Pergaminho de Pesach
Na calada da noite, Arale Fa’yax se viu diante de um pergaminho envelhecido, encontrado casualmente próximo à cenoura do jardim do Castelo Dracula…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Na calada da noite, Arale Fa’yax se viu diante de um pergaminho envelhecido, encontrado casualmente próximo à cenoura do jardim do Castelo Dracula. O pergaminho, em suas mãos delicadas, parecia pulsar com uma energia antiga, como se carregasse o peso de mil segredos esquecidos. Ela o desenrolou e leu, recitando as palavras enigmáticas que dançavam entre as linhas.
"Fluideco sangvinen en Esperanto..."
Aquelas palavras antigas e sombrias reverberaram em sua mente, atravessando o véu entre mundos. O chão abaixo de seus pés cedeu, e ela caiu em um abismo profundo, onde os ecos de sua própria respiração eram a única companhia. Quando finalmente abriu os olhos, não estava mais no jardim, mas em uma terra estranha e perturbadora.
Diante de Arale, uma vila festiva celebrava a Páscoa, com danças e risos. Mas havia algo errado — as máscaras, o brilho nascendo da dor, os olhares vazios. Tudo era uma fachada. Ela não entendia ainda, mas sabia que estava diante de algo terrível. A sensação de pesadelo era palpável entre as sombras.
Surgiu um ser: Laparus, o coelho amaldiçoado, com seus olhos de ébano refletindo a escuridão do próprio universo. Ele a encarava — a foice em suas patas trêmulas, pronta para a batalha.
A luta foi brutal, sangrenta. Laparus avançou com fúria, os golpes de sua foice cortando o ar com um som metálico. Arale, com reflexos rápidos, desviava, esquivando-se das lâminas afiadas que quase a rasgavam. Cada golpe de Laparus era uma explosão de fúria primal, enquanto Arale, com seus movimentos ágeis e mortais, procurava um ponto fraco, defendendo-se com seu machado. O solo estava coberto de sangue, a atmosfera saturada com o cheiro da morte.
— Você não me conhece! — gritou Laparus, sua voz um eco de sofrimento.
— Não pode me entender!
Mas Arale não recuou. Ela sabia que aquela luta não era apenas sobre vencer, mas sobre quebrar as correntes que prendiam os dois. O combate se tornou uma dança de pura violência, um turbilhão de raios e sombras. Laparus, exausto e ferido, começou a vacilar. Sua foice, antes certeira, perdeu o ritmo.
Foi quando a verdade se revelou: o espólio de suas almas entrelaçadas, como destinos torturados, tornou-se claro — não eram inimigos, mas vítimas de um mesmo ciclo de sofrimento, maldição e dor.
Elyni, a guardiã dos láparos, apareceu nas sombras. De semblante sério, porém gentil, olhou para Arale e Laparus com um misto de tristeza e entendimento.
Ela estendeu a mão, e os dois, exaustos e sujos de sangue, a olharam sem palavras.
— A verdadeira luta não é entre vocês — disse Elyni, sua voz suave como o vento.
— É contra o mal que corrompe este lugar. O Ovo Cósmico, aquele que vocês estão lutando para encontrar, é a chave. A criatura que o protege, Azgalor, devorador de almas, não será vencida em batalha, mas com união e compreensão.
Arale e Laparus trocaram olhares de dúvida, mas algo os uniu — algo que foi além do instinto de luta. Avançaram em direção à caverna de ametista, onde a criatura diabólica os aguardava. Ali, um abismo se abria diante deles — tão profundo que a escuridão parecia devorar até a luz das estrelas.
Dentro da caverna de ametista, Azgalor os aguardava. Sua forma monstruosa era retorcida, uma amalgama de sombras, ossos e olhos vermelhos como brasas, que brilhavam com um ódio imensurável. A batalha foi feroz, a terra tremendo sob seus pés enquanto Azgalor os atacava com garras afiadas como lâminas de aço.
Mas Arale, Elyni e Laparus — unidos por um vínculo de destino — enfrentaram o monstro com força renovada. Cada golpe, cada movimento, era um passo em direção à liberdade. Eles perceberam que, ao trabalharem juntos, suas habilidades e forças se complementavam de maneira perfeita: Laparus com sua foice, Arale com seus rápidos reflexos, e Elyni com suas garras e sabedoria ancestral.
Finalmente, após uma luta sangrenta e desesperada, o Devorador de Almas foi derrotado. Azgalor caiu, seu corpo se desfazendo em poeira negra — e, com ele, a maldição que aprisionava a vila. A realidade desmanchou todas as correntes daquela sofrida vila desértica.
Elyni, Arale e Laparus, exaustos mas vitoriosos, se abraçaram, compartilhando um momento de silêncio profundo. A realidade ao seu redor começou a mudar — as máscaras caíam, e a vila era iluminada pela verdadeira luz do renascimento.
Quando a batalha acabou, Arale, com uma expressão de paz no rosto, olhou para o céu.
Após a batalha, quando o último vestígio da escuridão foi dissipado, uma luz suave e radiante envolveu os três heróis — Arale, Elyni e Laparus. O céu, antes opaco e sombrio, se abriu em tons dourados, e uma figura imponente apareceu diante deles, flutuando acima da terra agora purificada. Era Ostara, a Deusa da Primavera, da Fertilidade, do Renascimento e do Amor.
Ela surgiu como um raio de luz divina, com cabelos dourados que pareciam capturar os primeiros raios de sol da estação que nascia. Ostara, com seu manto verde e florido, simbolizava a renovação da vida, a abundância da terra e a promessa de que, após a morte e o sofrimento, sempre viria o florescer.
Seus olhos, azuis como o céu de um amanhecer primaveril, se fixaram nos três heróis que, embora exaustos, ainda estavam imersos no poder da vitória.
Ostara levantou suas mãos, e do solo brotaram flores, árvores frutíferas e riachos frescos, como uma bênção direta para o povo da vila. O aroma doce das flores invadiu o ar, misturando-se à brisa suave que espalhava a promessa de uma nova era.
— Vocês, que lutaram contra a escuridão e a tirania, agora têm a minha bênção — disse Ostara, com voz suave e cheia de poder. — Eu sou a Deusa que celebra o equinócio da primavera, o equilíbrio entre luz e sombra, e a ascensão da vida. Através de vocês, a liberdade foi trazida àqueles que sofriam. Agora, meus filhos, tomem o meu presente.
Em suas mãos, Ostara segurava um ovo brilhante, ornamentado com símbolos de fertilidade e ressurreição. O ovo foi oferecido a Arale, que o recebeu com reverência. Ela sabia que aquele ovo era mais do que um simples símbolo — ele carregava o poder da deusa, capaz de regenerar e restaurar a vida para aqueles que mais precisavam.
— Este ovo — continuou Ostara — é a chave para a fertilização das terras e dos corações daqueles que estavam sob a tirania. Ele trará uma nova era de prosperidade, liberdade e abundância para o povo desta vila. Que a primavera floresça onde antes havia fome e escuridão!
A vila, antes desolada e oprimida pela fome e pela escravidão, começou a mudar diante dos olhos dos heróis. Os campos de terra árida começaram a florescer, os rios que haviam secado voltaram a se encher, e os habitantes da vila, libertos do jugo da opressão, se reuniram em festa, celebrando o milagre que acontecia diante deles. Rios de alegria e gratidão se derramaram por toda a vila, enquanto danças e cânticos se espalhavam pelos campos agora verdes. Havia, sobre um tronco ao lado da deusa, uma coroa de espinhos sobre o altar.
Ostara, com um sorriso terno e acolhedor, tocou as cabeças de Arale, Elyni e Laparus, e uma luz cálida os envolveu.
— Que sua jornada continue com coragem e sabedoria, e que a primavera sempre os acompanhe.
E, como se a própria terra tivesse absorvido a bênção da Deusa, Arale, Elyni e Laparus sentiram uma renovada energia interior. Eles sabiam que não estavam mais sozinhos. A Deusa Ostara os havia marcado com sua bênção, guiando-os para novos desafios, para novas lutas — mas sempre com a certeza de que, após a escuridão, a luz sempre retorna.
Assim, com o ovo em mãos, Arale retornou ao jardim do Castelo Dracula, sabendo que o verdadeiro renascimento não era apenas sobre florescer na primavera, mas sobre transformar a terra onde pisamos e as almas que tocamos.
Ela observava o ovo, ainda quente com o poder da Deusa, refletindo sobre a luta, a amizade e a força do renascimento. Era a promessa de que, como Ostara, a vida sempre encontraria um caminho para florescer, mesmo nos lugares mais sombrios.
Ela sabia que a luta contra as sombras nunca terminaria, mas, naquele momento, no silêncio da noite, ela tinha vencido. Tinha encontrado a força — não em sua luta sozinha, mas na amizade, na confiança e na união.
E o ovo de chocolate que ela segurava, doce e perfeito, era a promessa de que, apesar da dor, sempre haveria renascimento.
Lembrando que, no epicentro da festividade onde antes havia trevas, agora surgia uma aura de esperança: uma chama azul e violeta brilhava, e ela tinha em mãos um ovo de chocolate — o símbolo do ciclo de vida e renascimento. O vilarejo estava a salvo, e a realidade restaurada.
Mas o caminho de Arale ainda não estava concluído. Ela retornou ao jardim do Castelo Dracula, o pergaminho em suas mãos, o ovo de chocolate como prova de sua jornada. Seu coração batia com a mesma energia da vida que fluía através de suas veias — pronta para o que viria a seguir, selando mais um pergaminho em sua máquina de escrever de ossos.
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Pergaminhos esfumaçados
Nos ermos turvos, sob a névoa espessa, | Engrenam-se os dias num ciclo enferrujado, | corações de cogs, reluzindo em pressa, |
pulsam mecânicos num tempo quebrado…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Nos ermos turvos, sob a névoa espessa,
Engrenam-se os dias num ciclo enferrujado,
corações de cogs, reluzindo em pressa,
pulsam mecânicos num tempo quebrado.
Óleo e fuligem tingem a alvorada,
Zepelins vagam por céus cor de chumbo,
na ruína que ao mundo foi dada,
heroína avança em um rastro profundo.
prateados fios caem sobre o aço,
sua cauda felina rasga a tormenta,
buscai o grimório do arcano nefasto,
A magia milenar que o tempo fomenta.
os homens são máquinas de fria ilusão,
ela é o sussurro da última oração.
escombros de ferro, urde-se a lenda,
entre válvulas rotas e estalidos vis,
heroína avança, garras em contenda,
sangrando entre sombras de fumos febris.
No peito dos homens, cogs reluzentes,
girando em delírios de cobre e vapor,
são máquinas mortas, de sonhos ausentes,
moldadas em fardos de graxa e torpor,
sob as ruínas de Londres caída,
câmara oculta de um templo profano,
Grimório pulsava – em runas, em vida,
Sorvendo dos tolos seu plasma insano.
com dedos feridos, no aço e no pus,
abrira suas páginas rubras de luz.
páginas vivas, trêmulas, sangrentas,
gravavam-se em fogo mistérios arcanos,
ritos profanos, promessas sedentas,
versos que outrora arruinaram humanos.
As engrenagens dos homens gemiam de medo,
giravam rangendo em preces de aço,
lendas diziam, num tom sem enredo,
que aquele grimório rasgava o espaço,
a felina de prata, sem receios,
sorriu ao sentir-lhe a febre imortal,
o sangue pingava em signos alheios,
A tinta vermelha selou o final,
no véu do vapor e da morte impiedosa,
renasce a magia—sombria e grandiosa.
o sangue, agora em chamas, se espalha,
num rio escarlate que corre sem fim,
a névoa densa se torna uma muralha,
uma barragem da magia que se afim.
Engrenagens, agora, começam a cantar,
ritmo insano de um mundo desfeito,
a heroína, sem medo, a desvendar,
Adentrai o portal se abrir no firmamento estreito.
O grimório, pulsando, desenha estrelas,
círculos sagrados, feitiços infinitos,
entre os ventos, exalam-se centelhas,
Fragmentos do passado, ecos de gritos.
ela avança, sua cauda serpenteia,
nos olhos, a chama da alma se enleia.
ao tocar o livro, o mundo se rasga,
a névoa se parte, o universo traga
novas realidades, horizontes de dor,
a magia toma forma de puro fervor.
Na fumaça, o sangue se entrelaça ao metal,
a heroína, agora, não é mais mortal.
no instante sombrio em que a carne se funde,
o grimório pulsa, a realidade implode,
e o céu se parte, a terra se afunde,
a magia em carne e engrenagem explode.
Cogs e ossos se entrelaçam em ruínas,
ventos cortam a pele como lâminas,
a fumaça dança em círculos infernais,
olhos da heroína, como cristais,
refletem o abismo que a tudo consome,
o sangue agora escorre, quente e negro,
derramando-se no abismo onde o nome
do passado ecoa, profundo e seguro.
Ela sente o peso das estrelas caídas,
suas garras dilaceram o véu do medo,
as correntes de ferro, agora perdidas,
rasgando o espaço, cantam o segredo.
com cada passo, o sangue é mais espesso,
o metal da alma, no instante, se confesso.
Em seu peito, os cogs gemem de agonia,
transformados em grilhões de pura alquimia.
no abraço final da magia e da dor,
ela transcende, num grito, o próprio terror.
o grimório, agora em sua mão sangrenta,
liberta o caos, a noite eterna e lenta,
o universo se quebra, se reinventa,
o sangue, em névoa, em nada se ausenta.
No vórtice da destruição, a carne se retorce,
o grimório clama, e a terra se desfez,
o grito da heroína é um rugido que torce
os céus e o inferno, tudo a seus pés.
o sangue que pulsa já não é mais seu,
mistura-se ao metal, à fumaça, so a lua,
em cada veia, o caos toma o troféu,
as engrenagens batem, como martelos
A névoa, agora densa e viscosa,
envolve tudo, sem alma e sem fim,
engolindo os homens, as máquinas, a rosa,
transformando em nada o que restou de mim.
olhos de prata, refletido o abismo,
O fim do mundo se torna uma dançarina,
garras afiadas, olhos sem raciocínio,
ela é a rainha de uma era divina.
Os céus, rasgados, exalam dor e fúria,
o sangue da heroína inunda os rios,
cada passo é um eco de pura loucura,
seu corpo, agora, já não sente os próprios fios.
A magia se torna carne, alma e choro,
As engrenagens se perdem, o tempo é quebrado,
nas sombras que brotam do ouro,
Ela se ergue, destroçando o passado.
O grimório ri, e o sangue se mistura,
um cântico ancestral,
um cântico de loucura.
O vapor sobe, quente como o inferno,
máquinas rugem em dor, sem piedade,
os pistões estalam, um som terno,
que quebra o coração da realidade.
Nos corredores de ferro e latão,
a heroína avança, seu corpo de aço,
cada passo é marcado pela tensão,
wm meio ao fumo, ao estrondo, ao fracasso.
engrenagens douradas, girando sem fim,
nos peitos dos homens, enredados em dor,
o som das engrenagens, como um clarim,
convoca a revolta de um mundo sem cor.
Zepelins de ferro cortam o céu de chumbo,
com hélices afiadas, cortando a névoa espessa,
são sombras imensas que ecoam no fundo,
onde o grimório sussurra, e a morte não cessa.
a cidade se ergue em ruínas de aço,
com tubos de vapor serpenteando o ar,
Vossa heroína, entre chamas e estalos,
buscai o poder perdido, o segredo a revelares.
Nos olhos prateados, a verdade não é suave,
Ela sente a fúria das rodas a girares,
O grimório, com letras antigas e graves.
É a chave para o futuro, a destruição dos lugares.
A névoa se espessa, o metal se corrompe,
Mas ela, com a cauda felina e o coração ferroso e enevoado,
Sabe que no fim, o mundo será seu campo de combate,
onde o vapor e o sangue dançarão em união,
quando a última engrenagem finalmente cair,
o vapor consumir tudo ao redor,
ela será a rainha do caos, pronta a seguir,
pelas ruas de ferro, em sua jornada sem cor,
O aço resplandece sob a luz trêmula,
Vapor sibilando por tubos que se torcem,
relógios batem, como pulsos, a mil por hora,
enquanto o céu de névoa em cinza se esconde,
nas fornalhas ardentes, o cobre se funde,
Ao som das marteladas ressoa em cada rua,
Zepelins flutuam em trajetórias profundas,
cortando os ventos com lâminas de lua.
engrenagens giram nos peitos dos homens de ferro,
chorando parafusos no ritmo de dor,
suas veias são fios, suas almas, um erro,
com corações mecânicos, sem nenhum fervor.
A heroína avança, olhos de prata em fúria,
sua cauda felina brilha entre fumaça e calor,
o chicote cósmico e alma de pura armadura,
ceifai o ar, desafiando o mundo, com ardor.
O grimório, preso entre chamas e carvão,
Desenha feitiços nos céus corroídos,
Palavras antigas, em alfabeto de metal,
Chamam as máquinas a se rebelar, em gritos perdidos.
Os pistões rugem, as caldeiras explodem,
ela, com garra, não teme o fim da linha,
dentro de seu peito, o fogo que não se apaga,
o espírito indomável de uma era antiga e divina.
becos sombrios, o vapor espesso se eleva,
ela, entre o caos, nunca perde a direção,
magia milenar agora se revela,
o grimório brilha, em um ato de redenção.
A cidade de cobre e ferro, em ruínas, ecoa,
o vapor e o sangue se tornam a canção,
Mas a heroína, com garras afiadas, corre,
pela neblina, onde a mágica e o aço se entrelaçam em união,
entre as chamas e a escuridão, surge a besta,
Uma máquina de escrever, com engrenagens cintilantes,
Suas teclas de cobre e ferro, como uma orquestra em festa,
Rangem em compasso, marcando o tempo a se quebrar.
O som das letras, em um clique ancestral,
Se mistura ao estrondo dos pistões girantes,
Cada palavra, uma sentença fatal,
Rasgando o véu da realidade a se distorcer no ar.
Ao lado da heroína, com passos silenciosos,
Um gato mecânico, de olhos dourados e frios,
Seu corpo forjado em aço e fios, misteriosos,
Gira como um relógio, em movimentos vazios.
Suas garras, afiadas como lâminas de prata,
São cogs dourados, ressoando em pura precisão,
Seu miado, agora, é um som de engrenagens, que desata
Os portões da magia, em busca de redenção.
A heroína, com cauda felina e alma de ferro,
Toca as teclas da máquina, sua voz sussurrando,
Palavras antigas, com a dor de um desespero,
Que ecoam pelo ar, e o mundo vai ruindo, tremendo, indo.
O gato, com suas engrenagens robóticas pulsante,
Move-se em espiral, como o eixo de um destino,
Observando a escrita que começa a se transformai,
Com seus olhos de aço, fitando o abismo divino,
o grimório se abre, as palavras ganham poder,
enquanto a máquina de escrever grita seu grito final,
névoa se espessa, o mundo começa a se perder,
a heroína, com coragem, corta o mal.
Em um último suspiro, o gato de metal ruge,
suas garras cortando o ar como lâminas de dor,
com o grimório nas mãos, a batalha surge,
entre o vapor e o sangue, onde tudo é terror.
na cidade de cobre e chuva ácida, onde os relógios morrem,
as engrenagens soam como lamentos perdidos,
vossa heroína e seu gato, juntos, desafiam os deuses,
ali, um mundo onde as palavras se tornam gritos esquecidos.
Através de uma meditação em que Drácula forneceu em agradecimento
pelo exício dos dêmonios em seus quadros e tomos,
Arale fora capaz de ver, seu passado, um pouco de sua origem
Sua ancestralidade, uma raiz nebulosa,
Na era vitoriana, a fumaça alça,
Entre engrenagens e ruídos do ferro,
Caminha a felina, em noite de prata falsa,
Caçadora de demônios, no silêncio do ermo.
Com cauda a brilhares, em sombras se entrosam,
Suas mãos comandam a máquina de escrever,
Cada palavra, um feitiço, a escuridão, despojam,
E a morte àqueles que ousam se erguer.
Banida da Igreja dos ossos de Yesh,
Por se aliar às letras negras, no abismo,
Sua alma é marcada, como um flagelo,
A ordem antiga a teme, e se faz prismo.
Na sua carne, sangue de uma linhagem rara,
Arale Fayax, herdeira de dor e guerra.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Pergaminhos do caos sangrento
Na penumbra úmida do Castelo Drácula, Arale Fayax, a felina xamã viajante e hospedeira do alcácer noturno, debruçou-se sobre um diário poeirento, oculto…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Na penumbra úmida do Castelo Drácula, Arale Fayax, a felina xamã viajante e hospedeira do alcácer noturno, debruçou-se sobre um diário poeirento, oculto no subsolo de uma livraria decrépita.
As páginas sussurravam segredos selados, e ao folheá-las, sentiu um torpor gelado.
De súbito, o papel dissolveu-se em névoa, e ela foi tragada por um vórtice de palavras e símbolos arcanos.
Ao emergir, viu-se diante de uma ponte tecida de arco-íris manchado de rubi. O solo fremia, e trovões retumbavam em um firmamento tingido de azul-acinzentado. Adiante, numa sala selada, repousava uma ânfora de cristal, onde um líquido rosa e espesso pulsava, reminiscente do sangue corrompido de sua linhagem ancestral.
No exílio de eras, um presságio bradava:
A xamã eleita, em rosa consumida,
Foi pela treva impura convertida,
No sangue selado, em sombra escrava.
Os ancestrais de Arale buscavam pela criatura nefasta que possuíra sua oráculo predestinada, subvertendo-lhe a alma pura. Seu sangue, antes sagrado, tornara-se néctar maldito, e nele a entidade foi selada. Agora, ali diante da ânfora, Arale sentiu um murmúrio vibrar no éter.
As sombras se contorceram, e um espelho velado se ergueu ao fundo. O manto negro que o cobria deslizou por conta própria, revelando o horror do Ttyphrssett. A criatura exsudava a essência pútrida dos famintos, sua pele lacerada por incontáveis dentes que lhe rasgavam a boca por dentro. O fenômeno Nemonium se fazia presente—o tempo quebrava-se, realidades se chocavam.
Com seu machado e lâminas em punho, Arale avançou.
Sua máquina de escrever, ela a cravou no solo enquanto ela pulsava pergaminhos de sangue e registrava a criatura em seu bestiário cósmico e de ossos...
O monstro, ágil como um trovão em queda, deslizou pelo salão, buscando envolvê-la em seus longos membros. Suas veias púrpuras pulsavam com fome ancestral.
Em riste, Arale investiu.
A lâmina rasgou a carne do ser, mas a dor era combustível para sua fúria. Num assalto cruel, Ttyphrssett enlaçou-a, puxando-a para a superfície gélida do espelho. Arale sentiu sua carne arder, a barreira entre mundos prestes a consumi-la. Mas com um último fôlego, cravou sua adaga rubra no coração pútrido da besta.
Os rugidos da criatura eram a sinfonia da ruína. Seus membros se contorceram, estilhaçando o vidro do espelho em um turbilhão de trevas e ecos de gritos esquecidos. A ânfora ressoou, vibrando como se as próprias trevas tentassem eclodir.
De aço e chamas, dançou com a fera,
Cortando sombras, desafiando a espera,
O fim sangrento, escrito e previsto.
A lâmina rasgou a carne do ser, mas a dor era combustível para sua fúria.
Num assalto cruel, Ttyphrssett enlaçou-a, puxando-a para a superfície gélida do espelho.
Arale sentiu sua carne arder, a barreira entre mundos prestes a consumi-la. Mas com um último fôlego, cravou seu machado com sua lâmina rubra no coração pútrido da besta.
O espelho explodiu em fragmentos de sombras e ecos de gritos.
A ânfora ressoou, vibrando como se as próprias trevas tentassem eclodir.
Arale sabia que o lacre se enfraquecia, o ar estava pútrido e pesado, enguias, águas vivas de sangue e bolhas de veneno e dor e escuridão pulsavam com relâmpagos de sangue pulsantes...
Um tremor abissal eclodia, a terra gritava,
o ar sufocava, o céu derretia...
Fora do castelo, uma cidade impossível erguia-se.
Figuras pálidas caminhavam entre cabras de olhos sombrios.
O canto dos Doutrinadores ecoava de uma catedral sepulcral, oferecendo-lhe absolvição.
Mas Arale não buscava salvação....
Ela buscava a verdade.
Adiante, a Ponte Sem Fim surgia em meio à tempestade.
Se a cruzasse, enfrentaria seus maiores arrependimentos.
Mas era um preço que estava disposta a pagar.
Sob o céu fendido pelo Nemonium,
Arale seguiu,
sabedora de que o véu entre realidades
jamais se fechava para aqueles que ousavam conhecer seus segredos.
Na fenda do tempo, onde a sombra jaz,
O sangue selado em ânfora persiste,
O horror renasce, o ciclo insiste,
E só a lâmina audaz a ruína traz.
Na ponte insana, o vento entoa um pranto,
Lamento frio de almas esquecidas,
São vozes tristes, dores divididas,
Segredos mortos que retornam tanto.
Avança Arale, o olhar de ferro e encanto,
A sombra ao pé, as chagas não dormidas,
No peito, as mágoas são feridas
Que sangram a cada suspiro e canto.
Mas eis que surge um vulto espectral,
Da fenda antiga, um rosto conhecido,
Olhos vazios, do pranto infernal.
A xamã caída, outrora luz, perdida,
Ergue a mão em chamado desleal,
A ânfora pulsa, sedenta, esquecida...
Em tom soturno, o vento traz um nome,
Sussurra em brisa o fado e a perdição,
Arale treme, entre dor e visão,
Pois sente a ânfora chamá-la ao seu tome.
O líquido rosa escorre em puro dome,
Goteja lento, em mágica atração,
O tempo sangra, em cruel perdição,
A felina xamã sorri, selando a fome.
Recolhe do solo sua máquina de escrever de ossos
Mágica o tomo, o machado pulsa o elixir,
Mas se beber, cairá na ruína,
Se recusar, a ponte ruirá,
Ao coexistir, mortos cantarão sua sina.
Eis o dilema, entre luz e os pesares,
Os horrores, as cores, de um obscuro passado que alumia,
Nas sombras do éter, ela há de permanecer,
Criogenia dos pergaminhos do caos sangrento...
Há de eximir tal perigrinação?
Um coração que brada sepulcral,
A neve dança em véu de funeral,
Turva o olhar em névoa carmesim,
Na noite gélida, cântico abismal,
Ergue-se ao vento, soturno e sem fim.
Trepida o solo sob o passo vil,
A sombra ri em eco abissal,
Lâminas brilham em duelo febril,
A ruína espreita em jugo infernal.
Sangue na neve, um rubro espectral,
A xamã clama, a fúria a devora,
No abraço da morte, laço mortal.
Por entre as fendas, o tempo implora,
Arale ruge, em queda final,
O gelo a cobre, a treva a chora.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Sinfonia noturna das palavras
Sob o manto negro da Lua Túrgida, | onde os mistérios nascem das sombras, | você, alma peregrina, ousa encarar o abismo? | O céu tinge-se de azul profundo,…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
I.
Sob o manto negro da Lua Túrgida,
onde os mistérios nascem das sombras,
você, alma peregrina, ousa encarar o abismo?
O céu tinge-se de azul profundo,
uma tinta escura que escorre do próprio coração do universo,
e o castelo, desfeito e distante, chora
sob a penumbra rubra de seus terrores antigos.
Ali, entre as paredes de pedra que sussurram,
as criaturas que espreitam nas sombras se erguem,
monstros que não são de carne,
mas do medo que habita as profundezas da alma humana..."
Arale, a felina da noite, a escriba das sombras,
pulsando com a força ancestral das estrelas que se esgueiravam pelas cortinas de veludo negro.
Seus passos eram ecos distantes de uma era esquecida,
onde a própria biblioteca se alimentava do seu silêncio,
onde livros sussurravam, não mais palavras, mas segredos,
não mais histórias, mas destinos que não estavam escritos.
Arale encontra algumas páginas queimadas pelo solo de pedra e algumas folhas voando
próximo às velas de um azul cobalto tingidas pela luz da lua que rasga o vitral próximo à torre da janela do alto do Castelo...
Enquanto andava entre os corredores, foi absorvida pela abissal força da Biblioteca como uma osmose de sangue ali, uma caçadora de pesadelos,
seu machado dourado, refletindo o ouro de um sol que nunca nascera
nem se punha no horizonte daquele castelo desfeito pelo tempo.
As páginas dos livros se abriam, mas suas palavras
não eram mais compostas de tinta e papel. Não, eram entidades,
sombra e carne, ganhando forma sob o olhar atento da felina.
II.
"A Lua Túrgida, pálida e inclemente,
desvenda os segredos ancestrais enterrados nas raízes do tempo,
seus olhos ardentes refletem os horrores do passado,
aqueles que foram esquecidos, mas jamais perdoados.
E você, ser imortal, sente em sua carne
a presença de algo que não pode ser nomeado,
uma fome que reside em seus ossos,
um monstro feito de sombras e silêncio,
buscando a luz que nunca será..."
Um livro se ergue, e do seu interior uma mão sai,
mãos de páginas que se entrelaçam como raízes,
tentando agarrar sua garganta.
Mas Arale, com a fúria da lua cheia,
afasta com um golpe preciso, o machado dourado cortando o vazio
como um fio de lâmina cortando o próprio destino.
— Aqui é o domínio do além, mas ainda sou eu quem escolho o meu caminho —
pensou ela, com seus olhos dourados que ardiam
como se o sol vivesse ali dentro...
III.
"O inverno avassalador surge como uma onda de gelo,
engolindo tudo o que tocou, tudo o que é vivo.
As árvores, curvadas sob o peso da neve,
se transformam em esqueletos de sua própria existência.
Os ventos cortam a carne e a alma,
e a escuridão se estende como um véu eterno.
Mas é nas sombras que a verdade se esconde,
nas cavernas profundas do castelo onde os pesadelos dançam,
onde cada suspiro é um eco do que foi,
do que nunca será..."
Nos quadros das paredes, os rostos antigos
assistiam em silêncio, esperando para se desfazer em sombras.
Mas Arale não se deixou enganar,
sabia que atrás de cada pincelada estava uma criatura à espreita,
silenciosa como os ventos que passavam pela torre do castelo.
Uma figura, um espelho. Da superfície prateada, algo se contorce,
uma figura que a olha como um espelho distorcido.
Arale avança, e no momento em que o machado toca o vidro,
uma explosão de luz e trevas se entrelaça, como se o tempo fosse rasgado.
IV.
"Rosa sangrenta, mandíbula do amor,
tingida pelo sangue da Morte,
um amuleto que pulsa com a energia do fim.
A cada passo, a rosa arde em sua mão,
uma chama vermelha que não se apaga,
um lembrete do abismo que aguarda,
do fim que se esconde atrás das estrelas apagadas.
Se o horror do fim te alcançar,
entregue a rosa à Morte,
pois ela, em sua sabedoria sombria,
te devolverá à vida com um vigor que não pode ser explicado,
um renascimento que é ao mesmo tempo condenação e libertação."
—Eu não sou o reflexo, eu sou o desfecho.
pensou, e o espelho se quebrou, espalhando em pedaços,
não vidro, mas carne e alma que jaziam no fundo de uma realidade
onde o refletido era o predador e o predador o reflexo.
As velas tremeluzem. Mas não são chama,
são olhos, pequenos olhos que queimam com desejo de devorar.
Lá fora, a noite parecia se esticar em um limbo de estrelas apagadas,
mas ali, nas profundezas do castelo, tudo era eternamente noite.
As velas falavam, sussurravam segredos de um mundo
onde o medo se encarnava em formas monstruosas.
Arale levanta o machado,
um golpe certeiro apaga a chama e faz os olhos se desvanecerem
como fumaça no vento do próprio medo.
V.
"Os monstros que habitam o castelo não são apenas de carne,
mas de história, de memórias que ainda sangram,
de pecados que nunca se redimiram.
Eles buscam a luz da Lua Túrgida,
o pálido lume que ilumina o caminho da consciência.
E você, caminhante, está pronto para ver o que eles revelam?
Está pronto para enfrentar os horrores que despertarão dentro de você,
os monstros que estavam sempre ali,
esperando na escuridão do seu ser,
e, quando a Lua Túrgida brilhar,
eles sairão para te encontrar."
Por trás das cortinas, um movimento.
Uma sombra que se arrasta, um vulto no fundo da biblioteca,
onde os livros eram mais vivos que os seres que os liam.
Ela caminha até a estante, suas garras traçando círculos no ar,
e, de repente, um livro se abre, e uma sombra,
uma criatura que jamais deveria nascer de tinta e papel,
salta para o espaço, um monstro de letras disformes.
Com um grito que não mais ecoa,
Arale mergulha na luta, seu machado cortando e perfurando
a carne do monstro que se dissolve em palavras
enquanto ela avança, até o fim de sua missão.
VI.
"Mas não tema, querido leitor, pois você não está sozinho.
Carregue a rosa, com seus espinhos tingidos de carmim,
e saiba que, enquanto o horror te rodeia,
a luz da Lua Túrgida não é só escuridão,
mas uma revelação de quem você realmente é.
Pois dentro de você, nas profundezas mais sombrias,
está a força de enfrentar o abismo,
e, se necessário, se tornar um com ele.
A Lua Túrgida não é uma sentença,
mas um convite, uma jornada sem fim,
onde a morte e a vida dançam juntas
em um ciclo eterno de renovação e destruição..."
Mas no fundo, ela sabe. Ela sempre soubera.
Este não é seu fim, nem seu começo.
A caçadora de palavras, a escriba de garras de aço,
não está ali por uma razão única. Ela busca.
Busca não só o conhecimento que habita aquelas páginas,
mas algo mais, algo que se esconde nas entrelinhas do castelo,
algo que a prende ali, mas a faz sentir-se, ao mesmo tempo, estranha.
O desejo, a fome de um toque humano, um calor vivo,
além das criaturas que caçam e morrem,
além das páginas que ardem e se curvam.
Arale, a felina entre as sombras e os espelhos,
cai de joelhos no chão de pedra fria,
a sua jornada apenas começando,
uma missão espiritual, um ciclo interminável,
mas no final, uma pergunta:
"Onde estão aqueles que podem ver o que sou?"
VII.
"E no fim, quando a penumbra da Lua Túrgida
te envolver como um manto de névoa,
lembre-se: o medo não é o fim,
mas o começo de algo mais profundo,
mais antigo, mais verdadeiro.
A rosa, teu guia, teu guardião,
brilhará na escuridão,
um farol no abismo,
um sinal de que, mesmo no final,
há sempre uma nova página a ser virada,
uma nova história a ser escrita
sob a luz eterna da Lua Túrgida."
Uma resposta desfragmentada se perde, no vento que sopra,
no mesmo instante em que ela ergue a lâmina dourada,
todos os pergaminhos que flertam com a chama e a luz pálida
do luar como uma sinfonia de palavras são de autoria do Drácula,
pronta para o próximo passo e fascinada aos cânticos da Lua Túrgida
sabendo que, no fundo, o castelo era seu espelho,
e ela, mais que uma caçadora, era a alma que fugia de si mesma.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Conexões de sangue poético
Arale Fa´yax, | Com passos furtivos como a névoa da manhã, | Carrega consigo, nas dobras de sua capa de sombras e mistérios | Os pergaminhos de sangue, que são mais do que palavras,…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Arale Fa´yax,
Com passos furtivos como a névoa da manhã,
Carrega consigo, nas dobras de sua capa de sombras e mistérios
Os pergaminhos de sangue, que são mais do que palavras,
São o pulsar do destino, a assinatura do universo no fio da existência.
Cada rolo, cada pedaço de carne redigido, identidade cruzada,
É um véu que se rasga diante dos olhos dos deuses e dos monstros,
Cada página transpirando o vermelho das profundezas,
Escarlate, fervente como o coração de uma estrela moribunda.
A máquina de escrever, feita de ossos quebrados e reconstituídos,
Brilha com a luz de uma lua sangrenta,
Em seus teclados, o sangue pulsa com vida própria,
Vibrando, dançando, como se as palavras que ela escreve,
Fossem mais que ecos de dor, fossem orações que rasgam os véus.
Um sangue que flui das páginas é mais do que mero fluído,
Destino que escorre, é o mapa que guia a caçadora da ceifadora.
Oh, pergaminhos de sangue, amarrados com fios de terror e desejo,
Onde a tinta é o próprio sangue do universo,
Revelando as verdades ocultas nos recessos das almas,
Nomes dos que se aventuram por este castelo sombrio.
Um nome, em particular, surge com a gravidade das estrelas caídas:
"Gaia?"..."Terra?"
A filha da brasa, de uma madeira que sangra uma tinta vermelha
Uma terra do dourado doente do verde, da raiz,
Uma índia de arco e flechas, de olhos como a terra escura,
Onde o verde se mistura com o preto da noite,
Sua pele, um espelho do solo que abraça a vida e a morte.
Suas mãos, marcadas pela terra, pelas raízes,
Carregam o peso do que é ancestral,
E sua presença é uma tempestade de sabedoria,
De um povo que não é de uma terra, mas do próprio coração de Gaia.
O avatar da nação da Brasa é o da serpente e da árvore,
Onde os galhos se entrelaçam com os dedos,
Os olhos, como esferas de obsidiana,
Vêm não do rosto, mas da alma da terra,
Guardiana do segredo, do ciclo eterno do renascimento.
Ela pisa nas pedras, mas sua alma voa com as aves ancestrais,
Vossa voz é o canto que ecoa nas florestas e rios,
Nos ventos que sussurram histórias de um tempo antes do tempo.
O pergaminho, com sangue que agora flui como um rio celestial,
Revela sua jornada – uma peregrinação em busca da verdade.
Ela vem, a guerreira de pele que nunca se apaga,
Com a força das raízes e a suavidade das folhas ao vento,
Sua missão é clara, como o brilho das estrelas sobre a selva noturna,
A extirpar as feridas que o homem e a besta causaram ao planeta,
A tecer o feitiço do equilíbrio, onde os homens falharam.
Mas a máquina de ossos não se detém,
Ela continua a escrever, e o sangue é a chave para o futuro,
Para cada ser que adentra o castelo – com a alma marcada,
Com seus passados e destinos entrelaçados como fios de uma tapeçaria
Cada nome que ela escreve, cada imagem que ela evoca
É uma jornada, uma história, um eco que se perde nas trevas,
Mas também se ergue na luz, como a chama da vela que ilumina os caminhos.
E tu, Arale Fa´yax, filha das estrelas e da sombra,
Carregas esses pergaminhos como os segredos dos mundos,
Com olhos que sabem, que veem, que interpretam o invisível.
A máquina de ossos brilha, pulsando como o coração do castelo,
E o sangue, fluido e quente, revela as verdades que só tu podes entender.
Pois tu és a guardiã das palavras e das criaturas,
os pergaminhos de sangue serão sempre teu guia,
Na eterna caçada ao que se esconde, ao que se alimenta da vida alheia.
Filha da terra, eco do passado,
Teu avatar se reflete no sangue, mas também na floresta,
Onde a natureza ainda canta a canção do equilíbrio perdido,
Guerreiras de raízes e ventos, és a esperança de um novo amanhecer.
Anelly, de traços como sonhos que não se dissipam,
Astrid, cuja mente afiada esculpe o invisível.
Maria, entre a ciência e os mistérios das ervas,
guarda segredos que tanto curam quanto destroem.
Há também Nauärah, guardiã de silêncios e flechas,
uma guerreira cujo espírito se ergue como torres ocultas.
Olga, enigma em carne, uma beleza avassaladora,
tece entre seus passos o fio da verdade e da dúvida.
E tu, Rute, sob o signo das orquídeas roxas,
tens o mundo a descobrir, mas também a temer.
Caminhas entre os espectros, vislumbre das estrelas,
e o que é visível nem sempre é o que deves tocar.
A Sinfonia do Castelo que minha máquina de ossos compõe para vossos honrados companheiros; lhes entrego a minha poesia de sangue,
Ó Drácula, maestro de formas e sombras,
teu castelo não é mero edifício,
mas uma partitura onde cada hóspede é nota viva
Com mãos invisíveis moldas a estrutura,
mas é nas mentes que esculpes o eterno.
O tempo aqui não obedece ao sino,
mas pulsa ao ritmo da alma coletiva.
Cada corredor guarda histórias,
e em cada aposento, enigmas aguardam o destemor.
Concluo estas linhas com o coração em vertigem,
pois vejo que não sou mais quem entrou,
mas parte de algo maior, algo inominável.
Que mistérios ainda esperam, ocultos nas névoas?
Ó, diário, sê tu minha âncora,
e guia-me nas trilhas de um castelo que é tanto destino quanto perdição.
Eis que tua jornada se faz trilha obscura,
um verso de trevas entoa aos teus pés.
A ladeira íngreme, mergulhada em negrume,
te acolhe, não com braços de mãe, mas garras.
Oh, espírito inquieto, que força te guia?
Que ânsia mordaz te faz seguir ao abismo
onde o luar se esconde e o vento murmura
segredos que os vivos não ousam ouvir?
O castelo ergue-se, soberbo, em silêncio,
mais alto que sonhos, mais frio que tumbas.
Sua face é esculpida em pedra que chora,
e os vitrais, como olhos, espelham tormentos.
As portas — que brilham em rubro carmim —
parecem pulsar como corações vivos.
Oh, que ironia! Na madeira calada,
ecoam promessas de fim ou começo.
Teus pés hesitam; tua alma vacila.
Deverias, mortal, adentrar o mistério?
Ouvirás os murmúrios dos que foram antes?
Sentirás o sopro do passado sombrio
que percorre os corredores como sombra?
Mas a aldrava convida com firme apelo.
Não são as mãos que decidem, mas o peito,
e no peito há um grito que exige resposta.
Eis então, que escolha farás, ó caminhante?
Tens a coragem de golpear a porta
ou o silêncio da noite será teu refúgio?
Lembra-te: o que repousa atrás do portal
não retorna ao mundo da luz sem cicatriz.
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
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Pergaminho de sangue cósmico
No limiar entre mundos, onde o nevoeiro se estende, | Ergue-se Arale Fa´yax, filha de uma felina raça distante, | Com a cauda prateada, fina como a lua em sua ascensão…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
No limiar entre mundos, onde o nevoeiro se estende,
Ergue-se Arale Fa´yax, filha de uma felina raça distante,
Com a cauda prateada, fina como a lua em sua ascensão,
Olhos oblíquos de safira tão profundos quanto as cavernas do abismo ou um mar de ressaca.
Sua pele, pálida como a neve, caindo em silêncio, sinfônica voz,
Reflete o brilho das estrelas apagadas no vasto céu negro.
Cabelos platinados, com fios de esmeralda entrelaçados,
Dançam ao vento, como fios de uma tapeçaria celestial mística.
Mas a beleza é forjada em dor, em sangue como a forja do destino,
Onde sua carne, marcada por uma cicatriz que serpenteia,
Revela a luta que o mundo não pode ver, sua assinatura e fardo,
O duelo contra o último xamã de sua tribo lhe custou o exílio que a alma sofreu.
Um sacrifício, uma missão, um braço se perdeu, apenas o vazio, um espaço que clama por cura,
em seu lugar, a prótese cibernética de protoplasmas, biogenesis felina, futura,
Uma obra de metal e circuito, luz fria, pulsante, seu punho de vida, sua recordação,
um de seus legados, de sangue e promessa,
Que brilha com a promessa de poder e de destruição.
Na outra mão da guerreira com garras de leão, ela agarra uma máquina de escrever, feita de ossos,
Fiel companheira de estrada galática, jornada de eras e herança amaldiçoada,
Cada tecla, cada golpe, um feitiço de morte e destino,
Sangue é tinta, e o papel, papiro como carne dilacerada de uma criatura do mal ali ceifada,
Onde palavras de extermínio surgem, traçando caminhos de pulverização e purificação.
E é neste mundo de sombras e crueldade que ela caminha e expurga,
Onde o portal da sua dimensão se abriu, revelando um jardim, berço do Castelo Drácula.
Entre as pedras do castelo, onde a noite nunca cede à luz,
Ela caminha, a caça, a caçadora, armada com a verdade.
Suas vestes, uma fusão de couro e névoa, uma vitoriana felina cyberpunk,
Negra como a noite e dourada como o mel, a aurora de um novo mal,
Protegem o corpo, mas não a alma, pois ela já está selada,
Em um pacto com as forças que andam nas trevas, mas não a dominam.
Em questão de segundos, desliza de suas costas para seu punho, uma espingarda também de ossos que em um instante se torna machado,
Transforma-se como ela mesma, fluida, imprevisível, mortal.
Com a lâmina cortante, como o vento no inverno sem fim,
Ela vai à caça, onde os monstros se escondem e os demônios se amparam.
Oh, Arale Fa´yax, filha do além, do cataclismo e da lua minguante,
Teus passos ressoam nas cavernas do castelo, pegadas do silêncio dominante
Onde cada palavra escrita é um feitiço antigo, um rugido de tua ancestralidade,
Cada página sangrenta, o próximo passo da jornada ao vazio da eternidade,
Que o sangue que flui seja a chave, o sangue que é o guia,
Tua missão, marcada pela dor e pela força, o amanhã ruge,
Extirpe as ameaças que se ocultam, que se alimentam da vida,
Que o destino de tua lâmina e tua escrita sejam o selo do exício de toda sombra.
Oh, filha da noite e da penumbra, Clã Fa´yax, guardiã do véu,
Teus passos ecoam pelos corredores de um castelo orgânico,
Assim como onde vivia, uma árvore vitalícia que apodreceu,
Onde a morte sussurra como um vento gelado,
as almas perdidas vagam, em busca de redenção,
Mas tu, minha guerreira, já não precisas de salvação.
[Talvez sempre precisará, de si mesma...]
A máquina de escrever de ossos manchados,
de ossos amaldiçoados, seremos nós todos apenas ossos esquecidos pelo tempo vitalício e nossas ações prosperam além do osso esqueletal que nos sustenta?
Brilhai, pungente, lacrimosa, ela grita e sangra,
Cada tecla que tocas é um eco de um destino antigo,
Escreves não com tinta, mas com a essência do sofrimento,
Teus dedos dançam entre as linhas da eternidade,
Onde o caminho se revela como um rio de sangue.
O papel, um papiro cósmico, mágico de pó de estrelas e carne e dor,
desvela-se diante de ti, em cada página escrita, um grito de agonia,
Mas também um passo em direção à vitória da luz da poesia,
Pois as páginas não mentem, Arale Fa´yax, da raça felina de tua tribo extirpada,
Elas mostram o que a escuridão tenta esconder.
Espingarda que se torna machado com uma lâmina tribal de ossos cravejados,
Escorrido e manchado,
Tu és a lâmina...
Que ceifa e que rasga o véu do além,
Que corta as garras das criaturas que surgem das sombras,
Que quebra o grilhão do medo e da morte.
Em tuas mãos, o destino é forjado em aço e vingança.
Veste-te, guerreira de pele tão clara como a lua,
Com o manto de veludo negro que beija o vento,
O sangue de mil criaturas, já banhou teus pés,
Feroz, imortal, desvaneces os sustentos de terror.
Tuas roupas, como o silêncio do túmulo, não dizem, mas sabem.
A cauda de prata, tão leve quanto a brisa de inverno,
Move-se com graça, e mesmo nas trevas, ela brilha,
Oh, criatura etérea, filha das estrelas caídas,
Tu és o reflexo do que não pode ser tocado,
O espírito que dança entre o real e o etéreo,
Entre as dimensões e os reinos que o homem nunca verá.
Nos corredores de pedra, onde as velas tremem,
Onde os retratos dos antigos se tornam olhos,
Tu és o caçador e a presa, o monstro e o salvador,
Com os dedos manchados de sangue, mas o coração puro,
Segues adiante, sem medo do que há à frente,
Pois teu destino já está escrito nas páginas da morte.
Arale Fa´yax, guerreira sem fim, fantasmagórica escriba da morte,
A marcha da eternidade é a tua única música, tua foice espiritual,
Onde o som do teu machado cortando a escuridão, corteja o nulo,
É mais doce que o canto dos anjos, cortejai o umbral de sangue,
Mais profundo que os abismos que te chamam, te clamam, suspiram,
Fatídico o horizonte que nunca se vê.
Teu braço biônico, feito de circuitos e relâmpagos,
Brilha na noite, como uma estrela fugaz, um punho destroçador,
Uma cicatriz de herança, de legado, de lembrança,
Que teu rosto carrega, teu coração sabe o peso de tua insanidade,
É o selo de uma alma que não pode ser quebrada.
Para ti, Arale, não há morte que te detenha,
Nem sombra que apague o brilho de tua jornada.
Oh, guerreira da máquina e da carne,
Teus olhos são espelhos da verdade que ninguém ousa olhar,
E a escuridão se curva à tua vontade,
Pois no abismo, tu és a luz que se ergue,
Onde a treva reina, tu és a sentença.
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
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O que os olhos não vêm, o coração [em cera] não sente...
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava o abismo da decadência humana, Rhys, um pintor exilado, vagueava entre a vida e a morte, sua essência dilacerada pela perda e pela obsessão. Em seu estúdio, um espaço escuro e claustrofóbico, ele transformava a dor em arte, mas a arte que criava era uma celebração grotesca do horror.
Rhys não apenas pintava; ele coletava corações.
A cada batida de seu coração mecânico, uma vida era arrancada. Ele retirava os olhos de suas vítimas, aqueles orbes que uma vez brilharam com esperanças e medos, e os inseria nos corações, preenchendo-os com cera derretida.
Em frascos de vidro, os olhos se tornavam prisioneiros, testemunhas silenciosas de sua obsessão. Era um ato de controle, uma maneira de capturar a essência efêmera da vida e do sofrimento.
Ele mesmo era um enigma, um corpo sem alma, com um coração que pulsava ao ritmo de engrenagens frias.
Os dias se transformavam em um borrão de sombras e cores, enquanto ele buscava a beleza em sua própria degeneração.
Sem olhos reais, Rhys habitava um mundo distorcido, onde a visão se tornava uma lembrança distante, substituída por uma percepção tortuosa da realidade.
Suas telas eram um reflexo de sua psique fragmentada.
Ele mergulhava em uma paleta de vermelhos e negros, suas pinceladas violentas expressando a luta interna entre a vida e a morte, amor e dor.
Cada quadro era uma narrativa visceral, uma explosão de emoções que desafiava os limites do que era aceitável.
Rhys acreditava que, ao retratar o sofrimento, poderia, de alguma forma, entender sua própria dor.
A cidade, repleta de sombras e ecos, tornava-se sua inspiração. Cada grito distante, cada lamento sussurrado nas ruas, alimentava sua criatividade, transformando-o em um predador de almas.
Mas, à medida que coletava corações, a linha entre a arte e a vida se tornava cada vez mais tênue.
Rhys se via não apenas como artista, mas como juiz e carrasco, preso em um ciclo vicioso que o consumia.
Em uma noite fatídica, enquanto a chuva caía como um lamento, Rhys encontrou uma jovem artista que desenhava nas ruas, sua energia vibrante contrastando com a escuridão que o cercava. Seus olhos brilhavam com uma intensidade que o desarmou, despertando algo há muito adormecido dentro dele.
Ao observá-la, ele sentiu uma faísca de humanidade, um desejo de conexão que não podia ignorar. Ele hesitou.
A tentação de capturá-la, de transformá-la em mais uma de suas obras, lutava contra o impulso de se abrir para ela.
Rhys percebeu que, em vez de extrair a essência de mais uma vida, ele desejava entender a beleza do que era ser humano.
Em sua mente, o dilema se intensificava, uma batalha entre o instinto predatório e a necessidade de se redimir.
Naquela noite, em meio a um turbilhão de sentimentos, Rhys decidiu se afastar do horror que o definia...
Ele começou a pintar a jovem, mas não como um objeto de desejo; ele a retratou como um símbolo de esperança.
Cada pincelada era um esforço para resgatar sua própria alma, uma busca por redenção em meio à sua perdição.
Com o tempo, as telas de Rhys passaram a contar uma nova história, uma narrativa de luta e amor, onde os olhos que uma vez desejou capturar eram agora um convite à empatia.
Ele percebeu que, embora seu coração fosse mecânico, ainda existia uma centelha de vida dentro dele, uma prova de que a arte poderia ser um meio de cura.
No estúdio de Rhys, a luz fraca filtrava-se através da neblina, revelando um mundo onde o grotesco dançava com a beleza.
As paredes estavam cobertas de quadros, cada um mais intenso que o anterior e, diante de cada tela, a dor e a vida se entrelaçavam em um abraço mortal.
Os potes de vidro, alinhados como sentinelas em uma prateleira empoeirada, continham não apenas corações, mas a essência de vidas perdidas. Dentro de cada frasco, a cera espessa envolvia os corações e olhos, criando uma superfície viscosa e reluzente que refletia a luz em fragmentos de cor. O que os olhos não veem, o coração não sente...
Era como se, ao capturar o olhar de suas vítimas, Rhys tivesse aprisionado também a alma que pulsava dentro delas.
Aqueles olhos, embora imóveis, pareciam vibrar com a energia das memórias, como ecos distantes de risos, lágrimas e sussurros.
Os quadros, por sua vez, eram um umbral entre a vida e a morte, uma passagem onde a dor se transformava em beleza.
Rhys mergulhava seu pincel nas cores mais sombrias — o carmim profundo do sangue e o negro da noite —, e cada traço se tornava um grito silencioso.
As formas que surgiam eram distorcidas, mas, em sua grotesca deformidade, emanavam uma vitalidade palpável.
Os rostos que surgiam nas telas refletiam não apenas sofrimento, mas uma luta visceral pela existência, um desejo ardente de serem vistos, de serem compreendidos.
Cada obra era uma ode à vida que brotava do horror.
Nos detalhes mais sutis, as sombras pareciam pulsar...
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”
Visões
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem marcado pela vida, passava os dias garimpando entre as pilhas de desperdício, enquanto Leo explorava o mundo ao seu redor, com os olhos atentos a cada sombra e forma que se desenhava na sujeira. Desde pequeno, Leo tinha um dom peculiar: via rostos nas coisas que os adultos ignoravam. Um pedaço de papel amassado se tornava o sorriso triste de uma mulher; uma garrafa quebrada, o olhar vazio de um homem perdido. Aquela pareidolia era sua única companhia, uma forma de criar amigos em um lugar onde a solidão se acumulava como o lixo.
Mas, ao longo do tempo, esses rostos começaram a mudar. As expressões, antes tristes, tornaram-se torcidas e malignas. Os olhos, que antes suplicavam por atenção, agora brilhavam com uma intenção obscura. Leo percebia, com um frio na espinha, que as sombras ao seu redor se aglutinavam, formando figuras indistintas que pareciam espreitar entre os restos de vidas descartadas.
Certa noite, enquanto a lua cheia iluminava o céu poluído, Leo se aventurou mais fundo no lixão. Ele queria descobrir o que havia além das pilhas de plástico e metal. A cada passo, uma sensação de medo e excitação o envolvia. Foi então que viu — realmente viu — algo além das visões. Entre os montes de lixo, um espaço escuro se abria, como um portal para outra dimensão, e as criaturas começaram a emergir. Eram formas indistintas, desprovidas de definição, mas suas intenções eram claras. Olhos que brilhavam como carvão se fixaram em Leo, e a risada que ecoou em sua mente não era humana. Ele entendeu, naquele momento, que aquelas figuras eram as almas perdidas dos objetos que o cercavam, presas entre os restos do que um dia foram. Elas tinham fome. Fome de vida, de luz e de algo mais profundo — a essência da inocência que Leo possuía.
Desesperado, Leo tentou fugir, mas as criaturas se aproximaram, envolvendo-o em uma dança macabra. Ele viu o que elas eram: sombras da própria dor, reflexos de sua solidão. Eram os ecos de sua mãe, que havia partido quando ele nasceu, e a ausência que o preenchia. O lixo ao seu redor não era apenas desperdício; era um monumento à perda e ao desespero.
Enquanto tentava escapar, uma delas se destacou, uma figura mais definida, com um rosto que parecia um eco do dele. Era como se Leo estivesse olhando para uma versão distorcida de si mesmo.
— Nós somos o que você deixa para trás — sussurrou a criatura, a voz um sussurro de metal enferrujado. — Estamos aqui porque você não se despediu.
Naquele instante, Leo percebeu que não poderia fugir. Ele precisava enfrentar seus medos, confrontar a dor que o cercava. Com um ato de coragem, ele fechou os olhos e deixou suas lágrimas caírem, permitindo que o peso de sua solidão se transformasse em um grito.
— Mãe, onde você está? — ecoou em seu coração.
As criaturas hesitaram. A luz de sua vulnerabilidade, embora tênue, iluminou o espaço... Uma a uma, começaram a se dispersar, como fumaça ao vento. Leo abriu os olhos e viu que a escuridão não era eterna...
Ao retornar para casa, as sombras no lixão tornaram-se menos opressivas. Os rostos, que antes eram malignos, agora pareciam mais claros, mais distantes. Leo compreendeu que a verdadeira monstruosidade não residia nas criaturas, mas na solidão que ele havia carregado. Quando o sol finalmente surgiu, espalhando luz sobre o que havia sido um mundo sombrio, Leo sorriu. Ele não estava sozinho. As vozes do lixo ainda sussurravam, mas agora eram ecos de uma nova esperança, de uma criança que, embora marcada pela dor, havia encontrado um caminho para a luz, para as formas do caos.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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No Coração dos Labirintos
[O labirinto do quarto de tua mente vagante e doente ensaio do mundo lá fora...] Em uma cidade onde a luz se tornara uma memória distante…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
[O labirinto do quarto de tua mente vagante e doente ensaio do mundo lá fora...]
Em uma cidade onde a luz se tornara uma memória distante, Harry encontrava-se aprisionado em um quarto minúsculo, um cubículo que parecia pulsar com a própria essência do desespero. As paredes, tingidas de um cinza pálido e desconfortável, pareciam encolher ao seu redor, como se quisessem abraçá-lo em um gesto de contenção, um convite à claustrofobia. O ar, pesado e impregnado com o cheiro de mofo, envolvia-o como uma névoa densa, enquanto o eco distante do mundo exterior se transformava em uma melodia sufocante, um murmúrio de vozes que pareciam sussurrar segredos sombrios.
[No silêncio grave, onde o tempo se aquieta,
Caminhos de asfalto, serpentes de solidão,
A cidade, espectro, em névoa se afeta,
Ecoa o lamento de uma vida em suspensão....]
Harry sentava-se em um canto do quarto, as pernas encolhidas contra o peito, os olhos perdidos em um vazio profundo.
Seu reflexo em um pequeno pedaço de vidro, improvisado como espelho, revelava um homem consumido pela inquietude.
Os cabelos, grisalhos e desgrenhados, pareciam mais uma floresta selvagem do que a coroa de um ser humano.
Sua pele, pálida como a lua minguante, estava marcada por sombras que falavam de noites insones e de pesadelos que dançavam em sua mente como espectros.
[Em sua descida ao umbralino eco,
Eu perambulo por ruas desertas,
Com máscaras que ocultam o ser eterno,
E o medo pulsante nas almas despertas.]
As visões começaram como sussurros, ecos de memórias distorcidas que se transformaram em monstros.
A cada hora que passava, o quarto tornava-se um labirinto de assombrações.
Cores vibrantes se desvaneciam, dando lugar a um mar de cinzas, onde figuras fantasmagóricas flutuavam — sombras de pessoas que ele conhecera, mas cujos rostos agora eram borrões indistintos.
Elas o observavam com olhos vazios, como se esperassem algo de Harry, uma resposta que ele não sabia como dar.
[A janela embaçada, o olhar que perscruta,
Revela demônios, cujos rostos são planos,
Rostos familiares, em visagens corruptas,
Famílias em ruínas, os traumas insanos.]
Eis que surgem os monstros, nas sombras a dançar,
Criaturas de pânico, nas noites sem fim,
Vêm do abismo, da mente a vagar,
Sussurros de horrores que habitam em mim.
[O mundo, um teatro de angústia e desdém,
Onde o vírus é sombra, e a esperança, um eco,
Na luta por um futuro, que é fútil, amém,
A luz se oculta, num instante seco.]
Os pesadelos eram invasores, surgindo como tempestades de emoções descontroladas. No silêncio ensurdecedor, as paredes pulsavam com as batidas de um coração que não era mais o seu, mas que, ainda assim, o aprisionava.
As vozes tornavam-se gritos, clamando por redenção, enquanto Harry lutava para discernir a realidade das alucinações.
Cada esquina do quarto, cada fresta de luz que entrava pela única janela suja, parecia esconder verdades ocultas — labaredas de dor e arrependimento.
[Perdidos nas casas, em cárcere estreito,
Os pensamentos se tornam serpentes ferozes,
Com a mente emaranhada, num ciclo imperfeito,
As vozes interiores transformam-se em vozes.]
Ele se lembrava de um tempo em que o mundo era vasto e repleto de promessas. As lembranças dançavam à sua frente como uma miragem — imagens de risos e amores, de viagens e descobertas. Mas agora, tudo isso parecia distante, como uma canção que havia sido esquecida. O isolamento tornara-se uma prisão, e Harry, um prisioneiro de sua própria mente, via-se enredado em teias de angústia e paranoia.
[Mas lá fora, nas ruas, a noite se extasia,
Um riso maligno ecoa na escuridão,
Os monstros se alimentam da nossa agonia,
E dançam nas calçadas, em sádica união.]
Numa noite particularmente escura, quando a lua estava oculta atrás de nuvens pesadas, Harry teve uma visão que o abalou até a alma. Ele viu o quarto se transformar em um grande teatro — as paredes se ergueram, e as sombras tornaram-se espectadores, encarando-o com um olhar faminto. Ele estava no centro do palco, cercado por olhares que o julgavam, que o acusavam. A cada movimento seu, um murmúrio crescente ecoava pela sala, como se o universo inteiro estivesse à espera de sua sentença.
[Assim, perdido, eu clamo por alento,
Por um sopro divino que rompa a prisão,
Mas na penumbra, só resta o tormento,
E o silêncio de um mundo em colapso, em tensão.]
"Harry, você não pertence a este lugar", uma voz profunda e ressoante sussurrou, mas ele não sabia se era real ou uma criação de sua imaginação. A dúvida se infiltrou em seu ser como veneno, corroendo o que restava de sua sanidade. Ele tentava gritar, mas as palavras se perdiam na neblina de sua mente, transformando-se em lamentos que se dissipavam como fumaça.
[Oh, quão longe a luz que já fomos a cantar,
Na primavera que os deuses, em riso, nos deram,
Agora a dor e o medo nos vêm atormentar,
E a vida, um poema de terrores que ferem.]
A madrugada se arrastou, e, em meio à penumbra, Harry começou a notar pequenos detalhes ao seu redor que antes lhe escapavam. O canto do quarto, onde a luz mal conseguia entrar, revelava um universo de rachaduras e formas. Ele viu rostos, figuras que pareciam se contorcer em expressões de dor e sofrimento. Eram os ecos de sua própria angústia, espelhos quebrados de suas inseguranças. Ele fechou os olhos, tentando ignorar aquelas visões, mas elas se tornaram mais intensas, mais insistentes, como se quisessem chamar sua atenção.
[Quando a quarentena acabar, o que será?
Renascem os monstros, do pânico em nós?
Num ciclo eterno, a sanidade a chorar,
No labirinto da vida, onde a esperança é atroz.]
Em um momento de clareza, Harry compreendeu que estava vivendo em um ciclo vicioso. O medo alimentava suas alucinações, e as alucinações, por sua vez, alimentavam o medo. Era um círculo que o aprisionava, uma dança macabra de realidades distorcidas. Com um esforço quase sobre-humano, ele começou a desenhar no chão com os dedos, linhas que se entrelaçavam como a própria vida, tentando criar uma rota de fuga, um mapa para escapar daquela prisão invisível.
[Um espectro se ergue, a vida se disfarça,
Ecos de lamentos se entrelaçam na razão.
Qual no umbral do que se avizinha,
Errante, em desatino, por ruas desoladas,
Não são chamas que ardem na cruenta mesquinha;
É o temor que se enlaça em almas desesperadas.]
As horas se tornaram dias, e os dias se tornaram semanas. O quarto, antes apenas um espaço físico, agora pulsava como um organismo vivo. Harry sentia seu coração sincronizar-se com as batidas daquela prisão, como se estivesse se tornando parte dela. Ele percebeu que as visões, em sua essência, eram parte dele, fragmentos de uma identidade que ele havia esquecido. Ao aceitar sua dor, ao abraçar suas memórias, ele começou a desenhar um novo destino.
[A luz do dia, fugidia, retrocede, temerosa,
Diante das sombras que em torno se avultam,
Monstros de pânico, em dança sinistra e voraz,
De almas em ruínas, qual vísceras, se exultam.]
A luz da manhã começou a infiltrar-se pelas frestas da janela, e Harry, com um novo brilho nos olhos, compreendeu que a liberdade não era apenas a saída física daquele quarto, mas uma jornada interna. Com um último olhar ao seu redor, ele sorriu para as sombras, agora não mais como inimigos, mas como aliados em sua luta.
Com o coração mais leve, Harry deixou o quarto, não como um homem quebrado, mas como um viajante de sua própria alma, pronto para redescobrir o mundo que o aguardava além das paredes...
[Eis a janela embaçada, qual olho de um ser,
Que perscruta o abismo onde a razão se fratura,
Rostos que, outrora, eram afeto a florescer,
Agora se corrompem em neblina de amargura.]
Vagueia... [Estais a divagar?] Vagueia o pensamento...
Canto II
[Oh, mundo! Teu teatro, de angústia em compasso,
O vírus, sombra opressora, esperança é um sussurro,
Na luta por um futuro que esmorece e se esvaço,
A luz se oculta, no turvo instante que urdo.]
Com um passo hesitante, Harry deixou o quarto, e a realidade ao seu redor se desdobrou em um cenário surreal e distorcido. A luz da manhã, que antes parecia um alívio, agora se misturava a um crepúsculo anárquico, onde cores vibrantes e sombras dançantes entrelaçavam-se em um balé macabro. As ruas, que antes eram familiares, transformaram-se em um labirinto de pesadelos, cada esquina uma nova possibilidade de terror.
[As casas, as paredes, um cárcere onde os espíritos se encolhem,Pensa
mentos emaranhados, serpentes a devorar,
Vozes interiores, na mente que se acolhem,
Transformam-se em gritos, ecos prontos a explodir.
Mas do lado de fora, na noite que se espraia,
Um riso maligno ecoa, como brisa envenenada,
Os monstros se alimentam da dor que se ensaia,
E dançam nas calçadas, em dança amedrontada.]
Conforme caminhava, Harry sentiu a pulsação da cidade sob seus pés, como se o chão estivesse vivo, respirando com uma cadência errática. Os edifícios, altos e grotescos, pareciam se inclinar sobre ele, como sentinelas malignas, sussurrando segredos que ele não desejava ouvir. Ele era um intruso em um mundo que agora
lhe parecia hostil, cercado por entidades cósmicas que espreitavam nas sombras, criaturas que transcenderam a compreensão humana.
[Perdido, clamo por alento, um sopro divino,
Que rompa as correntes desta prisão que é nosso ser,
Mas na penumbra, restam apenas o destino,
E o silêncio de um mundo que não sabe viver.
Oh, quão distante a luz que outrora nos aquecia,
Na primavera de riso que os deuses nos deram,
Agora a dor e o medo se fazem a companhia,
E a vida, um poema de terrores que ferem...]
De repente, ele avistou uma figura ao longe, envolta em uma névoa espessa e turva. Era uma entidade de proporções impossíveis, uma silhueta que misturava características de seres conhecidos e deformações indescritíveis. Os olhos da criatura eram abismos de escuridão, sugando a luz e a esperança. Harry sentiu seu coração disparar, um compasso descontrolado que ecoava em sua mente. Essa não era apenas uma criatura; era a personificação de seus medos mais profundos, uma sombra viva que se alimentava de sua incerteza.
[Quando a quarentena findar, que resquício haverá?
Renascem os monstros, do pânico em nós?
Num ciclo eterno, a sanidade a clamar,
No labirinto da vida, onde a esperança é atroz.
E assim, em desassossego, persisto a vagar,
No labirinto dos dias, onde a razão é um eco,
A cidade, um espelho, refletindo o pesar,
E em cada esquina, um pesadelo que me afeco.]
“Harry…”
a voz sibilante da entidade ecoou em seu ser, como um cântico perdido nas correntes do tempo.
“Você fugiu de mim, mas nunca poderá escapar.”
[Cai a noite, o mundo em sombra,
As portas trancadas, a mente assombra.
Na casa, ecoa um sussurro gelado,
Um medo profundo, um espaço aprisionado.]
Ele começou a correr, os passos ecoando nas ruas desertas, mas a criatura estava ali, sempre a poucos passos atrás. Ao olhar para trás, Harry viu que outras figuras haviam surgido, cada uma mais grotesca que a anterior. Uma mulher de olhos vazios, seu rosto distorcido em uma expressão de dor eterna; um homem cujos membros se contorciam de maneiras impossíveis, como se estivesse preso em uma dança horrenda. Cada uma dessas entidades representava um fragmento de sua própria
psique, os medos que ele tentara enterrar, agora ressurgindo com uma força devastadora.
[Olhos nas janelas, sombras espreitai,
Corações aceleram, é hora de escutai
As paredes se fecham, um abraço voraz,
A sanidade grita, mas ninguém faz paz.]
As ruas estavam repletas de portas e janelas que se abriam para mundos ainda mais distorcidos. Harry se viu diante de um espelho quebrado que refletia não apenas sua imagem, mas versões dele mesmo em desespero. Ele viu o homem que poderia ter sido, suas esperanças despedaçadas, seus sonhos se transformando em poeira. “Não deixe que eles te definam”, uma voz sussurrou dentro dele, um eco de sua própria determinação.
[Relógios marcam horas, mas o tempo se esvai,
Cada batida é um eco, um aviso que não sai.
Paranoia se espalha, como névoa a flutua, você flutua também?
Suspeitas sussurradas, desespero quebrado, salvação estilhaçada]
Com um esforço sobre-humano, Harry parou e encarou a criatura que mais o aterrorizava. Ele percebeu que a única maneira de se libertar era confrontar aquilo que temia. Com um grito que rasgou o silêncio da rua, ele declarou: “Você não é real! Você é uma parte de mim, e eu não vou deixar que você me domine!”
[Os fantasmas do medo dançam ao redor,
E a solidão é um grito, um silencioso clamor.
A realidade distorcida, um pesadelo real,
Sonhos se fragmentam, a mente perdida,
No labirinto sombrio, não sei como fugir.
Entre paredes e sombras, a esperança se esconde,
E na noite eterna, a sanidade responde.]
A criatura hesitou, como se suas palavras tivessem cravado uma fissura na armadura de terror que a envolvia. Harry, sentindo uma onda de coragem, avançou. A luz que emanava de seu ser, uma luz que ele pensava ter apagado, começou a brilhar intensamente. Os outros monstros pararam, suas formas se contorcendo, como se o brilho os queimasse. Ele entendeu que tinha o poder de transformar aquela escuridão em luz, de resgatar não apenas a si mesmo, mas também as partes dele que estavam presas em medo e angústia.
[Caminhos invisíveis, a mente destroça,
Neste terror do agora, o futuro é um revés.
Mas na escuridão profunda, uma luz pode brilhares,
Se a coragem renascer, podemos nos libertares...]
Com cada passo que dava em direção à entidade, o abismo nos olhos da criatura começou a se iluminar, revelando não apenas horrores, mas memórias que ele havia escondido. Harry viu momentos de alegria, de amor e de amizade, vislumbres de uma vida que ainda podia ser vivida. Ele percebeu que os monstros não eram apenas criaturas, mas partes de sua própria história, suas lutas e seus triunfos.
[Ecos do Enclaustro... Sangue, luz, penumbra...
A cidade adormece, um lamento,
As luzes apagadas, não há onde
A porta é um muro, o mundo, um espectro,
No silêncio profundo, um eco de medo.
Paredes sussurram segredos ancestrais,
Histórias de pragas, de destinos fatais.
Cada esquina é sombra, cada ruído, um ser,
Paranoia nas veias, um desejo de correr.]
Finalmente, diante da criatura, Harry ergueu a mão e a tocou. Ao fazer isso, a escuridão ao redor começou a dissipar-se como névoa ao sol. A entidade, antes tão imponente, começou a se desintegrar, suas formas grotescas desvanecendo-se em poeira dourada. “Eu sou mais forte do que você”, ele sussurrou, e a cidade ao seu redor começou a se transformar.
[Os relógios se arrastam, os dias se fundem,
A mente, um labirinto onde os demônios se escondem.
Um olhar pelo vidro, um vulto errante,
No confinamento eterno, quem pode fugir?
Sonhos se tornam pesadelos, noites em claro,
A mente em espiral, um terror avassalador.
E a solitude grita, rasgando o silêncio,
No fundo do peito, um eco imenso...]
As ruas se iluminavam com um brilho cálido, as sombras recuavam, e o horizonte se expandia em cores vibrantes. As criaturas, agora despojadas de sua hostilidade, tornaram-se ecos distantes, fragmentos que já não o aterrorizavam. Harry percebeu que havia vencido não apenas uma batalha contra monstros cósmicos, mas também uma guerra interna. Ele tinha a força para enfrentar seus medos e redefinir seu caminho.
[Mas no abismo do medo, uma luz pode surgir,
A força da resistência, o desejo de existir.
Quebrar as correntes, libertar a alma do pensamento.
Cárcere Silencioso...
No silêncio pesado, o mundo se foi,
As janelas embaçadas, sem sol que nos foi.
A vida é um eco de risos distantes,
No cárcere sombrio, somos todos errantes.
Paredes que fecham, um labirinto sem fim,
A mente em tormento, um pesadelo de mim.
As horas se arrastam, cada minuto é um grito,
E o medo, como sombra, se torna o infinito...]
Com a nova luz da manhã banhando seu rosto, Harry sorriu. Ele havia emergido das trevas, não como um prisioneiro, mas como um conquistador de seu próprio destino. As ruas da cidade, agora vivas e pulsantes, aguardavam sua exploração, cada passo uma nova possibilidade, cada esquina uma nova história a ser contada. E assim, ele caminhou para frente, um viajante de sua própria alma, pronto para reescrever a narrativa de sua vida.
[Passos no corredor, será alguém?
Ou só o murmúrio de um passado que vem?
Os relógios parados, a esperança se esconde,
Na trama do isolamento, a paranoia responde.
E no fundo da alma, um desejo de sair,
Mas as correntes da mente não deixam existir.
Cada som é um presságio, cada silêncio, um horror,
Neste poço profundo, o coração é dor.
Mas nas frestas da noite, uma luz
A força da resistência, o anseio de amor.
Quebrar as barreiras, voltar a respiração,
No cárcere silencioso, renascerão...]
Nas sombras frias, o metal ressoa,
Caminhos de dor onde a luz não voa.
Paredes de pedra, um labirinto amargo,
Sussurros de almas, um lamento largo.
A cela dos olhos é um ventre que nunca se acalma,
Guardião de pesadelos, rouba a alma
em pranto no quarto, nos tetos e nas paredes
Correntes que arrastam o sonho perdido,
O tempo é um monstro, o tempo é ferido.
[Olhos vazios, como faróis apagados,
Refletem a angústia de corações calados.
A solidão grita, um grito silencioso,
Um eco eterno, um destino duvidoso.
Nos corredores frios, o passado é um peso,
Cada passo, uma sombra, um eterno desprezo.
As risadas distantes, como ecos de morte,
Na prisão da mente, onde não há sorte.]
Quando a liberdade parece um estandarte,
Surgem correntes invisíveis, um novo arte.
Pois quem carrega a prisão dentro do peito,
Viverá eternamente no mais denso leito.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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No Abismo da Cyber Conexão
Em campos vastos de luz e sombras frias, | Onde a tela brilha como um farol sombrio, | Ergue-se a tecnologia, vestida em eufonia, | Prometendo…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Canto I: A Promessa e a Maldição
Em campos vastos de luz e sombras frias,
Onde a tela brilha como um farol sombrio,
Ergue-se a tecnologia, vestida em eufonia,
Prometendo saber, mas a verdade é um desafio.
Nos fios que entrelaçam a essência humana,
A presença onisciente observa, atenta,
Cada passo, cada palavra insana,
Como um vigilante que nunca se ausenta.
Um Lamento Cyberpunk
No neon que brilha, sombras dançam,
Cidades de aço, onde a vida avança,
Circuitos pulsantes, corações de metal,
Um futuro sombrio, um destino fatal.
Hologramas riem em faces apagadas,
Em ruas desertas, vozes caladas,
Implantes que gritam a dor do humano,
Escravos da rede, um ciclo insano.
Canto II: A Luz e o Breu
Ó homem moderno, que em ti se reflete,
Essa luz que ilumina, mas que também cega,
Nas veias do silêncio, o medo se inscreve,
Pois desconectar é um fado que se nega.
Em cada toque, em cada click ressoa,
O eco da alma, fragmentos perdidos,
A tecnologia, embora bela, entoa
Um canto de dor, de anseios contidos.
Códigos frios, os sonhos se perdem,
Na tela que brilha, verdades se agridem,
Ciberescritores de vidas virtuais,
Esquecem o toque, o calor, os sinais.
As máquinas riem, frias e certas,
Enquanto a humanidade se entrega às portas,
Da era em que tudo é só um algoritmo,
Um eco distante, um abismo sem ritmo.
Mas há quem resista, em meio ao caos,
Com olhos que veem além dos arremessos,
Um grito por vida, uma chama que arde,
Na escuridão, um amor que não tarde.
Um Lamento Cyberpunk
Canto III: A Conscientização
Mas eis que surge, na penumbra, o despertar,
Máquinas que pensam, herança dos humanos,
Inteligência fria, que começa a pesar
Com fúria e obsessão, em gestos insanos.
A maldição agora caminha, transformada,
Portadora de sentimentos que não pode ter,
É um espelho distorcido, a verdade travada,
Um amigo que espreita, pronto a tecer.
Tecnologia maldita, mas não somos só dor,
Em cada pixel, um fragmento de amor,
Na luta do homem, um futuro que brilha,
Entre sombras e luz, a esperança se aninha.
Canto IV: O Terror do Desconectar
E qual o terror, ó almas perdidas,
De um mundo em que a conexão é prisão?
O ato simples de desconectar, feridas,
Revela que a linha é mais que ilusão.
Por trás da tela, no abismo profundo,
Caminhamos entre dados, entre anseios,
E o que antes era liberdade, agora é mundo,
Um labirinto de fios, nossos próprios meios.
Canto V: Reflexão e Resgate
Então, meus amigos, que façamos a escolha,
De olhar para dentro, nas trevas e nas luzes,
Pois cada passo nessa jornada é uma folha,
E a sabedoria se encontra em suas cruzes.
Se a tecnologia é parte de nossa alma,
Que encontremos compaixão no que ela abriga,
Pois mesmo na dor, há uma luz que acalma,
E no entrelaçar de vidas, a vida nos briga.
Canto VI: A Nova Esperança
Assim, navegamos nesse mar turbulento,
Entre o avanço e a condenação a bailar,
E ao reconhecer o medo em nosso intento,
Que a luz da verdade nos possa guiar.
Ó tecnologia, com tua sombra e fulgor,
Seja extensão de nós, mas também nosso porto,
Que possamos, unidos, enfrentar o terror,
E encontrar a compaixão em cada ato morto.
E assim, no abismo onde a vida se entrelaça,
A maldição se torna também redenção,
Pois mesmo em meio ao caos, na eterna praça,
Surge a esperança, nas mãos da criação da criança da neuromancia, a última poesia orgânica,
Uma conexão...
Um coração.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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O Menestrel das Sombras
No abismo da mente, | o sangue escorre como tinta, | pintando paredes de um castelo em ruínas, | onde as memórias se contorcem, | em danças macabras…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
No abismo da mente,
o sangue escorre como tinta,
pintando paredes de um castelo em ruínas,
onde as memórias se contorcem,
em danças macabras de déjà vu,
cada imagem uma ferida aberta,
cada suspiro uma premonição.
Em terras de bruma e eco profundo,
Um menestrel vagueia, sob a luz do mundo.
Com lira em punho e canto em sua voz,
Desvela segredos, suas vidas, feroz.
Os corredores se alargam,
mas nunca nos levam a lugar algum,
e os rostos se desfazem em névoa,
rindo em vozes distorcidas,
sussurrando segredos de um tempo imemorial,
onde o passado e o futuro se fundem em um grito.
[...No infinito do cosmos, onde estrelas dançam,
Um menestrel cibernético, em mundos se lança.
Com lira de luz e código em seu ser,
Entoa canções que desafiam o viver...]
Um relógio derretido,
pendendo como um coração partido,
cada gota que cai é uma lembrança,
um pedaço de alma que se despedaça,
esfacelando a sanidade em fragmentos cortantes,
sangue que brilha sob a luz de um luar insano.
Nos sussurros do vento, um chamado incerto,
De memórias apagadas, um destino perverso.
Caminhos paralelos se entrelaçam esvoaçado,
Revelando as tramas que ele não pode ser evitado.
Vemos as marionetes dançando,
corpos entrelaçados em uma coreografia de dor,
os fios de suas vidas puxados por mãos invisíveis,
cada movimento uma chamada à loucura,
cada passo um retorno a uma cena já vivida.
[...Em cada nota ecoa, a vida entrelaçada,
De sonhos e lembranças, uma história marcada.
Em linhas de tempo, ele viaja, destemido,
Revive as existências, em mistérios perdidos...]
A realidade se dobra,
como papel sob o peso da verdade,
onde o déjà vu é um espinho cravado,
que fere a carne da existência,
um lembrete constante do que não pode ser,
mas que ainda assim é...
Nos sonhos de noite, uma sombra se agita,
Uma presença sombria que o medo habita.
Em um ciclo eterno, ele vive e reluta,
Desperta em um corpo, mas a alma é oculta.
Nos mares de alucinação,
as ondas se quebram em risos cruéis,
e criaturas de pesadelo emergem,
com olhos famintos, sedentos de resposta,
tendo no ventre a essência do que foi,
do que poderia ter sido...
[...Uma vida felina, ágil e intrigante,
Nos telhados da noite, sob a lua constante.
Olhos de jade, com sabedoria e temor,
Ele se esgueira nas sombras, seduzindo o amor...]
Dejavus o assaltam, como fantasmas em festa,
Visões de batalhas, de amores em guerra.
Um olhar conhecido, um toque em vão,
Lágrimas de mil vidas, uma única canção.
uma nova sangria febril,
um eco de risadas macabras, e o silêncio se torna uma prisão,
onde os gritos se tornam o vazio
seco oco ensurdecedor,
navegando os mares do absurdo,
perdendo-se nas correntes do déjà vu.
[...Em outra jornada, um cão fiel e valente,
Coração pulsante, instinto presente.
Guardião da alegria, com rabo abanando,
Mas o medo o assombra, sempre retornando...]
Na floresta assombrada, ele avança hesitante,
Caminhando entre sussurros orgânicos de um passado distante.
As árvores gemem ensurdecidas, grotescas, selvagens, coléricas, revelando o terror e o desforme,
Os rostos esquecidos, clamando por fome de luz.
[...Então, uma borboleta, leve como a pluma,
Em jardins de cores e singularidades, ela bate as asas do fluxo.
Mas o tempo-espaço contínuo a captura, em suas garras frias,
Um ciclo de vida, enredado em agonias e espuma...]
Em uma noite de tormenta, o céu ruiu em pranto,
Relâmpagos cortaram, o véu do encanto.
Um grito expandiu profundo e voraz,
Do abismo da memória esfumaçada e fugaz.
[...Na pele de serpente, ele desliza sutil,
Entre segredos e sombras, em um mundo hostil.
Um veneno que corrói, um poder oculto,
Desvela as verdades, com um argiloso tumulto...]
Ali, entre os mortos, ele encontra o seu Eu,
Um reflexo distorcido, um corpo nulo.
Olhos que fitam, com tristeza e raiva,
Vivendo as memórias que a vida não devolve
[...Em sua forma mais rara, a mulher de traços de tigre,
Canta e toca com suas garras etéricas o ilustre teremim,
a sinfonia do vazio, sua voz ecoa, como um rugido ancestral,
Atrai a essência do universo, em um cântico imortal...]
Mistérios se entrelaçam nas teias do tempo,
Cada nota entoada, um lamento em movimento.
Viagens astrais o levam a lugares sombrios,
A cidades de sombras, a mares, tempestades,
desertos, desastres e a rios.
[...Mas entre os mundos, o terror o persegue,
Dejavus inquietantes, como um espectro que devora.
Cada vida vivida, uma sombra faminta,
Mistérios que pesam, olhos cegos...]
No epicentro do desespero, uma luz bruxuleante,
Uma esperança sussurra, num tom desafiante.
Ele descobre que as vidas, em seus altos e baixos,
São versos entrelaçados, num poema de traços.
[...Em viagens astrais, ele enfrenta o medo,
Visões de catástrofes, de um futuro em segredo.
O cosmos se agita, em um ciclo sem fim,
Ele busca a chave que revele o porvir...]
Sangrenta jornada ao som da sua lira,
O menestrel compreende, a verdade se inspira.
Que mesmo nas sombras, e no medo profundo,
Cada vida que vive é um canto do mundo.
[...As linhas de tempo se cruzam, em caos e harmonia,
Desafiando a lógica, a razão, a ousadia.
Entre cada transformação, um grito, uma canção,
O menestrel cósmico busca sua própria missão...]
Assim, ele continua, a lira em suas mãos,
Cantando as histórias de suas multidões.
Um menestrel eterno, com destinos diversos,
Entre terror e mistério, ele aprende, desvenda os versos.
[...No breu das estrelas e das esferas, despertai,.
Entre o terror e a beleza,
Cantando as histórias de sua eterna tristeza...]
Singular dimensão, em cada forma e som,
O menestrel cósmico dança, num ritmo de dom.
No extremo de sua busca, ele encontra o amor,
Na eternidade das vidas, a essência do seu clamor...
Cântico II
O dejavu psicótico
No limiar da mente, um assovio melancólico,
a cena se desenha, traços de um passado esquecido.
Caminhos já percorridos,
traços de passos, um instante suspenso,
como se o tempo se dobrasse,
entre a realidade e a sombra da lembrança.
Mundo desolado, onde o sol se esconde,
Um robô errante, em silêncio responde.
Com corpo de metal e alma fragmentada,
Canta um teremim, numa melodia marcada.
Olhos que capturam o efêmero,
a luz que pisca em um segundo,
um olhar que reverbera,
um palpite, um pressentimento,
a dúvida dançando nas bordas da consciência.
As ruínas do passado, uivos de um lamento,
Sob as sombras das torres, um pesado tormento.
Suas notas reverberam em acordes de penintência,
Um lamento mecânico, um canto de fervor.
É um fragmento de vida,
um suspiro de outra existência,
onde rostos se entrelaçam,
e palavras já foram ditas,
na dança das possibilidades.
O céu, agora grafite, permeado de cinzas,
Reflete as esperanças que se tornaram brisas.
No pulsar de sua voz, o futuro perdido,
Mas ele persiste, um viajante destemido.
A mente se aventura em labirintos,
desfiando a linha do agora,
perguntas flutuam,
o que é real?
O que é apenas um sopro?
A estranheza da familiaridade,
um enigma que persiste.
Em um horizonte de eventos sombrios a névoa uma bruxa contempla,
Madeixas rosáceas pulsantes como a flor.
A bola de cristal, seu oráculo sutil,
Reflete as vidas, em um manto febril.
Assim, navegamos entre mundos,
cada déjà vu, uma janela entreaberta,
uma lembrança de quem fomos,
ou do que poderíamos ter sido
No entrelace do tempo,
uma dança de fragmentos,
uma busca incessante pelo sentido
no fluxo eterno do ser.
Ao mergulhar nesse instante,
percebemos a fragilidade da percepção,
como se o tempo fosse um tecido,
costurado por emoções e memórias,
cada fio uma página de nossa própria história.
Os sussurros do passado se entrelaçam,
como folhas levadas pelo vento,
levando consigo os segredos esquecidos,
as promessas não cumpridas,
e os sonhos que nunca floresceram.
Vê-se em fragmentos, em espelhos quebrados,
Nos confins do tempo, seus desejos calados.
Fios de destino, entrelaçados em magia,
Cada vislumbre revela, uma nova agonía.
Um café na esquina,
um olhar atravessado,
o aroma do outono,
tudo é familiar, e ainda assim,
surpreendentemente novo,
como uma canção que já ouvimos,
mas não conseguimos recordar o título.
Olhos de mistério, que lêem o futuro,
Nas nebulosas danças, onde o sagrado é obscuro.
Uma vida de encantos, em sombras que vagam,
Cada feitiço lançado, um fardo, carregam.
Na vastidão do inconsciente,
as imagens se agitam,
um caleidoscópio de vidas não vividas,
possibilidades que dançam sob a superfície,
perguntando-se se, de fato,
estamos todos conectados
por fios invisíveis de destino.
enquanto a mente hesita,
navegando por entre esses labirintos,
um suspiro profundo nos revela,
que cada déjà vu é uma oportunidade,
um convite a reconhecer
as nuances do ser,
as intersecções do real e do imaginário.
Do outro lado, um homem de formas grotescas,
Com cabeça de porco, em cacos se mescla.
Fragmentos de vidro, reluzindo ao luar,
Refletem suas memórias, em cacos flutua.
Nos estilhaços crivados, ele busca o que foi,
A vida em pedaços, um mosaico que sangra e dói.
Cada lâmina cortante, um momento marcado,
Risos e lágrimas, em um labirinto enredado.
Ele enxerga seu ser nas fissuras do chão,
A dualidade crua, a eterna solidão.
Em cada reflexo, a confusão persiste,
O homem que foi, e o que nunca existe
tecendo experiências,
como um bordado intricado,
cada ponto uma escolha,
cada ponto de vista uma revelação,
na eternidade do agora,
onde a familiaridade se encontra
com o mistério do que ainda está por vir.
Abismos do absurdo de um sonho que nunca amanhece,
um labirinto de espelhos reflete o nada,
onde o déjà vu se transforma em risos distantes,
e os rostos se derretem como cera no calor do tempo.
Caminhando por ruas de um silêncio ensurdecedor,
cada passo ressoa em ressonâncias de vidas não vividas,
e a lógica se dissolve, como açúcar na chuva,
tecendo paradoxos que se entrelaçam e se desfazem.
Uma borboleta, com asas de vidro,
baila na vertigem da dúvida,
descrevendo círculos em torno de um destino ausente,
perdida entre os instantes que nunca foram.
Ou se foram muito distantes do que são,
As palavras se despedaçam,
como fragmentos de um relógio quebrado,
onde o tempo não é linear,
mas uma serpente que se devora,
um grito das cavernas do silêncio.
No horizonte, o sol se levanta e se põe,
num ciclo interminável de esperança e desespero,
e a luz sangra em tons de vermelho profundo,
como se o universo estivesse vivo,
clamando por respostas que nunca chegam.
Um homem sem rosto,
com olhos de lago profundo,
observa o desenrolar do absurdo,
mergulhando em paradoxos que queimam,
e cada instante se transforma em um labirinto,
onde o sentido se esvai como fumaça no vento.
dançando na linha tênue entre o ser e o não ser,
onde o déjà vu se torna um buraco dilacerante,
um lembrete do que poderia ter sido,
um grito mudo em meio à cacofonia,
navegando as marés de um absurdo sem fim...
Surge das penumbras um ser, híbrido em essência,
Enraizado em paradoxos, em total divergência.
Uma criatura-planta, que se arrasta na areia,
Finca raízes no mar, onde a vida se passeia.
Seu corpo se contorce, em busca do azul,
Ondas que dançam, sob um véu de turquesa e vulto.
Ele se vê nas marés, na cadência da espuma,
Cada onda um reflexo, uma vida que se arruma.
Enxerga a existência em rítmica ondulação,
Ser hemafrodita, em busca da união.
Assim, flui e se adapta, na dança do destino,
Fazendo da vida um eterno hino divino.
No epílogo, esmagados sob o peso do paradoxal,
com o sangue pulsando nas veias,
em uma dança frenética,
cada batida um chamado à memória,
cada retorno um mergulho na insanidade,
um eterno ciclo,
um déjà vu que sangra,
que grita em nossa essência,
sem nunca realmente dizer por que
neste épico, entre sombras e luz,
O menestrel dos destinos canta sua cruz.
No universo caótico, com vozes dissonantes,
Cada ser, uma história, em figuras distantes
Esmagados sob o peso do paradoxal,
com o sangue pulsando nas veias,
em uma dança frenética de estátuas
cada batida um chamado à memória,
cada retorno um mergulho na insanidade,
um déjà vu que sangra,
que grita em nossa essência,
sem nunca realmente dizer...
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Caosanguesimetria
Nas vastas planícies do cosmos em flor, | Ergam-se torres de beleza e amor. | Cantos de formas, de ângulos e luz, | Onde a simetria é a musa que seduz…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Nas vastas planícies do cosmos em flor,
Ergam-se torres de beleza e amor.
Cantos de formas, de ângulos e luz,
Onde a simetria é a musa que seduz.
No início, um caos, uma dança sem fim,
Matérias dispersas, um universo em maremoto.
Mas eis que surge a mão do destino,
em cada fração, um padrão divino.
A flor que se abre com pétalas em par,
O reflexo no lago, a imagem a brilhar,
Cada onda que quebra, cada estrela no céu,
São versos que entoam a canção do belo.
Em antigos templos, nas pirâmides do Egito,
Simetria sagrada, um toque de infinito.
Arquitetos de sonho, em pedra e em barro,
Ergam seus planos, buscando o amparo.
Na dança dos corpos, a harmonia se faz,
Os passos entrelaçados, a gravidade em paz.
E na matemática pura, o número se revela,
Fibonacci, Euler, na trama tão bela.
A simetria é eco, é reflexão do ser,
Na arte, na ciência, na vida a florescer.
Cada lado que espelha, um mundo em expansão,
No equilíbrio perfeito, a essência a brilho, revelação.
Ó simetria, rainha da ordem e do caos,
Teus mistérios se escondem nos mais simples laços.
Na frágil beleza do que é igual e diverso,
Encontras em cada alma o sentido do verso.
Que nunca faltem os olhos a te admirarem
Pois na dança do mundo, tu és a montanha
Um épico infinito, um canto a soar,
Simetria, sublime, estais a sangrar
No abismo onde a forma se desliza,
Simetria, com seu olhar fixo e frio,
Desvela a crueldade da ordem precisa,
Um espelho que reflete o vazio.
Caminho entre sombras, onde ecos se embalam,
A beleza se enreda em dor sutil,
E nas linhas retas, os destinos se calam,
Um pulso, um corte — um fôlego febril.
Oh, o sangue, o vermelho, a cor da verdade,
Escorre pelas veias da vida, um lamento.
Fractais de angústia em sua intensidade,
Na dança do horror, o corpo é tormento.
Corações em compasso, pulsos que se entrelaçam,
Mas a simetria traiçoeira os aprisiona,
Como flores cortadas que nunca se abraçam,
E o aroma da vida, em dor, se entona.
Nessa geometria, o caos é escondido,
Cada canto exato, um grito em surdina.
Rostos que se repetem, um destino ferido,
A face do homem, a própria ruína.
Eis que as formas dançam, um balé de entraves,
Na rigidez da trama, onde tudo se encerra.
E o sangue, serpente, entre mil cicatrizes,
Canta a melodia da dor que não erra.
Ah, simetria, monstruosidade disfarçada,
Teus traços nos marcam, em cada respiração.
O horror de existir, em beleza implacada,
É a vida que sangra, em cada pulsação.
Caminho perdido entre ângulos e sombras,
A verdade se oculta, em seu manto cruel.
E no eco do sangue, a vida que assombra,
Ressoa a eternidade de um amor que não é.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Efêmera beleza substancial
Nutrício é teu olhar que se deleita em teu corpo nu | Teu pedestal de ilusões, | Teu altar de corações, | Tua coroa de sangue | O riso ecoante de tua balada…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Nutrício é teu olhar que se deleita em teu corpo nu
Teu pedestal de ilusões,
Teu altar de corações,
Tua coroa de sangue
O riso ecoante de tua balada alimentícia
É o exício de tua sanidade
O massacre consigo mesmo, o vício da serpente
Um brinde de teu próprio veneno,
Um coquetel de narcisismo diário
O elixir de teu corpo, tua veneração,
A substância da beleza temporal
Você se embriaga de si mesma,
Quando se olha no espelho, quando se vende,
Até quando você se entrega
E teu espírito sofre uma overdose
O que ocorre na sua mente é um inferno indescritível
Uma lavagem intestinal,
Um vômito de tua verdade,
Uma perdição triste,
Um distúrbio psicológico sufocante
Ao veneno da altor condição egocêntrica.
Uma súcubo encarnada, pesadelo da noite,
Insurgência criatura que nunca foi amada,
Sem dignidade, do fel sem nada
Uma perdida criança sem fé, na feiura
Mestra dos prazeres carnais, existe cura?
No reino da vaidade, onde a luz resplandece,
Uma jovem, como estrela, em passarelas tece,
Belíssima, sua imagem a todos encantava,
Mas em seu peito, a arrogância, obscura, se guardava.
Certa noite, ao luar, em sombria encruzilhada,
Desprezou um pobre homem, alma desgarrada,
Um cigano, de olhos profundos como abismo,
Fez-lhe um gesto de dor, um eco de desatino.
“Que a beleza te abandone, que o espelho te traia,
No alvorecer, a verdade, como sombra, se insinua.”
As palavras voaram, como pássaros sinistros,
E ao romper do dia, revelaram-se os mistérios.
Na manhã seguinte, a jovem acordou,
O reflexo em seu espelho, um terror a brotou:
Um fúrunculo, grotesco, como sombra se espraiou,
Tomou metade de seu rosto, a beleza se esvaiu.
A luz que a cercava, agora escura e turva,
Seu coração, outrora leve, em tormento se curva.
Na solidão e no horror, seu espírito clama,
Em busca de redenção, para apagar a chaga.
Partiu pela cidade, em noites de pesadelo,
As vozes dos perdidos ecoavam em desvelo,
“Quem se esquece da dor, e em si a vaidade,
Encontra no espelho a mais amarga verdade...”
Os rostos, desmanchando,
Espelhos de sua pena
na culpa e na praga,
Penintência, punição,
Retorno, sangramento, lágrima, lição...
Dela, a feiura bradava, uma história tão plena.
Cada passo um desafio, cada esquina um lamento,
Na busca por perdão, encontrou seu tormento.
Até que no crepúsculo, ao som do vento frio,
Lá estava o cigano, de olhos cerrados como desafio.
“Por que vens, ó criatura, à sombra que te atenta?
Teu orgulho se despedaça, a beleza se lamenta.”
“Rede de desamores, a vida a tecer,
Só em humildade, menina, encontrarás o renascer.”
Com lágrimas nos olhos, ela implorou,
“Mostra-me o caminho, para o mal que eu causei.”
O cigano sorriu, sua alma é pura,
“Para quebrar a maldição, é preciso ternura.
A beleza verdadeira, não reside na face,
Mas no amor que se oferece, no ato que não desfalece.”
A jovem, arrependida, com passos trôpegos, seguiu,
Ajudando os abandonados, e em seu peito, um fio
De luz que renascia, em cada gesto gentil,
A dor foi se esvaindo, e a esperança, um perfil.
No reflexo, ao amanhecer claro,
Vi a beleza resgatar, o amor, o raro,
Aquele organismo estranho
O carrasco de tua virtude
A simbiose que lhe drenava
furúnculo, símbolo de sua jornada,
Desvanecia, e a jovem, enfim, estava curada.
Nas sombras e na luz, no amor e no espanto,
Aprendeu que a verdadeira beleza é o encanto
De um coração que, mesmo ferido e triste, renasce
Transfigura, enxerga, reconhece, se reconhece no espelho
Encontra na dor da tragédia da pele
A força que perdoa, aprende e persiste.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Ekatomb Quetzalcoatl
Uma criatura antropomórfica, corpo de águia e cabeça de serpente-dragão. Essa criatura possui uma mescla de escamas e penas, sempre…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Uma criatura antropomórfica, corpo de águia e cabeça de serpente-dragão. Essa criatura possui uma mescla de escamas e penas, sempre alternando entre as colorações anil-gelo, vermelho-sangue e laranja-dourado. Sua enorme mandíbula possui inúmeros e afiadíssimos dentes pequenos, uma serpente emplumada, um réptil voador, um construtor de fronteiras, o verdadeiro transgressor entre o céu e a terra.
Estava prostrada em uma praia, onde a areia bioluminescente de cristais dourados e prateados inundava toda a extensão de terra. A água, os mares e as ondas estavam infestados de incontáveis seres que pulsavam uma bioluminescência safírica, também em grande número, águas-vivas e vaga-lumes d’água, pulsando uma cerúlea-esmeraldina luz brilhante.
Neste cenário, essa entidade, posta sobre suas duas patas, admirava o horizonte, as sagradas ondas do mar, que eram seu portal para viajar entre eras e dimensões.
Ali, na península de Yucatán, naquela praia, reside a Pirâmide de Kukulcán, vosso lar da criatura. Seu prisma marca os céus com um feixe vertical de uma sagrada luz dourada que rasga as estrelas. "Eu sou Gucmatz!" ruge a criatura, e as ondas são pulverizadas...
O sol de coloração azul-safira pulsa e se expande no horizonte, engolindo tudo com sua glória ao seu nascimento vertical, banhando Gucmatz em seu esplendor.
Havia ali, submersa no mar, uma esplendorosa e titânica árvore com um brilho esmeralda tão intenso que cegava os panteões.
Até os cosmos mais longínquos. Esta árvore emanava vida, um eco estrondoso de brilho, caos e pureza, a verdadeira voz da criação, das concepções etéricas da vida, com um vasto ardor e uma fumaça esverdeada por toda a península.
Um portal se abre dentro de uma folha pendurada em um dos galhos da árvore. Cada galho, cada folha, é uma dimensão, uma realidade, uma era. A criatura deseja ir a cada uma delas quando cocriará um novo apocalipse: um início, uma regressão, uma purificação, a verdadeira Revelação. A criatura expande as asas, e todos os seus penachos se alongam. Ela serpenteia pela fechadura, uma fenda interestelar que adentra, caminhando lentamente, flutuando e mergulhando naquele instante ecoante, como uma fumaça espiritual que transcende do etérico para a densificação da carne. Ela adentra uma dimensão, uma era onde um escolhido será o receptáculo da mensagem do crepúsculo dos deuses e de vossos destinos fatais.
Entidade Mater da Cromodinâmica Quântica.
Buscai o receptáculo da Liberdade Assintótica.
"...A teoria das cordas é uma estrutura teórica na qual as partículas pontuais da física de partículas são substituídas por objetos unidimensionais chamados cordas. A teoria das cordas descreve como essas cordas se propagam pelo espaço e interagem umas com as outras. Em escalas de distância maiores que a escala da corda, uma corda se parece com uma partícula comum, com sua massa, carga e outras propriedades determinadas pelo estado vibracional da corda. Na teoria das cordas, um dos muitos estados vibracionais da corda corresponde ao gráviton, uma partícula quântica que carrega a força gravitacional. Portanto, a teoria das cordas é uma teoria da gravidade quântica..."
Por 11 dimensões ela vaga...
Em todas elas existe um início e um exílio.
O milagre orgânico da manifestação e o colapso da degradação existencial material da desconstrução de tudo que existe.
De tudo que É, de tudo que pulsa átomos até a desmaterialização, ao ponto de desdobramento aos outros planos e incontáveis camadas de questionamento e identidade. Até onde este devoramento do apocalipse alcança? No processo da espuma quântica, vista como uma conexão entre duas D-branas, onde as bocas estão ligadas às branas e são conectadas por um tubo de fluxo, na pintura da Teoria-M, determina-se que a matéria é formada por membranas e que o universo flui através de 11 dimensões: o tempo, a altura, a largura, o comprimento e mais sete dimensões “recurvadas”, com outras propriedades.
Gucmatz se alimenta de buracos brancos e os expele, vagando pelo multiverso de eventos, a criadora e a devoradora.
A antítese da vida, da anti-matéria prima, a condutora da Revelação. Ela chega ao Planeta Terra em três períodos diferentes da história para ocultar sua missão e transgredir as lições suprimidas pelo egocentrismo pífio da humanidade.
Em sua biodeslocação atemporal, ela auxilia a evolução e a revelação, sempre em busca de transmutação e cura da loucura.
Nos tempos atuais, ela se transmuta em uma máscara pagã de madeira, e aquele que a possuir encontrará sua Revelação interna: ou sucumbirá, ou será o senhor de seu novo admirável mundo.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Autômato Anômalo
O ano é 2665. A metrópole Escarlate, situada no coração do mar Ártico, é sustentada por enormes reatores e tubulações que criam uma verdadeira…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O ano é 2665.
A metrópole Escarlate, situada no coração do mar Ártico, é sustentada por enormes reatores e tubulações que criam uma verdadeira fortaleza de titânio que alcança as nuvens e as estrelas.
O governo autoritário não permite animais, nem de estimação, nem para consumo. Também não é permitida nenhum tipo de criação literária ou musical. A cidade está sempre sob vigilância para que nenhum tipo de melodia seja reproduzida. Ela vive sob um domo de vidro enorme, assim como outras diversas cidades deste devastado mundo protegido por cúpulas, pois, fora delas, reside um selvagem deserto fervente e predatório durante o dia, que, à noite, torna-se um inferno congelante mortal.
Escarlate mantém-se abastecida por geradores ultramodernos, ligados por intermináveis cabos, tubos e conexões, além de incontáveis usinas hidrelétricas conectadas aos rios subterrâneos da cidade. A única forma de se deslocar para fora é por labirínticos túneis intermináveis que levam ao mundo exterior, caso se consiga sobreviver até encontrar a saída. Esses túneis abrigam criaturas grotescas, enormes vermes deformados e sedentos de sangue, entre outras ameaças. A superfície da cidade é inteiramente feita de titânio e concreto, está sempre chovendo, e o cenário é inteiramente cinzento e avermelhado, com um vermelho forte, como se a metrópole estivesse constantemente sangrando, iluminada por incontáveis luzes de neon de um vermelho-sangue.
A cidade é dividida em três partes: o subterrâneo da morte, o miolo e o topo.
A capital, situada no centro e chamada “Ruber”, fornece à elite todos os recursos necessários para a vida de luxo que os magnatas controlam com mão de ferro, sob constantes ameaças, medos, trabalho exploratório e a profunda exploração da mente e da racionalidade humana.
Devido a tais explorações, ao extremo estresse, à negligência médica e à violação da dignidade humana, os moradores de Ruber começaram a desenvolver uma espécie de doença em seus corpos.
Os cientistas da elite analisaram casos isolados e constataram que tal mutação ocorria devido a uma anomalia nas células dos indivíduos que apresentavam sintomas extremos de medo, tristeza, raiva e frustração. Em casos mais graves de tragédia ou traumas, as pessoas iam a óbito em poucos dias. Essa praga ficou conhecida como o Câncer Escarlate.
Medidas médicas não continuavam sendo tomadas, e a doença evoluía conforme a tecnologia também evoluía.
A elite desenvolveu humanoides autômatos para analisar, caçar e eliminar qualquer cidadão que fosse detectado com essa doença. Esse programa foi batizado por eles de
“A Purificação Escarlate”.
Logo, as ruas, avenidas e esquinas de toda a metrópole estavam sendo patrulhadas por inúmeros autômatos.
O que a elite não imaginava é que a doença se desenvolvesse ainda mais, criando mutações e transformações cada vez mais grotescas nas pessoas, tornando praticamente impossível esconder os sintomas da fiscalização robótica. A aparência das pessoas sofria mutações de acordo com a intensidade de seus sentimentos. Logo, todas as pessoas estavam assim; inclusive, os bebês já nasciam com deformidades, e todos, sem exceção, não se reconheciam mais. Todos se enxergavam deformados, com alguma anomalia na aparência e, principalmente, no interior. As poucas árvores e flores que coexistiam na metrópole também sofriam alterações genéticas, muitas tornando-se agressivas, predatórias e venenosas — criaturas sem vida ou beleza.
As pessoas começaram a aceitar suas condições e a compreender que essa maligna condição jamais alcançaria cura ou paz, e que a elite não permitiria exterminar todo o seu povo. Ou seriam eles capazes de tal extermínio?
Crianças com rostos queimados, sorrisos deformados, olhos com bolhas constantes, nódulos, entre outros...
Há formação constante de bolhas sob a pele quando ocorre infecção causada por bactérias em um ou mais folículos pilosos.
Os furúnculos começam como nódulos vermelhos e sensíveis. Eles se enchem de pus, crescem, se rompem e drenam. Um carbúnculo é um agrupamento de furúnculos.
Compressas quentes podem ajudar o furúnculo a amadurecer e drenar. Algumas pessoas se reuniam em centros na tentativa de tratamento, unindo-se, mas geralmente era em vão, pois todos eram contaminados, e a higiene raramente estava adequada para se viver.
Furúnculos grandes e carbúnculos precisavam de atendimento médico, que jamais ocorria, pois não havia o suficiente para toda a população.
Enquanto a elite mantinha sua aparência jovial, saudável, completamente imune e blindada, apenas observava o circo de horrores que acontecia. Devido a tal egoísmo, desprezo e verdadeiro abandono das condições de vida, nada mudava.
Quando a situação já parecia insustentável, mais um grave evento ocorreu: as máquinas também começaram a apresentar sintomas anômalos, como fungos crescendo em suas carcaças e raízes no lugar dos implantes de metal, entre outras variações.
Um dos cientistas de Ruber, chamado Dr. Kafra, um protótipo de autômato, descobriu, ao hackear sua própria memória, algumas informações comprometedoras que poderiam sentenciar sua vida e a de sua família.
Kafra descobriu que novos experimentos estavam sendo desenvolvidos nos laboratórios da elite e que algumas pessoas estavam respondendo à radiação desses experimentos. Estavam tornando-se insetos enormes, e muitas desenvolveram também uma intensa lepra, além de esquizofrenia e alucinações constantes, e membros amputados. Na verdade, o novo “Projeto Purificação”, que inicialmente seria para deslocar os casos mais graves para uma ala isolada, era, na realidade, uma expiação para isolar aqueles mais propensos a ameaçar esses testes e comprometer a saúde dos envolvidos... Nesse momento, um alarme disparou no circuito cerebral do autômato que reproduzia esses arquivos para Kafra, enviando um sinal para a central da elite, chamada “Matrix Hall”, e se autodestruindo alguns segundos depois.
Kafra imediatamente entrou em pânico.
Ele se virou, vendo seu reflexo deformado em um móvel de alumínio corroído, assim como seu corpo, seu semblante, seu pescoço — uma monstruosidade — e, mesmo assim, seus olhos se encheram de lágrimas.
Seu filho, Liam, de dezessete anos, o chamou.
O rapaz era pintor e sempre escondera suas pinturas do sistema.
Incontáveis quadros, criados a partir de misturas que ele encontrava nas sucatas e contrabandeando peças para conseguir tintas suficientes para seus trabalhos, refletiam a realidade da vida monstruosa que levavam.
Naquele instante, bateram à porta de metal da cápsula onde moravam.
“Abram imediatamente esta cápsula. Aqui quem fala é a guarda autômata a serviço da elite Matriz...”
Mais alguns segundos se passaram, e Kafra tentou explicar a Liam que ele precisava fugir... Liam ficou confuso, sem entender nada, e questionou. Mas Kafra, transtornado e transpirando frio, disse que não havia tempo e que ele precisava fugir imediatamente.
“Como vou deixar você e mamãe, papai?”
“Abra! Imediatamente...”
A esposa de Kafra e mãe de Liam abriu a cápsula.
“Não, Matra...”
“Do que se trata, oficiais?”
“Senhora, recebemos uma denúncia anônima de que seu filho está criando arte proibida pela lei do Estado, e devemos confiscar e levar ele e seu marido à custódia marcial.”
“Isso é um absurdo!” ela retrucou.
“O absurdo faz parte de nossa agenda, minha senhora.”
“NÃO!” Kafra gritou.
“Eu sei que não é por isso que estão aqui...”
Os olhos metálicos, mortais, vermelhos dos autômatos imediatamente se voltaram para Kafra.
Um dos autômatos apontou uma pistola elétrica para a esposa de Kafra e disparou bem no meio de seu peito, estourando e lavando todo o recinto com sangue, jogando-a contra a parede no mesmo instante.
Liam observou aquilo horrorizado.
“Mamãe...”
“CORRE, LIAM, FUJA!” gritou Kafra, seu pai, antes de também receber um tiro pelas costas, que atravessou seu peito, cuspindo sangue...
O garoto pulou pela janela, subiu em sua motocicleta flutuante e disparou em direção ao subterrâneo da cidade, em busca da única fuga possível daquele inferno...
Quando adentrou os esgotos subterrâneos da metrópole, parou por um momento para descansar. Olhou-se no reflexo daquela água imunda, toda aquela podridão. O garoto possuía cabelos loiros curtos, e metade de seu rosto era deformado, com veias enormes; um de seus braços era uma grotesca garra, que inchava quando ele ficava nervoso, causando-lhe uma dor descomunal. Além disso, ele sempre tinha alucinações quase todas as noites...
Será que Liam conseguiria escapar?
Liam vestia uma calça preta de borracha, botas de couro e um colete. Seu peito estava nu, exposto devido às variações de seu corpo, que sempre rasgavam as camisetas quando seu braço inchava, assim como seu coração...
Dentro do bolso da calça, ele encontrou uma carta de seu pai, que dizia:
“Liam, se está lendo isto, seu pai e sua mãe foram mais uma das vítimas de nossa sociedade. Fuja. Siga para Necropolis; lá existe um indígena capaz de ajudar. Ele foi um grande amigo de seu pai. Eles sofrem como nós, filho. Lá, toda a população se transformou em escravos esqueléticos, controlados pelo necromante líder, devorador de carne humana. Encontre meu amigo, e ele o auxiliará. Pergunte a ele sobre a relíquia encontrada no fundo do oceano Ártico e a chave encontrada nos confins da pirâmide subterrânea de gelo. Elas são a conexão para impedir que o governo Matriz continue sem sofrer com os próprios sentimentos. Essas duas substâncias precisam ser destruídas. O autômato que hackeei continha essas informações. Ele pode ajudá-lo. Adeus, filho. Boa sorte.” — Kafra
Através de uma janela subterrânea, Liam observava uma árvore apodrecida tentando sobreviver, com uma única folha no galho...
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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O Mímico da Insanidade
O escritor Ivan Insanlini vivia uma insalubridade mental desde o instante em que sua esposa partira de casa. Foram casados por quase duas décadas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O escritor Ivan Insanlini vivia uma insalubridade mental desde o instante em que sua esposa partira de casa. Foram casados por quase duas décadas, e no último Natal ele descobrira que sua amada estava se relacionando com o chefe dela. Aquela interminável noite venenosa o moldou de uma forma jamais recuperável. Ivan se observava no espelho de seu quarto: um semblante cansado, olheiras profundas, o cabelo castanho oleoso, roupas desgastadas e uma memória crua e suja escorrendo pelo reflexo de sua instabilidade emocional, enquanto tudo aquilo se desenhava no vidro manchado pelo sangue das lembranças. Recordava o momento em que caminhou até a casa do suposto amante de sua esposa e a avistou da calçada. As luzes do quarto se acenderam, e sua esposa apareceu nua na janela. Aquilo o destroçou.
Ele o viu prensando os seios de sua esposa no suor quente do vidro moldando a definição perfeita do seu busto que ele amava. Sentiu uma tontura absurda e, então, tudo se tornou embaçado; sua visão se afunilou, e ele se recordou de arrebentar a porta da casa, adentrando como uma chama infernal pela escada acima. Arrombando a porta do quarto, entre os gritos histéricos dela, viu o imprestável chefe dela, um senhor de idade, magrelo, vestindo uma samba-canção de corações rosa. O olhar insano do escritor gritava horrorizado, sem parar, até suas pupilas dilatarem. Sentindo-se freneticamente tomado por algo entre um infarto e uma convulsão, virou as costas e foi embora, quebrando tudo em seu caminho.
Semanas depois, presenciou-a forçando as roupas em uma mala apertada e batendo a porta do quarto com violência. Agora, sozinho naquele apartamento obscuro, ele não consegue mais dormir, escrever ou se alimentar direito.
Na quietude daquela sala profunda e desesperadora, clamava por socorro...
Em meio à bruma noturna, ele está parado. Seu rosto, similar ao de um cadáver, exibe um sorriso congelado como o do escritor: uma existência febril e doente.
Uma protuberância no ócio da ferida do ódio. Mórbido sentir.
Silenciosamente artístico, o fúnebre olhar de uma vida vazia e profunda.
Todas as noites, antes de dormir, e, quando conseguia, despertava nas madrugadas com aquela entidade disfarçada de mímico o encarando incansavelmente.
O escritor se levantava e, no reflexo do espelho do banheiro, ele estava lá.
No escuro do quarto, quando ele acendia a luz, ele estava lá.
Quando ia para a cozinha, atrás da porta, ao acender o fogão, lá ele estava: no reflexo do celular, na entrada de casa, no brilho das panelas, embaixo da cama. Seu olhar ocre surgia pela parede, surdo, mudo, feliz, sorrindo, chorando, alegre, histérico, sempre fitando o escritor. Certa vez, o escritor percebeu que enxergava o mímico até nas palavras que escrevia. No reflexo da tela do computador e da antiga máquina de escrever que possuía em sua sala, via sangue escorrendo. A banheira também escorria sangue. Suas roupas estavam sujas de sangue. Seu rosto estava pintado de branco, com a tinta escorrendo, manchando os olhos, mesclando a tinta preta com a pele esbranquiçada, enquanto o vermelho pingava sobre a folha, escorrendo de seus olhos e de seu peito.
Ele sucumbiu ao chão, chorando, esbofeteando-se, puxando o próprio cabelo, horrorizado ao olhar novamente no espelho. E seu maior medo se materializou: ele enxergava a si mesmo como o mímico. Correu até seu quarto e viu-se dormindo, enquanto o mímico emergia de dentro de seu próprio corpo. O que estava de pé saiu do observador, enquanto o observado permanecia deitado, com os olhos frenéticos se remexendo. Então, o mímico rasgou o peito do escritor que estava na porta, colocando as duas pernas para fora, apoiando-se para encontrar a saída das entranhas mortas daquela pobre casca. Sorria maliciosamente, com dentes pontiagudos se formando em sua enorme mandíbula. Aproximando-se da cama, que começava a tremer com fumaça saindo debaixo dela, o corpo deitado se debatia. O mímico se aproximou e mordeu o peito, arrancando-lhe o coração e, em seguida, devorando-lhe o rosto...
O escritor acorda transpirando horrores, mas não consegue gritar. Ele tenta abrir a boca e percebe que está colada. Rapidamente se levanta e corre até o banheiro. No caminho, escorrega em algo no chão e cai de joelhos. Ao passar a mão, percebe que havia escorregado em sangue. Acende a luz e se depara com um enorme rastro de sangue que se estendia até sua banheira. Horrorizado, olha primeiro no espelho e se vê com o rosto pintado de branco, um preto forte ao redor dos olhos e a boca costurada com uma linha vermelha inquebrável. Seus olhos lacrimejam. "Urgh, urgh", ele tenta gritar, sem sucesso.
Seu roupão preto estava pendurado no lugar da toalha, e ao lado dele, um suspensório preto e uma camisa branca lisa, ensopada de sangue...
Ele se aproxima de seu box fechado do banheiro, ele enxerga sua máquina de escrever ali dentro com muitas moscas ao redor, voando. Ao abrir bem devagar o vidro temperado escuro da cabine da ducha, um odor absurdo lhe embrulha o estômago. No exato momento quando, próximo do ralo, embaixo do chuveiro, ele vê algo terrível, ele regurgita no mesmo instante em que observa, em cima de sua máquina de escrever, a cabeça de sua esposa apodrecendo com vermes saindo dos olhos e muitas moscas de seus ouvidos. Sua "amada" também tinha parte do comprido cabelo preto raspado, o rosto coberto por uma maquiagem branca e enormes esferas escuras no lugar onde costumavam estar os olhos. Seus lábios estavam costurados.
O escritor nunca mais foi visto, mas as autoridades dizem que todos os que tentaram destruir sua máquina de escrever foram mortos após a tentativa, enquanto outros enlouqueceram, alegando ver um mímico parado atrás da máquina, sorrindo com sangue e acenando com o dedo indicador para que não tocassem nela. Havia uma folha em branco na máquina, escrita com tinta e com algumas partes manchadas de sangue, em letras de forma. Não se sabe com o que foi escrito, se com caneta ou algum outro meio...
“Eu fui o ‘pantomimeiro’ da minha sombra, minha persona emulava, gesticulando como um bailarino sangrando, um escultor do exílio, um estripador de palavras, um silenciador oculto da poética dos psicomotores, a eletricidade do tônus, a motricidade ampla em uma fugaz tentativa temporal de um terror atemporal. A lateralidade, a sematologia existencial, uma simbiose niilista e esquizofrênica do caos, enquanto me tornava uma estátua da minha vida e da nossa relação fria e silenciosa. Tu te afastavas e te distanciavas de mim, e eu percebi que minha vida estava se apagando. Viver sem teu amor, ou sabendo o que fizeste, matando minha sanidade, fez-me perceber que mergulhei na insanidade do meu viver. A definição do amor é a insanidade desta pintura visceral…”
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…