de algo, em alguma instância, e no vítreo, rachado símil, ainda nos separando, eu vi... a mim mesma... refletindo... 

Talvez, — Minha voz falhava, pois o temor ascendia pútrido e instável. — Não sejamos mais do que reflexos de algo imensurável, o qual está além da compreensão. Temo que… estejamos confinados em uma armadilha incorpórea… — Proferi, fraca. Quase não via mais Anton e o piche voltou a se mover em minha direção; quebrando a quietude, grunhindo algo similar a um poço de águas pútridas. Só eu o via...? Não sei dizer. Quiçá o seu horror e as suas correntes que se arrastavam pelo assoalho fossem tudo criações ilusórias do meu oblívio... e o cheiro hórrido... a consistência... apenas mais um falso murmúrio.  

Inerte, então, ouvi o solfejar do piche do oblívio... entre a voz doce de uma criança que, longínqua, conversava, remansada, sobre frutos. Um bombo grave carregava um peso sôfrego enquanto o piche cantarolava ao tilintar de suas correntes mortíferas. Cada vez mais próximo. Eu não podia me mover. “Às vezes.... as coisas mais... estranhas... podem ser as mais...” — Ouvi, entre ruídos. “As mais...” — Repetia-se. “As coisas... estranhas...” — Repetia-se. “Estranhas... Às vezes...” — E o bombo mais e mais violento. O piche alcançou-me a pele pálida. “Nunca vi uma fruta tão estranha!” — A criança indagara. Olhei, aterrorizada, para a criatura, e seu piche manchava-me o corpo, caindo sobre mim. O bombo transfigurou-se em um zumbido agudo e distorcido no instante cruel em que a dor... aquela dor... me acometeu impiedosa. 

Abaixei-me, levando minhas mãos à cabeça e ao peito; a dor alastrada como gritos de pavor de centenas de pessoas em um amontoado vil e repulsivo; gritos e ruídos... gemidos de agonia e tortura, tudo no âmago meu, na carne minha, nos órgãos e entranhas. Dor. A pior de todas as dores. Ausência de ar, falta, falta, falta de ar... e dor... dor... sobre a imagem de um mercado, crianças e Anton, segurando um fruto. Ao seu lado uma mulher de rosto rosáceo e tenro. “Minha Áurea, o amor pode nos levar por apavorantes veredas... e mesmo assim... ainda será amor...” — Mesmo longe, o sussurro da mulher viera aos meus ouvidos. Eu apenas pude gritar, toda a algia levava-me a tremer e meus olhos vibravam, eu nada mais via além da memória. 

Entardecer laranjim... uma respiração viril advinha do piche... entre o presente e o passado. A mulher era símil a mim, porém, envelhecida; seus cabelos eram grisalhos e estar ao lado dela me aprazia. “Uma torta de romã, Áurea” — Dissera. E vi-me uma petiz menina, caminhando descalça por uma casa de madeira até encontrar um homem de olhos negros, sem esclera. Sua mão em meu pescoço e eu já não era mais juvenil; ele tinha ódio de mim, ódio enraizado e pulsante como uma artéria. “Morra, traidor!” — Vociferara. Traidor? De súbito, uma criatura única, símil a um dragão, mas com corpo de cobra e crânio de corvo, a mesma criatura refletida nas águas pertencentes à Lahgura, olhava-me com ternura e eu a acariciava, dando-lhe, em seguida, pétalas de Cestrum Nocturnum. Ela parecia degustar da iguaria, em gáudio. “Ela sofrerá?” — Vi-me questionar, olhando para Lorrt cuja face era perfeita e os olhos intensos em carmim. “Eu prometo que não.” — Respondera, beijando-me os lábios em seguida; sua voz era paternal. “Eu... não queria vê-la morrer...” — Confessei, com lágrimas nascentes e já tão célere vertidas, eu as sentia aquecer meu rosto, como um orvalho de verão. “Tu não verás, estarás adormecida e protegida. Confie em mim, pequena luz.” — Ainda paternal, Lorrt segurara minha mão, caminhando comigo pelo jardim. A criatura mítica nos seguia, como se soubesse o seu destino. 

Por favor... me diga o que fazer! — A voz agora era de Anton, em inominável frustração, contudo, a dor vinha do piche que me cingia respirando, e eu não podia falar, pois meu coração palpitava em frenesim enquanto todo o meu corpo congelava em sofrimento e temor; a agonia da dor era como uma tortura da morte, brincando de rasgar minha tez com sua foice envenenada. Olhei para Anton, minha decadência eclipsava sua imagem. “Não... posso... compreender... Anton.... por quê...?” — Lamuriei, sobretudo, o piche penetrara-me os olhos e sussurrara-me meu nome... “Áurea... Lihran...”; meu grito de desespero tinha sabor de barbárie, pois o horror do martírio tornou-se atrocidade desumana. Asfixia outra vez, o torso oprimido; meus olhos ardendo pelas correntes que o invadiam e, quando as lembranças vívidas se tornaram sangue, tudo se desfez a uma adega frígida e escura. E a minha vestal solidão. 

Áurea! — Ouvi. Seth, com sua voz grave, indicava uma aflição sobre mim. Senti suas mãos em meu corpo; no dorso e no colo. Mantive-me olhando para o chão, lacrimuriando. 

Era... Aborom... — Sussurrei, pois, lembrava-me. — Nós... festejávamos... — Insisti. Na lembrança, o sol era a grande pupila do infinito, como um eclipse amornado na imensidão laranjosa. Reuníamos para cozinhar com grãos rústicos. Parte de uma cultura que pertencia a mim, parte de meu lar. — Ela estava lá... minha querida mãe... — Lágrimas na entreluz do cômodo gélido. Pranto entre soluços de uma tristura irremediável. Seth abraçara-me. 

Está tudo bem, estou aqui... — dissera, contudo, doía no peito; nas emoções dilaceradas pelo piche do oblívio quebrantado no horror de uma vivência pavorosa. Fui levada aos braços de Seth, por ele, envolvida e acalentada, enquanto a voz de minha mãe ressoava e a saudade era a pior de todas as angústias que, desde meu despertar, vivenciei. 

Eu não os verei novamente... — Murmurei. Lorrt sorria em minhas visões profundas; mamãe servia-me um pedaço de sua torta de romã. Almejei sucumbir à Rosaemori, para não lembrar. A chuva fina era uma cortina natural às janelas, aguando os jardins que em âmbar refletiam. Rostos opacos, semblantes apagados, no entanto, um júbilo aprazível envolvia-os todos, todos nós; e quanto afeto residia no aroma de abóbora-doce com canela, abóbora-cabotiã e cumaru, abóbora-moranga e leite de coco! Saladas frescas com manjericão igualmente... crianças correndo entre os móveis de cedro. “Doces ou travessuras?” — Eu ouvia... eles brincavam enquanto eu colhia algumas calêndulas na estufa. “Travessuras, é claro!” — Dizia-lhes e logo, sob distrações com as pétalas perfumadas, eu era assustada por suas máscaras grotescas, pintadas com óleo de linhaça e cúrcuma seca e moída. Eles gargalhavam... pequenas criaturas inocentes... tão só meninos e meninas... tão só pequenos rebentos da vida em... Numnura... 

Verás sempre, na lembrança... — Respondera Seth. Então o olhei. Seus olhos eram azuis. 

Onde está o pretume de teus olhos de arcanjo? — Indaguei. Teu sorriso emergiu como um cândido sol no horizonte. 

Creio que nunca olhaste, de verdade, para mim... — Redarguiu cordial. Então o olhei. Havia uma cesura próxima ao seu olho esquerdo; sua pele era bela. Duas curvas no centro de sua fronte assemelhavam-se às hastes de um cervo. Havia outra cicatriz em seus lábios e nela toquei com a ponta de meus dedos trêmulos. — A queda... é sempre dolorosa... — Proferiu enquanto em seus lábios repousava meu toque tenro. 

Arcanjo caído... — Sussurrei. Seth segurou minha mão, afastando-a de seus lábios e acariciando-as lentamente. — Por onde esteves? — Ponderei. 

Estive no inferno...— Dissera em seu ninho de pensamentos. Acarinhou-me a maçã do rosto. 

Como é lá? — Meus olhos exaustos piscavam na lentidão de meu coração não mais frenético, embalado pela tristura da saudade e o ardor do corpo de Seth. 

— Grandioso... uma eterna noite carmesim em névoa negra; há rubi nas frestas ornamentais das residências e, muito mais, no alcácer de Lúcifer. Há um flúmen de lava cujo curso se esparge por todo o reino e o mármore bruto se forma às margens deste tórrido caudal, matéria-prima que esculpe as estátuas de beleza núrida — as quais estão por todo o reino — e o alcácer, de perfeição inenarrável, do A Estela da Manhã. A flora é seca, exceto pelos arbustos de nutrúrnias, flor símil às dálias, porém, com pétalas em voluta, formando um redemoinho escarlate; são leves, abrem-se ao soprá-las. São brilhantes em cor negra-etérea com nuances rubras. Espinhosas como as rosas. 

Belo... e tão... sui generis... — Respirei fundo. — Traga-me uma nutrúrnia de lá? — Sussurrei com a voz embriagada de sono. 

Farei o possível... — Aproximou-se de mim e beijou-me os lábios que há pouco tocara com seus dedos. Sua boca era aquecida, quiçá como parte da aura do inferno. Seu beijo demorou-se à suavidade do toque de nossos lábios. Fechei meus olhos e senti. “Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss. Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss. Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss...”  — Ouvi, como centenas de vozes sibilantes. Em uníssono. Arrepiaram-me a tez de imediato dada a assombrosa essência que possuíam. Não eram as mesmas de Seth em minha mente. O beijo cessou logo depois do estranho idioma murmurado, acabou por me despertar do relento. Olhei para Seth e pensei em indagá-lo, mas, silenciei, pois, seus olhos cerúleos pediam contemplação. Seth veio aos meus lábios outra vez. “Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss.”  — As vozes. E o beijo se intensificara. “Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss” — mais uma vez. Lamuriei, indo contra o corpo de Seth, sentando-me sobre ele, cruzando minhas pernas ao seu redor. Um beijo de ardor profundo. “Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss, esspussess erebriss daemoniss ssaeiva enssnura” — Os sussurros pareciam queimar-me a tez. Seth gemia um prazer único e eu sentia sua rigidez. “Ssaeiva enssnura voluass”.  

Áurea... — Murmurou, afastando-me de si. Olhamo-nos, ofegantes. As vozes cessaram, elas sobrestavam quando não nos beijávamos. — Preciso ir... — Revelou. 

Para onde, Seth? — Temi a solidão e o quanto minhas novas memórias se alastrariam nela. 

Para o inferno... 

Por quê? Por que agora? — Supliquei. 

Buscarei tua nutrúrnia. — Dissera com a voz tenra e assim fez-me sorrir, todavia, a tristeza era como um piano ao fundo de todo o horizonte de meus sentimentos. Fui levada para meu aposento, nos braços de Seth; posta ao leito confortável em veludo negro após ser despida pelas mãos de meu arcanjo, devagar, senti-o afagar, em silêncio, a minha pálida pele, e fui vestida, em seguida, com um damanoute carmesim — escolhido por Seth, que olhava para as janelas de minh’alma a quase todo instante, exceto quando abaixara-se para retirar minhas vestes, onde pôde apreciar cada detalhe de minha estrutura física, ao menos por instantes. Beijou-me, por fim, no centro de minha fronte e esvaiu-se em sombras após um salaz “até breve”. Eu estava só. E adormeci só. E sonhei. 

Afundavam-se os meus pés nas rubras areias de uma paisagem desértica; dunas infindas d’esta areia concebiam um horizonte estonteante e sombrio. Sopravam-se os ventos frígidos em contraste com o que, sob meus pés, era cálido, pois, sobre mim e sobre as areias carmim, um sol no firmamento conduzia-nos seu mormaço tão característico. Entre espessas nuvens negras, clareiras de seu luzir invadiam as dunas que refletiam a vermelhidão transfigurando o céu numa celestial cinesia entre escuridão, sangue e luz. Neste vertiginoso cenário, eu caminhava em busca de sentido e, admirada com tamanha perfeição, quis compreender aquilo que somente a intuição é capaz de assimilar. 

Aos poucos, formava-se a calima, pois a inclemência da aragem era real, tanto que revoava meus cabelos de modo a dar-lhes nós em suas pontas; contudo, ainda que ébria de um medo puro — pois, percebia fenômeno grandioso ser composto por um perigo inominável — eu andejava, guiada pela mesma busca eviterna. Foi então que vi aquela mulher, tão semelhante a mim, em seu vestido negro que, feito de renda e cetim, esvoaçava como seus e meus cabelos; ela estava parada em uma alta duna, observando um homem que, ao seu lado, semi-ajoelhado, lhe oferecia um anel de ônix com um rubi lapidado em prisma. Corri como pude, tentando alcançá-los; pensei que poderia ser mamãe, no entanto, já bem próxima, vi que era, pois, eu mesma; e o homem era Lorrt. E o que se assemelhava rubi, era sirenniha diamantada, com o vermelho das dunas refletido; e o ônix era, na verdade, obsidiana em cortes geométricos. Não sei como soube disso, mas eu soube. “Lorrt!” — Vociferei ao notá-los, ambos, desaparecendo como miragem. Não chamei por mim. 

Caí sobre as dunas escarlates e chorei; um pranto de licor rubi-áureo que vertia em minhas mãos pálidas e areadas pelas partículas. “Eu te amei...” — Sussurrei, como se ele pudesse ouvir. Quando tive forças para fitar o horizonte da outrora miragem, o que vi foi mamãe; agora sim era ela e não havia outra de mim; era ela, olhando-me de longe, sorrindo com dulcífera candura. Levantei-me aos tropeços, a calima se intensificava e meus olhos semicerravam. Mamãe, cujo nome eu não lembrava, segurava em suas mãos uma romã partida e vestia-se com vestes marfim, suaves como o seu semblante; transmitia-me a paz que tão somente uma mãe o poderia fazer. “Mãe...” — Murmurei. — “Mãe!” — Bradei. Levantei-me com dificuldade, a areia acumulava-se no meu envolto; corri como pude, outra vez; chamando por ela. Clamando pelo seu amor vestal. No entanto, quão previsível... outra miragem; esvanecida enquanto tão próxima eu estava. “Áurea... minha menina Áurea...” — Ela dizia e eu a ouvia, doce voz, voz de estévia. Tocá-la intensificou a calima pouco antes do seu esvanecer. 

Então fui consumida pela areia escarlate que, ao vento, levantava-se em seus infinitesimais grãos que outrora à superfície volátil se acumularam. Chorei sobre a areia, soterrando-me aos poucos; foram lágrimas secas, como meu corpo e meus lábios. Pouco depois, enquanto sentia a saudade arrancar-me toda a fé; um silêncio contrapôs o sopro agressivo do vendaval e, assim, chamou-me a atenção. Esforcei-me para sair da areia carmim e caminhei entre seixos de vidro natural e rochas do mesmo material que se formaram onduladas e com imensos orifícios orbiculares. Guiada pelo caminho de vidro, alcancei uma floresta morta. Contínuas árvores e arbustos de galhos secos jaziam ali e, a areia, antes abundante, aos poucos se dissipava. Doía-me a solidão que emergia, todavia, pressentia que algo valioso viria ao meu encontro se eu apenas continuasse a caminhar. E continuei. O mirrado arvoredo se densificava e uma estrada de magma frio moldado como ardósia surgiu aos meus pés quando toda a areia se foi. Durante a caminhada eu ouvia, no âmago do silencim, aquele sonido conhecido... da criatura mítica... agora eu sabia que era dela, mas ainda não a via. 

Avistei, porém, uma casa; a minha casa; mas, sem o jardim. Escura em seu interior. Sem os vizinhos ou as abóboras ou o festim... sem as crianças e suas máscaras grotescas pintadas em açafrão... sem mamãe... sem romãs... ainda assim, senti que em seu interior eu estaria protegida em minha tristura; um lugar para fazer meu ninho de saudade, medo e melancolia. Fui à porta de cedro já envelhecida e abri-a desapressada. “O que... houve aqui?” — Expressei minha dor de ver as ruínas da casa que vivi por éons; fragmentos do tempo que passa e aniquila tudo o que temos de inestimável. Adentrei sua sala cuja luz era contida, vinda das janelas danificadas e das frestas da estrutura corroída. Meu coração se acalmou. Toquei a margem da lareira empoeirada... mamãe acendia seu interior nas noites frias e permitia-me observar o fogo tenro enquanto a ouvia cantarolar. Pouco depois, na semiescuridão, vi Seth. Sentado na cadeira de balanço, esperando com paciência, era o mesmo assento que amei por anos quando mais jovem, sentando-me para ler poemas ancestrais. Ver Seth trouxe-me serenidade, entretanto, por outro lado, temi algo que não sei. Seth levantou-se e se aproximou com cuidado e estendeu-me sua mão. 

É preciso aquiescer à finitude, minha Aesatt, para desfrutar da eternidade...— Segurei o braço de Seth e ele beijou minha fronte; caminhamos juntos para fora do lar em decadência, mas doeu deixá-lo, uma dor lânguida e demorada. No insípido cenário, flores negra, com nuances carmim, símeis às dálias floresciam por onde nossos pés caminhavam e, então, seguimos juntos dentre elas; era um brotar de beleza etérea que suscitara em minh’alma uma esperança luzidia de algures, e algum dia, ter um lar outra vez, mesmo debaixo do amargo sabor dos tantos fins que hei de colecionar tendo a imortalidade como pilar de meu existir. Mas, não era apenas tal veracidade que contornava a simbologia do sonho; Seth em meu lar arruinado, presente no vazio decadente de minha história olvidada; Lorrt a amar um outro eu... e mamãe... apaziguando-me ainda que como um espectro no deserto. É mesmo preciso aquiescer à finitude para desfrutar da eternidade. 

Meus olhos abriram-se lacrimejantes. Eu compreendi muito e tão pouco... tão pouco e o que foi preciso. Senti a energia em minhas entranhas, uma disposição de enfrentar as dores, horrores e verdades, em meu nome, por mim, por Áurea Lihran morta, por Áurea Lihran de um devir e, acima de tudo, por Áurea Lihran que, naquele átimo solitário, tinha em suas mãos o poder de criar, ao mesmo tempo, o seu passado e o seu futuro. Eu sabia que árduo seria o enfrentamento do tempo que poderia, de fato, não existir naquele Castelo, mas existia no imo daqueles que possuíam a dádiva da vida, seja qual fosse sua forma de vida. Então sentei-me à beira de meu leito e vi de imediato o derredor em um branco puro; profundamente níveo — das paredes de pedra aos móveis vitorianos e à tapeçaria. À princípio pareceu-me normal, como se tudo já assim o fosse desde sempre, porém, soube pouco depois que eu ainda sonhava e, mais do que isso, eu estava em um sonho que não era apenas meu. 

Personagens neste capítulo:

Livro:

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Sonuras de Áurea Lihran: Saudade

Aborom! Larajim d’esta manhã | Desponta a quint’essência de meu ser; | O frutossangue: mélica romã | D’arbórea que m’encanta a aquiescer;…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Aborom! Larajim d’esta manhã 
Desponta a quint’essência de meu ser; 
O frutossangue: mélica romã 
D’arbórea que m’encanta a aquiescer; 

Aparta em lume doce o negr’oblívio 
Que assombra tal pupila ébria no céu 
De mórbido terror e horror sonívio… 
Abrigo em lanrinura, a noite-véu; 

Da morte d’idos ledos — falta fúnebre —  
Compr’ende o querer tanto um lhano lar? 
Ruínas, fogo-fátuo rubro e lúgubre 

Nas dunas, n’azul íris, no sonhar, 
Nos braços d’um demônio — meu ambíguo —  
Nos sais meus, lacrimais, elã exíguo 
E a frágil esperança a se abeirar. 

Palavra criada por Sara Melissa de Azevedo: Lanrinura (substantivo feminino poético): Languidez causada por uma introspecção acentuada. 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 5 — Tangíveis Ilusões

Na densa floresta verdinegra, ouvi pequenos grilos ao longínquo; o horizonte era um mistério verdejante enquanto a única luz ambiente...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Na densa floresta verdinegra, ouvi pequenos grilos ao longínquo; o horizonte era um mistério verdejante enquanto a única luz ambiente advinha da vela em minhas mãos. Seu lume era dourado-pálido, no entanto, revelava uma névoa carmim ao derredor, como se na aragem pairasse uma úmida cerração hialina que se desvelava escarlate, tão somente, pela flama. Talvez sua transparência queimasse, pois, era viva e, desfazendo-se pelo fogo, avermelhava. A frigidez orvalhada pelo que me parecia ser um profundo entardecer, no entanto, arrefecia-me a tez de modo terrífico e... eu buscava por alguém ou algo que pudesse me trazer respostas. Por vezes as árvores ramosas, com suas espessas folhagens, na cinesia do vento, ecoavam como sussurros estranhos que diziam infindáveis verdades distorcidas. Eu era uma andante sem rumo, consumida por uma inquietude intensa, uma busca inconsciente e, porventura, uma saudade. Mesmo com a beleza lôbrega do lugar, onde a flora esmeraldina em sombras horríficas a cada segundo se emaranhava impedindo-me de sair de sua imensidão, eu pressentia ser preciso permanecer ali e, de fato, o era.  

Quando parei minha peregrinação exaustiva e notei minha pele molhada sendo vítima dos ares irrigados, ciente de que minha vela apagaria a qualquer momento, ouvi um cântico agudo e lôbrego. Era como o canto de um Merulaxis stresemanni, porém, duradouro, pouco rompido, mais harmônico como uma música triste e serpenteante ao fundo, como se sua siringe expressasse o sibilar de uma cobra; a imponência do som era tanta que ecoava pelo frondoso arvoredo. A criatura era, decerto, grande; pude sentir apenas ouvindo-a; entretanto, quando o seu canto se extinguiu, senti uma presença aquecida atrás de mim e, quando me voltei para fitar a presença, era tarde demais. O calor de seu corpo cingira-me violento e senti suas mãos em minha cintura, sutis. Olhei-o de soslaio, seu rosto era como o daquela noite de lua azulescida e, dos seus olhos negros sem esclera, escorria uma lágrima negrume.  

Tu foges de mim, Áurea, mas, por quê? — Murmurara em seu tom naturalmente grave. Assombrei-me e senti toda a minha tez responder à sua voz.  

Como sabes... meu nome? — Indaguei trêmula. Ele lamuriou um singelo som intenso e lúbrico; seus braços envolveram-se em mim, mais apertados, colidindo, em profundez, os nossos corpos. Ouvi-lo me chamar de Áurea não me trouxera a repugnância símil a que senti quando Seth o pronunciara. 

Eu sei de tua essência, minha Ennehris... — Senti seus lábios em meu pescoço. — Sei também de nosso vínculo... — Lëvri acariciara meus cabelos. — Eu não matei Lorrt, Áurea... — Suas palavras esvaíram lôbregas, baixas e quentes; quis beijá-lo e amá-lo, todavia, o verdejante arvoredo sucumbia e tão logo a umidade da pele arrepiada fez-se apenas o reflexo de algures. Despertei, ainda na biblioteca, confusa e silente; sussurrando o nome de Lëvri... com uma saudade estonteante oprimindo meu coração e uma solidão sufocante afogando-me em seu oceano hediondo. Não entendi como pude adormecer, tampouco quando. Não me recordava de sentir a areia do sono infindo sob meus olhos. Quando fitei o ambiente, notei em meu colo um pequeno papel cuja escrita revelava-me: “Lembra-te de mim”, mas, era a minha letra, curvilínea como eu a conhecia. Não quis compreender, evitava a dor da lembrança.  

Desejei que Lëvri não fosse o culpado pela morte de Lorrt, por isso sonhei. E vi-me ali, só. Comecei a caminhar para além daquele aposento de livros eternos e segredos sombrios. Permanecia-me como se flutuasse na imensidão escura e silente e, às vezes, o silêncio me refugiava de minha própria existência em suas obscuras complexidades; em contrapartida, indicava-me que não havia ninguém ao redor e, portanto, o espargir da solidão, de modo suave, aflorava minhas mais terríveis angústias. Eu sabia que não estava só naquele Castelo, todavia, observei-o atentamente, enquanto vagava a esmo por entre os seus cômodos e passadiços estreitos. Mesmo notando criaturas que me eram semelhantes, humanos ou, porventura, algo mais; tudo me parecia uma ilusão mórbida, dado que a sensação de ausência me consumia, ainda assim. 

Em algum dos lugares por onde vaguei com furtividade, encontrei um diário perdido, o qual me trouxe sensações melancólicas — parecia ter sido escrito há anos, no entanto, não havia tempo em tal lôbrego lugar, e do tempo eu nada poderia esperar — apesar de senti-lo dentro de mim, vívido em seu tiquetaquear longínquo. Desejei lê-lo, não o tempo, mas o diário; decerto eu leria o tempo, se assim pudesse, compreendendo-o em sua totalidade soturna. Não podia, contudo, fazê-lo ali; era preciso um lugar que apaziguasse minha alma sôfrega, alhures que controlasse meus instintos, minha sede e, confesso, uma alcova para aprisionar os meus ímpetos lúbricos, os quais eu sabia serem parte de minha nova natureza.  

Seth permanecia em silêncio. Na verdade, eu não o sentia residir em minhas entranhas. Isso avultava a solidão; ele decerto se irritara profundamente com a minha vontade de exorcizá-lo de mim. Quis, naquele átimo, que ele compreendesse que, embora a solidão me arrastasse como uma correnteza brusca e violenta — e dela eu fugisse como um veleiro em descontrolado alto-mar — eu não suportava uma presença perene como a de Seth, que me impedia de existir tal qual o meu desejo… de reencontrar Lëvri... E, principalmente, me impedia de reencontrar minhas memórias. Eram confusas as emoções e árduos os sentires que permeavam meu ser, porque, apesar de tudo, Seth estivera presente como o guardião que fora destinado a ser. E o que alçou em minha tez quando seu olhar amargurado fitou meus lábios e seu bruto toque cingiu meu pescoço foi inexplicável; aquilo embargou os meus sentidos e soterrou meus racionais argumentos em relação a Seth — e não sei se me excitei pelo que sou em minha natureza insondável ou pelo que ele é em sua natureza insondável. O mesmo, em outros aspectos e por motivos diferentes, ocorreu quando sorvi o sangue daquele rapaz que nunca mais encontrei. O prazer sexual lumiava como uma faísca imortal e imoral, e o sangue que aquecia minha garganta fazia surgir, em minha úmida intimidade, um contínuo frenesi. Se ao menos eu me lembrasse de tudo naquele momento… quiçá me viria a compreensão de ser essa intensidade realmente minha, embora parecesse pertencer só àquela que me tornei. A dúbia vontade: renegar a dor da memória ou lembrar-me de tudo; isso era o que levava à exaustão a minha mente.  

A solidão, como o amor e o ódio, era buscada por mim quando eu não a tinha e repudiada quando suas trevas me conduziam em uma valsa horrífica. A culpa, quem carregava, era ela: a solitude, o isolamento em mim mesma que sempre me levava ao afogo dos pensamentos aflitivos. “Ennehris ou Áurea? E por que “Aesatt”? O torso da solidão é o apoio às minhas fúnebres queixas. Pode ser que seja melhor sem memória alguma” — eu pensava—  “como uma folha em branco para se pintar de acordo com o novo eu. Um recomeço. Não seria, contudo, desprezível da minha parte exterminar toda uma vida que outrora vivi? Não sei… um recomeço… sem as cruzes do passado… isso não poderia ser uma blasfêmia? — soa-me como um alívio; todavia, sei que conviver com o absentismo nunca promoverá a serenidade que idealizo ao consumar o caminho do esquecimento. Dói-me lembrar que esqueci de tudo, e há tantas perguntas que habitam meu coração… Desde meu despertar, estive envolvida por um veludo verdinegro cujo peso sobre meu corpo impediu-me de sentir alívio e paz, sufocando-me, por vezes, em seu interior esmeraldino. Como esperança, apenas as suas margens, na possibilidade de deixá-lo; enquanto, em seu cerne, a sensação de morte pela degradação da minha essência olvidada e desta nova essência sem sentido. Uma cinesia entre o desvelar do presente e o sondar do passado — confuso porque, aqui, nada disso existe; e o que existe é uma infinitesimal parte irrelevante. Falta-me conhecimento… eu assumo a minha ignorância.” 

A cada pensar, almejei compreender aquele lugar e entender a sua existência com uma avidez maior do que a que eu nutria por mim mesma; isto porque, se era preciso conhecimento, eu só poderia encontrá-lo em tal castelo-entidade, que era, decerto, um baú encorpado por segredos e verdades que valiam mais do que minha existência transiente. E despertei ali, afinal, por alguma razão. Segundo Olga, fui encontrada pelo “Espectumbral” — uma criatura fantasmagórica destinada a vagar pelos planos em busca dos “escolhidos”. Eu deveria tê-la questionado mais, Olga decerto sabia muitas coisas e me explicaria a respeito deste lugar, no entanto, eu estava imersa em minhas meras fragilidades quando a encontrei, ébria demais em minha íntima desolação. Eu estava certa de que o Castelo permitiu meu renascer; caso contrário, por que não despertei do coma antes de ser encontrada pelo espectro? Eu sentia, consequentemente, um elo abissal com aquele recôndito; parecia-me um lar para meu eu morto e para meu eu renascido. “Talvez seja o momento de encontrar um sepulcro para enterrar o que não hei de me lembrar; aquela que fui, que nunca mais serei” — pensei. “Algo simbólico, algo que possa representar, em força emblemática, uma Áurea danificada por fissuras de oblívio… e nem sei se sou Áurea... não sei quem é Áurea…” 

Os sôfregos pensares se quebraram quando, descendo uma escada em espiral, avistei uma monumental porta de madeira maciça e pesada; tive dificuldades em abri-la, mas o fiz e a ouvi rangendo como se há anos estivesse selada. Havia um grandioso espaço naquele calabouço, com incontáveis barris e garrafas de vidro acomodadas na horizontal, em altas estantes. Adentrei o recinto penumbral e sentei-me em uma das poltronas dispostas em seu centro, enquanto o aroma de frutos fermentados me envolvia. Havia apenas aquelas duas poltronas e, entre elas, uma pequena mesa com duas taças de cristal e um castiçal com três velas acesas. Mais ao fundo daquela adega antediluviana, escuridão e profundezas sombrias. Indaguei-me sobre o quão extenso poderia ser aquele lugar e, sem fechar o soberbo umbral que abri com tamanha dificuldade — com medo de aprisionar-me para sempre —, segurei o castiçal e caminhei para as entranhas da adega. Foi como mergulhar em um oceano de vinho, embriagada por suas propriedades afrodisíacas. Somente quando não pude mais enxergar aquela porta, sentei-me ao chão, abri o diário; ousei retirar uma das garrafas e abri-la. O vinho era rubi, e mesmo sob tão tênue luminosidade, pude notá-lo em cores e aromas: rubro vívido, aroma intenso de cereja, notas ferrosas e o sabor… intenso e estonteante. 

15 de junho de 1871 — Volto uma vez mais a este caderno velho e surrado. Talvez já tenha se tornado um hábito colocar, nestes diários, minhas angústias e pensamentos, e eventuais alegrias nessas páginas. Já não sei quantos escrevi; em meu escritório devo ter uns quantos armazenados na velha estante ao lado esquerdo da mesa de trabalho, junto com meus livros queridos.” — iniciei a leitura. “Já faz algum tempo que me correspondo com uma personalidade do leste da Europa. Devo ter, em minha maleta neste momento, umas três cartas e pelo menos dez telegramas. Segundo as correspondências, temos afinidades intelectuais. Algo poderoso em cada uma delas me compelia a responder, uma sensação indescritível, mas aqui tentarei traduzi-las. Devo dizer que o que senti era provocante, uma emoção que ainda agora me deixa agitado, ansioso, como se houvesse um feitiço em cada palavra…” — li, notando tratar-se de um homem, um homem humano, pois nada é tão emocional como os humanos; eu sentia e percebia isso. Em mim, tudo o que havia era, sim, intenso, porém com um vazio sepulcral inigualável. Sentia falta de ser humana, ainda que não me lembrasse disso; a certeza da minha humanidade de outrora era real. E não parecia residir tal vil condição de vazio no coração deste que escrevera, ao menos, não pude perceber nas entrelinhas.  

Não! A cada onda das letras, elas estavam me atraindo, conduzindo minha existência, e por fim, guiando minhas mãos para responder tão rápido quanto me fosse possível. Senti-me como um apaixonado respondendo a uma amante, numa carta secreta, revelando segredos obscuros. Por vezes, como uma inocente criança confessando à mãe seus feitos do dia com total ingenuidade e despretensão.” — definitivamente, era um humano. Sorvi mais do líquido rubi, e meus olhos lacrimejaram.  

Criaturas como eu, olvidadas, jamais compreenderiam o que é o confessar de uma vestal infância e, ouso dizer, muito menos o verdadeiro amor em seus obscuros segredos — proferi em um murmúrio amargurado.  

Com estranheza, o liquor em meus lábios conduzia meus olhos por aquelas linhas, era possível que estivessem vívidas a ponto de invadirem minha imaginação, reverberando uma voz fictícia que narrava as verdades daquele diário. Em certo momento, colidiam-se as letras, dúbias, entrelaçadas com a luz tenra que se difundia pelo ambiente silente. Era deleitável… o sabor que inebriava e as palavras que dançavam. “A vista era montanhosa, com pequenas cidades sombrias e tristes, nos tons de cinza, marrom e branco…” — lembro que ouvi, ouvi sim, e não li, pois era nítida aquela voz suavemente rouca, em um tom de baixo tenor, distinguindo-se em meus pensamentos como se vinda do mundo externo, era tão real que olhei ao redor por instantes, perscrutando a penumbra.  

Decidi sentar-me à poltrona que encontrei outrora. E pus o vinho sob a pequena e rústica mesa de centro. À minha frente, o assento, semelhante ao que eu estava, era como um convite insólito; aquela intensa voz e aquela afrodisíaca bebida poderiam advir de uma alucinação causada pelo diário? — eu pensava. Ou seria, como único culpado, o licor rubinegro? Antes que uma resposta pudesse encontrar minha racionalidade que já se perdia na imensidão de mim, vi uma linha… a linha de uma nívea silhueta vaporizada, instigando minhas retinas, seduzindo-as em um tenro receio fantasmagórico, trazendo-me a dúvida de ser um escárnio de luz e sombras. Todavia, quanto mais o tempo passava — embora, em sensação, ele estivesse profundamente estagnado —, as linhas formavam uma silhueta perfeita… com um semblante fidedigno e, o que deveria ascender-me o terror mais hediondo, seduziu minha ébria curiosidade.  

O que se desvelava, à minha feição enlevada, era uma sombra cujos detalhes erigiam-se à medida em que o derredor se contorcia de maneira turva e gradual; uma face viril, em perfeição visível, embora ainda translúcida, tinha em sua fronte um assombro que talvez derivasse da mesma razão que o meu encanto arrebatado, pois, seus olhos castanhos estavam direcionados ao meu rosto, fixos e incrédulos. Movimentei-me devagar, como se quaisquer sopros de cinesia pudessem levar à evasão daquilo que pensei ser um fenômeno espectral, quiçá uma memória d’um alguém ou, ainda, uma realidade multiforme, paralela à minha, uma voragem no tempo-espaço. Ainda segurando a taça, ergui minha mão direita na direção do homem cujo contorno do rosto já era tangível e os cabelos, castanhos como os seus olhos, já manifestavam uma textura mais próxima da realidade e mais distante do que era, tão somente, linhas esvanecidas.  

Em minha túrbida consciência, incontáveis pensamentos se originavam; por ínfimos instantes acreditei que, porventura, fosse algo de meu passado materializando-se, ou de meu futuro. Porque não poderia ser, eu acreditava, um fenômeno ocasional. O silêncio densificava-se tanto quanto a escuridão que entornava sobre o ar uma esverdeada sombra crepuscular; a adega frígida transfigurava-se em uma metamorfose tardia e lôbrega, ao mesmo tempo em que chamas de uma lareira olvidada, douravam as nuances trêmulas do ambiente. O gosto ferroso e amadeirado ainda exortava meu paladar. As notas de cereja fermentada eram evocadas pelas papilas e tive a impressão de sentir minhas retinas dilatarem-se. Eu tocaria aquela face e, se fosse real, então, as pontas de meus dedos sentiriam o calor, ou a frialdade, de sua bronzeada tez.  

Apoiada sobre a mesa de centro, destinada àquilo que pensei ser a melhor forma de compreender aquela estranha conjuntura, avancei um pouco mais e, quando, prestes a tocá-lo, pude ouvir sua respiração inquieta; surpreendi-me com seu brusco movimento. Levantou-se, fugaz, e a brisa de sua cinesia movimentou meus cabelos, no entanto, até aquele átimo, eu nutria uma infinitesimal certeza de que tudo era delírio e, portanto, tentar tocá-lo levar-me-ia à poltrona à frente, esvaindo-se como névoa a sua gravura. Era perceptível, pelo quanto a sua viril presença impulsionara o ar, que não se tratava de um espectro viandante. Então, cessei meus movimentos, embora tenha ficado naquela posição por um tempo até minha mente assimilar o ocorrido. Logo, eu o ouvi. Sua voz era aquela que pouco antes se espargia pelo ambiente, ou pela minha mente, eu não saberia dizer.  

Quem é você? — Dissera, irredutível e no mesmo tom rouco. Eu não pude respondê-lo, à princípio, eu estava um tanto paralisada pela surpresa de seu movimento e por toda a inebriante situação; ainda mais por ser a mesma voz que outrora imaginei… ou ouvi. Mesmo assim, meus olhos o seguiram e vi com perfeição absoluta todo o seu corpo. Quando movimentei meus lábios para respondê-lo, ouvi um estalo vindo do carvalho que eu me apoiava e não demorou para a mesa se quebrar logo após o ruído. N’um impulso, segurei, firme, o que estava à minha frente e vi meu corpo cair ao chão, embora não só, pois puxei o homem austero por seu casaco marrom e caímos, reais e tangíveis, sobre o assoalho. Não como previ, mas o senti no toque abrupto e, no instante seguinte, próxima de seu rosto, um pouco temerosa, o respondi.  

Sou Áurea… — Murmurei. Por tanto questionei o meu não pertencimento a nome nenhum e, naquele minuto, sentia-me conduzida a dizer “Áurea” para um completo estranho que me olhava, rigoroso e, decerto, hesitante. Um estranho cuja face, agora tão próxima, e o corpo, agora tão próximo, era antes um vapor dúbio e penumbral. Sobre ele, o calor em um câmbio equivalente e uma singular sensação, elevaram-me o embaraço, todavia, o turvamento pelo vinho ainda me adornava, delgado, persuadindo o insondável.  

Parece que a mesa decidiu se juntar ao caos e quebrou as pernas. — Murmurou com um sorriso tênue, tendo à fronte a feição desconcertada. — É um prazer te conhecer. — Ajustou-se e segurou-me a cintura e as mãos, para que eu me levantasse com segurança; sua força e estabilidade eram impressionantes. — Sou sargento Miahi, Anton Stefan Miahi. É um prazer. — Proferiu, denunciando a hierarquia que decerto o fazia acentuar o que me parecia ser sua austeridade natural. O silêncio nos envolvera por segundos, eu o observava atenta, tentando fazer com que os efeitos do liquor sombrio não me impedissem de firmar sua feição em minha memória.  

Você está bem? — Indagara-me enquanto recuperava-se da queda e fitava-me tal como eu fazia com ele; sei que sorvera do mesmo vinho que eu e, quiçá, por isso, estivesse mirando seus olhos em mim; no entanto, talvez buscasse incorporar os acontecimentos recentes e nada mais. Não me esqueci do mistério de sua materialização, apenas fui distraída com seu hálito que carregava o êxtase olfativo do brumal liquor e, portanto, avançava sobre mim com o mesmo poder sensual.  

Estou bem… — Murmurei um pouco mais baixo, talvez não tenha sido ouvida. — Achei que tu eras uma ilusão fantasmagórica. — Revelei, tentando deixar minha voz mais nítida e menos lânguida. Sorri em seguida, fitando sua expressão cordial.  

Contudo, algo pairava no ar. O silêncio pós-desastre que soara envolvente tanto quanto denso estivera antes de tudo acontecer, ornara o ambiente em um medonho insulamento mudo. Em certo aspecto, tudo passou a soar aterrador; quis acreditar que nos olhos de Anton residia a mesma macabra percepção, pois, o clima de apreensão erguia-se a modificar tudo entre nós, sua força era invisível. Apesar do tragicômico momento ocorrido segundos antes, apesar de trocarmos palavras de conforto em uma apresentação benigna, todo o ambiente se modificara, tremeluzindo anômalo e, ainda, distorcido; uma disformidade infinitesimal e absurdamente apavorante, com as luzes mórbidas ecoadas e translúcidas. Avultavam-se em uma lentidão intimidadora. Eu sentia. Eu via. Símeis a sonidos trépidos e agudos. Respirei fundo, em busca de um alívio daquela complexa hiperestimulação dos sentidos. Anton me olhava e sua existência transpassava uma segurança que, na instabilidade em que eu me encontrava, seria minha égide caso tudo saísse do controle. O sabor adocicado em meus lábios delatava-me que aquele líquido rubinegro poderia ser a razão da estranha sensação persecutória que despontava opaca e tétrica em meu ser.  

Anton… — Proferi com temor e sei que meus olhos se umedeceram e, pela primeira vez desde meu despertar, eu senti um medo entranhado, com uma raiz insondável. Quis indagar Anton sobre a umbra que se instalava em meu âmago, sobre aquelas sombras bizarras que penetravam os cantos da visão; ia questioná-lo, porém não pude, algo estava me sufocando. “Seth… onde estás?” — pensei. Sob o medo mais legítimo, vi-me como aquele pássaro negro detrás da clausura enferrujada e consumida pelo musgo; com o peito arfante, prestes a ser consumido por algo bem pior que a morte. 

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Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Absentir-te

Virente arbóreo e úmido arrebol | Intenso verdinegro evanescente… | O fogo à vela é o único bel sol, | Enquanto uma elegia é confidente;...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Virente arbóreo e úmido arrebol 
Intenso verdinegro evanescente… 
O fogo à vela é o único bel sol, 
Enquanto uma elegia é confidente; 

Receio qu’encontrar-te é meu conflito, 
Aos poucos, ribanceira, entr’este ardor… 
Longínquo faz… no torso o manuscrito: 
Alálicas, as juras, amargor… 

Por que me foges, Áurea?” Porque sinto. 
O horror de não saber toda a verdade… 
Teu toque, a voz, o corpo, alma-absinto… 

E toda a traiçoeira ambiguidade… 
Ó, sonho! Deixe o pélago de mim 
Jazer n’este teu íntimo verdim
Pois sofro o ímpio mal da realdade. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Lôbrego Pássaro

Virente alfombra, um manto surreal | Curvando nas estantes, relva e flor, | Abaixo d’um solar transcendental, | Um flúmen próprio rega o esplendor; ...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Virente alfombra, um manto surreal 
Curvando nas estantes, relva e flor, 
Abaixo d’um solar transcendental, 
Um flúmen próprio rega o esplendor; 

Ouvindo um canto lôbrego e sublime 
Por entre livro e arbusto, eu o encontrei, 
Um preso negripúrpuro —  ó crime! 
Com asas, sem voar… eu lhe afaguei; 

Cantava como a morte e igual a um flúmen 
Corvino, longa crista, formidável! 
Porém, nos olhos úmidos, um lúmen; 

Narrou-me: “Será que há de ser curável 
As úlceras d’um’alma encarcerada? 
Se livre, verei a vida obliterada 
Ou sonho de fortuna venerável?”... 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Lëvri

Azul luar, amor d’um vil talvez… | Eterno sussurrar-te, adocicado… | A tua natureza e profundez, | Paixão de meu desejo delicado…  

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Azul luar, amor d’um vil talvez… 
Eterno sussurrar-te, adocicado… 
A tua natureza e profundez, 
Paixão de meu desejo delicado…  

Detrás d’estranha máscara senti,  
Envolto a mil segredos, segurava 
Buquê de níveas flores, assenti 
A dança carmesim que me aguardava; 

Após minha loucura angustiante: 
Um vínculo febril, um deflorar 
Vultoso em seu valor, e mais: errante! 

Verdades desvelara sobre o amar 
Que súbito se instaura livremente 
Até o lembrar da rosa, sutilmente, 
Fazendo um vil segredo me afastar. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 4: Medos e Fraquezas

O céu era de uma profunda escuridão estrelada. Eu estava próxima de um arvoredo denso cujo negrume das copas, banhadas pelo caráter do infinito acima…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O céu era de uma profunda escuridão estrelada. Eu estava próxima de um arvoredo denso cujo negrume das copas, banhadas pelo caráter do infinito acima, se condensavam em sombras oscilantes. Eu parecia só, embora uma presença se manifestasse próxima, como se contemplasse cada um de meus movimentos. Eu colhia flores de um azul límpido e fosco que envolvia, em arbustos pequenos, os arredores daquela floresta. Ao meu lado, e carregado por mim conforme eu caminhava para um pouco mais adentro da balça ou para os lados onde mais flores assomavam, um cântaro. Eu estilava as flores dentro do cântaro com água límpida, uma infusão lenta e à frio. Aos poucos, a água que era mesmo hialina, azulescia e ganhava um sabor cítrico adocicado e uma textura encorpada. Embora eu estivesse feliz com as flores colhidas, eu sabia e tinha uma certeza inenarrável de que, mais à fundo naquele balcedo, eu encontraria as melhores flores para a infusão. Era perigoso, no entanto, seria de fato um deleite encontrá-las, pois, através daquela memória, parecia-me se tratar de uma data especial e, por esta razão, eu preparava a bebida. 

Escrever a lembrança não transfere a dor mórbida que atravessara meu cerne mais uma vez. Segurei meu coração pelo toque no tórax, arrastei-me à porta do cômodo para abri-la; meu corpo frêmito suava e a morte parecia envolver a minha alma. Um pânico tétrico conduzia minha visão que se escureciam aos poucos em razão da algia horrenda. Cai sobre o assoalho em um corredor e apenas gritei por socorro, pois, àquele instante, a dor perdurava diferente de outrora, aguda estalando em cada órgão de meu corpo e mais, aturdindo minha mente e mortificando-a. A cada nova lembrança a dor parecia ascender e eu não suportava mais. Fui segurada rapidamente por aquelas pessoas que me receberam com afável conduta, ouvi suas vozes longínquas, como se estivessem no horizonte eterno. “Virëhs nohlom, nohlom virëhs! Nill’aeme! Nill’aeme!” — Ouvi, diversas vezes. Fui levada para fora da casa e uma fogueira pálida fora acendida, a flama crepitante luzia e aquecia meu corpo enquanto a dor perdurava. Envolveram-no em um manto e deram-me um liquor amargo para sorver; tinha notas de cacau e fundo férreo com aroma silvestre. Como um entardecer sereno, a agonia torturante esmoreceu gradativamente conforme sorvia do liquor. Muitos dos residentes quais me recepcionaram desde o início naquela vila, ficaram em volta da fogueira e olhavam-me atentos. 

Te sentes melhor? — Dissera a mesma voz feminina, era ela a que me acomodara naquele aposento. Movimentei-me a cabeça para concordar com sua indagação, falar era-me árduo demais. — Algo insalubre deleita-se sinistro em tua alma, jovem... — Senti seu toque em meu rosto. — Estás febril... — Ela olhou para um dos outros. — Somme Glizullahs aelim. — Proferiu a ele, aquilo o fizera levantar-se rapidamente e adentrar uma das casas próximas; parecia ter sido ordenado a fazer alguma coisa. Assim, portanto, o silêncio abrandou a todos e a mim; ouvia grilos pela floresta ao redor da vila e outras criaturas cujos sibilos eu não saberia identificar. Alguns dos cidadãos, mais aliviados, assaram alguns frutos à chama tórrida enquanto conversavam entre si naquele idioma pulcro. Quando o horror cessara de fato, aquele que fora embora a mando da mulher retornou com uma cumbuca contendo algum tipo de alimento. — Coma. — Ela dissera. Olhei para aquilo e vi que se tratava das mesmas bagas dadas por Seth, as quais recusei; estavam submersas em um líquido vermelho vivo e acompanhadas por folhas semelhantes ao louro. Degustei sem receios. Era uma iguaria de sangue frutado, agridoce, com uma leveza picante. 

O que é este lugar? — Murmurei, todos me ouviram e silenciaram. 

Estás em Séttimor, querida minha; uma vila construída com afabilidade e honra. 

Somos os séttimôros! — Afirmou alegre uma das crianças próximas, parecia não conviver tanto com o meu idioma, mas o compreendia em certo nível. 

Sou Liliana. — Ela tinha parte do rosto ausente, como se nunca tivesse existido. Seu olho direito, no entanto, reluzia vítreo e seus longos cabelos brancos eram finos, esvoaçantes e ondulados. Impressionei-me com suas vestes, tecidos costurados entre si, em tons prateados. Pormenores quais só pude observar naquele momento. Todas as meninas e mulheres se vestiam de maneira semelhante; os homens e meninos possuíam tecidos menos prateados e com nuances em carmim escuro. Também usavam cortes diferentes, mais leves que os femininos. As roupas indicavam parte crucial da cultura da Vila, eu acreditava assim; eles se complementavam, davam-me essa certeza tão somente ela forma como se comportavam. 

Obrigada por tão gentil acolhimento, Liliana. Receio não poder apresentar-me com meu nome, pois, perdi minhas memórias e não me reconheço mais naquela que fui... porventura nem mesmo nesta que sou... — Liliana sorriu, ternamente, tocou-me as mãos aquecidas. 

Deve ser, então, o exato momento de resignificar-se a si mesma, minha querida. — Ela disse e suas palavras, desde então, colidem em minha consciência.  

Posso ficar aqui? — Pedi com a voz embargada. Liliana expressava uma mansidão magistral. 

Adoraríamos que pudesses ficar, no entanto, tu sucumbirias ao Paradoxo da Atemporalidade em, pelo menos, algumas noites. — Explicara. — Sei que pode parecer confuso, no entanto, desde que o primeiro séttimôro encontrou os arredores do Castelo Drácula e de lá, do Castelo, foi expulso; temos lidado e aprendido com o Paradoxo que existe pela ausência de tempo e de espaço. 

Percebo haver algo estranho, de fato, com o tempo deste lugar e em como tudo acontece rápido em demasia ou tão vagarosamente quanto a eternidade... 

Sim. Dentro do Castelo, querida, a Magia de Olga Nivïttz protege seus residentes do Paradoxo, no entanto, aqui fora... — Liliana respirou fundo, parecia pensativa. — Aqui não há proteção. — Doeu-me ouvi-la amargurada. 

Olga pareceu-me tão cortês. Por que ela os expulsa do Castelo? Deixando-vos ao léu dos perigos insalubres? 

Ela decerto tem suas razões, querida virëhs. Sabemos que somos diferentes dela e de todos os residentes do Castelo, algo sobre nós deve estar guardado nos arcanos da Magista e de seu fiel Conde. — Pensei, silente, sobre as informações compartilhadas. — Não se martirize. Agradecemos por viver em Séttimor. Criamos nossa verdade, nossos rituais, nossa existência; nada disso aconteceria se estivéssemos no Castelo. 

Olhei ao redor; aquelas pessoas com rostos vazios e, por vezes, fumegantes como se exalassem a névoa que envolve toda a Séttimor. Elas pareciam bem. Guiadas por uma fé resoluta e uma paixão pela existência; eram criaturas únicas, com ensinamentos insondáveis. Por instantes considerei morrer pelo Paradoxo em nome da sensação agradável e sombria de pertencer à Séttimor. 

Tu precisas partir. — Ouvi. A voz era masculina, vinha de um séttimôro que se aproximara de nós. Ele tinha apenas os lábios em seu rosto, e escuridão mórbida. Esvaía de seus poros a névoa cinérea; o fumegar era fúnebre. — O Nevoeiro Ramoso está se densificando e pode prender-te em Séttimor por longas noites. — Ouvi e voltei-me ao olho vítreo de Liliana. 

O Castelo é um claustro sem fim, abismal e vazio; suas entranhas ludibriam, iludem os sentidos, atormentam a alma... — Confessei em lamúria. 

Tens muito a viver e desvelar no afligir das paredes de pedra do Castelo. Não temas, tens a força para enfrentar o que quer que cruze o teu caminho. — Expressara Liliana, com intensa cordialidade. 

Temos recebido muito visitantes nos últimos dias, parece-me que uma transição percorre aquele lugar. — Expôs o homem. 

É verdade... Lëvri fora o último, antes de ti. — Senti minha garganta fechar ao ouvir aquele nome — Buscava por alguém, por isso nos encontrou.  

Lëvri? — Indaguei com a voz falha. 

Sim, tu o conheces? Buscava por Ennehris, vociferara pelo nevoeiro o nome dela, ouvimos daqui; até que o encontramos, estava exausto pelo que o Paradoxo causa, a desorientação, a vertigem. Tentara dizer detalhes sobre a moça, sua aparência e roupas que usava, no entanto, sufocara-se em demasia no nevoeiro e foi levado por Szënin até o Castelo. 

Sim, eu o levei. E creio que devo levar-te também. — Disse o homem. Szënin. Eu estava, intimamente, perturbada. Saber de Lëvri... saber que ele me procurava fez minhas emoções irromperem em um declínio amargo e solitário; apenas dentro de mim, uma sensação que corrompia, uma saudade que me atristava. “Gostas... minha Ennehris... que eu faça... devagar?” — Lembrei. Descansei minhas pálpebras, ocultando meus olhos por segundos infinitesimais. Revivi o seu toque, seu afundar-se em meu oceano íntimo; seus lábios, sua voz... e a extensão da sua natureza, o ímpeto, a voracidade da sua sede... o cuidado comigo, terno e caloroso. Lëvri... com a Rosaemori tatuada em suas costas. Meu corpo respondeu à lembrança, senti-me tórrida e lânguida; e olhei de novo para a flama da fogueira. 

Seus olhos... avermelharam-se como mágicos quartzos! Nunca vi algo assim! — Ouvi de Liliana que expressava em sua fronte um assombro e um encantamento. Todos ali sussurraram ininteligíveis palavras, espantados como Liliana. Levantei-me, retirando a manta de meu dorso. 

Devo ir... e vou só. Agradeço o cuidado, Liliana. E agradeço o alerta, Szënin. Reconheço toda a recepção que tive em Séttimor; não me olvidarei de vós. 

Não olvidaremos de ti, querida. — Liliana levantou-se, abraçando-me cautelosa. Ela tinha um aroma de Lycoris radiate. Algumas das crianças expressavam tristeza; todos pareciam apreciar visitantes como eu. Almejei morrer em Séttimor, no entanto... Lëvri... eu precisava vê-lo outra vez e se a morte era inevitável, então que ela me coroasse com a sua presença excelsa quando, pelas mãos de Lëvri, eu me embebedasse do fluído bruto da Rosaemori. 

Encarei, então, a nívea e silente névoa; vi Liliana cada vez mais longe, erguendo-me sua mão em um gesto de adeus. E vi todas aquelas pessoas com seus rostos vazios, tomados por um tipo de abandono, sensação que permeava meu coração igualmente. Caminhei cada vez mais à fundo na palidez e, em seu interior, eu vi estranhos ramos brancos e secos que se espalhavam ao derredor e se movimentavam como se vivos, respirando. “O nevoeiro não é apenas um fenômeno natural, senhorita. Esteja atenta. Ele conduz a sua mente e corpo, ele evoca o horror da sua própria alma. Não pare, siga sempre adiante, mesmo se ouvir uma voz familiar. Siga sempre adiante.” — Essas foram as palavras de Szënin e embora sua expressão fosse menos afável que a de Liliana, ele igualmente se preocupava comigo. Mantive suas recomendações em minha consciência e jurei que veria Seth personificado, no entanto, ele estava ausente; sua voz abissal não penetrava meus pensamentos desde nosso desentendimento. Esperei-o, portanto, para me defender daquela sinistra palidez; nada acontecera. Os males narrados por Szënin pareciam, naquele ínterim, uma lenda e nada mais. Contudo, em meu peito, uma solidão mórbida enraizava-se. 

Os ramos brancos aparentavam, cada vez mais, como árvores e, em seus galhos eu via cordas negras. Andei sem parar, todavia, a névoa tocava minha tez e, por meio dela, parecia alcançar a minha alma; fui imersa, sem que eu pudesse me resguardar, na solidão obscura, enquanto todas as cordas negras cingiam-me o pescoço, chamavam-me sem um único som. Se há ninguém neste antro, se estarei na eternidade isolada; por que viver? — eu pensava, uma conclusão que não parecia vir de mim mesma. Um bálsamo de infelicidade e melancolia, esmorecimento insistente; a certeza do perpétuo exílio no intermúndio de minha essência desfigurada por tantos acontecimentos e mistérios. Desejei envolver aquelas cordas em meu pescoço e cair no abismo que tanto harmonizava-se com o meu imo. Avancei sobre todos os ramosos esquálidos e inclinei-me sobre seus vértices almejando rasgar minha tez e sangrar até a morte; por átimos ponderei sobre a vida detrás do fim, se eu encontraria Lorrt e se, lembrando-me de tudo, por fim, o amaria de novo. Arrancaria do peito o que dói, destruiria minha maldição que, mesmo maldita, não se manifestava ali — abandonara-me igualmente, eu sentia, tal como a vida e tudo o que eu mesma sou. 

“Estou aqui” — ouvi, não era uma voz humana; não se tratava do abismo de Seth. Senti o tênue dilatar de minhas pupilas e foi naquele único momento que cessei meus passos. As palavras constituíam-se de um tipo de sibilar, um sonido etéreo e melódico. “Quem és?” — questionei sob um encantamento que quebrantara todos os meus mais tetros horrores. Quando fitei as cercanias em busca da origem daquele som, notei as paredes de pedra, o Castelo Drácula estava logo à frente e a névoa já dissipava. Senti que estava, de novo, como dona dos meus pensamentos e aquela mórbida angústia passara como o dia passa e a noite se achega trazendo quietude. Respirei fundo e adentrei, mais uma vez, aos umbrais daquele lugar. Um remanso em meu ser, uma certeza estranha de que aquilo que proferira as palavras de presença, é a chave para o sossego da minha conturbada existência, no entanto, naquele átimo frágil, eu estava apenas cingida pelo silêncio absoluto; e a poeira rarefeita, as luzes trêmulas e a solidão perpétua. 

Vaguei pelos claustros e cômodos, guiando-me pelo que já conhecida daquele lugar. Indaguei-me se aquele rapaz, sorvido pelos meus lábios... aquele cujo sangue vertera inocente... estaria vivo. Compreendi a necessidade de encontrar Lëvri outra vez e confessei ao próprio âmago dorido que a esperança de revê-lo era intensa e pulsante, porém, não com Seth. Embora Seth estivesse ausente. Era-me estranho não tê-lo sussurrando em meu crânio; despida da tua incorpórea maldição. Assim que encontrei o meu aposento, percebi que a solidão se estendia por todo o cômodo, densificando o ar. Era noite e as estrelas lá fora reluziam longínquas. Retirei as vestes pálidas e, nua, caminhei à banheira de marfim. Imersa na mais límpida água cujos sais adicionados aromantavam como flores em um campo veranil, relembrei tudo o que se tornara memória àquele ínterim. Eu odiava estar só, percebi; um ódio que conduzia minha angústia e transfigurava-a em profundo poço insalubre. Ao menos o banho revigorara minhas energias e vesti-me para poupar a pele da frígida noite, mas, eu não pude permanecer naquela alcova lânguida. Retomei a caminhada pelos passadiços e aposentos até encontrar o mais belo lugar naquela mórbida residência: a biblioteca. 

Embora o meu intuito estivesse enraizado em meu corpo, evitei pensar diretamente a respeito, pois, decerto Seth não teria esvaído como se nunca tivesse se envolvido, de alguma forma, com Lahgura e, portanto, comigo. As portas abriram-se rangendo e vi, logo à frente, um quadro de um homem. Parecia-me familiar. Aproximei-me com a sutileza de um felino e vislumbrei a tinta à óleo e os traços marcantes daquela face masculina. Possuía cabelos grisalhos, como a barda; tinha belos olhos azuis e uma postura imponente. Desejei querer me recordar, no entanto, estando tão só, tive medo da dor. Então caminhei pelos corredores mais escuros, onde livros mais empoeirados e pesados jaziam sôfregos e silentes. Li dezenas de títulos, acreditei no abismo da minha esperança de que, decerto, eu encontraria um livro, apenas um, dotado do conhecimento preciso para destruir a minha maldição — seja o que fosse preciso sacrificar em nome da magia mais oculta e perigosa. Foi então que eu o senti; sua mão gélida em meu pescoço, virando-me contra ele na penumbra sombria. Minha tez fez-se uma voragem de arrepios súbitos e quando vi seus olhos azuis brilhando na escuridão, eu temi; o medo mais pulcro da minha alma. 

Hum... — Ele gemeu. Segurei seus braços na tentativa de fazê-lo parar de me sufocar, embora um pouco de ar conseguisse fissuras para encontrar meus pulmões oprimidos. — Confesse, minha bela Aesatt, que sei as faces da tua judas-pretensão. Protejo-te nas trevas quais sou rei e morro co’a tua afável gratidão… — Sussurrou, irônico. 

Seth... — Tentei falar, no entanto, a voz espargia fraca. Ele trouxe meu corpo para perto dele, ainda segurando meu pescoço; seu semblante de ódio estava próximo e sua feição segredava rancor, eu pude sentir. Então, devagar, sua mão tornou-se menos agressiva e seu olhar fitara meus lábios. 

Exorcizar-me... que plano fascinante... — Ouvi-o com sua voz símil aos oceanos mais profundos. Sua mão deslizara para minha nuca e fez oscilar minha estrutura. — Ah... se eu pudesse... — Murmurou, ainda encarando meus lábios e estando, pois, com todo o seu corpo justo ao meu.  

O que? — Ousei questioná-lo em sussurro e vi seu sorriso nascer como o cume de uma adaga no dorso, atravessada. 

Curiosa... — Sua mão reteve meus cabelos, puxando-os para baixo; com o impacto, meu queixo se ergueu e eu ouvi a risada de Seth; sombria como ele. Logo depois, a mesma feição de rancor, ainda mais intensa. E ele me olhou por algum tempo, em silêncio. Suas mãos deslizaram mais uma vez, uma ao torso, outra à cintura; e senti seu hálito até, por fim, a névoa negra da sua ausência abrupta. O exílio em seu eterno retorno — talvez a minha verdadeira calamidade. Meu corpo, trêmulo; meu desejo, atiçado — e nada além, nada mais. Apenas a mudez do ambiente crepuscular. Suspirei... e sentei-me à poltrona mais próxima. Odiei-me por desejá-lo e por, vítima da minha compulsão por um significado fora da minha genuína aflição, não conseguir suportar mais uma dose de soledade. Uma dose era suficiente para me embriagar. 

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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Sonuras de Áurea Lihran: Fragmentada

Estás n’est’alma lôbrega tão minha, | Resides ou, quiçá, no corpo meu? | Silente agora, vens cruzar a linha | Que tênue marca em mim o sangue teu? 

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Estás n’est’alma lôbrega tão minha, 
Resides ou, quiçá, no corpo meu? 
Silente agora, vens cruzar a linha 
Que tênue marca em mim o sangue teu? 

Sondando n’estes livros, no ancestral, 
Quaisquer dos mais vis ritos, pois confesso 
Que estar em fragmentos e imortal 
É mórbido p’ra mim… horror excesso! 

Escreva, minha bela Aesatt, que sei 
As faces da tua judas-pretensão; 
Protejo-te nas trevas quais sou rei 

E morro co’a tua afável gratidão…” 
Irônica a tua voz grave a verter, 
Escuto e então silente faz-se ser 
Por noites… Seth… volta, maldição! 

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 3: A Natureza do Ser

Lancei-me contra as sombras do corredor, apressei cada um de meus passos enquanto minha mente atordoada se alimentava de sua própria angústia…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Lancei-me contra as sombras do corredor, apressei cada um de meus passos enquanto minha mente atordoada se alimentava de sua própria angústia. Covarde. Vi o lume lunar se extinguindo e o silêncio se aguçando como o adentrar no fundo de um oceano mortal. É assim que farás justiça em nome de teu único amor? De algum modo inexato, tracei o caminho ao meu aposento, embora o Castelo parecesse um labirinto. A aragem soprava uma mórbida invernagem e conduzia, com sua extensão bizarra, todo o meu terror. Quanta tolice. Atravessei os umbrais semiabertos, e vi, como outrora, o meu leito. As sete vozes do abismo permaneciam, enquanto meu coração era um frenético pêndulo. Volte e acabe com isso! Em alguma instância, as lágrimas passaram a liderar minhas emoções. “Silêncio! Silêncio!” — Bradei, em busca de serenidade. Ele é mais forte, ele vai te encontrar. Eram límpidas e douradas, pois vertiam e desciam pelo meu rosto, a nascente de meus olhos, contornando meu queixo e morrendo na curva de meus seios. Então vi a cor. E vi que também ruíam coralinas. A morte dele seria um alívio. Vesti-me em busca de aquecimento e considerei cavar o túmulo de minha solidão perpétua. Todavia, eu não partiria antes de reter a minha missiva, decerto que possuiria valiosas verdades acerca de meu passado. “Lëvri… por quê?” — Pensei, ele não saía de minha mente. Traidor facínora, esqueça-o! Não havia escolha, era preciso encontrar Drácula. 

Amável Áurea, teu semblante plácito incita minha esperança, aquém da morte encarnada, corroendo minha existência. Não conto com a tua lembrança, porque sei que Pherhesí, se mal manipulada tal como fora, poderá resultar em angústias de inominável poder. Perdoe-me, minha dócil, perdoa este que amou a tua humanidade e tirou-a de ti sem considerar as consequências. Não sei no que te transformaste... e anseio, com tudo o que há de mais humano em meu cerne, que sejas uma nova Illitan e que possas recomeçar a nossa raça em nome de quem sou, aquele que te amou e há de amar-te além-vida. Não anelo, sob o estado em que me encontro, considerar o pior. Áurea, amante minha, dulcífera criatura; encontre a quem amar e, se fores Illitan, dê à luz. Se não o fores, te recordes do último Illitan, honre meu nome à posteridade, de alguma forma. 

Sinto a morte em minhas entranhas, ela é lenta e profunda; como um invadir de raízes dentre as minhas veias, alimentando-se do poder que me faz ser quem eu sou. Quão amargo não mais dar-te um primogênito; tampouco a pequena cabana aos pés da neve, com o oceano mórbido ao horizonte. Eu sinto muito. Ao despertares, não te aproximes desta belíssima flor que vês em meu peito, reluzente em carmim, com pétalas abertas como um lírio e outras semifechadas como as rosas mais sublimes, não toque nas raízes âmbar, tenha cuidado com os espinhos. Um toque bastará para que o veneno lhe adoeça à morte sôfrega. Fuja, Áurea minha, e agora que não mais lhe posso privar do hediondo saber, tenha cautela... e não pise, em hipótese alguma, seja o que for ou quem for que te guie, no império de Krvier, tampouco pelas terras de Vonssihren; vá para as Ruínas e em algum lugar de lá, crie seu próprio reinado. 

A carta terminava com palavras ininteligíveis enquanto minha astenia súbita se alastrara por todo o meu corpo. Lorrt morrera, decerto, enquanto redigia; sua dor parecia atravessar meus ossos e o papel em minhas mãos tinha aroma de sangue. Quando a li, fui soterrada por uma tortura pontiaguda no coração, agulhas abruptas no âmago meu, entre lágrimas e temor — era insuportável. Prostrei-me, de joelhos, na alfombra de algodão sob meus pés e desejei a morte para ser digna do descanso eterno, sem as vozes abíssicas, sem a dor da lembrança, sem tudo o que parecia compor minha desgraça. Naquele recôndito, nenhuma luz lunar reluzia nas janelas; a noite, na verdade, parecia-me outra e essa confusa sensação temporal, atordoava-me. Só pude retomar minha sanidade, quando o mal que me doía destilou-se e o vi em névoa cinérea pelo lado de fora do Castelo, através dos vitrais semiabertos. 

Illitan era a raça vampírica de Lorrt e seu falecimento acontecera durante, ou talvez depois, do ritual de transmutação vampírica — o qual me fez o que sou. Os Ohrmons, decerto, foram os que o mataram, como na visão que tive, vampiros da raça inimiga, com seus olhos negros sem esclera; eu jazia inconsciente em meu leito naquela noite ao lado de Lorrt, no entanto, não em completude, pois a dor mórbida que tomara meu corpo advinha da lembrança do momento em que os Ohrmons invadiram o local e vi Lorrt matar um por um até ser infectado pela Rosaemori no movimento último de um dos inimigos. O amor acima de sua própria vida. Ainda não compreendo a totalidade do que é a Rosaemori e o porquê ela existe, mas sei que um dos Ohrmons possuía uma adaga dourada imersa em seu veneno, ele a fincou, por fim, em meu único amor. Parte da revelação da carta fora dada a mim por meio de Lahgura, tudo fazia sentido. Quiçá, portanto, ali naquele Castelo misterioso, residisse a última vampira da raça Illitan — assim o compreendi. Notei, pela missiva de Lorrt, o quanto isso tinha valor para ele; lutou até o fim para não extinguir a sua raça e pensou nisso até o último instante de sua trágica morte, encorajando-me a procriar para dar à luz a novos vampiros de sua estirpe. O amor abaixo do curioso egoísmo de promover o próprio legado?  

Embora eu lembrasse, por fim, de nosso vínculo, de seu heroico cuidado sobre meu corpo inerte naquele leito e de toda a sua nobreza; nada confortava meu espírito. Quando tive em mãos o papel, observei-o com longa demora, hesitei em lê-lo, pois, este desconforto enraizara-se desde que deixei Lëvri e fui guiada pelo cântico sombrio. “É parte de quem tu és, Ennehris; não temas a tua história” dissera Olga Nivïttiz. Fora ela quem me encontrara à esmo pelo Castelo, em busca de Drácula; sua feição era bela, como uma impactante mulher; tinha olhos de um azul pálido e era plácida como as nuvens de verão, carregava a carta em suas mãos enquanto andejava à minha procura — embora eu tenha pressentido o saber dela acerca do local em que eu estava naquele momento; a mulher que emanava algo obscuro e oculto — o que desejei não saber a respeito — tinha um tipo visível de elo com cada parede de pedra a nos cingir; cada vela e candelabro; cada escuro canto; ela parecia dominar as sombras e as luzes, e o fremir do silêncio. Seu sorriso singelo, ao fitar-me sob intranquilidade, aqueceu-me um pouco, na frialdade do meu amargor. Apresentou-se, formal e afável. Não a interroguei sobre o local, meu desgosto e confusão mental em razão daquelas mórbidas vozes deturpavam minha racionalidade e impediam-me de tomar as decisões mais corretas. Porém, tive a calmaria de ser convidada por Olga a recorrer ao seu aposento caso eu precisasse de quaisquer favores e esclarecimentos, assim, em razão do convite, não me senti na obrigação de prolongar, naquele átimo, a nossa conversa. 

Todavia, quando a dor cessou e a solitude beijou novamente os meus lábios; uma das mórbidas vozes, única e mais grave, em meu sepulcro mental, antevira um instinto obsceno que eu jamais vivenciei; ecoou em meu crânio enquanto minha visão se encarnava. Sangue... Sangue... Sangue... Tudo, as tapeçarias, as pedras, o mobiliário do aposento; tudo era puro e negrume rubi, a cor mais vermelha e sanguinolenta que um dia imaginei existir. Senti-me sufocada, com todos os sentidos atormentados e, com uma sobrenatural rapidez, uma célere e monstruosa cinesia, tracei os claustros e passagens do Castelo Drácula, abandonando a carta que, até o momento que decidi abri-la, não a havia soltado. Aos meus ouvidos conduzia-se, tão somente, minha respiração afoita, meu coração pulsante frenético e o silêncio sombrio da minha sede. Temi a morte, no ápice da agonia. Então, n’uma caça qual nem eu mesma compreendia, avistei um homem adentrar um cômodo há pouco mais de dois metros de mim. Segui-o lentamente e vi-me transfigurada em sombras que tomavam cada canto daquele aposento, conduzindo o olhar do rapaz a um semblante de insegurança. 

Não é uma dádiva a memória daquele momento, confesso que desejava esquecê-lo de modo integral, pois, a agressividade do que me conduzia e a visão encarnada trouxera-me uma estranheza medonha, um horror íntimo que só pude notar no fim, quando se dissipou. Até lá, no entanto, eu era apenas um títere escoltado pelas mãos do instinto daquilo que me tornei, refém do meu próprio poder. Uma vampira... obcecada pela seiva acerejada... doce liquor da vida humana. Consegui obscurecer todo o ambiente e ainda não era vista pelo jovem que estava cada vez mais amedrontado, embora sua feição não transmitisse horror em si, mas sim um encanto imerso em medo e angústia. Eu vislumbrava-o, cada artéria de seu corpo, cada veia; sua pele parecia translúcida e seu coração estava tão convulso quanto o meu, eu o sentia. Da névoa negra dissipando, fiz meus olhos serem vistos e, depois, meu corpo. Não sei como eu estava, contudo, através daqueles olhos por detrás dos óculos de grau, aquele rapaz avistava uma mulher sedenta e desta maneira, ébria e ávida, aproximei-me de seu corpo humano, ele não se afastava de mim, estava sendo conduzido por algo meu que eu mesma desconhecia. De perto pude ver um brilho pulcro em suas retinas, e as pupilas dilatadas e trêmulas, em estado de transe. 

Então toquei-lhe o rosto empalidecido, descendo minha mão pelo seu pescoço viril enquanto fitava seu sangue ardente, quase fulgurante ao meu olhar, esplendoroso e acelerado. Aquele homem exalava vida, um tipo de vida que eu não tinha mais. Sei que o sorri naquele momento, porque mesmo dominada pelo inferno da minha condição, eu ainda era eu. Segurei sua cintura, lentamente; e próxima, por fim, de seu pescoço, finquei-lhe meus dentes que afundaram em sua carne sem dificuldade; o tórrido líquido entornou-se pelos meus lábios, inundando minha garganta gélida. Sorvi de seu éter com uma morosidade diabólica... embriagava-me em exultação perniciosa... e senti a estrutura física de meu mártir vibrar, ele gemia, lamúrias baixas, murmúrios de pavor e deleite. O licor vital escorria, traçando curvas pelo meu queixo e pelo corpo de minha vítima, manchando sua camisa branca, eternamente assinalada por minha atrocidade. Pouco a pouco a visão carmim se extinguia e eu voltava à sanidade, o suficiente para parar o meu ato e olhar para o corpo pálido daquele rapaz inocente. Seus olhos se fecharam devagar, eu não o havia matado, no entanto, retirei de seu corpo parte de sua vida, o qual carregarei para sempre em mim, mesmo que de modo tão simbólico. Deitei-o desacordado na cama, beijei-lhe o rosto frígido. “Eu sinto muito...” — sussurrei e olhei-o mais uma vez para, por fim, fugir. E fugi para o mais longe que pude, sem saber o que me esperava fora daquele lúgubre templo de morte. Corri na mesma urgência de outrora, quando dominada por minha bestialidade, e vi as torres altas do Castelo transmutarem-se, pouco a pouco, a um horizonte de névoa erma. 

A cinérea bruma era densa, turvava-me o senso de direção. Caminhando com cautela, perscrutei o silêncio e a palidez anuviada, uma cerração quase tangível que, de forma sutil, pressionava minha alma, oprimia meu espírito, imergia-me na insólita sensação de dissipação existencial. Com delicadeza e, sobretudo, lentidão; a névoa parecia desgastar minha pele, mesmo não havendo nenhuma mudança visível; da mesma forma, conforme meu caminhar se prolongava sob a tortura daquele fenômeno, ouvindo corvos no horizonte, fui submetida a uma queimação, como o fumegar de meus órgãos e um fervilhar de minha seiva, embora o crocitar doasse-me tenra esperança por existir, naquela vastidão nuviosa, algum tipo de vida além da minha. Ainda assim, era um cruel suplício onde meu único alívio advinha do absoluto silêncio das sete vozes do abismo. Não sei, contudo, por quanto me inundaria de paz aquele vazio, pois um sonido fantasmagórico preencheu a falta de minha maldição e parecia-me sussurrar o inaudível, símil à chuva e à respiração ecoante, no longínquo e, ao mesmo tempo, ao meu lado. Um medo aterrador ascendeu meu pânico à uma fobia de toda aquela ausência de visão, contornada pela névoa, minha respiração tornou-se ofegante e comecei a correr outra vez até ver tudo lentificado, como dezenas de espectros no meu olhar, embaçado e tardio, completamente turvo e confuso. Assim caí de joelhos no que me parecia restos de uma densa floresta, com flores e folhas secas. Busquei pelo ar, mais e mais, toquei meu torso, como que para segurar meu coração que, estranhamente, parecia parar, embora continuasse pulsando. 

Quando ouvi passos, temi em maior aterramento e olhei na direção do som. Mais passos. Por todas as direções. Mais e mais passos. Ofegante, estremeci em um horror conturbado, mas não havia força alguma em meu corpo, não havia como esgueirar-me dessa vez. Pensei em toda a culpa que carregava e supus ser o meu carma por sorver, sem permissão, daquele sangue. Então fui pega por criaturas com faces sombrias, pareciam humanos, pareciam pessoas com feições distorcidas. Demorou para que eu pudesse vê-los de fato, pois, toda a minha visão tornara-se palidez pura, enquanto eu me conduzia apenas pelos sussurros da névoa. Como fluíam as coisas... há pouco devorando uma frágil criatura humana, sendo apinhada de energia e poder sobrenatural, tendo em meus olhos encarnados o luzir da glória, o sabor quente do sangue nos lábios e, logo depois, ser a presa da densa névoa, uma vítima da natureza insondável daquele lugar. Não havia quaisquer possibilidades diante do que eu sentia, em meu peito havia, decerto, um relógio e, naquele instante, não só estava em perpétua paralisia, como duplicava-se e distorcia-se adulterado e violento — e triste, lúgubre, toldado de sua própria existência. 

Quando restaurei meu precípuo sentido, enxerguei incontáveis casas em uma longa estrada de pedra. E vi mais daquelas pessoas com rostos estranhos, elas atentamente curiosas ao meu respeito, traziam consigo itens, dentre eles mantas, cálices de frutas. E notei casas com luzes trêmulas, das velas em castiçais de prata. Fui carregada a um dos lares, sendo posta em uma cama com frondosas cobertas cujo tecido assemelhava-se a um veludo estufado como um pedaço de algodão puro, conduzia um calor próprio; muitas as vestes daquele povo assemelhavam-se a este tecido, intrigava-me, porém, seus semblantes deformados e toda a sensação que transmitiam: pacificidade, solidão; um laço que os envolvia, a cada um deles. Os que me carregaram, prostraram-se diante meu corpo deitado, colocando artefatos e frutos trazidos pelos demais — alguns eram jovens, lembro-me de ver uma pequena criança carregando um frasco em suas delgadas mãozinhas. 

Trhe eroen virëhs! Eroen, eroen riamn! — Dissera o mais próximo de mim, pude confirmar a grafia de suas palavras a posteriori. Todos se retiraram do quarto e, daquele que permanecera, senti suas mãos tocarem minha fronte. — Ficarás bem, descansa-te. — Sussurrara, era uma voz feminina e o toque feminil fora tórrido e esmerado. Vi-a deixar o aposento, acendendo algumas velas apagadas pelo movimento fora do comum e fechando a porta em seguida. Som algum ressoou-se no perpassar dos instantes, inclusive deduzi que dormiam, quando os ouvi, ao que parecia, beijar seus rostos, eram como uma família, e repetiam a frase: “Nouen ehelun”, silenciando, todos eles, no suceder, quando lá fora, no nevoeiro, a noite se achegava — via pela fenestra diagonal do meu atual recanto. Assim que pude retomar a sanidade, sentei-me no leito e bebi da frígida água deixada na moringa sobre a mesa de canto próxima. Era água e não duvidei que seria; algo naquelas pessoas transmitiram-me profunda confiança, ainda que o terrífico de suas faces me assombrasse. 

Dessarte, na penumbra, o calmo cuidado deixado pelos residentes, metamorfoseou-se na mórbida sensação de abismo, onde o medo e escuridão são as veredas por onde posso me orientar. Olhei à direita e vi mãos masculinas segurando bagas de um pequeno fruto de envoltório negro, como uvas ou mirtilos, porém maiores. Fitei, por fim, a face do indivíduo, possuía uma aparência adônia com olhos azuis, conspícua expressão, sem embargo ao seu tenro sorriso pontiagudo. Vestia-se de um negrume noturno, roupas de inverno intenso, embora não pesadas e em cortes oblíquos; assemelhava-se a couro, no entanto, não reluzia como tal. Diferentes os que me receberam, os que pronunciavam palavras de um idioma ancestral, este, em evidência, era como eu e não pertencia àquela cultura dos que não possuíam faces completas. Indaguei-me no súbito momento se, por acaso, tratava-se de um vampiro. Hesitei em pegar o fruto que me oferecia, pois, sua aura era funérea e instável. 

Não temas teu Arcanjo, bel donzela.Voz de voragem, tom cruel; dúbia existência indigna da minha compreensão. Hesitei em respondê-lo. Levou uma das bagas à sua boca, mastigou-a com elegância, deixando as restantes sobre a ânfora destinada a frutas. O homem — se era mesmo um — sentou-se à cadeira de balanço, próxima à porta, e fitou-me pacífico, ainda, todavia, obscuro. 

Quem és tu? — Fui obrigada a questioná-lo. 

Tua maldição. — Respondera intenso. Confundi-me por instantes. — Ou apenas Seth, se preferires. — Decerto demonstrei ainda mais do conflito mental, o distúrbio da incompreensão, pois que ele, Seth, ajustou-se em seu acento, olhando-me fixamente — Sou teu Arcanjo, Áurea. Destinado a impedir que quaisquer males afetem a tua preciosa existência, pelo preço de conduzir tuas ações com as sete vozes do abismo, as quais são minhas, como podes notar. — De fato, sua voz era familiar, embora mais grave. Respirei fundo, olhando para a janela, indagando-me o porquê de todas as coisas. Senti-o se aproximar. Sentou-se ao meu lado, em meu leito aquecido. Olhei-o. 

Então te personificas humano... e, pelo visto, sabes tudo sobre mim. Andas, como a hialina aragem e estás ao meu lado como um gárrulo das sombras. — Ele sorriu, parecia mesmo um Arcanjo, dada a beleza viril que o preenchia da pele à barba rala, das veias aos olhos, dos poros à totalidade.

Não. Geralmente estou... dentro de ti. — Silenciamo-nos por um tempo. 

Há como revogar minha aspiração? Olvidar todos os horrores, tal como outrora? 

Não, Áurea... Lahgura é uma perversa magista, manipula suas vítimas com maestria. 

Serves a ela, pelo visto, Senhor Arcanjo; tendo o trabalho norteado como uma tábula resignada, obrigado a fenecer ao meu lado a favor da minha existência. 

Errado, que previsível... — Olhei-o com mais atenção, seus olhos reluziam gentis, mesmo e apesar de seu poder ocultista e de sua ironia. — Existo dentro da tua alma... e corpo. Sinto o que tu sentes, ouço o que tu pensas... Tua morte, portanto, significará a minha. Não conheço todo o poder de Lahgura, tampouco sei como é possível que ela faça o que fez. Mas sei que estou vivo agora, através de ti. 

Se te personificas, por que não te ausentas do meu corpo? Se não tens vínculo com Lahgura, por que apenas não cala as tuas vozes abissais? — Outro sorriso, dele para mim, e um apoiar-se na cama, como se a ela pertencesse. 

Tua inocência pode acabar com a nossa vida. — Seth aproximou-se súbito, segurando meu queixo e respirando próximo de meus lábios; meu assombro despertou o que outrora estivera conduzido pela estranha vertigem e nada mais. — Não tenho elos com Lahgura, mas tenho contigo. Personifico-me, todavia, como a noite se afasta sob o alvor do sol no horizonte, não sou capaz de permanecer fora de ti por mais do que algumas horas. — Explicou, retirando sua mão de mim e voltando à cama, apoiando-se. — É isso que sei, pois sinto; é o que determina minha existência. 

A consciência assimilada cingia-me sem pressa e o delíquio ascendia como o frio. À minha visão, um homem denominado Seth cuja personificação de minha maldição o significava, sendo, mais do que isso, uma criatura codependente de mim; convencida de suas palavras, lidava com a sensação de inabalável descrença, uma dualidade que me machucava — confabulado sobre Arcanjos, temia que ele fosse, em verdade, um demônio e, sendo um, dominador assíduo da mentira à vista disso. Silenciada, busquei refúgios em mim, esquecendo-me que a ele pertenço e provando do acre sabor dessa maldição ominosa. 

Áurea... — Fitei-o, odiava ouvir-lhe chamar-me pelo mesmo nome que Lortt em sua missiva inestimável. Prensei meus dentes como fuga do meu ódio. — Eu sei o que sentes... e o que pensas... — Reforçou, em razão de todas as verdades desveladas. Ele se levantou e tão logo senti sua mão em minha nuca, forçando-me a levantar. Assim pude notar sua estatura alta, ele não estava comprimindo o meu pescoço. — Irrita-me teu ódio contra mim, eu que sou o teu defensor; enfurece-me ouvir estas tuas afrontas silentes que atravessam meu crânio! — Seus olhos estavam ainda mais azuis e sua voz mais grave do que antes, seu rosto era como a noite mais mórbida dos mais medonhos pesadelos. — Tu achas que não estou sob a lôbrega coerção das tuas vozes abissais enquanto te vitimizas da maldição que tu escolheste? — Seth segurou meus cabelos com mais intensidade, aproximando-se de novo da minha face assustada. — Eu... diferente de ti... — Sua voz abaixava tanto que trazia o timbre do inferno, eu sentia fremer minha alma ao ouvi-lo. — Não tive escolha. 

Então, seus olhos que eram azuis começaram a empalidecer e sua pele translucidar. Todo o seu corpo tangível transfigurava-se em um fantasmagórico organismo etéreo e aquilo, como um tipo denso de névoa, penetrava meus olhos, boca, narinas e ouvidos. Doía em minhas veias, sim, cada artéria por onde deveria correr a minha seiva humana. Eu o sentia por todos os meus músculos, pele e carne; um tipo de energia corrosiva, súbita e poderosa. Quando findara, tudo o que ele era já não estava ali — ao menos não personificado; contudo, no meu âmago, eu sentia o peso da sua existência, ascendido de forma desmedida se comparado com antes de conhecê-lo, quando era apenas sete vozes e não Seth, o Arcanjo. A intensidade fora tão insondável, que caí sobre o chão de madeira, batendo minha cabeça sobre a mesa de canto e, com isso, derruindo a ânfora no chão. Vi seu quebrantar, estraçalhado; e a água vertendo nas curvas naturais da madeira. Algo naquela cena, em seus detalhes exíguos, despontava reminiscências próximas à minha consciência. 

 

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Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Sonuras de Áurea Lihran: Seth

Orquídeas negras tecem a ninguém, | Silêncio aveludado no jardim, | Apresso-me temendo vir alguém | Desperto pelo horror do olor carmim;…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Orquídeas negras tecem a ninguém,
Silêncio aveludado no jardim,
Apresso-me temendo vir alguém
Desperto pelo horror do olor carmim;

Perfiz todo o balcedo estéril e vi
A névoa cinerária se achegando,
Tão tácita espargia — eu m’envolvi…
Sua lôbrega humidade circundando;

Desvelo, cinza e triste vilarejo,
Porém, ao meu espanto, flama à vela
E o som d’um tragimorbo realejo…

Vertigem brusca, bagas de Glïzehla
Nas mãos de humana tez, viril demônio,
Semblante tão terrífico em adônio — 
Não temas teu Arcanjo, bel donzela”.

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 2: Abíssicas Escolhas

Embevecida pelo silêncio dos sonhos mais profundos, tudo se externava em suavinura. Andejei sob infinda serenidade por dentre um substancial…

Embevecida pelo silêncio dos sonhos mais profundos, tudo se externava em suavinura. Andejei sob infinda serenidade por dentre um substancial jardim de raras e inigualáveis espécimes florais — as quais eu parecia conhecer tão bem. E a crepuscular solitude felicitava minha alma dulcificada, enquanto no horizonte as cores tórridas se esvaneciam e o sol se amainava conforme a aragem soprava a noite fria. Cessei meus passos e olhei para trás, avistei um colossal castelo; à vista de meus olhos oníricos, a vida exalava de suas entranhas. Cada janela um tremeluzir se via, dos lumes das velas nos castiçais; cada torre ornamental, esculpida como se a mãos, por um único artista, quebrantava os céus, e protegia-me. O alcácer era incomensurável, havia um reino em seu âmago, preenchendo todas as suas terras. Era um lar, tinha alma de lar — como eu queria me lembrar. No entanto, sob a gana de alcançar a memória, desadormeci... e a luz azul-pálida tocara minhas pupilas, vinha da estranha lua túrgida visível das fenestras daquele aposento — em uma delas, uma silhueta viril eu avistei; ele admirava a beleza invulgar do índigo anoitecer perpétuo. 

Ainda vestida em escarlate, reconheci o desvario daquele outrora quando os rostos eram terríficas cenas por espelhos fincados em seus semblantes. Lembrei-me de minha angústia, da dança macabra, do mórbido pavor. Contudo, indagava-me há quantos dias este baile acontecera e por quanto tempo residi em ilusões inconscientes. Quem trouxe-me aqui? Decerto aquele homem aguardava-me, talvez tenha salvo-me de meu delírio. Era imprescindível vê-lo, inestimável agradecê-lo e, sobretudo, reconhecê-lo. No entanto, aos meus lentos movimentos, passos serenos, não pude abandonar o lumiar lunar cujos tons níveo-cerúleos expandiam-se pelas trevas n’um azul-mar-abismo. As cores moldavam meu espírito e manipulavam minhas emoções e sei disso, pois ao que revelava meu despertar sonial, transmutava-se a realidade em outro sonho, capaz de extasiar tanto quanto. Assim, conforme me aproximava daquele homem, em desejo frígido — o suficiente para queimar —, eu me envolvia. 

Sentes-te melhor, mítica dama? — Dissera, com seus olhos voltando-se a mim, belos olhos enegrecidos, com escleras igualmente negras; eram como duas helleborus lihri-nocturnus, flor sempre adornada por uma essência invernal. Tal espécime é um cruzamento bastante peculiar entre o heléboro púrpura e o Lírio do Nilo, por isso tem a cor roxa profunda que, aos olhos, assemelha-se a um preto intenso. Um tênue sorriso ascendi ao homem misterioso e reconheci seus lábios, eram os mesmos daquele que me convidara para dançar na fatídica noite. Lëvri... eu me lembro. Lëvri levantou-se, portanto, segurando uma de minhas mãos e beijando-a, amoroso. 

Temo não ter despertado ainda. — Ele sorriu à minha resposta. 
A noite é o mistério índigo dos teus olhos rubros... ou, devo dizer, áureos? — Sua expressão encarava-me com uma virilidade instigante e, sob a estranha noite, eu sentia florescer em meu corpo a frenesia mais pujante. 

Não sei ao certo... não posso olhar para espelhos. — Revelo, ainda incerta; com a reminiscência dos fragmentos espelhados nas faces sangrentas dos convivas do baile. Turvei-me um pouco diante do lembrar e vi a rapidez de Lëvri para segurar meu corpo instável. Olhamo-nos como falésias à escuridão oceânica. 

Frágil... doçura pálida... por que enlevas a escuridão do meu universo com tua alma de Ennehris? — Ele ajuda-me a sentar na poltrona que outrora ele se sentara; sem que seu olhar esvaísse do meu. Pus-me sob a mais intensa luz lunar. Lëvri semi-ajoelhou-se em minha frente. 

Ennehris? — O fitar sedutor metamorfoseou-se em afabilidade. 

A história de Ennehris... Deixe-me contar-te... — assenti — De nome Ennehris, a estrela mais fulgurante do firmamento, tão mais que o sol, porém, longínqua. E de todas as longínquas, Ennehris, inestimável, é sempre a realçada na lúgubre antemanhã. Estrela-fascínio, mentora nas trevas daqueles que caminham ou navegam à noite. Alguns juram tê-la visto descer dos céus, para guiá-los com sua apaziguadora voz. — Segurou minhas mãos nas suas e, seguindo em silêncio, tocou-me a face gélida. — Disseste-me não saber teu nome, porventura esta seja a razão... estrelas da imensidão nunca sabem seus próprios nomes. — Sorri-lhe, pois, quão cativante as suas palavras se proferiam. 

Ah... que formidável seria ter este nome... 

E tens... — Lëvri levantou-se e, segurando-me, levantou-me envolvendo seu braço em minha cintura. — Ennehris... — Seus olhos negros fitavam meus lábios. — Hum... Posso ver... — Dissera-me ao voltar-se aos meus olhos. — Rubros outra vez... — A maneira como Lëvri estonteava-me era inenarrável. Todo o meu corpo respondia ao seu toque, à vivacidade de uma paixão lôbrega nos poros de minha tez. — Teu enigma confunde meus princípios... 

Lëvri... — Murmurei, ocultando-me nas minhas pálpebras fechadas, buscando as sensações do tato, as mãos dele em mim, seu hálito tão próximo de meu rosto e todo aquele palor lunar, induzindo-nos. Senti-o tocar minha nuca com a calmaria dos mais brandos mares. E beijei-o sem que as tristuras, tão humanas, me acovardassem. O beijo de saliva afrodisia, ardente mesmo que fôssemos tão álgidos; e seu sondar em meus cabelos, soltando-os, envolvendo-os para meu delírio íntimo, entre sussurros ininteligíveis. Lëvri pegou-me, à sua força vigorosa, levando-me para a cama onde veemente era a penumbra. Deitou-me, gentil; e toquei em seu torso, passando meus dedos dentre os botões de sua vestimenta, sentindo-o arfante. As veias de seu corpo, em especial em seu pescoço e fronte, avultaram-se de modo significante e seus olhos tornaram-se ainda mais escuros. 

Ennehris... — Soprou Lëvri, sensibilizando com seus lábios o que se enunciava da curva de meus seios por causa do corset e, enquanto seu semblante afogava-se ali, tateei as veias de sua fronte com a ponta de meus dedos. Quão ansiosa eu estava... dentre o índigo sombrio, o predizer soturno da lua plangente; minha alma condenada ao prazer inefável a desprezar quaisquer conjecturas da razão. Lëvri beijou-me voraz, pegando-me o corpo, levantando-me suavemente ao passo em que se mantinha no beijo vesano. E senti suas mãos desatarem os laços de meu corset que se fez tão logo afrouxado e, hábeis, suas mãos vieram a deslizar, com apreço, as mangas de meu vestido, resvalando pelos meus braços. Neste ínterim, pude vê-lo outra vez, sobre mim, livrando-me do vestido, devagar, beijando cada espaço pequeno da pele que se revelava. 

Esculpida... em perfeição... — Ouvi-o dizer, ao olhar-me os seios soltos e despidos. Logo, as veias de seu rosto pulsaram, em plenitude visíveis, e ele parecia sentir dor, pois abaixou sua face, franziu a fronte e fechou seus olhos negros. 

Lëvri? Estás bem? — Indaguei em completo receio, uma preocupação genuína. 

Sim... — Sua resposta não me agradara, mas ele voltou a me olhar, tocando meus lábios com seus dedos. — É apenas... a minha natureza... — Disse em seu tom mais grave. Degustei de seus dedos e o ouvi gemer sem distinguir se era a sua dor ou seu prazer, pois eu sabia que seu corpo sofria pelo desejo. — Tua enseada... há de acalmar... a minha nau... — Murmurou, e toda a minha enseado fez-se o mais bravio oceano. — Venha... — Fui conduzida por suas mãos e, como se dançássemos, Lëvri pôs-me em pé, perto de nosso leito, o vi deitar-se em seguida, ordenando-me que permanecesse de pé, e na cama ele se pôs de modo que pudesse avistar-me por completo. — Desvista-se para mim... 

Naquele instante, parecia que o palor da lua túrgida me tocava de fato, senti o tato de seu lume misterioso pelo meu dorso nu. Olhei para os vitrais abertos, mas neles não me demorei. Com a lentidão de minha inocente lascívia, retirei aos poucos a minha vestimenta, exibindo meu corpo para Lëvri e vi minha sombra azul-escura tateando os lençóis daquela cama, os quais eram negros e possuíam uma maciez de lanugem, além de uma sutil transparência. Então, como uma escultura de gesso, eu estava nua e Lëvri semicerrava seus olhos, fechando seus punhos enquanto suas veias pulsavam por sua face e pescoço, cada vez mais animalesco. Assim, mais cuidadoso que outrora, ele se levantou para tocar minha nuca e beijar meus lábios. A brisa da noite anil arrepiava minha tez e conduzia a invernia por cada poro. 

Álveo ninho... deitei-me sobre a lanugem negrume, colocada, novamente, pelas mãos firmes de Lëvri. E o vi-o tocar suas roupas... após fechar-nos no dossel que ilusionava aos nossos olhos uma suave névoa ao derredor. — Feche estes teus pulcros olhos rubros... minha Ennehris... — Eu estava atenta, ele percebera... eu estava atenta ao seu movimento e àquilo que eu veria por detrás daquela indumentária escura. Todavia, fui privada por aquele momento, hesitei em obedecê-lo. — Ah... sim... tua curiosidade... — Lëvri tocou-me os lábios outra vez... — Antes de vê-lo... tu sentirás... em ti... — Fremi e sei que gemi, ocultando minha visão e sentindo Lëvri se aproximar... sua respiração ofegante e o seu, agora, estranho calor. Ali, na penumbra em índigo poder, o corpo de Lëvri sobre o meu e o toque de sua rigidez... tão perto. — Sinta... assim... devagar... 

Todo o seu teso viril, firme adentrara-me pouco a pouco e... eu o senti... em toda a sua extensão consistente... dilatava-me à margem de uma leve algia, no entanto, o prazer se ressaltava para mim e meu corpo tremia, tanto que meus olhos se abriram e meus lábios se entreabriram, e vi evaporar dos olhos vis de Lëvri um fumo umbroso, o qual eu respirava, pois estávamos próximos. Respirá-lo trazia-me vertigem, como um elixir fumegando e tendo suas essências difundidas. Tudo o que cruzava minha visão vinha zonzo, letárgico... e a penetração parecia tocar-me o ventre... eu lacrimejava. — Tão... fundo... — Sussurrei. 

Eu posso... regressar... — Disse-me, com uma voz bestial, embora fosse ainda a sua voz. 

Não... — Quantas intensas e antagônicas sensações, eu não poderia abdicar delas. — Quero... me sentir completa... — Ao revelá-lo meu anseio, embrenhou-se rígido ainda mais em mim, onde a gruta inundada sofrera estendida e contraída. Fui tomada por um tipo assombroso de energia que me convulsionava. Lëvri movimentou-se, então, n’um ir e revir de anômala rapidez e os sons que emitia, gemidos e sussurros de dor vinculados à extrema luxúria, ampliavam meu delíquio pelo vapor negro de seus olhos. As veias de seu avultoso poder, dentro de mim, estavam igualmente protraídas, tal como em seu pescoço e face... era um deleite senti-las em minha arculva. Todavia, Lëvri estava cada vez mais instável; sua cabeça se movia célere o tanto que sequer eu a compreendia, em determinada hora, quando aquela alcova parecia mais brilhante, como se a lua tão cheia excedesse no infinito a sua luminosidade, senti o aroma se sangue esvair pelo seu corpo, mas eu estava tão enervada... 

Por... favor... — Implorei e isso o fez amansar em segundos. 

Estou... hum... Ennehris... estou ferindo-te? — Senti-o acariciar meus cabelos, preocupado apesar de sua... natureza. 

Não... eu... — Era tão difícil proferir quaisquer palavras racionais. — Sinto-me... eu não estou... — Seus movimentos diminuíram, embora penetrasse compassado. Então suas mãos tocaram minha garganta e pressionaram-na para cessar minha respiração. Pude vê-lo outra vez sem desanuviar a imagem, pois não mais inalava a insanidade da sua aura sombria. Isso recuperou um tanto de meu vigor o que me levou a contrair meu interior; rapidamente Lëvri soltou-me, respirei apressada; seus olhos de escuridão fitaram meu espírito. 

Gostas... minha Ennehris... que eu faça... devagar? — Ouvi-o, embriagada. Meu sorriso o respondia que sim, envolto aos meus gemidos acentuados. — Agrada-me teu riso pulcro... doce... longânime... — Segurei-o firme, no intenso êxtase, arranhava-lhe as costas a cada aprofundar de seu plenitúrgido em mim e, assim, em certo instante, eu nada via além de meu abstrato prazer, um regozijo lascivo excelso atravessava-me violento vibrando minha alma, carne e pele. Então, pacifiquei-me, e ainda de olhos fechados, senti se entranhar em meu ventre um tórrido néctar, como um caule de Nelumbo Nucifera, e em meus ouvidos disseminaram-se os murmúrios sombrios de Lëvri, os quais me fizeram abrir os olhos. O seu corpo deslizara para meu lado, em nosso leito, e apreciei todas as veias negras desaparecerem lentamente, na imensidão do que vivíamos, pela natureza dele e a minha. Lëvri fitou-me em seguida e afagou meu rosto, deitei-me em seu peito sob seu chamado. 

Adormecemos juntos sob o esotérico luar, abraçados como eternos amantes, todavia, amanheci outra vez, acredito que em poucos instantes depois, pois a imensa lua alumbrava da mesma forma. O que me levara a avivar meus sentidos fora um cântico mágico, o qual me guiara, em estranha curiosidade, para os jardins secos do inverno lá fora. Lëvri se mantinha na profundez de seus sonhos soturnos. Caminhei descalça, em níveo damanoute, pelo álgido índigo, sem me importar, pois, o cântico era como um encantamento que me protegia da friagem hedionda. “As sombras e o silêncio guiarão. A luz da tua memória ofusca o ouro. O escuro abraçará teu coração. Recorde estrela mítica, tesouro. Teus olhos brilharão, rubáurea rara.” — O cântico entonava em uma língua estranha, mas eu compreendia. 

Um lago, de águas em tom azul-claro, avistei, e o vocalizar vinha de seu interior. Era uma queda-d'água, esplêndida por não estar congelada diante tais baixíssimas temperaturas. Em seu envolto, flores azuis bioluminescentes e altos pinheiros sombrios. Havia também pedras cinéreas a cingi-lo, como uma mágica fonte termal. No meu achegar, a neve deslizara das nuvens lívidas da imensidão anil-umbrosa, numa nevada de flocos tenros, no entanto, o Luar mantinha seu reinado poderoso. Assim me aproximei do lago envolvente e pouco a pouco fui reconhecendo aquela voz feminil... era a minha voz, fleumática como a neve que pendia na aragem. Ajoelhei-me sobre o pálido manto macio e fitei o interior do lago. O que vi não fora o meu reflexo, mas sim o de uma criatura símil à máscara que usei naquele baile carmim-dourado. Ali ela estava vívida, olhava-me atenta, piscava e respirava como eu. Parecíamos unidas na fantasia daquelas águas. 

Era um animal magistral. De tez símil a um dragão, de um tom rubinegro que se alastrava acima para o vermelho vivo e abaixo para o preto profundo. Tinha um crânio corvino em osso marfim puro, e grandes olhos dourados. Seu corpo era como o de uma ampla serpente, conquanto rastejasse como uma, por vezes, comportava-se muito mais como um dragão, embora não voasse. Os pormenores de suas condutas não refletiam nas águas, sem embargo e decerto por uma lembrança fidagal, eu os compreendia. Gostaria, porém, de saber ao certo de onde vinha a criatura e qual seria a sua ligação comigo, eu percebia que havia muito dela a colidir com meus momentos desde que despertei, assim como o sangue — o qual me fascinava degustar. Então, como, porventura, Narciso fizera à sua própria venustidade, amantética vi-me no refletir onde a criatura mítica, tão estonteante, aparentava desejar algum diálogo comigo. Toquei as águas serenas, por fim, tão embevecida eu estava com o animal de áureos olhos. 

Resvalei da neve de súbito, imergindo-me na imensidão do lago cerúleo cujas águas eram como um licor de luar e noite invernal, dentro delas, então, havia uma voragem, um infinito de escuridão, tal o oceano pacífico. Completamente imersa. Ouvi o cântico debaixo desse abismo. “As sombras e o silêncio guiarão. A luz da tua memória ofusca o ouro. O escuro abraçará teu coração. Recorde estrela mítica, tesouro. Teus olhos brilharão, rubáurea rara”. Destarte, tão brusco como a queda d’outrora, avistei, assustada, o lago; eu não havia imergido em seu interior e já não havia a criatura mítica no reflexo da fluência das águas encantadas, havia apenas eu; e vi meus olhos, por fim, um em tom rubro intenso e o outro em dourado nitente. Foi nesta surpresa misteriosa que uma voz feminina serena alcançou meus ouvidos, dispersando o ruído do vento; não era mais a minha voz. Olhei na direção da entonação e uma criatura se fez corpórea à minha frente, seduzindo meus sentidos. 

Bem-vinda, alma perdida. — Dissera-me. Levantei-me da regélida maciez alva e fitei os detalhes daquele espírito cuja forma assemelhava-se a uma mulher de longos cabelos brancos; seu corpo era um espectro azul-celeste. Um fantasma, eu diria, translúcido, porém, tangível, ao que me parecia. — Somente as mais pulcras essências são despertadas pelo meu lago. O que buscas, coração ferido? — Indagara com um tom de voz tênue que espargia longínquo. 

Quem... tu és? — Eu estava deslumbrada, cativada e envolvida pela aparição. 

Sou Lahgura, um espírito vilíneo. — Sua voz ecoava, um eco longo e exuberante. — Se posso ser vista pela tua heterocromia, então fui evocada por teu sortilégio... aquele que até mesmo tu desconheces. — Eu não a compreendia, era um ser insigne. Seu esvoaçar aproximou-se de mim, reluzindo em perfeição. 

Tens as respostas que busco? — Tremi pela possível resposta, ciente de que tudo naquele estranho lugar era guiado pelas mãos d’algum ilusionista. 

Posso tê-las... sim... eu sinto a tua esperança. Diga-me, flor pálida, diga-me o que desejas. 

Eu... desejo lembrar... eu... — Lágrimas nasceram em meus olhos ardorosos — Eu gostaria de... estar protegida... como no meu sonhar desta manhã... o belíssimo jardim de raras espécimes... o castelo familiar... 

Pulcra lacrimal, densa emoção. Ouça que tão logo desvanecerei... Eu, Lahgura, concedo-lhe o que vocifera em silêncio a tua tristura. Mas, não lhe posso abençoar sem um preço. 

Preço? Eu... eu... nada tenho a oferecer... — Sua corpórea espiritual tocava minha face, deixando-me aquecida. 

Não peço, gentil languidez, porém, tudo o que te darei trará consigo uma sombra. À memória recordada, virá tua dor a cada lembrar-se futuro. À tua proteção perpétua, virão as sete vozes do abismo. — Ponderei por longos instantes, entendendo a maldição que o enigma daquele ser conduzia. 

Recordarei tudo? Todo o meu passado? 

Singelo ser, a grandeza da penumbra equivale à amplidão do teu desejo... Lembrar-te de tudo o que és, resultará na maldição mais perversa que o esquecimento. 

Então... o que lembrarei? 

Cândida femínea, trar-te-ei uma memória de valor, tua, que precisa com urgência vir à consciência. — A compreensão começava a florir d’um peculiar botão enterrado em minha angústia e regado pelo meu medo. 

Após esta revelação, toda e qualquer outra, trar-me-á dor ao retornar à consciência. Tenho compreendido? 

Sim, vestal. 

E a proteção trar-me-á sete vozes do abismo... elas estarão sempre comigo? 

Virão quando estiveres em conflitos mentais. Entenda que o que sou é uma dádiva e uma calamidade; limiar do infortúnio à benção. Contudo, vejo em tua fronte um poder surreal, lidarás, decerto, com maestria a ambos os horrores. — Silenciei a ouvi-la, ponderando. — Uma única lembrança inestimável será o guia para tua existência e a proteção trará o sangue dos hostis aos teus lábios vampíricos. 

Eu não poderia negar uma lembrança que lumiaria minha escuridão, embora aquele cântico... tão meu... entoando que “As sombras e o silêncio guiarão”. Por que eu diria tal desatino a mim mesma? Nada se vê no escuro, nada que não o temor. Que custosa fora tal decisão, e a tomei antes de articulá-la por fim. E Lahgura constatou. Ergueu suas mãos finas para que as flores bioluminescentes em anil envolvessem-me dos pés aos olhos em suas pétalas que se erguiam sutis, frígidas e vívidas. Rezou Lahgura, uma reza que não distingui. E então eu me lembrei; reconheci aquele que amei, morto pela Rosaemori, da espécie de classe única, veneno ao nosso clã. Presenciei outra vez o sangue flavescente, suas últimas palavras para mim e a crueldade dos olhos negros. Lembrei-me e, quando voltei a fitar o horizonte, nenhum lago permanecera e tudo o que ficara fora o intenso frio e a compreensão amarga. 

Retornei ao cômodo que outrora estive, debaixo do dossel. E vi, tão logo aproximei-me do leito, era Lëvri. Adormecido. E em suas costas, ao meu espanto, porém, previsível em algum nível singular, seu dorso contemplava uma imensa Rosaemori tatuada em sua tez. A rosa maligna. O veneno do clã. E sim, eu o amei, o senti dentro de mim e vi bem seus olhos de trevas. Finalmente eu entendi quem ele era. 

“Mate-o"...“Ele é um traidor”... “Mate-o”...“Mate-o agora!”... “Ele é um traidor”...“Ele está vulnerável”... “Mate-o”...“Não seja fraca”... “Mate-o agora!”...“Destrua-o"... “Não seja fraca!”... “Ele matou seu único amor”... — Ouvi, insistentes e perenes, repetindo enquanto eu fitava o dorso de Lëvri. Eu ouvi... caóticas e intensas; mórbidas e lúgubres... eu ouvi... ouvi as sete vozes do abismo. 

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 1: O Adágio Sibilino

Um flúmen carmesim cruzava o níveo balcedo e, deste liquor consistente, eu me inebriava, sorvendo sem temores, e imergindo-me nua em seu sereno caudal…

Um flúmen carmesim cruzava o níveo balcedo e, deste liquor consistente, eu me inebriava, sorvendo sem temores, e imergindo-me nua em seu sereno caudal cujo aroma ferroso seduzia-me. O álgido inverno mordaz congelava-me os cílios, alvejava meus negros cabelos e sobrancelhas enquanto a torrente escarlate era estranhamente tórrida como uma nascente termal. Eu não sabia a origem daquele sangue, no entanto, em minh’alma residia a intuição de que advinha de um mórbido pecado. Despertei deste sonho após tal intuição fissurar o plano onírico e, então, senti sede. Não foi uma sede qualquer, parecia-me como mãos a asfixiarem-me a garganta; senti dilatarem as minhas pupilas e um ímpeto terrífico embaçara em rubro a minha visão. Foi isso que aconteceu naquele dia após o sono sombrio no amanhecer. Despertei às dezessete horas, completamente alucinada.

Então, lá estava ela; uma taça de ouro lapidado e brilhante que por certo fora disposta sobre a mesa poeirenta enquanto eu devaneava, uma vez que eu não a vi n’outro momento desde meu despertar primevo, quando tudo era-me tão somente uma penumbra de indagações a pairar pelo ambiente frígido. N’um único movimento suave, segurei o lustroso cálice e levei-o aos meus lábios sequiosos após notar que dentro dele habitava um espesso líquido acarminado, em demasia semelhante ao flúmen de meus oníricos recônditos. Posso ter olvidado cada uma das memórias do meu passado, todavia, ainda detenho os conhecimentos mais precisos, e alguns além, que me permitem compreender o mundo; um destes saberes é que este sangue não deveria ser tão apetitoso para mim, tampouco matar deveria esta minha inominável sede.  

Na voracidade mitigada pelo degustar, observei um envelope esculpido em um tipo de material valioso, talvez um quartzo. Toquei-o, estava próximo à cama e, em minhas mãos, ele lumiava como uma folha feita de um excêntrico e natural rubi fissurado por ouro. Era apenas um papel, todavia, não poderia advir dos eucaliptos setentrionais. Em seu interior, letras conduziam uma misteriosa mensagem.  

“A escuridão do ressurgir possui ímpar esplendor, contudo, o exício d’alma, como Rosaemori, habita na dança da meia-noite pela lembrança ao refletir, onde o doce carmim se putrefaz às faces dos que jamais se delatam.” 

Um peculiar enigma de essência familiar, embora tão ofuscado pelo mórbido vazio de minhas mais ínfimas memórias. Conservei uma proximidade à letra cursiva, mas desconfiei apenas encontrar-me delirante. Esforcei-me em profundo pensamento, no entanto, o “exício d’alma, como Rosaemori,” e as “faces dos que jamais se delatam” soavam-me como um longínquo corvejar em um horizonte crepuscular inebriante, isto é, passível de admiração intensa, mas não de compreensão. Dobrei a epístola insondável e escondi-a em meu vestido, próxima aos seios; e asseei meus lábios úmidos pelo fascinante e fresco vinho da profanação. Era hora de deixar aquele sôfrego aposento e conceber novos retratos à conservação dos momentos advir — e tentar colher do inconsciente as mais ocultas verdades, pois, possuíam seu incontestável valor. 

Abri com ampla facilidade os altos umbrais e dirigi-me pelo corredor silencioso. Candelabros espargiam de si um lumiar trêmulo, porém, vigoroso, e clareavam as veredas obscuras. À vista dos vitrais de um grandioso salão, o qual adentrei sem anelo por meio de um esmo perscrutar, observei um esguio homem no jardim; à sua frente uma mesa de carvalho servia de repouso a incontáveis itens fúlgidos e tecidos de apurada aparência. Destinada a conhecê-lo, busquei escadas que me levassem ao andar de baixo e não demorei a encontrá-las, pelo caminho, contudo, examinei alguns quadros, estantes vazias, livros e gavetas. Tudo era símil a uma abandonada mansão, mas, de forma ambígua, habitada por um singelo número de pessoas, o suficiente para que a poeira se esquivasse aos cantos por onde pés não andejam. 

Ó! Fascinante donzela! Ande! Apressa-te! Esgotar-se-á o teu tempo, tens uma mísera hora para aprontar-se para o Baile, vamos, venha, venha! — Proferiu o homem ao ver-me aproximar; seu sorriso era largo, tétrico e pontiagudo, seu rosto era pálido e seus olhos lembravam-me das chamas sobre as velas dos candelabros. Os dentes afiados pareciam esculpidos em etéreo marfim e os dedos das mãos quais se abanavam n’um gesto chamativo em minha direção, eram franzinos e longos. Os trajes do indivíduo peculiar possuíam uma fina elegância, envoltos aos tons mais negrumes com adornos sublimes e áureos. Sob uma tenda rubra ele se mantinha em pé, um relógio de bolso dependurava-se em seu braço e, pela indumentária extravagante, o curso de uma corrente lhe enfeitava as mãos ao vincular-se aos seus anéis de pedras preciosas. Quando próxima, vi-o erguer alguns vestidos. 

Há excelsas peças, Dama soturna, veja, veja, veja! 

Perdoa-me... — Iniciei uma conversa hesitante — Não compreendo sobre o que falas ao mencionares um... baile? — Indaguei com a sutileza mais sincera, o homem cessou seus movimentos apressados e fitou-me atento. 

Não recebeste o convite? — Indagou, cismático. Ponderei por instantes fugazes sobre revelá-lo o bilhete enigmático, no entanto, receei. — Vamos, diga-me teu nome! — Ele voltou a movimentar-se entre seus apetrechos, em especial as gavetas de uma grande mobília detrás dele. 

Eu... — Eu não sabia meu nome. 
Diga-me! O Tempo se escassa a cada átimo! — Abrindo e fechando cada uma das gavetas, o homem procurava por algo. 

Eu não... sei... — Revelei. Novamente, mirou-me seus olhos lumiados. E, então, cruzou seus braços magérrimos e elevou, com sutileza polida, seu maxilar. 

Hum... — Ele parecia pensar, seus sonidos eram de, porventura, um abismal refletir. — Creio que tu sejas, então, a esperada... 

A esperada? — Questionei em uma curiosidade infante. O homem retirou de sua manga, em uma lentidão performática, um envelope fascinante em simetria e perfeição. Estendeu-o a mim. Nada havia escrito ao lado de fora do envelope, todavia, era selado com um tipo de mecanismo único feito com delgados ornamentos fulvos e, no centro, um único elemento cetrino, era um verídico Realgar esculpido em formato orbicular. 

Fui instruído a dar este invite à primeira donzela inominada que viesse ao meu encontro. 

Quem o instruiu? — Minha voz estva mais célere, enquanto eu me sentia embriagada pela beleza do artefato que agora eu segurava em minhas mãos. 

Ora, ora... um alguém... — Ele olhou para o tecido à sua frente, retirando-lhe uma longa agulha e, com um monóculo, observou a fenda por onde, sem delongas, atravessou uma rúbida linha. 

Quem, afinal? Possuía um nome? — O homem gargalhou com requinte diante meu questionamento. 

Perdoa-me o riso... é que tu, inominada como és, estás a indagar sobre o nome de outrem? Ora, parece-me tão pitoresco. — Respirei impaciente. Olhei para o belíssimo invite e toquei-o, admirada. Assim que o fiz, em especial na preciosa Realgar, o envelope abriu-se n’uma deslumbrante carta e todos os ornamentos dourados fragmentaram-se à fulvo pó com aroma de cestrum nocturnum

“Caríssima dama! Que adorável noite! Venho por meio desta missiva convidar-te à Masqarilla, a qual terá seu início às dezenove horas. A solenidade saudará os novos residentes com o liquor-carmesim e dançaremos sob o luar. Como desperta, é de inefável valor que venhas ao nosso encontro e participe deste fascinante festejo, este é seu novo lar. Tenho sob minha guarda uma carta destinada, creio eu, à senhorita; decerto é de teu interesse tê-la em mãos. Com apreço, Conde Drácula.” 

Como o reconhecerei? — Sussurrei. 
Conde Drácula? — O homem à minha frente indagou, ainda obcecado por costurar o seu tecido. Respondi-lhe que sim. — Tu o reconhecerás, não te preocupes. A influência da presença do Conde é notável, mesmo no mais longínquo. — O Homem ergueu, após sua fala, o vestido que costurava. — Que tal este? Do teu exato tamanho, vermelho como os teus olhos. 

Belíssimo! — Encantei-me com a peça e, ao tocá-la, vislumbrei abaixo, no mais oculto da mesa de carvalho negro, uma máscara peculiar. — E esta? 

Ó... Esta? Sim, sim, uma máscara especial de uma criatura mítica há muito esquecida. 

Pensei tratar-se de um corvo. 

— Um crânio fidedigno, caríssima inominada, de uma criatura mítica dos dédalos florestais... Segure, isso mesmo, experimente! Deve servir em tua fronte. — Era perfeita para mim, tive tal certeza ao vesti-la; somou-se a uma proximidade tênue que senti no exato instante. — Sabes que uma taça de ouro do Castelo pagaria facilmente o indumento e a máscara... — Disse o homem esguio, com seus olhos dispersos e lábios trêmulos, de alguma estranha forma ele sabia da taça que eu possuía em meu aposento. Curvei-me a ele em um cortejo formal e, em alguns minutos, lhe entreguei o fulvo cálice para tão logo aprontar-me para o festejo misterioso, mas... algo me estorvava a empolgação de desvelar os segredos da tal carta em posse do Conde; ou mesmo de conhecer mais sobre este imensurável castelo à beira do abismo. “O exício d’alma, como Rosaemori” — aquele insólito bilhete era a razão do meu remorar frente aos umbrais de minha alcova. 

Não obstante, entretanto, corri pelos claustros e passadiços, passei pela galeria e o saguão, até ouvir ao longe o murmúrio dos convivas. Afoita e um pouco sem fôlego, antes de chegar à câmara do festim, busquei a serenidade de minha mente e corpo e, assim, pelos meus íntimos pensamentos, revisitei cada questionamento que me perturbava desde o despertar do dia anterior. Não importa quem, mas decerto — eu pensava — que alguém naquele lugar sanaria minhas vertiginosas dúvidas. Cingida por esta certeza, adentrei o grandioso salão e meus olhos reluziram pela riqueza dourada que se desvelou a eles com magnitude. 

À leste, o vermelho, todavia, espargia das tapeçarias aos ornamentos que decoravam o pequeno púlpito destinado à banda, a qual, por sua vez, era composta por treze pessoas; tocavam valsas marcantes, onde o violino tinha destaque ao lado do acordeão. Meia dúzia de outras pessoas compunham um pequeno coral ao lado, com vozes marcantes que ecoavam à valsa que, julgo dizer, possuía ares circenses. Todo o som difundia pelo gigantesco local e parecia conduzir, pela abóbada de rubi, um encanto fantasmagórico estonteante. Lembrar-me da cena transporta-me a ela, parece vívida em sua volúpia teatral e, certamente, estivera; a mastodôntica câmara abrigaria mais de mil indivíduos, estou certa disso e, porventura, ali estivessem mil e um. Todos com elegantes trajes e máscaras sombrias, que fascinante! Compreendi a razão pela qual o Conde a nomeara “Masqarilla” e não apenas “Mascarada”, a primeira palavra em si tinha gosto de cereja, as mesmas dispostas em cachos na ampla mesa destinada ao banquete; além disso, ornada pelo “q”, perpassava a sensação de mórbido assombro por causa da extravagante ourada, os veludos de ouro, os vitrais de ouro, o néctar de cacau banhado à ouro para acompanhar as cerejas, tudo exótico e aclarado, sim, luminoso como um dia de sol, embora penumbral como a mais fúnebre noite. 

Embora eu fitasse com minhas atentas retinas cada lôbrego e exuberante pormenor, dos cântaros com cestrum nocturnum a exalar um aroma notívago, aos candelabros cujas chamas febris estavam envoltas por decágonos feitos de um tipo de quartzo — eu alvitraria tratar-se de sirehnniha, pois se mesclavam entre o escarlate e o marfim, o que causava um efeito bizarro no ambiente à medida em que as chamas fremiam pela aragem; e, enfim, a despeito de tudo isso, quando eu conduzia minhas atenções aos olhos daqueles que cruzavam o meu caminho, os quais eram igualmente fascinantes em suas vestimentas, joias, peças e máscaras, eu parecia não ser vista. Talvez o crânio da criatura mítica a me ocultar o contorno facial fosse um empecilho para as aproximações virtuosas — ainda assim, eu não o retirei de meu semblante, pois, de modo incomum, detrás dele eu me sentia protegida. 

Acabei por passar boa parte do tempo assentada n’uma das poltronas de um belvedere interno, acessado por escadas encíclicas, por onde o horizonte da Masqarilla era mais bem admirado. Isso me permitiu notar que, com o passar das horas, as velas envoltas aos decágonos de sirehnniha marfim iam se apagando, de modo que o ambiente, n’um aspecto tétrico profundo, se avermelhava cada vez mais. Além disso, a lua cheia subia no firmamento lucífugo e aos poucos o seu lumiar soturno se espargia pela abóbada de rubi acima do encalço destinado às danças. Essas minúcias provocavam-se uma inquietação ofuscante, no entanto, algo me prendia àquele lugar, não apenas algo brumal e símil a tudo o que se desvelou a mim desde meu despertar; houvera algo ainda mais misterioso, porém tangível, que me impeliu a permanecer na meia-luz escarlate.  

Em um fantasmagórico cárcere que vinha sobre mim no silêncio de minha mente conturbada, um alguém de vestes obscuras sentou-se ao meu lado e o vi apenas quando sua voz grave sonorizou sua presença à minha audição que se alucinava com o mórbido som do órgão de tubos. 

A morte é a eterna dança da alma no abismo. — Dissera, intenso, entregando-me um ramo ornamentado de cestrum nocturnum. O bálsamo da flor penetrou, marcante, meu olfato e, tamanha era sua veemência que, por instantes, desorientei-me. — Dance comigo. — Sussurrou o homem com a mesma delicadeza viril, então segurei o belíssimo e inebriante ramo que era erguido em minha direção e ponderei sobre qual seria o sabor daquelas pequenas flores lívidas, pois que o perfume me era um êxtase sui generis. O misterioso Dom à minha frente aguardava, atento e sombrio. 

A quem devo a honra? — Indaguei, segurando-lhe a mão estendida. O homem a ergueu, beijando-a. Ele usava uma ornamental máscara negra que se assemelhava a um rosto humano com traços felinos; o vazio dos olhos tinha um exagerado tamanho, curvados como os de um tigre e cobertos por uma manta interna, no mesmo tom noturno. Somente seus lábios estavam à disposição, onde pude sentir sua pele fria; todo o restante de sua feição estava sob a paralisia do felino rosto ornamental feito de escuridão dourada. As mãos, por sua vez, estavam sob a proteção de luvas de couro e seu traje régio dispunha-se dos mesmos tons trevais por onde jaziam seus olhos ocultos. Uma umbrosa gema, talvez obsidiana, fora lapidada na fronte de sua máscara. Com este vulto de um alguém, iniciei o bailar ao som da umbrífera valsa.  

— Lëvri Dorean — Revelara-me enquanto nos movíamos sob o som sepulcral. Muitos ao nosso redor seguiam na coreografia, o que nos impedia de um diálogo contínuo. Entretanto, enquanto a lua chegava ao cume da abóboda-rubi e quase todas as velas no decágono marfim se apagavam, o carmim transfigurava o ouro em sangue e tudo o que víamos era nós dois, a cada cinesia organizada, seguimos um diálogo em partes, entre as sombras de outrem. — E qual haveria de ser o nome da tua espécie? — Ele questionou com seriedade. 

Minha espécie? — Perguntei atenta enquanto a penumbra roubava-me a serenidade, conquanto a presença marcante daquele que não desviava seus olhos ocultos de mim fosse o apaziguar da solidão e do esquecimento, ainda que evolasse de sua aura algo inenarrável a me enlear ao medo lúgubre. 

É o que as flores possuem... espécie, classe e gênero. Da classe, sem dúvidas, és da mais excelsa; do gênero, decerto feminil. Falta-me a espécie. — Explicara, como um gomil a verter sobre minha pele um puríssimo néctar das belíssimas flores da arbórea Calliandra angustifolia. E meu corpo próximo ao dele, as palavras sedutoras, uma cura plena cujo mistério impedia-me de dosar o quanto eu poderia ficar imersa, ludibriada, e então sentir o veneno pela dosagem exacerbada. 

Dama-da-noite. — Ele sorriu com sutileza ao me ouvir, no entanto, um regélido arrepio tétrico percorreu meu corpo, originando uma desagradável angústia, de modo que seu sorriso se afigurou mais vil do que cativante. 

Quero o teu nome real, o qual eu possa sussurrar quando estiver só em meu aposento. — Neste íntimo, unimos outra vez os nossos corpos, com as mãos dadas, à valsa da morte. Era quase meia-noite. As sensações desoladoras ascendiam céleres, e os efeitos dos decágonos vermelhos à luz das chamas, me entonteciam. 

Eu te diria, se assim pudesse. Mas não me recordo... — À altura daquele diálogo, tudo de horrífico que eu pressentia, alastrou-se de repente. E, assim, uma pungente dor em meu crânio expandiu-se terrífica e meus olhos lacrimejaram detrás da máscara. Cessei meus movimentos, a lua era o astro de sangue no píncaro da abóboda de rubi, iluminando em um denso rubro tudo que debaixo estava, e a música não cessava. A aragem ao redor esfriara no exato átimo em que a aflição dardejara de mim, pelas têmporas. Fui obrigada a retirar, de súbito, minha máscara, revelando meu rosto entre os que bailavam à meia-noite vermelha, e minha dor hórrida espargia e se dilatava; lembro-me de olhar para o abismo dos olhos de Lëvri, ele me observava estático e, talvez, amedrontado — eu nunca poderia saber. Então, no aterramento da tortura, quando minha lancinante dor aguda colidiu-se com a minha sanidade, perdi-me dentre os corpos dançantes, perdi-me de Lëvri. 

Na morbígera dança, colidindo com os corpos, as máscaras se distorciam à minha visão, elevavam às sombras cetrinas uma hórrida composição pavorosa. O som do violino agudo confrangia meu coração acelerado e o pulsar da dor abissal em minha mente era como tambores insondáveis. Um, dois, três, em cada ouvido, tímpanos invadidos por sonatas em tenebrosa essência, um adágio de repugnante e diabólico vibrar. Eu só podia estar delirando e eu não conseguia deixar o encalço dos dançantes, conforme a meia-noite se prolongava, e o que me parecia ser uma desgraça de infortúnio, tornou-se o maior dos meus pesadelos, pois, perante os tambores do antro do meu crânio, na dor cruel e violenta, todos aqueles que dançavam tornaram-se inertes. Um a um. Viraram seus rostos para mim enquanto a música intensificava, perversa. 

Em movimentos lentos, no meu desesperar medonho por fitar as máscaras distorcidas, o escarlate tremeluzindo; cada uma das pessoas, uma a uma, retiraram os sinistros objetos desfigurados de seus rostos, e o que vi não foram semblantes. Cada rosto possuía entranhado, em suas faces sanguinolentas, um fragmento fincado de espelho. Pedaços que, de imediato, voltados a mim, refletiram o que deveria ser eu, mas não era. Fui terrificada por imagens perturbadoras do mais cruel possível ao meu olvidar, eu não soube se eram reais ou não. Mortificada, corri para sair daquele lugar, no entanto, não havia saída, mesmo que todos estivessem paralisados; olhavam-me no infinito salão. Eu não podia fechar meus olhos. Cada reflexo desvelava-se n’uma cena macabra e, no primeiro deles, vi um homem com uma flor de cor negra-gaultéria fincada em suas entranhas pelo torso aberto com lâmina dourada; a planta sorvia dele, mirrando seu corpo dolorosamente; e a cada rosto que eu olhava, o reflexo d’esta cena, aos gritos soturnos do homem, se evidenciavam. 

Em outro instante, fora refletido um animal símil às serpentes, embora com um aspecto corvino, era decerto idêntico à minha máscara; mas vivo. A criatura mítica. Seus olhos eram amarelos e fúlgidos e seu corpo fascinante era esfaqueado por homens de olhos negros, sem esclera. O sibilar, vociferado pela criatura, era o clamor ensurdecedor do mais execrável sofrimento. E repetia-se a cada refletir dos espelhos, o quais cravados nas frontes dos inertes, sangravam cada vez mais; eram como manequins por todo o salão dourado daquele festejo cruel, manequins humanos. E na última cena — pois que após ela eu já não pude mais permanecer consciente — havia um ventre protegendo um feto que foi banhado por um líquido níveo, transfigurado em sangue logo depois, e partes deste embrião se via pelo sangue, rasgado e moído como carne fresca; e o fluído alvo-enrubescido manava de dentro de meu ventre, do meu corpo imerso em águas salinas que se escaldavam em vermelhidão; a água escarlate e ferrosa de um rio... a água que eu bebia... do flúmen carmesim de meu sonho daquela manhã. 

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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