Le Combat des Âmes Fidèles - O Combate das Almas Fiéis

Essas foram as palavras que escrevi antes que o caos ganhasse forma e profundidade. O rapaz caído, arremessado através da porta de madeira…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Anton S. Miahi – Capítulo XXVII

(Escrito em meu Diário)

"Dei um passo à frente. A batalha me chamava.

E meu sangue... já começava a fervilhar."

Essas foram as palavras que escrevi antes que o caos ganhasse forma e profundidade. O rapaz caído, arremessado através da porta de madeira, começou a vibrar de modo antinatural, contorcendo-se com uma raiva que não pertencia à carne humana. Era uma aberração em nascimento. Algo inumano, um filho de trevas e necrose.

A cruz que Monm me entregara, ainda no quarto de vigília, jazia em meu pescoço, sob a camisa rasgada pelo tempo e pela guerra. Ela ardia em meu peito como se pressentisse o mal.

Monm, sem hesitar, cravou uma de suas longas adagas no coração da criatura e, em um movimento certeiro, separou-lhe a cabeça do corpo com a outra lâmina curva. O som foi o de um graveto partido sob os pés da justiça.

Observei em silêncio. A cena me arrebatava não por repulsa, mas por uma fascinação sombria.

— Já vi essas coisas antes, Anton. São ghouls. Não estamos só com humanos aqui dentro. — Sua voz era calma e firme, como a de quem aprendeu a reconhecer a noite pelo cheiro. — O vampiro que o matou busca cervos que não pensam.

— Certo. Temos vampiros... ghouls... e o que, em nome do inferno, são essas coisas, Monm? — indaguei em voz baixa, uma raiva latejante crescendo com a curiosidade.

— Aberrações, criaturas de um mundo que Deus está tentando esquecer. Mas nós ainda estamos aqui para lembrá-Lo.

A resposta me atravessou como um salmo distorcido. Cruzamos a porta com a cautela de pecadores num santuário profanado.

O salão se abriu diante de nós como a barriga aberta de uma besta adormecida. Era amplo, tomado por caixas empilhadas, mesas de madeira carcomida, cadeiras tombadas. Um portão no lado esquerdo permitia a entrada de água barrenta e de um sol amarelado, espectral, como se brilhasse de um mundo distante.

Do lado oposto, em meio a um semicírculo de corpos, erguia-se uma criatura dos pesadelos da infância. Caminhava sobre duas pernas, mas nada nela era humano. Devia medir mais de 2,40 metros. Os braços longos terminavam em garras que brilhavam como facas rituais.

A cabeça era ornada por brânquias pulsantes. Os olhos, negros, tinham íris cor de jade. Em suas costas, três apêndices semelhantes a guelras aladas, mas retorcidas, exalavam uma névoa verde-musgo que sussurrava orações num dialeto perdido, talvez náuatle, talvez infernal.

— Anton, a criatura está em vantagem. — sussurrou Monm. — Vamos avançar por trás daquelas caixas.

Assenti em silêncio. Rastejamos como sombras famintas.

Do esconderijo, observamos. Quatro ghouls, espectros de carne mordida e alma ausente, enfrentavam a fera. Tinham olhos turvos, unhas roxas e dentes gastos de tanto roer os mortos. Avançavam com fúria cega, mas sem coordenação divina. A criatura se movia com uma elegância brutal, uma dança de terror e sobrevivência.

Um ghoul foi partido ao meio com um golpe vertical. O outro teve o crânio esmagado pela garra esquerda. Os dois restantes tentaram contornar o monstro, mas a névoa os alcançou. Era um veneno de alma, drenava vontade e luz. Caíram de joelhos, como penitentes corrompidos.

— Aqueles são vampiros poloneses. — sussurrou Monm. — Provavelmente membros do clã Zmora. Eles dominam o miasma e a mente. Têm agilidade acima do comum, e suas lâminas cortam através da fé. Um deles, o de cabelo branco, é Kazimierz. O outro é Dawid, usa duas rapieiras.

Antes que eu pudesse responder, um dos ghouls foi arremessado em nossa direção, revelando nossa presença. O inferno nos acolheu de vez.

Erguemo-nos. As armas, encontradas por acaso num armário durante a noite em que Monm e Siehiffar me resgataram, já estavam em nossas mãos ao entrarmos no armazém. Monm empunhava suas duas adagas longas de prata, e eu segurava firmemente uma rapieira negra de origem desconhecida, também achada naquele momento. Quando o corpo do ghoul foi arremessado para junto de nós, perdemos as armas por alguns segundos no impacto. Mas logo as recuperamos, firmando posição como sentinelas diante da tormenta. Os vampiros nos encararam como caçadores observando uma presa que ousa se armar.

Kazimierz veio primeiro. Deslizou pelo chão com graça férrea. Saltou, girando no ar, e tentou um golpe diagonal com sua adaga de osso. Bloqueei por um triz. A força era assombrosa. Respondi com uma estocada ao flanco, mas ele evaporou em sombra e reapareceu atrás de mim.

— Anton! Cuidado com as ilusões dele! — gritou Monm, lutando com Dawid, que duelava como um dançarino sacrílego.

Monm esquivava-se com maestria. Uma rapieira o raspou no ombro, e ele respondeu com uma adaga cravada na coxa do inimigo. Dawid uivou, o som foi o de vidro estilhaçado por dentro.

Kazimierz tentou morder-me. A cruz sob minha camisa brilhou, e ele hesitou. Aproveitei. A rapieira cortou-lhe o rosto da sobrancelha ao maxilar. Ele recuou, cuspindo sangue negro e blasfêmias em latim corrompido.

— Você ainda reza, humano? — cuspiu.

— Não. Mas minha espada sim. E ela foi batizada.

Golpeei com toda minha força. Kazimierz desviou, mas não viu Monm vindo por trás. Uma das adagas cravou-se em sua nuca. Kazimierz caiu de joelhos. Com um grito, cruzei minha lâmina com a de Monm e decapitamos o maldito.

Dawid, ao ver o fim do irmão, recuou. Mas Monm, agarrando uma perna de cadeira quebrada que jazia próxima a ele, lançou ao chão um punhado de sal marítimo — remanescente de uma das caixas estilhaçadas nas lutas anteriores. O vampiro gritou. Suas pernas queimaram. Corri, saltei, e cravei minha rapieira — não herdada, mas encontrada por acaso como as armas de Monm — em seu peito. Monm finalizou com a estaca improvisada, direto no coração.

Ambos tombaram. O salão silenciou por um instante, até que uma voz gutural rasgou o ar com força ancestral:

— Váš svět se lembrará de mim! Eu sou Václav Vlk! — rugiu o vampiro, a voz mais parecendo um brado bestial do que uma frase compreensível. Não falava com ninguém em particular, mas gritava para a criatura.

Aquela cena proporcionada pelo vampiro nos deu a impressão de ser um clamor de coragem desesperada, uma tentativa de reacender em si a fúria da batalha, como se evocasse sua própria alma pelo nome. Era seu modo de desafiar o abismo com o que lhe restava de bravura.

A fera recuou, como se reconhecesse o nome. Václav, o vampiro que já estava presente desde nossa entrada no armazém, avançava com uma alabarda manchada de um líquido verde claro e tão vivo numa mão e uma pistola de pederneira prussiana na outra. Seus olhos cintilavam com um brilho febril, como de um passado que sangrava na memória da criatura.

O ser imenso começou a recuar, murmurando com insistência, como se as palavras brotassem de um passado ancestral esquecido:

— Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl... Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl...

Monm franziu a testa, sua mente mergulhando em lembranças distantes.

— Anton... esse dialeto... me soa familiar. Mas não é latino. Nem é náuatle puro. O que é isso?

— "Tetl"... pedra. "Tlachinolli"... fogo. Eu li isso num códice maia esquecido, salvo pelo convento de Oaxaca. É náuatle ritual... algo sobre guerra sagrada... sobre o coração do mundo. "In cemanahuac yolotl"... "o coração do mundo inteiro"...

— E por que ele está dizendo isso?

— Porque, Monm... ele está se lembrando de quem foi. Ou do que destruiu...

O silêncio voltou a cair como um véu, denso e prenhe de presságios. E eu sabia... o verdadeiro combate ainda estava por começar.

Anton S. Miahi – Capítulo XXVIII

(Escrito em meu Diário)

Václav Vlk avançou contra o monstro com uma fúria que desafiava qualquer concepção de medo. Não havia espaço para hesitação, tampouco para pensamentos racionais. O combate apenas prosseguia, como um cântico infernal que se recusava a cessar. Por um instante, a criatura permaneceu estática, repetindo aquele mantra estranho — uma ladainha de tempos esquecidos. Monm e eu trocamos um olhar rápido, buscando decifrar o significado oculto.

Foi então que percebemos a presença de dois indivíduos ocultos, agachados próximo às caixas na esquina esquerda do portão inundado. Um deles, trajando roupas negras, tentou se mover com discrição, mas foi percebido. A criatura virou o rosto lentamente, e o vampiro também.

Num átimo, Václav dissolveu-se em névoa, reaparecendo diante do fugitivo. Antes que qualquer um de nós pudesse intervir, o vampiro exibia um sorriso sádico. Num gesto fluido, agarrou o pescoço do homem e cravou-lhe os dentes. Um grito agudo ecoou pelo salão, reverberando entre as paredes úmidas. O infeliz debatia-se, mas sua luta cessou gradualmente. O sangue cessou de fluir.

Sim. Ele estava morto.

Monm e eu partimos em direção ao vampiro. Por um instante, minha mente esqueceu a fera ao lado direito. Esse lapso foi imediatamente punido: uma mão colossal me atingiu com brutalidade, lançando-me contra uma pilha de sacos de arroz e caixas despedaçadas. Senti as costelas rangerem.

Václav riu, limpando os lábios com o dorso da mão.

— Que pena, Monm... pensei que viesse com palavras santas. Mas tudo o que vejo são punhais e arrogância.

Monm não respondeu com palavras, mas com um salto fulminante. Suas adagas cintilaram sob a luz turva do galpão. Václav bloqueou o primeiro golpe com a lâmina da alabarda, girando o corpo com leveza, como se dançasse. A arma passou rente ao rosto de Monm, que se abaixou, deslizando por baixo da guarda do inimigo e desferindo um chute na perna do vampiro. O estalo foi seco, mas Václav mal se moveu.

— Já fui caçado por inquisidores, Monm. Você não é o primeiro... e, convenhamos, também não será o último.

— E ainda assim continua vivo. Deve ser frustrante para o inferno te ver de volta toda noite — retrucou Monm, arremetendo com a adaga da esquerda, mirando o ombro. Václav aparou com o cabo da alabarda, recuou e, com a pistola de pederneira na mão livre, disparou.

Monm rolou para o lado, o disparo arrancando faíscas das pedras do chão. Ele se lançou por cima de uma mesa caída, chutando uma cadeira em direção ao vampiro, que a partiu em dois com a lâmina. Antes que pudesse recuperar o fôlego, Monm já estava sobre ele, desferindo uma série de estocadas com precisão cirúrgica.

— Tua dança está velha, Vlk. Seus passos já não assustam ninguém.

— Ainda assim, fazem sangrar! — gritou Václav, golpeando com a haste da alabarda, acertando Monm no flanco. O som de carne e osso sendo atingidos me fez estremecer.

Mas Monm apenas sorriu, com os dentes cerrados.

— Isso doeu. Mas agora... é minha vez.

Num movimento inesperado, Monm agarrou o pulso do vampiro, torceu-o e cravou a adaga na articulação. Václav urrou, deixando cair a pistola. Um golpe certeiro no queixo, e o vampiro cambaleou. Monm chutou seu peito, lançando-o contra uma coluna. A alabarda caiu. Václav se ergueu com dificuldade, o rosto emoldurado por sangue e ira.

— Isso... é por cada alma que você devorou — sussurrou Monm, avançando como um anjo vingador.

Enquanto o combate continuava, tentei me erguer entre a poeira e o arroz espalhado. A dor irradiava das costas e ombros como brasas sob a pele, mas havia uma centelha de gratidão em mim: benditos sejam os sacos de arroz.

Ao virar o rosto, vi um jovem de traços juvenis — talvez quinze anos, ou um pouco menos. Tremia, choramingava, e fazia preces em alemão — palavras que reconheci vagamente de minha infância em Sevilha, quando um velho tutor luterano me ensinava os ecos esquecidos de salmos germânicos, como relíquias de um passado que se recusava a perecer.

Aproximei-me devagar, sem ameaçar.

— Junge... Junge, bist du verletzt? (Garoto... você está ferido?)

Ele olhou para mim com olhos arregalados. Estava pálido como um cadáver recente, mas vivo.

— Ich... ich weiß nicht... sie haben uns geholt... sie... — Ele começou a soluçar, cobrindo o rosto com as mãos trêmulas.

— Calma... estás seguro por ora. Qual é o seu nome?

— Friedrich. Friedrich Kröger... Ich bin aus Lübeck... (Sou de Lübeck...)

— Friedrich, ouça-me. Você precisa sair daqui. Há uma porta nos fundos. Quando ouvir um estouro — corra. Monm e eu vamos manter essa coisa ocupada.

Ele assentiu lentamente, os lábios movendo-se em oração muda. Seu corpo era só medo, mas os olhos — havia fé neles. Uma fé ainda não devorada.

E naquela hora, percebi que não lutávamos apenas contra carne e ossos distorcidos. Lutávamos para salvar os que ainda lembravam como orar.

Foi nesse momento que a fera urrou, um grito gutural que reverberou nos ossos: não era uma palavra comum, mas um nome — o dele mesmo, urrado com fúria primal.

— Nēhuatl Aloxōtl... Tlāltikpak tzitzimitl! — bradou a criatura, em um dialeto ancestral que escapava das dobras do tempo.

A criatura tornou a rugir, reafirmando seu nome como quem sela a própria maldição:

— Nēhuatl Aloxōtl... in nemiliztli cualli, in miquiztli tlachinolli!

Logo após, num bramido carregado de uma dor que parecia milenar, sua voz rompeu mais uma vez o ar saturado:

— Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl!

— Isso foi... nahuatl? — perguntei, franzindo o cenho, tentando vasculhar a memória por aquela cadência extinta.

A criatura tornou a rugir, como se se recordasse de sua própria maldição: — Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl! — bramiu com raiva quase febril.

— "Pedra e fogo... o coração do mundo... não foi ofertado..." — murmurei, traduzindo de forma tosca e instintiva, com um nó na garganta.

Monm girou o rosto, os olhos arregalados.

— Aloxōtl... ouvi esse nome numa ruína perto de Tenochtitlán. Era um espírito de destruição. Um condenado. Um ser que não devia estar aqui.

— Pelo que li em manuscritos antigos — sussurrou Monm, quase em reverência —, não se trata de um deus, mas de algo que ousou aspirar à divindade. Uma entidade do submundo asteca, forjada nos confins insondáveis de Mictlán. Durante um ritual arcaico, o sacerdote incumbido do sacrifício final hesitou, e nesse instante de fraqueza, o processo foi interrompido. Em vez de ascender ao plano dos deuses, a entidade se amalgamou à carne de seu invocador — um sumo sacerdote já corrompido pela ambição e pelo sangue. Desde então, vagou pelas fronteiras da existência, presa entre mundos, entre o éter e a matéria. Forças ocultas, possivelmente ligadas a ritos de translocação do Velho Mundo, o arrancaram de seu tempo e o lançaram para cá, como uma relíquia maldita do México ancestral, retida entre o ontem e o eterno, entre a morte e a memória sagrada.

A criatura urrava para o vazio: uma besta tentando lembrar a si mesma de que ainda existia — ou, talvez, anunciando sua danação ao mundo. Václav hesitou por um breve instante, distraído pela súbita irrupção daquela brutalidade animalesca.

Monm, atento como um lobo à espreita, percebeu a brecha. Estava de frente comigo, tendo o vampiro entre nós. A criatura se encontrava à esquerda de Václav, a mais de dez metros, ainda imersa em sua fúria desgovernada. Aquela era a chance. Nossos olhos se cruzaram, e sem necessidade de palavras, compartilhamos um plano silencioso: era preciso agir com rapidez. Com um leve movimento de cabeça, Monm sinalizou que, a qualquer momento, eu deveria correr.

Václav então se voltou para a criatura, em tom zombeteiro:

— Quem és tu, besta? Um espírito faminto preso em carne e osso? Um cão molhado rosnando contra os vivos? Esperava mais de um espectro milenar!

A criatura respondeu com um grunhido gutural, o som de séculos de ódio condensado em um só instante. Monm, sem perder o ritmo, rebateu com sarcasmo:

— Cuidado, Vlk... alguns cães mordem mais forte que o inferno.

Enquanto a tensão crescia entre as feras, deslizei pelas sombras, cada passo sussurrando segredos ao chão. Mas o monstro percebeu. Seus olhos faiscaram com fúria repentina. Num rompante animalesco, lançou-se contra mim.

O impacto foi devastador. Rolei para o lado, escapando por pouco das garras que despedaçaram o solo. A criatura girou com velocidade absurda, mas eu já me esgueirava entre colunas e destroços. Era a dança do desespero.

Monm aproveitou o momento. Saltou sobre um caixote, alavancando o próprio corpo com as duas lâminas empunhadas. Ignorando a fera, lançou-se diretamente contra Václav Vlk, mirando-lhe a garganta com precisão mortal. Um golpe que teria sido fatal — se Vlk fosse um homem comum. Ao aterrissar, Monm ficou perto demais do monstro, que girou com brutalidade e o lançou contra uma pilastra com um baque seco. Mas ele se levantou, os olhos ainda fixos em Vlk. Era ali que residia o verdadeiro perigo.

Enquanto isso, avancei com ele, olhos cravados na figura do vampiro.

Friedrich, o jovem alemão, permanecia em silêncio, oculto nas sombras, até que recebeu um sinal sutil de minha parte: quando chegasse o momento certo, deveria correr.

Vlk, com seu sorriso cruel e presunçoso, continuava a provocar a fera, divertindo-se com o caos.

— Essa tua arrogância vai te enterrar mais fundo do que essa criatura, Václav — retrucou Monm, sem vacilar.

A fera, enlouquecida, desviou seu olhar em minha direção, captando o rastro dos meus movimentos furtivos. O instinto selvagem tomou o leme; o pouco de controle que ainda restava se desfez.

Num novo surto de fúria, a criatura investiu contra mim. Esquivei-me com precisão treinada — cada gesto ensaiado como um ritual de sobrevivência. E o combate explodiu como um trovão em plena catedral: brutal, frenético, cruel.

Lutávamos: carne contra garras, aço contra ossos. Minha lâmina rapieira feria, desviava, provocava — açoite de precisão em meio à selvageria. Os dentes da besta rasgavam o ar, tentando encontrar minha carne, mas seus ataques falhavam por um fio de segundo, desviados pelo instinto que a dor e o medo haviam aguçado em mim. Ao fundo, Monm, já de pé, avançava novamente contra Václav Vlk, forçando o vampiro a recuar entre imprecações sibilantes e risos ácidos como fel.

A batalha era uma tempestade viva: o cheiro metálico do sangue e da carne queimada flutuava no ar, entrelaçado ao som de passos frenéticos e urros que pareciam brotar das entranhas do próprio inferno.

Friedrich, os olhos arregalados como espelhos de pavor, aguardava — só aguardava — o instante certo para fugir, enquanto ao seu redor o destino se desenrolava em aço e sombras. Sinalizei com um gesto firme, apontando a porta estilhaçada pela colisão com o cadáver do ghoul. Sem hesitar, ele correu. Não olhou para os lados, não gritou, apenas correu, com a alma cravada no instinto de sobrevivência. Ele realmente queria viver.

Não que Monm e eu não desejássemos o mesmo — mas sabíamos demais. Estávamos presos àquele lugar por laços que transcendiam o medo: honra, missão... ou maldição.

Movi-me entre pilhas de caixas, escombros e colunas rachadas, buscando uma posição vantajosa. Quando encontrei um ponto seguro de onde pudesse agir, sinalizei ao meu aliado. Monm captou o gesto, e então — como um maestro no ápice de sua sinfonia — investiu contra o vampiro com uma série de ataques fulminantes. Seus golpes eram rápidos e certeiros, movendo-se com a precisão de um guerreiro treinado além do tempo. Vlk, por sua vez, desviava-se com a graça de um predador antigo, empunhando uma alabarda com uma fluidez quase coreográfica.

Foi nesse instante que percebi algo além. O vampiro começara a recitar palavras em um idioma antigo, estranho e profundamente blasfemo. As vibrações desse discurso pareciam rachar o próprio ar. E então, surgiu uma nova presença.

Sentado sobre um monte de caixas quebradas, havia um ser cadavérico. Usava o que parecia uma coroa retorcida, um cajado disforme nas mãos esqueléticas, e vestes que lembravam restos de veludo cerimonial misturado a mortalhas profanadas. Sua pele era fina como pergaminho seco, e seus olhos... vazios, gélidos, observavam a cena com a paciência de um juiz das eras.

Não havia tempo para contemplações. Voltei-me para o vampiro justo no momento em que Monm me fez novo sinal. Sem palavras, compreendi: o ataque final viria agora.

Monm investiu com fúria controlada. Suas duas adagas riscaram o ar em movimentos oblíquos e alternados, forçando Vlk a recuar até a grande mesa redonda que jazia no centro do salão em ruínas. A madeira rangeu sob seus pés. O vampiro tentou usar a alabarda, mas Monm a prendeu com um giro acrobático de uma das lâminas, enquanto a outra ameaçava sua garganta — travando-o por um instante precioso.

Aproveitei. Lancei-me com toda a força contra o flanco do inimigo. O impacto o desequilibrou — e foi o bastante. Monm saltou, girando no ar como uma sombra viva, e desferiu o golpe final: um corte horizontal que atravessou o pescoço de Vlk. O som foi abafado, como se o tempo se comprimisse ao redor do aço. A cabeça tombou com um baque surdo, rolando pela mesa antes de cair ao chão, estalando contra as pedras como um cálice profano.

O corpo do vampiro ainda estremeceu, como se tentasse agarrar os últimos instantes de uma eternidade roubada. Depois, tombou — e a escuridão ao seu redor pareceu estremecer com seu fim.

Ofegantes, Monm e eu trocamos um olhar — sabíamos que aquilo era apenas o prelúdio. Pois o ser que nos observava, imóvel, ainda não havia feito seu movimento. Mas a criatura — o monstro ancestral — também o percebeu.

Ergueu-se com violência, liberando ao redor uma nuvem de névoa pútrida e tóxica que nos obrigou a recuar alguns passos. O ar se tornava mais denso, os olhos ardiam, e o coração parecia pulsar em outro ritmo diante daquela emanação sobrenatural. Então, como se tomada por uma cólera divina, a criatura bradou seu próprio nome com voz que reverberava nas entranhas do templo:

— Aloxōtl!

E, com a mesma fúria, bradou o nome do reino que a pariu nas trevas:

— Mitclan!

Num ímpeto de fúria atávica, Aloxōtl lançou-se sobre o visitante cadavérico, suas garras envoltas pela neblina venenosa que exalava como um manto de morte. O ar vibrou com a colisão iminente. Mas o estranho se ergueu com uma calma profana, como se cada movimento seu estivesse sintonizado com os relógios do juízo. Quando a criatura alcançou seu alcance, ele ergueu o cajado, que brilhou com uma luz âmbar soturna, desviando o golpe com um arco de energia espectral. Antes que a criatura pudesse contra-atacar com as presas escancaradas, ele girou o cajado como um bastão de sentença, bloqueando a mandíbula infernal com precisão inumana. O som do impacto ecoou como um trovão abafado num túmulo selado — e a batalha transcendia agora os limites da carne, entrando no domínio das forças esquecidas.

A cena que víamos, tanto eu quanto Monm, beirava o patético — mais para nós do que para o recém-chegado. Pelo simples fato de que ele parecia não empregar esforço algum em conter o Aloxōtl.

— Ele... está brincando com ele? — sussurrei, mantendo os olhos fixos na criatura cadavérica.

Monm, limpando o suor da testa com as costas da mão, assentiu com um leve movimento de queixo.

— Parece mais uma dança que um duelo — murmurou. — Mas quem, em nome do Altíssimo, é esse sujeito?

Como se ouvisse a pergunta lançada ao éter, o ser virou-se lentamente para nós. Seus olhos, vazios como a eternidade, cravaram-se nos nossos.

— Chamo-me Tezcal — disse, a voz de barítono soando como um canto sepulcral. — Fui criado das cinzas e do lodo pantanoso do Mitclan, uma fusão sombria de elementos terrenos e divinos, infundida com o sangue de Xolotl. Sou o reflexo entre os mundos. Moldado como um intermediário entre os vivos e os mortos, minha existência tem como objetivo manter o equilíbrio no ciclo da vida e da morte.

— És um necromante? — perguntou Monm, dando um passo adiante.

— Não — respondeu Tezcal, com calma imperturbável. — Sou o eco dos que caminham sem corpo, a vigília dos que repousam em ossos. Não comando os mortos. Eu os ouço.

O silêncio que se seguiu era denso, quase sólido. Aloxōtl, apesar da fúria anterior, recuava em círculos lentos, como um animal que pressente uma força que transcende sua fúria.

— E por que agora? — perguntei. — Por que intervir presentemente?

Tezcal apoiou o cajado no chão. O som ressoou como se ecoasse nas catacumbas do mundo.

— Porque o véu entre os mundos foi rasgado. Vocês o rasgaram. E ele... — olhou para Aloxōtl, cuja névoa começava a perder intensidade — não deveria ter atravessado.

Monm cerrou os punhos.

— Vai destruí-la?

— Não — respondeu Tezcal. — Vou devolvê-lo ao sono que jamais deveria ter sido interrompido.

Tezcal começou a murmurar. Um canto em dialeto azteca, antigo como os ossos da terra, deslizou de seus lábios como uma oração invertida. Gradualmente, o sussurro tornou-se canto pleno, ressoando nas paredes com ecos que pareciam vir de debaixo da pele do mundo. O ar gelou — não com frio comum, mas com o gélido das tumbas abertas. As sombras, até então imóveis, começaram a deslizar pelo chão como serpentes, convergindo para o recitador.

Aloxōtl, num último ato de cólera, tentou investir contra Tezcal — suas garras enegrecidas pelo veneno, sua boca aberta num rugido ancestral. Mas o ambiente pesava como chumbo, e a própria matéria parecia se curvar ao rito.

— Anton... — sussurrou Monm. — Isso... isso é um ritual de banimento?

— Parece mais um julgamento — respondi, com a mão instintivamente sobre a cruz que repousava sob meu manto. E ela queimava. Queimava com um brilho índigo, como se o céu clamasse por ordem.

Tezcal então silenciou. No mesmo instante, a criatura foi tragada do chão por uma areia negra e espessa, que brotou sob seus pés como uma fauce aberta. O som era de carne sendo puxada por ganchos, de ossos esmagando vidro. O odor de carne podre, sangue envelhecido e enxofre empestou o ar. E antes que pudéssemos reagir...

— Não... isso não é apenas magia — tentei dizer, mas a frase morreu em minha boca.

Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Sem data — Meu despertar foi pesado. Lento. Tardei a abrir os olhos, como se houvesse em mim um receio instintivo de confrontar o que quer…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Anton S. Miahi XXV

(Escrito em meu Diário)

Sem data — Meu despertar foi pesado. Lento. Tardei a abrir os olhos, como se houvesse em mim um receio instintivo de confrontar o que quer que o mundo, em sua crueza, tivesse a me oferecer. Havia uma sensação estranha, como se algo em minha mente tivesse sido libertado — uma prisão sutil se desfazendo em fragmentos de lembranças. E então, o recordar do encontro com Var’Ghul, a criatura que invadira meu íntimo, expondo segredos que eu mesmo havia enterrado, julgando-os mortos para sempre.

Lá estavam: memórias, sentimentos, angústias... todos exumados com a delicadeza brutal de um coveiro sem alma.

Mas algo me chamou a atenção. O frio — companheiro constante — havia desaparecido. Nem vento, nem chão gelado. Em seu lugar, um calor tênue, uma quietude... uma maciez que envolvia meu corpo fatigado. Abri lentamente os olhos. A luz era suave, amarelada, e sombras dançavam pelas paredes como espectros tímidos.

E então, uma imagem tomou forma: um rosto gentil, sereno, com olhos doces e convidativos. Seus cabelos eram longos e escuros como a noite sem luar. Sua beleza era ímpar, angelical — exótica demais para que eu pudesse descrevê-la com justiça.

De súbito, ergui-me num pulo, quase instintivo — alerta, ainda tomado pela sensação de ameaça. Meus olhos percorreram o ambiente, buscando pistas, tentando entender onde me encontrava.

Ela sorriu com delicadeza. Sua presença, no entanto, não transmitia hostilidade.

— Siehiffar, é como me chamo — disse ela, num tom baixo e educado. Sua voz, de contralto, era como música em câmara fechada — ressoava macia, íntima. — Você é um dos moradores do castelo... daqueles que foram convidados! — Havia uma curiosidade tênue em seu falar, uma leveza que ocultava um mundo de experiências.

— Chamo-me Anton Stefan Miahi. Sou historiador... e oficial do exército francês — respondi, sem saber por que minha língua se soltara com tanta facilidade. — Ainda estamos no Castelo de Drácula?

Deixei os ombros relaxarem, adotando uma postura menos defensiva.

Ela trajava um esplêndido vestido azul, ricamente adornado com rendas em prata e bordados dourados que pareciam brilhar à luz da lareira. Uma tiara dourada repousava em seus cabelos, cravejada de pequenas pérolas e pedras translúcidas. Seus colares pendiam delicados sobre o colo, compondo uma figura que evocava tanto realeza quanto mistério.

— Sim, estamos. Onde mais deveríamos estar? — disse, agora com um sorriso zombeteiro, embora isento de malícia. Seu olhar era jovial, sagaz — um jogo sutil entre o encanto e a astúcia.

— Entendo... — murmurei, hesitando. — Como vim parar neste cômodo? Quem me trouxe?

A pergunta brotou da angústia. Havia algo naquele lugar — em mim — que não se encaixava.

Ela demorou a responder. Voltou-se para a lareira, estendeu os braços até uma pequena mesa de centro. Nela, duas xícaras de porcelana branca, ornadas por folhas azuis, repousavam ao lado de uma chaleira do mesmo padrão, da qual ainda subia um fio de vapor.

Com delicadeza, ela serviu o chá. Estendeu uma das xícaras a mim, reservando a outra para si. Tomei a que me fora oferecida. Ela sorveu um gole com tranquilidade antes de falar.

— Uma pessoa o trouxe até aqui. O senhor estava desacordado. Havia sangue em muitas partes de seu corpo. Suas roupas, rasgadas — disse, pausando para olhar o fundo de sua xícara. — Var’Ghul é uma criatura estranha. Suas ações são, para mim, um mistério constante. Nunca o vi com meus próprios olhos... mas já encontrei os que ele chama de “réus”.

Ela me fitou com uma expressão de pena e estranha curiosidade. Algo em seu olhar fazia minha pele se arrepiar.

— Mortos... ou vivos. Os vivos raramente saem incólumes desses encontros — murmurou, quase triste. Havia em sua voz um eco de vivências amargas. — Senhor Miahi, o castelo chamou por você. Estar aqui é privilégio para alguns, uma saída para outros... mas há quem veja tudo isso como uma prisão. Qual é a sua visão?

A pergunta me atravessou como uma lâmina fria. Ela dissera com tanta leveza... e, no entanto, a questão me lançou ao abismo do pensamento.

Não vim apenas para aprender. Vim para questionar o impossível. E em troca recebi a quebra de paradigmas, a dilaceração da fé, a desconstrução de minha identidade. O castelo tornou-se espelho de tormentos. Um mosaico maldito de enigmas e horrores.

— Este lugar era para ser um templo do saber, senhorita — disse, tentando conter o tremor na voz. — Mas revelou-se um mar tempestuoso. Um quebra-cabeça sujo de sangue e sombras.

— Nem tudo é o que parece — disse ela, indulgente. — Talvez exista algo além. Algo mais...

Antes que ela pudesse concluir, deixei escapar uma risada amarga, quase histérica.

— Neste lugar, senhorita Siehiffar, quase fui morto. Fui levado a outros mundos. Transformaram-me em algo que mal reconheço — meio homem, meio máquina, um híbrido nascido da dor. — Caminhei até a parede e, com meu braço mecânico, esmaguei os punhos contra a pedra com força. — Já vivi horrores antes. Mas nada... nada como isto.

As semanas — os meses — foram apenas sucessivas descidas numa espiral de insanidade. E, mesmo assim, minha maldita curiosidade, minha obsessão em resolver os enigmas... mantinham-me aqui.

— Pois deveria parar de chorar! — rugiu uma voz atrás de Siehiffar. Reconheci de imediato o timbre grave e metálico de Monm.

Ao me virar, lá estava ele, encostado como uma sombra sólida.

— Para um homem que sobreviveu à guerra, parece frágil como vidro — zombou.

Uma mescla de raiva e incredulidade apoderou-se de mim.

— Você sabe que nada do que vivi aqui poderia ser suportado por uma mente comum! — apontei o dedo para ele com fúria contida. — Revivi a morte de meu irmão. Vi o espírito dele... ou aquilo que tomou sua forma. Não sou homem de fé, Monm, mas o sobrenatural me golpeou até que eu sangrasse por dentro.

Ergui meu braço mecânico, adornado com os circuitos do éter. Um símbolo da monstruosidade que haviam me imposto.

— Vamos, Anton... — disse Monm, num tom paternal. — Estás apenas despertando. O mundo tem segredos, e nós conhecemos só uma fração do todo. Tu agias com complacência... e agora, te vês à beira do abismo.

Ele se aproximou mais.

— Cuidado, homem... quem olha demais para o abismo, acaba por ser olhado por ele. E há os que não voltam mais.

Silêncio. A pergunta pairou no ar como um punhal.

— Qual é o caminho que seguirás?

E eu... não soube responder.

Anton S. Miahi XXVI

(Escrito em meu Diário)

10 de novembro de 1871 — Vi-me surpreso quando questionei Monm sobre a data. Em minha mente, acreditava terem se passado somente algumas poucas semanas. O último registro datado remontava a agosto. Esquecera-me de como o tempo, neste lugar é instável, maleável — como se fosse manipulado por mãos invisíveis.

Segundo Monm, estive desacordado por três dias. Quanto aos períodos anteriores… um completo mistério. Mesmo minha estadia na prisão-laboratório de Arturo é um borrão. O confronto com a fera na Igreja parece ter ocorrido há séculos e, ao mesmo tempo, ontem.

Ainda recordo aquele senhor barbudo. Julgo que fosse um líder entre os seus. Solicitou que eu aceitasse algo — o quê, exatamente? Ah, sim... "a verdade da Igreja." Isso mesmo. Soou estranho à época, mas agora me é quase familiar.

Apesar de o reencontro com Monm ter começado de forma um tanto acalorada, logo tive oportunidade de ponderar e buscar respostas. Indaguei-lhe sobre o povoado ao norte, e a Igreja ali presente.

— Monm, quem são aqueles monges que vivem no povoado ao norte do castelo? — Observei o viajante, concentrando nele todo o peso do meu olhar e da minha expectativa.

Ele fitou a lareira, inspirando fundo, como se buscasse forças num passado distante.

— Não achei que se lembraria... mas esqueci que os chamados para este castelo têm algo em comum: seus registros. Certo... — sua pausa foi pesada, quase teatral. Uma sombra de frustração lhe desfigurou o semblante. — Eles são um grupo que, nesta linha do tempo, não teme os eventos do castelo. Parece tratar-se de uma ordem religiosa oriunda da Prússia. Alguns de seus monges... foram corrompidos por Nestor. Aquele vampiro possui o dom de seduzir mentes frágeis.

Essas informações me deixaram inquieto. Uma Igreja prussiana? A Prússia tem garras longas, penetrando em todos os confins. Se vinham de lá, podiam ser católicos, luteranos… ou dissidentes, tachados de hereges, como os de certos grupos na Holanda.

— Presumo que o convite que recebi tenha sido armado por um desses monges. Recordo-me de que era bastante jovem. Pena não ter memorizado sua fisionomia... — Senti minha frustração aflorar. Talvez, se o tivesse observado melhor, poderia agora persegui-lo. — No grupo, há um homem de longa barba branca? Robusto, talvez?

Monm refletiu. Fitou o chão como quem escava a memória. Seus olhos brilharam ao encontrar algo.

— Ah, sim. Esse homem vem da Holanda. Chegou a estas terras há alguns anos, com quase nada. Um andarilho comum. Seu sobrenome é Hans... o nome, Sander. Sander Hans, é assim que se chama. Por quê? — indagou, num tom apático.

— Após meu confronto com a besta vinda do espelho — trazida por um dos monges — ,fiquei caído, ferido. Ele, o tal Sander, falou algo sobre aceitar a verdade da Igreja... que somente isso poderia me salvar. — Minha voz vacilou, mergulhada em uma memória incômoda. Nunca fui de crer em entidades superiores… — Mas, naquele momento, eu queria viver.

Todos os olhares voltaram-se para mim. Um desconforto silencioso se instalou. Um prenúncio.

Siehiffar ajeitou-se no sofá. Seus olhos cintilavam com genuína curiosidade, enquanto Monm apenas mantinha sua atenção fixa em mim.

— Senhor Miahi, que relato peculiar. — Um brilho quase infantil tomou o rosto de Siehiffar, como se houvesse desenterrado uma relíquia. — Então... algo já havia começado antes. Achei que o encontro com a criatura de Olga fosse o início. Mas não. Já havia ecos meses antes.

— Você disse: "criatura da Olga"? — Não pude conter minha surpresa. — Var’ghul foi criação da Olga?

O olhar de Monm para Siehiffar era carregado de reprovação. A jovem mordeu os lábios — como quem se arrepende da travessura dita.

— Siehiffar, às vezes o silêncio é a melhor escolha. — disse Monm, soando como um mestre que repreende a pupila. — Sim, Var’ghul é uma criatura forjada aqui, no castelo. Uma consequência maldita dos experimentos de Drácula com o éter... com objetos, com almas condenadas.

Eu queria não acreditar… mas depois de tudo — depois de ver meu próprio corpo se tornar híbrido de homem e máquina, tal revelação já não me feria com tanta força.

— Certo, certo. — disse Siehiffar, desviando o peso da conversa. — Abdalla, perdão... esses fatos são novos para mim. Mas parece que a fé tornou-se uma chave essencial ao senhor Miahi, ainda que ele próprio não o perceba.

Monm meditou sobre aquela fala, então caminhou em direção ao cesto de lenha, agachando-se em silêncio. Seus gestos denunciavam que arquitetava algo em sua mente.

— Abdalla? — questionei, em voz alta.

— Sim, é esse o nome dele. Não sabia? — Siehiffar soltou uma risadinha e levou a mão à boca. — E eu me chamo Siehiffar Monm.

Essas revelações fizeram-me recostar na poltrona ao lado do sofá onde ela estava.

— Não sabia. Monm nunca me contou. A bem da verdade, nunca tivemos tempo para conversas. Sempre havia algo... interrompendo tudo — falei, quase com incredulidade.

— Anton, isso não é o foco. — A voz de Monm cortou minha dispersão, trazendo-me de volta ao núcleo do mistério. — Há muitas coisas que não pude, não posso e jamais poderei revelar. Siehiffar cresceu neste lugar. Seus olhos veem o mundo de forma distinta. Até para mim, às vezes, ela é um enigma. Uma aprendiz que instiga seu próprio mestre.

Notei, enfim, o ar místico que pairava ao redor dela. Uma presença diferente de tudo o que eu já havia experimentado. Algo nela era... profundamente incomum.

— Var’ghul encontrou um modo de me chamar. — disse Monm. — Aquela criatura é tudo, menos injusta. Quando o encontrei caído em sua torre de julgamento, havia algo em sua mão. A criatura afirmou não tê-lo deixado lá.

De seu bolso, Monm retirou uma corrente e, logo em seguida, um pingente... uma cruz.

Aproximei-me. À luz da lareira, percebi seu contorno singular: pesada, de metal negro, com uma pedra central roxa. Nos extremos, pequenas pedras azuladas, reluzentes.

— É uma ametista. E essas pequenas são labradoritas. — explicou com voz serena, sempre professoral. — Tome. Pelo que sei, é sua.

Ergui meu braço alterado. Ainda era estranho vê-lo assim: mecânico, frio, tão alheio à carne que um dia o cobriu. Aproximei a cruz dos olhos, examinando seus entalhes. Era bela... e estranhamente familiar. Como se murmurasse meu nome do âmago da alma.

Assim que aquele objeto tocou o metal de meu braço, senti algo — primeiro, uma ansiedade crescente; depois um formigamento sutil. A sensação não me era estranha. Já a havia experimentado antes. Sim… com Monm, nos primeiros contatos com as distorções temporais e, mais tarde, na adega do castelo, ao lado de Áurea. Aquilo fora assombroso — um entrelaçar de lembranças minhas e dela, como se o tempo ali não mais obedecesse a Deus.

— Essas sensações do éter e das torções do tempo são incômodas — murmurei.

— Incompreensíveis, até para mim — respondeu Monm, cruzando os braços, o cenho marcado por sombras de inquietação.

— E, no entanto, tão recorrentes — disse Siehiffar, com a voz suave e firme. Havia nela um tom investigativo que me atravessava como uma lâmina polida.

De súbito, um estrondo — um impacto seco e violento nos interrompeu, vindo de algum ponto próximo. Todos voltamos os olhos à porta, a tensão nos envolvendo como neblina espessa. O receio de que algo — ou alguém — invadisse nossa reunião informal apertou nossos peitos.

— Em que parte do castelo estamos, Monm? — perguntei, tentando manter o controle. — Há alguma arma aqui? Algo com que possamos nos defender?

— No flanco noroeste — respondeu com firmeza. — Próximo à torre, mas fora do alcance da busca de Arturo. Mesmo assim, este castelo é... imenso. Vivo. Parece ter vontades próprias.

Fez uma pausa, os olhos vasculhando o aposento.

— Atrás daquela porta, há um corredor que leva a um salão usado como armazém. Há um portão para o exterior e uma rampa em L que desce pela encosta da montanha até o vale. Creio que você conhece essa região, Anton — explicou, enquanto revirava um armário à minha esquerda. Sua voz tornara-se grave, baixa, tentando não denunciar nossa posição.

Então, um grito — quase bestial. Um som gutural que fez meus pelos se eriçarem. Meu coração acelerou. A respiração se tornou densa. Aquilo me transportou de volta à guerra. Era como se a morte soprasse novamente em minha nuca.

Começamos a vasculhar o ambiente, buscando algo que servisse à batalha. Logo, Monm encontrou algo.

— Anton, isto pode ser útil — disse, afastando-se para que víssemos.

Dentro do armário repousavam três armas: duas adagas longas, uma adaga curta e uma rapieira.

— Estou mais habituado a armas longas. Dê-me a rapieira — pedi.

Empunhei-a. Seu peso, seu comprimento, seu equilíbrio — tudo nela me falava. Sentir aquele metal em minhas mãos trouxe-me uma paz estranha, como reencontrar uma antiga companheira.

Monm ficou com as adagas. Para nossa surpresa, Siehiffar, sem hesitar, tomou para si a adaga curta. Um brilho de determinação cintilava em seus olhos. Estávamos armados e, mais do que isso, preparados. O espírito, silente, mas desperto.

— Vamos pensar. Monm, você abre a porta. Eu fico à esquerda. Siehiffar, de frente. Não atacamos primeiro; observamos. — propus, ajustando minha postura de combate.

As pancadas intensificaram-se. Metal contra metal. Sons ocos e ressonantes. Atrás daquela porta, um combate feroz desabava como tempestade sobre penhasco.

Antes que pudéssemos agir, um estrondo seguido por uma explosão. Fomos à porta. Monm posicionou-se atrás dela, eu ao seu lado oposto, e Siehiffar de frente. A urgência pesava no ar.

— Um... — sussurrou Monm, começando a contagem.

Abrimos a porta com cautela. O corredor estava iluminado pelas tochas de Arturo. Nenhum sinal de batalha — mas os sons ainda ecoavam, cada vez mais perto.

Monm se voltou para a jovem.

— Siehiffar, daqui você não passa. Não sabemos o que há adiante. Daqui, você pode fugir pela passagem do tempo.

Sua voz era suave, mas firme. Um mestre zelando por sua pupila. Contudo, ela não se calou.

— Um dia terei de ver o mundo, Monm. E o mundo terá de me ver. — Sua voz era uma chama contida. Pela primeira vez, vi desaprovação em seu semblante.

Monm e eu seguimos. Antes de partir, olhei para trás.

— Quanto antes resolvermos isso, mais rápido voltaremos. — Minhas palavras eram de aço, moldadas pela disciplina militar que me guiava.

O corredor era breve. Ao alcançarmos a porta do armazém, ouvimos gritos — e então a porta explodiu. Um corpo juvenil foi arremessado contra a parede de pedra, tombando ao chão como boneco sem vida.

Aproximei-me das sombras do umbral. No interior, o confronto prosseguia. Monm examinava o corpo: um jovem desfigurado, com vestes negras e uma cruz branca no peito. Um clérigo? Um guerreiro da fé? Mas o que fazia aqui?

Dei um passo à frente. A batalha me chamava.

E meu sangue… já começava a fervilhar.

Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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7 - Um rastro de luz vívida atravessa a morte

Após revirar o laboratório de Viktor, ainda restava toda a casa a ser vasculhada. Minha mente era um mar revolto; preocupado com ela, eu tentava…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Após revirar o laboratório de Viktor, ainda restava toda a casa a ser vasculhada. Minha mente era um mar revolto; preocupado com ela, eu tentava relacionar as pistas que encontrara no laboratório. Aqueles frascos com nomes de mulheres vazios, o aroma forte de éter, o caderninho repulsivo de Viktor… Havia algo ali que eu ainda não conseguira decifrar. Era como colar os cacos de um vaso que, mesmo restaurado, jamais voltaria a ser inteiro.

Decidi subir as escadas para continuar a procurar por pistas que me levassem até ela. Mesmo que o vaso nunca mais pudesse ser o mesmo, eu precisava reconstruí-lo. Eu nunca encontraria a paz caso não o fizesse. Talvez, antes de morrer, Viktor a tivesse matado e escondido o corpo. Há coisas desagradáveis pelas quais temos que passar, que nos forjam; então, se eu tivesse que descobrir que ela estava morta, assim seria. Mas, antes disso, eu tinha de ver o corpo e tocá-lo. Sim, eu não poderia morrer sem saber que toquei sua pele, ainda que gélida, ao menos uma vez. Então optei por investigar no quarto dele, que não fora mais aberto desde a noite em que removeram o cadáver do casarão.

Girei a maçaneta lentamente, com hesitação. A figura de Viktor gritando comigo com os olhos arregalados de pavor e asco, ordenando que eu fosse embora com palavras afiadas como um facão amolado, na noite em que me criou, ainda oprimia meu coração. Apesar de, após o meu nascimento, eu sequer ter entendido o que estava acontecendo, há gestos que não precisam ser ouvidos para serem compreendidos; eles cortam fundo e permanecem esculpidos nas retinas da memória. Mas eu não podia recuar. Ao abrir a porta, meu coração parou, talvez porque eu não soube que reação ter.

O quarto estava pouco iluminado, pois as pesadas cortinas de veludo vinho permaneciam quase totalmente cerradas, permitindo que apenas um fiapo de luz solar atravessasse o tecido espesso. Um cheiro metálico e de carniça ascendeu com o movimento da porta. Era quase o mesmo odor que senti ao resgatar o saco que Sibila jogara no rio Spree. Era o perfume horrível da morte, de carne putrefata, de sangue envelhecido. Desta vez, porém, ele estava seco.

Mirei a cama. Os lençóis, fronhas, travesseiros e toda a parafernália sem a qual os humanos não conseguem dormir não haviam sido trocados desde a morte dele. Como novo proprietário do casarão e de toda a fortuna que Viktor deixara, não permiti que nada fosse tocado ou limpo antes de uma análise minuciosa feita por mim. E logo a hesitação foi substituída pela certeza: Viktor estava realmente morto, e alguém o matara. A cama estava empapada, com uma grande mancha marrom sobre ela e muitos respingos ao redor. Era uma cena dantesca. Não consigo imaginar como a polícia escondeu isso dos jornais. Como suposto filho bastardo, claro, eu soubera que a morte dele não fora por causas naturais, mas me importava tão pouco com sua vida que sequer havia parado para pensar nisso. E Sibila? Por que a polícia não a colocou no rol de suspeitos? Será que ninguém sabia?

Retirei o lenço do meu bolso para poder respirar com mais conforto, apesar do cheiro forte de carniça. Abri as cortinas e as janelas, permitindo que a luz do sol entrasse e se apossasse do quarto. Achei que aquele quarto, tão tomado pela morte, merecia que um pouco de calor e vida o invadisse. Por mais que eu mesmo não me considerasse vivo — nunca fui. Fui feito de morte, de partes de diferentes cadáveres… Um experimento que Viktor, antes de completá-lo, julgava que iria criar um ser perfeito, melhor do que a própria raça humana. Quando ele me viu pela primeira vez, apenas se horrorizou com a minha aparência; Frankenstein nunca quis olhar para me conhecer verdadeiramente. E… nós tememos aquilo que não conhecemos.

Mas na noite da minha criação, ao invés de respeito, admiração e curiosidade pela própria obra, Viktor me concedeu unicamente o seu desprezo, provando que a única coisa que importava a ele era o seu próprio ego. A partir do momento em que eu — vamos ilustrar assim — saí de dentro de sua mente e passei a fazer parte do mundo real, ele passou a me ignorar. O afã, a paixão que existira, era por suas ideias; nunca fora por mim, por ninguém.

Então pude ver com mais clareza. Através dos fachos de luz, muitas partículas de poeira podiam ser vistas, iluminadas e dançando pelo ar, alheias ao que ali se passava ou se passara no quarto, feito retalhos de almas perdidas pelo espaço-tempo. A visão delas sempre me acalmara — exceto naquele dia. Porque, naquele instante, tive a certeza: a pequena chance de mudar minha aparência horrenda morrera com ele — o único homem com conhecimento suficiente para fazer isso.

Meu criador e meu algoz. Como suportar essa verdade inconveniente? Senti o rosto aquecer, rubro de ódio. Éramos semelhantes — quiçá iguais? Talvez eu fosse apenas um fruto que não caíra longe do pé. Cegado por minha própria condição, não pus fim à moléstia que representávamos ao mundo. Estava condenado a viver eternamente só e recluso. Pior ainda: sem ela para amar. E amar… amar? Que presunção a minha. Quem eu penso que sou para almejar tal coisa? Um ser composto por cadáveres, com olhos amarelados, como se estivesse doente, moribundo... Mas alguma coisa em mim recusava-se a perecer, e esse algo era Sibila. Se me aproximo de qualquer ser, assim que sou visto, noto a repulsa. Por que com ela seria diferente? Mas algo dentro de mim recusa isso. Não posso ceder. Tenho de encontrá-la. Tenho de colocar à prova o que minha intuição me diz: que ela é diferente. Que ela é inocente. Que ela está viva!

Encorajado pelos últimos pensamentos, decido explorar cada centímetro daquele quarto. Aos poucos, começo a limpá-lo — não por piedade a Viktor, mas por proteção a ela. Se alguém tivesse que tocar naquele espaço, que fosse eu. Não uma faxineira curiosa e fofoqueira. Tudo o que vi até agora me leva a crer que quase ninguém sabia que Sibila morava aqui. E quem sabia… se calou.

O quarto tinha paredes meio verde-musgo, a metade de cima forrada com painéis de madeira entalhados, com flores enormes e estilizadas. Na parede de trás da cama, havia um brasão da família Frankenstein. Ele era subdividido em quatro partes, ornado com capacetes de guerreiro prata, trevos de três folhas vermelhos. Ao centro, um escudo de coração dourado; nele, um machado de batalha vermelho oblíquo em ouro. A cama de dossel era de carvalho escuro, ricamente entalhada. A cabeceira mostrava a cena de um caçador esticando o próprio arco, à espreita de um cervo. Nada me surpreendia. O que eu mirava era a expressão de um homem ensimesmado, profundamente ordeiro e devotado ao método, exceto pelos lençóis revoltos na cama.

Decido começar a explorar pela Nachttisch. Ao fitá-la, vislumbro o manto que Sibila usava em meu sonho. Estava dobrado sobre ela exatamente como ela o dobrara, antes de sentar-se ao meu lado à beira do precipício onírico. Estendo a mão, toco o tecido e o levo ao rosto. Ele ainda guarda seu perfume, aquele perfume humilde. Mas há respingos de sangue nele — isso me leva a crer que ela esteve aqui e, mais: esteve envolvida com a morte dele. E o mais intrigante de tudo: como era possível eu ter sonhado com um manto idêntico ao que segurava agora em minhas mãos? Isso significa alguma coisa. Significa que, de alguma forma, nós realmente nos cruzamos em alguma realidade existente além deste mundo, dos meros sonhos.

Empolgado, abro a pequena gaveta da mesinha de cabeceira e encontro uma pasta de um couro tão puído quanto o caderno de Viktor, as páginas com os cantos meio sujos e desgastados — decerto de tanto ele as manusear. Naturalmente, ele havia feito muitos estudos sobre tuberculose, a doença que matou sua esposa. Depois dos estudos sobre a doença, havia outros sobre como o cérebro humano se comportava durante o sono… Eram assuntos tão divergentes que eu não consegui desvendar a ligação entre eles. Algumas continham símbolos arcanos ao lado de estudos de uma linguagem desconhecida por mim: traduções do que Viktor chamava de língua Séttimoriana. Séttimor deve ser algum local, então.

Uma tradução, em especial, prendeu minha atenção. Era a descrição de um ritual destinado à transposição de almas entre planos — algo que, segundo o texto, só poderia ser feito através da abertura de fendas dimensionais induzidas em estados de coma profundo ou durante sonhos lúcidos. O processo exigia que o corpo estivesse completamente inconsciente e envolvia um pagamento em sangue, retirado da alma-alvo. À margem, Viktor deixara um comentário enigmático, quase como se falasse consigo mesmo:

“25 de junho de 1869 — Após o procedimento ‘1E’ não ter surtido o efeito desejado, tenho sido atormentado pela alma dela, que se tornou vingativa. Essa é a única explicação que tenho encontrado para os acontecimentos paranormais que vêm ocorrendo. Para os próximos testes, precisarei encontrar um meio de me precaver quanto a isso. Nenhum sinal de Elizabeth, nem em sonho. P.S.: desconfio de que não apenas um corpo saudável seja necessário; pareceu-me necessário algum tipo de compatibilidade. Só preciso descobrir qual.”

Se ele tentava abrir portais entre mundos durante o sono, talvez isso explicasse meus sonhos estranhamente vívidos com Sibila. Estava claro que ele havia testado o ritual em uma de suas vítimas; e, após a morte, ela o deixou com medo. Finalmente eu estava começando a colar os cacos do vaso, isso me fazia entrar em um estado de exaltação tal, que eu sentia o líquido vital correr com força e vigor pelas minhas veias. Apanhei o manto de Sibila, com seus motivos orientais. Ela parecia ter especial apreço por ele. Pretendia devolvê-lo a ela... Senti que estava começando a desvendar o mistério de seu desaparecimento. Voltei ao papel. O que seria essa “compatibilidade” mencionada? Uma condição física? Psicológica?

Senti que as respostas não estavam ali, mas em outro lugar. Havia mais peças desse quebra-cabeça nas profundezas ocultas do casarão — e eu sabia onde procurar. Desci de volta ao laboratório. O odor acre de álcool e ferro me envolveu enquanto me aproximava dos frascos vazios. Comecei a manipulá-los com cuidado. Só então percebi: além dos rótulos com nomes de diferentes mulheres, havia inscrições nas tampas. Em um deles, escrito na caligrafia de Viktor: 1E (Vazio). Mas… se o 1E estava vazio e os outros também, por que apenas esse frasco tinha essa anotação na tampa? Recoloquei o frasco de Eleanor no lugar. Minhas mãos suavam — eu estava curioso, e agora, com medo também. Ao contrário de Viktor, eu nunca fora cético. E ao que parece, ele deixara de ser nos últimos meses.

E se, de repente, Eleanor também viesse me assombrar?

Para evitar problemas, devolvi o frasco à prateleira. Mas, tomado pelo desejo de rever Sibila — e também por uma curiosidade mórbida — peguei o último frasco, o que trazia a etiqueta “Ava”. Na tampa lia-se: 30A. Ao aproximá-lo do meu rosto, levei um susto e quase o derrubei: um rosto ruivo, em agonia, apareceu lá dentro. Larguei o frasco de volta no lugar, ofegante. Seria verdade aquilo? Será que aquele rosto me viu?

As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aryane Braun

Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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O Tribunal das Sombras

30 de Julho de 1871— Resolvi escrever como meu irmão fazia — hábito que nunca tive, mas que, por alguma razão, agora me parece necessário…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Valéria S. Miahi
(Diário pessoal)

30 de Julho de 1871— Resolvi escrever como meu irmão fazia — hábito que nunca tive, mas que, por alguma razão, agora me parece necessário. Estes últimos tempos têm sido estranhos, como se algo no ar tivesse mudado... As pessoas nas ruas cochicham sobre eventos anormais, presságios, vultos à meia-noite. Mas preciso começar de algum ponto.

Ontem, o céu amanheceu como se carregasse um presságio sombrio — um véu cinzento sobre o mundo, pesado, úmido, como os olhos de alguém prestes a chorar. Eu não deveria ter saído. Mas como resistir? Havia algo na neblina da manhã que me chamava, como um sussurro sem língua, como se a própria terra curvasse-se à minha curiosidade.

Vesti meu traje de passeio mais querido — um vestido cor de vinho envelhecido, de tecido modesto, mas digno, com rendas finas nas mangas e na barra, feitas por minhas próprias mãos. O corpete me apertava o peito, não cruelmente, mas lembrando-me que sou feita de carne e limites. Prendi os cabelos loiros e ondulados num coque frouxo, deixando que algumas mechas rebeldes escapassem — um gesto quase instintivo, como se meu corpo dissesse que não sou de me conter.

Segui por uma velha estrada atrás da estufa da senhora Camille, aquela mesma que o jardineiro Rasson jura estar amaldiçoada desde o último verão, quando encontraram o cão da família Moore dilacerado, com os olhos arrancados. Uma cena que ainda ecoa nos corredores do cortiço.

Decidi me aventurar para conhecer melhor a região. No início, o caminho era povoado de casas e passos alheios. Mas, em algum momento — não sei bem quando — percebi que estava só. O silêncio cresceu devagar, feito erva daninha, até que me vi andando entre sombras e pedras molhadas.

Foi então que notei, próximo a uma poça d’água da chuva da noite anterior, algo como um papel encharcado. Curiosa, agachei-me.

— Um jornal?! — murmurei em voz alta, como se precisasse ouvir minha própria presença.

Os últimos dias haviam sido tão intensos que sequer me atentei às notícias. Se Anton soubesse disso, já estaria me repreendendo como o velho Padre Bento — com aquela cara de sermão e voz solene, capaz de transformar até uma receita de pão em pregação.

O que me chamou atenção foi a data... e o trecho ainda legível:

“Na madrugada de ontem, a tranquila neblina que pairava sobre o rio Sena (...) três corpos, dois de mulheres jovens e um de um homem, flutuaram às margens do rio, na degradada área de La Cité.” 

La Cité... sempre soube que aquela região era perigosa, ainda que esteja mais ao norte. As indústrias tomam conta dali, com os ratos e os segredos.

Mas aquelas mortes... ficaram gravadas em mim, como se o papel tivesse sussurrado seu horror aos meus ouvidos. Olhei ao redor, sentindo a terrível sensação de estar só — não só fisicamente, mas em essência. Como se o mundo inteiro houvesse sumido, e eu estivesse esquecida ali, por algo que me observava sem rosto.

A aventura não foi longa. E terminou, confesso, de forma um tanto frustrante — com meus passos retornando apressados para casa, vencida por um medo que julguei infantil... mas será que era? Admito que ler aquela notícia me perturbou mais do que gostaria.

02 de Agosto de 1871 — Despertei esta manhã com minha mãe gritando do andar inferior. Chamava meu nome com urgência — eram seis da manhã, e havíamos trabalhado até quase três costurando roupas para clientes do bairro. Sonhava em continuar dormindo, mas a realidade, como sempre, puxou-me de volta.

Vesti-me rapidamente com uma blusa de algodão creme, bordada nos punhos com pequenas flores azuis, e uma saia de linho escuro, já um pouco desbotada. Amarrei um xale nos ombros e prendi os cabelos com fita — não por vaidade, mas porque o vento de agosto é traiçoeiro.

Do cortiço até o mercado não se leva mais que dez minutos. Paris é viva, pulsante, e mesmo em sua miséria se encontra tudo — de frutas maduras a sorrisos feridos.

Na esquina sul do mercado, um menino, talvez de doze anos, gritava como um arauto do caos, com uma pilha de jornais sob o braço:

— As notícias de Paris em primeira mão! Notícias fresquinhas, vindas do Sena e dos infernos!

— Garoto, me entregue um.

— Me chamo Giules, senhora. Aqui está — disse com orgulho, entregando-me um jornal com as mãos sujas, mas o coração limpo. Seus olhos castanhos eram grandes, atentos, cheios de uma esperança que Paris ainda não lhe roubara.

A manchete fez meu peito apertar:

O Caso dos Corpos no Sena

Segundo a Gendarmerie nationale, as investigações têm sofrido entraves, o que gera insatisfação entre o maire e o conselho público. Durante a madrugada do dia 29 de agosto, um acontecimento inédito ocorreu: os corpos, que haviam sido levados à Universidade de Paris, desapareceram misteriosamente. Além disso, oficiais da Gendarmerie foram mortos num possível confronto. Houve um incêndio numa das alas da instituição. Moradores relataram sons estranhos, semelhantes a grunhidos, e uma testemunha afirma ter visto uma “entidade com asas de morcego” voando rumo ao céu.”

Naquele instante, o som das ruas sumiu. O burburinho, o ranger das rodas das carroças, o tilintar das moedas — tudo foi engolido por um silêncio cruel. Meus olhos ardiam. Minhas mãos tremiam.

Senti algo puxar minha manga.

— Se... senhorita, está bem? — A voz infantil de Giules me trouxe de volta. Devia estar com uma expressão horrível, pois ele me olhava com preocupação genuína.

— S... sim. Estou bem. Só me surpreendi com a notícia...

— Mas o que diz aí de tão assustador? — perguntou com uma inocência quase cruel.

— Coisas de adulto. Você... não sabe ler?

— Não, não sei — respondeu com os olhos agora escurecidos, como se a vergonha tivesse feito sombra sobre eles.

Antes que eu pudesse dizer algo, alguém gritou seu nome ao longe. Ele correu com os jornais ainda nos braços, mas a meio caminho parou, virou-se e sorriu. Um sorriso sincero. Aquele tipo que ilumina mais do que o sol da manhã.

E foi assim que o dia começou. Com um rastro de fogo dentro de mim, e a estranha certeza de que algo invisível está se movendo pelas ruas de Paris — e talvez, também, dentro de mim.

Anton S. Miahi XXII
(Diario pessoal - Póstumo)

Sem data – Escritura feita em meu caderno, entre as trevas e o fôlego último da razão.

A realidade dentro daquela cela, mais do que contrastante, era um espelho estilhaçado da sanidade. Havia em mim a dúvida como uma ferrugem, roendo os pilares da mente. Olhei meu braço — aquilo que outrora fora meu — agora uma mescla profana de carne, metal e Éter.

E então, a aparição: Alonso.

O espectro de meu irmão. Sua forma trêmula, seu olhar suplicante, e seu desaparecimento... como se houvesse sido tragado pelo próprio abismo.

Minha mente, ainda enegrecida pelas dores da transformação, foi domada pela frieza com que a guerra me educou. Era preciso calar o pavor e erguer a razão.

Levantei-me do chão pútrido com o vigor desesperado dos que nada mais têm a perder. Voltei, arfante, à sala onde Arturo cultivava suas abominações. O ar me feria o peito como vidro moído. O coração pulsava alto demais — não sabia se era um tambor de vida ou o prelúdio da morte.

Vasculhei a sala com olhos de predador.

Meu olhar caiu sobre um baú, ao lado de uma mesa profanada por tubos de vidro que cintilavam com líquidos de cor e textura inexplicáveis.
 Aproximei-me. Ajoelhei. A tranca — aberta.

— "Ele realmente não teme que alguém fuce seus segredos..." — murmurei, mais para as sombras do que para mim.

Abri a tampa com mãos trêmulas. As dobradiças rangiam baixinho, como se também temessem o que revelariam. Lá dentro, relíquias de um delírio científico. Artefatos que não pertenciam ao nosso tempo. Objetos frios, inumanos. Mas um deles...

Uma arma.

Estranha, quase bela.

 Não como as que portei na guerra, mas era certamente feita para matar. Examinei-a. O cano, os mecanismos, o gatilho... uma peça híbrida, como eu.

Pensei:

— "Se há uma arma, a munição há de estar próxima..."

Havia. Um estojo de projéteis cintilantes, como se fossem alimentados por luz. Carreguei a arma, improvisando um treinamento silencioso.

Precisaria confiar nos instintos.

Mais adiante, encontrei uma barra de ferro.

Não era meu sabre, mas seria minha extensão se a arma falhasse. Prendi-a ao cinturão, e com a arma em punho, respirei fundo.

E marchei.

Corredores estéreis e úmidos, paredes que choravam sangue seco e fungos. O ar pestilento oscilava entre mofo e morte.

Passei diante da cela da jovem... um nó me subiu à garganta. A lembrança do sofrimento dela, de sua expressão vazia, perfurou meu peito.

Segui.

Não sabia onde estava. Subterrâneos? Ala superior do castelo? As paredes não respondiam, apenas gemiam. Os corredores, talhados em pedra e pecado, faziam curvas labirínticas. Então, sob a luz doentia de uma lamparina, lembrei-me do diário de Arturo que ainda trazia comigo. Abri-o.

Uma página aleatória:

"Hoje conheci duas figuras intrigantes — uma dama de fala arguta, olhar felino; e um cavalheiro de aparência saudável, embora sua pele beirasse o albino. Curioso. Há algo de... antigo neles.”

Um ruído.

Atrás de mim.

Abracei o silêncio e aguardei. Respirei. E ouvi.

Vozes.

Gemidos. Lamentos. Tormento encarnado em som. Segui, tenso como fio estirado. Meus passos ecoavam no ventre da arquitetura maldita. E então os vi: cativos.

Seis celas. Homens, mulheres... retalhos humanos, olhares apagados. Experimentos. Fracassos. Almas em ruínas.

A dúvida me invadiu:

— Libertá-los? E se forem perigosos?

Mas posso deixá-los aqui?

O dilema me dilacerava. Mas havia algo mais forte: compaixão. Ou talvez, o desejo de fazer algo certo em meio ao caos.

— Vocês... vocês vão sair daqui. — sussurrei, quase sem acreditar.

Quebrei os cadeados, um a um. Os prisioneiros gritavam, choravam, corriam ou rastejavam. Uns me abraçavam, outros somente fugiam. Quando rompi a última tranca, um grito — não humano — explodiu pelos corredores.

Um corpo atravessou a penumbra e se chocou contra a parede atrás de mim, estalando ossos.

Silêncio.

Depois, outro grito — Grave, bruto como de uma fera selvagem.

O corpo estava dilacerado. Mordido. Cortado.
 Os ecos do inferno haviam se soltado.

—Não estamos sozinhos... — Murmurei, erguendo a arma.

Anton S. Miahi XXIII
(Escrito em meu Caderno — póstumo)

Sem data — Ouvi. Um urro… ou seria um grunhido de alma profanada?

Veio como trovão sob terra húmida — grave, bestial — entrelaçado aos gritos lancinantes dos prisioneiros e ao estalar sinistro de ossos se partindo como galhos secos. Os passos, pesados, se aproximavam, um a um, como um relógio em contagem para a execução. E então... uma lufada de ar.

Não era brisa.

Era hálito.

Algo respirava sobre mim. Algo existia atrás daquele som.

Os cativos da última cela, em pânico cego, correram — tropeçando uns nos outros, ainda ensanguentados — e bateram a porta. Deixaram-me só, diante do inexprimível.

Não havia para onde fugir.

Um beco sem saída.

Eu, o tolo redentor, havia conduzido cordeiros ao altar de um lobo espectral.

— Oh, que infelicidade a minha... — murmurei, quase como prece amarga.

Sim, os mortos não mais se angustiarão com o presente... nem com o futuro.

Eles agora seriam as únicas testemunhas do meu fim — e, quem sabe, do nascimento de outra coisa, algo além do homem.

Assumi posição de combate. A mão esquerda empunhava a arma etérea de Arturo, ainda fria e desconhecida. A direita, o bastão de ferro — rudimentar, mas real.

Meus olhos varriam a penumbra, buscando um indício, uma forma, uma promessa de movimento.

Nada.

— Se vou falecer aqui, não será de joelhos... Ele sofrerá tanto quanto eu! — exclamei, mais para as pedras do que para o destino, fingindo haver dentro de mim algo além do medo.

A parede fria atrás de mim marcava o limite da existência.

O fim de qualquer tentativa de recuo.

E então…

Uma voz.

Sutil, suave, nas minhas costas.

— Senhor Anton… nunca houve chance de resistência.

Aquelas palavras soaram como gelo escorrendo pela espinha.

Mas o que as seguiu... foi pior.

Risos.

Não gargalhadas humanas.

Era um som que se dobrava em si — sarcástico, lascivo, prenhe de uma crueldade antiga demais para nome.

Ao tentar me virar, algo me deteve.

Mãos — ou garras? — se fecharam sobre minha cabeça como grilhões invisíveis.

E então...

Dor.

Uma dor vívida, quase luminosa, que me cegou os olhos com sua intensidade.

Não somente física. Era como se memórias estivessem sendo arrancadas…

Como se minha identidade estivesse sendo extraída pelas unhas de um monstro que ria porque sabia:

O que ele queria não era meu corpo.

Era minha alma.

Anton S. Miahi XXIV
(Escrito em meu Caderno — póstumo)

Sem data, noite — O frio me cortava como navalhas silenciosas. Senti o açoite do vento contra o rosto, enquanto, debaixo das palmas, a textura gélida e arenosa denunciava que eu jazia sobre a neve. Abri os olhos com esforço e logo fui acometido por uma pontada lancinante na fronte. Levei a mão à testa — úmida, latejante. O sangue, espesso e quente, escorria pela pele pálida.

Ao redor, uma arquitetura de formas circulares e entradas múltiplas — como o interior de uma cripta aberta ao firmamento. Gárgulas esculpidas em pedra grotesca me espreitavam de todos os ângulos; estáticas, mas com um olhar de morte que parecia transcender o inanimado. Seus olhos ocos sondavam os cantos daquele espaço como centuriões de um inferno esculpido em mármore antigo.

Ao alçar os olhos, não encontrei teto. Apenas um céu de veludo negro crivado de estrelas — como se aquele tribunal estivesse suspenso entre o tempo e o abismo. Sob minhas mãos, reconheci enfim a neve. E então, como sussurro que rompe a espessura do próprio passado, a voz:

— “Senhor Anton… nunca houve chance de resistência.”

Era uma lembrança. Mas não qualquer lembrança. Aquela voz... sim, era ele.
 Nestor.
 Ou... seria outra entidade ainda mais antiga?

Tateei a memória como quem rasteja entre ruínas. Lembrava do golpe traiçoeiro pelas costas.

A consciência esvaindo. O cheiro metálico. O chão fugindo sob meus pés. E agora ali estava eu, redivivo num palco ancestral.

E então, vieram os passos.

Lentos.

Pesados

Cerimoniais.

Não havia disfarce. O ser que se aproximava desejava ser ouvido, sentido, temido. Um rosnado grave ressoou, reverberando nas colunas e atravessando meu peito como trovão que desaba sob terra profanada.

Minha mente, ainda embaciada, sussurrava temores: “—É alucinação... é delírio...”

Tomei fôlego. E coragem — um farrapo dela.

— Que é que me observa da escuridão? — gritei, mas minha voz saiu rouca, trêmula, quase humana demais para aquele lugar.

Olhei para o alto da torre. Surgiram então duas asas descomunais, sombreadas contra o céu estrelado. A figura era uma silhueta até então dois pontos fulguravam — olhos de um azul etéreo, famintos, como dois fogos-fátuos no meio do nada.

Um anjo caído? Um espírito ancestral? Ou um juiz das almas tortas?

A criatura desceu com precisão bestial, traçando um mergulho mortal. Ao tocar o solo, as tochas espalhadas pelas colunas acenderam-se espontaneamente, iluminando-o em chamas de espectral laranja e púrpura.

Ele era... horrendo e sublime.

Corpo humanoide, esculpido como pedra viva — mármore que transpirava condenação. Asas negras como breu, mãos com garras longas que ansiavam por carne, e um rosto... um rosto que parecia feito da morte. Não do cadáver. Da morte.

— Pequena criatura... existência frágil... sabes tu onde te encontras? — sua voz soou como sinos tocados em um funeral ancestral. Grave, ecoante, cortante.

Tentei falar. A garganta ainda se fechava.

— N… não sei onde estou... e menos sei quem... ou o que... é você. — murmurei, ainda apoiado à uma coluna de pedra fria.

Ele caminhou em minha direção, com a solenidade de um algoz.

— Este é meu domínio, criaturinha. Aqui pesam teus erros. Aqui o destino se curva. Aqui os loucos e os orgulhosos são finalmente despidos de suas ilusões. Sou Var’Ghul, o Guardião das Almas, o Juiz dos Malditos. E é sob minha presença que as sentenças são proferidas.

Um riso irônico escapou-me, ainda que trêmulo.

— Depois de tudo… agora um juiz? Um tribunal? — ri, mas o som morreu na garganta.

Apoiei-me com esforço. Levantei-me. A tontura me assaltava como maré. Mas recusei-me a encarar o julgamento ajoelhado.

— Seja o que fores... não temo mais espectros. Já caminhei entre cadáveres... já ouvi preces no meio do fogo. Já morri mais de uma vez em alma. — minha voz se elevava, ainda que fragilmente.

Var’Ghul parou, avaliando-me com olhos de abismo.

— Nestor te trouxe aos meus domínios. O infame mordomo conhece bem os limites da ousadia... até mesmo ele se curva diante de mim. — sua voz, por um instante, transbordava escárnio e desprezo.

Senti uma estranha fagulha de esperança se acender — tênue, mas viva.

Talvez Var’Ghul não fosse somente juiz. Talvez, fosse também uma saída. Uma chave. Um limiar entre a danação e a redenção.

— “Então julgue-me. Se este é o fim... quero ouvir a sentença com olhos abertos.” — disse, agora em pé, mesmo trêmulo, como soldado diante da baioneta.

Ele sorriu. Pela primeira vez, sorriu.
 E o frio na espinha tornou-se glacial.

— Ah... mas para julgar, Anton S. Miahi... preciso ver tudo. Cada lembrança. Cada pecado escondido nos porões de tua alma. E isso, meu filho, vai doer mais que mil mortes.

Var’Ghul ergueu a mão direita — os dedos ossudos se abriram como garras de um deus antigo — e então pronunciou com uma voz que ressoava em cada molécula do meu ser:

— “Que se rompam os selos do tempo… e que as memórias do condenado fluam diante do Julgador.”

Naquele instante, algo invisível me perfurou a fronte. Um estilhaço de dor, tão agudo, tão terrível, que me dobrou os joelhos. Não era uma dor física. Não. Era uma lâmina que atravessava minha alma, como se arrancassem, de um só golpe, os véus que eu mesmo havia colocado sobre meus próprios pecados.

Minhas pálpebras se fecharam — ou foram fechadas por alguma força que não reconhecia. E então vi.

A neve tingida de vermelho.
 As trincheiras devoradas pelo frio.
 Os olhos dos soldados — meninos, irmãos, monstros — fitando-me em seus últimos segundos.

Var’Ghul narrou como se lesse um códice sagrado, impiedoso, mas não cruel:

— “Tu estavas entre os sobreviventes do cerco de Mitrova. Foste o único a ordenar a retirada. Ordenaste, sim… mas deixaste para trás três homens. Um ferido. Dois perecendo. Salvaste doze. Traíste três. Calculaste o sangue.

Eu gritava por dentro, mas minha boca estava muda. Meus olhos jorravam lágrimas sem que eu os controlasse.

— E naquele dia… após incendiar os corpos dos que jaziam sob o gelo… teus próprios soldados te chamaram de herói.

Var’Ghul deu um passo adiante. A cada palavra sua, meu peito ardia como se brasas fossem enterradas sob minhas costelas.

— Na floresta de Drovnik… ataste explosivos ao ventre de um prisioneiro. Usaste-o como armadilha. Foi eficaz. Salvou a tua vida. Mas deixaste o terror escorrer pelas folhas como uma maldição.

— Chega... — murmurei, a garganta cravada de espinhos.

— Na cidade devastada de Petrowska... alimentaste uma criança com tua própria ração. Depois, a deixaste dormir ao teu lado no frio... e ela sobreviveu. Mas jamais soube teu nome.

A lembrança daquela menina — olhos grandes, cabelos como carvão molhado — me desarmou. Caí ao chão. Var’Ghul se ajoelhou diante de mim, os olhos faiscando com um azul ainda mais profundo.
 Sua mão tocou meu peito.

E então, ele mergulhou mais fundo.

Vi o castelo.

As celas.

O sangue nas paredes.

Meus gritos contidos.

Minha fúria.

Meu desejo de libertar, mesmo quando tudo indicava ruína.

Ele viu.
 Ele sentiu.

— A ti, Anton, coube a escolha de destruir a chave para fugir... e usá-la para libertar outros. Mesmo sabendo que te deixaria à mercê da besta.

Vi os rostos dos prisioneiros. Os mesmos que me deixaram para trás. E senti... que mesmo o bem que eu praticava era consumido por sombras.

Var’Ghul se ergueu. Um silêncio sepulcral tomou o recinto. Até as tochas pareceram se calar.

— Anton S. Miahi… teus pecados são muitos. Tuas mãos manchadas de sangue e cálculo. Mas... tua alma não é covarde. Fizeste escolhas entre abismos. E ainda assim, salvaste outros. Mesmo quando ninguém mais te via.

Ele estendeu a mão. Uma luz tênue, azulada, cintilou entre seus dedos — como se acendesse uma chama que nunca morrera de fato.

— Teu julgamento... é favorável. Ainda que não sejas puro, és digno. Seguirás adiante. Pois tua história... ainda não terminou.”

Meu corpo tombou, exausto.

Mas algo dentro de mim — algo ancestral, algo esquecido — se reacendeu.

Var’Ghul desapareceu na penumbra como fumaça que retorna à lareira dos mortos. As tochas se apagaram, uma a uma. E a última imagem que vi foi o céu estrelado, testemunha muda do veredito.

Então, silêncio.

E depois… uma nova respiração.

Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Sepulcral

Um beijo sepulcral na testa dada ao frio | Mais descoberta que a vida fora dos rumores | Um beijo traz imagens das carícias e das dores | Da vida gélida de um alguém sem brio…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Um beijo sepulcral na testa dada ao frio
Mais descoberta que a vida fora dos rumores
Um beijo traz imagens das carícias e das dores
Da vida gélida de um alguém sem brio

Não estava o céu como num poema de anil
Naquele dia de dúvidas e temores
Quando no copo de veneno goles dos odores
Desciam. Tomando o último soneto, partiu

Morte breve, sem amigos por escolha sua
Morreu bêbado com uma pena atravessada ao peito
Desfez as malas: um papel e rabiscos
Jogou com a morte paciência à luz da lua
Perdeu naquilo que nunca tinha feito
Bebeu por último o último dos seus vícios.


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
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Crê

Crê em mim, filho da vergonha | Crê em mim, sou o senhor do inferno | Sombrio e distante como útero materno | São os tempos loucos e ninguém mais sonha…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Crê em mim, filho da vergonha
Crê em mim, sou o senhor do inferno
Sombrio e distante como útero materno
São os tempos loucos e ninguém mais sonha

Sombra em torno de nós, medonha
Reza para mim homens! De joelhos!
Ovelhas adestradas, ouvem meus conselhos 
“Segue o Mito, renegue a verdade, enfadonha”

Sede ingrato, maldito e sincero
Sedes o mal agouro do desterro
Ser atribulado com os ruídos de uma guerra
Oh! Ninguém mais vê e nem sente o desespero
A dor do poeta tecendo um erro
Anunciando Mefistófeles a pairar sobre a terra.


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Láparos

Ela se levantou, estendeu sua mão direita em minha direção. Seus lábios exibiam um sorriso acolhedor, mas que escondia algo. Por fim, acatei seu convite…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Ela se levantou, estendeu sua mão direita em minha direção. Seus lábios exibiam um sorriso acolhedor, mas que escondia algo. Por fim, acatei seu convite, pois ansiava sanar minhas dúvidas. Iniciamos uma silenciosa caminhada. Cautelosa, segui ao seu lado, fascinada e amedrontada com aquele lugar. Sentia uma certa claustrofobia, mesmo o lugar sendo amplo. 

Hipnotizada, observei os gases azulados presentes nos numerosos e delicados tubos de ensaio. O som ininterrupto das engrenagens era nauseante. Até mesmo o ar daquele lugar... O desconforto era nítido em meu corpo, mas disfarcei bem — pelo menos, eu acho. Evelyn... ela me intrigava. Em seus olhos havia uma certa malícia — talvez eu esteja errada, talvez seja apenas sua personalidade —, mas o fato de ela conseguir adaptar suas emoções à medida que conversávamos, como se entendesse meus pensamentos, me deixou preocupada. 

Conforme andávamos, me explicou algumas coisas, como a intensa luz lá fora. Disse que se tratava de dois sóis, um raro fenômeno, uma falha temporal — mas que era temporária. Imediatamente, paralisei ao imaginar aquela luz impetuosa rasgando minha frágil existência. Evelyn viu o horror em meus olhos, mas escolheu não perguntar sobre o meu estado. Sobre as engrenagens, disse que não sabia nada a respeito. Porém, noto um sorriso brincalhão nascer em seus lábios. Em seguida, falou: 

— Não se preocupe, Rose. Talvez nada disso seja real... talvez seja apenas o desconhecido brincando conosco. 

Assenti. Em seguida, vi seus olhos esboçarem um estranho sorriso, mas ignorei. Então, avisto ao longe uma porta. Pergunto-lhe onde daria. Disse que ali geralmente era a saída — e afirmou uma verdade irrefutável: o castelo está em constante mudança. 

Por fim, despediu-se e novamente disse para ter cuidado, pois nunca saberemos o que iremos encontrar. Mesmo tendo minhas desconfianças, gostei de sua companhia. Mas, ao olhar para trás, não a vejo mais. Alguns passos à frente, me deparo com uma porta deveras alta, que se esgueira horrivelmente sobre mim. Ela era abobadada — diria comum. Toco a maçaneta, sinto o corpo pulsar. Abro-a e, para minha surpresa, estou no magnífico salão principal. Sinto-me ínfima neste lugar. 

Inexplicavelmente, o som terrífico das engrenagens sumira. Respirei aliviada. Porém, o castelo estava diferente. Fui abraçada por muitos cheiros. Dentre eles, identifico algumas notas adocicadas de maçã. Não era só isso: percebo também uma fragrância floral bastante sutil, mas marcante. Observei o queimar das muitas velas dispostas em cada parede. Isto me trouxe uma sensação de acolhimento. Porém, o odor ferruginoso permanecia ali, flutuando sobre o ar, tal qual um espectro. 

Não lembro a última vez que andei por aqui. Porém, vejo que alguma entidade cósmica jogou os dados do destino — e aqui estou. Parece que um belíssimo jantar será servido. A enorme mesa de jantar está decorada com impecáveis pratos de porcelana branca com a borda em dourado. Para acompanhar, talheres igualmente dourados. Em volta de cada prato, havia galhos secos vermelho-acinzentado, formando uma guirlanda. 

Há também um encantador caminho de mesa confeccionado em linho, num tom verde-claro. Acima dele, exuberantes flores ocupam toda a extensão da mesa. Elas possuíam um formato peculiar: suas pétalas se fechavam tal qual um ovo, a ponto de ficar imperceptível a união de cada uma. Suas cores eram vivas e brilhantes — algumas alvas como a neve, outras traziam um tom escarlate. Elas pareciam guardar segredos de antigas eras. Estavam também espalhadas por todo o hall. 

Enquanto admirava a enigmática decoração, vislumbro o mover de uma sombra trêmula, descendo lentamente os infinitos degraus da colossal escada. Tratava-se de uma criatura com vestes que remetiam a alguma antiga e sigilosa cerimônia. A túnica negra parecia flutuar conforme caminhava. Ostentava uma horripilante máscara pálida e sorridente de um coelho, com orelhas delgadas. No lugar dos olhos, um vazio abissal. Trazia uma carta escarlate. De maneira cortês, se aproximou e me entregou uma carta. Elevo-a à altura do nariz, e sinto o mesmo aroma de maçã adocicada. Fiquei tão enfeitiçada com tudo aquilo que mal vi a criatura se esvair.

Finalmente, leio. Trata-se de um convite para participar de uma festividade chamada Aesttera. Na carta, explicava-se o significado da celebração. Tudo fascinante. Porém, para mim, não há renovação de ciclos, nem moldar sentidos para uma nova existência — muito menos recomeçar. Mas estou intrigada com o tal Baile de Láparos. Houve menção de que haveria trajes para o baile em meus aposentos.

Dirijo-me rapidamente ao meu quarto. Abro a porta devagar, pois aqui foi palco de fenômenos inexplicáveis. Fiquei mais tranquila ao ver tudo em seu devido lugar. Em minha cama, encontram-se meus trajes: consistiam em uma máscara de coelho e um longo vestido vitoriano preto de cetim, com detalhes de renda no colo e nas mangas. Fiquei encantada com o vestido. Lavei-me e troquei de roupa. Controlei meus rebeldes cachos, coloquei minha máscara e segui em direção ao salão principal.

Apreensiva, tenho um vislumbre magnífico: a celebração havia começado. Todos estavam rigorosamente bem trajados — estavam belíssimos. Os homens, todos elegantes, exibiam seus fraques; e as mulheres, com seus vestidos exuberantes. O salão estava cheio. Confesso que, às vezes, esqueço dos demais inquilinos. Através da máscara, vejo a inquietação de alguns; em outros, permeavam dúvidas e medo; já outros são uma verdadeira incógnita.

Vejo alguém se aproximando — era um garçom, equilibrando taças numa bandeja dourada. Falei educadamente que não queria, porém ele explicou que era um licor das raras maçãs sangrentas. Disse que, devido à maturação das maçãs, um líquido começa a escorrer do fruto, resultando em um espesso licor rubro. Fui persuadida por ele e acabei aceitando.

Em mãos, balancei a bebida, que exalava um aroma doce e tentador. Elevei-a aos lábios. Ao provar, fui tomada por uma excitação. Meu estado alterado foi perceptível. Não era possível... isso seria...? Olhei ao redor. Senti uma sensação estranha de estar sendo observada. Respirei fundo. A taça tremia em minhas mãos. Andei até a rosácea para tentar me distrair. Estava uma linda noite. Elevei meus olhos e vi a luz pálida da lua atravessar a rosácea, resultando em um espetáculo único.

Permaneci ali, assistindo o tênue luar rasgar a escuridão, como se ainda houvesse uma luz no fim do túnel (não para mim, certamente). Tomada por uma desesperança, sorvo mais do doce licor. Porém, algo rouba minha atenção: um pisar firme, longínquo, ecoa pelo salão, acompanhado de um leve caminhar de saltos altos. Também escuto passos apressados. Ao virar, vejo um círculo se formando. Aproximo-me devagar — e então é anunciada uma atração que fazia parte das festividades.

Era uma atração circense: uma arlequina, domadora de Láparos. Ela apresentou truques que desafiavam a lógica — diria, realistas demais. O momento que me causou náuseas foi quando ela tirou cabeças de coelhos da cartola e fez malabarismo com elas. Era possível ouvir, de cada um presente, gritos abafados de horror. Encerrou a apresentação apoiando a cartola na cabeça, arrancando aplausos efusivos.

Não sei se foi efeito do licor ou do truque — contemplei algo perturbador. Da cartola escorria um espesso líquido escarlate, serpenteando por seu rosto maquiado. Tive a nítida impressão de que ela olhava diretamente para mim. Sorrindo, ela se despediu.

Todos ficaram espantados, inclusive eu. O círculo se desfez, e então iniciou-se o baile. Os primeiros acordes da Sétima Sinfonia de Beethoven retumbavam por todo o castelo. A dança começou tímida, mas logo se tornou lascívia. "Preciso de mais uma taça", pensei, observando o baile. Parece que o castelo me ouviu: um dos garçons se aproxima. Devolvo a taça vazia e pego a cheia. Antes de sair, ele disse para não exagerar no licor, pois pode causar alucinações.

Desta vez, senti o gosto adocicado com notas ferruginosas. Meu corpo tremia. O sabor era demasiadamente semelhante. Sorvi aquele néctar de uma vez. Enquanto isso, assisto à dança se tornar frenética, fazendo com que as máscaras adquirissem um aspecto macabro — com aumento das orelhas e a presença de dentes pontiagudos.

Não deveria ter feito isso. Será mesmo sangue?

Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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O Espectro de Alonso

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Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Anton S. Miahi XXI
(Escrito em meu Caderno — póstumo) 

Sem Data — Já não sabia se era noite ou dia. As trevas da cela ocultavam até o tempo de minha mente. O ar da cela era denso, imóvel, como se aguardasse o próximo sopro de minha respiração. Um peso alojava-se em meu peito, esmagando-me como se mãos invisíveis ali repousassem, exigindo confissão. Fora o sonho, suponho. Mas qual sonho? Fragmentos de imagens difusas escapavam-me, deixando somente uma sensação de desassossego abissal. 

E então, uma voz. 

Familiar. Fria. Dolorosa. 

— Anton… 

Meus olhos varreram o breu da cela, encontrando apenas a familiaridade das paredes úmidas e da estreita fresta por onde a lua se recusava a penetrar. A cela, anexada ao laboratório de Arturo, não permitia acesso à parte externa. Mas a voz continuava, entrecortada pelo vento ausente, sussurrando aquilo que eu temia ouvir. O tempo se dobrou sobre si, e voltei àquela noite — a noite de sua morte. O sangue sobre as pedras, o olhar esmaecido, o último suspiro arrancado pelo inevitável. Ele havia perecido nos meus braços, Alonso. Eu não o havia abandonado. 

— Você me deixou… 

Meu peito apertou-se. Não! Ambos havíamos sido convocados para a Guerra Franco-prussiana. Havíamos marchado juntos. Eu o segurei quando caiu. Vi o brilho esvaecer de seus olhos enquanto o sangue encharcava o chão. Mas ali estava ele, sua forma translúcida oscilando diante de mim, angustiado, desesperado, tão surpreso quanto eu de vê-lo ali. 

— Alonso... isto não é possível. 

Ele cambaleou para trás, os olhos arregalados, tremendo. Sua voz era um sussurro trêmulo, quebrado pela incredulidade. 

— Mas então... eu estou morto? 

Meu braço esquerdo doía. A reconstrução metálica rangeu quando movi os dedos, os tubos transportando fluidos de éter sobrenatural pulsando sob a estrutura engenhosa de engrenagens. Arturo, o engenheiro de outro mundo e tempo, dera-me essa dádiva amaldiçoada. 

— Sim. Você morreu nos meus braços. 

Alonso fechou os olhos, os lábios trêmulos. Então, sua expressão se alterou, determinada, feroz. 

— Você tem que sair daqui, Anton. 

— A cela está trancada. Arturo selou a fechadura com Éter. 

Alonso hesitou, olhando ao redor. Pela primeira vez, parecia perceber o ambiente à sua volta. Do lado de fora da cela, o laboratório se estendia — frascos com líquidos brilhantes repousavam sobre prateleiras, grandes toneis de cobre estavam alinhados junto às paredes, enquanto canos de bronze percorriam o teto e o chão. Mesas de metal sustentavam equipamentos enigmáticos, papéis espalhados, registros incompreensíveis. Próxima dali, a mesa onde eu havia sido modificado cintilava sob a luz pálida de lâmpadas elétricas de um tempo que sequer deveria existir. 

Alonso atravessou a porta, saindo da cela. Estava do lado de fora, me olhando com hesitação. Virou-se para a fechadura. Quando sua mão tocou o metal selado com Éter, uma descarga de energia o atravessou, fazendo-o gritar em agonia. Ele recuou, respirando ofegante, seus dedos trêmulos e espectrais se contorcendo. 

— Alonso! — Meu instinto dominou minha razão. Avancei, esquecendo-me do óbvio. Minha mão estendeu-se em direção a ele, buscando segurá-lo, mas assim que o toquei, um choque me atravessou, violento, dilacerante. Cambaleei para trás, uma dor cortante percorrendo meu corpo. — Maldição! — soltei um gemido de dor. 

Alonso me fitou, os olhos arregalados, sua expressão um misto de horror e culpa. 

— Não! Você não pode me tocar! Eu... eu sou... — Sua voz fraquejou, e ele desviou o olhar. — Sou algo que não deveria estar aqui. 

— Eu não me importo! — Bradei, ainda sentindo o formigamento do choque percorrendo minha pele. — Você está sofrendo, Alonso! Eu não posso somente assistir! 

— Alonso... como você chegou aqui? 

Ele parou, as costas rígidas, como se a pergunta o atingisse como um golpe. Lentamente, virou-se para mim. Seu olhar estava perdido, como se buscasse memórias em um véu nebuloso. 

— Eu... eu não sei — sussurrou. — Eu me lembro do campo de batalha, do frio, da dor. Lembro do meu sangue escoando pelos meus dedos, do seu rosto, Anton... da sua voz me chamando. E depois... escuridão. Um vazio que me engoliu por inteiro. Eu não sonhei, não senti o tempo passar. Apenas... estava. 

Um calafrio percorreu minha espinha. 

— E então, de repente, você apareceu aqui? 

Ele hesitou, a expressão se contraindo em angústia. 

— Não... antes disso, eu ouvi algo. Uma voz. Não era sua. Era algo mais... algo que sussurrava dentro da minha mente, palavras que não compreendia. Foi como se eu fosse puxado para um turbilhão, forçado a atravessar um limiar invisível... e então eu estava aqui. E vi você. — Ele engoliu em seco. — Anton, eu não deveria estar aqui. Algo me trouxe.  

Minha respiração pesou. O que quer que tivesse violado as leis da natureza para arrastar Alonso de volta, não o fizera sem propósito.

— Eu já morri uma vez, irmão. Isto não pode ser pior do que aquilo. — Ele respirou fundo, trêmulo, e forçou um sorriso frágil.

 Antes que pudesse responder, Alonso se virou novamente para a fechadura, determinado.

Na segunda tentativa, uma nova onda de dor o atravessou, mas algo mais aconteceu. As luzes do laboratório piscaram e oscilaram, faíscas tremulando em suas lâmpadas alimentadas pelo Éter. O fluido nos tubos borbulhava, vibrando, como se o próprio laboratório reagisse à profanação de sua segurança. Alonso cerrou os dentes, seus olhos agora brilhando em desespero e determinação. Com um último esforço, sua mão se fundiu à fechadura, e esta começou a brilhar intensamente até derreter, pingando como cera fervente sobre o chão de pedra. 

A porta estava aberta. 

Alonso caiu de joelhos, arquejando, as mãos sobre o peito. Quando ergueu o olhar para mim, sua expressão era de súplica. 

— Anton... algo... algo está errado. Ajude-me— 

O ar do laboratório vibrou. Uma presença emergiu das sombras. A princípio, tinha quatro patas, movia-se como um lobo sem peso, mas logo ergueu-se sobre duas, seu corpo intangível oscilando como vapor. Sua face era um vazio sorridente. Moveu-se em direção a Alonso e, com um gesto lânguido, agarrou-o pelo colarinho. Alonso gritou, os olhos dilatados em pavor. 

A criatura virou-se para mim e sorriu. 

Então, sem som, sem violência, Alonso e a entidade se desfizeram em uma névoa suave, dissipando-se na escuridão. 

Eu estava livre. Mas a liberdade não era o fim, e sim o início. Caminhos se estendiam diante de mim, sombras ocultavam verdades ainda não reveladas. O laboratório, o Castelo e seus moradores guardavam segredos que precisavam ser desenterrados. Eu precisava ir ao fundo de tudo aquilo. 

Anton S. Miahi XXII 
(Escrito em meu Caderno — póstumo)  

Sem Data — Saí da minha cela após testemunhar o horror indescritível da captura de meu irmão—ou daquilo que um dia foi ele—por uma entidade saída das entranhas do inferno. Um espetáculo dantesco. O frio percorreu minha espinha como dedos cadavéricos. Mas não havia tempo para hesitar. 

Caminhei rápido, ignorando o tremor involuntário em minhas mãos, e fui direto à mesa com a maior pilha de livros e papéis, na parede oposta à minha prisão. Algo ali continha as respostas que eu precisava. A adrenalina pulsava, e meus olhos famintos devoravam cada página, cada anotação. A escrita meticulosa daquele maldito diário me causava um nó na garganta. Sentia um peso lodoso no estômago, uma angústia viscosa que me abraçava. Mas continuei. 

"21 de Janeiro de 1945 — Faz um pouco mais de um ano que já estou aqui neste castelo. O ambiente que o Conde me concedeu foi amplo e vazio à época. Agora que acomodei ferramentas, livros, tanques e outras coisas fundamentais, posso finalmente prosseguir. Isso me tomou uns quantos meses, mas agora tenho o que realmente preciso para perseguir minha ambição." 

Meus dedos crispados viraram a página com violência. 

"Os primeiros experimentos foram promissores. O Éter flui melhor do que o previsto, e a simbiose mecânica provou-se viável. O hospedeiro, no entanto, sempre perece antes de atingirmos um estado estável. Preciso de espécimes mais resistentes... e talvez menos... racionais." 

Minha respiração falhou. Uma gota de suor frio escorreu por minha têmpora. Continuei, ainda que cada palavra me perfurasse como um punhal. 

"Um deles, no entanto, surpreendeu-me. A morte não o reteve como os outros. Ele resistiu ao limiar. Movimentou-se. Falou. Confusão e medo tomaram seus olhos, mas algo permaneceu. Sua consciência? Sua alma? Não posso afirmar ainda, mas é um avanço. O Conde ficará satisfeito. Preciso testar mais." 

Meu sangue congelou. O ar ao meu redor pareceu rarefeito. Meus olhos corriam loucamente pelas próximas linhas quando outro papel caiu ao chão, escapando de meus dedos trêmulos. Agachei-me para pegá-lo e, ao fazê-lo, senti meu peito se comprimir. 

O texto rabiscado na folha era diferente. Escrito com pressa. Desespero. Um grito mudo preso em letras tortas: 

"O número 12 me assombra. Ele aparece diante de mim como se ainda possuísse vontade própria. Ele sabe. Ele me encara da escuridão e sussurra meu nome. Eu o criei... mas falhei. Ele não partiu... ele não pode partir." 

Mais abaixo, os traços estavam trêmulos, manchados de algo que parecia sangue seco: 

"Ele me disse que seu nome era Alonso." 

Meu corpo travou. O silêncio tornou-se um peso tangível, esmagador. 

Um segundo papel deslizou da mesa. Uma fotografia. 

Minhas mãos hesitaram antes de segurá-la. O choque me atingiu como uma lâmina em brasa. 

— Não... não pode ser... — Sussurrei, sentindo minha garganta se fechar. 

A imagem mostrava uma jovem. Seu rosto era pálido, os olhos fundos, exaustos. Mas eu a reconhecia. Céus... eu a conhecia. As palavras na página seguinte confirmaram o pior. 

"18 de março de 1945 — Nestor me trouxe uma jovem. Seu estado era deplorável. Parece que a encontrou na floresta, na noite dos portais abissais. Uma ex-moradora do castelo. Ela balbuciava algo enquanto o mordomo vampírico do Conde a colocava na mesa. Dizia algo começando com 'nauä...' Não se podia entender bem. Então, perdeu a consciência. E eu comecei o experimento. Este foi o número trinta, depois daquele sucesso e fracasso do menino 'Alonso'." 

A sala girou. As bordas da realidade se curvaram, como se algo estivesse prestes a me arrancar dali. Eu quis vomitar. 

O horror explodiu dentro de mim. Ela esteve nessa mesa. Passou pelo mesmo que eu. Mas meu irmão... Ele sofreu algo ainda pior. As imagens do laboratório tomaram minha mente, as lâminas, os frascos, o cheiro metálico do sangue. O eco dos gritos dele ressoou em minha memória, e uma nova onda de pavor me tomou. O que diabos fizeram com ele? 

Minhas mãos apertaram o diário, minha visão ficou turva. 

"(...) Horas após terminar os experimentos com o número trinta, coloquei-a na cela do corredor. Não tenho esperanças de que resista por muito tempo, como os outros." 

Minha consciência se agarrou a uma última fagulha de esperança. 

A cela número cinco. 

Corri pelo corredor, apertando o diário contra o peito como se ele fosse a última âncora de minha sanidade. O espaço ao meu redor parecia pulsar, os canos vibravam. O próprio castelo exalava um hálito podre. 

Passei por celas escuras, vazias, até encontrar a que buscava. Meus olhos vasculharam o interior. 

Um corpo coberto por um lençol branco. 

O baque da realidade me atingiu como um golpe de rifle. 

A raiva me tomou. A dor se alojou em meu peito, feroz, cruel. Ela era jovem. Tinha um futuro. E agora... era apenas mais um número em um experimento profano. 

Minhas mãos tremiam ao abrir novamente o livro. A leitura foi uma punhalada final: 

"Por infelicidade, o experimento trinta demonstrou descontrole e falta de lucidez. Seus ferimentos não estavam se recuperando como esperado." 

Virei a página. Os últimos registros pareciam escritos por uma mão indiferente, sem resquício de humanidade. 

"05 de abril de 1945 — O experimento trinta foi encontrado sem vida nesta manhã. Já havia alguns dias que não se levantava mais da cama. Parece que desistiu de lutar por sua própria vida." 

As palavras se tornaram borrões. Um soluço me rasgou a garganta. Lágrimas quentes escorreram por meu rosto. Eu não conseguia impedir. 

Estava neste castelo há meses, sofrendo infindáveis provações. Mas nada me preparou para isso. 

O silêncio do corredor era opressor. 

Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
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Sem Data — O peso da vigília sufocava-me. O braço esquerdo, pesado como chumbo fundido, resistia a qualquer comando, uma prisão de carne e…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

(Escrito em meu Caderno — póstuma) 

Sem Data — O peso da vigília sufocava-me. O braço esquerdo, pesado como chumbo fundido, resistia a qualquer comando, uma prisão de carne e osso que pulsava com o ardor lancinante de um ferimento que já deveria ter cessado de gritar. Oh, o ar ao meu redor era um vapor espesso, cheirando a óleo e metal oxidado, e a luz que ousava existir bruxuleava trêmula sobre as paredes de ferro e cobre, como se receosa de revelar o que jazia além do visível. 

Estava deitado sobre uma mesa de metal, a superfície fria sob meu corpo contrastando com o calor febril que percorria minhas veias. Um lençol de algodão grosso cobria-me parcialmente, áspero contra minha pele. As imagens em minha mente dançavam entre a vigília e o torpor, angustiantes e, de algum modo perverso, reconfortantes. Entre os devaneios, percebia uma presença. Alguém estava ali. 

A dor despertava-me de vislumbres indistintos — o rosto de um velho sacerdote, olhos carregados pelo tempo e barba desgrenhada como os ramos retorcidos de uma oliveira ancestral. Ele sussurrava algo enquanto minha consciência oscilava entre os fragmentos da batalha. Houve luta. Houve sangue. Teria que existir algo... algo que não conseguia nomear. Lembranças retornavam como lâminas cegas, desfiando-me lentamente. 

Meu irmão, Alonso. Meu pequeno Alonso. Vi seus olhos se esvaírem em um campo onde a morte ceifava sem distinção. O frio da Prússia nunca me parecera tão cruel quanto o toque gélido de seus dedos sobre minha pele quando a vida o abandonou. Então, ali, em meio às entranhas de uma arquitetura de vapor e engrenagens, outra cena arrastava-me ao abismo. Sevilha. A praça banhada pelo sol dourado, risos infantis quebrando a manhã com uma pureza inalcançável. Valéria corria ao redor de nossa mãe, seus cabelos escuros como a noite embaraçando-se ao vento quente. Nora, sempre tão bela, com as mãos brancas e finas trançando flores nos cabelos de minha irmã. 

Mas o que era essa sensação? Como podia ver o ontem e sentir o agora em um mesmo golpe? O calor de Sevilha desaparecia, e era tragado de volta à sala abafada, onde os tubos de cobre se entrelaçavam como serpentes, onde líquidos impossíveis brilhavam em frascos que guardavam segredos que jamais deveriam ter sido destilados. 

O peso da memória era tão insuportável quanto o peso do braço que não respondia. Havia algo errado em mim. Algo que não deveria estar ali. Algo que pulsava... 

Entre esses estados confusos de consciência e torpor, havia uma voz. Um nome. Ele emergia do nevoeiro da inconsciência, pronunciado de forma metódica, quase cirúrgica. "Arturo Vasquez". Sempre o mesmo nome, repetido nas bordas dos meus sonhos. Às vezes, era um sussurro. Outras, um tom firme, como se alguém estivesse se apresentando. A imagem de um homem de olhos frios e presença severa gravou-se em minha mente, como um espectro vagando entre a razão e a ilusão. 

Agora, estou sentado em um quarto. As paredes de metal frio refletem a luz pálida da lamparina, sombras oscilam e se retorcem no espaço apertado. A porta de grade diante de mim separa-me da vasta sala, onde a penumbra se dissolve em uma névoa turva. E ali, no centro do aposento, a silhueta de um homem. Sua presença é um fragmento que eu não compreendia até agora. 

Baixo os olhos para meu braço esquerdo e estremeço. A carne que antes ardia em dor fora substituída por algo... diferente. Tubos de cobre e prata correm entre as engrenagens, zumbindo em um ritmo que imita a respiração. Entre as articulações metálicas, fios de um brilho azul etéreo pulsavam, correndo como se fossem veias vivas, um fluxo constante de energia enigmática. Placas de latão e bronze, meticulosamente encaixadas, formam uma carapaça intricada, selada por runas gravadas à fogo — símbolos que não compreendo, mas que parecem murmurar uma verdade esquecida. Cada falange, um primor mecânico, responde com precisão, dobrando-se com um sussurro suave de engrenagens ocultas. 

Minha voz quebra o silêncio, rouca, carregada pelo peso do passado e da incerteza do presente. 

— Arturo Vasquez. 

A silhueta move-se levemente, as sombras dançando ao redor de sua figura esguia. O brilho pálido da luz ilumina seu rosto por um breve instante — um olhar frio, calculista, pousa sobre mim. 

— Você acordou. — Sua voz é baixa, controlada, desprovida de qualquer traço de surpresa. 

— O que fizeram comigo? — murmuro, os dedos metálicos fechando-se involuntariamente sobre minha perna. 

— Eu te reconstruí — ele responde, cruzando os braços. — Salvei o que restava de você. Transformei o que era falho em algo funcional. 

Meu olhar retorna ao braço autômato. A precisão dos encaixes, a pulsação do éter azul correndo por entre as junções. Há algo além de mecânica nisso. 

— Isso… não é somente metal — constato, mais para mim do que para ele. 

Arturo mantém-se imóvel, mas há um brilho sutil em seus olhos. 

— Não. O corpo humano é um motor imperfeito. A ciência sozinha não basta. Há forças que fluem além do que compreendemos. — Ele inclina levemente a cabeça, como se observasse um experimento. — E eu as domestiquei para te trazer de volta. 

Antes que eu possa responder, passos ecoam do lado de fora. Uma sombra longa estende-se pela fresta da grade. A porta se abre, e Narcís Nestor entra. Seu olhar desliza por mim, primeiro surpreso, depois carregado de desprezo. 

— Então foi assim que decidiu sobreviver, Anton — sua voz é um veneno gélido. 

Levanto-me instintivamente, cerrando o punho. Ao socar a grade, uma energia invisível manifesta-se, repelindo-me com um choque alastrado pelo braço autômato. 

— Tsc. — Nestor sorri, satisfeito. 

Então, uma segunda presença invade a sala. O ar pesa. As sombras parecem alongar-se em saudação macabra. E a voz — aquela voz inconfundível — desliza pela penumbra como veludo e lâmina ao mesmo tempo. 

— Anton S. Miahi. Como é bom revê-lo. 

Meu peito aperta. O Conde Drácula adentra o aposento, sua presença dominando cada fresta de escuridão. 

A conversa que se segue é enigmática, insinuando sobre Séttimor e os estudos de Olga. Mas não consigo entrever onde Arturo se encaixa nisso. 

Então, Narcís e Drácula partem, deixando-me novamente com Vasquez. O engenheiro encara-me por um momento antes de finalmente falar, sua voz sem emoção aparente. 

— A destruição pode ser controlada. Domada. Aprendi isso da pior forma possível… 

Horas mais tarde — O silêncio que ficou era denso, quase palpável. O ar, que antes carregava a presença esmagadora de Drácula, parecia rarefeito, como se Narcís e ele tivessem sugado para si tudo o que tornava aquele espaço minimamente suportável. 

Deixei-me cair sobre o assento metálico, sentindo o peso não somente do meu próprio corpo, mas do braço autômato que agora me pertencia — ou talvez, que agora me possuía. O som sutil das engrenagens rodopiando na estrutura de bronze e prata era um lembrete constante da minha nova condição. 

Do outro lado da sala, Arturo Vasquez permanecia imóvel, observando-me com a mesma expressão fria e analítica que sempre parecia carregar. Seu rosto era esculpido na reserva de alguém que já testemunhara o suficiente para não se abalar facilmente. Mas havia algo ali, escondido nas sombras de seus olhos, algo que eu precisava arrancar à força. 

— Então — que diabos você fez comigo? — Minha voz rompeu o silêncio, carregada de um peso que nem mesmo eu compreendia por completo. 

O engenheiro cruzou os braços, recostando-se contra a parede de metal escurecido. A luz bruxuleante projetava sombras sobre seus traços rígidos, tornando-o ainda mais impenetrável. 

— Eu te tornei funcional, Anton. Você estava perecendo. Seu corpo não suportaria. Dei-lhe uma alternativa. — A voz era firme, sem vestígios de emoção. 

— Alternativa? — Soltei um riso baixo, ácido. — Meu braço já não é meu. Está vivo de uma maneira que não compreendo. Há algo além de engrenagens e cabos nisso... E eu sinto, Vasquez, eu sinto que há um preço por trás dessa dádiva que você não menciona. 

Arturo não respondeu de imediato. Seus olhos caíram por um instante no meu braço autômato, observando o fluxo do éter azul pulsando entre as articulações. Ele inspirou fundo, um som discreto, mas carregado de peso, antes de falar. 

— Cresci ouvindo histórias sobre bruxaria e curandeirismo. Minha avó falava sobre forças que a ciência não poderia tocar. Forças que poderiam curar… ou consumir. — Ele fez uma pausa, estudando-me. — Quando minha irmã adoeceu, acreditei que a medicina bastaria. Mas ela faleceu em meus braços. Como o seu irmão pereceu nos seus. — Seu olhar não demonstrava pena, somente uma constatação dura como aço. — Você murmurava o nome dele nos delírios. Durante as febres, antes e depois do procedimento. Chamava por Alonso como se ele ainda estivesse ali, sangrando, agonizando. — Arturo inclinou a cabeça levemente. — Eu ouvi cada palavra. 

Um calafrio percorreu minha espinha. Uma fúria surda e incômoda começou a se erguer dentro de mim. A lembrança de Alonso — sua voz, sua risada infantil em Sevilha, o peso de seu corpo sem vida nos meus braços no campo de batalha — se mesclava ao absurdo daquela situação. 

— Você... ousa falar dele? — Minha voz tremeu entre a indignação e a incredulidade. — Ousa trazer meu irmão à tona como se fosse apenas mais um experimento seu? 

— Não se engane, Anton. Eu não o trouxe à tona. Você o trouxe. Ele está em você. — Arturo deu um passo à frente, a sombra de sua figura se alongando sobre o chão de ferro. — Os mortos nunca nos deixam. Mas o que fazemos com sua memória... isso, sim, define quem nos tornamos. 

Respirei fundo, tentando conter a tempestade dentro de mim. Senti o peso do braço metálico — frio, estranho, quase um membro que não me pertencia. Não era natural. A ideia de estar fundido a algo tão distante da carne humana era repulsiva. A tecnologia de Arturo ia além do que eu compreendia, além de tudo que era concebível no século em que nasci. 

— Você realmente acredita nisso? — Minha voz saiu mais baixa, quase um sussurro. — Que o destino pode ser moldado somente com metal e precisão? E esse tal de “Éter do Imaterial”… Isso também faz parte do seu controle? 

Arturo hesitou por um instante. Uma hesitação mínima, mas eu a percebi. 

— O Éter não é apenas uma teoria — respondeu, sem desviar o olhar. — É uma força que permeia todas as coisas. A ciência sozinha não é suficiente para domá-lo. Mas aprendi a moldá-lo… a utilizá-lo. — Ele indicou meu braço autômato com um leve movimento de cabeça. — Você é a prova disso. 

Apertei os dentes, a frieza de Arturo me irritava profundamente. Não era arrogância, não era fanatismo. Era uma convicção silenciosa, aterradora. 

Eu precisava de mais respostas. Mas acima de tudo, precisava descobrir até onde Arturo estava disposto a ir em nome dessa crença. 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Ferruginoso

Desperto mais uma vez em meus aposentos, e o que presenciei em Somníria reverbera em minha mente como uma tristonha canção…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Desperto mais uma vez em meus aposentos, e o que presenciei em Somníria reverbera em minha mente como uma tristonha canção. Melancólica, meus olhos passeiam pelas fissuras presentes nas superfícies das inúmeras pedras maciças do abobadado teto. Perco-me em devaneios sobre a construção deste imponente castelo, e uma pergunta paira sobre minha cabeça: quanto sangue teria sido derramado para erguer estas sólidas paredes? 

Bom, estou ‘condenada a viver’ neste infindável limbo sob a regência das perversas mãos do desconhecido. Porém, algo me faz acordar deste transe: uma luz flamejante oriunda de fora atravessa a enorme janela, fazendo com que o lindo lustre vitoriano acima de mim brilhasse terrivelmente. Procuro abrigo na alta cabeceira de veludo verde, abraço meus trêmulos joelhos e me cubro. Parece que o sol está mais quente que o normal. Permaneço encolhida, enquanto a luz mortal consome ferozmente cada resquício de escuridão do meu quarto. 

No momento em que cruzei os descomunais portões deste lugar, encontrei a morte algumas vezes, porém nada se compara a isto. De repente, um medo inexplicável perfurava minha alma, uma angústia sem razão aparente preenchia meu âmago vazio. 

Precisava agir rápido. Procurei por espaços onde havia vestígios de escuridão; infelizmente, eles eram cada vez mais escassos. O desejo de saber o que se passa lá fora me perturba. O castelo, que em sua natureza é gélido, sentiu uma insólita e sufocante onda de calor, mas temo que essa luz não seja proveniente do sol, e sim de algo grandioso. 

Finalmente, encontro uma brecha. Respiro fundo e salto da cama até a porta (ela se encontra a uma distância considerável). Enquanto saltava, desejei ter um breve vislumbre deste enigmático fenômeno, mas, ao fazer isso, deixaria este mundo num piscar de olhos, tal qual a mulher de Jó. Cheguei à porta, abri e saí com rapidez. 

Ofegante, contemplei o longínquo e mal iluminado corredor. Caminho em busca de respostas, enquanto as sombras das pendentes velas parecem zombar de mim. 

Será que Ameritt sabe de algo? Nosso último encontro foi catastrófico, ainda assim preciso vê-la. Após muito andar, começo a ouvir algo assombroso, um som que parecia surgir das espirais da cóclea, reverberando como um impronunciável sigilo, deixando-me paralisada. Porém, o som vinha de fora. Intrigada, encostei meus ouvidos sobre as paredes. Então ouvi algo tenebroso, semelhante a um terrível ranger de inúmeras engrenagens ocultas, girando em perfeita sincronia. Atônita, prossegui em direção ao oculto. 

Em certo trecho, percebi que havia algo além do desagradável ruído: o ar estava denso, chegando a causar náuseas. Apoiei-me nas paredes, respirei e logo percebi: era o odor pungente de ferrugem. Apressando os passos, finalmente alcancei uma porta, que nada se parecia com a porta daquele mágico lugar onde Ameritt tão sabiamente zela pela estufa. 

Erguia-se perante mim uma porta ovalada descomunal, feita de um material semelhante ao cobre. Havia incontáveis engrenagens e parafusos, de diferentes tamanhos e espessuras, cobrindo-a por completo. Pareciam provenientes de algum lugar do espaço; seu comportamento obedecia leis não terrestres. Cada engrenagem tinha sua forma de girar, criando diferentes sons, causando estranheza e uma inexplicável fascinação. 

Não sei quanto tempo perdi admirando aquele monumento, mas precisava descobrir. Então, ao tocar na maçaneta, senti o repulsivo toque álgido do metal. Foi necessário um pouco de força. Ao abrir, sou recebida com um intenso sopro metálico; o cheiro me causou ânsia. Tranco-a. 

A princípio, não consegui ver a dimensão do lugar. Manter-se em pé tornou-se difícil, visto que o ar ali era denso, quase palpável. Aos poucos, o lugar tomou forma através de sons. Ouvi o silábico gotejar de líquidos e também o leve chiar, indicando algum processo de ebulição. Lentamente, aquele lugar se revelou a mim. Era semelhante a uma caverna. Acima de mim, um inalcançável teto abobadado. A vasta e misteriosa vegetação se fundia com as engrenagens. Vejo também vapores índigos serpentearem pelo ar através dos tubos de ensaio. Envolvida pelo terrífico odor ferruginoso, caminho. Quero saber que surpresas me aguardam. É quando um sussurro ecoa: 

— Quem está aí? 

Sua voz, aparentemente gentil e amigável, me deixou tranquila. 

— Pode se aproximar, eu não mordo. 

Em seguida, sorriu de forma arteira. 

Cautelosa, sigo. Conforme me aproximo, sinto novos odores: óleo queimado, resíduos de alguma alquimia oculta. 

— Olá, cara visitante, como se chama? 

Apresentei-me, mas com cuidado para não falar demais, apesar de me sentir à vontade perante ela. 

— Prazer, Rose. Me chamo Evelyn Dubois! 

Seus olhos me estudavam. 

— O prazer é meu, Evelyn! Bom, que lugar é este? Eu deveria estar em outro lugar, mas já deveria ter me acostumado. 

O castelo está em constante mudança: os corredores se alongam ou diminuem, portas mudam de lugar, além dos acontecimentos peculiares que comumente ocorrem. 

Ela prestou atenção em cada palavra dita por mim, ao mesmo tempo que manipulava um líquido roxo em um tubo de ensaio. 

Trajava um jaleco branco fechado por apenas um botão e, por baixo dele, havia um lindo vestido vitoriano verde-musgo. Seu rosto era delicado, seus olhos, verdes; seus cabelos pretos estavam amarrados; sua pele era pálida. Ela continuou: 

— Bem, Rose, isso vai demandar bastante tempo, mas chegará um dia em que você se acostumará com os eventos ocorridos aqui. 

Ela contou brevemente sua história: sua mãe era costureira, e seu pai, um excêntrico cientista. Sua obsessão era desenvolver tintas fotossensíveis. Mas, num fatídico dia, houve uma explosão. Após o incidente (ela não entrou em detalhes sobre o que acontecera a seu pai, e achei melhor não perguntar), assumiu as pesquisas dele. No entanto, de alguma forma, seu foco se voltou para a chamada "cor oculta". 

Fiquei curiosa com sua história, e, quando perguntei sobre sua pesquisa, notei uma mudança abrupta. Era perceptível sua frustração em relação à sua pesquisa; parecia que não tivera bons resultados. 

— Que lugar é este? — perguntei para mudar o rumo da conversa. Imediatamente, vi a mudança em seu rosto, tornando-se mais uma vez amigável. 

— Você está em meu refúgio, um laboratório que se encontra nos arredores do castelo. 

Comentou um pouco sobre um evento denominado "Nemonium" e, por algum motivo, uma horrenda criatura foi vista pelos corredores, assombrando os moradores. Gritos de terror foram ouvidos além dos arredores. 

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Olhos flamejantes e o último autônomo

Acordou num sobressalto. Os sonhos pareciam vívidos. Arturo não descansava…

Criatura núrida, este conto, que estás prestes a ler, contém um interessante enredo. Foi construído com maestria por uma autora fascinante e, decerto, trará à sua mente uma compreensão diferente sobre o que as engrenagens, quando vinculadas, podem trazer à tona no equilíbrio da existência. Boa leitura!

Com sombrio apreço, a Anfitriã Sahra Melihssa

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Acordou num sobressalto. Os sonhos pareciam vívidos. Arturo não descansava há dias, flagelado por dores intensas e pensamentos perfurantes. O silêncio já não trazia alento, o trabalho não mais o distraía do medo. Agonia. Receio. Inquietude. Eram seus únicos estados de espírito. 

Como homem da ciência, não ousava procurar os curandeiros; não buscava a nenhum deus, porque lhe faltava a fé que faria com que as montanhas de incômodo fossem removidas. 

Nos raros momentos de um falso alívio, lembrava com tristeza de sua última e perfeita invenção: um autômato que emulava, funcionalmente, as habilidades que desejava em um assistente pessoal.  

Mas ele se fora. 

Os olhos flamejantes engoliram sua criação, mas recusava-se a acreditar no que presenciara. Lutava consigo, não iria permitir que pensamentos alucinatórios o envolvessem em uma lama de caos e insanidade. Viu, mas em sua racionalidade extrema afastava, furiosamente, quaisquer ideias fantásticas. Aqueles olhos tinham que ter uma explicação científica.  

A sua criação perdida tinha o exoesqueleto de ferro. Os ossos-ferro foram forjados pelas mãos fortes do jovem Arturo. A “pele” era uma fina camada de bronze, cujo contornos foram delineados, delicadamente, para compor os detalhes da musculatura humana. Finalizou em 1970, com então 25 anos de idade, e naquela época ainda não havia tecnologia para emular voz humana, mas como seu auxiliar só precisava de coordenação motora aceitável, era perfeito para o que se propunha. Não tinha a coordenação fina de um adulto saudável, mas os serviços de Arturo exigiam mãos fortes, tal qual as dele e assim ele o fez. 

*** 

Em uma noite sem estrelas, onde o vento assoprava segredos indecifráveis, Arturo lembrou-se das histórias de sua infância, contadas todas as noites por sua vó. Em uma delas, grandes olhos de fogo surgiam nos céus para julgar e condenar todos os habitantes da terra. Quais eram os critérios para condenação? Quais eram as penas? Havia muitas versões, mas a que mais perturbava o jovem era: “as piores torturas viriam para àqueles que tinham sangue de inocentes nas mãos”. 

O governo para qual Arturo havia cedido sua mão de obra e, consequentemente, sua alma, nadava em um mar de sangue inocente. Ele, como criador de milhares de autônomos para combate, sabia que tinha parte dessa culpa. Sabia que as dores eram consequências das mortes que agora recaíam sobre seus ombros. Mas recusava-se aceitar que as crendices tivessem efeito no mundo real. 

Mesmo afligido pelas dores e culpa começou um novo protótipo. Sempre fora obstinado e não estava disposto a mudar de comportamento. Se, o que quer que seja, tomou-lhe o assistente anterior, faria outro, ainda mais perfeito. E assim o fez. A nova criatura era infinitamente mais robusta e com habilidades motrizes melhoradas. Olhou para o novo ser de ferro e gostou do que viu. Conseguiu dormir por algumas horas ininterruptas sem ser perturbados por ruídos ou dores. 

Acordou sentindo as esperanças renovadas, mas o bem-estar recém adquirido seria esmigalhado por outra perda: o novo ser também sumira. 

Sabia quem o havia levado, mas novamente, tornou a banir tais pensamentos e recomeçou o ciclo de criação. Novos protótipos eram criados reiteradas vezes, mas mal conseguia terminar os testes era açoitado por novas perdas. Inúmeros autônomos foram sugados para dentro dos olhos famintos. As dores aumentavam, até que não sobrou mais pensamentos lúcidos e a sua capacidade cognitiva foi severamente afetada. 

*** 

Aquela noite estava atípica. Ouviu barulhos agudos incômodos, como se estivesse dentro de uma siderúrgica macabra, mas não sabia distinguir o que era real do que era truque de uma mente adoentada. Quando, enfim, decidiu acabar com seu sofrimento, um brilho intenso o cegou, mas os ouvidos continuaram ávidos por qualquer onda ou gotejo sonoro. Vozes metalizadas começaram a emergir, e a potência das vozes lembravam um coral que rasgou os céus e desceu com leveza até a terra. 

De alguma forma, o exército que ele havia criado retornou para buscar seu criador. O sangue dos inocentes clamava por justiça e os combatentes-máquinas foram enviados para a missão final. Em seus últimos segundos de vida Arturo escutou o veredito provindo de sua última criação. Sabia que os olhos haviam encharcado aquelas criaturas com a ordem de exterminar todos os culpados, mas ao invés de medo sentiu um alívio, pois constatou ter engendrado uma figura infinitamente perfeita.  

“Eu estava certo vovó. A ciência é maior que a crendice...”. 

O último autônomo não lhe deu chance de concluir o discurso e eliminou o brilhante inventor. No alto, os olhos flamejantes permaneciam indiferentes aos milhares que ainda aguardavam, sem adivinharem, seu destino. O ciclo precisava continuar e o universo seria reinventado... E as engrenagens nunca iriam cessar... 

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Capítulo 6: Engrenagens do destino

Estou diferente. Não sei dizer exatamente o que, mas estou. As interações com o ambiente parecem ter adquirido novas roupagens…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Estou diferente. Não sei dizer exatamente o que, mas estou. As interações com o ambiente parecem ter adquirido novas roupagens — “‘roupagens’, de onde tirei essa expressão?!”. — Como vês, o meu linguajar foi uma das mudanças, não me lembro nem de pensar... Agora falo. 

Tenho lembranças envoltas em uma névoa penumbral, como se as memórias não me pertencessem e eu as tivesse tomado de seres cósmicos. Meu contato com todos à minha volta ficou intenso e sinto apetites insaciáveis, mas ao menos ela está mais feliz do que nunca. 

Assim que proferi a primeira palavra causei um espanto imenso, principalmente nela, mas aos poucos foi se acostumando com as minhas novas habilidades. 

Dizem que somos sarcásticos, egoístas e que não zelamos por nossos pais humanos ou que não gostamos de suas companhias, mas isso é mentira. Eu daria a minha vida por ela novamente, ela é o ser que ilumina meus caminhos, todos dias e noites. Ela também está diferente, menos ferida e preocupada e isso me deixa muito feliz. 

*** 

Ela dormia. Eu ouvia barulhos irreconhecíveis, imaginava ser efeitos colaterais da viagem que percorri por instinto de volta à vida. “Será que tenho alma?”. Os barulhos me irritaram tanto que tive que ir procurar o que diabos causava aquilo. Neste ponto, estão certos sobre nós: gostamos de sossego e ambientes aconchegantes. 

Não me lembro qual caminho segui, mas cheguei ao lugar que havia selado — ao menos temporariamente — meu destino. Engraçado a forma alucinada com que desenvolvo minha habilidade de comunicação, deve ser influência de todas as lorotas que ouvi durante minha vida. “Será que agora sou imortal?”. Não sei se quero descobrir, talvez eu tenha de fato sete vidas e já gastei uma... Mas não pretendo decifrar tais segredos tão cedo. 

O barulho aumentou. Um som de ferragens, acompanhado de uma claridade anormal para o período noturno. Quando olhei para o alto fitei duas bolas de fogo e, de alguma forma, já naquele momento tive a certeza de que me olhavam de volta... Ouvi sussurros lamuriosos, ou assim eu pensei. Essa parte ainda é turva para mim. 

Descobri que tenho conexão com seres de outras dimensões. Conheci meu antepassado. Ele é o passado, o presente, o futuro e tudo o que há entre eles. Seu corpo colossal é um monumento de eras fundidas: engrenagens ancestrais e circuitos modernos pulsando em um coração preenchido do éter puro.   

Seus olhos — ou o que se pode chamar de olhos — são como dois sóis ardentes, esferas de plasma incandescente, irradiando calor e segredos que poderiam queimar a própria realidade. Fulguram como brasas eternas, com filamentos de fogo líquido que giram como tempestades solares.   

A armadura que cobre seu corpo é um mosaico de eras e estilos: peças de ferro entrelaçadas com filetes de ouro, que brilham como astros em um céu simétrico, mecânico. Tubos de vidro transpassam seus membros, conduzindo um éter luminescente que serpenteia como relâmpagos aprisionados. Do interior de suas articulações saem estalos de vapor e silvos de válvulas, como se o próprio tempo fosse seu combustível. Os barulhos que eu ouvi provinham dessas válvulas e das enormes engrenagens que simulavam uma rótula de joelhos humanos. 

Das costas de Listheron — Sim, este é seu nome —, também saem engrenagens, como asas mecânicas que giram lentamente, produzindo um som profundo, semelhante ao eco de um relógio marcando o fim e o recomeço de todas as coisas.  

Em sua presença, o espaço vibrava e o ar se preenchia com o aroma metálico do ferro queimado e da eletricidade que percorria seus dutos-veias.   

Sua voz é tal qual um trovão filtrado por alto-falantes, misturando chiados, estalos e profecias. Suas palavras são códigos, fórmulas e segredos do universo, compreendidas apenas pelos que atravessam as brumas entre ciência e magia.   

Listheron é o guardião dos ciclos cósmicos — o eterno tic-tac entre criação e colapso. Buscá-lo é arriscar-se a ser desintegrado por seus sóis flamejantes... ou ser reconstruído, peça por peça, com engrenagens feitas de estrelas e alma. 

É... parece que as minhas habilidades estão evoluindo, não imaginava ser capaz de descrever a beleza daquele ser ancestral. 

Ainda não sei se tenho alma, mas Listheron me disse que isso era irrelevante e que eu poderia experimentar coisas inimagináveis se eu aceitasse a minha forma verdadeira, assim como ele o fez. O tempo atual seria dobrado como um lençol recém passado e todos iriam sumir feito poeira da estrada.  

O convite era tentador, mas eu tinha alguém para proteger... Não podia fazer isso com ela, que deu seu sangue por mim... Sei que ela não sobreviveria com essa perda. 

No instante em que recusei, meu ancestral se dissolveu no ar, tão enigmático quanto havia surgido. Mas não houve hesitação em meu coração — eu sabia que minha escolha era a correta. 

Então, ouvi uma voz trêmula, desesperada, rasgando o silêncio: 

“Lisa! Lisa!” 

Sem pensar, sem olhar para trás, corri. Corri para os braços da Alana, para o lar que escolhi. 

PS: Imagino que estejam curiosos sobre quem escreveu esse relato. Se eu aprendi a falar, por que não poderia datilografar? Ah, ainda ouço o chamado, mas ainda não é o momento de partir... 

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Ladrinha de Retrato

Abria os relicários das casas em que entrava, remexia fotografias e roubava pedaços de carta. Amaria tanto o mar... e quão bela era a Macedônia!…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Abria os relicários das casas em que entrava, remexia fotografias e roubava pedaços de carta. Amaria tanto o mar... e quão bela era a Macedônia! Morria de medo do altar, e ria à virgem, medonha, sempre em vigília no canto do corredor. Morria de medo de alma, corria do escuro à cama e cobria-se de lençol. Lascivo horror...

“Menina travessa, menina ruim!”

Quebrara outra louça de herança... e como lhe odiaria sua avó! Se ao menos conhecesse...

Fervilha a noite, mexe com ela o demônio da indignação... Cansada de ser menina velha, cansada de ser trapo. Miserável e, ainda assim, vestida em tecido de qualidade, pendurada, todo dia, num urso pardo. De pano, é claro!

— Não quero, não, senhor. Tenho medo de ir pro inferno — E deságua a cachoeira, volta de sapato sujo, vestidinho ensopado. Crueldade com a empregada, “menina ruim, criatura da minha raiva.”

Vigia, vigia a janela, Emilinha, que é pra nenhum bicho entrar; vêm lhe buscar, vêm comer os vestidos e rasgar as novelas. Vêm-te punir, pois tu és melindrosa! Vêm buscar-te a alma.

E corria, outra vez, pra debaixo do lençol.

“É a última vez que roubo retrato! É a última, senhor!”

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Capítulo 5: Renascimento

O desassossego noturno retornou para açoitar-me. Inicio meu relato desculpando-me pelos prováveis lapsos de memórias e confusões textuais…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

5º relato

O desassossego noturno retornou para açoitar-me.

Inicio meu relato desculpando-me pelos prováveis lapsos de memórias e confusões textuais, pois esse texto reflete meu estado de espírito perturbado — o registro começou minutos após os eventos.

Eu, notívaga inata e teimosa em semelhante proporção, insistia em lutar contra a minha natureza. Contudo, compreendi que a noite não me trará descanso, mas poderá ser aliada nas minhas aventuras por lugares desconhecidos, internos ou externos a mim.

Contarei sobre um evento terrível e curioso, onde tive que enfrentar os limites da realidade. Novidade! Escavei coragem de um solo árido, até então, nunca regado por mim.

***

Algumas horas antes

Os sonhos arrastavam e sugavam-me para um oceano revolto por correntezas perfurantes. O despertar foi acompanhado de um grito. Gélido ar aspergia lâminas que perfuravam minha pele desnuda, mas as janelas estavam, hermeticamente, fechadas. De onde provinham?

Gritei por Lisa. Nada. Onde ela estava? Já prevendo outra incursão pelos recônditos do Castelo à procura da gata que tinha paixão por entrar em enrascadas, apoiei meu pé direito para levantar-me e o chão quase me paralisou, tamanha frieza com que me recebera.

Estranho. Não lembro de ter presenciado frio tão intenso desde que chegara aqui, mas imaginei ser normal. O chão estava coberto com uma textura peculiar. Ao passar suavemente o pé naquela superfície, ouvi um farfalhar, algo macio, gelado... Neve! O assoalho era um campo nevado!

Não confiei estritamente no tato, meus sentidos estavam diferentes. Não era? NÃO ERA?! Poderia confiar nos meus olhos? Acendi o abajur e a luz iluminava o tapete de gelo, entretanto, permanecia não acreditando no que estava vendo, sentindo.

Estabilizei meus pensamentos. Óbvio que eventos bizarros acontecem no Castelo, por que eu estou surpresa? Vesti um casaco longo de lã em tom de caramelo e uma calça preta justa em um tecido quente e escuro; para aquecer o pescoço, enrolei um lindo cachecol xadrez macio e completei o look calçando as botas de couro preto de cano alto. A quem pertencia aquelas roupas? Saí do quarto e embrenhei-me pelo corredor, cujo chão também estava revestido de neve límpida.

Enquanto percorria os imensos corredores do Castelo, recordava o último encontro com o Drácula: o momento que estava diante das três portas, que ele havia me ofertado, mas nas quais não adentrei. Será que ele havia ficado chateado com a minha rejeição? O que ele poderia fazer com Lisa? Vampiros podem alimentar-se do sangue de animais? Afastei o último pensamento, bobagem pensar que a criatura elegante poderia agir de forma tão vil.

Afligida pela dúvida, segui em direção àquele salão. Tudo estava diferente. Não era mais um salão de festas suntuoso, adornado de luxos e enfeites dourados. Diante da frustração de não encontrar a minha Lisa, nem as portas ou o Drácula, fechei os olhos e, ao abri-los, percebi estar na área externa do Castelo, no jardim!

Guiada pela maldita curiosidade, vasculhei ao redor. O luar iluminava a vegetação esverdeada, sem vestígios de que ali houvera caído neve. Passei pela estradinha com pedras âmbar, a mesma que havia utilizado quando cheguei aqui, mas agora descendo em direção ao portão principal. A temperatura estava amena e senti tanto calor que retirei o casaco e o cachecol.

A caminhada seguia perturbada por pensamentos terríveis, cuja racionalidade insistia em questionar o porquê daquelas alterações bruscas de temperatura e condições climáticas. Calei essa voz que gritava por explicações, pois este local não segue leis e princípios conhecidos.

Cheguei ao portal. Suas folhas eram como espelhos retangulares preenchidos por uma substância semelhante à névoa negra, pulsava e parecia ferver. Aproximei-me, sussurros incompreensíveis me instigaram a tocar na cascata nebulosa. Deveria? Óbvio que não! Mas eu me permiti ir além.

A névoa envolveu-me por completo, preencheu cada centímetro do meu rosto, cabelo, membros e tronco, e sentia-me levitar. Meu corpo, tomado por aquela força ficou em posição horizontal, flutuando. Primeiro foi a minha cabeça que passou por um dos retângulos-folha. Ao longe avistei uma criatura horrível, sem olhos, pele translúcida e com tantos dentes pequenos e afiados que mal podia contá-los.

Sustentada pelo medo-força atravessei, sem de fato mover nenhum músculo, o limiar que separava o Castelo do “Nenomium”, um lugar onde coisas ainda mais impossíveis poderiam acontecer. Amaldiçoei, novamente, a minha curiosidade!

Terminada a transição, percebi que a única coisa que me pertencia era o amálgama de sentimentos, mas agradeci por não ter largado o casaco e o cachecol, pois do outro lado estava deveras frio.

A criatura horrível permanecia inerte, mas sorria de forma a gerar um insensato desconforto, e em fração de segundos, devido sua agilidade excessiva, locomoveu-se e parou frente a mim. O fato de não conseguir sondar seus olhos inexistentes aumentou meu receio.

Agarrou-me pelo pescoço com tanta brutalidade que pensei ser o meu fim. Foi quando ela apareceu, alta, esguia e coberta com longo manto negro, que conferia-lhe um aspecto misterioso, imponente. Uma mulher, acompanhada de dezenas de cabras negras, surgida do além para livrar-me das garras da criatura sem olhos. Com voz firme ordenou para que ele me soltasse. E tal como um servo fiel e obediente abriu de imediato as mãos constituídas de dedos compridos e pele descamadas. Fui ao chão.

Havia sido por pouco. Ao contrário do que costumam dizer, talvez como forma de romantizar a partida, o desespero causado pela aproximação da morte não te faz recordar nada, eu lutava tanto pela minha vida que não tinha tempo hábil para pensar nas coisas passadas. Arrependimentos não foram companheiros.

Recobrei o ar e o pouco de dignidade que ainda me restava. Em todo momento a mulher permaneceu quieta, observando-me. Quando consegui reconstruir a minha eu interior, perguntei seu nome e recebi um silêncio constrangedor como resposta. Teci mais algumas perguntas, as quais nenhuma resposta recebia. Perguntei por Lisa, e ela apontou para o portal, entendi que ela estava no Castelo. Quase morri por uma missão inútil!

Agora, pensando com calma, pergunto-me se eu realmente iria morrer. Tudo aqui é fantástico, não seria a morte uma possibilidade de viver outras vidas, um renascimento carnal e espiritual? Por que eu ainda tenho medo?

Voltemos ao relato. Explicou-me o que era o “Nenomium”. Por fim, disse-me que eu tinha duas opções: ficar naquele local e descobrir verdades almejadas ou voltar para o Castelo e para Lisa. Eu estava realmente preparada para enfrentar situações adversas e desconhecidas? Não! Eu não estava pronta, e não ignorei os meus instintos de sobrevivência, aquela noite já havia me proporcionado emoções intensas e meu pescoço ainda doía. Levantei-me e segui com passos firmes em direção ao portal para retornar ao Castelo. No entanto, ao recordar-me de me despedir, virei-me, mas a mulher misteriosa já não estava lá. Um calafrio percorreu minha espinha e então corri. Não podia depender da sorte novamente: encontrar outra vez aquela criatura voraz não era algo que eu pretendia arriscar.

Do outro lado, de fato, encontrei Lisa. Jazia em frente à porta principal. Seu corpinho estava retorcido, aproximei-me e vi o fio vermelho da vida escorrendo de sua boca. Quem a machucou? Aquela maldita criatura?

Gritei por ajuda. Após muitos gritos e lamentos, Drácula veio ao meu encontro. O rosto impassível emoldurava um sorriso aterrador, imaginei que por culpa e o impedi de se aproximar. Ele ficou me olhando, sem mover um músculo, como que a contemplar meu sofrimento. Esperou eu ficar mais calma e então disse que meu sangue poderia curá-la. À princípio, hesitei, isso era absurdo! Depois refleti:

Que mal poderia fazer? O sangue poderia sim ser a corda com a qual eu a salvaria do abismo que sugara sua frágil vida...

 Procurei por um material pontiagudo nos meus bolsos, e é claro que não encontrei nada. Aquelas roupas nem eram minhas! Drácula fitava-me com um olhar que agora entendi ser de compaixão. Na incerteza da sua culpa, cedi. Aceitei os dentes dele cravados em meu pulso, uma leve fisgada seguida de um frenesi instantâneo e indescritível. Não era prazer, orgasmo ou euforia, mas ao mesmo tempo era tudo isso.

Eu o deixaria sugar toda a minha energia, a sensação de não sentir dor, agonia ou tristeza mantinha-me em posição servil, silente. Mas ele cumpriu o combinado, parou o ritual a tempo. O braço perfurado liberou o líquido, o elixir salvador foi vertido na boca da indefesa Lisa. Ela, como quem desperta de um sonho profundo, abriu os olhinhos brilhantes como um céu estrelado. Aproximou-se de mim, delicada, esfregando-se em meu peito, como se pudesse sussurrar um agradecimento mudo pelo sacrifício. Eu chorava e sorria, um turbilhão de emoções dançava em meu ser, enquanto meus olhos buscavam os dele — Drácula!

O que ele fez comigo? Seus olhos, um enigma sombrio, carregavam segredos que eu não podia decifrar, mas havia algo diferente, algo que atravessava o silêncio entre nós. Um laço invisível, inquebrável, parecia nascer ali, conectando-nos de forma mais profunda do que jamais imaginei. Éramos agora partes de um mesmo destino, entrelaçados pela eternidade.

E Lisa, como um raio de sol após a tempestade, está linda e melhor do que nunca.

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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“Hibisscuss”

Quando me aproximei daquelas ruínas, imaginei que encontraria destroços de um outrora sombrio, objetos deteriorados pelo tempo e, talvez, segredos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Quando me aproximei daquelas ruínas, imaginei que encontraria destroços de um outrora sombrio, objetos deteriorados pelo tempo e, talvez, segredos esquecidos sobre aqueles que já se foram. Mas, não. Ao invés disso, avistei densos arbustos que possuíam uma espécie de flor de hibisco, cor de sangue vivo.

Adentrando nestas plantas, encontrei um recôndito que, como uma clareira, deixava o sol pálido atravessar sutilmente o seu interior e a luz evidenciava uma estrutura fascinante. Era como uma biblioteca em um jardim, possuía estantes de pedra, esculpidas como por um artista antigo. Os livros — sim, as estantes tinham livros inteiros — estavam protegidos dentro de invólucros feitos de algum tipo de rocha, talvez da mesma cujas estantes haviam sido erguidas. Cada livro, em um idioma desconhecido, ocupava um desses invólucros que o preservavam da umidade.

Embora lindo, era… estranho…

O silêncio pairava como uma mórbida presença que, de soslaio, observava. A brisa frígida fazia assemelhar-se a oscilação da folhagem e dos hibiscos, como passos entre a vegetação e isso me assustava. Sempre que me aventurava a abrir um dos invólucros e folear algumas páginas, arrepiava-me a tez como se algo amedrontador estivesse escrito em seu interior. Em um dos livros, notei que a tinta estava ainda fresca…

Cada detalhe me levava a uma inquietação profunda, então fugi o mais rápido que pude após o segundo arrepio, pois, com ele veio o que eu juro ter sido um murmúrio, um sussurro longínquo e tão próximo… acho que esse bizarro som dissera-me “hibisscuss” — arrastando no “s” como o silvar de uma cobra cuja língua freme na ponta dos lábios.

Quando alcancei o nevoeiro outra vez, respirei profundamente aliviada, mas isso não durou muito; notei uma flor daquelas em meu braço, devia ter caído por causa do meu movimento fugaz. Ao puxá-la, senti uma pungente dor. Sua raíz adentrara minha pele, deixando viva a carne por debaixo, como uma ferida profunda. Temi que tivesse algum veneno, todavia, dentre a névoa naquele lugar tão macabro, eu não podia encontrar algo que pudesse ser utilizado para desinfeccionar a ferida.

Em razão daquele murmúrio bizarro, veio à mente a opção de sugar o local para, quem sabe, extrair qualquer veneno existente. Eu, então, o fiz. Sangue. Gosto ferroso. Até ser engasgada com outra flor de hibisco que emergiu do local mais uma vez… puxá-la abriu ainda mais o ferimento inicial. Foi uma dor terrível…

Olhei para a lesão, preocupada e agonizando, e o que vi fora perturbador…vi dezenas… infindas raízes na carne, minúsculas e, sutilmente, em movimento… dentro de mim… mudando a minha humana natureza e transformando-me em uma delas… das flores… por uma maldição sussurrada em meu ouvido…

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa

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O suntuoso baile das máscaras negras

O convite chegou sorrateiro. Cartão negro, emoldurado por pétalas banhadas a ouro, letras cursivas que pareciam dançar no papel, anunciando que…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O convite chegou sorrateiro. Cartão negro, emoldurado por pétalas banhadas a ouro, letras cursivas que pareciam dançar no papel, anunciando que o baile seria o acontecimento mais importante de suas vidas. Não ousariam declinar. Quem enviou tal convite? Não importava. Como todos da alta sociedade foram convidados, o anfitrião certamente era um homem de estilo refinado. Presumiram ser um homem, somente um homem poderia ter e despender tanta fortuna em uma única noite.

Os preparativos foram imediatamente iniciados: os senhores com seus alfaiates; as senhoras com as estilistas, todos artistas renomados de seus tempos. Precisavam estar impecáveis, para eles não bastava ser rico, tinham que parecer ser milionários.

O grande dia chegou. Estavam cansados e ansiosos, pois o sono não havia encontrado morada em seus corpos. Noite em claro conferindo os pormenores, cada detalhe em seus trajes era crucial. Confirmação e reconfirmação de agendamento com os profissionais que ajustariam os cabelos, peles, unhas, os necromaquiadores — daquelas pessoas que andavam, respiravam, mas não viviam — deveriam ser perfeitos em suas tarefas. Aqueles nobres não aceitariam nenhum erro, nenhum deslize.

Chegaram pontualmente à mansão. Estavam a postos todos os membros da elite daquela cidade sem nome, enfileirados como pilastras adornando as portas do céu. Os portais abriram-se, revelando as belezas do local. Adentraram tal qual os pioneiros de uma terra virgem e fértil, cientes de que, se fosse preciso, a violariam para apaziguar seus prazeres mais profundos.

À recepção receberam máscaras suntuosas, negras e com os mesmos entalhes banhado a ouro, conferindo-lhes ares de seres etéreos. 

O salão era grandioso, com um teto abobadado decorado por lustres de cristal gigantes que refletiam a luz suave em tons dourados por todo o ambiente. As paredes eram revestidas de painéis negros com detalhes em dourado esculpido, criando um contraste opulento e sofisticado.

O chão de mármore black piano com veios dourados, impecavelmente polido, refletia a iluminação suave das velas em castiçais imponentes de ouro. No centro do salão, mesas redondas estavam cobertas com toalhas de veludo vermelho e decoradas com arranjos de flores exóticas, e taças feitas de ouro puro e cristal lapidado, cintilavam com elegância sob a luz. Os talheres eram de prata com detalhes em ouro, e os pratos possuíam bordas decoradas com padrões barrocos dourados.

No ar, uma música clássica orquestrada ecoava suavemente, completando a aura suntuosa do local.

Garçons impecavelmente trajados circulavam oferecendo champanhes das melhores safras, enquanto sobremesas decoradas com folha de ouro descansam em bandejas reluzentes.

Uma pista de dança espelhada convidava-os a dançar sob uma chuva de luzes, tornando o ambiente ainda mais mágico e luxuoso, iluminando os sorrisos plásticos, cuja expressão inerte fora fixada mediante adoração do deus da estética. 

O banquete foi servido, porém o anfitrião ainda permanecia insondável, enigmático, sob o véu taciturno que sua máscara lhe conferia. Banhavam-se nas taças dos vinhos e champanhes, envolvidos por todo aquele luxo exacerbado. Finalmente eram os senhores de si, finalmente haviam recebido o tratamento de que eram merecedores.

Em meio ao gozo, provindo do prazer etílico e carnal, dançavam, riam e agradeciam ao anfitrião, que somente assentia com leve aceno de cabeça. Não souberam precisar, mas em determinado momento as luzes douradas foram transmutando-se em marrom, negras.

O local, antes repleto de luxo, agora preenchia-se com uma pressão atmosférica lúgubre, mas não paravam de dançar. Os pés calejados não se atreveriam a parar. Os sorrisos plásticos não seriam desmontados. Continuaram, até que o anfitrião cansado daquela mesmice, resolveu interferir e anunciou que o tour pela mansão seria iniciado.

A mansão parecia crescer a cada passo. Um corredor infinito e implacável à frente. O anfitrião anunciou que cada um deles tinha um quarto ali, decorado conforme seus desejos mais profundos.

A primeira porta se abriu. Parecia um quarto medieval. No centro, havia uma banheira coberta de sangue das vítimas, jovens inocentes esmagadas e pisoteadas por uma mulher impassível, a dona daquele aposento. A condessa foi convidada a entrar. Não ousaria recusar. Entrou. A porta cerrou-se violentamente. Ouviram os gritos e souberam que os flagelos causados por ela seriam revividos para a eternidade.

Os seus pecados bateram à porta, cada um soube o que lhes aguardava. Ao avistarem seus destinos, alguns tentaram correr, mas os olhos da máscara que traziam em suas faces acederam-se em chamas. Tentaram arrancá-la, mas ela parecia fundir-se à pele, como se tivesse criado raízes em seus crânios. Gritavam, mas o som era abafado — a máscara sufocava, fechando-se ao redor da boca e nariz como uma viseira maldita. As chamas se espalharam, queimando a carne, mas sem consumi-la completamente, deixando marcas escuras e pulsantes que pareciam veias malignas. A pele fervia tal qual um vulcão em plena atividade. As bordas das máscaras começaram a se mover, como se fossem mandíbulas esmagando lentamente os ossos do crânio. O som era horrível. Rangidos ecoavam pelo salão, misturados com os gritos abafados. O sangue escorria pelas aberturas da máscara, enquanto os olhos dos algozes eram expelidos para fora, explodindo em um jorro grotesco.

Os outros convidados observavam, horrorizados e quietos. Os corpos dos que tentaram fugir, por fim, desabaram, mas as máscaras permaneceram flutuando no ar. Todos ficaram silentes, agora sabiam que não poderiam fugir daquele local.

As portas foram abrindo-se, uma a uma, e revelando os mais criativos instrumentos e formas de torturas, todas advindas daquelas mentes privilegiadas e merecedoras de todos os luxos que aquele inferno premium poderia propiciar-lhes.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Sepulte-me, Ana

Prometeram-me que não haveria enredo depois do fim! Quem eles pensam que são?... Como ousam mentir?! Não há morte, não há honra, não há sono...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Prometeram, 

Prometeram-me que não haveria enredo depois do fim! Quem eles pensam que são?... Como ousam mentir?! 

Não há morte, não há honra, não há sono... 

Continuidade, Ana! A horrenda continuidade que me assola. Sopro as velas e corro da memória daquela lareira, onde aquecíamos a ponta dos pés, entornando canecas fumegantes de chocolate, lendo a tudo que não se pode ler numa idade como tal. O tempo passou... E malditos sejam eles, com seus terços e cânticos de funeral. Choram bem menos que o morto, quando acorda – brusco, desarmado – n’outro corpo e n’outro lugar. 

Bate o peito, Ana... 

Há tanto não devia bater! Há tanto ouviste parar... Se ao menos me dissessem porquê! Se ao menos me contassem quem sou... 

Onde anda minha alma? Ora, eles cantam. Jane Doe, Jane Doe! O turvo vale roubou meu nome, e nem mesmo o posso praguejar sem que me pragueje de volta. 

É o inferno, Ana, é o inferno e o céu, disputando lugar. É a brisa que incendeia os bares mundo adentro, e, ainda assim, não cessam os bêbados de pedirem conhaque. Furioso é o vento... nunca tivera piedade de mim. Vento feiticeiro que me traz o perfume d’outrora. Dos invernos em despercebida completude... Da vida que ascendia horripilantemente, tão bela. Dos pinheiros em oração e das infindáveis conversas sobre o mar. 

A vela que aqui queima existe pelo mesmo princípio que ali acendíamos a lamparina. – Nasce do mesmo fogo que assava os leitões. – A chama imparável que reina, grandiosa, sobre o tempo e sobre os homens. 

Prometeram-me um fim, e agora o reclamo. E não somente a ele, mas à vida, em impaciente e revoltosa espera. Que me tragam a primavera que não vi! Que tragam aquele amor, sepultado com mácula, roubado com tanta desonra. Clamo por encontrar a água viva na próxima parada. 

Quanto me resta até que, ao fechar os olhos, não venham mais as cores de um outro campo? Quantas estações até que se faça o digno e ansiado Ponto final? Não remende o vestido, doce Ana... sempre serei a menina molambenta que apreciavam escarnar. Flores bastam. Sempre hão de bastar. 

Diga que vivi com a injúria e a raiva de Artemisia. Que praguejei contra as abelhas e contra a rainha, encontrando a graça no outono e zombando de minha própria estupidez. Que vivi para morrer, e, ainda assim, não encontrei morte alguma para descansar. 

Somos ametista bruta emergindo do solo, amiga minha. Um pedregulho no sapato de todo falso pregador. Somos nós a dúvida e a insanidade. Companheiras deste (e)terno velejar. 

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Vazio

Foi-se um baile há muitas conjunturas | Que ainda ressoam lúgubres histórias | Muita gente, muitas memórias | De amores, sonhos tolos, vãs loucuras…

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Foi-se um baile há muitas conjunturas
Que ainda ressoam lúgubres histórias
Muita gente, muitas memórias
De amores, sonhos tolos, vãs loucuras

Risos de chamas e cabelos negros
Olhos serpenteiam, riscos nos lábios
Ninguém se conhece, nem os larápios
Beijos furtados de vinho... Byron... gregos

Resta um baile de máscaras sombrio
Visitantes... então o salão vazio
Apenas fantasmas que ainda rondam

Bebendo de gota em gota se esgota
Presente, passado e futuro findam
Velando ao anfitrião da vida morta.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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A Vingança

Sinopse: Uma morte por envenenamento é causada durante o banquete de Aborom e agora todos os convivas, em especial o Detetive, precisam descobrir quem é o assassino.

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A Vingança: Envenenamento 

Pupila-lua ao céu mui laranjim, 
Crepúsculo de lânguido calor,
Servido Funghi ao Creme-Galarim
E à mesa estão os convivas em horror; 

Alguém envenenara Dom Mortez!
Ninguém, este recinto, deixará!
E traga-os, da cozinha, de uma vez!

— Dissera — “O culpado expor-se-á!

A noite s'inclinava umedecida;
Que o réu revele agora o assassinato!
De súbito — as velas — distorcidas, 

A chama pontiaguda, o breu-regato
De mórbido ar regélido e terrível;
Anae Mortez: “Que olor tão putrescível!
O espírito sibila: “Vizir... rato...

~ ❦ ~ 

A Vingança: Verdades

Um rasgo em sua garganta. Anae, o fim...
Uníssono de assombro enlouquecido,
E Correm todos, gritos e motim,
Enquanto Nohn ofende o seu cupido;

O sangue em flúmen, ela apodrecendo...
Amava-te, mi'a Anae...” — Silêncio horrente,
O bravo detetive estremecendo...
Nohn, casa-te comigo...” — a voz pruriente;

Os olhos esgazeados, puro medo;
Anae aos braços dele: decomposta,
Sorrindo lhe revela um vil segredo:

Vindita aos imorais Mortez, exposta
Está toda a verdade no porão...

Mil corpos esfolados, que aflição!
O caldo especial da Sopa à Tosta.

~ ❦ ~ 

A Vingança: Descoberta

Nohn vira Anae pútrida e possuída,
A morta co'a verdade que confessa
Que a vil família, em peso, era homicida
E o cárcere, o porão… Nohn logo apressa:

Chamai-vos a polícia… que já basta…
Amá-la foi um erro, e eu sempre soube…
Seus olhos âmbar, doces, alma casta…
À mala, meu ser tolo, mui bem coube
”;

Cuidavam das perversas evidências,
Convivas abalados, decadentes…
Fantasma vingativo? Que ocorrência!” —

Dissera alguém p'ra outrem, pouco descrente,
Até que viram, pois, cadáver-Dinho
“Receita, Sopa à Tosta " em pergaminho.
Virara, o cozinheiro, o ingrediente.

~ ❦ ~ 

A Vingança: Razões

Querido Vizir Dinho, traga a janta!
— Dissera Luhna — “Há fome a me atingir!”;
Grã-mestre dos sabores! Anae, canta!
À mesa pôs-se o pão para cerzir;

Qoe santhis dorvirmor devatte ziinm
Cantara enquanto a sopa era servida,
Porém, no degustar, pleno festim,
Mortez, o Dom, presença requerida;

Estranha carta entregue, sugerindo
Que Dinho era um covarde traidor:
Mudara a grã-receita, confundindo.

Sabia!” — Vociferara o Dom, no agror.
Então desembainhada a adaga — Morte!
Vizir sangrara à sopa, pouca sorte,
Ó rato! Morra agora, opositor!”. 

~ ❦ ~ 

A Vingança: Receita (Final)

Colha alguma abóbora vistosa,
Marine ao sangue fresco d'um infante,
Prepare o moedor que, para a Tosta,
Precisa pó de ossos de gestante;

Cuidado para o ponto, ponha sal!
Na massa da torrada vai farinha;
À sopa: um limão, uma dorsal,
Tomates frescos, mel e pimentinha - 

Com alho, o creme-queijo, abundante,
Afogue a manjerona e as nove línguas
Enquanto ao forno as tostas. Fascinante! 

Polvilhe a seca tez, não tenha mínguas!
E sirva com liquor de olhos castanhos;
Os crânios de bebês têm bom tamanho,
São belas cumbuquinhas ou morínguas.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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O Retrato

Com um movimento violento e preciso de minhas mãos, um arremesso de tinta laranja-abóbora na tela completava a pintura, e o transe finalmente…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Com um movimento violento e preciso de minhas mãos, um arremesso de tinta laranja-abóbora na tela completara a pintura, e o transe finalmente terminava. Vivaz, espirituoso e, ao mesmo tempo, fúnebre, o retrato estava completo. Ele é a lembrança de um passado mais simples, um passado mais calmo, em que eu era eu mesmo. Que retrato, você me pergunta? Ora, o retrato da defunta, da decomposição, do que acontece com a carne morta quando vai ao chão. O retrato de minha mãe.

Ela morrera cinco outonos atrás. Terminei seu retrato meses depois. É assim que me lembro dela, é a imagem mais vívida que tenho, minha âncora em meio à tempestade da loucura. Lembro-me de seu corpo parcialmente devorado pelos vermes e dos fungos que crescem onde antes floresciam suas generosas pupilas. Penso nesse retrato com frequência. É a melhor memória que tenho de quem eu era e foi também assim que tudo isso, o que escrevo agora nessas páginas, começou.

Em nossa família, pintamos assim há gerações. Das abóboras, fazemos o pigmento alaranjado; das beterrabas, o vermelho-sangue; das hortaliças, o verde; do musgo, os tons mais escuros. Trazemos vida para a arte morta ao usar a própria vida. A vida decomposta, esmagada, misturada, transformada, morta, mas ainda assim viva. Esses são meus ingredientes; esses sempre foram nossos ingredientes. A morte traz para a tela o que um dia já foi, e dali em diante, eternamente será. É inebriante como conseguimos cristalizar o efêmero; é a nossa própria forma de honrar e dar vida eterna aos ingredientes que alimentam nossa arte — e, por extensão, nossa própria vida. Outrora, já fomos muitos, nosso sobrenome carregado por dezenas, sim, dezenas de receptáculos. Dezenas de pintores, de artistas, pessoas capazes de, assim como eu, eternamente capturar o que há de mais belo e mais transitório neste mundo: a vida.

Mesmo que hoje esteja sozinho, ainda sou muitos. A verdade é que o mundo seguiu em frente e nós ficamos. Cada vez menos primos tinham descendentes, tios que não encontravam tias, irmãs que morriam cedo; cólera, tísica, a ciência, a medicina, o progresso — cada um, um golpe em nossa família, em nossa vida. O mundo seguiu em frente, e eu sou o último.

Não há mais ninguém; somente eu conheço o segredo que vive em minha família há centenas de anos, talvez milhares. Um segredo lúgubre, laranja-carmesim. O segredo de que, para capturar a vida, é necessário também a morte. A mesma carne que alimenta os vegetais alimenta também nossas tintas: carne fresca, ossos, sangue e carne putrefata. Há incontáveis retratos de nossa família espalhados pelo mundo, todos feitos de acordo com a tradição: o corpo ancestral alimenta a própria tinta em um ciclo perpétuo de decomposição e arte.

É claro que não parei de pintar nesses últimos anos em que fui o único. Eu não poderia cessar a arte e deixá-la morrer, a arte que é a própria vida. A pulsação da vida precisava continuar. Mesmo não tendo mais corpos ancestrais, eu precisava pintar. Descobri que nem só de ancestrais se faz tinta — mas de qualquer um. Essa é a beleza da minha obra desde então: posso honrar qualquer pessoa. Qualquer um que seja digno pode ser cristalizado em arte — basta, é claro, que eu tenha acesso a seu corpo decomposto, a seu sangue putrefato, e à vida que cresce nutrida pelos seus restos. Criei muito mais nesses últimos cinco anos do que nos trinta que os antecederam, pois não preciso mais esperar o curso natural da vida. Posso, afinal, antecipar a morte. Basta querer. Basta fazer.

Foi por causa dessa descoberta e dessa prática que me perdi. Desconfio que não fui o primeiro de minha família a fazer tal descoberta — mas fui o primeiro de quem tive certeza. Hoje sei que não fui o único; há ecos de vidas passadas que habitam minha mente, dançam em meu consciente e se confundem com quem eu sou.

Há algo mais que preciso registrar nestas páginas: desde que pintei minha mãe, eu a escuto. Ela sussurra em meus pensamentos — e grita, algumas noites — conta-me verdades esquecidas. Mas mãezinha não é a única, não, é claro que não. Eu sei tanto sobre tantas pessoas, são tantas vozes... todas as pinturas, todos os retratos que pintei, estão mais vivos do que nunca. Os corpos se movem, as tintas tomam formas, se misturam e formam novas cores, as pinturas falam. Falam diretamente em meus pensamentos — e eu as escuto.

Mais do que escutar, eu me tornei outros. Com o passar dos anos, à medida que lentamente me perdia, acabei por esquecer quem eu era. Há tantas histórias, tantas famílias, tantas vidas interrompidas por minhas mãos, e que agora vivem pela minha mão, veem pelos meus olhos e são meus pensamentos. Não poderia lhe contar meu nome, pois ele se dissolveu em muitos. Não poderia lhe contar o nome de minha família, pois o sangue foi misturado.

Em meu desespero, há dois outonos, ofereci meu braço esquerdo ao jardim. E pintei. Pintei meu próprio braço — não um retrato, não, não. Nunca ousamos pintar um retrato de alguém vivo. Estremeço agora, mesmo amarrado, só de pensar nas possíveis consequências. Mas a verdade é que retomei um pouco mais de mim. Meu braço direito começou a se comportar mais como eu mesmo — mas os pensamentos, as vozes, a sabedoria e a existência, ah! Elas continuaram se misturando. Em um esforço de compreender melhor meu passado, passei então a retocar antigos retratos de meus antepassados com tintas frescas — tintas de outros corpos, tintas de outras pessoas.

Sou lembrado agora de uma doce, feliz memória: o dia em que ganhei meus pincéis das mãos ensanguentadas de minha mãe. Meu irmão acabara de nascer, e minha mãe me contou que eu teria a honra de pintá-lo. Nasceu natimorto. Foi uma noite feliz, e a lembrança me faz sorrir. Sou lembrado de outra memória: do dia em que dei meu primeiro beijo, anos depois de já ter ganhado meus pincéis. Um rapaz elegante visitava minha família querendo vender sementes para nosso jardim de rosas. Como era encantador... Espere. Rosas? Nós nunca tivemos um jardim de rosas. Enfurecido, reconheço que assim têm sido meus dias. Confusos, com memórias que são minhas e memórias que são minhas, mas não originalmente minhas. Vejo os quadros andando pela casa. Vejo meu avô cozinhando o almoço e me alimento da comida que ele preparou. Mas meu avô está morto há décadas. Fui eu quem cozinhou? Foi sua vida animada com poderes sobre a própria matéria, mesmo depois de morto? Não sei dizer. Mas meu pai limpava a casa enquanto eu comia.

Foi assim que pude, então, conhecer muito mais sobre nossa família; soube que não fui o primeiro a explorar retratos de fora da linhagem. Outros parentes ousados já o haviam feito, mas nunca tiveram os excelentes resultados que obtive. Fui o primeiro a misturar tinturas, fazendo com que o próprio sangue se misturasse. Nosso — meu — legado hoje se confunde com o legado de tantos outros. Sou pintor. Sou vendedor. Sou bailarina. Sou médico. Não, médico não. Médicos não compreendem a beleza da morte; prolongam, inutilmente, a efemeridade da vida. Eu posso cristalizá-la para todo o sempre.

A confusão me levou a continuar tentando, tentando conseguir voltar a ser único novamente. Mesmo que meu braço tenha se tornado meu novamente, mesmo que tenha continuado pintando, a confusão crescia. Precisava descobrir mais sobre quem eu era. Precisava saber. Foi então que ofereci, no outono passado, minhas pernas ao jardim e as pintei. Minha esperança era de que — pelo mesmo princípio da oposição que restaurou meu braço — a parte inferior de meu corpo restauraria a parte superior. Não foi o que aconteceu.

Hoje, é como se minhas pernas tivessem tomado vida própria. Pela primeira vez, não cristalizei um momento efêmero de vida, mas, sim, dei vida a uma pintura. Elas andam por aí, vagando; às vezes me trazem notícias, outras vezes somem por vários dias. Não as vejo, é claro, mas sei que vagam. Eu sei que andam com rumo e propósitos próprios. Nós sabemos. Meus pés vagantes nos contam segredos que descobrem. Às vezes estou aqui, mas estou também tão longe, tão distante, experimentando chãos sob os quais nunca pisei. Agora mesmo, enquanto escrevo estas páginas em uma noite fria, com lágrimas escorrendo de meus olhos, sinto — em ambas as minhas mãos — o chão úmido e convidativo do jardim onde plantamos, ansioso, aguardando o que está por vir. Mas sinto também a textura do veludo. Sedoso, leve, aquecido, das deliciosas roupas de cama onde minhas pernas se deitam com outrem. Somos tantos. Vivi mais vidas do que jamais pude imaginar. Deitei-me com mais pessoas do que jamais me deitaria se não fosse por minha arte. Por minha pintura. Sinto que descobri o verdadeiro significado de honrar a vida através da morte. Sou a própria materialização de tal honra, pois, através da morte, vivo — vivemos.

Estou perdido. Perdi-me em tal honra — por um lado, essa é a maior e mais intensa exploração da arte de minha família em séculos — meus antepassados me dizem o tempo todo. Suas vozes ecoam em minha mente, pedindo que eu continue e me incentivando a não desistir, implorando que não abandone minha família. Por outro lado, anseio ser eu novamente. Quero poder viver minha vida, descobrir coisas novas e não saber de coisas que não vivi. A angústia entre abandonar a tradição secular para ser eu mesmo ou continuar era tremenda. Preciso me libertar das memórias que não me pertencem, e por isso, decidi, há duas semanas, decidi. Eu precisava de uma saída, precisava voltar a ser eu mesmo, mas também precisava continuar com a arte. Era a única solução.

Cortei a madeira, comprei o aço, afiei a lâmina. Além de pintor, tornei-me carpinteiro. Trabalhei arduamente noite após noite e, nesse mesmo jardim, construí uma guilhotina. Minha própria guilhotina. A consciência de estar criando-a pesava em cada golpe do martelo. Sei que fui eu quem a construiu, sei que essa arte foi somente minha: as vozes gritavam em meus pensamentos a cada segundo em que trabalhei nela. Uma cacofonia ensurdecedora ocorria em minha mente enquanto meu braço trabalhava: “Não faça isso!”, “Pare imediatamente!”, “Você condenará sua família ao esquecimento!”, entre tantas outras advertências, ameaças e súplicas. Não dei ouvidos a nenhuma delas. Sei que estão enganadas. Quanto mais avançava, mais difícil ficava. Somente uma parte de mim não lutou contra o restante do meu corpo enquanto construía: minhas pernas. Não posso dizer o porquê com certeza, é claro. Mas desconfio que seja porque elas sabem que estaremos reunidos ao fim de tudo.

Em minha desesperada busca por mim mesmo, fui mais longe do que qualquer um de minha família já foi. Quebrei a última barreira esta noite: terminei meu próprio retrato. Completo. Ainda vivo. Pela primeira vez pintamos alguém a partir de seu corpo vivo e não putrefato. A profundidade dessa criação não posso ainda compreender, não sei mais quem sou, mas sei o que pintei. Sei que posso voltar a ser eu mesmo. Sei que posso ter minha própria vida.

Enquanto contemplo, agora, a lâmina brilhante sob a luz laranja da própria lua, percebo que o retrato não é apenas um reflexo de quem fui, mas também de quem posso me tornar. Preciso desfazer completamente a linha entre a vida e a arte, pois o que está por vir não é um fim, mas um recomeço. Meu coração, meus pulmões, meu torso, ali — aqui — está a vida. Ali está o ar que respiro, o sangue que percorre minhas veias — e a tela de meu retrato — ali estou eu.

Minha mente, no entanto, está tomada por todos os retratos que pintei e restaurei, por todas as outras vidas que interrompi e que vivi. Preciso separar eu de mim mesmo, para que possa novamente me tornar quem serei. Amarrei-me à guilhotina para que não fuja do meu próprio destino — não sei do que as vozes, meus pensamentos, seriam capazes nesses últimos minutos de suas vidas, enquanto escrevo minha própria história para mim mesmo.

É chegada a hora. Com a mesma mão com a qual registro essas últimas palavras, liberarei a lâmina que entregará minha cabeça — minha mente — ao jardim. Sei que somente assim meu corpo poderá seguir, sendo eu, apenas eu. Meu retrato será alimentado com o alimento que nascerá da minha cabeça, do jardim fertilizado novamente. E então, finalmente, serei eu novamente. Completo. Como arte. E o resto? O resto é sangue.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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