Um brinde aos Vivos
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Isabel acordou com o coração na boca, a mente pesada e turva. No silêncio da catedral, um grande anjo de mármore a observava do púlpito, de seus olhos escorria um líquido vermelho e grosso como lágrimas. Como um véu, o tom vermelho emitido pela lua tocava tudo o que escapava da escuridão da noite.
Com força e desenvoltura que nunca sentira, sentou-se e ouviu os ossos estalarem, como se estivessem sendo usados pela primeira vez na vida. Os estalos secos ecoaram pela nave de forma lúgubre.
O lugar era uma paródia do que um dia fora: depredado e imundo, com um cheiro forte de metal que tomava suas narinas. Estava sentada em um dos vários bancos de madeira maciça, arremessados ou largados de qualquer forma.
— Boa noite, princesa. Dormiu bem? — disse uma voz doce como um canto de sereia.
A alguns metros de distância, estava uma mulher muito magra e alta, com uma palidez disfarçada pelo luar carmesim. O olhar de escárnio e o semblante sério diminuíam Isabel, que se sentia uma pequena presa diante de uma caçadora que ela não teria como enfrentar.
— Quem é você? Onde estou? — perguntou Isabel, a voz trêmula.
Um sorriso amplo tomou a face perfeitamente esculpida da mulher, deformando-a. Ela bateu duas palmas, lembrando Isabel de como os duques das vilas chamavam seus serviçais.
— Creio que você tem razão, menina. As apresentações estão em ordem. Pode me chamar de Marishka. — O sorriso da mulher alva derreteu. — Você está no Castelo Drácula, o inferno de uns e o paraíso de outros.
Um homem raquítico e com tufos parcos de cabelo adentrou a nave por uma discreta porta aos fundos. Ele mirou Isabel à distância, feliz por vê-la viva e inteira. “O mestre ficará satisfeito comigo” cochichou para si mesmo, abrindo um sorriso de poucos dentes avermelhados. O volume da barriga, coberta por roupas de fino trato, ajudava as mãos tortas a segurarem uma bandeja dourada com três taças de tamanhos distintos, preenchidas com um líquido viscoso, de vermelhidão exaltada no brilho da estranha lua. Ele se aproximou, olhando para o chão, com os braços estendidos para a mulher.
— Como solicitou, madame. Uma taça de tenra idade, uma taça de virgem e uma de nobreza.
Usando uma delicadeza sobrenatural, ela apanhou a primeira e menor das taças. Parecia satisfeita e ansiosa. O homenzinho deixou a bandeja no banco e se escondeu em um canto escuro da nave, observando-as.
Marishka cheirou o líquido com júbilo e bebeu um discreto gole. Um brilho de êxtase muito específico atravessou os olhos dela, um brilho que Isabel, em sua juventude, ainda não havia experimentado. Claramente alterada pela estranha bebida, ela cravou as unhas longas e afiadas no braço do banco.
— Fui escolhida para lhe informar que você está noiva de nosso mestre… de nosso marido, na verdade. — Com facilidade, as unhas dela deslizaram pela madeira, arrancando lascas grossas. — Você foi selecionada para ser a quarta entre nós. Suponho que ele esteja entediado com três.
A cena já era louca o suficiente para Isabel. O assunto do noivado foi a certeza que ela precisava para saber que tinha que sair de lá com urgência, mas sentia que algo alertava sobre o perigo iminente de sair correndo — talvez o braço destruído do banco.
— Marishka, eu agradeço a recepção… calorosa, e a oferta, mas só busco encontrar meu pai e voltar para minha vila.
— Seu pai? Não se preocupe, ele estará presente no seu noivado. — Uma risada discreta seguiu, mas anos de saúde debilitada tornaram Isabel alheia às malícias das conversas mundanas. — Querida, sei da sua frágil saúde. Me conte, não deseja ser exímia em todas as áreas da vida? Forte como um urso, sem limites ao que pode fazer e jamais ficar doente novamente?
A mulher sabia o que falar, e a ênfase no "jamais" teve o peso de uma vida na mente de Isabel.
— Jamais ficar doente novamente? — repetiu ela, débil. O dedo indicador da mão esquerda bateu ferozmente na madeira, ansiosa e sedenta por paz. O cheiro inexistente de doença que sempre a acompanhou invadiu sua mente, trazendo memórias de um passado não tão distante.
— Sim… Sim. Nosso mestre irá lhe propiciar um presente digno de reis e rainhas. Sua saúde atual é a de um plebeu comum. Estamos lhe oferecendo saúde… eterna, e mais… — Ela deu um grande gole na bebida, terminando-a de uma vez. Deixou o silêncio retomar o ambiente, a menina já estava pressionada o suficiente.
Isabel só queria sair daquele lugar horrendo, ficar o mais longe possível da mulher. Se levantou, pronta para correr, e viu, para seu horror, um esqueleto onde estava o homenzinho. A caveira a observava, o corpo ósseo coberto por um manto negro e longo. Uma enorme foice em mãos era a única coisa realmente visível no breu.
Ela sempre soube que a morte a viria buscar, sempre caminhou ao lado dela, mas agora a via pela primeira vez. O horror das memórias da tosse de sangue a tomaram novamente; ela tremia vigorosamente.
— Eu… vou considerar sua oferta, Marishka. Há algum local mais apropriado onde eu possa descansar?
— Igor, leve a pequena aos aposentos dela, onde ela possa se recompor. Obrigada pela saborosa companhia. — Novamente, um sorriso surreal, desta vez com caninos longos e afiados como facas.
O homenzinho veio correndo, lambendo a gengiva pelos vãos entre os dentes, saliva escorrendo pelo canto de seus lábios. Ele apanhou a mão da jovem e a arrastou para fora da catedral, na noite banhada em sangue.
— Obrigada a você também, querida amiga. Facilitou muito o meu trabalho. — Ela olhou de lado, observando a morte. O mórbido esqueleto a observou de volta, silencioso e sedento por aquilo que queria, mas não teria ali…
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Luiz E. Marcondes é um escritor brasileiro de literatura de terror cósmico e psicológico. Desde jovem, sempre foi curioso sobre a mente humana. Formou-se em Psicologia Comportamental e Existencial e faz uso de sua formação profissional para agregar mais complexidade e valor aos textos...
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Sou última nascida em sangue e cinzas | Carrego a carapaça de osso e fúria, | Amálgama d’outrora em boas-vindas | À Vila Séttimor em sua lamúria;…
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