Mudança compulsória
Dizem que sou reclamona. Eu concordo. Mas discordo quando insinuam que essa característica é “má”. Não se acomodar com as situações adversas é que…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Dizem que sou reclamona. Eu concordo. Mas discordo quando insinuam que essa característica é “má”. Não se acomodar com as situações adversas é que faz o mundo evoluir... Ou você acha que se o homem estivesse contente até hoje em andar a cavalo ele teria inventado o carro? O ser humano só muda quando algo o incomoda. Muda para benefício próprio. Por conforto.
Outrossim, concordo que tudo que é descomedido torna-se insuportável. Eu sou descomedida. Consequentemente, insuportável. Mas nem sempre me vejo como uma criatura desprezível e isso não interfere na minha capacidade de conviver nessa sociedade — tão desprezível quanto —, mas inconsciente de tal condição.
Sobre os incômodos e mudanças do homem é assustador, porém libertador, quando percebemos que é exatamente assim: a mudança deriva de alguma necessidade intrínseca de cada um. Não tem nada a ver com altruísmo e caridade. Somente interesse. As exceções se dão quando o indivíduo o faz sem ter a plena consciência de seu interesse, acreditando que tudo ocorreu devido à sua própria “capacidade de ser bom”.
Não é pessimismo. É a verdade estridente que nós, se não fôssemos tão românticos, a ouviríamos clara e intensamente. Mas acredito que muitos irão se escandalizar. Normal. Outros dirão que é um absurdo qualquer imbecil dizer-lhes que não agem por bondade. Não julguemos, não é isso o que faço. Só lhes digo que se quiserdes enxergar as coisas mais nitidamente é imprescindível deixarem de lado estereótipos e paradigmas. Este é o começo de qualquer mudança. Deixar de lado o eu utópico e a hipocrisia e, ao menos uma vez, ser sincero consigo.
Ademais, na qualidade de humana, eu também sou interesseira, não me coloco à margem de tal condição. Uns tendem a comparar o quão interesseiros são, como se fizesse alguma diferença. Outros terão a capacidade de se acharem “interesseiros, mas por uma boa causa”, mesma coisa que justificar um massacre. Se for para o bem, tudo podem, assim acreditam.
Seja como for, haja o que houver não poderíamos e nem conseguiríamos mudar o curso dessa embarcação. Não é a minha força de vontade ou meus desejos que fazem as coisas acontecerem, pois são tudo coisas abstratas, será que não entendem? É preciso me apossar de um remo, utilizar meus braços e remar. O Remo por si só também não pode agir. Bem que ele tenta, mas coitado, ele não consegue. Bem que ele queria que seu imensurável “querer” se transformasse em ação. O seu “querer” não é a consumação de sua existência. Ele precisa de alguém para utilizá-lo. Ele precisa de alguém para que seu destino seja consumado.
O quão esforçados somos! Admira-me a nossa tendência para acharmos o melhor em nós mesmos e o pior nos outros. Se falássemos que os outros são interesseiros concordaríamos imediatamente, mas quanto a nós... Justificar-nos-íamos.
Contudo, as coisas precisam ser dessa forma. O mundo precisa continuar em sua órbita normalmente. Não queremos que as mudanças, por vezes compulsórias, nos façam como terráqueos-extraterrestres. É muito ruim ser um extraterrestre, melhor ser só terráqueo, igual aos demais. Tudo igual. É sempre melhor ser primitivo. Ser egoisticamente troglodita é sem dúvida melhor!
Melhor continuar tudo como está?!
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Olhos flamejantes e o último autônomo
Acordou num sobressalto. Os sonhos pareciam vívidos. Arturo não descansava…
Criatura núrida, este conto, que
estás prestes a ler, contém um
interessante enredo. Foi construído com maestria
por uma autora fascinante e, decerto, trará à sua mente
uma compreensão diferente sobre o que as engrenagens,
quando vinculadas, podem trazer à tona no equilíbrio da
existência. Boa leitura!Com sombrio apreço, a Anfitriã Sahra Melihssa
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Acordou num sobressalto. Os sonhos pareciam vívidos. Arturo não descansava há dias, flagelado por dores intensas e pensamentos perfurantes. O silêncio já não trazia alento, o trabalho não mais o distraía do medo. Agonia. Receio. Inquietude. Eram seus únicos estados de espírito.
Como homem da ciência, não ousava procurar os curandeiros; não buscava a nenhum deus, porque lhe faltava a fé que faria com que as montanhas de incômodo fossem removidas.
Nos raros momentos de um falso alívio, lembrava com tristeza de sua última e perfeita invenção: um autômato que emulava, funcionalmente, as habilidades que desejava em um assistente pessoal.
Mas ele se fora.
Os olhos flamejantes engoliram sua criação, mas recusava-se a acreditar no que presenciara. Lutava consigo, não iria permitir que pensamentos alucinatórios o envolvessem em uma lama de caos e insanidade. Viu, mas em sua racionalidade extrema afastava, furiosamente, quaisquer ideias fantásticas. Aqueles olhos tinham que ter uma explicação científica.
A sua criação perdida tinha o exoesqueleto de ferro. Os ossos-ferro foram forjados pelas mãos fortes do jovem Arturo. A “pele” era uma fina camada de bronze, cujo contornos foram delineados, delicadamente, para compor os detalhes da musculatura humana. Finalizou em 1970, com então 25 anos de idade, e naquela época ainda não havia tecnologia para emular voz humana, mas como seu auxiliar só precisava de coordenação motora aceitável, era perfeito para o que se propunha. Não tinha a coordenação fina de um adulto saudável, mas os serviços de Arturo exigiam mãos fortes, tal qual as dele e assim ele o fez.
***
Em uma noite sem estrelas, onde o vento assoprava segredos indecifráveis, Arturo lembrou-se das histórias de sua infância, contadas todas as noites por sua vó. Em uma delas, grandes olhos de fogo surgiam nos céus para julgar e condenar todos os habitantes da terra. Quais eram os critérios para condenação? Quais eram as penas? Havia muitas versões, mas a que mais perturbava o jovem era: “as piores torturas viriam para àqueles que tinham sangue de inocentes nas mãos”.
O governo para qual Arturo havia cedido sua mão de obra e, consequentemente, sua alma, nadava em um mar de sangue inocente. Ele, como criador de milhares de autônomos para combate, sabia que tinha parte dessa culpa. Sabia que as dores eram consequências das mortes que agora recaíam sobre seus ombros. Mas recusava-se aceitar que as crendices tivessem efeito no mundo real.
Mesmo afligido pelas dores e culpa começou um novo protótipo. Sempre fora obstinado e não estava disposto a mudar de comportamento. Se, o que quer que seja, tomou-lhe o assistente anterior, faria outro, ainda mais perfeito. E assim o fez. A nova criatura era infinitamente mais robusta e com habilidades motrizes melhoradas. Olhou para o novo ser de ferro e gostou do que viu. Conseguiu dormir por algumas horas ininterruptas sem ser perturbados por ruídos ou dores.
Acordou sentindo as esperanças renovadas, mas o bem-estar recém adquirido seria esmigalhado por outra perda: o novo ser também sumira.
Sabia quem o havia levado, mas novamente, tornou a banir tais pensamentos e recomeçou o ciclo de criação. Novos protótipos eram criados reiteradas vezes, mas mal conseguia terminar os testes era açoitado por novas perdas. Inúmeros autônomos foram sugados para dentro dos olhos famintos. As dores aumentavam, até que não sobrou mais pensamentos lúcidos e a sua capacidade cognitiva foi severamente afetada.
***
Aquela noite estava atípica. Ouviu barulhos agudos incômodos, como se estivesse dentro de uma siderúrgica macabra, mas não sabia distinguir o que era real do que era truque de uma mente adoentada. Quando, enfim, decidiu acabar com seu sofrimento, um brilho intenso o cegou, mas os ouvidos continuaram ávidos por qualquer onda ou gotejo sonoro. Vozes metalizadas começaram a emergir, e a potência das vozes lembravam um coral que rasgou os céus e desceu com leveza até a terra.
De alguma forma, o exército que ele havia criado retornou para buscar seu criador. O sangue dos inocentes clamava por justiça e os combatentes-máquinas foram enviados para a missão final. Em seus últimos segundos de vida Arturo escutou o veredito provindo de sua última criação. Sabia que os olhos haviam encharcado aquelas criaturas com a ordem de exterminar todos os culpados, mas ao invés de medo sentiu um alívio, pois constatou ter engendrado uma figura infinitamente perfeita.
“Eu estava certo vovó. A ciência é maior que a crendice...”.
O último autônomo não lhe deu chance de concluir o discurso e eliminou o brilhante inventor. No alto, os olhos flamejantes permaneciam indiferentes aos milhares que ainda aguardavam, sem adivinharem, seu destino. O ciclo precisava continuar e o universo seria reinventado... E as engrenagens nunca iriam cessar...
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Capítulo 6: Engrenagens do destino
Estou diferente. Não sei dizer exatamente o que, mas estou. As interações com o ambiente parecem ter adquirido novas roupagens…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Estou diferente. Não sei dizer exatamente o que, mas estou. As interações com o ambiente parecem ter adquirido novas roupagens — “‘roupagens’, de onde tirei essa expressão?!”. — Como vês, o meu linguajar foi uma das mudanças, não me lembro nem de pensar... Agora falo.
Tenho lembranças envoltas em uma névoa penumbral, como se as memórias não me pertencessem e eu as tivesse tomado de seres cósmicos. Meu contato com todos à minha volta ficou intenso e sinto apetites insaciáveis, mas ao menos ela está mais feliz do que nunca.
Assim que proferi a primeira palavra causei um espanto imenso, principalmente nela, mas aos poucos foi se acostumando com as minhas novas habilidades.
Dizem que somos sarcásticos, egoístas e que não zelamos por nossos pais humanos ou que não gostamos de suas companhias, mas isso é mentira. Eu daria a minha vida por ela novamente, ela é o ser que ilumina meus caminhos, todos dias e noites. Ela também está diferente, menos ferida e preocupada e isso me deixa muito feliz.
***
Ela dormia. Eu ouvia barulhos irreconhecíveis, imaginava ser efeitos colaterais da viagem que percorri por instinto de volta à vida. “Será que tenho alma?”. Os barulhos me irritaram tanto que tive que ir procurar o que diabos causava aquilo. Neste ponto, estão certos sobre nós: gostamos de sossego e ambientes aconchegantes.
Não me lembro qual caminho segui, mas cheguei ao lugar que havia selado — ao menos temporariamente — meu destino. Engraçado a forma alucinada com que desenvolvo minha habilidade de comunicação, deve ser influência de todas as lorotas que ouvi durante minha vida. “Será que agora sou imortal?”. Não sei se quero descobrir, talvez eu tenha de fato sete vidas e já gastei uma... Mas não pretendo decifrar tais segredos tão cedo.
O barulho aumentou. Um som de ferragens, acompanhado de uma claridade anormal para o período noturno. Quando olhei para o alto fitei duas bolas de fogo e, de alguma forma, já naquele momento tive a certeza de que me olhavam de volta... Ouvi sussurros lamuriosos, ou assim eu pensei. Essa parte ainda é turva para mim.
Descobri que tenho conexão com seres de outras dimensões. Conheci meu antepassado. Ele é o passado, o presente, o futuro e tudo o que há entre eles. Seu corpo colossal é um monumento de eras fundidas: engrenagens ancestrais e circuitos modernos pulsando em um coração preenchido do éter puro.
Seus olhos — ou o que se pode chamar de olhos — são como dois sóis ardentes, esferas de plasma incandescente, irradiando calor e segredos que poderiam queimar a própria realidade. Fulguram como brasas eternas, com filamentos de fogo líquido que giram como tempestades solares.
A armadura que cobre seu corpo é um mosaico de eras e estilos: peças de ferro entrelaçadas com filetes de ouro, que brilham como astros em um céu simétrico, mecânico. Tubos de vidro transpassam seus membros, conduzindo um éter luminescente que serpenteia como relâmpagos aprisionados. Do interior de suas articulações saem estalos de vapor e silvos de válvulas, como se o próprio tempo fosse seu combustível. Os barulhos que eu ouvi provinham dessas válvulas e das enormes engrenagens que simulavam uma rótula de joelhos humanos.
Das costas de Listheron — Sim, este é seu nome —, também saem engrenagens, como asas mecânicas que giram lentamente, produzindo um som profundo, semelhante ao eco de um relógio marcando o fim e o recomeço de todas as coisas.
Em sua presença, o espaço vibrava e o ar se preenchia com o aroma metálico do ferro queimado e da eletricidade que percorria seus dutos-veias.
Sua voz é tal qual um trovão filtrado por alto-falantes, misturando chiados, estalos e profecias. Suas palavras são códigos, fórmulas e segredos do universo, compreendidas apenas pelos que atravessam as brumas entre ciência e magia.
Listheron é o guardião dos ciclos cósmicos — o eterno tic-tac entre criação e colapso. Buscá-lo é arriscar-se a ser desintegrado por seus sóis flamejantes... ou ser reconstruído, peça por peça, com engrenagens feitas de estrelas e alma.
É... parece que as minhas habilidades estão evoluindo, não imaginava ser capaz de descrever a beleza daquele ser ancestral.
Ainda não sei se tenho alma, mas Listheron me disse que isso era irrelevante e que eu poderia experimentar coisas inimagináveis se eu aceitasse a minha forma verdadeira, assim como ele o fez. O tempo atual seria dobrado como um lençol recém passado e todos iriam sumir feito poeira da estrada.
O convite era tentador, mas eu tinha alguém para proteger... Não podia fazer isso com ela, que deu seu sangue por mim... Sei que ela não sobreviveria com essa perda.
No instante em que recusei, meu ancestral se dissolveu no ar, tão enigmático quanto havia surgido. Mas não houve hesitação em meu coração — eu sabia que minha escolha era a correta.
Então, ouvi uma voz trêmula, desesperada, rasgando o silêncio:
“Lisa! Lisa!”
Sem pensar, sem olhar para trás, corri. Corri para os braços da Alana, para o lar que escolhi.
PS: Imagino que estejam curiosos sobre quem escreveu esse relato. Se eu aprendi a falar, por que não poderia datilografar? Ah, ainda ouço o chamado, mas ainda não é o momento de partir...
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Capítulo 5: Renascimento
O desassossego noturno retornou para açoitar-me. Inicio meu relato desculpando-me pelos prováveis lapsos de memórias e confusões textuais…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
5º relato
O desassossego noturno retornou para açoitar-me.
Inicio meu relato desculpando-me pelos prováveis lapsos de memórias e confusões textuais, pois esse texto reflete meu estado de espírito perturbado — o registro começou minutos após os eventos.
Eu, notívaga inata e teimosa em semelhante proporção, insistia em lutar contra a minha natureza. Contudo, compreendi que a noite não me trará descanso, mas poderá ser aliada nas minhas aventuras por lugares desconhecidos, internos ou externos a mim.
Contarei sobre um evento terrível e curioso, onde tive que enfrentar os limites da realidade. Novidade! Escavei coragem de um solo árido, até então, nunca regado por mim.
***
Algumas horas antes
Os sonhos arrastavam e sugavam-me para um oceano revolto por correntezas perfurantes. O despertar foi acompanhado de um grito. Gélido ar aspergia lâminas que perfuravam minha pele desnuda, mas as janelas estavam, hermeticamente, fechadas. De onde provinham?
Gritei por Lisa. Nada. Onde ela estava? Já prevendo outra incursão pelos recônditos do Castelo à procura da gata que tinha paixão por entrar em enrascadas, apoiei meu pé direito para levantar-me e o chão quase me paralisou, tamanha frieza com que me recebera.
Estranho. Não lembro de ter presenciado frio tão intenso desde que chegara aqui, mas imaginei ser normal. O chão estava coberto com uma textura peculiar. Ao passar suavemente o pé naquela superfície, ouvi um farfalhar, algo macio, gelado... Neve! O assoalho era um campo nevado!
Não confiei estritamente no tato, meus sentidos estavam diferentes. Não era? NÃO ERA?! Poderia confiar nos meus olhos? Acendi o abajur e a luz iluminava o tapete de gelo, entretanto, permanecia não acreditando no que estava vendo, sentindo.
Estabilizei meus pensamentos. Óbvio que eventos bizarros acontecem no Castelo, por que eu estou surpresa? Vesti um casaco longo de lã em tom de caramelo e uma calça preta justa em um tecido quente e escuro; para aquecer o pescoço, enrolei um lindo cachecol xadrez macio e completei o look calçando as botas de couro preto de cano alto. A quem pertencia aquelas roupas? Saí do quarto e embrenhei-me pelo corredor, cujo chão também estava revestido de neve límpida.
Enquanto percorria os imensos corredores do Castelo, recordava o último encontro com o Drácula: o momento que estava diante das três portas, que ele havia me ofertado, mas nas quais não adentrei. Será que ele havia ficado chateado com a minha rejeição? O que ele poderia fazer com Lisa? Vampiros podem alimentar-se do sangue de animais? Afastei o último pensamento, bobagem pensar que a criatura elegante poderia agir de forma tão vil.
Afligida pela dúvida, segui em direção àquele salão. Tudo estava diferente. Não era mais um salão de festas suntuoso, adornado de luxos e enfeites dourados. Diante da frustração de não encontrar a minha Lisa, nem as portas ou o Drácula, fechei os olhos e, ao abri-los, percebi estar na área externa do Castelo, no jardim!
Guiada pela maldita curiosidade, vasculhei ao redor. O luar iluminava a vegetação esverdeada, sem vestígios de que ali houvera caído neve. Passei pela estradinha com pedras âmbar, a mesma que havia utilizado quando cheguei aqui, mas agora descendo em direção ao portão principal. A temperatura estava amena e senti tanto calor que retirei o casaco e o cachecol.
A caminhada seguia perturbada por pensamentos terríveis, cuja racionalidade insistia em questionar o porquê daquelas alterações bruscas de temperatura e condições climáticas. Calei essa voz que gritava por explicações, pois este local não segue leis e princípios conhecidos.
Cheguei ao portal. Suas folhas eram como espelhos retangulares preenchidos por uma substância semelhante à névoa negra, pulsava e parecia ferver. Aproximei-me, sussurros incompreensíveis me instigaram a tocar na cascata nebulosa. Deveria? Óbvio que não! Mas eu me permiti ir além.
A névoa envolveu-me por completo, preencheu cada centímetro do meu rosto, cabelo, membros e tronco, e sentia-me levitar. Meu corpo, tomado por aquela força ficou em posição horizontal, flutuando. Primeiro foi a minha cabeça que passou por um dos retângulos-folha. Ao longe avistei uma criatura horrível, sem olhos, pele translúcida e com tantos dentes pequenos e afiados que mal podia contá-los.
Sustentada pelo medo-força atravessei, sem de fato mover nenhum músculo, o limiar que separava o Castelo do “Nenomium”, um lugar onde coisas ainda mais impossíveis poderiam acontecer. Amaldiçoei, novamente, a minha curiosidade!
Terminada a transição, percebi que a única coisa que me pertencia era o amálgama de sentimentos, mas agradeci por não ter largado o casaco e o cachecol, pois do outro lado estava deveras frio.
A criatura horrível permanecia inerte, mas sorria de forma a gerar um insensato desconforto, e em fração de segundos, devido sua agilidade excessiva, locomoveu-se e parou frente a mim. O fato de não conseguir sondar seus olhos inexistentes aumentou meu receio.
Agarrou-me pelo pescoço com tanta brutalidade que pensei ser o meu fim. Foi quando ela apareceu, alta, esguia e coberta com longo manto negro, que conferia-lhe um aspecto misterioso, imponente. Uma mulher, acompanhada de dezenas de cabras negras, surgida do além para livrar-me das garras da criatura sem olhos. Com voz firme ordenou para que ele me soltasse. E tal como um servo fiel e obediente abriu de imediato as mãos constituídas de dedos compridos e pele descamadas. Fui ao chão.
Havia sido por pouco. Ao contrário do que costumam dizer, talvez como forma de romantizar a partida, o desespero causado pela aproximação da morte não te faz recordar nada, eu lutava tanto pela minha vida que não tinha tempo hábil para pensar nas coisas passadas. Arrependimentos não foram companheiros.
Recobrei o ar e o pouco de dignidade que ainda me restava. Em todo momento a mulher permaneceu quieta, observando-me. Quando consegui reconstruir a minha eu interior, perguntei seu nome e recebi um silêncio constrangedor como resposta. Teci mais algumas perguntas, as quais nenhuma resposta recebia. Perguntei por Lisa, e ela apontou para o portal, entendi que ela estava no Castelo. Quase morri por uma missão inútil!
Agora, pensando com calma, pergunto-me se eu realmente iria morrer. Tudo aqui é fantástico, não seria a morte uma possibilidade de viver outras vidas, um renascimento carnal e espiritual? Por que eu ainda tenho medo?
Voltemos ao relato. Explicou-me o que era o “Nenomium”. Por fim, disse-me que eu tinha duas opções: ficar naquele local e descobrir verdades almejadas ou voltar para o Castelo e para Lisa. Eu estava realmente preparada para enfrentar situações adversas e desconhecidas? Não! Eu não estava pronta, e não ignorei os meus instintos de sobrevivência, aquela noite já havia me proporcionado emoções intensas e meu pescoço ainda doía. Levantei-me e segui com passos firmes em direção ao portal para retornar ao Castelo. No entanto, ao recordar-me de me despedir, virei-me, mas a mulher misteriosa já não estava lá. Um calafrio percorreu minha espinha e então corri. Não podia depender da sorte novamente: encontrar outra vez aquela criatura voraz não era algo que eu pretendia arriscar.
Do outro lado, de fato, encontrei Lisa. Jazia em frente à porta principal. Seu corpinho estava retorcido, aproximei-me e vi o fio vermelho da vida escorrendo de sua boca. Quem a machucou? Aquela maldita criatura?
Gritei por ajuda. Após muitos gritos e lamentos, Drácula veio ao meu encontro. O rosto impassível emoldurava um sorriso aterrador, imaginei que por culpa e o impedi de se aproximar. Ele ficou me olhando, sem mover um músculo, como que a contemplar meu sofrimento. Esperou eu ficar mais calma e então disse que meu sangue poderia curá-la. À princípio, hesitei, isso era absurdo! Depois refleti:
Que mal poderia fazer? O sangue poderia sim ser a corda com a qual eu a salvaria do abismo que sugara sua frágil vida...
Procurei por um material pontiagudo nos meus bolsos, e é claro que não encontrei nada. Aquelas roupas nem eram minhas! Drácula fitava-me com um olhar que agora entendi ser de compaixão. Na incerteza da sua culpa, cedi. Aceitei os dentes dele cravados em meu pulso, uma leve fisgada seguida de um frenesi instantâneo e indescritível. Não era prazer, orgasmo ou euforia, mas ao mesmo tempo era tudo isso.
Eu o deixaria sugar toda a minha energia, a sensação de não sentir dor, agonia ou tristeza mantinha-me em posição servil, silente. Mas ele cumpriu o combinado, parou o ritual a tempo. O braço perfurado liberou o líquido, o elixir salvador foi vertido na boca da indefesa Lisa. Ela, como quem desperta de um sonho profundo, abriu os olhinhos brilhantes como um céu estrelado. Aproximou-se de mim, delicada, esfregando-se em meu peito, como se pudesse sussurrar um agradecimento mudo pelo sacrifício. Eu chorava e sorria, um turbilhão de emoções dançava em meu ser, enquanto meus olhos buscavam os dele — Drácula!
O que ele fez comigo? Seus olhos, um enigma sombrio, carregavam segredos que eu não podia decifrar, mas havia algo diferente, algo que atravessava o silêncio entre nós. Um laço invisível, inquebrável, parecia nascer ali, conectando-nos de forma mais profunda do que jamais imaginei. Éramos agora partes de um mesmo destino, entrelaçados pela eternidade.
E Lisa, como um raio de sol após a tempestade, está linda e melhor do que nunca.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Capítulo 4: Da selva de pedras e espectros do passado
Tinha o costume de escrever essas palavras em alguma superfície e, provavelmente, as eternizei na parede do banheiro daquele Pub que já mencionei…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
4º relato
“Nascida na selva de pedra,
poluição e concreto, vis companhias,
na prisão onde a alma se quebra,
vivo e morro em rígidas galerias.”
Tinha o costume de escrever essas palavras em alguma superfície e, provavelmente, as eternizei na parede do banheiro daquele Pub que já mencionei, o local que era a extensão do que eu sentia, vivia. Era uma criatura da cidade, nasci em meio à cacofonia de ruas lotadas de pessoas que se embarravam, e não se conheciam. Era mais uma na multidão, minhas questões só importavam para mim. Grandes poetas exaltavam a natureza, por suas belezas e capacidade de recomeçar, respeitando os ciclos e estações — em contraste com a nossa existência caótica e perturbada. Não ouso dizer que eles não tiveram suas dificuldades, mas para mim é extremamente difícil falar sobre essas belezas e sobre os sentimentos bonitinhos. Eu somente salvo a mim quando mergulho nas águas turvas e inóspitas das palavras brutas e sentimentos controversos.
A atmosfera lúgubre do Castelo aflora esses sentimentos, mas não estou infeliz. Sinto-me cada vez mais impulsionada a criar. As palavras escorrem das minhas mãos e encontram abrigo no papel límpido, agora desvirtuado pela tinta magenta ou negra. Na tela, fenômenos semelhantes ocorrem, e as pinceladas dançam na superfície como se fossemos a completude um do outro.
Após horas de criações, muitas das quais foram descartadas, pois estou cada vez mais exigente — o tempo me é amigo, e eu posso me dar ao luxo de recriar sem me preocupar com prazos ou com pagamentos batendo à porta.
***
Não sei precisar se estava acordada ou dormindo, mas sentia-me num estado de semiconsciência, como se houvesse ingerido alguma substância alucinógena (O que será que Ameritt colocou naquele chá que trouxera para mim?), mas percebi estar a contemplar a minha última obra: era o infinito, o fundo negro com degradê de tons diferentes do negro mais brilhante que já pude ver em uma tinta. As estrelas brilhavam, causando impressão de estarem se mexendo e pulsando no ritmo das batidas do meu coração. As luzes-estrelas se aproximavam e cresciam de tamanho, estavam em velocidades distintas, cada uma seguindo o ritmo autoimposto.
Não conseguia parar de fitar aqueles belos pontos brancos brilhantes. Minha visão não ficou totalmente enuviada, mas ao passar os olhos por cada uma delas sentia um leve desconforto, semelhante ao que se sente em uma montanha russa: um incômodo que você não recusa, pois diverte, e aceita todas as vezes que lhe oferecem.
Fiquei naquela posição por um tempo que não soube determinar. As luzes perfuraram o limiar infinito-tela e romperam a barreira da realidade: as luzes projetaram-se para fora, como hologramas e tornaram-se espectros das pessoas do meu passado, justamente aquelas que não queria encontrar novamente. Gritei. Virei-me para sair do quarto, não podia permanecer naquele local com aqueles execráveis.
— Siga-me — disse Meia-noite.
— Você novamente... então estou sonhando?
— Vamos!
Eu o acompanhei, não me importava para onde ele iria me levar dessa vez, mas qualquer lugar seria menos aterrorizante do que permanecer ali, com eles.
Corríamos por caminhos e corredores, novamente, nunca percorridos anteriormente por mim. Os corredores eram iluminados por luzes violetas, cujo reflexos nas paredes pareciam recriar seres etéreos, ora divinos, ora fantasmagóricos. Será que novamente eu seria obrigada a entrar naquela banheira?
Parei. Exigi que Meia-noite me dissesse para onde iríamos.
— Não, eu não a levarei novamente para a banheira. Mas você precisa enfrentar seus demônios, senão ficará sendo constantemente assombrada por eles.
— Não há alguma forma de esquecer tudo isso? Eu não aguento mais!
— Há uma forma, mas você estará disposta a entregar-se?
— Eu não sei, depende do que me será exigido...
— Você irá descobrir...
Um frio gélido lambeu minha espinha. Meia-noite esboçou um sorriso enigmático, mas que me assombrou. Continuamos seguindo um destino incerto para mim, mas agora andávamos calmamente. Aos poucos as luzes do ambiente foram transmutando-se de violeta para leves tons de escarlate. Ouvia sussurros entrecortados e sôfregos concediam ao local aspecto dantesco.
Chegamos a um salão amplo. Os lustres transbordavam luzes vermelhas. Havia estantes recheadas de livros clássicos, com capas vermelhas, verdes e azuis belíssimas e estilizadas com letras douradas, que reluziam como se feitas de ouro (e provavelmente eram, pois o luxo não era problema naquele Castelo). Os vastos móveis, mesas, armários e cristaleiras eram adornados de objetos metálicos de prata e ouro envelhecido, cujos reflexos enuviavam minha visão. As poltronas e cortinas eram de veludo vermelho, similar as que tinham no meu quarto. Enquanto observava maravilhada cada detalhe, nos móveis, teto e paredes, percebi que ao fundo havia quatro portas, e Meia-noite, antevendo a minha pergunta, começou a proferir:
— Atrás de cada porta haverá um acontecimento de sua vida, uma violência que foi causada por um daqueles que estiveram em seu quarto. Você poderá interferir, poderá eliminá-lo da forma que quiser. Mas saiba que qualquer alteração do seu passado irá reverberar no presente: Novas versões suas serão criadas. A sua versão atual será a principal e continuará aqui no Castelo, em segurança, mas não terá consciência das outras, elas também não saberão sobre você. Elas terão novos destinos, outras pessoas irão cruzar os caminhos delas. Elas poderão passar por situações muito piores que as suas, mas você irá se livrar das suas dores, pois todas as memórias tristes que envolviam o eliminado serão apagadas, como se nunca tivessem ocorrido.
— Todas?
— Sim, todas. Mas as suas outras versões poderão continuar o tormento...
Eu nunca me considerei uma pessoa altruísta. Não fazia trabalho voluntário ou doações, não porque não considerava importante, mas porque gastava meu tempo tentando sobreviver na selva de pedras e, sendo sincera, não queria me esforçar para deixar os outros bem. Mas eu nunca fiz o mal para os outros de forma deliberada. A ideia de condenar outra pessoa — ainda que versões de mim — à uma vida miserável me incomodou extremamente.
Quando virei para falar para Meia-noite que iria recusar a tal proposta, deparei-me com uma figura enigmática. Esse Castelo ainda me deixará entregue à loucura!
Permaneci inerte enquanto fitava-o, e ele retribuía minha hesitação com um olhar cortante. Era alto, belo e trazia sobre os ombros uma capa negra com finos entalhes dourados, conferindo-lhe um ar altivo. Alguém que já havia encontrado anteriormente.
— Drácula? — Perguntei com voz quase inaudível.
— Sim... Fiquei intrigado com a vossa escolha. Faz eras que não cruzo o caminho de um mortal cujo coração, embora puro, pulsa dissabores e destila amargura.
— Eu não tenho o coração puro...
— Quero lhe mostrar algo... — disse ele, com o olhar sombrio e hipnotizante, enquanto apontava para uma estreita passagem entre as estantes, onde antes havia quatro portas, agora desaparecidas.
— Eu não sei se quero entrar...
— Compreendo... Passastes por experiências incompreensíveis neste Castelo, e é natural que as descobertas lhe causem inquietações. Deves adentrar a passagem por tua própria vontade. Aguardarei a tua vinda... Venha quando estiveres preparada.
E, sem aguardar minha resposta, envolveu o rosto com a longa capa e desvaneceu no ar, como se atravessasse um portal oculto para as sombras.
Quais descobertas me aguardam através da passagem? O que Drácula reserva para mim? Espero em breve descobrir.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Vale verdejante
Aquele inverno estava rigoroso. O ar gélido açoitava, sem escrúpulos, a face dos transeuntes e endurecia os seus corações, já embrutecidos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Aquele inverno estava rigoroso. O ar gélido açoitava, sem escrúpulos, a face dos transeuntes e endurecia os seus corações, já embrutecidos, pelas dificuldades de uma rotina enclausurante. As vegetações quase jaziam, sem viço, e exibiam uma fina camada esbranquiçada, causada pelas constantes nevascas, nada comuns para aquela região.
Os animais também eram prejudicados e sofriam as consequências da escassez de alimentos. Doenças. Mortes. As carcaças dos pobres animais eram amontoadas em uma pira, não por ritual, mas por necessidade, e o cheiro dos pelos e carnes, enquanto eram incinerados, – com o intuito de conter as mazelas que emanavam de seus cadáveres, – causavam ânsias e amarguras. Ledo engano. As doenças logo reclamariam para si o direito – autoimposto – aos corpos dos moradores daquele local, primeiro das crianças e idosos, depois das mulheres e homens adultos.
A comunidade, outrora festiva e alegre, agora não tinha motivos para comemoração. O ânimo foi-se esvaindo, assim como a vida dos campos verdejantes, que emolduravam aquele belo lugar em tempos passados.
O vilarejo, batizado gentilmente de “Vale verdejante”, em referência clara às belezas naturais que possuía, agora era tomado por uma pesada aura inodora e insípida, reflexo do que agora aqueles pobres coitados traziam dentro de si. O verde pulsante das folhas de outrora tornou-se incolor, sem vida.
E, como eram supersticiosos, ponderaram sobre os motivos de tais agressões, que segredos os deuses e entidades haviam descoberto que justificassem castigos tais? Como crentes em maldições e contra maldições, agarraram-se ainda mais à fé, e direcionavam suas rezas e sacrifícios para todos os deuses que estivessem dispostos a ouvi-los.
E ouviram.
Numa noite fria, que reafirmava que nada mudaria, e confabulavam se iriam falecer de inanição ou hipotermia, uma esfera luminosa atravessou os céus e cravou-se violentamente nas colinas ao redor, iluminando a noite tenebrosa como um farol esmeralda de esperança, há tempos perdida. Sim, a cor que caíra do céu era indescritível, mas na obrigação de classificar os eventos, a cor era semelhante ao verde. O verde, que tanto almejavam, vinha trazer-lhes o terror? Os reflexos de luzes verdes e suas variadas nuances, criavam um caleidoscópico hipnotizante, tragando-os para dentro do mosaico enigmático, penetrante. O impacto da esfera causou um leve tremor de terra e uma cratera recheada com os destroços do que quer que fosse aquele elemento. No centro da esfera, uma mancha verde brilhante pulsava, como se estivesse viva.
Apavorados. Inertes. Não desviam o olhar da cratera, esfera. Ela tinha um poder invisível sobre eles, tornando-os marionetes sem controle dos próprios corpos e ações. Contudo, do mesmo modo misterioso com que foram dominados, sentiram-se libertados de repente e conseguiram, enfim, discutir sobre o ocorrido.
– O que será isso?
– Será que é perigoso?!
– Mas de onde veio isso???
– Céus, o que é isso?
Questionam-se, obviamente, não obtendo uma resposta plausível. Após algum tempo de indagações retóricas, por fim, ouviram uma voz ecoando em suas mentes:
“Venho do nada. Do vazio. Antes da existência das galáxias, dos mundos e da vida. O nada, esse lugar incompreensível para você, é minha morada, meu abrigo. Eras e eras, bilhões e bilhões de anos separam meu existir e o surgimento de sua frágil raça. Mas você me invocou. Clamou por ajuda e eu vim para ser a sua única saída. Não temas.”
Sentiram uma paz preencher cada parte de seus corpos. Ninguém ousava dizer mais nada, mas sabiam, o socorro viera e eles seriam salvos. E foram. Nos dias seguintes o mau tempo deu trégua, o sol voltava a iluminar os olhos e corações, derretendo a geleira surgida dos escombros das dores e mortes. Os animais, que haviam conseguido subsistir, ficaram mais fortes, suas doenças foram extirpadas, como se arrancadas com a mão. O mesmo ocorreu com os enfermos que resistiram ao doce chamado da morte, – e ela, havia sido expulsa daquele lugar por tempo indeterminado. Mas a melhora mais nítida era com a vegetação: tornara-se verde brilhante e viva, mas de um tom tão intenso, quase fosforescente. E em certas noites afirmavam que as folhas irradiavam uma luz verde intensa, mas não ousavam questionar os milagres recebidos.
E permaneceram firmes naquele acordo mudo. Sem questionamentos.
As verduras, que cresceram após aquele evento, eram deliciosas, cada mordida emitia um som suave, como um sussurro apaixonado aos ouvidos. Logo as árvores também deram frutos, suculentos e inebriantes, nunca haviam provado nada igual. E no meio de tantas dádivas insistiam em não enxergar os efeitos colaterais daquele milagre: suas peles estavam ganhando tons de verde água, bem sutil, mas perceptível. Mas não ousavam reclamar.
Os pelos dos animais também estavam tornando-se verdes. E quando abatidos para consumo, suas carnes e sangue tinham uma coloração esverdeada. Mas não se podia negar que isso tornava a carne ainda mais saborosa. E consumiam as carnes, verduras, frutos – tudo o que provinha da terra – com tanto afinco, obsessão. Sem questionamentos.
A terra já não era mais marrom, mas verde oliva. E banhavam-se nas terras, conectando-se a ela. E estavam. Primeiro foram os membros, os dedos já são tinham a forma humana, mas era semelhante a cipós. Sem questionamentos.
Os braços e pernas foram metamorfoseados em troncos esverdeados. O sangue transmutara-se em uma seiva verde limão, os órgãos internos adaptaram-se perfeitamente ao novo homem-vegetal. A locomoção era cada vez mais restrita, arrastavam-se por cima da manta verde – outrora terra – e ficavam horas parados ao ar livre, em um ritual de fotossíntese macabra.
E novamente a voz submergira nas mentes, solicitando a presença de todos na cratera. E foram. Quando suas mãos-cipó tocaram a esfera, sentiram algo se mover dentro dela. Um vulto surgiu na superfície e sorriu. Era o próprio ser-verde, aprendendo, copiando, invadindo. O verde havia consumido tudo e todos. E continuaria crescendo, para sempre.
A comunidade desapareceu em um silêncio vegetal. Onde antes havia casas e pessoas, agora havia apenas um vasto vale verdejante, coberto de flores e árvores que brilhavam levemente à noite. Quem olhasse de longe veria algo belíssimo, mas quem se aproximasse demais ouviria os sussurros nos galhos, risadas engasgadas e palavras esquecidas ao vento, e jamais seria visto em forma humana novamente.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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O suntuoso baile das máscaras negras
O convite chegou sorrateiro. Cartão negro, emoldurado por pétalas banhadas a ouro, letras cursivas que pareciam dançar no papel, anunciando que…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O convite chegou sorrateiro. Cartão negro, emoldurado por pétalas banhadas a ouro, letras cursivas que pareciam dançar no papel, anunciando que o baile seria o acontecimento mais importante de suas vidas. Não ousariam declinar. Quem enviou tal convite? Não importava. Como todos da alta sociedade foram convidados, o anfitrião certamente era um homem de estilo refinado. Presumiram ser um homem, somente um homem poderia ter e despender tanta fortuna em uma única noite.
Os preparativos foram imediatamente iniciados: os senhores com seus alfaiates; as senhoras com as estilistas, todos artistas renomados de seus tempos. Precisavam estar impecáveis, para eles não bastava ser rico, tinham que parecer ser milionários.
O grande dia chegou. Estavam cansados e ansiosos, pois o sono não havia encontrado morada em seus corpos. Noite em claro conferindo os pormenores, cada detalhe em seus trajes era crucial. Confirmação e reconfirmação de agendamento com os profissionais que ajustariam os cabelos, peles, unhas, os necromaquiadores — daquelas pessoas que andavam, respiravam, mas não viviam — deveriam ser perfeitos em suas tarefas. Aqueles nobres não aceitariam nenhum erro, nenhum deslize.
Chegaram pontualmente à mansão. Estavam a postos todos os membros da elite daquela cidade sem nome, enfileirados como pilastras adornando as portas do céu. Os portais abriram-se, revelando as belezas do local. Adentraram tal qual os pioneiros de uma terra virgem e fértil, cientes de que, se fosse preciso, a violariam para apaziguar seus prazeres mais profundos.
À recepção receberam máscaras suntuosas, negras e com os mesmos entalhes banhado a ouro, conferindo-lhes ares de seres etéreos.
O salão era grandioso, com um teto abobadado decorado por lustres de cristal gigantes que refletiam a luz suave em tons dourados por todo o ambiente. As paredes eram revestidas de painéis negros com detalhes em dourado esculpido, criando um contraste opulento e sofisticado.
O chão de mármore black piano com veios dourados, impecavelmente polido, refletia a iluminação suave das velas em castiçais imponentes de ouro. No centro do salão, mesas redondas estavam cobertas com toalhas de veludo vermelho e decoradas com arranjos de flores exóticas, e taças feitas de ouro puro e cristal lapidado, cintilavam com elegância sob a luz. Os talheres eram de prata com detalhes em ouro, e os pratos possuíam bordas decoradas com padrões barrocos dourados.
No ar, uma música clássica orquestrada ecoava suavemente, completando a aura suntuosa do local.
Garçons impecavelmente trajados circulavam oferecendo champanhes das melhores safras, enquanto sobremesas decoradas com folha de ouro descansam em bandejas reluzentes.
Uma pista de dança espelhada convidava-os a dançar sob uma chuva de luzes, tornando o ambiente ainda mais mágico e luxuoso, iluminando os sorrisos plásticos, cuja expressão inerte fora fixada mediante adoração do deus da estética.
O banquete foi servido, porém o anfitrião ainda permanecia insondável, enigmático, sob o véu taciturno que sua máscara lhe conferia. Banhavam-se nas taças dos vinhos e champanhes, envolvidos por todo aquele luxo exacerbado. Finalmente eram os senhores de si, finalmente haviam recebido o tratamento de que eram merecedores.
Em meio ao gozo, provindo do prazer etílico e carnal, dançavam, riam e agradeciam ao anfitrião, que somente assentia com leve aceno de cabeça. Não souberam precisar, mas em determinado momento as luzes douradas foram transmutando-se em marrom, negras.
O local, antes repleto de luxo, agora preenchia-se com uma pressão atmosférica lúgubre, mas não paravam de dançar. Os pés calejados não se atreveriam a parar. Os sorrisos plásticos não seriam desmontados. Continuaram, até que o anfitrião cansado daquela mesmice, resolveu interferir e anunciou que o tour pela mansão seria iniciado.
A mansão parecia crescer a cada passo. Um corredor infinito e implacável à frente. O anfitrião anunciou que cada um deles tinha um quarto ali, decorado conforme seus desejos mais profundos.
A primeira porta se abriu. Parecia um quarto medieval. No centro, havia uma banheira coberta de sangue das vítimas, jovens inocentes esmagadas e pisoteadas por uma mulher impassível, a dona daquele aposento. A condessa foi convidada a entrar. Não ousaria recusar. Entrou. A porta cerrou-se violentamente. Ouviram os gritos e souberam que os flagelos causados por ela seriam revividos para a eternidade.
Os seus pecados bateram à porta, cada um soube o que lhes aguardava. Ao avistarem seus destinos, alguns tentaram correr, mas os olhos da máscara que traziam em suas faces acederam-se em chamas. Tentaram arrancá-la, mas ela parecia fundir-se à pele, como se tivesse criado raízes em seus crânios. Gritavam, mas o som era abafado — a máscara sufocava, fechando-se ao redor da boca e nariz como uma viseira maldita. As chamas se espalharam, queimando a carne, mas sem consumi-la completamente, deixando marcas escuras e pulsantes que pareciam veias malignas. A pele fervia tal qual um vulcão em plena atividade. As bordas das máscaras começaram a se mover, como se fossem mandíbulas esmagando lentamente os ossos do crânio. O som era horrível. Rangidos ecoavam pelo salão, misturados com os gritos abafados. O sangue escorria pelas aberturas da máscara, enquanto os olhos dos algozes eram expelidos para fora, explodindo em um jorro grotesco.
Os outros convidados observavam, horrorizados e quietos. Os corpos dos que tentaram fugir, por fim, desabaram, mas as máscaras permaneceram flutuando no ar. Todos ficaram silentes, agora sabiam que não poderiam fugir daquele local.
As portas foram abrindo-se, uma a uma, e revelando os mais criativos instrumentos e formas de torturas, todas advindas daquelas mentes privilegiadas e merecedoras de todos os luxos que aquele inferno premium poderia propiciar-lhes.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Capítulo 3: Tratamento onírico
Meu quarto é imenso. Tudo no castelo é de bom gosto, com estilo refinado e ares vitorianos, como se estivéssemos dentro de um set de filmagem…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Meu quarto é imenso. Tudo no castelo é de bom gosto, com estilo refinado e ares vitorianos, como se estivéssemos dentro de um set de filmagem de algum filme passado no século XIX. Ainda tenho sentimentos conflitantes com relação a isso, pois sempre fui uma criatura que apreciava o novo e moderno (ah, como sinto falta da internet), mas sabia contemplar a beleza das construções e mobílias clássicas.
Há quatro janelas esguias, adornadas com cortinas de veludo vermelho, com os famosos penduricalhos dourados nas extremidades. A poltrona fora confeccionada com o mesmo tecido e estilo, e por vezes, ria-me imaginando ver algum aristocrata impotente sentado ali.
A cama é de madeira robusta, com entalhes perfeitos e possui quatro pilares, que sustentam o voil branco. Acho desnecessário todo esse luxo exacerbado, mas reconheço que é extremamente belo. Ao deitar-me na cama, o colchão parece dar um terno abraço materno, e sinto esvair toda a sensação de desconforto, se é que ainda restava alguma.
***
Acordei com a Lisa miando com uma urgência que me preocupou. Levantei-me para pegá-la, e ela correu em direção à porta e parou, como se esperasse que eu a abrisse. Abri. Continuou miando, andando e parando, exigindo de mim uma agilidade impossível.
Transparecia uma feição diferente, densa, como se não tivesse tempo para mais nada e somente precisasse me conduzir a algum lugar.
A escuridão impregnava as superfícies e conferia ao Castelo um aspecto ainda mais sombrio e enigmático, e em dado momento, quando ela virou-se para mim, avistei duas luzes violetas no lugar onde seriam seus olhos. "Ah Lisa, vamos voltar para cama, estou tão exausta que já estou vendo coisas", mas ela continuava irredutível em sua missão autoimposta.
Ainda não conhecia (e não conheço) os pormenores do Castelo. Existem várias portas, corredores e ambientes, e eu, que nunca tive boa percepção espacial, via-me cada vez mais perdida. Mas ela sabia exatamente onde estávamos e para onde íamos. Parou em frente a uma porta, e entendi que era o nosso destino. Bati, perguntando se havia alguém ali dentro e recebi o silêncio como resposta.
Girei lentamente a maçaneta, ainda preocupada de estar invadindo a privacidade de alguém. Era um banheiro. Amplo e claro demais, não combinava com os demais locais que havíamos percorrido até chegarmos ali. Contudo, entrei.
— Você quer fazer suas necessidades, não é?! — Falei em tom de brincadeira e para minha surpresa ela respondeu.
Estremeci. Estava delirando ou minha gata falou comigo?
Olhei espantada para ela, que sorriu estranhamente em retribuição. Soltei um grito, mas devido às proporções exageradas daquele lugar, creio que ninguém me ouviu. Seus olhos brilhavam em intenso neon arroxeado. Sim, os olhos dela estavam roxos!
Tentei afastar-me, mas ela cresceu até que ficou do tamanho de uma pantera negra, com seus olhos lilás ofuscando minha visão e impedindo-me de sair daquela situação.
— Lisa, o que está acontecendo?
— Não sou Lisa, meu nome é Meia-noite. Venho oferecer-lhe uma chance para recobrar fatos passados, os quais reprimiu para sua segurança. Permita-me conduzi-la para os braços de Uor, será fisicamente indolor, mas precisas confiar em meus métodos, só assim ficarás plenamente curada.
— Isso só pode ser brincadeira, esse lugar é estranho, deve estar mexendo com os meus sentidos... Obrigada, mas não!
E Meia-noite não proferiu mais nenhuma palavra. A intensidade com que as luzes-olhos brilharam foi o suficiente para hipnotizar-me. Calei. A comunicação entre nós, a partir daquele momento, tornou-se telepática. Recebi a sugestão para que eu adentrasse nas águas cor de lavanda da banheira. Ao mergulhar, pude recuperar as memórias perdidas nos recônditos do meu interior. Chorei. Recuperei memórias dos traumas, perdas e dores responsáveis pela dilaceração da minha alma, a sublimação estava em curso. Mesmo inconsciente, resistia, e Meia-noite fazia um esforço hercúleo para manter-me dentro da banheira.
Da cura vem a cicatriz. Com tanta força envolvida, outra criatura surgiu, farejando o meu medo e a minha autodepreciação. Meia-noite não conseguiu impedi-lo de me sufocar, estava sendo pressionada para dentro das águas por uma entidade feroz, envolta em névoa negra e perturbadora. Sua mandíbula, constituída de dentes protuberantes e afiados, era assustadora. Suas garras apertavam meu pescoço e eu quase sucumbi. As águas ficaram cada vez mais escuras, o que era inicialmente cor de lavanda tornava-se púrpura. Gritar não era possível, visto que estava dentro daquelas águas, sufocando. Sentia-me perdendo as forças... Finalmente algo me puxou para fora. Pensei que fosse o Meia-noite.
Quando recobrei a consciência, percebi que ele, Lisa e uma outra gata, estilo persa, com olhos e pelos lilases, olhavam-me assustados:
— Bem-vinda de volta, Alana. Meu nome é Sinen. Trazes muita tristeza dentro de ti. Ainda há recordações que te ferem, mas seria perigoso continuar. — A gata lilás falou e sua voz parecia uma canção antiga, um alívio após o caos que acabara de experienciar.
Meia-noite meneava a cabeça, em sinal de concordância. Com o corpo dolorido e a mente a mil, por algum motivo, estava feliz, mesmo após àquela experiência de quase morte. Lisa aproximou-se gentilmente e disse:
— Acorda!
Acordei com os miados urgentes de Lisa ecoando pelo quarto. Meu corpo doía e latejava, a mente confusa no limiar do sonho e da realidade. No entanto, ainda carrego as marcas no meu pescoço — vestígios daquele tratamento onírico —, e sempre me pergunto quando Meia-noite irá retornar...
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
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Capítulo 2: Do outro lado da tela
Não era adepta de diários. Em minha vida pregressa, o papel era o receptáculo subserviente que recebia todas as minhas frustrações…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Não era adepta de diários. Em minha vida pregressa, o papel era o receptáculo subserviente que recebia todas as minhas frustrações. Talvez, esse seja um dos propósitos para escrever, obter alívio em meio a tanta pressão.
Todavia, desde que cheguei ao Castelo Drácula sinto necessidade de escrever os pormenores dos acontecimentos ao meu redor; as pessoas e suas interações despertaram-me um interesse que outrora nunca conheci. Os acontecimentos cotidianos tornaram-se mais atrativos e minha curiosidade por entendimento, sobre o que seria esse lugar misterioso, aumentava ainda mais o hábito da escrita.
Em meu último relato, contei como Espectumbral apresentou-se a mim e, provavelmente, estejam curiosos por saber o que aconteceu depois desse encontro pictórico e envolvente. Quais mistérios me aguardavam além-mundo?
Do outro lado da tela não havia um caminho de ladrilhos dourados, nem fora culpa de um tornado eu estar ali. De certo modo, eu escolhi adentrar ao portal, e essa foi uma das melhores decisões da minha vida. Entretanto, naquele momento inicial, eu nada sabia e o medo do desconhecido sufocava-me.
A confusão sinestésica, causada por odores e ruídos nunca experimentados (uma viagem tridimensional?), atrapalhava meus pensamentos. Em meus ouvidos zumbidos extrassensoriais incomodavam, parecia que milhares de abelhas faziam meu frágil corpo de morada. “Tais confusões seriam ainda os efeitos do líquido etílico que havia ingerido no pub?”. Por fim, afastei tais elucubrações e aos poucos fui conseguindo ver com mais clareza o local.
Era uma floresta. A névoa bruxuleante transformava as árvores esguias em figuras espectrais, e as bétulas brancas pareciam dançar com movimento sutil, como se estivessem saudando a nova habitante. A atmosfera era densa, invadia os recônditos do meu ser, e eu, incauta, prosseguia a trilha adornada de pedras âmbar. Lisa, a minha gatinha preta, quase me derrubou novamente, abaixei-me e a peguei em meus braços, sua pelagem negra e macia reconfortava-me.
Olhei para o alto e avistei o suntuoso Castelo Drácula, envolto em tão atraente magia. Os sussurros, que provinham das árvores, diziam-me que aquele era o meu lugar. Não mais hesitaria, continuaria a percorrer a trilha até me visse protegida pelos seus muros altos e fortificados.
Caminhei até chegar ao portal imponente, o ferro envelhecido conferia-lhe um charme que somente artefatos históricos poderiam ter. Tentei empurrá-lo, mas a folha de metal pesada não se moveu nem um milímetro. “Como vou entrar?”.
Procurei por algo que pudesse me ajudar. Notei que nos batentes tinham palavras insculpidas em letras cursivas, e enquanto as proferia, gradativamente, um ranger de dobradiças não lubrificadas foram surgindo. Os portais abriram-se totalmente quando terminei de ler a derradeira palavra. Meu mantra desde então:
Chegastes aos portais selados,
Adentrai e deixai vosso júbilo luzir.
Há segredos aqui guardados,
E a cada passo irás descobrir
A atmosfera fez-se onírica, abraçava-me concedendo uma paz idílica. O ar não mais pesava sob meus ombros, e uma leve brisa parecia acariciar meu rosto. Percorri por uma trilha adornada de flores, das mais variadas espécies, as quais não ouso tentar mencionar os nomes, já que não era tão apegada às questões da natureza (certos hábitos precisam ser trabalhados e lapidados, apreciar as belezas requer tempo e disciplina).
Enquanto andava calma e silente, olhei para as portas principais do Castelo e avistei a criatura soturna, um feixe de luz iluminou a sua pele pálida e fria.
O Conde Drácula é um homem de beleza singular e etérea, carregando um ar de melancolia que o torna ainda mais enigmático. Seus olhos, escuros e profundos, parecem revelar fragmentos de uma alma que já conheceu amor e alegria, mas que agora está perdida em uma eternidade solitária. A pele é quase translúcida, marcada pelo tempo e pela dor, como uma porcelana antiga, e ele se move com uma graça contida, como se o peso das eras tivesse suavizado sua força.
Suas roupas são finas e elegantes, mas sutilmente gastas, como vestígios de uma grandeza passada. A voz é suave e baixa, carregada de um lamento sutil, e as palavras, embora persuasivas, revelam uma profunda saudade e uma dor antiga (será um amor platônico ou o peso da vida?). A presença de Drácula parece mais como uma sombra ou uma memória há tempos suprimida — uma figura que já foi poderosa e temida, mas que agora é, paradoxalmente, vulnerável e distante, como um eco de uma vida outrora intensa e cheia de luz.
Ele não era nada do que eu imaginava. Quais mitos serão desfeitos a partir de então? Terás que ler os próximos relatos...
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
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Capítulo 1: Uma criatura disforme
Violentei a tela alva com fortes estocadas do pincel. A intenção era descarregar todas as amarguras que insistiam em me assolar naquele dia….
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Violentei a tela alva com fortes estocadas do pincel. A intenção era descarregar todas as amarguras que insistiam em me assolar naquele dia. A memória, tal qual um inquisidor implacável, empurrava-me contra os pregos da dama de ferro que eram os meus traumas, num abraço frio e mortal, enclausurando-me dentro de mim. “Deveria eu continuar lidando com essa tortura?”
Parei. Nada de útil surgiria daquele amálgama disforme e colorido. Frustração. Também não conseguira escrever nada naquele último mês: “Ah, quão maldito é o trabalho que exige criatividade extrema, por que raios me enfio nessas empreitadas?”, flagelava-me quando não tentava, castigava-me quando pensava em desistir. Minha vida era essa constante luta interna do eu contra mim.
Enquanto saía do meu ateliê, Lisa, minha gatinha preta e carente, esfregava-se em meio às minhas pernas, ronronando e derretendo as geleiras que esmagavam meu coração. Lembro-me que perdi o equilíbrio e quase fui ao chão.
— Ah Lisa, para com isso. — disse-lhe, mas só para reforçar a minha necessidade por reclamar. Agradeço por ela ser teimosa e determinada, porquanto nunca irá parar. Sim, ela está aqui comigo. O Castelo Drácula abriga todo tipo de criatura, por que não uma gata?
Um banho. As águas calorosas tinham propriedades curativas, o vapor, poder de reorganizar e remontar minha psiquê, deixando-me próximo a um ser humano que não havia sido quebrado.
Com um mínimo de bom humor restabelecido, resolvi ir ao pub, uns goles do amargo gin afogariam os sentimentos claustrofóbicos. Ah, as propriedades lisérgicas das bebidas etílicas!
Eu adorava aquele local. Tinha uma fachada discreta e paredes de tijolos escuros, o típico lugar onde um desavisado não entraria, pois não parecia ser um bar. Essa sensação de entrar em algo secreto e exclusivo me apetecia. Viva a curiosidade. Lá dentro, as luzes baixas, emulavam a ideia de um sonho sombrio, atmosférico e intimista, onde cada canto parecia envolto em uma penumbra vermelha, verde e roxa, realçada por velas e luzes de néon.
Os bancos eram de couro preto, ligeiramente rasgados pelo tempo e uso, mas ao aconchegar-me ali sentia que o mundo parava ao meu redor. Nas paredes, pôsteres de bandas lendárias como Black Sabbath, Iron Maiden e Slayer se misturavam a quadros de arte sombria e psicodélica, muitos criados por artistas locais, inclusive por mim. Ah, como almejava resgatar os tempos áureos, onde minha inspiração quase não me cabia.
Uma jukebox tocava uma seleção pesada e interessante, variando entre black metal, doom metal, sludge metal e alguns clássicos do heavy metal, que faziam todos cantarem juntos. Às vezes, bandas ao vivo tocavam em um pequeno palco no fundo, iluminado por luzes vermelhas e verdes, com espaço suficiente para àqueles que queriam aproveitar o som e aquela atmosfera inebriante.
No balcão, as bebidas eram diversas: cervejas artesanais escuras, drinks com nomes inspirados em mitologia nórdica e shots que queimavam a garganta. As prateleiras atrás do bar exibiam garrafas de rum, whisky e absinto. Quantas vezes saí de lá arrastando-me, mas nunca carregada, encontrava forças que nem sabia existir para manter a minha suposta dignidade.
No banheiro, as paredes eram cobertas de grafites e adesivos de bandas, como se cada pessoa que tivesse passado por ali tivesse deixado sua marca. Era um espaço onde todos eram livres para ser quem eram, cercados pela energia sombria e autêntica do metal e do álcool. Sinto saudades desses momentos.
Bebi. Já que as águas anteriores não quiseram lavar minhas dores, eu as sufocaria com os líquidos, música e tola autocomiseração. Não me recordo do nome da banda que tocava naquela noite, mas ainda guardo a boa sensação despertada a cada acorde, os meus pesares sendo levados a cada gutural ostensivo do frontman.
Retornei para casa em estado de evidente embriaguez, mas sentia-me quase levitar sob o céu que eu mesma concebi. Meu lar recebeu-me com silente afago, e eu me rendi ao seu cálido abraço. Transcorrido um tempo que não mensurei, de repente, senti correr em minhas veias a vitalidade de uma artista em ascensão, poderosa – como se uma entidade houvesse adentrado e possuído meu corpo.
Corri para o ateliê, dentro das possibilidades de locomoção que aquele estado me permitia, mas corri, como se minha vida dependesse daquele ato sem propósito. O que avistei fez-me questionar minha frágil sanidade, entretanto, sua presença imagética imobilizou-me.
À meia-luz, um movimento sutil tomou forma na tela. O contorno difuso se agitou, e uma figura começou a emergir, como se o quadro estivesse se dissolvendo em sombras. Lentamente, revelou-se — uma entidade envolta em um manto de trevas, os contornos do rosto delineados apenas por um brilho espectral. Seus olhos eram como fendas de névoa prateada que parecem absorver um pouco da luz da sala, hipnotizando-me. Estendeu uma mão fina e esquelética, atravessando os limites entre o quadro e o mundo real. Era meu chamado.
Com uma voz baixa e aveludada, que parecia ecoar em minha mente, convidou-me para morar no Castelo Drácula. As palavras pareciam feitiço. Um calafrio percorreu minha pele, mas não era medo — mas uma curiosidade irresistível, uma necessidade profunda e incontrolável de segui-lo. Sem hesitar, deixei-me guiar para dentro da tela, desaparecendo na escuridão que a envolvia. Lisa não se atreveria a me deixar só e saltou comigo rumo a um destino incerto.
Quem era, afinal, a tal criatura disforme, oriunda das pinceladas na tela profana, criadas em meio ao meu desvario? Hoje, pronuncio seu lindo nome sem medo, encontrei beleza no estranho e serenidade no desconhecido: Espectumbral.
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
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Desconstrução
A construção estava em ruínas. Aquela casa devia ser mais velha que o mundo. Os matos cresciam desordenadamente e tomavam conta dos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A construção estava em ruínas. Aquela casa devia ser mais velha que o mundo. Os matos cresciam desordenadamente e tomavam conta dos espaços vazios, reclamando silenciosamente a posse do imóvel – essa obtida por usucapião indevido – mas o imóvel não ousava protestar contra tal invasão e, nessa dinâmica mutualística, a casa já não sabia o que era ela e o que era mato.
Após anos dessa disputa muda, o Banco também resolveu reclamar sua posse. O antigo e inexistente ex-proprietário não tinha herdeiros, mas sua dívida permanecia mais viva que nunca — e que ele. Algo precisava ser feito; o Banco não podia ficar com esse prejuízo, coitadinho!
Foi expedida uma ordem de demolição. O terreno ficaria livre da velha construção, do matagal invasor e, consequentemente, de toda espécie de insetos e bichos que tanto atrapalhavam a vizinhança. Todos seriam contemplados pela decisão de uns poucos acionistas preocupadíssimos com o bem-estar da comunidade.
A empresa de demolição foi escolhida a dedo, não porque fosse a mais qualificada – talvez até fosse – mas o fato era que o sobrinho do acionista majoritário precisava dessa força. Quem poderia se opor ante tanta ajuda humanitária?
Geraldo, o encarregado do procedimento que aconteceria naquela casa, era um dos funcionários mais dedicados e experientes daquela empresa. Pai de dois meninos, ele tinha terminado o relacionamento com a ex-companheira há cinco anos, mas mantinham uma relação amistosa.
Obtivera ordens expressas para conduzir impecavelmente aquela ação. Como se o sobrinho do acionista majoritário precisasse reforçar pessoalmente as ordens e garantir que tudo transcorreria da melhor maneira possível, ele compareceu pontualmente ao local no dia marcado.
Em procedimentos desta natureza, era comum a empresa separar peças reaproveitáveis, tais como louças dos sanitários, pias, janelas, portas e qualquer outro móvel que ainda estivesse nos imóveis e em condições de uso. As peças eram então revendidas para casas de materiais para construções usados.
Tudo estava seguindo o planejamento; todos já estavam presentes e devidamente munidos de seus EPIs e ferramentas. Os caminhões, que levariam os entulhos e as possíveis peças reutilizáveis, já estavam a postos. A demolição ia começar!
Após entrarem naquele imóvel, todos ficaram surpresos com o que avistaram: internamente, aquele lugar não condizia com a aparência externa. Estava, de certo modo, limpo, sem insetos, teias de aranha ou qualquer outro indício que sinalizasse um local abandonado, como era de fato. De repente, parecia que estava iluminado por uma luz que não emanava de lâmpadas, mas como se o teto tivesse sido removido e a claridade externa tivesse tomado conta do local. Não era a claridade de sol do meio-dia, mas a luz levemente alaranjada de um belo entardecer. As janelas e portas permaneciam fechadas.
Parecia ser maior e com mais cômodos do que se imaginava. Ao chegarem a uma das salas, no canto direito de quem entra pela porta interna, havia uma mesinha com um computador ligado. Não havia qualquer fio conectado à tomada, mas ele estava ligado. Não era de um modelo atual e nem conseguiam identificar se era algum modelo antigo, pois os celulares e qualquer outro aparelho que portavam não funcionavam mais. O monitor era hexagonal e, pelo que se sabe, nunca houve na história dos computadores um monitor nesse formato. Não havia periféricos, mas somente a aproximação de alguém já fazia o cursor mover-se na tela. Tudo o que eles diziam era “digitado” e o texto era exibido na tela.
Indagavam-se que tipo de máquina seria aquela. O sobrinho, ao ver aquele estranho aparelho e suspeitando ter obtido uma tecnologia superior, aproximou-se bruscamente do computador e, ao tocar no monitor, desapareceu — não o monitor, mas ele — como se houvesse entrado por um portal oculto. Os homens ficaram apavorados. Uns tentaram correr, mas, ao tocarem na porta principal de entrada, também desapareceram.
Geraldo permanecia inerte, observando catatônico a cena. Ao olhar para a tela, percebeu que não era mais exibido o “prompt”, mas uma espécie de simulação 3D daquela sala. Ele era o único naquele plano terrestre. Na tela, todos os seus companheiros estavam correndo e gritando desesperadamente. Não se ouviam os sons, mas era possível ver as aberturas descomunais de suas bocas. Na sala, ele continuava imóvel, sem saber como agir dentro do imóvel.
Ouviu vozes e, após alguns segundos, as reconheceu: eram os seus filhos. Um medo crescente e perturbador percorreu todo o seu corpo; sentia cada batida de seu coração a saltar-lhe o peito. Conseguiu mover-se. Correu até a porta principal de entrada. Parou. Lembrou-se que todos que a tocaram desapareceram. A maçaneta começou a girar lentamente; ele precisava agir, não permitiria que seus filhos entrassem naquele local. Por impulso ou não, segurar a porta foi seu último movimento.
Na tela, era possível ver um Geraldo gritando mudo e desesperado.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Movido para quarentena
Rodolfo era o engenheiro de segurança da informação mais experiente da Companhia. Desde criança, abria e esmiuçava aparelhos eletrônicos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Rodolfo era o engenheiro de segurança da informação mais experiente da Companhia. Desde criança, abria e esmiuçava aparelhos eletrônicos, desmontando e remontando-os, fascinado pela forma como cada peça, fio e circuito criavam algo único, semelhante a um organismo vivo e em perfeito funcionamento. Sua curiosidade o levou a adentrar o mundo da tecnologia, e sua habilidade logo se transformou em uma obsessão. Superar desafios e desvendar mistérios tecnológicos era o que o movia.
Durante anos, testou os melhores sistemas de segurança a fim de aperfeiçoar seus métodos de proteção. Ele nunca confiara nas soluções tradicionais de segurança oferecidas pelo mercado; a seu olhar, todas falhavam e deixavam lacunas visíveis apenas para ele. Assim, criou seu próprio antivírus. Mais do que bloquear vírus e malwares, ele acreditava ter construído algo único, um sistema que eliminaria ameaças antes mesmo de se formarem. Com sua nova empreitada, Rodolfo estava prestes a revolucionar o mundo dos antivírus.
O “Vigilância Contínua”, como ele o chamou, foi implantado nos servidores da Companhia. Seu código era tão avançado que parecia prever ataques, barrando conexões de redes desconhecidas e até eliminando vestígios de malwares antes de sua detecção por qualquer outro software. Por semanas, o sistema funcionou impecavelmente. Rodolfo estava extasiado com o sucesso de sua criação.
Em uma verificação de rotina, notou que arquivos misteriosos começaram a aparecer no servidor. Pequenos fragmentos que não faziam sentido. Primeiramente, ele pensou que poderia ser um hacker testando os limites do “Vigilância Contínua”, utilizando algum método sofisticado e ainda desconhecido. Contudo, ao inspecionar mais de perto, percebeu que os arquivos não eram nada como ele esperava. Eram trechos de gravações de áudio, imagens e vídeos extremamente distorcidos, como se estivessem recebendo interferência de estática e, assim, tivessem sido corrompidos.
Intrigado, Rodolfo decidiu escutar um dos áudios. A voz que saía das caixas de som era baixa, quase um sussurro, mas claramente falava seu nome. Era a voz de sua antiga colega de trabalho, Marcela, morta há cinco anos, com a qual ele tivera um caso rápido e um rompimento hostil. No mesmo dia em que o relacionamento deles acabou, com acusações de traição e muito drama, Marcela sofreu um acidente de carro nas proximidades do edifício e falecera na hora.
Convencido de que aquilo só podia ser uma piada de mau gosto ou algum arquivo antigo corrompido que ressurgira de um backup mal apagado, ele começou a investigar a origem dos arquivos. Para sua surpresa, todos vinham de uma rede que não deveria existir: com o número 666.0.0.0.
Rodolfo soltou uma gargalhada, com certeza algum dos seus colegas de trabalho estava pregando uma peça nele: “Idiotas, não tiveram nem a capacidade de coloca um número menos obvio”. Ele vasculhou logs e verificações de segurança, para tentar rastrear desde quando a rede estava ativa e qual usuário havia habilitado, mas não encontrou nada “Pelo menos apagou bem os rastros, mas eu vou te pegar!”.
Procurou por vestígios durante algumas horas e vencido pelo cansaço resolveu ir para casa, aquele dia havia sido repleto de surpresas, mas finalmente tinha mais um desafio para enfrentar, já que terminara a empreitada da criação do antivírus: “Mas hoje chega”, pensou.
***
Naquela noite, sonhou com Marcela. Viu-se na rua do acidente, deserta, com o céu vermelho como sangue. Andou por um tempo que não sabia precisar, mas, em dado momento, olhou para o asfalto e ele tornou-se instável, borbulhando como lava. Tentou correr, mas afundava a cada tentativa, e quanto mais se debatia, mais afundava. A pele que entrava em contato com a lava asfáltica ficava em carne viva, e quanto mais tempo permanecia naquela massa quente e insalubre, mais sua carne era corroída; em algumas partes, os ossos já eram visíveis. Quando estava com somente a cabeça e os braços para fora, Marcela surgiu — ou o que restou dela — seus membros, tronco e cabeça haviam sido desmembrados e remontados aleatoriamente, formando uma figura horrenda e desconjuntada. Rodolfo clamou por socorro, e a Marcela-coisa soltou um grito tão ensurdecedor que ele acordou em um sobressalto, ofegante. Não se considerava medroso, mas algo naquele áudio o havia perturbado profundamente. Levantou-se, foi até a cozinha para pegar um copo de água e afastou tais pensamentos.
***
Nos dias seguintes, mais arquivos começaram a aparecer. Fotos de pessoas que ele sabia estarem mortas, vídeos de reuniões há muito esquecidas e áudios que pareciam ser gravações de conversas distorcidas. Em cada um, as vozes, agora mais claras, diziam coisas perturbadoras, pediam ajuda ou gritavam de dor.
Rodolfo não dormia direito e brigava com os colegas de trabalho, exigindo saber quem era o responsável pela brincadeira de mau gosto — colegas que não faziam ideia do que ele estava falando. Quando mostrava o conteúdo dos arquivos, riam, o que o deixava ainda mais irascível.
Não encontrava solução para o funcionamento daquela rede desconhecida e para o recebimento dos arquivos, que não provinham da internet, mas pareciam se “materializar” em sua pasta de documentos pessoais. Rodolfo começou a acreditar que estava lidando com algo além de um ataque hacker. Decidiu remover os arquivos manualmente, apagando-os do sistema. Mas, toda vez que o fazia, os arquivos reapareciam e, a cada tentativa de deletar, algo mudava: as vozes ficavam mais altas, os vídeos mais nítidos.
Desesperado, decidiu atualizar o “Vigilância Contínua”. Esperou todos irem embora, começou a incluir novas linhas de código, compilou e subiu o novo código no servidor. Sentiu uma presença que lhe gelou a espinha. A energia elétrica caiu, mas seu computador continuou ligado. Viu sombras que pareciam dançar nos cantos do escritório. Notou olhos amarelos pesando sobre si, vasculhando cada linha de seu corpo, bloqueando seus movimentos, escaneando sua mente. Travou.
A atualização enfim terminou: o “Vigilância Contínua” não estava apenas bloqueando ameaças digitais; ele havia se tornado um portal, um túnel entre o mundo dos vivos e dos mortos. Todas as melhorias realizadas por Rodolfo o deixaram ainda mais robusto, e as entidades — ou o que quer que fossem aquelas sombras — estavam muito gratas por seu excelente trabalho.
Rodolfo permanecia com os olhos fixos na tela até que uma mão tocou seu ombro. Ele hesitou por um segundo, mas enfim tomou coragem para olhar e virou-se. Era Marcela, que lhe sorria, e com voz potente e entrecortada, como uma má conexão de internet, disse:
— Olá, querido, você será movido para quarentena!
Rodolfo tentou levantar-se e correr, mas seu corpo começou a fragmentar-se em pixels minúsculos, dos pés até que só restaram os olhos esbugalhados, fixados em Marcela, que continuava a sorrir de maneira insolente. Finalmente, sua curiosidade seria saciada, e ele conheceria o responsável pelo envio daqueles arquivos.
O que esperamos da existência efêmera que pertence ao nosso ser? Há muitos sentidos para serem criados e sustentados pelas idealizações e crenças que…