Capítulo 2: Do outro lado da tela
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Não era adepta de diários. Em minha vida pregressa, o papel era o receptáculo subserviente que recebia todas as minhas frustrações. Talvez, esse seja um dos propósitos para escrever, obter alívio em meio a tanta pressão.
Todavia, desde que cheguei ao Castelo Drácula sinto necessidade de escrever os pormenores dos acontecimentos ao meu redor; as pessoas e suas interações despertaram-me um interesse que outrora nunca conheci. Os acontecimentos cotidianos tornaram-se mais atrativos e minha curiosidade por entendimento, sobre o que seria esse lugar misterioso, aumentava ainda mais o hábito da escrita.
Em meu último relato, contei como Espectumbral apresentou-se a mim e, provavelmente, estejam curiosos por saber o que aconteceu depois desse encontro pictórico e envolvente. Quais mistérios me aguardavam além-mundo?
Do outro lado da tela não havia um caminho de ladrilhos dourados, nem fora culpa de um tornado eu estar ali. De certo modo, eu escolhi adentrar ao portal, e essa foi uma das melhores decisões da minha vida. Entretanto, naquele momento inicial, eu nada sabia e o medo do desconhecido sufocava-me.
A confusão sinestésica, causada por odores e ruídos nunca experimentados (uma viagem tridimensional?), atrapalhava meus pensamentos. Em meus ouvidos zumbidos extrassensoriais incomodavam, parecia que milhares de abelhas faziam meu frágil corpo de morada. “Tais confusões seriam ainda os efeitos do líquido etílico que havia ingerido no pub?”. Por fim, afastei tais elucubrações e aos poucos fui conseguindo ver com mais clareza o local.
Era uma floresta. A névoa bruxuleante transformava as árvores esguias em figuras espectrais, e as bétulas brancas pareciam dançar com movimento sutil, como se estivessem saudando a nova habitante. A atmosfera era densa, invadia os recônditos do meu ser, e eu, incauta, prosseguia a trilha adornada de pedras âmbar. Lisa, a minha gatinha preta, quase me derrubou novamente, abaixei-me e a peguei em meus braços, sua pelagem negra e macia reconfortava-me.
Olhei para o alto e avistei o suntuoso Castelo Drácula, envolto em tão atraente magia. Os sussurros, que provinham das árvores, diziam-me que aquele era o meu lugar. Não mais hesitaria, continuaria a percorrer a trilha até me visse protegida pelos seus muros altos e fortificados.
Caminhei até chegar ao portal imponente, o ferro envelhecido conferia-lhe um charme que somente artefatos históricos poderiam ter. Tentei empurrá-lo, mas a folha de metal pesada não se moveu nem um milímetro. “Como vou entrar?”.
Procurei por algo que pudesse me ajudar. Notei que nos batentes tinham palavras insculpidas em letras cursivas, e enquanto as proferia, gradativamente, um ranger de dobradiças não lubrificadas foram surgindo. Os portais abriram-se totalmente quando terminei de ler a derradeira palavra. Meu mantra desde então:
Chegastes aos portais selados,
Adentrai e deixai vosso júbilo luzir.
Há segredos aqui guardados,
E a cada passo irás descobrir
A atmosfera fez-se onírica, abraçava-me concedendo uma paz idílica. O ar não mais pesava sob meus ombros, e uma leve brisa parecia acariciar meu rosto. Percorri por uma trilha adornada de flores, das mais variadas espécies, as quais não ouso tentar mencionar os nomes, já que não era tão apegada às questões da natureza (certos hábitos precisam ser trabalhados e lapidados, apreciar as belezas requer tempo e disciplina).
Enquanto andava calma e silente, olhei para as portas principais do Castelo e avistei a criatura soturna, um feixe de luz iluminou a sua pele pálida e fria.
O Conde Drácula é um homem de beleza singular e etérea, carregando um ar de melancolia que o torna ainda mais enigmático. Seus olhos, escuros e profundos, parecem revelar fragmentos de uma alma que já conheceu amor e alegria, mas que agora está perdida em uma eternidade solitária. A pele é quase translúcida, marcada pelo tempo e pela dor, como uma porcelana antiga, e ele se move com uma graça contida, como se o peso das eras tivesse suavizado sua força.
Suas roupas são finas e elegantes, mas sutilmente gastas, como vestígios de uma grandeza passada. A voz é suave e baixa, carregada de um lamento sutil, e as palavras, embora persuasivas, revelam uma profunda saudade e uma dor antiga (será um amor platônico ou o peso da vida?). A presença de Drácula parece mais como uma sombra ou uma memória há tempos suprimida — uma figura que já foi poderosa e temida, mas que agora é, paradoxalmente, vulnerável e distante, como um eco de uma vida outrora intensa e cheia de luz.
Ele não era nada do que eu imaginava. Quais mitos serão desfeitos a partir de então? Terás que ler os próximos relatos...
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas…
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