Solilóquio da Matéria Escura
Apaga-te, archote! Pois a tua luz pequenina | É mera ofensa à vastidão augusta que nos cerca. | Esta carne, este lodo moldado em orgulho e sopro,…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Apaga-te, archote! Pois a tua luz pequenina
É mera ofensa à vastidão augusta que nos cerca.
Esta carne, este lodo moldado em orgulho e sopro,
Rasteja sob o teto de um templo calado e cego.
Olho para o firmamento, essa tapeçaria de breu purpura,
E que vejo? O Nada. O vácuo que engole os impérios,
Que desdenha dos reis e ri-se do saber dos homens.
Ó, teia invisível! Tecido de matéria escura,
Que sustentas as estrelas como joias na agonia,
Tu és o grande segredo que nenhum fidalgo decifra.
Bato às portas do infinito com punhos de poeira;
Rogo por uma resposta, um som, um estalo de voz,
Mas o universo guarda seu mistério como um avaro
Que esconde o ouro nas galerias mais profundas do caos.
Minha alma é um mar revolto em noite de tempestade.
A aflição me corrói as entranhas, pois sou o átomo
Que ousa julgar a imensidão que o esmaga.
Quem somos nós, senão pensamentos febris da terra?
Um breve espasmo de consciência entre duas eternidades
De silêncio absoluto e sombras irrevogáveis.
O abismo do ser... eis a vertigem que me paralisa!
Caminho à beira desta razão que já desaba,
Tateando o contorno de Deus na arquitetura do vácuo.
Mas não há face. Não há traço. Há apenas o frio,
Um manto soberano de mistério denso e sombrio
Que zomba dos meus astrolábios e da minha heresia.
Quisera eu ser a pedra, ou o ferro que não cogita,
Pois pensar é herdar o tormento de um exílio eterno.
A noite avança, a matéria escura me devora o peito,
E o universo, essa esfinge de ébano e silêncio,
Cerra suas pálpebras cósmicas sobre o meu desespero,
Deixando-me a sós com o horror... de não ser nada.
Marcolongo Ricardo
Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Múrex e Arsênio - Nauseante luz sanguínea
O motor industrial range no peito da noite, um zumbido constante, | L'existence précède l'essence... | ou seria o fungo na parede que sonha?…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O motor industrial range no peito da noite, um zumbido constante,
L'existence précède l'essence...
ou seria o fungo na parede que sonha?
Milhares de moluscos apodrecem no tear de um tempo distante,
Para vestir a elite corrompida com a náusea que nos envergonha.
Regardez a viúva vitoriana: seu vestido exala o perfume do ouro e da urina,
Uma fragrância bizarra, le parfum de la mort, que a intersubjetividade coroa; Enquanto a trimetilarsina dança na umidade que descasca a rotina,
O bebê de cera chora no berço de ferro... a engrenagem ressoa.
Não há sentido social que salve o gesso mofado da sala funerária,
A agonia é o teto que baixa, a paralisia da carne operária,
Condenada a respirar o roxo-profundo que o próprio pulmão fabrica.
O caixão espera o corpo intoxicado pelo status do veneno estético,
O espelho Lynchiano reflete apenas o vazio do teatro patético...
Um grito mudo de radiador, onde a morte iminente se purifica.
Ruído Branco de Fundo: O som do vapor escapando dos canos da fábrica de tecidos preenche o quarto escuro.
O papel de parede vitoriano continua a descascar, caindo como pele morta sobre o veludo do caixão.
O cheiro de peixe podre e arsênio é a única prova material de que estamos acordados.
Não há saída para o palco.
Matéria Inominável derretida,
O ferro do radiador sangra o seu vapor mecânico,
Um chiado de dentes brancos contra a ferrugem do ser; Onde o eu se dissolve num vômito cinzento, botânico,
E o feto de cera, na sombra, insiste em não nascer.
Regardez a costura do espaço: o gesso mofado desaba como cinza que cai de um céu que nunca conheceu o sol;
A viúva de roxo fita o caixão onde a luz se acaba,
E o tempo rasteja, viscoso, feito um verme no lençol.
Não há ontologia que salve a carne da náusea primeira, O átrio vitoriano é o palco de um teatro mudo, esquecido... A trimetilarsina sussurra na fresta da madeira:
"O espelho que limpas reflete o que foi corrompido". Atrás da cortina vermelha, o silêncio é um urro profundo, E a agonia de Deus é o perfume que veste o fim do mundo.
Ao monólogo da pele descascada no incendiário fluxo intermitente na penumbra dos ossos e limo... Amor, escute o motor.
O motor não para de girar a engrenagem do dente que caiu na pia. Não é sangue, é apenas o óleo preto que lubrifica o sonho daquela mulher cujo rosto esquecemos na terça-feira. Ela abre a boca para gritar, mas o som que sai é o latido de um cão enterrado sob o assoalho em 1826. O papel de parede vitoriano... vês como ele ondula? Não são os fungos. É a parede que tenta respirar porque o ar aqui dentro ficou pesado demais com o cheiro dos milhares de moluscos que apodreceram para que o rei pudesse vestir o seu manto de soberba. O rei está morto. Ele está sentado na poltrona de veludo no canto do quarto, mas se tu olhares de perto, a cabeça dele é apenas um bloco de gesso cru com duas pupilas desenhadas a carvão. Duas pupilas que piscam quando tu fechas os teus próprios olhos.
L'existence... c'est une bête qui rampe.
O corvo no fundo da sala funerária não voa. Ele tem asas de chumbo e os olhos brancos da viúva. Ele sabe que a cortina vai se fechar e que, quando as luzes do palco piscarem três vezes, o homem do espelho estará sentado na tua cama, segurando o teu velho casaco roxo, esperando que tu peças desculpas por ter nascido. Não olhes para o radiador. O radiador é onde os bebês sem pele cantam a canção do absoluto nada.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Ópera do assoalho obscuro da matéria
O rangido do ferro não cessa. É talvez a caixa torácica daquela mulher que ainda fitava o teto vitoriano com os olhos vazios, brancos, lavados pelo arsênio…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O rangido do ferro não cessa. É talvez a caixa torácica daquela mulher que ainda fitava o teto vitoriano com os olhos vazios, brancos, lavados pelo arsênio que escorre do papel de parede mofado.
Não há transição entre o quarto e a fábrica; os milhares de moluscos que apodrecem no Mediterrâneo estão agora sob o assoalho, liquefazendo-se em um roxo-profundo, um purpurume que mancha as unhas de quem tenta cavar a própria saída do sonho.
L'existence... c'est une blessure ouverte.
Abaixo, a liturgia avança em silêncio mecânico.
Carne Texturizada na sétima noite ao compressor da noite pulsa no sótão, um zumbido cego enquanto a agonia do gesso descasca sobre o dossel;
Não há Deus na altura que escute este mudo rogo,
Pois o Criador é o vurmo que apodrece sob o véu.
Regardez a viúva: o vestido de múrex exala o veneno,
Um perfume de peixe pobre e urina que a seita coroa;
O bebê de vidro, na fresta do armário, pequeno,
sangra um óleo escuro enquanto a engrenagem ressoa.
Nas dobras de uma cortina carmesim, O tempo estagna em um eterno agora. O chão de zigue-zague não tem fim, a própria luz, com medo, foi embora.
O pânico transborda em ectoplasma,
Viscosa angústia que o real desfaz;
O que era carne vira o leve pasma de um pesadelo que não traz a paz.
Alimenta-se o quarto com a agonia,
A garmonbozia amarela e fulgente,
Banquete da miséria e dor sombria.
O vento chora e mente.
Atrás do espelho, a face que sorria
Já não é humana, e o terror se sente.
O tribunal se reúne atrás da parede de gesso,
Onde o bule de café ferve um óleo escuro e denso.
Fui condenado por um crime que esqueci o começo,
Sob o brilho mecânico de um abajur suspenso.
Há algo vivo e faminto no fundo do armário,
Um mal antigo que veste a pele do passado.
O relógio da sala gira em sentido contrário,
o veredito já foi, há séculos, selado.
A metamorfose cega prende o corpo à cama,
Enquanto os passos pesados sobem a escada.
Uma fumaça vermelha o corredor inflama.
A máquina de escrever digita uma folha em branco:
"O horror está em casa".
O A porta foi arrombada.
E o monstro na cadeira assume o meu próprio banco.
As pupilas duplicadas multiplicam-se no espelho da cama,
onde o sexo é o corte profundo que a criatura desenha;
sadismo de sombras que o próprio trauma inflama, que a alma excomungada finalmente entenda e ceda.
A Umbravola Nigrescens pousa no peito do morto recente, mandíbula serrilhada imita o riso do duplo no vidro; não é o monstro que avança de frente, o fato de estares, há eras, trancado e esquecido rosto na parede fria.
O fato de o cabeludo platinado pular pela dimensão não lhe dá o direito de ceifar as mentes de inocentes frias e escatológicas cruas almas rasgando seus ossos.
O anão dança com o anel de caracol, sua voz é uma estática fria e doentia e ele sorri enquanto da boca escorre um pútrido líquido semelhante a um vômito de milho, uma garmonbozia… Ele sorri enquanto seus olhos lacrimejam e disparam contra a pérola dela, aquela que ela inalava com as narinas de platina…
A cortina vermelha ondulada sem vento, bizarra e lisa...
E o absoluto nada engole o que a luz cobria em um monólogo que um homem de giz sorria enquanto pulava derretendo-se
Intermitência.
...vês aquela mancha violeta na tua pele? Não washes. É o pigmento verdadeiro. Custou a vida de tudo o que rastejava no fundo do mar para que tu pudesses vestir essa melancolia. O homem que está dentro do assoalho da carne do espelho não quer sair; ele quer que tu entres. Ele já cortou os fios do telefone.
O corvo no canto da sala funerária não é um pássaro,
é apenas um pedaço de veludo preto que caiu do caixão e começou a respirar.
Se tu limpares as tuas retinas agora, com os dedos sujos de trimetilarsina, verás que o teatro sempre esteve vazio.
As luzes vão piscar.
Três vezes.
O som do sangue pingando e o rosnar da fera
será a única canção de ninar para o feto que insiste em não nascer no canto do quarto do fogo…
.
Ne regarde pas. Le grand néant t'observe déjà.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
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Cianose
Noite após noite, enclausuro-me | como quem naufraga num pélago inefável. | Há em mim um cerúleo alheio ao firmamento, | estranho ao próprio oceano…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Noite após noite, enclausuro-me
como quem naufraga num pélago inefável.
Há em mim um cerúleo alheio ao firmamento,
estranho ao próprio oceano —
é a tintura lúgubre da ausência,
um sopro gélido que, em letargia, respira.
Peregrino pelos labirintos da própria mente
como por Dunas Múrmuras a sussurrar epítetos obliterados;
e cada passo soçobra
no lodo de memórias que jamais sorvi.
Há o acre salitre a corroer as ideias,
como se o pranto antecedesse a gênese da carne,
qual se a nostalgia fosse o molde dos meus ossos.
Minha epiderme, por instantes, fulgura
numa bioluminescência pálida e azúlea,
não como farol aos errantes —
mas como delação do vácuo que palpita nas veias.
E, ao tatear a própria forma,
constato o horror:
jaz um abismo intransponível entre a matéria do gesto
e a tradução do sentir.
E, não obstante, persevero.
Roço as falanges na tessitura do silêncio,
desvelando contornos de um invólucro alheio,
qual explorador de um feudo maldito
encravado na própria carne.
Emerge um calor efêmero, de rubro indecente,
que ousa macular a frigidez —
porém, logo se dissolve
num cobalto mais espesso, mais tumular,
como nanquim derramado sobre a eternidade do nada.
Cobiço a mim mesmo
não por enlevo narcísico,
mas pela crônica esterilidade do outro.
Neste conclave solitário,
fundem-se o sagrado e a mais abjeta ruína —
é o beijo mórbido na face de um espelho
cônscio de que o vidro jamais retribuirá.
O cosmo exterior, alheio e ruidoso, teima em existir,
enquanto em meu claustro vigora a maré cativa,
um oceano amordaçado que refuta romper as margens.
Aberrações inomináveis flutuam sob o limo dos meus pensamentos,
letárgicas, silentes,
irradiadas por uma melancolia fosforescente
que esparge sua mágoa sem rogar indulgência.
Sou forjado num anil atávico,
matriz não catalogada nas cartografias d’outrora,
pigmento exilado nas escarpas do tempo.
Carrego no peito a saudade umbrífera
daquilo que jamais chegou a ser,
e que, a despeito de sua irrealidade, me convoca
com a doçura letal de um lar.
Vez ou outra, alucino a fricção de outro corpo —
não como redenção,
mas como puro e brutal contraste tátil.
Epiderme contra epiderme,
a chama mortal contra esta infinitude glacial.
Todavia, até tal delírio
dilui-se em espectros de safira e turquesa mortuária,
e retorno à minha clausura,
eu sempre retorno.
Pois repousa uma lúgubre e mansa paz
na rendição ao próprio abismo.
Já não me debato contra a fúria deste pélago azul.
Consinto que o flúmen me engula,
que me converta em vitral translúcido,
numa quase-não-existência.
Reside o belo naquilo que é perpetuamente manco,
no anseio que ecoa sem jamais tocar o outro,
no corpo que aprende a ser, num só fôlego,
mausoléu e ermo escaldante.
E destarte, cristalizo-me:
nem desperto, nem aniquilado —
apenas suspenso
num azulíneo devorador
que é meu verdugo e minha gênese.
Se lá fora fulgura alguma luz,
seus raios não perfuram minha noite.
E já não os cobiço.
Aprendi a contemplar o breu
de pálpebras seladas,
a palpar a vacuidade
como se fosse carne vívida,
e a idolatrar
— com devoção póstuma —
o silêncio espectral que em mim fez morada.
Bruno Reallyme
Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Capítulo 11: Pecado... — Rubi Áurea
Símil a um olho, o obscuro pingente reluzia. A lótus negra decerto significava meu ainda existente vínculo com…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Símil a um olho, o obscuro pingente reluzia. A lótus negra decerto significava meu ainda existente vínculo com o Oráculo, como os sigilos no pulso, entretanto, eu não sabia o porquê, tampouco como aquilo se manifestaria. Por instantes pensei, ofuscada em mim, sob o mortal silêncio daquela estranha natureza... que a solidão, por muito rejeitada, talvez fosse a mais honesta escolha. Nunca estive só, eu pensava, desde que respirei sob a umidade do Castelo. Havia a criatura em meu cerne... sim... eu não a culpava ou a considerava odiosa... porém, era algo em mim que não deveria residir em minh'alma — eu nem sabia onde ela estava... no ser... no inconsciente... nas entranhas...
E, de repente, estive nos braços de Lëvri... e, então, selei um pacto com Lahgura... como se não bastasse... veio-me Seth... e outros que encontrei por tais tortuosas veredas. E, ainda, os medos que sempre me acompanhavam como vultos em vigia. A condição de solidão esteve sempre contígua mesmo sob tal verdade inabalável — fazia-me pensar que se é para tê-la, independente daqueles ao meu redor, então que seja na totalidade, sozinha e a sós, sentindo e vivenciando a solidão. Lembrava-me que, com Lëvri, por átomos de tempo, afastara-se este exílio impertinente e ínfimo e tão... tão amargo..., mas... um poço de mágoa se estendia... tudo mudou sobre Lëvri... como se a intensa paixão fosse nada além de uma ilusão lunar...
As minhas rubras íris, no reflexo daquelas águas, entristeciam-se. Eu esperava mais da vida logo que despertei, mesmo cingida por nada além de hialina reminiscência. Eu não sabia o que sentir sobre as vivências desde então, era como não pertencer a si mesma... atrelei isso à ausência das memórias, embora nada mudasse a cada relembrar... Antes, porém, que eu pudesse extrair alguma compreensão do mais medonho oceano que estava, no meu cerne, cada vez mais revolto, eu vi outro alguém refletido nas águas da fonte, logo atrás de mim. Respirei fundo... era Seth...
— O que tu queres? — Indaguei, irresignada. Seth sentou-se ao meu lado na fonte. Mantive-me olhando as águas, movimentando-as com a lentidão de mil noites. As dunas do plácido intermúndio que eu almejava eram, na verdade, cada grão de areia, um incômodo. Uma flor, então, desvelou-se à minha visão. Era inenarrável... Símil às dálias, tão leve e suave... com pétalas em voluta, formando um redemoinho escarlate; o vento ali já agitado, abriam-nas com um sopro contínuo. Resplandeciam em um negror-etéreo, com nuances carmesins, como se a noite tivesse derramado nela seu próprio sangue. No âmago daquelas pétalas, havia infinitesimais veias que pulsavam de forma quase imperceptível, como se a espécie tivesse um arcano coração, palpitando lento e sutil.
Seu aroma, um mistério adocicado e quente, invadiu-me os sentidos, evocando abstrações sentimentais que eu desconhecia possuir, arrancadas do meu mais merencório oblívio. Os espinhos grandes, como nas rosas selvagens, eriçavam-se agressivamente, curvado para cima, protegendo-a dos toques indignos, em uma beleza que se declarava proibida. O caule, negro como carvão polido, era robusto e sinuoso, morno ao toque, quase aquecido ao tom de uma tez, como se moldado na escuridão nociva do mármore negro das bordas do rio de lava, no inferno.
Ó, pulcritude absurda! Nunca vi espécie de tamanha perfeição. Era tão majestosa e tão estranha em sua beleza lúgubre, que trouxe às janelas de minh’alma um lacrimar vestal, embaçando-me a visão. A luz ao derredor minimizara drasticamente, era como estar apenas, sob minha presença, a flor e, sob a presença dela, eu; nada mais, nem o tempo, nem o dia ou a noite. E nenhum astro na imensidão. Minhas mãos tremiam, tocadas pela solenidade desse presente impensável, enquanto eu a segurava cuidadosamente, sentindo sua lanugem e a textura sedosa das pétalas.
Olhei para Seth, estava tudo tão escuro... meus olhos, tomados por uma emoção ambígua, entre gratidão e mágoa, contornavam meu semblante aflito. Seth era tão familiar... tão desconhecido...
— A nutrúrnia prometida... — Disse com sua voz abíssica. Fazia tempo que eu não o ouvia. Seus dedos tocaram a lágrima que vertia pelo meu rosto e eu o fitei, com mais rancor.
— Bela na pureza de sua constituição... tão doloroso e pungente, no entanto, é sê-la, pois, tudo o que é vestal trava encontro com a mentira e a traição... profanando a inocência... — Proferi, sem deixar de fitá-lo. Sei que minha face transbordava em amargura. Ele respirou fundo.
— Por que proferes tamanha complexidade? Se tens algo a me dizer, então diga.
— Sim, eu tenho... — Estava profundamente, cada vez mais, escuro ao redor. — Tua traição, tuas mentiras... um grandioso protetor tu és, eu já disse n’um outrora não tão longínquo... tu és capaz de enganar e trair a tua protegida...
— Do que... — Ele parecia confuso, mas eu sentia que tudo era um disfarce.
— Cinismo agora não! — Interrompi com a voz elevada. — Já basta, Seth. Tentaste colocar a criatura mítica como uma dupla personalidade que busca me fazer mal, como se eu tivesse um transtorno psíquico. Não ias me revelar sobre o que ocorria quando ela assumia minha consciência... o que mais tens escondido, demônio? — Ares superiores curvaram seu rosto.
— Demônio, sim... e, como tal, não tenho os mesmos princípios morais que um humano. Faço tudo para proteger a tua existência, se isso inclui mentir, será feito; não há maldade em mim, muito menos bondade... — Respondeu. Mais respirações profundas, silêncios sob o véu do vento intenso e cicioso. A feição de Seth se amainou no tempo silente. — Sentes minha falta, Aessatt? — Ele segurou-me em meu maxilar. — A criatura do teu âmago, não me permite mais possuir... possuir o teu corpo... Ela quebra nosso elo... incapacitando-me de saber onde tu estás e quando precisas de mim... Isso está me enlouquecendo...
— Dizes, então, que estás além do bem e do mau? Dizes que Corphidrae está expulsando-te e digo, pois, que a razão é o saber que ela possui sobre a tua maldade! — Argumentei após retirar suas mãos de mim. Eu não queria seu cálido toque, já muito me bastava ter de fitar seus olhos tão azuis...
— Sim, estou além do bem e do mal... eu não sou humano, Áurea. E Corphidrae também não é. Como um animal, ela apenas mantém protegido o seu território.
— Então... parece que já tenho uma protetora. Pode ir embora, Seth. — O silêncio voltou... e criou imensurável barreira entre nós. Seth ainda me olhava, entretanto, uma tênue tristura se espelhava em sua fisionomia.
— Não sentes... nenhum afeto por mim? — Murmurou, baixo e grave. Eu não esperava tal indagação, portanto, não sabia como respondê-la.
— Qual é o valor do afeto para um demônio além do bem e do mal? — Embarguei...
— Decerto muito maior do que para um humano... — Desviou seus olhos de mim, fitando o horizonte quase impossível de enxergar.
— Esperas algo de mim, Seth? Que eu lhe diga apreciar tua companhia desde o primeiro momento? Enquanto sinto tanto por tuas enganações... a rispidez do teu sarcasmo... sempre vieste a mim como bênção e como maldição.
— E sou aquele que está aqui. — Seth aproximou-se, pegando em meu rosto com suas mãos. — Eu estou aqui, Áurea, eu estou aqui... Estou buscando por ti, estou protegendo-te em teu âmago ou fora dele... usurpei uma nutrúrnia para o teu bel prazer, com um inominável risco à espreita... — Senti-o acariciar meu torso, próximo ao meu coração pulsante. — Questionas minha moral... minhas mentiras... entretanto, em nome de tuas memórias, compactuas com entidades traiçoeiras... desenvolves laços com oráculos hostis, sempre em busca do que tu eras... enquanto eu... estou em teu presente... no aqui e no agora... construindo ao teu lado uma nova história que se perde no teu saudosismo... — Seth acariciou meus cabelos. — Desejo a Áurea que vejo e não aquela que um dia existiu... nem mesmo tu, Áurea, deseja a Áurea d’este momento... sempre sondando quem ela era... e quem ela há de ser...
— Quem tu és sem as tuas memórias, Seth?
— Lembra-te quando despertaras? Quando me viste em Séttimor... e quando me desejaste... na biblioteca... ou quando te salvei naquela adega sombria...? — Eu lembrava, contudo, mantive-me silenciada. Seth levantou-me e segurou minha cintura, colocando meu corpo contra o seu no centro daquela escuridão. — Tem algum valor em tais memórias para ti? — Aproximou-se, beijando meu rosto, devagar...
— Eu... — Hesitei. Era difícil resistir... Seth me envolvia tanto... e eu sentia que ele tinha razão, pois, seus argumentos me mostravam que eu não dava valor ao que o despertar n’esta existência, em tal Castelo, proporcionava... pouco a mim valia tudo o que havia ao meu redor, pois eu precisava de minhas memórias, sem elas eu me sentia incompleta. Por outro lado, Seth criou memórias ao meu lado e esteve próximo, fazendo o que lhe era possível... sendo quem ele poderia ser... e, talvez, de todos os horrores, de todas as inverdades... desde Lëvri até Lahgura... ou mesmo o preço que devo ter pagado pelas previsões do Oráculo... havia manipulação em tudo... todos... eram enganações perpétuas... lâminas cortantes, translúcidas, abscindindo meu coração.
— O Corvo Esfaqueado: Invertida... eu sei que é sobre ti... — Murmurei.
— Queres crer em teu oráculo... eu compreendo... mesmo havendo Monm te alertado sobre os perigos... — Seth estava tão perto... eu sentia seu hálito quente...
— Tu esteves lá... — Lamurei já enlevada...
— Sim... preso pela Corphidrae, digno apenas de observar e temer... — Seth apertou-me a cintura, beijou o canto de meus lábios quando sua mão direita guiava minha nuca.
— Ah... o teu perfume mescla-se à nutrúrnia... — Sussurrou, beijando-me o pescoço; minha tez arrepiara e senti medo. — Um bálsamo ardente... almiscarado e doce...
— Eu não... eu não sei... — Tentei dizer algo que sequer sabia... balbuciando palavras em busca de alguma lídima racionalidade.
— Ah... mas eu sei... — A mão de Seth conduziu-se aos meus cabelos... — Eu sei... — Seus lábios tocaram nos meus... Seth era ardente, parecia possuir uma temperatura verdadeiramente mais elevada que a de qualquer outro corpo.
“Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss, esspussess erebriss daemoniss ssaeiva enssnura, ssaeiva enssnura voluass.” — Ouvi, não vinha de Seth, mas a voz amedrontadora estava nele; meus olhos que outrora se fecharam pelo que emergia em meu imo, abriram-se assustados.
— O que é isso? De quem é essa voz? Seth? — Ele me olhou, seus olhos brilhavam como fogo e sua respiração era ofegante...
— Hum...Tu ouviste...
— Sim! E não é a primeira vez! — Seth levou as mãos à sua cabeça, parecia transtornado. N’um impulso, pegou a flor do inferno e logo voltou-se a mim, puxando meu corpo contra o seu com mais força. Seu beijo, n’este instante, tornou-se voraz, intenso e promíscuo. Segurava-me os cabelos, a cintura, levando-me a caminhar para onde eu não via. Caímos em um monte de folhas secas, ao que parecia, ainda no jardim; mas tudo se mantinha muito escuro.
“Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss, esspussess erebriss daemoniss.” — Ouvi outra vez e tremi, em medo irrompente. Seth beijou meus seios, abrindo meu vestido... meu oceano íntimo desaguou por volúpia no instante em que o medo aflorou ainda mais em minha tez.
— Áurea... pulso tanto... por ti... — Murmuraram as sete vozes do abismo, ascendendo-me mais ao temor e ao prazer.
“Inuoss ssor Lussifferr!” — ouvi, mais alto, mais horrendo e austero. Meus olhos lacrimejaram de pavor dilacerante. Seth agitou sua cabeça, como se tentasse afastar o que ouvia.
— Seth... isso... estou amedrontada... — Confessei.
— Eu sei... — Disseram as sete vozes do abismo. Desde aquele momento anterior, Seth só se comunicava com elas. Era como o eco de sua própria voz, sete vezes se repetindo, um eco profuso e tétrico. — Eu sinto o teu medo... e também sinto o teu desejo... e quero sentir a tua boca... — Fui levada, ainda sendo segurada pelos cabelos, a ficar sobre o peito de Seth. Dominados pelo breu absoluto, eu mal podia enxergá-lo, pois, sempre que a luz adentrava ao derredor, pouco depois era consumida na escuridão. Ainda que privada de visão em razão d’esta estranha manifestação que pensei se tratar advir de Seth, as trevas pareciam nos proteger na intimidade apavorante. — Sinta o meu verdadeiro inferno... — Seth murmurou e levou meu rosto à tua plenitúrgida intimidade... abri meus lábios, um instinto perverso que não era meu, mas vinha de mim. “Abnaesss! Sserpen! Abnaesss!” — ouvi, o maldito som da voz, pior que a de Seth; o medo me consumia violento.
As mãos dele ordenavam minha cabeça, forçando-a contra seu membro que eu sorvia e me engasgava. Era tão quente... tão errado... de sabor sedutor... aroma viril... olhei para sua face de regozijo. Eu o desejava e senti-me profundamente envergonhada por isso. Eu não conseguia compreender. Seth me puxou para seu peito outra vez, e logo se colocou sobre mim, beijando-me e beijando mais. Senti-o subir meu vestido, tocando minhas pernas. Arrepiava a minha pele, em profundo temor e volúpia. Então... tocou o cimo de minha vulva, quente e, naquele momento, inundado por minha saliva. E lentamente foi se penetrando... devagar... bem devagar... seus olhos queimavam, assim, de forma literal havia fogo em suas retinas... e seu membro, se entrando em minha arculva, pronta para envolvê-lo... abraçá-lo... e tão pulsante, ele e eu... “Ssattaessatt erebriss esspussess daemoniss” — tremulei e vibrei.
Ainda cingida pela aflição do medo, entretanto, muito mais pelo deleite. Assim que o membro de Seth se escondeu em mim, tocando-me o ventre; seu ritmo ascendeu rápido, tanto quanto a exultação. E seus movimentos, entrando e saindo do meu íntimo, como um animal, gemendo e lamuriando demoníaco, faziam-me curvar meu corpo, enquanto suas mãos apertavam-me a cintura e as costas; minhas unhas cravavam-se novamente, agora por outras razões, em seu dorso, relembrando de nosso recente confronto.
— Ah... isso... ah... mais... mais... — Eu o ouvi, entre nossos gemidos e o terror. Eu estava descontrolada... perdida... minha cabeça volvia e volvia, embriagada, extasiada... e ele... dentro de mim... tão intenso... tão sensível... minha respiração completamente desorientada. Sua pele em minha carne... rígido, forte, deslizante... Eu sentia uma energia bizarra extraída do corpo de Seth e penetrando meu ventre, subindo pelos meus órgãos vitais. — Ah... ttssorr... — Ele dizia, tomado pela insanidade... eu sequer sabia o que aquilo significava... e cada vez mais agressivo, teso... obsceno em mim.
Naquele instante, vi minhas marcas em seu pescoço... vi suas veias... belíssimas... qual era a cor de seu sangue? Eu não me lembrava... segurei seu pescoço... cravei-lhe meus dentes e o ouvi ranger de dor. O sangue dele tocou minha língua como uma febre causada pela peste mais horrenda, como lava me queimou, ardeu! Tinha o sabor de um pecado oculto em veludo escarlate... era picante como uma planta maldita, amargo como vinho seco guardado há eras sob as colunas de mármore negro do inferno. E, no fundo, uma nota de morte... e o gosto de promessas quebradas, de mentiras seladas na dor e no prazer. Gota a gota... inundando-me os lábios e a garganta...
O sangue de Seth não alimentava — ele incendiava. Despertava. Corrompia e elevava ao mesmo tempo. Estava acima do sangue humano: não era vida, era poder. E, ao consumi-lo, minha alma sibilou: “sserssattua” — o significado era evidente à minha consciência: “pecado”. Seth me retirou do meu delírio ao ouvir-me, o seu sangue escorreu, pingando sobre meus seios. Ele segurou meu rosto; fitou-me com um sorriso mórbido. Suávamos tanto... e após sorvê-lo, eu me sentia mais tórrida...
— Perssattua ssorn aessatt... — murmurou. “Minha possuída... para sempre” significava. Contrações intensas em todos os meus músculos, um orgasmo súbito me governara. Arranhei o torso de Seth. Ele se abaixou, sussurrando em meu ouvido. — Sinta... — Eu queria mais. Puxei-o, pelo lado esquerdo, e cravei meus dentes no outro lado de seu pescoço; sorvi... deliciosamente... e tão logo enquanto sorvia, eu o senti tremer muito... bradar um prazer inumano... e o seu liquor demoníaco e fértil, banhou-me como uma onda obscura do oceano azul-gris. Seth vociferou horrores na língua dos demônios, parecia enfraquecido de tanto que fora sorvido por mim, e eu não parava. Novamente fui empurrada por ele; afastando-me de seu pescoço. Ele estava muito fraco. Prostrou-se ao meu lado, incapaz de se levantar... parecia dizer algo, mas eu não o ouvia bem... seu corpo começou a queimar como papel, algo nunca visto por mim, entretanto, meus sentidos estavam aguçados para tudo, eu podia enxergar em toda aquela escuridão e entendia que Seth estava indo para o inferno.
A nutrúrnia, por sua vez, também estava diferente, caída ao nosso lado, parecia mais viva... e eu podia ouvi-la sussurrar o ininteligível, como um canto feminino sôfrego. Em minhas pernas escorria um líquido denso, eu estava nua e tudo era preto e vermelho. Peguei a flor, fechando-a na palma de minha mão, de modo célere, fui ferida pelos espinhos; eu não me importava, pois, estava em uma afrodisíaca overdose. Finquei o caule da nutrúrnia em meu peito... sim... e senti profundo enlevo arrebatador, como doses absurdas de dopamina... eu senti... muito além da dor estarrecedora. Caminhei, cheia do poder demoníaco... e o desejo sexual ainda aflorado... meus passos na escuridão... uma escuridão que pertencia a mim... sozinha... imunda de sêmen... manchada de pecado.
Eu compreendi muitas coisas... sorver o sangue de Seth me fez uma daemoniss, em alguma instância... em alguma profundidade. Compreendi que a nutrúrnia consumia toda a luz ao seu redor, tornando qualquer pálido lume em um ponto opaco no breu absoluto. Compreendi que sua seiva causava o mesmo êxtase que o sangue de Seth, se sorvida... e que, regada de sangue e luz, ela propagava sua escuridão onde apenas os daemoniss eram capazes de enxergar. Compreendi o idioma de Lussifferr, entendi que ele alertava Seth a todo o instante, com sua voz de imponente horror, dizendo que o expulsaria do inferno se ele ousasse possuir uma humana..., mas eu... eu não me sentia humana... era, mesmo assim, vista como uma.
Eu tinha o poder de Seth... e apesar disso... apesar do que veio de encontro ao meu entendimento e apesar do intenso desejo, mesmo após o sexo... eu me sentia constrangida e uma intuição insistia em revelar que a solidão ainda era real, obstinava-se em me alertar que a paixão por Seth era hostil. Eu o vi abrasar e sumir... debilitado e... eu pensava nele. Voltei ao meu aposento e fiquei imersa nas águas frias de uma banheira de porcelana... impassível diante de meu próprio pecado... enquanto a nutrúrnia permanecia fincada, sem permitir esvair uma única gota do meu sangue. Eu via seu caule detrás de minha tez... respirar estava difícil...
E a estranheza tinha uma presença própria, quase tátil... ela se disseminava no calvário de um sentimento mofino que me pertencia tanto. Eu... eu sentia que era uma traidora... era isso... eu sentia que havia traído Lorrt, mesmo sem amá-lo como um dia amei.
Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 10: O Oráculo das 7 Profecias
Uma monodia litúrgica bizarra atravessara nossas almas, tão mais que os tímpanos. A morte parecia habitar o derredor, as velas tremeluziam…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Uma monodia litúrgica bizarra atravessara nossas almas, tão mais que os tímpanos. A morte parecia habitar o derredor, as velas tremeluziam n’um escarlate-sanguíneo oxidado e meu coração era oprimido como nunca outrora fora. Eu sentia ser observada pela escuridão enrubescida. Eu e Liliana estávamos de frente aos umbrais do aposento-cárcere de Naomie e Noellie, eles foram abertos como se soubessem de nossa chegada; O cântico lôbrego era corpóreo, embora translúcido, vinha de todos e de nenhum lugar. Além do seu entoar mórbido, habitava um silêncio pouco silente, farto de um eco contínuo e tétrico, capaz de perturbar qualquer existência. Eu era cética sobre ser possível que alguém vivesse naquela alcova de horror oculto; como um nefasto véu esotérico.
Liliana alertara-me da aura insalubre do local, todavia, não adentrava em meu âmago a verdade dita por suas méleas palavras. Era, decerto, — eu pensava — mais um cômodo misterioso deste alcácer, só isso e nada mais. Arrependi-me do ceticismo quando vi aquelas gêmeas siamesas, seus corpos colados como um experimento macabro da existência. Não eram gêmeas siamesas comuns, compreende? Algo de dantesco habitava seus olhos vítreos; uma mancha negrume abaixo de seus olhos indicavam um choro perpétuo e seus pequenos lábios curvados para baixo, enegrecidos em tons púrpura, pareciam mortos; uma delas possuía uma cruz em sua fronte, como se marcada à ferro, uma pérola de lótus negra no centro do símbolo, estava encrustada na tez. Senti-me arrepiar. Elas usavam um tipo de vestido negro, cobrindo todo o corpo, dos pés ao pescoço. Com detalhes em ouro envelhecido. Usavam luvas e seguravam cartas em suas mãos.
Na parede carmim detrás delas, dezenas de cabeças de coelhos de todas as espécies inimagináveis; como quadros em prismas de vidro e moldura de ouro envelhecido. Muitas já em estado avançado de decomposição, não estavam empalhadas. Foram arrancadas e guardadas, como tesouro, nos prismas. Era nojento e sinistro; os olhos vermelhos das espécies vidrados no infinito do quarto escuro.
— Sente-se Áurea Lihran; há muito o que o Oráculo tem para lhe proferir. — Agouraram em uníssono; pois que a voz feminil que possuíam, era abismal em agouro, um vibrar símil ao poço mais profundo. Olhei para Liliana, ela parecia implorar para que eu apenas obedecesse, por isso o fiz. — Saia, Liliana; Áurea já mudou o teu destino, o Oráculo não quer a tua presença. — Ela respirou fundo e as portas se fecharam assim que ela deixou a recôndito. As meninas, se assim posso dizer, sempre falavam juntas, como uma única pessoa. Juntas, igualmente, embaralharam as cartas de suas mãos e, logo, olharam-me; elas tinham uma tristeza profunda na alma, é o que me parecia.
— O Oráculo está estarrecido com a tua visita, Áurea Lihran; ele reconhece o teu poder de vidência. É-lhe uma honra estar em tua presença. — Eu não sabia ao certo o que responder, meu medo era genuíno.
— É um prazer estar... sob a presença de tão grandioso... oráculo... — Hesitei.
— O Oráculo reconhece o teu temor, Áurea Lihran, e sente-se agraciado por ele. Feche teus olhos e sinta o poder do Oráculo, ele te responderá em três verdades e quatro profecias. — Este era o momento pelo qual eu estava ali. Talvez eu mesma me tivesse guiado para aquele lugar morbígero. Entretanto, eu não deveria lhe fazer uma pergunta? Fechei meus olhos e aguardei, enquanto pensava em uma indagação ideal.
— O Oráculo sabe todas as tuas perguntas, Áurea Lihran. — Ouvi e estremeci. O ambiente estava cada vez mais sufocante. Em dado momento, supus estar ouvindo uma voz masculina detrás da porta e logo me preocupei com Liliana. As gêmeas abriram sete cartas sobre a mesa.
— A primeira carta, observe a verdade. O Corvo Esfaqueado: Invertida. A tua inteligência é de inestimável valor, entretanto, Áurea Lihran, há um traidor que habita as tuas proximidades. — A voz delas se modificaram; antes femininas, agora demoníacas e viris. Suas cabeças tornaram-se trêmulas, um tremor célere e inumano. — O Corvo sangra e torna sanguíneo o céu da meia-noite e o sangue é veneno. A adaga no dorso do Corvo é a sutileza mendaz daquele que sorri. — Quando abriram a primeira carta, seus rostos pareceram dissolver.
— Segunda carta, observe a verdade. O Antílope Negro e as Cordas de Juta: Invertido. Tua prudência é admirável, Áurea Lihran; entretanto, a sombra que paira sobre teu crânio é a fênix da decadência e do temor; o negligenciar do teu poder imanente é o preço pela segurança. — Ainda mais rápidos em movimentos súbitos, contudo, naquele instante, lágrimas negrume começaram a verter dos olhos vítreos e, as vozes, cada vez mais terríficas. — Os chifres tocam o solo de lama pútrida e as varejeiras aguardam a carne apodrecer; as patas envoltas na corda de juta mostram a vulnerabilidade do que deveria ser o juízo à dignidade dos aplausos. — Senti uma dor repentina, como se milhares de agulhas perfurassem, em instantâneo, minha tez; olhei para meu corpo e, em cada poro, uma gotícula de sangue nascia. Fiquei horrorizada e ouvi uma forte batida na porta; meus olhos ardiam e eu parecia estar mais fundo em um abismo sem volta.
— Terceira carta, observe a verdade. A Corphidrae e o último elo. — Meu rosto aparecera na carta ao lado da mesma criatura mítica que vi nas águas de Lahgura. Meu sangue agora vertia para o assoalho, com uma lentidão mórbida. — Reconheça-a para que vivam em harmonia; o oblívio advém do paládio próprio da essência quimérica; discernir para o equilíbrio e a revinda d’outora. — As íris delas agora movimentavam-se com a mesma rapidez de suas cabeças e eu sentia minha pele queimar, em especial no braço esquerdo; tentei olhá-lo, porém, algo me fazia não desviar mais os olhos das cartas. Outro estrondo nos umbrais.
— Quarta carta, observe a profecia. — As cabeças das meninas se transfiguraram, fissurando-se ao meio por onde dentes e carne e cérebro ficaram à mostra em sangue e lodo. Um odor fétido escalou-se ao derredor e minhas pupilas dilataram diante o horror e eu sei, pois, a luz que era parca, tornou-se ainda mais exígua e fui obrigada, pela energia densa e tétrica do ambiente, a continuar enxergando cada mínimo detalhe das cartas e das meninas à minha frente. — Lúcifer, a Estrela da Manhã. — Ouvi, entretanto, um terceiro estrondo na porta, ainda maior, resultando em alguém adentrando a alcova obscura e segurando firme em meus ombros, tirando-me da cadeira e afastando-me, à força, do oráculo; ainda assim eu não conseguia deixar de manter meu olhar sobre elas. — Um anjo cairá dos céus... — Foi a última coisa que ouvi do Oráculo.
Ainda confusa, vi uma mulher proferindo palavras ancestrais e arrancando sangue de seu pulso, isso resultou, com mais um fragor, n’um selar da porta que levava ao oráculo. Somente quando selada, fui capaz de voltar a mim mesma, compreendendo o ambiente. Vi novamente a escada que desci com Liliana e vi Liliana olhando-me atônita. Eu estava nos braços de um homem desconhecido, sua pele acastanhada, seu relógio de bolso, seu complexo olhar. E, atrás dele, a mulher que fizera o que me parecera um ritual para selar os umbrais, ela era Olga. Meu próximo átimo de tempo levou-me a perceber meu próprio corpo, o sangue seco em toda a tez e, onde queimava o meu braço com mais afinco, eu vi quatro símbolos em um estigma, queimados à força. Pareciam sigilos.
— Áurea, escute! Estás me ouvindo? — Disse o homem, com sua voz paternal. — Estás à salvo, agora; beba isto. — Apenas obedeci. Parecia sangue. Minhas forças retornavam aos poucos.
— Perdoe-me, querida; eu não imaginava que isso... eu sinto muito. — Lamuriou Liliana. Olga apenas olhava, distante. Eu ainda não compreendia o que estava acontecendo; mas fui levada a outro cômodo, onde o homem que me acudia carregou meu corpo. Liliana e Olga não foram comigo. Ouvi o homem dizer “Eu cuido disso agora, depois vocês a encontrarão no aposento que a pertence”. No leito que não me pertencia, fui colocada pelo homem e ali fiquei, repousando. Mas não dormi. Fiquei observando o homem escrever por longas horas, com a luz baixa, em uma escrivaninha de cedro escuro. Eu o aguardei terminar e esperei que as minhas forças retornassem por completo.
— Bem-vinda de volta, Áurea. — Ouvi, assim que me movimentei, sentando-me na cama confortável. O homem virou-se para mim. — Saudades? — Ouvi, sentindo-me confusa. Ele se ajustou em sua poltrona, para fitar-me com mais atenção. — Áurea, o que te fez ir atrás do Oráculo depois de tudo o que conversamos? — Eu não o respondi, sentia-me merencória... — O Oráculo das Sete Profecias possui uma força inominável, Áurea; se permanecesses ali, serias perseguida pelas sombras deste poder, eternamente. — O homem encostou-se na poltrona, parecia buscar serenidade e paciência. — Olhe para teu pulso esquerdo. — Obedeci. Revi os sigilos. — São selos pherhesístas que assombrarão a tua existência para além deste tempo, para além desta vida. Por sorte, ou melhor, destino, são apenas quatro símbolos.
— Se é tão perigoso... por que mantê-lo no Castelo? Por que mantê-lo vivo? — Indaguei. O homem respirou fundo mais uma vez, não por impaciência, mas parecia-me realmente exausto de algo muito íntimo.
— Não há como destruir o Oráculo. Mantemos em cárcere, pois, é o que está em nosso alcance. Se me permites... — Ele retirou seu casaco e afrouxou sua gravata. — Naomie e Noellie foram escolhidas pelo Oráculo quando, o último manipulador das cartas, foi morto. Trancafiamos as cartas em um baú de unorom; entretanto, tamanho é seu poder, que Naomie e Noellie ouviram o chamado dele e o alcançaram, vindo pelo Espectumbral, o responsável por trazer ao Castelo aqueles que precisam de compreensão e conhecimento. Não tardou para que conseguissem abrir o baú; foi então que percebemos que só seria possível encarcerar o Oráculo, se o fizéssemos junto com seu manipulador. Assim ninguém mais ouviria o chamado.
— Como pude adentrar aquele cômodo, então? Não deveria estar inacessível?
— O teu poder entrou em sintonia com o poder do Oráculo. Liliana, ao guiar-te para os umbrais do cárcere, não imaginava que estaria te direcionando à linha reta desta sincronização. — O homem olhou para seu relógio de bolso e logo o deixou sobre a escrivaninha. — Sobre estar inacessível, o Oráculo, como já mencionei, é profundamente poderoso. Precisamos mantê-lo preso, mas, é importante que tenhamos acesso a ele. Em especial eu, Olga e Drácula. A razão, tu deves imaginar, pois, ficou claro quando te salvamos daquele antro. Olga selou, mais uma vez, os umbrais.
— O que aconteceria, então, comigo? Disseste das sombras... o que significam? — Eu começava a entender.
— Pelo que sei, havia duas possibilidades. A primeira é, com os sete sigilos em tua pele, assim como tantos outros, tu serias perseguida pelas sombras do Oráculo. Ouvindo seus sussurros e lamentos, sendo guiada a fazer o que ele desejasse... eu diria... enlouquecendo... Em outra situação e, sinceramente, é a mais provável, tu tomarias o lugar de Naomie e Noellie.
— Por quê? — Surpreendi-me. Ele sorriu com um estranho deboche.
— Tu sabes que é por causa do teu inestimável poder, Áurea. Isso, decerto, acrescentaria ainda mais valor para as profecias e verdades do Oráculo. Eu não sei o que ele te disse, mas decerto ele já conhecia o teu nome e já sabia o que buscavas. — Ficamos em silêncio. — Áurea... preciso te falar, de novo, sobre o teu poder... — O homem me olhava com uma seriedade pujante. — Tu viste, não é? Que nós a salvaríamos...
— Não... eu... não fazia ideia... — Fui sincera; algo de estranho havia entre nós, parecíamos nos conhecer, mas eu não me recordava.
— A vidência pode parecer um dom celeste, entretanto, não há nada mais perverso do que ser capaz de olhar o futuro dos outros e de si mesmo. E eu sei que tu não apenas viste o futuro de Liliana, como interferiste nele; fazendo-a tomar uma decisão que afetou toda a linha do tempo... eu sei, Áurea, eu sei de tudo o que afeta o tempo.
— Não foi por mal... eu... me assustei quando vi os horrores que ela passaria e imediatamente quis salvá-la... isso nunca aconteceu comigo... eu não sabia como agir... — Expliquei, lacrimante. O homem pareceu intrigado.
— Áurea... tu sabes quem eu sou?
— Não... eu sinto muito... — O homem expressou incredulidade e, ao mesmo tempo, espanto.
— Hum... isso pode ser verdade... — Senti um lapso de tempo, parecia o mesmo que outrora senti quando encontrei Anton. Um clarão súbito e célere. — Compreendo. Compreendo perfeitamente... Áurea, tu precisas abrir os teus olhos e se vincular com a Corphidrae. Sem isso, ambas ficarão entre o sono e a vigília, como se marinheiras de um mesmo veleiro, sem que se conheçam, sob o céu noturno, com duas rodas de leme, sempre opostas. A propósito, mais uma vez eu me apresento, eu sou professor Monm. Manipulo, controlo e compreendo o tempo. — Fiquei um tempo em silêncio, tentando assimilar as informações.
— Há uma Corphidrae dentro de mim... — Proferi, como se buscasse confirmação de Monm.
— Não uma, mas A Corphidrae. A última da espécie, a qual deveria ter morrido em teu ritual de transmutação vampírica.
— No entanto, com a invasão dos Ohrmons, o ritual foi eivado... levando-a ao sofrimento e, de alguma forma, a habitar meu ser... — Mais uma interrogação disfarçada de afirmação.
— Sim... Tu oscilas entre a personalidade da criatura e a tua própria. — Imediatamente lembrei das palavras de Seth.
— Então... ela tentou me matar? Levando-me ao Oráculo? — Monm gargalhou, embora tenha se controlado ao ver minha seriedade.
— A Corphidrae não é a tua inimiga. Ela sabia muito bem que tu não sofrerias o fim que o Oráculo almejava. Estou começando a achar que o Oráculo também sabia. De alguma forma, ambos os poderes, em grandeza, podem ter entrado n’um acordo. E se não me falha a memória, encontrei-te prevendo teu próprio futuro e te dei aquele sermão que tu não te recordas... o que é uma pena, pois, foi digno de aplausos. — Ele sorriu. — Áurea, não tema a Corphidrae. Ela está pedindo para se conectar contigo, caso contrário, tu já terias sido soterrada por ela. Ela é bem mais poderosa do que o teu vampirismo. Ela é uma criatura mítica, não esqueça disso. Criaturas míticas nunca são más.
Monm estava certo. Os enigmas com minha própria letra, o reflexo no lago; tudo indicava que a criatura mítica estava tentando se comunicar comigo e me ajudar a destruir o oblívio. O que fazia de Seth um verdadeiro farsante, por tudo o que dissera no cemitério. Além disso, Seth revelara que tentei matá-lo, talvez a Corphidrae saiba sobre quem ele realmente é, mais do que eu sei, por isso o atacou quando estava sob controle de minha consciência. Como se não bastasse, o Corvo Esfaqueado, a carta invertida da primeira verdade do Oráculo, falava com clareza de um impostor. Todas essas peças encaixadas, formavam a mais valiosa das compreensões, entretanto, eu não sabia como vincular-me à Corphidrae.
— Como posso me vincular à criatura? Quem poderia me ajudar? Talvez... Olga? — Questionei a Monm.
— Olga não pode ajudar-te, Áurea. Ninguém pode. Entretanto, a cada conhecimento e compreensão que adquires, vais abrindo mais clareiras nessa densa floresta do teu ser.
— Monm... podes me levar a algum momento de meu passado, para que eu me lembre? — Ousei pedir. Seu semblante mudou para consternação.
— Jamais farei isso... o tempo é perigoso... e a recordação... — Monm parecia olhar para um vazio nadificante. — Pode ser a sentença mais perniciosa da vida de uma criatura racional... de repente tu voltas no tempo, revê com perfeição aqueles que lhe foram importantes... de repente tu queres viver no passado, onde tudo lhe parecia mais fácil... onde todos estavam sentados envolta da mesa, em uma comemoração de Aborom ou Aesttera... entretanto, mesmo lá... a verdade de que tu não pertences àquele tempo, continuará te enlouquecendo... — Monm silenciou. Senti que tudo o que dissera, doía em seu coração, pois, as janelas de sua alma lacrimaram e sua fala se embargou.
— Desculpe, senhor Monm, não tive a intenção de...
— Está tudo bem... deixe-me descansar um pouco e... confie em quem tu és. E tome cuidado. — Monm sorriu como pôde e eu o deixei descansar.
Quando deixei o aposento, precisei sair do Castelo para sentir o ar límpido; sentir o sopro do vento, talvez do tempo. E assim o fiz. O céu estava n’um tom castanho-enrubescido e uma névoa rosé se estendia. O tempo era mesmo diferente naquele lugar... assim como a manifestação da natureza. Caminhei pelo jardim que outrora estive na chuva densa a observar os raios no horizonte azul-opaco; agora as árvores todas tinham folhas secas e, n’uma delas, as folhas ressequidas ganharam tom marfim; assemelhavam-se a papel. Eram belíssimas. Já na fonte, no centro do bosque, as águas tonalizadas pelo céu, hialinas com reflexos carmim, cantavam seus movimentos. Toquei-as, molhando minhas mãos. E vi-me em seu reflexo e reparei... um colar de ouro envelhecido, com um pingente de pérola de lótus negra, descansava em meu pescoço.
Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Alice: No Denso Arvoredo
A densa floresta acastanhada, honrava um outono etéreo e silente. Uma atmosfera enevoada, do mesmo tom borgonha…
38 minutos de leitura
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A densa floresta acastanhada, honrava um outono etéreo e silente. Uma atmosfera enevoada, do mesmo tom borgonha, pairava, porém, rarefeita, como um gás envenenado em tom alizarina e marsala. O céu era um deserto amarfinzado, aquecido com um malva envelhecido, quase abronzeado. A brisa contornava as folhas ressequidas e, mesmo caindo, muitas permaneciam em seus frondosos galhos, mostrando a grandeza imensurável do arvoredo, com copas gigantes e altas como um titã. Alice despertou sabendo quem ela era, entretanto, pouco depois, quando ergueu seus olhos à paisagem, turvou-se na sublime apreciação amedrontadora e, então, se esqueceu.
A grama terracotta, pó de flor emurchecida, parecia abraçar intencionalmente os pés descalços de Alice; conforme ela se movimentava, lentamente a relva a envolvia. “Não… não consigo me lembrar… como posso estar aqui? O que é este lugar?” — Sussurrara quando seus olhos pousaram no horizonte pálido e no oceano que, brando, parecia enegrecido. Sob a guarda de um céu rosa-empoeirado e sob um sol vermelho-pastel, Alice tentava entender a razão pela qual ela estava ali, naquele longínquo e ameno oásis. Um grande veleiro parecia atracado na costa, onde mais havia areia do que relva; parecia perto, entretanto, estava embaçado à visão como uma miragem. O coração de Alice apertou-se de emoção por algo incompreendível, porém, de súbito, algo lhe chamou a atenção.
Um coelho branco de três olhos escarlate e corpo esguio, emergiu da frondejante floresta mastodôntica, enquanto a curiosa Alice o observava, percebeu que adentrar a floresta não só seria uma aventura, mas, talvez, um labirinto pernicioso. O coelho era um pouco mais alto que Alice e bem mais baixo que as copas de folhas vermelhas hexagonais. Ele parecia apressado, era bípede, embora encurvado em sua coluna; seus grandes dentes afiados eram terríficos e o pêlo macio, níveo e fino, era como a gramínea. A criatura saiu da floresta, cavoucou n’uma parte de terra úmida, onde a gramínea era frágil e, dali, retirou um relógio de bolso. Fugaz, adentrou à floresta em seguida — parecia não ter visto Alice.
A aparição de tal animal sinistro, embora assustadora, deu à Alice uma sensação de que a criatura tinha tanta pressa que, certamente, pouco se importava com intrusos iguais à Alice e, portanto, não lha faria mal. Além disso, a fez pressentir que, se é possível que o coelho de três olhos vermelhos saia do bosque colossal e para ele retorne quando bem entender, então, decerto, ela também poderia — em especial se seguisse o rastro do bicho. E assim o fez.
Como o coelho era alto, ao afastar os arbustos e pisar, finalmente, no bosque; ainda era possível enxergá-lo ao longe, pois, por seus passos tão fugazes, ele alcançava uma distância considerável em átimos de tempo. Suas brancas orelhas peludas se destacavam, em especial, por causa das cores outonais opacas e rúbidas de toda a floresta. Deste modo, Alice o acompanhava, porém, por infortúnio, a criatura era, de fato, muito mais rápida que ela e, em segundos, Alice viu-se no arbóreo denso, sem nenhum tipo de sentido para guiá-la. O coelho desaparecera. Os sons florestais eram brandos e as copas altíssimas, tanto que nem mesmo o céu era visto de baixo; Alice sentiu-se minúscula.
— Certo... quão estranho... continuo sem compreender! — Conversara consigo. — Algo me falta, no peito; como se meu coração pulsasse diferente ao qual pulsara desde que nasci... entretanto... como posso distinguir essa pulsação se nem me recordo onde nasci? Pareço não saber quem sou e, ao mesmo tempo, algo sou capaz de intuir... uma pena que esse algo não seja o caminho certo. — Alice olhou para o derredor, buscando o rastro do coelho sinistro. — Nenhum rastro, nem para retornar à costa, nem para seguir adiante... e o que é o “adiante” nesta vasta catedral perenifólia? Intrusa, eu mesma, em um labirinto de fauna e flora, sem nenhuma clareira, sem céu e estrelas que indiquem sul e norte... Parece-me que não sou necessária aqui... ouço pássaros, porém, nenhum pousa próximo; ouço criaturas indistinguíveis, contudo, cá estou, sozinha; nenhuma delas rasteja na gramínea que acolhe meus pés.
Alice estava sentada naquele instante enquanto se afogava em seus infindos pensamentos. E continuava: — Talvez, como intrusa, deva ser expulsa. Entretanto, ó, quão irrelevante eu sou que sequer faz diferença que eu cá esteja ou não. E se sou irrelevante para a vida entorno, por que vivo? Por que há vida em mim? Sem um sentido para caminhar no bosque titã, sem importância, sem valor... sabemos o valor que temos somente quando alguém nos diz, é isso! — Alice olhou para cima. — Alguém pode me dizer o sentido e o valor que eu tenho? — Gritou o mais alto que pôde. Seu brado causou algum alvoroço, porém, apenas para que um fruto, já muito maduro, vibrasse com as ondas sonoras e, então, caísse lá do alto da copa de alguma das árvores gigânticas. Demorou um pouco para cair ao lado de Alice e espatifar-se no chão, banhando-a com seu méleo caldo.
Alice assustou-se profundamente; suas roupas, pele e cabelos, mancharam-se de uma cor carmim-abismal e antes, pálidas como o Anti-Ártico, agora mesclavam-se em um escarlate-ferroso e bege. “Que horror!” — Bradara pelo susto. Sentiu-se instigada, entretanto, a experimentar o fruto, cujo aroma era embalsamado de dulçor cítrico. Assim o fez, embora se questionasse sobre tratar-se de um fruto venenoso. “Se assim o fosse” ela respondeu à sua própria pergunta “não seria realmente sedutor aos meus olhos, certo?” perguntou a si mesma.
— Se fosse um fruto perigoso, eu não seria cativada... a menos que o fruto fosse capaz de mentir... se assim o fosse, como o faria estando espatifado assim? Não vejo espinhos em sua casca, como os abacaxis. Na verdade, vejo lanugem, como um pêssego. Embora seja tão maior que um pêssego, na verdade, é maior do que minha cabeça! — Alice tocou com seu dedo indicador na carne do fruto espatifado e, logo, levou aos seus lábios. Era delicioso.
— Méleo... adorável... cítrico... suave... meio ameixa... meio caqui... meio...— Fechou seus olhos e apreciou um pouco mais. Quando os abriu novamente, algo havia mudado. — Um rio? — Questionou à sua solidão. Alice ouviu algo como um rio ou uma cachoeira; águas correntes que outrora não havia prestado atenção, talvez porque estava demasiado dentro de si mesma. Só pelo som, sentiu-se com intensa sede. Levantou-se e caminhou em busca da fonte, uma nascente cristalina. E encontrou. Um riacho sutil embargava águas translúcidas, embora, com sutileza, enrubescidas pelos tons florestais; as águas cursavam um caminho tortuoso e, pelo seu rastro, pedras foram se formando ao longo de incontáveis anos.
— Tem gosto de água... — Dissera, sentando-se à beira do córrego. Respirou fundo enquanto ouvia a sinfonia líquida — Agora que comi o que me parecia comível e bebi o que bebível me soava, voltei à infeliz verdade... não tenho nenhum sentido que me mostre o que fazer, como fazer, para onde seguir. Posso caminhar à beira erma d’esta corrente, sem propósitos definidos, entretanto, estaria desperdiçando meu tempo com algo sem nenhuma razão de ser. Se eu encontrar uma lógica para fazê-lo, então, o farei. — Silenciou-se esperando que a lógica de materializasse à sua frente, entretanto, o contrário é que foi visto aos seus olhos âmbar.
Uma porta ornamental e dourada estava escondida na escuridão de uma parte ainda mais densa em arbustos avultados e complexos; o que não tinha lógica alguma, decerto, muito menos razão de ser. Sendo Alice a menor das criaturas, até então, naquele santuário de fauna e flora ancestral, como pode a porta ser do tamanho de Alice? — Ou cresci ou estou delirando... — Sussurrara. Caminhou se esgueirando nos arbustos e notou que, aquela espécie de planta tinha folhas e galhos que se faziam como um muro ao redor do umbral, se contorciam entre si formando um imenso bloco intranspassável. Diante à primeira porta, Alice tentou abri-la e... abriu facilmente. Porém, havia outra porta e, depois, outra e, mais umas e outras tantas.
Depois de um túnel de portas, quando o lume da floresta atrás de Alice já estava dilatado e ela estava exausta de girar maçanetas, uma das portas estava trancada. “Que ótimo” ela ironizou “tudo isso para nada... ora... eu bem sabia que não havia nenhuma lógica nisso tudo e, portanto, eu não poderia e não devia gastar meu tempo...” reclamara. Com profunda exaustão em retornar ao bosque denso, sentou-se ali mesmo, de frente ao umbral trancado e, então, segurou suas pernas para conseguir sentar-se, pois, era um túnel bem estreito.
— Não adianta... não vale fingir que há um rumo para seguir; tudo se faz de forma aleatória e vazia, não há profundidade em nenhuma decisão que se pauta sobre um talvez e mesmo se formos motivados pela esperança, esta é, sem dúvida, a maior das mentiras; com esperança vim aqui e com ela me estorvei. De que adianta caminhar sem rumo, só por caminhar, insistindo na ausência de sentido real, para chegar a um fim que é, pois, uma porta trancada? — Alice esperou uma resposta e silenciou. Suas lágrimas nasceram como o córrego que, de súbito, ouvira há pouco. E caíram salgadas sobre o chão de terra. Alice chorou de olhos fechados, uma cachoeira se fazia em seu semblante; e ela soluçava.
Assim que se cansou de chorar, abriu seus olhos âmbar e viu que, onde a terra umedeceu-se pelas lágrimas, brotos verdejantes germinaram. Tinham caules pequeninos e duas pequenas folhas no cimo, às vezes três, curiosamente uma acima da outra, formando um estranho padrão. Eram rígidos, porém, macios; um pouco porosos e, tal como o fruto que caíra, tinham lanugem. Ao tocar em um dos caules, ele se quebrou; era frágil e, na mão de Alice, ressequiu em segundos. Era um de três folhas. Por pareidolia, parecera uma chave de carvalho assim que murchou. Alice, então, adicionou o caule na fechadura e a porta se abriu.
— Isso não faz sentido... — Murmurou, tocando na maçaneta. Detrás da porta: mais floresta, entretanto, ainda mais fechada e nebulosa que antes. Havia quatro caminhos, feitos de ardósia vermelha, à disposição de Alice. Para lados diferentes e, por vezes, opostos. Pareciam longos e, portanto, impossível escolher mais de um para saber o que esperaria no fim. Alice sentou-se sobre uma pequena rocha na divisa entre todas as estradas e esperou sem saber o que esperava. — Estou ficando cada vez mais triste... por que há tantos caminhos? Não seria mais simples apenas um? Por que não colocar placas que indiquem o que haverá no fim de cada estrada? Assim a escolha será justa e ponderada!
Enquanto falava, um gato preto, com listras marfim em sua fronte, grandes olhos pálidos, um cachecol de folhas secas e um imenso sorriso, com dentes pontiagudos, de ponta a ponta em seu semblante, apareceu entre os galhos de uma árvore anã. Alice o olhou e, por segundos, teve a sensação de que ele não pulou nos ramos para ser visto, ele simplesmente apareceu após estar translúcido, de alguma forma. Tudo ao redor estava estranho e meio embaçado. Ele sorria de maneira macabra, mas Alice estava sem perspectivas, portanto, não se intimidou com a presença ilustre do felino — ela pensava que, se ele fosse alguma criatura má e violenta, ao menos acabaria com a ausência de sentido que ela tanto sentia em sua alma, libertando-a por fim, com a morte.
— Olá, Alice. — Disse o gato. Os olhos dela se arregalaram ao ouvir aquela grave voz falando o seu idioma.
— Gatos não falam! — Proferiu, esfregando seus olhos.
— Estou falando, não estou?
— Sim, está, mas é loucura, é claro que é loucura!
— Se tu estás me ouvindo, então tu és, decerto, completamente louca. — O gato lambeu-se.
— Não! — Gritou Alice. — Tu que és o louco! Pois estás falando! A culpa não é minha por ouvir o que dizes! — O gato sorriu ainda mais e silenciou, voltando a lamber seus pêlos lustrosos. Alice percebeu que, se não falasse com o gato, não poderia saber o que fazer e para onde ir. A ideia a conturbava e a irritava, falar com um gato lhe era constrangedor. Mas, de fato, aquele felino era diferente dos outros; ainda assim, Alice odiava a ideia de estar enlouquecendo e isso a impedia de retomar a conversa com o gato. Seu esforço para mudar de opinião foi tão grande que, somente no desespero da sua falta de sentido, ela foi capaz de ir contra todas as suas angústias.
— Ah, tudo bem. — Ela disse, bufando. — Por favor, me ajude... qual dos caminhos de ardósia rubra eu devo seguir? — O gato deitou-se, olhando para Alice.
— Depende, onde queres chegar?
— Não tenho sentido, não sei para onde ir e muito menos onde quero chegar.
— Neste caso, qualquer caminho serve.
— Não é verdade! Se escolho este — Alice apontou para o caminho à direita — posso chegar a um lugar desagradável e ter perdido meu tempo caminhando.
— Então, tu só podes escolher um caminho se souber o que há no final dele?
— Exatamente! — Disse, orgulhosa. O gato gargalhou.
— Isso é coisa de louco! — Disse o gato. Alice se enraiveceu. — Ora, é loucura caminhar apenas se houver uma certeza; toda a certeza é inútil e falsa, logo, tu nunca poderias escolher um caminho, pois, mesmo que tivesses certeza de onde chegaria, não sabes absolutamente nada do que encontrará enquanto andas.
— Mas... — Respondeu Alice, nervosa. — Se sei que chegarei em um lugar agradável, consigo suportar os caminhos difíceis, não? Guiada pela esperança.
— Hum... achei que a esperança era uma mentira... — Parafraseou o gato que, agora Alice sabia, escutava-a a todo o momento.
— Bisbilhoteiro! Se me ouvias, por que não se manifestara? — O gato apenas se lambeu e sorriu. — Olha, a esperança é uma mentira quando acreditamos nela sem nenhum filtro; quero dizer, acredito que nesse caminho há algo bom, e durante todo o trajeto, por mais angustioso que seja, continuarei acreditando. Logo, chegando ao fim dele, descubro que não era bom. A esperança destruiu tudo! Sem ela eu poderia ter desistido e me guiado para uma direção menos amarga. Agora, se tenho certeza de que há algo bom, a esperança faz sentido!
— Que chatice... — Ele disse, irritando Alice. — Viver baseando-se em sentidos e certezas é a coisa mais chata que já ouvi.
— Ah, é mesmo? E como tu vives, senhor Gato? — Ela cruzou os braços e ergueu seu rosto, duvidando do gato sorridente.
— Eu? Vivo pelo que me cativa. — Ele respondeu sem hesitação e bastante concentrado em lamber seus pêlos.
— E o que te cativa? — Insistiu Alice.
— Viver. — Respondeu o gato, sem alardes, enquanto espreguiçava. Alice ficou em silêncio.
— Como é possível se cativar pela vida em si mesma? Principalmente se os arredores são hórridos e decadentes? Se os caminhos são tortuosos, se não há nada que signifique algo em seu coração?
— Justamente. Se a vida em si mesma é suficiente, por mais que lhe venha de encontro no pior de suas manifestações, ainda assim, tu encontrarás algo de valor nela, pois tu a compreende e, sendo a vida instável, variável e efêmera, e admirando-a por tudo isso que ela é, não esperarás que ela seja diferente do que é e lidarás com suas características com bastante empolgação.
— Mas... aceitar em silêncio as condições hórridas da vida, é um martírio! Caçar preciosidades na lama dos porcos, é humilhante!
— Alice, nem uma árvore aceita em silêncio as condições precárias da vida! Ela sempre encontra novas formas de burlar as turbulências, isso é uma característica que só é possível na vida. Cativar-se pela vida é aprender a conviver com ela, ajustando-se e sabendo lidar com suas manifestações. Por exemplo, digo-te que, vá à direta; e encontre o Artesão de Aspecto. Ou à esquerda, para a toca do Láparo Esguio. E tu, agora, cativada pela vida, vais não pelo Artesão, tampouco pelo Láparo, vais pela descoberta do que há no caminho até lá; ruim ou bom, difícil ou fácil. A graça está em saber lidar com a surpresa do que há de vir.
Alice ponderou por um tempo.
— O Artesão e o Láparo são confiáveis? — O gato gargalhou por notar a insegurança que Alice ainda possuía.
— São malucos como tu és, como eu sou.
— Eu não sou louca! — Lamuriou Alice, outra vez.
— É o que dizem os mais loucos. — Afirmou o gato, sorrindo e translucidando, sumindo como poeira cósmica.
— Ei! Volte! — Bradou Alice, sozinha outra vez. — Não entendo...
Na bifurcação dos caminhos feitos de ardósia escarlate, Alice observava. Ao além, na perspectiva de cada rumo, apenas a névoa rosé. A escolha deveria ser feita de qualquer maneira, mas, para Alice, o que mais pesava eram os seus pensamentos e não as decisões que precisava tomar. Mesmo e apesar dos conselhos do gato sorridente, algo sobre o sentido da vida ainda lhe perturbava e encontrar uma lógica perfeita para suas ações era-lhe sempre a única opção plausível.
— Vou para o Artesão porque já vi o Láparo e ele sequer notou minha presença. — Murmurou para si, enquanto caminhava. — Mas não sei o que direi ao encontrá-lo e esse caminho parece-me maior do que previ. Sinto falta de ver o céu. — Alice olhou para cima, parando de andar por um instante. As copas altíssimas continuavam ocupando todo o firmamento, como se as constelações fossem folhas e, muitas delas, caíam com profunda lentidão, desprendendo-se das árvores e levadas pela brisa vaporosa. Por olhar para tão altas estruturas, sentiu-se um pouco inquieta. — É assim que se sente uma formiga? Posso ser pisada a qualquer momento... — Alice voltou a caminhar. — Se não tenho sentido, tanto faz ser pisada. — Disse e logo lembrou-se das palavras do gato. — A diversão está mesmo no caminho? Olhe só para isso, uma longa estrada com essa névoa baixa, sem nada acontecendo. É bem tedioso e solitário. Qual é a graça? Nada aqui é capaz de cativar! E, pior, meus pensamentos parecem mais altos aqui.
— Ei! — Alice ouviu e, de imediato, parou e olhou para trás, para os lados, ninguém. — Aqui embaixo! — Disse a voz envelhecida e fina. Ao olhar para baixo, Alice viu um rato deveras estranho; um longo rabo bege, dentes humanos, sete orelhas, 4 patas com seis dedinhos finos em cada; seus pêlos cinzas não completavam todo o seu corpo, pareciam falhos em partes. A verdade é que Alice achou a criatura horrível. — Oi, olá! É... te importarias em nos dar uma carona? — Disse o rato. Detrás dele, dois outros ratos surgiram, um deles era um pouco menor; o outro tinha uns caules de trepadeira presa à cabeça, dando-lhe um aspecto de cabelo cacheado. Alice odiaria segurá-los em suas mãos.
— Ah... eu... não me sentiria confortável... sinto muito... — Explicou, sendo a mais delicada que pôde.
— Teu vestido é enorme! Ponha-nos na barra e nem sentirás nossa presença. — Disse a voz rouca do rato de cabelo de caule. De fato, o vestido de Alice era longo e arrastava-se pelo chão. Mas os ratos pareciam sujos e isso a incomodava.
— Eu não posso, o vestido pode rasgar.... ah... para onde ireis? — Tentou mudar de assunto para evitar o conflito.
— Precisamos achar uma nova casa.
— Nós esquecemos onde estava a última...
— É... esquecemos... — Disse o rato menor, pela primeira vez, bastante frustrado.
— Como se esquece onde está sua própria casa? — Alice estava incrédula.
— Ora, tu sabes onde está a tua? — Ao tentar se lembrar de sua casa, Alice sentiu-se triste como um abismo que lacrimeja solitário por sempre levar à morte aqueles que nele se aprofundam.
— Eu não sei... mas... eu não a perdi... apenas não me recordo... — Os ratos riram.
— Isso é esquecer, oras! — Caçoou um deles.
— Por que sois tão vis? — Indagou Alice, com a voz trêmula.
— Não somos vis... não precisa se preocupar, tu podes criar, como nós, um lar novo! Basta que encontres um lugar à sombra, bem arejado.
— É, bem arejado.
— E que tenha comida próxima! — Alice se irritou ao ouvi-los.
— Não é assim tão simples quanto respirar! Encontro um lugar bem arejado e ele se torna imediatamente a minha casa? Então posso dizer que essa estrada é minha casa? Uma casa precisa de algo a mais... — Os ratos se entreolharam.
— Uma casa é só uma casa... o que tu estás dizendo, altíssima?
— Digo que uma casa é, essencialmente, um lugar em que o sentimento de segurança e pertencimento estão.
— Eu me sinto seguro comigo... e pertenço a mim! — Disse o primeiro rato.
— É, eu também! — Falaram, em uníssono, os outros dois.
— Então somos nossa própria casa?
— Guardamos a comida na pança! — Zombou o rato menor, levando seus familiares à gargalhada. Alice respirou fundo e voltou a caminhar, apressada. — Ei, espere! Altíssima! Dê-nos uma carona!
— Darei se me alcançarem! — Alice correu sem olhar para trás e, em poucos instantes, os ratos a perderam de vista e ela pôde voltar a caminhar. — Que criaturinhas insolentes! — Reclamou Alice, ela odiava o fato de saber, no fundo, bem no fundo, que aqueles ratos sujos estavam certos. — Voltarei para meu lar... em algum momento... deixarei esse lugar e voltarei e me lembrarei. Um recôndito onde há os sentimentos que serenam a alma e significam a existência. Esse alarde de que não precisamos de sentido e que qualquer lugar pode ser uma casa, prova tão somente o quão superficiais são esses animais falantes! — Alice esforçava-se para argumentar conta os ratos e o gato, mesmo eles não estando mais presentes. — De que adianta ser capaz de pronunciar palavras, mas só pronunciar palavras tolas? Que superpoder inútil! — Alice começou a imitar a voz rouca e fina dos ratos. — Olha, olha, eu posso falar, eu estou falando, mas só sei dizer asneiras; eu só falo bobagem, mas ouça, ouça, ouça-me! Eu falo alto, meu falatório irritante, palavras gastas, perdidas, amassadas! — Alice gargalhou de si mesma por imitar os ratos falantes e após rir por bons minutos, pensou que não se sentia segura consigo mesma tal como os ratos e, da mesma forma, parecia não pertencer a si. Perceber isso a deixou bastante magoada. Quando ela avistou o que lhe parecia, pois, uma casa, distraiu seus pensamento merencórios.
O clima transfigurou-se estranhamente; como se um peso pairasse, densificando e enegrecendo o derredor. Próxima à casa, Alice notou a névoa mais vermelha e um aroma peculiar de queimado lhe atordoou célere. Por um momento, hesitou em bater à porta da casa de madeira escura, pois, algo de fato lhe parecia errado ou, talvez, apenas pouco convidativo. A verdade, no entanto, era que seus pensamentos lhe convenciam de que, se Alice não se lembra de sua casa, não pertence a si e tampouco possui um sentido, então, por que não arriscar sua própria vida? Eles diziam: “Vá, Alice! Não há nada a perder, não há a quem voltar”. E Alice os ouvia, pois estava acostumada a ouvi-los.
Dois toques na aldrava e, pouco depois, o que parecia um homem, um pouco mais alto que Alice, surgiu. Ele vestia uma grande cartola, roupas estravagantes, e seu rosto era amedrontador; parecia usar uma máscara com retalhos de pele. O odor tostado vinha do interior da casa e mesclou-se ao bálsamo do homem, algo que beirava a sândalo, âmbar em notas de fundo, talvez algo mais terroso e sanguíneo nas notas de coração — até provável haver uma tênue exposição nicotinoide. Era embriagante e, ao mesmo tempo, perturbador.
— Uma dama aos meus umbrais?! — A voz do homem era como um cello fundido ao canto gregoriano. Alice reverenciou-o, abaixando-se; e logo voltou a fitá-lo. O homem a cumprimentou, beijando o dorso da delicada mão de Alice. — Por favor... — Convidou o Artesão, mas Alice fitou o interior escuro da casa e logo hesitou.
— Eu agradeço... a gentileza... senhor Artesão, entretanto, vim tão só de passagem, para compreender um pouco mais sobre este estranho lugar. — O homem pareceu compreendê-la.
— Então sente-se. — Indicou para Alice as cadeiras à mesa, próximas da casa, dispostas no jardim murcho e seco. Sentaram-se. — Não és daqui, pelo que vejo. Então de onde és? — Alice ouviu e, tão logo, notou que de fato se tratava de uma máscara, pois, os lábios não se mexiam quando o homem falava.
— Não sei ao certo... lembro-me de despertar na costa, ter uma visão estranha de um veleiro... — Lembrar do veleiro embaçado, trouxe o aperto ao coração de Alice. — E, depois, adentrei à floresta logo que vi um coelho esguio de três olhos...
— Hum... claro... e o que buscas, senhorita? Um corvo empalhado? Uma escrivaninha perfeita? Ou talvez... um sentido? — Alice arrepiou-se, tanto pela voz tétrica, quanto, essencialmente, pela última indagação do homem. Os olhos dela se arregalaram de súbito. — Sou um Artesão raro, posso te ajudar com tudo e... muito mais.
— O... o gato... te contou? — Proferiu Alice, inócua.
— Chesir? Não o vejo há um tempo. Tu encontraste a criatura? — O homem conversava como um Dom e mantinha-se bastante estático.
— Ele se chama “Chesir”? — Alice questionou mais a si mesma, enquanto ponderava a razão pela qual o gato não se apresentara a ela.
— Sim... E eu sou Thez, o Artesão de Aspecto.
— Eu sou Alice... — Revelou.
— Alice... — Sussurrou o homem, aproximando-se um pouco mais. Alice sentiu-se incômoda, pois a presença do Artesão era persuasiva e densa como o derredor e o interior em breu daquela casa de madeira. Ela não saberia descrever o que sentira, mas eu sei bem, uma atração pelo Artesão a envolveu de súbito. — Belíssimo nome...
— Se não falas com Chesir há tempos, como sabes sobre o sentido? — Thez encostou-se novamente no espaldar da cadeira e Alice sentiu-se tímida.
— Todos buscam um sentido, senhorita; é previsível daqueles que pensam, sentem e, em especial, desejam. Sou capaz de moldar um rosto para a Dama, esta face lhe trará sentimentos e pensamentos, emoções e razões para uma vida completa, sem que tenhas que escolher, sem que tenhas que aprender.
— Mas... eu gosto de minha face! Não quero trocá-la, embora não me lembre ao certo como ela é.
— De fato, teu rosto é... encantador. — As bochechas de Alice coraram. — Não te preocupes, entretanto, senhorita; sou capaz de dar-te um aspecto sem que sua aparência seja ofuscada. Basta confiares em mim. — O aroma capitoso do homem, não proporcionava confiança para Alice, embora fosse agradável de sentir, suas notas continuavam a inquietá-la.
— Como isso é possível? — Ela duvidou.
— Dar-te um aspecto ou ser, a ti, confiável? — Embora o rosto de Thez não pudesse ser visto, ele parecia sorrir.
— Ambos, senhor. Sobre dar-me um aspecto, embora eu seja uma mulher adulta e ciente de minhas decisões, sei que este lugar até então foi contra tudo o que é racional e, portanto, não há como não questionar essas verdades. Sobre confiar em ti... pois... é impossível! Eu não vejo sequer o teu rosto. — Alice aguardou uma resposta, mas Thez ficou uns minutos em silêncio até que, então, decidiu levar sua mão ao rosto e logo retirou sua máscara de pele retalhada. O Artesão era mesmo um homem, entretanto, seus olhos eram de um tom malva-empoeira brilhante, tão símil a tudo naquela floresta; sua barba era delineada em um cavanhaque, arredondada no queixo e pontiaguda próxima aos cantos dos lábios. Contornava seu maxilar em destaque. Seu semblante era sério e sua beleza era inquestionável, muito diferente da bizarra máscara que usava, porém, ainda capitoso, sutilmente, impudico.
— Tu... tu és mesmo um homem! — Exclamou Alice, perplexa e instigada.
— Há muitas formas de provar-te que sou um homem, senhorita Alice; retirar minha máscara é a mais... decorosa... das formas; entretanto, receio que não seja o suficiente para que confies em adentrar meu Ateliê; por isso proponho que tragas um conviva contigo. — Alice ponderou. Thez não parecia louco como dissera Chesir e, àquela altura, para Alice, talvez ele não fosse tão perigoso quanto aparentava.
— Não sei se poderia; desde que adentrei esta frondosa floresta, vi o coelho, o gato Chesir, um trio de ratos enfadonhos e nojentos... e por fim... um Artesão. — Thez semissorriu e, antes que alguém continuasse o diálogo, uma raposa surge, com um vestido de gala; ao seu lado: Uma fuinha marrom e muito, mais muito, muito mesmo, muito peluda.
— Aem! — Saldou a fuinha, para Thez. Parecia uma saldação e Alice compreendeu assim. Sua voz era doce e muito fina, como a superfície de uma nuvem.
— Eu estava dormindo, acredite ou não. Estes tempos loucos estão bagunçando meu ciclo de sono. — Tagarelou a Raposa. Alice estava profundamente confusa.
A fuinha se sentou em uma das cadeiras, mas, como era pequena — menor bem menor que Alice — ficava apenas com seus olhinhos à vista na mesa. Thez que era o mais alto, com um metro e noventa. A raposa sentou-se ao lado de Alice, elegante e calma, como uma dama, todavia, antes mesmo que ela pudesse se acomodar, o Lápago Esguio colocou três coelhos pequenos, mortos e ensanguentados sobre a mesa; assustando a todos, em especial Alice. A seiva rubra esguichou em todos os rostos. Alice sequer viu de onde veio o Láparo.
— Ah! Que deselegante! Por todos os corações empalhados, tenha mais educação! — A raposa levantou-se, segurou os coelhos e caminhou em direção à casa de Thez. — Vá buscar a pimenta, ande! — Os coelhos pingavam sangue pelo caminho. A fuinha pensou que o pedido de pimenta se direcionava a ela, então decidiu partir, embora não quisesse, pois, a figura de Alice lhe parecera interessante. Além disso, era timida demais para contestar a raposa. O Láparo, incompreensível e apressado, apenas foi embora. — Iniciarei o cozimento do jantar. — A raposa disse e, logo, fechou a porta. Alice estava sozinha com Thez outra vez; ambos demoraram para iniciar o diálogo e Alice compreendeu o porquê todos pareciam loucos. Quão estranho era todo aquele movimento e ninguém sequer perguntou quem era ela.
— Vulpia prepara as refeições noturnas aqui... — Proferiu o Artesão. — Pegue isto. — Ele ofereceu um lenço para Alice que, tão logo, o aceitou, para limpar o sangue de seu rosto. — O Láparo não é muito atento ao que faz... — Amenizou Thez. — Além de estar sempre apressado... — Pouco depois, o Artesão se levantou. — E a fuinha é bem tímida. — Explicou. — Venha. Deixe-me mostrar-te meu ateliê; Vulpia estará na cozinha, portanto, não precisas temer... não estaremos à sós.
A casa era escura, entretanto, Vulpia parecia destinada a manter o local mais aceso, pois, abriu todas as janelas e acendeu mais velas. Alice seguiu ao lado de Thez e logo foram ao quarto-ateliê, um aposento artístico e sinistro. Em seu interior, incontáveis máscaras pendiam na parede, como quadros. O cômodo era frígido e Alice tremia. O Artesão a cobriu com seu casaco, explicando que, em razão do poder fascinante das máscaras, o ambiente arrefecia de forma natural. Alice não conseguia compreender, mas estava atenta.
— Todos os rostos possuem parte das almas das criaturas mortas. — Explicara.
— Tu... mataste todos? — Alice temia indagar, todavia, sua espontaneidade falava mais alto.
— Não. A rainha o fez. Tome, experimente esta e sinta. — Proferiu, instigante. Alice não compreendia; queria questionar sobre quem é a rainha, mas viu-se segurando a máscara e tão logo a pôs em seu rosto, sem saber ao certo o porquê. A máscara era de uma cobra, ao que parecia; assim que a vestiu, Alice imediatamente desejou a morte de alguém que ela não sabia dizer. Sentiu um gosto agre na boca, como se ingerisse veneno; estava com uma certeza de que viveria até o fim de sua vida para vingar-se de todos que lhe fizessem mal. Ao mesmo tempo, ela sabia que aquilo não pertencia a ela. Thez retirou a máscara da atônita Alice. — E então? — Interrogou o Artesão. Alice não sabia o que dizer. — Talvez esta seja demasiado intensa para a tua sensibilidade feminil. Vista esta aqui!
Mais uma vez, sem que pudesse recuperar-se do horror anterior; Alice viu-se com a máscara do que lhe parecia um pássaro dourado. Sentiu-se leve, com a certeza de que a vida assopraria em seu rosto e que o sentido primevo para tudo era a liberdade. Estava disposta a ser livre, acima de tudo; nunca se apegar a nada, a ninguém. Aquilo era, sem dúvidas, um sentido belo e até poético, entretanto, não era Alice. No fundo de si mesma, perdia-se em si a cada máscara que vestia e o poder, das almas encarceradas nos artefatos, invadia o espírito de Alice como uma descarga energética. Sentiu angústia, medo, horror, êxtase, prazer e amargura; sentiu-se ser duas, três e até quatro; entretanto, em meio a tudo, havia sempre um resquício de nada, um nada perturbador e cada vez mais sufocante. Alice atordoou-se e caiu sobre o assoalho do cômodo.
— É fascinante, não? — Dissera Thez, ajudando Alice a se levantar.
— Isso... parece-me perigoso demais, senhor Artesão... sinto que... — Alice levou suas mãos ao seu tórax, como se acariciasse seu próprio coração. — Perdi partes de mim que jamais se recuperarão. Thez a olhou profundamente, tocando-lhe seu sedoso rosto. O ambiente ficara mais frígido.
— Posso fazer um sentido sob medida para o teu belo rosto, senhorita... — Alice arrepiara-se outra vez e se afastou do Artesão;
— Agradeço, senhor Thez... — Ela retirou o casaco que vestia. — Está tarde, preciso ir embora, se me permites. — Ela o reverenciou rapidamente e não aguardou resposta, entretanto, Thez retirou sua cartola em respeito ao adeus de Alice, mesmo que ela não o visse. Era certo que Alice estava com medo, pois, perder-se quando se tem tão pouco de si mesma é arrancar sua vida de si, sem que a morte venha lhe buscar.
Ela correu sem direção; seus olhos âmbar choravam outra vez. O vazio no peito era tangível, o medo de nunca mais ser Alice, amargurava-a. “Volta-te a mim, Alice. Sou Annae? Mariah? Elizabella? Ó, céus... por favor... Alice... das águas que lhe agradam, da curiosidade do seu ser... Posso agir como Nillah? Lillymor? Ehlen? De onde vêm esses nomes? De Alice? Alice se recorda de algo além? Mas se foge de si, de mim, como se lembra?” — Pensava enquanto corria e só parou de pensar quando tropeçou, quando não reparara que uma densa fumaça acastanhada pairava no ar e, portanto, impossibilitou a visão das pedras mais altas do caminho.
— Quem está aí? — Alice ouviu, após o tombo que fez arranhões doloridos em suas mãos.
— Sou eu... — Respondeu, um pouco confusa com a queda.
— Mas o “eu” também sou! — Respondera o que Alice pensou ser a fumaça.
— Não é isso que eu quis dizer... — Alice levantou-se, limpando a terra e as folhas de suas mãos e de seu vestido. — Meu nome é Alice, embora eu sinta que perdi a Alice de mim... — Tudo ficou em silêncio. — Senhora? Onde estás? Por que há tanta fumaça? — Alice olhava para todos os lados; o eflúvio do fumo era doce e amendoado. De súbito, um bater de asas grandes zumbiu nos céus e de lá descera uma mariposa cujo tamanho assemelhava-se a uma criança de dez anos de idade. Era alabastrina e felpuda, com duas antenas cheias de bifurcações em tom amarronzado; grandes olhos negros ela tinha e trazia consigo um tipo de incenso aromático.
— Quem és tu? — Indagou a mariposa; Alice ficou encantada com a beleza pálida e felpuda da criatura.
— Eu deveria ser Alice, mas estou confusa... — Respondeu, com inocência.
—Quem és tu? — Insistiu a mariposa. Alice respirou fundo.
— Eu achei que sabia, quero dizer; quando despertei, eu sabia que antes, em algum momento, eu era eu, mas, desde então, já mudei diversas vezes.
— Mudou como? — Perscrutou a mariposa. Alice sentou-se, suspirante.
— Queria um sentido para a vida, tentei alguns, mas perdi-me em todos; agora estou mais longe de mim do que outrora.
— O que achas desta pedra? — A mariposa falava da pedra que Alice usava como assento.
— Está confortável, na verdade.
— O que achas d’esta pedra? — A mariposa parecia não satisfeita com algumas respostas. Alice pensou bem.
— Eu gosto.
— Então já sabes que Alice gosta d’esta pedra.
— Sim, eu sei; mas, isso ainda não traz sentido para minha existência; tu podes gostar desta pedra igualmente e tu não és Alice.
— Não, a pedra não me agrada.
— Tu não compreendes! — Alice levantou-se, pretendia continuar seu caminho sem rumo.
— Ouça. Se o sentido de tua vida fosse encontrar esta pedra, o que farias agora? — Alice pensou mais uma vez; não lhe parecia incrível ter este sentido para a vida, entretanto esforçou-se para compreender a mariposa.
— Bem... eu estaria eternamente feliz? — Alice duvidou de sua própria frase.
— Certamente que não.
— Estás dizendo que a cada novo sentido, preciso de um novo sentido? — A mariposa fez silêncio e Alice a acompanhou.
— Todo o sentido é uma pedra no final... — Afirmou a mariposa. — E toda pedra pode ser um sentido...
— Por que precisa ser difícil? — Alice bocejou e caminhou até uma pilha de folhas secas. — Por que não posso apenas saber e pronto? Eu poderia ter nascido para colher maçãs e estar feliz colhendo maçãs eternamente. Mas, não, preciso estar com esse vácuo no coração, esse enigma no espírito. Eu pensei que tudo precisava de um sentido e o sentido precisava de lógica; agora perdi-me de mim mesma, sem sentido, sem lógica, sem fragmentos da minha alma. E agora o sentido é uma pedra e toda a pedra é um sentido... o que isso significa, afinal? — A Mariposa sumira e Alice pensou que havia importunado a criatura; olhou, então para cima, observando a floresta acastanhada. — Se deixo este lugar, vou a outro para sentir as mesmas ausências. Se decido um novo caminho, preciso decidir outro e, na maioria das vezes, estou na solidão que é capaz de aparecer mesmo quando há alguém próximo a mim. O que me parece é que a solidão e a ausência são os únicos e verdadeiros sentidos, o que faz tudo ficar extremamente angustiante. Por que eu viveria para isso? Quem poderia ter sido tão perverso a ponto de dar vida a uma criatura que não pode ser feliz?
— Senhorita... — Disse uma grave voz aveludada e Alice olhou em direção ao som. Ela imediatamente viu um Antílope negro com grandes e longos chifres. Era um animal forte e alto, não parecia um Antílope como qualquer outro. — Teu falatório inconclusivo está atrapalhando o sono de meus filhos.
— P-perdoa-me, senhor; já estou de saída... — Alice sentiu-se perturbada por perturbar outrem.
— Com tantas indagações, talvez devas encontrar a Rainha, pois ela sempre tem uma resposta para tudo.
— Não sei ao certo se quero respostas... bastar-me-ia a morte, neste caso...
— Duvido muito que anseies pela morte, senhorita. Se mal sabes lidar com a vida, como lidarás com algo tão mais enigmático? Por acaso sabes o que é a morte?
— Pensei que fosse o descanso eterno...
— É o que dizem, entretanto, se te apegas nisso com tanto vigor, como ousas não ver razão para se apegar em qualquer coisa na vida? A vida está ao teu dispor e a morte é o mistério indomável, ainda assim, preferes a morte? Estando sujeita aos horrores que desconheces ou aos prazeres abundantes ou, ainda, estando sujeita ao limbo, onde a ausência é ainda mais colossal do que essa mísera solidão que guardas em teu peito... ainda assim, queres a morte? Isso é estúpido, para não dizer outra coisa... — O Antílope arquejou, um pouco irritado. — Seja o que for, senhorita; se queres a morte ou se anseias por resposta, visite a Rainha. Ela é capaz de te dar tanto um quanto outro.
Alice sentiu-se bastante afetada pelos dizeres do Antílope; sentiu-se humilhada, em certo aspecto, pelas palavras agressivas disfarçadas de educação. A criatura foi embora, sem esperar um adeus e sem dar um. Alice decidiu caminhar no sentido que o Antílope olhava sempre que mencionava a tal rainha e, com receio de quebrar a lei do silêncio e importunar outras famílias, apenas ficou pensando, sem proferir uma única sílaba. As palavras do Antílope a deixaram sensível e ansiosa, então, mesmo sozinha e mesmo estando obrigada a calar-se por completo, nas profundezas de seu ser, ela buscou se acalmar da única maneira que sabia poder: recitando alguns versos. Por infortúnio, ela não conseguia se lembrar de nenhum e isso a deixou ainda mais aflita. "Esqueci-me de todos os poemas?” pensou “Que atrocidade sem tamanho... as musicalidades foram soterradas, as rimas perdidas, a beleza afogada no esquecimento...” — Alice percebeu que se aproximava um estranho medo.
— Envolta em névoa onírica estive — ela recitou
— Pensares sobre tantas incertezas — Voz trêmula no segundo verso.
— No peito uma saudade ali mantive — Imersa por completa em seu poema.
— Proste-se, criatura, à Vossa Alteza! — Vociferou alguém e Alice sentiu uma pancada em sua cabeça. Ao buscar entender o que ocorrera, em um galho baixo estava uma simiesca criatura segurando um tipo de báculo curvado com uma maçã, a verter um licor escarlate, cravada na ponta. Ao tocar sua própria cabeça, onde sentira a pancada, Alice tateou em algo úmido e, ao olhar seus dedos, estavam carmim. De imediato entendeu o que se passara.
— Por que me feriste sem razão? — Ela bradou, em cólera. O símio sorriu, fazendo sons estranhos e desordeiros. Ele tinha uma cabeça amassada e minúsculas orelhas; era todo despelado, sua pele dobrava-se rosada e seu rosto era pálido. Tinha sete membros, três pernas e quatro braços.
— Estás entrando no reino da Rainha, portanto, deves cumprir os protocolos. — Grunhiu a criatura.
— Quem és tu? — Alice perguntou, irritadíssima.
— Sou o Sagui mais fiel à rainha.
— Não pareces um Sagui...
— É porque... tive de servir à fascinante Majestade e... como um bom súdito... eu... fui abençoado... Veja só! Agora tenho vários braços e mãos para segurar todas as maçãs que eu quiser. — Alice achou aquilo bastante pavoroso.
De repente, uma horda de animais de todos os tipos, eles carregavam galhos afiados nas pontas; estavam vestindo máscaras horrendas que lumiavam sob a luz do dia, feitas do que parecia ser fragmentos de vidro e pétalas de um tipo bizarro de planta coralina. Quatro grandes rinocerontes mascarados carregavam um tipo de trono feito de flores e, nele, uma mulher se assentava. Ela tinha os olhos fundos, um tanto cadavéricos; usava uma coroa de pinhas e galhos, tinha ressequidas folhas ao redor do pescoço, alongando-o e, por fim, vestia-se em um vestido na cor vinho, longo, régio e com corações... corações empalhados, de vários tamanhos, de inúmeras criaturas diferentes, como ornamentos em seu vestido. Seus cabelos eram rubros e uma tinta negrume contornava a linha do que seria seu sorriso e ao redor dos seus olhos de precipício. O Sagui escondeu-se atrás de Alice assim que viu a Rainha. Alice, amedrontada, ficou prostrada, em reverência, torcendo, na verdade, para não ser vista abaixada.
— Parem agora! — Gritou a Rainha. — O que é essa coisa? — Alice demorou um pouco para levantar seu olhar e perceber que a horda terrífica a olhava, embora não tivessem olhos de fato. Alice ergueu-se, apavorada e contida.
— Sou Alice... — Um silêncio pairou.
— Arranquem-lhe o coração! — Gritou a mulher, sua voz era estridente e com um fundo agourento.
— Mas por quê? Eu nada fiz! Não faz sentido! — Os animais se aproximavam, apontando suas lanças. — Vossa Majestade, eu posso lhe ser útil, não?
— Parem! — Mais um brado da mulher. — Útil?
— S-sim... Posso ser útil para... — Alice não sabia ao certo o que estava fazendo, tampouco sabia se daria certo.
— Alice sabe sair do arvoredo — murmurou o Sagui, interrompendo-a. Antes que Alice o contestasse, pois ela não sabia o caminho de volta para à costa, a rainha voltou a praguejar.
— Isso é útil de fato... a razão da minha existência se pauta em deixar essa floresta imunda! Vá! — Ordenou — Vá à frente, mostrando-nos o caminho. Alice ficou em silêncio enquanto caminhava para liderar à horda. Por sorte, ou não, mais à frente a rainha e seus súditos não podiam ouvi-la, apenas a viam. O Sagui a acompanhou.
— Por que mentiste? — Sussurrou Alice.
— Eu não minto! — Retrucou o Sagui e logo Alice percebeu que se tinha algo que aquele símio fazia, este algo era, decerto, mentir. Alice pensou em correr, mas, sentiu que não seria capaz de ir mais rápido que os rinocerontes. Depois, ponderou em como guiá-los todos para um abismo, entretanto, Alice não era uma pessoa má. Notou que as máscaras que as criaturas usavam eram semelhantes às do Ateliê do Artesão e isso a levou a imaginar que os animais estavam dominados por algo que não era eles mesmos. Alice parou seus passos e tomou uma decisão por impulso. Voltou à rainha, deixando o Sagui (que era um medroso) boquiaberto. Mesmo medroso, ele a seguiu.
— Para que possamos continuar, a Rainha precisara responder às indagações da floresta; eu as escuto e a ti repito. A floresta exige isso, para que o caminho se mostre. — Disse Alice com toda a sua coragem. Um silêncio pairou novamente.
— Interessante... — Disse o Gato, assustando Alice. Ao olhá-lo, todos ficaram estáticos, exceto ela e gato.
— Chesir? Como tu... — Alice estava confusa.
— Estou curioso, quais perguntas tu farás à Rainha dos Corações? — O gato sorria como outrora, um sorriso imenso e sinistro; seus olhos pálidos atentavam-se à Alice.
— Tu paraste o tempo? — É verdade que quando Chesir se aproximara da primeira vez, tudo parecera diferente e embaçado; uma densidade hialina envolveu tudo e as árvores pareciam mais lentas no encontro com a brisa da floresta; exatamente como acontecia naquele momento! Os sons ficaram rarefeitos, Alice sentiu-se estranha, todavia, ela não imaginara que todos esses sintomas eram culpa do gato, tanto daquela vez quando desta.
— Péssima pergunta! — Respondeu Chesir.
— Não, eu não farei essa pergunta para a Rainha. Quero saber como um gato pode parar o tempo! — Chesir ronronou, esfregando-se na árvore em que estava.
— Ora, todos os gatos fazer isso, não? — Ele sorriu ainda mais e, com uma voz embargada de beleza e astúcia, respondera: — Eu não paro o tempo, Alice.
— Como não? — Alice estava chocada. Chesir lambeu seu pelo límpido e expressou uma indiferença única, em tom solene.
— Ele é quem para quando chego. — Afirmara e não havia como dizer que ele não estava certo. Alice sabia o quanto aquele felino era astucioso. — Parece-me que tu não sabes o que perguntará à Rainha.
— Sei sim! — Alice afirmou, convicta, embora sua voz tenha ficado um tanto trêmula ao lado da exclamação (se, claro, isso fosse uma história escrita). — “Qual é o sentido da vida!” é a primeira pergunta. — O gato apenas a observava. — “Qual é o sentido da morte?” é a segunda pergunta. — Alice esperou uma reação do gato, mas ele continuava observando. — “Tu preferes a vida ou a morte? Se a vida, por quê? Se a morte, por quê?” é a última pergunta. — Chesir continuava com seu sorriso inalterado. — O Antílope disse que ela tinha todas as respostas... — Justificou Alice. O felino espreguiçou-se e se aconchegou, preparando-se para uma soneca.
— Lembre-se, Alice, não importa a resposta, importa apenas a pergunta. — Ele disse, carinhosamente. — Faça-me um favor, se possível. — Chesir, embora sorridente como sempre, parecia um pouco mais sério e menos debochado. — Pergunte-a por que a máscara que ela usa pesa mais que sua coroa. — Alice estremeceu e o gato deu-lhe uma piscadela com o olho direito. Ela sentiu-se profundamente instigada a perguntar àquilo para a Rainha.
— Vamos, mulherzinha, faça as perguntas! — A voz agourenta ressurgindo, fazendo Alice sentir dor nos tímpanos.
— Qual é o sentido da vida? — Alice iniciou.
— Sair dessa floresta imunda! — Respondeu a Rainha, como uma lâmina afiada. Alice começou a perceber profundamente o que o gato quis dizer com sua pergunta à Rainha, pois, além de não haver nenhuma máscara na face da Majestade, ela ainda parecia envenenada com sua própria índole, como as máscaras do Artesão que envenenavam a alma, levando-a a se fragmentar e se perder.
— Qual é o sentido da morte? — Indagou Alice, mas, naquele ponto, ela realmente não se importava com a resposta.
— Ser uma ferramenta para me guiar para fora desse mausoléu nojento! — Alice achava a floresta amedrontadora e, de fato, desejou deixá-la o mais rápido possível, porém, havia ali uma beleza estonteante e, por isso, ela não compreendia por que a Rainha dizia aquelas palavras violentas.
— Tu preferes a vida ou a morte? Se a vida, por quê? Se a morte, por quê? — “Penúltima pergunta” Alice pensou.
— Odiei essa pergunta, próxima! — Alice, que estava perto do trono ambulante, sentiu gotículas de saliva em sua face, tanto foi a impetuosidade da resposta da Rainha. E era chegada a hora. Alice respirou fundo.
— Por que a tua máscara pesa mais que tua coroa? — Questionou Alice. O olhar da Rainha tornou-se fúria absoluta.
— Arranquem-lhe o coração, agora! — Gritou a rainha. Os animais mascarados começaram a perseguir Alice que tão logo correu o mais depressa que pôde. A gramínea, que outrora envolvia seus pés com cuidado, agora parecia impulsioná-la para que pudesse fugir com a velocidade precisa. Mas esta ajuda não fora suficiente. Alice sobre uma pilha de folhas secas, caiu em um buraco profundo e infindável. Havia se livrado de ter seu coração empalhado pela rainha, mas agora se via caindo e caindo. Era como um poço profundo e sem sim, símil a um abismo sombrio; ela gritava em desespero e, amedrontada, fechou seus olhos com intensidade e jurou abri-los apenas quando algo acontecesse. É uma pena, pois perdera o espetáculo das fotografias na parede do poço.
Quando sentiu seu corpo colidir com algo macio, Alice abriu seus olhos lacrimejantes e quando ergueu seu olhar à paisagem, turvou-se na sublime apreciação amedrontadora de uma frondosa floresta colossal e, à sua frente, um oceano escurecido e plácido sob um céu rosa-empoeirado. A visão de um veleiro embaçado, atracado à costa, imediatamente a fez se lembrar de tudo o que vivenciara na floresta. O veleiro ainda apertava seu coração, era a mesma cena, o mesmo instante, a mesma visão e, agora, poderia ser uma boa hora para ir até o que lhe parecera uma miragem da primeira vez, pois, talvez não fosse ilusão. Ela poderia pedir ajuda e ser salva de perder-se eternamente no bosque imensurável... era o seu desejo, não era? Ela queria deixar o que lhe parecia uma ilha encantada em maravilhas e horrores, entretanto, Alice viu o esguio coelho de dentes afiados, igualzinho da primeira vez. Ele, com os mesmos movimentos, aparecera, mas, dessa vez, ele enterrou um relógio de bolso.
Para Alice, tudo fora idêntico ao início de seu estranho despertar, exceto pelo coelho enterrando um relógio. Essa sutil diferença mexeu, profundamente, com Alice. Por que ele desenterrou o relógio no início? Por que o enterrava naquele momento? E se as cenas eram idênticas, como pôde haver uma diferença? Havia tanto o que saber, tantas perguntas, tantos porquês. Como ficaria o Artesão? A Rainha arrancaria quantos corações para empalhar? E a fuinha encontraria ou não a pimenta que a raposa pediu?
Alice pensava e logo viu o coelho entrando, bastante apressado, para dentro do denso arvoredo. Ela não tinha muito tempo, ela precisava escolher. O que outrora era ausente, ali tornou-se um verdadeiro sentido; Alice queria saber mais sobre a magnífica floresta que lhe parecia tão íntima... tão familiar... Então, tomou a difícil decisão: deu adeus ao veleiro e foi, pela segunda vez, atrás do láparo esguio.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A Mortt, de Alva: Capítulo 1
Antemanhã de lua cheia, lôbrega em névoa rubra. Outono e decadência, a morte encíclica brinda, hoje ou amanhã, a todos os que residem no…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Antemanhã de lua cheia, lôbrega em névoa rubra. Outono e decadência, a morte encíclica brinda, hoje ou amanhã, a todos os que residem no âmago da vida. Aromantada em jasmim, Alva Ttelihllen lacrimante está sobre o corpo de sua mãe, cujo lânguido coração pulsara pela última vez na colheita de fungos para o desjejum. Uma cesta deles está caída ao lado do cadáver e o silêncio é a profecia d’um perpétuo adeus. Um oblivinum mórbido pode ser ouvindo, no fundo do ser de Alva, pois ela se recorda de tocar o instrumento à sua mãe, quando era pequenina.
Entretanto, no horizonte, caminhando; Alva observa surgir um cavaleiro com armadura ornamental de ferro negro e uma imensa foice cortante. Ele se aproxima silente e, já bem perto, observa os cristais lacrimais de Alva que o fitam. Intrigado por tê-los ao seu dispor, o Cavaleiro paralisa. Alva levanta-se devagar e, dos arbustos rosais ao derredor, colhe uma rosa rubra e a coloca no torso do cavaleiro, próximo ao seu coração vazio. “Seja bondoso com a alma de minha mãe… ela era gentil e amável… esta foice a causará dor?” — Por assimilação, Alva compreendeu que ele era o Ceifador.
Logo após o abalo primevo, o Cavaleiro da Morte fez florir um crisântemo em suas mãos enluvadas e, ao colocá-lo sobre a fronte da falecida Grascie, fez com que su’alma se esvaísse do manto da vida. Alva o abraçou, delicada. “Obrigada…” — agradeceu, pois compreendeu que o Cavaleiro não apenas a ouviu, mas honrou o seu pedido. Diante do abraço, diante do envolver das mãos lhanas em sua armadura árida, o Cavaleiro encostou seu rosto no rosto de Alva, cuidadosamente; segurou-lhe em sua cintura e, pouco a pouco, tornou-se incorpóreo em névoa negra, até desaparecer.
Ele tinha de ceifar uma nova alma e, portanto, precisava partir. Alva colheu os cogumelos e voltou para seu lar solitário. O Coveiro foi chamado para cumprir com seu lavor, entretanto, Alva permaneceu em seu recôndito, observando o dia perecer; sua demasiada sensibilidade a impedia de comparecer ao enterro da senhora Grascie. Alva, em lágrimas, adormeceu no crepúsculo e despertou à meia-noite, destinada a cumprir o que se revelara em seus sonhos: escrever uma carta ao Cavaleiro da Morte.
“Caríssimo Cavaleiro da Morte… ou Ceifador… Ou tão só um cultor de crisântemos…
Confesso-te não ter sido afável ter te encontrado n’esta melancólica aurora, sob o céu vestal da vida, com a brisa horizontal rarefeita. Vivenciei, senhor, a dor mais augúria possível àqueles que, com estima profunda, caminham descalços sobre a gramínea da vida, sem cultivar rancores, sem cometer uma única injustiça… entretanto, acalenta-me que levaras a alma de minha amável mãe, com o respeito que lhe era merecida.
Escrevo-te, não obstante, por ser submissa à solidão desde então e ninguém há de compreender minha dor tal como tu podes, sendo o Ceifador das almas d’esta doce, e cruel, Lacrimur. Tu vês para além do que reside em meu semblante, eu sei, eu sinto. E mesmo que esta carta não alcance a tua sublimidade obscura, e tu venhas visitar-me tão só no meu fim, peço-te que, então, me escrevas; para que eu compreenda haver, n’este derredor misterioso que constitui a vida em si mesma, uma razão para que seja devolvido o sorrir à minha feição magoada.
Diga-me, Cavaleiro, o que pode defrontar o sôfrego luto, com adagas de alívio, e vencer?
Com carinho e dor…
Ao Cavaleiro,
de Alva Ttelihllen”
A missiva, n’um envelope de seda enegrecida, fora colocada aos pés do rio no bosque próximo à casa de Alva, lá onde frequente se avista Morpho Cisseis em crisálidas e em voos ornamentais. A espécime é conhecida pelo seu vínculo com a Morte, dada a efemeridade de sua existência, a beleza sublime de sua constituição e, acima de tudo, a fleuma de suas transmutações. Alva espera que o símbolo vestal da borboleta azulescida resulte no vir do Cavaleiro ao seu encontro, entretanto, reside em seu âmago uma fé de que as borboletas sussurrarão as palavras da carta ao Cavaleiro e ele versará uma resposta gentil antes de sua próxima visita.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Diário de Dantesca Nínmia — Trecho nº1
Uma criatura de agoníria atravessara o portal obsidia; foi contida por Somníria dentre as densas nuvens alvililáses, todavia, em sua força sombria…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Uma criatura de agoníria atravessara o portal obsidia; foi contida por Somníria dentre as densas nuvens alvililáses, todavia, em sua força sombria, atravessara a contenção, encontrando-me de súbito, com sua aparência asquerosa e dentes afiados. O líquido negro de sua constituição vertia sobre o derredor, enegrecendo ao violeta profundo as nuvens características do reino… eu temi, por um momento… temi não ser capaz de contê-lo.
Seu sibilo e grunhido eram terríficos! Sem olhos, a criatura parecia guiar-se apenas pelo som; raízes cinéreas escurecidas formavam a sua asquerosa fisionomia. Para ser tão poderosa assim, receio que não venha d’um pesadelo qualquer, mas sim d’um abíssico trauma. Não encontrei sua origem ainda, contudo, tenho esperanças. Por hora, exausta me sinto… conter a criatura terrífica esgotou meu poder a um nível mortífero…
Adormeci pouco após o incidente com aquilo, e receio que a mórbida coisa penetrara em violência o meu sonhar — ou o pretendia fazer, pois, tive pesadelos de uma estranheza absurda! Parecia-me que a criatura me observava, mesmo destituído de visão. Lorrt tem cuidado do meu sono, quando me esgoto em perturbações, todavia, sei que ele está passando por um momento difícil que o está atormentando… parece que Somníria trouxe Áurea para ele, isso… me intriga, pois… é perigoso, é um risco imensurável para o Somníria e para todos nós.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “Contos”:
“Hibisscuss”
Quando me aproximei daquelas ruínas, imaginei que encontraria destroços de um outrora sombrio, objetos deteriorados pelo tempo e, talvez, segredos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Quando me aproximei daquelas ruínas, imaginei que encontraria destroços de um outrora sombrio, objetos deteriorados pelo tempo e, talvez, segredos esquecidos sobre aqueles que já se foram. Mas, não. Ao invés disso, avistei densos arbustos que possuíam uma espécie de flor de hibisco, cor de sangue vivo.
Adentrando nestas plantas, encontrei um recôndito que, como uma clareira, deixava o sol pálido atravessar sutilmente o seu interior e a luz evidenciava uma estrutura fascinante. Era como uma biblioteca em um jardim, possuía estantes de pedra, esculpidas como por um artista antigo. Os livros — sim, as estantes tinham livros inteiros — estavam protegidos dentro de invólucros feitos de algum tipo de rocha, talvez da mesma cujas estantes haviam sido erguidas. Cada livro, em um idioma desconhecido, ocupava um desses invólucros que o preservavam da umidade.
Embora lindo, era… estranho…
O silêncio pairava como uma mórbida presença que, de soslaio, observava. A brisa frígida fazia assemelhar-se a oscilação da folhagem e dos hibiscos, como passos entre a vegetação e isso me assustava. Sempre que me aventurava a abrir um dos invólucros e folear algumas páginas, arrepiava-me a tez como se algo amedrontador estivesse escrito em seu interior. Em um dos livros, notei que a tinta estava ainda fresca…
Cada detalhe me levava a uma inquietação profunda, então fugi o mais rápido que pude após o segundo arrepio, pois, com ele veio o que eu juro ter sido um murmúrio, um sussurro longínquo e tão próximo… acho que esse bizarro som dissera-me “hibisscuss” — arrastando no “s” como o silvar de uma cobra cuja língua freme na ponta dos lábios.
Quando alcancei o nevoeiro outra vez, respirei profundamente aliviada, mas isso não durou muito; notei uma flor daquelas em meu braço, devia ter caído por causa do meu movimento fugaz. Ao puxá-la, senti uma pungente dor. Sua raíz adentrara minha pele, deixando viva a carne por debaixo, como uma ferida profunda. Temi que tivesse algum veneno, todavia, dentre a névoa naquele lugar tão macabro, eu não podia encontrar algo que pudesse ser utilizado para desinfeccionar a ferida.
Em razão daquele murmúrio bizarro, veio à mente a opção de sugar o local para, quem sabe, extrair qualquer veneno existente. Eu, então, o fiz. Sangue. Gosto ferroso. Até ser engasgada com outra flor de hibisco que emergiu do local mais uma vez… puxá-la abriu ainda mais o ferimento inicial. Foi uma dor terrível…
Olhei para a lesão, preocupada e agonizando, e o que vi fora perturbador…vi dezenas… infindas raízes na carne, minúsculas e, sutilmente, em movimento… dentro de mim… mudando a minha humana natureza e transformando-me em uma delas… das flores… por uma maldição sussurrada em meu ouvido…
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Diário de Áurea Lihran — Trecho nº1
Elas se calaram… as vozes do meu abismo. E agora perduro em Selenoor como quem a ela pertence, uma rainha índigo de sangue e solidão…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Elas se calaram… as vozes do meu abismo. E agora perduro em Selenoor como quem a ela pertence, uma rainha índigo de sangue e solidão. Em uma profunda tristura, vejo-me irreconhecível em meu âmago, perdida no esquecimento. Vejo Rosaemoris congeladas no tempo, aguardam-me em uma paciência serena. Ouço corvos brancos próximos, nos céus de tom azul-marinho, eles crocitam minha angústia. Eles são como o triste piano em meu peito, o agouro da minha condição.
Mesmo sem lembrar do que vivi, a saudade é a lágrima que verte em um carmesim profundo, dos meus olhos aos meus lábios. “Selenoor é esta lua lúgubre que vês, doce vestal, ela te irriga como planta rara; ouça-a azulescida em teu peito…” — Cantara Lahgura até desaparecer como miragem. Como é sê-la? Poderosa, mágica… quem é Lahgura? Quem sou? Esta anil atmosfera enternece-me… é sopro de melancolia e temo que redigir essa abíssica verdade, leva-me ainda mais em sua silente imersão hostil.
Alguém bate à porta, suave como mãos femininas… creio ser uma visitante disposta a me salvar do meu azúleo afogamento interior.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Permaneça
Teu amor trouxera-me a escuridão; querido, o teu inferno cativou-me o peito cuja vida efêmera protege. Os sigilos do teu corpo enfermo, cicatrizaram-se…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Teu amor trouxera-me a escuridão; querido, o teu inferno cativou-me o peito cuja vida efêmera protege. Os sigilos do teu corpo enfermo, cicatrizaram-se aos meus cuidados enquanto, em pesadelos, tive teu toque no meu mais íntimo anseio. Ouvi tua gravíssima voz em desabafos perniciosos, olhei-te com temor e alento; ouvi-te, também, na lamúria e nos brados de mórbido pesar. Não hei de beijar os lábios do arrependimento, meu Dom. Amorttam é traiçoeira tal como Lilith, mas não eu; deita-te em meu torso, amado, descansa-te sentindo este perfume que me possui na natureza do que sou; deixe-me alimentá-lo ao teu deleite, pela fé, pelo amor. Tornaste-me uma apaixonada inominável! Aquela que adormece somente após o teu sono nuvial, plácido.
Tua noite verdejara-se aos meus olhos, tua alma permitira o vindouro florescer dos meus lírios brancos; agora, esqueci tudo por ti, para manter-te amado enquanto a vida perfura-me a carne com as agulhas da morte, lentamente. E assim, lembro d’água doce que me deras e da tua atenção quando lacrimei aos pés da noite verdinegra; mesmo o medo que me fizeras sentir no belvedere, amor, jamais duvidei da tua inócua essência — desvelava-me a tua íris, uma genuinidade inexorável… ó, sim… tua íris-noite… teu semblante, amante, de calvário; viste em mim, eu sei, a tua fuga e te levei comigo, mesmo presos na Mansão Negra, éramos lá uma pulcra luz nas frestas dos umbrais silenciosos, éramos um segredo e aprendi amar o teu universo frígido, aprendi a acalorá-lo com afeto…
“Permita-me amar-te…” — Sussurraras. E eu permiti… assim te rogo, permaneças. Não te cinjas à vingança — olvides os males e banhe as tuas fissuras com azeite de ternura. Estou aqui por ti, tal como estive desde o início.
Por favor…
Com ardor,
Saeeri
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Lar de Breu-Mármore e Rubi
O sol era a nódoa escarlate na imensidão enevoada em um carmim enegrecido; o sol não tangível em sua forma de estrela, era tão só um clarão rubro…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O sol era a nódoa escarlate na imensidão enevoada em um carmim enegrecido; o sol não tangível em sua forma de estrela, era tão só um clarão rubro, espargido pelo firmamento instável. Abaixo dele, um oceano de mármore preto tal a noite que se via, por vezes, entre as clareiras do céu, criadas pelo vento intenso e amedrontador. Noite e dia; um entardecer melancólico, um paradoxo único. Das sombras no mármore, o fogo queimava na cor do sangue mais puro entre vilas cujas casas erguidas eram como ruínas de uma ancestral civilização.
Meus pés aquecidos, o frígido sopro oscilava os galhos dos secos carvalhos mais próximos e, conforme eu caminhava, os arbustos de flores se faziam presentes como um jardim etéreo; flores símeis às dálias, porém, com pétalas em voluta, formando um redemoinho escarlate; eram leves como penas, rarefeitas pétalas brilhantes em cor negra-sublime com nuances carmesim. Espinhosas como as rosas, fascinantes como tudo o que habitava aquele lugar. Por quanto andejava, sentia a melancolia em meu peito. Desejei tanto adormecer sob tal lumiar coralino, enquanto a névoa negra dançava acima.
Nada, todavia, era mais deslumbrante que aquele castelo; em torres pontiagudas, esculpido em atro mármore e bruto rubi; desvelou-se a mim quando subi em outras ruínas, como antigos lares destruídos pelo tempo. E lá estava a sua inconcebível arquitetura. Intui um dever profundo de adentrar os seus umbrais e continuei minha marcha até que tal feito fosse realizado. Encontrei nímios frutos pelo rumo, nas veredas e pontes; eram tão semelhantes às uvas, de uma doçura apetitosa. Ainda que estas árvores frutíferas e outras plantas se movimentassem pelo ventanear; ainda que o mármore rachasse, vez ou outra; e o fogo ardesse, crepitante, por onde os olhos podiam enxergar; o silêncio beijava ao derredor, sem medo.
Então, ouvi som de queda d’água e sorri; sentia sede. Subi sobre mais escombros e alcancei uma pequena fonte ornamental próxima ao palácio sombrio. A água era negra, fluída, aprazível. Lavei com ela o meu rosto, renovando minh’alma que, na verdade, parecia distante de mim. Dali, portanto, fui à entrada da monumental maravilha em sua tétrica constituição. Seus umbrais gigantes se abriram para mim, sem que eu precisasse tocar em sua aldrava. Havia um lago em seu interior, colunas esculpidas com anjos e seres míticos; a luz do entardecer carmim adentrava os vitrais criando uma iluminação fascinante. À frente, um imenso trono de veludo encarnado.
Não me dirigi ao trono, ponderei sobre quem seria, pois, digno de tamanha magnificência. Em resposta à minha íntima indagação, passos ecoaram e, fitando na direção do que ouvia, avistei um homem forte. Seu corpo era como de um deus, e tinha uma tez com cicatrizes em sua fronte. Seus olhos eram rubros e brilhantes, uma roupa negra e régia o cobria. Era de uma beleza inenarrável. Tinha cabelos finos e curtos — os quais se movimentavam como as pétalas vistas outrora pelo caminho. Era um homem alto, sua força era visível e majestosa; se próxima a ele, decerto me sentiria como uma pequena criatura ínfima. Olhava-me, ele, atento e sério. Tão diferente de mim… eu que estava descalça e com meus soltos cabelos orvalhados pelo clima, sofrível, pois marchava no mármore. Decerto não éramos da mesma origem.
— Estás em meu reino, em meu palácio. Bebeste de minha água e aqueceste os teus pés em meu mármore. Admiraste meu jardim e desejaste tocar o veludo de meu trono. — Dissera em tom sereno e grave, como um trovão sob controle. — E não sabes sequer o meu nome. Ao menos sabes como chegaste até aqui? — Indagou e sua voz que me embargava, assemelhava-se a um vinho de doce aroma e seco sabor. Prostrei-me ao chão, pois reconheci, em meu âmago, que estava de frente a um ser majestoso, um rei de um reino carmesim.
— Perdoe-me, vossa alteza. Despertei à beira de um oceano e, invitada por um ser de poética nume, adentrei seu pequeno barco e ouvi seu lirismo melancólico até descer nas vossas terras. O ser poético fora uma ilusão, transfigurado em pedra, uma estátua devaneada por mim. Não compreendo mais nada além disso e fui enlevada pela sublimidade de teu grandioso castelo. — Disse, célere; respirei profundamente ao término e mantive-me de joelhos. O silêncio pairou por longos instantes.
— Levanta-te. — Eu o obedeci. Era agradável retornar meus olhos ao seu austero semblante. — O Sonurista da Morte não é uma ilusão. Não compreendo, todavia, a razão pela qual ele te trouxe até meu império. Vês? — O ser estendeu sua mão esquerda e os umbrais de seu palácio se abriram ao seu comando. Então vimos a paisagem em completude, um reino carmim e negro, envolto a fogo rubro, mármore-breu, lava, rochas ígneas, ventos, natureza morta e flores raras; era lindo e solitário. — Este é o Inferno. — Explicou, todavia, não compreendi. — Sou o rei do Inferno há éons, incontáveis noites, inumeráveis dias. Esta é a minha terra, de rara beleza.
— Como tu és, vossa majestade. — Sussurrei, senti-o me encarar. — Perdoe-me, majestade. Apenas devo dizer que se cá estou, então, devo servir-te… não há nada em mim… há nada que sou… nem mesmo tenho nome… — Eu não tinha memória do antes de despertar naquela areia negra, com a água negra daquele oceano em meus pés. Sequer um nome eu tinha, ou uma história. Voltei-me ao rei, aproximei-me devagar.
— Teu nome será Líria, pelo lírico perfume doce que emanas e pela poesia vestal dos teus olhos. — Reconheci-me Líria, intimamente. — E deverás chamar teu rei pelo nome que o pertence… Ahzaez. Eu sou Ahzaez. — Afirmou e manteve seus olhos em mim, olhos de raro rubi.
— Ahzaez… — Sussurrei e, para ele, sorri.
Quando a noite sepulta o horizonte sem luz, | E o zênite em luto ao abismo conduz, | Ante o pálido horror deste céu cinzento, | Eu me rendo ao…