Diário da Irmã da Ordem
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Data: 17 de novembro de 1373
Há os que dizem que aqueles pequenos momentos que antecedem a morte são os que mais trazem esclarecimento, mas para mim, a morte nunca foi um mistério, nunca temi como os outros, tampouco senti a inquietação que os outros sentiam diante dela, talvez apenas leves calafrios e só. Eu caminhava sem direção perdida em uma vida entediante e sem propósito, trazendo somente comigo um nome que me era um fardo pesado demais e um passado cheio de um desprazer que nunca terminava. Eu busquei o fim por conta própria, mas tropecei em algo que podia ser meu recomeço em um percurso sem significado. Aquele som vindo do meio da floresta foi o primeiro sinal, um canto gregoriano, que penetrava meus ouvidos, fazia tanto tempo que eu não ouvia algo tão belo e angustiante, que me dilacerava por dentro, me rasgando em camadas de emoções tão latentes que eu nem sabia que eu podia possuir, minhas pernas movidas por uma vontade que não era minha me conduziram ao som e assim encontrei a catedral, me percebi sorrindo diante dela.
Escura e imponente, uma silhueta contra um céu sem estrelas, não me recordo de ter aberto sua grandes portas, mas de algum modo eu já estava lá dentro sendo engolida por aquele grande salão onde figuras reunidas de frente ao altar entoavam um cântico, vozes femininas diversas e peculiares, algumas nem pareciam humanas ou talvez fossem, mas estavam além do que eu conhecia. Seus rostos alguns sérios e concentrados outros sem forma definida pelas sombras do véu que usavam. Cada nota que elas entoavam parecia arrancar com mais violência um pedaço do que eu era. No centro do altar havia uma grande imagem esculpida em pedra escura, com um manto negro que parecia um tecido desgatado até os seus peś, sua cabeça era coberta e havia uma coroa pontiaguda e ornamentada, o rosto oculto por um véu, em suas mãos um buquê de flores que dependendo da posição do observador, ele poderia conter flores vivas ou mortas, havia gravidade em sua postura, conforto e ameaça.
Ao longo das laterais da catedral, em nichos profundos, estavam outras imagens, cada uma retratando uma ceifadora distinta que eu soube mais tarde serem representações das várias faces da morte, cada uma com um propósito único. Todas seguravam uma foice em uma mão e na outra mão um lampião que emanava uma luz azulada que iluminava o interior da catedral. Havia uma atmosfera pesada, sufocante e ao mesmo tempo tão arrebatadora e calma, que me fazia sentir tudo. Foi então que chorei, não como uma jovem mulher que sente tudo, mas como uma criança perdida que se dá conta que está sozinha, eu que nunca senti nada antes, talvez só emoções rasas como pequenas comichões, então fui inundada por emoções que não conhecia. Meu soluços ecoavam dentro da catedral, era incrível o tanto de emoção que eu poderia sentir, quando meu choro foi se acalmando e minhas emoções se equilibraram, uma figura vestida com uma túnica e um véu escuro, desceu do altar e veio até mim.
— O canto da Senhora te atraiu até aqui, você deseja deixar tudo para trás? — ela disse com uma voz calma.
— Tudo? — murmurei.
— Sim, tudo que não for servir ao propósito da ordem, teu nome, teu passado, tuas dores, nada disso importa aqui. Apenas a Senhora da Morte, adore-a e ela te trará paz, sirva e ela te dará um propósito.
Aceitei sem hesitar, a vida que eu deixava para trás era um fardo que eu já estava cansada de carregar, eu era uma casca vazia, sem um propósito, assenti com a cabeça.
— Bem-vinda, irmã — ela disse me abraçando, eu senti conforto com esse abraço.
E assim deixei de ser, passei a me vestir como as outras irmãs. O vazio que sempre me acompanhou, começava a ser preenchido com um propósito, o de servir a Senhora da Morte, mas para isso eu deveria aprender com elas a levar conforto para os moribundos, caçar os que desonram o ciclo natural e resgatar as almas perdidas que clamam por liberdade, mas para isso, como disse irmã Teodora, eu precisava ser testada pela ordem e pela Senhora.
Data : 3 de dezembro de 1373
As madrugadas na abadia são silenciosas, mas se eu me concentrar bastante consigo ouvir o sussurrar do vento, o arranhar das aves necrofagas nas telhas, o som da madeira rangendo sozinha. Tudo isso um lembrete de que, indiferente a tudo, o mundo segue seu funcionamento. Rezei por horas esta manhã com as outras irmãs da ordem, repeti as palavras, copiei os gestos, estudei e treinei com elas. Elas observaram minha disciplina e vi nelas o que elas esperam de mim. Acho fascinante como parecer ter fé é tão convincente quanto a fé em si.
Data: 5 de dezembro de 1373
Irmã Teodora que me recebeu na Ordem, eu sei que deveria estar grata, mas só sinto que sai de uma jaula para cair em outra. Contei para ela algumas partes do meu passado e o quanto eu sentia raiva das pessoas da minha vila, Ela diz que serei útil, diz que essa minha raiva pode ser útil, se aprender controlá-la, ou com suas palavras: “Sua raiva pode ser uma boa lâmina, se você aprender a segurá-la pelo cabo.” O primeiro dia de treinamento físico se resumiu a dor, flexões até meus braços falharem, agachamentos até as pernas cederem, abdominais até meu tronco arder, golpes com as mãos nuas contra um boneco de palha até os nós dos dedos abrirem, não reclamei em voz alta, não pedi por descanso, mas irmã Teodora viu meu ódio e não tardou a me corrigir. “A raiva sem controle é como veneno mal dosado, mata tanto quem serve quanto quem bebe.” Ela disse com sua calma de sempre.
Data: 12 de dezembro de 1373
Minhas mãos estão cobertas de calos, por conta dos exercícios. Mas minha visão vem se acostumando à escuridão, treinamos nossa furtividade todas as noites, deslizando por pedras, prendendo a respiração quando outros passam, caminhando pela catedral, onde o menor ruído significa falha, que significa punição. As punições não são nada comparadas ao próprio treinamento. Hoje eu tropecei na borda do tapete, uma hora inteira ajoelhada meditando no sal grosso como castigo. “Você aprende melhor através da dor”. A irmã Teodora disse, estou começando a acreditar nela.
Data: 17 de dezembro de 1373
A lógica é que deve governar, é o que dizem aqui dentro, mas a lógica não acalma a fome quando se fica três dias sem comer para testar a resistência, e muito menos a lógica tira o gosto de sangue da boca depois de se levar um soco no rosto. Hoje cada uma de nós enfrentamos um prisioneiro, um ladrão que foi capturado pela ordem. Deram a ele uma faca e nos jogaram numa cela, eu venci e ele não saiu vivo. Fiz tudo sem hesitar, irmã Teodora aprovou.
Data: 2 de janeiro de 1374
O primeiro mês chegou ao fim e ainda estou viva, aprendi a matar com eficiência, a envenenar sem que me notem, e esconder minha presença, mas irmã Teodora diz que ainda sou previsível, que eu penso demais. “Se você pensa demais no que deve fazer durante uma missão mais rápido você tem chance de morrer, você não deve pensar demais no que
aprendeu senão morre.” Sei que ela está certa, mas ainda me pego pensando em tudo que aprendi, mas o treinamento constante talvez um dia silencie isso.
Data: 17 de janeiro de 1374
A dor é uma companhia constante, o treinamento diário não dá aos músculos tempo para descansarem, então eu apenas protesto em silêncio, mas a minha mente e meu corpo estão começando a se ajustar ao treinamento. Agora quando caminho meus pés sabem onde devem pisar para evitar ruídos, quando respiro meus pulmões não se expandem além do necessário, e quando ataco, não penso demais, e consigo prever os movimentos do inimigo. Hoje nós treinamos envenenamento, fui apresentada a novas substâncias usadas pela Ordem, extratos de plantas, venenos de animais, misturas ainda desconhecidas para mim. Provei algumas sob supervisão, é claro, apenas o suficiente para sentir o efeito antes de receber o antídoto, fomos orientadas a tomar pequenas doses de alguns deles para criar resistência, mas a lição foi clara, nunca experimentar nada que não seja preparado por mim. Irmã Teodora me elogiou para logo depois chamar minha atenção. “Você aprende rápido, mas ainda pensa demais, um veneno hesita antes de agir?” Ela perguntou calma, mas não achei necessário responder. “Então você também não deveria”. Não hesitaria contra a vida de ninguém, mas depois que entrei para Ordem hesitar quanto se trata da minha vida se tornou o lógico a ser feito.
Data: 1 de fevereiro de 1374
Elas nos testaram hoje, nos colocaram em um salão gigantesco, e soltaram três irmãs veteranas para nos caçar. Não podíamos lutar ou sermos vistas, apenas desaparecer. Eu passei horas lá dentro, me movendo silenciosamente entre as colunas, prendendo a minha respiração, sendo um nada apenas. Uma das veteranas passou a centímetros de mim e não me notou, outra parou ao meu lado e seguiu seu caminho sem sentir a minha presença. No fim consegui sair do salão sozinha sem que elas me encontrassem. Quando sai irmã Teodora sorriu pela primeira vez desde que cheguei aqui, é isso foi melhor do que qualquer palavra de “sabedoria” que ela pudesse me dizer.
Data: 16 de fevereiro de 1374
A lógica governa, sim ela governa, mas o corpo tem seus limites. Nos fizeram dormir em celas de pedra sem cobertas, nos fizeram nadar em lagos gelados nos deixando horas até que nossas peles ficassem roxas. Era para nos ensinar controle, saber que a dor vem, mas que
precisamos dominar. Foquei em lembrar da minha vida antes da ordem e como estar aqui era muito melhor. Pensei em números, sequências, padrões, eles distraem minha mente. Sai do lago tremendo, mas de pé, outras nao aguentaram, elas falharam, eu não podia falhar eu não tinha mais nada além disso.
Data: 3 de março de 1374
Irmã Teodora me deu a minha primeira missão esta noite, acompanhada de uma veterana. Um homem que fala demais, que pergunta demais, que não compreende que algumas portas precisam permanecer trancadas. Ela me explicou onde encontrá-lo, o que eu deveria fazer, as regras e dogmas que eu deveria seguir. Me explicou tudo com calma e lógica fria, eu gosto disso nela, não há rodeios, não há sentimentalismos, quando se trata de missões. Aceitei a missão, não por ser meu dever, mas porque estava ansiosa para saber como seria dessa vez, se o aperto no peito, a antecipação, se seriam diferentes depois de entrar para a ordem, se com essa missão eu conseguiria enxergar o mundo mais nítido por mais tempo. Foi limpo e eficiente. Ele olhou para mim com aqueles olhos confusos arregalados, tentando entender, encontrar um sentido naquilo, sentido onde não havia. Dei um tempo a ele, às vezes acontece de eles terem um vislumbre, uma revelação de algo que justifique tudo, que explique o motivo daquilo, mas não dessa vez, nenhum motivo havia para ele. Irmã Teodora perguntou se sentia culpa ou algo parecido, apenas olhei para ela e dei um breve sorriso. Acho que ela não espera culpa de mim, apenas eficiência. Eu não sentia culpa ou medo, eu sentia paz.
Data: 18 de abril de 1374
Já se foram quatro meses, aqui dentro o tempo parece se dissolver. Às vezes não sei se é dia ou noite, só sei que estou melhorando. Agora consigo ficar pendurada por horas sem sentir dor, meus golpes são mais limpos, rápidos e fatais. Aprendi a matar uma pessoa antes que ela perceba minha presença, mas irmã Teodora disse que ainda falta algo. “Você entende do silêncio e da morte, mas ainda pensa como uma pessoa viva.” Perguntei o que ela queria dizer com isso e ela apenas sorriu, sinto que a resposta não será agradável.
Data: 2 de maio de 1374
Acordei em uma cela vazia, sem roupas, sem armas, sem comida, apenas escuridão. Fiquei lá por não sei quanto tempo. Sem saber se iriam me soltar, sem saber se era um teste ou se eu havia cometido algum erro. Eu sentia a fome me queimar, a sede me torturava aos poucos, e
eu murmurava para mim mesma que deveria aguentar que não poderia deixar elas me vencerem. Quando finalmente abriram a porta, a irmã Teodora estava à minha espera. Olhou para mim, me avaliou e então disse: “Agora sim, você entende e está pronta.” Eu não me curvei a necessidade, nem a vontade de desistir. Eu sobrevivi a isso e estava pronta para mais.
Data: 21 de junho de 1374
Hoje recebi meu novo nome, “Esse é o nome que a Senhora da Morte escolheu para você, não serás mais Lucila, ela morreu, hoje nasce Mara.” Me olhei no reflexo da lâmina que me entregaram, meu rosto era o mesmo, mas meus olhos não pertenciam mais à menina que entrou aqui há seis meses. Aceitei meu novo nome, afinal Lucila não teria sobrevivido, mas Mara sim. Agora sou uma irmã da ordem, sem nome real, apenas uma missão, com um passado sepultado, andando entre os vivos e os mortos, uma serva da morte e pela primeira vez, sinto uma paz e compreendo o significado de existir.
Um abrupto sopro de vida e meus olhos foram circundados pelo lume de um dia nublado. Eu dormia? Ao derredor, um cemitério árido e lúgubre descansava…