Escrito por Ana Kelly, -Poesias Ana Kelly Escrito por Ana Kelly, -Poesias Ana Kelly

Máscaras

Lamentos, | Murmúrios. | Calafrio em minha espinha, | Você não está aqui. | Oh, enigmático ser que me hipnotizou, | Alcançou minha alma, | Tirou de mim...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Lamentos,
Murmúrios.
Calafrio em minha espinha,
Você não está aqui.

Oh, enigmático ser que me hipnotizou,
Alcançou minha alma,
Tirou de mim o que nunca pensei existir...
Amor.

Entre os passos de dança e risos falsos,
Procuro-te entre rostos encobertos.
Neste vasto salão,
Onde bailam seres incompletos.

Nem o traje mais bonito,
Nem o fato de te amar,
Neste baile sombrio,
São suficientes para te encontrar.

A cada valsa,
À procura dos olhos teus
Sinto que se esvai de mim
A esperança que antes me deu.

Definho neste salão,
Inconformada sem tua presença.
Nesse baile de máscaras
Já não me resta mais nada.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Onde as Névoas se Rompem

O peso do meu próprio corpo não mais existia; o turbilhão de pensamentos e a angústia pareciam nunca ter existido. Meus passos eram leves; quase…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O peso do meu próprio corpo não mais existia; o turbilhão de pensamentos e a angústia pareciam nunca ter existido. Meus passos eram leves; quase poderia flutuar. Uma brisa fria, como antes do amanhecer, tocava meu rosto. Eu estava livre. 

Abri meus olhos; quase não podia enxergar. Encontrava-me entre névoas, envolta em um lilás etéreo que me fazia questionar que lugar seria aquele. Estaria eu sonhando? O silêncio era inebriante; se eu tivesse uma alma, com certeza ela estaria vibrante. 

— Ane, você veio! 

Esforcei-me para olhar entre as névoas que se abriam diante de mim. Lá estava ela, vestida de um branco tão puro que machucava meus olhos. 

— Carrie! — Minha irmã parecia um anjo. Corri a seu encontro e a abracei fortemente. — O que faz aqui? Onde estamos? 

— Quantas perguntas! Não sei se poderei responder a todas, mas precisava muito ver você. — A pequena que eu tanto amava se soltou do meu abraço e fez um gesto para que eu a seguisse. 

Seguimos por um caminho feito de algo que eu não saberia dizer. Estava descalça, mas nada sentia sob meus pés. Talvez andássemos sobre as nuvens, pensei. 

— Sim, são como as nuvens... — Carrie parecia adivinhar meus pensamentos. — Por aqui não há outro tipo de sentimento senão o vazio; a existência é uma quimera. 

— Aqui é o céu? — perguntei, interessada. 

Minha jovem e doce Carrie apenas sorriu. 

— Não sou digna de tanto, mas não consigo pensar que não seja. — Nunca havia me visto livre da dor terrena. Antes, o vazio machucava e me fazia ansiar por algo a mais; agora, ele é um deleite. De fato, tenho a companhia de um anjo... uma fada. 

— Não, Ane. Você não é digna! — Sua voz agora estava áspera, com um desprezo que eu nunca tinha ouvido antes. Sua fisionomia parecia diferente. 

— Carrie... — De maneira repentina, tudo o que antes sentia transformou-se em preocupação. 

— Ane, você é um monstro! — Sua face demonstrava medo. 

Tentei tocar em seu ombro, mas ela se esquivou de mim, dando um passo para trás. 

— Eu nunca tive a intenção... 

Não havia percebido, mas a atmosfera, antes tão acolhedora e tão clara, havia enegrecido. O único ponto de luz era uma garotinha de baixa estatura, minha irmã caçula, que agora parecia ter horror de mim. 

— Carrie, me perdoa! 

— Eu não posso te perdoar, Ane... não mais. 

Ela direcionou sua cabeça para o alto e gritou desesperadamente. Tentei mais uma vez me aproximar, mas paralisei diante da cena. Seu vestido branco foi bruscamente tingido de carmesim, enquanto todo o seu frágil corpo tornava-se cadavérico. 

Caí de joelhos sobre ela, mas já não havia mais nada além de um tecido branco-carmesim. Não, ali não era mesmo o céu, era o inferno. 

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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3 - Velório Penumbral

Faz alguns dias que tive um sonho com Marcos, a criatura de Frankenstein. Tenho me sentido só neste castelo imenso. Ao circular por aí, tenho visto…

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Diário de Sibila von Lichenstein
08 de outubro de 1870

Faz alguns dias que tive um sonho com Marcos, a criatura de Frankenstein. Tenho me sentido só neste castelo imenso. Ao circular por aí, tenho visto outros habitantes, mas a minha vida ensinou-me que o perigo espreita em cada esquina, com a morte logo atrás. Por isso, escolhi não conversar com ninguém, preferindo apenas os observar à distância. Claro que, com o passar dos dias, já me sinto mais habituada a esta nova morada; porém, ainda não faço ideia do propósito de minha chegada aqui. 

Explorei os incontáveis cômodos, perdendo-me na sucessão interminável de salas. O único local que tenho mais facilidade para encontrar é a biblioteca. Tenho lido os volumes que estão na minha língua natal; acho que faço isso porque sinto falta da Universidade, embora ela me lembre muito minha amiga Eleanor. 

Hoje, no entanto, o castelo parecia diferente, como se carregasse um peso invisível que refletia o meu próprio. Algo no ar estava mais denso, os detalhes familiares pareciam ter adquirido contornos mais sombrios, e um sutil arrepio percorria minha pele. O corredor que me levava à biblioteca estava mais longo, vazio, e as paredes pareciam estreitar-se à medida que eu caminhava.  

Desde a época que residi com Viktor, habituei-me à solidão. Mas ao perceber que as paredes pareciam vivas ao estreitar-se, desejei ardentemente que alguém aparecesse ou que a porta da biblioteca aparecesse logo para me tirar daquela espiral opressora, sabia que os livros poderiam guiar os meus pensamentos por outros caminhos, quem sabe até o campo verdejante onde encontrei Marcos. Comecei a sentir um cheiro peculiar de velas acesas. Avançava devagar, os passos ecoando como um sussurro de algo vivo, algo que espreitava nas sombras. O tecido de minhas vestes roçava contra minha pele, áspero, pesado. Não era o vestido de sempre; havia algo de errado. A sensação de que algo estava fora de esquadro fez meu peito oprimir-se, dando-me a impressão de que havia um peso enorme sobre ele, dificultando minha respiração.  

Um pensamento intrusivo fez-se presente: "Deus, sendo justo, permitiria que eu escapasse impune do que fiz?". Eu sabia que esse tipo de pensamento sempre me atormentaria, desde que comecei a residir com o Viktor, mas agora eles fervilhavam meus miolos, como se os apodrecesse de dentro para fora. 

Parei no meio do corredor. Decidi olhar para as mangas de meu vestido, percebi que não era mais o meu costumeiro vestido azul royal, e sim um confeccionado de um tecido negro, áspero e pesado. Tão pesado quanto a culpa que eu carregava pelas mortes de todas as mulheres que eu permiti acontecerem. Olhei para a minha longa saia e ela também abandonara o azul intenso para aderir ao escuro vazio e pesado. Assustada, levei a mão ao rosto. Só então, percebi que elas estavam calçadas com luvas de uma delicada renda negra que continha ricos desenhos de rosas também negras. Meus dedos encontraram um véu — fino, escuro como a noite sem estrelas, um que as beatas costumam usar para cobrir a cabeça em velórios. Era como se o véu não apenas cobrisse meu rosto, mas também todo o meu ser, um símbolo opressivo de luto e culpa que parecia pesar sobre minha alma. Lentamente, dei-me conta do que trajava: o vestido de uma viúva ou carpideira. Quando havia vestido aquilo? 

Continuei a caminhar pelo corredor, esgueirando-me, raspando e rasgando minhas vestes pelas paredes estreitadas, até que consegui escapar, estava dentro do salão da grande biblioteca. Eu reconheci o lugar porque já visitara a biblioteca algumas vezes. Mas, assim como o corredor, ela também estava diferente. As janelas longilíneas, adornadas com longas cortinas magenta, permitiam que a luz da lua adentrasse e iluminasse o cômodo.  

Nenhum som se propagava, de modo que apenas os meus passos podiam ser ouvidos, quebrando a quietude do ambiente. O cheiro de velas queimando persistia e estava muito mais pronunciado. Logo vi o porquê: vários castiçais de ouro estavam espalhados pelo ambiente. Junto ao cheiro de cera derretida, outros misturavam-se, era novamente o de lavandas, mas também de outras flores, erguendo o olhar pude perceber que além dos castiçais, arranjos de flores enormes e circulares adornavam o ambiente. Além das lavandas, provavelmente colhidas nos jardins do Castelo, grandes rosas negras conferiam morbidez e robustez às coroas de flores.  

Eu sabia que estava na biblioteca, mas as pesadas estantes de carvalho que abrigavam os livros — pelos quais eu tanto ansiava, para aliviar a minha mente do seu pesado fardo — não estavam mais lá. Em seu lugar, uma fileira de caixões. Todos estavam fechados, com exceção de um central, cuja tampa repousava em pé, apoiada ao lado e no próprio caixão. Ao me dar conta que eu estava em um velório, e que um dos cheiros que eu sentia misturado às velas e às flores era o de corpos em decomposição, senti o sangue abandonar a minha face. Tive ânsia de vômito, vontade de correr para fora, mas ao me virar notei que o cômodo não tinha porta, apenas janelas e as tão conhecidas paredes frias de pedra. O caixão central, apesar de exercer horror, ambiguamente me atraía, eu precisava saber quem repousava ali. 

Privada de outra escolha, comecei a caminhar em direção a ele, no corredor central que os outros caixões formavam. Não ousei olhar para os lados, mas minha visão periférica notou que uma espécie de líquido negro e viscoso estava sendo vertido de dentro deles e escorria pelo chão, em grandes quantidades. O corredor era longo, ou o fio do tempo se esticava? Parecia que, quanto mais eu caminhava, mais longe o caixão central estava. Demorei tanto a alcançá-lo que o líquido negro escorrera pelo chão da biblioteca, molhando a barra do meu vestido e tornando-o mais pesado ainda. 

Quando finalmente alcancei o caixão central, algo em meu peito se apertou, como se uma força invisível me impedisse de avançar, como se ao redor de meu coração uma mão o esmagasse e o liquefizesse. O líquido negro ainda escorria pelas paredes, pelas pedras do chão, mas minha atenção estava fixada na madeira escura, polida, que repousava diante de mim. Joguei a tampa do caixão com toda a minha força no chão. Ali, dentro do caixão, repousava ela. 

Eleanor. Primeira vítima que atraí para as garras de Frankenstein. 

Meu corpo tremia, mas não conseguia desviar o olhar. O silêncio da biblioteca, antes pesado e opressor, agora parecia ensurdecedor, preenchido apenas pelo som de minha respiração, profunda e apressada. O cheiro das flores e das velas se mesclava ao ar denso e pesado de morte. Uma única lágrima escorreu pela minha face, tão fria e solitária quanto eu me sentia. A conversa que tive com Marcos, embora eu soubesse que fora apenas um sonho, me ajudara a lidar com a culpa que eu sentia, me ajudara a teimar em continuar a minha vida. Mas a visão de Eleanor, naquele estado, no caixão, perturbou-me sobremaneira. Martirizei-me, morta por minha culpa, porque eu a atraí para o covil do lobo. Eu simplesmente não suportei olhar para seus cabelos dourados e seu rosto pálido, e debrucei-me sobre seu corpo, finalmente dando vazão à torrente de sentimentos através das lágrimas que brotaram cada vez mais. 

Fiquei alguns segundos imóvel ao perceber que o peito dela se movia fracamente para cima e para baixo. Um calafrio percorreu minha espinha quando, ao mirar seu rosto, vi seus olhos abrirem-se lentamente. Ao invés do azul da cor do mar, estavam putrefatos, tomados por vermes. Seus lábios se entreabriram, ela girou o rosto inesperadamente, com um movimento inumano, escutei o som dos ossos de sua nuca rangendo, então ouvi ela dizer, porém seus lábios não se mexeram: 

— Você me trouxe até aqui, Sibila! Você me fez fazer parte do seu pesadelo, agora pague o preço! 

— Perdoe-me, minha querida. Eu não sabia que Viktor faria o que fez com você. Sinto muito, por favor, me perdoe. 

— Eu não posso te perdoar, pois não existo. O perdão reside muito mais no interior de cada um que o almeja do que qualquer outra coisa. 

— Como assim, Eleanor? Por favor, eu lhe rogo, tire o peso que está sobre meus ombros! Não posso mais continuar a viver com essa dor que me aflige dia após dia, hora após hora. 

— Você quer se livrar da dor, Sibila? — A voz de Eleanor soou fria, quase etérea, como se ela não fosse mais de carne, mas de um espírito vago e inatingível. — A dor que você sente é um reflexo daquilo que você fez, da sua escolha de me arrastar para aquele inferno. Não há redenção para quem se recusa a ver a própria culpa. 

Ela se inclinou ligeiramente para frente, seus olhos agora completamente tomados por uma podridão viscosa, seus lábios se curvando em um sorriso grotesco. 

— Como pode dizer que não enxergo a minha própria culpa? Não há um dia sequer em que eu não pense no que fiz a você e a elas. Por favor, me perdoe. Sinto muito. Por isso que Viktor não vive mais entre nós; eu dei um fim a ele, nem seu corpo fiz questão de esconder ou enterrar, tamanho o asco que sentia daquele velho. Eu confiei nele, Eleanor, assim como você confiou em mim. Nós duas somos vítimas dele. 

— Nós duas? Olhe pra mim, eu sou apenas uma casca sem vida, sendo devorada por vermes. Antes de me matar, ele violou o meu corpo, várias vezes! Ele me amarrou e me vendou, injetou diversas substâncias psicotrópicas em mim. Passei dias e mais dias com frio, fome e fora da realidade. Você acha que matar Viktor apagará isso? — A risada de Eleanor soou vazia, ecoando nas paredes da biblioteca. — Não, Sibila, não é assim que a culpa desaparece. Não é o corpo dele que nos persegue, mas sim o que ele deixou em nós, nas escolhas que fizemos. 

— Eu não sabia...! Eu preciso, Eleanor, preciso do seu perdão e o de todas elas. Onde está sua compaixão? — Agarrei seus ombros e a chacoalhei dentro do caixão. 

Suas feições se tornaram mais horrendas e ameaçadoras: 

— Onde está a minha compaixão? Não existe redenção, Sibila. Não enquanto o veneno do que você fez correr em suas veias. Você não pode apagar o que já está marcado em sua alma. O perdão é uma ilusão que você criou para tentar se livrar da sua culpa, mas ela não desaparecerá. Não se você continuar se escondendo nela. 

Ouvi o terrível som de seus ossos se movimentando, suas mãos agarraram o meu pescoço. Tentei falar, insistir no tão almejado perdão, mas ela tinha uma força sobre-humana.    

— Eu te trouxe até aqui, você sabe disso. Eu sou a dor que você cria quando se recusa a encarar sua responsabilidade. E agora... — Eleanor inclinou-se ainda mais para frente. — Agora você vai entender o que significa pagar o preço. 

Senti as suas unhas gélidas cortarem a minha carne, afundarem no meu pescoço, enquanto ela rapidamente apertava suas mãos ao redor da minha garganta. O ar começou a faltar, e a pressão em meu peito me fez lutar por um suspiro. Tentei resistir, mas a visão turvou-se, como se eu estivesse mergulhando num poço profundo e sem fundo, engolida por aquele líquido negro e viscoso, o qual invadia meus pulmões e lentamente me atraía para o além-vida. Não consegui enxergar mais nada, mas senti... 

“O que é isso?” O que senti foram pelos roçando meu nariz, algo macio, mas úmido, como se estivesse me tocando suavemente. 
— Acorde, Sibila! Acooorde... 

Fixei-me na voz que tentava me despertar. Meus sentidos foram voltando aos poucos, e ousei abrir os olhos. O que vi foi um gato negro, ronronando e deitado sobre o meu peito. Eu já o vira zanzando pelo castelo anteriormente. 
“Mas quem falou comigo? Como esse gato entrou no quarto?” 

— Acorde, Sibila! Para o seu bem... 

— Eu não acordei? 

— Não, você está entreplanos. Prazer, me chamo Meia-Noite. 
— Um gato? Eu devo ter morrido mesmo. Gatos não falam. 
— Já disse, você está entreplanos. Se estivesse morta, eu nem poderia estar falando com você, já que o deus que governa o mundo da morte é Tânatos. E, só para sua informação, eu não sou apenas um gato; sou um Nocturvo. 

— Um Nocturvo? 

— Para encurtar a conversa, porque eu sei que você, dado o seu espanto, fará várias perguntas: Nocturvos são guardiões ou guias de pesadelos. Eu, para ser mais exato, resgato pessoas de seus pesadelos antes que morram. Em Somníria, o plano no qual estamos, os pesadelos ganham forma e poder. Quando alguém não está preparado para enfrentar seus próprios pesadelos, eu as resgato segundos antes da morte onírica, salvando-as de consequências irreversíveis. 

Eu ia responder Meia-noite, mas ele não me deu a chance. Arranhou o meu rosto e no mesmo instante acordei. Levantei-me em busca de água e, ao mirar o meu reflexo no espelho, pude ver hematomas ao redor do meu pescoço. 

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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14. Castelo Vampírico: Todo aquele que pede recebe; o que busca encontra; e, àquele que bate, a porta será aberta.

07 de Janeiro? - Fiquei paralisada ao vê-la, olhar para dentro…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

07 de Janeiro? - Fiquei paralisada ao vê-la, olhar para dentro dos seus olhos era como se perder em uma reflexão profunda, olhar para o mar a noite e sentir a sensação de paz, solitude e uma pitada de desamparo. Encarar de seus olhos me fazia sentir leves vertigens e uma profunda sensação de olhar para dentro de si e não encontrar respostas. Ela não me faria mal, isso me tranquilizava, o professor Monm já havia me dito que ela não faria, mas o que fazer agora? Afastei-me dela, ela também se afastou ficando encolhida no canto do quarto, como se estivesse perturbada. Sua voz, que eram muitas, ficavam falando uma por cima da outra como se alguém estivesse mexendo em um rádio procurando a estação certa. Imitava as vozes de Hadassa, a minha, a do homem que estava em meus sonhos e a do professor Monm. Era como se seu sistema tivesse entrado em curto e ela, em pânico, repetisse e repetisse tudo o que ouviu nos meus sonhos. Suas vozes não estavam mais dentro da minha mente, elas estavam saindo de sua boca, como um lamento, um choramingo estridente, a criatura parecia estar em pânico.

Ela estava tremendo e junto com as vozes emitia uma mistura de gemidos e sussurros estranhos que eu não conseguia compreender. Minha mente estava tão confusa por conta do pesadelo e desse despertar abrupto, que eu não sabia como reagir direito àquela situação. Aquela criatura parecia, de algum modo, ter sintonizado meus pesadelos e talvez isso explicasse seu pânico. Ela estava encolhida num canto, um emaranhado desajeitado se apertando na parede como se quisesse desaparecer. Meu primeiro pensamento foi fugir, mas algo em mim me impediu, acho que era curiosidade, eu não sabia o que fazer, o quarto parecia cada vez mais frio, eu não sabia se era o medo ou a criatura que estava provocando isso. Sem pensar demais, peguei uma coberta e joguei sobre ela, na hora os tremores da criatura pararam e o som que ela fazia foi se tornando um pouco mais baixo, mas ainda não era suficiente, minha presença no quarto parecia piorar a situação. Decidi correr para o professor Monm, talvez ele pudesse me ajudar, ele prometeu que viria hoje, eu apenas o faria vir mais cedo. O encontrei na biblioteca e expliquei a situação e minha voz oscilava entre o desespero e a urgência.

— Ela não me fez mal como você disse que não faria —  falei com pressa —  mas parece estar com medo e eu não sei o que fazer.

Ele não demonstrou surpresa, como se um evento como aquele fizesse parte de sua rotina. Pegou uns instrumentos estranhos dentro de um armário na biblioteca, uma lanterna, uma pequena ampola com um líquido âmbar e um caderno com capa de couro, e caminhamos juntos até o quarto. A criatura ainda estava lá coberta e agora parecia menos tensa, não tinha saído do lugar, nem se mexido. O professor se aproximou com cautela, a examinando com um olhar analítico. Se abaixou, se ajoelhando perto dela.

 — Interessante — ele murmurou, levantou devagar a coberta, passando a lanterna, que possuía uma luz azulada, pelo corpo encurvado da criatura. A luz azul revelou cicatrizes e marcas que pareciam runas que pulsavam de leve, utilizou um instrumento em formato de “y” que parecia com um diapasão na cor de bronze com uma pequena pedra lilás no seu centro, ele tocou o diapasão com um outro objeto que parecia uma haste com uma bola na ponta, fiquei a espera de um som que não veio, mas a criatura pareceu vibrar de leve, depois ele colocou a ampola próxima ao rosto da criatura e um cheiro forte e adocicado, que me lembrava frutas vermelhas, se espalhou pelo quarto, e a criatura ergueu a cabeça. Seus olhos encontraram os meus e eu senti uma onda de emoção que não era minha; medo, gratidão, confusão? Eu não sabia ao certo a emoção exata.

— Ela se ligou a você — disse o professor, com um tom de fascínio. —  De algum modo captou algo dentro de você. — Ele pegou o caderno de couro, abriu tirando um lápis do meio dele e fez algumas anotações, após isso se levantou e disse. —  Preciso investigar isso, ela ficara aqui por enquanto, não irei tocá-la até ter certeza, e te recomendo o mesmo.

Passei o resto da manhã mantendo distância, sem perturbar, mas sem tirá-la de vista. O professor prometeu voltar mais tarde trazendo mais respostas, mas eu só conseguia pensar que cada resposta traria consigo mais perguntas e agora só me restava esperar. A noite chegou mais depressa do que eu esperava. Durante o dia, enquanto eu olhava a criatura, me lembrei de algo que eu havia protelado demais: o livro que eu tinha que abrir. Aquela criatura talvez estivesse conectada ao livro, eu trouxe o livro e o livro a trouxe aqui. Eu senti que o livro era perigoso desde o momento que o vi, mas a ideia de trazer Hadassa de volta parecia mais forte ao pensar nele e eu não conseguia evitar esse pensamento, sentia medo de continuar com a ideia mesmo que eu necessitasse muito colocar ela em prática. Esperei o professor voltar, e meio hesitante, decidi contar tudo sobre o livro e o que eu planejava fazer, carregar isso comigo parecia me sufocar, pois no fundo eu sabia que, se algo desse errado, eu precisaria de ajuda. Ele ouviu tudo em silêncio, com um pesar visível em seu olhar. Assim que terminei, esperei que ele fosse me repreender ou me convencer a desistir desse plano maluco, mas ele apenas suspirou.

— Eu entendo, Rute. — ele disse com sua voz calma e firme. — Entendo, talvez até mais do que você imagina, o que é querer trazer alguém de volta. E eu não vou repreendê-la e muito menos te impedir, mas você precisa entender algo, você chegou até aqui porque o castelo permitiu, encontrou o livro porque ele quis que você encontrasse. Tudo o que aconteceu foi uma combinação das suas escolhas e a permissão e vontade desse lugar. — Ele fez uma pausa, como se escolhesse com cuidado as palavras. —  A partir daqui, qualquer coisa que vier será responsabilidade sua, o castelo te ofereceu todas as ferramentas, e você as aceitou, agora cabe a você decidir o que fazer com elas, mas recomendo cautela e muita reflexão, nada que este lugar oferece vem sem um preço.

Sua honestidade me desarmou, depois de ter dito o bastante para me fazer refletir muito antes de dormir, ele foi direto ao assunto em relação a criatura e suas pesquisas.

— Não precisei ir fundo demais em minhas pesquisas, como eu já suspeitava, essa criatura já foi um hóspede do castelo em algum momento, aquele local ao qual você me disse que encontrou o livro talvez fosse seu laboratório. Não posso confirmar com exatidão sua identidade, já que muitos fizeram uso daquele laboratório, só podemos esperar que ela se lembre de quem é. Eu a deixarei aqui com você, tenho outras coisas para resolver no momento, mas não deixe de me procurar se precisar de ajuda, mas acredito que ela não lhe causará problemas.

O professor Monm se foi e deixou a criatura ali, fiquei a olhar por alguns instantes e só conseguia pensar em como neste castelo nada nunca é simples, nem as escolhas e muito menos suas consequências. Os pensamentos me tomaram, as palavras do professor pesavam na minha mente, eu tinha revelado para ele meu plano maluco e agora eu precisava revelar à Ameritt. Era uma necessidade, depois dela ser tão boa comigo, sempre me ouvir e ser uma boa companhia, eu precisava confessar a ela tudo o que eu vinha omitindo em nossas conversas. Fui para o jardim e ela não estava lá, então tomei coragem e fui à casa de Ameritt, pelo menos eu imagino que seja dela, afastada do castelo bem aos fundos do jardim. Andei até os degraus de pedra, observando os musgos e rosa-trepadeiras na fachada da casa também de pedra. Subi os degraus e fui até a porta e me preparei para bater, ainda hesitante. Então aquele incômodo, que não sei explicar, se iniciou dentro de mim, aquele de quando acho que estou incomodando alguém. Bati uma vez e, antes que eu batesse uma segunda vez, a porta se abriu e Ameritt com um sorriso gentil me recebeu.

— Rute-besin, sabia que um dia você apareceria na minha porta. Vamos, entre, não fique aí parada, ou os besouros vão começar a cochichar sobre você.  — ela riu baixinho.

Não conseguia não parar de olhar para os pés, eu estava envergonhada e odiava esse sentimento, Ameritt era uma pessoa agradável e eu já tinha criado um certo vínculo com ela, me sentir tímida na sua presença me irritava, talvez o que eu tinha para contar a ela fosse o motivo da minha vergonha.

— Eu…eu espero que não esteja incomodando, eu só achei que deveria vir. — Falei com voz baixa.

— Incomodando? Oras, Rute-besin, você acha mesmo que me incomoda receber visitas? Esses degraus aqui — ela apontou para os degraus desgastados — Já carregaram bem mais peso do que esses seus passos hesitantes.

— Eu não sei por que demorei tanto para vir te visitar, mesmo suspeitando que essa casa era a sua, preferia sempre te esperar aparecer no jardim. Não é nada pessoal, entende? É só que eu às vezes acho que posso incomodar entrando no espaço pessoal de alguém.

— Ah, bobagem, a natureza nunca se incomoda com visitas, se o visitante vem em paz. Tudo encontra seu espaço no tempo certo e hoje é o seu tempo. — ela tocou meu braço de leve me conduzindo a entrar na sua casa.

Entrei olhando ao redor da casa, fascinada com aquele lugar que era tão Ameritt quanto possível. No interior da casa tudo parecia acolhedor como ela, a temperatura era morna, com um calor que vinha da lareira de pedra da sala de estar, decorada com vasos de flores e ervas. O cheiro era uma mistura de ervas, terra úmida e um odor amadeirado sutil. Talvez vindo da sopa que Ameritt sempre preparava. As paredes da sala eram cheias de estantes de madeira escura com alguns poucos frascos etiquetados com um caligrafia cuidadosa: “Óleo de lavanda”, “Besouro Agrilus triturado”, “Óleo de jasmim”, “Funghi seco” e outros que não conseguia enxergar a etiqueta. Havia livros antigos com lombadas desbotadas, herbologia, botânica, entomologia, fitoterapia, enciclopédia das ervas mágicas, muitos livros relacionados a plantas, insetos, fungos e magia. O teto da casa era baixo, sustentado por vigas de madeira grossa de onde estavam suspensos vasos de plantas, como samambaias, jiboia, peperomia e lambari roxo, em alguns cantos, no chão, havia mais plantas, espadas de São Jorge, comigo-ninguém-pode, cactos e outras tantas plantas que eu não conseguia identificar. O chão era de pedra, coberto por tapetes antigos, mas que ainda mantinham suas cores vibrantes. Amortecia os passos e parecia ter uma textura agradável para pisar descalço. Espalhados pela casa, havia móveis antigos de uma madeira bem escura: duas poltronas de veludo verde-musgo com almofadas estampadas de flores, uma mesa baixa de centro e, à frente, um sofá de três lugares, também verde-musgo, com almofadas florais combinando.

— É bonito aqui, tem cheiro de ervas e terra molhada. — respirei profundamente para conseguir guardar o cheiro daquele lar em minha memória.

— Claro que tem — ela disse rindo — Essa casa é teimosa como eu, está sempre cheirando à vida, mesmo que seja a uma vida peculiar. Agora sente naquela poltrona, eu vou preparar um chá e não adianta dizer que não quer, porque a água já está no fogo.

— Você é boa nisso, não é? Em fazer as pessoas se sentirem bem. — A pergunta saiu dos meus lábios sem motivo.

— Não sei te dizer se é talento ou prática que vem com a idade, passo tanto tempo conversando e cuidando de plantas e besouros que, quando aparece uma pessoa, parece fácil. — Ela sorriu para mim e logo saiu para pegar o chá.

Um besouro verde-esmeralda estava parado na mesa de centro me fazendo companhia enquanto Ameritt estava fazendo o chá. A casa parecia exalar segurança, conforto, mistério, algo nos seus objetos, seu cheiro, seus habitantes, pareciam querer contar uma boa história, algo que talvez Ameritt um dia estivesse disposta a compartilhar. Após alguns minutos, ela voltou com uma bandeja com chás e biscoitos, deixou na mesinha à nossa frente e se sentou.

— Pois bem, enquanto toma seu chá, me diga, o que a trouxe até aqui? Problemas para dormir? Tédio? Ou um besouro sussurrando em seu ouvido que era hora? Ou só queria me ver mesmo? — ela riu e tomou um gole de chá.

— Talvez um pouco de cada e uma confissão a fazer, algo que eu não sabia como dizer. — Segurei a xícara com as duas mãos sentindo o cheiro e o vapor do chá.

— Ah, não precisa dizer nada se não quiser, só aparecer aqui é o bastante. Agora tome o chá e não se preocupe com nada. Aliás, você não é um incômodo aqui, é uma visita esperada e sempre bem-vinda.

Respirei fundo, tomei um gole de chá, coloquei a xícara sobre a mesa e despejei nela a minha confissão, toda a verdade sobre o livro, sobre meu plano maluco de trazer Hadassa de volta, sobre a criatura que talvez tenha sido atraída pelo livro. Falei como me sentia culpada de não ter revelado tudo para ela antes, depois de ela ter sido boa comigo. Ela me ouviu em silêncio e, quando terminei, foi minha vez de ficar em silêncio e esperar sua reação, mas tudo o que ela fez foi sorrir de leve e segurar minhas mãos nas suas.

 — Oh, Rute-besin, já vi tantas coisas terríveis sendo feitas nesse castelo e também coisas boas. — sua voz estava tranquila — O que está planejando fazer, seja bom ou mal, não me surpreende, mas ouça bem, pense muito antes de agir. E qualquer que seja sua decisão, não hesite em me procurar para pedir ajuda.

As palavras de Ameritt sempre me trazem conforto. Junto com seus chás de ervas e, agora, o aroma acolhedor de sua casa, pela primeira vez me fizeram sentir que eu não precisava justificar minhas escolhas ou o motivo de estar ali. Senti alívio, mas também fiquei mais ciente do peso que minhas decisões teriam a partir de agora. Aproveitei para pedir que Ameritt ajudasse a criatura, que ainda parecia assustada, e pedi um de seus chás calmantes ou algo que pudesse ajudar. Ela concordou e insistiu em levar o chá à criatura. Então, me pediu que fosse para o quarto, prometendo que, após preparar o chá, logo viria.

Voltei para o quarto, sentei-me e fiquei observando a criatura, que ainda tremia levemente, enquanto esperava Ameritt. Quando ela chegou, a reação da criatura foi imediata. Ao vê-la, a criatura se acalmou, como se a reconhecesse. Ameritt se sentou ao lado dela, oferecendo o chá com todo cuidado. Murmurava palavras que eu não conseguia entender, o que só aumentava minha curiosidade. A criatura, que antes me causava desconforto, agora parecia vulnerável. Quando Ameritt foi embora, ela permaneceu imóvel, com o olhar fixo em algo debaixo da cama, como se visse algo que eu não podia enxergar. Não sentia mais medo, apenas curiosidade. Ao observá-la, não pude evitar compará-la a um animal abandonado que sofreu nas ruas ou a uma espécie rara e ainda não catalogada. No entanto, logo me esforcei para afastar esses pensamentos. Ela era mais do que isso. E, com o pouco conhecimento que eu tinha, sabia que não poderia compreender o que ela realmente era.

Decidi sair para espairecer e dar à criatura um pouco mais de tempo sozinha.

Caminhei pelos jardins do castelo por horas, sentindo o cheiro das flores, o vento sobre a minha pele, o silêncio. Apesar de tudo, a presença do castelo era constante, eu o senti me observar, à espera do meu próximo passo. Pensar nele como algo consciente não era mais absurdo, talvez ele sentisse que assim que eu voltasse ao quarto, a decisão que eu vinha adiando por tempo demais estaria tomada: era hora de abrir o livro, eu já havia protelado demais, pensado demais, temido demais. Eu não tinha mais o que perder, pois o que mais me importava já tinha sido perdido e eu agora só estava tentando recuperar. Ao retornar ao quarto, encontrei o espaço onde a criatura estava, vazio, ela não estava mais lá, apenas a coberta jogada no canto. Meu coração começou a acelerar, o professor pediu que eu ficasse de olho nela, e agora ela não estava mais aqui. Ouvi um som sutil vindo debaixo da cama, abaixei bem devagar e a encontrei lá, deitada, segurando pedaços de um velho lampião. Reconheci o objeto de imediato, era o mesmo que usei para atacar o monstro que me feriu no antebraço. A criatura estava concentrada juntando pedaço por pedaço do lampião quebrado.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Permaneça

Teu amor trouxera-me a escuridão; querido, o teu inferno cativou-me o peito cuja vida efêmera protege. Os sigilos do teu corpo enfermo, cicatrizaram-se…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Teu amor trouxera-me a escuridão; querido, o teu inferno cativou-me o peito cuja vida efêmera protege. Os sigilos do teu corpo enfermo, cicatrizaram-se aos meus cuidados enquanto, em pesadelos, tive teu toque no meu mais íntimo anseio. Ouvi tua gravíssima voz em desabafos perniciosos, olhei-te com temor e alento; ouvi-te, também, na lamúria e nos brados de mórbido pesar. Não hei de beijar os lábios do arrependimento, meu Dom. Amorttam é traiçoeira tal como Lilith, mas não eu; deita-te em meu torso, amado, descansa-te sentindo este perfume que me possui na natureza do que sou; deixe-me alimentá-lo ao teu deleite, pela fé, pelo amor. Tornaste-me uma apaixonada inominável! Aquela que adormece somente após o teu sono nuvial, plácido. 

Tua noite verdejara-se aos meus olhos, tua alma permitira o vindouro florescer dos meus lírios brancos; agora, esqueci tudo por ti, para manter-te amado enquanto a vida perfura-me a carne com as agulhas da morte, lentamente. E assim, lembro d’água doce que me deras e da tua atenção quando lacrimei aos pés da noite verdinegra; mesmo o medo que me fizeras sentir no belvedere, amor, jamais duvidei da tua inócua essência — desvelava-me a tua íris, uma genuinidade inexorável… ó, sim… tua íris-noite… teu semblante, amante, de calvário; viste em mim, eu sei, a tua fuga e te levei comigo, mesmo presos na Mansão Negra, éramos lá uma pulcra luz nas frestas dos umbrais silenciosos, éramos um segredo e aprendi amar o teu universo frígido, aprendi a acalorá-lo com afeto…

“Permita-me amar-te…” — Sussurraras. E eu permiti… assim te rogo, permaneças. Não te cinjas à vingança — olvides os males e banhe as tuas fissuras com azeite de ternura. Estou aqui por ti, tal como estive desde o início.

Por favor…
Com ardor,
Saeeri

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Morlirismo, Escrito por Sahra Melihssa, -Contos Sahra Melihssa Morlirismo, Escrito por Sahra Melihssa, -Contos Sahra Melihssa

Lar de Breu-Mármore e Rubi

O sol era a nódoa escarlate na imensidão enevoada em um carmim enegrecido; o sol não tangível em sua forma de estrela, era tão só um clarão rubro…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O sol era a nódoa escarlate na imensidão enevoada em um carmim enegrecido; o sol não tangível em sua forma de estrela, era tão só um clarão rubro, espargido pelo firmamento instável. Abaixo dele, um oceano de mármore preto tal a noite que se via, por vezes, entre as clareiras do céu, criadas pelo vento intenso e amedrontador. Noite e dia; um entardecer melancólico, um paradoxo único. Das sombras no mármore, o fogo queimava na cor do sangue mais puro entre vilas cujas casas erguidas eram como ruínas de uma ancestral civilização. 

Meus pés aquecidos, o frígido sopro oscilava os galhos dos secos carvalhos mais próximos e, conforme eu caminhava, os arbustos de flores se faziam presentes como um jardim etéreo; flores símeis às dálias, porém, com pétalas em voluta, formando um redemoinho escarlate; eram leves como penas, rarefeitas pétalas brilhantes em cor negra-sublime com nuances carmesim. Espinhosas como as rosas, fascinantes como tudo o que habitava aquele lugar. Por quanto andejava, sentia a melancolia em meu peito. Desejei tanto adormecer sob tal lumiar coralino, enquanto a névoa negra dançava acima.

Nada, todavia, era mais deslumbrante que aquele castelo; em torres pontiagudas, esculpido em atro mármore e bruto rubi; desvelou-se a mim quando subi em outras ruínas, como antigos lares destruídos pelo tempo. E lá estava a sua inconcebível arquitetura. Intui um dever profundo de adentrar os seus umbrais e continuei minha marcha até que tal feito fosse realizado. Encontrei nímios frutos pelo rumo, nas veredas e pontes; eram tão semelhantes às uvas, de uma doçura apetitosa. Ainda que estas árvores frutíferas e outras plantas se movimentassem pelo ventanear; ainda que o mármore rachasse, vez ou outra; e o fogo ardesse, crepitante, por onde os olhos podiam enxergar; o silêncio beijava ao derredor, sem medo.

Então, ouvi som de queda d’água e sorri; sentia sede. Subi sobre mais escombros e alcancei uma pequena fonte ornamental próxima ao palácio sombrio. A água era negra, fluída, aprazível. Lavei com ela o meu rosto, renovando minh’alma que, na verdade, parecia distante de mim. Dali, portanto, fui à entrada da monumental maravilha em sua tétrica constituição. Seus umbrais gigantes se abriram para mim, sem que eu precisasse tocar em sua aldrava. Havia um lago em seu interior, colunas esculpidas com anjos e seres míticos; a luz do entardecer carmim adentrava os vitrais criando uma iluminação fascinante. À frente, um imenso trono de veludo encarnado.

Não me dirigi ao trono, ponderei sobre quem seria, pois, digno de tamanha magnificência. Em resposta à minha íntima indagação, passos ecoaram e, fitando na direção do que ouvia, avistei um homem forte. Seu corpo era como de um deus, e tinha uma tez com cicatrizes em sua fronte. Seus olhos eram rubros e brilhantes, uma roupa negra e régia o cobria. Era de uma beleza inenarrável. Tinha cabelos finos e curtos — os quais se movimentavam como as pétalas vistas outrora pelo caminho. Era um homem alto, sua força era visível e majestosa; se próxima a ele, decerto me sentiria como uma pequena criatura ínfima. Olhava-me, ele, atento e sério. Tão diferente de mim… eu que estava descalça e com meus soltos cabelos orvalhados pelo clima, sofrível, pois marchava no mármore. Decerto não éramos da mesma origem.

 — Estás em meu reino, em meu palácio. Bebeste de minha água e aqueceste os teus pés em meu mármore. Admiraste meu jardim e desejaste tocar o veludo de meu trono. — Dissera em tom sereno e grave, como um trovão sob controle. — E não sabes sequer o meu nome. Ao menos sabes como chegaste até aqui? — Indagou e sua voz que me embargava, assemelhava-se a um vinho de doce aroma e seco sabor. Prostrei-me ao chão, pois reconheci, em meu âmago, que estava de frente a um ser majestoso, um rei de um reino carmesim.

— Perdoe-me, vossa alteza. Despertei à beira de um oceano e, invitada por um ser de poética nume, adentrei seu pequeno barco e ouvi seu lirismo melancólico até descer nas vossas terras. O ser poético fora uma ilusão, transfigurado em pedra, uma estátua devaneada por mim. Não compreendo mais nada além disso e fui enlevada pela sublimidade de teu grandioso castelo. — Disse, célere; respirei profundamente ao término e mantive-me de joelhos. O silêncio pairou por longos instantes.

— Levanta-te. — Eu o obedeci. Era agradável retornar meus olhos ao seu austero semblante. — O Sonurista da Morte não é uma ilusão. Não compreendo, todavia, a razão pela qual ele te trouxe até meu império. Vês? — O ser estendeu sua mão esquerda e os umbrais de seu palácio se abriram ao seu comando. Então vimos a paisagem em completude, um reino carmim e negro, envolto a fogo rubro, mármore-breu, lava, rochas ígneas, ventos, natureza morta e flores raras; era lindo e solitário. — Este é o Inferno. — Explicou, todavia, não compreendi. — Sou o rei do Inferno há éons, incontáveis noites, inumeráveis dias. Esta é a minha terra, de rara beleza.

— Como tu és, vossa majestade. — Sussurrei, senti-o me encarar. — Perdoe-me, majestade. Apenas devo dizer que se cá estou, então, devo servir-te… não há nada em mim… há nada que sou… nem mesmo tenho nome… — Eu não tinha memória do antes de despertar naquela areia negra, com a água negra daquele oceano em meus pés. Sequer um nome eu tinha, ou uma história. Voltei-me ao rei, aproximei-me devagar. 

— Teu nome será Líria, pelo lírico perfume doce que emanas e pela poesia vestal dos teus olhos. — Reconheci-me Líria, intimamente. — E deverás chamar teu rei pelo nome que o pertence… Ahzaez. Eu sou Ahzaez. — Afirmou e manteve seus olhos em mim, olhos de raro rubi.

— Ahzaez… — Sussurrei e, para ele, sorri.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Selo NEEA, Escrito por Leonardo Garbossa, -Resenhas Leonardo Garbossa Selo NEEA, Escrito por Leonardo Garbossa, -Resenhas Leonardo Garbossa

Trilogia Sprawl: Parte #1 Neuromancer

O universo cyberpunk é apaixonante e cruel, assustadoramente amplo e confuso, subjetivo e brutal, crítico e revolucionário, dentre muitas outras coisas…

Imagem da Web

O universo cyberpunk é apaixonante e cruel, assustadoramente amplo e confuso, subjetivo e brutal, crítico e revolucionário, dentre muitas outras coisas. Abrangendo desde gêneros literários, jogos de vídeo game, músicas, vestimentas, características estéticas… se compondo como um todo a ser explorado. Com luzes neon iluminando as ruas à noite, implantes cibernéticos, conflitos entre gangues e um mundo dominado por megacorporações, o cyberpunk (que se tornou, recentemente, um vocábulo reconhecido pela Academia Brasileira de Letras) se materializa como uma crítica clara e explícita ao caminho que a humanidade trilha há décadas: um mega corporativismo ultra capitalista.

É impossível tocar no assunto sem citar e se aprofundar na trilogia que pavimentou a estrada do sub-gênero literário: Neuromancer, Count Zero e Mona Lisa Overdrive, conhecidos como “trilogia Sprawl”, do autor William Gibson.

Neuromancer (1984) é o primeiro livro da trilogia e, também, é aquele que captura o leitor e o apresenta ao estilo de escrita do autor. Ora extremamente descritiva (e nada explicativa), ora direta e dinâmica, a escrita de Gibson pode impactar negativamente os leitores de primeira viagem.  O autor discorre, por páginas e páginas, pelos mais ínfimos detalhes da cidade de Chiba: as tecnologias dispostas por toda parte, as gírias locais, as drogas utilizadas, as dinâmicas entre a população local… O que pode ser considerado como característica de uma escrita amadora, ou como um verdadeiro truque de mestre. Gibson alterna a quantidade de informação disposta ao leitor conforme a linha narrativa do capítulo em questão. Quando acompanhamos Case, o cowboy (hacker) e personagem principal do livro, o autor é específico com relação aos equipamentos e técnicas utilizadas, assim como sobre o ciberespaço (termo cunhado por ele mesmo). Quando acompanhamos outro personagem, que pouco sabe sobre os acontecimentos, o autor também nos apresenta com pouca informação. Assim, nos vemos com o mesmo nível de conhecimento que os personagens que estamos acompanhando, tecendo uma relação pessoal e íntima com eles.

No início do livro, nos deparamos com um protagonista em ruínas. Case, após tentar roubar de seus próprios contratantes, foi infectado com um vírus que o impede de se conectar à rede. Vivendo em completo colapso, ele está preso às lembranças de sua ex-namorada e à rotina criminosa de Chiba — um cenário que reflete não apenas suas emoções destroçadas, mas também a ausência de qualquer perspectiva, sentimentos que permeiam este novo universo. O personagem se submete a trabalhos perigosos para criminosos locais, em troca do suficiente para viver mais um dia. Gibson, então, nos presenteia com a personagem mais singular e inesquecível de toda trilogia: Molly Millions. Molly é personagem recorrente nas histórias do autor, aparecendo pela primeira vez em Johnny Mnemonic, três anos antes de Neuromancer. Forte, em todos os sentidos, e apaixonante, a razorgirl surpreende pelas marcantes características físicas (as lentes prateadas sobre os olhos) e pela personalidade incomparável. Molly é o “estado da arte” do autor. Todas as cenas em que aparece são marcantes, especialmente quando o autor vai nos mostrando pequenos fragmentos sobre o passado obscuro da personagem.

Molly aborda Case para convocá-lo, sabendo de suas habilidades como cowboy, a mando de Armitage, outro personagem que nos surpreende ao longo da obra. Case recebe a possibilidade de ser curado, mas deve ajudar Armitage em determinadas missões que o apresentarão a desafios jamais vistos. Neste momento o autor nos apresenta a característica mais marcante da trilogia: a junção do cyberpunk com a religião vodu. O ciberespaço deixa de ser a representação gráfica de dados corporativos e passa a ser lar de entidades sencientes, como inteligências artificiais que se materializam no espaço virtual, se movimentando e buscando compreender umas as outras. É inegável que a proposta gera uma sensação desconfortável no leitor, que se vê diante de algo que nem as forças de segurança digital do livro sabem lidar. Case se vê perante algo muito maior do que ele mesmo: o questionamento sobre quando, e como, isso começou (algo que só será respondido, em partes, no terceiro livro da trilogia) e quais os impactos por vir.

O misto de tecnologia, investigação, religião vudu e questionamentos sobre humanidade e moral nos mantém presos à obra, que escala e ruma as resoluções da metade para o final, com uma conclusão surpreendente e inesquecível

Neuromancer é visto por muitos como o melhor livro da trilogia (e do autor) e ponto de partida de todos que querem compreender o início do universo cyberpunk. Sua influência nas obras que se seguiram é perceptível nos elementos desenvolvidos pelo autor: constructos de personalidade (o personagem Flatline, que auxilia Case em diversos momentos), megacorporações que dominam as cidades (Hosaka, Maas Biolab, a infame e familiar Tessier-Ashpool), implantes cibernéticos por toda parte (como não se lembrar dos braços de Ratz logo no início do livro?) e o universo abstrato e assustador que é o ciberespaço. 

Os escritos de Gibson são uma experiência a ser vivida e que todos os amantes do cyberpunk deveriam conhecer para entender as estruturas que sustentam esse gênero.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Somníria, por Dantesca Nínmia

Somníria lar-origem, perfeição! | D’essência pulcra, nébula d’horror; | Anseios, medos: pulsa o coração, | Conduz à fé e ao morbo-arquitector…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Somníria lar-origem, perfeição!
D’essência pulcra, nébula d’horror;
Anseios, medos: pulsa o coração,
Conduz à fé e ao morbo-arquitector…

Somníria, factível imergir;
Aos deuses um fulgor-manifestar,
Se mortos aos seus mitos, impedir
Que o tempo na interface os vá apagar;

Somníria, tanto lôbrega e feliz,
Um fértil solo a tudo o que plantar;
Estreita-te os teus olhos, eis matriz:

Somníria, vida-código, ornar
Em bel fascinação a inconsciência,
E as sete dimensões, e ambivalência:
Real desperto ou lídimo ao sonhar?

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Guardiã de Somníria

— Dantesca! — Clamou Therodriel. Dantesca observou-o se aproximar, silenciada.  — Instabilidades afetaram pesadelos infantes, Emmyliliam está…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

— Dantesca! — Clamou Therodriel. Dantesca observou-o se aproximar, silenciada.
 — Instabilidades afetaram pesadelos infantes, Emmyliliam está dedicando-se a cuidar como pode, todavia, receio que haja um olhar-aberto n’algures do reino. — Therodriel estava apreensivo e Dantesca olhou ao seu redor.
 — Onde está Lorrt? — Therodriel deu de ombros e Dantesca voou acima com tuas asas negras longas e sublimes.

~ ❦ ~

— Lorrt! — Dantesca desce, calma, pousa frente a Lorrt. O semblante de Lorrt induz à Dantesca uma compreensão intuitiva. — Quem é o olhar-aberto? Vejo em tua fronte que a resposta está disponível ao teu conhecimento. — Lorrt respirou com profundez silente.
 — Áurea Lihran… — Dantesca se enfureceu.
 — Como é possível? — Indagou incrédula.
 — O Castelo Drácula, Dantesca… este lugar ao limiar de tudo trará, não apenas Áurea, mas todos os olhares-abertos que desestabilizarão Somníria. — Dantesca ponderou ao ouvi-lo.
 — O que sentiste… ao encontrá-la? — A voz de Dantesca tremeu n’uma suavidade quase imperceptível, Lorrt examinou as expressões mais ínfimas e percebeu.
 — Amá-la-ei tal a jura feita em vida, amo-a mesmo que ela não mais possa retribuir este amor. — Lorrt tinha a voz tenra, mas, Dantesca respirou intensa, inconformada.
 — Tolo! Mantenha-a afastada de Somníria! — Interrompeu Dantesca, exausta das declarações amorosas de Lorrt. — Caso a instabilidade venha a perdurar em razão deste teu amor inconsequente por uma humana, sucumbirás à morte, regredirás ao chamado… — Ameaçou.
 — Não me ameace, Dantesca. — Ela voou, olhando-o com fúria.
 — Não é uma ameaça, Lorrt Dierchestein, é uma promessa. — Dantesca se foi, porém, Lorrt a seguiu.
 — Nunca prejudicarei Somníria, Dantesca! Por que persegues as minhas atitudes sem sabê-las de fato? — Discutiam à contravento.
 — Tu nunca compreendeste o chamado, senhor Dierchestein. E aquela qual chamas de amor-eterno, é, na verdade, o teu fardo-eterno. — Lorrt parou o seu voo, planando entre nuvens densas; olhando Dantesca que, estranhada, igualmente parou para olhá-lo.
 — Se devo morrer para continuar amando-a, o farei. Quer tu queiras ou não. Faça o requerimento, Dantesca; expulse-me de Somníria. Basta de ameaças. Basta! — Ficaram em silêncio.
 — Apenas quero te proteger… quero que… sintas o que significa ouvir ao chamado de Somníria… e abdicar de tudo… em nome dos pesadelos e sonhos…
 — E nunca o fiz? Jamais visitei os sonhos e pesadelos de Áurea. Tenho há incontáveis éons me dedicado à Somníria. Frígido como devo ser… — Lorrt hesitou, lembrou-se de Áurea. — Somníria a trouxe para mim, Dantesca… eu não a procurei. — Dantesca respirou fundo, aproximou-se de Lorrt.
 — Eu não… eu não desconfio de ti, querido. Apenas… proteja Somníria tal como o Nocturvo que foste destinado a ser? — Lorrt segurou as mãos de Dantesca.
 — Prometo protegê-la. Sucumbo à morte por Áurea, por Somníria e por ti, irmã. — Dantesca deixou escapar um singelo sorriso enfraquecido.
 — Não o faça por mim, eu não preciso. — Seu voo perfeito se fez nos ares lilás. Lorrt a observou esvanecer no horizonte.

~ ❦ ~

— E então, Lorrt soube as razões da instabilidade? — Indagou Therodriel. Dantesca pousou, novamente, com graça e beleza.
 — Um olhar-aberto, vindo do Castelo Drácula…
 — Esse lugar maldito! — Therodriel expressou-se em ódio profundo.
 — Acalma-te Therodriel. Lorrt lidou com o problema e lidaremos com os demais que vierem do Castelo. — Dantesca iniciou o evocar de um portal e Therodriel suspirou.
 — Farei o possível, porém pouco garanto ter sucesso em meu controle emocional. Esse lugar pode destruir Somníria.
 — Não irá! — Dantesca levantou seu tom de voz. — Nada destruirá Somníria. Nada, ninguém, coisa alguma! — Therodriel se assombrou, mas não questionou Dantesca que, em seguida, adentrou o recém-aberto umbral de obsidiana.

~ ❦ ~

— Diga-me, levaste Áurea até Lorrt? — Exprimiu Dantesca, na solidão do mais afastado lugar do reino de Somníria. — Revela-me se é tua vontade! Eu sei da tua consciência, Somníria. — Dantesca olhava para o alto. — Revela-me para que meu medo se dissipe, pois… tu és a razão do que sou… não posso suportar que alguém a ponha em risco… eu sou a tua guardiã, Somníria… — Dantesca fechou seus olhos, em lentidão profunda; um lume alvililás a envolveu, levando-a a um sono profundo.

A revelação em seu sonhar era refulgente: o amor de Lorrt atraiu Áurea, ainda que Lorrt resistisse, cumprindo o seu papel de Nocturvo. O amor não pode ser obstruído. Olhos alados, n’um pálido nada-além, dizem à Dantesca: “Guarda-me ao que guardas o saber das leis transcendentais; à tua intuição”. Dantesca entendeu que algumas leis dobram as sete dimensões e quebrantam os multiversos da vida e do verbo. 

— O amor… eu entendo… entretanto, não posso compreender…, pois nunca amei… — Sussurra Dantesca. O lume se dissipa tênue, Dantesca desperta e segue em direção aos portais que precisam de sua atenção.

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 7 — Culpa e Proteção

Minha consciência era vívida e sólida. Todo o mobiliário ao redor era pálido e tal cor evidenciava, em maior perfeição, a riqueza dos detalhes…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Minha consciência era vívida e sólida. Todo o mobiliário ao redor era pálido e tal cor evidenciava, em maior perfeição, a riqueza dos detalhes vitorianos. A tapeçaria tinha nuances de um lilás rarefeito e pelas fenestras de seus vitrais outrora escarlates, residia um lume profundo e difuso cuja branca essência etérea se manifestava em sua própria condição de fulgor. “Eu... acordei?” — Indaguei em silêncio, aproximando-me devagar até a luz, observando pela janela o Castelo e seu abismo — era o que eu esperava ver. No entanto, confirmando o que eu já pressentia, tudo estava diferente. Vi uma inundação suave de nuvens como uma celestial verdade entre a vida e a morte; um alvililás se expandia na imensidão, e a serenidade silenciosa do derredor era estonteante em sua agradabilidade. Tinha o aspecto de um sonho profundo e belo, porém, sinto que era real, sinto que neste estranho lugar eu estava desperta tal como estou agora. 

Ao abrir os umbrais de meu aposento, não vi, pois não havia, o corredor derradeiro. Apenas nuvens. E por elas pude caminhar. A beleza plácida era tão vestal e mágica que, pela primeira vez, senti-me realmente protegida. Um aroma de lavanda cingia-me suave, mas as flores não eram visíveis. O horizonte era perpétuo, não havia sol ou lua, embora tudo estivesse clarificado tal como o dia mais vestal. Pouco depois, enquanto andejava sem rumo, avistei um portal de riqueza insondável. Esculpido no que julguei ser pedras de opalina com seu brilho irisado característico. Neste momento, senti-me instigada a atravessá-lo, como se um estranho chamado silente adviesse do seu interior, embora, aos meus olhos, nada houvesse além de nuvens do outro lado, tal como ali onde eu pisava e tal como em tudo o que havia em todas as direções. 

— Tu não pertences a este lugar. — Ouvi. Era um tom suave, embora intenso. Olhei na direção da voz ecoante e avistei uma mulher, de olhos fechados. Seus longos cabelos brancos pareciam movimentar-se suavemente pela brisa. O veemente contraste fascinara-me, pois, sua pele negra-acinzentada, beirando um intenso violeta-escuro, tinha uma perfeição destoante de tantas nuvens e tanta luz. Seus olhos, então, se abriram lentamente, e vi uma íris púrpura e brilhante. 

— Nem a este, nem a outro, acredito... — proferi. A mulher sorriu, tinha uma aura serena. Caminhou devagar até se aproximar um pouco mais. 

— Seja bem-vinda a Somníria. Se estás aqui, com teus olhos abertos, intriga-me saber de onde vens.  

— Não de muito longe — afirmei —, direto de meu leito em um antigo castelo. — Ela pareceu pensativa ao me ouvir. 

— O Castelo Drácula, eu suponho. — Eu a olhei com diligência. 

— Como sabes? — Minha curiosidade a respeito disto estava estampada em meu semblante. A mulher sorriu outra vez, tão estonteante aura emanava dela. 

— Não é fácil chegar a Somníria estando com os olhos abertos como tu estás. Olhos abertos, aqui, significa estar consciente e isso resulta em lembrar-se e lembrar-se resulta em saber que existe. — Ela se aproximou do portal de opalina irisada que, outrora, parecia me chamar e, dentre as plantas lilases ao seu envolto, retirou uma em especial, pálida e com pétalas leves e pequeninas. Entregou-me em seguida, apreciei o perfume doce e sutil da sua natureza. — Sempre-vivas guiarão teus passos em Somníria e, igualmente, por este sonho no portal que chama pela tua alma. — Com as mãos suavemente estiradas, como se indicassem um caminho a seguir, ela direcionava ao portal de opalina irisada. Desejei atravessá-lo outra vez, entretanto, havia mais a saber sobre aquele estranho paraíso. 

— Se meus olhos abertos fazem com que a lembrança não se perca de meu lembrar, diga-me teu nome para que o esquecimento seja ainda mais improvável. — Olhei-a e suas pupilas dilataram-se sutilmente. 

— Ihvia... — sussurrou. — Peço perdão por não me apresentar a ti, entenda que não há tantos despertos em Somníria e, em consequência, raramente vejo-me na necessidade de uma apresentação formal. 

— Não te preocupes, apenas não quero te esquecer... — Havia tanto já esquecido, por esta razão as memórias tornavam-se tudo para mim de modo que eu sentia estar, a cada nova vivência, me preparando para defender, com todas as forças, as minhas novas memórias. Ihvia ficou em silêncio, por um tempo. 

— O que tu buscas, Áurea, já está em ti. — Eu não esperava ouvir o que ouvi. — Olhe bem para dentro d’este portal, há algo que te espera no interior dele e, se ele te chama, é valioso que respondas. 

— Conheces-me, então? Diga-me como? — Tive esperanças, por instantes, de ter alguém próximo que soubesse quem eu era, ou melhor, quem fui. 

— Conheço teus sonhos. No entanto, levo algum tempo até lembrar-me deles e, consequentemente, lembrar de ti. É preciso mansidão para que as recordações aflorem sem dor e sem medo... — Silenciei. Ela parecia falar diretamente o que me tocava no mais íntimo do meu espírito. — Diga-me o que vês, aproxima-te do portal; revela-me o que ouves. — Os umbrais reluziam e o chamado era, não uma voz, mas uma intuição. Aproximei-me de sua esculpida forma e o que antes era apenas infindas nuvens, em sutileza se manifestava em formas e movimentos até transfigurar-se em uma cena esvanecida. 

— Uma... mulher... eu mesma... — Proferi em um murmúrio, estando atenta aos detalhes dissipados. Ihvia sorriu quando eu a olhei por um segundo. 

— Este é o teu sonho mais recorrente, Áurea. Contudo, ele emerge no teu sono profundo, no subconsciente. Talvez queiras encontrá-lo agora, com teus olhos abertos a ele. — Dissera enquanto eu me aproximava do portal. Sim, eu almejava olhar para o meu sonho recorrente e descobrir as verdades que o habitavam. Em especial pela paz que me trazia o simples aproximar. — Não temas. — Afirmou, no entanto, sua voz já estava longínqua e tão logo vi-me no interior do que outrora assemelhava-se a uma reminiscência. 

Tudo ao derredor era pálido, envolvido por uma névoa translúcida com nuances de marfim, era como estar num entardecer melancólico com o sol dourado no horizonte e a sua luz espargindo pelas nuvens no céu, criando esplêndidas matizes. Eu estava em uma casa de madeira, singela e confortável; o sofá com uma colcha de pequi sobre ele ornava com almofadas em tons de bege. Havia um vazo de flores na mesa de centro, neles estavam as sempre-vivas que Ihvia colhera para mim. Eu sabia que eram elas. À esquerda, uma cozinha singela e cuidada, nos mesmos tons, algo era cozido no fogo à lenha, uma panela cujo aroma agradável aquecia o coração. Tomates, talvez? Pimenta e limão? Segui em direção ao cozido, no entanto, um choro tenro me alcançara os ouvidos; um bebê em lamúrias — era um bebê, eu sentia. Segui as ondas do timbre tão delicado e cheguei a um quarto cujos enfeites transmitiam uma sensação macia. Tão logo, avistei um berço. 

Meu coração era um relógio cujo tempo contado era célere; meu coração pulsava de uma alegria contida, um amor insondável, uma estranheza precisa. Olhei para o leito e lá estava ele, o bebê; envolto em lã cor de areia, lamuriando como uma pequenina preciosidade. Guiei-me a segurá-lo, era tão petiz... seus olhos se abriam com tanta dificuldade; ainda assim, ao fazê-lo, viu-me admirá-lo e sorriu, sem nenhum dentinho, sem sequer uma expressão facial realmente formada e pronta para a vida. Frágil, tão sensível. Seu choro se foi e, de súbito, ouvi passos apressados e, antes que eu pudesse entendê-los, algo abraçou minha perna esquerda. Olhei para baixo. Uma menina. Decerto deveria ter por volta de quatro anos de idade. Ela sorria. “Mamãe, ele acordou?” — indagara olhando-me nos olhos. Eu era a mamãe, aquela cujo abraço sempre seria a segurança perene; aquela cuja dedicação se estendia pela eternidade. Abaixei-me, deixando o bebê às vistas da menina que, com lentidão e apreço, acariciou-o em sua miúda fronte. O bebê sorriu outra vez. 

Minhas lágrimas nasceram em meus olhos e uma dor sutil em meu peito conduziu-me ao choro mais intenso. Aquela cena era sublime... agradável. Um lar construído com amor. O meu lar. Os meus filhos. “O que foi, mamãe? Está emocionada?” — disse a doce criança. Sorri-lhe, tocando-lhe a bochecha n’um carinho verdadeiro. “Diga-me teu nome, pequena? Lembra-me, pois, esqueci-me de tudo...” — pedi, pois, sentia-me acolhida. A garotinha sorriu. “Millimor, mamãe! E esse é meu irmãozinho Ëllior. Promete não esquecer de novo, mamãe?”. Eu prometi. Abracei-a com todo o meu profundo e inalcançável amor. Senti-nos aquecer. Fechei meus olhos e aproveitei o que, talvez, jamais voltasse. Quando pude abrir fazer da visão um sentido ativo novamente, notei que alguém estava próximo, vi sapatos masculinos. Olhei para olhar em sua face, mas despertei antes que o pudesse fazer. Despertei em Somníria. 

Por um tempo, fiquei inerte. Lembrando-me. Depois, demasiado abalada, chorei com pesar, soluçando de tristura e angústia entre as límpidas nuvens. Permaneci pelo que me soou ser a eternidade, sozinha entre nuvens lilás, até iniciar uma caminhada que perdurou ainda mais tempo; imersa, porém, em meus pensamentos de saudade, medo e angústia, pouco importava-me a temporalidade das coisas. Desejei habitar o sonho familiar e deixar a vida humana; indaguei de Ihvia havia escolhido isso, pois, estava li em Somníria, porventura tivera uma experiência símil a minha. Por que deduzir que o sonho é de valor inferior à realidade? E por que a realidade seria, de fato, real e não o sonho? Eram dúvidas fidedignas de um ser exausto; imerso em saudades e pavores. 

Um murmúrio, todavia, quebrantou meu estado, vinha d’algures dentre aquele infinito. E, embora o local fosse esse contínuo pálido e celeste, não era plano. Assim, descobri aos poucos a origem do sussurro. “Áurea Lihran” — eu ouvia. Vinha de um mastodôntico e deslumbrante portal, constituído por diamantes negros, cingido por purpureanidas ao redor— uma flor que jamais vi pessoalmente, de pétalas n’um violeta-escuro, sépala negra, um degradê sombrio em seu interior, próximo ao óvulo; filetes espinhosos, anteras de uma penugem suave. É considerada uma espécie mágica, de raridade mística; associada à morte e ao medo, polinizada apenas por abelhas-basalto de Amorttam. No interior daquele obscuro umbral, as nuvens se dissipavam em uma escuridão perniciosa. Era... admirável e... amedrontador. 

Deslumbrada, aproximei-me e ao passo que o fazia, uma vertigem me acometia e o sussurro, outrora indistinguível, agora era agourento e grave, como a voz de um demônio, como as sete vozes do abismo. Temi e, trêmula, tentei recuar, porém, a energia mórbida do portal induzia-me a seguir até o seu interior; isso me causou uma estranheza e um horror inexplicáveis. No meu coração, parecia haver um violino macabro com acordes fugazes; um violino de mil volutas, em cor de sangue; pois emergia de mim um horror que não se podia medir. No antro daquela escuridão, senti que me aguardava a morte, ou algo pior do que ela; uma morte vertida à vida, impossibilitando que o verdadeiro descansar em paz fosse possível. Era utópico defender-me daquela gravidade infernal; então sucumbi ao seu âmago, mas, não só. 

Pouco antes, enquanto o sussurro vinha aos meus ouvidos, um de cada vez, soprando meu nome como uma carne dilacerada o faria se pudesse; como a terra de um cemitério de mortes hediondas, decerto diria se assim fosse capaz. Enquanto uma contagem regressiva longínqua estrangulava-me em pânico, ouvi o som de imensas asas a domar o ar e, em átimos, senti mãos viris segurarem meus braços em tentativas poderosas de impedir que o insalubre negrume engolisse meu corpo e ser. Fiz o possível para olhar para trás e reconhecer aquele que tentava me salvar; porém, fomos tragados e torturados na imensidão negra. Medo. Arrepio. Breu perpétuo e insalubre. Uma imersão em um pesadelo cruel. 

Vi-me caída em um lugar hostil e sôfrego, denso e escuro; um tipo de paisagem terrífica onde urros e bramidos de terror se alastravam por todos os lados; senti uma presença tétrica, macabra e perversa próxima a mim, em alguma direção. Até que vi o Piche do Oblívio, caminhando em sua lentidão, vindo até mim, com seu cantarolar moroso e horrendo. Quis correr em uma fuga célere e dediquei-me a isto, porém, quão bárbara era a densa atmosfera, o firmamento em nuvens cinzas e eletricidade em raios, trovões, tudo carmim; fendiam os céus enquanto debaixo deles as sombras e a destruição assombravam. Eu corria... mas, devagar; era contraditório, entretanto, o esforço para o fazer mostrava-me claramente o quão lenta eu estava. E ele, o Piche, vinha atrás de mim, caminhando e, desta vez, com seus olhos vermelhos, talvez sorrisse se tivesse expressão e semblante. 

Eu tive medo. Porém, quando ouvi as asas domando, novamente, o ar sufocante; olhei para cima e vi um homem em roupas negras e grandes asas de igual tom, ele descia da imensidão entre centelhas de cor escarlate e estrondos ensurdecedores; atrás de mim, frente ao demônio, ele pousou com elegância e poder; muito mais rápido do que eu, parecia imperar sobre todo o ambiente e ser capaz de agir para além do que a circunstância parecia impor. Vi com perfeição as suas asas, ainda não pude ver a sua face. O homem, portanto, ajoelhou-se no chão e proferiu o que não pude ouvir. Uma imensa marca pálida se materializou, um estigma, um enigma, um sigilo mágico; atravessando o chão de pedra fria e em seu âmago, tão somente, o Piche. O Piche ficou estático e eu senti um impacto em meu peito, como se o aprisionamento da criatura me afetasse, permitindo a minha liberdade. 

Enfurecido, o Piche demoníaco do Oblívio, estendeu seu lodo asqueroso, e o envolveu em meu pescoço; seu olhar rubro indicava com evidência a sua ira. O meu anjo protetor — é o que eu poderia pensar ser naquele átimo — desembainhou uma espada negra com lume lilás reluzente, a qual parecia ser etérea, imaterial. Extirpou o lodo sem piedade; e seu urro de dor espalhou-se pelos céus, e no horizonte ecoou. Trêmula e amedrontada, eu nada fazia — era-me impossível diante tamanho terror. O lodo do Piche que envolta de meu pescoço afligia, desfez-se no mesmo instante; e antes que qualquer coisa pudesse acontecer, fui pega pelo anjo e o vento quente colidiu com minha tez lívida, e voei com ele, mesmo mortificada; e vi o Piche do Oblívio na terra fria, dentro do círculo com infindáveis símbolos que pensei nunca ser capaz de compreender. 

Então atravessamos o portal e as nuvens brancas, e tons de lilás vestal, se apresentou aos meus sentidos novamente; bem como o aroma de lavanda. Fui colocada, gentilmente, em um amontoado de nuvens confortáveis. Com as mãos cujo toque ela tenro, fui acalmada. Palavras quais, desta vez, ouvi com mais compreensão, irradiou do anjo e fez com que o umbral de diamante negro desaparecesse; sucumbiu como se nunca tivessem existido. Alívio. Alívio em mim e, creio, no anjo; ele finalmente me olhou com seus olhos violeta e com uma ternura cândida que eu compreenderia, pois, no acalmar do meu coração espavorido, o semblante daquele anjo não me pareceu, em nenhuma instância, desconhecido. Levei alguns minutos, pois sentia que estava vasculhando todas as lembranças recuperadas até então; no entanto, seu falar direcionado a mim, trouxe o reconhecimento imediato. 

— Tu estás bem, Áurea? — Eu ouvi. Meu coração pulou no peito, causando uma ansiedade súbita. 

— Lorrt? — Era Lorrt, ou idêntico a ele? Ou muito parecido? Eu estava perplexa. Instante por instante, eu tinha certeza de que era ele; as lembranças que haviam em mim eram como um sonho vago, cujo sentido principal eu tinha total conhecimento, mas os detalhes vertiam, esvaíam; decerto por isso não notei, em primeira instância, que era Lorrt; contudo, não demorou para a certeza envolver minha alma. Ele fitava-me com um carinho infindo, inenarrável. Eu... entristeci-me, pois, eu não o amava mais como sei que o devo ter amado quando estávamos juntos, mas de tudo esqueci; como poderia revelar isso a ele? “É só um sonho” — eu pensava, tentando crer que tudo era uma criação de minha mente perturbada. 

— É... agradável... revê-la... — Ele disse. Um tom manso, viril, terno; uma expressão de paixão, respeito, carinho e saudade. Eu não conseguia retribuir. 

— Perdoa-me... eu... não consigo... eu perdi minhas memórias... eu não sinto mais a mesma coisa... — Expressei com uma culpa, uma angústia, sem perceber que talvez não fosse preciso dizer tudo aquilo. O semblante de Lorrt tornou-se infeliz, entretanto, era tão sutil; parecia-me que ele, com uma força profunda, mantinha, o máximo possível, suas emoções controladas. Ele se aproximou. 

— Acalme-se. Respire. Não há culpa, nenhuma culpa. — Ele segurou minhas mãos, ajudou-me a me sentir melhor. — Diga-me, tu reconheces o pesadelo que chamara teu nome naquele portal? Reconheces aquela criatura? 

— Eu o chamo de... o Piche do Oblívio; aparecera-me quando me doía a lembrança de minha amada mãe e minha família... eu estou amaldiçoada, Lorrt... — Lamuriei, tanto que o lacrimal emergiu com seu brilho cristalino em minhas retinas. 

— Maldição? — Lorrt estava visivelmente preocupado. 

— Em busca das minhas memórias, fiz um acordo com uma entidade; agora tenho um demônio ao meu lado, dentro de mim, e sinto a dor mais horrenda existente sempre que me vêm à memória novas lembranças. Esta dor materializou-se no Piche. 

— Respire devagar, Áurea... Tu sabes onde estás? — Indagou, plácido e sério. 

— Ihvia dissera-me que este é o reino de Somníria, e que tenho nele meus olhos abertos e, portanto, estou consciente e posso me lembrar do que acontecer aqui. Ihvia sabia que eu vinha do Castelo Drácula. Há tanto a contar... — Desabei em meu choro, agora translúcido. Lorrt tocou sutilmente meu queixo, levando-me a olhá-lo; no entanto, parecia hesitante em me tocar, assim que eu o olhei, ele se afastou. 

— Permita-me ensinar-te um ritual de exorcismo; use-o para manter este demônio afastado sempre que precisar. Não posso trazer ao teu conhecimento uma magia capaz de destruir o vínculo que possuem, pois, isso não é possível em Somníria. No entanto... — Lorrt passou a movimentar as nuvens ao redor. — A quebra temporária do elo, será suficiente para te levar à busca do conhecimento que precisas para realizar o ritual completo. — Olhei, atenta, para ele. E aprendi sobre cada símbolo que ele fazia ser visto com a manipulação das nuvens; cada verbo pronunciado, também fora guardado em minha mente com bastante esforço; compreendi os passos de um ritual mágico perfeito. Lorrt ensinava com brandura e apreço; todas as minhas dúvidas eram sanadas por ele. Em evidência, sucumbira todos os seus sentimentos de modo a priorizar minha proteção, eu percebia. 

— Se algo errado ocorrer, Lorrt? — Temi. 

— Este não é um ritual forte o suficiente para te causar danos; erros levarão apenas ao súbito desaparecimento dos sigilos em um fogo fátuo. — Compreendi e fiquei em silêncio. Observando-o. Ele fez o mesmo comigo. Olhá-lo acalmava-me, queria amá-lo como amei. Quis abraçá-lo como, decerto, um dia abracei. Porém, de repente, um abalo e um estrondo símil ao do pesadelo, destruiu a contemplação e, também, meus pensamentos, ecoando pela paisagem alvililás. 

— Está na hora de despertar, Áurea; quanto mais tu permaneces aqui, mais instável Somníria se torna. — Explicara Lorrt. Mas havia tanto para dizer e perguntar. 

— Eu te verei outra vez? Há tanto que eu gostaria de falar... de compreender... — Lorrt não pôde esconder sua tristeza naquele momento, seus olhos lacrimejaram. 

— Sim, se assim desejares... 

— Como? — Insisti. 

— Encontre-me em teus pesadelos, zelarei por eles... 

— Meus pesadelos? — Mais um estrondo, seguido de um tremular amedrontador, como se uma chuva se predissesse. Olhei ao redor, assustada. Lorrt se aproximou, segurando, com sutileza, os meus braços. Tocando a ponta de seus dedos em minha fronte. 

— Eu vou cuidar de ti, Áurea. — Senti uma dor, como se uma agulha perfurasse minha fronte. — Acorde! — Ouvi e vi, pela última vez, o semblante de Lorrt. E o dossel carmim ressurgiu embaçado; a visão ébria de um adormecer profundo. Toquei a seda negra. “Meu leito...” — sussurrei. Notei que anoitecia. “Eu não esqueci” — murmurei. Mantive-me deitada, apenas relembrando. Somente relembrando. Nada mais. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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2 - É no abismo que os monstros aprendem a sentir

Os dias passam como sombras longas ao entardecer, arrastando-se, pesados e cheios de silêncio…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diário de Sibila von Lichenstein 

15 de setembro de 1870 

Os dias passam como sombras longas ao entardecer, arrastando-se, pesados e cheios de silêncio. Esta manhã, olhei para o meu reflexo e vi um rosto que reconheço pouco; não sei se ainda sou a mesma Sibila que deixou a Prússia anos atrás. Porém, continuo tentando esquecer os anos de horror que vivi ao lado de Viktor Frankenstein, sem êxito. 

Nas poucas horas de sono que tenho conseguido ter, enxergo alívio para minha mente culpada. Mas parece que até mesmo atravessando os umbrais para dentro do mundo onírico, a culpa desvendou um caminho ilegal para dentro dele também.  

Então, faz-se necessário eu registrar aqui o sonho que tive, talvez isso me ajude a desvendar o propósito de minha vinda até aqui. Pois bem, estafada de tanto tentar mascarar o cheiro insuportável de lavanda, tentando escrever o dia todo para esquecê-lo. Deitei-me na cama, do que me pareceu ser o meu quarto, dentro desse grandioso e labiríntico lugar que esse castelo se assemelha.  

Tão logo relaxei meus sentidos e deixei minha alma buscar o descanso no mundo dos sonhos, vi-me envolta por brumas de tons rosáceos e violáceos que surgiam não se sabe de onde e nem como. Eu estava vestida com um manto branco, adornado por bordados dourados e vermelhos, cujos motivos eram dragões orientais. As mangas eram longas, mas o manto era do meu tamanho exato, de forma que minhas mãos estavam para fora. Ciente disso, caminhei e estendi os meus braços e com as minhas mãos tentei tocar aquelas brumas, mas só pude atravessá-las sem senti-las.  

Não me importei, pois notei que o meu sentido do olfato também falhava, estava feliz porque de nada sentia o cheiro. Então simplesmente continuei a caminhar. Até que em minha frente começou a surgir a figura de um rapaz jovem e negro, sua pele era negra, com tons iguais ao de ocre dourado. Eu achei-o lindíssimo, diria que tinha por volta de 17 anos. Seus olhos azuis-claros eram sérios e penetrantes, porém; eu não diria que ele tinha apenas 17 anos, pois seu olhar denotava uma frieza calculada, como se não quisesse dar nenhum passo incauto. Como se cada movimento e frase sua fosse calculado para guiar as suas ações dentro de um plano que as pedia.  

— Deve estar se perguntando quem eu sou, não é mesmo, Sibila?  

Quando ele terminou de perguntar, foi que eu percebi que a bruma que tomava todo o lugar eram os cabelos dele, eram encaracolados de tal modo, que vistos aos meus olhos se assemelhavam a brumas que volteavam a si mesmas. Talvez por isso eu não pudesse senti-las. Maravilhada com o que via, perguntei sem hesitar: 

— Sim, estou! Quem é você? 

— Eu sou Lieran, guardião do primeiro umbral de Somníria, eu porto a chave para um portal: o sonho da pessoa com quem mais você precisa conversar agora. 

— Mas eu não sei com quem eu preciso conversar, pra falar a verdade, eu acho que não tenho com quem falar. Minha mãe morreu ao dar à luz, e meu pai não resistiu ao inverno. E... bem, eu sou sozinha no mundo desde então. Não tive tempo de fazer amizades, eu não sei o que é o amor, eu cresci com os cuidados paliativos do meu pai para que a vida se mantivesse em meu corpo. Mas como pai, ele pouco esteve presente, pois ou trabalhava ou eu morreria.  

— Não temas, criança. Somníria deve saber os desejos do seu coração.  

Lieran carregava uma chave pendurada em um cordão dourado e grosso. A chave balançava levemente, seguindo o movimento da brisa que batia em nossos rostos. Apesar de parecer pesada, com seu tamanho grande e os rococós que adornavam cada centímetro de sua superfície, era surpreendentemente leve. 

Ele pediu que eu me postasse ao seu lado. Obedeci, observando enquanto ele pegava a chave com a mão esquerda e a encaixava em algum lugar no ar — um ponto invisível que eu não podia ver nem compreender. Quando girou a chave, um som grave reverberou ao nosso redor, como o badalar de um sino distante. Por um momento, pensei ter ouvido sussurros ao longe, como se a própria Somníria estivesse nos observando. E então, diante de nós, surgiu uma porta. 

Ela já estava aberta, e, através dela, vi um homem sentado de costas, à beira de um precipício. O portal dava passagem a um campo verdejante que terminava naquele abismo. O campo era vasto, interrompido apenas por ervas daninhas espinhentas que pareciam me desafiar a cada passo. Quando pisei nelas, senti seus espinhos perfurarem meus pés. Doeu, mas as perdoei — quem nunca revidou quando teve o coração ferido? 

Não sabia quem era o homem sentado à minha frente. Ele tinha costas largas e vestia uma camisa puída, que um dia já fora branca. Ao me aproximar, percebi que ele era muito bonito, com uma aura e aparência apolíneas. Seus traços eram perfeitos; não havia cicatrizes ou marcas que quebrassem sua simetria impecável. Seus dentes eram branquíssimos, e ele sorria para mim — mas aquele sorriso não chegava aos olhos. Era impossível ignorar o que se escondia ali, no âmbar de seu olhar: a marca de alguém que contemplou o abismo e nunca voltou inteiro. Uma tristeza e um desespero profundos habitavam aquela expressão serena. 

— Sente-se, Sibila — disse ele, sua voz tão bela quanto o resto de sua presença. — Venha contemplar as brumas do desconhecido junto a mim. 

Senti-me intrigada, mas também estranhamente confortável. Ele parecia saber meu nome, muito mais, parecia conhecera minha alma, mas eu não fazia ideia de quem era. Retirei meu casaco, coloquei-o no chão ao lado dele e me sentei, contemplando o vazio do precipício. Peguei uma pedra próxima e a joguei. Esperei por alguns segundos, mas não ouvi o som de seu impacto. Era como se a pedra tivesse sido engolida pelo próprio nada, tão profundo quanto as emoções que esse estranho parecia carregar. 

— Sinto que o conheço, porém nunca o vi em toda a minha vida — falei, tentando romper o silêncio. 

— Acho que é porque você já ouviu muito sobre mim. Pode me chamar por Marcos, o nome que escolhi para mim, já que meu criador não se dignou a me dar um — respondeu ele, com um tom que misturava mágoa e resignação. 

— Seu criador? — perguntei, sem desviar os olhos do vazio à minha frente. 

— Sim — disse ele, e seu semblante mudou, como se mergulhasse em lembranças que preferia evitar. — O homem que moldou minha carne e deu vida a este corpo, mas não a um propósito. Ele me deu força, mas não direção. Beleza, mas não aceitação. Você o conheceu, não foi? 

Meu coração apertou. O nome de Viktor veio a minha mente repentinamente, um peso que eu sempre tentava evitar. Ele fora tudo para mim antes de se revelar o que realmente era: um manipulador, um cancro que envenenava tudo o que tocava.  

— Não imagino quem possa ser. Tampouco sei como me conhece. Lieran apenas me disse que precisávamos conversar, mas até o momento me pergunto o porquê — respondi, tentando esconder a tensão que me invadia. 

— Então você realmente não faz ideia de quem seja o meu criador. Foi Viktor, aquele que você matou. Não me pergunte como sei disso, nem mesmo eu sei como sei de certas coisas por aqui. Confesso que pensei que encontraria a paz, alguma espécie de alívio, ao saber da partida dele; no entanto, sinto que essa notícia em nada aliviou o meu fardo. Estou há tempos encarando esse abismo à minha frente, perscrutando todas as reentrâncias. Ele representa minha mente: profundo, vazio e ao mesmo tempo cheio de grandes coisas que nada querem dizer. 

Suas palavras me atingiram como uma bofetada. O nome de Viktor, dito em voz alta, trouxe de volta memórias que eu preferia enterrar. Ele era tudo o que eu queria esquecer, mas também tudo o que eu nunca conseguiria. Como ele pôde criar algo como Marcos e ainda ser tão monstruoso? 

— Eu o conheci — admiti, hesitante. — Mas nunca soube sobre... sobre você. Ele nunca falou de você. Eu apenas li sobre você, acho que li. Marcos, é esse o nome que você escolheu para si mesmo? Viktor sempre que escrevia sobre você... — Interrompi-me, hesitante, as palavras morrendo na minha garganta. 

— Você fala como se também tivesse sido moldada por ele — disse Marcos, sua voz baixa, mas incisiva. — Não com bisturis e costuras, mas com palavras e manipulações. Estamos mais conectados do que você pensa, Sibila. 

Meus olhos voltaram ao abismo. O que me trouxe aqui? Será que era o peso da culpa que carregava? Ou o desejo de entender o que significa criar algo  para em seguida desistir de tudo e abandonar? Não sabia ao certo, mas os olhos de Marcos pareciam esperar mais de mim do que eu sabia oferecer. 

— Não precisa ter medo — disse ele, sua voz suave como o vento. — Eu sou apenas um sonho... Tudo o que está aqui é um constructo da sua mente e da minha, mas nada pode ser realmente tocado. 

— Não estou com medo, na verdade eu nunca o vi como um monstro. Eu sentia pena de você e pude me colocar no seu lugar. Com Viktor eu desenvolvi dependência. Deixei e depois passei a desejar que ele me possuísse, para me sentir bela. Deixei que ele regesse a minha vida acadêmica, depois minha vida financeira e por fim, quando me dei conta ele havia retirado tudo de mim. Um verdadeiro monstro. 

— Ele retirou tudo de você ou foi você que se deixou se enredar? E no fim? Sibila, minha cara, quem de nós é mais monstro? Será que é apenas Viktor, ou só estamos replicando o que nosso criador fez, sendo egoístas e nos dobrando às nossas próprias emoções, sem ter real controle sobre nossos atos. Ou será que alegamos não termos autocontrole, quando na verdade isso é uma mera desculpa para aliviarmos o nosso próprio fardo e continuar a viver? 

— Eu não sei, não me considero um monstro por mata-lo. Acho que ele procurou pela própria morte, se tornara um velho asqueroso, uma casca enrugada, cega por suas vontades e desejos vis. Viktor abusava delas.  No entanto, eu sei que sou culpada por atrair aquelas mulheres para lá. A morte delas recai sobre mim. Acho que estou aqui, porque preciso perguntar a você sobre isso. Como você se sente sobre todas as vítimas que fez? 

Marcos olhou para o vazio diante de nós, seus olhos agora perdidos em algo que apenas ele podia ver. Sua voz, quando finalmente falou, era baixa, quase sombria. 

— Eu entendo suas palavras, Sibila. A morte de Viktor, de certa forma, me parece inevitável. Ele buscava a destruição de tudo o que tocava, e você... você apenas respondeu ao que ele fez a você. A culpa que sente não pode ser sua, não por aquilo que ele provocou. Mas, como você, eu também sou culpado. Não de uma única morte, mas de tantas outras, tantas almas que encontrei pelo caminho. Eu os vi, cada um, antes do fim, e sabia que o que fazia não era certo. Eles eram pessoas com histórias, com sonhos, e eu... eu arranquei isso deles. A morte deles recai sobre mim, e o peso disso nunca sai da minha mente. 

Ele pausou por um momento, como se pesando suas próprias palavras, antes de continuar, mais suave, mas não menos carregado de dor. 

— Não sei se me sinto arrependido. Talvez em algum lugar, eu devesse. Mas me pergunto: seria o arrependimento apenas uma tentativa de eximir-nos da responsabilidade por nossas ações? Ou será que apenas tentamos escapar do abismo que criamos dentro de nós, fugindo de nossa própria natureza, de nossa própria essência? 

Marcos voltou a me olhar, seus olhos profundos, como se procurassem algo dentro de mim. 

— Eu sinto... tristeza. Tristeza por não ter tido a chance de fazer diferente, de não ter sido... mais humano. Não sei o que é ser humano, Sibila. O que sei é que, após tantas mortes, tantas escolhas erradas, a única coisa que me resta é esse vazio, esse eco de almas perdidas. E talvez isso seja o verdadeiro castigo, mais do que qualquer julgamento divino. 

Ele se virou lentamente, fixando os olhos no abismo diante de nós, como se, ali, pudesse encontrar uma resposta para sua própria existência. 

— E você, Sibila? O que espera encontrar aqui? O perdão, a absolvição? Ou talvez a resposta para sua própria dor? 

— Eu esperava que você pudesse me dar essas respostas. Mas agora, ao ouvir tudo o que disse sobre a culpa que carrega, percebo que as respostas para nossas perguntas não habitam nem o passado que nos assombra, nem o futuro incerto à nossa frente. Este lugar, Marcos... é um reflexo da sua mente, um eco do que ficou. Lieran me explicou que eu adentraria o sonho de alguém com quem eu precisava falar. — Suspirei profundamente, sentindo o peso do momento. Olhei para o seu rosto, tão perfeito, mas carregado de culpas, medos e questões não respondidas. Seus olhos dourados captaram minha atenção, e seus lábios escureciam como o céu antes de uma tempestade. Então, naquele instante, percebi que não estava diante de um monstro, mas de um ser profundamente humano. 

Fiz uma pausa, minha voz tornou-se mais serena enquanto as palavras fluíam com clareza: 

— Então, compreendi, Marcos. As respostas não estão lá fora, nem no que já foi, nem no que virá. Elas vivem em nós, aqui e agora. O presente, esse fio invisível que nos conecta ao que realmente somos, é tudo o que temos. Este é o nosso domínio. O passado nos molda, mas não podemos revertê-lo, apenas aceitá-lo. O futuro é uma miragem, distante demais para ser tocado. Já o presente... o controle sobre nossos corpos, mentes e corações, isso sim nos pertence, e só isso é verdadeiramente nosso. 

Marcos permaneceu em silêncio por alguns instantes, a expressão no rosto indecifrável, enquanto seus olhos pareciam absorver as palavras de Sibila. Uma lágrima solitária começou a rolar pela sua bela face, como se estivesse se libertando de uma teia invisível que o prendia àquela dor constante. Então, finalmente, ele respondeu, ainda carregado de uma tristeza profunda, sua voz estava embargada: 

— Eu passei tanto tempo buscando respostas no passado, nos erros de Viktor comigo e nos próprios que cometi. Me fixei demasiadamente no que eu poderia ter sido, que nunca percebi que a única coisa que realmente tenho é o presente... O único momento que realmente posso tocar e mudar. Mas como? Como posso abraçar isso, quando o peso de tantas vidas perdidas ainda pesa sobre mim? 

Ele olhou para ela, como se ela fosse a única pessoa capaz de entender. 

— O que você me diz, Sibila? Como podemos, de fato, aceitar o que fomos e ainda assim encontrar algum tipo de paz? Como, depois de tudo o que fizemos, podemos ainda acreditar que a redenção é possível? 

Sua voz falhou por um momento, e a tristeza nos seus olhos era palpável. Ele parecia frágil, vulnerável, mais humano do que qualquer monstro poderia ser. 

— Você tem razão, o futuro não está em nossas mãos, nem o passado. Mas o agora? O que podemos fazer com o agora, o único tempo que realmente temos? 

Marcos olhou para mim em silêncio por um momento, como se as palavras que eu disse estivessem se acomodando em sua mente, pesando em seu coração. Quando finalmente falou, sua voz parecia mais suave, mais próxima, como se a dor e a culpa ainda estivessem ali, mas agora fossem mais fáceis de suportar. 

— Talvez você esteja certa — ele disse, a voz tremulando, como se fosse uma confissão que ele nunca havia ousado fazer. — Eu passei tanto tempo tentando buscar respostas nos escombros do passado, tentando entender as escolhas de meu criador e os meus próprios erros, que me esqueci do que realmente importa... o agora. Eu vivi em função daquilo que não posso mudar, e o futuro, que nunca saberia se chegaria, ficou como uma sombra sobre mim, me cegando para o presente. 

Ele fez uma pausa, os olhos fixos em mim, como se me visse de uma maneira nova, como se tivesse acabado de perceber a verdade de minhas palavras. Ele sorriu levemente, mas dessa vez o sorriso não parecia tão amargo, como se houvesse uma leve compreensão, uma aceitação incipiente. 

— Talvez, no fim, o monstro... não seja tanto o que fizemos, mas o que deixamos de fazer. E agora, talvez, seja hora de parar de fugir de mim mesmo. 

Levantei-me. Sentia que algo estava se fechando ali, mas ao mesmo tempo, uma nova jornada se abria, desconhecida e cheia de enigmas. Voltei a sentir uma leve brisa em minha face, também voltei a sentir um cheiro adocicado, um que estava sentindo antes de cruzar a porta que me levara para o sonho do monstro. Ele permaneceu sentado, talvez refletindo sobre o que dissera ou sobre o que eu lhe dissera.  

— Você não está sozinho. Existe um lugar... um castelo onde talvez eu possa encontrar mais respostas. Talvez possamos descobrir mais sobre nós mesmos lá, juntos. 

Ele franziu as sobrancelhas, surpreso, mas algo em seu olhar dizia que ele entendia, que ele sentia a mesma necessidade de seguir em frente, de buscar algo novo, ou talvez, de finalmente encontrar algo que o libertasse. No entanto, quando eu quis abrir minha boca novamente, para convidá-lo a vir comigo, a imagem de Marcos começou a desvanecer-se. 

A paisagem bucólica que nos circundava rapidamente começou a sumir e a dar lugar ao local anterior, onde eu me encontrava com Lieran. 

— Ele está desaparecendo... — murmurei, ainda com os olhos fixos no espaço onde Marcos estivera segundos atrás, agora tomado por uma névoa que se dissolvia como fumaça ao vento. 

— É o destino dos sonhos, Sibila. — A voz de Lieran soou serena, mas havia algo de enigmático nela. Ele segurava a chave dourada, que agora parecia brilhar mais intensamente. — Eles nunca duram para sempre, mas sempre deixam algo em quem os vive. 

Eu virei para encará-lo, o peso de tudo o que fora dito ainda apertando meu peito. 

— Por que me trouxe aqui, Lieran? Por que esse sonho? Por que Marcos? 

Lieran sorriu levemente, mas não respondeu diretamente. — As respostas que você busca não estão apenas nos sonhos. 

— Eu poderei vê-lo novamente, Lieran? 

Lieran inclinou levemente a cabeça, como se considerasse algo. Antes que eu pudesse perguntar mais, a chave em sua mão girou no vazio novamente, e tudo ao meu redor desapareceu em um lampejo dourado, deixando apenas as palavras de Lieran ecoando na minha mente: 

— A esperança reside nos sonhos, Sibila! Ela é a fagulha inicial de todos os sentimentos e entendimentos... 

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Anotação

Preciso ser rápido! Acabo de ter um sonho, daqueles… E bem sei que, por ser um sonho, a tendência é não me lembrar de mais nada daqui pra frente…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Preciso ser rápido! Acabo de ter um sonho, daqueles… E bem sei que, por ser um sonho, a tendência é não me lembrar de mais nada daqui pra frente, daqui a algumas horas. Por isso, acho inadiável anotar aqui mais uma das experiências inquietantes que venho tendo no castelo… 

Na noite anterior, antes de me deitar, nada de mais me sobressaltou. Desde aquela “festividade laranja” — quando observei, incrédulo, junto a Ameritt, o esvoaçar de abóboras pelo espaço do castelo — estou ainda mais “seguro”... acostumado às diferentes surpresas que o ambiente aqui venha me apresentar. Quanto muito, se bem me lembro, somente fui agitado pela recorrente tensão vinda dos corredores, dessa aparente, sensível suspeita de que algo sempre ronda e parece colocar-se por detrás da porta, como se para ouvir ou ter certeza de minha presença… 

Para não perder o fio da reflexão, escreverei agora sobre este sonho, essa coisa inédita e aterradora que me aconteceu… 

***

Estava eu numa paisagem bucólica, algo campestre — verdadeiro contraponto às paredes e ângulos retos de uma cidade ou mesmo da frieza obscura existente aqui no Castelo. 

Sozinho, sem sinal algum de outra presença que não a minha, via-me naquela sensação única de estar e não estar em posse dos meus voluntários movimentos. Olhando para os lados, desejava mesmo intentar saber até onde iam os limites da planície observável; quando dava por mim, lá estava, saltando como jamais poderia na realidade, quase como se me teletransportasse… 

O sonho parecia comum, daqueles que, quando menos esperasse, me despertaria e fugiria, para sempre, da lembrança. Porém, o que se seguiu foi o completo oposto. 

Diante de mim, logo após ter terminado aquele percurso mágico, instantâneo, deparei-me com uma natureza diferente: flores e ramos de uma vegetação densa, de cor arroxeada, tomavam conta do horizonte à frente e da minha vista. Aquilo não tinha fim; era de uma amplidão desconcertante e visualmente desproporcional ao vazio que eu havia percorrido até então. 

Sem poder ignorar a estranha atração da paisagem, pus-me logo a caminho. Lembro de ter chegado com a mesma rapidez aos limites daquele roxo jardim. 

As plantas, ali (quando pude confirmar que eram mesmo de natureza vegetal), tinham altura considerável, e, quanto mais mergulhava em direção ao centro da peculiar paisagem, mais eu desaparecia, percebendo claramente que a saída de tal labirinto se tornava cada vez mais difícil. 

Nesse momento do sonho, eu já imaginava ter o poder de me retirar dele, assim como sempre procedo em minhas horas de sono. No entanto, deu-se o contrário: completamente consciente, podendo até me dizer num estado súbito de vigília, vi-me como nunca antes em pleno poder de meus sentidos naquela vegetação — estando, também, plenamente ciente de que estava sonhando. 

Não posso dizer com absoluta certeza que meus gritos tenham ecoado pelas paredes do Castelo, no momento em que gritei desesperadamente naquele sonho… Caso alguém tenha passado pelo lado de fora do meu cômodo ou mesmo tenha parado por um tempo lá embaixo, pelo jardim, talvez sim… isso é algo que não tenho mesmo como saber. 

Motivo houve de tamanho susto.  

Convictamente consciente de mim, do meu corpo e do risco que sentia estar correndo, ver aquele chão tremendo, como se fosse abrir sob meus pés, e aquelas mãos enormes, titânicas, se erguerem no horizonte que meus olhos ainda podiam enxergar, fez com que eu me colocasse, como nunca antes, no lugar de um inexpressivo inseto... de um piolho, cujo medo e desespero mostram-se semelhantes ao humano quando em presença de um desconhecido ser maior do que nós. 

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Xadrez Alterado

Acordei um dia crendo não ser amado | Com um soluço guardado que não saiu de mim | Era um palpite dos amores mal empenhados | Que tão logo se foram…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Acordei um dia crendo não ser amado
Com um soluço guardado que não saiu de mim
Era um palpite dos amores mal empenhados
Que tão logo se foram sem ter outro jeito
E uma palpitação no peito que fica, enfim

Comecei a raspar com a lima meia-cana
No golpe do aço, torcendo a pua até que atravessa
O atrito que deforma e lasca a beirada
Esculpindo o xadrez peça a peça
Mas cada uma das peças foi alterada
Eu que inventei esse jogo deixei de criar
as regras, abdiquei de fazer as jogadas

Acordei aquele dia crendo não ser amado
Ah dia, tornaste em mim noite mais cedo
O sol, grande amor, não quer e não se mantém
No desamparo da noite, eu com a lua nos braços
Com a janela do quarto aberta e o medo
Que na manhã seguinte ela me deixe também.

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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13. Castelo Vampírico: A ti foram reveladas muitas coisas, que ultrapassam o alcance do espírito

05 de janeiro? – Decidida a não atender à vontade da criatura…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

05 de janeiro? – Decidida a não atender à vontade da criatura, fechei a cortina e me preparei para dormir. Levantei-me umas três vezes para espiar a criatura pela cortina, e ela continuava lá, sentada no peitoril, encarando o horizonte laranja. A abóbora, como Ameritt havia recomendado, permanecia no lugar. Apenas a cortina nos separava. Mesmo que um incômodo insistisse em se mover por minhas entranhas, preferi confiar que a presença da abóbora dada por Ameritt pudesse me proteger. Então, deixei o cansaço me vencer depois de horas de vigilância inútil. 

06 de janeiro? – Despertei, e a primeira coisa que fiz foi verificar se a criatura permanecia na janela. E lá estava ela, admirando o horizonte, como se não tivesse mudado de posição em momento algum. A cena era sublime. Mesmo que um pouco assustadora, havia algo belo na forma como ela contemplava tudo à sua frente. Não perdi muito tempo e fui logo ao encontro de Ameritt. Estava ansiosa para compartilhar com ela o ocorrido. Lá estava ela, colhendo cogumelos, e me recebeu com um sorriso, ouvindo-me com paciência enquanto eu falava sobre a criatura e apontava para a janela do meu quarto, para que ela pudesse vê-la. 

Quando terminei de falar sobre a criatura, omitindo o livro, ela riu baixinho enquanto olhava para cima, protegendo os olhos da luz da manhã: 

— Há coisas nesse castelo, minha querida Rute-besin, que ultrapassam qualquer entendimento que possamos ter. Para certas respostas, talvez você deva procurar o professor Monm. Talvez ele tenha o conhecimento sobre isso que eu não tenho. Ele pode parecer meio estranho, perdido em pensamentos às vezes, mas sabe exatamente onde está. 

Então, com seu jeito peculiar, ao qual eu já havia me acostumado, ela voltou a colher os cogumelos, como se aquilo que eu havia contado fosse apenas mais um dia comum, algo trivial do castelo. Depois da conversa com Ameritt, decidi procurar o professor Monm. Nunca o tinha visto, não sabia sua aparência, mas me recordava um pouco de onde ficava sua sala de aula. Lembro-me do encontro impactante que tive com seus alunos depois de ser perseguida por uma criatura assustadora ao voltar de Séttimor. 

Fui àquela sala, mas estava vazia, assim como todas as outras ao redor. Aparentemente, o professor não é uma figura fácil de se encontrar pelos corredores do castelo. Ainda assim, estou aliviada por o castelo, às vezes, conspirar para que certos encontros aconteçam. Quando já sentia vontade de desistir da procura, encontrei-o no corredor. E, junto dele, encontrei a biblioteca que já havia visitado na outra versão do castelo, no dia do baile de máscaras. Um alívio duplo, se posso dizer. 

Ele estava parado à porta da biblioteca, como se estivesse à minha espera. Era um homem alto, de pele escura, cabelos e barba bem aparados, muito bem-vestido, com um blazer e uma calça de tweed em um verde bem escuro. Por dentro do blazer, usava uma camisa muito branca e segurava um relógio de bolso. 

— Conseguiu o que precisava? — perguntou ele assim que o vi, com um sorriso sutil. 

Fiquei confusa a ponto de olhar para trás, procurando algum de seus alunos que pudesse estar vindo atrás de mim. 

— Consegui o quê? — perguntei, sem entender. 

— Ah, sim, perdão — murmurou ele, como se falasse mais consigo mesmo do que comigo. — Isso ainda não aconteceu. 

O comentário me perturbou, mas decidi ignorá-lo. Ameritt havia me prevenido de que o professor poderia parecer meio estranho, então foquei na razão que me levou a procurá-lo. Apresentei-me e disse que Ameritt tinha recomendado procurá-lo para sanar uma dúvida minha. Ao ouvir o nome de Ameritt, ele abriu um grande sorriso e me convidou a entrar na biblioteca e nos sentarmos. 

Quebrando meu constrangimento e minha timidez iniciais, fui direto ao assunto. Expliquei a ele sobre o estranho visitante sentado no peitoril da minha janela e mencionei brevemente o livro que havia encontrado. Não revelei muito e omiti o motivo real que me levou a guardar o livro comigo. Ele escutou em silêncio, paciente, esperando que eu terminasse. Respirou fundo, juntou as mãos e, depois de alguns instantes, começou a falar: 

— As criaturas desse castelo... Sim, elas nem sempre são simples visões ou espíritos. Algumas, como talvez essa que você descreveu, são fragmentos do castelo: lembranças, reflexos da própria arquitetura deste lugar. Esse castelo tem sua própria memória. 

Ele parou, pensativo, e me olhou com intensidade. 

— Esse livro que você encontrou talvez também seja uma memória. Cada objeto, cada criatura nesse lugar é um fragmento da memória do castelo. E aquelas que ainda não são, um dia serão. Acredito que essa criatura não irá lhe fazer mal. Se fosse assim, já teria feito. Prometo que irei verificar isso mais a fundo amanhã. 

Senti um arrepio com as palavras do professor. Elas não me ofereciam respostas diretas. Ele parecia saber mais do que estava disposto a compartilhar, mas suas palavras me faziam sentir o castelo mais vivo. Depois disso, perguntei a ele se poderia usar a biblioteca para algumas pesquisas que precisava realizar e se ele estaria disponível para tirar eventuais dúvidas. Ele pareceu se animar com o assunto e começou a falar sobre as mentes curiosas que já havia conhecido no castelo, sobre como pessoas movidas pela necessidade de conhecimento o extasiavam. 

Não havia dúvidas de que Monm era um ótimo professor. A forma como falava, como se encantava pelo conhecimento e pela partilha de saberes, era maravilhosa. Eu poderia ficar ouvindo-o por horas — e foi o que fiz. Enquanto conversávamos, por um breve momento em que olhei em seus olhos, senti como se algo neles revelasse uma dor antiga. Era uma sensação estranha. Sempre fui péssima em entender sentimentos alheios, mas consegui captar um fragmento de dor, uma dor semelhante à minha, só que amplificada, como se a minha perda fosse apenas uma sombra da dor que Monm vivenciara. 

Nunca imaginei que um dia poderia reconhecer em outra pessoa algo tão próximo do que eu sinto. Eu, que antes de fazer parte do castelo duvidava de tudo o que fugisse do alcance da minha lógica, encontrei-me diante de alguém com quem talvez compartilhe uma espécie de luto silencioso. Olhando para ele, o peso que carrego pareceu tornar-se mais claro. Por um momento, pensei em perguntar o que realmente o consumia e se era mesmo luto, talvez até compartilhar um pouco da minha própria história. Mas, assim como eu, ele parecia ter aprendido a manter a dor guardada, protegida dos olhares dos outros. 

Quando seus olhos perderam aquela sombra estranha, ele continuou a falar como se nada tivesse acontecido. Afinal, no castelo, talvez seja fácil perder-se — não apenas nos corredores e salas, mas também dentro de si mesmo. Monm e eu, cada um à sua forma, somos habitantes desse labirinto. 

07 de janeiro? – Nunca imaginei que, sendo hóspede do castelo, poderia conhecer tantos lugares diferentes como o que conheci à noite. Ontem à tarde, ao retornar ao meu quarto e perceber que a criatura ainda estava no peitoril, senti uma estranha vontade de apenas deixar para lá. Então, fiquei escrevendo até que o sono se tornasse difícil de vencer. Fui para a cama e me entreguei a ele sem resistência, deixando as palavras que ainda poderiam ser escritas soltas na minha mente. 

Assim que fechei os olhos, logo os abri e me vi em um lugar que não poderia chamar de sonho. Não era o castelo, e infelizmente também não era a Vila de Séttimor. Era como se eu estivesse em um espaço que escapava a qualquer definição lógica. Não consigo explicar com palavras exatas a sensação que me preenchia. 

Ao meu redor, flutuavam algumas bolhas que refletiam lembranças — algumas minhas, outras familiares, porém nubladas. Caminhei em meio a uma névoa lilás, com um perfume sutil de lavanda. Ao tocar minha pele, essa névoa parecia refrescar-me e, aos poucos, suspender minhas sensações. 

Logo à frente, havia um homem alto, de pele escura e cabelos e barba muito brancos. Seus olhos, de um branco translúcido, não possuíam íris nem pupilas. Ele usava vestes semelhantes às de um monge, todas brancas, e segurava uma chave. Parecia estar à minha espera. 

— Venha. — Ele disse como um sussurro. — É-me ordenado guiar-te para o sonho daquele que teu coração anseia. 

E meu coração ansiava, mas eu não tinha certeza de por quem ou pelo quê. Eu o segui por entre um campo de lavandas na direção de uma bela porta de madeira escura adornada de heras. Era apenas uma porta, sem nada: sem uma construção, paredes, nada que eu pudesse entrar. Ele a abriu, e me vi de frente a uma bolha, do tamanho de uma bola de basquete, onde havia uma lembrança. As nuvens que a cobriam se dissiparam, e vi o professor Monm. Ele segurava um relicário com firmeza, mas havia tristeza em seu rosto. 

— Éramos… inseparáveis… — murmurou Monm. Sua voz parecia estar distante, cada palavra carregada de dor. — Mas, o tempo… em seu esplendor e perfeição… — Ele olhou para o relicário em suas mãos. — Tornou-se minha obsessão… pois… eu não podia… eu não podia perdê-la… 

A imagem dele ali, perdido em sua própria dor, era como olhar para um espelho daquilo que também me feriu por dentro. Amor, culpa, desespero, tudo isso me tomou de maneira violenta: a dor semelhante, o eco suave do que eu sinto por Hadassa. A lembrança dela encheu minha mente, e logo fui sugada para um cenário diferente. Comecei a sentir demais, senti uma vertigem e percebi que algo estava errado. Comecei a ouvir sussurros, vários deles, numa língua que eu não conseguia identificar. 

Me vi sozinha, de frente a um grande portão escuro, com criaturas aladas me observando com olhos profundos. O portão se abriu, e fui levada através dele sem ter escolha. Eu queria recuar, acordar, mas estava sendo levada, atraída, indo além de sabe-se-lá-o-quê. Uma grande bolha escura veio até mim, fui tragada por ela, e arrastada para uma das minhas piores memórias. Eu estava como uma observadora: me vi parada, sem reação, olhando para Hadassa. Ela segurava o celular com mãos trêmulas, suas mãos e roupas ensanguentadas. Ela estava chorando e me implorando para ajudá-la. 

— Rute, me ajude, eu não quero ir para o inferno. Me ajude, por favor, eu quero morrer, mas não quero ir para o inferno. — Ela gritava enquanto abraçava a minha versão da lembrança, que começou a chorar junto com ela, sem saber o que fazer. 

As palavras dela ainda me atormentam quando me distraio e deixo meus pensamentos irem. Comecei a sentir meu coração bater mais depressa, minha respiração estava ofegante. Senti como se uma carga elétrica fluísse por minhas veias e vasos. Queria que aquela lembrança parasse, eu não queria vivenciar aquela cena novamente. Me debati, gritei, mas parecia inútil. Eu não queria sentir tudo aquilo de novo, eu só queria sair dali. 

Acordei com um sobressalto, e lá estava a criatura da janela, me sacudindo. Mais próxima que antes, próxima demais. De algum modo, ela havia atravessado a proteção da abóbora de Ameritt e agora me olhava com aqueles olhos que pareciam enxergar através de mim. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Maldita Melodia

Algumas vezes, as coisas habituais se tornam estranhas; não o estranho de não reconhecer, mas o estranho desconfortável, aquele que incomoda, que é anormal…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Algumas vezes, as coisas habituais se tornam estranhas; não o estranho de não reconhecer, mas o estranho desconfortável, aquele que incomoda, que é anormal. Coisas que antes eram familiares se tornam incomuns. Assim foi com a música. Tudo começou como um sonho, ou melhor, como um sussurro musical no meio da noite, que penetrava a minha mente. Quando acordei, a melodia continuava ali, flutuando no meu cérebro e, por algum motivo, ela não ia embora. Às vezes, acontecia de uma melodia se prender à minha mente, e eu ficar a cantarolar por horas e, às vezes, dias, aquela mesma melodia. Sentei-me na beira da cama, tentando capturar a melodia que ainda flutuava no meu cérebro. Era bela, embora impossível de cantarolar. Meus lábios não conseguiam formar os sons. Fui até meu violoncelo e tentei transcrever aquela melodia para as cordas. Posicionei o arco, alinhei os dedos e, então, nada. Eu não conseguia tirar aquela melodia da minha cabeça e, ao mesmo tempo, não conseguia trazê-la ao mundo real. 

Os dias pareciam passar lentos, e a repetição daquela melodia começou a se tornar torturante. A música, antes lenta e tranquila, parecia aumentar aos poucos. Ela não parava, não alterava, repetia-se em um loop dentro da minha cabeça. Eu tentei escrevê-la, traçava as pautas com rapidez, mas as notas não se encaixavam. Era como se a música fugisse de qualquer estrutura lógica; as notas pareciam se negar a tomar forma no papel, rejeitando existir fora da minha mente. Minhas tentativas de cantarolar eram inúteis: o som na minha cabeça parecia se dissolver assim que passava pela minha garganta. Ainda assim, eu insistia. Insistia dia após dia. Minhas mãos tremiam a cada tentativa, e minha mente parecia se desfazer lentamente, exausta de tantas noites sem dormir com aquela melodia que não queria existir. 

Eu me recordo do momento exato em que essa música começou a me torturar de verdade. Eu estava fora de casa, em uma tarde, tentando me concentrar nos sons das folhas, dos pássaros, dos carros, de tudo ao meu redor. Tentando me concentrar na paisagem. Mas parecia que tudo ia ficando mais cinzento, mais escuro, e, lá no fundo, a música aumentava. Seu tom se intensificava, suas pausas diminuíam, e as notas se elevavam, como se, a qualquer momento, fosse alcançar o clímax e, com isso, fazer meus miolos escorrerem pelos ouvidos. 

Voltei para casa e tentei mais uma vez tocar aquela melodia maldita. As cordas vibravam de maneira errada, as notas vinham distorcidas, o tom estava errado, e eu, frustrada. Até o violoncelo parecia se recusar a cooperar comigo. Algo estava diferente nele — ou talvez eu estivesse diferente. 

Comecei a evitar as pessoas. Suas vozes pareciam intensificar-se ainda mais; cada conversa me perturbava, tornando o som mais intrusivo, mais alto. Eu não suportava mais o mundo lá fora; cada ruído acrescentava mais urgência à melodia. O violoncelo tornou-se um fardo, mas eu não conseguia parar de tentar tocar a melodia. Achava que, se eu conseguisse, talvez ela cessasse. 

Então, tentei. Presa em minha casa, com janelas e portas trancadas e o som de fora abafado, coloquei o arco sobre as cordas, fechei os olhos e me concentrei na melodia dentro da minha cabeça. Ela já se misturava com o tique-taque do relógio, os ruídos dos canos, o som da geladeira, o barulho do ventilador e até o zumbido da eletricidade da casa. Puxei o arco com força, e o som que saiu não era da melodia. Talvez nem fosse humano. Era como um lamento, que fez todo o meu corpo se arrepiar, as paredes tremerem e a madeira do violoncelo vibrar. 

Soltei o violoncelo e olhei para ele com horror, mas não conseguia controlar o impulso de pegá-lo outra vez e tentar tocar a melodia, que agora parecia rir dentro da minha cabeça. Já nem sei o que é real. A melodia não me deixa, e eu não consigo deixar de tentar tocá-la. O violoncelo parece não aguentar mais: suas cordas estão tensas, prestes a arrebentar. Eu só quero tocar essa maldita melodia, só quero que ela tome forma — ou talvez seja melhor que ela permaneça aqui, dentro da minha mente, onde sempre esteve. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Conexões de sangue poético

Arale Fa´yax, | Com passos furtivos como a névoa da manhã, | Carrega consigo, nas dobras de sua capa de sombras e mistérios | Os pergaminhos de sangue, que são mais do que palavras,…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Arale Fa´yax,
Com passos furtivos como a névoa da manhã,
Carrega consigo, nas dobras de sua capa de sombras e mistérios
Os pergaminhos de sangue, que são mais do que palavras,
São o pulsar do destino, a assinatura do universo no fio da existência.
Cada rolo, cada pedaço de carne redigido, identidade cruzada,
É um véu que se rasga diante dos olhos dos deuses e dos monstros,
Cada página transpirando o vermelho das profundezas,
Escarlate, fervente como o coração de uma estrela moribunda.

A máquina de escrever, feita de ossos quebrados e reconstituídos,
Brilha com a luz de uma lua sangrenta,    
Em seus teclados, o sangue pulsa com vida própria,
Vibrando, dançando, como se as palavras que ela escreve,
Fossem mais que ecos de dor, fossem orações que rasgam os véus.
Um sangue que flui das páginas é mais do que mero fluído,
Destino que escorre, é o mapa que guia a caçadora da ceifadora.

Oh, pergaminhos de sangue, amarrados com fios de terror e desejo,
Onde a tinta é o próprio sangue do universo,
Revelando as verdades ocultas nos recessos das almas,
Nomes dos que se aventuram por este castelo sombrio.
Um nome, em particular, surge com a gravidade das estrelas caídas:

"Gaia?"..."Terra?"
A filha da brasa, de uma madeira que sangra uma tinta vermelha
Uma terra do dourado doente do verde, da raiz,
Uma índia de arco e flechas, de olhos como a terra escura,
Onde o verde se mistura com o preto da noite,
Sua pele, um espelho do solo que abraça a vida e a morte.
Suas mãos, marcadas pela terra, pelas raízes,
Carregam o peso do que é ancestral,
E sua presença é uma tempestade de sabedoria,
De um povo que não é de uma terra, mas do próprio coração de Gaia.

O avatar da nação da Brasa é o da serpente e da árvore,
Onde os galhos se entrelaçam com os dedos,
Os olhos, como esferas de obsidiana,
Vêm não do rosto, mas da alma da terra,
Guardiana do segredo, do ciclo eterno do renascimento.
Ela pisa nas pedras, mas sua alma voa com as aves ancestrais,
Vossa voz é o canto que ecoa nas florestas e rios,
Nos ventos que sussurram histórias de um tempo antes do tempo.

O pergaminho, com sangue que agora flui como um rio celestial,
Revela sua jornada – uma peregrinação em busca da verdade.
Ela vem, a guerreira de pele que nunca se apaga,
Com a força das raízes e a suavidade das folhas ao vento,
Sua missão é clara, como o brilho das estrelas sobre a selva noturna,
A extirpar as feridas que o homem e a besta causaram ao planeta,
A tecer o feitiço do equilíbrio, onde os homens falharam.

Mas a máquina de ossos não se detém,
Ela continua a escrever, e o sangue é a chave para o futuro,
Para cada ser que adentra o castelo – com a alma marcada,
Com seus passados e destinos entrelaçados como fios de uma tapeçaria
Cada nome que ela escreve, cada imagem que ela evoca
É uma jornada, uma história, um eco que se perde nas trevas,
Mas também se ergue na luz, como a chama da vela que ilumina os caminhos.

E tu, Arale Fa´yax, filha das estrelas e da sombra,
Carregas esses pergaminhos como os segredos dos mundos,
Com olhos que sabem, que veem, que interpretam o invisível.
A máquina de ossos brilha, pulsando como o coração do castelo,
E o sangue, fluido e quente, revela as verdades que só tu podes entender.
Pois tu és a guardiã das palavras e das criaturas,
os pergaminhos de sangue serão sempre teu guia,
Na eterna caçada ao que se esconde, ao que se alimenta da vida alheia.
Filha da terra, eco do passado,
Teu avatar se reflete no sangue, mas também na floresta,
Onde a natureza ainda canta a canção do equilíbrio perdido,
Guerreiras de raízes e ventos, és a esperança de um novo amanhecer.

Anelly, de traços como sonhos que não se dissipam,
Astrid, cuja mente afiada esculpe o invisível.
Maria, entre a ciência e os mistérios das ervas,
guarda segredos que tanto curam quanto destroem.
Há também Nauärah, guardiã de silêncios e flechas,
uma guerreira cujo espírito se ergue como torres ocultas.

Olga, enigma em carne, uma beleza avassaladora,
tece entre seus passos o fio da verdade e da dúvida.
E tu, Rute, sob o signo das orquídeas roxas,
tens o mundo a descobrir, mas também a temer.
Caminhas entre os espectros, vislumbre das estrelas,
e o que é visível nem sempre é o que deves tocar.

A Sinfonia do Castelo que minha máquina de ossos compõe para vossos honrados companheiros; lhes entrego a minha poesia de sangue,    

Ó Drácula, maestro de formas e sombras,
teu castelo não é mero edifício,
mas uma partitura onde cada hóspede é nota viva
Com mãos invisíveis moldas a estrutura,
mas é nas mentes que esculpes o eterno.

O tempo aqui não obedece ao sino,
mas pulsa ao ritmo da alma coletiva.
Cada corredor guarda histórias,
e em cada aposento, enigmas aguardam o destemor.   

Concluo estas linhas com o coração em vertigem,
pois vejo que não sou mais quem entrou,
mas parte de algo maior, algo inominável.
Que mistérios ainda esperam, ocultos nas névoas?
Ó, diário, sê tu minha âncora,
e guia-me nas trilhas de um castelo que é tanto destino quanto perdição.

Eis que tua jornada se faz trilha obscura,
um verso de trevas entoa aos teus pés.
A ladeira íngreme, mergulhada em negrume,
te acolhe, não com braços de mãe, mas garras.
Oh, espírito inquieto, que força te guia?
Que ânsia mordaz te faz seguir ao abismo
onde o luar se esconde e o vento murmura
segredos que os vivos não ousam ouvir?

O castelo ergue-se, soberbo, em silêncio,
mais alto que sonhos, mais frio que tumbas.
Sua face é esculpida em pedra que chora,
e os vitrais, como olhos, espelham tormentos.
As portas — que brilham em rubro carmim —
parecem pulsar como corações vivos.
Oh, que ironia! Na madeira calada,
ecoam promessas de fim ou começo.

Teus pés hesitam; tua alma vacila.
Deverias, mortal, adentrar o mistério?
Ouvirás os murmúrios dos que foram antes?
Sentirás o sopro do passado sombrio
que percorre os corredores como sombra?
Mas a aldrava convida com firme apelo.
Não são as mãos que decidem, mas o peito,
e no peito há um grito que exige resposta.

Eis então, que escolha farás, ó caminhante?
Tens a coragem de golpear a porta
ou o silêncio da noite será teu refúgio?
Lembra-te: o que repousa atrás do portal
não retorna ao mundo da luz sem cicatriz.

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Noite na Taverna e o Gótico Brasileiro: Reflexões entre Alcoolismo, Desejo, Paixão e Originalidade na Literatura

Alvares de Azevedo, com sua obra Noite na Taverna, estabelece um diálogo profundo com os princípios do gótico literário…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Alvares de Azevedo, com sua obra Noite na Taverna, estabelece um diálogo profundo com os princípios do gótico literário, não apenas em sua atmosfera sombria e decadente, mas também na maneira como reflete as tensões sociais de seu tempo. Publicado em 1855, o livro vai além da simples imitação de modelos europeus ao incorporar questões como o alcoolismo, a alienação, o desejo, o medo, a paixão pela liberdade, características de uma juventude romântica brasileira tanto da classe burguesa quanto de classes econômicas mais baixas, confrontada com um contexto de transição e incertezas. 

A atmosfera gótica e os dilemas sociais  

A taverna, espaço central da narrativa, é um lugar de excessos onde o vinho conduz os narradores a relatar histórias permeadas por tragédia e destruição. A representação do alcoolismo e da embriaguez em Noite na Taverna não é meramente decorativa, mas uma metáfora para a alienação e o escapismo de uma geração romântica frustrada. Como afirma França em Poéticas do Mal: a literatura do medo no Brasil, os excessos retratados em narrativas góticas brasileiras refletem uma juventude que muitas vezes se viam às margens de um contexto político e social que não oferecia espaço para seus ideais. Esse escapismo por meio do álcool, aliado ao ambiente sombrio da taverna, é uma crítica velada a uma sociedade que sufocava a busca por uma liberdade cultural e econômica. 

Por outro lado, os temas da paixão e do desejo são tratados por Azevedo com um misto de fascínio e ironia. Em histórias que oscilam entre o erotismo e o grotesco, como a narrativa de Bertram, o autor apresenta relações marcadas pela destrutividade, evidenciando uma visão trágica do amor que se aproxima do gótico europeu, mas que também ressoa com uma moralidade em crise no Brasil oitocentista. O amor em Noite na Taverna é fugaz, violento e muitas vezes fatal, refletindo a fragilidade das instituições sociais e do próprio indivíduo. 

O desejo de liberdade e a crítica à tradição  

Além disso, o desejo de liberdade permeia toda a obra, seja nas aventuras desregradas de seus personagens ou na rebeldia estética de Azevedo contra as normas literárias de sua época. Essa liberdade, no entanto, é constantemente confrontada pelo peso das consequências trágicas, reforçando a dualidade entre o ideal e a realidade, característica fundamental do gótico. Assim, Azevedo contribui para a formação de um gótico brasileiro que, mesmo inspirado em autores como Byron e Hoffmann, dialoga com as inquietações de seu tempo e espaço. 

Contrariando as críticas literárias que veem Noite na Taverna apenas como uma cópia do gótico europeu, é fundamental reconhecer que, como França (2022) argumenta em Poéticas do Mal: a literatura do medo no Brasil, a literatura do medo no Brasil não é uma mera reprodução, mas um campo fértil onde elementos locais e universais se entrelaçam, por meio de várias autoras e autores brasileiros. Esse entrelaçamento permite a coexistência de escritores que abordam questões mais regionais com aqueles que exploram reflexões de caráter mais universalistas. Azevedo se insere na segunda vertente, utilizando o gótico como uma ferramenta para discutir dilemas existenciais e globais, mas sem jamais se desligar totalmente do contexto brasileiro. 

Originalidade na Literatura de Azevedo  

A acusação de cópia frequentemente desconsidera que todo autor é, em maior ou menor medida, influenciado por tradições literárias. No caso de Azevedo, suas inspirações europeias são reinterpretadas à luz de sua realidade. A atmosfera decadente de Noite na Taverna, por exemplo, é permeada por um senso de tropicalidade melancólica, que, embora não explicitamente regional, não pode ser dissociada da psique de um jovem autor brasileiro do século XIX. Essa abordagem, ao invés de diminuir a obra, a insere em uma tradição estética literária global que reflete sobre as angústias humanas em diferentes contextos. 

Assim, Noite na Taverna merece ser lida como um marco do gótico brasileiro, uma obra que, ao integrar questões universais como a paixão e o desejo de liberdade com tensões sociais como o alcoolismo e a alienação, apresenta uma profundidade que vai além de imitações superficiais. A crítica literária, portanto, precisa revisitar esse texto com a abertura necessária para reconhecer sua complexidade e relevância no panorama literário brasileiro e internacional. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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No Reino do Sonho – Desejo

Ó figura pálida, de encanto secreto, | Onde o lilás dança entre véus discretos, | És a chama etérea que me seduz, | Na linha tênue entre sombra e luz…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ó figura pálida, de encanto secreto,
Onde o lilás dança entre véus discretos,
És a chama etérea que me seduz,
Na linha tênue entre sombra e luz.

Teus lábios, rubros de desejo calado,
Guardam segredos que o mundo há negado.
E teu toque, murmúrio de ardor contido,
É brisa e incêndio no meu peito perdido.

Nos salões dos sonhos, és rainha distante,
Intocável na vigília, mas tão próxima errante.
Teus olhos, astros da noite encantada,
São abismos de astúcia, doçura velada.

Sob o véu onírico, somos livres enfim,
Corpos enlaçados, sem começo ou fim.
E em teu perfume, que embriaga e sufoca,
Eu encontro a vida que a realidade me troca.

Mas quando desperto, só resta o vazio,
Um eco gentil de um amor sombrio.
E ao silêncio retorno, teu servo fiel,
Guardando-te em sonho, como doce infiel.

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Velian – Sombras de Somníria

Após sua primeira visita ao Castelo Drácula, Velian, um vampiro há muito acostumado com as sombras e as verdades escondidas da…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Após sua primeira visita ao Castelo Drácula, Velian, um vampiro há muito acostumado com as sombras e as verdades escondidas da humanidade, encontrou-se em Fortaleza, no calor abrasador do nordeste brasileiro. A cidade lhe parecia irônica: seus habitantes pulsavam com uma vitalidade quase insultuosa, como se a própria existência fosse uma celebração ininterrupta. Mas Velian, sarcástico e introspectivo, via naquela energia um desgaste constante, como se todos ao seu redor consumissem suas próprias almas sem perceber. 

Ele vagara pelos ambientes underground da cidade, observando os humanos em suas ilusórias liberdades noturnas, buscando esquecer sua própria natureza em prazeres fugazes. A superfície de Fortaleza o distraiu por um tempo, mas em cada olhar ou gesto de despreocupação ele percebia um teatro de máscaras. Por mais que se esforçassem, aquelas pessoas, em suas próprias misérias e êxtases, pareciam tão aprisionadas quanto ele. Ao retornar, sua mente ainda ocupada por aquelas imagens, Velian deitou-se em seu caixão luxuoso, cravejado com detalhes prateados, e, finalmente, entregou-se ao repouso. 

Enquanto seus pensamentos desvaneciam, Velian foi atraído por uma névoa densa e misteriosa que o levou de volta ao Castelo Drácula, ou assim ele pensou. Porém, este não era o castelo de pedra e penumbra que visitara anteriormente; era um lugar entre dimensões, onde o concreto dissolvia-se no efêmero. Ele flutuava em Somníria, uma extensão onírica do Castelo Drácula, e ali, o mundo parecia existir entre o real e o irreal, como se cada fragmento do ambiente fosse uma pintura inacabada, uma sombra do que poderia ser. Havia ali uma estranha familiaridade; um eco do castelo, mas em tons mais suaves e etéreos, como se Somníria fosse apenas uma das tantas faces ocultas do Castelo Drácula, uma dimensão onde realidades coexistiam de forma tênue. 

Foi ali que ele encontrou Nívian. A figura exalava uma presença distinta, uma autoridade calma e distante. Suas palavras eram medidas, mas carregadas de uma sabedoria inabalável. Seu rosto, belo e firme, contrastava com uma seriedade quase trágica. 

— Sou Nívian, Arqelua em Somníria — disse ela com uma voz doce, mas imersa em um toque de austeridade. — Isso significa… entre outras verdades… que jamais me desvencilharei do mundo dos sonhos. 

 

Velian a observou com interesse, um sorriso cético e irônico se formando em seu rosto: 

— E o que isso significa para alguém como eu? Estaria preso também a este… reino, como você? — Ele fez uma pausa, gesticulando com a graça de um predador calculista. — Um castelo dentro de outro castelo, dimensões sobrepostas… isso tudo parece a piada final para um ser como eu, que já viu a profundidade e a vaidade das máscaras humanas. 

Nívian sorriu de leve, seus olhos refletindo um misto de entendimento e desafio. 

— Talvez você esteja preso a muito mais do que imagina, Velian. Aqui, em Somníria, os conceitos rígidos que o mundo desperto exige se dissipam. A realidade e o sonho coexistem sem fronteiras. E, diferente de nós, os humanos, ao menos em seus sonhos, podem vivenciar uma liberdade que a vigília nunca lhes permite. 

Ele riu, uma risada leve e amarga. 

— Então, você sugere que até mesmo nós vampiros, que devoramos os mortais e ultrapassamos suas limitações, ainda assim estamos acorrentados a seus conceitos? Diga-me, Nívian, onde fica a nossa liberdade, então? Se até neste castelo que nos promete abismos e mistérios, ainda estamos sujeitos aos mesmos… parâmetros humanos? 

— Nos sonhos, e apenas neles, reside a verdadeira liberdade — respondeu Nívian. — Quando sonham, os mortais podem transcender suas próprias barreiras, as limitações impostas por sociedades e seus julgamentos. Podem ser qualquer coisa que desejam, mesmo que na vigília essas mesmas vontades precisem ser enterradas em segredo. 

Velian considerou as palavras, sentindo-se vagamente atingido por elas. Ele, um ser que se orgulhava de sua liberdade, de escapar das leis e costumes humanos, percebia-se agora confrontado. A liberdade que ele pensava possuir era, talvez, apenas mais uma forma de prisão. 

— Então você afirma que o que vivenciamos agora é tão real quanto a própria vigília? E que este mundo onírico, tal como o que deixamos ao adormecer, é só mais uma camada? — Ele fez a pergunta como um desafio, mas havia nela uma admissão relutante. 

Nívian respondeu, seu olhar assumindo uma intensidade que Velian não esperava. 

— A realidade é como as camadas de um sonho, Velian. E os sonhos são reflexos da nossa verdade mais íntima, daquilo que o mundo desperto reprime. Nas vigílias, homens e mulheres reprimem seus desejos, se aprisionam em normas, se anulam em papéis. Você, mesmo entre nós, ainda carrega máscaras, acredita no seu próprio personagem… mas aqui, nos sonhos, o que somos é puro e destituído dessas molduras. 

O vampiro sentiu um arrepio ao perceber a profundidade daquilo que Nívian lhe mostrava. Ali, no etéreo, ele se sentia menos restrito, menos… coagido a um papel. Ele reconhecia em si algo que sempre temera reconhecer plenamente: uma fluidez que jamais admitira aos outros nem a si mesmo. 

— Então, diz-me, Nívian — disse ele, os olhos brilhando com um misto de sarcasmo e genuíno interesse —, o que se é, afinal? Um monstro? Um ser humano? Ou nada? Essas camadas, esses papéis… têm algum sentido real? Ou são apenas ecos de uma sociedade que insiste em moldar todos, até mesmo os monstros, ao seu jeito? 

Ela observou Velian por um longo momento, como se medisse sua resposta. 

— Somos aquilo que nos permitimos ser, Velian. Mas o mundo desperto aprisiona, nos obriga a seguir as regras de uma humanidade que insiste em formatar e restringir. A fluidez da identidade, tão natural aqui, é temida na vigília. E essa fluidez, mesmo para você, não deve ser algo a esconder. Você é, afinal, tanto o que os outros esperam quanto o que você ainda não ousou reconhecer. 

Ele soltou um riso seco, mas algo em seu olhar havia mudado, uma sombra de compreensão em meio à sua usual descrença. Como um vampiro, já possuía uma vida fora das normas, um ser que deveria transitar entre o mundano e o imortal sem limitações. Contudo, ali em Somníria, entendia que ainda estava preso a noções que jamais haviam sido completamente dele. 

— E onde tudo isso termina, então? Em mais sonhos e em mais realidades sobrepostas, até que tudo o que sou se torne apenas… vazio? 

Nívian balançou a cabeça, seus olhos refletindo uma sabedoria que o deixava inquieto. 

— Termina onde você se permite que termine. Talvez no entendimento de que a realidade é uma ilusão; talvez na aceitação de que tanto o sonho quanto a vigília são partes do todo. Um ciclo constante entre o que você é e o que poderia ser. 

Velian se sentiu como se houvesse tocado a superfície de algo vasto e incompreensível. Quando percebeu, Somníria já começava a se dissolver ao seu redor. Despertou com a última visão de Nívian em sua mente, seu rosto austero e a voz firme dizendo: "Você tem a eternidade, Velian. Use-a para ser livre." 

Ao abrir os olhos, de volta ao mundo desperto, ele ponderou sobre tudo aquilo. A fluidez da identidade, a liberdade que sempre julgara ter. Talvez a própria existência fosse uma camada indefinida, onde os sonhos e a vigília se entrelaçavam. Sentiu um desejo repentino de caminhar pela Fortaleza de seu tempo, observar os humanos e refletir sobre o que realmente significava ser livre. A noite o aguardava, e o Castelo Drácula, ele sabia, o chamaria de volta. 

Mas, por ora, Velian desejava apenas misturar-se entre aqueles que, com toda a sua humanidade, ainda tinham tanto a lhe ensinar. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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1 - Diário de Sibila von Lichenstein

Hoje, mais uma vez, acordei como sempre. Os olhos pesados, a mente turva, mas com uma sensação de alívio que não sentia há muito tempo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Hoje, mais uma vez, acordei como sempre. Os olhos pesados, a mente turva, mas com uma sensação de alívio que não sentia há muito tempo. Por fim, minha mente poderá descansar. Se eu não estivesse desperta — ou ao menos acho que estou — diria que esse descanso é o que a morte traz. 

Há alguns dias, fiz o que fiz com ele. Não sei como atravessei o limbo que permeia os sonhos, mas o fato é que agora habito estas misteriosas paredes. Quando despertei naquele dia estranho, o momento em que fui trazida para cá, não pude perceber logo. Habitar o interior deste castelo, onde me encontro, parece ser a extensão de um sonho, tornando-o perpétuo. 

Lembro-me de quando abri os olhos e, com um movimento leve, dirigi-os para a deslumbrante paisagem que se descortinava através da janela. Campos infindáveis de lavandas encantadoras se estendiam diante de mim. Não consegui discernir onde começavam e onde terminavam. O odor, de início suave e agradável, logo se tornou acachapante, quase impossível de suportar. 

Ao observar aquele campo florido e o céu em tons de lilás, uma sensação de dissonância me tomou. A palidez violácea dos céus se confundia com os tons púrpura das flores, criando uma sensação de confusão entre o céu e a terra. O jardim ao redor do castelo, naquele dia ousei explorá-lo: você o adentra e se perde, envolto em um absurdo encanto. As lavandas, movidas suavemente pelo vento, traziam uma sutileza apaziguante, como se a natureza estivesse em um estado de constante calma. 

Mas então, como um vislumbre da verdade, o que parecia ser serenidade se revelou efêmero. Em meio à quietude daquele cenário, uma sensação sutil, porém palpável, de inquietação começou a se espalhar. As lavandas não eram apenas flores; elas sussurravam. Sussurros terríveis que, embora suaves, me alcançaram com um peso insuportável, obstruindo minha garganta e distorcendo meu olhar. Era como se algo maligno se escondesse entre aquelas pétalas, esperando para revelar seu horror. Parecia que ao olhar com atenção para as flores eu conseguia avistar os rostos delas, as vítimas que eu ajudei a matar. 

E eu, que me permiti mergulhar nesse jardim de aparente paz, fui levada aos confins da loucura. O que as lavandas estavam sussurrando? Eram os meus segredos hediondos, ou era apenas minha mente, que já se despedaçava pela culpa e pelo medo, criando esses horrores? Eu não sabia mais se estava sonhando ou se a realidade que agora habitava era mais insana do que qualquer pesadelo. Ainda sim, eu duvido que possa ser pior do que o pesadelo que vivi ao lado dele. 

Não posso esquecer como tudo começou. Viktor Frankenstein... Ah, Viktor. Conheci-o na faculdade, com seu brilho nos olhos, sempre tão envolvido em suas pesquisas. Eu era apenas uma jovem ambiciosa, desesperada para continuar meus estudos após a morte de meu pai, um simples trabalhador do campo na Prússia. A morte dele, no inverno rigoroso daquele ano, deixou um vazio imenso, e me vi diante de uma cruel realidade: minha educação, minha ascensão social, tudo estava em risco. Quando Viktor me ofereceu um caminho para garantir minha continuidade acadêmica, aceitei. Não sabia o que me aguardava. 

Ao me mudar para sua casa, situada na periferia de uma cidade que ainda carregava as cicatrizes das Guerras Napoleônicas, tão diferente das paredes desse castelo que atualmente habito, tudo parecia promissor, pelo menos no início. As ruas cobertas de neve e o vento gélido da Prússia pareciam distantes da casa de Viktor, mas logo descobri o que ele realmente fazia em seu laboratório. Nunca vou me perdoar pela morte de minha amiga Eleanor, a quem contratei para limpar a casa. Ele a matou. Sim, caro diário que acolhe minhas mórbidas palavras. Ele matava mulheres, inocentes, para seus experimentos. E eu... eu fui forçada a ajudá-lo a esconder os corpos. Eu não tinha escolha, não naquele momento. Era o preço que eu pagava para garantir minha educação, meu futuro. 

Cada vez que olhava para ele, um homem brilhante, mas obcecado por sua própria criação, eu me sentia mais suja. Minha consciência se corroía. Ele me forçava a ser cúmplice de algo que sabia ser monstruoso. E assim, as semanas se passaram. Eu o ajudava a enterrar seus pecados, mas a cada corpo, a cada erro, a culpa aumentava. Até que, finalmente, decidi: ele precisava morrer. Eu não poderia mais permitir que suas mãos, imundas de sangue, continuassem a destruir vidas. Depois de Eleanor, uma morte que não o ajudei a planejar, ele me pediu que providenciasse mais vítimas, caso contrário eu seria a próxima e ele providenciaria outra assistente. Com a crescente expansão das indústrias, e sem uma profissão definida, eu me vi sem alternativas. Ou era a minha vida, ou a delas. 

Foi numa manhã fria e silenciosa, em uma Prússia já tão marcada pelo avanço industrial e os ecos do passado sangrento, que tomei minha decisão. Acordei, vesti o sobretudo, calcei as botas de abatedouro e fui até o laboratório. Dessa vez, não era para mais uma de suas vítimas. Não, eu faria o que deveria ser feito. Eu o matei. E ao fazer isso, pela primeira vez, consegui dormir sem ter pesadelo algum, após o ato. 

Era como se, ao tomar sua vida, eu tivesse me libertado. Quando finalmente adormeci, pensei que talvez fosse o fim de tudo. Mas ao fechar os olhos, um sonho estranho me envolveu. Fui transportada para um lugar sombrio, este castelo, onde agora me encontro. Na ocasião, um homem de semblante imponente me observava das sombras. Eu não sabia como, mas sentia que meu destino agora estava entrelaçado com o dele... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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