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Trilogia Sprawl: Parte #1 Neuromancer

O universo cyberpunk é apaixonante e cruel, assustadoramente amplo e confuso, subjetivo e brutal, crítico e revolucionário, dentre muitas outras coisas…

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O universo cyberpunk é apaixonante e cruel, assustadoramente amplo e confuso, subjetivo e brutal, crítico e revolucionário, dentre muitas outras coisas. Abrangendo desde gêneros literários, jogos de vídeo game, músicas, vestimentas, características estéticas… se compondo como um todo a ser explorado. Com luzes neon iluminando as ruas à noite, implantes cibernéticos, conflitos entre gangues e um mundo dominado por megacorporações, o cyberpunk (que se tornou, recentemente, um vocábulo reconhecido pela Academia Brasileira de Letras) se materializa como uma crítica clara e explícita ao caminho que a humanidade trilha há décadas: um mega corporativismo ultra capitalista.

É impossível tocar no assunto sem citar e se aprofundar na trilogia que pavimentou a estrada do sub-gênero literário: Neuromancer, Count Zero e Mona Lisa Overdrive, conhecidos como “trilogia Sprawl”, do autor William Gibson.

Neuromancer (1984) é o primeiro livro da trilogia e, também, é aquele que captura o leitor e o apresenta ao estilo de escrita do autor. Ora extremamente descritiva (e nada explicativa), ora direta e dinâmica, a escrita de Gibson pode impactar negativamente os leitores de primeira viagem.  O autor discorre, por páginas e páginas, pelos mais ínfimos detalhes da cidade de Chiba: as tecnologias dispostas por toda parte, as gírias locais, as drogas utilizadas, as dinâmicas entre a população local… O que pode ser considerado como característica de uma escrita amadora, ou como um verdadeiro truque de mestre. Gibson alterna a quantidade de informação disposta ao leitor conforme a linha narrativa do capítulo em questão. Quando acompanhamos Case, o cowboy (hacker) e personagem principal do livro, o autor é específico com relação aos equipamentos e técnicas utilizadas, assim como sobre o ciberespaço (termo cunhado por ele mesmo). Quando acompanhamos outro personagem, que pouco sabe sobre os acontecimentos, o autor também nos apresenta com pouca informação. Assim, nos vemos com o mesmo nível de conhecimento que os personagens que estamos acompanhando, tecendo uma relação pessoal e íntima com eles.

No início do livro, nos deparamos com um protagonista em ruínas. Case, após tentar roubar de seus próprios contratantes, foi infectado com um vírus que o impede de se conectar à rede. Vivendo em completo colapso, ele está preso às lembranças de sua ex-namorada e à rotina criminosa de Chiba — um cenário que reflete não apenas suas emoções destroçadas, mas também a ausência de qualquer perspectiva, sentimentos que permeiam este novo universo. O personagem se submete a trabalhos perigosos para criminosos locais, em troca do suficiente para viver mais um dia. Gibson, então, nos presenteia com a personagem mais singular e inesquecível de toda trilogia: Molly Millions. Molly é personagem recorrente nas histórias do autor, aparecendo pela primeira vez em Johnny Mnemonic, três anos antes de Neuromancer. Forte, em todos os sentidos, e apaixonante, a razorgirl surpreende pelas marcantes características físicas (as lentes prateadas sobre os olhos) e pela personalidade incomparável. Molly é o “estado da arte” do autor. Todas as cenas em que aparece são marcantes, especialmente quando o autor vai nos mostrando pequenos fragmentos sobre o passado obscuro da personagem.

Molly aborda Case para convocá-lo, sabendo de suas habilidades como cowboy, a mando de Armitage, outro personagem que nos surpreende ao longo da obra. Case recebe a possibilidade de ser curado, mas deve ajudar Armitage em determinadas missões que o apresentarão a desafios jamais vistos. Neste momento o autor nos apresenta a característica mais marcante da trilogia: a junção do cyberpunk com a religião vodu. O ciberespaço deixa de ser a representação gráfica de dados corporativos e passa a ser lar de entidades sencientes, como inteligências artificiais que se materializam no espaço virtual, se movimentando e buscando compreender umas as outras. É inegável que a proposta gera uma sensação desconfortável no leitor, que se vê diante de algo que nem as forças de segurança digital do livro sabem lidar. Case se vê perante algo muito maior do que ele mesmo: o questionamento sobre quando, e como, isso começou (algo que só será respondido, em partes, no terceiro livro da trilogia) e quais os impactos por vir.

O misto de tecnologia, investigação, religião vudu e questionamentos sobre humanidade e moral nos mantém presos à obra, que escala e ruma as resoluções da metade para o final, com uma conclusão surpreendente e inesquecível

Neuromancer é visto por muitos como o melhor livro da trilogia (e do autor) e ponto de partida de todos que querem compreender o início do universo cyberpunk. Sua influência nas obras que se seguiram é perceptível nos elementos desenvolvidos pelo autor: constructos de personalidade (o personagem Flatline, que auxilia Case em diversos momentos), megacorporações que dominam as cidades (Hosaka, Maas Biolab, a infame e familiar Tessier-Ashpool), implantes cibernéticos por toda parte (como não se lembrar dos braços de Ratz logo no início do livro?) e o universo abstrato e assustador que é o ciberespaço. 

Os escritos de Gibson são uma experiência a ser vivida e que todos os amantes do cyberpunk deveriam conhecer para entender as estruturas que sustentam esse gênero.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Pobres Criaturas – Bella Baxter, a Frankenstein Feminista

"Pobres Criaturas" (em inglês, Poor Things) é um romance de Alasdair Gray publicado em 1992, que pode ser citado como uma adaptação...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

"Pobres Criaturas" (em inglês, Poor Things) é um romance de Alasdair Gray publicado em 1992, que pode ser citado como uma adaptação moderna de Frankenstein, o clássico de Mary Shelley. O livro é uma mistura de fantasia, ficção científica e crítica social, ambientado na Escócia do final do século XIX. 

A história gira em torno de Bella Baxter, uma mulher que é ressuscitada por um excêntrico cientista, o Dr. Godwin Baxter, após sua morte. Assim como no Frankenstein de Shelley, a protagonista passa por um processo de reconstrução, o que levanta questões sobre identidade, humanidade e o papel da ciência. 

Enquanto o monstro de Frankenstein é retratado como uma criatura trágica, lutando para encontrar seu lugar no mundo, Bella é uma personagem mais complexa, que busca entender sua nova vida e desafiar as normas da sociedade vitoriana. O romance aborda temas como feminismo, desigualdade social e o impacto do progresso científico, assim como o original de Shelley, mas com um tom mais satírico e uma perspectiva moderna. O filme "Pobres Criaturas" (Poor Things), dirigido por Yorgos Lanthimos, explora questões feministas e de igualdade de gênero, refletindo os temas presentes no livro de Alasdair Gray.  

A narrativa destaca a busca de Bella por autonomia e liberdade, desafiando as restrições que a sociedade tenta impor sobre ela como mulher. O filme explora a construção da identidade feminina, o direito à autodeterminação e a luta contra a opressão patriarcal, temas centrais ao feminismo. 

Além disso, a personagem de Bella representa uma figura de empoderamento, rejeitando as convenções tradicionais e lutando por igualdade e justiça. Portanto, o filme "Pobres Criaturas" aborda de forma significativa as questões de feminismo e igualdade de gênero, em consonância com a obra original. 

O livro também faz uso de uma estrutura narrativa não convencional, com várias camadas de narração e documentos fictícios, o que adiciona profundidade à história e à reflexão sobre o papel da narrativa na construção da realidade. Em resumo, Pobres Criaturas é uma releitura criativa e crítica de Frankenstein, explorando temas semelhantes, mas adaptados ao contexto cultural e social do final do século XX. 

Outro ponto que faz um intertexto entre as duas obras é a construção do personagem Dr. Godwin Baxter que é inspirado em William Godwin, pai de Mary Shelley. William Godwin foi um filósofo, escritor e um dos primeiros defensores do anarquismo e do pensamento radical no século XVIII. Ele é conhecido por seu trabalho em prol dos direitos individuais e da liberdade, além de ser um crítico das instituições autoritárias da época. 

O nome do personagem, "Godwin Baxter", é uma referência direta a William Godwin, o que cria um elo simbólico entre o cientista do romance de Alasdair Gray e o pai de Mary Shelley. Assim como Godwin, Baxter é um pensador excêntrico que desafia as convenções sociais de sua época, principalmente em relação à ciência, moralidade e liberdade individual.  

No livro e no filme, Dr. Godwin Baxter revive Bella Baxter, imaginando o ato de "criar vida", um tema central em Frankenstein, obra de Mary Shelley. A conexão com o pai de Shelley serve como um comentário sobre a natureza da criação, tanto literária quanto científica, e reforça as ligações entre Pobres Criaturas e o clássico Frankenstein. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Resenha: O poeta maldito e a rainha da noite

1850, em uma noite tempestuosa, uma antiga taverna abriga cinco homens imersos em suas histórias…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

1850, em uma noite tempestuosa, uma antiga taverna abriga cinco homens imersos em suas histórias. Aos olhos dos mais desatentos, tais figuras não passam de aventureiros românticos e poetas embriagados. No entanto, os contos declamados pelos audazes indivíduos escondem uma profunda camada sombria, e tão logo a embriaguez os leva a testemunhar um terrível e sangrento assassinato. Não tão longe do local, e em outra perspectiva, estudantes da Academia de Ciências Jurídicas e Sociais aproveitam a juventude. Entre eles está Álvarez de Azevedo, mais conhecido como Maneco. Sensível e romântico, Maneco tem sua vida transformada ao cruzar o caminho de uma mulher desconhecida, tornando-se cúmplice em um rastro de morte e sangue por toda a cidade.

"O Poeta Maldito e a Rainha da Noite" é uma obra de ficção histórica baseada em um livro de cinco contos do autor Álvares de Azevedo. A trama introduz uma história romântica e punitiva, com elementos poéticos e grotescos, dando espaço para o protagonista, o próprio Álvarez de Azevedo, revelar um pouco de seu cotidiano. Muito se sabe sobre sua vida, embora pouco seja relatado por seu próprio ponto de vista, pois rapidamente veio a falecer na maturidade dos 21 anos.

Com toda certeza, a experiência de ler este livro será relembrada por mim com muito carinho, pois, quando adolescente, fui muito apegada ao autor Álvares de Azevedo. Hoje, nove anos mais velha do que o autor chegou a ser, pondero sobre tudo que senti em meu primeiro contato com sua escrita, especialmente como não pude refletir sobre o teor da inadequação de sua obra "Noite na Taverna". Agora, mais velha, posso não só absorver uma boa obra de ficção, seja qual for o tema, mas também compreender o fator do tempo e dos costumes de outras épocas, mesmo que possam soar cruéis nos dias atuais.

O livro foi uma ótima forma de conhecer um pouco a mente de um jovem de dezenove a vinte e um anos, inserido na sociedade brasileira do ano de 1850, traçando um doce paralelo entre a ingenuidade e a fantasia lírica. Sem julgamentos e sem afastar nosso carinho pelo autor, mas com uma abordagem atual e reflexiva, a respeito de temas importantes como a violência contra a mulher e a forma como fomos ignoradas e mal compreendidas ao longo das décadas.

Gostei tanto, sou muito grata por essa experiência.

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa
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A Sombra Escarlate - Resenha

Na Inglaterra do século XIX, a aspirante à pintora, Scarlet Hale, vive em uma mansão em decadência acompanhada de seu pai e prima. A vida de Scarlet…

Fotografia de Liza Abreu

Na Inglaterra do século XIX, a aspirante à pintora, Scarlet Hale, vive em uma mansão em decadência acompanhada de seu pai e prima. A vida de Scarlet jamais foi representada por tranquilidade, apesar de vir de uma linhagem nobre, cedo perdeu a mãe e se mantém constantemente presa à repreensão do pai, que deseja mais que tudo que sua filha tenha um bom casamento e assegure, não só a sua vida como a posição social, uma vez que a família Hale vive em decadência. Em volta, a pacata cidade onde vivem suporta um terrível sentimento de terror após misteriosas e sangrentas mortes assolarem seus moradores, levantando suspeitas sobre a Jovem Scarlet, que em meio a tantas suposições, suspeita de si mesma.

Essa é uma daquelas histórias que conseguem prender o leitor do início ao fim e levanta vários questionamentos. Em um cenário bem delineado e já revisitado em muitos livros da literatura gótica, como a figura da residência imponente e remota, e que eu particularmente adoro, o livro insere os personagens em um enredo limpo e fluído, recheado de detalhamento, linguagem de época bem elaborada e mensagens atuais. 

A diagramação é primorosa e conversa muito bem com a história, tornando a experiência ainda mais agradável. Gostei de como a autora decidiu o destino dos personagens, principalmente da personalidade da protagonista, a qual soube lidar muito bem com a repreensão e com tamanhos conflitos pessoais ainda mais mortificantes que trairiam a sanidade de qualquer outro.

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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O sopro da brenha - Resenha

A morte de um colega de trabalho, desencadeia uma imensidão de novas diligências. Valéria, uma bailarina de trinta anos…

Imagem da autora

  • O sopro da brenha

  • Autora: Sarah Schmorantz 

  • Ano:2021

  • Número de páginas: 342

  • O sopro da brenha

A morte de um colega de trabalho, desencadeia uma imensidão de novas diligências. Valéria, uma bailarina de trinta anos, desinteressada de seu passado, volta a sentir urgência em tomar conhecimento de cada pedacinho de sua história após presenciar uma tenebrosa aparição em sua casa. Detalhes importantes surgem à medida que a busca por suas origens se torna uma jornada intrínseca e mística.

O sopro da brenha traz uma narrativa poética, detalhada, colocando em pauta o direito da mulher no que diz respeito ao controle de suas próprias vidas, e a descomunal força que sustentamos em momentos de necessidade.

A trama percorre vários caminhos e traz reviravoltas importantes ao desenrolar narrativa. Inserida em um cenário obscuro, conseguimos absorver diversas emoções, boas e desagradáveis relacionados a uma coleção de situações incompreensíveis diante de um certo ponto de vista. 

Confesso que o desfecho partiu meu coração por eventualidade de um dos personagens mais queridos e um tanto afetado pela atmosfera misteriosa da história. Novamente, adorei a oportunidade de ler mais de uma autora tão poética e sensitiva, que consegue não só transmitir a paixão pela escrita, mas presentear o leitor com a chance de conhecer a origem dos nossos próprios sentimentos.

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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Curiosidades sobre o Drácula: Castelo de Bran/Castelo Poenari

Iremos desmitificar aqui a questão da morada real de Vlad III …

Iremos desmitificar aqui a questão da morada real de Vlad III — O Empalador (mais conhecido na ficção cinematográfica e na Literatura como Conde Drácula). Na primeira imagem podemos observar como seria o Castelo de Bran, construído em 1212, no estilo neogótico.

Imagem gerada por IA para simbolizar o Castelo de Bran

O Castelo de Bran, localizado próximo de Bran, (na vizinhança da cidade de Brașov, no condado com o mesmo nome), é um monumento nacional e marco histórico da Roménia. A fortaleza situa-se na fronteira entre a Transilvânia e a Valáquia, pela estrada 73, erigido na floresta no sopé dos montes Cárpatos. Conhecido habitualmente como o “Castelo do Drácula”, é promovido como a residência do personagem que dá título ao romance de Bram Stoker, obra que conduziu à persistência do mito de que este alcácer teria servido, em tempos, de residência ao Príncipe Vlad Tepes, governador da Valáquia.

O real Castelo de Bran (foto da web)

No entanto, o Castelo onde, de fato, o Conde Vlad Tepes passou a maior parte de sua vida não é o de Bran. Não há evidências históricas que confirmem que Vlad tenha visitado o Castelo do Drácula, mas existe a crença de que depois de ser capturado pelo exército do rei húngaro, ele teria sido prisioneiro no castelo por, aproximadamente, dois meses.

Um dos detalhes mais curiosos é que Bram Stoker nunca visitou o Castelo de Bran e, para descrevê-lo no livro, baseou-se apenas em relatos. Além disso, o endereço nunca foi residência oficial de Vlad III. Este tinha como refúgio a fortaleza de Poenari que fica em Arefu, vilarejo localizado a cerca de 125 quilômetros de Bran.

Castelo Poenari em ruínas (foto da web)

O Castelo Poenari foi erguido no início do século XIII, pelos primeiros governantes romenos na região sul da Roménia, conhecida como Valáquia. Por volta do século XIV, Poenari era a principal cidadela dos governadores da Casa de Basarab. Nas décadas seguintes, o nome e os residentes mudaram várias vezes, no entanto, mais tarde o castelo foi abandonado e deixado em ruínas.

Imagem gerada por IA, simula o aspecto do Castelo Poenari se ele não estivesse em ruínas

Podemos concluir, portanto, que, com base nas evidências históricas, é possível entender que Vlad III não tem qualquer relação com o Castelo de Bran. Além disso, as descrições do Castelo do Conde Drácula, feitas por Bram Stocker, não correspondem ao Castelo de Bran. No entanto, este último tornou-se um símbolo e é atualmente um ponto turístico, conhecido como o Castelo do Drácula.

Texto publicado na 2ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2024. → Ler edição completa

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A Crônica da Casa Assassinada — Lúcio Cardoso — Resenha

Nesse livro, por mais que não seja considerado…

MidjourneyAI

Nesse livro, por mais que não seja considerado literatura gótica, existem muitos elementos que correspondem a toda simbologia de tal.

A trama desse livro gira em torno de uma família mineira, os Meneses. De modo epistolar e com uma narrativa que envolve a posição de todos os personagens. Mostra a família em uma derradeira decadência, a ponto de dissipar o próprio patrimônio.

Em meio a tantas formas de narrativa, vamos acompanhando vários pontos de vista da vida de uma das personagens que posso julgar como principal. Nina é aquela “protagonista” que você enxerga uma beleza, mesmo conhecendo seu lado mais obscuro, que de certa forma, às vezes nos causa até repulsa em algumas das suas atitudes. Ela tem aquele “quê” que denota várias interrogações na nossa mente. No meio de seus pecados, como é citado por alguns membros da trama, vamos enxergar que toda aquela familiaridade que ela tinha com certos caprichos, vão diminuindo de acordo com as suas atitudes de soberba. E não somente suas escolhas que a levam a um caminho entrelaçado de fraquezas, mas também como a sua própria visão sobre si, que ao se ver numa certa idade, vai lutando contra a si mesma, tentando afastar seu trágico fim.

Enxergar uma pessoa a partir da visão de outras é algo que tende a ser atemporal. Com o prosseguir das escolhas de todos os personagens que vão mostrando a falta de moral e incertezas, me fez enxergar a casa como a real protagonista da história, que leva toda a energia daqueles membros, e uma energia densa, que talvez precisasse de vários rituais até chegar uma certa purificação desse lar.

No livro pode ter alguns gatilhos para os sensíveis, envolvendo incesto e outros sentimentos considerados negativos.

O autor escreve de cada ponto de vista com maestria; a visão baseada na personalidade de cada personagem. Não esperamos um final feliz para os personagens, até porque é difícil se apegar a algum deles. O que esperamos da trama é uma resposta baseada nas escolhas de cada. Ao serem esclarecidos determinados pontos que vão entregar um certo plot nessa família, vamos acompanhando a decadência deles com outra perspectiva, e todos os sentimentos que foram sentidos no decorrer da leitura, vão se despedaçando quando percebemos a falta de ética de alguns deles e que, afinal, não importa a visão como enxergamos cada qual do ponto de vista do outro, mas que a claustrofobia que levam em cada letra e o peso de cada frase, nos deixa a reflexão de um sentido crítico quanto à sociedade e suas façanhas.

Texto publicado na 2ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2024. → Ler edição completa
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Série Penny Dreadful — Influências do período Vitoriano

Penny Dreadful é uma série de TV que estreou no Brasil…

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Penny Dreadful é uma série de TV que estreou no Brasil em junho de 2014 pelo canal HBO.

O título da série se refere aos Penny Dreadfuls, publicações de ficção e terror que eram vendidas na Inglaterra Vitoriana do século XIX. Por serem histórias que custavam um centavo, tinham como apelido “centavos do terror”.

A série foi criada por John Logan, produzida por ele e Sam Mendes, e tem uma intertextualidade entre as origens de vários personagens famosos da literatura gótica/de terror, como o Dr. Victor Frankenstein (do romance Frankenstein, de Mary Shelley), Van Helsing e Drácula, (personagens presentes em Drácula, de Bram Stoker) e Dorian Gray (da obra O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde).

Além disso, traz também lendas urbanas (Jack, o Estripador) e seres místicos (lobisomens e bruxas) que, juntos, espalham sua monstruosa alienação pela capital inglesa na Belle Époque. Vanessa Ives, personagem central do enredo (interpretada por Eva Green) à princípio é, supostamente, uma bruxa. Mais tarde, ela é revelada como uma encarnação da deusa Amunet. Ives é disputada tanto no campo amoroso por demônios, lobisomens, como pelo próprio Drácula, que é revelado mais para o final da terceira temporada.

Série muito recomendada para os amantes de literatura gótica/sombria/de terror.

Texto publicado na 2ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2024. → Ler edição completa

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Resenha: Jane Eyre

Jane foi criada praticamente como uma estranha, sem nenhum afeto por parte de sua tutora, sra. Reed, contando apenas…

Foto e Liza Abreu

Jane foi criada praticamente como uma estranha, sem nenhum afeto por parte de sua tutora, sra. Reed, contando apenas com a boa vontade de uma das empregadas de ‘’Gateshead Hall’’, onde vivem. Tempos depois, Jane é enviada à instituição Lowood, um colégio interno com métodos de ensino duros e de situação precária, onde faz uma grande e curta amizade com uma jovem bondosa de nome Helen, e assim aprende sobre si mesma e espiritualidade.

Em sua fase adulta, e perfeitamente educada, Jane decide deixar a instituição a procura de um emprego, e imediatamente recebe uma resposta convocando sua estada na mansão Thornfield Hall, com a finalidade de instruir e educar a pupila do proprietário da mansão, sr. Rochester — personagem esse que chama a atenção de Jane desde o início por sua personalidade enigmática e opiniões controversas. Juntos, preceptora e patrão, desenvolvem uma relação de amizade e paixão devastadora, um relacionamento o qual subverte as opiniões de Jane e toda a sua percepção de moralidade e racionalidade.

Uma obra instigante por apresentar toda a complexidade dos sentimentos humanos, e acompanha particularmente a trajetória de uma jovem mulher da época vitoriana, expondo seus pensamentos e controversas posições a respeito de seu papel como mulher trabalhadora carecida de liberdade e compreensão das regras sociais, uma vez que toda sua sabedoria e independência não lhe permitem os mesmos direitos que os demais indivíduos do sexo masculino. 

De forma sensível, a obra debate a independência feminina e as angústias que enfrentamos ao fugirmos da "normalidade", ou o quão assustador e perigoso pode ser seguir apenas o coração. É comum lermos sobre esses aspectos e naturalmente nos identificamos em como se aplicam à época atual, contudo, me veio a reflexão sobre como tais questões provocaram os leitores do século dezenove, uma vez que pensamentos relacionados ao sentimentalismo, de forma escandalosa para os moldes da sociedade vitoriana, despertaria a reflexão e a relação do comportamento de grande parte da população, homem ou mulher, diante da quebra de padrão imposto em diversas instituições, como exemplo, o casamento.

Destaco também a construção do mistério envolvendo a mansão Thornfield Hall e o suposto fantasma o qual amedronta a protagonista e possivelmente (apesar da explicação lógica impressa no desfecho da trama) representa a preocupação de Jane pela mudança repentina de seus sentimentos e igualmente ao casamento e a responsabilidade que o mesmo representa.

Resenha publicada na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa
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Resenha: A Melancolia de Trees Of Eternity

Trees of Eternity foi uma colaboração musical entre o guitarrista finlandês Juha Raivio e…

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Trees of Eternity foi uma colaboração musical entre o guitarrista finlandês Juha Raivio (da banda Swallow the Sun) e a cantora Aleah Stanbridge, nascida na África do Sul e residente na Suécia. A música deles é frequentemente descrita como melancólica ea inspirada no estilo musical doom/death, com vocais femininos angelicais.

A banda foi formada quando o guitarrista Juha Raivio e a cantora Aleah se juntaram no estúdio para trabalhar na música "Lights on the Lake" para o próximo álbum da Swallow the Sun. A partir dai, o projeto se tornou uma ideia com vida própria e, desta experiência nasceu o álbum Hour of The Nightingale.

Em 11 de agosto de 2016, o álbum de estreia da banda, Hour of the Nightingale, foi anunciado para ser lançado em 11 de novembro. Infelizmente, em 18 de abril de 2016, a cantora Aleah Stanbridge faleceu de câncer aos 39 anos. Dois dias depois, Juha escreveu no Facebook que o álbum estava pronto para ser lançado há algum tempo e que os planos ainda estavam em andamento. Ele também planejava lançar as músicas solo de Aleah

"Alcance através de sua mente, céu interno
Deslize infinito até mim
Alma encarcerada, presa atrás de seus olhos
Até que seja salva, compartilhando sua luz
E escuridão"
— Trecho traduzido da música Condemned To Silence

O álbum foi lançado, às condolências por Aleah e em nome de sua voz perfeita e do trabalho que tivera, junto a Juha e os demais convidados, na produção de Hour of The Nightingale.

É preciso ouvir Aleah cantar em Hour of The Nightingale para compreender como as sensações mais soturnas emergem no âmago e florescem em uma lentidão abominável dentro da alma. Tamanha é a melancolia dos instrumentos que conduzem a voz de Aleah que, através dos nossos olhos, vertem lágrimas imateriais enquanto um estranho conforto nos guia a um abismo sem fim. Por tais sensações inenarráveis, é impossível deixar de ouvir o álbum completo, várias vezes consecutivas; é viciante o universo que tais composições evocam.

Há males quais não podemos dizer terem vindos para o bem, pois que amargura é não ter um novo single de Trees of Eternity nos dias atuais; resta-nos o lamento e a mensagem deixada: “Não chores por mártires | Levante a cabeça | Águas salinas não vão ressuscitar os mortos” — Trecho traduzido da música que leva o nome do álbum: Hour Of The Nightingale.

"Veja todas as cores desaparecendo
Com o Sol
Temporada de uma escuridão sombria
De novo, isto começou
Amaldiçoado por ciclos recorrentes
Erguido para ser desfeito"
— Trecho traduzido da música Eye Of Night
Artigo publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

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