Láparos
Ela se levantou, estendeu sua mão direita em minha direção. Seus lábios exibiam um sorriso acolhedor, mas que escondia algo. Por fim, acatei seu convite…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Ela se levantou, estendeu sua mão direita em minha direção. Seus lábios exibiam um sorriso acolhedor, mas que escondia algo. Por fim, acatei seu convite, pois ansiava sanar minhas dúvidas. Iniciamos uma silenciosa caminhada. Cautelosa, segui ao seu lado, fascinada e amedrontada com aquele lugar. Sentia uma certa claustrofobia, mesmo o lugar sendo amplo.
Hipnotizada, observei os gases azulados presentes nos numerosos e delicados tubos de ensaio. O som ininterrupto das engrenagens era nauseante. Até mesmo o ar daquele lugar... O desconforto era nítido em meu corpo, mas disfarcei bem — pelo menos, eu acho. Evelyn... ela me intrigava. Em seus olhos havia uma certa malícia — talvez eu esteja errada, talvez seja apenas sua personalidade —, mas o fato de ela conseguir adaptar suas emoções à medida que conversávamos, como se entendesse meus pensamentos, me deixou preocupada.
Conforme andávamos, me explicou algumas coisas, como a intensa luz lá fora. Disse que se tratava de dois sóis, um raro fenômeno, uma falha temporal — mas que era temporária. Imediatamente, paralisei ao imaginar aquela luz impetuosa rasgando minha frágil existência. Evelyn viu o horror em meus olhos, mas escolheu não perguntar sobre o meu estado. Sobre as engrenagens, disse que não sabia nada a respeito. Porém, noto um sorriso brincalhão nascer em seus lábios. Em seguida, falou:
— Não se preocupe, Rose. Talvez nada disso seja real... talvez seja apenas o desconhecido brincando conosco.
Assenti. Em seguida, vi seus olhos esboçarem um estranho sorriso, mas ignorei. Então, avisto ao longe uma porta. Pergunto-lhe onde daria. Disse que ali geralmente era a saída — e afirmou uma verdade irrefutável: o castelo está em constante mudança.
Por fim, despediu-se e novamente disse para ter cuidado, pois nunca saberemos o que iremos encontrar. Mesmo tendo minhas desconfianças, gostei de sua companhia. Mas, ao olhar para trás, não a vejo mais. Alguns passos à frente, me deparo com uma porta deveras alta, que se esgueira horrivelmente sobre mim. Ela era abobadada — diria comum. Toco a maçaneta, sinto o corpo pulsar. Abro-a e, para minha surpresa, estou no magnífico salão principal. Sinto-me ínfima neste lugar.
Inexplicavelmente, o som terrífico das engrenagens sumira. Respirei aliviada. Porém, o castelo estava diferente. Fui abraçada por muitos cheiros. Dentre eles, identifico algumas notas adocicadas de maçã. Não era só isso: percebo também uma fragrância floral bastante sutil, mas marcante. Observei o queimar das muitas velas dispostas em cada parede. Isto me trouxe uma sensação de acolhimento. Porém, o odor ferruginoso permanecia ali, flutuando sobre o ar, tal qual um espectro.
Não lembro a última vez que andei por aqui. Porém, vejo que alguma entidade cósmica jogou os dados do destino — e aqui estou. Parece que um belíssimo jantar será servido. A enorme mesa de jantar está decorada com impecáveis pratos de porcelana branca com a borda em dourado. Para acompanhar, talheres igualmente dourados. Em volta de cada prato, havia galhos secos vermelho-acinzentado, formando uma guirlanda.
Há também um encantador caminho de mesa confeccionado em linho, num tom verde-claro. Acima dele, exuberantes flores ocupam toda a extensão da mesa. Elas possuíam um formato peculiar: suas pétalas se fechavam tal qual um ovo, a ponto de ficar imperceptível a união de cada uma. Suas cores eram vivas e brilhantes — algumas alvas como a neve, outras traziam um tom escarlate. Elas pareciam guardar segredos de antigas eras. Estavam também espalhadas por todo o hall.
Enquanto admirava a enigmática decoração, vislumbro o mover de uma sombra trêmula, descendo lentamente os infinitos degraus da colossal escada. Tratava-se de uma criatura com vestes que remetiam a alguma antiga e sigilosa cerimônia. A túnica negra parecia flutuar conforme caminhava. Ostentava uma horripilante máscara pálida e sorridente de um coelho, com orelhas delgadas. No lugar dos olhos, um vazio abissal. Trazia uma carta escarlate. De maneira cortês, se aproximou e me entregou uma carta. Elevo-a à altura do nariz, e sinto o mesmo aroma de maçã adocicada. Fiquei tão enfeitiçada com tudo aquilo que mal vi a criatura se esvair.
Finalmente, leio. Trata-se de um convite para participar de uma festividade chamada Aesttera. Na carta, explicava-se o significado da celebração. Tudo fascinante. Porém, para mim, não há renovação de ciclos, nem moldar sentidos para uma nova existência — muito menos recomeçar. Mas estou intrigada com o tal Baile de Láparos. Houve menção de que haveria trajes para o baile em meus aposentos.
Dirijo-me rapidamente ao meu quarto. Abro a porta devagar, pois aqui foi palco de fenômenos inexplicáveis. Fiquei mais tranquila ao ver tudo em seu devido lugar. Em minha cama, encontram-se meus trajes: consistiam em uma máscara de coelho e um longo vestido vitoriano preto de cetim, com detalhes de renda no colo e nas mangas. Fiquei encantada com o vestido. Lavei-me e troquei de roupa. Controlei meus rebeldes cachos, coloquei minha máscara e segui em direção ao salão principal.
Apreensiva, tenho um vislumbre magnífico: a celebração havia começado. Todos estavam rigorosamente bem trajados — estavam belíssimos. Os homens, todos elegantes, exibiam seus fraques; e as mulheres, com seus vestidos exuberantes. O salão estava cheio. Confesso que, às vezes, esqueço dos demais inquilinos. Através da máscara, vejo a inquietação de alguns; em outros, permeavam dúvidas e medo; já outros são uma verdadeira incógnita.
Vejo alguém se aproximando — era um garçom, equilibrando taças numa bandeja dourada. Falei educadamente que não queria, porém ele explicou que era um licor das raras maçãs sangrentas. Disse que, devido à maturação das maçãs, um líquido começa a escorrer do fruto, resultando em um espesso licor rubro. Fui persuadida por ele e acabei aceitando.
Em mãos, balancei a bebida, que exalava um aroma doce e tentador. Elevei-a aos lábios. Ao provar, fui tomada por uma excitação. Meu estado alterado foi perceptível. Não era possível... isso seria...? Olhei ao redor. Senti uma sensação estranha de estar sendo observada. Respirei fundo. A taça tremia em minhas mãos. Andei até a rosácea para tentar me distrair. Estava uma linda noite. Elevei meus olhos e vi a luz pálida da lua atravessar a rosácea, resultando em um espetáculo único.
Permaneci ali, assistindo o tênue luar rasgar a escuridão, como se ainda houvesse uma luz no fim do túnel (não para mim, certamente). Tomada por uma desesperança, sorvo mais do doce licor. Porém, algo rouba minha atenção: um pisar firme, longínquo, ecoa pelo salão, acompanhado de um leve caminhar de saltos altos. Também escuto passos apressados. Ao virar, vejo um círculo se formando. Aproximo-me devagar — e então é anunciada uma atração que fazia parte das festividades.
Era uma atração circense: uma arlequina, domadora de Láparos. Ela apresentou truques que desafiavam a lógica — diria, realistas demais. O momento que me causou náuseas foi quando ela tirou cabeças de coelhos da cartola e fez malabarismo com elas. Era possível ouvir, de cada um presente, gritos abafados de horror. Encerrou a apresentação apoiando a cartola na cabeça, arrancando aplausos efusivos.
Não sei se foi efeito do licor ou do truque — contemplei algo perturbador. Da cartola escorria um espesso líquido escarlate, serpenteando por seu rosto maquiado. Tive a nítida impressão de que ela olhava diretamente para mim. Sorrindo, ela se despediu.
Todos ficaram espantados, inclusive eu. O círculo se desfez, e então iniciou-se o baile. Os primeiros acordes da Sétima Sinfonia de Beethoven retumbavam por todo o castelo. A dança começou tímida, mas logo se tornou lascívia. "Preciso de mais uma taça", pensei, observando o baile. Parece que o castelo me ouviu: um dos garçons se aproxima. Devolvo a taça vazia e pego a cheia. Antes de sair, ele disse para não exagerar no licor, pois pode causar alucinações.
Desta vez, senti o gosto adocicado com notas ferruginosas. Meu corpo tremia. O sabor era demasiadamente semelhante. Sorvi aquele néctar de uma vez. Enquanto isso, assisto à dança se tornar frenética, fazendo com que as máscaras adquirissem um aspecto macabro — com aumento das orelhas e a presença de dentes pontiagudos.
Não deveria ter feito isso. Será mesmo sangue?
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Ritual do Vinho
Minerva dormia pairando no reino do inconsciente, ela se via imersa em um sonho inusitado, um devaneio que parecia adentrar a alma…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Minerva dormia pairando no reino do inconsciente, ela se via imersa em um sonho inusitado, um devaneio que parecia adentrar a alma. Sob a cama seu corpo flutuava acima dos lençóis e sua mente a levava até um descampado no centro de frondosas macieiras, por entre estas árvores brotavam as flores Ovaeren que começavam a se abrir, as pétalas escuras de algumas e alvas de outras se desdobrando à meia-noite como se obedecessem a um comando inaudível. O aroma doce e letal incendiava o ar, impregnando cada partícula da atmosfera com um torpor.
No centro do descampado, dançarinos giravam em círculos, cobertos por mantos esvoaçantes em uma dança ritualística. A dança era precisa, como se executasse um ato profético há muito escrito. Seus movimentos não pertenciam à alegria, mas à servidão de algo maior, de algo que Minerva sentia no fundo de seu ser, algo que chamava por ela naquela noite.
Em sua visão, ela caminhava em meio aquelas pessoas e seus olhos enxergavam pelo formato amendoado de uma máscara que cobria seu rosto. Os cabelos longos e negros estavam soltos e seu corpo de pele pálida estava livre de qualquer veste. Ela sentia os pés descalços tocarem as folhas outonais espalhadas pelo chão, tocou o próprio rosto sentindo a textura da máscara de porcelana que erguia em sua cabeça orelhas de láparos. Ao tentar removê-la, ela não conseguiu e percebeu que sua respiração ofegava por dentro dela. Uma fogueira estava acesa e o fogo crepitava vermelho quase incessante.
Aos poucos, conseguia sentir o ambiente ao redor e, sem conseguir pronunciar nenhuma palavra, observou os dançarinos, que entoavam cânticos em uma língua diferente, lançarem palavras que ela desconhecia. Ao seu redor, eles faziam uma ciranda letárgica e macabra. Um arrepio gélido tocou seu corpo, fazendo com que ela abraçasse a si mesma lentamente, passou as mãos frias pelos braços, apertando-os como se tentasse se proteger, sentindo o toque de sua pele estremecer a cada sibilar do vento e as vozes em coro, agressivas e agudas.
Ela tentava cobrir os seios expostos, envolvendo-se em um abraço trêmulo, enquanto seu coração tamborilava em seu peito. O festejo continuava, mas algo na dança parecia estranho, pois, as sombras dos dançarinos se alongavam, movendo-se com vontade própria, como espectros desprendidos de seus corpos. O cântico crescia, ecoando na noite como um feitiço que ganhava força.
Então, uma mulher se desprendeu da roda, erguendo os braços em um gesto ensaiado. Em uma das mãos, segurava uma taça de vinho, que ergueu lentamente antes de estendê-la a Minerva, os olhos faiscando sob a luz vacilante das chamas.
A dança ritualística parou e todos a observavam, Minerva entendeu que deveria aceitar a bebida que foi oferecida. Ao pegar o cálice, suas mãos encostaram nas mãos da outra e elas se entreolharam como se invadissem suas próprias almas com o olhar. Minerva conseguiu erguer a máscara para removê-la apenas naquele momento e levou a bebida aos lábios, ela sentiu o vinho fumegar ao descer pela garganta e sua pele aquiescer, libertando-a de seus pensamentos.
Ela ofereceu a bebida à outra mulher, que jogou o cálice no chão sem hesitação, os olhos ardendo em intenções. Com passos lentos, a estranha se aproximou, envolvendo Minerva em um abraço firme, quente como um feitiço recém-lançado. Seus rostos ficaram a um sopro de distância antes que os lábios se encontrassem em um beijo agridoce, onde suas línguas dançavam em um ritmo lento, carregado de desejo. Ao redor, os dançarinos permaneceram imóveis, testemunhas silenciosas da volúpia.
Minerva aos poucos permitiu que seu corpo se inflamasse pelo desejo. As carícias eram rituais silenciosos, percorriam suas costas e roçavam seus seios em um toque que oscilava entre devoção e pecado. Os lábios da mulher traçaram um caminho febril por seu pescoço, degustando sua pele como se absorvesse sua essência. Um gemido velado escapou de Minerva quando os dedos ágeis desceram, desenhando promessas sobre sua carne.
Ela se deixou conduzir, deitando-se sobre as folhas secas enquanto sua máscara caía, esquecida no chão e quebrada pelo impacto. O tempo se dissolvia entre beijos e toques embriagantes, até que, possuída pelo êxtase, Minerva arquejou, sentindo seu corpo pulsar em calor profano. Seu suor tinha um perfume adocicado, misturando-se ao aroma de fumaça e fogo que envolvia o ritual, como se a própria noite estivesse naturalmente inebriada.
Ela procurou a outra mulher com o olhar, mas ela havia desaparecido. Os dançarinos agora pareciam estátuas, imóveis, enquanto apenas as sombras se agitavam, dançando ao ritmo da crepitação da fogueira. Um novo calafrio percorreu seu corpo, fazendo-a estremecer sobre as folhas secas, ainda tomada pelo torpor. Então, de súbito, figuras encapuzadas emergiram da penumbra. Elas deslizaram entre ela e os dançarinos, seus mantos negros e carmesins ondulando como espectros vivos sob a iluminação trêmula.
No rosto, também carregavam máscaras de coelhos com cabeças alongadas, olhos vazios e escuros como poços profundos. Caminhavam em silêncio, organizados, seus passos ecoando de maneira ritmada. Entre as dobras dos mantos, carregavam objetos cuja natureza Minerva não conseguia discernir, mas cuja aura a fazia estremecer.
Ela tinha participado de um ritual macabro? Um sussurro rastejou em sua mente, indistinto, mas carregado de um chamado irresistível. Algo obscuro pulsava no coração, e talvez, apenas talvez, aquele sonho lúcido não fosse apenas um sonho e ela estivesse consciente de fato.
Minerva sentiu um frio estranho percorrer sua espinha quando, entre as figuras encapuzadas, um rosto conhecido emergiu. O pálido reflexo da lua escorria sobre as feições delicadas de sua mãe, Nuara, que exibia a face rígida, os olhos inexpressivos, quase vazios, mas indiscutivelmente os mesmos que um dia a acolheram. No entanto, era como se ela não pudesse ver a filha ali, como se aqueles caminhantes estivessem em outra dimensão e seus espectros passeassem entre os mundos.
Seu coração disparou e um chamado preso na garganta, sufocado pelo torpor da visão e ainda inerte pelos últimos momentos, fez com que ela se levantasse cambaleante. Sem pensar, ela correu até as figuras tentando alcançar o rosto da mãe. Os pés dela afundavam nas folhas secas, mas por mais que acelerasse, as figuras se afastavam como luzes fugidias se apagando. O manto da mãe cintilou uma última vez antes de se dissipar entre os outros mantos.
Seu coração foi tomado pela angústia que a envolveu como um abraço gélido. O tempo pesou sobre ela, implacável. Quanto tempo fazia desde a última vez que ouvira a voz da mãe? Quando foi a última vez que procurara saber onde estava sua mãe? O castelo a consumira de tal forma que o mundo além de suas paredes se tornou esquecimento.
E agora, no limiar entre o real e o irreal, Minerva sentia que algo estava terrivelmente errado. Ela caminhava pela floresta envolta em um silêncio que era quebrado apenas pelo sibilar do vento. Os galhos secos, em um vermelho-acinzentado e profundo, estendiam-se como ornamentos retorcidos contra o céu negro, formando um túnel de sombras e espectros que exibiam maçãs vermelhas e que sangravam um néctar viscoso. O ar era denso, carregado de umidade. Então, entre o chão das árvores, corpos de coelhos decepados e inertes juncavam o caminho e, por ali, ela passava desejando acordar.
A respiração dela se tornou ofegante ao ver humanoides erguidos sobre patas alongadas, observando-a. Seria aquela visão um delírio causado pelo vinho? Lágrimas escuras verteram dos olhos da bruxa, ela sentia em seu íntimo que aquilo era algo além de sua magia e o desespero tomou conta dela enquanto tomava partida do sonho lúcido, ela sabia que precisava acordar e retornar para si mesma.
Fechando os olhos ela respirou profundamente por três vezes, acalmando seus pensamentos e buscando a saída, então, Minerva acordou com um sobressalto. O peito subindo e descendo de forma descompassada, o corpo despencou do ar sob os lençóis fazendo-a arquejar de leve. O quarto estava mergulhado em sombras, e seus olhos ardiam, as escleras vermelhas pulsavam sangue. Ela sentia o gosto acre da inquietação na boca, como se a própria essência daquele pesadelo houvesse se impregnado nela.
A bruxa ergueu-se da cama, os pés descalços tocando o chão frio. O castelo parecia respirar em seu silêncio profundo, os corredores escuros se estendendo como veias. Minerva saiu, os passos ecoando suaves, mas carregados de pressentimento. Foi então que ela parou e ali, no meio do corredor, viu um coelho.
Os pelos eram negros como a noite sem lua, e os olhos, os olhos eram rubros, ardendo em uma luz maldita, refletindo o brilho de um chamado sobrenatural brilhantes como rubis ao sol. Ele não se movia, apenas a observava, imóvel, como se a esperasse. Minerva apertou os punhos, sentindo um arrepio lhe percorrer a espinha petrificada, estava claro que aquilo não tinha sido um sonho.
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Laparus
No sangue e no doce, renasce o profeta, | um coelho vingador, ceifador do planeta. | Laparus, um outrora humano exilado pela ganância e hipocrisia dos homens…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
No sangue e no doce, renasce o profeta,
um coelho vingador, ceifador do planeta.
Laparus, um outrora humano exilado pela ganância e hipocrisia dos homens, fora amaldiçoado por um ritual secreto realizado por padres corrompidos pela luxúria e poder.
A máscara, feita de carvalho banhado com sangue de inocentes,
selava sua humanidade.
Com a alma aprisionada no corpo de um coelho,
ele descobre que a única forma de quebrar sua maldição é destruir os daemons
Gerados pela podridão dos clérigos que selaram seu destino.
No centro desta cena de terror cósmico,
Laparus encontra pistas de sua maldição:
Cada daemon derrotado carrega fragmentos de um pergaminho celestial que, quando completo, revelará o segredo do ovo cósmico e o verdadeiro motivo de sua criação.
Os daemons, outrora humanos, foram deformados por rituais proibidos realizados por clérigos pútridos que, ao invés de servir à luz, se banharam nas trevas da ganância e do pecado.
Com um golpe, o bispo ao chão sucumbe,
mil línguas calam-se, o vil sangue jorrando em rumble.
Neste enfrentamento, o Bispo das Mil Línguas, um daemon grotesco criado a partir da avareza e da hipocrisia de um alto clérigo, é derrotado em um combate que mistura horror e ironia sombria. Cada golpe de Laparus rasga as línguas do monstro, liberando uma cacofonia de vozes ancestrais que falam de um pacto esquecido entre a igreja e uma entidade cósmica.
Laparus encontra, entre os destroços do vilarejo, um pedaço do pergaminho que brilha em luz prateada. Ele descobre um nome esquecido: Zorya Polunochnaya, a guardiã da meia-noite, que pode possuir as respostas para o ovo cósmico.
A guardiã do limiar entre a luz e as trevas, revela que o ovo cósmico é um artefato criado por uma força primordial, muito anterior à igreja e suas corrupções. Ele contém a essência do renascimento e da destruição, e os daemons que Laparus caça não são apenas monstros, mas fragmentos de um todo maior — ecos de uma divindade esquecida, mutilada pela ganância humana.
A deusa entrega ao coelho um mapa celeste que leva ao próximo ponto da jornada: uma caverna subterrânea onde um daemon guardião, Azgalor, o Devorador de Almas, reside, protegendo o núcleo do ovo. Lá, Laparus enfrentará a verdadeira extensão de sua maldição e os desejos traiçoeiros da máscara.
A Celebração dos Láparos toma lugar como um espetáculo dual — vibrante e melancólico — onde a vitalidade das danças e o mistério das máscaras escondem os temores profundos de um povo que luta contra a estagnação.
A bebida principal, o vinho da Maçã Sangrenta, é uma metáfora do ciclo de vida e morte, enquanto as flores Ovaeren, colhidas pelas crianças, reforçam a noção de esperança e fragilidade.
Elyni d’Ann, com seu vínculo inquebrantável com os láparos, observa a festividade de longe, séria e introspectiva.
Para ela, o Outono sempre foi uma época de tensão.
Muitos dos coelhos que protege são caçados ou sacrificados em rituais secretos durante Aesttera.
Ela sabe que, sob o manto da celebração, há também dor e sombras.
Ainda assim, o simbolismo da resistência a inspira, pois mesmo na mais árida estação, há flores que desabrocham.
Enquanto Elyni e Laparus caminham entre os encapuzados, ela percebe que a dança-ritual não é apenas um símbolo de resistência, mas um mecanismo ancestral que sela um portal. Sob o centro da festividade, o chão começa a rachar, revelando uma fenda vermelha e pulsante, um limiar entre mundos.
As máscaras de láparos usadas pelos dançarinos vibram com uma energia sinistra, e Elyni entende que elas não são meros artefatos culturais. São instrumentos ligados à maldição de Laparus, símbolos de um pacto antigo feito para conter os horrores aprisionados no Ovo Cósmico. O vinho da Maçã Sangrenta e o néctar de Ovaeren são parte de um feitiço contínuo para evitar que a fenda se abra completamente.
Os dançarinos começam a cair em êxtase ou convulsões, como se algo estivesse roubando suas energias vitais. Elyni agarra o amuleto de pedra lunar que carrega, tentando conter a energia que emana do portal. Mas Laparus sente algo mais — a máscara em seu rosto começa a se aquecer, a voz de uma entidade antiga sussurra através dela, incitando-o a agir.
O portal se abre parcialmente, e figuras monstruosas começam a emergir. Elyni deve decidir se confia em Laparus, mesmo com a máscara parecendo controlá-lo, ou se tenta fechar o portal sozinha, arriscando sua vida. O destino dos láparos e da terra depende dessa escolha.
Elyni percebe que os participantes, tomados pelo êxtase, estão oferecendo mais do que emoções. Sob a superfície do ritual, há uma transferência energética que alimenta o portal e as entidades aprisionadas. Talvez, ao investigar mais profundamente, ela descubra que o Ovo Cósmico, ao contrário do que Laparus acredita, nunca foi uma prisão... mas um casulo de nascimento.
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Espectro de Alonso
Sem Data — Já não sabia se era noite ou dia. As trevas da cela ocultavam até o tempo de minha mente. O ar da cela era denso, imóvel, como se…
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Anton S. Miahi XXI
(Escrito em meu Caderno — póstumo)
Sem Data — Já não sabia se era noite ou dia. As trevas da cela ocultavam até o tempo de minha mente. O ar da cela era denso, imóvel, como se aguardasse o próximo sopro de minha respiração. Um peso alojava-se em meu peito, esmagando-me como se mãos invisíveis ali repousassem, exigindo confissão. Fora o sonho, suponho. Mas qual sonho? Fragmentos de imagens difusas escapavam-me, deixando somente uma sensação de desassossego abissal.
E então, uma voz.
Familiar. Fria. Dolorosa.
— Anton…
Meus olhos varreram o breu da cela, encontrando apenas a familiaridade das paredes úmidas e da estreita fresta por onde a lua se recusava a penetrar. A cela, anexada ao laboratório de Arturo, não permitia acesso à parte externa. Mas a voz continuava, entrecortada pelo vento ausente, sussurrando aquilo que eu temia ouvir. O tempo se dobrou sobre si, e voltei àquela noite — a noite de sua morte. O sangue sobre as pedras, o olhar esmaecido, o último suspiro arrancado pelo inevitável. Ele havia perecido nos meus braços, Alonso. Eu não o havia abandonado.
— Você me deixou…
Meu peito apertou-se. Não! Ambos havíamos sido convocados para a Guerra Franco-prussiana. Havíamos marchado juntos. Eu o segurei quando caiu. Vi o brilho esvaecer de seus olhos enquanto o sangue encharcava o chão. Mas ali estava ele, sua forma translúcida oscilando diante de mim, angustiado, desesperado, tão surpreso quanto eu de vê-lo ali.
— Alonso... isto não é possível.
Ele cambaleou para trás, os olhos arregalados, tremendo. Sua voz era um sussurro trêmulo, quebrado pela incredulidade.
— Mas então... eu estou morto?
Meu braço esquerdo doía. A reconstrução metálica rangeu quando movi os dedos, os tubos transportando fluidos de éter sobrenatural pulsando sob a estrutura engenhosa de engrenagens. Arturo, o engenheiro de outro mundo e tempo, dera-me essa dádiva amaldiçoada.
— Sim. Você morreu nos meus braços.
Alonso fechou os olhos, os lábios trêmulos. Então, sua expressão se alterou, determinada, feroz.
— Você tem que sair daqui, Anton.
— A cela está trancada. Arturo selou a fechadura com Éter.
Alonso hesitou, olhando ao redor. Pela primeira vez, parecia perceber o ambiente à sua volta. Do lado de fora da cela, o laboratório se estendia — frascos com líquidos brilhantes repousavam sobre prateleiras, grandes toneis de cobre estavam alinhados junto às paredes, enquanto canos de bronze percorriam o teto e o chão. Mesas de metal sustentavam equipamentos enigmáticos, papéis espalhados, registros incompreensíveis. Próxima dali, a mesa onde eu havia sido modificado cintilava sob a luz pálida de lâmpadas elétricas de um tempo que sequer deveria existir.
Alonso atravessou a porta, saindo da cela. Estava do lado de fora, me olhando com hesitação. Virou-se para a fechadura. Quando sua mão tocou o metal selado com Éter, uma descarga de energia o atravessou, fazendo-o gritar em agonia. Ele recuou, respirando ofegante, seus dedos trêmulos e espectrais se contorcendo.
— Alonso! — Meu instinto dominou minha razão. Avancei, esquecendo-me do óbvio. Minha mão estendeu-se em direção a ele, buscando segurá-lo, mas assim que o toquei, um choque me atravessou, violento, dilacerante. Cambaleei para trás, uma dor cortante percorrendo meu corpo. — Maldição! — soltei um gemido de dor.
Alonso me fitou, os olhos arregalados, sua expressão um misto de horror e culpa.
— Não! Você não pode me tocar! Eu... eu sou... — Sua voz fraquejou, e ele desviou o olhar. — Sou algo que não deveria estar aqui.
— Eu não me importo! — Bradei, ainda sentindo o formigamento do choque percorrendo minha pele. — Você está sofrendo, Alonso! Eu não posso somente assistir!
— Alonso... como você chegou aqui?
Ele parou, as costas rígidas, como se a pergunta o atingisse como um golpe. Lentamente, virou-se para mim. Seu olhar estava perdido, como se buscasse memórias em um véu nebuloso.
— Eu... eu não sei — sussurrou. — Eu me lembro do campo de batalha, do frio, da dor. Lembro do meu sangue escoando pelos meus dedos, do seu rosto, Anton... da sua voz me chamando. E depois... escuridão. Um vazio que me engoliu por inteiro. Eu não sonhei, não senti o tempo passar. Apenas... estava.
Um calafrio percorreu minha espinha.
— E então, de repente, você apareceu aqui?
Ele hesitou, a expressão se contraindo em angústia.
— Não... antes disso, eu ouvi algo. Uma voz. Não era sua. Era algo mais... algo que sussurrava dentro da minha mente, palavras que não compreendia. Foi como se eu fosse puxado para um turbilhão, forçado a atravessar um limiar invisível... e então eu estava aqui. E vi você. — Ele engoliu em seco. — Anton, eu não deveria estar aqui. Algo me trouxe.
Minha respiração pesou. O que quer que tivesse violado as leis da natureza para arrastar Alonso de volta, não o fizera sem propósito.
— Eu já morri uma vez, irmão. Isto não pode ser pior do que aquilo. — Ele respirou fundo, trêmulo, e forçou um sorriso frágil.
Antes que pudesse responder, Alonso se virou novamente para a fechadura, determinado.
Na segunda tentativa, uma nova onda de dor o atravessou, mas algo mais aconteceu. As luzes do laboratório piscaram e oscilaram, faíscas tremulando em suas lâmpadas alimentadas pelo Éter. O fluido nos tubos borbulhava, vibrando, como se o próprio laboratório reagisse à profanação de sua segurança. Alonso cerrou os dentes, seus olhos agora brilhando em desespero e determinação. Com um último esforço, sua mão se fundiu à fechadura, e esta começou a brilhar intensamente até derreter, pingando como cera fervente sobre o chão de pedra.
A porta estava aberta.
Alonso caiu de joelhos, arquejando, as mãos sobre o peito. Quando ergueu o olhar para mim, sua expressão era de súplica.
— Anton... algo... algo está errado. Ajude-me—
O ar do laboratório vibrou. Uma presença emergiu das sombras. A princípio, tinha quatro patas, movia-se como um lobo sem peso, mas logo ergueu-se sobre duas, seu corpo intangível oscilando como vapor. Sua face era um vazio sorridente. Moveu-se em direção a Alonso e, com um gesto lânguido, agarrou-o pelo colarinho. Alonso gritou, os olhos dilatados em pavor.
A criatura virou-se para mim e sorriu.
Então, sem som, sem violência, Alonso e a entidade se desfizeram em uma névoa suave, dissipando-se na escuridão.
Eu estava livre. Mas a liberdade não era o fim, e sim o início. Caminhos se estendiam diante de mim, sombras ocultavam verdades ainda não reveladas. O laboratório, o Castelo e seus moradores guardavam segredos que precisavam ser desenterrados. Eu precisava ir ao fundo de tudo aquilo.
Anton S. Miahi XXII
(Escrito em meu Caderno — póstumo)
Sem Data — Saí da minha cela após testemunhar o horror indescritível da captura de meu irmão—ou daquilo que um dia foi ele—por uma entidade saída das entranhas do inferno. Um espetáculo dantesco. O frio percorreu minha espinha como dedos cadavéricos. Mas não havia tempo para hesitar.
Caminhei rápido, ignorando o tremor involuntário em minhas mãos, e fui direto à mesa com a maior pilha de livros e papéis, na parede oposta à minha prisão. Algo ali continha as respostas que eu precisava. A adrenalina pulsava, e meus olhos famintos devoravam cada página, cada anotação. A escrita meticulosa daquele maldito diário me causava um nó na garganta. Sentia um peso lodoso no estômago, uma angústia viscosa que me abraçava. Mas continuei.
"21 de Janeiro de 1945 — Faz um pouco mais de um ano que já estou aqui neste castelo. O ambiente que o Conde me concedeu foi amplo e vazio à época. Agora que acomodei ferramentas, livros, tanques e outras coisas fundamentais, posso finalmente prosseguir. Isso me tomou uns quantos meses, mas agora tenho o que realmente preciso para perseguir minha ambição."
Meus dedos crispados viraram a página com violência.
"Os primeiros experimentos foram promissores. O Éter flui melhor do que o previsto, e a simbiose mecânica provou-se viável. O hospedeiro, no entanto, sempre perece antes de atingirmos um estado estável. Preciso de espécimes mais resistentes... e talvez menos... racionais."
Minha respiração falhou. Uma gota de suor frio escorreu por minha têmpora. Continuei, ainda que cada palavra me perfurasse como um punhal.
"Um deles, no entanto, surpreendeu-me. A morte não o reteve como os outros. Ele resistiu ao limiar. Movimentou-se. Falou. Confusão e medo tomaram seus olhos, mas algo permaneceu. Sua consciência? Sua alma? Não posso afirmar ainda, mas é um avanço. O Conde ficará satisfeito. Preciso testar mais."
Meu sangue congelou. O ar ao meu redor pareceu rarefeito. Meus olhos corriam loucamente pelas próximas linhas quando outro papel caiu ao chão, escapando de meus dedos trêmulos. Agachei-me para pegá-lo e, ao fazê-lo, senti meu peito se comprimir.
O texto rabiscado na folha era diferente. Escrito com pressa. Desespero. Um grito mudo preso em letras tortas:
"O número 12 me assombra. Ele aparece diante de mim como se ainda possuísse vontade própria. Ele sabe. Ele me encara da escuridão e sussurra meu nome. Eu o criei... mas falhei. Ele não partiu... ele não pode partir."
Mais abaixo, os traços estavam trêmulos, manchados de algo que parecia sangue seco:
"Ele me disse que seu nome era Alonso."
Meu corpo travou. O silêncio tornou-se um peso tangível, esmagador.
Um segundo papel deslizou da mesa. Uma fotografia.
Minhas mãos hesitaram antes de segurá-la. O choque me atingiu como uma lâmina em brasa.
— Não... não pode ser... — Sussurrei, sentindo minha garganta se fechar.
A imagem mostrava uma jovem. Seu rosto era pálido, os olhos fundos, exaustos. Mas eu a reconhecia. Céus... eu a conhecia. As palavras na página seguinte confirmaram o pior.
"18 de março de 1945 — Nestor me trouxe uma jovem. Seu estado era deplorável. Parece que a encontrou na floresta, na noite dos portais abissais. Uma ex-moradora do castelo. Ela balbuciava algo enquanto o mordomo vampírico do Conde a colocava na mesa. Dizia algo começando com 'nauä...' Não se podia entender bem. Então, perdeu a consciência. E eu comecei o experimento. Este foi o número trinta, depois daquele sucesso e fracasso do menino 'Alonso'."
A sala girou. As bordas da realidade se curvaram, como se algo estivesse prestes a me arrancar dali. Eu quis vomitar.
O horror explodiu dentro de mim. Ela esteve nessa mesa. Passou pelo mesmo que eu. Mas meu irmão... Ele sofreu algo ainda pior. As imagens do laboratório tomaram minha mente, as lâminas, os frascos, o cheiro metálico do sangue. O eco dos gritos dele ressoou em minha memória, e uma nova onda de pavor me tomou. O que diabos fizeram com ele?
Minhas mãos apertaram o diário, minha visão ficou turva.
"(...) Horas após terminar os experimentos com o número trinta, coloquei-a na cela do corredor. Não tenho esperanças de que resista por muito tempo, como os outros."
Minha consciência se agarrou a uma última fagulha de esperança.
A cela número cinco.
Corri pelo corredor, apertando o diário contra o peito como se ele fosse a última âncora de minha sanidade. O espaço ao meu redor parecia pulsar, os canos vibravam. O próprio castelo exalava um hálito podre.
Passei por celas escuras, vazias, até encontrar a que buscava. Meus olhos vasculharam o interior.
Um corpo coberto por um lençol branco.
O baque da realidade me atingiu como um golpe de rifle.
A raiva me tomou. A dor se alojou em meu peito, feroz, cruel. Ela era jovem. Tinha um futuro. E agora... era apenas mais um número em um experimento profano.
Minhas mãos tremiam ao abrir novamente o livro. A leitura foi uma punhalada final:
"Por infelicidade, o experimento trinta demonstrou descontrole e falta de lucidez. Seus ferimentos não estavam se recuperando como esperado."
Virei a página. Os últimos registros pareciam escritos por uma mão indiferente, sem resquício de humanidade.
"05 de abril de 1945 — O experimento trinta foi encontrado sem vida nesta manhã. Já havia alguns dias que não se levantava mais da cama. Parece que desistiu de lutar por sua própria vida."
As palavras se tornaram borrões. Um soluço me rasgou a garganta. Lágrimas quentes escorreram por meu rosto. Eu não conseguia impedir.
Estava neste castelo há meses, sofrendo infindáveis provações. Mas nada me preparou para isso.
O silêncio do corredor era opressor.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
20. Castelo Vampírico: Quem comer minha carne e beber do meu sangue tem a vida eterna
Saímos de onde Arturo estava. Aquele breve encontro com ele me deixou inquieta…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
09 de janeiro? — Saímos de onde Arturo estava. Aquele breve encontro com ele me deixou inquieta — acho que essa é a palavra. Ele estava no lugar que deveria estar, mas, ao mesmo tempo, não deveria estar ali. E todas aquelas peças, livros, aquele caos organizado das mentes que nunca param de pensar mexeram um pouco comigo, levando meus pensamentos para coisas além daqui. Algo que tirei de mim mesma antes de adentrar ao castelo.
Continuamos nosso caminho, na missão de encontrar Drácula. Mara chamou minha atenção dizendo que eu não deveria ficar de conversa com pessoas que não conhecia. Entendo que ela se preocupa com a própria vida, mas não sou tão distraída a ponto de precisar que alguém me lembre de tomar cuidado a todo momento — pelo menos eu acho que não.
Seguimos para fora do castelo, e não sei descrever de forma correta a sensação de estar ali, naquele lugar em que eu estava acostumada a ir toda vez que precisava da companhia da Ameritt. Não entendia o motivo de Mara querer procurar Drácula fora do castelo, mas apenas a seguia, pois ela parecia saber o que estava fazendo.
Andamos por entre aquele jardim diferente, seguimos pelo meio de um arvoredo, e então encontramos um monumento enferrujado. Era uma rocha oxidada que se erguia naquele meio, com uma abertura em seu centro. Parecia um convite para que entrássemos. Troquei um olhar com Mara, como uma permissão silenciosa do tipo “Posso entrar?”. Ela apenas disse:
— Espere aqui — e entrou na frente. Logo após, voltou e disse para que eu entrasse com cautela.
— Ué, entrando em locais desconhecidos? Não acha isso perigoso? — disse a ela, para implicar com seu excesso de cuidado comigo.
— Às vezes devemos seguir o caminho que o castelo nos orienta a seguir — disse ela, seca.
— E como você pode saber se o castelo não nos orientou a falar com Arturo? — perguntei.
— Eu não sei, mas vivi o bastante aqui para saber que as pessoas não são muito confiáveis quando estão sendo orientadas pelo castelo — ela disse, colocando um ponto final na conversa.
Entrei na fenda logo atrás dela, e o que vi estava fora da minha noção da realidade. Era como se eu atravessasse uma barreira invisível, estava deixando para trás algo que ainda me pertencia, mas que eu não reconhecia o que era. O ar estava cheio de uma fragrância diferente. Não era aquele odor característico dos jardins do castelo que eu estava acostumada. Havia um peso que parecia se manifestar em meu corpo como um cansaço físico, como se o espaço questionasse a minha permanência ali.
Olhei todo aquele jardim e fiquei impressionada com as flores mecânicas que brotavam do solo coberto de raízes metálicas. Havia um vapor suave sendo exalado por todas aquelas flores. O lugar estava saturado de um perfume que, para mim, é quase impossível de descrever em toda a sua totalidade. Era floral, era quente e metálico, como se, literalmente, uma flor de metal fosse aquecida até seu limite e exalasse de seus poros esse odor que parecia reagir à nossa presença.
Pelo canto dos olhos, captei algo à minha esquerda. Não sabia dizer o que era. Mara também havia visto, pois se afastou de mim alguns centímetros e foi em direção ao local. Eu a segui, e logo ela apertou o passo, ainda caminhando silenciosamente. Tentei manter minha respiração sob controle.
Segui Mara, sempre junta a ela, como eu havia prometido fazer. Mas o castelo não tem compromisso com juramentos.
Mara parou ao se deparar com um pequeno coelho com uma fita vermelha no pescoço — era o que estávamos seguindo.
— O que fazemos agora, pegamos o coelho? — sussurrei.
— Não. Vamos esperar ele continuar a andar e o seguimos — ela sussurrou de volta.
Ficamos paradas esperando, e nada do coelho sair. Ele ficou ali, nos encarando por um longo tempo. Fui dando pequenos passos em sua direção para ver se ele se afastava e continuava seu caminho, mas nada.
— Você acha que esse coelho pode nos levar até onde Drácula pode estar? — continuei falando baixo.
— Não tenho certeza. Apenas estou tentando seguir as orientações do castelo, já que meu plano não está conforme o planejado. Talvez essa fita vermelha no pescoço do coelho não seja por acaso — ela falou isso com muita seriedade.
— Isso pode ter sido feito por qualquer um no castelo. Pode ser só perda de tempo.
— Sei disso, mas não é como se tivéssemos muitas opções — ela disse.
Me abaixei até o coelho e coloquei devagar as mãos nele, que não se afastou em nenhum momento. Então, uma parede de galhos cheios de espinhos se ergueu num instante, me separando de Mara. Ouvi Mara gritar meu nome com uma voz firme e tensa.
— Rute, fique onde está, darei um jeito de te buscar.
Eu queria responder e dizer a ela que iria esperar, mas, antes que eu pudesse abrir a boca, os galhos ao redor de mim se contorceram, buscaram algo para se agarrar — e se agarraram em mim. O chão fugiu dos meus pés, e fui puxada, sem resistência, por um longo caminho.
Lutei em vão. Minhas unhas arranharam a madeira dura, meus joelhos e cotovelos foram esfolados. Fui arrastada pela floresta.
Fui deixada no meio do nada, num chão coberto de folhas secas, num local muito diferente do jardim em que eu estava antes. Estava muito além dele. As árvores altas formavam uma cúpula, com copas tão unidas que impediam o pouco de luz do dia que restava de entrar. A única iluminação vinha de lamparinas espalhadas ao redor, penduradas em algumas árvores.
Vi, então, figuras mascaradas caminhando silenciosamente, e me escondi atrás de uma grande árvore. Fiquei a observar enquanto passavam, se distanciando de onde eu estava.
Usavam mantos negros e carmesins. Suas máscaras de coelho escondiam seus rostos. As figuras caminhavam com passos ritmados, esmagando com os pés as folhas secas com um som abafado. Seguravam tigelas com coisas que eu não conseguia identificar, pequenos cestos de vime que pareciam conter pedaços de coisas que eu não conseguia ver — talvez flores, ossos ou algo pior?
Seguiam uma trilha entre as árvores, iluminada por pequenas lamparinas penduradas nos troncos ao longo do caminho. Eu senti que talvez estivesse vendo algo que não deveria ver. O castelo muda e se move — ele também nos muda e nos move. Esse fato já está mais que aceito por mim, e ele nos separar só confirma que tem alguma intenção própria. Quando ergueu entre nós uma parede com galhos cheios de espinhos, me deixando por conta própria, talvez fosse o jeito dele de me mostrar suas orientações. Forma terrível, essa. Então, decidi segui-los. Conforme eu ia andando atrás das figuras, a noite ia chegando, e o brilho das lamparinas parecia aumentar, deixando tudo com um aspecto tão reconfortante e um pouquinho assustador. Um vento fresco passava por entre os galhos. Havia umidade no ar, um cheiro que era uma mistura de terra mexida, velas queimando e um aroma doce e ferroso. Eu sabia que deveria voltar para o local onde Mara havia pedido para que eu esperasse, mas toda a minha razão se esvaiu diante do conforto daquela situação. Eu estava envolvida.
Eu ouvia murmúrios. Cânticos? O vento nas árvores, talvez? Ou só o roçar dos mantos pesados no tapete de folhas secas? Continuei seguindo os mascarados, a uma distância segura, tentando me manter escondida entre as árvores. Os segui até uma clareira. Lá havia uma grande mesa de madeira, com velas, taças, frutas, pratos. Havia aquele aroma doce e ferroso no ar, misturado ao cheiro quente dos corpos que começaram a se movimentar, como numa dança ritualística. Uma música começou.
Primeiro, o som veio dos pés arrastando levemente na terra. Depois, o som de um violino, tocado com uma lentidão fúnebre que foi, aos poucos, ficando mais rápida. Todos formaram um círculo, e as vozes se ergueram numa canção em uma língua que eu não entendia. Era um canto gutural que ondulava, palavras que pareciam mais uma tempestade do que um idioma em si. Uma dormência tomou conta de mim e, por um breve momento, quando a luz das velas tremulou, tive certeza de ver as sombras dos presentes dançarem sozinhas — fora do ritmo dos corpos que ali dançavam.
Meu coração batia forte — não por medo apenas, mas pelo fascínio que aquele grupo estranho despertava. Havia algo nos seus movimentos ritmados que me parecia tão belo... uma beleza distorcida que eu passara a apreciar aqui no castelo. Como se, aos poucos, ele revelasse para mim seu interior belo e delicado — e, ao mesmo tempo, vermelho e denso, como em carne viva. A dança cessou, e todos se afastaram, ficando de frente ao que parecia um palco improvisado.
Então, uma arlequim apareceu. Ela vestia um traje em tons de vinho e dourado. Seu rosto era branco pintado, e possuía um sorriso sem sorrir. Apareceu no centro do palco, chamando a atenção de todos. Ela estava conduzindo alguns coelhos — brancos, pretos e marrons — que saltavam ao seu comando, fazendo truques ao som de suas palmas.
Todos os presentes estavam vibrando com a apresentação, mas eu sentia, sem saber como, que havia algo estranho ali.
Cheia de floreios, fez uma pequena mesa aparecer à sua frente e depois uma coleção de pequenos coelhos, tão brancos quanto a maquiagem de seu rosto. Ela os fez saltar, dançar, desaparecer, reaparecer, e a plateia via tudo fascinada. Ela segurou com cuidado um daqueles pequenos coelhos e arrancou sua cabeça com os dentes, um filete de sangue escorreu de seu queixo branco, então ela repetiu o ato com outro; a plateia continuava animada. Logo, outro coelho foi erguido e outra cabeça foi arrancado e, logo depois, outro.
Os mascarados batiam palmas, vibravam, riam como se aquilo fosse um espetáculo inofensivo, como se tudo aquilo que a arlequim estivesse apresentando fosse apenas um truque muito bem ensaiado. Era um truque, não era? Eu quero muito acreditar que era, pois o estalo dos seus pescoços sendo arrancados ficou ecoando dentro da minha cabeça. A arlequim se inclinou sobre o coelho com a fita vermelha no pescoço, aquele que eu havia perseguido, segurou o coelho com as duas mãos, murmurou algo e num movimento rápido, arrancou a cabeça dele, o sangue jorrou, espesso e vermelho. Alguém na plateia riu. Ela riu como se estivesse embriagada, o som dos ossos do crânio do coelho se partindo enquanto ela mastigava era alto demais para ser real, meu estômago estava se revirando. Aquilo não era real, não podia ser real, não era, não é?
Minhas pernas tremiam. Eu queria recuar e voltar para o local onde Mara pediu para que eu esperasse. O aroma ferroso se intensificou e, dessa vez, estava levemente amadeirado. Um calafrio percorreu minha espinha. Havia alguém um pouco afastado do círculo, entre os galhos secos, apenas observando. A luz das velas parecia aumentar a sua sombra, que já era monstruosa: um corpo esguio. Naquela escuridão entre os galhos, suas formas eram incertas. Pelos grossos e escuros, um traje antigo, um manto longo e escuro que se arrastava no chão... Mas então ele deu alguns passos à frente e seu corpo foi iluminado — e eu vi, com horror, seu tórax e suas mãos que não eram cobertos de pele ou pelos, mas sim por ossos expostos. Um sorriso se abriu em sua face ao ver o horror no meu rosto.
Ele não era como os outros mascarados. Essa criatura — pois não consigo pensar nele como algo humano — tinha olhos vermelhos profundos, sem pupilas, e seu rosto era como o de um coelho, com pelos muito negros e um sorriso largo demais, afiado demais para um coelho real. Suas mãos, que estavam erguidas sobre o peito, eram de ossos, com garras afiadas e delicadas. Ele não olhava para a arlequim — ele olhava para mim. E a arlequim, percebendo que eu havia notado estar sendo observada, sorriu.
As vozes voltaram a cantar e a dançar com a aparição dele, alheias ao horror que me paralisava. Eu não conseguia seguir meu caminho para longe daquilo — e nem sei se eu queria sair dali, se pudesse. Eu pertencia àquele encontro ou era uma intrusa em um ritual que eu não entendia? Deveria participar daquilo? E, se eu não participasse, seria castigada por isso? Eram perguntas demais para um cérebro assustado e confuso. Eu quis muito correr, mas meus pés estavam presos naquele chão. Eu podia sentir que ele estava me esperando decidir. Mas, diante de tudo isso, algo em mim quis ficar ali e continuar assistindo àquela celebração. Eu sei que deveria estar com medo. Talvez, no fundo, eu estivesse. Mas o medo era deixado de lado diante da minha curiosidade, que prendia meus pés ao chão, me impedindo de ceder àquele medo e sair daquele lugar.
Ele caminhou até mim e, sem dizer uma única palavra, me estendeu aquela mão ossuda, com aqueles dedos sem carne para cobri-los — um sorriso muito aberto, direcionado a mim. Eu queria recuar. Mas, ao oferecer sua mão, meu corpo ficou tenso. E algo naquele olhar vermelho profundo me manteve no lugar. Havia algo de hipnótico naquilo. Eu sentia como se todas as gerações antes de mim — ou todas as vidas possíveis que eu pudesse estar vivendo, ou tivesse vivido — já tivessem pisado neste mesmo solo, assistido a este mesmo momento e também cedido a esta mesma hipnose.
Quando meus dedos tocaram os ossos daquela mão, um calor estranho percorreu todo o meu corpo, e fui levada sem resistência. O mundo girava ao meu redor. As figuras mascaradas voltaram a dançar como em transe. Pareciam desenhar com os pés padrões invisíveis naquele solo coberto de folhas secas. Ele me levou até a grande mesa. Sobre ela, velas, frutas, carnes de origem um tanto incerta, pães, taças com o que parecia ser vinho — tudo cheirando bem: umidade, especiarias, o cheiro de terra revolvida e, ainda, aquele cheiro doce e ferroso. Ele fez com que eu me sentasse na cabeceira da mesa e, depois, caminhou até a outra cabeceira. De frente para mim, levantou sua mão esquelética e fez um gesto rápido. Na hora, os dançarinos pararam suas danças febris, andaram até a mesa e, em ordem, cada um tomou seu lugar à mesa — máscaras de coelhos me encarando com suas cabeças inclinadas para o lado, esperando algo. Talvez o próximo comando dele. Olhei para cada rosto oculto pela máscara de coelho e parei meu olhar na arlequim, que fez questão de se sentar ao meu lado. Ela sorria e segurava um coelho que se debatia em seus braços e com um único movimento ela torceu seu pequeno pescoço e o som seco do estalo pareceu me despertar. Alguém — que não consegui identificar — riu baixinho; meu coração acelerou, mas consegui fazer minhas mãos permanecerem imóveis, sem tremer.
Todos aguardavam algo — e agora até eu estava aguardando, sem saber o que era e sem entender o motivo de eu estar fazendo parte daquilo. Então ele se levantou. Serviu cada um à mesa com um pedaço de carne, começando por mim. Depois de completar a volta, pegou um jarro e serviu cada um de nós com o que parecia vinho. Sentou-se e fez um gesto. Todos seguraram o pedaço de carne nas mãos e, depois que ele comeu, todos também comeram. A arlequim olhou para mim com um leve balançar de cabeça, como se estivesse me encorajando a comer.
Tive receio de ser a única a não comer e coloquei a carne na boca. O sabor das especiarias e um toque de chocolate amargo me ajudaram a mastigar aquela carne, que eu suspeitava vir do corpo descarnado da criatura sentada à minha frente. Assim que engoli, ele fez mais um gesto e levantou o cálice. À frente de cada um de nós havia um cálice. Peguei o meu e o levei até o nariz. O cheiro era quente. Era do cálice que vinha aquele odor doce e ferroso — mas também vinha dele. Algo dentro de mim me dizia para não beber. Talvez fosse a voz de Mara, entranhada em minha mente. A arlequim olhou para mim novamente, me encorajando a beber. Minha mente ficou perdida num nevoeiro de pensamentos e perdeu a resistência. Então, bebi.
Assim que aquele líquido quente desceu pela minha garganta, todos à mesa — menos ele — começaram a aplaudir. Todos pareciam estar em êxtase. Mas aquela alegria me deixava desconfortável. Eu me sentia leve demais, como se meu corpo estivesse perdendo as raízes que o prendiam à realidade. Então Mara surgiu. O alívio da sua presença foi imediato. Ela apareceu de repente ao meu lado e, sem hesitar, bateu no cálice que eu ainda segurava e agarrou meu pulso, me puxando da mesa. Tudo aconteceu rápido demais para que eu conseguisse processar.
A bebida se espalhou pelo chão, a cadeira caiu para trás, e então estávamos correndo. Ela estava me levando para longe dali. Eu olhei para trás uma única vez. A arlequim ainda estava sentada com os outros, acenando para mim com seu sorriso grande e imóvel. Ela também ainda estava sentada, assim como os outros — apenas me olhando. Corremos sem parar. A floresta parecia se fechar ao nosso redor. Quanto mais corríamos, mais escuro ficava, pois, para onde íamos, não havia mais a iluminação das lamparinas. Só paramos quando Mara me puxou para trás de um grande arbusto. Eu arfava, tentando recuperar o fôlego, mas meus pulmões ardiam. Mara se virou para mim — e pude sentir sua fúria.
— Que inferno, Rute! O que você estava pensando?
Minha mente rodava, o ar me faltava e eu tentava, inutilmente, lembrar com exatidão o que me levara àquilo, mas não consegui me explicar à Mara.
— Eu não sei — murmurei sentindo um arrepio subir às minhas costas — era como se eu tivesse perdido o controle por um momento.
Mara me encarou e seu olhar estava carregado de raiva, mas também havia medo nela. De onde estávamos, ainda conseguíamos ouvir a celebração, não havia terminado, e eu, dentro de mim, sabia que aquilo não era uma simples celebração. Eu não sabia explicar o que era, mas era algo mais, algo que eu havia feito parte e que não sabia se sairia ilesa. De repente, um click como se uma peça se encaixasse no meu cérebro e eu recordasse de uma sensação, um cheiro, algo familiar em um dos presentes à mesa.
— Mara! Drácula estava lá, ele estava naquela celebração. — Eu disse.
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite Gomes
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 7: Coelhinho... O que fazes de mim?
A escuridão daquela noite me envolvia tal qual um abraço mortal, expulsando qualquer vestígio de sono. Desci em busca de um alívio…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A escuridão daquela noite me envolvia tal qual um abraço mortal, expulsando qualquer vestígio de sono. Desci em busca de um alívio, algo que me concedesse descanso. Na penumbra da cozinha, encontrei Ameritt — com seu olhar indecifrável e mãos delicadas preparando um chá. Ofereceu-me uma dose. Aceitei a oferenda sem hesitar.
Mas, ao invés de conforto, cada gole parecia arrastar minha alma ainda mais fundo na tormenta. Sequer sei se era ela ou se pretendia causar mais sofrimento… só sei que aquele chá não trouxe paz alguma.
***
Me vi observando alguns moradores de uma terra longínqua, seres interessantes e carismáticos. Muitos possuíam uma sensibilidade e melancolia sutil, que lhes conferia um aspecto pueril e misterioso.
O fato é que não sei precisar se sonhei ou vivenciei aquelas cenas... Mas a essa altura da história, achas mesmo que isso seja relevante?
Eram criaturas vivazes, pareciam estar se preparando para alguma festividade. Depois confirmei minhas suspeitas: realmente estavam às vésperas de um festival importante para a Cultura deles chamado Aesttera.
Acompanhei em simultâneo o preparo do banquete e das vestimentas, como se estivesse fragmentada e pudesse estar onipresente em diversas cenas. O salão do banquete estava repleto de bandejas e copos com formatos peculiares, frutas secas dispostas em uma mesa vasta e havia jarras e jarras preenchidas com um líquido espesso da cor de um vinho bordô. As vestimentas eram semelhantes às roupas de época, como se eu tivesse sido transportado para algum momento importante do século XVII.
As crianças, risonhas e ávidas por aventuras, divertiam-se com um objeto oval. Depois, compreendi ser uma flor, cujas pétalas eram retiradas uma a uma por diferentes crianças, sempre passando para a próxima a cada retirada. Parecia uma roleta-russa com objetivo menos mórbido, mas igualmente estranho. Creio que o intuito era descobrir algo no interior dela, mas não pude compreender o quê. O que havia dentro daquela flor peculiar?
Foi quando o senti.
Deslizando sob aquela população excêntrica, percebi a presença de um coelho humanoide, de pelos negros e olhos de um vermelho neon intenso. Foi o único que me viu — não apenas olhou, mas viu. Seu olhar inquisidor parecia desnudar os recônditos da minha alma e, por um instante, me senti indefesa de novo, como se estivesse em um lugar inóspito, além daquele festival. Não ousei dirigir-lhe a palavra. Algo dentro de mim sussurrava que ele já sabia tudo sobre mim.
A névoa densa na mente obscureceu minha visão por um tempo, e quando recuperei o foco, ele estava mais perto. Muito mais perto. Seu sorriso, largo e imóvel, era mais do que uma expressão impassível — era uma fenda pictórica escancarada na própria realidade. Ele ria de mim? Seus dedos longos e rígidos tilintavam ao menor movimento, e só então percebi a horrível verdade: Seus membros eram feitos de ossos humanos, meticulosamente montados, encaixados e articulados como se tivessem sido esculpidos para ele. Seu tórax era uma jaula de costelas humanas, entrelaçadas como grades, e dentro dela algo pulsava, algo que não era dele. Algo vivo. Algo humano. Algo que me olhava de volta. Era eu.
Quis correr. Juro que tentei.
Mas, quando dei o primeiro passo para trás, ele sorriu ainda mais. E dessa vez, o sorriso não estava apenas no rosto.
Estava em todos os lugares.
Me invadindo.
Me modelando.
Descontruindo em
Fragmentos que não se pode reaver.
Acordei(?). Me vi no meu quarto no Castelo Drácula, só podia ser um sonho. Não é?! Olhos amarelos vieram cautelosos em minha direção e, quando pensei em gritar, reconheci Lisa, que me olhava assustada, como se soubesse dos flagelos que passei.
***
Os olhos vermelhos luminosos daquela criatura infernal ainda me observam, persistentes, assombrando não só minhas noites, mas também meus dias. Nunca se aproxima, apenas espreita, sempre à espreita.
Ouço o bater do coração dele — que é o meu rosto — os ossos fazem sons como se rangidos de dentes ferozes estraçalhassem uma presa.
Eu não devia ter tomado aquele chá de maçã. Havia algo nele… algo além do doce aconchegante, algo oculto sob o sabor acolhedor. Algo que agora me consome!
E desde então não encontrei mais a Ameritt. Era mesmo ela?!!!
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Pergaminho de Pesach
Na calada da noite, Arale Fa’yax se viu diante de um pergaminho envelhecido, encontrado casualmente próximo à cenoura do jardim do Castelo Dracula…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Na calada da noite, Arale Fa’yax se viu diante de um pergaminho envelhecido, encontrado casualmente próximo à cenoura do jardim do Castelo Dracula. O pergaminho, em suas mãos delicadas, parecia pulsar com uma energia antiga, como se carregasse o peso de mil segredos esquecidos. Ela o desenrolou e leu, recitando as palavras enigmáticas que dançavam entre as linhas.
"Fluideco sangvinen en Esperanto..."
Aquelas palavras antigas e sombrias reverberaram em sua mente, atravessando o véu entre mundos. O chão abaixo de seus pés cedeu, e ela caiu em um abismo profundo, onde os ecos de sua própria respiração eram a única companhia. Quando finalmente abriu os olhos, não estava mais no jardim, mas em uma terra estranha e perturbadora.
Diante de Arale, uma vila festiva celebrava a Páscoa, com danças e risos. Mas havia algo errado — as máscaras, o brilho nascendo da dor, os olhares vazios. Tudo era uma fachada. Ela não entendia ainda, mas sabia que estava diante de algo terrível. A sensação de pesadelo era palpável entre as sombras.
Surgiu um ser: Laparus, o coelho amaldiçoado, com seus olhos de ébano refletindo a escuridão do próprio universo. Ele a encarava — a foice em suas patas trêmulas, pronta para a batalha.
A luta foi brutal, sangrenta. Laparus avançou com fúria, os golpes de sua foice cortando o ar com um som metálico. Arale, com reflexos rápidos, desviava, esquivando-se das lâminas afiadas que quase a rasgavam. Cada golpe de Laparus era uma explosão de fúria primal, enquanto Arale, com seus movimentos ágeis e mortais, procurava um ponto fraco, defendendo-se com seu machado. O solo estava coberto de sangue, a atmosfera saturada com o cheiro da morte.
— Você não me conhece! — gritou Laparus, sua voz um eco de sofrimento.
— Não pode me entender!
Mas Arale não recuou. Ela sabia que aquela luta não era apenas sobre vencer, mas sobre quebrar as correntes que prendiam os dois. O combate se tornou uma dança de pura violência, um turbilhão de raios e sombras. Laparus, exausto e ferido, começou a vacilar. Sua foice, antes certeira, perdeu o ritmo.
Foi quando a verdade se revelou: o espólio de suas almas entrelaçadas, como destinos torturados, tornou-se claro — não eram inimigos, mas vítimas de um mesmo ciclo de sofrimento, maldição e dor.
Elyni, a guardiã dos láparos, apareceu nas sombras. De semblante sério, porém gentil, olhou para Arale e Laparus com um misto de tristeza e entendimento.
Ela estendeu a mão, e os dois, exaustos e sujos de sangue, a olharam sem palavras.
— A verdadeira luta não é entre vocês — disse Elyni, sua voz suave como o vento.
— É contra o mal que corrompe este lugar. O Ovo Cósmico, aquele que vocês estão lutando para encontrar, é a chave. A criatura que o protege, Azgalor, devorador de almas, não será vencida em batalha, mas com união e compreensão.
Arale e Laparus trocaram olhares de dúvida, mas algo os uniu — algo que foi além do instinto de luta. Avançaram em direção à caverna de ametista, onde a criatura diabólica os aguardava. Ali, um abismo se abria diante deles — tão profundo que a escuridão parecia devorar até a luz das estrelas.
Dentro da caverna de ametista, Azgalor os aguardava. Sua forma monstruosa era retorcida, uma amalgama de sombras, ossos e olhos vermelhos como brasas, que brilhavam com um ódio imensurável. A batalha foi feroz, a terra tremendo sob seus pés enquanto Azgalor os atacava com garras afiadas como lâminas de aço.
Mas Arale, Elyni e Laparus — unidos por um vínculo de destino — enfrentaram o monstro com força renovada. Cada golpe, cada movimento, era um passo em direção à liberdade. Eles perceberam que, ao trabalharem juntos, suas habilidades e forças se complementavam de maneira perfeita: Laparus com sua foice, Arale com seus rápidos reflexos, e Elyni com suas garras e sabedoria ancestral.
Finalmente, após uma luta sangrenta e desesperada, o Devorador de Almas foi derrotado. Azgalor caiu, seu corpo se desfazendo em poeira negra — e, com ele, a maldição que aprisionava a vila. A realidade desmanchou todas as correntes daquela sofrida vila desértica.
Elyni, Arale e Laparus, exaustos mas vitoriosos, se abraçaram, compartilhando um momento de silêncio profundo. A realidade ao seu redor começou a mudar — as máscaras caíam, e a vila era iluminada pela verdadeira luz do renascimento.
Quando a batalha acabou, Arale, com uma expressão de paz no rosto, olhou para o céu.
Após a batalha, quando o último vestígio da escuridão foi dissipado, uma luz suave e radiante envolveu os três heróis — Arale, Elyni e Laparus. O céu, antes opaco e sombrio, se abriu em tons dourados, e uma figura imponente apareceu diante deles, flutuando acima da terra agora purificada. Era Ostara, a Deusa da Primavera, da Fertilidade, do Renascimento e do Amor.
Ela surgiu como um raio de luz divina, com cabelos dourados que pareciam capturar os primeiros raios de sol da estação que nascia. Ostara, com seu manto verde e florido, simbolizava a renovação da vida, a abundância da terra e a promessa de que, após a morte e o sofrimento, sempre viria o florescer.
Seus olhos, azuis como o céu de um amanhecer primaveril, se fixaram nos três heróis que, embora exaustos, ainda estavam imersos no poder da vitória.
Ostara levantou suas mãos, e do solo brotaram flores, árvores frutíferas e riachos frescos, como uma bênção direta para o povo da vila. O aroma doce das flores invadiu o ar, misturando-se à brisa suave que espalhava a promessa de uma nova era.
— Vocês, que lutaram contra a escuridão e a tirania, agora têm a minha bênção — disse Ostara, com voz suave e cheia de poder. — Eu sou a Deusa que celebra o equinócio da primavera, o equilíbrio entre luz e sombra, e a ascensão da vida. Através de vocês, a liberdade foi trazida àqueles que sofriam. Agora, meus filhos, tomem o meu presente.
Em suas mãos, Ostara segurava um ovo brilhante, ornamentado com símbolos de fertilidade e ressurreição. O ovo foi oferecido a Arale, que o recebeu com reverência. Ela sabia que aquele ovo era mais do que um simples símbolo — ele carregava o poder da deusa, capaz de regenerar e restaurar a vida para aqueles que mais precisavam.
— Este ovo — continuou Ostara — é a chave para a fertilização das terras e dos corações daqueles que estavam sob a tirania. Ele trará uma nova era de prosperidade, liberdade e abundância para o povo desta vila. Que a primavera floresça onde antes havia fome e escuridão!
A vila, antes desolada e oprimida pela fome e pela escravidão, começou a mudar diante dos olhos dos heróis. Os campos de terra árida começaram a florescer, os rios que haviam secado voltaram a se encher, e os habitantes da vila, libertos do jugo da opressão, se reuniram em festa, celebrando o milagre que acontecia diante deles. Rios de alegria e gratidão se derramaram por toda a vila, enquanto danças e cânticos se espalhavam pelos campos agora verdes. Havia, sobre um tronco ao lado da deusa, uma coroa de espinhos sobre o altar.
Ostara, com um sorriso terno e acolhedor, tocou as cabeças de Arale, Elyni e Laparus, e uma luz cálida os envolveu.
— Que sua jornada continue com coragem e sabedoria, e que a primavera sempre os acompanhe.
E, como se a própria terra tivesse absorvido a bênção da Deusa, Arale, Elyni e Laparus sentiram uma renovada energia interior. Eles sabiam que não estavam mais sozinhos. A Deusa Ostara os havia marcado com sua bênção, guiando-os para novos desafios, para novas lutas — mas sempre com a certeza de que, após a escuridão, a luz sempre retorna.
Assim, com o ovo em mãos, Arale retornou ao jardim do Castelo Dracula, sabendo que o verdadeiro renascimento não era apenas sobre florescer na primavera, mas sobre transformar a terra onde pisamos e as almas que tocamos.
Ela observava o ovo, ainda quente com o poder da Deusa, refletindo sobre a luta, a amizade e a força do renascimento. Era a promessa de que, como Ostara, a vida sempre encontraria um caminho para florescer, mesmo nos lugares mais sombrios.
Ela sabia que a luta contra as sombras nunca terminaria, mas, naquele momento, no silêncio da noite, ela tinha vencido. Tinha encontrado a força — não em sua luta sozinha, mas na amizade, na confiança e na união.
E o ovo de chocolate que ela segurava, doce e perfeito, era a promessa de que, apesar da dor, sempre haveria renascimento.
Lembrando que, no epicentro da festividade onde antes havia trevas, agora surgia uma aura de esperança: uma chama azul e violeta brilhava, e ela tinha em mãos um ovo de chocolate — o símbolo do ciclo de vida e renascimento. O vilarejo estava a salvo, e a realidade restaurada.
Mas o caminho de Arale ainda não estava concluído. Ela retornou ao jardim do Castelo Dracula, o pergaminho em suas mãos, o ovo de chocolate como prova de sua jornada. Seu coração batia com a mesma energia da vida que fluía através de suas veias — pronta para o que viria a seguir, selando mais um pergaminho em sua máquina de escrever de ossos.
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Mudança compulsória
Dizem que sou reclamona. Eu concordo. Mas discordo quando insinuam que essa característica é “má”. Não se acomodar com as situações adversas é que…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Dizem que sou reclamona. Eu concordo. Mas discordo quando insinuam que essa característica é “má”. Não se acomodar com as situações adversas é que faz o mundo evoluir... Ou você acha que se o homem estivesse contente até hoje em andar a cavalo ele teria inventado o carro? O ser humano só muda quando algo o incomoda. Muda para benefício próprio. Por conforto.
Outrossim, concordo que tudo que é descomedido torna-se insuportável. Eu sou descomedida. Consequentemente, insuportável. Mas nem sempre me vejo como uma criatura desprezível e isso não interfere na minha capacidade de conviver nessa sociedade — tão desprezível quanto —, mas inconsciente de tal condição.
Sobre os incômodos e mudanças do homem é assustador, porém libertador, quando percebemos que é exatamente assim: a mudança deriva de alguma necessidade intrínseca de cada um. Não tem nada a ver com altruísmo e caridade. Somente interesse. As exceções se dão quando o indivíduo o faz sem ter a plena consciência de seu interesse, acreditando que tudo ocorreu devido à sua própria “capacidade de ser bom”.
Não é pessimismo. É a verdade estridente que nós, se não fôssemos tão românticos, a ouviríamos clara e intensamente. Mas acredito que muitos irão se escandalizar. Normal. Outros dirão que é um absurdo qualquer imbecil dizer-lhes que não agem por bondade. Não julguemos, não é isso o que faço. Só lhes digo que se quiserdes enxergar as coisas mais nitidamente é imprescindível deixarem de lado estereótipos e paradigmas. Este é o começo de qualquer mudança. Deixar de lado o eu utópico e a hipocrisia e, ao menos uma vez, ser sincero consigo.
Ademais, na qualidade de humana, eu também sou interesseira, não me coloco à margem de tal condição. Uns tendem a comparar o quão interesseiros são, como se fizesse alguma diferença. Outros terão a capacidade de se acharem “interesseiros, mas por uma boa causa”, mesma coisa que justificar um massacre. Se for para o bem, tudo podem, assim acreditam.
Seja como for, haja o que houver não poderíamos e nem conseguiríamos mudar o curso dessa embarcação. Não é a minha força de vontade ou meus desejos que fazem as coisas acontecerem, pois são tudo coisas abstratas, será que não entendem? É preciso me apossar de um remo, utilizar meus braços e remar. O Remo por si só também não pode agir. Bem que ele tenta, mas coitado, ele não consegue. Bem que ele queria que seu imensurável “querer” se transformasse em ação. O seu “querer” não é a consumação de sua existência. Ele precisa de alguém para utilizá-lo. Ele precisa de alguém para que seu destino seja consumado.
O quão esforçados somos! Admira-me a nossa tendência para acharmos o melhor em nós mesmos e o pior nos outros. Se falássemos que os outros são interesseiros concordaríamos imediatamente, mas quanto a nós... Justificar-nos-íamos.
Contudo, as coisas precisam ser dessa forma. O mundo precisa continuar em sua órbita normalmente. Não queremos que as mudanças, por vezes compulsórias, nos façam como terráqueos-extraterrestres. É muito ruim ser um extraterrestre, melhor ser só terráqueo, igual aos demais. Tudo igual. É sempre melhor ser primitivo. Ser egoisticamente troglodita é sem dúvida melhor!
Melhor continuar tudo como está?!
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 9 – Perturbadoras Revelações
Um abrupto sopro de vida e meus olhos foram circundados pelo lume de um dia nublado. Eu dormia? Ao derredor, um cemitério árido e lúgubre descansava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Um abrupto sopro de vida e meus olhos foram circundados pelo lume de um dia nublado. Eu dormia? Ao derredor, um cemitério árido e lúgubre descansava, com carvalhos negros ressequidos e antigas estátuas de mármore cobertas por um tipo de limo amarantino à beira do índigo-profundo. À frente, um homem dava forma a uma sepultura, cavando sem pressa; observando a terra atra e úmida se amontoar ao lado da cova. Demorei-me para compreender que o indivíduo proferia palavras, as quais eu bem ouvia, após o súbito despertar que fizera um estranho chiado perturbar-me os ouvidos. Demorei-me, igualmente, para assimilar-me em pé, segurando em mãos um pequeno livro e vestida em tecido de veludo, na cor noite-violeta.
— … que entendia como algo irrelevante, tal qual a vida em si mesma é compreendida por um recém-nascido. Era, entretanto, aprazível viver nos augúrios nadificantes em Sihren, pois, vês? Cá é tudo cinza e silente. Lá, entre jardins de espécimes indizíveis e mais tantos visitantes a trazerem mudas crescidas de ascehderas e lihrios, eu podia me deleitar com o aroma místico enquanto aconselhava as criaturas que, na verdade, nunca precisaram de conselhos. Ah… sim… Sihren era mesmo o paraíso… aqui, entretanto, eu sou esta mórbida criatura que rasteja na terra e estes corpos, enterrados soltos no solo infértil, nunca recebem flores, tampouco saudações d’algum vivo que deles se recorde. — Após calar-se, o homem fitou os céus, como se mergulhasse em memórias. — Bom saber que eras de Sihren, senhora. Saber que tenho uma conterrânea, afaga esse meu velho coração. Não só uma, já conheci alguns outros… inclusive Olga… bem petiz, ela corria pelos corredores do Castelo do nosso imperador… ah… que saudade…
Minha reação, se é que posso dizer que reagi, era como um oceano infinito de incertezas sôfregas. Eu decerto o olhava confusa. Senti-me colocada em meio a algo que não me pertencia; desde o local até o corpo meu, pois, tão íntimo aquele senhor me dirigia sua palavra serena sobre o que tínhamos em comum, entretanto, como poderia saber? E eu lhe disse que sou de…Sihren? Mas como o poderia dizer se eu, decerto, não disse? E Olga, criança? Como e quando tal fenômeno ocorrera? Quem poderia ser este imperador? Eram tantas indagações, entretanto, nenhuma se clarificava à medida em que eu me esforçava para lembrar.
— Eu… — Sem que pensamentos torturantes florescessem, busquei algo sutil para trazer à tona e fazer com que o homem caísse em seu falatório que, por muito, soava-se valioso. Todavia, seus olhos se voltaram a mim e sua face, outrora tão tenra, transfigurou-se n’um pavor desmedido. O homem, na tentativa de fugir de mim como se eu lhe fosse a pior das assombrações, tropeçou em sua pá, ficando ainda mais horrorizado.
— Tu… tu és… um deles! — Bradou atormentado em medo.
— Senhor… por favor… eu não…
— Vampira!!! — Seu vocífero contornou os quatro quantos do universo. Ele ergueu-se com dificuldade, apoiando-se na terra, sujando suas mãos ainda mais.
— Eu não te farei mal… — Tentei explicar.
— Teus olhos… onde estão…? Mudaram… tu és…como eles! Eles! — O homem correu com uma pressa espectral, guiado por um frenesi de medo insano entranhado na alma, como se fugisse do próprio passado reencarnado diante dele. Não o impedi, pois, sei que quaisquer ações poderiam levá-lo à morte súbita, tamanho era seu terror abominável. Apenas fiquei observando-o se afastar como um animal selvagem... embora, talvez, eu que fosse animalesca de fato.
Diligenciei-me, sob uma promessa autoimposta, a absorver a cinesia do que me parecia um desvario meu, uma insanidade onírica; e, então, reordená-la para que fizesse sentido. Entretanto, toda a lógica sangrava diante de meus pensamentos toldados por um discernimento fragmentado. A verdade é que eu estava de volta ao prólogo, com os olhos abertos para o mundo e um oceano de enigmas para decodificar. Por infortúnio, diferente do sereno início, eu carregava muito mais fardos e, um deles, decidiu se manifestar enquanto eu ponderava...
— Devias ter mantido teus olhos no fulvo que os pertence. — Ouvi. Olhei para trás e Seth estava ali, recostado em um carvalho.
— Como... saíste? — Questionei incrédula. Ele pareceu meândrico. “Ó, fardo maldito!” pensei.
— Do que estás falando, Áurea? — A voz de falésia e voragem.
— O ritual... o círculo... como tu quebraste a magia? — Eu estava mesmo incrédula, a magia era poderosa, não poderia ter se desintegrado sem que alguém, intencionalmente, a tivesse rompido. Seth se aproximou.
— Tu não te lembras? — Ele é quem estava, naquele instante e, mais do que eu, cético. Mantive-me em silêncio. Eu poderia estar perdendo minhas memórias recentes como um despertar de um sonho? — Hum... — Murmurou rodeando-me e, por fim, abaixou-se perto à cova, tocando a terra úmida. — Não te lembras que foste ao teu aposento, com uma adaga-cruz em mãos? Esta que refulge em teu cós, presa por uma fita de veludo? — Toquei-me a cintura, senti a adaga frígida. — E não te lembras de encontrar-me preso ao aposento e não ao círculo, dificultando a tua obscura intenção de fincar em meu peito o teu novo artefato?
— Do que estás falando? — Interrompi-o, aflita. Seth gargalhou e levantou-se.
— Interessante... se tu não te recordas, não serei eu o responsável por te trazer a lembrança; ainda mais sendo vítima da tua loucura e pendor assassino. Se não fosse por Olga, eu teria me tornado pó; mas... é gratificante saber que teu ponto fraco é tu mesma.
— Fale-me agora, Seth! — Segurei-lhe em seu braço com uma força que eu não sabia me pertencer; estava com ira abíssica e desejei, confesso sem receios, que ele não existisse e que toda a sua ironia e seu sarcasmo sucumbisse junto dele para mais profundo que o inferno de onde ele vinha. Olhamo-nos de perto. Ele sorriu outra vez.
— Um olho carmim... um olho dourado... Ela está vindo, Áurea... vais deixá-la entrar? — Pressionei ainda mais o seu braço e vi em seus olhos um fogo rubro faiscante enquanto seu semblante deixava o aspecto satírico e contornava-se em cólera.
— Basta!!! — Murmurei furiosa.
— Pergunta para Lorrt, Áurea. O maldito nocturvo que tanto te venera.
Eu não sei como, mas, ouvi-lo falar de Lorrt fora o estopim do meu furor. Num único movimento célere, segurei a adaga-cruz e passei pelo rosto de Seth. Um sangue negro verteu quente da fenda aberta em seu queixo. Sua mão prendeu-me o pescoço no mesmo ímpeto e mais um corte fiz sobre ela até que, num golpe desordenado, Seth fez a adaga soltar-se de minha mão e cair sobre a terra. Desarmada, segurei sua camisa torcendo-a contra seu pescoço e o golpeei entre suas pernas, fazendo-o se curvar em dor; presos e entrelaçados no ódio, desequilibramo-nos e caímos na cova — não foi o suficiente para me fazer parar.
Talhei seu rosto com meu punho fechado, três vezes, enquanto ele tentava prender minha mão esquerda. Sem sucesso. Embora fosse forte como um touro, não tinha nenhuma habilidade física contra meu esgueirar-se. Prensei seu estômago com meu joelho e senti-o segurar meus cabelos com avidez, buscando me parar. Seu murmúrio demoníaco se alastrava; cravei meus dentes em seu braço, fazendo-o me soltar e, fugaz, cravei-os novamente, mas em seu pescoço e suguei seu sangue asqueroso para, pouco depois, cuspi-lo em sua face. Seth, atordoado, grunhiu algo ainda mais diabólico e vi a tez de sua fronte rasgar como se algo em seu interior quisesse pôr à vista a verdadeira forma de sua constituição.
— Ssatt esstt hrasstt — Rosnou dizendo, grave algar. Forçou-me contra o muro, tentava virar-me para ficar sobre mim, mas não deixei; cravei meu olecrano em seu peito, fazendo-o tossir; entretanto, um obscuro calor em meu corpo emergiu como se dentro de mim e o incêndio daqueles olhos satânicos parecia se alastrar n’um ardor pecaminoso. Gritei como a morte em fel e chamas, enterrei minhas unhas em seu pescoço e as arrastei para baixo, sulcando sua pele. Por instantes, jurei que não haveria um fim, mas, o fogo do inferno cessou e Seth conseguiu prender-me os braços. Seus olhos atentos, seu corpo prensando-me na terra.
— É desleal fazer isso, Áurea; eu não posso te ferir, eu devo te proteger, essa é a minha função. Foi tu que assinaste o acordo com Lahgura.
— Que maldita proteção é esta? Obscurecendo as verdades que possui sobre minha própria existência! — Seth respirou fundo e soltou-me. Entre nós o silêncio pareceu-nos perdurar mil e uma noites.
— Quando… — Ele iniciou, demonstrava exaustão. — Quando teus olhos refulgem dourados, ambos, uma outra personalidade se manifesta — Seth tocou suas feridas, feitas por mim, e gemeu de dor intensa. — Ela, a outra, determinada e ciente de toda a tua história, não teme nada, é instintiva. Ela desejou a minha morte na violência de suas mãos, com seu desprezível caráter incólume. Ela é perigosa... — Seth se apoiou, saindo da cova e se sentando à beira.
— Não é fácil dizer a alguém importante que sua doença é psíquica e que esta, decerto, é a razão pela qual suas memórias desapareceram. Ela as roubou de ti... e eu... eu só não sabia como revelar este lídimo e pernicioso fato. — Confessou e estendeu-me sua mão esquerda, supus que pretendia me tirar da cova. Hesitei, mas, ele relevou o que devia e eu queria sair daquele úmido túmulo. E saímos, sujos de terra. Seth, sangrava. Nada proferi a respeito da revelação. — Minha Aessatt, eu te perdoo... não traga em tua fronte tal desespero. — Ele sorriu e eu o fuzilei com minhas retinas trêmulas em gana. — Agora, devo ir.
Antes que eu pudesse desfrutar do seu desaparecimento, ele se esvaneceu. Tentou acariciar meu rosto, mas não o permiti. Apenas com sua expressão de cinismo, foi embora fazendo uma reverência arrogante. Com certeza foi para o inferno, lugar onde pertence.
Demorei-me ali, sozinha. Vi o pequeno caderno e a adaga-cruz lançadas no solo fúnebre, peguei-as e as limpei como pude. Pouca e mórbida era a aragem que soprava e parecia-me que o entardecer não chegaria. Os céus, por instantes, soavam-me espúrio e o Castelo Drácula, no horizonte, uma miragem. Guardei a adaga em meu cós, no veludo que lhe era apropriado; abri o pequeno caderno. Havia uma frase escrita na primeira página, com a minha letra cursiva.
Naomie e Noellie — no quarto umbral, de cor gaultéria. Há treze escadas abaixo, iniciando pela espiral da biblioteca. No estreito corredor, elas possuem o Oráculo das Sete Profecias.
Uma parca esperança, pelo Norte que se fez possível, emergiu no meu íntimo como um lume tenro na escuridão. Meu caminho se erguera à frente, tal uma ponte no abismo. Com ou sem a maldição de Seth, eu iria até estas duas mulheres e, de lá, algo ainda que mais infinitesimal que minha esperança, em absoluto, alcançaria meu coração dilacerado e olvidado. A fé não fazia parte do eixo de minha existência, entretanto, era a única que poderia perdurar em mim, pois, se eu estava mesmo dividindo minh’alma com um alter ego, se ela guarda minhas memórias para si, como afrontá-la se ela é, pois, eu mesma? Pelo espelho? Refletindo as janelas do espírito? Embora as revelações tenham sido ácidas, eu intuía que ela, a outra que eu era, não queria confronto — não comigo.
Um Oráculo, como previa aquela anotação, poderia ser deveras relevante para os que, como eu, perduram no longínquo de si mesmos. Portanto, pela lógica do enigma — pois era o que soava ser — descer uma escada em espiral na biblioteca do Castelo seria o iniciático movimento para alcançar o corredor estreito, onde a quarta porta em seu imo, de cor gaultéria, seria o aposento onde Noemie e Noellie estariam. Eu não sabia ao certo a localização da biblioteca, quero dizer, eu sabia sobre uma delas, local onde perscrutei sobre livros de exorcismos, entretanto, nesta, não avistei nenhuma escada em espiral, portanto, cri não se tratar dela. Deste modo, então, quando retornei ao alcácer — de volta às suas entranhas, sentindo o aroma de sangue e solidão, tive de acessar cada espaço em busca de uma orientação, ainda que intuitiva, para localizar um novo leito das palavras infindas.
Em um dos aposentos, quando as esperanças se desintegravam mais céleres do que na gênese de minha busca, deparei-me com uma figura enigmática — tal como outras naquele recôndito sombrio que mais se assemelhava a um labirinto grotesco de lamúrias, silêncios perturbadores e angústias. Ela vestia-se com mantos pesados, um deles negro como a noite e outro pálido como a névoa lôbrega de Séttimor — inclusive, havia tal neblina ao seu redor, como uma aura rarefeita. Assustou-se ao me ver abrir os umbrais, voltou-se abrupta para mim, porém, seu rosto estava oculto no capuz. O aposento era pequeno. Nas mãos enluvadas da figura, um tipo de colar do que se assemelhava, em cor, a ourídeo.
— Quem tu és? — Indagara com sutileza, sua voz feminil não me era estranha... na verdade... eu sabia bem de quem era aquela voz...
— Liliana? — Indaguei, confusa. Um breve silêncio se liquefez no aposento. Ela, então, revelou-me seu semblante, entretanto, surpreendi-me ao vê-la em perfeitas condições, como uma humana. Diferente do que avistei em Séttimor, ali, de frente a mim, Liliana estava perfeita; não havia sombras em metade de seu rosto, como um vazio imposto em sua carne; não havia o fumo, a dor, a lúgubre essência. Era apenas Liliana, bela, com longos cabelos lívidos e forte olhar. Eu não hesitei, fugaz a abracei, sem pensar em quaisquer consequências ou, ainda, sem considerar o seu primevo questionamento. Ela pareceu relutante ao abraço.
— É tão bom te ver aqui... mas... como? — Olhei para seu rosto, soltando-a com afago. Foi n’este átimo que... algo mórbido me aconteceu.
Assim que fitei seus olhos cinéreos, eu a vi em um sinistro lugar pálido em neve densa com altos edifícios negros pontiagudos. O ar era o vale da morte em sua mais atroz constituição. Liliana era levada por homens de olhos negros, sem esclera... eram Ohrmons. Foi jogada aos pés de um homem cujo rosto eu não saberia descrever, porém, senti perfeitamente a sua energia densa e mórbida. “Queres teu filho, pois então o encontrarás.” — a voz grave e rouca dissera. Liliana foi tomada novamente, sem cuidado, pelos Ohrmons e, então, levada.
Vi-a inalando um tipo de vapor enegrecido que a fez adentrar um estado de delírio semi-inconsciente. Não parecia sentir dor, mas decerto compreendida a perversidade. N'este calabouço, o seu corpo foi violado enquanto seu sangue era retirado por tubos introduzidos nas veias de seus pulsos, sendo trocado por um tipo de líquido espesso, fumegante e fétido. Palavras estranhas se proferiam no ar quando o homem sem rosto, da voz grave e rouca, adentrou ao local, expulsando os Ohrmons com seu poder abissal.
Liliana, ainda viva, olhou em direção ao homem tétrico. Ele tocou seu rosto e, imediatamente, metade de sua tez facial apodreceu. Segundos depois, ela estava morta. O homem maldito cortou-se, gotejando seu rubro sangue sobre a cabeça de Liliana. Parecia-me um ritual de sacrifício macabro. Todas as cenas, em milésimos de segundos, atormentaram meu cérebro, fazendo-me afastar de Liliana. Meu corpo estava trêmulo e minha respiração ofegante. Eu tinha uma certeza atroz: o que vi foi uma visão do futuro. E eu compreendi que a Liliana de Séttimor estava morta, possuía, em seu corpo fumegante, todos os sinais dos horrores que sofrera.
— Senhorita? O que está havendo? — Ela indagou, preocupada. De meus olhos vertia a lágrima dourada, eu a vi pingar em minhas mãos.
— Por favor... — Murmurei, em completo abalo. — Por favor, Liliana... — Ela se abaixou, tocando meus braços e secando minhas lágrimas.
— Diga o que queres, querida. Diga-me o que houve? — Eu apenas chorava.
— Não vá para a neve... não busque teu filho naquele sórdido lugar... eles... eles... aquele homem... — Eu não conseguia dizer, mas vi o semblante de Liliana mudar.
— Quem és tu? O que sabes sobre Luíre e sobre mim?
— Eu vi... nos teus olhos... eu previ... — Toquei-lhe a face, com cautela. — Apenas confie em mim... eu sei... é terrível... é um revolto oceano ambíguo, mas... Liliana... eu não me perdoarei se eu não te salvar... a certeza de minh’alma é que teu destino... eu posso... — Voltei a chorar em desespero. Liliana me abraçou, parecia perceber minhas lídimas intenções. Eu nunca esquecerei o que vi... a verdade daquela deletéria premonição.
— Está bem... acalma-te... — Busquei ouvi-la, ficamos em silêncio até que meu soluçar cessasse. — Em tua visão, havia um lugar hostil, com neve... e o que mais?
— Edifícios negros... pontiagudos... uma arquitetura que nunca vi... mastodôntica... bela e... amedrontadora... — Respondi em lamúria, mas ainda hesitei em lhe revelar o que causaram a ela, era demasiado chocante. Liliana respirou fundo.
— Krvieröm... — Proferiu, abalada... — Eu... estava decidida a ir até lá... deixar este Castelo com tudo o que aqui aprendi sobre Pherhesí... e enfrentá-lo... em nome do que eu sei que ele fez com meu filho... — De imediato, lembrei-me do homem mencionado por Lëvri como sendo o seu “criador”.
— Não sei quem é este homem, Liliana, mas ele é muito poderoso... é preciso muitos para conseguir destruí-lo... muitos ou, talvez, todos aqueles que existem... eu senti... a densa energia dele... infelizmente tu não poderás... tu não serás para ele sequer um exíguo cílio incômodo em seu olho. — Ela compreendia.
— Eu não duvido de tuas palavras... — Vi-a levantar-se, sentando-se à poltrona próxima ao que me parecia uma escrivaninha. — Contudo... chegaste sabendo meu nome antes mesmo de fitar meus olhos e ter a... horrenda revelação... de onde me conheces? — Hesitei... não parecia ser adequado dizê-la que sua alma está vagando em um corpo deformado e brumoso n’uma vila de nome Séttimor.
— Eu... não sei ao certo... perdoa-me... eu sequer sabia que essas visões poderiam acontecer... eu... perdi minhas memórias e há muito o que ainda não sei sobre mim e sobre o que conheço e o porquê... — Ela aparentou decepcionar-se um tanto com a minha resposta. Ficamos silentes outra vez.
— Entendo... e como vieste até aqui? N’este cômodo?
— Estava em busca de uma biblioteca que tivesse uma escada em espiral para baixo... busco encontrar Naomie e Noellie.
— Por que buscas por elas?
— Encontrei uma nota deixada em um caderno... com a minha letra... indicando o local... eu não temo em lhe contar tudo o que sei, Liliana, entretanto, sei tão pouco. Imaginei que, porventura, estas mulheres me ajudariam de alguma forma, uma vez que, segundo a nota, elas possuem o “Oráculo das Sete Profecias”.
— Posso levar-te até elas, sei o caminho... e creio te dever um favor... pois mudaste meu destino... — Ela sorriu-me. Um sorriso triste, lacrimejante. — Eu desconfiaria se não fosse pelo teu assombro... se não fosse pelo teu abraço... este alcácer é perturbador, então... por muitas vezes fui ludibriada. — Levantei-me, devagar. Liliana ajudou-me.
— Eu sei... quero dizer... estar aqui tem sido uma experiência obscura... por vezes merencório... e ad aeternum solitária... — Exprimi.
— Agora, ao menos o que diz respeito à última questão, não há mais o que se preocupar. — Novamente, Liliana sorriu, um pouco mais contente. — Venha, devemos ir. É um longo, e escuro, caminho com muitos degraus.
Deixamos o aposento. Em meu peito ainda pulsava um pesar aflitivo. Uma dúvida enraizada sobre o prenúncio que me dominou. Lembrei-me das visões que tive na Masqarilla. Pela primeira vez, encaixei peças na totalidade do que eu já sabia e isso liberara à minha consciência uma lógica e um sentido para muitas das caliginosas verdades desveladas a mim desde meu despertar. Ainda assim, não se bastavam. Havia muito o que eu ainda não sabia e, por isso, estava disposta e ir além e desvendar mais do mistério de minha própria existência.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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O Éter e a Forja dos Imortais
Sem Data — O peso da vigília sufocava-me. O braço esquerdo, pesado como chumbo fundido, resistia a qualquer comando, uma prisão de carne e…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
(Escrito em meu Caderno — póstuma)
Sem Data — O peso da vigília sufocava-me. O braço esquerdo, pesado como chumbo fundido, resistia a qualquer comando, uma prisão de carne e osso que pulsava com o ardor lancinante de um ferimento que já deveria ter cessado de gritar. Oh, o ar ao meu redor era um vapor espesso, cheirando a óleo e metal oxidado, e a luz que ousava existir bruxuleava trêmula sobre as paredes de ferro e cobre, como se receosa de revelar o que jazia além do visível.
Estava deitado sobre uma mesa de metal, a superfície fria sob meu corpo contrastando com o calor febril que percorria minhas veias. Um lençol de algodão grosso cobria-me parcialmente, áspero contra minha pele. As imagens em minha mente dançavam entre a vigília e o torpor, angustiantes e, de algum modo perverso, reconfortantes. Entre os devaneios, percebia uma presença. Alguém estava ali.
A dor despertava-me de vislumbres indistintos — o rosto de um velho sacerdote, olhos carregados pelo tempo e barba desgrenhada como os ramos retorcidos de uma oliveira ancestral. Ele sussurrava algo enquanto minha consciência oscilava entre os fragmentos da batalha. Houve luta. Houve sangue. Teria que existir algo... algo que não conseguia nomear. Lembranças retornavam como lâminas cegas, desfiando-me lentamente.
Meu irmão, Alonso. Meu pequeno Alonso. Vi seus olhos se esvaírem em um campo onde a morte ceifava sem distinção. O frio da Prússia nunca me parecera tão cruel quanto o toque gélido de seus dedos sobre minha pele quando a vida o abandonou. Então, ali, em meio às entranhas de uma arquitetura de vapor e engrenagens, outra cena arrastava-me ao abismo. Sevilha. A praça banhada pelo sol dourado, risos infantis quebrando a manhã com uma pureza inalcançável. Valéria corria ao redor de nossa mãe, seus cabelos escuros como a noite embaraçando-se ao vento quente. Nora, sempre tão bela, com as mãos brancas e finas trançando flores nos cabelos de minha irmã.
Mas o que era essa sensação? Como podia ver o ontem e sentir o agora em um mesmo golpe? O calor de Sevilha desaparecia, e era tragado de volta à sala abafada, onde os tubos de cobre se entrelaçavam como serpentes, onde líquidos impossíveis brilhavam em frascos que guardavam segredos que jamais deveriam ter sido destilados.
O peso da memória era tão insuportável quanto o peso do braço que não respondia. Havia algo errado em mim. Algo que não deveria estar ali. Algo que pulsava...
Entre esses estados confusos de consciência e torpor, havia uma voz. Um nome. Ele emergia do nevoeiro da inconsciência, pronunciado de forma metódica, quase cirúrgica. "Arturo Vasquez". Sempre o mesmo nome, repetido nas bordas dos meus sonhos. Às vezes, era um sussurro. Outras, um tom firme, como se alguém estivesse se apresentando. A imagem de um homem de olhos frios e presença severa gravou-se em minha mente, como um espectro vagando entre a razão e a ilusão.
Agora, estou sentado em um quarto. As paredes de metal frio refletem a luz pálida da lamparina, sombras oscilam e se retorcem no espaço apertado. A porta de grade diante de mim separa-me da vasta sala, onde a penumbra se dissolve em uma névoa turva. E ali, no centro do aposento, a silhueta de um homem. Sua presença é um fragmento que eu não compreendia até agora.
Baixo os olhos para meu braço esquerdo e estremeço. A carne que antes ardia em dor fora substituída por algo... diferente. Tubos de cobre e prata correm entre as engrenagens, zumbindo em um ritmo que imita a respiração. Entre as articulações metálicas, fios de um brilho azul etéreo pulsavam, correndo como se fossem veias vivas, um fluxo constante de energia enigmática. Placas de latão e bronze, meticulosamente encaixadas, formam uma carapaça intricada, selada por runas gravadas à fogo — símbolos que não compreendo, mas que parecem murmurar uma verdade esquecida. Cada falange, um primor mecânico, responde com precisão, dobrando-se com um sussurro suave de engrenagens ocultas.
Minha voz quebra o silêncio, rouca, carregada pelo peso do passado e da incerteza do presente.
— Arturo Vasquez.
A silhueta move-se levemente, as sombras dançando ao redor de sua figura esguia. O brilho pálido da luz ilumina seu rosto por um breve instante — um olhar frio, calculista, pousa sobre mim.
— Você acordou. — Sua voz é baixa, controlada, desprovida de qualquer traço de surpresa.
— O que fizeram comigo? — murmuro, os dedos metálicos fechando-se involuntariamente sobre minha perna.
— Eu te reconstruí — ele responde, cruzando os braços. — Salvei o que restava de você. Transformei o que era falho em algo funcional.
Meu olhar retorna ao braço autômato. A precisão dos encaixes, a pulsação do éter azul correndo por entre as junções. Há algo além de mecânica nisso.
— Isso… não é somente metal — constato, mais para mim do que para ele.
Arturo mantém-se imóvel, mas há um brilho sutil em seus olhos.
— Não. O corpo humano é um motor imperfeito. A ciência sozinha não basta. Há forças que fluem além do que compreendemos. — Ele inclina levemente a cabeça, como se observasse um experimento. — E eu as domestiquei para te trazer de volta.
Antes que eu possa responder, passos ecoam do lado de fora. Uma sombra longa estende-se pela fresta da grade. A porta se abre, e Narcís Nestor entra. Seu olhar desliza por mim, primeiro surpreso, depois carregado de desprezo.
— Então foi assim que decidiu sobreviver, Anton — sua voz é um veneno gélido.
Levanto-me instintivamente, cerrando o punho. Ao socar a grade, uma energia invisível manifesta-se, repelindo-me com um choque alastrado pelo braço autômato.
— Tsc. — Nestor sorri, satisfeito.
Então, uma segunda presença invade a sala. O ar pesa. As sombras parecem alongar-se em saudação macabra. E a voz — aquela voz inconfundível — desliza pela penumbra como veludo e lâmina ao mesmo tempo.
— Anton S. Miahi. Como é bom revê-lo.
Meu peito aperta. O Conde Drácula adentra o aposento, sua presença dominando cada fresta de escuridão.
A conversa que se segue é enigmática, insinuando sobre Séttimor e os estudos de Olga. Mas não consigo entrever onde Arturo se encaixa nisso.
Então, Narcís e Drácula partem, deixando-me novamente com Vasquez. O engenheiro encara-me por um momento antes de finalmente falar, sua voz sem emoção aparente.
— A destruição pode ser controlada. Domada. Aprendi isso da pior forma possível…
Horas mais tarde — O silêncio que ficou era denso, quase palpável. O ar, que antes carregava a presença esmagadora de Drácula, parecia rarefeito, como se Narcís e ele tivessem sugado para si tudo o que tornava aquele espaço minimamente suportável.
Deixei-me cair sobre o assento metálico, sentindo o peso não somente do meu próprio corpo, mas do braço autômato que agora me pertencia — ou talvez, que agora me possuía. O som sutil das engrenagens rodopiando na estrutura de bronze e prata era um lembrete constante da minha nova condição.
Do outro lado da sala, Arturo Vasquez permanecia imóvel, observando-me com a mesma expressão fria e analítica que sempre parecia carregar. Seu rosto era esculpido na reserva de alguém que já testemunhara o suficiente para não se abalar facilmente. Mas havia algo ali, escondido nas sombras de seus olhos, algo que eu precisava arrancar à força.
— Então — que diabos você fez comigo? — Minha voz rompeu o silêncio, carregada de um peso que nem mesmo eu compreendia por completo.
O engenheiro cruzou os braços, recostando-se contra a parede de metal escurecido. A luz bruxuleante projetava sombras sobre seus traços rígidos, tornando-o ainda mais impenetrável.
— Eu te tornei funcional, Anton. Você estava perecendo. Seu corpo não suportaria. Dei-lhe uma alternativa. — A voz era firme, sem vestígios de emoção.
— Alternativa? — Soltei um riso baixo, ácido. — Meu braço já não é meu. Está vivo de uma maneira que não compreendo. Há algo além de engrenagens e cabos nisso... E eu sinto, Vasquez, eu sinto que há um preço por trás dessa dádiva que você não menciona.
Arturo não respondeu de imediato. Seus olhos caíram por um instante no meu braço autômato, observando o fluxo do éter azul pulsando entre as articulações. Ele inspirou fundo, um som discreto, mas carregado de peso, antes de falar.
— Cresci ouvindo histórias sobre bruxaria e curandeirismo. Minha avó falava sobre forças que a ciência não poderia tocar. Forças que poderiam curar… ou consumir. — Ele fez uma pausa, estudando-me. — Quando minha irmã adoeceu, acreditei que a medicina bastaria. Mas ela faleceu em meus braços. Como o seu irmão pereceu nos seus. — Seu olhar não demonstrava pena, somente uma constatação dura como aço. — Você murmurava o nome dele nos delírios. Durante as febres, antes e depois do procedimento. Chamava por Alonso como se ele ainda estivesse ali, sangrando, agonizando. — Arturo inclinou a cabeça levemente. — Eu ouvi cada palavra.
Um calafrio percorreu minha espinha. Uma fúria surda e incômoda começou a se erguer dentro de mim. A lembrança de Alonso — sua voz, sua risada infantil em Sevilha, o peso de seu corpo sem vida nos meus braços no campo de batalha — se mesclava ao absurdo daquela situação.
— Você... ousa falar dele? — Minha voz tremeu entre a indignação e a incredulidade. — Ousa trazer meu irmão à tona como se fosse apenas mais um experimento seu?
— Não se engane, Anton. Eu não o trouxe à tona. Você o trouxe. Ele está em você. — Arturo deu um passo à frente, a sombra de sua figura se alongando sobre o chão de ferro. — Os mortos nunca nos deixam. Mas o que fazemos com sua memória... isso, sim, define quem nos tornamos.
Respirei fundo, tentando conter a tempestade dentro de mim. Senti o peso do braço metálico — frio, estranho, quase um membro que não me pertencia. Não era natural. A ideia de estar fundido a algo tão distante da carne humana era repulsiva. A tecnologia de Arturo ia além do que eu compreendia, além de tudo que era concebível no século em que nasci.
— Você realmente acredita nisso? — Minha voz saiu mais baixa, quase um sussurro. — Que o destino pode ser moldado somente com metal e precisão? E esse tal de “Éter do Imaterial”… Isso também faz parte do seu controle?
Arturo hesitou por um instante. Uma hesitação mínima, mas eu a percebi.
— O Éter não é apenas uma teoria — respondeu, sem desviar o olhar. — É uma força que permeia todas as coisas. A ciência sozinha não é suficiente para domá-lo. Mas aprendi a moldá-lo… a utilizá-lo. — Ele indicou meu braço autômato com um leve movimento de cabeça. — Você é a prova disso.
Apertei os dentes, a frieza de Arturo me irritava profundamente. Não era arrogância, não era fanatismo. Era uma convicção silenciosa, aterradora.
Eu precisava de mais respostas. Mas acima de tudo, precisava descobrir até onde Arturo estava disposto a ir em nome dessa crença.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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19. Castelo Vampírico: Onde quer que morreres, morrerei, e ali serei sepultada
08 de janeiro? — A criatura foi em direção ao monstro, segurando o lampião que emanava uma luz azulada. Eu estava tonta e não conseguia me levantar…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
08 de janeiro? — A criatura foi em direção ao monstro, segurando o lampião que emanava uma luz azulada. Eu estava tonta e não conseguia me levantar. Ela veio em minha direção e me estendeu a mão esquerda, enquanto, com a direita, segurava o lampião para manter o monstro afastado. Aceitei sua ajuda com receio, mas precisava sair dali. Não podia pensar demais se ela era confiável ou não.
Levantei-me e me apoiei nela. Ela me levou até o meu quarto, ajudou-me a sentar na cama e se sentou de frente para mim, na cadeira da escrivaninha.
— Você foi imprudente. Ameritt foi bem clara quando disse que você não deveria sair do círculo — disse ela, com uma voz firme. Surpreendi-me com o pouco de emoção em seu tom.
— Se eu não tivesse te encontrado, você agora seria o jantar do monstro — falou isso com um quase rir, um leve sorriso que não acreditei estar vendo. Ela achou mesmo graça na minha possível morte? — Uma morte dolorosa e sem propósito, porque não conseguiu esperar um momento antes de sair correndo pelos corredores do castelo — ela me olhou, semicerrando os olhos.
Ela estava falando, as palavras saíam de sua boca. Eu não mais a ouvia dentro da minha cabeça, e isso chamava minha atenção, como quem chama a atenção de uma criança desobediente.
— Pedirei a Ameritt algo para te ajudar. Vi quando você caiu, e não foi uma queda que se deva ignorar. Recomendo que não durma — ela se levantou e saiu do quarto.
Fiquei sozinha, sentindo dor na parte de trás da cabeça e um zumbido no ouvido. Forcei-me a ficar acordada. Vi que, sobre a escrivaninha, estava o lampião, perto do vaso de orquídea que, havia um tempo, eu não dava a atenção devida. O livro também estava lá. A criatura deve tê-lo trazido depois do ritual. Levantei-me, sentei-me à escrivaninha e abri o livro. As letras não se mexiam mais, porém eu não tinha conhecimento linguístico o bastante para traduzi-lo. Eu poderia até tentar, mas levaria tempo. Pelo menos o ritual havia funcionado: a criatura tinha suas lembranças e o livro podia ser lido. Uma leve comichão no meu antebraço esquerdo se iniciou. Pensamentos inquietos começaram a me tomar. E comecei a sussurrar para mim mesma: “Se controle, pense com a razão, não perca o controle agora, você não precisa se apressar”. E eu queria muito aceitar minhas palavras e simplesmente parar essa vontade. Eu não sou assim. Eu sou paciente. Então por que essa ansiedade, essa pressa em iniciar? Não entendo o motivo de ser tão difícil controlar essa vontade, quando sou tão cautelosa com tudo que faço. Por que não consigo resistir a essa vontade?
Continuei sentada, pensando no que fazer enquanto esperava a criatura voltar. Coloquei os cotovelos sobre a mesa e as mãos no rosto, fechei os olhos e tentei manter minha respiração regular. Eu estava inquieta, precisava me acalmar e impedir que a vontade aumentasse. Comecei a bater as unhas na mesa de maneira ritmada para controlar o impulso de fazer aquilo que eu considerava ruim: agir sem pensar. A comichão no meu antebraço esquerdo aumentou, e eu comecei a coçá-lo sem parar, abrindo, aos poucos, a ferida que já estava cicatrizando. A dor parecia acalmar o impulso, a vontade de fazer o errado. A comichão aumentava, e eu a coçava com mais força, ampliando a ferida, mas aliviando a vontade. Senti minha mão direita ser segurada, impedindo-me de continuar com aquilo. O toque era gelado, e olhei para seu rosto sem expressão.
— Você deve parar com isso — disse a criatura.
— Devemos ir, pois precisa ser feito. Não aguento mais esperar — falei, impaciente.
— Sim, nós vamos, mas primeiro se recupere — ela concordou em ir, e eu continuava a dar ouvidos ao mal inquietante que, em algum momento, nesse castelo, se apossara de mim.
Ela enrolou meu braço com um tecido e, depois, me ofereceu o copo que segurava com suas mãos translúcidas. Disse que aquilo me faria sentir um pouco melhor. Bebi, e o sabor era metálico e amargo. Não parecia com nada que Ameritt já tivesse me feito beber. O gosto era horrível, mas ela disse que eu iria precisar daquilo quando percebeu que eu não conseguia terminar a bebida. Bebi tudo de um gole só, cada gota daquela substância horrenda, e comecei a suspeitar que não fora feita por Ameritt. Então a encarei por um momento e perguntei:
— Você consegue ler o livro, não é? — virei-me para ela, que estava de pé ao meu lado. — Mesmo nessa linguagem?
Ela confirmou com a cabeça e falou.
— Qual é a ajuda que você precisa? — Ela cruzou os braços, ficando bem de frente para mim, sendo direta.
— Eu preciso que você me ajude a… — Parei no meio da frase. Já não sabia se queria sua ajuda.
— Vamos, continue. Temos outros afazeres, e preciso que você seja breve — disse, incitando-me a continuar, com um gesto de mão.
— Eu preciso que você me ajude a ressuscitar alguém — falei de uma vez. Talvez isso fosse algo difícil para ela cumprir; trazer alguém da morte não me parecia, pelo menos para mim, algo fácil.
— Eu posso te ajudar nisso. O livro tem um feitiço para isso. Preciso recuperar meu corpo, e talvez encontremos no cemitério do castelo um que seja adequado, quando formos pegar o corpo que você precisa.
— O corpo dela não foi enterrado no castelo — murmurei, desanimada.
— Humm… Isso dificulta um pouco as coisas, mas posso encontrar formas para que seja feito. Preciso ler o livro e planejar nossa busca, listar o que iremos precisar. Então, descanse para que amanhã possamos começar.
Fui para a cama, mas o sono demorou a vir.
09 de janeiro? — Eu já tinha visto o céu mudar no castelo em outras ocasiões, já sentira seu humor mudar como um ser vivo, mas aquilo que eu via era diferente. O primeiro sinal da mudança percebi pelo som: um estalo metálico e sutil, como se engrenagens se movessem dentro das paredes do castelo. Um ranger baixo, como aço contra aço. Acordei com esses sons e olhei para a criatura, que, sentada, me observava inquieta.
— Você ouviu isso? — perguntei a ela, sentando-me na cama e tentando ouvir melhor.
— Ouço desde antes de você acordar. Está crescendo, mas o que me preocupa não é o som, e sim o silêncio.
Então eu percebi: o castelo, sempre cheio de ruídos, sussurros, passos distantes e sons difíceis de explicar, estava suspenso. Era como se estivesse prendendo a respiração ou algo o impedisse de respirar. Não dava para definir. Um silêncio opressor pairava no ar e, por trás dele, o som mecânico ritmado vinha de algum lugar do castelo — ou talvez de todo ele. Levantei-me e abri as janelas. Meu peito se apertou quando vi o céu ostentando dois sóis difusos: um dourado vibrante e outro de um cobre profundo, como dois olhos sobre um horizonte azul-cobalto e índigo intenso. Uma poeira dourada flutuava no ar e se assentou em minha pele com um brilho opaco.
— Isso é novo… e, ao mesmo tempo, não é — murmurei, tentando controlar o desconforto que aquilo trazia. Era como se eu estivesse diante de uma imensidão pintada por Vincent van Gogh, como Noite Estrelada, mas com ares mecânicos estampados no céu. As mudanças que sempre ocorriam no castelo eram assustadoras, terríveis e, às vezes, até mesmo opressoras. Mas eu nunca diria que não eram belas — e aquilo, à minha frente, era belo de uma forma arrebatadora.
A criatura se aproximou da janela, ficando ao meu lado. Seu corpo etéreo parecia vibrar com toda essa mudança. Ela estendeu a mão e observou a poeira dourada se acumular em seus dedos translúcidos.
— Parece fuligem — disse, erguendo a mão perto do rosto. — Mas sinto que não é apenas isso.
Continuei a observar o pó dourado. Eu ia responder, quando algo mais abaixo, nos jardins do castelo, chamou minha atenção. Movia-se devagar. Não era humano. Tinha pernas finas e articuladas, vapor escapando de suas juntas enquanto caminhava. Metálico e esquio, seguia em direção a um caminho que não estava ali antes… ou estava?
A criatura virou-se para mim, olhos vazios.
— Algo mudou, não é? — disse ela, com uma voz calma, como se perguntasse a si mesma. — Sim, mudou. Sempre muda. Mas, dessa vez, é como se não tivesse. Me pergunto se o castelo está mostrando o que ele quer que vejamos.
Ainda não tinha processado bem tudo que acontecera ontem: o ritual, as lembranças, o monstro, minha quase morte, o fato de a criatura ter me salvado. Mas o que mais me perturbava no momento era a estranha sensação de que tudo parecia diferente e, ao mesmo tempo, igual. Era como se tudo isso sempre estivesse ali e eu apenas não tivesse olhado direito. Parei e respirei fundo. O castelo sempre mudava, mas, dessa vez, estava diferente. Cheiros diferentes. Sons diferentes. Criaturas diferentes.
— E o que isso significa? — insisti.
A criatura ficou em silêncio por um tempo e, então, virou-se de frente para mim. Com uma calma perturbadora, disse:
— Significa que você precisa ter mais cuidado. Estamos em território desconhecido.
— Isso é óbvio, não é? — resmunguei.
— Talvez não tanto quanto você pensa — ela me observou, semicerrando os olhos. Acho que senti algo nesse olhar… desprezo, talvez? — Se você morrer, eu também morro.
Minha garganta secou.
— O quê? — foi tudo que consegui dizer.
— Nossas vidas estão vinculadas. Se você cair, eu também caio — ela sorriu, como se aquilo não fosse um problema. — Por isso te salvei.
— Como isso é possível? — Minha mente tentava encontrar uma explicação lógica para aquilo, até que me lembrei do ritual. — Foi o ritual, não foi?
— O castelo tem suas próprias regras — ela falou. — E Drácula as escreve como bem entende.
Ela fez uma breve pausa e, então, continuou:
— Agora que essa situação nos tornou mais íntimas, me chame pelo meu nome: Mara. Li suas anotações, e você tem me chamado de “criatura”.
Então ela leu meu diário. Algo péssimo para se iniciar uma “amizade”. E agora sabia sobre mim, muito mais do que eu sabia sobre ela. Fiquei em silêncio, pensando. O nome dela me incomodava, e eu não sabia o motivo… até que a peça se encaixou.
— Rute e Mara — ri sem humor. — Esse é seu nome mesmo, ou é alguma brincadeira?
Mara me olhou sem entender.
— É um teste de sanidade? Drácula realmente gosta de brincar com os hóspedes, não é? — Eu começava a ficar irritada.
Ela continuou me olhando, intrigada. Realmente parecia não entender a que eu me referia.
— No Livro de Rute, na Bíblia, há um versículo que diz: "Porque aonde quer que tu fores, irei eu; e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo será o meu povo, o teu Deus será o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu, e ali serei sepultada" — recitei o versículo com tanta facilidade que até fiquei surpresa.
Mara semicerrou os olhos novamente e, logo depois, riu.
— Interessante… Mas nunca ouvi falar desse livro.
Isso me fez duvidar. A lembrança mostrava uma catedral e o que pareciam ser freiras. Ela deveria saber o que é uma Bíblia.
— Imaginei que você conheceria — olhei em seus olhos vazios e escuros, para me certificar de que ela escondia algo.
— Realmente não sei o que seja e não consigo imaginar o motivo de você ter achado que eu saberia — ela me encarou por mais tempo, como se quisesse que eu a olhasse melhor.
— Quando fizemos o ritual, consegui ver algumas de suas lembranças e vi o que talvez fosse você em uma catedral — eu disse, desviando o olhar daqueles olhos vazios.
— Entendo. Sim, era uma catedral da ordem à qual faço parte, mas não temos Bíblia lá. Pelo que entendi, é um livro sagrado. Temos livros sagrados na ordem, mas não esse.
Ela fez uma pausa antes de continuar:
— Como o castelo vive entre realidades, você não deveria se surpreender se as nossas fossem diferentes. Também não me surpreende que tenha sido Drácula quem agiu para que esse nosso encontro acontecesse. Ele age de formas que não compreendemos… até que seja tarde — disse isso com um quase rir.
Engoli em seco. Tive que concordar com ela. As coisas que vi nas lembranças dela eram de um mundo diferente do meu. As engrenagens invisíveis aumentaram seus ruídos, girando em um ritmo um pouco mais rápido, despertando-me de um devaneio que se formava. Mara sorriu outra vez. Um sorriso ambíguo. Eu a encarei, e um arrepio subiu por minha espinha.
— Eu preciso pensar no que fazer e em como proteger nossas vidas nessa nova versão do castelo. Precisamos entender o que está acontecendo — afirmou.
Ela me explicou que deveríamos encontrar Drácula antes de qualquer coisa. Disse que eu deveria tomar cuidado: não beber nada, não tocar em nada, não passar por portas que ela não tivesse verificado antes. Ela não sabia se poderia me proteger direito, estando na forma em que se encontrava, e alertou que, se algo ocorresse, eu deveria deixá-la para trás, correr para dentro do quarto e me trancar.
Mara repetiu que era necessário encontrar Drácula, que ele nos ajudaria a ressuscitar Hadassa. Mesmo que eu não tivesse muita fé nessa informação, ela dizia que ele também traria o corpo dela. Não sei quanto tempo ficamos no quarto planejando o que faríamos. Chegou um momento em que não havia mais o que planejar, e o silêncio se formou entre nós. O castelo parecia sincronizar sua respiração com a nossa, esperando nosso próximo passo. Precisávamos sair dali e entender o que estava acontecendo.
— Se você estiver se sentindo disposta, podemos iniciar nossa busca agora. Vamos até o cemitério do castelo e, depois, procuramos Drácula. Ele tem o que precisamos.
— Não tenho certeza se ele pode nos ajudar em algo. Todas as vezes que o encontrei, ele pareceu apenas se divertir às minhas custas.
— Sim, é isso que ele faz: se diverte. Quando fui procurar Ameritt, encontrei-o no saguão do castelo. Ele usou estas exatas palavras: "Dê a ela meu sangue para que ela viva, pois o espetáculo deve continuar".
— O quê!? Você disse que iria pedir a Ameritt para me ajudar!
— Disse sim, mas encontrei Drácula antes. Não faz diferença, você está curada… ou pelo menos parcialmente curada — vi que ela olhou para minha ferida, que tornara a abrir. — Drácula te curou. Fique feliz por isso. Ele não costuma ter um bom coração… se é que tem um.
Ela fez uma pausa antes de concluir:
— Então, vamos ao que precisa ser feito.
Suspirei, irritada. Não havia como mudar o que já tinha sido feito.
— Tem mais alguma informação que você precise me dar antes que a busca por Drácula se inicie? — Minha voz saiu ríspida, e eu não via motivos para controlá-la.
— Drácula é quem vai ressuscitar Hadassa. Ele também decidirá o preço que você deve pagar… então esteja preparada para negociar — falou, virando de costas para mim e indo em direção à porta.
Saímos do quarto e viramos à esquerda. Mara parou de repente. Sons sutis de metais. Engrenagens se movendo cada vez mais rápido. Ela começou a dar passos mais lentos em direção aos sons. Foi então que senti o cheiro ácido e adocicado de óleo queimado, o aroma sutil de ferrugem úmida e carvão.
— O castelo mudou de novo… Olhamos para o lado por um breve momento, e ele mudou. Estive no saguão há pouco, e nada disso estava aqui — Mara olhava de um lado para outro, à minha frente, verificando todo o espaço.
Continuamos nossa caminhada e, aos poucos, percebemos as diferenças. Máquinas que antes não estavam no castelo agora se faziam presentes. A cada passo, os sons mecânicos ficavam um pouco mais altos, contrastando com o silêncio opressor que reinava. Vapor. A luz amarelada de lâmpadas a gás projetando sombras sutis nos corredores. Corredores que eu achava conhecer. Os sons aumentavam. O ar tornava-se denso, como se atravessássemos camadas e mais camadas sobrepostas. De ar? De tempo? Ou talvez da própria alma do castelo? Não sei dizer. O castelo, esse organismo pulsante, parecia ter decidido expor suas entranhas de forma sutil. Eram belas… mas pareciam fora de contexto, e eu não conseguia raciocinar.
Minhas lembranças diziam que as paredes eram de tijolos escuros, mas agora eu via engrenagens embutidas nelas, canos, ferro, cobre e vapor. Os belos vitrais, que antes jurava exibir cenas distintas, agora mostravam engenhos que eu ainda não compreendia e dirigíveis flutuando entre as nuvens. E o teto… Eu poderia jurar que sempre fora escuro e abobadado, mas agora exibia tubos de cobre como veias e artérias. Senti meu coração acelerar. Eu sabia que algo havia mudado, mas, ao mesmo tempo, parecia que nada mudara. Estava inquieta. A comichão em meu braço esquerdo retornava. Será que fui cega esse tempo todo, ou o castelo realmente mudou? Mara disse que se sentia da mesma forma, mas, se isso a afetava, ela escondia bem.
Encostei a mão em uma coluna de ferro ornamentada. Senti pequenas vibrações, um calor estranho. Isso deveria me parecer familiar, não deveria? Hesitei antes de continuar o caminho com Mara. Não esperava nada ao sair do quarto com ela, mas, em vez de entranhas, veias, carne e cheiro de sangue, havia tubos, canos, vapor, metais e fuligem. Andar pelos corredores do castelo era como caminhar em um labirinto que se modificava a cada passo que dávamos. O ar, por vezes seco, por vezes úmido. O espaço oscilava entre passado e futuro. Dentro de mim, crescia uma pressa em compreender o que estava acontecendo. Portas surgiam onde antes não existiam. Passagens conhecidas desapareciam. Descemos escadas que não lembrávamos ter visto antes. Passamos por portas que se abriam para espaços que, aparentemente, não deveriam estar lá.
Uma porta de ferro e cobre estava entreaberta, Mara olhou por ela por alguns segundos e entrou, dizendo que era ali que deveríamos entrar, eu ainda hesitei por alguns instantes antes de segui-la. No centro de uma grande sala, havia uma bancada desorganizada, com frascos que reluziam com cores vivas, engrenagens, peças de ferro ou cobre, papéis com esquemas, fórmulas e cálculos. Livros empilhados, máquinas estranhas, criaturas como aquele que eu havia visto ao olhar pela janela do meu quarto, umas outras faltando partes.
— Estamos sendo observadas — Mara sussurrou ao chegar bem perto de mim. — Fique perto de mim.
Um brilho azul, num canto escuro da sala, se acendeu revelando o rosto imóvel de nosso observador.
— Vocês estão perdidas? — sua voz era densa, ele caminhou devagar até onde estávamos. Eu parei e fiquei olhando para ele.
— Ninguém se perde num castelo que decide onde você deve ir, não é? — Mara retrucou dando alguns passos a mais e ficando à minha frente.
— É interessante a forma como você vê as coisas. — afirmou ele encarando Mara com olhos frios, por mais tempo do que eu achei necessário.
Me aproximei só um pouco para olhar as máquinas em volta de nós, que pulsavam com uma lógica que me escapava, engrenagens que se moviam, marcadores que giravam. Nada ali fazia sentido e ao mesmo tempo estava em ordem, minha mente se admirava com aquilo e mesmo assim não conseguia decifrar nada.
— Você é cientista — ele disse isso mais como uma afirmação do que como uma pergunta.
Senti que Mara se enrijeceu perto de mim, não precisei olhar para ela para saber que semicerrou seus olhos, carregado com aquele desprezo que, no nosso pouco tempo juntas, reservará a mim.
— Era, antes do castelo — eu respondi desviando o olhar, voltando a observar as máquinas à nossa volta.
— Não existe “era” cientista — sua voz era firme, lenta — uma vez pessoa da ciência, sempre pessoa da ciência. O conhecimento não sai de você, só muda de forma. Isso não se abandona, mesmo que se tente. — ele afirmou dando mais alguns passos em nossa direção.
— O problema não é parar de fazer ciência, é quando a ciência para de fazer sentido para você.
Ele parecia saber mais sobre mim do que deveria ou era coisa da minha cabeça? Mara bufou e cruzou os braços.
— Palavras vazias, as suas. A ciência possui tanta arrogância quanto as superstições que alguns tentam destruir. Tudo isso — ela apontou para as máquinas e os livros — é só outra máscara para a ignorância. Isso tudo pode ser ciência ou feitiçaria. — Ela olhou para a bancada que eu analisava e parou seu olhar nos papéis. — Ah, ciência, é claro… Mas ciência não é apenas feitiçaria com método? — perguntou, voltando a encará-lo.
Isso era algo que eu não poderia discordar. Houve um tempo em que eu teria negado tal ideia, tentando explicar o quanto aquela fala não fazia sentido, mas agora, não mais. Eu havia sido vencida pela aparente falta de lógica do castelo — que, na verdade, possuía uma lógica incomum, mas que, para mim, tornara-se muito atraente.
Meu olhar recaiu novamente sobre os livros antigos, anotações avulsas e equações incompletas. Ele não pareceu se ofender com o que Mara dissera, apenas ficou a nos observar, analisando-nos em um breve silêncio. Quando voltou a falar, olhei em sua direção.
— A ignorância é um conceito relativo… Mas acredito que você entenda, não é? — disse ele, olhando para mim.
Eu não soube responder, não naquele momento, porque algo dentro de mim, que eu pensava ter deixado para trás, se remexeu.
— A propósito, me chamo Arturo Vasquez — ele deu alguns passos e estendeu a mão para mim, ficando bem de frente a Mara.
— Me chamo Rute — dei alguns passos, posicionando-me ao lado de Mara e apertando a mão dele. Seu aperto era firme.
Ele estendeu a mão para Mara, que cruzou os braços, recusando-se a apertá-la.
— Eu sou Mara — ela murmurou, enquanto ele recolhia a mão e sorria de leve para ela. — Feitas as apresentações, agora precisamos ir.
— Esperarei pelo nosso próximo encontro — ele inclinou a cabeça como um gesto de despedida, e nós seguimos nosso caminho.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Velian – O Som das Engrenagens na Eternidade
Velian caminhava entre as sombras de Fortaleza, sentindo o cheiro de maresia misturado ao ferro enferrujado dos portos e ao suor adocicado…
Criatura núrida, tu estás prestes a ler um dos capítulos da história de Velian, um vampiro cuja profundez existencial é capaz de tocar em nossos modos-de-ser, nos imergindo em reflexões existenciais de inestimável valor. O autor tem uma técnica fascinante para que a leitura, ainda que densa em existencialidade, nos desperte um inenarrável prazer, dada a sua qualidade literária. Aprecie e boa leitura!Com sombrio apreço, a Anfitriã Sahra Melihssa
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Velian caminhava entre as sombras de Fortaleza, sentindo o cheiro de maresia misturado ao ferro enferrujado dos portos e ao suor adocicado das ruas noturnas. Pensava o vampiro que em outros tempos as ruas das grandes cidades que conhecera, como Londres, Amsterdã, Paris, entre tantas outras, eram ruins em épocas diferentes, por motivos diferentes, como pestes, pobreza e muito mais, Porém agora tudo era ruim porque parecia muito mecânico, mesmo com o suor das danças noturnas, com a sobrecarga de trabalho dos humanos e todo o sofrimento, parecia para Velian, que havia uma sombra pairando a humanidade, principalmente nas grandes zonas urbanas, em que tudo era muito, muito mecânico, pensava Velian sobre a vida nesses últimos meses, em suas idas e vindas pelo Castelo Drácula. Velian tinha certeza de que o Castelo Drácula era uma manifestação de outras dimensões, seu conhecimento espiritual e de ser sobrenatural lhe davam essa certeza.
Porém o Vampiro sabia também que o Castelo lhe mostrava muito de seu mundo interno e ele às vezes ficava confuso e se perguntava se realmente era digno de entrar no Castelo por não entender muitas vezes as simbologias, mensagens e significados das várias dimensões do Castelo Drácula. Por vezes Velian desejava encontrar o próprio Drácula, mas sempre era submetido a entrar em outras camadas do Castelo e conhecer diferentes seres. Velian não estava tão confortável em apreciar apenas vagamente esses seres que às vezes lhe provocavam medo e o vampiro tinha que lutar e se dispor de todos os seus poderes para encarar tais seres grandiosos, mas que ia e vinham brevemente. Voltando a pensar sobre sua vida em Fortaleza e a observar como vivia, percebeu: as luzes dos postes piscavam sobre as calçadas rachadas, refletindo o mundo moderno que parecia ao mesmo tempo imutável, decadente e repetitivo. Fazia meses que sua fome se tornara diferente — não era apenas por sangue, mas por algo que ele ainda não sabia nomear.
Matara mais do que o habitual. Seduziu mulheres e homens com beijos e promessas vazias, apenas para desaparecer de suas vidas e os deixar no desespero do abandono. Gostava da ilusão de controle, de ver os corações partidos como espelhos estilhaçados refletindo fragmentos de sua própria alma quebrada. Mas nada disso o preenchia. Nem a caça, nem o desejo, nem o caos que espalhava ao redor. Ele se perguntava se algum dia voltaria a realmente sentira prazer nesses jogos ou se tudo não passava de um reflexo pálido do tédio e da insatisfação.
Ele olhou para o céu. Cinzento. Impessoal. Como se o universo estivesse indiferente à sua presença.
E então o chamado veio. Velian entendia que precisava de mais tempo para outro sobressalto do Castelo e uma outra dimensão que apenas iria novamente, mas ainda assim o chamado veio.
O Castelo Drácula sempre o convocava quando sua alma estava prestes a afundar demais na monotonia do mundo. Sentiu o puxão em seu peito, como se algo arrancasse sua consciência da cidade e a atirasse para um outro lugar. O vento mudou. O cheiro de ferrugem e vapor substituiu a maresia. O calor úmido do Ceará deu lugar a um frio metálico. Quando abriu os olhos, não estava mais em Fortaleza.
Estava diante do Castelo. Mas ele não era o mesmo (como sempre).
O Som das Engrenagens
As engrenagens giravam nos cantos mais improváveis. Tubulações surgiam dos muros, exalando vapor denso. Os corredores pareciam agora parte de uma máquina viva, movendo-se lentamente, respirando em estalos metálicos. O céu era tomado por uma poeira dourada que obscurecia as estrelas, e no horizonte dois sois ardentes se erguiam, lançando uma luz acobreada sobre tudo.
Velian caminhou pelo pátio, sentindo o chão de metal frio sob seus pés. Uma sensação de inevitabilidade o tomou. Era como se estivesse dentro de um mecanismo muito maior do que sua compreensão. Tudo era efêmero, tudo seguia uma programação invisível. Ele, um vampiro há séculos no mundo, poderia ser imortal, mas diante da engrenagem do destino, até mesmo ele parecia insignificante.
Foi então que a viu.
No centro do pátio, entre as engrenagens e o vapor, uma mulher de manto negro que o vampiro identificou como a mesma mulher da última visita. Tudo ao seu redor era diferente, mas a mulher, sua presença e sua poderosa energia eram a mesma, Velian ficou até feliz de ver o mesmo ser, mesmo em outra dimensão, ela caminhava lentamente, guiando um pequeno rebanho de cabras negras, como da última vez. Seu cajado de carvalho era encimado por uma pedra negra, pulsante como um coração. Havia algo de bruxa nela. Algo de vampira. Algo de deusa ancestral que existia antes mesmo que os mundos tivessem forma. Velian se preparava para ter com esse ser e não podia ser coincidência que ela ali estivesse novamente.
Ela o olhou, e sua voz cortou o silêncio com um tom que não pertencia a este tempo.
— Tu andas perdido, como sempre.
Velian cruzou os braços, sentindo o incômodo de ser lido tão facilmente.
— E há outro caminho a seguir? A não ser a dúvida? A não ser a angústia?
Ela sorriu de forma enigmática.
— A engrenagem gira, e essa dimensão representa apenas isso – as faces das eras não param, apesar da monotonia de alguns instantes, mas não és tu quem a move. Tens vivido como se buscasses o sentido nas ruínas do desejo, nas cinzas das paixões destruídas. Mas até quando?
Ele desviou o olhar para os dois sois difusos.
— E qual seria a alternativa? Seguir um destino rígido? Aceitar um papel pré-escrito? Como essas engrenagens malditas dessa dimensão, seja lá qual for ela? Se tudo está conectado por engrenagens invisíveis, há como quebrar esse ciclo?
Ela se aproximou, e o cheiro de terra antiga, ferrugem e sangue fresco emanou dela.
— A dúvida te corrói, mas também te mantém vivo. No dia em que parares de perguntar, serás apenas mais uma peça nessa máquina infinita. Há tempos olhas para a eternidade e te perguntas o que fazer com ela. Mas eu te digo… o que fazes com um único instante?
Velian a fitou. Sua presença era hipnótica. Ele sentia que, de algum modo, tinha aprendido algo, ou entendido algo, mas ainda não sabia o quê.
O vapor sibilou ao redor deles, e, por um breve momento, tudo pareceu congelar. A mulher sorriu novamente antes de desaparecer na névoa dourada.
Mas Velian não gostava daquilo. Um mundo de engrenagens para ele, um ser romântico nos termos de um poeta louco, seu sentir demais, não gostava daquele mundo que agora pairava sobre ele, desejou ainda dialogar mais que esse ser ancestral que ia e vinha das várias dimensões e desejou sair daquela dimensão em que estava, pois não gostava de engrenagens e do conceito de destino e de tudo ser meramente funcional, como as engrenagens naquela dimensão pareciam mostrar.
Entre a Máquina e o Sangue
Ele detestava a visão do Castelo transformado em uma prisão de engrenagens. A ideia de um destino rígido, de um ciclo que girava por si só, o enojava. O que era um ser imortal senão um errante sem caminho definido? Ele não queria ser parte de uma máquina sem alma, programado para existir sem sentir.
Foi nesse momento que compreendeu algo muito importante.
Não era o caos, a destruição ou o vazio que o movia. Não era a sedução para o abandono, o prazer na angústia alheia, nem o desejo de quebrar corações apenas para ver os estilhaços. Nada disso o preenchia. O que verdadeiramente o sustentava era a conexão, ainda que efêmera.
A troca de olhares no meio da noite. O calor de um corpo desconhecido em sua cama. O sussurro de um segredo que nunca seria repetido.
Não importava que os momentos fossem passageiros. Não importava que, no fim, tudo se dissolvesse no esquecimento. Enquanto duravam, eles eram reais. Com esse pensamento, ele decidiu que era hora de voltar.
Mudaria de identidade mais uma vez, deixando para trás o vampiro que devorava e destruía por tédio. Não se livraria de suas dúvidas, mas aprendera que elas eram parte dele. Não era assim também com a humanidade? A incerteza, o medo, a busca por sentido no vazio?
Talvez ele fosse, afinal, a personificação da humanidade.
Sempre teria questionamentos. Sempre sentiria o vazio corroer sua alma. Mas agora entendia que, no meio da escuridão, existiam fagulhas de conexão que tornavam a eternidade suportável. Em meia a devaneios e reflexões, olhou novamente para o mundo mecânico, mas tudo o que viu foi o topo do prédio em que estava após sua última cassada, estava de volta à velha capital cearense e estava feliz pela primeira vez de não estar em alguma dimensão perdida, principalmente aquela feita de engrenagens.
E talvez fosse a hora de visitar Cassandra.
Não para buscar respostas, o vampiro ponderou que respostas e conhecimento eram coisas diferentes, então decidiu partir em busca de Cassandra e de conhecimentos que nem ele conhecia bem, mas que a vampira ancestral, por mais debochada e irônica que fosse, dominava muito bem.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Ferruginoso
Desperto mais uma vez em meus aposentos, e o que presenciei em Somníria reverbera em minha mente como uma tristonha canção…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Desperto mais uma vez em meus aposentos, e o que presenciei em Somníria reverbera em minha mente como uma tristonha canção. Melancólica, meus olhos passeiam pelas fissuras presentes nas superfícies das inúmeras pedras maciças do abobadado teto. Perco-me em devaneios sobre a construção deste imponente castelo, e uma pergunta paira sobre minha cabeça: quanto sangue teria sido derramado para erguer estas sólidas paredes?
Bom, estou ‘condenada a viver’ neste infindável limbo sob a regência das perversas mãos do desconhecido. Porém, algo me faz acordar deste transe: uma luz flamejante oriunda de fora atravessa a enorme janela, fazendo com que o lindo lustre vitoriano acima de mim brilhasse terrivelmente. Procuro abrigo na alta cabeceira de veludo verde, abraço meus trêmulos joelhos e me cubro. Parece que o sol está mais quente que o normal. Permaneço encolhida, enquanto a luz mortal consome ferozmente cada resquício de escuridão do meu quarto.
No momento em que cruzei os descomunais portões deste lugar, encontrei a morte algumas vezes, porém nada se compara a isto. De repente, um medo inexplicável perfurava minha alma, uma angústia sem razão aparente preenchia meu âmago vazio.
Precisava agir rápido. Procurei por espaços onde havia vestígios de escuridão; infelizmente, eles eram cada vez mais escassos. O desejo de saber o que se passa lá fora me perturba. O castelo, que em sua natureza é gélido, sentiu uma insólita e sufocante onda de calor, mas temo que essa luz não seja proveniente do sol, e sim de algo grandioso.
Finalmente, encontro uma brecha. Respiro fundo e salto da cama até a porta (ela se encontra a uma distância considerável). Enquanto saltava, desejei ter um breve vislumbre deste enigmático fenômeno, mas, ao fazer isso, deixaria este mundo num piscar de olhos, tal qual a mulher de Jó. Cheguei à porta, abri e saí com rapidez.
Ofegante, contemplei o longínquo e mal iluminado corredor. Caminho em busca de respostas, enquanto as sombras das pendentes velas parecem zombar de mim.
Será que Ameritt sabe de algo? Nosso último encontro foi catastrófico, ainda assim preciso vê-la. Após muito andar, começo a ouvir algo assombroso, um som que parecia surgir das espirais da cóclea, reverberando como um impronunciável sigilo, deixando-me paralisada. Porém, o som vinha de fora. Intrigada, encostei meus ouvidos sobre as paredes. Então ouvi algo tenebroso, semelhante a um terrível ranger de inúmeras engrenagens ocultas, girando em perfeita sincronia. Atônita, prossegui em direção ao oculto.
Em certo trecho, percebi que havia algo além do desagradável ruído: o ar estava denso, chegando a causar náuseas. Apoiei-me nas paredes, respirei e logo percebi: era o odor pungente de ferrugem. Apressando os passos, finalmente alcancei uma porta, que nada se parecia com a porta daquele mágico lugar onde Ameritt tão sabiamente zela pela estufa.
Erguia-se perante mim uma porta ovalada descomunal, feita de um material semelhante ao cobre. Havia incontáveis engrenagens e parafusos, de diferentes tamanhos e espessuras, cobrindo-a por completo. Pareciam provenientes de algum lugar do espaço; seu comportamento obedecia leis não terrestres. Cada engrenagem tinha sua forma de girar, criando diferentes sons, causando estranheza e uma inexplicável fascinação.
Não sei quanto tempo perdi admirando aquele monumento, mas precisava descobrir. Então, ao tocar na maçaneta, senti o repulsivo toque álgido do metal. Foi necessário um pouco de força. Ao abrir, sou recebida com um intenso sopro metálico; o cheiro me causou ânsia. Tranco-a.
A princípio, não consegui ver a dimensão do lugar. Manter-se em pé tornou-se difícil, visto que o ar ali era denso, quase palpável. Aos poucos, o lugar tomou forma através de sons. Ouvi o silábico gotejar de líquidos e também o leve chiar, indicando algum processo de ebulição. Lentamente, aquele lugar se revelou a mim. Era semelhante a uma caverna. Acima de mim, um inalcançável teto abobadado. A vasta e misteriosa vegetação se fundia com as engrenagens. Vejo também vapores índigos serpentearem pelo ar através dos tubos de ensaio. Envolvida pelo terrífico odor ferruginoso, caminho. Quero saber que surpresas me aguardam. É quando um sussurro ecoa:
— Quem está aí?
Sua voz, aparentemente gentil e amigável, me deixou tranquila.
— Pode se aproximar, eu não mordo.
Em seguida, sorriu de forma arteira.
Cautelosa, sigo. Conforme me aproximo, sinto novos odores: óleo queimado, resíduos de alguma alquimia oculta.
— Olá, cara visitante, como se chama?
Apresentei-me, mas com cuidado para não falar demais, apesar de me sentir à vontade perante ela.
— Prazer, Rose. Me chamo Evelyn Dubois!
Seus olhos me estudavam.
— O prazer é meu, Evelyn! Bom, que lugar é este? Eu deveria estar em outro lugar, mas já deveria ter me acostumado.
O castelo está em constante mudança: os corredores se alongam ou diminuem, portas mudam de lugar, além dos acontecimentos peculiares que comumente ocorrem.
Ela prestou atenção em cada palavra dita por mim, ao mesmo tempo que manipulava um líquido roxo em um tubo de ensaio.
Trajava um jaleco branco fechado por apenas um botão e, por baixo dele, havia um lindo vestido vitoriano verde-musgo. Seu rosto era delicado, seus olhos, verdes; seus cabelos pretos estavam amarrados; sua pele era pálida. Ela continuou:
— Bem, Rose, isso vai demandar bastante tempo, mas chegará um dia em que você se acostumará com os eventos ocorridos aqui.
Ela contou brevemente sua história: sua mãe era costureira, e seu pai, um excêntrico cientista. Sua obsessão era desenvolver tintas fotossensíveis. Mas, num fatídico dia, houve uma explosão. Após o incidente (ela não entrou em detalhes sobre o que acontecera a seu pai, e achei melhor não perguntar), assumiu as pesquisas dele. No entanto, de alguma forma, seu foco se voltou para a chamada "cor oculta".
Fiquei curiosa com sua história, e, quando perguntei sobre sua pesquisa, notei uma mudança abrupta. Era perceptível sua frustração em relação à sua pesquisa; parecia que não tivera bons resultados.
— Que lugar é este? — perguntei para mudar o rumo da conversa. Imediatamente, vi a mudança em seu rosto, tornando-se mais uma vez amigável.
— Você está em meu refúgio, um laboratório que se encontra nos arredores do castelo.
Comentou um pouco sobre um evento denominado "Nemonium" e, por algum motivo, uma horrenda criatura foi vista pelos corredores, assombrando os moradores. Gritos de terror foram ouvidos além dos arredores.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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A Sinfonia de Engrenagens
O castelo tinha encantado Minerva de uma maneira tão sublime que fez com que ela decidisse residir ali por algum tempo, completamente…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Músicas de inspiração: “Castlevania – The Clock Tower” e “Dark Sanctuary - The Garden of Jane Delawney”
O castelo tinha encantado Minerva de uma maneira tão sublime que fez com que ela decidisse residir ali por algum tempo, completamente absorvida pelos mistérios que pareciam não ter fim. Ao explorar seus corredores, sempre descobria uma nova sala, um armário oculto, cofres selados e livros em línguas desconhecidas, aguardando para serem desvendados. Cada ambiente era único, e cada porta ou escadaria parecia se abrir para uma infinidade de dimensões. Nenhuma janela jamais oferecia a mesma vista que a outra.
Tomada pelo desejo de entender os segredos daquele lugar, Minerva sentiu em seu coração a necessidade de explorar o castelo cada vez mais, mapeando-o para descobrir até onde poderia ir. Decidiu se acomodar no quarto marcado pelo símbolo do ouroboros na porta, considerando-o a confirmação de seu chamado; ela agora era uma convidada do castelo. Ao despertar, em um horário que imaginava ser pela manhã, ergueu-se da cama, pensativa, enquanto um som distante e metálico começava a penetrar seus tímpanos, como um eco sutil de algo mecânico que se movia em algum lugar.
Intrigada, ela se levantou, recordando que quando dormiu aquele som parecia estar presente, mas tinha se intensificado. Ela usava um vestido preto longo sem muitos adornos, semelhante a um dressing mourn sem mangas longas, usava uma crinolina por baixo da saia que dava sustento à peça. Ela percebeu que o ar estava mais quente e não frio como de costume.
A bruxa trançava o próprio cabelo com movimentos automáticos, os dedos puxando os fios diante do rosto enquanto seus olhos se fixavam no mesmo espelho onde o Ttyphrssett havia se manifestado em sua imagem. Uma melancolia diferente começava a tomar seu coração um peso silencioso que ela evitava nomear. Terminando a trança, prendeu-a em um coque apertado, fixando-o com seu broche de mariposa pensando em evitar o calor.
Naquele momento o que sentia era aquele sentimento oriundo da alma, um eco do medo primitivo que habita o inconsciente humano e causa o medo do escuro e do abandono. Foi com essa sensação que ela despertou naquela suposta manhã, enquanto o som metálico de engrenagens trabalhava à distância, reverberando como um presságio e entregando um recado do calor.
Seu olhar se voltava incessantemente para a própria imagem no espelho, tentando desvendar o significado do que via. A tempestade de neve já se dissipara há algum tempo, mas a mente de Minerva continuava nublada, e ela não conseguia lembrar quando isso havia ocorrido. O que a inquietava, no entanto, era o som distante das engrenagens, que pareciam eternas. Não sabia há quanto tempo escutava, mas estava certa de que sua percepção sonora se alterara. Já fazia tanto tempo que, em certos momentos, esquecia daquelas engrenagens, até o instante em que o som se infiltrava novamente em sua consciência.
Para esquecer aquele som ela resolveu exercer sua prática meditativa, então sentou-se no centro do seu aposento para se concentrar. Abaixo dela, uma linha circular azulada pairava no ar enquanto estava suspensa sobrenaturalmente, o traço da figura se desenhava em um brilho prateado-azulado, expandindo-se e contraindo-se em uma cadência hipnótica, refletindo o fluxo de sua própria energia. No entanto, ela se desconcentrou pelo barulho e toda a imagem se desfez, ela parou de flutuar.
Por um momento, Minerva olhou ao redor do quarto, inquieta, tentando localizar a origem do som que ecoava em sua mente, mas sem sucesso. Nos dias que passou mapeando o castelo, ela havia se dedicado a organizar o ambiente, decidida a fazer com que sua estadia, embora temporária, fosse confortável. Com determinação, conseguiu os suprimentos necessários para se manter ali, adaptando-se ao peculiar ritmo daquele lugar.
Ela continuou a olhar para os lados, observando os móveis de madeira escura, as paredes com rachaduras, o piso, os candelabros do quarto. Tudo parecia imóvel enquanto o som das engrenagens continuava a ecoar. Ela suspirou, chateada, e cutucou o ouvido direito com o dedo, tentando aliviar o zumbido agudo causado por conta do som. Desconcertada por aquele fenômeno não parar, ela decidiu investigar, em outros momentos já tinha ouvido sons estranhos e passos fantasmagóricos por lá, mas nada a tinha incomodado tanto quanto aquele som metálico e que parecia aumentar a cada momento.
Minerva então deixou seu aposento e caminhou pelo longo corredor, tentando seguir o som que parecia um farfalhar metálico, entrando em sua mente e se intensificando gradualmente. Incomodada, ela avançava a passos firmes, observando atentamente cada detalhe ao redor: os móveis de mogno, os quadros nas paredes, retratando paisagens estranhas e cósmicas. De repente, as engrenagens cessaram, e um silêncio profundo tomou o ambiente. Mas Minerva não hesitou. Continuou em frente, avançando em direção às escadarias encaracoladas, determinada a descer e descobrir a origem daquele som perturbador.
Ela iluminou o espaço sombrio, já que a ausência de janelas ou vitrais na escada impedia que qualquer luz natural adentrasse. Mesmo com o sol a brilhar no céu, lá fora, a atmosfera interna parecia ser perpetuamente escura. Enquanto descia os altos e longos degraus da escadaria, um som peculiar ecoou em seus ouvidos uma risada leve e despreocupada, que parecia vibrar nas paredes, como um sussurro fantasmagórico. Talvez fosse um dos espíritos que perambulavam pelos corredores do castelo, pensou ela, tentando não se deixar levar pelo desconforto.
Era uma risada infantil, suave e enigmática. Por um momento, Minerva teve a impressão de ouvir seu nome sussurrado pela mesma voz que ecoava a risada. Seu coração acelerou, e, em um reflexo, ela intensificou a luz da esfera em suas mãos, tentando iluminar os cantos escuros ao redor. Porém, o que encontrou foi apenas a infinidade dos degraus que continuavam a descer quase sem fim, e nenhum sinal de presença alguma além de si própria.
Ao atravessar um grande portal, Minerva chegou ao hall de entrada do castelo, um espaço que irradiava uma aura de magia enigmática. Ela caminhou alguns passos, os ecos de seus pés pesados ressoando no piso, até avistar uma garotinha loira, de cabelos curtos, correndo rapidamente. A menina entrou em uma das portas, e com ela, o sussurro e a risada infantil que Minerva havia ouvido antes. A menina usava um delicado vestido branco, que contrastava com um corset de acobreado, ajustado em sua figura, moldando sua silhueta com precisão. Nas pequenas mãos, um par de luvas na mesma tonalidade de cobre, projetadas com cuidado para lidar com maquinários.
Por um momento, Minerva pensou em ignorar, acreditando ser apenas mais uma visão proferida pelo próprio castelo. Mas algo em sua intuição a instigava a seguir a garota. Sem mais hesitar, Minerva a seguiu apressadamente, enquanto a menina chamava: “Vem comigo!” A voz dela ecoava de forma doce, e o risinho juvenil, brincalhão, parecia contagiante, mas também provocava em Minerva, uma irritação crescente, como se fosse uma brincadeira não solicitada.
Ao parar por um momento, ela contraiu a mandíbula após suspirar e cruzar os braços. Simplesmente não estava disposta a perseguição. Ela revirou os olhos, exalando um sopro sutil pelas narinas, um pequeno jato de ar quente, quase inaudível, mas carregado de impaciência.
As sobrancelhas de Minerva se arquearam, denunciando seu desagrado. Ao se virar e começar a regressar até a entrada, a menina surgiu diante dela, com os olhos grandes e arredondados, da cor de mel, como se refletissem a luz com um brilho estranho. Seu cabelo loiro e curto emoldurava seu rosto, formando uma franja arqueada como uma meia-lua, enquanto seus lábios permaneciam cerrados, formando uma linha rígida.
— Quem é você? — Minerva deu de ombros e estreitou os olhos interrogando-a, avaliando a presença inesperada.
— Eu sou a responsável pelas máquinas do castelo, não sabia? — a menina posicionou as mãos sob a cintura.
— Então existem mais pessoas aqui? — Minerva pôs a mão no queixo pensativa fazendo um arco sob seu lábio inferior. — Sou Minerva Caligari princesa do reino de Áugures, mas no momento sou apenas Minerva.
— Muito bem apenas Minerva, eu me chamo Evelyn Dubois, estive te observando você causou um alvoroço e tanto com a sua chegada, não foi? Acho que talvez você possa me ajudar. Perdão pela forma como me aproximei, só queria me divertir um pouco, você sabe... O castelo pode ser meio parado às vezes!
— Na verdade, talvez você me ajude a encontrar de onde vem aquele barulho insuportável.
— Eu ia te levar em um lugar, tem uma coisa acontecendo no céu que acho que você vai se interessar. Você sabe, o céu aqui no castelo não é “apenas o céu” como você também não é “apenas Minerva”.
A bruxa deu um passo para trás, lançando um olhar de incredulidade para a menina, tentando compreender como alguém poderia ser tão extrovertido e audacioso. Algo na postura da garota a fazia sentir um estranhamento, como se ela própria estivesse diante de um reflexo de sua juventude curiosa, intuitiva, impetuosa. Era como se a menina fosse uma versão mais jovem de si mesma.
A garota começou a andar saltitante à frente, acenando para que Minerva a seguisse. Sem hesitar, ela a acompanhou, atravessando um dos portais do hall que as conduziu a um corredor mais estreito. A iluminação era tênue, mas não vinha de candelabros; àquela altura, a esfera luminosa de Minerva já havia sido dispensada por ela própria. O corredor não possuía janelas, e as únicas coisas visíveis nas paredes eram tubulações metálicas que serpenteavam como veias expostas. O piso era coberto por um tapete vermelho, que se estendia até o final do corredor, onde uma porta de cobre estava embutida na parede.
Aquela porta chamou a atenção de Minerva, seus olhos se arregalaram ao ver engrenagens que se retorciam por toda a estrutura. Engrenagens de diferentes tamanhos interligavam-se em um mecanismo complexo, algumas girando lentamente com um leve chiado à vapor, como se a própria estrutura tivesse força própria.
— Você vai ver que alguma coisa aconteceu aqui no castelo, o céu anda estranho ultimamente, não sei se você já foi lá fora, mas o céu está estranho. — A menina se aproximou da porta e tirou de dentro do colarinho do vestido uma chave, com ela destravou a tranca da porta e com uma reverência, pediu que Minerva adentrasse o lugar após ela mesma passar pela porta.
— Bem-vinda à minha casa, apenas Minerva!
O teto alto era sustentado por vigas de ferro forjado, de onde pendiam lâmpadas elétricas presas a braços mecânicos, lançando uma luz amarelada e instável sobre o ambiente.
Os olhos de Minerva brilharam ao ver o que estava por trás daquela porta. Era um lugar estranho e diferente de tudo o que ela já vira, parecia-se com o cômodo de uma casa e ao mesmo tempo com um laboratório. O teto alto era sustentado por vigas de ferro, de onde pendiam luzes. Extasiada pela visão de tantas coisas diferentes ela apoiou a mão na porta de engrenagens e entrou no local tomando cuidado ao descer dois degraus.
Minerva avistou duas janelas redondas ao fundo do aposento e ao centro estava uma mesa de mogno. Próximo à mesa, em meio ao emaranhado de fios e tubos, um homem repousava em uma cadeira de rodas de estrutura reforçada, com pistões hidráulicos adaptados ao eixo das rodas.
Seu corpo era uma fusão grotesca de carne e metal: o rosto, marcado por cicatrizes profundas, trazia uma expressão vazia. Minerva o fitou curiosa e depois dirigiu o olhar para Evelyn.
— Este é o meu pai ele não fala muito, venha comigo o que quero te mostrar está bem ali.
Evelyn se posicionou em frente a uma das janelas aguardando que a bruxa se aproximasse e quando ela o fez a garota acenou com a cabeça para que ele olhasse pela grande janela redonda. Mais uma vez os olhos de Minerva foram surpreendidos, no céu azul cobalto dois sois ostentavam seu poder bem próximos um do outro, dourados com um aspecto metálico. Impressionada ela baixou o olhar para a paisagem estranha onde avistou um jardim de flores estranhas que apontavam para os dois sóis como fazem as margaridas. Ao longe ela avistou uma estufa vítrea que cobria uma parte daquele lugar.
— Evelyn, o que está acontecendo lá fora? — perguntou Minerva tentando não demonstrar sua recente curiosidade aflorada.
— Realmente não tenho o que dizer sobre os sois, mas acho que a máquina do papai está funcionando novamente. Você sabe, ele era um excelente inventor até o incidente. Eu queria continuar o que ele começou procurando o “éter etéreo” achei que você pudesse me ajudar. O sol maior está se aproximando de nós.
— Não sei como posso te ajudar, mas isso com certeza explica o calor no castelo, temos dois sois pairando sobre nós.
— Eu acho que se descermos no jardim mecânico encontraremos o que eu procuro, você vem comigo?
— Deve ser fascinante, por favor, me guie até o local!
Após as palavras de Minerva, o som das engrenagens retornou, mais intenso e penetrante do que antes. O ruído reverberava pelo ambiente, fazendo Minerva cerrar os dentes ao sentir um zumbido incômodo nos ouvidos. Evelyn, alarmada, correu até seu pai, que se remexia inquieto na cadeira.
Com um movimento brusco, ele puxou uma alavanca lateral, ativando o mecanismo das rodas. A estrutura metálica da cadeira estremeceu e liberou um jato súbito de vapor por um pequeno cano, enquanto girava descontroladamente pelo aposento. Evelyn tentou conter o movimento, segurando as laterais com força, até que finalmente conseguiu estabilizá-la.
— Meu pai... — ela começou ajeitando a postura dele e lançando um olhar rápido para Minerva. — Ele sempre foi obcecado pelo trabalho. A maior parte do que existe aqui foi criação dele... um grande inventor.
Minerva observou a cena com atenção, seus olhos percorrendo os detalhes da cadeira e da sala, absorvendo cada peça, cada engrenagem que compunha aquele estranho mundo. Algo ali parecia deslocado, desconexo.
Enquanto seguiam em direção à porta, Minerva finalmente quebrou o silêncio:
— Esse barulho... — ela disse, com a voz baixa, mas firme. — O som das engrenagens. Parece vir de todos os lados e ao mesmo tempo de um lugar específico. O que é?
Evelyn hesitou por um breve instante. Seus dedos tocaram as luvas, apertando-as levemente antes de erguer o olhar e responder com um tom despreocupado:
— Apenas mais uma das invenções do papai como eu te falei. Não se preocupe, vamos conseguir consertar a máquina, vamos ao jardim agora...
Havia algo diferente na forma como ela falou, na leveza de sua voz, que fez Minerva estreitar os olhos. Ainda assim, decidiu não pressionar... pelo menos por enquanto.
JARDIM MECÂNICO
As duas estavam diante da entrada do jardim, uma estufa, Minerva pôde ver através do vidro abobadado plantas exóticas. Para entrar ali, Evelyn, ao seu lado sorriu de maneira enigmática e, sem esforço aparente deslizou os dedos enluvados por um painel que ficava alinhado aos tubos da estufa. Um clique seco ecoou e a estrutura de metal diante delas começou a se abrir.
O ar que escapou do outro lado carregava um aroma diferente: uma mistura entre o perfume delicado de flores e o cheiro ferroso de metal. Minerva franziu o cenho, sentindo a atmosfera mudar conforme avançavam. Seus pés afundavam na grama espessa.
Elas atravessaram o limiar da estufa e adentraram em um bosque incomum, fora do espaço vítreo chegaram em uma área livre à primeira vista, parecia uma floresta densa, mas logo a realidade se torceu diante de seus olhos. O solo era um tapete vivo de raízes metálicas entrelaçadas, e sobre ele, flores mecânicas brotavam com uma estranha elegância. Seus botões de cobre e bronze se abriam e fechavam suavemente, liberando vapores azulados que serpenteavam pelo ar como uma névoa brilhante. O bosque se estendia ao redor como uma entidade viva, pulsante, ciente de suas presenças.
Minerva deslizou a mão pelos poros de uma flor próxima, sentindo sua textura fria e, ao mesmo tempo, orgânica. Ela ergueu o olhar para Evelyn, que girava sobre os próprios pés, admirando as flores.
— É magnífico, não acha? — perguntou a garota loira, sua voz carregando uma empolgação infantil.
— Esse lugar... — murmurou Minerva, sentindo a pressão ao seu redor se intensificar. Era como se o próprio jardim as estivesse avaliando, estudando sua presença.
— Ele respira — disse Evelyn com naturalidade. — Está vivo.
O vento cortou entre as engrenagens ocultas, produzindo um som que não pertencia ao mundo dos vivos. Um sopro metálico, como algo que respira sem precisar de pulmões.
Uma sensação de euforia pela nova descoberta tomou Minerva por alguns instantes, mas ao mesmo tempo enquanto ela sentia a aura daquela atmosfera estranha o medo tocou seu coração por alguns segundos, ela não sabia o que esperar daquele lugar. A beleza e a estranheza estavam unidas ali!
Evelyn caminhou saltitante novamente, desta vez puxando Minerva pelo braço arrastando-a até o que ela chamou de “máquina do éter”. Foi quando Minerva sentiu o ar ao seu redor tornar-se mais denso conforme se aproximavam-se daquilo. O cheiro metálico era forte, misturado ao vapor que se dissipava em fumaça cada vez que escapava pelos canos. À sua frente, erguia-se uma estrutura colossal, um emaranhado de cobre, aço e outros metais que pareciam vivos, pulsando com um movimento incessante.
A máquina, não se parecia com nada que Minerva já tinha visto, ela exibia engrenagens de tamanhos distintos que giravam entrelaçados. Alguns dos mecanismos moviam-se em padrões intrincados, enquanto outros pareciam reagir a estímulos invisíveis, rangendo de maneira ritmada. O vapor se esvaía em intervalos regulares, exalando um chiado abafado, e os cabos de força serpenteavam pelo chão como raízes, conectando-se ao castelo em tubos que seguiam pelo chão.
Minerva arqueou as sobrancelhas, fascinada e desconfiada. Aquilo parecia um coração. Ela cruzou os braços e lançou um olhar para Evelyn indagando-a:
— O que exatamente é essa coisa? — sua voz soou firme, mas havia um brilho curioso em seu olhar. — E por que esse barulho é incessante?
Evelyn desviou os olhos por um instante, balançando a cabeça levemente antes de soltar um suspiro curto.
— É a máquina do meu pai, eu já tentei consertar, mas ela está assim a um tempo. Sempre esteve aqui, sempre funcionou assim. Ela só está mais barulhenta porque eu andei mexendo um pouco nela, sabe... Os sois lá em cima estão ligados ao barulho também, estou tentando consertar isso. E você vai me ajudar!
Minerva percebeu uma mudança no tom da garota. Algo ali vibrou além do metal e do vapor. O jeito de se comportar de Evelyn havia mudado em um lampejo, como se não fosse mais ela mesma, seus movimentos se tornaram erráticos, e sua voz oscilou, mudando de tom.
De repente, Evelyn riu, mas não era sua risada natural. Era algo rouco, fragmentado, como se outra pessoa falasse através dela. Seus olhos, antes vivos e cheios de curiosidade, tornaram-se vidrados, e suas palavras se transformaram em um murmúrio. "O éter etéreo... a substância primordial... Minerva, você veio para decifrar o mistério de tudo, não veio?", “Você é a chave para a transmutação, não é?”, “A substância das substâncias está em você não está?” sua voz alternava entre grave e aguda em uma cacofonia.
Minerva franziu a testa e deu um passo para trás, observando Evelyn se mover. A garota gesticulava com a cabeça se inclinando de um lado para o outro aguardando uma resposta.
Diante delas, a grande máquina de engrenagens liberava vapores e chiados metálicos. A estrutura imponente de cobre e aço vibrava com vida própria, alimentada pelos cabos de força que vinham do castelo. O som das engrenagens reverberava, preenchendo o ar com um ruído quase hipnótico.
"Ela precisa entender...", murmurou Evelyn, e, num estalar de dedos, um rangido mecânico ecoou. Evelyn ergueu as mãos como um maestro. Um som de rastejar pôde ser ouvido enquanto a garota fazia movimentos frenéticos como se controlasse algo, por trás de Minerva surgiu o que parecia ser uma imensa planta carnívora, com tentáculos mecânicos se estendendo com movimentos sinistros exibindo estrias azul cobalto. O interior da bocarra era repleto de dentes afiados, ela era a perfeita réplica de uma dioneia.
Minerva reagiu usando sua magia, mas os tentáculos da criatura foram mais rápidos. Enroscando-se ao redor de seu corpo, prenderam-na em um aperto impiedoso. A mandíbula de metal se abriu, e Minerva sentiu o ar ficar pesado ao perceber que seria engolida, enquanto Evelyn prendia cabos de força em si própria. A garota, ou o que quer que estivesse no controle dela, observava com um sorriso aberto já conectada aos cabos.
Irritada, Minerva evocou a sua aura de loba um tipo de sombra fantasmagórica que emanava de seu corpo quando ela precisava se defender, uma parte de sua alma transmutada, seu corpo começou a brilhar em uma aura espectral dentro da mandíbula metálica, e, de dentro daquilo algo grande se remexia abatendo a estrutura da mandíbula, um uivo ressoou pelo ar quando a aura de loba se manifestou por completo. Energias bruscas pulsaram em sua pele, e com um único golpe ela quebrou a máquina, um rugido feroz ecoou pelo jardim arrebentando os dentes longos do autômato. Minerva saltou e ao pousar no chão ajoelhada a sombra de loba podia ser vista em suas costas.
A energia liberada fez os tentáculos da planta mecânica se retraírem, e a criatura recuou emitindo sons arranhados como se estivesse empenando, o que antes era a boca da dioneia agora estava no chão do jardim. Seus olhos queimaram em fúria ao encarar Evelyn, que cambaleava para trás, como se estivesse perdendo o controle do próprio corpo.
Evelyn deu um passo trôpego para trás, uma luz dourada em seus olhos se intensificou, e sua voz se fragmentou em ecos múltiplos. "Não tente me impedir, Minerva... Eu... eu posso ver tudo agora...! O éter etéreo... é a conexão!” O som das engrenagens parecia mais alto que antes enquanto a menina sentia o vórtice de energia.
A loba espectral rugiu e então a própria Minerva se contorceu e assumiu por completo a sua forma de loba. Seu corpo se expandiu, os músculos pulsando com a energia bestial enquanto sua pele era tomada por uma pelagem negra como a noite. Ossos estalaram e cresceram, moldando uma forma lupina imponente. Suas garras alongaram-se grotescas e seus olhos brilharam com um azul intenso e selvagem.
Num único salto, ela avançou contra a máquina afundando as longas patas e as enormes garras na máquina, ela atravessou a estrutura com sua força. O aço rangeu sob sua força brutal enquanto suas patas rasgavam cabos e trituravam engrenagens, espalhando faíscas pelo ar como brasas incandescentes. Um chiado enguiçado escapou dos circuitos destroçados, seguido por um ruído de ferro retorcido quando a estrutura cedeu. Um estrondo ecoou quando o núcleo se partiu ao meio estremecendo antes de explodir em um estrondo ensurdecedor, lançando fumaça e fragmentos de parafusos e roscas.
Evelyn gritou e seu corpo foi lançado para trás, os cabos se rompendo um a um. O brilho dourado em seus olhos piscou freneticamente antes de apagar completamente. O sol acobreado tremeu no céu, como se tivesse perdido sua âncora o que fez com que ele lentamente, recuasse para sua posição original muito além do alcance dos olhos e as flores que apontavam para ele inclinaram-se como se estivesse murchando.
Observando os destroços fumegantes ao seu redor pegarem fogo em pequenas explosões barulhentas, Minerva respirou fundo. A loba foi tomada por uma energia azulada que a envolveu esfericamente até surgir como humana novamente, o vestido rasgado no ombro e o cabelo solto e esvoaçado.
Evelyn estava desacordada sob a grama, pálida e ofegante. Sua expressão era de confusão e medo. "Minerva...?", ela murmurou desta vez com sua própria voz. Minerva a encarou por um longo momento antes de finalmente relaxar os ombros. Uma sensação estranha de melancolia e euforia atiçou novamente o coração da bruxa, aquele evento a fez se sentir tonta e extasiada.
Ela ajoelhou para acalentar a garota no colo, muitas perguntas ecoavam na mente dela, enquanto tentava acalmar a garota que agora parecia frágil e indefesa em seus braços. “Como funcionava aquele jardim? O que é o éter etéreo? Quem mais vive neste castelo?”. Minerva se ergueu com dificuldade, levando a jovem nos braços, seus olhos desviaram a atenção da garota para a máquina, percebendo o silêncio.
Ela ergueu o olhar para o céu e notou que o segundo sol estava mais distante que da última vez que vira. A passos lentos, ela caminhou em direção à saída do jardim mecânico com Evelyn desacordada em seus braços. A máquina parou finalmente, as engrenagens e o som cessaram, ela podia descansar.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Dois Sóis
Em que ponto do espaço e tempo nós estamos? Não há nenhuma ciência empírica para descrever o porquê destes dois sóis. Agarro-me a uma…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Em que ponto do espaço e tempo nós estamos? Não há nenhuma ciência empírica para descrever o porquê destes dois sóis.
Agarro-me a uma cansada luneta, ansiando ver o despir do espaço. A ferrugem descortina os meus sonhos, enquanto atravesso a senda galopando com meu cavalo biônico. Sobrevivente, astuto, de uma recém tempestade.
Enquanto isso, locomotivas nos agridem com a verdade de que a efemeridade não é exclusiva das rosas. Preciso, portanto, alertar a Camarilha, aos meus irmãos em sangue, de que os imortais também possuem prazo de validade.
Tudo graças a uma criatura que ousou brincar girando, insistentemente, a roleta do tempo. Preciso dar um jeito, pois nutro uma afetividade pela vida que me escorre entre os dedos como areia cósmica.
Os dois sois refletem-se em meus olhos vítreos enquanto contemplo o horizonte partido. É na confluência destes astros que percebo o quanto somos transitórios — até mesmo nós, os que bebemos da taça da eternidade.
A Camarilha não aceitará facilmente este prenúncio. Seremos perseguidos como heresias ambulantes, portadores de um evangelho que ninguém deseja ouvir. Mas a verdade é implacável.
Meu cavalo biônico relinchou três vezes quando avistou o fenômeno. Seria ele mais sensível que seus mestres? Talvez os mecanismos artificiais compreendam melhor as engrenagens do universo do que nós, presos à ilusão de nossa imortalidade.
Sigo adiante, com a luneta pendente do pescoço e o peso da revelação nas costas. Dois sois. Dois destinos. Uma única e irrefutável sentença: até os imortais são feitos de tempo.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Pergaminhos esfumaçados
Nos ermos turvos, sob a névoa espessa, | Engrenam-se os dias num ciclo enferrujado, | corações de cogs, reluzindo em pressa, |
pulsam mecânicos num tempo quebrado…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Nos ermos turvos, sob a névoa espessa,
Engrenam-se os dias num ciclo enferrujado,
corações de cogs, reluzindo em pressa,
pulsam mecânicos num tempo quebrado.
Óleo e fuligem tingem a alvorada,
Zepelins vagam por céus cor de chumbo,
na ruína que ao mundo foi dada,
heroína avança em um rastro profundo.
prateados fios caem sobre o aço,
sua cauda felina rasga a tormenta,
buscai o grimório do arcano nefasto,
A magia milenar que o tempo fomenta.
os homens são máquinas de fria ilusão,
ela é o sussurro da última oração.
escombros de ferro, urde-se a lenda,
entre válvulas rotas e estalidos vis,
heroína avança, garras em contenda,
sangrando entre sombras de fumos febris.
No peito dos homens, cogs reluzentes,
girando em delírios de cobre e vapor,
são máquinas mortas, de sonhos ausentes,
moldadas em fardos de graxa e torpor,
sob as ruínas de Londres caída,
câmara oculta de um templo profano,
Grimório pulsava – em runas, em vida,
Sorvendo dos tolos seu plasma insano.
com dedos feridos, no aço e no pus,
abrira suas páginas rubras de luz.
páginas vivas, trêmulas, sangrentas,
gravavam-se em fogo mistérios arcanos,
ritos profanos, promessas sedentas,
versos que outrora arruinaram humanos.
As engrenagens dos homens gemiam de medo,
giravam rangendo em preces de aço,
lendas diziam, num tom sem enredo,
que aquele grimório rasgava o espaço,
a felina de prata, sem receios,
sorriu ao sentir-lhe a febre imortal,
o sangue pingava em signos alheios,
A tinta vermelha selou o final,
no véu do vapor e da morte impiedosa,
renasce a magia—sombria e grandiosa.
o sangue, agora em chamas, se espalha,
num rio escarlate que corre sem fim,
a névoa densa se torna uma muralha,
uma barragem da magia que se afim.
Engrenagens, agora, começam a cantar,
ritmo insano de um mundo desfeito,
a heroína, sem medo, a desvendar,
Adentrai o portal se abrir no firmamento estreito.
O grimório, pulsando, desenha estrelas,
círculos sagrados, feitiços infinitos,
entre os ventos, exalam-se centelhas,
Fragmentos do passado, ecos de gritos.
ela avança, sua cauda serpenteia,
nos olhos, a chama da alma se enleia.
ao tocar o livro, o mundo se rasga,
a névoa se parte, o universo traga
novas realidades, horizontes de dor,
a magia toma forma de puro fervor.
Na fumaça, o sangue se entrelaça ao metal,
a heroína, agora, não é mais mortal.
no instante sombrio em que a carne se funde,
o grimório pulsa, a realidade implode,
e o céu se parte, a terra se afunde,
a magia em carne e engrenagem explode.
Cogs e ossos se entrelaçam em ruínas,
ventos cortam a pele como lâminas,
a fumaça dança em círculos infernais,
olhos da heroína, como cristais,
refletem o abismo que a tudo consome,
o sangue agora escorre, quente e negro,
derramando-se no abismo onde o nome
do passado ecoa, profundo e seguro.
Ela sente o peso das estrelas caídas,
suas garras dilaceram o véu do medo,
as correntes de ferro, agora perdidas,
rasgando o espaço, cantam o segredo.
com cada passo, o sangue é mais espesso,
o metal da alma, no instante, se confesso.
Em seu peito, os cogs gemem de agonia,
transformados em grilhões de pura alquimia.
no abraço final da magia e da dor,
ela transcende, num grito, o próprio terror.
o grimório, agora em sua mão sangrenta,
liberta o caos, a noite eterna e lenta,
o universo se quebra, se reinventa,
o sangue, em névoa, em nada se ausenta.
No vórtice da destruição, a carne se retorce,
o grimório clama, e a terra se desfez,
o grito da heroína é um rugido que torce
os céus e o inferno, tudo a seus pés.
o sangue que pulsa já não é mais seu,
mistura-se ao metal, à fumaça, so a lua,
em cada veia, o caos toma o troféu,
as engrenagens batem, como martelos
A névoa, agora densa e viscosa,
envolve tudo, sem alma e sem fim,
engolindo os homens, as máquinas, a rosa,
transformando em nada o que restou de mim.
olhos de prata, refletido o abismo,
O fim do mundo se torna uma dançarina,
garras afiadas, olhos sem raciocínio,
ela é a rainha de uma era divina.
Os céus, rasgados, exalam dor e fúria,
o sangue da heroína inunda os rios,
cada passo é um eco de pura loucura,
seu corpo, agora, já não sente os próprios fios.
A magia se torna carne, alma e choro,
As engrenagens se perdem, o tempo é quebrado,
nas sombras que brotam do ouro,
Ela se ergue, destroçando o passado.
O grimório ri, e o sangue se mistura,
um cântico ancestral,
um cântico de loucura.
O vapor sobe, quente como o inferno,
máquinas rugem em dor, sem piedade,
os pistões estalam, um som terno,
que quebra o coração da realidade.
Nos corredores de ferro e latão,
a heroína avança, seu corpo de aço,
cada passo é marcado pela tensão,
wm meio ao fumo, ao estrondo, ao fracasso.
engrenagens douradas, girando sem fim,
nos peitos dos homens, enredados em dor,
o som das engrenagens, como um clarim,
convoca a revolta de um mundo sem cor.
Zepelins de ferro cortam o céu de chumbo,
com hélices afiadas, cortando a névoa espessa,
são sombras imensas que ecoam no fundo,
onde o grimório sussurra, e a morte não cessa.
a cidade se ergue em ruínas de aço,
com tubos de vapor serpenteando o ar,
Vossa heroína, entre chamas e estalos,
buscai o poder perdido, o segredo a revelares.
Nos olhos prateados, a verdade não é suave,
Ela sente a fúria das rodas a girares,
O grimório, com letras antigas e graves.
É a chave para o futuro, a destruição dos lugares.
A névoa se espessa, o metal se corrompe,
Mas ela, com a cauda felina e o coração ferroso e enevoado,
Sabe que no fim, o mundo será seu campo de combate,
onde o vapor e o sangue dançarão em união,
quando a última engrenagem finalmente cair,
o vapor consumir tudo ao redor,
ela será a rainha do caos, pronta a seguir,
pelas ruas de ferro, em sua jornada sem cor,
O aço resplandece sob a luz trêmula,
Vapor sibilando por tubos que se torcem,
relógios batem, como pulsos, a mil por hora,
enquanto o céu de névoa em cinza se esconde,
nas fornalhas ardentes, o cobre se funde,
Ao som das marteladas ressoa em cada rua,
Zepelins flutuam em trajetórias profundas,
cortando os ventos com lâminas de lua.
engrenagens giram nos peitos dos homens de ferro,
chorando parafusos no ritmo de dor,
suas veias são fios, suas almas, um erro,
com corações mecânicos, sem nenhum fervor.
A heroína avança, olhos de prata em fúria,
sua cauda felina brilha entre fumaça e calor,
o chicote cósmico e alma de pura armadura,
ceifai o ar, desafiando o mundo, com ardor.
O grimório, preso entre chamas e carvão,
Desenha feitiços nos céus corroídos,
Palavras antigas, em alfabeto de metal,
Chamam as máquinas a se rebelar, em gritos perdidos.
Os pistões rugem, as caldeiras explodem,
ela, com garra, não teme o fim da linha,
dentro de seu peito, o fogo que não se apaga,
o espírito indomável de uma era antiga e divina.
becos sombrios, o vapor espesso se eleva,
ela, entre o caos, nunca perde a direção,
magia milenar agora se revela,
o grimório brilha, em um ato de redenção.
A cidade de cobre e ferro, em ruínas, ecoa,
o vapor e o sangue se tornam a canção,
Mas a heroína, com garras afiadas, corre,
pela neblina, onde a mágica e o aço se entrelaçam em união,
entre as chamas e a escuridão, surge a besta,
Uma máquina de escrever, com engrenagens cintilantes,
Suas teclas de cobre e ferro, como uma orquestra em festa,
Rangem em compasso, marcando o tempo a se quebrar.
O som das letras, em um clique ancestral,
Se mistura ao estrondo dos pistões girantes,
Cada palavra, uma sentença fatal,
Rasgando o véu da realidade a se distorcer no ar.
Ao lado da heroína, com passos silenciosos,
Um gato mecânico, de olhos dourados e frios,
Seu corpo forjado em aço e fios, misteriosos,
Gira como um relógio, em movimentos vazios.
Suas garras, afiadas como lâminas de prata,
São cogs dourados, ressoando em pura precisão,
Seu miado, agora, é um som de engrenagens, que desata
Os portões da magia, em busca de redenção.
A heroína, com cauda felina e alma de ferro,
Toca as teclas da máquina, sua voz sussurrando,
Palavras antigas, com a dor de um desespero,
Que ecoam pelo ar, e o mundo vai ruindo, tremendo, indo.
O gato, com suas engrenagens robóticas pulsante,
Move-se em espiral, como o eixo de um destino,
Observando a escrita que começa a se transformai,
Com seus olhos de aço, fitando o abismo divino,
o grimório se abre, as palavras ganham poder,
enquanto a máquina de escrever grita seu grito final,
névoa se espessa, o mundo começa a se perder,
a heroína, com coragem, corta o mal.
Em um último suspiro, o gato de metal ruge,
suas garras cortando o ar como lâminas de dor,
com o grimório nas mãos, a batalha surge,
entre o vapor e o sangue, onde tudo é terror.
na cidade de cobre e chuva ácida, onde os relógios morrem,
as engrenagens soam como lamentos perdidos,
vossa heroína e seu gato, juntos, desafiam os deuses,
ali, um mundo onde as palavras se tornam gritos esquecidos.
Através de uma meditação em que Drácula forneceu em agradecimento
pelo exício dos dêmonios em seus quadros e tomos,
Arale fora capaz de ver, seu passado, um pouco de sua origem
Sua ancestralidade, uma raiz nebulosa,
Na era vitoriana, a fumaça alça,
Entre engrenagens e ruídos do ferro,
Caminha a felina, em noite de prata falsa,
Caçadora de demônios, no silêncio do ermo.
Com cauda a brilhares, em sombras se entrosam,
Suas mãos comandam a máquina de escrever,
Cada palavra, um feitiço, a escuridão, despojam,
E a morte àqueles que ousam se erguer.
Banida da Igreja dos ossos de Yesh,
Por se aliar às letras negras, no abismo,
Sua alma é marcada, como um flagelo,
A ordem antiga a teme, e se faz prismo.
Na sua carne, sangue de uma linhagem rara,
Arale Fayax, herdeira de dor e guerra.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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18. Diário da Irmã da Ordem
Há os que dizem que aqueles pequenos momentos que antecedem a morte são os que mais trazem esclarecimento, mas para mim…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Data: 17 de novembro de 1373
Há os que dizem que aqueles pequenos momentos que antecedem a morte são os que mais trazem esclarecimento, mas para mim, a morte nunca foi um mistério, nunca temi como os outros, tampouco senti a inquietação que os outros sentiam diante dela, talvez apenas leves calafrios e só. Eu caminhava sem direção perdida em uma vida entediante e sem propósito, trazendo somente comigo um nome que me era um fardo pesado demais e um passado cheio de um desprazer que nunca terminava. Eu busquei o fim por conta própria, mas tropecei em algo que podia ser meu recomeço em um percurso sem significado. Aquele som vindo do meio da floresta foi o primeiro sinal, um canto gregoriano, que penetrava meus ouvidos, fazia tanto tempo que eu não ouvia algo tão belo e angustiante, que me dilacerava por dentro, me rasgando em camadas de emoções tão latentes que eu nem sabia que eu podia possuir, minhas pernas movidas por uma vontade que não era minha me conduziram ao som e assim encontrei a catedral, me percebi sorrindo diante dela.
Escura e imponente, uma silhueta contra um céu sem estrelas, não me recordo de ter aberto sua grandes portas, mas de algum modo eu já estava lá dentro sendo engolida por aquele grande salão onde figuras reunidas de frente ao altar entoavam um cântico, vozes femininas diversas e peculiares, algumas nem pareciam humanas ou talvez fossem, mas estavam além do que eu conhecia. Seus rostos alguns sérios e concentrados outros sem forma definida pelas sombras do véu que usavam. Cada nota que elas entoavam parecia arrancar com mais violência um pedaço do que eu era. No centro do altar havia uma grande imagem esculpida em pedra escura, com um manto negro que parecia um tecido desgatado até os seus peś, sua cabeça era coberta e havia uma coroa pontiaguda e ornamentada, o rosto oculto por um véu, em suas mãos um buquê de flores que dependendo da posição do observador, ele poderia conter flores vivas ou mortas, havia gravidade em sua postura, conforto e ameaça.
Ao longo das laterais da catedral, em nichos profundos, estavam outras imagens, cada uma retratando uma ceifadora distinta que eu soube mais tarde serem representações das várias faces da morte, cada uma com um propósito único. Todas seguravam uma foice em uma mão e na outra mão um lampião que emanava uma luz azulada que iluminava o interior da catedral. Havia uma atmosfera pesada, sufocante e ao mesmo tempo tão arrebatadora e calma, que me fazia sentir tudo. Foi então que chorei, não como uma jovem mulher que sente tudo, mas como uma criança perdida que se dá conta que está sozinha, eu que nunca senti nada antes, talvez só emoções rasas como pequenas comichões, então fui inundada por emoções que não conhecia. Meu soluços ecoavam dentro da catedral, era incrível o tanto de emoção que eu poderia sentir, quando meu choro foi se acalmando e minhas emoções se equilibraram, uma figura vestida com uma túnica e um véu escuro, desceu do altar e veio até mim.
— O canto da Senhora te atraiu até aqui, você deseja deixar tudo para trás? — ela disse com uma voz calma.
— Tudo? — murmurei.
— Sim, tudo que não for servir ao propósito da ordem, teu nome, teu passado, tuas dores, nada disso importa aqui. Apenas a Senhora da Morte, adore-a e ela te trará paz, sirva e ela te dará um propósito.
Aceitei sem hesitar, a vida que eu deixava para trás era um fardo que eu já estava cansada de carregar, eu era uma casca vazia, sem um propósito, assenti com a cabeça.
— Bem-vinda, irmã — ela disse me abraçando, eu senti conforto com esse abraço.
E assim deixei de ser, passei a me vestir como as outras irmãs. O vazio que sempre me acompanhou, começava a ser preenchido com um propósito, o de servir a Senhora da Morte, mas para isso eu deveria aprender com elas a levar conforto para os moribundos, caçar os que desonram o ciclo natural e resgatar as almas perdidas que clamam por liberdade, mas para isso, como disse irmã Teodora, eu precisava ser testada pela ordem e pela Senhora.
Data : 3 de dezembro de 1373
As madrugadas na abadia são silenciosas, mas se eu me concentrar bastante consigo ouvir o sussurrar do vento, o arranhar das aves necrofagas nas telhas, o som da madeira rangendo sozinha. Tudo isso um lembrete de que, indiferente a tudo, o mundo segue seu funcionamento. Rezei por horas esta manhã com as outras irmãs da ordem, repeti as palavras, copiei os gestos, estudei e treinei com elas. Elas observaram minha disciplina e vi nelas o que elas esperam de mim. Acho fascinante como parecer ter fé é tão convincente quanto a fé em si.
Data: 5 de dezembro de 1373
Irmã Teodora que me recebeu na Ordem, eu sei que deveria estar grata, mas só sinto que sai de uma jaula para cair em outra. Contei para ela algumas partes do meu passado e o quanto eu sentia raiva das pessoas da minha vila, Ela diz que serei útil, diz que essa minha raiva pode ser útil, se aprender controlá-la, ou com suas palavras: “Sua raiva pode ser uma boa lâmina, se você aprender a segurá-la pelo cabo.” O primeiro dia de treinamento físico se resumiu a dor, flexões até meus braços falharem, agachamentos até as pernas cederem, abdominais até meu tronco arder, golpes com as mãos nuas contra um boneco de palha até os nós dos dedos abrirem, não reclamei em voz alta, não pedi por descanso, mas irmã Teodora viu meu ódio e não tardou a me corrigir. “A raiva sem controle é como veneno mal dosado, mata tanto quem serve quanto quem bebe.” Ela disse com sua calma de sempre.
Data: 12 de dezembro de 1373
Minhas mãos estão cobertas de calos, por conta dos exercícios. Mas minha visão vem se acostumando à escuridão, treinamos nossa furtividade todas as noites, deslizando por pedras, prendendo a respiração quando outros passam, caminhando pela catedral, onde o menor ruído significa falha, que significa punição. As punições não são nada comparadas ao próprio treinamento. Hoje eu tropecei na borda do tapete, uma hora inteira ajoelhada meditando no sal grosso como castigo. “Você aprende melhor através da dor”. A irmã Teodora disse, estou começando a acreditar nela.
Data: 17 de dezembro de 1373
A lógica é que deve governar, é o que dizem aqui dentro, mas a lógica não acalma a fome quando se fica três dias sem comer para testar a resistência, e muito menos a lógica tira o gosto de sangue da boca depois de se levar um soco no rosto. Hoje cada uma de nós enfrentamos um prisioneiro, um ladrão que foi capturado pela ordem. Deram a ele uma faca e nos jogaram numa cela, eu venci e ele não saiu vivo. Fiz tudo sem hesitar, irmã Teodora aprovou.
Data: 2 de janeiro de 1374
O primeiro mês chegou ao fim e ainda estou viva, aprendi a matar com eficiência, a envenenar sem que me notem, e esconder minha presença, mas irmã Teodora diz que ainda sou previsível, que eu penso demais. “Se você pensa demais no que deve fazer durante uma missão mais rápido você tem chance de morrer, você não deve pensar demais no que
aprendeu senão morre.” Sei que ela está certa, mas ainda me pego pensando em tudo que aprendi, mas o treinamento constante talvez um dia silencie isso.
Data: 17 de janeiro de 1374
A dor é uma companhia constante, o treinamento diário não dá aos músculos tempo para descansarem, então eu apenas protesto em silêncio, mas a minha mente e meu corpo estão começando a se ajustar ao treinamento. Agora quando caminho meus pés sabem onde devem pisar para evitar ruídos, quando respiro meus pulmões não se expandem além do necessário, e quando ataco, não penso demais, e consigo prever os movimentos do inimigo. Hoje nós treinamos envenenamento, fui apresentada a novas substâncias usadas pela Ordem, extratos de plantas, venenos de animais, misturas ainda desconhecidas para mim. Provei algumas sob supervisão, é claro, apenas o suficiente para sentir o efeito antes de receber o antídoto, fomos orientadas a tomar pequenas doses de alguns deles para criar resistência, mas a lição foi clara, nunca experimentar nada que não seja preparado por mim. Irmã Teodora me elogiou para logo depois chamar minha atenção. “Você aprende rápido, mas ainda pensa demais, um veneno hesita antes de agir?” Ela perguntou calma, mas não achei necessário responder. “Então você também não deveria”. Não hesitaria contra a vida de ninguém, mas depois que entrei para Ordem hesitar quanto se trata da minha vida se tornou o lógico a ser feito.
Data: 1 de fevereiro de 1374
Elas nos testaram hoje, nos colocaram em um salão gigantesco, e soltaram três irmãs veteranas para nos caçar. Não podíamos lutar ou sermos vistas, apenas desaparecer. Eu passei horas lá dentro, me movendo silenciosamente entre as colunas, prendendo a minha respiração, sendo um nada apenas. Uma das veteranas passou a centímetros de mim e não me notou, outra parou ao meu lado e seguiu seu caminho sem sentir a minha presença. No fim consegui sair do salão sozinha sem que elas me encontrassem. Quando sai irmã Teodora sorriu pela primeira vez desde que cheguei aqui, é isso foi melhor do que qualquer palavra de “sabedoria” que ela pudesse me dizer.
Data: 16 de fevereiro de 1374
A lógica governa, sim ela governa, mas o corpo tem seus limites. Nos fizeram dormir em celas de pedra sem cobertas, nos fizeram nadar em lagos gelados nos deixando horas até que nossas peles ficassem roxas. Era para nos ensinar controle, saber que a dor vem, mas que
precisamos dominar. Foquei em lembrar da minha vida antes da ordem e como estar aqui era muito melhor. Pensei em números, sequências, padrões, eles distraem minha mente. Sai do lago tremendo, mas de pé, outras nao aguentaram, elas falharam, eu não podia falhar eu não tinha mais nada além disso.
Data: 3 de março de 1374
Irmã Teodora me deu a minha primeira missão esta noite, acompanhada de uma veterana. Um homem que fala demais, que pergunta demais, que não compreende que algumas portas precisam permanecer trancadas. Ela me explicou onde encontrá-lo, o que eu deveria fazer, as regras e dogmas que eu deveria seguir. Me explicou tudo com calma e lógica fria, eu gosto disso nela, não há rodeios, não há sentimentalismos, quando se trata de missões. Aceitei a missão, não por ser meu dever, mas porque estava ansiosa para saber como seria dessa vez, se o aperto no peito, a antecipação, se seriam diferentes depois de entrar para a ordem, se com essa missão eu conseguiria enxergar o mundo mais nítido por mais tempo. Foi limpo e eficiente. Ele olhou para mim com aqueles olhos confusos arregalados, tentando entender, encontrar um sentido naquilo, sentido onde não havia. Dei um tempo a ele, às vezes acontece de eles terem um vislumbre, uma revelação de algo que justifique tudo, que explique o motivo daquilo, mas não dessa vez, nenhum motivo havia para ele. Irmã Teodora perguntou se sentia culpa ou algo parecido, apenas olhei para ela e dei um breve sorriso. Acho que ela não espera culpa de mim, apenas eficiência. Eu não sentia culpa ou medo, eu sentia paz.
Data: 18 de abril de 1374
Já se foram quatro meses, aqui dentro o tempo parece se dissolver. Às vezes não sei se é dia ou noite, só sei que estou melhorando. Agora consigo ficar pendurada por horas sem sentir dor, meus golpes são mais limpos, rápidos e fatais. Aprendi a matar uma pessoa antes que ela perceba minha presença, mas irmã Teodora disse que ainda falta algo. “Você entende do silêncio e da morte, mas ainda pensa como uma pessoa viva.” Perguntei o que ela queria dizer com isso e ela apenas sorriu, sinto que a resposta não será agradável.
Data: 2 de maio de 1374
Acordei em uma cela vazia, sem roupas, sem armas, sem comida, apenas escuridão. Fiquei lá por não sei quanto tempo. Sem saber se iriam me soltar, sem saber se era um teste ou se eu havia cometido algum erro. Eu sentia a fome me queimar, a sede me torturava aos poucos, e
eu murmurava para mim mesma que deveria aguentar que não poderia deixar elas me vencerem. Quando finalmente abriram a porta, a irmã Teodora estava à minha espera. Olhou para mim, me avaliou e então disse: “Agora sim, você entende e está pronta.” Eu não me curvei a necessidade, nem a vontade de desistir. Eu sobrevivi a isso e estava pronta para mais.
Data: 21 de junho de 1374
Hoje recebi meu novo nome, “Esse é o nome que a Senhora da Morte escolheu para você, não serás mais Lucila, ela morreu, hoje nasce Mara.” Me olhei no reflexo da lâmina que me entregaram, meu rosto era o mesmo, mas meus olhos não pertenciam mais à menina que entrou aqui há seis meses. Aceitei meu novo nome, afinal Lucila não teria sobrevivido, mas Mara sim. Agora sou uma irmã da ordem, sem nome real, apenas uma missão, com um passado sepultado, andando entre os vivos e os mortos, uma serva da morte e pela primeira vez, sinto uma paz e compreendo o significado de existir.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Capítulo 8 — O Presságio do Adeus
“Cautela; à dor pertence tudo o que se é — e nas sombras do ser há uma angústia imorredoura. Ainda assim, há contento ao sentido. Veja-me, desvele-me na…
“Cautela; à dor pertence tudo o que se é — e nas sombras do ser há uma angústia imorredoura. Ainda assim, há contento ao sentido. Veja-me, desvele-me na clareira da densa floresta; um poder inominável aguarda a lua cheia dos olhos que veem, se capazes. Sempre dourados. Encontre o que há de valor e o que há de valor há de encontrar quem o procura. O emergir da distância é parte de uma inestimável boa ventura.” — Ouvi, como se imersa em um delíquio e não em um sonho; um lapso de tempo, uma prostração infinitesimal em duração e de uma expansão significativa e misteriosa. A voz era minha, mas não era eu quem dizia. Era eu quem dizia, mas a voz não era minha. Levantei-me com o coração frenético e o corpo trêmulo, escrevi palavra por palavra. Respeirei fundo. “O que isso quer dizer?” — eu pensei.
De súbito, à minha mente, viera a verdade dos símbolos ensinados por Lorrt e do ritual de exorcismo. Isso me levara a um levante célere, de modo que meu damanoute parecera pairar no ar em sua leveza agradável. Sobre o assoalho de madeira, usei a tinta que banhava a pena, para traçar os detalhes dos sigilos. Passei a repetir em minha mente, o verbo sombrio para conjurar a magia e temi que Seth se personificasse para me impedir de concluir o ritual. Eu estava certa de como realizá-lo, algo que, se adviesse apenas de um sonho comum, eu não poderia compreender com tamanhos detalhes.
Ainda mais repentino, com o último verbo proferido, derramando meu sangue para selar o ritual — o que me fazia compreender o quanto algo em meu âmago confiava cegamente em Lorrt; Seth emergiu dentro do círculo, com seu semblante assustado e em meio a uma névoa carmesim que tão logo se esvaneceu. Eu estava um pouco distante do sigilo, para não ser diretamente afetada; os olhos de Seth, assim que fitaram os meus, possuíam uma aura de raiva e pesar. Seth segurava em suas mãos uma flor, símil à sua descrição das noctúrnias. A cena me levou a uma dor no coração, não literalmente, uma tristura por fazer aquilo daquela maneira, afetando-o sem aviso prévio… Eu não conseguia compreender minha existência, pois, se eu era, de fato, uma vampira, como poderia não estar completamente refém de minha luxúria? Ao invés disso, apenas queria respostas e sentia-me íntima da desolação e da empatia.
— O que… tu fizeste? — Ouvi. Seu tom era grave e colérico, seus olhos fixos em minha face. Ele tentou dar um passo à frente, mas o círculo o prendia. — Não… — Murmurou. Eu me afastei em direção aos umbrais do aposento. — Não me deixe aqui, Áurea!
— Eu… volto… prometo… eu só preciso… — O olhar de Seth deixava-me inquieta e ansiosa.
— Áurea… eu não sinto mais a tua alma… eu não poderei proteger-te… Não faça isso! — Insistiu. Parecia tentar manejar seu tom, no entanto, a ira em seus olhos não podia ser manipulada, eu a notava em evidência.
— Eu só… preciso de respostas… eu volto… será breve… — Sussurrei, abrindo as portas e deixando, rapidamente, o aposento. Não olhei para trás, pois, se olhasse, me arrependeria…
Um susto, no entanto, fez-me cessar os passos mesmo assim.
— Olá, Áurea. — A presença de Olga era, de forma absurda, densa e amedrontadora, embora ela fosse sempre cuidadosa e simpática. Sua voz persuasiva conduzia algo dentro de mim, era hipnotizante.
— Olga! — Minha face decerto estava um tanto atônita.
— Estás bem? — Ela indagara, incólume.
— S-sim… — Sentia-me aluída.
— E Seth? — Fiquei atordoada com a pergunta. Imersa em pensamentos fugazes sobre como Olga sabia sobre Seth, um assombro apossou-se de mim por notar que, talvez, ela teria conhecimento do ritual que realizei. Não consegui respondê-la. — Pherhesí sempre desvela a si mesma para mim n’este alcácer, querida residente. Instigo-me a questioná-la quem poderia ter ensinado-te tamanho poder, sem relevar o teu desconhecimento pulcro… — Permaneci em silêncio ao ouvi-la, porém, o olhar daquela mulher… não era, tão somente, um olhar…
— E-eu… precisava… de… li-liberdade… — Foi o máximo que fui capaz de explicar.
— Hum… eu compreendo… Não preocupes a ti, pois não abscindirei teu ritual; cuidarei para que Seth permaneça sob Loccullaessatt até que retornes. Entretanto, estes sigilos não serão capazes de encarcerá-lo inn perpehctua. Estejas ciente, símil, de que Pherhesí, isto é, a Magia do Sangue, pode conduzir tua alma ao verossímil olvidar que tanto te atormenta. — Ela se aproximou dos umbrais de meu aposento, abrindo-os sutilmente, com elegância mórbida. —E se Pherhesí determina a decadência mortífera d’um Igual, pela insolência de manipulá-la desprovido de ciência, eu não hei de interferir. — Senti minha saliva descer em minha garganta como se engolisse um caule espinhoso de Rosaemori.
Era difícil compreender Olga… parecia-me que ela advinha de uma civilização arcana desconhecida e oculta; suas palavras e a mistura entre um idioma e outro atordoava meus sentidos; no entanto, era evidente o seu poder e o tanto que ela sabia a respeito daqueles que residiam no Castelo Drácula. Eu sabia, além disso, mesmo com a dificuldade em entender com maestria a sua fala, que ela estava me ameaçando.
— Vá… — Disse, com um sorriso suave que mais alimentou meu receio sob a sensação intimidatória de suas palavras. — Lëvri está fora do Castelo, um errante a caminho do jardim.
Olga fechou-se em meu aposento. Sua presença perturbadora já não existia e, consequentemente, não conduzia minhas emoções. Respeirei com alívio e, por instantes, pensei em espiá-la, espiar Seth... ouvi-los...., entretanto, meu objetivo maior era saber da verdade, lembrar-me do que era preciso para honrar minha história e, da mesma forma, a história de Lorrt — que tanto me ajudara com aquele ritual; aliás, eu sabia que eu não poderia mais realizá-lo, pois eu temia Olga... então aquela era a minha única oportunidade.
Corri, assim, pelos mesmos corredores sombrios; com o coração em pulso frenético, segui em direção aos jardins do Castelo sob clarões soturnos e coercitivos que lumiavam por segundos a escuridão eviterna; eles vinham com estrondos majestosos e eu avistava, das fenestras, uma tempestade ciano-acinzentada se formando no horizonte. Era, em profundez, estranho; mas, eu não era capaz de questionar que a neve esquálida não poderia perdurar com tamanha intensidade enquanto a chuva vertesse de densas nuvens e da escuridão. Assim vi com perfeição o firmamento tão metamorfo e a palidez sepulcral dos arredores do Castelo; estes, por sua vez, estavam cobertos por casas góticas e pontiagudas, feitas de pedra e madeira — levou-me ao questionamento de ser, pois, Séttimor, todavia, em nada se assemelhava a ela. Eu, contudo, não tinha tempo de saber.
O jardim tinha, em congelamento mórbido, todas as plantas, com exceção das tulipas negra, das nnivealiz e um tipo de morango negro silvestre — se destacavam na cândida invernia; do céu vertia, de fato, uma fina chuva cristalina e os raios, em perigo eminente, tomavam a totalidade da imensidão acima. Então, eu o vi; seu amplo dorso, seus cabelos escuros... suas mãos que acariciavam as pétalas de uma negra tulipa. Era... sufocante... minhas mãos tremiam e meu corpo se lembrava... Era Lëvri... tudo ao derredor parecia silenciar à medida em que me aproximava dele; um longínquo violino triste conduzia meu coração. Sussurrei seu nome tal como um ser fantasmagórico o faria e vi seus dedos tornarem-se estáticos; deixando de afagar as pétalas e, da mesma forma, vi teu corpo imóvel, tencionado. E levou um tempo até que, por fim, ele se virasse para me olhar.
Seus olhos negros, sem esclera. Um semblante tênue em mágoa com seriedade indene. Seu silêncio... um abismo entre minha paixão outrora vívida e vibrante. Quis tocá-lo, mas hesitei; ele matou Lorrt, eu sentia, eu sabia... matou Lorrt com o intuito de me conduzir ao desertificado chão onde os joelhos de Ohropo se fendem na esperança mórbida de reencontrar Sepulcro. Não quero viver como Ohropo, não quero ser conduzida aos braços de Exício tal como Sepulcro. Assim eu sentia... e sentia demais... um medo e uma aflição solitária que apertava meus pulmões, meus órgãos, minha alma. Eu não podia mais esperar...
— Tu mataste Lorrt... o último Illitan... tu e outros como tu... a Rosaemori em teu dorso é a autenticidade d’este fato... Quem és tu, Lëvri? Por que me enganaste com tamanha frialdade? E por que me tomaste com tamanha paixão sob a noite índigo mesmo tendo o sangue do meu único amor em tuas mãos? Mesmo sabendo que dele me olvidei em razão da tua maldade que fizera com que o ritual de transmutação vampírica se transfigurasse em uma cena terrífica? Sabes o que o veneno pernicioso da Rosaemori causa? A morte lenta... dolorosa... solitária... amedrontadora... angustiante... Por quê? — Meus olhos já lacrimejavam, cristais se formavam nas lágrimas que escorriam e congelavam em meu rosto; os cílios em meus olhos acumulavam infinitesimais flocos de neve; nunca senti um frio tão pernicioso como aquele que se difundia nos arredores do Castelo. E fitava Lëvri, ainda inalterado. Pensei que ele nada diria.
— Eu não te vi, Áurea. No entanto, vi Rahstemur fincar a Rosaemori em Lorrt e deixei o local assim que Lorrt, em absurda cólera, arrancou de seu próprio peito a haste espinhosa e cravou-a na boca de Rahstemur. A força de teu único amor era amedrontadora; éramos em seis, somente eu sobrevivi porque... me acovardei... Lorrt destruiu a todos e levou teu corpo coberto por um manto ensanguentado; fiquei à espreita e vi... levou-te para algum lugar que eu não sei. Mesmo envenenado, ele fez tudo isso e eu, pouco tempo depois, vagando sem rumo, com absurdo medo de ser questionado por Krvier, eu... encontrei este Castelo... — Ouvi atenta e abalada; na surpresa de que lembranças vieram à minha mente sem que a dor me corrompesse, conforme ele as narrava, e na comoção absurda de saber que Lëvri não foi aniquilador mor de Lorrt.
— Como... soubes... se nunca... me viste...? — Lëvri aproximou-se.
— Teus olhos, ora rubros ora áureos; trouxeram-me a dedução de que tu tinhas algum elo com os Illitan, em razão da criatura mítica que sustenta o poder que lhes foi dado. Entretanto, eu não poderia supor... exceto quando soube teu verdadeiro nome, dito por alguém n’algures; e soube, portanto, quem tu eras.
— E quem é Krvier? Por que o temes? — Lëvri demonstrou-se irritado.
— Eu não direi.
— Não? O que queres? Cumprir o que outrora acovardou-se a fazer? — Aproximei-me com uma ira aterradora.
— Eu já o teria feito se assim quisesse; não há razões para te dizer mais nada.
— Diga-me quem é Krvier! Aquele por detrás de todas as tuas ações tolas, por detrás do teu temor, por detrás do que és? Aliás, quem és? Vamos, tenha coragem uma única vez. — Ele silenciou, imerso em ira e contendo-se, eu percebia.
— Eu... — Ele abaixou seu tom de voz, suas veias ficaram mais aparentes. — Eu sou fraco... iguais a mim há outros tantos em um exército... mas eu sou o mais fraco... sou uma criatura destinada à reprodução, ao sofrimento e ao assassinato. Minha natureza é mórbida, meu instinto é violento... e... minha covardia é a única coisa que me difere daqueles que são como eu... então eu a manterei comigo... — Ficamos em silêncio. Queria compreendê-lo, mas, não era possível.
— Se não me falares sobre Krvier, eu descobrirei... eu o encontrarei... e me vingarei... — Lëvri se afastou, tênue.
— Quando uma criatura se torna criador, somente outro criador é capaz de detê-lo e nunca uma criatura...
— Seja claro, Lëvri! Estes enigmas estão insuportáveis! Este lugar, estes segredos... eu quero a verdade! Eu quero me lembrar! — Vociferei, ouvindo minha voz atravessar a neve mais longínqua e alcançar o tom dos trovões sombrios.
— Deixe-me voltar a sentir a textura das pétalas... deixe-me em silêncio... diferente de ti, não quero lembrar... e tu... tu sempre serás a minha Ennehris, pois, o que senti por ti diferiu-se tanto quanto minha covardia... manterei ambos... como relíquias em meu peito... não exija mais que eu fale do meu cruel criador... eu já lhe esclareci o que me era possível...
— Como podes... almejar o esquecimento... e tornar-se um dos perdidos... sem nome... sem uma bússola no coração...
— Talvez tenhas desejado isso antes de perder tua memória... — Ele murmurou e mais silêncio nos envolveu. Eu percebi, então, a dor no ser de Lëvri, não posso dizer como percebi, mas o fiz.
— Eu nunca desejaria esquecer... — Proferi, um pouco mais triste... queria mostrar que olvidar não é o melhor caminho, mas Lëvri fechou seus olhos, como se implorasse pela morte e, ao abri-los novamente, apenas virou-se e seguiu caminhando entre as tulipas, tocando suas pétalas. Em meu peito descansava um coração partido, a sangrar, lacrimejando. Perdida, esquecida... em busca de uma pequena esperança, uma singela salvação de algo que não se podia evidenciar. A chuva fina sobre meu corpo assemelhava-se ao meu próprio pranto... e Lëvri se distanciava como se nunca tivesse estado próximo... — Diga... — Sussurrei, impossível ser ouvida por ele. — Diga meu verdadeiro nome, Lëvri... — Ele continuava se afastando.
“O emergir da distância é parte de uma inestimável boa ventura.” — Lembrei-me. Um presságio? Era um adeus velado, nas sombras de nossas divergências... e toda a imensidão nívea, frígida, inóspita... as torres de pedra de um Castelo misterioso... os raios violentos e a chuva calmante em contraste. Minha esperança protegida no relicário de meu ser. “Encontre o que há de valor e o que há de valor há de encontrar quem o procura”. Caminhei, lânguida, observando as construções; eu sabia de meu dever de voltar ao Arcanjo-Maldição, entretanto, almejei novamente a fuga; encontrar Liliana, talvez, uma verdadeira amizade a qual descansar minha tristura — “à dor pertence tudo o que se é, e nas sombras do ser há uma angústia imorredoura”. Eu estava na profunda expectativa de sonhar com Lorrt... reencontrá-lo... questioná-lo... entender nossa história..., eu gostaria de adormecer livre, sem o Piche do Oblívio aterrando meu plano onírico, sem a culpa prensando-me como um ataúde à sete palmos. Uma aspiração, espreitada pela intuição de que eu não encontraria nada naquele lugar.
Eu... não esperava fitar o abandono; ou talvez soubesse... sem gotas de força. E a astenia estava naquele corpo que, outrora, em profunda significância, toquei. Olhos negros exaustos de uma dedicação possível ao que poderia tornar-se um amor... não era ainda, muito cedo para dizer. Uma paixão derradeira? Ao destino que há de me consumir na eternidade do meu lamento, meu esquecimento e, principalmente, minha solidão? Eu não queria me repetir; como um eterno retorno de languidez e melancolia — as mesmas dores, os mesmos prantos; ainda havia muita humanidade no que residia em meu peito: uma alma ou uma existência vazia. Na verdade, eu não sabia o que eu era, se estava morta ou viva, então, como saber se havia mesmo a paixão? Apenas um momento, estranho e obscuro momento, de entrega, de vínculo... por que isso eu não podia esquecer? Talvez ele estivesse certo, algumas coisas precisam deixar nossa memória em paz.
Colossais dúvidas afligiam-me enquanto caminhava pelo jardim, na lentidão sombria, estavam meus passos arrastados, embora silentes; os raios reluziam perigosos e não desejei retornar ao Castelo. Acolhi-me no arbusto de nnivealiz, com seus papilhos repousados ainda intactos, embora o vento estivesse feroz. Nascidos em uma grama macia, à leste do jardim, apesar da neve. Deitei-me ali, observando o firmamento nublado e chuvoso. As gotículas de água sobre meu rosto caíam, congelando-se em cristais tênues, fazendo o papel das lágrimas de outrora. Minha tez reconhecia. Meu corpo frígido pela neve abaixo, entre o aconchego da gramínea. Tudo isso, de modo estranho, me serenava. “Ainda assim, há contento ao sentido.” — lembrei, como se acolhido na imensidão do ar, de repente, por mim mesma. Então fechei meus olhos e esperei acordar n’outra realidade, no meu verdadeiro lugar para, então, dizer aos que aguardam meu retorno, que tive um sonho perturbador e que senti aguda falta de cada um deles, mesmo sem me lembrar de quem são...
“Veja-me, desvele-me na clareira da densa floresta; um poder inominável aguarda a lua cheia dos olhos que veem, se capazes. Sempre dourados.”
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Diário de Anton Stefan Miahi — VIII
17 de agosto de 1871 — Minha chegada a solo romeno fora tardia. O inverno implacável no norte da Alemanha atrasara minha jornada em vários…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
De Ivan Molchanov
(Cartas guardadas)
17 de agosto de 1871 — Minha chegada a solo romeno fora tardia. O inverno implacável no norte da Alemanha atrasara minha jornada em vários dias, forçando-me a uma travessia lenta e extenuante. Quando enfim pisei novamente nesta terra esquecida, vi-me obrigado a dedicar um tempo à readequação. Os arredores do castelo haviam mudado, não tanto em sua natureza lúgubre, mas em detalhes sutis—trilhas deslocadas, edificações em ruínas, presenças que antes não existiam. Investiguei. Observei. E, numa das noites em que perambulava entre as sombras da fortaleza, meus olhos captaram dois vultos. Um deles, masculino, exibia o andar hesitante de um intruso. Suponho que seja este o homem ao qual Nestor deseja que eu elimine.
O tempo não dissipou as trevas desta região. As montanhas escarpadas continuam assombrosamente solitárias, e a silhueta do castelo, cravada na penumbra das alturas, permanece um lembrete incontestável da ausência de divindades que ousem reivindicar este domínio profano. Recordo-me das paredes sóbrias e cinzentas, impregnadas com um odor peculiar—morte, químicos e algo de essência inominável.
Ao chegar, busquei Nestor. O acesso ao castelo foi feito pela entrada oculta na base da montanha, um caminho de outrora, com o qual me habituei nos anos de serviço obscuro sob o estandarte de Drácula.
Nestor aguardava-me nas profundezas do castelo. Seu vulto emergiu da penumbra, envolto na penumbra lamacenta das tochas trêmulas. Seus olhos brilharam, avaliando-me.
— Molchanov… — Sua voz cortou o silêncio, grave e deliberada. — O tempo não tocou tua essência. Sempre um soldado.
Fixei-o com um olhar firme.
— O dever não permite espaço para mutabilidade vã. Vim a teu chamado.
Nestor assentiu lentamente, um espectro de satisfação perpassando-lhe o rosto.
— Tens um alvo, — Declarou, aproximando-se. O cheiro de cera derretida e pedra úmida misturava-se ao aroma ferroso no ar. — Anton. Tem andado por lugares onde não deveria. Há segredos que devoram os curiosos.
Eu já sabia o que seguiria.
— Se ele não aceitar o Abraço da Noite, — prosseguiu, a voz sem qualquer traço de hesitação, — então deve desaparecer.
Meus dedos roçaram instintivamente a empunhadura da adaga sob o sobretudo. Um gesto automático, um reflexo do instinto de execução.
— Compreendo. E qual será o veredicto? Sangue ou trevas?
— Se resistir, finda-o. Tua lâmina será seu último horizonte.
Assenti. Sem hesitação. Sem perguntas.
— Assim será.
A conversa findara, mas o peso da tarefa já se assentava sobre meus ombros como uma mortalha invisível.
Deixei a sala, caminhando pelos corredores úmidos do castelo. O chão de pedra reverberava sob minhas botas, um eco solitário que se desfazia nas arcadas sombrias. O ar era frio, carregado com o cheiro rançoso de cera e poeira antiga. Ao cruzar um arco em ruínas, a vastidão do salão principal abriu-se diante de mim, seu teto sustentado por colunas grotescas, esculpidas em formas disformes—rostos angustiados, corpos entrelaçados, como se artistas dementes tivessem imortalizado almas atormentadas na própria estrutura do castelo.
No alto, além dos vitrais estilhaçados, a lua espreitava com seu olhar cínico, testemunha silenciosa de pactos e traições.
Continuei meu caminho, descendo pelo labirinto de corredores até emergir na passagem oculta ao sopé da montanha. A trilha era traiçoeira, serpenteando por entre pedras escorregadias e raízes retorcidas. O vento sussurrava nas árvores, trazendo consigo o cheiro de lenha queimada, um resquício da civilização à distância.
Ao longe, as luzes mortiças da cidade tremeluziam como vaga-lumes prestes a se extinguir. Um mundo diferente do castelo, mas não menos condenado.
A vila me esperava.
E Anton não veria o amanhecer.
Horas mais tarde — A cidade abaixo do castelo me é estranha, um detalhe novo que não reconheço de outrora. No entanto, a atmosfera permanece imutável. Há algo nesta terra que persiste, um odor espectral que não se dissipa. O castelo sempre foi um palco de anomalias: sombras que se movem sem fonte, espectros inquietos, aposentos que se deslocam como se fossem dotados de consciência.
Nestor advertira-me sobre tais ocorrências, mas o que testemunhei nas últimas noites desafia qualquer aviso.
O céu e a névoa ostentam tons ciano-azinhavres, como um prenúncio de morte. Raios rasgam a escuridão com luzes espectrais, trovões retumbam como tambores de guerra, e o vento... o vento ruge como uma matilha em frenesi. A neve, tingida em um gradiente sombrio, cai lenta, mas sem suavidade.
Então veio a noite passada.
A lua ergueu-se, titânica e dominadora, uma deusa silenciosa entre nuvens disformes. Caminhava pela floresta, atento aos sussurros do vento entre os galhos nus, quando vi—a primeira fissura.
Uma linha no ar, trêmula, pulsante. Então outra. E outra.
Até que se abriu um rasgo maior diante de mim.
O ar que emanava daquela fenda não pertencia a este mundo. Um odor de carne pútrida rastejou até minhas narinas. Algo se movia no outro lado, uma silhueta deformada oscilava entre a névoa espessa. Primeiro vieram os sons: grunhidos abafados, o estalar de ossos partidos. Então a luz pálida cresceu.
E eu vi.
A criatura rastejou da abertura. Sua pele era um tecido flácido e esbranquiçado, esticado sobre ossos retorcidos, veias arroxeadas pulsando sob a derme translúcida. Olhos sem íris, sem pupilas, apenas globos vazios, brilhando como pálidas esferas de morte. Sua boca se abriu num sorriso de presas finas como agulhas, e entre elas... restos humanos ainda gotejavam.
— Deixe de observar...— Uma risada gutural, profunda, ressoou em meus ouvidos. — Não gosto… que testemunhem meu deleite carnal e mundano. Sou… Ttyphrssett.
Meus músculos enrijeceram. Garras se projetaram. O instinto de sobrevivência rugiu dentro de mim.
A criatura avançou. Rápida, como um borrão espectral.
Saltei para o lado, girando o corpo. Minhas garras rasparam o vazio onde sua carne estivera há meros instantes. O vento sibilou quando ela girou, desferindo um golpe.
Levantei o antebraço a tempo—o impacto reverberou pelos ossos.
Ela riu, uma cacofonia de vozes sobrepostas.
— Fome é a minha eternidade… Estranho ser… deste mundo. — Sibilou sua voz estranha.
A voz era um sussurro, um grito, um eco de algo ancestral.
— E se te oferecesse uma presa melhor… Ttyp…Ttyphrssett? — Cuspi as palavras, desviando-me de mais uma investida.
A criatura parou. O vazio em seus olhos se contraiu levemente.
— Carne fresca. Alma quente.—
Ela inspirou o ar.
— Fala...— Seus dentes brilharam sob a luz difusa. — Mas que não seja engodo, ou devorar-te-ei antes do amanhecer.
Mantive a postura firme, a voz tão cortante quanto minha lâmina.
— Anton. Um mortal intruso nos domínios de Drácula. Um erro que precisa ser corrigido.
O ser inclinou a cabeça, avaliando-me.
— E como o entregarias a mim? — Gotas vermelhas gotejaram de sua boca cheia de dentes filosos e finos.
Um plano já se desenhava em minha mente.
— Um espelho. Na igreja central. — Minha voz era uma promessa de aço. — A armadilha será sutil. Ele não suspeitará até ser tarde demais.
A criatura lambeu os lábios maculados de sangue.
— Se tua promessa falhar, tua carne substituirá a dele.
Inclinei a cabeça levemente, um gesto de assentimento.
— Se falhar, nem mesmo merecerei sobreviver.
Tenho pouco tempo. Anton deve perecer. Sua vida será o tributo exigido por esta entidade insaciável. Não há hesitação.
Ao final, seu corpo sem vida será entregue a Nestor.
A escuridão desta terra exige tributos constantes, e hoje… Anton será o sacrificado.
A floresta estava silenciosa quando deixei aquele lugar profano. A criatura desaparecera, dissolvendo-se na noite como um espectro faminto. Minhas mãos ainda tremulavam com a adrenalina do confronto, mas meu pensamento já estava focado no próximo passo.
Caminhei em direção à cidade, ocultando-me entre as sombras das vielas. As ruas estavam desertas, a névoa rastejava como uma criatura viva, esgueirando-se entre as construções de madeira decrépitas. A poucos passos, uma das casas abandonadas se tornou meu refúgio temporário.
Empurrei a porta com cuidado. O interior estava empoeirado, com móveis gastos e uma lareira apagada há muito tempo. Um antigo lampião sobre a mesa me forneceu a luz necessária para registrar o que se sucedeu.
Sentei-me, puxando um pedaço de papel envelhecido. Minha caligrafia firme começou a preencher a página.
Larguei a pena sobre a mesa, observando a tinta escorrer lentamente.
Antes do dia fatídico, no entanto, precisaria encontrar Nestor novamente. Informá-lo do plano recém-forjado. Anton não poderia escapar... e eu deveria me certificar de que cada peça estava devidamente posicionada no tabuleiro antes que a noite de caça se iniciasse.
De Narcís Nestor
(Anotações em seu Caderno)
25 de agosto de 1871 —Ivan, sempre fiel à sua frieza militar, deixou-me uma carta em sua entrada habitual, como um cão de caça que deposita sua presa aos pés do mestre. A despeito de sua natureza imperturbável, até mesmo ele parece ter se assombrado com os eventos recentes. A ironia disso quase me diverte. Nos últimos tempos, o castelo tem sido palco de fenômenos tão frequentes e diversos que sua mera enumeração tornar-se-ia cansativa. Mas sigamos ao que realmente importa, ao haver um jogo a ser concluído, e o tempo é um luxo que não podemos nos dar. E o que ele relatou foi isto:
“Tenho pouco tempo para executar meu plano. Anton deve perecer, sua vida será o tributo exigido por esta entidade insaciável, Ttyphrssett. Não haverá trégua nem hesitação. Ao final, seu corpo sem vida será entregue a Nestor, e que ele decida o destino final dos restos mortais. A escuridão desta terra exige tributos constantes, e em três noites, Anton será o sacrificado.”
Tão direto e eficiente quanto um relatório de campanha. Há algo de quase tocante nessa disciplina militar com que Ivan trata até mesmo as monstruosidades mais abjetas. No entanto, como eu suspeitava, sua descrição não omite a repugnante participação de Ttyphrssett — aquela aberração execrável, escarrada das mãos da estimada senhora Olga. Como é peculiar que sua fome cega e primitiva venha, enfim, a ter um propósito. Ironia refinada.
Entretanto, antes que a peça final seja disposta no tabuleiro, há ainda um último e irritante dever a cumprir. Devo tratar com os Santos Dominadores. Ah, que nome pomposo para um bando de degenerados cuja “santidade” não passa de um véu esgarçado cobrindo vícios e ambições. Eles me causam repulsa, confesso. No entanto, são um mal necessário, mais profanos em sua falsa fé do que Ttyphrssett jamais será em sua fome animalesca.
O jogo se aproxima do xeque-mate. Restam três noites.
De Narcís Nestor
(Anotações em seu Caderno)
27 de agosto de 1871 — Nesta noite, pela discreta entrada ao pé da montanha, encontrei-me com um dos clérigos que infiltramos entre os patéticos Dominadores. Pobres almas iludidas por sua própria grandiloquência, sempre tão ávidas por acreditar que detêm o domínio sobre aquilo que mal compreendem. Mas que sigam em sua ilusão, pois essa nos serve.
O emissário desta vez foi um jovem chamado Luca — dezesseis anos apenas, mas já contaminado por uma ambição que me diverte. Há nele um brilho voraz nos olhos, não de fé, mas de algo muito mais interessante: um desejo de ascensão, de poder. Veremos até onde suas próprias ambições o conduzirão antes que o devorem.
Entreguei-lhe a mensagem destinada a Ivan, informando-lhe que o espelho necessário para a armadilha estará oculto dentro da nave da igreja, velado sob um grande pano negro. Detalhes importam. A simbologia importa. Um véu negro sobre o instrumento de condenação — quase poético.
Acrescentei ainda que Anton será devidamente instigado a dirigir-se à cidade a nordeste do castelo. O resto acontecerá como deve. Uma carta será deixada para Anton. Ele estará na igreja, às dezenove horas em ponto.
Resta ver se Ivan desempenhará bem seu papel.
Anton S. Miahi XIX
(Escrito em meu Caderno)
28 de agosto de 1871 — Os eventos que pude relatar foram demasiadamente assombrosos e perturbadores em níveis que jamais concebi ou sequer encontrei descritos nas páginas dos volumes mais soturnos que estudei. Suponho não viver um sonho, mas um tormento desperto, um pesadelo onde o próprio tempo parece corrompido. Meu peito se aperta, e por vezes me falta o ar. Tento desesperadamente organizar meus pensamentos, amarrar a razão ao que meus olhos testemunham, buscar um ponto de ancoragem para não ser tragado pelo abismo da loucura que habita estas paredes.
Nesta manhã, por primeira vez, despertei sem sobressaltos, sem os suspiros entrecortados de quem tem os nervos castigados pelo desconhecido. Houve uma calmaria incomum que me tranquilizou. Arrumei minhas coisas, limpei minhas botas com a atenção meticulosa de um soldado e observei a janela. Por algumas horas, a ilusão de normalidade me envolveu como um véu frágil. Mas, como tudo entre os vivos, a paz é efêmera.
O céu, antes cinzento e imóvel, começou a se transmutar. Primeiro, as nuvens espessas formaram um manto opressor sobre o vale. A chuva caiu pesada e súbita, e então, como uma guinada grotesca da natureza, deu lugar à neve. O frio invadiu o aposento, e a neblina rastejou pelas encostas como uma criatura faminta. Dirigi-me à janela, e, ao fitar a clareira de Séttimor, vi as luzes outra vez. Clarões de tons roxos e azul-acinzentados pulsavam na floresta como lanternas espectrais. Já as notara antes, mas hoje me pareceram mais próximas, mais intensas.
E então, um som.
Passos abafados no corredor. Um deslizar breve, contido, como se quem estivesse do outro lado hesitasse antes de agir. Girei nos calcanhares, fitando o vão da porta. Uma sombra estacionou diante dela, e sem que a madeira rangesse sob seu peso, um envelope foi deslizado por baixo. Permaneci imóvel por um instante, prestando atenção. Nenhum som de passos se afastando. Apenas o eco da minha própria respiração.
Aproximei-me. A carta jazia ali, pálida sobre o assoalho. Peguei-a com hesitação. O papel era espesso, amarelado, com um selo partido, como se tivesse sido aberta e lacrada novamente. Deslizei os dedos sobre sua superfície, sentindo um perfume antigo, amadeirado, quase espectral.
Ao desdobrá-la, li:
"A morte não é silêncio, Anton S. Miahi. Nem o tempo é um cárcere impenetrável.
O sangue derramado sempre busca seu reflexo, e ecos do que foi se enlaçam ao que ainda será.
A sombra do passado repousa sobre teu nome, e os fios que te ligam àqueles que se foram não foram cortados—apenas esquecidos. Olga tece as teias e cria caminhos, como sempre fez, e em meio ao lamento das pedras, há um nome que insiste em se erguer entre os mortos. O nome de teu irmão.
Se anseias pela verdade, procura-me onde os sinos dormem e as velas tremem ao menor sopro de vento. Onde o solo foi profanado e os juramentos, quebrados.
A noite de hoje te aguarda na cidade ao nordeste do castelo."
O ar no aposento pareceu tornar-se mais pesado. Olga. O nome que eu desejava sepultar no esquecimento ressurgia como um cadáver reanimado. E meu jovem irmão... há muito tempo morto, longe dos meus braços, mas jamais do meu espírito.
Quem escrevera tais palavras? Como sabia de coisas que poucos poderiam conhecer?
A cidade ao nordeste do castelo... um convite ou uma armadilha?
Independentemente da resposta, eu sabia que não poderia ignorá-lo.
Naquela noite — o que me ocorre ao recordar os eventos que nela se sucederam não é simplesmente uma lembrança indesejável, mas um terror que se assemelha, em sua intensidade e gravidade, aos próprios horrores vividos nos campos de batalha. O que testemunhei, no entanto, não se limita a um mero vislumbre de pesadelo: é uma marca indelével, profundamente gravada nas paredes de minha mente, que jamais se apagará.
Permitam-me, no entanto, oferecer-lhes o relato o mais fiel e acurado possível, como é meu dever como homem de ciência.
Em minha preparação para o que seria uma jornada incerta, vesti-me com o habitual cuidado de um oficial acostumado a respeitar os caprichos da natureza e os rigores do clima. Coloquei sobre meus ombros uma capa espessa de lã, resistente aos ventos cortantes daquela região desolada. A bota de couro, que se estendia até os joelhos, selava minha caminhada com firmeza e austeridade. O chapéu negro, de aba larga, e o sabre, meu fiel companheiro, completaram a indumentária, que, mais do que proteger-me da intempérie, era uma armadura psicológica contra as incertezas do desconhecido. O peso da experiência de combate, forjado nos campos de guerra, incitava-me à cautela, e, por isso, embora o temor de um desafio oculto pairasse sobre mim, minha razão ainda prevalecia, guiando-me através da escuridão.
O dilema que me atormentava não era pequeno. Deveria eu seguir os conselhos da lógica, da razão pura e das lições adquiridas em meu labor como historiador, ou ceder à tentação da descoberta, ao risco de me lançar em uma jornada cujos contornos eram, por ora, indiscerníveis? A dúvida pairava como uma sombra inquietante, mas a experiência adquirida nos campos de batalha me fazia permanecer firme, pois, como sempre, a razão deveria prevalecer sobre o instinto.
Felizmente, o tempo que dediquei ao estudo das cartas e dos mapas do Conde, documentos que o próprio me confiara, revelou-se, de maneira inusitada, como uma arma poderosa. Através deles, pude traçar o percurso, conhecendo os meandros daquele terreno que, embora familiar, ainda me era enigmático. O estudo intenso, por tanto, mostrou-se não apenas uma fonte de prazer intelectual, mas uma ferramenta de sobrevivência.
Ao sair de meu aposento, fechei a porta atrás de mim com um leve e contido estalo, como se o som não fosse mais do que o eco de minha decisão. O corredor do castelo se estendia à minha frente, envolto pela penumbra das tochas tremeluzentes, cujas chamas dançavam sobre as pedras e as paredes de pedra fria. O ar estava carregado, pesado, como se o próprio castelo estivesse respirando, aguardando a minha partida. Segui até a porta leste, a única que dava para o exterior, e ali, ao abrir a pesada folha de madeira, senti o impacto do ar gelado. A noite estava envolta em uma espessa camada de névoa, e o silêncio, profundo e solitário, me acolheu como uma capa de luto.
Antes de avançar, um impulso me fez olhar para trás, e foi quando, ao longe, através de uma janela turva e empoeirada, avistei uma silhueta. A luz tênue que emanava de dentro do castelo projetava sombras longas e desconcertantes, e, naquele instante, compreendi: era Nestor, observando-me daquelas alturas. O pressentimento que ele me causou não se limitava à mera curiosidade; algo em seus olhos me alertava para que a jornada que eu estava prestes a empreender era mais perigosa do que imaginava.
Decidi, no entanto, não hesitar. Tinha um destino, e era para ele que eu me dirigia. A carta que recebera indicava-me o caminho, e como um cavaleiro indo à sua cruzada, eu avançava, agora movido não apenas pela razão, mas por uma força que parecia transcender minha compreensão.
O percurso até a cidade mencionada na missiva foi árduo, e a densa vegetação, com árvores de pinheiro que se erguiam como sentinelas sombrias, parecia absorver a luz da lua, tornando cada passo mais difícil e incerto. O chão estava coberto de lama, que, a cada passo, grudava às solas de minhas botas, tornando a caminhada ainda mais extenuante. A neve voltou a cair, fina como pó de prata, e o vento, agora mais forte, parecia sussurrar palavras que não consegui compreender. As árvores, cujos troncos retorcidos pareciam lamentar sua própria existência, eram um cenário perfeito para o pesadelo que se desenrolava em minha mente.
Após uma caminhada de quase quarenta minutos, finalmente avistei o que procurava. Uma pequena cidade, erguida sobre uma elevação, com mais de vinte casas, se estendia à minha frente. No ponto mais alto, erguia-se uma igreja de duas torres pontiagudas, cujos contornos negros pareciam rasgar o céu nublado, como se estivessem conectados a algum poder obscuro. Uma sensação de estranheza me envolveu ao perceber a proximidade daquela cidade, uma cidade que não deveria existir, não tão perto do castelo, não tão afastada de Séttimor.
— "Então, este lugar realmente existe?" — A pergunta surgia involuntária, como uma súplica ao destino. Não podia acreditar que uma cidade assim pudesse estar oculta, a apenas quatro ou cinco horas de caminhada forçada, mas ali estava ela, desafiando toda a lógica.
O muro de meia altura que cercava a cidade não era mais do que um amparo inútil contra o mundo exterior, e o portão de madeira rústica parecia, mais do que uma entrada, uma brecha para outro mundo. Não havia uma alma viva na rua, mas as luzes tremeluzentes das casas indicavam que, pelo menos, havia algum tipo de vida. O silêncio, no entanto, era ensurdecedor, e o som distante de animais de fazenda acrescentava uma camada de inquietação à quietude sobrenatural que pairava sobre o local.
Ao cruzar o portão, algo alterou a realidade ao meu redor. Foi como se o próprio tecido do espaço se distorcesse, como se uma película invisível tivesse se rasgado, e eu fosse lançado em outra dimensão. O ar parecia se fragmentar, e eu, em um estado de confusão, apoiei-me no portão, sentindo minha cabeça girar. Quando finalmente consegui abrir os olhos, tudo havia mudado. O mundo ao meu redor se tornava maleável, ondulante, como se estivesse imerso em um rio sereno. Bolhas surgiam, flutuando diante de mim, e dentro delas, imagens que se desfocavam antes de revelar cenas de lugares nunca antes vistos — mas que, inexplicavelmente, se assemelhavam a minhas próprias memórias.
Dentre essas bolhas, uma se formou diante de meus olhos, e ao tocá-la, a cena que se revelou fez meu coração parar. Meu irmão, em meus braços, sangrando. O sangue se espalhava sobre suas roupas, escorrendo pelas minhas mãos e caindo sobre minhas pernas. Um grito, abafado pela memória, ecoou em minha mente, e uma sensação de angústia imensurável tomou conta de meu ser. A bolha explodiu, e outras começaram a se formar, distorcidas e caóticas.
Foi neste momento que tomei minha decisão: eu precisava entender o que estava acontecendo. Eu precisava desvendar os mistérios que aquele lugar ocultava.
Avancei, com a determinação que só a dor pode conceder, em direção à igreja. Porém, a uma curta distância das portas, uma barreira invisível parecia me deter, como se o próprio espaço estivesse rejeitando minha presença. Respirei profundamente, voltei a me concentrar, e apertei o punho ao redor do sabre. Estava resoluto, mais do que nunca.
A porta da igreja, que parecia aguardando minha chegada, estava escancarada, como se me convidasse a adentrar seu domínio. Não queria ser impetuoso, pois sabia que a cultura local talvez exigisse mais respeito. Então, entrei com o maior cuidado possível.
Foi quando fui tomado pela estranha melodia que preenchia o interior. Um canto singular, que me remeteu aos cânticos gregorianos da Notre-Dame. Sua beleza não ocultava a estranheza de sua origem. Não sabia se aqueles monges eram católicos, anglicanos ou luteranos, mas sabia que algo em sua música ressoava com a obscuridade daquele lugar.
A arquitetura da igreja era como uma sinfonia de sombras, com colunas robustas adornadas por desenhos que pareciam antigos demais para serem identificados. O altar, elevado e macabro, estava coberto por símbolos que não se assemelhavam a nada que eu já tivesse visto. No altar, o sacerdote se destacava, um homem de barba grisalha, vestindo um manto negro com uma faixa cinza no peito. O ambiente todo emanava uma aura de segredo, e, no lado esquerdo, uma cortina cobrindo algo… algo que eu sabia que não deveria ver, mas que, mesmo assim, me atraía como uma força magnética.
Aquela noite, tão aguardada e temida, chegou com a promessa de revelar mistérios que jamais poderia imaginar. Adentrei a igreja com a diligência habitual de um homem de armas, mas também com a mente de um historiador. Eu sabia que a verdade, em sua forma mais pura e aterradora, seria revelada ali, entre aqueles muros ancestrais.
O ambiente, imerso numa quietude sagrada, parecia reverberar com a história das eras passadas. As paredes de pedra estavam adornadas com inscrições em latim e símbolos antigos que pareciam pulsar com uma energia quase tangível. O canto dos monges, profundo e doloroso, era a alma daquele lugar — seus ecos tocavam minha alma, como se estivessem chamando não apenas à reflexão, mas ao despertar de algo profundo e sombrio.
Gradualmente, meus olhos se adaptaram à penumbra da nave. Eu estava ali, mas não como nenhum homem comum, não como um simples soldado ou professor. Eu era um espectador, aguardando o momento certo para agir, para confrontar o desconhecido que se ocultava por trás dos véus daquele culto sombrio. No entanto, o que me aguardava não era mera informação, mas uma experiência que desafiaria todos os meus princípios.
Foi quando me sentei, num banco distante, que senti a presença de um monge ao meu lado. Ele não disse nada de imediato, mas sua presença era inegável. Um pequeno monge de semblante pacífico, mas cuja aura emanava algo indescritível.
Ele se virou para mim com uma suavidade calculada e falou em tom baixo, quase sussurrante, mas ainda assim carregado de uma autoridade que não pude ignorar:
— Anton S. Miahi, o oficial da cavalaria? Eu sabia que você viria. Seu destino está entrelaçado com o que aqui acontece. Sou Luca.
Eu o olhei com desconfiança, não compreendendo o que queria dizer com aquilo. Mas havia algo em sua fala que me fez hesitar. Ele sabia meu nome. Mais ainda, sabia do meu propósito ali. Esse conhecimento não era comum, e era isso que me inquietava.
— Como sabe quem sou? O que sabe sobre meu irmão? — Minha voz saiu quase imperceptível, mas o monge ouviu.
Luca baixou a cabeça ligeiramente, como se ponderasse suas palavras, e então se inclinou mais perto, falando com uma confiança perturbadora:
— O que você busca aqui, Anton, não é apenas justiça. Você está buscando a verdade sobre seu irmão, o que aconteceu com ele. Sei onde ele está, mas o que posso lhe oferecer será além daquilo que você pode compreender no momento. Imploro: espere até o fim do canto. Quando os monges cessarem, sua resposta estará diante de você.
Suas palavras eram enigmáticas, mas algo em meu íntimo me dizia que ele falava a verdade. O medo, que em outros tempos teria me paralisado, agora se transformava em uma força incognoscível, uma determinação que me impulsionava a continuar, a esperar.
Mas a verdade, como sempre acontece com as trevas, chegou mais cedo do que imaginava.
Os cânticos interromperam-se abruptamente, e o silêncio se abateu sobre a igreja, como uma tempestade prestes a romper os céus. Olhei para o altar, e então percebi o que se desenrolava à minha frente. Um monge tirou o capuz e olhou-me com um sorriso cruel, um sorriso que denotava algo além da simples perversidade. Ele tinha uma cicatriz que cortava o lado direito de seu rosto, uma marca que falava de guerra, dor e sacrifício. Seus olhos, os olhos de um homem que já havia visto o inferno, fixaram-se em mim. Um arrepio percorreu minha espinha.
Ele foi até a cortina, com um gesto quase ritualístico. Movendo-a, ele recitou palavras em uma língua estranha, e, quando a cortina foi retirada, um espelho apareceu. Não era um espelho comum. Suas bordas estavam adornadas com símbolos que emitiam um brilho obscuro, uma luz azul-acinzentada, quase sobrenatural. E, então, a névoa começou a se formar. Um cheiro de carne apodrecida e sangue se espalhou pelo ambiente. Todos os presentes começaram a se agitar, mas ninguém ousou se mover.
Uma risada gutural e grotesca ecoou pela igreja, reverberando em meus ossos, como se o próprio ar estivesse rindo da nossa impotência.
E então, a criatura apareceu.
Ela não era humana. Suas formas, distorcidas e contra-natura, eram algo que eu nunca poderia ter descrito em palavras. Sua pele era pálida, esticada sobre ossos frágeis, como uma tela de carne que se retorcia com cada movimento. Seus olhos, ou melhor, os buracos onde os olhos deveriam estar, estavam vazios, sem íris, sem pupilas. Mas havia algo ali — uma presença, uma malícia que me cortava mais profundamente do que qualquer espada. O sorriso que ela mostrou era o de um predador — dentes finos e afiados como agulhas, dentes que brilhavam sob a luz fraca. Seus membros, longos e elásticos, pareciam ter vida própria, prontos para envolver e esmagar qualquer um que ousasse enfrentá-la.
A voz esganiçada dela cortou o silêncio, uma voz que parecia ecoar de todas as direções ao mesmo tempo:
— Criaturinha… Pequeno coelho… você é a próxima vítima. Venha, venha e seja consumido!
Os monges ao redor começaram a recitar preces freneticamente, mas não havia proteção ali. A criatura avançou, seus passos rápidos e pesados, esmagando a paz que até então reinava. Puxei minha espada, o metal reluzindo sob a luz sombria. Mas antes que pudesse reagir, a criatura avançou sobre mim com uma velocidade sobrenatural.
A luta foi um turbilhão de movimentos. Meus golpes, treinados por anos de batalha, eram rápidos e precisos, mas a criatura esquivava-se com uma agilidade impossível. Ela me atingiu com uma força esmagadora, um golpe brutal que fez com que minhas costelas se rompessem com um estalo doloroso, uma dor que fez tudo ao meu redor desaparecer em uma névoa de dor pura. Antes que pudesse me recuperar, ela saltou sobre mim, mordeu meu braço direito com uma força aterradora. A dor foi tão intensa que me fez quase perder os sentidos, mas, com um esforço desesperado, mantive minha espada firme.
A criatura recuou momentaneamente, e foi quando aproveitei a chance. Em um movimento rápido e preciso, cruzei minha espada e acertei o pescoço da criatura, rasgando sua carne podre. Ela gritou, uma gritaria grotesca e cheia de fúria, mas não recuou.
Com um último esforço, criei uma abertura e, com a força que me restava, cruzei o aço da lâmina contra a sua garganta. O sangue negro jorrou, e a criatura desabou no chão, sem vida. Eu estava exausto, sangrando, a dor consumindo cada fibra do meu ser.
Mas antes que pudesse dar um passo, a escuridão me tomou. Caí ao chão, meu corpo um emaranhado de dor. Senti meu sangue sair, quente e espesso, a dor alucinante do meu braço direito e das minhas costelas rompidas. Minha cabeça girava suavemente, mas pude reconhecer o velho monge barbudo, ainda com seu manto negro e cinza. Ele se aproximou, murmurando preces enquanto me tocava.
Eu mal conseguia entender suas palavras, mas o tom dele me trouxe uma sensação de alívio, mesmo em meio ao caos.
— Cavalheiro, você está no limiar entre a vida e a morte. Mas há algo que posso lhe oferecer… Se você aceitar a salvação, se desejar seguir a verdade da Igreja, sua vida será preservada.
Meu corpo, debilitado e atormentado pela dor, resistiu a essa oferta. Mas minha mente, naquele momento, sentiu o peso da escuridão que se aproximava. Eu, com um esforço sobre-humano, olhei para o monge e disse, com a voz embargada pela dor:
— Eu aceito…
A escuridão tomou conta de mim.
Quando acordei, estava em uma sala estranha, cheia de vapores e luzes opacas. O ar estava quente e úmido. Algo acontecera, algo além da compreensão humana. Mas o quê? O que havia mudado em mim? Eu não sabia, mas o temor tomou conta do meu ser. Algo estava diferente… algo em mim tinha sido alterado.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Ladrinha de Retrato
Abria os relicários das casas em que entrava, remexia fotografias e roubava pedaços de carta. Amaria tanto o mar... e quão bela era a Macedônia!…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Abria os relicários das casas em que entrava, remexia fotografias e roubava pedaços de carta. Amaria tanto o mar... e quão bela era a Macedônia! Morria de medo do altar, e ria à virgem, medonha, sempre em vigília no canto do corredor. Morria de medo de alma, corria do escuro à cama e cobria-se de lençol. Lascivo horror...
“Menina travessa, menina ruim!”
Quebrara outra louça de herança... e como lhe odiaria sua avó! Se ao menos conhecesse...
Fervilha a noite, mexe com ela o demônio da indignação... Cansada de ser menina velha, cansada de ser trapo. Miserável e, ainda assim, vestida em tecido de qualidade, pendurada, todo dia, num urso pardo. De pano, é claro!
— Não quero, não, senhor. Tenho medo de ir pro inferno — E deságua a cachoeira, volta de sapato sujo, vestidinho ensopado. Crueldade com a empregada, “menina ruim, criatura da minha raiva.”
Vigia, vigia a janela, Emilinha, que é pra nenhum bicho entrar; vêm lhe buscar, vêm comer os vestidos e rasgar as novelas. Vêm-te punir, pois tu és melindrosa! Vêm buscar-te a alma.
E corria, outra vez, pra debaixo do lençol.
“É a última vez que roubo retrato! É a última, senhor!”
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…