Diário de Áurea Lihran — Trecho nº1
Elas se calaram… as vozes do meu abismo. E agora perduro em Selenoor como quem a ela pertence, uma rainha índigo de sangue e solidão…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Elas se calaram… as vozes do meu abismo. E agora perduro em Selenoor como quem a ela pertence, uma rainha índigo de sangue e solidão. Em uma profunda tristura, vejo-me irreconhecível em meu âmago, perdida no esquecimento. Vejo Rosaemoris congeladas no tempo, aguardam-me em uma paciência serena. Ouço corvos brancos próximos, nos céus de tom azul-marinho, eles crocitam minha angústia. Eles são como o triste piano em meu peito, o agouro da minha condição.
Mesmo sem lembrar do que vivi, a saudade é a lágrima que verte em um carmesim profundo, dos meus olhos aos meus lábios. “Selenoor é esta lua lúgubre que vês, doce vestal, ela te irriga como planta rara; ouça-a azulescida em teu peito…” — Cantara Lahgura até desaparecer como miragem. Como é sê-la? Poderosa, mágica… quem é Lahgura? Quem sou? Esta anil atmosfera enternece-me… é sopro de melancolia e temo que redigir essa abíssica verdade, leva-me ainda mais em sua silente imersão hostil.
Alguém bate à porta, suave como mãos femininas… creio ser uma visitante disposta a me salvar do meu azúleo afogamento interior.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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O Memórum de Olga Nivïttz: Masqarilla
— Por que tão irreconhecível, caríssima Olga? — Dissera Drácula, tomando seu liquor-carmesim. Sorri ao ouvi-lo, sempre me agradava a sua presença…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
— Por que tão irreconhecível, caríssima Olga? — Dissera Drácula, tomando seu liquor-carmesim. Sorri ao ouvi-lo, sempre me agradava a sua presença, entretanto a máscara dourada e ornamentada impedia-o de saber de minhas expressões faciais. Meu longo vestido escarlate em veludo, possuía um fardo pouco hostil, com detalhes em cetim e renda negra. Era de beleza estonteante, melancólico como quem o vestia.
— Prefiro a discrição, meu querido. — Respondi-lhe com voz suave, aproximando-me dele enquanto observava-me no espelho do aposento, magnífico espelho com adornos em voluta.
— Hum… deixas o fardo de anfitrião em meu dorso para que possas usufruir do anonimato. — Proferiu com suave escárnio. Toquei-lhe a face, sutilmente.
— És um sui generis anfitrião, amável Conde. Sabes que quanto mais pessoas souberem quem sou, mais risco há de vir sobre este alcácer atemporal. — Relembrei. Drácula apenas assentiu. Meu lar vincula-se a mim; minha dor é sua dor, tanto quanto meu prazer e meu pensar; o fim da minha existência sucumbiria cada torre que fora aqui, um dia, erguida; a cruz da consciência pelos que residem n’este imo, no antro de sangue vivo e scripta manent, não é apenas um adorno. Espíritos e corpos, criaturas e entidades; sob minha proteção, pelo meu Castelo. Embora, em sua ironia e humor característicos, Drácula impulsione em verbo a verdade de seu encargo de Anfitrião, ele sabe que sem tal ventura sob si — e sem a minha solidão por cautela e dever, os males que podem emergir externo ao meu controle serão, decerto, fatais a todos e, em especial, a ele.
Entretanto tais pensares não afloraram em meu ser naquele instante. Ver-me o reflexo tão gracioso em ouro e veludo escarlate, trouxe-me uma sutil languidez advinda d’outros males. Ouvia ao fundo a valsa do salão e os risos longínquo dos tantos convivas. Vi, quebrantando minha distração emocional, Drácula levantar-se, aproximando-se de mim; o espelho de Sirenniha era o único capaz de refleti-lo. Atrás de mim, envolveu-me com seus braços e pôs em meu pescoço um belíssimo colar.
— Para que, mesmo irreconhecível, sejas a mais bela d’este fabuloso evento. — Sussurrara acariciando-me os ombros. Toquei o colar.
— Fascinante… do que é feito? — Indaguei encantada pelo lume dourado profundo, quase enegrecido e envelhecido, daquela joia rara.
— Chamo de nithiurium. Há de sedar as tuas angústias pelo período que usá-lo; reluz em dourado arcano, pois há um sigilo em seu fecho. É o mesmo sigilo que há de prensar sutilmente o teu pescoço, se assim desejares. — Toquei o fermoir, senti a energia de Pherhesí.
— Como tu poderás salvar-me da morte por asfixia? — Drácula sorriu.
— Tomei as necessárias precauções, minha Dama. — Olhou-me, então, somente como teus olhos o poderiam fazer. — Teu fascínio pela dor não alcançará a capacidade suave d’este pequeno artefato. A lapidação e seu poder estão na medida para o teu prazer, não para tua morte.
Toquei a face de Drácula, acariciando-o em agradecimento.
— Permita-me… — Disse, beijando-me o dorso de minha mão esquerda. — Uma primeira dança. — Assenti, reverenciando-o. Iniciamos os movimentos calmos e sincronizados. Sem palavras a pronunciar, pois, não era preciso. Drácula sempre fora meu confidente, sabendo minhas dores e amores, meus pecados mais sombrios; a cor viva de meu sangue amaldiçoado. No fim da dança, beijou-me a fronte e, depois, meus lábios — sobre a máscara que cobria toda a face. Ergueu-me sua taça vazia, indicando que buscaria mais liquor para sua bel fascinação. Dei-lhe adeus e o vi sair pelos umbrais. Tal como pressenti e intui ao dar-lhe minha seiva de vida, Drácula, quando próximo, é uma companhia intrigante e agradável, capaz de quebrantar minha catatônica introspecção, permitindo clareiras abrirem-se sobre a densa floresta que me sou, todavia, sob familiar circundante solitude, segui para meu destino: o salão da Masqarilla.
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Capítulo 4: Da selva de pedras e espectros do passado
Tinha o costume de escrever essas palavras em alguma superfície e, provavelmente, as eternizei na parede do banheiro daquele Pub que já mencionei…
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4º relato
“Nascida na selva de pedra,
poluição e concreto, vis companhias,
na prisão onde a alma se quebra,
vivo e morro em rígidas galerias.”
Tinha o costume de escrever essas palavras em alguma superfície e, provavelmente, as eternizei na parede do banheiro daquele Pub que já mencionei, o local que era a extensão do que eu sentia, vivia. Era uma criatura da cidade, nasci em meio à cacofonia de ruas lotadas de pessoas que se embarravam, e não se conheciam. Era mais uma na multidão, minhas questões só importavam para mim. Grandes poetas exaltavam a natureza, por suas belezas e capacidade de recomeçar, respeitando os ciclos e estações — em contraste com a nossa existência caótica e perturbada. Não ouso dizer que eles não tiveram suas dificuldades, mas para mim é extremamente difícil falar sobre essas belezas e sobre os sentimentos bonitinhos. Eu somente salvo a mim quando mergulho nas águas turvas e inóspitas das palavras brutas e sentimentos controversos.
A atmosfera lúgubre do Castelo aflora esses sentimentos, mas não estou infeliz. Sinto-me cada vez mais impulsionada a criar. As palavras escorrem das minhas mãos e encontram abrigo no papel límpido, agora desvirtuado pela tinta magenta ou negra. Na tela, fenômenos semelhantes ocorrem, e as pinceladas dançam na superfície como se fossemos a completude um do outro.
Após horas de criações, muitas das quais foram descartadas, pois estou cada vez mais exigente — o tempo me é amigo, e eu posso me dar ao luxo de recriar sem me preocupar com prazos ou com pagamentos batendo à porta.
***
Não sei precisar se estava acordada ou dormindo, mas sentia-me num estado de semiconsciência, como se houvesse ingerido alguma substância alucinógena (O que será que Ameritt colocou naquele chá que trouxera para mim?), mas percebi estar a contemplar a minha última obra: era o infinito, o fundo negro com degradê de tons diferentes do negro mais brilhante que já pude ver em uma tinta. As estrelas brilhavam, causando impressão de estarem se mexendo e pulsando no ritmo das batidas do meu coração. As luzes-estrelas se aproximavam e cresciam de tamanho, estavam em velocidades distintas, cada uma seguindo o ritmo autoimposto.
Não conseguia parar de fitar aqueles belos pontos brancos brilhantes. Minha visão não ficou totalmente enuviada, mas ao passar os olhos por cada uma delas sentia um leve desconforto, semelhante ao que se sente em uma montanha russa: um incômodo que você não recusa, pois diverte, e aceita todas as vezes que lhe oferecem.
Fiquei naquela posição por um tempo que não soube determinar. As luzes perfuraram o limiar infinito-tela e romperam a barreira da realidade: as luzes projetaram-se para fora, como hologramas e tornaram-se espectros das pessoas do meu passado, justamente aquelas que não queria encontrar novamente. Gritei. Virei-me para sair do quarto, não podia permanecer naquele local com aqueles execráveis.
— Siga-me — disse Meia-noite.
— Você novamente... então estou sonhando?
— Vamos!
Eu o acompanhei, não me importava para onde ele iria me levar dessa vez, mas qualquer lugar seria menos aterrorizante do que permanecer ali, com eles.
Corríamos por caminhos e corredores, novamente, nunca percorridos anteriormente por mim. Os corredores eram iluminados por luzes violetas, cujo reflexos nas paredes pareciam recriar seres etéreos, ora divinos, ora fantasmagóricos. Será que novamente eu seria obrigada a entrar naquela banheira?
Parei. Exigi que Meia-noite me dissesse para onde iríamos.
— Não, eu não a levarei novamente para a banheira. Mas você precisa enfrentar seus demônios, senão ficará sendo constantemente assombrada por eles.
— Não há alguma forma de esquecer tudo isso? Eu não aguento mais!
— Há uma forma, mas você estará disposta a entregar-se?
— Eu não sei, depende do que me será exigido...
— Você irá descobrir...
Um frio gélido lambeu minha espinha. Meia-noite esboçou um sorriso enigmático, mas que me assombrou. Continuamos seguindo um destino incerto para mim, mas agora andávamos calmamente. Aos poucos as luzes do ambiente foram transmutando-se de violeta para leves tons de escarlate. Ouvia sussurros entrecortados e sôfregos concediam ao local aspecto dantesco.
Chegamos a um salão amplo. Os lustres transbordavam luzes vermelhas. Havia estantes recheadas de livros clássicos, com capas vermelhas, verdes e azuis belíssimas e estilizadas com letras douradas, que reluziam como se feitas de ouro (e provavelmente eram, pois o luxo não era problema naquele Castelo). Os vastos móveis, mesas, armários e cristaleiras eram adornados de objetos metálicos de prata e ouro envelhecido, cujos reflexos enuviavam minha visão. As poltronas e cortinas eram de veludo vermelho, similar as que tinham no meu quarto. Enquanto observava maravilhada cada detalhe, nos móveis, teto e paredes, percebi que ao fundo havia quatro portas, e Meia-noite, antevendo a minha pergunta, começou a proferir:
— Atrás de cada porta haverá um acontecimento de sua vida, uma violência que foi causada por um daqueles que estiveram em seu quarto. Você poderá interferir, poderá eliminá-lo da forma que quiser. Mas saiba que qualquer alteração do seu passado irá reverberar no presente: Novas versões suas serão criadas. A sua versão atual será a principal e continuará aqui no Castelo, em segurança, mas não terá consciência das outras, elas também não saberão sobre você. Elas terão novos destinos, outras pessoas irão cruzar os caminhos delas. Elas poderão passar por situações muito piores que as suas, mas você irá se livrar das suas dores, pois todas as memórias tristes que envolviam o eliminado serão apagadas, como se nunca tivessem ocorrido.
— Todas?
— Sim, todas. Mas as suas outras versões poderão continuar o tormento...
Eu nunca me considerei uma pessoa altruísta. Não fazia trabalho voluntário ou doações, não porque não considerava importante, mas porque gastava meu tempo tentando sobreviver na selva de pedras e, sendo sincera, não queria me esforçar para deixar os outros bem. Mas eu nunca fiz o mal para os outros de forma deliberada. A ideia de condenar outra pessoa — ainda que versões de mim — à uma vida miserável me incomodou extremamente.
Quando virei para falar para Meia-noite que iria recusar a tal proposta, deparei-me com uma figura enigmática. Esse Castelo ainda me deixará entregue à loucura!
Permaneci inerte enquanto fitava-o, e ele retribuía minha hesitação com um olhar cortante. Era alto, belo e trazia sobre os ombros uma capa negra com finos entalhes dourados, conferindo-lhe um ar altivo. Alguém que já havia encontrado anteriormente.
— Drácula? — Perguntei com voz quase inaudível.
— Sim... Fiquei intrigado com a vossa escolha. Faz eras que não cruzo o caminho de um mortal cujo coração, embora puro, pulsa dissabores e destila amargura.
— Eu não tenho o coração puro...
— Quero lhe mostrar algo... — disse ele, com o olhar sombrio e hipnotizante, enquanto apontava para uma estreita passagem entre as estantes, onde antes havia quatro portas, agora desaparecidas.
— Eu não sei se quero entrar...
— Compreendo... Passastes por experiências incompreensíveis neste Castelo, e é natural que as descobertas lhe causem inquietações. Deves adentrar a passagem por tua própria vontade. Aguardarei a tua vinda... Venha quando estiveres preparada.
E, sem aguardar minha resposta, envolveu o rosto com a longa capa e desvaneceu no ar, como se atravessasse um portal oculto para as sombras.
Quais descobertas me aguardam através da passagem? O que Drácula reserva para mim? Espero em breve descobrir.
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Baile de Máscaras
Sob o arco dourado do salão brilhante, | desliza a vida em passos intrigantes. | Um baile onde máscaras não revelam a verdade, | trocando sorrisos por…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Sob o arco dourado do salão brilhante,
desliza a vida em passos intrigantes.
Um baile onde máscaras não revelam a verdade,
trocando sorrisos por vãs efemeridades.
Os lustres pendem como estrelas à espreita,
clareiam espectros, a cena é perfeita.
Rostos de plástico, esculpidos em dor,
olhos que choram o que fingem ser amor.
Cada giro no chão polido e vazio,
desafia o compasso de um tempo sombrio.
Nesse baile, numa roda incessante,
dançam memórias que soam distantes.
Os violinos gemem notas como um pranto,
um coro feito de sombras se eleva num encanto.
Os pares deslizam, frágeis, quase febris,
cada qual preso a sonhos que são infantis.
Longos vestidos arrastam fantasmas antigos,
pisando em lembranças, relembrando castigos.
O salão se enche de dores trazidas pelo vento,
cada passo dos pares ecoa como um novo lamento.
No canto mais frio do salão, sem brilho ou candura,
há olhos sem máscaras que estão cheio de amargura.
Eles observam calados o mundo que está a girar,
sabendo que um dia o baile irá terminar.
Pois a vida, em sua essência, é uma dança perdida,
um jogo de erros até a inevitável despedida.
E quando a música, enfim, silenciar,
as máscaras irão cair, será a hora de parar.
Então ficaremos no salão desfeito e escuro,
rodeados por sombras, no destino obscuro.
O baile se finda, e a ilusão se consome,
e a escuridão nos devolve o próprio nome.
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Vale verdejante
Aquele inverno estava rigoroso. O ar gélido açoitava, sem escrúpulos, a face dos transeuntes e endurecia os seus corações, já embrutecidos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Aquele inverno estava rigoroso. O ar gélido açoitava, sem escrúpulos, a face dos transeuntes e endurecia os seus corações, já embrutecidos, pelas dificuldades de uma rotina enclausurante. As vegetações quase jaziam, sem viço, e exibiam uma fina camada esbranquiçada, causada pelas constantes nevascas, nada comuns para aquela região.
Os animais também eram prejudicados e sofriam as consequências da escassez de alimentos. Doenças. Mortes. As carcaças dos pobres animais eram amontoadas em uma pira, não por ritual, mas por necessidade, e o cheiro dos pelos e carnes, enquanto eram incinerados, – com o intuito de conter as mazelas que emanavam de seus cadáveres, – causavam ânsias e amarguras. Ledo engano. As doenças logo reclamariam para si o direito – autoimposto – aos corpos dos moradores daquele local, primeiro das crianças e idosos, depois das mulheres e homens adultos.
A comunidade, outrora festiva e alegre, agora não tinha motivos para comemoração. O ânimo foi-se esvaindo, assim como a vida dos campos verdejantes, que emolduravam aquele belo lugar em tempos passados.
O vilarejo, batizado gentilmente de “Vale verdejante”, em referência clara às belezas naturais que possuía, agora era tomado por uma pesada aura inodora e insípida, reflexo do que agora aqueles pobres coitados traziam dentro de si. O verde pulsante das folhas de outrora tornou-se incolor, sem vida.
E, como eram supersticiosos, ponderaram sobre os motivos de tais agressões, que segredos os deuses e entidades haviam descoberto que justificassem castigos tais? Como crentes em maldições e contra maldições, agarraram-se ainda mais à fé, e direcionavam suas rezas e sacrifícios para todos os deuses que estivessem dispostos a ouvi-los.
E ouviram.
Numa noite fria, que reafirmava que nada mudaria, e confabulavam se iriam falecer de inanição ou hipotermia, uma esfera luminosa atravessou os céus e cravou-se violentamente nas colinas ao redor, iluminando a noite tenebrosa como um farol esmeralda de esperança, há tempos perdida. Sim, a cor que caíra do céu era indescritível, mas na obrigação de classificar os eventos, a cor era semelhante ao verde. O verde, que tanto almejavam, vinha trazer-lhes o terror? Os reflexos de luzes verdes e suas variadas nuances, criavam um caleidoscópico hipnotizante, tragando-os para dentro do mosaico enigmático, penetrante. O impacto da esfera causou um leve tremor de terra e uma cratera recheada com os destroços do que quer que fosse aquele elemento. No centro da esfera, uma mancha verde brilhante pulsava, como se estivesse viva.
Apavorados. Inertes. Não desviam o olhar da cratera, esfera. Ela tinha um poder invisível sobre eles, tornando-os marionetes sem controle dos próprios corpos e ações. Contudo, do mesmo modo misterioso com que foram dominados, sentiram-se libertados de repente e conseguiram, enfim, discutir sobre o ocorrido.
– O que será isso?
– Será que é perigoso?!
– Mas de onde veio isso???
– Céus, o que é isso?
Questionam-se, obviamente, não obtendo uma resposta plausível. Após algum tempo de indagações retóricas, por fim, ouviram uma voz ecoando em suas mentes:
“Venho do nada. Do vazio. Antes da existência das galáxias, dos mundos e da vida. O nada, esse lugar incompreensível para você, é minha morada, meu abrigo. Eras e eras, bilhões e bilhões de anos separam meu existir e o surgimento de sua frágil raça. Mas você me invocou. Clamou por ajuda e eu vim para ser a sua única saída. Não temas.”
Sentiram uma paz preencher cada parte de seus corpos. Ninguém ousava dizer mais nada, mas sabiam, o socorro viera e eles seriam salvos. E foram. Nos dias seguintes o mau tempo deu trégua, o sol voltava a iluminar os olhos e corações, derretendo a geleira surgida dos escombros das dores e mortes. Os animais, que haviam conseguido subsistir, ficaram mais fortes, suas doenças foram extirpadas, como se arrancadas com a mão. O mesmo ocorreu com os enfermos que resistiram ao doce chamado da morte, – e ela, havia sido expulsa daquele lugar por tempo indeterminado. Mas a melhora mais nítida era com a vegetação: tornara-se verde brilhante e viva, mas de um tom tão intenso, quase fosforescente. E em certas noites afirmavam que as folhas irradiavam uma luz verde intensa, mas não ousavam questionar os milagres recebidos.
E permaneceram firmes naquele acordo mudo. Sem questionamentos.
As verduras, que cresceram após aquele evento, eram deliciosas, cada mordida emitia um som suave, como um sussurro apaixonado aos ouvidos. Logo as árvores também deram frutos, suculentos e inebriantes, nunca haviam provado nada igual. E no meio de tantas dádivas insistiam em não enxergar os efeitos colaterais daquele milagre: suas peles estavam ganhando tons de verde água, bem sutil, mas perceptível. Mas não ousavam reclamar.
Os pelos dos animais também estavam tornando-se verdes. E quando abatidos para consumo, suas carnes e sangue tinham uma coloração esverdeada. Mas não se podia negar que isso tornava a carne ainda mais saborosa. E consumiam as carnes, verduras, frutos – tudo o que provinha da terra – com tanto afinco, obsessão. Sem questionamentos.
A terra já não era mais marrom, mas verde oliva. E banhavam-se nas terras, conectando-se a ela. E estavam. Primeiro foram os membros, os dedos já são tinham a forma humana, mas era semelhante a cipós. Sem questionamentos.
Os braços e pernas foram metamorfoseados em troncos esverdeados. O sangue transmutara-se em uma seiva verde limão, os órgãos internos adaptaram-se perfeitamente ao novo homem-vegetal. A locomoção era cada vez mais restrita, arrastavam-se por cima da manta verde – outrora terra – e ficavam horas parados ao ar livre, em um ritual de fotossíntese macabra.
E novamente a voz submergira nas mentes, solicitando a presença de todos na cratera. E foram. Quando suas mãos-cipó tocaram a esfera, sentiram algo se mover dentro dela. Um vulto surgiu na superfície e sorriu. Era o próprio ser-verde, aprendendo, copiando, invadindo. O verde havia consumido tudo e todos. E continuaria crescendo, para sempre.
A comunidade desapareceu em um silêncio vegetal. Onde antes havia casas e pessoas, agora havia apenas um vasto vale verdejante, coberto de flores e árvores que brilhavam levemente à noite. Quem olhasse de longe veria algo belíssimo, mas quem se aproximasse demais ouviria os sussurros nos galhos, risadas engasgadas e palavras esquecidas ao vento, e jamais seria visto em forma humana novamente.
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O suntuoso baile das máscaras negras
O convite chegou sorrateiro. Cartão negro, emoldurado por pétalas banhadas a ouro, letras cursivas que pareciam dançar no papel, anunciando que…
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O convite chegou sorrateiro. Cartão negro, emoldurado por pétalas banhadas a ouro, letras cursivas que pareciam dançar no papel, anunciando que o baile seria o acontecimento mais importante de suas vidas. Não ousariam declinar. Quem enviou tal convite? Não importava. Como todos da alta sociedade foram convidados, o anfitrião certamente era um homem de estilo refinado. Presumiram ser um homem, somente um homem poderia ter e despender tanta fortuna em uma única noite.
Os preparativos foram imediatamente iniciados: os senhores com seus alfaiates; as senhoras com as estilistas, todos artistas renomados de seus tempos. Precisavam estar impecáveis, para eles não bastava ser rico, tinham que parecer ser milionários.
O grande dia chegou. Estavam cansados e ansiosos, pois o sono não havia encontrado morada em seus corpos. Noite em claro conferindo os pormenores, cada detalhe em seus trajes era crucial. Confirmação e reconfirmação de agendamento com os profissionais que ajustariam os cabelos, peles, unhas, os necromaquiadores — daquelas pessoas que andavam, respiravam, mas não viviam — deveriam ser perfeitos em suas tarefas. Aqueles nobres não aceitariam nenhum erro, nenhum deslize.
Chegaram pontualmente à mansão. Estavam a postos todos os membros da elite daquela cidade sem nome, enfileirados como pilastras adornando as portas do céu. Os portais abriram-se, revelando as belezas do local. Adentraram tal qual os pioneiros de uma terra virgem e fértil, cientes de que, se fosse preciso, a violariam para apaziguar seus prazeres mais profundos.
À recepção receberam máscaras suntuosas, negras e com os mesmos entalhes banhado a ouro, conferindo-lhes ares de seres etéreos.
O salão era grandioso, com um teto abobadado decorado por lustres de cristal gigantes que refletiam a luz suave em tons dourados por todo o ambiente. As paredes eram revestidas de painéis negros com detalhes em dourado esculpido, criando um contraste opulento e sofisticado.
O chão de mármore black piano com veios dourados, impecavelmente polido, refletia a iluminação suave das velas em castiçais imponentes de ouro. No centro do salão, mesas redondas estavam cobertas com toalhas de veludo vermelho e decoradas com arranjos de flores exóticas, e taças feitas de ouro puro e cristal lapidado, cintilavam com elegância sob a luz. Os talheres eram de prata com detalhes em ouro, e os pratos possuíam bordas decoradas com padrões barrocos dourados.
No ar, uma música clássica orquestrada ecoava suavemente, completando a aura suntuosa do local.
Garçons impecavelmente trajados circulavam oferecendo champanhes das melhores safras, enquanto sobremesas decoradas com folha de ouro descansam em bandejas reluzentes.
Uma pista de dança espelhada convidava-os a dançar sob uma chuva de luzes, tornando o ambiente ainda mais mágico e luxuoso, iluminando os sorrisos plásticos, cuja expressão inerte fora fixada mediante adoração do deus da estética.
O banquete foi servido, porém o anfitrião ainda permanecia insondável, enigmático, sob o véu taciturno que sua máscara lhe conferia. Banhavam-se nas taças dos vinhos e champanhes, envolvidos por todo aquele luxo exacerbado. Finalmente eram os senhores de si, finalmente haviam recebido o tratamento de que eram merecedores.
Em meio ao gozo, provindo do prazer etílico e carnal, dançavam, riam e agradeciam ao anfitrião, que somente assentia com leve aceno de cabeça. Não souberam precisar, mas em determinado momento as luzes douradas foram transmutando-se em marrom, negras.
O local, antes repleto de luxo, agora preenchia-se com uma pressão atmosférica lúgubre, mas não paravam de dançar. Os pés calejados não se atreveriam a parar. Os sorrisos plásticos não seriam desmontados. Continuaram, até que o anfitrião cansado daquela mesmice, resolveu interferir e anunciou que o tour pela mansão seria iniciado.
A mansão parecia crescer a cada passo. Um corredor infinito e implacável à frente. O anfitrião anunciou que cada um deles tinha um quarto ali, decorado conforme seus desejos mais profundos.
A primeira porta se abriu. Parecia um quarto medieval. No centro, havia uma banheira coberta de sangue das vítimas, jovens inocentes esmagadas e pisoteadas por uma mulher impassível, a dona daquele aposento. A condessa foi convidada a entrar. Não ousaria recusar. Entrou. A porta cerrou-se violentamente. Ouviram os gritos e souberam que os flagelos causados por ela seriam revividos para a eternidade.
Os seus pecados bateram à porta, cada um soube o que lhes aguardava. Ao avistarem seus destinos, alguns tentaram correr, mas os olhos da máscara que traziam em suas faces acederam-se em chamas. Tentaram arrancá-la, mas ela parecia fundir-se à pele, como se tivesse criado raízes em seus crânios. Gritavam, mas o som era abafado — a máscara sufocava, fechando-se ao redor da boca e nariz como uma viseira maldita. As chamas se espalharam, queimando a carne, mas sem consumi-la completamente, deixando marcas escuras e pulsantes que pareciam veias malignas. A pele fervia tal qual um vulcão em plena atividade. As bordas das máscaras começaram a se mover, como se fossem mandíbulas esmagando lentamente os ossos do crânio. O som era horrível. Rangidos ecoavam pelo salão, misturados com os gritos abafados. O sangue escorria pelas aberturas da máscara, enquanto os olhos dos algozes eram expelidos para fora, explodindo em um jorro grotesco.
Os outros convidados observavam, horrorizados e quietos. Os corpos dos que tentaram fugir, por fim, desabaram, mas as máscaras permaneceram flutuando no ar. Todos ficaram silentes, agora sabiam que não poderiam fugir daquele local.
As portas foram abrindo-se, uma a uma, e revelando os mais criativos instrumentos e formas de torturas, todas advindas daquelas mentes privilegiadas e merecedoras de todos os luxos que aquele inferno premium poderia propiciar-lhes.
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Sorte Diabólica
…O pior de tudo era ter que voltar para casa de mãos abanando e sem nenhum argumento que pudesse lhe valer, e ser obrigado a contemplar o olhar de…
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…O pior de tudo era ter que voltar para casa de mãos abanando e sem nenhum argumento que pudesse lhe valer, e ser obrigado a contemplar o olhar de decepção de sua mãe. Como se não bastasse todo o sofrimento que a ela fora infringido, ainda por cima ele, seu único filho. A única pessoa que pudesse lhe valer era na verdade motivo de uma decepcionante ignomínia. Por isso, estava ele ali, parado encostado junto à mureta da ponte, observando as águas turvas e preguiçosas que desciam correnteza abaixo. Sua solidão era completa, não havia ninguém por perto àquelas horas tardias. Ao seu redor reinava um inquietante silêncio, apenas vez por outra, rompido pelo sinistro som das criaturas da noite. O céu estrelado, placidamente o contemplava como se aguardasse suas últimas resoluções para ser testemunha única de um último ato.
Henrique – Rico entre os íntimos, mas de riqueza mesmo, nada tinha – olhava para o reflexo das estrelas sobre as águas, buscando nas profundezas do infinito a coragem necessária para um fim definitivo a toda uma vida de frustrantes decepções. Estava decidido que, se a sorte não lhe sorria, o que restava era ir de encontro ao azar, na inquietante busca pelas verdades da existência. Naquele momento de indecisão, fez uma breve análise de sua medíocre existência. De forma bastante decepcionante, chegou à triste conclusão de que toda sua vida fora uma grande farsa, cheia de tragédias e terríveis privações. E, por fim, havia se tornado um vergonhoso fardo para sua mãe.
A querida Tia Eulália, sua mãe – uma humilde professora de primário, que sobrevivia contando as migalhas de seu pequeno ordenado, e tentando ajuntar o restante daquilo que sobrara de sua vida – por mais que tentasse disfarçar seus sentimentos, ainda assim era possível perceber que ela trazia consigo o semblante melancólico e um olhar triste e distante, típico de pessoas sem maiores perspectivas, entregues ao sabor do vento, vivendo um dia após o outro. Ela, que noutros tempos, ainda no frescor de sua juventude, fora uma bela mulher, alegre e descontraída, sempre com um animado sorriso no rosto, esbanjando simpatia e muita disposição, agora, depois de todas as tragédias que se abateram sobre ela, nada mais era que a verdadeira face da derrota.
Rico tinha vagas lembranças da época em que ainda existia o brilho do contentamento nos olhos de sua mãe. Um tempo já distante, quando ele ainda tinha uma família completa com ele, sua adorável irmã Cecília, sua atenciosa mãe e seu pai, o conhecido caminhoneiro Amarildo – que era, para os demais, sinônimo de muita presteza e completa lealdade. Mas para sua mãe se demonstrou um terrível desengano. A tristeza estampada na face de sua mãe era apenas o resultado da infeliz condição humana. Ela que já tivera todos os motivos para sorrir para os quatro cantos do mundo, viu toda sua felicidade se desfazer como espumas ao vento.
Quando Rico ainda era bem pequeno, seu pai saíra de casa para uma viagem a trabalho – como era de seu costume – e nunca mais voltara. Seu pai que partira apenas com alguns pertences, mas levara consigo todas as economias da casa, deixara para sua mãe apenas um bilhete de adeus – como ato de justificativa – diversas dívidas a pagar e dois filhos pequenos para criar. O homem ao qual ela entregara sua honra e sua inocência, dedicando-lhe todo o seu amor e sua lealdade, sumira de vista sem deixar nem um vestígio de seu paradeiro. Rico tinha nove anos na época e sua irmã Cecília – já demonstrando os primeiros sinais de um semblante doentio – apenas sete. Num ciclo contínuo de desventuras, pouco tempo depois, após seu pai ter saído de casa, sua irmã Cecília fora diagnosticada com Leucemia. Numa desesperada tentativa de um tratamento eficaz para a filha, Tia Eulália teve que vender a casa – único bem que eles possuíam – e logo depois contrair um oneroso empréstimo bancário – dívida essa que consumiria grande parte de seu já parco ordenado por um longo prazo. No entanto, todos os esforços de Tia Eulália se demonstraram em vão. Cecília viria a óbito menos de um ano após seu pai tê-los abandonado. Cecília fora baixada à sepultura sem o último adeus do pai que ela tanto adorava. Ficaram apenas Rico e sua mãe – sem casa para morar, com dívidas a pagar, sem nenhum dinheiro no banco, e nem mesmo um parente importante que lhes pudesse valer. Estavam sós no mundo.
Uma vez que sua mãe tinha que trabalhar para trazer o sustento para dentro de casa, enquanto ela estava ausente, Rico – um jovem imberbe e desacreditado na vida, pois perdera seu pai e sua única irmã num intervalo de tempo bem pequeno – vivia mais nas ruas do que em casa, andando em companhia de pessoas de índole bastante duvidosa, tornando-se um interessado aluno na arte da vadiagem. Para ajudar sua mãe nas despesas do lar, fazia um biscate aqui e outro acolá. Mesmo enfrentado diversas adversidades da vida, conseguiu sobreviver a uma infância infeliz e assim que chegou à adolescência, para ter o dia livre para o trabalho, acabou por convencer sua mãe – mesmo com certa relutância por parte dela – a terminar seus estudos no período noturno. Foi justamente nesse período que travou conhecimento com os malandros da noite. Indivíduos de vida noctívaga – assíduos companheiros de copo e fiéis amantes do jogo. Rico – um rapaz belo e sedutor de fala macia e sorriso doce – logo ficara conhecido e muito bem-quisto entre jogadores, prostitutas e todo o tipo de vagabundo que vagueia pelos becos e vielas sob a proteção das sombras da noite.
Sua mãe, ao saber desse deprimente caminho ao qual ele estava se enveredando, com a face banhada em lágrimas e em soluços, o cobrira de conselhos e reprimendas, num moroso sermão sobre a moral e os bons costumes. Vendo a tristeza e a decepção que ele mesmo causara à própria mãe, prometera-lhe que, pelo amor e todo o respeito que ele sentia por ela, abandonaria de vez aquela vida desonrosa. Sua mãe, bastante comovida com a sinceridade estampada nos olhos do filho, o abraçou ternamente e após beijá-lo na face carinhosamente dissera-lhe:
– Filho amado, você é jovem, bonito e cheio de saúde e vigor, tem todo um futuro pela frente, não desperdice seu tempo e seu dinheiro nesse tipo de vida. Tais locais são, na verdade, um antro de lascívia e perdição. Em lugares como este não há o senso de amizade e camaradagem, lá você jamais terá amigos, apenas conhecidos. Nesses antros de perdição, você só tem valor enquanto sua bolsa ainda estiver cheia. Reina nesses lugares um abjeto interesse material, por mais que você possa se achar interessante e sedutor, seus valores são pesados de acordo com aquilo que você possui. Se algum dia – por acaso – estiveres totalmente desprovido de bens e de dinheiro, conhecerás a índole daqueles a quem chama de amigos e saberá o verdadeiro valor das mulheres que o rodeiam, se dizendo sempre fiéis a você.
Em honra à promessa feita à sua mãe, Henrique deixara brevemente de lado a vida noctívaga pela qual se enveredara. Conseguira, através dos contatos de sua mãe, um emprego fixo como atendente numa farmácia de propriedade de um atencioso amigo da família. Seguindo conselhos de sua mãe e de seu próprio patrão, planejava assim que possível dar continuidade aos seus estudos. Em certas ocasiões, até mesmo acompanhara sua mãe a igreja, onde conhecera uma simpática jovem – Eleonora era filha do pastor da igreja – pela qual se apaixonara perdidamente.
Sua mãe estava eufórica com o comportamento do filho e a todo o momento recebia elogios pela forma educada e gentil com que ele a tratava – algumas das beatas da igreja diziam, entre sorrisos maliciosos: “um bom filho será um excelente marido”. Rico era verdadeiramente um educado cavalheiro e em se tratando de sua mãezinha querida, era ele mais atencioso ainda. Seu ordenado na farmácia – que não era lá essas coisas – era quase todo entregue à mãe para ajudar nas despesas do lar. Mesmo com o parco salário que recebia, ainda assim, ele trabalhava todos os dias sem se distrair, pois tinha grandes planos para o futuro. Ele que já havia se declarado, em surdina, à Eleonora, recebera por parte dela certa conivência que lhe dava grandes esperanças. No entanto, nas Escrituras Sagradas está escrito que: “... quando um espírito imundo sai de um homem, passa por diversos outros lugares... Então vai e traz outros sete espíritos piores do que ele...”.
Nessa mesma época, devido a um estrondoso furo no caixa da farmácia – mesmo sendo inocente – Rico acabara por perder o emprego sob a acusação de ter sido ele a surrupiar o valor faltante. O dono da farmácia – amigo íntimo de sua mãe – dissera a ele estar tremendamente decepcionado com sua conduta, pois havia lhe dado um sincero voto de confiança, em amizade à sua mãe. Dissera-lhe ainda que ele não havia herdado o caráter da mãe – mesmo que veladamente, fazendo uma breve alusão ao pai. Aquilo lhe ferira profundamente a alma, até mais do que ser acusado injustamente de furto. Se no jogo não fora feliz, iria tentar a sorte no amor e no mesmo dia que perdera o emprego, decidira se apresentar na casa de Eleonora como sincero pretendente a receber a mão dela em sagrado matrimônio. Ao demonstrar suas intenções para com ela perante sua família, fora humilhado e vilipendiado em toda sua honra. Sem nenhum tipo de cerimônia, o pai dela – seu ex-futuro sogro – dissera-lhe de forma bastante grosseira e sincera.
– Jamais permitirei tal união, por dois motivos principais. Primeiro não dou guarita para vagabundo debaixo do meu teto – pois sei quem você é, de sua fama de ladino, você pode até mesmo ludibriar minha filha inocente com seu palavreado macio, mas a mim você não engana – e, segundo, em respeito à sua honrada mãe, sabendo que você não tem onde cair morto, não posso permitir que ela, já com tantas dificuldades, tenha que alimentar mais uma boca em sua casa, como se não bastasse o delinquente sanguessuga que ela inocentemente chama de filho e vive às suas expensas. A igreja a qual eu presido – sendo a casa de Deus – sempre estará aberta a todos sem distinção, mas a minha casa – onde honrosamente reside minha família – jamais estará aberta a pessoas de sua espécie. Exijo peremptoriamente que se afaste de vez da minha filha e jamais ouse colocar os pés aqui nessa casa novamente.
Naquela mesma noite – decepcionado com o mundo e com a vida – Rico decidira dar uma breve passada no cassino onde ele já presenciara fortunas inteiras virarem pó. No entanto, também fora testemunha de fatos inusitados, onde um indivíduo qualquer entrava com alguns trocados no bolso e saía de lá para uma vida de opulência. Estando ele sem dinheiro algum, apenas observara atentamente seus conhecidos tentando a sorte nas diversas modalidades de jogatina ali existentes. Como sua mãe o havia prevenido, aqueles que se diziam seus amigos, percebendo que ele não tinha nenhum tostão furado, não lhes dera atenção alguma, não lhe ofereceram nem mesmo um único gole de bebida sequer, tão pouco algum trocado emprestado para que ele tentasse a sorte.
No dia seguinte, sua mãe inocente e alheia a tudo aquilo que estava acontecendo ao filho, fora para o trabalho sossegadamente como fazia todos os dias. Levando-se em consideração que a vida de muitas pessoas se baseia em se deleitar com a desgraça alheia, na escola já havia burburinhos – entre os desocupados – sobre o fato de Rico ter sido escorraçado da casa da bela Eleonora – alguns vizinhos ouviram o pastor vociferando ofensivas palavras ao filho de Tia Eulália. Também se comentava sobre o roubo na farmácia – como isso veio a público ninguém nunca soube ao certo – e por fim o fato dele ter sido visto entrando no cassino novamente. – Certamente para torrar a grana oriunda do furto – diziam alguns de língua mais ferina. Rico, alheio ao fato de que seu nome e suas desventuras era o assunto preferido do dia, ficara em casa, tentando encontrar uma forma de relatar à sua mãe sobre sua triste realidade.
Do fundo de sua alma, ele sabia que sua bondosa mãe acreditaria em sua inocência e certamente lhe seria partidária naquilo que tangia a sua pseudovida amorosa. No entanto, precisava ele encontrar uma forma correta de narrar todos os fatos de uma forma que lhe parecesse convincente. Estando ele só e largado ao mais completo ócio, fazendo jus ao ditado: “que uma cabeça desocupada é uma excelente oficina para o mal”. Devido a todas as vicissitudes do dia, ele que tivera uma noite inquieta, intercalada com momentos de insônia e breves cochilos carregados de sonhos estranhos onde via números por todos os lados, pessoas felizes e riqueza por toda parte, chegara à conclusão que se conseguisse algum dinheiro, poderia voltar ao cassino naquela noite e quem sabe assim, se a sorte lhe sorrisse, resolver de uma vez por todas todos os seus problemas. Dinheiro mesmo, ele não tinha nenhum, mas sempre soube onde sua mãe guardava suas economias para uma possível eventualidade – na vida deles dois, as eventualidades eram uma constante.
Antes mesmo de sua mãe voltar do trabalho, Rico recolhera todo o dinheiro que encontrara guardado entre os pertences dela e após vestir seu melhor traje e estar bastante perfumado, saíra naa ruas aguardando que a noite chegasse e que as bancas de jogos fossem abertas. Estando ele com todas as economias de sua mãe no bolso, pois não deixara nenhum tostão para trás – tal qual, como seu próprio pai outrora fizera, quando os abandonara – sentara-se para jantar e assim o fez como se fosse uma pessoa desprovida de qualquer tipo de dificuldade financeira. Comeu e bebeu do bom e do melhor, antes de ir tentar a sorte, pois estava decidido a retornar para casa cheio de dinheiro ou não voltar nunca mais. Estava decidido a resolver sua vida de uma vez por todas. Assim que o cassino abriu suas portas e iniciou os trabalhos da noite, ele fora um dos primeiros a adentrar as portas que levam à glória ou à mais completa ruína.
Nas primeiras horas da noite, Rico estava iluminado pela áurea da fortuna. Havia sido sortudo em quase tudo que apostara, o dinheiro que havia trazido consigo já havia se quadriplicado e ele estava pressentindo que era seu dia de sorte. Por volta das dez horas da noite, ele já acumulava dez vezes o valor referente às economias que ele surrupiara de sua mãe. Num golpe de sorte, ela nem mesmo notaria a falta do dinheiro e ele ainda lhe daria mais que o dobro para que ela também pudesse guardar. Parafraseando mais um ditado que diz: “não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe”. O jovem Henrique, acreditando que a roda da fortuna estava girando a seu favor, decidiu fazer uma última jogada. E foi esse último ato que o levara ao desespero, pois nessa jogada apostara todo o seu dinheiro, tanto o que havia trazido consigo, bem como todo o montante acumulado numa série de apostas bem-sucedidas. Numa insana tentativa de recuperar pelo menos o dinheiro que trouxera, ele ainda apostara o relógio que fora um presente de sua mãe e até mesmo seu próprio paletó, só não apostara suas roupas e os sapatos, porque o dono do estabelecimento não o permitiu.
Sentindo-se a mais desafortunada de todas as criaturas, Rico saíra às ruas sem destino certo, caminhando trôpego sem saber para onde ir e o que deveria fazer. E quando, na mais completa solidão, estava atravessando uma ponte que cruzava o seu caminho, chegara à inquietante decisão que já não tinha mais vontade de chegar ao outro lado. Após uma longa reflexão sobre a existência, onde ele amaldiçoava a tudo e a todos relegando até mesmo aos céus pelas vicissitudes da vida, decidiu naquele instante, tomar as rédeas de seu destino. Mais uma vez olhando as águas turvas bem abaixo de si, quando havia já passado uma de suas pernas sobre a amurada da ponte, sentiu uma estranha presença perto de si e logo, uma mão de toque macio com um brilhante anel em um dos dedos tocara em seu ombro. Ao se virar se deparara com um distinto cavalheiro que após levantar a cartola e lhe sorrir amigavelmente, lhe dissera:
– Boa noite meu jovem amigo!
Num primeiro momento, Rico se assustara bastante por imaginar estar só ali naquele ermo caminho. Tinha a certeza absoluta de que no minuto anterior, quando ele olhara para trás como se estivesse dando adeus ao mundo, não havia ninguém ali naquela ponte. Mesmo assim, direcionado pelo senso da boa educação e dos bons costumes respondeu polidamente.
– Boa noite senhor! Como poderei ajudá-lo?
– Olhe bem para mim! E depois olhe para si mesmo e então me responda, quem realmente está precisando de ajuda?! Respondeu o cavalheiro. Um distinto senhor, trajando um belo terno negro de corte fino, sapatos brilhantes e cartola na mesma cor. Tinha a face lisa e um bem cuidado bigode sobre um sorriso de dentes brancos e alinhados. Na penumbra em que se encontravam, a cor dos seus olhos era indistinta devido à ausência de luz, mas dava a impressão de serem claros. O belo anel que trazia num dos dedos tinha uma cintilante pedra da cor de carmim – talvez fosse um valioso rubi.
– O que o faz pensar que eu esteja precisando de ajuda? — Respondeu Henrique.
– Sua vida medíocre! Suas decepções! Suas humilhações! E por fim o que estava prestes a fazer! Não percamos tempo com questionamentos e explicações desnecessárias. Eu sei do que você precisa e você tem algo que me interessa. Farei a proposta uma única vez, não tenho tempo para indecisões. É pegar ou largar! Vou emprestar a você um pouco de dinheiro para que volte agora mesmo ao cassino e pegue aquilo que é seu por direito. Jogue apenas na roleta, aposte nos números primos em sequência. Ainda hoje, antes mesmo do cantar do galo, você terá tudo aquilo que sempre mereceu. Apenas me responda sim o não.
Disse o cavalheiro com um estranho brilho no olhar mostrando a Henrique um grosso pacote de dinheiro. Pelo volume do pacote, era o montante necessário para que, devidamente investido nas apostas certas, fosse mais do que o suficiente para se transformar numa grande fortuna. Rico, como aquele mesmo gentil senhor o havia admoestado a não fazer perguntas desnecessárias, apenas pegou o dinheiro, sentindo em suas mãos um estranho arrepio que lhe correu por todo o corpo. Passou os dedos pelas notas sentido a firmeza do papel que estalava de tão novo, percebendo que aquele dinheiro jamais havia sido usado. Sem acreditar naquilo que estava acontecendo, mal teve tempo de perguntar ao cavalheiro – que já se afastava, se perdendo na escuridão das sombras indo embora da mesma forma que aparecera – como e quando ele iria pagar aquele empréstimo.
– Na hora certa voltarei para receber essa dívida, não se preocupe quanto a isso. Aproveite pela sorte enquanto ela lhe sorri... — Disse o cavalheiro já chegando do outro lado da ponte e se perdendo pela escuridão a fora. Suas últimas palavras se misturaram em meio ao som dos sinos da igreja que naquele momento badalavam violentamente ao longe avisando a chegada da meia-noite.
Rico, mais do que depressa, retornara ao cassino e como lhe fora coordenado, apostara grandes quantias somente na roleta e nos números primos em sequência. Em menos de duas horas de apostas, O jovem Henrique conseguira quebrar a banca. Ele que a momentos atrás estava prestes a dar um fim à própria vida, havia se tornado um homem rico. Voltaria para casa não como um homem desempregado, sem onde ter que cair morto como ouvira da boca do pastor, mas como alguém que agora tinha o dinheiro suficiente para comprar até mesmo a própria farmácia onde dois dias antes era um simples empregado que fora demitido injustamente. O dono do estabelecimento não tinha em caixa todo o dinheiro que ele havia ganhado, mas raspou o cofre e dera-lhe tudo o que tinha e na presença de testemunhas confiáveis assinara-lhe uma nota promissória com o restante que lhe seria devidamente pago no dia seguinte assim que o banco abrisse.
Acompanhado de um policial que estava de folga e, também, tentava a sorte naquela noite, rico tomou um taxi e se direcionou até sua casa para contar as novidades para sua mãe. No caminho estava eufórico em poder dar à sua querida mãe tudo aquilo que ela sonhara um dia. No entanto, mesmo ainda ao longe, soube que havia algo de errado em sua casa, pois mesmo sendo alta madrugada com o dia já quase amanhecendo, havia muita gente na porta, além de uma viatura da polícia e uma ambulância. Rico saltara do taxi antes mesmo do veículo ter parado por completo e ao entrar correndo em casa se deparara com o corpo da mãe sobre uma maca. Aos prantos fora contido por um dos policiais que estava atendendo a ocorrência – um dos vizinhos ouvira um tiro na casa e acionara a polícia que ao chegar se deparara com Tia Eulália já sem vida, numa das mãos ela tinha uma arma na outra um bilhete de adeus...
Quando o bilhete fora entregue para Henrique para que ele pudesse ler as últimas palavras de sua mãe, ele ouviu ao longe o triste cantar de um galo que anunciava a chegada de um novo dia...
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “Contos”:
Sinfonia noturna das palavras
Sob o manto negro da Lua Túrgida, | onde os mistérios nascem das sombras, | você, alma peregrina, ousa encarar o abismo? | O céu tinge-se de azul profundo,…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
I.
Sob o manto negro da Lua Túrgida,
onde os mistérios nascem das sombras,
você, alma peregrina, ousa encarar o abismo?
O céu tinge-se de azul profundo,
uma tinta escura que escorre do próprio coração do universo,
e o castelo, desfeito e distante, chora
sob a penumbra rubra de seus terrores antigos.
Ali, entre as paredes de pedra que sussurram,
as criaturas que espreitam nas sombras se erguem,
monstros que não são de carne,
mas do medo que habita as profundezas da alma humana..."
Arale, a felina da noite, a escriba das sombras,
pulsando com a força ancestral das estrelas que se esgueiravam pelas cortinas de veludo negro.
Seus passos eram ecos distantes de uma era esquecida,
onde a própria biblioteca se alimentava do seu silêncio,
onde livros sussurravam, não mais palavras, mas segredos,
não mais histórias, mas destinos que não estavam escritos.
Arale encontra algumas páginas queimadas pelo solo de pedra e algumas folhas voando
próximo às velas de um azul cobalto tingidas pela luz da lua que rasga o vitral próximo à torre da janela do alto do Castelo...
Enquanto andava entre os corredores, foi absorvida pela abissal força da Biblioteca como uma osmose de sangue ali, uma caçadora de pesadelos,
seu machado dourado, refletindo o ouro de um sol que nunca nascera
nem se punha no horizonte daquele castelo desfeito pelo tempo.
As páginas dos livros se abriam, mas suas palavras
não eram mais compostas de tinta e papel. Não, eram entidades,
sombra e carne, ganhando forma sob o olhar atento da felina.
II.
"A Lua Túrgida, pálida e inclemente,
desvenda os segredos ancestrais enterrados nas raízes do tempo,
seus olhos ardentes refletem os horrores do passado,
aqueles que foram esquecidos, mas jamais perdoados.
E você, ser imortal, sente em sua carne
a presença de algo que não pode ser nomeado,
uma fome que reside em seus ossos,
um monstro feito de sombras e silêncio,
buscando a luz que nunca será..."
Um livro se ergue, e do seu interior uma mão sai,
mãos de páginas que se entrelaçam como raízes,
tentando agarrar sua garganta.
Mas Arale, com a fúria da lua cheia,
afasta com um golpe preciso, o machado dourado cortando o vazio
como um fio de lâmina cortando o próprio destino.
— Aqui é o domínio do além, mas ainda sou eu quem escolho o meu caminho —
pensou ela, com seus olhos dourados que ardiam
como se o sol vivesse ali dentro...
III.
"O inverno avassalador surge como uma onda de gelo,
engolindo tudo o que tocou, tudo o que é vivo.
As árvores, curvadas sob o peso da neve,
se transformam em esqueletos de sua própria existência.
Os ventos cortam a carne e a alma,
e a escuridão se estende como um véu eterno.
Mas é nas sombras que a verdade se esconde,
nas cavernas profundas do castelo onde os pesadelos dançam,
onde cada suspiro é um eco do que foi,
do que nunca será..."
Nos quadros das paredes, os rostos antigos
assistiam em silêncio, esperando para se desfazer em sombras.
Mas Arale não se deixou enganar,
sabia que atrás de cada pincelada estava uma criatura à espreita,
silenciosa como os ventos que passavam pela torre do castelo.
Uma figura, um espelho. Da superfície prateada, algo se contorce,
uma figura que a olha como um espelho distorcido.
Arale avança, e no momento em que o machado toca o vidro,
uma explosão de luz e trevas se entrelaça, como se o tempo fosse rasgado.
IV.
"Rosa sangrenta, mandíbula do amor,
tingida pelo sangue da Morte,
um amuleto que pulsa com a energia do fim.
A cada passo, a rosa arde em sua mão,
uma chama vermelha que não se apaga,
um lembrete do abismo que aguarda,
do fim que se esconde atrás das estrelas apagadas.
Se o horror do fim te alcançar,
entregue a rosa à Morte,
pois ela, em sua sabedoria sombria,
te devolverá à vida com um vigor que não pode ser explicado,
um renascimento que é ao mesmo tempo condenação e libertação."
—Eu não sou o reflexo, eu sou o desfecho.
pensou, e o espelho se quebrou, espalhando em pedaços,
não vidro, mas carne e alma que jaziam no fundo de uma realidade
onde o refletido era o predador e o predador o reflexo.
As velas tremeluzem. Mas não são chama,
são olhos, pequenos olhos que queimam com desejo de devorar.
Lá fora, a noite parecia se esticar em um limbo de estrelas apagadas,
mas ali, nas profundezas do castelo, tudo era eternamente noite.
As velas falavam, sussurravam segredos de um mundo
onde o medo se encarnava em formas monstruosas.
Arale levanta o machado,
um golpe certeiro apaga a chama e faz os olhos se desvanecerem
como fumaça no vento do próprio medo.
V.
"Os monstros que habitam o castelo não são apenas de carne,
mas de história, de memórias que ainda sangram,
de pecados que nunca se redimiram.
Eles buscam a luz da Lua Túrgida,
o pálido lume que ilumina o caminho da consciência.
E você, caminhante, está pronto para ver o que eles revelam?
Está pronto para enfrentar os horrores que despertarão dentro de você,
os monstros que estavam sempre ali,
esperando na escuridão do seu ser,
e, quando a Lua Túrgida brilhar,
eles sairão para te encontrar."
Por trás das cortinas, um movimento.
Uma sombra que se arrasta, um vulto no fundo da biblioteca,
onde os livros eram mais vivos que os seres que os liam.
Ela caminha até a estante, suas garras traçando círculos no ar,
e, de repente, um livro se abre, e uma sombra,
uma criatura que jamais deveria nascer de tinta e papel,
salta para o espaço, um monstro de letras disformes.
Com um grito que não mais ecoa,
Arale mergulha na luta, seu machado cortando e perfurando
a carne do monstro que se dissolve em palavras
enquanto ela avança, até o fim de sua missão.
VI.
"Mas não tema, querido leitor, pois você não está sozinho.
Carregue a rosa, com seus espinhos tingidos de carmim,
e saiba que, enquanto o horror te rodeia,
a luz da Lua Túrgida não é só escuridão,
mas uma revelação de quem você realmente é.
Pois dentro de você, nas profundezas mais sombrias,
está a força de enfrentar o abismo,
e, se necessário, se tornar um com ele.
A Lua Túrgida não é uma sentença,
mas um convite, uma jornada sem fim,
onde a morte e a vida dançam juntas
em um ciclo eterno de renovação e destruição..."
Mas no fundo, ela sabe. Ela sempre soubera.
Este não é seu fim, nem seu começo.
A caçadora de palavras, a escriba de garras de aço,
não está ali por uma razão única. Ela busca.
Busca não só o conhecimento que habita aquelas páginas,
mas algo mais, algo que se esconde nas entrelinhas do castelo,
algo que a prende ali, mas a faz sentir-se, ao mesmo tempo, estranha.
O desejo, a fome de um toque humano, um calor vivo,
além das criaturas que caçam e morrem,
além das páginas que ardem e se curvam.
Arale, a felina entre as sombras e os espelhos,
cai de joelhos no chão de pedra fria,
a sua jornada apenas começando,
uma missão espiritual, um ciclo interminável,
mas no final, uma pergunta:
"Onde estão aqueles que podem ver o que sou?"
VII.
"E no fim, quando a penumbra da Lua Túrgida
te envolver como um manto de névoa,
lembre-se: o medo não é o fim,
mas o começo de algo mais profundo,
mais antigo, mais verdadeiro.
A rosa, teu guia, teu guardião,
brilhará na escuridão,
um farol no abismo,
um sinal de que, mesmo no final,
há sempre uma nova página a ser virada,
uma nova história a ser escrita
sob a luz eterna da Lua Túrgida."
Uma resposta desfragmentada se perde, no vento que sopra,
no mesmo instante em que ela ergue a lâmina dourada,
todos os pergaminhos que flertam com a chama e a luz pálida
do luar como uma sinfonia de palavras são de autoria do Drácula,
pronta para o próximo passo e fascinada aos cânticos da Lua Túrgida
sabendo que, no fundo, o castelo era seu espelho,
e ela, mais que uma caçadora, era a alma que fugia de si mesma.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
O Céu das Alfazemas
Efervesce a penúltima instância dessa madrugada que precede a miséria. A cova estreita, madeira de bétula, os vermes e comichões... É o meu dia…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Efervesce a penúltima instância dessa madrugada que precede a miséria. A cova estreita, madeira de bétula, os vermes e comichões... É o meu dia que chega! E felicito-me por recebê-lo assim, com uma despreocupação tão geniosa e sagaz. Que tenho a perder agora, homem? Diga!... nem mesmo o inferno tem algo para mim. Nada mais temo ou anseio. Mas a recusa, sim! A recusa me servirá como redenção. Vou-me ao pé dos quadros de Diana, nunca na cela fria deles.
Por que nos fizeram tão frágeis, minha amada criatura?... Onde puseram as lamparinas que conosco deviam seguir, impregnando de luminosa bondade esses campos fadados à escuridão? Podes ouvir quando sopro, nas pedras, teu nome?
Ao pecado do amor – demasiado, maldito e incorrigível–, a sentença: nunca mais amar, nunca mais o cheiro dos campos e a vida das montanhas, nunca mais... A morte! A morte aos que cometem heresia. Eu e tu, no breu prateado dessa infinidade. Eternos, como é eterna a dor e a tragédia nessa terra de gente vil. Escute!...Um coral de passarinhos sobrevoa! Zombam dessa bruxa velha, que há de morrer sem aprender a voar. Cai dum vasilhame ambarado o primeiro sinal dos olhos do sol. Pairam estrelas nesse horrendo céu de alfazemas, guerreando por espaço com a turvidão das nuvens, carregadas de toda, toda, toda a tristeza da vida.
Perseguida pela praga daquele dezembro, revejo-te incansavelmente, a cada hora, indo de encontro ao chão. Por três segundos olhou-me, por três segundos aspirou um sorriso, por três segundos amou-me com a feição... era a vida deixando a ti, como a alma de uma festa, abandonando a todos os convidados – famintos, mortos de sede–...
Por que, meu bem, por que tivera de condenar a mim e a ti? Ouso dizer que convenceria a Morte. Se ao menos houvesse tentado... Agora vou eu, fadada a seguir-te submundo adentro. Como poderia não ir? Acorrentaram-me em teu punho, e eu mesma vivo a lustrar as correntes.
Como cheiram os jasmins... quão intoxicante é a vida aqui, crisálida e perto do fim. E na moldura de carvalho que me permite observar a vida lá fora, ainda repousa a lua, lançando-me um fraco sorriso. Como se até mesmo ela sentisse alguma piedade de mim. Bela é a porcelana que carrega a camélia, adoçada em leite e gotejada por alma de beladona. Colhidas do abandonado jardim de um enforcado. É o fim, meu bem... é o fim! É o fim da desonestidade, e se pretendem nos prender, que encontrem corpos. Corpos a enterrar.
E não diga, nunca – e em parte alguma desse vale – que és um homem só. És metade formosa e sempre bem acompanhada. Lembra-te do pacto de perseguir, juntos, a chama da vida, e rasteje impiedosamente. Não pare, nem por um segundo. Não pare até me encontrar.
O vento sussurra promessas de primavera, com perfume de orvalho do passado. O céu de alfazema reina, onipotente contra a falta de sangue e coração daquele povo, tão firmado na descomunhão com tudo que é de visceral e estranha natureza. Em marcha lenta, cruzarei a ponte dos mundos, conformada de que nunca havia de entregar-me ao julgamento daqueles que se opõem ao fluxo que tem o corpo e o pensamento. Aos que andam assassinando as bruxas e poetas, julgando com fogo a cada delito, o mais sincero escárnio. Já é hora de partir, deixando para trás a indecência da repressão, indo à vida que emerge da morte, para nunca mais sofrer. Para nunca mais voltar.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Sonial
Sinto os olhos correrem em desespero por debaixo das pálpebras. Vagas lembranças dos fatos ocorridos na estufa atingiam meu corpo…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Sinto os olhos correrem em desespero por debaixo das pálpebras. Vagas lembranças dos fatos ocorridos na estufa atingiam meu corpo, que tremia, desperto com o insistente menear.
De olhos abertos, permaneço deitada sob um infindável jardim de lavandas. Seu aroma adocicado e suave me abraça. Os galhos eram altos o suficiente para envolver meu corpo. Seu leve toque em meu rosto extraiu de mim cócegas e uma lembrança.
Vejo-me deitada preguiçosamente em suas pernas, no nosso sofá da sala. Estamos assistindo a um dos seus filmes preferidos, “Um Corpo que Cai”. Eu amava os filmes do Hitchcock. Minha mãe acabara de passar creme para as mãos. Enquanto meus olhos estavam na televisão, sinto seus dedos macios e cheirosos sobre meu rosto, deixando o aroma marcante de lavanda.
Mas antes que eu me torne melancólica, devolvo-a, o quanto antes, ao cemitério abandonado de memórias. É melhor assim, digo para mim mesma: “Esqueça isto!”. Em seguida, viro a cabeça para a esquerda, e meus olhos se perdem perante os galhos.
A grandiosidade daquele lugar é, sem dúvidas, arrebatadora. Existe uma aura quase celestial. O silêncio sagrado me causa arrepios. Acima de mim, contemplo algo magnífico: trajando um manto alvo está o firmamento e sua imensidão. Um temor se apoderou de mim. Adoto a posição fetal, como forma de me proteger, pois um mísero raio de sol poderia me exterminar. Mas, de alguma forma, nada aconteceu. Apesar de toda vastidão nívea, a luz parecia inofensiva. Não havia nuvens, nem sol nem lua, apenas o vazio opressor.
Decidi me levantar. Limpei as folhas presentes em minhas roupas. Em pé, pude ter a verdadeira dimensão daquele lugar. Caminho, e as lavandas se destacam. Seu balançar é hipnotizante. Será que estou fora do Castelo? Será o fim da minha mísera existência? Será algum efeito alucinógeno daquele preparo feito por Ameritt? O repugnante gosto ainda faz morada em minha boca.
Cuidadosa, caminho enquanto dúvidas pairam sobre minha mente. Olhar em volta e ver apenas o vazio abissal é angustiante. Será que irei parar na vila de Séttimor? Agora, a menção de Ameritt me causa tremor, porém continuo.
Após muito andar, noto algo perturbador. Um horror indescritível dominava meus ossos e entranhas. Meus membros tornaram-se rígidos, como se alguma força de proporções inimagináveis agisse sobre mim.
Elevo meus olhos, e não posso acreditar. Em meio àquela intensa nívea, um colossal e belíssimo umbral, mais escuro que a própria noite, erguia-se no vazio níveo. Trazia adornos vitorianos esculpidos pelos deuses de outra era. Assemelhava-se a um portal. Ao seu lado, havia também uma criatura tão misteriosa quanto aquele lugar. Sua aparência angelical me deixava confortável. Obedeci à sua reverência e, cautelosa, fui ao seu encontro. Estou a dois passos. Sem dúvidas, estava diante de algo grandioso.
— Bem-vinda à Somníria, Rose. Permita que eu me apresente. Meu nome é Lieran, sou o guardião Arquelua do primeiro umbral. Foi-me ordenado guiar-te pelo sonho daquele que teu coração mais anseia.
Sua voz era como um imponente e doce quarteto de vozes cantando em uníssono, algum canto gregoriano secreto que fora esquecido pelo impiedoso tempo. Seu semblante quase angelical me acalmava. Ele tinha cabelos alvos como a neve, e, mesmo com os olhos fechados, parecia saber exatamente quem eu era. Posteriormente, ele me explicou que Somníria é um reino extrafísico que está além da compreensão. Este lugar cuida do plano onírico daqueles que ainda estão vivos, assim como dos que já desencarnaram.
Lieran contou que, em Somníria, tanto os umbrais quanto os guardiões são infindos. Explicou que existem diferentes espécies de guardiões: alguns cuidam dos sonhos, sendo chamados de Arquelua, enquanto outros se dedicam a vigiar pesadelos — os Nocturnos. Disse ainda que há tipos de Nocturnos especializados em pesadelos densos, enquanto outros vagam por pesadelos fúnebres.
Amortecida pelo que acabara de ouvir, observei mais uma vez aquela criatura. Ele se assemelhava a uma escultura de um deus grego esculpido em mármore. Seus traços delicados e marcantes me prendiam, e a possibilidade de entrar em um sonho era intrigante e muito me interessava.
Antes que eu dissesse qualquer palavra, ele fez um gesto para que eu atravessasse o umbral e disse:
— Por favor, tenha cuidado. Visitar sonhos pode ser mortal. Vi que tens alguém em mente. Concentre-se e atravesse. Lembre-se: para retornar, basta dizer meu nome.
Agradeci, respirei fundo e, assim que atravessei, senti uma forte vertigem, como se caísse em queda livre no vazio. Ainda enjoada, abri os olhos e não pude acreditar que funcionara.
Acordei em meu quarto de infância. Tudo estava intacto: os pôsteres de filmes de horror, como Psicose, Janela Indiscreta, Um Corpo que Cai, O Exorcista, O Iluminado, entre outros. Minha estante preta decorada com livros, incluindo romances como Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, O Morro dos Ventos Uivantes — em vida, eu acreditava no amor. Minha escrivaninha estava cheia de cadernos e canetas espalhados. Ao folhear um deles, deparei-me com anotações sobre magia e ocultismo.
Ao vê-las, lembrei-me de um certo livro que está no Castelo. Ele ainda me causa fascínio e repulsa. Recordei sua capa feita de pele, num tom viscoso de carmim quase vivo, suas páginas puídas e o cheiro pútrido que senti ao abri-lo, bem como o toque repulsivo.
Lembro que o livro estava no final da biblioteca, sobre uma mesa redonda vitoriana, coberto por um manto negro. Ele não saiu da minha cabeça: sua natureza desconhecida e o modo como foi confeccionado me intrigavam. Que segredos infindáveis aquelas páginas escondiam? Recordo vagamente ter visto o desenho de um ramalhete naquela terrível noite de nevoeiro.
O Castelo tem me proporcionado experiências inexplicáveis. Aquele baile aterrorizante foi muito marcante. Preciso continuar. Olhei para a direita: algumas roupas estavam empilhadas sobre uma cadeira. É verdade que prometi enterrar estas lembranças, mas decidi fazer este último passeio e despedir-me para sempre.
Tristezas e sorrisos me acompanham. Encosto na maçaneta e sinto um tremor. Ao abrir uma fresta da porta, vejo minha mãe deitada no sofá da sala, como costumava ficar. Mas havia algo perturbador em seu semblante. Seus olhos inertes assistiam à televisão, e o cansaço era visível em suas pálpebras. Seus braços estavam imóveis, e, na palma da mão direita, notei uma marca que parecia um pequeno terço. Deduzi que, em algum momento, ela o segurara com tanto fervor que provocara um ferimento. Após um tempo, uma lágrima caiu de seu rosto, e um sussurro ecoou pela casa:
— Ainda tenho esperanças de que minha filha voltará um dia.
Isso quase arrancou um grito de mim, mas silenciei com as mãos. Não posso mais ficar aqui. A culpa parecia deliciar-se com meu sofrimento. Na cozinha, meu pai preparava o almoço. O cheiro de bife com cebolas fritas me causou enjoo.
Tomada por uma profunda tristeza, murmurei:
— Se não tivesse aceitado aquele convite, talvez estivesse em seu colo, mãe. Eu sinto muito pelas minhas escolhas.
As inevitáveis lágrimas escorreram. Fechei a porta e sussurrei:
— Lieran.
Após isso, senti uma forte sensação de sono até que, finalmente, meu corpo encontrou o solo.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Sepulte-me, Ana
Prometeram-me que não haveria enredo depois do fim! Quem eles pensam que são?... Como ousam mentir?! Não há morte, não há honra, não há sono...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Prometeram,
Prometeram-me que não haveria enredo depois do fim! Quem eles pensam que são?... Como ousam mentir?!
Não há morte, não há honra, não há sono...
Continuidade, Ana! A horrenda continuidade que me assola. Sopro as velas e corro da memória daquela lareira, onde aquecíamos a ponta dos pés, entornando canecas fumegantes de chocolate, lendo a tudo que não se pode ler numa idade como tal. O tempo passou... E malditos sejam eles, com seus terços e cânticos de funeral. Choram bem menos que o morto, quando acorda – brusco, desarmado – n’outro corpo e n’outro lugar.
Bate o peito, Ana...
Há tanto não devia bater! Há tanto ouviste parar... Se ao menos me dissessem porquê! Se ao menos me contassem quem sou...
Onde anda minha alma? Ora, eles cantam. Jane Doe, Jane Doe! O turvo vale roubou meu nome, e nem mesmo o posso praguejar sem que me pragueje de volta.
É o inferno, Ana, é o inferno e o céu, disputando lugar. É a brisa que incendeia os bares mundo adentro, e, ainda assim, não cessam os bêbados de pedirem conhaque. Furioso é o vento... nunca tivera piedade de mim. Vento feiticeiro que me traz o perfume d’outrora. Dos invernos em despercebida completude... Da vida que ascendia horripilantemente, tão bela. Dos pinheiros em oração e das infindáveis conversas sobre o mar.
A vela que aqui queima existe pelo mesmo princípio que ali acendíamos a lamparina. – Nasce do mesmo fogo que assava os leitões. – A chama imparável que reina, grandiosa, sobre o tempo e sobre os homens.
Prometeram-me um fim, e agora o reclamo. E não somente a ele, mas à vida, em impaciente e revoltosa espera. Que me tragam a primavera que não vi! Que tragam aquele amor, sepultado com mácula, roubado com tanta desonra. Clamo por encontrar a água viva na próxima parada.
Quanto me resta até que, ao fechar os olhos, não venham mais as cores de um outro campo? Quantas estações até que se faça o digno e ansiado Ponto final? Não remende o vestido, doce Ana... sempre serei a menina molambenta que apreciavam escarnar. Flores bastam. Sempre hão de bastar.
Diga que vivi com a injúria e a raiva de Artemisia. Que praguejei contra as abelhas e contra a rainha, encontrando a graça no outono e zombando de minha própria estupidez. Que vivi para morrer, e, ainda assim, não encontrei morte alguma para descansar.
Somos ametista bruta emergindo do solo, amiga minha. Um pedregulho no sapato de todo falso pregador. Somos nós a dúvida e a insanidade. Companheiras deste (e)terno velejar.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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15. Jardim da Morte: Hadassa
Em uma sala de cinema que parecia saída dos anos 40, com lustres antigos que projetavam pouca luz nas paredes, um cheiro de pipoca…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Em uma sala de cinema que parecia saída dos anos 40, com lustres antigos que projetavam pouca luz nas paredes, um cheiro de pipoca velha que se misturava a um aroma adocicado que possivelmente vinha das figuras que ali entravam. As poltronas velhas de veludo vermelho, que rangiram sob o peso das duas figuras que ali se sentaram no centro, uma do lado da outra. A ceifadora dos que tiram a vida vestia um sobretudo escuro e um chapéu inclinado sobre um dos olhos, enquanto a ceifadora dos apaixonados usava um vestido preto justo, nos lábios um batom vermelho vibrante que contrastava com sua pele na cor de grafite acinzentado, cabelos bem pretos com leves ondas, segurava entre os dedos um cigarro que jamais seria aceso, como uma femme fatale saída de um filme noir. A ceifadora dos que tiram a vida ajeitou a gola de seu sobretudo, seus olhos brancos sem pupilas sob o chapéu de abas largas que lançava uma sombra em seu rosto cinzento, ela parecia deslocada ali, tentando fazer o seu papel, como se aquele tipo de análise fosse de menor gravidade em seu trabalho.
— Esse caso poderia ser resolvido com uma partida de xadrez — ela falou em tom seco.
— Poderia, mas estou testando outras abordagens, uma mistura de LARP com jogo de detetive. — respondeu a ceifadora dos apaixonados, com um sorriso enigmático. — E, aliás, você está perfeita no seu papel de detetive autodestrutivo.
A outra arqueou a sobrancelha.
— Você também está incrível, bem fatal se posso dizer.
Elas riram brevemente.
— Espero que seja direto, detesto enredos sem propósito. — murmurou a ceifadora dos que tiram a vida, cruzando as pernas.
— Calma, apenas assista e depois critique. — respondeu a ceifadora dos apaixonados, sem sair do personagem.
A pouca luz dos candelabros foi se extinguindo e a tela acendeu com um estalo iluminando a escuridão, um nome em letras grandes e brancas surgiu sobre uma imagem em preto e branco de um vaso de flores mortas.
HADASSA
O filme em preto e branco com uma trilha sonora de suspense se inicia, Hadassa em uma cozinha pouco iluminada, ela estava sozinha, esperando a água ferver em uma chaleira. Sentada, perdida em pensamentos, acariciava cicatrizes em seus pulsos. O chiado irritante a desperta de seus devaneios e ela volta a atenção à chaleira, se levanta e prepara o chá. A cena seguinte, ainda na cozinha, a câmera mostra um close do líquido quente sendo derramado na xícara. Uma narração começa suave, enquanto ela em silêncio volta à mesa, a voz de Hadassa ecoando pelos alto-falantes do cinema como se ela estivesse lendo algo:
“Muitas vezes o amor parece um abraço aconchegante, outras vezes, um peso que não conseguimos soltar.”
A narração pausa, Rute aparece na porta da cozinha, um vulto na escuridão, seu rosto calmo, mas sua postura inquieta e seus dedos rígidos no batente da porta, denunciavam sua ansiedade.
— Ainda acordada? — A voz era gentil, mas com uma nota de ansiedade. — E essa água no fogo? Ouvi o chiado da chaleira — ela apontou para a chaleira.
— É que eu fiz chá, para dormir melhor. — Hadassa olhou pensativa para xícara.
Rute foi caminhando até a mesa, seus passos abafados pelo tapete velho e olhou o líquido da xícara e depois para Hadassa.
— Esse chá você encontrou onde?
Hadassa hesitou.
— Uma amiga me recomendou. É natural, sabe?
O silêncio que se formou parecia pesado demais, Rute pegou uma colher.
— Posso experimentar?
Hadassa confirmou que sim com a cabeça. Rute mexeu o chá provando uma gota em seus lábios. Seus olhos ficaram sombrios por um instante, olhou Hadassa, e ficou em silêncio. Em sua cabeça uma lembrança se formou. Uma música mais tensa começa.
— Hadassa, cheguei, trouxe a torta que você pediu. — Rute entra pela porta da frente, com uma sacola na mão.
A câmera segue cada movimento seu, revelando o cansaço em seu rosto de um dia de trabalho exaustivo. Quando chega à sala, ela para de repente, os olhos arregalados, no chão ajoelhada, estava Hadassa, com mãos e roupas manchadas de sangue. Hadassa soluçava, o celular escorregando em sua mão.
— Rute, por favor... me ajude... eu quero conseguir morrer, mas eu não quero ir para o inferno.
Rute ficou paralisada por alguns segundos, mas logo seu instinto tomou o controle, pegou seu celular no bolso da calça e ligou para emergência enquanto procurava algo para estancar o sangramento. A câmera se move lentamente, e foca no rosto de Rute enquanto ela volta para onde Hadassa está, as duas se sentam no sofá, e Rute pressiona o pano no ferimento de Hadassa. Rute abraça a mulher ensanguentada, sua expressão é uma mistura de confusão e um medo avassalador.
Hadassa soluça, as palavras saem de sua boca como se fossem arrancadas.
— Desculpa, eu não queria isso, mas as vozes, elas não param, achei que assim eu teria paz, mas eu senti o inferno dentro de mim e desisti, eu só queria a paz que a morte traz.
A câmera volta para o rosto de Rute, ela fecha os olhos, as lágrimas correndo livre pelo seu rosto, segura Hadassa em seus braços como se pudesse protegê-la dela mesma. O som de batidas na porta preenche a cena, a ajuda havia chegado, mas a sensação de algo irreversível pairava sobre as duas. A cena é trocada, uma trilha sonora mais melancólica, outra cena do passado, Hadassa pegando um envelope pardo que continha algumas ervas, se desfaz do envelope no lixo da cozinha. Logo após, Rute era mostrada examinando o mesmo envelope, com as sobrancelhas franzidas, antes de escondê-lo em uma gaveta. As cenas seguintes eram fragmentos de uma rotina que se tornava cada vez mais comum. Rute agora preparava o chá todas as noites, e oferecia a Hadassa.
— Para sua insônia. — ela dizia, mas seu olhar a traía, talvez culpa ou preocupação, ou outro sentimento que não dava para ser nomeado ainda.
Hadassa parecia cada vez mais frágil, olheiras escurecidas, movimentos lentos, mas seu rosto exibia uma estranha paz. A cena muda, Hadassa em uma pequena sala de estar iluminada por uma lâmpada oscilante, o relógio marcando meia-noite e ela escrevia algo. A câmera focava em sua expressão cansada e em suas mãos trêmulas segurando a caneta. Uma narração se inicia com sua voz:
“Eu sei que você não queria isso, mas você fez o que era preciso. Agora, só espero que consiga conviver com isso...”
A cena é cortada antes que ela terminasse a narração. A próxima cena tomava um tom mais sombrio e a música se torna também mais sombria, Hadassa deitada na cama com o rosto pálido, Rute ao seu lado segurando sua mão. Uma narração com a voz de Hadassa se inicia:
“Você me amou o suficiente para me libertar, mas será que eu a fiz carregar algo que você não merecia?”
A câmera corta para Rute com uma expressão sombria, e então para uma visão de sua mão apertando o punho da xícara que Hadassa usara. A última cena do filme, a música melancólica mais lenta, Rute sentada sozinha à mesa da cozinha, a chaleira estava no fogão, mas vazia. Em suas mãos ela segurava a carta de Hadassa. A câmera se aproxima lentamente enquanto ela lê. A voz de Hadassa narra:
“Eu precisava que fosse você, precisava que fosse por amor, porque só por amor você faria uma escolha que eu não tive coragem de fazer, não lhe pedi nada, mas mesmo assim você me ajudou a encontrar a paz.”
Rute solta a carta, e encara a câmera, seu olhar perdido, seu rosto é uma mistura de dor e cansaço. Ela se levanta e sai andando para outro cômodo deixando a carta sobre a mesa e a câmera foca em uma xícara vazia.
FIM
A ceifadora dos apaixonados se inclina perto da outra ceifadora e sussurra:
— O que achou? Estou aberta às críticas. — disse a ceifadora dos apaixonados.
— Gostei, direto ao ponto. — falou a ceifadora dos que tiram a vida, descruzando as pernas.
— Poético, não acha? O amor transformado em arma, mas sem deixar claro quem das duas puxou o gatilho, romances trágicos sempre me comovem.
A ceifadora dos que tiram a vida deu uma risada seca seguida de um suspiro.
— Poético, não. Eu diria prático, alguém precisava decidir, e parece que Hadassa passou o fardo para Rute, não foi um romance, foi um crime — a ceifadora dos que tiram a vida falou ajeitando o chapéu. — A única pergunta é: quem segurava a arma?
— Ou talvez Rute sempre soubesse que seria o fardo dela. — a ceifadora dos apaixonados deu de ombros. — Hadassa não conseguiria nunca ir até o fim, ela tinha medo. — Ela suspirou e cruzou as pernas.
— Então ela manipulou Rute para alcançar o que queria? — A ceifadora dos que tiram a vida estreitou os olhos.
— Manipular? Não sei, ou apenas confiou que Rute faria, mesmo que não tenha dito uma só palavra. — A ceifadora dos apaixonados tocou o queixo e ficou pensativa. — Talvez Hadassa confiasse que o amor de Rute era maior que o medo que ambas tinham, ainda acredito que foi uma morte por amor. Quando mostrei uma cópia da carta de Hadassa para a ceifadora dos assassinados, ela também disse que era manipulação de Hadassa, por esse motivo ela não quis participar da análise do filme.
— Acho que a hipótese dela talvez esteja certa, Rute quem deu o golpe final, amor ou não, mas ela agiu influenciada por Hadassa.
— Rute sabia o que o chá continha, uma infusão sutil de uma planta tóxica, discreta o suficiente para passar despercebida. Hadassa havia comprado as folhas, mas foi Rute quem decidiu terminar a tarefa, irônico, não é? Evitar que Hadassa se matasse, matando-a lentamente. Ainda acredito que ela fez isso por amor.
— Rute não me parece uma mulher de meias medidas, quando Hadassa disse aquelas palavras, fez aquele pedido de ajuda, algo dentro dela clicou, ela amava Hadassa, mas amor às vezes também é controle, e controle pode ser fatal, então ela abriu mão do controle para que Hadassa pudesse ter paz. — A ceifadora dos que tiram a vida cruzou os braços e ficou pensativa. — Tem a chance de Rute apenas ter matado ela por amor dando o que Hadassa queria, mas também tem a chance de ela ter levado aquele pedido de ajuda ao pé da letra e agido, manipulada por Hadassa que já queria se matar. — parou de falar e ficou refletindo por um tempo. — Vamos deixar ela no jardim à espera até que possamos decidir. — disse a ceifadora dos que tiram a vida, rompendo o silêncio.
— E se nada for concluído? — perguntou a ceifadora dos apaixonados, olhando para a tela vazia.
— Então você ficará responsável por ela até que possamos decidir o que fazer.
— Sempre tão prática, não é? — A ceifadora dos apaixonados deu um sorriso debochado.
— Confio que você vai manter ela entretida, além disso você terá companhia por tempo indeterminado para seus jogos e talvez consiga com ela mais informações.
As duas levantaram juntas ainda discutindo o caso, deixando a sala de cinema na escuridão. A ceifadora dos apaixonados coloca o cigarro na boca, intocado, um movimento encenado, e dá uma risadinha, a outra ceifadora coloca as mãos nos bolsos do sobretudo, caminham em direção à saída, suas sombras projetadas na tela vazia. No fundo da sala, o projetor piscou uma última vez, mostrando o jardim onde Hadassa aguardava, envolta em névoas.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Um brinde aos Vivos
Isabel acordou com o coração na boca, a mente pesada e turva. No silêncio da catedral, um grande anjo de mármore a observava do púlpito…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Isabel acordou com o coração na boca, a mente pesada e turva. No silêncio da catedral, um grande anjo de mármore a observava do púlpito, de seus olhos escorria um líquido vermelho e grosso como lágrimas. Como um véu, o tom vermelho emitido pela lua tocava tudo o que escapava da escuridão da noite.
Com força e desenvoltura que nunca sentira, sentou-se e ouviu os ossos estalarem, como se estivessem sendo usados pela primeira vez na vida. Os estalos secos ecoaram pela nave de forma lúgubre.
O lugar era uma paródia do que um dia fora: depredado e imundo, com um cheiro forte de metal que tomava suas narinas. Estava sentada em um dos vários bancos de madeira maciça, arremessados ou largados de qualquer forma.
— Boa noite, princesa. Dormiu bem? — disse uma voz doce como um canto de sereia.
A alguns metros de distância, estava uma mulher muito magra e alta, com uma palidez disfarçada pelo luar carmesim. O olhar de escárnio e o semblante sério diminuíam Isabel, que se sentia uma pequena presa diante de uma caçadora que ela não teria como enfrentar.
— Quem é você? Onde estou? — perguntou Isabel, a voz trêmula.
Um sorriso amplo tomou a face perfeitamente esculpida da mulher, deformando-a. Ela bateu duas palmas, lembrando Isabel de como os duques das vilas chamavam seus serviçais.
— Creio que você tem razão, menina. As apresentações estão em ordem. Pode me chamar de Marishka. — O sorriso da mulher alva derreteu. — Você está no Castelo Drácula, o inferno de uns e o paraíso de outros.
Um homem raquítico e com tufos parcos de cabelo adentrou a nave por uma discreta porta aos fundos. Ele mirou Isabel à distância, feliz por vê-la viva e inteira. “O mestre ficará satisfeito comigo” cochichou para si mesmo, abrindo um sorriso de poucos dentes avermelhados. O volume da barriga, coberta por roupas de fino trato, ajudava as mãos tortas a segurarem uma bandeja dourada com três taças de tamanhos distintos, preenchidas com um líquido viscoso, de vermelhidão exaltada no brilho da estranha lua. Ele se aproximou, olhando para o chão, com os braços estendidos para a mulher.
— Como solicitou, madame. Uma taça de tenra idade, uma taça de virgem e uma de nobreza.
Usando uma delicadeza sobrenatural, ela apanhou a primeira e menor das taças. Parecia satisfeita e ansiosa. O homenzinho deixou a bandeja no banco e se escondeu em um canto escuro da nave, observando-as.
Marishka cheirou o líquido com júbilo e bebeu um discreto gole. Um brilho de êxtase muito específico atravessou os olhos dela, um brilho que Isabel, em sua juventude, ainda não havia experimentado. Claramente alterada pela estranha bebida, ela cravou as unhas longas e afiadas no braço do banco.
— Fui escolhida para lhe informar que você está noiva de nosso mestre… de nosso marido, na verdade. — Com facilidade, as unhas dela deslizaram pela madeira, arrancando lascas grossas. — Você foi selecionada para ser a quarta entre nós. Suponho que ele esteja entediado com três.
A cena já era louca o suficiente para Isabel. O assunto do noivado foi a certeza que ela precisava para saber que tinha que sair de lá com urgência, mas sentia que algo alertava sobre o perigo iminente de sair correndo — talvez o braço destruído do banco.
— Marishka, eu agradeço a recepção… calorosa, e a oferta, mas só busco encontrar meu pai e voltar para minha vila.
— Seu pai? Não se preocupe, ele estará presente no seu noivado. — Uma risada discreta seguiu, mas anos de saúde debilitada tornaram Isabel alheia às malícias das conversas mundanas. — Querida, sei da sua frágil saúde. Me conte, não deseja ser exímia em todas as áreas da vida? Forte como um urso, sem limites ao que pode fazer e jamais ficar doente novamente?
A mulher sabia o que falar, e a ênfase no "jamais" teve o peso de uma vida na mente de Isabel.
— Jamais ficar doente novamente? — repetiu ela, débil. O dedo indicador da mão esquerda bateu ferozmente na madeira, ansiosa e sedenta por paz. O cheiro inexistente de doença que sempre a acompanhou invadiu sua mente, trazendo memórias de um passado não tão distante.
— Sim… Sim. Nosso mestre irá lhe propiciar um presente digno de reis e rainhas. Sua saúde atual é a de um plebeu comum. Estamos lhe oferecendo saúde… eterna, e mais… — Ela deu um grande gole na bebida, terminando-a de uma vez. Deixou o silêncio retomar o ambiente, a menina já estava pressionada o suficiente.
Isabel só queria sair daquele lugar horrendo, ficar o mais longe possível da mulher. Se levantou, pronta para correr, e viu, para seu horror, um esqueleto onde estava o homenzinho. A caveira a observava, o corpo ósseo coberto por um manto negro e longo. Uma enorme foice em mãos era a única coisa realmente visível no breu.
Ela sempre soube que a morte a viria buscar, sempre caminhou ao lado dela, mas agora a via pela primeira vez. O horror das memórias da tosse de sangue a tomaram novamente; ela tremia vigorosamente.
— Eu… vou considerar sua oferta, Marishka. Há algum local mais apropriado onde eu possa descansar?
— Igor, leve a pequena aos aposentos dela, onde ela possa se recompor. Obrigada pela saborosa companhia. — Novamente, um sorriso surreal, desta vez com caninos longos e afiados como facas.
O homenzinho veio correndo, lambendo a gengiva pelos vãos entre os dentes, saliva escorrendo pelo canto de seus lábios. Ele apanhou a mão da jovem e a arrastou para fora da catedral, na noite banhada em sangue.
— Obrigada a você também, querida amiga. Facilitou muito o meu trabalho. — Ela olhou de lado, observando a morte. O mórbido esqueleto a observou de volta, silencioso e sedento por aquilo que queria, mas não teria ali…
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Diário de Anton S. Miahi VII
Meu inestimável, Escrevo estas linhas para narrar o inexplicável. Apenas ao rabiscar estas palavras, sinto a sombra daquela noite envolver-me como um manto frio, um toque…
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De Dr. Christopher V. Walker II
(Carta para Anton)
De: Dr. Christopher V. Walker
Paris, 17 de agosto de 1871
Meu inestimável,
Escrevo estas linhas para narrar o inexplicável. Apenas ao rabiscar estas palavras, sinto a sombra daquela noite envolver-me como um manto frio, um toque de horror que a ciência, por mais que avance, parece incapaz de elucidar.
Eu me encontrava na sala de medicina da Universidade de Paris, acompanhado pelo investigador Jules de Moreau e quatro guardas, enquanto outros seis permaneciam atentos nos corredores. A noite estava turbulenta; lá fora, uma tempestade varria Paris com raios e trovões, e mesmo sob a luz das lâmpadas a óleo, cada clarão projetava sombras que dançavam ao redor dos corpos dispostos sobre as macas. O cheiro de chuva e sangue enchia o ar, misturado ao óleo queimado, impregnando o local de um mal-estar indescritível.
— Diga-me, doutor, — começou Jules, com sua voz grave ressoando pela sala, — qual é a sua teoria? Esses corpos, encontrados nas margens do rio, exangues e com sinais de resistência apenas em um dos braços… é como se algo se alimentasse neles.
Parei ao lado de um corpo, o de uma jovem dama, notando algo que até então havia escapado à nossa análise. Havia uma mancha negra se espalhando ao redor das perfurações em seu pescoço, como um mapa macabro de venenos rastejantes.
— Jules, aproxime-se, veja isto! — murmurei, sentindo uma urgência terrível. — A mancha negra parecia pulsar como algo vivo.
Estávamos ambos petrificados diante daquele detalhe perturbador, até que um trovão estourou sobre nós, silenciando a sala. E então, quase como um sussurro ecoante, uma voz profunda reverberou ao redor.
— “Levantem-se, criaturas da noite…”
Os guardas se aglomeraram na porta, enquanto eu, hipnotizado pela voz, me mantive imóvel junto ao corpo. Foi quando ouvi um som molhado e denso: gotas caíam do corpo da jovem para o chão, formando poças negras e viscosas. De repente, os corpos ao redor começaram a se debater, com espasmos horripilantes, como se tivessem sido tomados por uma força oculta.
Os guardas, tomados pelo medo, sacaram as armas e avançaram, mas mal puderam dar mais que alguns passos antes que um novo trovão apagasse todas as luzes, mergulhando-nos na escuridão. Os relâmpagos entravam pela janela, iluminando uma visão aterradora: os corpos já não estavam sobre as macas.
— Atrás de vocês! — apontei, ao ver o brilho fantasmagórico do relâmpago. No mezanino acima de nossas cabeças, pendia o corpo de um dos guardas, os olhos abertos, agora vazios. O que o segurava era uma criatura de pele pálida, olhos vermelhos como brasas e dentes longos e afiados. O som de sua respiração era como o ranger de ossos.
Sem hesitar, as criaturas lançaram-se sobre nós, e a sala virou um campo de batalha. Os guardas disparavam suas armas, mas cada tiro parecia apenas irritar aquelas coisas. Ouvi os gritos, o som de carne sendo dilacerada, e o sangue começava a escorrer pelo chão em filetes escuros.
Caído ao chão, observava aquele pandemônio, até que senti uma mão forte me puxar. Era Jules, com o rosto contorcido em uma expressão de pura adrenalina.
— Rápido, Walker! Vamos! — Gritou o investigador para mim.
Corremos. Deixamos a sala para trás, os gritos de nossos companheiros ecoando enquanto os guardas do lado de fora, ao ouvir os disparos e os uivos das criaturas, corriam para a sala. Mas nós seguimos na direção oposta, tomando os corredores tortuosos da universidade. Meus passos ressoavam junto aos de Jules, cada batida de nossos pés acompanhada pelo eco do horror que deixávamos para trás.
Os corredores, que antes pareciam frios e vazios, haviam se transformado em um labirinto sinistro, cada sombra, uma ameaça, cada passo um desafio à sobrevivência
Enquanto escrevo, ainda sinto os ecos daquela madrugada sombria pulsarem em minha mente, como uma ferida que se recusa a cicatrizar. Nossa fuga pelos corredores da universidade foi marcada por gritos, tiros e o som metálico de garras raspando as paredes. Os policiais que enfrentaram aquelas criaturas, mesmo armados, não tinham chance. O som dos disparos era abafado por gemidos, estalos e súplicas – uma cacofonia de morte e terror.
O coração martelava no peito; a respiração, pesada, tornava-se uma tortura. A cada passo, a exaustão aumentava, mas era impossível parar. Jules estava ao meu lado, o rosto pálido e os olhos arregalados, sua mente oscilando entre incredulidade e pavor.
— Doutor, o que eram aquelas… coisas? Por que os mortos voltaram para caçar os vivos? — ele sussurrava, a voz trêmula, quase suplicante.
Fizemos uma curva e avistamos uma porta entreaberta. Sem hesitar, atravessamos o limiar e a fechamos atrás de nós, encostando-se pesadamente contra ela. Jules continuava com suas perguntas, o Colt .36 tremendo em suas mãos. Eu, por minha vez, lutava para organizar meus pensamentos, mas só pude murmurar:
— Meu amigo, é como se todos os conhecimentos médicos e científicos que acumulamos se tornassem inúteis diante dessa aberração…
Naquele momento, Anton, devo confessar que me senti apanhado em uma teia de forças que escapavam ao domínio humano. Devo ter irritado algo ou alguém com minhas investigações, pois aquele mal parecia ter um propósito que me escapava, uma inteligência sinistra e calculista. Senti a urgência de procurar ajuda espiritual. Talvez eu devesse ter passado na Abadia de Saint-Germain-des-Prés, conversado com o padre Bastien antes de continuar esses estudos macabros. Mas não, minha curiosidade foi minha única guia.
Os ponteiros do relógio pendurado na parede indicavam que era quase cinco e meia da manhã. Notei então uma fina linha de fumaça entrando pela fresta sob a porta e avisei a Jules. Em seguida, ouvimos passos pesados se aproximando, e algo arranhando as paredes com um som que fazia o sangue gelar.
— Prepare-se…. — murmurei, agarrando um mancebo de madeira que achei ao lado. Jules verificou o tambor de seu revólver com mãos trêmulas e o ergueu, firmando-se no centro da sala.
As pancadas na porta ficaram cada vez mais violentas, cada golpe fazendo as dobradiças rangerem. Até que, com um guincho arrepiante, a porta foi escancarada, revelando aquela criatura bestial que nos perseguia. Era uma visão saindo dos pesadelos mais profundos: olhos brilhantes e inumanos, dentes longos e afiados como os de um predador, e uma postura arqueada, como se cada movimento fosse uma ameaça.
A coisa avançou, e em um ímpeto, Jules disparou. O tiro atingiu o peito da criatura, mas ela sequer hesitou. Atingiu-o com uma força descomunal, lançando-o ao chão. Girei o mancebo e golpeei a coisa nas costas, mas foi como acertar pedra – ela se voltou contra mim, o olhar faminto e cruel, e senti suas garras arranharem minha pele.
Jules, ferido e sangrando, conseguiu erguer o Colt novamente e disparou contra o rosto da criatura. Ela recuou, emitindo um urro bestial, mas ainda estava longe de ser vencida. Eu, com uma energia que não sabia possuir, desferi mais um golpe, e ela caiu por um instante. Mas o tempo não estava a nosso favor, pois, em breve, ela se ergueria novamente.
Uma última vez, olhei para o relógio – eram seis horas da manhã. Do alto das janelas quebradas, o primeiro raio dourado do sol irrompeu, cortando a escuridão e tocando o chão. Com um novo grito, a criatura recuou, e ao ser tocada pelo feixe de luz, seu corpo começou a se contorcer e emitir um uivo horrível. Ela fugiu para o corredor, mas já não restava dúvida: a luz do sol parecia ser a única coisa que a deteria.
Corremos atrás, mas ao virarmos o corredor, ela já havia desaparecido, como se a noite a tivesse engolido de volta.
Decidimos retornar à sala onde tudo começara. O caminho estava repleto de sangue, corpos e destroços; o cheiro metálico impregnava o ar. Ao chegar, avistei o cadáver da jovem dama ainda sobre a mesa de dissecação. Sobre seus pés, uma poça de líquido negro, denso e fétido, repousava. Olhei para Jules, ambos entendendo que aquela visão era o epítome de tudo que tínhamos presenciado.
Foi quando, mediante um vitral intocado, o sol invadiu o recinto. Um feixe de luz pousou sobre o cadáver da moça. Em instantes, como por um fogo divino, seu corpo começou a arder translúcido, reduzindo-se a cinzas em um espetáculo silencioso e terrível.
O que seria essa essência negra e pútrida, esse sopro de morte que não mais reconheço, Anton?
De Anton S. Miahi V
(Carta para Dr. Christopher)
De Anton S. Miahi V
Bram, 10 de agosto de 1871
Meu querido e estimado amigo,
Recebo a notícia do ataque que sofreu com um assombro que mal consigo expressar. É como se uma sombra imensa houvesse se arrastado das profundezas até nós. Que esses horrores tenham cruzado a fronteira da nossa França, e ainda mais que tenham se voltado contra você, Christopher — um homem de ciência, um pensador! Tais eventos são de uma natureza tão grotesca, tão inumana, que mais se assemelham à obra de criaturas infernais, daquela maldita estirpe que apenas o próprio Diabo poderia conceber. Sua descrição, vívida e apavorante, fez com que a imagem tomasse forma em minha mente: uma cena tão infernal que me pergunto se aqueles corpos não foram possuídos por demônios.
O jornal que me enviou já me havia deixado intrigado e preocupado. No entanto, esta última carta trouxe uma inquietação que atravessa o mero temor — diria até que roça o desespero. Meu amigo, começo a me perguntar se fiz bem em aceitar este convite para cá. Em minha ignorância, pensei que seria uma aventura entre velhos manuscritos e o pó da História, mas me vejo agora questionando a própria essência do que creio real. Imagino o que meu irmão, cuja ausência ainda sinto como uma sombra em meu peito, pensaria disso tudo. Ele sempre teve um senso prático que, talvez, tivesse me feito ver o que agora não posso ignorar. Ele, em sua racionalidade serena, certamente evitaria esse pântano de incertezas que sinto crescer ao meu redor.
Você sabe, Christopher, que prezo a razão acima de tudo. Marcel bem conhece minha mente cética, minha preferência pela lógica. No entanto, aqui estou, numa terra onde a realidade parece brincar com nossas percepções, onde sombras parecem ganhar vida e as portas dos corredores nunca permanecem exatamente onde as deixei. Sinto-me empurrado, atraído como uma marionete, para dentro de uma rede negra e pegajosa que me envolve cada vez mais.
Pior ainda, sou assombrado por visões e criaturas que desafiam o natural, entidades que parecem emergir de histórias que antes eu teria desdenhado, as lendas ciganas que outrora escutamos com ironia entre copos de vinho. Aqueles contos, amigo meu, me rondam agora como presságios, e uma parte de mim teme descobrir o quanto das palavras deles era verdade.
Cada dia que passa me sinto mais enredado neste lugar. É como um abraço apertado, uma serpente invisível que me envolve em laços escuros, me puxando lentamente para um abismo do qual, temo, já não poderei escapar. É com essa sombra que encerro esta carta, esperando que, ao lê-la, encontre alguma solução que me liberte deste feitiço infernal.
Com gratidão e afeto,
Anton S. Miahi
Anton S. Miahi XIV
(Escrito em meu Caderno)
26 de agosto de 1871 — Acordei num sobressalto. O peito arfava, e a mente, desordenada, lutava para discernir o que era realidade e o que era apenas um delírio fugaz da madrugada. Havia... algo. Como uma sombra de lembrança — ou seria uma ilusão? Um rosto... não, era mais uma presença. Monm. O nome veio como um sussurro em minha mente, trazendo um peso indefinível e uma estranha familiaridade. Sinto que falamos, mas os detalhes se dispersam como bolhas de sabão ao vento, frágeis e transparentes.
Levantei-me, ainda vestido com as roupas do dia anterior e com as botas pesadas nos pés. Não me recordo de como cheguei ao quarto, tampouco lembro de ter caído no sono. Caminhei até a janela, puxei as cortinas, e um relâmpago cortou o céu, revelando o cenário montanhoso, áspero e sombrio. O relógio no canto indicava que mal passavam das sete da manhã, mas meu corpo, exausto e enrijecido, teimava em permanecer no torpor da noite.
A cada lampejo de luz, o quarto oscilava entre sombras densas e tons estranhos de lilás. Tudo parecia imóvel, congelado. Os detalhes ao meu redor eram meros espectros de cor: preto, branco e lilás. Como se o próprio tempo hesitasse, mantendo-me aprisionado em uma madrugada eterna.
Então, o som de passos ecoou pelo corredor. Femininos, leves, mas decididos. Uma presença fria pareceu invadir o ar. Virei-me, fixando o olhar na porta entreaberta, e lá, no vão, uma luz amarelada oscilava. Fiquei paralisado. Um aroma de lavanda começou a invadir o quarto, um cheiro familiar, trazendo de volta uma lembrança distante: minha tenda no exército, o pequeno altar de um oficial ao meu lado... "Para concentração, meu amigo. Uma questão de fé", ele sussurrava, queimando aquelas flores secas. O aroma era intenso, mas a lembrança, frágil. Pisquei e tudo se desfez. O aroma se dissipou; a luz, sumira.
Movido por um ímpeto irracional, dei um passo adiante e abri a porta com violência, encarando o corredor vazio. Olhei em ambas as direções, tentando entender para onde poderia ter ido aquele vulto, aquela luz... aquela presença. E foi então que uma voz rasgou o silêncio.
— Senhor Anton! O que diabos você está fazendo saindo assim?
O susto me fez virar rapidamente, encontrando Nestor, meio escondido nas sombras do corredor. Ele me olhava com uma sobrancelha arqueada, e sua expressão oscilava entre o escárnio e a irritação.
— Procurando... alguma coisa, Nestor? — minha voz saiu estranhamente rouca, como se eu mesmo não acreditasse no que estava dizendo.
E então me indaguei em minha mente, — “Como ele chegou ali, sem fazer qualquer som?”.
Ele riu, aquele riso ácido que poderia conduzir qualquer um ao desconforto e tirar do sério.
— Procurando? Ou apenas vagando como um louco? A essa hora, senhor Anton? E pelo que exatamente?
Suspirei, tentando recompor o pouco de sanidade que me restava.
— Eu... ouvi passos. E havia uma luz, um perfume de lavanda...
— Lavanda? Ora, cavalheiro, agora estamos vendo e sentido fantasmas perfumados? — aquele mordomo esboçou um suave sorriso no canto dos lábios com clara intenção de deboche.
— Nestor… — repliquei, com um tom mais firme — Estou falando sério. Não era minha imaginação. Houve algo, ou alguém, aqui.
Ele se aproximou, e a luz mortiça do corredor destacou o brilho sarcástico em seus olhos.
— "Algo ou alguém", você diz... Como Monm, quem sabe? Que de tão... peculiar, deixou você assim, num estado deplorável.
Meu corpo se enrijeceu ao ouvir o nome. Ele havia dito aquilo de propósito. Monm... Sim, fora ele. Ou algo de sua presença em minha memória. É certo que estive com ele e mais alguém... Um misto de inquietação e confusão revolvia meu estômago.
— O que sabe sobre ele, Nestor? Você sempre fala como se soubesse mais do que diz.
O mordomo inclinou a cabeça, os olhos faiscando com um brilho que mesclava curiosidade e desprezo.
— Talvez eu saiba, caro senhor Anton. Mas cabe ao senhor descobrir até onde consegue ir com essas... suspeitas — Ele se virou lentamente, num sussurro gélido, carregado de um peso sombrio. — Ou essas alucinações, você decide!
A frieza em suas palavras ecoava na penumbra. Minha mão tremia, e meu coração pulsava forte, o odor da lavanda ainda parecia impregnar o ar. Mas antes que pudesse argumentar, Nestor já se afastava, o som de seus passos desaparecendo ao dobrar o corredor.
Permaneci ali, estático. Aquele jogo de provocações e segredos estava corroendo o que restava de minha sanidade. Envolto naquela atmosfera densa e carregada de mistérios, me perguntei, mais uma vez, se eu não era, de fato, o louco que Nestor insinuava.
Ouvi um último eco da voz dele, como se a própria sombra das palavras fosse real:
— Cuidado com o que procura, Anton. Às vezes, as respostas nos encontram primeiro.
Naquela tarde — O sussurro final de Nestor ainda flutua em minha mente, como uma sentença envolta em trevas: "No salão de jantar haverá alguém que o acompanhe desta vez. Ela é a que divide o senhorio deste castelo." Suas palavras cortaram o ar, carregadas de algo indizível. Antes que eu pudesse responder, ele desapareceu, engolido pela penumbra do corredor, como uma sombra esvaída no limiar da visão.
Fiquei ali, imóvel, o coração pulsando, a mente embotada. A imagem de Nestor sumindo na escuridão misturava-se às lembranças confusas da noite anterior... Meia-Noite, Uor, Olga Nivïttz. Nomes que ecoavam em minha cabeça, fragmentos de uma realidade que se desintegrava como papel queimado.
— Então... hoje a verei — murmurei, sem saber a quem dirigia minhas palavras, como se a própria escuridão ouvisse e absorvesse minha incerteza.
O silêncio me sufocava. Havia meses que eu residia neste castelo, vagando por seus corredores sombrios, sentindo a presença do próprio Conde Drácula como uma sombra que nunca se dissipa. Mas esta seria minha primeira vez diante dela. Ela, a senhora oculta das muralhas de pedra e das câmaras seladas por mistérios. O que poderiam Monm, Uor e Meia-Noite saber que eu não sabia? E até onde as palavras deles eram dignas de confiança?
Quando dei por mim, já estava em meu quarto, movido por uma vontade instintiva de me preparar. Vasculhei o guarda-roupa, tirando do cabide uma camisa de linho branco — tão claro que quase parecia uma afronta em meio àquela penumbra. Escolhi também um colete de couro negro, a cor das noites eternas que cercam o castelo. Vestindo-me com rapidez, ajustei a camisa, passei a mão pelas botas para livrá-las do pó acumulado, e me pus diante do espelho. Os espelhos, sempre tão traiçoeiros...
— Esta é a imagem que levarei para a presença dela... — sussurrei, observando-me atentamente. Meus próprios olhos pareciam me desafiar, como se escondessem um segredo que até eu desconhecia.
Arrumei o colarinho, alisei a frente do colete e dei um passo para trás, inspecionando o alinhamento de cada peça. Meus dedos estavam frios, mas o espírito... O espírito, eu tentava preparar o melhor que podia. Inspirando fundo, virei-me e saí, meus passos ecoando pelo chão de pedras. Marchava em direção ao inevitável, como um soldado destinado ao sacrifício.
O corredor principal me esperava, longo, sombrio, um túnel de madeira e pedra, iluminado apenas por candelabros de metal corroído que lançavam sombras deformadas nas paredes. Cada vela tremulava com uma leve brisa, como se uma presença invisível me seguisse, ansiosa por ver o que eu descobriria no final desse percurso.
Enquanto avançava, o ar parecia pesar mais, preenchendo meus pulmões com uma umidade densa, como se até o próprio oxigénio carregasse o cheiro de tempos passados. De repente, a decoração do castelo, antes apenas uma extensão da escuridão, pareceu ganhar vida. Paredes adornadas com tapeçarias desbotadas, desenhos de batalhas antigas e figuras de seres esquecidos pelo tempo. Quase podia ouvir os gritos abafados e os sussurros ancestrais que emanavam de cada trama.
Cheguei ao portal principal que me conduziria ao salão de jantar. As portas pesadas de carvalho negro, decoradas com entalhes de criaturas míticas e rostos que observavam com um olhar quase humano, destacavam-se como os guardiões de um segredo profundo. Toquei a madeira fria, hesitando.
"Anton..." minha própria voz soou estranha, como se fosse um eco que retornava de um lugar distante. — O que espera encontrar? E se... se aquilo que lhe disseram for verdade?
Sacudi a cabeça. Não havia mais volta. Empurrei as portas e, de súbito, o salão se revelou, banhado em uma luz mortiça e trêmula. O espaço era vasto, com teto arqueado, decorado com lustres de cristal que pendiam como lágrimas de uma noite eternamente suspensa. O chão era de mármore escuro, onde sombras dançavam, movendo-se como entidades de uma realidade à parte.
No centro do salão, uma mesa imensa, ladeada por candelabros de prata altos e pesados, cujas chamas tímidas lançavam uma luz que não chegava às extremidades da sala. Ali, em uma das cadeiras ao centro, uma figura feminina esperava, imóvel, o olhar fixo e atento.
— É ela. — sussurrei entre dentes.
Meu corpo hesitou, uma mistura de curiosidade e temor congelando cada músculo. Forcei um passo à frente, e foi nesse momento que sua voz rompeu o silêncio.
— Senhor Anton Stefan Miahi... quão fascinante é receber-te n’este momento singular... — proferiu ela, em um tom que parecia dançar entre a formalidade cortês e a introspecção calculada, cada palavra carregando um peso que transcendia o momento. — Revela-me, somos frutos do acaso ou a predestinação trouxera tua calorosa presença à minha neste alvor silente?
— Senhora Nivïttz, eu... não esperava tamanha... hospitalidade — respondi, sentindo o peso de cada palavra enquanto me aproximava.
Ela sorriu com uma seriedade única, e havia algo em sua postura que combinava elegância natural e uma presença quase etérea. Uma mulher de olhar profundo e enigmático, cuja força de personalidade transparecia em cada gesto. Seu modo de falar era impecavelmente rebuscado, como se cada palavra fosse uma peça trabalhada por um artesão.
– É-me um insólito prazer, Senhor Anton. Algumas recepções, devo, entretanto, advertir, são conjecturadas para além da congruente psyché. – disse ela, inclinando a cabeça ligeiramente, como quem pondera a profundidade do desconhecido. – Esta é a seiva rubra e viva d'este meu Castelo: uma reflexão, decerto, da mórbida inquietação dos que sob seu teto residem.
A mesa diante de mim estava repleta de alimentos, alguns familiares, mas muitos outros exóticos, de origem desconhecida. Fome e receio se misturavam em meu estômago.
— Senta-te, Anton, se assim me concedes a ousadia de ordenar — ela me convidou, indicando a cadeira ao seu lado, com um gesto que era, ao mesmo tempo, gracioso e autoritário, como uma monarca distribuindo favores. — Raríssimo sopro de serenidade é este, como uma lacuna dentre o caos; um momento sublime que nos permite apreciar sem pressa... — Um silêncio se alastrou sufocante. — Deleita-se, pois, a efemeridade é o orvalho sob o sol nascente.
Engoli em seco e tomei o assento. O ambiente carregava uma tensão que parecia se solidificar a cada momento. Ela me observava, trazia uma sutileza persuasiva que oscilava com uma seriedade perturbadora e enigmática, uma pista de seus pensamentos complexos.
— Diga-me, Anton… — ela retomou, sua voz envolta em uma cadência quase musical, como se cada palavra fosse selecionada com uma precisão cirúrgica. — O que encontraste, caríssimo, dentre os claustros ocultos e os aposentos sombrios de meu lar, despertara as estranhas de tua inibida curiosidade?
— Pode-se dizer que há muito que me intriga, senhora Nivïttz.. — Respondi, cauteloso. — Mas não sei até onde as descobertas são minhas... ou foram deixadas para que eu as encontrasse.
Ela inclinou-se ligeiramente, os olhos agora com um brilho intensamente curioso.
— O desvelar, em sua quintessência, não se realiza à ínsula de si mesmo. Ao contrário, o buscador e o buscado entrelaçam-se, como se regidos por uma indissociável força, sob silencioso acordo. A seiva que irriga as profundezas d’este alcácer, prezado Anton, tanto quanto o verbo que o fundamenta, possuem anseios e intenções verossímeis, seus arcanos não se manifestam à parte do consciente subjetivo.
Suas palavras caíram sobre mim como um manto pesado, e percebi que ela sabia mais do que demonstrava, que cada frase, cada olhar, escondia significados ocultos, camadas de intenções que não me eram reveladas.
— Como se o castelo tivesse vida própria? — murmurei, mais para mim mesmo.
O frio subiu pela minha espinha, e percebi o quão exposto eu me sentia. Mas Olga mantinha uma postura acolhedora, sincera em sua complexidade.
Ela sorriu, e sua expressão suavizou, mas sem perder o mistério.
— Para um ínfimo resumo, quiçá... Mais que um mero observador, Anton, o Castelo é um anfiteatro mórbido e egrégio, bem como é uma personagem, um narrador e uma testemunha. A sabedoria silente que o habita, acolhe a todos como parte de seu sui generis enredo.
Foi nesse momento que ela inclinou levemente a cabeça, como se observasse algo invisível ao meu lado, e seus olhos ganharam uma profundidade incomum. Ela abriu os lábios, e sua voz veio baixa, quase um sussurro:
— Lilaenatt somnien...— Quase não a compreendi e não sei se este seria a grafia correta do que foi dito por ela, apenas senti um estranho sentimento ao ouvir suas palavras. Parecia um latim arcaico. — Algo ao teu derredor, caro Anton, emana-se e esparge como nódoa instável. — Seus olhos pareciam observa algo além de mim, o que me forçou a revistar minha própria pessoa e os arredores com algum resquício de ceticismo e resistência. — Esta aura... —retomou ela. — Enraíza-se em teus passos pretéritos... um eco de laços ancestrais? Interessante expressão do Atemporal. Vejo alvililás... Pode ser tal vínculo uma sugestão d’um elo inexorável ao teu destino?
Ela estava absorta em sua própria análise daquilo que ela parecia ver e eu não, enquanto este professor apenas buscava entender o que ela dizia.
— O que quer dizer com isso? — perguntei, a tensão na minha voz evidente. — O que você viu?
De um momento a outro ela se levantou lentamente, o olhar ainda fixo em mim, mas agora impenetrável. Algo claramente parecia haver chamado sua atenção. Por um momento, pensei que fosse responder, mas Olga apenas ajeitou o vestido com um gesto meticuloso e recuou um passo.
— Perdoe-me, Anton… — disse ela, suavemente. — Parece que algo requer minha imediata atenção. Hórrido é não mais aprazer-me d’este momento tão interessante. — Sua expressão ficou marmórea.
E assim, em silêncio, ela se retirou. Seus passos eram firmes e ligeiros. Deixando-me sozinho com minhas dúvidas e o eco de suas palavras. Sentia que havia algo mais no que dissera, algo que escapava à minha compreensão, mas que me perseguiria enquanto eu vivesse. Ou, além disso.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Diálogos de Olga Nivïttz por:
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
O Abismo da Vigília
Velian caminhava pelas ruas de Fortaleza, sob um calor que parecia abraçar a cidade com uma intensidade sufocante. O sol havia se posto há horas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Velian caminhava pelas ruas de Fortaleza, sob um calor que parecia abraçar a cidade com uma intensidade sufocante. O sol havia se posto há horas, mas o asfalto ainda exalava o calor acumulado durante o dia. A cidade parecia viva, mas em um estado de convulsão, uma humanidade febril dividida por seus próprios abismos. Ele vagava entre os humanos como um espectador cínico, observando a banalidade e a tragédia de suas vidas.
Nos últimos dias, havia explorado os shoppings abarrotados, os corredores estéreis do aeroporto, os shows de rock onde os corpos se agitavam ao ritmo ensurdecedor da música. Cada lugar era um espelho fragmentado da humanidade: extremos de pobreza e riqueza coexistindo, separados por muros invisíveis, mas palpáveis. Velian percebia o desdém nos olhos dos privilegiados e a desesperança naqueles que lutavam para sobreviver. Humanos tinham nojo de outros humanos, e isso o fascinava e o enojava ao mesmo tempo.
Ele se sentia saturado. A degradação social, a superficialidade dos desejos e a hipocrisia das normas o exauriam. “Como pode eles se apegarem a algo tão vazio e, ainda assim, temerem o vazio verdadeiro?”, pensava. O que antes o atraía nos humanos — sua criatividade, seus impulsos, sua capacidade de amar e destruir com igual fervor — agora parecia reduzido a ecos de uma glória perdida. Velian ansiava por algo além da vigília, algo mais profundo do que essa realidade sufocante. Ele precisava escapar.
O Retorno ao Castelo
Naquela noite, recolheu-se à sua mansão à beira da Praia de Iracema. A casa era um refúgio de silêncio e sombra, isolada do barulho constante da cidade. Em seu quarto, onde a escuridão era absoluta, Velian sentou-se em uma poltrona forrada de veludo, fechou os olhos e começou a meditar. Ele não sabia ao certo o que buscava, mas seu desejo o guiava.
“Castelo Drácula” murmurou, como se invocasse um antigo pacto. “Leve-me de volta.”
E então, como se sua vontade fosse uma chave, sentiu o mundo mudar ao seu redor.
As Trevas Falam
O castelo o recebeu com o mesmo mistério de antes: vastos corredores de mármore negro, candelabros flutuando, o som distante de um piano. Mas desta vez, havia algo mais. Uma presença. As Trevas o envolveram como um véu pulsante, um manto vivo que parecia sussurrar diretamente em sua mente.
“Você voltou ao Castelo Drácula” disseram as Trevas, suas palavras ecoando como se viessem de todas as direções. “O que busca desta vez, Velian?”
Ele suspirou, mas sua resposta foi carregada de sarcasmo. “Talvez eu só queira me esconder da humanidade. Eles são tão... patéticos. Ou talvez eu queira me esconder de mim mesmo.”
As Trevas riram, um som profundo e reverberante. “Você não pode se esconder de nós. Somos as perguntas que você teme fazer, os desejos que não ousa admitir. Diga-me, Velian, o que você realmente quer?”
Ele hesitou, mas então respondeu: “Quero respostas. Sobre o que sou. Sobre o que é real. Sobre o que significa viver quando se está morto.”
“Ah, mas viver,” disseram as Trevas, “não é simplesmente desejar? O desejo, Velian, é a centelha que impulsiona o viver. Você deseja sangue, corpos, experiências. Deseja entender e ao mesmo tempo permanecer envolto em mistério. E ainda assim, teme seus próprios desejos, teme suas próprias dúvidas.”
Velian franziu o cenho. “E o que há para temer no desejo? Ele é tão natural quanto respirar.”
“Natural? Talvez,” responderam as Trevas. “Mas o que você diz do desejo que desafia todas as normas? Seu desejo pelo indefinido, pelo que transcende gênero, forma e limite? Você é atraído tanto pela carne quanto pela essência, tanto pelo masculino quanto pelo feminino — ou pelo que está entre, ou além. Isso o liberta, mas também o prende, não é?”
Ele sentiu as palavras como um golpe. “Eu não sou prisioneiro. Se há algo que sou, é livre.”
Livre?” questionaram as Trevas. “Livre para desejar, mas incapaz de compreender o que realmente deseja? Livre para existir em um corpo que transcende os limites humanos, mas ainda assim preso à dúvida sobre o que significa ser? E a liberdade, Velian, é realmente liberdade se está sempre acompanhada pelo medo do vazio?”
Reflexões Profundas
Velian ficou em silêncio, as palavras das Trevas ecoando em sua mente. Ele sempre se considerara livre — fluido em seus desejos, indefinível em sua identidade. Mas as Trevas estavam certas: essa liberdade vinha com um preço. Ele sentia a tensão entre a atração e a repulsa, o prazer e a culpa, o desejo de se fundir com algo maior e o medo de perder a si mesmo.
“Diga-me,” ele finalmente perguntou, “se viver é desejar, o que significa desejar algo que nunca pode ser alcançado?”
As Trevas pareceram sorrir, mesmo sem forma ou rosto. “Significa que você está vivo, Velian. Pois o desejo é a busca incessante, e a dúvida é o combustível dessa busca. Você busca a verdade, mas teme encontrá-la. Busca amor, mas teme a entrega. Busca a eternidade, mas se pergunta se ela não é apenas outro tipo de prisão.”
Ele fechou os olhos, tentando processar o turbilhão de pensamentos. “E a magia? – Não que Velian não soubesse dos grandes poderes da magia e conseguia executar até mesmo algumas grandes magias ancestrais em seus 700 anos de vida vampiresca, mas perguntava sobre a essência da magia – E os sonhos? Eles são reais ou apenas um reflexo do que queremos que seja real?”
“E se forem ambos?” disseram as Trevas. “O real e o irreal, o tangível e o etéreo. Como você, Velian, que é ao mesmo tempo carne e espírito, gênero e ausência, desejo e dúvida. Você não é um reflexo de sua própria magia?”
Velian sentiu uma onda de exaustão, mas também uma centelha de compreensão. As Trevas não davam respostas; elas apenas ampliavam as perguntas. E talvez fosse isso o que ele precisava.
De Volta à Vigília
Quando despertou, estava de volta ao seu quarto. O silêncio e a escuridão eram os mesmos, mas algo dentro dele havia mudado. As palavras das Trevas ainda ecoavam em sua mente, suas dúvidas e desejos pulsando como uma melodia interminável.
Levantou-se, caminhando até a janela que dava para o mar. A cidade estava viva, mas parecia tão distante quanto as estrelas apagadas no céu. Ele sabia que retornaria ao castelo, mas por agora, precisava se perder mais uma vez entre os humanos, entre suas luzes e sombras, entre seus próprios desejos e dúvidas.
“As Trevas estavam certas,” murmurou para si mesmo. “Viver é desejar, e talvez isso seja o bastante, por enquanto.”
E assim, Velian saiu para a noite, carregando consigo as perguntas sem respostas, as incertezas que o definiam, e o desejo incontrolável de continuar vivendo — e duvidando.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Às Trevas
Oh, Trevas, mulher de pele alva, | teu abraço é um manto que cala o grito, | teu sorriso, uma curva de mistério infinito, | e teus cabelos, negros como a noite sem estrelas,…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Oh, Trevas, mulher de pele alva,
teu abraço é um manto que cala o grito,
teu sorriso, uma curva de mistério infinito,
e teus cabelos, negros como a noite sem estrelas,
despem-se sobre o abismo do meu ser.
És o que é e o que não pode ser,
um sussurro entre o real e o sonho,
onde a dúvida se faz melodia,
e a certeza, mera ilusão.
Oh, Trevas, guia-me com teus passos silenciosos,
pois és a dança de tudo que se perde
e tudo que se encontra no eco do vazio.
Em teus olhos não há luz,
e, ainda assim, vejo a beleza do infinito.
Não és sombra, mas a face do oculto,
a pulsação da incerteza e do desejo,
aquela que pergunta, mas não responde,
que dá forma à ausência e sentido ao caos.
Trevas, teu conhecimento é como a noite,
profunda, vastamente desconhecida,
tua confusão é a chama que ilumina
o que o dia jamais ousaria revelar.
És a donzela dos segredos,
o ventre onde nascem todas as possibilidades,
o sagrado e o profano, entrelaçados
no tecido do desconhecido.
Se és perda, também és reencontro.
Se és dor, também és êxtase.
Beleza que transcende o toque,
que seduz com a promessa de não ser compreendida.
Trevas, teu nome é amor e abismo,
um eterno beijo que se dissolve no nada.
Oh, mulher de cabelos negros como a morte,
e pele alva como a lua distante,
deixa-me cair em teus braços silenciosos,
onde a dúvida se torna o maior dos prazeres,
e a certeza, apenas um eco esquecido.
Porque em ti, Trevas,
encontrei não a resposta,
mas a pergunta que me faz viver.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Fragmentos na escuridão
Recordo-me dos fragmentos, | estilhaços que caem como ecos no abismo do chão, | as sombras dançam, | de uma presença silente e tímida, | que se oculta nas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Recordo-me dos fragmentos,
estilhaços que caem como ecos no abismo do chão,
as sombras dançam,
de uma presença silente e tímida,
que se oculta nas ossadas dos vitrais quebrados,
seus olhos negros, vazios, encontram os meus,
e, como cacos de vidro,
minha alma se despedaça,
perdendo-se nas profundezas insanas
de um precipício eterno e sem fim.
Deleito-me na fria sobriedade,
seduzida pelo sussurro envenenado da escuridão,
que, com garras de ferro forjadas,
arranca meu coração ainda vivo, mas morto.
Ainda hoje, lembro-me da dor,
e ainda hoje, me deito,
entre as ruínas de seus vitrais em cacos,
onde a escuridão é meu único refúgio.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Vazio
Foi-se um baile há muitas conjunturas | Que ainda ressoam lúgubres histórias | Muita gente, muitas memórias | De amores, sonhos tolos, vãs loucuras…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Foi-se um baile há muitas conjunturas
Que ainda ressoam lúgubres histórias
Muita gente, muitas memórias
De amores, sonhos tolos, vãs loucuras
Risos de chamas e cabelos negros
Olhos serpenteiam, riscos nos lábios
Ninguém se conhece, nem os larápios
Beijos furtados de vinho... Byron... gregos
Resta um baile de máscaras sombrio
Visitantes... então o salão vazio
Apenas fantasmas que ainda rondam
Bebendo de gota em gota se esgota
Presente, passado e futuro findam
Velando ao anfitrião da vida morta.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Noites
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Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Todas as noites aparece
Vem em formas visíveis tais
Que de lado a outro do globo
Se observa inteira
Ora se esconde na intimidade dos olhos, se banha
E retorna intumescida a cada temporada
Nua ao céu aberto
Poetas inserem suas “lúgubres histórias”
Pessoas se alteram nos becos
As luzes da cidade não lhe tiram o reflexo
Está sempre a acompanhar
Todos os passos noturnos
Sente saudade da chegada dos decaídos
Os seres saem dos trabalhos
E precisam uivar como seus ancestrais
Entrar em águas profundas e
Perder a sua bússola
Ela é o olho sobretudo
Se não fosse nossas luzes
O lado obscuro
Da lua
É o seu descanso de nós.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Violenta II
O tempo de colheita já passara; | Passara o triste inverno e suas chuvas… | Somente o que não finda, o que não sara | Jamais: uma lembrança que machuca…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O tempo de colheita já passara;
Passara o triste inverno e suas chuvas…
Somente o que não finda, o que não sara
Jamais: uma lembrança que machuca.
Num sempiterno voo, fazendo sala;
Insone predador, de garra adunca —
A cada vez que penso rechaçá-la,
Voltando ao fim mais forte do que nunca…
Presente em meio às provações do dia,
Também nas madrugadas, quando, em claro,
Batalho sempre em vão por meu descanso,
Pensando longamente na desdita
De ser por esta sombra o responsável:
Revés que originei e nem mesmo alcanço…
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…