Aborom

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Os olhos de Ameritt me estudavam com uma certa fascinação, como se o véu que escondia minha natureza fosse rasgado, expondo o vazio e o negrume do meu ser. Enquanto sorvia o chá, minhas papilas gustativas se entorpeciam com cada nota presente na infusão. Ela sorriu, levantou-se e me convidou para uma caminhada. Concordei meneando a cabeça, finalizei a xícara, elevei meu rosto e sorri. Ameritt respondeu ao meu gesto com um amável olhar. Inebriada pelos sabores, levantei-me e segui ao seu lado.
Enquanto caminhava, secretamente me questionava sobre esta doce senhora. Quais segredos essa figura tão enigmática esconde? Ela é realmente um ser fascinante, de alguma forma que não compreendo. Sua presença me acalma. Talvez seja sua forma pacífica de falar, seus gestos e seu olhar sereno e penetrante.
Iniciamos a caminhada, e a forma como ela pronunciou a palavra "besin" ressoava em minha mente como um doce sussurro. Era acolhedor e engraçado, arrancando de mim discretas risadas, fazendo-me recordar da minha mãe e do seu amável "boa noite, querida filha", seguido de um carinhoso beijo em minha testa. Espero sinceramente que tais lembranças não sejam esquecidas. Guardo-as em meu mais profundo íntimo e volto à realidade. Ameritt percebeu minha "ausência" e indagou se eu estava bem. Respondi que sim, e continuamos.
Ela estava boquiaberta com a flora desta estufa. Disse-me que cuidava dela com muito esmero. Meus olhos pararam em algo que eu não havia notado antes: enormes abóboras, donas de um brilho hipnotizante.
— Rose-besin — disse Ameritt calmamente, desacelerando seus passos. Receosa, eu a fitava, pois ela poderia saber algo sobre mim; seu olhar parecia sondar meu íntimo.
— Saiba que tenho grande apreço por sua companhia. Não tenho recebido tantas visitas ao longo desses anos, apenas dos meus amáveis besouros.
— Eu que fico lisonjeada com sua companhia. Confesso que... — respirei fundo e continuei —, a senhora me lembra muito minha mãe, tanto na fala quanto nos gestos.
Abaixei a cabeça com grande pesar após dizer isso. Um silêncio pairou sobre nós. Ela não precisou dizer nada; suas feições falavam por si. Prosseguimos, enquanto eu ouvia suas explicações, tudo com uma paixão singular. Era encantador vê-la falando.
— Rose-besin, você está ouvindo? Disse que sim. Que doce som as gotas de chuva fazem ao cair no chão, não é mesmo? Venha, gostaria de mostrar algo especial — ela acenou para o canto esquerdo da estufa.
Após chegarmos, senti algo indescritível, e o que vi foi amedrontador, porém mágico. Eram enormes abóboras detentoras de um brilho único e hipnotizante, como um ardente pôr do sol colorindo o céu com notas alaranjadas. Ao lado delas, nascia um tipo de fungo chamado Obomitas (posteriormente ela explicou-me que era uma espécie de funghi) da mesma tonalidade. Ela disse que, por conta da meia estação, tanto as abóboras quanto os Obomitas se alastraram com rapidez sobrenatural sob as gramas.
Eu ouvia tudo, mas meus olhos estavam usurpados por aquele brilho. Ela explicou o quão difícil era cuidar da estufa nessa época, pois a vegetação sentia a mudança no clima.
— Não é só a vegetação que sente a mudança. — As palavras rastejaram para fora dos meus lábios.
— Perdão, você disse algo, minha querida? Está tudo bem, Rose-besin?
— Não disse nada — sorri, enquanto meus olhos inertes fitavam as abóboras. Estava claro que não poderia esconder quem eu sou, ainda mais para uma pessoa tão sábia como Ameritt.
Ela olhou-me com sinceridade e disse:
— Eu sei, minha querida, o que lhe ocorreu. Existem mais como você aqui no castelo.
Essa informação me deixou surpresa e aliviada por saber que eu não era a única. Contei-lhe da minha transformação, bem como da minha jornada até ali. Ela ouvia atentamente, e seu semblante exibia um grande pesar.
— Eu sinto muitíssimo, minha querida... — Interrompi sua fala, pois já sentia a presença dos pontiagudos caninos.
— Preciso sair... — Mas caí de joelhos. Meus caninos se tornaram visíveis e brilhantes perante os tons alaranjados das abóboras. Gritos inumanos emergiam das minhas entranhas. Vi-a caminhar por entre a estante, enquanto meu corpo se contorcia com violência. Antes que a transformação fosse completa, ela retornou com algo nas mãos. Diante de mim, ergueu as mãos manchadas de terra em forma de concha. Com os olhos fechados, iniciou uma reza numa língua indecifrável. Em seguida, esmagou o que pareciam ser algumas ervas e folhas, produzindo um líquido viscoso esverdeado que caiu em minha boca. Senti um gosto terrível. O que seria isso que acabara de descer em minha garganta?
Sem demora, senti os efeitos. As pálpebras dos meus olhos tornaram-se pesadas, até que finalmente meu corpo tocou o chão.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual, com formação em Fotografia, o autor…
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