Insondável

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Minhas mãos suadas permanecem estáticas segurando a maçaneta de ferro, enquanto meus olhos castanhos brilham perante a insondável nívea. Desde a minha “morte” tenho presenciado o desconhecido em suas variadas formas, mas nada como o inquietante arranhar dos pálidos galhos sob a estrutura do castelo, causando-me intensos arrepios.
Meus dedos escorregam pela maçaneta, deixando-a para trás. Fito mais uma vez o cinzento céu e caminho devagar rumo à janela. Ouço o soprar dos ventos que, sorrateiramente, rastejam por entre as frestas do castelo, remetendo aos acordes presentes na linda e fúnebre missa composta por Mozart, intitulada Réquiem.
A vejo surgir no canto esquerdo. Ela possui um estranho brilho, ao mesmo tempo que é opaca. A densa névoa parece dotada de algum tipo de inteligência, pois escala com muita perícia cada tijolo, tal qual uma astuta formiga que segue seu caminho com fervor. Volto meu olhar para a escuridão cinzenta e percebo então o que havia constatado há algum tempo: meu âmago é tão vazio e tenebroso quanto a nívea que se move lá fora, usurpando o tênue luar, bem como o brilho das estrelas.
Enquanto meus devaneios me afastam da realidade, uma horrenda dança orquestrada pelos ventos soturnos é iniciada. O balançar dos arbustos e das árvores soa como uma nefasta canção de ninar, proferida secretamente pelos deuses do infindável cosmo, espalhando pelas sombras suas verdes folhas.
Em estado de torpor, acompanho com meus olhos brilhantes o bailar da flora pelos arredores do castelo. Elas parecem obedecer aos comandos de alguma entidade que desconheço, assim como aquele ramoso nevoeiro.
Acabo atraindo a atenção dos incontáveis ramos, que logo vieram ao meu encontro, e finalmente vi sua horrenda forma com clareza. Eram compostos por extensos fragmentos esbranquiçados que, unidos, formavam os pavorosos e colossais ramos. Uma estranha sensação abraça meu corpo, sinto-me vulnerável, como se o ramoso nevoeiro conhecesse minha natureza. Minhas entranhas se contorcem, meu colo palpita desregulado.
Retiro minha mão do vidro com rapidez, mas eles permanecem ali, pairando na escuridão cinzenta, me observando e arranhando a janela de maneira ininterrupta, produzindo um som medonho que logo faz morada em meus ouvidos. Os ventos se intensificam, fazendo com que a dança dos galhos se torne mais intensa. Neste momento, uma dessas lembranças que nosso cérebro tanto se esforça para manter enclausurada nos confins do subconsciente decidiu nadar até a superfície.
Aquele arranhar dos galhos trouxe à tona algo que estava adormecido. Meus olhos agora vestiam uma sombria cortina de lágrimas que estava prestes a cair. Os amargos anos que passei ao lado do Airton foram repugnantes. O som dos galhos remetia aos talheres ainda com resquícios de macarronada deslizando sobre os pratos de porcelana branca, produzindo um som detestável. Ele fazia isso com um sorriso perverso no canto da boca, entre outras inúmeras grosserias. Seu respirar pesado e desagradável era como o soprar dos ventos lá fora. Infelizmente, ele ainda me assombra, tal qual um obsessor que sempre fica à espreita.
Lágrimas caíram e, por breves segundos, a ira se apoderou de mim. Meu corpo tremia, meus punhos estavam cerrados. Um grito emergiu das minhas entranhas: — Deixe-me em paz, criatura horrenda, não me tortures mais! — Gritei até meus pulmões cansarem, para a assombração que cruelmente sorria em meu subconsciente. Minhas palavras foram ouvidas por cada tijolo do castelo. Por mais que queira perder-me em lascívia, precisava me conter. Meu corpo se encontrava febril, minhas mãos sedentas. Com a finalidade de afugentar aqueles pensamentos, fecho a jaqueta, cruzo os braços e inicio uma caminhada em círculos, ignorando completamente o fato de que o assombroso nevoeiro ocupa grande parte do meu aposento.
Após um longo período, vou me acalmando. Mais uma vez, estou diante da porta. Tenho que sair. Respiro fundo e, antes de sair, noto uma presença atrás de mim. Cautelosa, olho por cima do ombro, com a mão na maçaneta. Então, vislumbro algo horripilante: a neblina havia tomado meu aposento quase por inteiro, tal qual a chegada sorrateira da noite, devorando os últimos raios de sol.
Munida de coragem, abro a porta. Sou agraciada por uma brisa gélida. Antes de fechar a porta, vejo pela fresta a névoa se movendo de forma estranha, em círculos. Sinto o frio na espinha me abraçar. Atrás de mim, um enorme corredor iluminado por anêmicas velas que lutavam para não cair dos candeeiros dispostos nas paredes. — Finalmente consegui sair! Sussurrei, enquanto meu olhar se perdia pelo corredor ornamentado pelas sombras disformes vindas das velas. Prossigo em direção à biblioteca; preciso folhear aquele livro mais uma vez.
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual, com formação em Fotografia, o autor…
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Sem Data — O peso da vigília sufocava-me. O braço esquerdo, pesado como chumbo fundido, resistia a qualquer comando, uma prisão de carne e…
08 de janeiro? — A criatura foi em direção ao monstro, segurando o lampião que emanava uma luz azulada. Eu estava tonta e não conseguia me levantar…
Velian caminhava entre as sombras de Fortaleza, sentindo o cheiro de maresia misturado ao ferro enferrujado dos portos e ao suor adocicado…
Desperto mais uma vez em meus aposentos, e o que presenciei em Somníria reverbera em minha mente como uma tristonha canção…
O castelo tinha encantado Minerva de uma maneira tão sublime que fez com que ela decidisse residir ali por algum tempo, completamente…
Em que ponto do espaço e tempo nós estamos? Não há nenhuma ciência empírica para descrever o porquê destes dois sóis. Agarro-me a uma…
Nos ermos turvos, sob a névoa espessa, | Engrenam-se os dias num ciclo enferrujado, | corações de cogs, reluzindo em pressa, |
pulsam mecânicos num tempo quebrado…
Após vagar durante anos, aprendendo tudo que eu podia a respeito da humanidade e de seus costumes, eu já tinha a maestria de caminhar…
Há os que dizem que aqueles pequenos momentos que antecedem a morte são os que mais trazem esclarecimento, mas para mim…
Estou diferente. Não sei dizer exatamente o que, mas estou. As interações com o ambiente parecem ter adquirido novas roupagens…
“Cautela; à dor pertence tudo o que se é — e nas sombras do ser há uma angústia imorredoura. Ainda assim, há contento ao sentido. Veja-me, desvele-me na…
17 de agosto de 1871 — Minha chegada a solo romeno fora tardia. O inverno implacável no norte da Alemanha atrasara minha jornada em vários…
Um manto de neve recobria um vilarejo de casebres simplórios, o aspecto da neve transformava as casas de madeira em pequenas silhuetas…
Na penumbra úmida do Castelo Drácula, Arale Fayax, a felina xamã viajante e hospedeira do alcácer noturno, debruçou-se sobre um diário poeirento, oculto…
O desassossego noturno retornou para açoitar-me. Inicio meu relato desculpando-me pelos prováveis lapsos de memórias e confusões textuais…
07 de janeiro? - Fiquei olhando por um tempo…
Nos últimos meses, Velian entregou-se a um jogo silencioso de morte e desejo nos becos e esquinas da Fortaleza. Sua fome de sangue, antes um ritual…
A matéria que suavemente vela o meu corpo, fora feita da suprema energia que permeia o universo. Sou um navegante do tempo a brindar com esferas…
Elas se calaram… as vozes do meu abismo. E agora perduro em Selenoor como quem a ela pertence, uma rainha índigo de sangue e solidão…
— Por que tão irreconhecível, caríssima Olga? — Dissera Drácula, tomando seu liquor-carmesim. Sorri ao ouvi-lo, sempre me agradava a sua presença…
Tinha o costume de escrever essas palavras em alguma superfície e, provavelmente, as eternizei na parede do banheiro daquele Pub que já mencionei…
Sob o manto negro da Lua Túrgida, | onde os mistérios nascem das sombras, | você, alma peregrina, ousa encarar o abismo? | O céu tinge-se de azul profundo,…
Sinto os olhos correrem em desespero por debaixo das pálpebras. Vagas lembranças dos fatos ocorridos na estufa atingiam meu corpo…
Em uma sala de cinema que parecia saída dos anos 40, com lustres antigos que projetavam pouca luz nas paredes, um cheiro de pipoca…
Isabel acordou com o coração na boca, a mente pesada e turva. No silêncio da catedral, um grande anjo de mármore a observava do púlpito…
Meu inestimável, Escrevo estas linhas para narrar o inexplicável. Apenas ao rabiscar estas palavras, sinto a sombra daquela noite envolver-me como um manto frio, um toque…
Velian caminhava pelas ruas de Fortaleza, sob um calor que parecia abraçar a cidade com uma intensidade sufocante. O sol havia se posto há horas…
O peso do meu próprio corpo não mais existia; o turbilhão de pensamentos e a angústia pareciam nunca ter existido. Meus passos eram leves; quase…
Faz alguns dias que tive um sonho com Marcos, a criatura de Frankenstein. Tenho me sentido só neste castelo imenso. Ao circular por aí, tenho visto…
Um abrupto sopro de vida e meus olhos foram circundados pelo lume de um dia nublado. Eu dormia? Ao derredor, um cemitério árido e lúgubre descansava…