Eu sou Sahra Melihssa, criadora do Morlirismo. Ser um escritor Morlírico não significa escrever como eu escrevo. Aqueles que se identificam com os princípios que fundamentam o Morlirismo, poderão escrever à sua maneira, sempre baseando-se na essência do Morlírica. Cada indivíduo tem sua própria apreensão da existência e as palavras vão à sua alma com um peso específico e único. Então, antes de tudo, esse movimento literário sempre será adaptável às subjetividades. Seja livre no Morlirismo, deixe-se sentir profundamente, rasgue o peito em emoção, permita que as lágrimas vertam e ame as palavras, pois elas assimilam o seu amor.
A criação do Morlirismo possui raízes no meu profundo olhar sobre a literatura que me dedico. Lapidando frases, usufruindo de palavras raras — e criando-as. Dedicando-me à poética mais lírica, notei que havia muito mais do que ‘gótico’ na minha arte e muito além de ‘ultrarromântico’. Minha literatura se manifestava com uma orquestra que não se vê — nem se ouve — n’outros movimentos literários.
E por que “ouvir” é a palavra? Morlirismo é sobre sonoridade — frases escritas priorizando a beleza de sua leitura em voz alta, poemas ritmados e rimados, parágrafos como cânticos. Sentir as sílabas requer sensibilidade profunda para que suas sonoridades tenham peso literário e este é um pilar do Morlirismo.
Hipersensibilidade emocional, sentimental e sensorial.
A hipersensibilidade é a razão pela qual o Morlirismo é “mor” e não apenas “lirismo”. O “mor” de “muito” mostra-nos que sentir não se basta na emoção ou no sentimento em si mesmo, é preciso ter no peito um amálgama de expressões emocionais, sentimentais e sensoriais — e este amálgama sempre se traduz em uma empatia lacrimal tão funda que o portador de tal sensibilidade verá até na matéria inanimada uma expressão válida de vida. Em outras palavras: chorar — pelo horror, pelo amor; pela angústia, pela vida. Por tudo o que é e não é. A sensibilidade mais enraizada sempre expressará sua verdade através das janelas d’alma.
Falo de um choro que emerge do coração, contraindo o peito, súbito, sem precisar passar pelo crivo da razão. Lágrimas tão somente porque há uma estrela no céu ou porque, no rompante, percebeu-se estar vivo. Morlirismo é lacrimal por essência. Mas, a hipersensibilidade também se traduz em caos: alardes, ruídos, palavras vazias, tumultos, texturas agressivas, sons assíncronos, quaisquer elementos que perturbam a beleza e o equilíbrio chegarão ao Morlirismo transfigurados, pois, àqueles hipersensíveis, isso é parte do verossímil terror — e aqui há apenas agonia, a lagrima morta na aflição.
Lapidação poética de palavras, frases e parágrafos.
Expressar hipersensibilidade requer palavras dignas em peso, significado e som. Lapidar a escrita é característica etérea do Morlirismo. Pois que escrever “nunca te esquecerei” jamais terá o peso de “mesmo eu morta, tendo a carne mastigada pelos vermes, ainda haverá teu afável perfume na memória de meus ossos”. Não é sobre prolixidade; palavras adicionadas tão somente pelo seu aspecto de significação obscura não possuem ligação com a hipersensibilidade.
O Morlirismo exige verdade sentimental, a escolha da construção frasal e das palavras deve ser guiada pelo sentir/intuir e não pelo ego — por isso escrevi “mesmo eu morta, tendo a carne mastigada pelos vermes, ainda haverá teu afável perfume na memória de meus ossos” e não escrevi “Ainda que o óbito reincida sobre minha constituição e a voracidade entrópica dos dípteros decomponha a estrutura material de minha compleição, subsistirá, impregnada na própria estrutura mineral de minha arquitetura óssea, a persistência espectral de teu obsequioso eflúvio”. Reafirmo que, o peso da palavra é inestimável, entretanto, é preciso que o sentir/intuir guie a construção literária, pois que uma palavra de peso pode tornar-se irrelevante quando tudo ao seu redor é igualmente pesado. Pode haver exceções? Certamente, um nível de complexidade de um texto sobe ou diminui a depender do seu objetivo. Mas exceções são meras exceções; no contexto geral, o Morlirismo presa pelo bom senso no uso de palavras complexas e construções frasais elaboradas — sempre vinculando-se à hipersensibilidade.
Descrições profundas e imersivas de cenários e estados psicológicos.
Dentro da lapidação, encontramos o aprofundamento de cenários e estados; no âmago, somos Morlíricos por causa da hipersensibilidade e ela precisa se expressar no aprofundamento e na lapidação — “mor” realmente não é singelo acaso. Quando, portanto, escrevemos detalhes minuciosos, levamos os leitores à totalidade do que transborda — levamos nós mesmos a esta imersão. Aqui adentramos o universo da literatura prática; o que um escritor Morlírico escreve? O que entorna da hipersensibilidade? Detalhes são cruciais, porque os enxergamos com nosso peito lacrimante e não apenas com nosso olhar.
Natureza em evidência: plantas, fases da lua, animais, oceanos, desertos, climas, estações, insetos, etc. O pilar da expressão da natureza no Morlirismo advém da sua grandiosa forma; somos nascidos dela e graças a ela respiramos; de certa forma, o Morlírico venera tudo o que é capaz de dar a vida, de fazer existir, pois somente na existência é que se poder hipersentir.
Onirismo: sonhos, símbolos, acontecimentos fantásticos, vivências surreais. Em busca de sentir — sempre e cada vez mais — o escritor Morlírico explora o universo dos sonhos. A simbologia, o oculto, as estrelas inalcançáveis; é preciso estar vivo e vincular-se arterialmente em todos os aspectos mais misteriosos da vida.
Existencialismo: reflexões morais, questões da complexidade humana, fenomenologia do sentido. Pensar não se distancia do sentir; a racionalidade colocada em pauta, seja na reflexão filosófica ou tão somente na compreensão mental sobre algo que se desvela, é pilar do Morlirismo. Vivenciamos em completude o que é ser humano e ter humanidade; a nossa hipersensibilidade nos guia ao questionamento perpétuo, pois capturamos a estrutura da existência como algo complexo demais para que tenhamos opiniões eternas e conclusões estruturadas. Por isso temos sede insaciável pelo conhecimento e o saber; não nos adaptamos a um mundo raso.
Entrecruzamento da beleza, felicidade, amor, encanto e prazer com terrores, tormentos, deteriorações e decadências. Como supracitei, a hipersensibilidade é base Morlírica; é o que significa o “lirismo” — por esta razão, trazemos os horrores e os fascínios dela na escrita. Transformamos o que nos fere em bestas mórbidas e o que nos afaga em flores num jardim. Por vezes as bestas horrendas possuem flores belas em seus poros, pois aquilo que machuca, às vezes, precisa de ressignificação — ou ainda, nem tudo o que assusta é de todo feio. Deste modo, o Morlirismo caminha no entrecruzamento de forças dicotômicas e assim se inspira, evidenciando que hipersentir é bênção e maldição.
Se você se identifica com o Morlirismo, receba minha bênção. Quero dizer: se veja, a partir de agora, como Morlírico. Abrace os significados que compõem essa literatura. Agarre-se no Morlirismo, vivencie-o e seja livre para sentir a totalidade do que já tanto transborda em você. Não permita que o mundo contemporâneo tire sua profundez, tampouco que torne rasas as suas sensações e percepções ou, ainda, que atrofie sua capacidade de sentir dando-lhe constantes estímulos vagos e viciantes. O Morlirismo é movimento contrário da rapidez, da superficialidade e da simplificação. Morlirismo é sobre dedicação imersiva, lapidação minuciosa, sentimentos infindos, emoções inestimáveis e assimilação da realidade através da poética sensitiva e do pensamento profundo.
Que seja, pois, um movimento além da literatura. Que seja algo valioso o suficiente para ensinar de geração a geração. É isso que posso deixar para a humanidade durante minha estadia na vida: o Morlirismo — e que ele perdure, servindo de inspiração e sentido.
Aurollie está morta. Seu corpo esguio e pele seca, com rachaduras infindas que desvelam seu esqueleto putrefato; assim está, sob a luz d’uma noite…