Cultos Ocultos, Selo SACRAM, Escrito por Valesca Afrodite, -Ensaios Valesca Afrodite Gomes Cultos Ocultos, Selo SACRAM, Escrito por Valesca Afrodite, -Ensaios Valesca Afrodite Gomes

Drácula e Cristo: entre cruzes, estacas e sangue

No Cristianismo, Satanás é tradicionalmente visto como o oposto de Jesus Cristo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“E vocês? Quem vocês dizem que eu sou?” — Mateus 16:15

No Cristianismo, Satanás é tradicionalmente visto como o oposto de Jesus Cristo, mas e se, em vez de Satanás, comparássemos Drácula a Cristo? Parece uma ideia herética, e talvez seja mesmo, mas como alguém obcecada por histórias bíblicas e literatura gótica, não pude evitar essa comparação estranha.

Na religião e na literatura, são poucos os personagens que alcançam o status icônico de Jesus Cristo e de Drácula. O primeiro, o Salvador, o segundo, o condenado, mas há algo que os une: ambos são figuras que, no texto, se revelam através dos olhos e das palavras de outras pessoas. Eles não falam de si mesmos diretamente, são descritos, testemunhados, adorados ou temidos. Cada um é conhecido pelo impacto que causa nos que cruzam o seu caminho, gerando fé ou terror. Essa presença indireta cria uma tensão, quase arquetípica: luz e trevas, redenção e condenação, vida e morte. Herético ou não, é um paralelo impossível de se ignorar.

No Novo Testamento, Jesus raramente é descrito fisicamente. Há apenas raras descrições de uma imagem: um homem sem beleza, segundo Isaías 53:2; ou as visões simbólicas do Apocalipse, mas, em essência, Jesus é reconhecido por suas palavras, ensinamentos e milagres, e por como seus discípulos o veem. Em Mateus 16:15-16, ele pergunta: “E vocês? Quem vocês dizem que eu sou?”. E Pedro responde: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. A identidade divina de Jesus não é proclamada por ele mesmo, mas reconhecida pelo outro, construída pelo efeito que ele exerce sobre os outros. Drácula, da mesma forma, não se apresenta diretamente ao leitor, sua presença é fragmentada em cartas, diários e relatos que compõem o romance de Bram Stoker. Assim como os evangelhos são narrativas dos que seguiram ou testemunharam Cristo, Drácula é um fragmento daquilo que os outros viram, sofreram ou temeram.

Jonathan Harker nos dá alguns desses fragmentos: “Até então, eu tinha notado as costas, de suas mãos, que tinham me parecido brancas e finas; mas, vendo-as mais de perto, pude notar que eram bem grosseiras, com dedos fortes. Por mais estranho que pareça, as palmas das mãos tinham cabelos. As unhas eram compridas e finas, terminando em ponta. Como o Conde se curvasse sobre mim, encostando-me às mãos, não pude conter um tremor” (Capítulo 2). E também: “O que chamara minha atenção era a cabeça do Conde, saindo para fora da janela. Não vi o rosto, mas distingui-o pelo pescoço e pelo movimento de suas costas e braços. De qualquer maneira, não podia me enganar com aquelas mãos, que tivera tantas oportunidades de examinar. [...] Mas meus sentimentos transformaram-se em repulsa quando vi todo o corpo do Conde projetar-se pela janela, vagarosamente, e sair se arrastando pela parede, de cabeça para baixo, com o manto agitando-se ao vento, como asas enormes. A princípio, não pude acreditar no que estava vendo.” (Capítulo 3).

Se Cristo é conhecido pelo amor e pela transformação espiritual que inspira, Drácula é definido pelo horror que provoca. Ambos, porém, são figuras que deixam marcas duradouras em quem os encontra. Há ainda outra comparação evidente: o sangue. No Cristianismo, o sangue de Cristo é o símbolo do perdão e da aliança entre Deus e a humanidade: “Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para perdão de pecados” (Mateus 26:28). A Santa Ceia é, até hoje, a comunhão com esse sangue, a memória de uma entrega que promete vida eterna. Em Drácula, há uma inversão disso: o sangue não redime, ele contamina. Quando Mina é forçada a beber do sangue do Conde, não se trata de uma aliança para a remissão dos pecados, mas uma maldição. De um lado, o sangue como comunhão; do outro, como corrupção. Em ambos, ele conecta, transforma e promete a eternidade, mas uma eternidade de salvação e outra, de danação.

Há ainda a relação com a morte: Cristo ressuscita, vence a morte e oferece a promessa de vida eterna. Drácula, por sua vez, desafia a morte, é o morto-vivo, o que se recusa tanto a morrer quanto a viver completamente. Enquanto Jesus promete: “Estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos” (Mateus 28:20), Drácula permanece como uma presença material e ameaçadora, que assombra e consome. Ambos também reúnem ao seu redor seguidores. Jesus atrai discípulos dispostos ao sacrifício, fundou uma Igreja que cresce pelo amor e pela palavra. Drácula atrai servos como Renfield, que, seduzido pela promessa de poder e imortalidade, é condenado à loucura e à morte.

E há também o símbolo do sagrado e da luz. Segundo João, Cristo é “a luz que brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram” (João 1:5). Drácula, ao contrário, é repelido pela luz do sol. O crucifixo, símbolo de Cristo, é para o vampiro um instrumento de repulsa e dor: “Instintivamente, avancei para protegê-lo, levantando o Crucifixo e a Hóstia na mão esquerda. É impossível descrever a expressão de ódio que se estampou na fisionomia do Conde. Com um ágil movimento, afastou-se.” (Capítulo 23). Essa comparação, talvez louca, talvez herética, revela, no fundo, o poder das narrativas. Dois personagens que inspiram fé e comunhão, ou terror e repulsa, mas que continuam vivos, lidos, reinterpretados, transformados em símbolos que atravessam gerações. No fim, talvez o que essa comparação sugira é como nós, leitores, somos influenciados pelas figuras que rememoramos ou revisitamos, sejam elas de salvação ou de condenação. E você? Diante dessas duas figuras, com qual delas, consciente ou não, escolhe comungar?


Escrito por:
Valesca Afrodite Gomes

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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O Ritual do Vinho

Minerva dormia pairando no reino do inconsciente, ela se via imersa em um sonho inusitado, um devaneio que parecia adentrar a alma…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Minerva dormia pairando no reino do inconsciente, ela se via imersa em um sonho inusitado, um devaneio que parecia adentrar a alma. Sob a cama seu corpo flutuava acima dos lençóis e sua mente a levava até um descampado no centro de frondosas macieiras, por entre estas árvores brotavam as flores Ovaeren que começavam a se abrir, as pétalas escuras de algumas e alvas de outras se desdobrando à meia-noite como se obedecessem a um comando inaudível. O aroma doce e letal incendiava o ar, impregnando cada partícula da atmosfera com um torpor. 

No centro do descampado, dançarinos giravam em círculos, cobertos por mantos esvoaçantes em uma dança ritualística. A dança era precisa, como se executasse um ato profético há muito escrito. Seus movimentos não pertenciam à alegria, mas à servidão de algo maior, de algo que Minerva sentia no fundo de seu ser, algo que chamava por ela naquela noite. 

Em sua visão, ela caminhava em meio aquelas pessoas e seus olhos enxergavam pelo formato amendoado de uma máscara que cobria seu rosto. Os cabelos longos e negros estavam soltos e seu corpo de pele pálida estava livre de qualquer veste. Ela sentia os pés descalços tocarem as folhas outonais espalhadas pelo chão, tocou o próprio rosto sentindo a textura da máscara de porcelana que erguia em sua cabeça orelhas de láparos. Ao tentar removê-la, ela não conseguiu e percebeu que sua respiração ofegava por dentro dela. Uma fogueira estava acesa e o fogo crepitava vermelho quase incessante. 

Aos poucos, conseguia sentir o ambiente ao redor e, sem conseguir pronunciar nenhuma palavra, observou os dançarinos, que entoavam cânticos em uma língua diferente, lançarem palavras que ela desconhecia. Ao seu redor, eles faziam uma ciranda letárgica e macabra. Um arrepio gélido tocou seu corpo, fazendo com que ela abraçasse a si mesma lentamente, passou as mãos frias pelos braços, apertando-os como se tentasse se proteger, sentindo o toque de sua pele estremecer a cada sibilar do vento e as vozes em coro, agressivas e agudas. 

Ela tentava cobrir os seios expostos, envolvendo-se em um abraço trêmulo, enquanto seu coração tamborilava em seu peito. O festejo continuava, mas algo na dança parecia estranho, pois, as sombras dos dançarinos se alongavam, movendo-se com vontade própria, como espectros desprendidos de seus corpos. O cântico crescia, ecoando na noite como um feitiço que ganhava força.  

Então, uma mulher se desprendeu da roda, erguendo os braços em um gesto ensaiado. Em uma das mãos, segurava uma taça de vinho, que ergueu lentamente antes de estendê-la a Minerva, os olhos faiscando sob a luz vacilante das chamas. 

A dança ritualística parou e todos a observavam, Minerva entendeu que deveria aceitar a bebida que foi oferecida. Ao pegar o cálice, suas mãos encostaram nas mãos da outra e elas se entreolharam como se invadissem suas próprias almas com o olhar. Minerva conseguiu erguer a máscara para removê-la apenas naquele momento e levou a bebida aos lábios, ela sentiu o vinho fumegar ao descer pela garganta e sua pele aquiescer, libertando-a de seus pensamentos.  

Ela ofereceu a bebida à outra mulher, que jogou o cálice no chão sem hesitação, os olhos ardendo em intenções. Com passos lentos, a estranha se aproximou, envolvendo Minerva em um abraço firme, quente como um feitiço recém-lançado. Seus rostos ficaram a um sopro de distância antes que os lábios se encontrassem em um beijo agridoce, onde suas línguas dançavam em um ritmo lento, carregado de desejo. Ao redor, os dançarinos permaneceram imóveis, testemunhas silenciosas da volúpia.  

Minerva aos poucos permitiu que seu corpo se inflamasse pelo desejo. As carícias eram rituais silenciosos, percorriam suas costas e roçavam seus seios em um toque que oscilava entre devoção e pecado. Os lábios da mulher traçaram um caminho febril por seu pescoço, degustando sua pele como se absorvesse sua essência. Um gemido velado escapou de Minerva quando os dedos ágeis desceram, desenhando promessas sobre sua carne.  

Ela se deixou conduzir, deitando-se sobre as folhas secas enquanto sua máscara caía, esquecida no chão e quebrada pelo impacto. O tempo se dissolvia entre beijos e toques embriagantes, até que, possuída pelo êxtase, Minerva arquejou, sentindo seu corpo pulsar em calor profano. Seu suor tinha um perfume adocicado, misturando-se ao aroma de fumaça e fogo que envolvia o ritual, como se a própria noite estivesse naturalmente inebriada.  

Ela procurou a outra mulher com o olhar, mas ela havia desaparecido. Os dançarinos agora pareciam estátuas, imóveis, enquanto apenas as sombras se agitavam, dançando ao ritmo da crepitação da fogueira. Um novo calafrio percorreu seu corpo, fazendo-a estremecer sobre as folhas secas, ainda tomada pelo torpor. Então, de súbito, figuras encapuzadas emergiram da penumbra. Elas deslizaram entre ela e os dançarinos, seus mantos negros e carmesins ondulando como espectros vivos sob a iluminação trêmula. 

No rosto, também carregavam máscaras de coelhos com cabeças alongadas, olhos vazios e escuros como poços profundos. Caminhavam em silêncio, organizados, seus passos ecoando de maneira ritmada. Entre as dobras dos mantos, carregavam objetos cuja natureza Minerva não conseguia discernir, mas cuja aura a fazia estremecer. 

Ela tinha participado de um ritual macabro? Um sussurro rastejou em sua mente, indistinto, mas carregado de um chamado irresistível. Algo obscuro pulsava no coração, e talvez, apenas talvez, aquele sonho lúcido não fosse apenas um sonho e ela estivesse consciente de fato.  

Minerva sentiu um frio estranho percorrer sua espinha quando, entre as figuras encapuzadas, um rosto conhecido emergiu. O pálido reflexo da lua escorria sobre as feições delicadas de sua mãe, Nuara, que exibia a face rígida, os olhos inexpressivos, quase vazios, mas indiscutivelmente os mesmos que um dia a acolheram. No entanto, era como se ela não pudesse ver a filha ali, como se aqueles caminhantes estivessem em outra dimensão e seus espectros passeassem entre os mundos.  

Seu coração disparou e um chamado preso na garganta, sufocado pelo torpor da visão e ainda inerte pelos últimos momentos, fez com que ela se levantasse cambaleante. Sem pensar, ela correu até as figuras tentando alcançar o rosto da mãe. Os pés dela afundavam nas folhas secas, mas por mais que acelerasse, as figuras se afastavam como luzes fugidias se apagando. O manto da mãe cintilou uma última vez antes de se dissipar entre os outros mantos.  

Seu coração foi tomado pela angústia que a envolveu como um abraço gélido. O tempo pesou sobre ela, implacável. Quanto tempo fazia desde a última vez que ouvira a voz da mãe? Quando foi a última vez que procurara saber onde estava sua mãe? O castelo a consumira de tal forma que o mundo além de suas paredes se tornou esquecimento.  

E agora, no limiar entre o real e o irreal, Minerva sentia que algo estava terrivelmente errado. Ela caminhava pela floresta envolta em um silêncio que era quebrado apenas pelo sibilar do vento. Os galhos secos, em um vermelho-acinzentado e profundo, estendiam-se como ornamentos retorcidos contra o céu negro, formando um túnel de sombras e espectros que exibiam maçãs vermelhas e que sangravam um néctar viscoso. O ar era denso, carregado de umidade. Então, entre o chão das árvores, corpos de coelhos decepados e inertes juncavam o caminho e, por ali, ela passava desejando acordar.  

 A respiração dela se tornou ofegante ao ver humanoides erguidos sobre patas alongadas, observando-a. Seria aquela visão um delírio causado pelo vinho? Lágrimas escuras verteram dos olhos da bruxa, ela sentia em seu íntimo que aquilo era algo além de sua magia e o desespero tomou conta dela enquanto tomava partida do sonho lúcido, ela sabia que precisava acordar e retornar para si mesma.  

Fechando os olhos ela respirou profundamente por três vezes, acalmando seus pensamentos e buscando a saída, então, Minerva acordou com um sobressalto. O peito subindo e descendo de forma descompassada, o corpo despencou do ar sob os lençóis fazendo-a arquejar de leve. O quarto estava mergulhado em sombras, e seus olhos ardiam, as escleras vermelhas pulsavam sangue. Ela sentia o gosto acre da inquietação na boca, como se a própria essência daquele pesadelo houvesse se impregnado nela. 

A bruxa ergueu-se da cama, os pés descalços tocando o chão frio. O castelo parecia respirar em seu silêncio profundo, os corredores escuros se estendendo como veias. Minerva saiu, os passos ecoando suaves, mas carregados de pressentimento. Foi então que ela parou e ali, no meio do corredor, viu um coelho.  

Os pelos eram negros como a noite sem lua, e os olhos, os olhos eram rubros, ardendo em uma luz maldita, refletindo o brilho de um chamado sobrenatural brilhantes como rubis ao sol. Ele não se movia, apenas a observava, imóvel, como se a esperasse. Minerva apertou os punhos, sentindo um arrepio lhe percorrer a espinha petrificada, estava claro que aquilo não tinha sido um sonho.  

Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Milagre Maligno

Noutros tempos, quem a conhecera ainda na flor da juventude jamais diria que tal pessoa pudesse chegar a uma situação tão degradante…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim que minha filha está miseravelmente endemoninhada”.  — Mateus 15,22 

Noutros tempos, quem a conhecera ainda na flor da juventude jamais diria que tal pessoa pudesse chegar a uma situação tão degradante. Após deixar para trás seus tempos de inocência, com seus finos traços e a meiguice infantil, comuns a toda e qualquer criança, Dolores tornara-se uma bela mulher que a todos conseguia agradar: aos homens, por sua inquietante beleza; às mulheres, por sua amizade e simpatia. Maria Dolores, conhecida como D’asdor – nome pelo qual era chamada desde que se amasiara com o italiano Giuseppe Montanari – era uma mulher de estatura mediana, de vastos e longos cabelos negros, definidamente cacheados, caídos por toda a extensão de suas costas; trazia-os sempre soltos, livres como ela mesma o era. Sua pele era fortemente amorenada, num tom firme que dava a impressão de ser macia e sedosa como a pétala de uma rosa negra. Seus olhos eram negros e brilhantes, e traziam em si um brilho enigmático, típico das criaturas donas de seu próprio destino. Eu a conhecia desde que éramos crianças de colo. Como sempre fomos vizinhos, acompanhei e sei de toda a sua estória, menos, é claro, daquilo que ocorria em sua intimidade... 

Nessas exageradas palavras, Nhô Virgílio tentava buscar na memória a melhor definição tanto do talhe físico quanto da personalidade de Dona D’asdor, que em nada se parecia com a horrenda criatura que passara seus últimos momentos amarrada sobre a cama. A diferença entre aquela vaga lembrança e a atual realidade — daquilo que poderia ter sido visualizado por qualquer um — era tão discrepante, que era até difícil acreditar nas palavras daquele honorável ancião. 

Nos últimos quinze anos, quem tivera a oportunidade de estar em sua presença tinha visto uma franzina senhora acamada, desprovida de qualquer movimento nas pernas, desde que sofrera uma terrível queda de cavalo, que a deixara naquela situação. Esse acidente não tolhera sua vida, mas lhe deixara sérias sequelas. Além da perda dos movimentos de seus membros inferiores, adquirira uma aparência doentia e cadavérica, que trazia em si uma profunda nostalgia — típico sentimento que se apossa de tais desafortunadas criaturas. Seus olhos, sem brilho e vazios, estavam sempre vidrados em algum ponto distante, como se pudessem ver muito além das aparências. Talvez enxergassem os tempos idos, com suas conquistas e alegrias, numa época de frescor e juventude, onde tudo eram flores. Ou talvez esses mesmos olhos apenas vislumbrassem um melancólico fim para sua sofrível existência — presa para sempre numa cama, dependendo de outrem até mesmo para suas mais íntimas necessidades. Tal situação era tão definitiva que havia certa unanimidade: Dona D’asdor só sairia da cama direto para o caixão... 

No entanto, contradizendo toda e qualquer expectativa e se contrapondo a qualquer explicação lógica, nos últimos três dias, antes que o sopro da vida abandonasse de vez seu calejado corpo, ela se levantara da cama e iniciara uma verdadeira epopeia pela casa e por todo o seu quintal, correndo de um lado para outro numa ensandecida disparada. Quem, há mais de uma década, não conseguia mover um único músculo de suas pernas, de alguma forma inexplicável, levantara-se de seu leito e, num violento ataque de fúria, se lançava sobre qualquer um que atravessasse seu caminho. Sua aparência tornara-se sinistramente diabólica. Sua pele, que se tornara cinza e ressecada, mais parecia o couro de algum réptil. Suas mãos adquiriram uma feição aterradora e mais pareciam duas horrendas garras, com dedos afinados que terminavam em asquerosas unhas mal cuidadas. Seu rosto tornara-se chupado e cheio de marcas, como se deixadas por varíola. Ela, que nos últimos tempos quase nada dizia e trazia a face sempre fechada, devido à sua triste situação, começara a sorrir de tudo e de todos ao seu redor. Um sorriso sombrio, com traços maquiavélicos, mostrando dentes amarelados e pontiagudos que enfeitavam uma boca de lábios finos — quase ausentes —; boca essa que agora praguejava quem cruzasse o seu caminho, quase todo o tempo blasfemando e dizendo palavras em algum idioma desconhecido. Vez por outra, sentava-se como um cão e uivava para o céu, como se fosse um animal em triste lamento. 

Seu filho Agenor – filho único, e também única companhia – temendo aquele estranho comportamento de sua mãe, logo recorrera aos vizinhos em busca de socorro. Além do medo que sua mãe estava lhe causando, agindo daquela forma, ele também ficara temeroso de que algo pudesse vir a lhe acontecer de pior e que a culpa lhe fosse imputada. O fato de que sua mãe, há tempos entrevada, agora corresse pelo quintal como uma alegre criança também lhe era bastante assustador. De alguma forma, ele ansiava por testemunhas de todo aquele prodígio. E logo sua casa já estava apinhada de gente. Alguns amigos próximos, conhecidos distantes, ou até mesmo simples curiosos, logo foram chegando para verem com seus próprios olhos aquele inverossímil milagre. 

Por um breve momento, por mais estranho que pudesse parecer, aquele fato passou a ser visto como algum tipo de dádiva dos céus. No entanto, quando, dentre os presentes, alguém teve a ideia de fazer uma oração em agradecimento àquele notável acontecimento, assim que as primeiras palavras foram ditas, Dona D’asdor se lançara sobre essa pessoa e, com unhas e dentes, a atacara sem nenhuma piedade, deixando-a em lastimável situação. A infeliz religiosa só não fora morta porque, muito rapidamente, Dona D’asdor fora contida pelos presentes e, mesmo com muita dificuldade, logo fora amarrada à mesma cama onde passara os últimos anos de sua vida. Toda aquela situação levava a uma única certeza: Dona D’asdor estava possuída. Ela não havia sido curada; suas pernas não haviam retomado os movimentos de outrora. Mas, certamente, alguma entidade maligna havia tomado posse de seu combalido corpo e o estava usando para algum tipo de mal. 

Durante toda a noite, Dona D’asdor – ou quem, ou o que, estivesse no controle de seu corpo – tentara, de todas as formas, se ver livre das amarras que a prendiam àquela cama. Num primeiro momento, ela tentara persuadir quem estivesse próximo com palavras de afeto e ternura. Após perceber que tal intento era inútil, tentou utilizar-se de uma hercúlea força que ela não possuíra até então. O esforço para se libertar era tão grande que fazia com que a cama se movimentasse de um lado para o outro pelo quarto. Nesse estágio de violenta tentativa de se ver livre, ela tanto gritava com uma voz bastante sinistra, como emitia diversos sons – tanto de animais conhecidos, quanto de barulhos estranhos, jamais escutados por ouvidos humanos. 

Passado o primeiro momento de euforia, e sendo sabedores de que nenhum milagre ocorrera, logo muitos foram embora. Primeiro, os mais medrosos; em seguida, os menos curiosos; e, por fim, aqueles que nada poderiam fazer a respeito de tal situação e tinham seus afazeres os aguardando. Aqueles que ficaram rapidamente decidiram que um religioso entendido do assunto deveria ser chamado. Como o padre mais próximo distava pelo menos quarenta quilômetros dali, a pessoa escolhida fora o Pastor Ebenézer, o líder religioso de uma pequena unidade pentecostal, inaugurada há bem pouco tempo na região. Numa comunidade de maioria católica, aquele tipo de denominação religiosa fora recebida com certo receio pela população local. No entanto, como o carisma tanto do Pastor Ebenézer, bem como o de sua esposa, era algo bastante encantador, logo conseguiram conquistar a todos, sem maiores dificuldades. Sendo ele uma pessoa bastante prestativa, assim que fora acionado, rapidamente se prontificara a colocar seus serviços religiosos a postos. Até porque um fato como aquele poderia lhe servir como propaganda para sua humilde e recém-fundada igreja. 

Acompanhado de seu filho mais velho – Ezequias, que certamente seguiria os passos do pai, vindo também a se tornar pastor – chegara à casa de Dona D’asdor logo pela manhã. Além do leal e inseparável Ezequias, de vinte e três anos, o Pastor Ebenézer tinha outros quatro filhos: três moças – Rebeca, Ruth e Deborah –, todas em idade de contrair matrimônio, e o caçula, Samuel, com apenas doze anos. Recebido por Agenor – filho da dona da casa e o mais interessado no desfecho daquilo tudo – e por Nhô Virgílio, que a tudo acompanhava com bastante curiosidade, logo ficara a par de tudo que ocorrera até então. Sem mais delongas, acompanhado de seu filho Ezequias, e estando de posse de sua Bíblia, de um saltério e de um vasilhame contendo água benta, dirigiu-se o Pastor Ebenézer ao quarto onde, naquele momento, por algum motivo ainda desconhecido, um sepulcral silêncio se fazia presente. Tanto Agenor quanto Nhô Virgílio recomendaram insistentemente ao pastor e a seu filho que, em hipótese alguma, deveriam soltá-la de suas amarras, independentemente do que ela lhes dissesse. 

Antes mesmo de adentrar aquele recinto, logo à porta, já fora possível perceber a sinistra atmosfera do lugar. O quarto exalava um peculiar cheiro de mofo de cemitério – uma mistura de nauseabundos odores. Algo em decomposição, cheiro de velas e flores mortas – e um saturado e pegajoso cheiro de algo podre. Esse estranho odor se misturava ao cheiro de todo tipo de emplastos e cataplasmas que lhe era ministrado. Poderia ser apenas mais um ambiente comum, como qualquer local onde estivesse um moribundo em restabelecimento, exceto pelo extremo frio que havia no ambiente naquele momento. Mesmo já sendo dia claro, o quarto estava tomado pelas trevas, e fora necessário acender algumas velas para iluminar o ambiente. Dona D’asdor parecia estar dormindo placidamente. Seu semblante era meigo e sereno. Sua face transmitia uma intensa paz interior e, quando o Pastor Ebenézer a olhou de perto, teve quase certeza de que tudo o que ouvira sobre os últimos acontecimentos talvez fosse um ledo engano. Mesmo assim, achou por bem ungir o ambiente com orações e algumas passagens do saltério. Enquanto ele orava e citava salmos, Ezequias aspergia água benta por todos os lugares. Praticamente estavam dando aquele rito por encerrado, quando perceberam que Dona D’asdor estava sentada na cama, em posição de meditação, observando-os calmamente. 

– Que a paz do Senhor esteja contigo, Pastor Ebenézer... – disse ela, com uma doce voz infantilizada. 

O susto de Ezequias fora tão grande que ele deixou cair o vasilhame que trazia nas mãos, espatifando-se no chão do quarto. Pastor Ebenézer respondera prontamente: 

– Contigo também, irmã. Como está se sentindo hoje? 

– Poderia estar melhor, se meu filho ingrato não tivesse mandado me amarrar aqui nesta cama. Se não bastassem todos esses intermináveis anos que aqui estive presa, agora estou amarrada de vez... – respondeu ela, cada vez mais dócil. 

– Aqui fui chamado porque me disseram que a irmã estava tendo uma crise existencial. Creio, do fundo de minha alma, que talvez tenham se enganado quanto a isso, pois vejo que a irmã está bem, gozando de boa saúde e plena lucidez. 

– Sim! Estou ótima, como o senhor mesmo pode constatar com seus próprios olhos. Meu filho ingrato e seu amigo bêbado me amarraram sem motivo e ficam espalhando inverdades sobre mim, tentando difamar uma pobre velha e indefesa como eu. 

Tomado de profunda piedade por aquela pobre senhora e confiando em sua fé – imaginando que, se fosse algum estratagema do demônio para que a libertassem, ele e seu filho conseguiriam manietá-la novamente –, decidiu que a desamarrariam, deixando-a livre outra vez. Assim que uma das mãos de Dona D’asdor fora solta, ela agarrou a camisa de Ezequias e, trazendo-o para próximo de sua boca, mordeu-lhe o pescoço, rasgando-lhe a garganta. 

Com um urro de um animal selvagem, ela comemorou aquela medonha façanha e, ao ver o desespero do pastor, que tentava a todo custo ajudar o filho que se esvaía em sangue e certamente vivia seus últimos momentos, ela disse:  

– Pensou mesmo que um servo do pecado como você estaria à altura de vir até aqui me confrontar? É deprimente saber que pessoas iguais a você não tenham o mínimo de conhecimento sobre quem somos nós, de tudo que podemos e daquilo que sabemos. Nem por um momento passou pela sua cabeça que, quando você abusa de suas filhas, estamos nas sombras assistindo você profanar justamente aquelas que você deveria proteger a todo custo? Pois saiba você, filho de Belial, que o seu abjeto prazer é para nós um saboroso deleite. Aquele que se diz servo do Senhor, alguém que se autodenomina pastor de ovelhas, ser na verdade um lobo voraz. Tirei a vida de seu filho apenas para que você sinta o mesmo que suas filhas sentem quando você as obriga a abortar o fruto de seu pecado de seus inocentes ventres. Mesmo sendo uma criança incestuosa ainda assim é uma criança, e para nós é um deleite inigualável ver o próprio pai causando esse mal à sua própria semente, obrigando suas filhas a serem assassinas de seus próprios filhos... 

Agenor e Nhô Virgílio, que a tudo aquilo assistiam da porta do quarto – pois, assim que ouviram os gritos, vieram tentar ajudar –, olharam para o Pastor Ebenézer com um misto de escárnio e incredulidade, pois já haviam ouvido rumores estranhos sobre o comportamento do pastor com suas filhas, sendo estas proibidas, por ele mesmo, de manter qualquer tipo de relacionamento com outros rapazes, mesmo que fosse da mais respeitosa amizade. As três filhas do pastor, mesmo já sendo mulheres adultas, eram mantidas sempre em casa, sob a mais severa vigilância, sem qualquer tipo de envolvimento social. Pastor Ebenézer, que não dissera uma única palavra sequer, assim que seu filho, desfalecendo em seus braços, dera o último suspiro, lançara-se sobre Dona D’asdor e, num desvairado ataque de fúria, tentara com todas as forças esganá-la, mas logo fora contido por Agenor, enquanto Nhô Virgílio tentava amarrá-la novamente. Dona D’asdor, que gargalhava incontrolavelmente, talvez por isso mesmo tenha se deixado amarrar novamente. 

Não havendo mais nada a fazer naquele lugar, com o corpo inerte do filho nos braços, Pastor Ebenézer se fora sem ao menos dizer adeus. O que se soube depois foi que ele, assim que enterrara o corpo do filho numa cerimônia rápida e simples, abandonara esposa e filhos, lançando-se pelo mundo sem deixar nenhum vestígio de seu paradeiro. Sua esposa e filhos também logo se mudaram, e ninguém mais ouvira falar sobre nenhum deles. Agenor, imaginando não ter outra solução, decidira que, a qualquer custo, o Padre Ozório deveria ser chamado. Pela distância, esse somente chegaria no outro dia. Durante todo esse tempo, Dona D’asdor transitara por diversos tipos de comportamentos, desde o mais dócil até o mais violento possível. Sua selvageria era tão grande que, ao fim do dia, seus dois pulsos já estavam completamente dilacerados na tentativa de se soltar. Pela gravidade dos ferimentos, certamente ambos deveriam estar quebrados. Seus gritos, urros e gemidos eram ouvidos ao redor de toda a casa, a uma distância considerável. O som que ela emitia deixava todos os pelos do corpo arrepiados; até mesmo Nhô Virgílio, um septuagenário vivido e experiente, vez por outra tinha calafrios e se tremia todo de medo. 

Assim que o Padre Osório chegara, trazendo consigo dois auxiliares religiosamente paramentados, nem mesmo quiseram ouvir todos os relatos de Agenor e de Nhô Virgílio, pois já sabiam previamente do que se tratava e, rapidamente, foram entrando no quarto e preparando tudo para o exorcismo. Sendo eles pessoas já acostumadas com aquele tipo de situação – Padre Osório era um sábio demonologista e um exorcista renomado – em menos de uma hora conseguiram expulsar o demônio que assumira o corpo de Dona D’asdor. Assim que se viu livre da maligna entidade que o possuíra, o corpo entrou em um rápido estado de decomposição e teve que ser enterrado com urgência. 

Quando o exorcismo enfim se deu por encerrado e o Padre Osório saíra do quarto, trazendo na face o semblante de mais um dever cumprido, Agenor, timidamente, perguntou-lhe: 

– Minha mãe morreu? 

– Filho, sua mãe está morta há três dias! Aquilo que se levantou da cama e andou entre os vivos, atacando a quem quer que fosse, não era sua mãe... 


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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O Coelho Vermelho

O solitário castiçal iluminava as cartas sobre a escrivaninha. Sua luz trêmula projetava…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O solitário castiçal iluminava as cartas sobre a escrivaninha. Sua luz trêmula projetava a sombra disforme do homem sem rosto – um aristocrata cujo semblante ninguém jamais vira. Os rumores sobre sua origem remontavam a séculos, mas sua existência permanecia um enigma envolto na imensidão e silêncio do seu castelo. Apenas alguns servos fiéis, de olhares baixos e lábios selados, lhe faziam companhia. 

O homem mergulhou a pena no tinteiro negro. O arranhar no pergaminho ecoava como unhas em um caixão. 

"O Conde te espera na celebração dos Láparos. Haverá um baile em prol do Aesttera — Tempo de Conceber Novas Vidas. Te esperamos neste franco deleite", escreveu com caligrafia meticulosa. 

Era o décimo quinto ano do ritual. Os Láparos, segundo os antigos manuscritos guardados nas catacumbas do castelo, eram espíritos da fertilidade que exigiam sangue para conceder vida. O Aesttera, ciclo lunar de conceber, aproximava-se do auge. 

Mulheres solteiras ou casadas, sem filhos, e homens livres de qualquer preconceito eram bem-vindos. Muitos ignoravam o verdadeiro propósito da celebração, atraídos apenas pela promessa de libertação. O grande evento era visto como um encontro de possibilidades e de escalada social. As melhores joias, as melhores roupas visavam ostentar seus alter egos, que para muitos seriam inalcançáveis caso não fossem ao baile. 

A noite chegou com um céu sem estrelas. Coelhos híbridos com humanos, advindos de várias carruagens, rompiam o silêncio espectral daquele lugar. O relinchar dos cavalos misturava-se ao murmúrio excitado dos convidados. Máscaras ornamentadas com penas, joias e cristais escondiam identidades, mas revelavam olhares cheios de desejo, esperançosos pela entrega à libido. O aroma de incenso e almíscar impregnava o ar, enevoando os sentidos já turvos pela expectativa. 

Um tilintar numa taça de cristal reverberou pelo salão, evocando a atenção dos convidados que sorriam inocentemente, ansiosos pelo deleite do raro vinho da maçã sangrenta. O líquido escarlate brilhava sob a luz dos candelabros, sua viscosidade deixando rastros rubros nas taças de cristal. Um aroma metálico, adocicado, emanava da bebida. 

"Este néctar", anunciou o servo principal, "foi preparado pelo próprio Conde durante o ciclo completo da lua negra." 

Eles bebiam. O líquido escorria por gargantas sedentas, esquentando-os por dentro. Comiam. Carnes raras, frutas exóticas, manjares nunca antes provados. Tocavam-se. A princípio com timidez, depois com voracidade crescente. Mas só havia uma única regra: nunca remover a máscara. 

E continuavam... As risadas tornavam-se mais estridentes, quase histéricas. Contorciam-se, despiam-se... O som úmido da carne contra carne mesclava-se ao tilintar das joias. Elevavam acima de suas cabeças as taças cheias do néctar afrodisíaco, seus reflexos vermelhos manchando o teto como sangue espalhado. 

De seu trono nas sombras, o anfitrião, o homem sem rosto, assistia ao espetáculo daqueles a quem denominava como selvagens. Sob seu manto negro, suas mãos pálidas apertavam os braços entalhados do assento. Era o décimo quinto sacrifício, e cada ano a sede dos Láparos crescia. 

"Bebam, velhas bestas, coelhos malditos, hoje celebramos a morte e a vida", e por detrás de sua máscara — única com a cabeça de coelho vermelho, olhos de rubi e pelagem escarlate — projetou sua voz enquanto tilintava sua taça. "Olhem, admirem a origem do sangue que bebem." 

Um véu pesado foi removido no centro do salão. E numa gaiola dourada, uma pobre e fértil mulher definhava, pálida como marfim polido, os pulsos cortados e enfaixados, seus olhos vidrados fixos nos convidados. Uma mangueira transparente ligava suas veias à grande ânfora de cristal de onde o vinho era servido. Ela assistia seus algozes deleitarem-se com o viscoso vinho escarlate – seu próprio sangue, drenado lentamente para alimentar a celebração. 

Os convidados congelaram. Taças caíram, estilhaçando-se contra o mármore. Alguns levaram as mãos à boca, outros permaneceram imóveis, fascinados pelo horror. 

"Os Láparos exigem sangue voluntário," continuou o Conde, sua voz agora mais profunda, inumana. "Ela se ofereceu em troca de riquezas para sua família. Um sacrifício nobre, não acham?" 

E a mulher na gaiola, como se esperasse este momento, moveu seus lábios ressecados. "Vocês... todos... malditos..." sussurrou ela, sua voz fraca atravessando o silêncio absoluto do salão. E, destarte, a sua vida esvaiu-se, porém, não com os olhos cerrados, mas fixos em seus carrascos mascarados, em uma maldição silenciosa que cada um deles levaria consigo para sempre. 

Por baixo de suas máscaras, imperceptivelmente, pequenos tufos de pelo branco começavam a brotar na pele dos convidados. 


Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
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20. Castelo Vampírico: Quem comer minha carne e beber do meu sangue tem a vida eterna

Saímos de onde Arturo estava. Aquele breve encontro com ele me deixou inquieta…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano 

09 de janeiro? — Saímos de onde Arturo estava. Aquele breve encontro com ele me deixou inquieta — acho que essa é a palavra. Ele estava no lugar que deveria estar, mas, ao mesmo tempo, não deveria estar ali. E todas aquelas peças, livros, aquele caos organizado das mentes que nunca param de pensar mexeram um pouco comigo, levando meus pensamentos para coisas além daqui. Algo que tirei de mim mesma antes de adentrar ao castelo. 

Continuamos nosso caminho, na missão de encontrar Drácula. Mara chamou minha atenção dizendo que eu não deveria ficar de conversa com pessoas que não conhecia. Entendo que ela se preocupa com a própria vida, mas não sou tão distraída a ponto de precisar que alguém me lembre de tomar cuidado a todo momento — pelo menos eu acho que não. 

Seguimos para fora do castelo, e não sei descrever de forma correta a sensação de estar ali, naquele lugar em que eu estava acostumada a ir toda vez que precisava da companhia da Ameritt. Não entendia o motivo de Mara querer procurar Drácula fora do castelo, mas apenas a seguia, pois ela parecia saber o que estava fazendo. 

Andamos por entre aquele jardim diferente, seguimos pelo meio de um arvoredo, e então encontramos um monumento enferrujado. Era uma rocha oxidada que se erguia naquele meio, com uma abertura em seu centro. Parecia um convite para que entrássemos. Troquei um olhar com Mara, como uma permissão silenciosa do tipo “Posso entrar?”. Ela apenas disse: 

— Espere aqui — e entrou na frente. Logo após, voltou e disse para que eu entrasse com cautela. 

— Ué, entrando em locais desconhecidos? Não acha isso perigoso? — disse a ela, para implicar com seu excesso de cuidado comigo. 

— Às vezes devemos seguir o caminho que o castelo nos orienta a seguir — disse ela, seca. 

— E como você pode saber se o castelo não nos orientou a falar com Arturo? — perguntei. 

— Eu não sei, mas vivi o bastante aqui para saber que as pessoas não são muito confiáveis quando estão sendo orientadas pelo castelo — ela disse, colocando um ponto final na conversa. 

Entrei na fenda logo atrás dela, e o que vi estava fora da minha noção da realidade. Era como se eu atravessasse uma barreira invisível, estava deixando para trás algo que ainda me pertencia, mas que eu não reconhecia o que era. O ar estava cheio de uma fragrância diferente. Não era aquele odor característico dos jardins do castelo que eu estava acostumada. Havia um peso que parecia se manifestar em meu corpo como um cansaço físico, como se o espaço questionasse a minha permanência ali. 

Olhei todo aquele jardim e fiquei impressionada com as flores mecânicas que brotavam do solo coberto de raízes metálicas. Havia um vapor suave sendo exalado por todas aquelas flores. O lugar estava saturado de um perfume que, para mim, é quase impossível de descrever em toda a sua totalidade. Era floral, era quente e metálico, como se, literalmente, uma flor de metal fosse aquecida até seu limite e exalasse de seus poros esse odor que parecia reagir à nossa presença. 

Pelo canto dos olhos, captei algo à minha esquerda. Não sabia dizer o que era. Mara também havia visto, pois se afastou de mim alguns centímetros e foi em direção ao local. Eu a segui, e logo ela apertou o passo, ainda caminhando silenciosamente. Tentei manter minha respiração sob controle. 

Segui Mara, sempre junta a ela, como eu havia prometido fazer. Mas o castelo não tem compromisso com juramentos. 

Mara parou ao se deparar com um pequeno coelho com uma fita vermelha no pescoço — era o que estávamos seguindo. 

— O que fazemos agora, pegamos o coelho? — sussurrei. 

— Não. Vamos esperar ele continuar a andar e o seguimos — ela sussurrou de volta. 

Ficamos paradas esperando, e nada do coelho sair. Ele ficou ali, nos encarando por um longo tempo. Fui dando pequenos passos em sua direção para ver se ele se afastava e continuava seu caminho, mas nada. 

— Você acha que esse coelho pode nos levar até onde Drácula pode estar? — continuei falando baixo. 

— Não tenho certeza. Apenas estou tentando seguir as orientações do castelo, já que meu plano não está conforme o planejado. Talvez essa fita vermelha no pescoço do coelho não seja por acaso — ela falou isso com muita seriedade. 

— Isso pode ter sido feito por qualquer um no castelo. Pode ser só perda de tempo. 

— Sei disso, mas não é como se tivéssemos muitas opções — ela disse. 

Me abaixei até o coelho e coloquei devagar as mãos nele, que não se afastou em nenhum momento. Então, uma parede de galhos cheios de espinhos se ergueu num instante, me separando de Mara. Ouvi Mara gritar meu nome com uma voz firme e tensa. 

— Rute, fique onde está, darei um jeito de te buscar. 

Eu queria responder e dizer a ela que iria esperar, mas, antes que eu pudesse abrir a boca, os galhos ao redor de mim se contorceram, buscaram algo para se agarrar — e se agarraram em mim. O chão fugiu dos meus pés, e fui puxada, sem resistência, por um longo caminho. 

Lutei em vão. Minhas unhas arranharam a madeira dura, meus joelhos e cotovelos foram esfolados. Fui arrastada pela floresta. 

Fui deixada no meio do nada, num chão coberto de folhas secas, num local muito diferente do jardim em que eu estava antes. Estava muito além dele. As árvores altas formavam uma cúpula, com copas tão unidas que impediam o pouco de luz do dia que restava de entrar. A única iluminação vinha de lamparinas espalhadas ao redor, penduradas em algumas árvores. 

Vi, então, figuras mascaradas caminhando silenciosamente, e me escondi atrás de uma grande árvore. Fiquei a observar enquanto passavam, se distanciando de onde eu estava. 

Usavam mantos negros e carmesins. Suas máscaras de coelho escondiam seus rostos. As figuras caminhavam com passos ritmados, esmagando com os pés as folhas secas com um som abafado. Seguravam tigelas com coisas que eu não conseguia identificar, pequenos cestos de vime que pareciam conter pedaços de coisas que eu não conseguia ver — talvez flores, ossos ou algo pior? 

Seguiam uma trilha entre as árvores, iluminada por pequenas lamparinas penduradas nos troncos ao longo do caminho. Eu senti que talvez estivesse vendo algo que não deveria ver. O castelo muda e se move — ele também nos muda e nos move. Esse fato já está mais que aceito por mim, e ele nos separar só confirma que tem alguma intenção própria. Quando ergueu entre nós uma parede com galhos cheios de espinhos, me deixando por conta própria, talvez fosse o jeito dele de me mostrar suas orientações. Forma terrível, essa. Então, decidi segui-los. Conforme eu ia andando atrás das figuras, a noite ia chegando, e o brilho das lamparinas parecia aumentar, deixando tudo com um aspecto tão reconfortante e um pouquinho assustador. Um vento fresco passava por entre os galhos. Havia umidade no ar, um cheiro que era uma mistura de terra mexida, velas queimando e um aroma doce e ferroso. Eu sabia que deveria voltar para o local onde Mara havia pedido para que eu esperasse, mas toda a minha razão se esvaiu diante do conforto daquela situação. Eu estava envolvida. 

Eu ouvia murmúrios. Cânticos? O vento nas árvores, talvez? Ou só o roçar dos mantos pesados no tapete de folhas secas? Continuei seguindo os mascarados, a uma distância segura, tentando me manter escondida entre as árvores. Os segui até uma clareira. Lá havia uma grande mesa de madeira, com velas, taças, frutas, pratos. Havia aquele aroma doce e ferroso no ar, misturado ao cheiro quente dos corpos que começaram a se movimentar, como numa dança ritualística. Uma música começou.  

Primeiro, o som veio dos pés arrastando levemente na terra. Depois, o som de um violino, tocado com uma lentidão fúnebre que foi, aos poucos, ficando mais rápida. Todos formaram um círculo, e as vozes se ergueram numa canção em uma língua que eu não entendia. Era um canto gutural que ondulava, palavras que pareciam mais uma tempestade do que um idioma em si. Uma dormência tomou conta de mim e, por um breve momento, quando a luz das velas tremulou, tive certeza de ver as sombras dos presentes dançarem sozinhas — fora do ritmo dos corpos que ali dançavam. 

Meu coração batia forte — não por medo apenas, mas pelo fascínio que aquele grupo estranho despertava. Havia algo nos seus movimentos ritmados que me parecia tão belo... uma beleza distorcida que eu passara a apreciar aqui no castelo. Como se, aos poucos, ele revelasse para mim seu interior belo e delicado — e, ao mesmo tempo, vermelho e denso, como em carne viva. A dança cessou, e todos se afastaram, ficando de frente ao que parecia um palco improvisado. 

Então, uma arlequim apareceu. Ela vestia um traje em tons de vinho e dourado. Seu rosto era branco pintado, e possuía um sorriso sem sorrir. Apareceu no centro do palco, chamando a atenção de todos. Ela estava conduzindo alguns coelhos — brancos, pretos e marrons — que saltavam ao seu comando, fazendo truques ao som de suas palmas. 

Todos os presentes estavam vibrando com a apresentação, mas eu sentia, sem saber como, que havia algo estranho ali. 

Cheia de floreios, fez uma pequena mesa aparecer à sua frente e depois uma coleção de pequenos coelhos, tão brancos quanto a maquiagem de seu rosto. Ela os fez saltar, dançar, desaparecer, reaparecer, e a plateia via tudo fascinada. Ela segurou com cuidado um daqueles pequenos coelhos e arrancou sua cabeça com os dentes, um filete de sangue escorreu de seu queixo branco, então ela repetiu o ato com outro; a plateia continuava animada. Logo, outro coelho foi erguido e outra cabeça foi arrancado e, logo depois, outro.  

Os mascarados batiam palmas, vibravam, riam como se aquilo fosse um espetáculo inofensivo, como se tudo aquilo que a arlequim estivesse apresentando fosse apenas um truque muito bem ensaiado. Era um truque, não era? Eu quero muito acreditar que era, pois o estalo dos seus pescoços sendo arrancados ficou ecoando dentro da minha cabeça. A arlequim se inclinou sobre o coelho com a fita vermelha no pescoço, aquele que eu havia perseguido, segurou o coelho com as duas mãos, murmurou algo e num movimento rápido, arrancou a cabeça dele, o sangue jorrou, espesso e vermelho. Alguém na plateia riu. Ela riu como se estivesse embriagada, o som dos ossos do crânio do coelho se partindo enquanto ela mastigava era alto demais para ser real, meu estômago estava se revirando. Aquilo não era real, não podia ser real, não era, não é? 

Minhas pernas tremiam. Eu queria recuar e voltar para o local onde Mara pediu para que eu esperasse. O aroma ferroso se intensificou e, dessa vez, estava levemente amadeirado. Um calafrio percorreu minha espinha. Havia alguém um pouco afastado do círculo, entre os galhos secos, apenas observando. A luz das velas parecia aumentar a sua sombra, que já era monstruosa: um corpo esguio. Naquela escuridão entre os galhos, suas formas eram incertas. Pelos grossos e escuros, um traje antigo, um manto longo e escuro que se arrastava no chão... Mas então ele deu alguns passos à frente e seu corpo foi iluminado — e eu vi, com horror, seu tórax e suas mãos que não eram cobertos de pele ou pelos, mas sim por ossos expostos. Um sorriso se abriu em sua face ao ver o horror no meu rosto.  

Ele não era como os outros mascarados. Essa criatura — pois não consigo pensar nele como algo humano — tinha olhos vermelhos profundos, sem pupilas, e seu rosto era como o de um coelho, com pelos muito negros e um sorriso largo demais, afiado demais para um coelho real. Suas mãos, que estavam erguidas sobre o peito, eram de ossos, com garras afiadas e delicadas. Ele não olhava para a arlequim — ele olhava para mim. E a arlequim, percebendo que eu havia notado estar sendo observada, sorriu. 

As vozes voltaram a cantar e a dançar com a aparição dele, alheias ao horror que me paralisava. Eu não conseguia seguir meu caminho para longe daquilo — e nem sei se eu queria sair dali, se pudesse. Eu pertencia àquele encontro ou era uma intrusa em um ritual que eu não entendia? Deveria participar daquilo? E, se eu não participasse, seria castigada por isso? Eram perguntas demais para um cérebro assustado e confuso. Eu quis muito correr, mas meus pés estavam presos naquele chão. Eu podia sentir que ele estava me esperando decidir. Mas, diante de tudo isso, algo em mim quis ficar ali e continuar assistindo àquela celebração. Eu sei que deveria estar com medo. Talvez, no fundo, eu estivesse. Mas o medo era deixado de lado diante da minha curiosidade, que prendia meus pés ao chão, me impedindo de ceder àquele medo e sair daquele lugar.  

Ele caminhou até mim e, sem dizer uma única palavra, me estendeu aquela mão ossuda, com aqueles dedos sem carne para cobri-los — um sorriso muito aberto, direcionado a mim. Eu queria recuar. Mas, ao oferecer sua mão, meu corpo ficou tenso. E algo naquele olhar vermelho profundo me manteve no lugar. Havia algo de hipnótico naquilo. Eu sentia como se todas as gerações antes de mim — ou todas as vidas possíveis que eu pudesse estar vivendo, ou tivesse vivido — já tivessem pisado neste mesmo solo, assistido a este mesmo momento e também cedido a esta mesma hipnose. 

Quando meus dedos tocaram os ossos daquela mão, um calor estranho percorreu todo o meu corpo, e fui levada sem resistência. O mundo girava ao meu redor. As figuras mascaradas voltaram a dançar como em transe. Pareciam desenhar com os pés padrões invisíveis naquele solo coberto de folhas secas. Ele me levou até a grande mesa. Sobre ela, velas, frutas, carnes de origem um tanto incerta, pães, taças com o que parecia ser vinho — tudo cheirando bem: umidade, especiarias, o cheiro de terra revolvida e, ainda, aquele cheiro doce e ferroso. Ele fez com que eu me sentasse na cabeceira da mesa e, depois, caminhou até a outra cabeceira. De frente para mim, levantou sua mão esquelética e fez um gesto rápido. Na hora, os dançarinos pararam suas danças febris, andaram até a mesa e, em ordem, cada um tomou seu lugar à mesa — máscaras de coelhos me encarando com suas cabeças inclinadas para o lado, esperando algo. Talvez o próximo comando dele. Olhei para cada rosto oculto pela máscara de coelho e parei meu olhar na arlequim, que fez questão de se sentar ao meu lado.  Ela sorria e segurava um coelho que se debatia em seus braços e com um único movimento ela torceu seu pequeno pescoço e o som seco do estalo pareceu me despertar. Alguém — que não consegui identificar — riu baixinho; meu coração acelerou, mas consegui fazer minhas mãos permanecerem imóveis, sem tremer.  

Todos aguardavam algo — e agora até eu estava aguardando, sem saber o que era e sem entender o motivo de eu estar fazendo parte daquilo. Então ele se levantou. Serviu cada um à mesa com um pedaço de carne, começando por mim. Depois de completar a volta, pegou um jarro e serviu cada um de nós com o que parecia vinho. Sentou-se e fez um gesto. Todos seguraram o pedaço de carne nas mãos e, depois que ele comeu, todos também comeram. A arlequim olhou para mim com um leve balançar de cabeça, como se estivesse me encorajando a comer.  

Tive receio de ser a única a não comer e coloquei a carne na boca. O sabor das especiarias e um toque de chocolate amargo me ajudaram a mastigar aquela carne, que eu suspeitava vir do corpo descarnado da criatura sentada à minha frente. Assim que engoli, ele fez mais um gesto e levantou o cálice. À frente de cada um de nós havia um cálice. Peguei o meu e o levei até o nariz. O cheiro era quente. Era do cálice que vinha aquele odor doce e ferroso — mas também vinha dele. Algo dentro de mim me dizia para não beber. Talvez fosse a voz de Mara, entranhada em minha mente. A arlequim olhou para mim novamente, me encorajando a beber. Minha mente ficou perdida num nevoeiro de pensamentos e perdeu a resistência. Então, bebi. 

Assim que aquele líquido quente desceu pela minha garganta, todos à mesa — menos ele — começaram a aplaudir. Todos pareciam estar em êxtase. Mas aquela alegria me deixava desconfortável. Eu me sentia leve demais, como se meu corpo estivesse perdendo as raízes que o prendiam à realidade. Então Mara surgiu. O alívio da sua presença foi imediato. Ela apareceu de repente ao meu lado e, sem hesitar, bateu no cálice que eu ainda segurava e agarrou meu pulso, me puxando da mesa. Tudo aconteceu rápido demais para que eu conseguisse processar.  

A bebida se espalhou pelo chão, a cadeira caiu para trás, e então estávamos correndo. Ela estava me levando para longe dali. Eu olhei para trás uma única vez. A arlequim ainda estava sentada com os outros, acenando para mim com seu sorriso grande e imóvel. Ela também ainda estava sentada, assim como os outros — apenas me olhando. Corremos sem parar. A floresta parecia se fechar ao nosso redor. Quanto mais corríamos, mais escuro ficava, pois, para onde íamos, não havia mais a iluminação das lamparinas. Só paramos quando Mara me puxou para trás de um grande arbusto. Eu arfava, tentando recuperar o fôlego, mas meus pulmões ardiam. Mara se virou para mim — e pude sentir sua fúria. 

— Que inferno, Rute! O que você estava pensando? 

Minha mente rodava, o ar me faltava e eu tentava, inutilmente, lembrar com exatidão o que me levara àquilo, mas não consegui me explicar à Mara.  

— Eu não sei — murmurei sentindo um arrepio subir às minhas costas — era como se eu tivesse perdido o controle por um momento. 

Mara me encarou e seu olhar estava carregado de raiva, mas também havia medo nela. De onde estávamos, ainda conseguíamos ouvir a celebração, não havia terminado, e eu, dentro de mim, sabia que aquilo não era uma simples celebração. Eu não sabia explicar o que era, mas era algo mais, algo que eu havia feito parte e que não sabia se sairia ilesa. De repente, um click como se uma peça se encaixasse no meu cérebro e eu recordasse de uma sensação, um cheiro, algo familiar em um dos presentes à mesa. 

— Mara! Drácula estava lá, ele estava naquela celebração. — Eu disse. 

Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite Gomes

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Corria o sangue feito rio, 
Manchado pela ferrugem de um machado amolado. 
Era uma dançarina, uma dionisíaca, 
Uma sacerdotisa… 
Uma ave da qual, à luz de Hélio, 
Roubavam céu e galho.  

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Irrompe a vida, o deus. 
“Perdoar que nada!” 
Arderia a Grécia sem amor.  

Filho de Perséfone,
Vinho maturado, pisado com fé,
Ouvinte de Hermes…
És, dos fugintes, o senhor.

Líquido encorpado,
Corpulento, ambarado,
Baco, o mais vivo dos mortos,
Dá a eles o teu ardor!


Escrito por:
Lídia Machado

Vivendo por entre bibliotecas e saraus, desde o início de sua juventude a autora Lídia Machado vem tecendo íntima conexão com a poesia e com a escrita. Primariamente, cronista e fabuladora nas aulas de redação. Depois, aos quinze, jornalista estagiária as quais saía, de mototáxi – munida de coragem e de pouca bagagem profissional – rumo aos eventos da charmosa Limoeiro do Norte. Entrevistas, escrita e até mesmo o contato com antigos e leais assinantes do jornal. Também nascia, ali, o amor pela fotografia. Aos dezenove, iniciou como… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
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Sussurros da Meia-Noite & Profecia do Ovo Cósmico

Nas sombras da meia-noite ecoa o véu, | Sussurros antigos de um segredo perdido, | O ovo cósmico, de poder contido, | Revela o destino que à morte é fiel…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Nas sombras da meia-noite ecoa o véu,
Sussurros antigos de um segredo perdido,
O ovo cósmico, de poder contido,
Revela o destino que à morte é fiel.

Nas danças febris, o tempo se desfaz,
O sangue flui, misturado à agonia,
Em cada passo, a dor é melodia,
No ciclo eterno que a vida refaz.

Sob as estrelas, a profecia se tece,
Em línguas antigas, um eco a brilhar,
Os láparos dançam e a terra padece.

O ovo aguarda o momento de se abrir,
A escuridão, seu ventre a dilatar,
No destino final, a morte vai existir.

Sob o véu do Outono, em festa sombria,
Danças e máscaras tecem o destino,
Homens e mulheres, num rito divino,
Clamam pela luz que o inverno desvia.

O vinho da Maçã Sangrenta, escarlate,
Inunda as taças com doce agonia,
Lábios se embriagam de tal melodia,
Enquanto a terra exala seu combate.

Crianças colhem flores de sorte incerta,
Ovaeren ocultas em campos de dor,
Promessa de vida, renovo e calor.

Mas o vento sussurra em porta entreaberta:
A renovação carrega um alto preço,
Pois toda colheita tem seu fim em apreço,
O ovo do pecado cósmico,
No âmago sombrio da antiga floresta,
Onde o vento sussurra um canto profano,
De um ovo escorre o sangue insano,
Derrama o destino que o mundo detesta.

No breu do líquido doce e ferrugem,
Uma máscara surge em madeira maldita,
Sussurrando promessas de dor infinita,
Selando o destino de quem dela se aproxime.

Laparus era seu nome, outrora homem,
Mas a maldição do ovo o fez bestial.
Em olhos negros, um abismo mortal,
E em suas patas, a foice que consome.
A Foice do Juízo Laranja,

Sussurro da máscara de suco da vida,
Na penumbra das catedrais esquecidas,
Onde os vitrais choram sombras e dor,
Laparus, com sua foice ceifador,
Caça os daemons, almas corrompidas.

A máscara sussurra em voz de trovão,
Promessas de poder e eterna vingança,
Mas cobra um preço: da alma, a esperança,
Tornando o coelho a própria escuridão.

Cada golpe que desfere em corpos profanos
Faz brotar chocolate e sangue impuro,
Doce ironia de um destino obscuro,
Redenção tingida de gritos insanos.

Nos ecos do templo, os padres apodrecem,
Enquanto os demônios na morte florescem.
O bispo das mil línguas,
Ao vilarejo perdido e profanado,
Onde a névoa é profana,

E os sinos ecoam em tons de lamento,
Surge um bispo horrendo, vil tormento,
Com mil línguas cuspindo praga insana. 

Seus coroinhas, mortos em servidão,
Arrastam-se em filas, esqueléticas sombras,
Cantando hinos que a carne desonra,
Uma liturgia de pura corrupção.

Laparus avança, foice em punho,
O chão retumba sob suas patas ligeiras,
A máscara o guia com promessas traiçoeiras,
Enquanto a noite revela o último punho.
Nas alturas, onde o céu toca o abismo,
Uma deusa vigia o destino das eras,
Zorya Polunochnaya, guardiã das esferas,
Tecendo segredos em véus de mutismo.

Laparus escala montanhas de sombras,
O vento cortando sua pele de ébano,
A máscara arde com brilho insano,
Enquanto a meia-noite as trevas assombra.

Zorya, em um manto de estrelas brilhantes,
Ergue a mão, o tempo parece estancar,
Seu olhar atravessa o coelho errante,
Do ovo brota a vida e a morte a pairar,
Pois teu fado, Laparus, é o fio constante,
Que tece e corta mundos a se revelar.

Elyni adentra a caverna do devorador
Na beira do abismo, onde o ar é mortal,
Elyni surge, de rosto impassível,
Seu semblante, embora sereno e sensível,
Revela segredos de dor ancestral.

 “Laparus,” murmura, sua voz como vento,
“Teu fado é sombrio, mas não estás só.
Conheço o pesar que te marca com nó,
Pois já vi tantos láparos ao tormento.”

Com mãos cuidadosas, ela o consola,
Seus dedos tocando a máscara fria,
E no coelho, um lampejo de agonia,
Enquanto descem à caverna que imola.
Azgalor os aguarda em seu covil profundo,
Um monstro que devora o fio do mundo.
Sob galhos vermelhos, em cinza envoltos,
Encapuzados dançam em rito profano,
Máscaras frias ocultam o arcano,
Com olhos de coelho, vorazes, revoltos.

O vento sussurra segredos do além,
Folhas cruas estalam no chão apodrecido,
E cânticos fluem em tom proibido,
Como se os mortos clamassem também.

O néctar sangrento nas taças fumega,
Mistura de vida e dor que embriaga,
O aroma de ferro no ar se propaga,
E o vinho, ao descer, como fogo me cega.
Em torno das chamas, os passos em trilha,
Um presságio pulsando nas mãos que partilham.

Por entre danças, máscaras se erguem,
Sussurros brotam do chão revolvido,
Segredos no vinho, o cântico perdido,
Sombras que o olhar mais atento perseguem.

O néctar das flores encharca as bocas,
E os passos em círculos formam o selo,
No vento, palavras que roçam o pelo,
De Laparus e Elyni, em verdades ocas.

As velas vacilam; o chão se abre lento,
Um portal oculta-se sob os encapuzados,
Seu brilho vermelho, um eco sangrento.

Elyni percebe os láparos usados,
Sacrificados ao rito profético,
E grita ao coelho, num tom cético:

“Esse ciclo é mais antigo que teus erros;
A dança marca o retorno dos destroços,
Pois o Ovo Cósmico guardava terrores,
E as máscaras são os seus olhos atrozes!”

No véu da dança, o temor é desejo,
O vinho embriaga a alma supersticiosa,
Sob máscaras mórbidas, voz sinuosa,
Chama à comunhão num ritual ensejo.

Os passos, febris, ressoam no chão,
E as máscaras tornam-se faces reais,
Coelhos soturnos, dos mundos astrais,
Testemunhas de uma oculta criação.

O frio murmura promessas no vento,
O sacrifício, preço de fertilidade,
Sangue e canto fundem-se em dualidade.

O inverno se ergue em um vago lamento,
Mas Aesttera grita contra o destino,
Renovar na morte o ciclo divino.

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Pergaminho de Pesach

Na calada da noite, Arale Fa’yax se viu diante de um pergaminho envelhecido, encontrado casualmente próximo à cenoura do jardim do Castelo Dracula…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Na calada da noite, Arale Fa’yax se viu diante de um pergaminho envelhecido, encontrado casualmente próximo à cenoura do jardim do Castelo Dracula. O pergaminho, em suas mãos delicadas, parecia pulsar com uma energia antiga, como se carregasse o peso de mil segredos esquecidos. Ela o desenrolou e leu, recitando as palavras enigmáticas que dançavam entre as linhas. 

"Fluideco sangvinen en Esperanto..." 

Aquelas palavras antigas e sombrias reverberaram em sua mente, atravessando o véu entre mundos. O chão abaixo de seus pés cedeu, e ela caiu em um abismo profundo, onde os ecos de sua própria respiração eram a única companhia. Quando finalmente abriu os olhos, não estava mais no jardim, mas em uma terra estranha e perturbadora. 

Diante de Arale, uma vila festiva celebrava a Páscoa, com danças e risos. Mas havia algo errado — as máscaras, o brilho nascendo da dor, os olhares vazios. Tudo era uma fachada. Ela não entendia ainda, mas sabia que estava diante de algo terrível. A sensação de pesadelo era palpável entre as sombras. 

Surgiu um ser: Laparus, o coelho amaldiçoado, com seus olhos de ébano refletindo a escuridão do próprio universo. Ele a encarava — a foice em suas patas trêmulas, pronta para a batalha. 

A luta foi brutal, sangrenta. Laparus avançou com fúria, os golpes de sua foice cortando o ar com um som metálico. Arale, com reflexos rápidos, desviava, esquivando-se das lâminas afiadas que quase a rasgavam. Cada golpe de Laparus era uma explosão de fúria primal, enquanto Arale, com seus movimentos ágeis e mortais, procurava um ponto fraco, defendendo-se com seu machado. O solo estava coberto de sangue, a atmosfera saturada com o cheiro da morte. 

— Você não me conhece! — gritou Laparus, sua voz um eco de sofrimento. 

— Não pode me entender! 

Mas Arale não recuou. Ela sabia que aquela luta não era apenas sobre vencer, mas sobre quebrar as correntes que prendiam os dois. O combate se tornou uma dança de pura violência, um turbilhão de raios e sombras. Laparus, exausto e ferido, começou a vacilar. Sua foice, antes certeira, perdeu o ritmo. 

Foi quando a verdade se revelou: o espólio de suas almas entrelaçadas, como destinos torturados, tornou-se claro — não eram inimigos, mas vítimas de um mesmo ciclo de sofrimento, maldição e dor. 

Elyni, a guardiã dos láparos, apareceu nas sombras. De semblante sério, porém gentil, olhou para Arale e Laparus com um misto de tristeza e entendimento. 

Ela estendeu a mão, e os dois, exaustos e sujos de sangue, a olharam sem palavras. 

— A verdadeira luta não é entre vocês — disse Elyni, sua voz suave como o vento. 
— É contra o mal que corrompe este lugar. O Ovo Cósmico, aquele que vocês estão lutando para encontrar, é a chave. A criatura que o protege, Azgalor, devorador de almas, não será vencida em batalha, mas com união e compreensão. 

Arale e Laparus trocaram olhares de dúvida, mas algo os uniu — algo que foi além do instinto de luta. Avançaram em direção à caverna de ametista, onde a criatura diabólica os aguardava. Ali, um abismo se abria diante deles — tão profundo que a escuridão parecia devorar até a luz das estrelas. 

Dentro da caverna de ametista, Azgalor os aguardava. Sua forma monstruosa era retorcida, uma amalgama de sombras, ossos e olhos vermelhos como brasas, que brilhavam com um ódio imensurável. A batalha foi feroz, a terra tremendo sob seus pés enquanto Azgalor os atacava com garras afiadas como lâminas de aço. 

Mas Arale, Elyni e Laparus — unidos por um vínculo de destino — enfrentaram o monstro com força renovada. Cada golpe, cada movimento, era um passo em direção à liberdade. Eles perceberam que, ao trabalharem juntos, suas habilidades e forças se complementavam de maneira perfeita: Laparus com sua foice, Arale com seus rápidos reflexos, e Elyni com suas garras e sabedoria ancestral. 

Finalmente, após uma luta sangrenta e desesperada, o Devorador de Almas foi derrotado. Azgalor caiu, seu corpo se desfazendo em poeira negra — e, com ele, a maldição que aprisionava a vila. A realidade desmanchou todas as correntes daquela sofrida vila desértica. 

Elyni, Arale e Laparus, exaustos mas vitoriosos, se abraçaram, compartilhando um momento de silêncio profundo. A realidade ao seu redor começou a mudar — as máscaras caíam, e a vila era iluminada pela verdadeira luz do renascimento. 

Quando a batalha acabou, Arale, com uma expressão de paz no rosto, olhou para o céu. 

Após a batalha, quando o último vestígio da escuridão foi dissipado, uma luz suave e radiante envolveu os três heróis — Arale, Elyni e Laparus. O céu, antes opaco e sombrio, se abriu em tons dourados, e uma figura imponente apareceu diante deles, flutuando acima da terra agora purificada. Era Ostara, a Deusa da Primavera, da Fertilidade, do Renascimento e do Amor. 

Ela surgiu como um raio de luz divina, com cabelos dourados que pareciam capturar os primeiros raios de sol da estação que nascia. Ostara, com seu manto verde e florido, simbolizava a renovação da vida, a abundância da terra e a promessa de que, após a morte e o sofrimento, sempre viria o florescer. 

Seus olhos, azuis como o céu de um amanhecer primaveril, se fixaram nos três heróis que, embora exaustos, ainda estavam imersos no poder da vitória. 

Ostara levantou suas mãos, e do solo brotaram flores, árvores frutíferas e riachos frescos, como uma bênção direta para o povo da vila. O aroma doce das flores invadiu o ar, misturando-se à brisa suave que espalhava a promessa de uma nova era. 

— Vocês, que lutaram contra a escuridão e a tirania, agora têm a minha bênção — disse Ostara, com voz suave e cheia de poder. — Eu sou a Deusa que celebra o equinócio da primavera, o equilíbrio entre luz e sombra, e a ascensão da vida. Através de vocês, a liberdade foi trazida àqueles que sofriam. Agora, meus filhos, tomem o meu presente. 

Em suas mãos, Ostara segurava um ovo brilhante, ornamentado com símbolos de fertilidade e ressurreição. O ovo foi oferecido a Arale, que o recebeu com reverência. Ela sabia que aquele ovo era mais do que um simples símbolo — ele carregava o poder da deusa, capaz de regenerar e restaurar a vida para aqueles que mais precisavam. 

— Este ovo — continuou Ostara — é a chave para a fertilização das terras e dos corações daqueles que estavam sob a tirania. Ele trará uma nova era de prosperidade, liberdade e abundância para o povo desta vila. Que a primavera floresça onde antes havia fome e escuridão! 

A vila, antes desolada e oprimida pela fome e pela escravidão, começou a mudar diante dos olhos dos heróis. Os campos de terra árida começaram a florescer, os rios que haviam secado voltaram a se encher, e os habitantes da vila, libertos do jugo da opressão, se reuniram em festa, celebrando o milagre que acontecia diante deles. Rios de alegria e gratidão se derramaram por toda a vila, enquanto danças e cânticos se espalhavam pelos campos agora verdes. Havia, sobre um tronco ao lado da deusa, uma coroa de espinhos sobre o altar. 

Ostara, com um sorriso terno e acolhedor, tocou as cabeças de Arale, Elyni e Laparus, e uma luz cálida os envolveu. 

— Que sua jornada continue com coragem e sabedoria, e que a primavera sempre os acompanhe. 

E, como se a própria terra tivesse absorvido a bênção da Deusa, Arale, Elyni e Laparus sentiram uma renovada energia interior. Eles sabiam que não estavam mais sozinhos. A Deusa Ostara os havia marcado com sua bênção, guiando-os para novos desafios, para novas lutas — mas sempre com a certeza de que, após a escuridão, a luz sempre retorna. 

Assim, com o ovo em mãos, Arale retornou ao jardim do Castelo Dracula, sabendo que o verdadeiro renascimento não era apenas sobre florescer na primavera, mas sobre transformar a terra onde pisamos e as almas que tocamos. 

Ela observava o ovo, ainda quente com o poder da Deusa, refletindo sobre a luta, a amizade e a força do renascimento. Era a promessa de que, como Ostara, a vida sempre encontraria um caminho para florescer, mesmo nos lugares mais sombrios. 

Ela sabia que a luta contra as sombras nunca terminaria, mas, naquele momento, no silêncio da noite, ela tinha vencido. Tinha encontrado a força — não em sua luta sozinha, mas na amizade, na confiança e na união. 

E o ovo de chocolate que ela segurava, doce e perfeito, era a promessa de que, apesar da dor, sempre haveria renascimento. 

Lembrando que, no epicentro da festividade onde antes havia trevas, agora surgia uma aura de esperança: uma chama azul e violeta brilhava, e ela tinha em mãos um ovo de chocolate — o símbolo do ciclo de vida e renascimento. O vilarejo estava a salvo, e a realidade restaurada. 

Mas o caminho de Arale ainda não estava concluído. Ela retornou ao jardim do Castelo Dracula, o pergaminho em suas mãos, o ovo de chocolate como prova de sua jornada. Seu coração batia com a mesma energia da vida que fluía através de suas veias — pronta para o que viria a seguir, selando mais um pergaminho em sua máquina de escrever de ossos. 

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Memórias de um Pierrot

Certamente, não era o melhor lugar do mundo para se estar. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

“Se olhares demasiado tempo dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar dentro de ti”.
Friedrich Nietzsche

Certamente, não era o melhor lugar do mundo para se estar. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente, mas servia para se reconciliar consigo mesmo, entre um copo e outro de uma bebida qualquer. A parca iluminação elétrica, proveniente de duas simples luminárias dispostas nas paredes laterais, era um tanto quanto insuficiente, quase a ponto de uma penumbra completa. A semiescuridão do ambiente nem mesmo era notada por aqueles que ali estavam, pois quase todos os frequentadores de botequins, em sua grande maioria, optam pela escuridão. Sabe-se que, em momentos de tristeza e solidão, muitos preferem as trevas para tentarem se esconder de seus próprios problemas.

Na silenciosa penumbra de um bar, um indivíduo qualquer pode, sob a sombra do anonimato, tentar se esconder de qualquer problema que lhe assole ou de qualquer pessoa que o persiga. Só não poderá jamais esconder-se de si mesmo. Na sufocante atmosfera onde os odores de bebida e perfumes baratos se misturam com a constante fumaça de tabaco pairando ad aeternum no ar, sempre há alguém disposto a narrar alguma história, se porventura houver algum ouvinte interessado. Algumas dessas histórias podem ser verdadeiras, outras nem tanto. De certo modo, poder compartilhar algo, não importa se é verdadeiro ou não – mesmo que seja para desconhecidos – é uma tentativa desesperada de aliviar um peso na consciência.

Era uma noite como outra qualquer, sem muitas novidades, e o movimento estava amainado devido ao tempo. Enquanto na rua estava até um pouco frio, devido à chuva fina que caía constantemente, dentro do bar estava quente e abafado, devido às janelas estarem todas fechadas. Os clientes eram os mesmos de sempre, e tudo parecia estar concorrendo para mais uma sorumbática noite de terça-feira. No ambiente reinava um silêncio quase tumular, sendo interrompido vez por outra pelo som de bolas de bilhar, o barulho do carteado e o som de copos sendo reabastecidos. As canções que se alternavam num velho rádio no alto de uma prateleira eram quase inaudíveis, como se fossem um fúnebre fundo musical.

Toda aquela paz fora interrompida pela chegada de um estranho, que trazia consigo uma aura tão carregada que, além do rádio ter ficado mudo por um momento, até mesmo as luzes piscaram quando ele adentrou naquele ambiente. Não trajava vestes sombrias, nem mesmo tinha um rosto apavorante em si. Estava barbeado, limpo e perfumado. Contudo, havia algo de errado com ele; estava estampado em seu semblante que uma grande tristeza o assolava. Após cumprimentar a todos os presentes com uma voz macia e serena, pediu uma bebida e foi sentar-se numa mesa num dos cantos escuros do bar. Logo, uma bela mulher – dessas flores que a solidão da noite traz com seu perfume – veio até sua mesa e lhe ofereceu companhia. Ele agradeceu polidamente, mas recusou a oferta, dizendo:

– Devo agradecê-la pela gentileza, mas não tenho nada a lhe oferecer. Não quero de forma alguma tomar o seu tempo, muito menos atrapalhar o seu trabalho. Quero apenas beber um pouco e tentar, de alguma forma, dar um pouco de paz ao meu espírito.

– Em muitos casos, poder desabafar com alguém é a melhor forma de refrigerar uma alma atribulada. Além do meu ofício de leito, posso também lhe oferecer meus ouvidos e minha atenção – respondeu-lhe ela com muita simpatia.

Ele correu os olhos por todo o ambiente, como se estivesse medindo o perímetro, e logo após fez uma minuciosa análise de toda a silhueta da bela criatura que estava de pé logo à sua frente. Em resposta à sua gentil prestatividade, ofereceu-lhe uma cadeira e pediu que se sentasse, solicitando ao dono do bar que lhe servisse uma bebida. Quando prontamente a bebida fora trazida até sua mesa, ele pediu ao dono do bar que deixasse a garrafa, pagando-a com uma nota bem acima do valor e dizendo que não se preocupasse com o troco. A mulher, que havia se sentado comodamente, após tomar um considerável gole do conhaque que lhe fora servido, sorriu de maneira bastante inocente e disse em seguida:

– A propósito, meu nome é Adelaide. Dou-lhe minha palavra que serei uma ótima companhia e uma atenciosa ouvinte, se quiser conversar.

– Não era minha intenção, de forma alguma, descarregar meus dissabores sobre as costas de alguém. Não tenho certeza se vai gostar de ouvir o que tenho para contar. A bem da verdade, o que vou relatar a você, Adelaide, nunca contei para pessoa alguma. Não vou precisar pedir que mantenha minha história em segredo, pois tenho absoluta certeza de que o fará. Até porque, mesmo se você contasse minha história para qualquer pessoa, ninguém acreditaria. Seria vista como louca ou uma talentosa mentirosa.

Adelaide apenas sorriu em desafio, balançando a cabeça de forma negativa, como se aquele gesto quisesse dizer: Já vi e ouvi tanta coisa nessa vida que nada mais me assusta. Após virar de um só gole um copo de bebida, ele limpou a garganta e, antes de iniciar sua inverossímil história, ainda lhe disse, como se pudesse ler seus pensamentos:

– Talvez você até possa ter visto e ouvido muitas coisas em sua insignificante existência, mas tenho certeza de que, ao final de minha história e antes mesmo que esta noite acabe, sua vida já não será mais a mesma. Vou lhe contar desde o início, para que, quem sabe, assim você possa entender aquilo que eu mesmo ainda não entendo.

...Quando eu tinha apenas doze anos e minha querida e inocente irmã ainda não havia completado nem mesmo seus sete anos, numa noite em que estávamos a passeio na casa de nossa tia – única irmã de nosso pai –, nossa casa fora alvo de um terrível incêndio, que colheu a vida de ambos ao mesmo tempo, deixando-nos órfãos e sem nada, apenas com a roupa que tínhamos no corpo. Como meu pai não era provido de muitos bens, nem nossa mãe tampouco, além de perdermos nossos pais e nosso antigo lar, ficamos também reduzidos a nada. Duas crianças lançadas à própria sorte, dois seres inocentes contando apenas com a providência divina.

Minha irmã – uma bela menina de olhos claros, cabelos cacheados e faces rosadas – logo fora acolhida por minha tia e seu esposo, uma vez que eles ainda não tinham concebido nenhum filho, mesmo após dez anos de casados. Certamente algum dos dois deveria ter algum tipo de problema, pois sonhavam com uma criança. Eu, por outro lado, após ficar seriamente abalado com a trágica perda de meus pais, tornei-me um jovem arredio e bastante rebelde, chegando ao ponto de ser inconveniente, fato que me rendeu uma passagem só de ida para o seminário. Minha tia, convencida pelo marido, logo entendeu que, antes que eu fugisse de casa e me tornasse um delinquente, ela poderia fazer algo em meu benefício, entregando-me aos cuidados da Igreja, que, além de me educar, dar-me-ia a oportunidade de seguir uma carreira clerical.

Os primeiros anos que passei no seminário foram de total desalento para minha alma. Devido às minhas terríveis perdas, por mais que eu tentasse com todas as forças do meu ser, não conseguia acreditar em nada daquilo que meus tutores tentavam me ensinar sobre as bem-aventuranças que a religião poderia me oferecer. Eu havia perdido completamente a fé em tudo, até mesmo em mim. Há um provérbio que diz: “Na convivência de nossos semelhantes, nos tornamos iguais”. Já próximo à minha ordenação, quando eu já estava me adaptando àquela litúrgica vida, acostumando-me com a ideia de me tornar padre e, quem sabe assim, poder levar algum conforto a todos aqueles que, tais como eu, haviam enfrentado terríveis dissabores na vida, o destino me lançou mais uma vez ao chão. Minha irmã, que há pouco tempo havia desabrochado em seus quinze anos, cometeu suicídio. O real motivo eu não soube na época. Minha tia manteve no mais absoluto sigilo o porquê de uma jovem tão bela e radiante, cheia de sonhos, atentar contra a própria vida. Mais uma vez, minha fé me abandonou.

Nessa época, eu estava próximo de completar vinte anos. Um homem mentalmente instruído e fisicamente formado, pronto para enfrentar o mundo. Sem ter mais o que fazer dentro das paredes de um seminário, mesmo antes de professar meus votos, deixei minha vida eclesiástica de uma vez por todas e dei início a uma vida errante, perambulando de um lado para outro em busca de sobreviver de uma forma honesta. Minhas decepções haviam, de certa forma, me retirado a fé, mas os preceitos de ética e moral que aprendi, primeiro com meus saudosos pais e depois no seio da Igreja, fizeram de mim um homem de princípios.

Tentei me firmar em vários ofícios, tentando aprender uma profissão que pudesse me sustentar de forma digna, mas comecei a pensar que pessoas como eu estavam fadadas à derrota completa. Minha coleção de decepções era tamanha, ao ponto de começar a imaginar que talvez o melhor a fazer seria seguir o exemplo de minha irmã e acabar com todo o meu sofrimento de uma vez. Mas parece que o destino, de certo modo, tinha algo reservado para minha existência. Numa fria manhã de janeiro de um ano qualquer, estando eu sem trabalho já há algum tempo, com o aluguel do pardieiro que eu chamava de casa vencido e sob sérias ameaças de despejo a qualquer momento, com pouco dinheiro no bolso – talvez desse para mais duas ou três refeições apenas –, quando o desespero já tomava conta de mim, decidi que deveria arrumar uma ocupação imediatamente, fosse ela qual fosse. Saí de casa e, após tomar apenas um café num botequim qualquer, fui em busca de trabalho.

Após horas de caminhada improdutiva, entre vários "nãos" e muitas promessas de "quem sabe outro dia", já quase desistindo de encontrar trabalho, ao passar em frente a um combalido circo, vi uma placa com oferta de emprego. Estava escrito com tinta vermelha:

“CONTRATA-SE PALHAÇO”.

Primeiro, cheguei a pensar que eu não tinha a menor aptidão para aquele tipo de função. Contudo, para quem já havia sido auxiliar de padeiro, mascate, servente de pedreiro e tantas coisas mais, trabalhar no circo apenas fazendo as pessoas sorrirem não seria tão difícil. Aproximei-me da barraca onde a placa estava pendurada e, assim que bati palmas, logo fui atendido por um senhor bastante disposto. Jeremias era seu nome, um homem de baixa estatura, mas demonstrando ter um grande coração, pois, antes de qualquer coisa, após se apresentar como proprietário do circo, convidou-me a entrar em sua tenda e, como estava ele, naquele justo momento, iniciando sua refeição vespertina, convidou-me a acompanhá-lo em seu humilde almoço. Para quem há dias estava comendo o pão que o diabo amassou, a oferta foi aceita de imediato, sem necessidade de muita insistência.

Aquele repasto foi muito bem aceito por mim, que, sem muita cerimônia, logo dei fim a uma fome que me acompanhava desde a tarde anterior – naqueles dias, eu fazia apenas uma refeição por dia. Enquanto comíamos, demonstrei-lhe meu interesse pela vaga de palhaço. Contei-lhe um pouco sobre a minha história e, talvez, tenha sido a tragicidade de minhas perdas que tocou seu coração, pois, antes mesmo que nosso almoço terminasse, eu já estava empregado novamente.

Tudo estava acertado, só restava um único detalhe: a fantasia do palhaço a quem eu devia substituir não serviria em mim, pois ele era um anão. Como o circo estava em contenção total de gastos, a vaga seria minha, desde que eu comprasse meu próprio traje. Se assim eu o fizesse, poderia começar no dia seguinte. Com a fome saciada e a promessa de um emprego, voltei para casa e, após coletar alguns itens dentre meus pertences pessoais – que já não eram muitos –, saí pela cidade em busca de um brechó que se interessasse em uma permuta daqueles parcos itens em troca de roupas que pudessem ser utilizadas como uma fantasia de palhaço.

Na terceira loja em que entrei – um ambiente muito sinistro –, fui atendido por uma mulher com traços bastante cadavéricos, mãos enormes, com dedos longos, terminados em unhas que mais pareciam garras. Quando lhe propus negócio, ela, de imediato, disse que eu havia entrado no lugar certo, pois, naquele mesmo dia, chegara às suas mãos uma fantasia de palhaço completa, com todos os itens necessários para uma boa performance. Quando vi a fantasia, um estranho arrepio correu por todo o meu corpo. Parecia que aquela roupa estava esperando por mim, pois, quando a toquei, senti um incontrolável desejo não apenas de adquiri-la, mas de experimentá-la o mais rápido possível. A sombria mulher que me atendera dissera que alguns trajes escolhem seu dono, reconhecendo-o de imediato, assim que o veem.

Como eu não tinha dinheiro para pagar pelo traje, deixei os itens que levara comigo – inclusive um relógio que pertencera ao meu pai e que há muitos anos me acompanhava – em troca daquela fantasia. Ficou combinado que eu retornaria para resgatar o relógio. De posse daquele traje e muito animado com meu novo emprego, direcionei-me de volta para casa. Assim que adentrei meu pequeno quarto, logo tratei de vestir aquela roupa para saber se ficaria confortável para o trabalho. Assim que terminei de colocar meu chapéu de pierrot, ouvi meu senhorio bater à minha porta para mais uma cena de humilhação que eu, de tempos em tempos, tinha que enfrentar. Ao caminhar até a porta, ouvi o barulho dos guizos de meu chapéu. Aquilo despertou algo estranho em mim; uma sombra tomou conta de todo o meu ser. Senti um incontrolável desejo de ter em minhas mãos o controle sobre a vida e a morte de alguém. Meu senhorio não disse mais do que cinco palavras e logo estava agonizando, caído no piso do meu quarto. Sua cabeça, virada para trás, me olhava em completo desespero, sem conseguir entender como aquilo acontecera tão rápido. O corpo do meu senhorio nunca foi encontrado.

Na noite seguinte, trabalhei tranquilamente no circo. As crianças me adoraram. O público ficou boquiaberto com minha performance. No final do espetáculo, Seu Jeremias, após me elogiar bastante, chegou a me perguntar se eu realmente nunca havia trabalhado no circo. Respondi que não e voltei para minha casa.

Na semana seguinte, com o dinheiro de meu primeiro pagamento, retornei à loja para resgatar o relógio que fora de meu pai. No mesmo local onde, há menos de uma semana, eu comprara aquele formidável traje, não havia nenhum tipo de construção, apenas um lote baldio, dando mostras de que estava abandonado há anos. Questionei os vizinhos sobre a loja, mas ninguém sabia de nenhuma loja ali havia muito tempo. Segundo um senhor, dono de um açougue próximo e que estava no local há quase sessenta anos, a última construção do lugar fora uma casa que pertencera a um velho professor, que morrera há muitos anos, e essa mesma casa fora derrubada alguns anos após a morte de seu antigo dono. Voltei para casa cabisbaixo, lamentando a perda de tão importante objeto. Pensei comigo: O que eu não daria para ter aquele relógio novamente comigo...

Em menos de três meses, eu já estava morando no circo e me sentia parte de uma família novamente. Numa tarde, recebi uma triste carta que me comunicava sobre o falecimento de minha tia num trágico acidente. A carta relatava quando seriam as exéquias e como ela havia falecido – minha última parente viva havia caído das escadas de sua mansão. Fui autorizado a ir ao velório e foi justamente lá que descobri, através de algumas senhoras – um tanto quanto desocupadas –, que minha tia muito possivelmente fora assassinada pelo marido. Sem saber quem eu era, uma delas disse ainda que a sobrinha que eles criavam desde que ficara órfã se matara porque não suportava mais ser abusada pelo tio. Uma delas chegou a comentar que, no caixão em que minha irmã fora enterrada, havia duas pessoas. Naquela mesma noite, o marido de minha tia foi dado como desaparecido. Sumira sem deixar vestígios.

Eu, que passei praticamente minha vida toda na mais completa miséria desde que perdi meus pais, da noite para o dia me tornei uma pessoa sem maiores problemas financeiros. O marido de minha tia não tinha nenhum herdeiro. Como ele havia desaparecido, logo a Justiça me fez seu único beneficiário, recebendo todos os seus bens.

Com muito aperto no coração, deixei o circo e segui minha vida a fim de tocar os negócios que herdei. Minha vida de artista circense ficou para trás, mas levei comigo minha fantasia, pois, de certa forma, sentia que ela fazia parte de mim. O mais estranho de tudo é que sempre que visto minha fantasia, alguém acaba sumindo e eu sempre acordo com um estranho gosto de sangue na boca...

Terminada sua narração, ele chegou a imaginar que Adelaide sairia correndo de medo de toda aquela história ou que, então, pudesse entrar numa crise de riso que não teria mais fim. Contudo, ela, com a garrafa de conhaque nas mãos, após encher mais uma vez o seu copo e beber até a metade, levantou-se graciosamente e, após lhe apertar a bochecha – como uma mãe faz com um filho obediente –, disse-lhe, exibindo um sorriso de dentes bastante afiados:

– Você tem sido um bom garoto. Estamos muito contentes com sua performance. Decidimos que você merece até mesmo um prêmio pelo seu desempenho.

Após entornar o restante da bebida que tinha nas mãos, colocou o copo vazio sobre a mesa e, ao lado do copo, deixou-lhe um pequeno embrulho amarrado com uma fita vermelha. Caminhando num belo bailado, com muito charme e simpatia, ela se direcionou até a porta e, após olhar mais uma vez para ele, sorriu um riso solto e saiu.

Quando ele abriu o embrulho, que ainda trazia o toque do perfume que Adelaide estava usando, o relógio que um dia pertencera a seu pai estava dentro...

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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18. Diário da Irmã da Ordem

Há os que dizem que aqueles pequenos momentos que antecedem a morte são os que mais trazem esclarecimento, mas para mim…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Data: 17 de novembro de 1373

Há os que dizem que aqueles pequenos momentos que antecedem a morte são os que mais trazem esclarecimento, mas para mim, a morte nunca foi um mistério, nunca temi como os outros, tampouco senti a inquietação que os outros sentiam diante dela, talvez apenas leves calafrios e só. Eu caminhava sem direção perdida em uma vida entediante e sem propósito, trazendo somente comigo um nome que me era um fardo pesado demais e um passado cheio de um desprazer que nunca terminava. Eu busquei o fim por conta própria, mas tropecei em algo que podia ser meu recomeço em um percurso sem significado. Aquele som vindo do meio da floresta foi o primeiro sinal, um canto gregoriano, que penetrava meus ouvidos, fazia tanto tempo que eu não ouvia algo tão belo e angustiante, que me dilacerava por dentro, me rasgando em camadas de emoções tão latentes que eu nem sabia que eu podia possuir, minhas pernas movidas por uma vontade que não era minha me conduziram ao som e assim encontrei a catedral, me percebi sorrindo diante dela.

Escura e imponente, uma silhueta contra um céu sem estrelas, não me recordo de ter aberto sua grandes portas, mas de algum modo eu já estava lá dentro sendo engolida por aquele grande salão onde figuras reunidas de frente ao altar entoavam um cântico, vozes femininas diversas e peculiares, algumas nem pareciam humanas ou talvez fossem, mas estavam além do que eu conhecia. Seus rostos alguns sérios e concentrados outros sem forma definida pelas sombras do véu que usavam. Cada nota que elas entoavam parecia arrancar com mais violência um pedaço do que eu era. No centro do altar havia uma grande imagem esculpida em pedra escura, com um manto negro que parecia um tecido desgatado até os seus peś, sua cabeça era coberta e havia uma coroa pontiaguda e ornamentada, o rosto oculto por um véu, em suas mãos um buquê de flores que dependendo da posição do observador, ele poderia conter flores vivas ou mortas, havia gravidade em sua postura, conforto e ameaça.

Ao longo das laterais da catedral, em nichos profundos, estavam outras imagens, cada uma retratando uma ceifadora distinta que eu soube mais tarde serem representações das várias faces da morte, cada uma com um propósito único. Todas seguravam uma foice em uma mão e na outra mão um lampião que emanava uma luz azulada que iluminava o interior da catedral. Havia uma atmosfera pesada, sufocante e ao mesmo tempo tão arrebatadora e calma, que me fazia sentir tudo. Foi então que chorei, não como uma jovem mulher que sente tudo, mas como uma criança perdida que se dá conta que está sozinha, eu que nunca senti nada antes, talvez só emoções rasas como pequenas comichões, então fui inundada por emoções que não conhecia. Meu soluços ecoavam dentro da catedral, era incrível o tanto de emoção que eu poderia sentir, quando meu choro foi se acalmando e minhas emoções se equilibraram, uma figura vestida com uma túnica e um véu escuro, desceu do altar e veio até mim.

—   O canto da Senhora te atraiu até aqui, você deseja deixar tudo para trás? — ela disse com uma voz calma.

—  Tudo? — murmurei.

—   Sim, tudo que não for servir ao propósito da ordem, teu nome, teu passado, tuas dores, nada disso importa aqui. Apenas a Senhora da Morte, adore-a e ela te trará paz, sirva e ela te dará um propósito.

Aceitei sem hesitar, a vida que eu deixava para trás era um fardo que eu já estava cansada de carregar, eu era uma casca vazia, sem um propósito, assenti com a cabeça.

—  Bem-vinda, irmã — ela disse me abraçando, eu senti conforto com esse abraço.

E assim deixei de ser, passei a me vestir como as outras irmãs. O vazio que sempre me acompanhou, começava a ser preenchido com um propósito, o de servir a Senhora da Morte, mas para isso eu deveria aprender com elas a levar conforto para os moribundos, caçar os que desonram o ciclo natural e resgatar as almas perdidas que clamam por liberdade, mas para isso, como disse irmã Teodora, eu precisava ser testada pela ordem e pela Senhora.

Data : 3 de dezembro de 1373

As madrugadas na abadia são silenciosas, mas se eu me concentrar bastante consigo ouvir o sussurrar do vento, o arranhar das aves necrofagas nas telhas, o som da madeira rangendo sozinha. Tudo isso um lembrete de que, indiferente a tudo, o mundo segue seu funcionamento. Rezei por horas esta manhã com as outras irmãs da ordem, repeti as palavras, copiei os gestos, estudei e treinei com elas. Elas observaram minha disciplina e vi nelas o que elas esperam de mim. Acho fascinante como parecer ter fé é tão convincente quanto a fé em si.

Data: 5 de dezembro de 1373

Irmã Teodora que me recebeu na Ordem, eu sei que deveria estar grata, mas só sinto que sai de uma jaula para cair em outra. Contei para ela algumas partes do meu passado e o quanto eu sentia raiva das pessoas da minha vila, Ela diz que serei útil, diz que essa minha raiva pode ser útil, se aprender controlá-la, ou com suas palavras: “Sua raiva pode ser uma boa lâmina, se você aprender a segurá-la pelo cabo.” O primeiro dia de treinamento físico se resumiu a dor, flexões até meus braços falharem, agachamentos até as pernas cederem, abdominais até meu tronco arder, golpes com as mãos nuas contra um boneco de palha até os nós dos dedos abrirem, não reclamei em voz alta, não pedi por descanso, mas irmã Teodora viu meu ódio e não tardou a me corrigir. “A raiva sem controle é como veneno mal dosado, mata tanto quem serve quanto quem bebe.” Ela disse com sua calma de sempre.

Data: 12 de dezembro de 1373

Minhas mãos estão cobertas de calos, por conta dos exercícios. Mas minha visão vem se acostumando à escuridão, treinamos nossa furtividade todas as noites, deslizando por pedras, prendendo a respiração quando outros passam, caminhando pela catedral, onde o menor ruído significa falha, que significa punição. As punições não são nada comparadas ao próprio treinamento. Hoje eu tropecei na borda do tapete, uma hora inteira ajoelhada meditando no sal grosso como castigo. “Você aprende melhor através da dor”. A irmã Teodora disse, estou começando a acreditar nela.

Data: 17 de dezembro de 1373

A lógica é que deve governar, é o que dizem aqui dentro, mas a lógica não acalma a fome quando se fica três dias sem comer para testar a resistência, e muito menos a lógica tira o gosto de sangue da boca depois de se levar um soco no rosto. Hoje cada uma de nós enfrentamos um prisioneiro, um ladrão que foi capturado pela ordem. Deram a ele uma faca e nos jogaram numa cela, eu venci e ele não saiu vivo. Fiz tudo sem hesitar, irmã Teodora aprovou.

Data: 2 de janeiro de 1374

O primeiro mês chegou ao fim e ainda estou viva, aprendi a matar com eficiência, a envenenar sem que me notem, e esconder minha presença, mas irmã Teodora diz que ainda sou previsível, que eu penso demais. “Se você pensa demais no que deve fazer durante uma missão mais rápido você tem chance de morrer, você não deve pensar demais no que

aprendeu senão morre.” Sei que ela está certa, mas ainda me pego pensando em tudo que aprendi, mas o treinamento constante talvez um dia silencie isso.

Data: 17 de janeiro de 1374

A dor é uma companhia constante, o treinamento diário não dá aos músculos tempo para descansarem, então eu apenas protesto em silêncio, mas a minha mente e meu corpo estão começando a se ajustar ao treinamento. Agora quando caminho meus pés sabem onde devem pisar para evitar ruídos, quando respiro meus pulmões não se expandem além do necessário, e quando ataco, não penso demais, e consigo prever os movimentos do inimigo. Hoje nós treinamos envenenamento, fui apresentada a novas substâncias usadas pela Ordem, extratos de plantas, venenos de animais, misturas ainda desconhecidas para mim. Provei algumas sob supervisão, é claro, apenas o suficiente para sentir o efeito antes de receber o antídoto, fomos orientadas a tomar pequenas doses de alguns deles para criar resistência, mas a lição foi clara, nunca experimentar nada que não seja preparado por mim. Irmã Teodora me elogiou para logo depois chamar minha atenção. “Você aprende rápido, mas ainda pensa demais, um veneno hesita antes de agir?” Ela perguntou calma, mas não achei necessário responder. “Então você também não deveria”. Não hesitaria contra a vida de ninguém, mas depois que entrei para Ordem hesitar quanto se trata da minha vida se tornou o lógico a ser feito.

Data: 1 de fevereiro de 1374

Elas nos testaram hoje, nos colocaram em um salão gigantesco, e soltaram três irmãs veteranas para nos caçar. Não podíamos lutar ou sermos vistas, apenas desaparecer. Eu passei horas lá dentro, me movendo silenciosamente entre as colunas, prendendo a minha respiração, sendo um nada apenas. Uma das veteranas passou a centímetros de mim e não me notou, outra parou ao meu lado e seguiu seu caminho sem sentir a minha presença. No fim consegui sair do salão sozinha sem que elas me encontrassem. Quando sai irmã Teodora sorriu pela primeira vez desde que cheguei aqui, é isso foi melhor do que qualquer palavra de “sabedoria” que ela pudesse me dizer.

Data: 16 de fevereiro de 1374

A lógica governa, sim ela governa, mas o corpo tem seus limites. Nos fizeram dormir em celas de pedra sem cobertas, nos fizeram nadar em lagos gelados nos deixando horas até que nossas peles ficassem roxas. Era para nos ensinar controle, saber que a dor vem, mas que

precisamos dominar. Foquei em lembrar da minha vida antes da ordem e como estar aqui era muito melhor. Pensei em números, sequências, padrões, eles distraem minha mente. Sai do lago tremendo, mas de pé, outras nao aguentaram, elas falharam, eu não podia falhar eu não tinha mais nada além disso.

Data: 3 de março de 1374

Irmã Teodora me deu a minha primeira missão esta noite, acompanhada de uma veterana. Um homem que fala demais, que pergunta demais, que não compreende que algumas portas precisam permanecer trancadas. Ela me explicou onde encontrá-lo, o que eu deveria fazer, as regras e dogmas que eu deveria seguir. Me explicou tudo com calma e lógica fria, eu gosto disso nela, não há rodeios, não há sentimentalismos, quando se trata de missões. Aceitei a missão, não por ser meu dever, mas porque estava ansiosa para saber como seria dessa vez, se o aperto no peito, a antecipação, se seriam diferentes depois de entrar para a ordem, se com essa missão eu conseguiria enxergar o mundo mais nítido por mais tempo. Foi limpo e eficiente. Ele olhou para mim com aqueles olhos confusos arregalados, tentando entender, encontrar um sentido naquilo, sentido onde não havia. Dei um tempo a ele, às vezes acontece de eles terem um vislumbre, uma revelação de algo que justifique tudo, que explique o motivo daquilo, mas não dessa vez, nenhum motivo havia para ele. Irmã Teodora perguntou se sentia culpa ou algo parecido, apenas olhei para ela e dei um breve sorriso. Acho que ela não espera culpa de mim, apenas eficiência. Eu não sentia culpa ou medo, eu sentia paz.

Data: 18 de abril de 1374

Já se foram quatro meses, aqui dentro o tempo parece se dissolver. Às vezes não sei se é dia ou noite, só sei que estou melhorando. Agora consigo ficar pendurada por horas sem sentir dor, meus golpes são mais limpos, rápidos e fatais. Aprendi a matar uma pessoa antes que ela perceba minha presença, mas irmã Teodora disse que ainda falta algo. “Você entende do silêncio e da morte, mas ainda pensa como uma pessoa viva.” Perguntei o que ela queria dizer com isso e ela apenas sorriu, sinto que a resposta não será agradável.

Data: 2 de maio de 1374

Acordei em uma cela vazia, sem roupas, sem armas, sem comida, apenas escuridão. Fiquei lá por não sei quanto tempo. Sem saber se iriam me soltar, sem saber se era um teste ou se eu havia cometido algum erro. Eu sentia a fome me queimar, a sede me torturava aos poucos, e

eu murmurava para mim mesma que deveria aguentar que não poderia deixar elas me vencerem. Quando finalmente abriram a porta, a irmã Teodora estava à minha espera. Olhou para mim, me avaliou e então disse: “Agora sim, você entende e está pronta.” Eu não me curvei a necessidade, nem a vontade de desistir. Eu sobrevivi a isso e estava pronta para mais.

Data: 21 de junho de 1374

Hoje recebi meu novo nome, “Esse é o nome que a Senhora da Morte escolheu para você, não serás mais Lucila, ela morreu, hoje nasce Mara.” Me olhei no reflexo da lâmina que me entregaram, meu rosto era o mesmo, mas meus olhos não pertenciam mais à menina que entrou aqui há seis meses. Aceitei meu novo nome, afinal Lucila não teria sobrevivido, mas Mara sim. Agora sou uma irmã da ordem, sem nome real, apenas uma missão, com um passado sepultado, andando entre os vivos e os mortos, uma serva da morte e pela primeira vez, sinto uma paz e compreendo o significado de existir.

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Asas nos pés da fugitiva

Vestiu-se, apressada, do manto grosseiro rumo ao ôco do inverno. Cavalarias, praguejos, convites de funeral… o inferno a incendiar os céus!…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

“Se opuseram, senhora.”

Vestiu-se, apressada, do manto grosseiro rumo ao ôco do inverno. Cavalarias, praguejos, convites de funeral… o inferno a incendiar os céus! “Era tão jovem… era tão belo…” Retirou do armário quatro ou cinco frascos da valeriana, dois de olíbano e um da mais búlgara rosa. Lavandas, folhas em branco, água de laranjeira; velas que, segundo bisbilhoteiros transeuntes, eram feitas de gordura humana e ambarada. Mais livros que roupa, arames no fecho das bolsas, estatuetas de Héstia; colares de rubi; três ou quatro casacos.

“Basta!”

Tudo tinha. E nada deixava a ser encontrado. “Dê tudo às meninas do cais, distribua entre suas amigas. Fique com o que quiser, também.” ternamente, agradecia-a com olhos e pulseiras de brilhante que, àquela altura, já não lhe traziam serventia. Partia, rumo à terra dos exilados. “Bruxa maldosa”, “fera fugida do submundo”, a “eterna mal-amada”, repetiam. Esperavam-na na praça, os vendedores e as costureiras, políticos e patrícias, todos para assistir ao rolar daquela cabeça, toda feita da ventania. E tanto queriam ver, num sopapo de lâmina, o cabelo voar… quão deliciosamente odiavam… e seguiam, a praguejar.

“Sem direito a defesa, por escolha do conselho.” Queriam a cabeça, o pescoço e toda a honra que um dia tivera. “Maldita seja!” gritava um ou outro, e muitos eram os nomes que recebia. Pouco se importava que falassem os amigos da família, as mulheres que sempre tivera de cumprimentar, o marido de sabe-se lá quem... Bem sabia que o conselho era pago para pensar. “Não há oráculo, não tem sabedoria nesses velhos, que raio de substância compõe este conselho, afinal?!”

“É a ordem, querida. É como funciona a vida.”

Na escrivaninha, o fumo que não terminaria, cartas que não seriam entregues e a procuração, em horrendo estrelismo ao centro da mesa. “A quem tentam enganar?... Com que balança pesam a escolha da vida e da morte? Como conseguem enfiar o peso de oitocentos cavalos numa decisão?... Sem direito à defesa. Como bicho.” e certo é que bicho se sentia. Rangia os dentes e dizia-se — fitando no espelho o amargo dos olhos — que seria sua, a vida. Não mais de um homem! Não mais do amor. Seria sua!

— Dois soldados passaram na rua da frente… mais trinta ou quarenta minutos até que passem novamente.

E aprontava, a si e às malas. “Não precisaria fugir se não o tivesse matado… não o mataria se não tivesse tentado matar-me primeiro.” E seguia, desnaturada. Caminhante vulcão, deserdada por Hera, terrivelmente distanciada de tudo aquilo que era. De tudo que existia até o último mês.

Dizia a carta que claras são as leis. A envenenadora deveria vir a público e enfrentar o peso da justiça. Matara Mateo, afinal! Como justificaria a crueldade infeliz de assassinar o único filho do procurador? Como explicaria à pobre mãe o porquê de impor, a seu doce menino, tamanha dor? Vomitara parte das vísceras, eles sabem. Ah, amargo cianeto… alega a menina que ouviu, somente, o conselho de uma bruxa mesopotâmica que passava. “A tudo se dá, a todos escuta!”, dizia o procurador ao investigador principal.

Mais falaria se soubesse, mais falaria, se conhecesse, à peça. Cantava com lamúria profunda, “voz de enterro”, repetiam os vizinhos; chamava a chuva sempre que queria empatar o andar da cidade e nunca, nunca abaixava a cabeça aos generais que passavam. Agora, condenada… Condenada! Mas não havia de dar o gosto àqueles que criaram um monstro, alimentado com ambrosia e endossado sua desonestidade. Não havia de render espetáculo à deglutição funesta dessa gente ruim.

— Queime esta porcaria de procuração… diga a mamãe que eu parti.

— E se perguntar-me para onde?

— Conte o que sabe.

— Mas, Isolda, eu não sei para onde está indo!

— Exatamente, querida! Conte o que sabe.

Fugiria, viveria na Itália, escondendo-se num convento e fingindo rezar. Abençoaria, noite e dia, a vida que fica; soterrando com terra de jardim o amargo daquelas feridas. Vingaria a primavera daquela pele febril. “Dane-se Saturnália! Danem-se os parentes daquele mesquinho, dane-se a vida que tive na Grécia! Não existe mais Grécia para mim… perdoe-me, Athena, por não ser como as boas… Por não enfrentar a morte… perdoe-me…”

E num levantar de folhas, as árvores contavam — em pleno silêncio — que honra alguma há em sacrificar-se. Matara para viver, e viveria.

A tempestade rugia, feroz, em tortuosa melodia, lembrando-a, a todo instante, do sino e do lodo das rochas; fervia o leite e temperava de especiaria.  Eruptiva garganta, estômago inflamado… morta por dentro, morta para esta terra e morta para eles; tão longe de ser compreendida… “apressa-te, menina, ou vai perder o barco!”

Bebia, hora ou outra, do frasco de lavanda francesa, fugindo do ópio dos ingleses. A tormenta vinha mansa, maldosa, no seio do sono. Inquieta passagem de estrelas, estranho burburinho dos viajantes que seguiam, tão pouco interessantes. Paralisava-se no remoer constante das raladuras de sua alma, outrora luminosa. Outrora feliz. E, por segundos, congelava em divagação, tornando por interrupção, “uma água, madame?”

Como doía a vida… quão ingrato era o amante que achara de ter… Velha prosa em desmantelo… torrente aguda que insistia em desaguar — queria não ter memória, e queria limpar-se daquele homem maldito, e, por horas, queria não mais ser gente... E sorria, em busca de confundir o enfado, no rumo da doce Itália. “Talvez uma fuga ou outra, talvez uma tarde na cidade...”

Manhãs em prosa com os panos de chão, túnicas a remendar, baldes cheirosos… comida quente; sabor algum, exceto nas noites de vinho — pouco e às escondidas —. E o pão… “deixa passar, Amália, deixa passar.” — Mais ainda fermentava. Comíamos, e quão bom era o estrago; deitar à luz do luar, procurando constelação e zombando das idiotices do passado. Todo mundo tinha história, todo mundo tinha alguma vergonha a contar. Morríamos de rir das de quedas, mais ainda das brigas por meninos e das tias, com seus romances clérigos. E a conversa sempre findava num quarto escuro, sob a sombra de um pai desprotetor, ou de um irmão malvado. E de tanto remendar os panos, aprendia a remendar a si e às outras, tão quanto, feridas.

“Paciência com o amargo das mais velhas… nunca se sabe o porquê de estarem aqui.” “Tantas não chegam pela fé, mas em fuga, dos outros ou de si.”

E perdoava a grosseria, a bronca, a piadela. Perdoava o que se podia perdoar. E dentre elas, a irmã Zélia, bruxa oculta e curandeira, a quem sempre recorria quando precisava chorar. “Reze em mim, irmã… mas reze com folha e flor…” e ela rezava. Amornava a água que, por dentro, fervia e espantava os miasmas com palavras d’outro lugar. “E que tua mãe te abençoe”, dizia a voz, de fumo e camélia.

E no descarrilho da noite, atormentava-lhe o fel da alma. “Por quanto tempo fingirá ser freira neste convento? Como viverá sem liberdade?” Perguntava-lhe a sombra esgueirosa que em toda parte se fazia presença — a voz do desprezo, entoada das cavernas de dentro. “Ao contrário.” respondia-lhe. E sabia, viveria Athena e o lago, viveria Artemis, as ninfas e os sátiros no véu de cada madrugada. “Aquosas são as formas da liberdade.”, repetia, e muito acreditava. Ficaria o tempo que precisasse. Pouco seria.

O tempo engolia, à farta colherada, a dor daquela que encontrou no amor a inominável deslealdade. A face que não se mostra; o avesso monstruoso. Pouca gente sabia que trazia, Mateo, feridas de lepra em seu caráter, e tão bem fingia que era bom... Tão bem forjava o amor… risonho, juvenil… carne macia e preenchida da vaidade mais vazia. Seguia, ela, lavando os panos. Mãozinhas embebidas de toda a culpa que não era sua. “deixa lavar, deixe que a água leve embora esse sofrer…” — E não mais questionava o curso dos rios. Não chorava pecado algum, e grande esforço fazia para não perder um único acordar daquele céu, de alaranjada explosão — algodão a abafar a melodia chorosa das iniquidades e da miséria escondida, num pequeno bolso de sua mala.

Acostumou-se às pedras — à memória, ao fantasma —. Embriagava-se de valeriana e plantava lavandas no canteiro lateral. O doce rapaz apodrecia, numa cova de família. Reinavam as flores, no solo acima, com beleza magistral.

Na Grécia, procuravam por Isolda. Na Itália, Leonora escrevia versos e cantava, com o ar que persistia nos pulmões. Cantava, para espantar toda maldade que, um dia, cruzou a estrada. Louvava à sorte, à ventania e ao coração.

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Sorte Diabólica

…O pior de tudo era ter que voltar para casa de mãos abanando e sem nenhum argumento que pudesse lhe valer, e ser obrigado a contemplar o olhar de…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

…O pior de tudo era ter que voltar para casa de mãos abanando e sem nenhum argumento que pudesse lhe valer, e ser obrigado a contemplar o olhar de decepção de sua mãe. Como se não bastasse todo o sofrimento que a ela fora infringido, ainda por cima ele, seu único filho. A única pessoa que pudesse lhe valer era na verdade motivo de uma decepcionante ignomínia. Por isso, estava ele ali, parado encostado junto à mureta da ponte, observando as águas turvas e preguiçosas que desciam correnteza abaixo. Sua solidão era completa, não havia ninguém por perto àquelas horas tardias. Ao seu redor reinava um inquietante silêncio, apenas vez por outra, rompido pelo sinistro som das criaturas da noite. O céu estrelado, placidamente o contemplava como se aguardasse suas últimas resoluções para ser testemunha única de um último ato.  

Henrique – Rico entre os íntimos, mas de riqueza mesmo, nada tinha – olhava para o reflexo das estrelas sobre as águas, buscando nas profundezas do infinito a coragem necessária para um fim definitivo a toda uma vida de frustrantes decepções. Estava decidido que, se a sorte não lhe sorria, o que restava era ir de encontro ao azar, na inquietante busca pelas verdades da existência. Naquele momento de indecisão, fez uma breve análise de sua medíocre existência. De forma bastante decepcionante, chegou à triste conclusão de que toda sua vida fora uma grande farsa, cheia de tragédias e terríveis privações. E, por fim, havia se tornado um vergonhoso fardo para sua mãe. 

A querida Tia Eulália, sua mãe – uma humilde professora de primário, que sobrevivia contando as migalhas de seu pequeno ordenado, e tentando ajuntar o restante daquilo que sobrara de sua vida – por mais que tentasse disfarçar seus sentimentos, ainda assim era possível perceber que ela trazia consigo o semblante melancólico e um olhar triste e distante, típico de pessoas sem maiores perspectivas, entregues ao sabor do vento, vivendo um dia após o outro. Ela, que noutros tempos, ainda no frescor de sua juventude, fora uma bela mulher, alegre e descontraída, sempre com um animado sorriso no rosto, esbanjando simpatia e muita disposição, agora, depois de todas as tragédias que se abateram sobre ela, nada mais era que a verdadeira face da derrota.  

Rico tinha vagas lembranças da época em que ainda existia o brilho do contentamento nos olhos de sua mãe. Um tempo já distante, quando ele ainda tinha uma família completa com ele, sua adorável irmã Cecília, sua atenciosa mãe e seu pai, o conhecido caminhoneiro Amarildo – que era, para os demais, sinônimo de muita presteza e completa lealdade. Mas para sua mãe se demonstrou um terrível desengano. A tristeza estampada na face de sua mãe era apenas o resultado da infeliz condição humana. Ela que já tivera todos os motivos para sorrir para os quatro cantos do mundo, viu toda sua felicidade se desfazer como espumas ao vento. 

Quando Rico ainda era bem pequeno, seu pai saíra de casa para uma viagem a trabalho – como era de seu costume – e nunca mais voltara. Seu pai que partira apenas com alguns pertences, mas levara consigo todas as economias da casa, deixara para sua mãe apenas um bilhete de adeus – como ato de justificativa – diversas dívidas a pagar e dois filhos pequenos para criar. O homem ao qual ela entregara sua honra e sua inocência, dedicando-lhe todo o seu amor e sua lealdade, sumira de vista sem deixar nem um vestígio de seu paradeiro. Rico tinha nove anos na época e sua irmã Cecília – já demonstrando os primeiros sinais de um semblante doentio – apenas sete. Num ciclo contínuo de desventuras, pouco tempo depois, após seu pai ter saído de casa, sua irmã Cecília fora diagnosticada com Leucemia.  Numa desesperada tentativa de um tratamento eficaz para a filha, Tia Eulália teve que vender a casa – único bem que eles possuíam – e logo depois contrair um oneroso empréstimo bancário – dívida essa que consumiria grande parte de seu já parco ordenado por um longo prazo. No entanto, todos os esforços de Tia Eulália se demonstraram em vão. Cecília viria a óbito menos de um ano após seu pai tê-los abandonado. Cecília fora baixada à sepultura sem o último adeus do pai que ela tanto adorava.  Ficaram apenas Rico e sua mãe – sem casa para morar, com dívidas a pagar, sem nenhum dinheiro no banco, e nem mesmo um parente importante que lhes pudesse valer. Estavam sós no mundo. 

Uma vez que sua mãe tinha que trabalhar para trazer o sustento para dentro de casa, enquanto ela estava ausente, Rico – um jovem imberbe e desacreditado na vida, pois perdera seu pai e sua única irmã num intervalo de tempo bem pequeno – vivia mais nas ruas do que em casa, andando em companhia de pessoas de índole bastante duvidosa, tornando-se um interessado aluno na arte da vadiagem. Para ajudar sua mãe nas despesas do lar, fazia um biscate aqui e outro acolá. Mesmo enfrentado diversas adversidades da vida, conseguiu sobreviver a uma infância infeliz e assim que chegou à adolescência, para ter o dia livre para o trabalho, acabou por convencer sua mãe – mesmo com certa relutância por parte dela – a terminar seus estudos no período noturno. Foi justamente nesse período que travou conhecimento com os malandros da noite. Indivíduos de vida noctívaga – assíduos companheiros de copo e fiéis amantes do jogo. Rico – um rapaz belo e sedutor de fala macia e sorriso doce – logo ficara conhecido e muito bem-quisto entre jogadores, prostitutas e todo o tipo de vagabundo que vagueia pelos becos e vielas sob a proteção das sombras da noite.  

Sua mãe, ao saber desse deprimente caminho ao qual ele estava se enveredando, com a face banhada em lágrimas e em soluços, o cobrira de conselhos e reprimendas, num moroso sermão sobre a moral e os bons costumes. Vendo a tristeza e a decepção que ele mesmo causara à própria mãe, prometera-lhe que, pelo amor e todo o respeito que ele sentia por ela, abandonaria de vez aquela vida desonrosa. Sua mãe, bastante comovida com a sinceridade estampada nos olhos do filho, o abraçou ternamente e após beijá-lo na face carinhosamente dissera-lhe: 

– Filho amado, você é jovem, bonito e cheio de saúde e vigor, tem todo um futuro pela frente, não desperdice seu tempo e seu dinheiro nesse tipo de vida. Tais locais são, na verdade, um antro de lascívia e perdição. Em lugares como este não há o senso de amizade e camaradagem, lá você jamais terá amigos, apenas conhecidos. Nesses antros de perdição, você só tem valor enquanto sua bolsa ainda estiver cheia. Reina nesses lugares um abjeto interesse material, por mais que você possa se achar interessante e sedutor, seus valores são pesados de acordo com aquilo que você possui. Se algum dia – por acaso – estiveres totalmente desprovido de bens e de dinheiro, conhecerás a índole daqueles a quem chama de amigos e saberá o verdadeiro valor das mulheres que o rodeiam, se dizendo sempre fiéis a você.  

Em honra à promessa feita à sua mãe, Henrique deixara brevemente de lado a vida noctívaga pela qual se enveredara. Conseguira, através dos contatos de sua mãe, um emprego fixo como atendente numa farmácia de propriedade de um atencioso amigo da família. Seguindo conselhos de sua mãe e de seu próprio patrão, planejava assim que possível dar continuidade aos seus estudos.  Em certas ocasiões, até mesmo acompanhara sua mãe a igreja, onde conhecera uma simpática jovem – Eleonora era filha do pastor da igreja – pela qual se apaixonara perdidamente.  

Sua mãe estava eufórica com o comportamento do filho e a todo o momento recebia elogios pela forma educada e gentil com que ele a tratava – algumas das beatas da igreja diziam, entre sorrisos maliciosos: “um bom filho será um excelente marido”. Rico era verdadeiramente um educado cavalheiro e em se tratando de sua mãezinha querida, era ele mais atencioso ainda. Seu ordenado na farmácia – que não era lá essas coisas – era quase todo entregue à mãe para ajudar nas despesas do lar. Mesmo com o parco salário que recebia, ainda assim, ele trabalhava todos os dias sem se distrair, pois tinha grandes planos para o futuro. Ele que já havia se declarado, em surdina, à Eleonora, recebera por parte dela certa conivência que lhe dava grandes esperanças. No entanto, nas Escrituras Sagradas está escrito que: “... quando um espírito imundo sai de um homem, passa por diversos outros lugares... Então vai e traz outros sete espíritos piores do que ele...”.  

Nessa mesma época, devido a um estrondoso furo no caixa da farmácia – mesmo sendo inocente – Rico acabara por perder o emprego sob a acusação de ter sido ele a surrupiar o valor faltante. O dono da farmácia – amigo íntimo de sua mãe – dissera a ele estar tremendamente decepcionado com sua conduta, pois havia lhe dado um sincero voto de confiança, em amizade à sua mãe. Dissera-lhe ainda que ele não havia herdado o caráter da mãe – mesmo que veladamente, fazendo uma breve alusão ao pai. Aquilo lhe ferira profundamente a alma, até mais do que ser acusado injustamente de furto. Se no jogo não fora feliz, iria tentar a sorte no amor e no mesmo dia que perdera o emprego, decidira se apresentar na casa de Eleonora como sincero pretendente a receber a mão dela em sagrado matrimônio. Ao demonstrar suas intenções para com ela perante sua família, fora humilhado e vilipendiado em toda sua honra. Sem nenhum tipo de cerimônia, o pai dela – seu ex-futuro sogro – dissera-lhe de forma bastante grosseira e sincera. 

– Jamais permitirei tal união, por dois motivos principais. Primeiro não dou guarita para vagabundo debaixo do meu teto – pois sei quem você é, de sua fama de ladino, você pode até mesmo ludibriar minha filha inocente com seu palavreado macio, mas a mim você não engana – e, segundo, em respeito à sua honrada mãe, sabendo que você não tem onde cair morto, não posso permitir que ela, já com tantas dificuldades, tenha que alimentar mais uma boca em sua casa, como se não bastasse o delinquente sanguessuga que ela inocentemente chama de filho e vive às suas expensas. A igreja a qual eu presido – sendo a casa de Deus – sempre estará aberta a todos sem distinção, mas a minha casa – onde honrosamente reside minha família – jamais estará aberta a pessoas de sua espécie. Exijo peremptoriamente que se afaste de vez da minha filha e jamais ouse colocar os pés aqui nessa casa novamente. 

Naquela mesma noite – decepcionado com o mundo e com a vida – Rico decidira dar uma breve passada no cassino onde ele já presenciara fortunas inteiras virarem pó.  No entanto, também fora testemunha de fatos inusitados, onde um indivíduo qualquer entrava com alguns trocados no bolso e saía de lá para uma vida de opulência. Estando ele sem dinheiro algum, apenas observara atentamente seus conhecidos tentando a sorte nas diversas modalidades de jogatina ali existentes. Como sua mãe o havia prevenido, aqueles que se diziam seus amigos, percebendo que ele não tinha nenhum tostão furado, não lhes dera atenção alguma, não lhe ofereceram nem mesmo um único gole de bebida sequer, tão pouco algum trocado emprestado para que ele tentasse a sorte. 

No dia seguinte, sua mãe inocente e alheia a tudo aquilo que estava acontecendo ao filho, fora para o trabalho sossegadamente como fazia todos os dias. Levando-se em consideração que a vida de muitas pessoas se baseia em se deleitar com a desgraça alheia, na escola já havia burburinhos – entre os desocupados – sobre o fato de Rico ter sido escorraçado da casa da bela Eleonora – alguns vizinhos ouviram o pastor vociferando ofensivas palavras ao filho de Tia Eulália. Também se comentava sobre o roubo na farmácia – como isso veio a público ninguém nunca soube ao certo – e por fim o fato dele ter sido visto entrando no cassino novamente. – Certamente para torrar a grana oriunda do furto – diziam alguns de língua mais ferina. Rico, alheio ao fato de que seu nome e suas desventuras era o assunto preferido do dia, ficara em casa, tentando encontrar uma forma de relatar à sua mãe sobre sua triste realidade.  

Do fundo de sua alma, ele sabia que sua bondosa mãe acreditaria em sua inocência e certamente lhe seria partidária naquilo que tangia a sua pseudovida amorosa. No entanto, precisava ele encontrar uma forma correta de narrar todos os fatos de uma forma que lhe parecesse convincente. Estando ele só e largado ao mais completo ócio, fazendo jus ao ditado: “que uma cabeça desocupada é uma excelente oficina para o mal”. Devido a todas as vicissitudes do dia, ele que tivera uma noite inquieta, intercalada com momentos de insônia e breves cochilos carregados de sonhos estranhos onde via números por todos os lados, pessoas felizes e riqueza por toda parte, chegara à conclusão que se conseguisse algum dinheiro, poderia voltar ao cassino naquela noite e quem sabe assim, se a sorte lhe sorrisse, resolver de uma vez por todas todos os seus problemas. Dinheiro mesmo, ele não tinha nenhum, mas sempre soube onde sua mãe guardava suas economias para uma possível eventualidade – na vida deles dois, as eventualidades eram uma constante. 

Antes mesmo de sua mãe voltar do trabalho, Rico recolhera todo o dinheiro que encontrara guardado entre os pertences dela e após vestir seu melhor traje e estar bastante perfumado, saíra naa ruas aguardando que a noite chegasse e que as bancas de jogos fossem abertas. Estando ele com todas as economias de sua mãe no bolso, pois não deixara nenhum tostão para trás – tal qual, como seu próprio pai outrora fizera, quando os abandonara – sentara-se para jantar e assim o fez como se fosse uma pessoa desprovida de qualquer tipo de dificuldade financeira. Comeu e bebeu do bom e do melhor, antes de ir tentar a sorte, pois estava decidido a retornar para casa cheio de dinheiro ou não voltar nunca mais. Estava decidido a resolver sua vida de uma vez por todas. Assim que o cassino abriu suas portas e iniciou os trabalhos da noite, ele fora um dos primeiros a adentrar as portas que levam à glória ou à mais completa ruína. 

Nas primeiras horas da noite, Rico estava iluminado pela áurea da fortuna. Havia sido sortudo em quase tudo que apostara, o dinheiro que havia trazido consigo já havia se quadriplicado e ele estava pressentindo que era seu dia de sorte. Por volta das dez horas da noite, ele já acumulava dez vezes o valor referente às economias que ele surrupiara de sua mãe. Num golpe de sorte, ela nem mesmo notaria a falta do dinheiro e ele ainda lhe daria mais que o dobro para que ela também pudesse guardar. Parafraseando mais um ditado que diz: “não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe”. O jovem Henrique, acreditando que a roda da fortuna estava girando a seu favor, decidiu fazer uma última jogada. E foi esse último ato que o levara ao desespero, pois nessa jogada apostara todo o seu dinheiro, tanto o que havia trazido consigo, bem como todo o montante acumulado numa série de apostas bem-sucedidas. Numa insana tentativa de recuperar pelo menos o dinheiro que trouxera, ele ainda apostara o relógio que fora um presente de sua mãe e até mesmo seu próprio paletó, só não apostara suas roupas e os sapatos, porque o dono do estabelecimento não o permitiu.  

Sentindo-se a mais desafortunada de todas as criaturas, Rico saíra às ruas sem destino certo, caminhando trôpego sem saber para onde ir e o que deveria fazer. E quando, na mais completa solidão, estava atravessando uma ponte que cruzava o seu caminho, chegara à inquietante decisão que já não tinha mais vontade de chegar ao outro lado. Após uma longa reflexão sobre a existência, onde ele amaldiçoava a tudo e a todos relegando até mesmo aos céus pelas vicissitudes da vida, decidiu naquele instante, tomar as rédeas de seu destino. Mais uma vez olhando as águas turvas bem abaixo de si, quando havia já passado uma de suas pernas sobre a amurada da ponte, sentiu uma estranha presença perto de si e logo, uma mão de toque macio com um brilhante anel em um dos dedos tocara em seu ombro. Ao se virar se deparara com um distinto cavalheiro que após levantar a cartola e lhe sorrir amigavelmente, lhe dissera: 

– Boa noite meu jovem amigo!  

Num primeiro momento, Rico se assustara bastante por imaginar estar só ali naquele ermo caminho. Tinha a certeza absoluta de que no minuto anterior, quando ele olhara para trás como se estivesse dando adeus ao mundo, não havia ninguém ali naquela ponte. Mesmo assim, direcionado pelo senso da boa educação e dos bons costumes respondeu polidamente. 

– Boa noite senhor! Como poderei ajudá-lo? 

– Olhe bem para mim! E depois olhe para si mesmo e então me responda, quem realmente está precisando de ajuda?! Respondeu o cavalheiro. Um distinto senhor, trajando um belo terno negro de corte fino, sapatos brilhantes e cartola na mesma cor. Tinha a face lisa e um bem cuidado bigode sobre um sorriso de dentes brancos e alinhados. Na penumbra em que se encontravam, a cor dos seus olhos era indistinta devido à ausência de luz, mas dava a impressão de serem claros. O belo anel que trazia num dos dedos tinha uma cintilante pedra da cor de carmim – talvez fosse um valioso rubi. 

– O que o faz pensar que eu esteja precisando de ajuda? — Respondeu Henrique. 

– Sua vida medíocre! Suas decepções! Suas humilhações! E por fim o que estava prestes a fazer! Não percamos tempo com questionamentos e explicações desnecessárias. Eu sei do que você precisa e você tem algo que me interessa. Farei a proposta uma única vez, não tenho tempo para indecisões. É pegar ou largar! Vou emprestar a você um pouco de dinheiro para que volte agora mesmo ao cassino e pegue aquilo que é seu por direito. Jogue apenas na roleta, aposte nos números primos em sequência. Ainda hoje, antes mesmo do cantar do galo, você terá tudo aquilo que sempre mereceu. Apenas me responda sim o não.  

Disse o cavalheiro com um estranho brilho no olhar mostrando a Henrique um grosso pacote de dinheiro. Pelo volume do pacote, era o montante necessário para que, devidamente investido nas apostas certas, fosse mais do que o suficiente para se transformar numa grande fortuna. Rico, como aquele mesmo gentil senhor o havia admoestado a não fazer perguntas desnecessárias, apenas pegou o dinheiro, sentindo em suas mãos um estranho arrepio que lhe correu por todo o corpo. Passou os dedos pelas notas sentido a firmeza do papel que estalava de tão novo, percebendo que aquele dinheiro jamais havia sido usado. Sem acreditar naquilo que estava acontecendo, mal teve tempo de perguntar ao cavalheiro – que já se afastava, se perdendo na escuridão das sombras indo embora da mesma forma que aparecera – como e quando ele iria pagar aquele empréstimo. 

– Na hora certa voltarei para receber essa dívida, não se preocupe quanto a isso. Aproveite pela sorte enquanto ela lhe sorri... — Disse o cavalheiro já chegando do outro lado da ponte e se perdendo pela escuridão a fora. Suas últimas palavras se misturaram em meio ao som dos sinos da igreja que naquele momento badalavam violentamente ao longe avisando a chegada da meia-noite. 

Rico, mais do que depressa, retornara ao cassino e como lhe fora coordenado, apostara grandes quantias somente na roleta e nos números primos em sequência. Em menos de duas horas de apostas, O jovem Henrique conseguira quebrar a banca. Ele que a momentos atrás estava prestes a dar um fim à própria vida, havia se tornado um homem rico. Voltaria para casa não como um homem desempregado, sem onde ter que cair morto como ouvira da boca do pastor, mas como alguém que agora tinha o dinheiro suficiente para comprar até mesmo a própria farmácia onde dois dias antes era um simples empregado que fora demitido injustamente. O dono do estabelecimento não tinha em caixa todo o dinheiro que ele havia ganhado, mas raspou o cofre e dera-lhe tudo o que tinha e na presença de testemunhas confiáveis assinara-lhe uma nota promissória com o restante que lhe seria devidamente pago no dia seguinte assim que o banco abrisse. 

Acompanhado de um policial que estava de folga e, também, tentava a sorte naquela noite, rico tomou um taxi e se direcionou até sua casa para contar as novidades para sua mãe. No caminho estava eufórico em poder dar à sua querida mãe tudo aquilo que ela sonhara um dia. No entanto, mesmo ainda ao longe, soube que havia algo de errado em sua casa, pois mesmo sendo alta madrugada com o dia já quase amanhecendo, havia muita gente na porta, além de uma viatura da polícia e uma ambulância. Rico saltara do taxi antes mesmo do veículo ter parado por completo e ao entrar correndo em casa se deparara com o corpo da mãe sobre uma maca. Aos prantos fora contido por um dos policiais que estava atendendo a ocorrência – um dos vizinhos ouvira um tiro na casa e acionara a polícia que ao chegar se deparara com Tia Eulália já sem vida, numa das mãos ela tinha uma arma na outra um bilhete de adeus... 

Quando o bilhete fora entregue para Henrique para que ele pudesse ler as últimas palavras de sua mãe, ele ouviu ao longe o triste cantar de um galo que anunciava a chegada de um novo dia...

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Hereditário - Parte III: Hereditariedade

Os outros dois companheiros que acompanhavam o cortejo logo apertaram o passo e deixaram os outros três para trás…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Os outros dois companheiros que acompanhavam o cortejo logo apertaram o passo e deixaram os outros três para trás. Seguiram juntos: o solícito Dominguin, a lamentosa Gardênia e seu exausto filho, que se arrastava pela estrada afora. O silêncio que se estabelecera entre eles por quase todo o caminho era bastante inquietante. Dominguin tentou por diversas vezes quebrá-lo, tentando oferecer-lhes algum conforto. De todas as formas possíveis, buscou puxar assunto com Gardênia. No entanto, entre profundos suspiros, vez por outra, ela apenas respondia-lhe monossilabicamente, para não lhe ser grosseira. Caminhando sempre cabisbaixa, Gardênia manteve-se envolta num silêncio reflexivo, absorta em sombrios e amargos pensamentos quanto ao seu destino e futuro ainda incerto. 

Qualquer um que a visse caminhando daquela forma talvez nem reconhecesse nela mesma a bela Gardênia de outrora. Andando com a fronte baixa e o olhar no vazio, ela era uma imagem triste de se ver. Sua maquiagem, normalmente perfeita, tinha se estragado ao longo das últimas doze horas, e seu cabelo de belos cachos, também sempre muito bem alinhados, estavam revoltos, uma bagunça completa, dando-lhe um aspecto bastante grotesco. Suas vestes – devido à longa caminhada sob uma chuva fina – não estavam nas melhores condições. Mesmo assim, ela continuou caminhando de forma decidida, a fim de dar a seu pai um último adeus de forma decente. 

Aproximava-se do meio-dia quando avistaram ao longe o campanário da igreja e, logo depois de mais alguns passos, os poucos telhados das casinhas do vilarejo. Ao passarem pelas primeiras casas, Gardênia recebia as respeitosas condolências de um e de outro, tanto daqueles que tinham muito a agradecer a seu pai quanto daqueles que o temiam. No entanto, assim que lhes prestavam seus sinceros sentimentos, algo os inquietava. Se Gardênia – a inseparável filha de Pai Thomás – estava ali, onde estaria o cortejo com o corpo do falecido? A igreja, para onde obviamente o corpo de seu pai deveria ter sido levado para receber as exéquias finais, ficava no centro do pequeno vilarejo. 

Padre João Paulo já os aguardava – pois estava de sobreaviso – mas, assim que os viu caminhando, rumo à igreja, de mãos vazias, teve um sobressalto, sabendo que algo não estava certo. Assim que Gardênia se aproximou dos umbrais da porta da igreja, foi logo recebida de braços abertos pelo senil reverendo, que a acolheu como um saudoso pai acolheria uma filha há tempos ausente. 

Com dolorosos suspiros e entre soluços, Gardênia, após pedir sua bênção, perguntou onde estava o corpo de seu pai. 

– Como assim? Não eram justamente vocês que o estavam trazendo? – questionou o padre. 

– Sim. Mas, pelo caminho, fomos abordados por quatro distintos cavaleiros que nos ofereceram ajuda para transportá-lo. Como estávamos todos nós já bastante exaustos pela caminhada desde as primeiras horas da manhã, recebemos de muito bom grado o auxílio que nos foi oferecido. Estando eles sobre velozes cavalos, certamente deveriam ter chegado bem antes de nós – disse ela, com certa dúvida na voz. 

– Você conhecia os cavaleiros que lhes ofereceram ajuda, minha filha? Ou pelo menos já os tinha visto alguma outra vez? – questionou o padre, já em tom de alerta. 

– Na verdade, não! Mas parece que eles conheciam meu pai muito bem, e Seu Jura, que esteve conosco até bem pouco tempo atrás, também sabia de quem se tratavam. Pois, quando os cavaleiros se ofereceram para levar o corpo, ele não se opôs. Na verdade, não disse uma única palavra em contrário. Só achei estranho o fato de ele, que sempre acompanhava todo e qualquer velório do início ao fim, não ter vindo conosco dar o último adeus ao meu pai, que sempre o tivera em grande préstimo... 

Padre João, um homem já próximo ao horizonte de sua vida, pois já era quase octogenário, logo soube que havia algo de bastante obscuro naquilo tudo. Ao ouvir de Dominguin a descrição dos tais cavaleiros, um estranho arrepio lhe correu por todo o corpo e, de forma involuntária, se benzeu, beijando a cruz de seu rosário em seguida. Percebendo que aquele gesto causara certa estranheza à Gardênia, disse que certamente haveria uma plausível explicação para aquilo tudo. 

E, para tentar tranquilizar a soturna e assustada Gardênia, que já dava mostras de plena inquietude, disse-lhe que talvez fossem viajantes apressados e tivessem decidido levar o corpo direto para a capelinha do cemitério. 

– Sigamos também para lá, onde poderemos prosseguir com as exéquias necessárias para o sepultamento de seu querido pai e conceder-lhe o respeito merecido – completou o padre. 

Se a cidade era bem pequena – um aglomerado de uma dúzia de casas talvez, uma venda quase completa, com toda sorte de quinquilharias, onde poderia se encontrar quase de tudo um pouco e a própria igreja – o cemitério nem tanto, afinal todos aqueles que morriam num raio de quase cem quilômetros, para ali eram levados para seu descanso eterno. Não era um lugar luxuoso como a cidade dos mortos das grandes cidades – como rapidamente Dominguin o notara. No entanto, havia inúmeras sepulturas algumas recentes e outras com datas de sepultamento de quase um século. A maioria delas era simples e humilde tão como o próprio lugar o representa – local onde a luxuria, a arrogância e o orgulho cedem lugar à humildade. A calma, o isolamento e a paz daquele lugar pareciam profundos e íntimos em muitos sentidos, pois era ali naquele campo santo, que o ser se deparava com todas as verdades do Universo. No entanto, ao passarem pelo portão, logo perceberam que uma sombra terrível tinha pairado sobre eles. O cemitério estava completamente vazio. Nem mesmo o coveiro – Seu Zuza, que já havia deixado a cova aberta – estava presente. Assim que terminou de cavar a sepultura logo bem cedo, como a chuva apertara bastante, decidira voltar para casa, só retornando assim que o corpo chegasse, e mais uma vez seus serviços se fizessem necessários. Aproximaram-se da cova recém-aberta e a surpresa foi geral. A sepultura estava aberta, mas dentro não havia nada. Absolutamente nada... 

Ali e outrora tinham-se transformado num aqui e agora. O céu que esteve cinzento durante toda a manhã, mas naquele momento se escurecera ainda um pouco mais. Num átimo de desespero, Gardênia com as mãos cobrindo a face num abscesso de loucura, demonstrando o mais completo desespero abjeto, em soluços gritara aos céus: 

– Onde está meu pai? O que fizeram com seu corpo? Quem eram aqueles que o traziam? 

Em sua voz havia tanta dor e desespero, que toda a natureza ao redor se silenciara por completo em respeito ao seu sofrimento. Padre João a amparava em seus braços dizendo-lhe que haveria uma explicação lógica para aquilo tudo. A dor que ela estava sentindo naquele momento era algo inominável e tendia a ficar ainda pior, quando seu filho o exausto Júlio César andando pelas cercanias do cemitério se deparara com o banguê que trazia seu avô e a mortalha que envolvia seu corpo. Curioso como toda e qualquer criança, ao decidir tocar naqueles fúnebres tecidos fora atacado por uma cobra que jazia sob aquelas lúgubres vestes. A serpente – uma agressiva cascavel – conseguira fugir se escondendo numa toca entre as sepulturas. Gardênia entrou em pânico ao ver o estrago no braço do filho, causado pelo ataque da serpente. Por ser uma áspide de terrível veneno, em poucos minutos a ferida se tornara arroxeada e a pele ao redor adquiriu um enorme inchaço. Júlio sentiu o efeito do veneno quase de imediato desfalecendo nos braços da mãe pedindo-lhe água, pois se dizia bastante sedento. Sabendo o quanto o veneno de uma cascavel poderia ser danoso a quem quer que fosse, e em se tratando de uma criança pior ainda, talvez pudesse vir a ser, até mesmo letal, Padre João ordenou que a criança fosse imediatamente levada a casa paroquial, para receber o tratamento adequado. Assim que a criança fosse tratada e tivesse fora de perigo, tentariam também buscar uma possível solução para o mistério do desaparecimento do corpo de Pai Thomás.  

Devido à sua posição de respeito, ainda no caminho entre o cemitério e a casa paroquial, Padre João logo convocou quase toda a cidade a fazer uma varredura completa ao redor do vilarejo, em busca de algum vestígio que indicasse o paradeiro do corpo de Pai Thomás. Muitos foram questionados se haviam visto os cavaleiros mencionados por Gardênia na estrada, quem sabe passando pela cidade ou mesmo ao redor do cemitério. De forma unânime, a negativa foi geral. Ninguém vira sequer um cavaleiro, muito menos quatro, carregando um banguê com um falecido em cima. Tudo aquilo era um grande mistério; o único consenso era que o corpo de Pai Thomás havia desaparecido. 

Enquanto as buscas e possíveis explicações aconteciam de um lado, no interior da casa paroquial havia grande preocupação com o estado do filho de Gardênia, que demonstrava claramente os efeitos do veneno em seu corpo. Seus lábios – outrora viçosos e vermelhos – estavam brancos e sem vida. Todo o seu corpo, que suava intensamente, adquirira um estranho inchaço, e ao redor da ferida iniciara-se um processo de necrose. Prostrado sobre um pequeno catre, Júlio César gemia quase todo o tempo, delirando e falando coisas sem sentido. Tais sintomas indicavam que sua situação era bastante delicada, e Gardênia sabia disso muito bem. 

A própria Gardênia, com os conhecimentos de cura que aprendera com seu falecido pai, preparara uma determinada beberagem e um unguento de aspecto pastoso e cheiro peculiar, que era aplicado sobre a ferida de tempos em tempos. 

Dona Diolinda – uma das beatas que cuidavam da casa paroquial e que também fazia as vezes de benzedeira local – auxiliava no tratamento do menino. Em voz baixa, sussurrou ao padre que, em seus quase setenta anos, jamais tinha visto um veneno tão agressivo quanto aquele e que o estado do menino era gravíssimo. Se viesse a escapar, certamente seria por milagre. Padre João, no entanto, não ousou comunicar essa peculiaridade à Gardênia. Ela, por sua vez, parecia saber disso, mas confiava em seus conhecimentos de cura. 

A tarde, assim como a manhã, fora de um frio intenso devido à chuva fina que caía sem cessar. Contudo, ao cair da tarde, a natureza parecia transtornada, e a ordem das coisas, ainda mais posta às avessas. O frio, trazido por um vento constante, tornara-se quase insuportável, enregelando até os ossos de quem ousasse enfrentá-lo. 

Já no final de uma tarde de buscas infrutíferas e explicações adversas, Gardênia decidiu que, assim que seu filho se restabelecesse, deveria retornar para casa. Após o imbróglio do sumiço do corpo de seu pai e o incidente com Júlio César, sentia-se bastante frustrada e com a cabeça zonza diante de toda aquela sinistra e inexplicável situação. Sabia que, nessas circunstâncias, apenas o aconchego do lar poderia lhe proporcionar o conforto necessário. 

As buscas pelo corpo de Pai Thomás demonstraram-se infrutíferas devido a três principais motivos: o primeiro deles, pela negligência de quem o estava procurando, pois ninguém na cidade – um lugar minúsculo onde todos sabiam de tudo, e nada acontecia em segredo – havia visto nada, nem mesmo ninguém, transportando um cadáver. O segundo motivo foi o frio, que aumentara bastante com o findar da tarde, e a chuva, que voltara a cair de forma incessante com a chegada da noite. Por último, a história que envolvia os tais misteriosos cavaleiros: quem os procurava talvez não tivesse, no fundo, a verdadeira intenção de encontrá-los. 

Assim que as buscas ao redor da cidade foram dadas por encerradas, Padre João aproximou-se de Gardênia e, em surdina, disse-lhe: 

– Apesar de meus anos vividos e de minha longa experiência como clérigo, sempre tive uma tendência ao racional, ao conhecido e ao empírico, considerando que nunca presenciei nada de paranormal; nem milagres, nem assombrações, nem anjos ou demônios, tampouco um simples caso de possessão. Em toda a minha vida, nunca presenciei algo que a ciência não pudesse explicar. No entanto, devo admitir que há fatores bastante sinistros e ainda inexplicáveis no desaparecimento do corpo de seu pai, considerando como se deu o fato. Qualquer pessoa sã, ao ouvir essa história – quatro cavaleiros negros que surgem do nada, à luz do dia, recolhem um corpo de um cortejo fúnebre e, da mesma forma que surgiram, desaparecem, levando consigo o corpo e tudo mais – teria dúvidas concretas sobre a veracidade dos acontecimentos. 

– No entanto, jamais devemos duvidar de algo pelo simples fato de não termos visto ou ouvido. Os sonhos, a dor ou mesmo os sentimentos não podem ser vistos, ouvidos ou sentidos pelo tato, mas, mesmo assim, sabemos que eles existem. Eu mesmo já não duvido de mais nada; apenas aguardo, com paciência, que tudo se esclareça. Creiamos, contudo, que haja uma explicação lógica para tudo isso, e logo o tempo nos trará as devidas respostas. 

– A vida de seu pai foi bastante longeva e cheia de provações, o que, em seus últimos anos, o tornou um homem de comportamento um tanto peculiar. Sem dúvida alguma, mesmo sendo ele um ser extraordinário, ainda assim era um ser humano comum, como todos nós. Mais dia, menos dia, também teria que se deparar com o único mal irremediável. Independente do que se faça ou se deixe de fazer, mais cedo ou mais tarde, a mão de Deus alcança a todos nós. 

Gardênia, que ouvira tudo aquilo em absoluto silêncio, de alguma forma imaginava que as palavras do padre faziam sentido. Contudo, em seu íntimo, tinha quase a certeza de que talvez não tivesse sido a mão de Deus que tolhera a vida de seu pai. Com um profundo suspiro, ela, que estava de cabeça baixa, sentada junto à cabeceira da cama, velando pelo filho, que repousava entre gemidos e um inquieto sono, sem demonstrar nenhum indício de restabelecimento, perguntou ao padre, levantando os olhos por um breve momento: 

– Padre João! Quero que me responda com toda a sinceridade que sua posição exige. O senhor acredita em demônios? E, se acredita, acha que talvez os tais cavaleiros na estrada... 

O senil reverendo percebeu que deveria ter certo cuidado ao responder àquela infeliz criatura que estava diante dele. Ao fitá-la nos olhos, viu dor, descrença e ódio. Por sua vasta experiência de vida e sabedoria adquirida, já não tinha tanta certeza de qual desses sentimentos predominava, mas, se fosse obrigado a dar um palpite, certamente escolheria o ódio. O brilho que emanava dos olhos daquela mãe era tão letal quanto o veneno da mais terrível entre todas as áspides que rastejam pelo mundo. Então ele respondeu: 

– Se acredito na luz, obviamente devo acreditar nas trevas. Tenho uma inabalável fé em nosso Criador e, certamente, também creio em suas criações. Demônios fazem parte das primeiras criaturas de Deus, entidades inumanas provenientes dos primeiros anjos – aqueles que caíram em desgraça perante seu Criador. São terríveis criaturas, desprovidas da Graça divina, que nada têm além do tempo para arquitetar maldades e vingança contra as demais criaturas de Deus, alimentando-se da dor e do sofrimento alheio. Por serem tão antigas quanto a própria existência, são sábias e ardilosas, tentando o tempo todo seduzir aqueles que padecem de provações e, por isso, estão fracos em sua fé... Conhecendo nossas fraquezas, nosso Salvador nos aconselhou a orar e vigiar sempre. 

Vendo que a criança ainda vivia e sem querer responder à última pergunta dela, Padre João pediu licença e dirigiu-se até a igreja para as orações do Ângelus. 

Como o tempo estava fechado e a chuva não dava trégua, Dominguin, que estivera ao lado de Gardênia quase todo o tempo, conseguiu convencê-la a passar a noite na humilde casa paroquial. Ele prometeu que, na manhã seguinte, a acompanharia no trajeto de volta até sua casa. Com certa relutância – mas, principalmente, pensando na languidez do filho e na esperança de seu restabelecimento, que, mesmo com todos os seus esforços, demonstrava não apresentar nenhuma melhora – Gardênia decidiu pernoitar, resolvendo iniciar o retorno ao lar nas primeiras horas da manhã seguinte. Ela sabia que, certamente, entre as diversas beberagens de seu pai, haveria alguma que pudesse restituir a saúde do filho. 

Foi uma noite longa e cheia de pensamentos inquietos. Seu filho tivera uma noite bastante atribulada, gemendo e se mexendo o tempo todo, enquanto dormia um sono pesado e repleto de delírios. Já na alta madrugada, mesmo se sentindo exausta pela vigília ao lado do filho, ao perceber que ele dormia profundamente e que Dona Diolinda zelaria por ele em sua breve ausência, Gardênia decidiu ir até a igreja para um momento de reflexão solitária. 

Essa bondosa e sábia senhora, que se mostrou prestativa desde que eles chegaram, esteve sentada em uma cadeira, num canto distante, com o terço nas mãos, rezando o tempo todo. Contudo, as intenções de Gardênia foram frustradas ao se deparar com Padre João, que estava em vigília no genuflexório, em profunda oração. 

Após um longo período sentada no fundo, bem distante do altar, na silenciosa penumbra da igreja – que, naquele momento, estava iluminada apenas por uma única vela bruxuleante –, Gardênia decidiu se aproximar, a fim de usufruir da confortável companhia do reverendo. O sábio padre, percebendo sua presença, virou-se em sua direção e disse: 

– Seja sempre bem-vinda à casa do Senhor. Que a paz de Cristo possa reinar em seu coração.  

– Sei que você parece bastante confusa com tudo o que aconteceu a seu pai, mas preciso lhe contar algumas coisas que talvez possam ser úteis no esclarecimento deste mistério. Talvez o que eu vá relatar sirva como resposta à pergunta que me fizeste anteriormente. Depois de muita reflexão e de uma profunda conversa com Deus, sinto-me em paz e confiante no que vou lhe dizer sobre seu pai. Independentemente do que vou relatar, quero que ouça em silêncio e tente abrir seu coração para o que vou contar. E prometa-me que jamais ouse compartilhar isso com quem quer que seja, pois o que estou prestes a dizer foi-me confiado em segredo de confissão. No entanto, a situação me obriga a colocá-la a par de tudo que aconteceu desde o início. Em respeito à memória de seu pai, apenas ouça. 

– Quando conheci seu pai, há muitos anos, bem antes de você nascer, ele era um homem alegre e cheio de sonhos. Onde quer que estivesse, sua presença era sempre acompanhada de alegria e muito entusiasmo, e era adorado por todos. Sua mãe era uma mulher belíssima, na flor da idade, apaixonada tanto por seu pai quanto pela vida que ele proporcionava a ela. Quando chegaram a esta terra, vindos de longe, trouxeram consigo uma distinta senhora, que tinha a ambos como filhos. Sua família parecia ser a mais abençoada de todas, e essa bênção tornou-se ainda maior com a sua chegada. 

– Eu mesmo – a pedido de sua mãe – tive o prazer de batizá-la com o nome que seu pai escolhera em homenagem à flor que sua mãe mais amava. 

– Por um bom tempo, a paz e a bonança fizeram morada em seu lar. A felicidade de sua família parecia completa e inabalável. Mas logo uma sombra se abateu sobre sua casa. Primeiro, a gentil senhora, que em pouco tempo conquistou o respeito e a simpatia de todos na região, se foi, deixando sua mãe completamente arrasada, pois a tinha como uma mãe. Depois veio a terrível moléstia que acometeu sua mãe, tolhendo não apenas sua vitalidade, mas também sua juventude e beleza. E, por fim, com a morte de sua mãe – para ela, um merecido descanso, depois de tanta dor e sofrimento – veio a momentânea loucura de seu pai. 

– Essa loucura foi vista por muitos como uma simples fuga da realidade; um mecanismo de defesa contra os golpes excessivamente graves que o destino lhe infligira e que ele, por um breve momento, não teve forças para enfrentar com lucidez... 

– Por várias vezes fui até seu pai, tentar levar algum conforto a ele. Mesmo com a enorme distância entre sua casa e aqui, eu era jovem na época e ainda contava com força e disposição. Todavia, minhas visitas mostraram-se em vão. Quando eu já estava me dando por vencido, recebi a visita de seu pai nesta mesma igreja. Antes de entrar, ele permaneceu um longo tempo à porta, relutante em pisar neste solo sagrado, embora já o tivesse feito muitas vezes antes. 

– Quando o questionei sobre o motivo de tanta relutância, ele me respondeu que talvez não fosse mais digno de adentrar à casa de Deus na situação em que se encontrava. Só entrou quando eu lhe disse que nossa verdadeira dignidade está no espírito e nas intenções de nossas ações, e não em nossa aparência ou condição momentânea. Disse ainda que cada ação humana é movida por motivo e oportunidade, e que nada é por acaso. A casa de Deus é um refúgio para pecadores em busca de redenção. Todo aquele que se sente cansado e oprimido encontrará alívio ali, e todo aquele que estiver em profundo arrependimento encontrará o perdão para os seus pecados. 

– Seu pai, parado defronte ao altar, com o olhar perdido no vazio, me disse que, para certos pecados, mesmo o mais profundo e sincero arrependimento não traria perdão. Quando tentei dissuadi-lo de sua convicção, ele pediu que ouvisse sua confissão antes de dizer qualquer outra coisa. Em qualquer diálogo, é sensato falar e ouvir, mas é mais sábio aquele que sabe ouvir mais e falar no momento certo. Então, assim o fiz: ouvi toda a sua confissão no mais absoluto silêncio. 

Padre João ficou em silêncio por um longo tempo. Seu mutismo foi tão extenso que Gardênia imaginou que ele talvez tivesse adormecido ao som de suas próprias palavras. Mas, antes que ela dissesse qualquer coisa, ele continuou: 

– Seu pai, vendo o sofrimento infligido a sua mãe, não teve a fé necessária para enfrentar aqueles momentos de tribulação e fez uma escolha... O passado permanece no passado. Podemos aprender com ele, mas não podemos mudá-lo. Filha, tudo o que acontece em nossas vidas é regido pelo nosso sagrado livre-arbítrio. Um grande contexto de causas, escolhas e consequências. Jamais se deixe levar pelo desespero; Deus estará sempre contigo. Assim que seu filho se restabeleça por completo, volte para sua casa e siga sua vida em paz. 

Depois de mais um momento de silêncio, ele prosseguiu: 

– Percebi que o jovem Daniel, recém-chegado da capital, tem grande apreço por você. Pelo que vi, está disposto a acompanhá-la de volta e a tentar lhe dar algum conforto. Pelo que sei sobre ele, é um bom rapaz. Abra seu coração, aceite sua amizade e suas boas intenções. 

– O conheci ontem mesmo e vi bondade e boas intenções em seu coração. É realmente um rapaz adorável. No entanto, todos os homens são assim no início, até conseguirem o que realmente desejam – disse Gardênia, de forma decidida, saindo da igreja ainda sem as respostas que tanto ansiava. O sábio reverendo havia falado muito, mas, no final, parecia não ter dito nada. 

Sabendo que, em determinadas situações, o silêncio e a solidão eram as melhores companhias, decidiu caminhar um pouco para espairecer suas ideias e refletir sobre como sua vida seria dali em diante. A chuva dera tréguas naquela madrugada, e o céu, limpo por quase completo, deixava uma lua em quarto crescente brilhar soberana sobre ela. Perdida em seus pensamentos, caminhando sozinha a esmo, deu por si defronte ao pequeno portão do cemitério, onde o corpo de seu pai deveria ter sido enterrado naquela tarde. 

Mesmo ali, sozinha, em plena madrugada, nada temia. No fundo de sua alma, sabia que nenhum mal lhe poderia ser maior do que o que já enfrentava e que, talvez, restassem-lhe poucas razões para viver. Perdera a mãe antes mesmo de poder conhecê-la direito; sua vida amorosa fora um completo fracasso; seu pai, que sempre fora seu esteio, já não estava mais entre os vivos – talvez nem mesmo entre os mortos. E seu filho amado, o único parente que ainda lhe restava, caminhava cambaleante pelo vale da sombra da morte. Naquele instante, tudo o que via em seu futuro era escuridão e sofrimento. 

Fechou os olhos, perdida em seus pensamentos, e deixou-se levar pelo frescor de uma leve brisa que soprava em sua face, enquanto ouvia o intenso barulho das diversas criaturas da noite em sua constante serenata ao luar. Ainda de olhos fechados, parada diante da entrada daquele sagrado lugar de descanso, murmurou para si mesma: 

– Eu daria qualquer coisa para que todo esse sofrimento acabasse. 

Por um breve momento, sentiu que a paz tomava conta de todo o seu ser. No entanto, essa paz foi interrompida por um silêncio estranho que se fez ao seu redor. Todas as criaturas se calaram, e ela pôde ouvir passos em sua direção. 

Ao abrir os olhos, deparou-se com um ser de beleza inigualável. Era um homem de presença marcante, alto e forte, com belos cabelos cacheados na cor do mais puro ouro. Sua face lisa tinha traços delicados, e seus olhos tinham o tom do céu em uma primavera ensolarada. Quando gentilmente a cumprimentou com um sorriso indulgente, deixou à mostra dentes alvos e perfeitamente alinhados, delineados por sedutores lábios na cor de carmim. 

Sua voz era doce como o entoar de um pássaro ao amanhecer. 

– Boa noite, bela dama. O que fazes, sozinha, caminhando a esmo em horas tão tardias? 

– Boa noite. Precisava de um pouco de ar fresco para espairecer minhas ideias. Tenho enfrentado penosas atribulações. Sinto-me cansada e oprimida, buscando paz na silenciosa solidão da noite – respondeu ela, sem sequer questionar quem ele era ou por que também estaria ali. 

– Salvo engano, tenho a impressão de tê-la visto saindo da igreja há pouco. Não é justamente lá onde se encontra a paz e o conforto? – questionou ele, com um sorriso malicioso. 

– Certamente que sim, principalmente para aqueles que acreditam... Perdi minha mãe, quando ainda era uma criança. Tive minha inocência vilmente violentada. Perdi meu amado pai há dois dias. Até mesmo seu próprio corpo foi levado, sem receber os devidos respeitos de um enterro digno. Meu filho jaz à beira da morte, padecendo os efeitos do veneno de uma víbora. Neste momento, sinto, no mais profundo do meu ser, uma indescritível descrença em toda e qualquer promessa vazia que tange ao abstrato. Vi, com meus próprios olhos, aqueles que levaram meu pai. Contemplei também a serpente que atacou meu filho. Não há lugar em meu coração para promessas vazias. Aos poucos, meu mundo tem sido tirado de mim... – Suas palavras foram interrompidas pela força da emoção, enquanto as lágrimas banhavam seu rosto. 

– Dar-te-ei o alívio que procuras, se assim o desejares! – disse ele, fitando-a nos olhos. 

– Não peço nada por mim. Não há nada que poderíeis oferecer a mim mesma. Desde sempre, a dor e o sofrimento me fazem companhia. Se há algo que possa me oferecer, peço pelo meu filho. Seu sofrimento traz-me uma dor que nada neste mundo poderia ser pior. Mas, afinal, quem sois? Por que me atormentais desta forma, oferecendo aquilo que não podeis conceber? – disse ela, irritada por se deixar levar pela conversa de um estranho. 

– Quem sou, não importa. O que posso oferecer, sim. Apenas peça aquilo que vosso coração deseja, e contemplai com vossos próprios olhos o que meras palavras não podem mostrar – disse ele. 

Por um breve momento, ela lhe deu as costas e começou a se afastar. No entanto, o instinto de mãe falou mais alto, e ela voltou-se novamente para aquele belo ser: 

– O que quereis de mim? De que forma achais que poderíeis me ajudar? Parece que não ouvistes uma palavra sequer do que eu disse. Não vedes que nada, nem ninguém neste mundo, poderia me ajudar? Deixai-me em paz e apenas segui vosso caminho. 

– Sabemos tudo sobre vosso pai e o que aconteceu com ele. Seu corpo foi tomado como recebimento de uma dívida antiga. Saiba que ele foi um homem honrado e cumpriu, durante sua vida, todas as suas obrigações. No entanto, para vós, o fim é iminente. Mas o trabalho dele deve continuar. O que queremos é que sigais o mesmo caminho trilhado por ele. Nada mais desejamos. Em troca, poderemos vos dar tudo aquilo que desejardes! Desejai, e vereis – disse ele, num tom imperativo. 

– Como assim? Que história é essa sobre meu pai? Que tipo de trabalho é esse? Que dívida é essa? E por que falais no plural, se apenas vos vejo diante de mim? Quem sois? – questionou ela, já bastante irritada. 

– O Senhor é Deus. Eu não sou ninguém, mas nós somos muitos... Apenas desejai! – disse ele. 

Gardênia, bastante irritada e já sem paciência, decidiu pôr fim àquilo. Fitando os olhos do estranho, sem demonstrar qualquer traço de medo, disse, por fim, num tom de desafio: 

– Então, vamos lá. Sendo assim, eis-me aqui. Sim, eu quero! Acabai com todo o sofrimento de meu filho, e farei tudo o que me pedirdes! 

Sua voz era doce como o entoar de um pássaro ao amanhecer. 

– Boa noite, bela dama. O que fazes, sozinha, caminhando a esmo em horas tão tardias? 

– Boa noite. Precisava de um pouco de ar fresco para espairecer minhas ideias. Tenho enfrentado penosas atribulações. Sinto-me cansada e oprimida, buscando paz na silenciosa solidão da noite – respondeu ela, sem sequer questionar quem ele era ou por que também estaria ali. 

– Salvo engano, tenho a impressão de tê-la visto saindo da igreja há pouco. Não é justamente lá onde se encontra a paz e o conforto? – questionou ele, com um sorriso malicioso. 

– Certamente que sim, principalmente para aqueles que acreditam... Perdi minha mãe, quando ainda era uma criança. Tive minha inocência vilmente violentada. Perdi meu amado pai há dois dias. Até mesmo seu próprio corpo foi levado, sem receber os devidos respeitos de um enterro digno. Meu filho jaz à beira da morte, padecendo os efeitos do veneno de uma víbora. Neste momento, sinto, no mais profundo do meu ser, uma indescritível descrença em toda e qualquer promessa vazia que tange ao abstrato. Vi, com meus próprios olhos, aqueles que levaram meu pai. Contemplei também a serpente que atacou meu filho. Não há lugar em meu coração para promessas vazias. Aos poucos, meu mundo tem sido tirado de mim... – Suas palavras foram interrompidas pela força da emoção, enquanto as lágrimas banhavam seu rosto. 

– Dar-te-ei o alívio que procuras, se assim o desejares! – disse ele, fitando-a nos olhos. 

– Não peço nada por mim. Não há nada que poderíeis oferecer a mim mesma. Desde sempre, a dor e o sofrimento me fazem companhia. Se há algo que possa me oferecer, peço pelo meu filho. Seu sofrimento traz-me uma dor que nada neste mundo poderia ser pior. Mas, afinal, quem sois? Por que me atormentais desta forma, oferecendo aquilo que não podeis conceber? – disse ela, irritada por se deixar levar pela conversa de um estranho. 

– Quem sou, não importa. O que posso oferecer, sim. Apenas peça aquilo que vosso coração deseja, e contemplai com vossos próprios olhos o que meras palavras não podem mostrar – disse ele. 

Por um breve momento, ela lhe deu as costas e começou a se afastar. No entanto, o instinto de mãe falou mais alto, e ela voltou-se novamente para aquele belo ser: 

– O que quereis de mim? De que forma achais que poderíeis me ajudar? Parece que não ouvistes uma palavra sequer do que eu disse. Não vedes que nada, nem ninguém neste mundo, poderia me ajudar? Deixai-me em paz e apenas segui vosso caminho. 

– Sabemos tudo sobre vosso pai e o que aconteceu com ele. Seu corpo foi tomado como recebimento de uma dívida antiga. Saiba que ele foi um homem honrado e cumpriu, durante sua vida, todas as suas obrigações. No entanto, para vós, o fim é iminente. Mas o trabalho dele deve continuar. O que queremos é que sigais o mesmo caminho trilhado por ele. Nada mais desejamos. Em troca, poderemos vos dar tudo aquilo que desejardes! Desejai, e vereis – disse ele, num tom imperativo. 

– Como assim? Que história é essa sobre meu pai? Que tipo de trabalho é esse? Que dívida é essa? E por que falais no plural, se apenas vos vejo diante de mim? Quem sois? – questionou ela, já bastante irritada. 

– O Senhor é Deus. Eu não sou ninguém, mas nós somos muitos... Apenas desejai! – disse ele. 

Gardênia, bastante irritada e já sem paciência, decidiu pôr fim àquilo. Fitando os olhos do estranho, sem demonstrar qualquer traço de medo, disse, por fim, num tom de desafio: 

– Então, vamos lá. Sendo assim, eis-me aqui. Sim, eu quero! Acabai com todo o sofrimento de meu filho, e farei tudo o que me pedirdes! 

Antes mesmo de terminar de proferir essas palavras, uma coruja, que assistia a tudo em absoluto silêncio, arrulhou em agouro, levantando voo de onde estava assentada. Sobrevoou sobre sua cabeça e pousou no galho de uma velha paineira que se erguia dentro do cemitério. O feito daquele misterioso pássaro desviou momentaneamente sua atenção e, ao olhar novamente ao redor, viu-se mais uma vez sozinha perante a porta do reino dos mortos. 

Temendo ter sido acometida por algum tipo de alucinação, visão ou algo que o valha, e acreditando que talvez já não fosse senhora de suas faculdades mentais, sentiu-se tomada por um surto de loucura – tal qual seu próprio pai, certa vez acometido. Decidiu, então, retornar imediatamente para perto do filho, na esperança de ajudá-lo de alguma forma. 

Antes mesmo de chegar à igreja, avistou, ainda ao longe, Padre João na porta de entrada, vindo em sua direção com a cabeça baixa. Naquele instante, seu coração quase parou, o ar lhe faltou, e suas pernas fraquejaram. Quando o padre enfim falou, ela estava de joelhos diante da porta da igreja. 

– Minha filha, sinto muito em dizer-lhe... seu filho já não sofre mais... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Samhain (Ode)

Noite sagrada, quando as bruxas dançam, | Sob a lua cheia, o mistério avança. | Samhain desperta o poder oculto, | Portais se abrem, o véu é dissoluto…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Noite sagrada, quando as bruxas dançam,
Sob a lua cheia, o mistério avança.
Samhain desperta o poder oculto,
Portais se abrem, o véu é dissoluto. 

Nos círculos mágicos, sob estrelas e astros,
As chamas do caldeirão tremulam no tempo.
Invocamos os espíritos, guias e anciãos,
Em sussurros antigos e cânticos pagãos.

A terra estremece, a morte floresce,
No coração da bruxa, o saber permanece
Ervas e runas, o inverno virá,
O ciclo sagrado; a água, a terra, o fogo e o ar.

Na escuridão, tecemos encantamentos,
Abraçamos a noite, seus segredos atentos.
A alma é livre, atravessa os planos,
Entre o que somos e o que fomos há anos.

Ó Samhain, portal entre mundos profundos,
Onde as sombras e a luz se fundem sem fim.
Celebramos a morte que renova os segundos,
E a magia que vive eternamente em mim. 

As bruxas entoam seu cântico de poder,
Entre teias de estrelas e o luar a crescer.
Neste Sabá, o renascer floresce,
Enquanto o poder ancestral fortalece.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Parte II – DARQUINHA: Capítulo IV - Desespero

Aquela tão esperada criança nascera no final do mês de agosto. Numa noite fresca, de brisa leve e céu enluarado, mesmo após um dia quente, seco e muito...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Aquela tão esperada criança nascera no final do mês de agosto. Numa noite fresca, de brisa leve e céu enluarado, mesmo após um dia quente, seco e muito abafado, comum para aquela época do ano, em se tratando de regiões como o Cerrado, que, em determinadas épocas, tem um clima que muito se assemelha ao de um deserto, devido ao calor intenso e à baixa umidade relativa do ar. Gardênia chegara ao mundo esbanjando saúde e disposição. Quando fora entregue ao pai, estava aos berros, demonstrando uma intensa vontade de avisar ao mundo de sua chegada. Sua mãe, que tivera um parto bastante agonizante, estava prostrada na cama, recebendo os cuidados da velha cigana, que a acalentava, retendo sua cabeça junto ao colo. 

Uma parteira local – Dona Judith, esposa do Senhor Juraci Fonseca, o afamado Seu Jura, que viria a se tornar um grande amigo da família – fora chamada para auxiliar naquela delicada situação, uma vez que Madame Staell já não conseguia mais ver nem mesmo a luz do sol sobre sua fronte. O trabalho de parto durara desde a madrugada daquele dia, quando Darquinha sentira os primeiros sinais de que uma nova vida estava para chegar. Sem maiores discussões, Thomás foi em busca de Dona Judith, que já havia se acertado anteriormente com a velha cigana e estava de sobreaviso para, a qualquer hora, estar a postos e logo ir em socorro daquela franzina parturiente. O fato de Darquinha ter sido acometida por uma gestação bastante conturbada muito aterrorizou a velha cigana, que tinha muito apreço por sua protegida. No entanto, tudo terminou bem. Gardênia nascera forte e saudável. 

A alegria pela chegada de uma nova vida só não foi maior porque a jovem mãe ficou prostrada por quase uma semana. Darquinha sentiu intensamente a gestação e os efeitos do parto. Todos que a observavam de perto chegavam quase à mesma conclusão: a bela criança que ela trouxera ao mundo sugara-lhe parte de sua energia vital. Suas forças se resumiam praticamente a alimentar a própria filha, que, proporcional à sua vitalidade, tinha um apetite bastante voraz. Fato esse que tornou necessário complementar sua alimentação com o leite de uma cabra que havia parido recentemente, doada à família por Seu Jura, a pedido de Dona Judith, que os visitava todos os dias, acompanhando de perto o restabelecimento de sua mais recente paciente e o desenvolvimento da graciosa Gardênia. 

Com o tempo – esse fator que tudo resolve e tudo amaina – Darquinha foi se restabelecendo aos poucos e logo já estava de pé novamente, quase sempre vista com Gardênia nos braços. A bem da verdade, aquela bela criaturinha de olhos claros ficava sempre passando de um colo para o outro. Thomás parecia não se conter de tanta alegria e satisfação pela adorável filha, que lhe dava um prazer imensurável. Madame Staell – cada dia mais senil – que fazia as vezes de avó, e até mesmo batizara a criança segundo os velhos costumes ciganos, era puro regozijo quando segurava Gardênia nos braços. Vez por outra, a fazia dormir cantando, junto ao seu ouvido, velhas canções ciganas em romani, língua essa que somente ela, naquela casa, sabia... 

Com o fim do ano se aproximando, a estação das chuvas logo chegou, trazendo frescor para os dias e um estonteante verde para a relva, tornando os dias mais coloridos e as noites mais agradáveis. Ao final de cada tarde, a varanda daquela alegre e abençoada casa era brindada, muitas vezes, com um banho dos últimos raios de sol que caíam obliquamente, trazendo um preguiçoso colorido na violenta descida de um sol poente. Ou, vez por outra, com o frescor da chuva que caía de forma tranquila e acolhedora. A velha cigana e Thomás – que naquele momento já era chamado por quase todos de Pai Thomás, devido à sua corujice com a filha – ficavam sentados na varanda até bem tarde, observando a vista ao longe e discutindo sobre diversos temas. Ambos tinham muito conhecimento e experiências a compartilhar um com o outro. 

Além dos diversos assuntos que sempre eram tratados, Pai Thomás retomara um de seus antigos ofícios e, vez por outra, aceitava a encomenda da confecção de um chapéu, que era feito naquela hora, pois a lida diária tomava-lhe quase todo o tempo durante o dia. Sempre acompanhando todos aqueles acontecimentos, após findar suas atribuições domésticas do dia, encontrava-se Darquinha, balançando preguiçosamente numa acolhedora rede e, como não podia deixar de ser, tendo a filha aninhada junto ao peito, logo adormecia em sono profundo. 

No marasmo da vida no campo, sempre havia tempo e disposição para longas discussões sobre diversos assuntos. A monotonia da vida dava-lhes oportunidades para profundas reflexões a respeito dos inquietantes temas da humanidade, tais como a fé, a ciência, o amor, o tempo, mas principalmente o conflito sobre a origem da vida e seu inevitável fim: a morte... Após perder a visão por completo, a cigana já não tinha tanta alegria como dantes e muito menos a disposição de outrora, acabando por assumir uma postura bastante nostálgica e melodramática, sempre retornando as discussões às questões fundamentais sobre as inquietações humanas ponderadas por todos aqueles que sofreram grandes injustiças. Esses debates eram de uma profunda reflexão, que sempre retornavam ao grande tema dos grandes pensadores de outrora: Quem somos nós diante da vida... 

Certa noite, Pai Thomás, ao perceber que a velha cigana estava bastante calada e muito reflexiva, ousou questionar Madame Staell se, de alguma forma, ela sentia saudades da vida na cidade, se estava feliz com a vida que levava agora ali, na quietude do campo, ao lado deles. Perguntou se algo lhe faltava ou se algum agravo ou dissabor a incomodava... 

A cigana, que permaneceu em silêncio por um instante, com os olhos esbranquiçados pela cegueira, mirados no horizonte como se pudesse enxergar algo ao longe, após um grande suspiro, respondeu: 

– Nada me falta nesta casa, e nenhuma coisa me incomoda aqui. Sou bem tratada e respeitada de uma forma que há bastante tempo já não era. Devo dizer que cada lugar tem seus encantos. Nas grandes cidades, há todo o conforto que o progresso proporciona. Por lá, é dito que o sertão é um lugar ermo e atrasado, povoado por pessoas brutas e ignorantes. Um lugar onde inexiste o progresso e não há recursos médicos, onde ainda reinam a ignorância e o misticismo. No entanto, o que vejo é um paraíso. Um lugar de paz e quietude, onde reinam a amizade e a camaradagem mútua. Se, por um lado, a cidade olha com menosprezo para o campo, o sertanejo vê a cidade com certo receio, como um lugar de individualismo, onde é cada um por si e Deus por todos. De forma alguma o sertanejo menospreza a cidade, pois sabe que é um lugar de ciência e novas descobertas a cada dia, muitas das quais logo chegam ao campo, trazendo espanto e alegria para a humilde lida diária de pessoas simples. No entanto, ele a teme por ser um lugar de comércio, onde tudo se vende e tudo se compra. Um lugar onde até mesmo a amizade é uma mercadoria de preço alto... 

Após mais um breve momento de reflexão e silêncio, a cigana continuou: 

– Entre a cidade e o campo há uma linha tênue que divide o progresso da inocência, separando esses dois mundos em partes bastante antagônicas. Ambos têm seus encantos. No entanto, segundo um antigo rei bastante sábio: “Há um tempo para tudo nesta vida...”, e meu tempo na cidade se findou. Para uma pessoa da minha idade e com minha experiência de vida, a cidade já não mais me seduz como antigamente. A meu ver, atualmente, nas grandes cidades, há uma onda de ceticismo e de generalizada descrença entre as pessoas. Uma verdadeira falta de confiança em tudo e em todos. Um misticismo grosseiro, disfarçado de progresso, afasta as pessoas das crenças e dos meios religiosos de seus antepassados. Remédios, benzimentos, bênçãos e preces já não recebem mais o crédito de outrora. A cidade vive um tempo de pouca fé, onde reina a incredulidade tanto nas questões espirituais quanto na própria humanidade. 

Hoje, o que me resta é poder usufruir dessa paz que só o campo pode me oferecer. Devo lhe confessar que, ao perceber que Darquinha está em boas mãos, sei que posso descansar em paz. Sei que, ao me ver sorumbática, talvez isso lhe cause algum desconforto, ao pensar que não estou feliz. Mas quero que saiba que estou vivendo uma velhice plena; nem mesmo minha cegueira me incomoda mais. Mesmo não podendo contemplar Gardênia com meus próprios olhos, ainda assim posso vê-la com o meu coração quando toco sua face e ainda posso ouvir seu riso fácil... 

Essa foi a última conversa que aquela varanda presenciou entre aqueles dois grandes pensadores. Na madrugada daquela mesma noite, Madame Staell deu seu último suspiro, prestando contas ao infinito ao entregar sua vida ao desconhecido. Morreu em paz, sem nada reclamar; apenas se deitou e, ao raiar os primeiros sinais de um novo dia, já não vivia mais. Depois de quase três anos vivendo ali, naquele ermo lugar, eles conseguiram cultivar a amizade de todos que viviam ao redor. Madame Staell era visitada quase sempre por aqueles que ansiavam pelos místicos e sábios conselhos que ela dava. Muitos tinham muita fé na sabedoria da velha cigana, que logo, sem muito esforço, conseguiu angariar o respeito e a amizade de uma grande quantidade de admiradores. Seu velório foi um grande acontecimento na região; a casa de Pai Thomás ficou tomada de pessoas durante todo o dia e pela noite afora, até o momento em que o cortejo levou o corpo da outrora belíssima cigana Sarah – que abalara muitos corações em sua juventude – agora finada Madame Staell, para seu último descanso. 

Como era sua tutora e conselheira, e desde que Darquinha ficara órfã fazia às vezes de mãe, em muitas ocasiões, em momentos de intimidade, Madame Staell sempre conversava com Darquinha por meio de gestos sobre diversos assuntos. Dentre eles, estava o tema de sua própria passagem, quando isso viesse a acontecer um dia. Embora Darquinha fosse bastante avessa a esse tipo de conversa, a cigana insistia, dizendo que aquela era uma certeza inquestionável; por mais que pudesse ser adiada, de forma alguma poderia ser evitada. Com gestos carinhosos de afago e conforto, ela dizia à sua amada e protegida que o fim sempre chegava para todos e que a única coisa ao nosso alcance era tentar estar preparados para esse momento tão doloroso. Tal como o sol que se põe todos os dias e renasce ao amanhecer, da mesma forma, todos os dias alguns morrem para que outros nasçam. Não se deve temer aquilo que é inevitável; o melhor a se fazer é resignar-se com as imutáveis leis da natureza. Quando a areia da ampulheta de um ser está se esgotando, nada mais pode ser feito. O Tempo é um deus impiedoso e reina sobre tudo e todos... 

A pedido da própria cigana, que mais de uma vez havia deixado bastante explícitas a Darquinha algumas instruções sobre o ritual fúnebre de seu povo, seu corpo foi lavado com ervas aromáticas e, logo após ter sido perfumado com óleos especiais, foi vestido com sua melhor roupa, previamente escolhida por ela mesma. Também, pouco antes de morrer, Madame Staell entregou a Darquinha seus pertences mais valiosos como herança, separando para si apenas algumas joias, com as quais foi bastante explícita ao demonstrar seu desejo de que esses adornos deveriam enfeitar seu corpo para sua última viagem. Por fim, juntamente a essas joias, entregou-lhe uma moeda de ouro de aparência bastante envelhecida, que deveria ser colocada em seu caixão para que ela pudesse pagar a travessia do grande rio que separa a vida da morte... 

Após o enterro de Madame Staell – que fora sepultada num verdejante prado à sombra de uma frondosa aroeira, próxima à casa onde vivera seus derradeiros anos – Thomás, tendo Gardênia já com dois anos ao colo e acompanhado de Darquinha, retornaram cabisbaixos para sua agora silenciosa morada. Apenas vez por outra, o silêncio era quebrado pela algazarra de Gardênia, que nos primeiros dias corria de um canto a outro chamando pela Baboo – nome carinhoso pelo qual ela chamava a velha cigana. Esse fato causava copiosas lágrimas em Darquinha, que sentia pesarosamente a perda de sua querida protetora. A morte da velha cigana trouxe grande tristeza para aquela casa. Gardênia perdera sua Baboo, Darquinha, sua protetora e fiel confidente de tantos anos, e, por fim, Pai Thomás sentia bastante a ausência de sua companheira de inúmeras noites de reflexões, ensinamentos e incontáveis histórias de um tempo e uma terra que ele não conhecia. 

A cigana, que na maior parte do tempo não tinha nenhuma outra pessoa com quem conversar, fazia de Pai Thomás seu melhor ouvinte. Não apenas despejando-lhe palavras sem sentido e proveito prático, mas também transmitindo-lhe grandes ensinamentos de sua secular cultura. Pai Thomás, que além de companheiro para longas noites de profunda reflexão filosófica, tornara-se também um fiel aprendiz, demonstrando grande interesse pelos místicos ensinamentos sobre os misteriosos conhecimentos da sabedoria cigana. Depois de muitas injustiças sofridas e após anos de decepções, imaginando que nada mais pudesse abalar seus sentimentos, a perda de Madame Staell trouxe a Pai Thomás um dolorido pesar. Porém, a tempestade que se anunciava para breve sobre aquelas paragens ainda não havia chegado; a perda da cigana era apenas uma brisa leve em comparação ao que estava por vir. 

Os místicos e misteriosos ensinamentos, aprendidos com bastante ênfase e maestria, fizeram com que a casa deles continuasse sendo frequentada pelas mesmas pessoas que vinham em busca dos conselhos e favores místicos da agora falecida cigana, e que agora buscavam obter de Pai Thomás o alento para seus dissabores e incertezas. Thomás, que outrora fora chamado carinhosamente de pai devido à sua progenitura, agora era chamado de Pai Thomás por outros motivos e assim ficaria conhecido até o fim de seus dias... 

A tristeza pela perda da sábia anciã, que de alguma forma contribuiu para a felicidade daquele improvável casal, foi se amainando aos poucos com o passar dos dias. As obrigações do cotidiano, as novidades que Gardênia – uma menina esperta e cheia de vida – aprendia a cada dia, mas principalmente o tempo, tornaram a perda da velha cigana mais suportável, a cada dia um pouco menos dolorosa. Logo tudo voltaria ao normal, e os dias se sucederiam de forma comum, como deveria ser na vida de qualquer família. No entanto, parece que existem pessoas que nascem com o sofrimento já inserido no mais profundo de seu ser. De certo modo, pessoas desassistidas pela roda da fortuna tendem a se afinizarem mais facilmente. O sofrimento torna-se um elo muito forte entre aqueles que penam certas adversidades. 

Quando Pai Thomás – ainda um negro errante – conheceu Darquinha, algo inexplicável aconteceu dentro dele, um sentimento que até então ele não conhecia. E quando a olhava – às vezes, mesmo que de soslaio – seu peito se apertava a ponto de lhe faltar o fôlego, e foi nessa época que ele soube que sua vida estaria para sempre vinculada a ela. Que sua própria felicidade dependeria do fato de vê-la sempre feliz. Esse sentimento lhe permitiu perceber que havia algo bastante errado com sua amada esposa. Não era só a perda da cigana; havia algo mais. O semblante de Darquinha estava diferente, como se ela padecesse de um sofrimento profundo, que a todo momento tentava esconder. Por diversas vezes, ele tentou, com gestos de carinho e afago, questioná-la sobre o que havia de errado. Ela, por sua vez, sempre gesticulava em negativo, tentando convencê-lo de que tudo estava perfeitamente bem, que era apenas saudade de Madame Staell. 

Já havia passado quase dois anos desde a morte de Madame Staell quando Dona Judith – que se tornara visita cativa na casa de Pai Thomás – certo dia o chamou de lado e disse-lhe que havia algo errado com Darquinha. Relatou-lhe que Darquinha sofria de terríveis dores de cabeça a ponto de seus ouvidos sangrarem, mas que ela lhe rogara desesperadamente que nada fosse relatado a ele. No entanto, ao perceber que a cada dia o sofrimento dela se tornava maior, Dona Judith, como mulher experiente, achou melhor esclarecer tudo a Pai Thomás, a fim de que algo pudesse ser feito. A tempestade havia chegado e fazia seus primeiros estragos. Pai Thomás percebeu que a cada dia Darquinha estava mais pálida e demonstrando profundo padecimento. Ele tentou tudo o que havia aprendido com a velha cigana, mas parecia que nada adiantava. De certo modo, até se arrependeu de não ter aprendido mais, lembrando-se das palavras da cigana: “... Conhecimento e saberes nunca são demasiados, e, em algum momento, aquilo que se aprende poderá ser útil de alguma forma. No entanto, mesmo com todo o conhecimento do universo, um verdadeiro sábio tem o discernimento necessário para saber que algumas coisas não são possíveis...”. 

Os dias foram se sucedendo, e o sofrimento de Darquinha aumentava cada dia um pouco mais. Seus ouvidos, que outrora apenas sangravam, começaram a expelir um pus denso e fétido, como se algo dentro dela estivesse apodrecendo. Como ela mesma não podia se ouvir, seus gemidos de dor eram tão terríveis e lamuriosos que causavam um desesperador sentimento de piedade em qualquer pessoa que presenciasse toda aquela angústia. Como aquele sofrimento se agravava a cada dia, deixando Darquinha acamada, Dona Judith já não mais se afastava de seu lado, tentando de todas as formas amenizar seu sofrimento, ajudando-a em suas necessidades íntimas, bem como nos afazeres domésticos. Gardênia também já estava sob cuidados alheios, pois Pai Thomás já não era mais senhor de si. Em angustiante desespero, percebeu que de forma alguma poderia sobreviver à morte de sua amada e estava disposto a fazer qualquer coisa para salvá-la. 

Numa determinada noite de calor intenso, o sofrimento tomou conta de vez daquela casa. Darquinha, que a cada dia tinha o semblante mais doentio, perdia um pouco mais de sua vitalidade de forma gradativa, e em menos de uma semana tornara-se uma criatura grotesca de ser contemplada, um ser com um pé na sepultura, já de tal forma tão decrépita que ninguém seria capaz de dizer se ela estava saindo ou entrando em sua última morada. Sua dor era tamanha que ela gemeu a noite toda, sem poder dormir um minuto sequer. Thomás velou por ela a noite inteira, vendo sua amada padecer de tão grande dor. Ao contemplá-la de perto, pôde perceber quão grave era a situação de sua esposa. Era como olhar para a morte face a face, tão de perto que seria facilmente possível beijá-la nos lábios. Depois de horas de terrível angústia e sofrimento, o dia enfim chegou, mas passou depressa, dando lugar a outra noite de agonia, que não foi tão diferente da anterior. 

As coisas acontecem em três níveis principais na experiência humana: boas, ruins e terríveis. À medida que se desce na crescente escuridão em direção ao terrível, fica cada vez mais difícil discernir essas subdivisões. A condição de saúde de Darquinha já estava no nível terrível... Depois de três noites seguidas, praticamente sem pregar os olhos, num sentimento de terrível impotência por nada mais poder fazer, Pai Thomás, em murmurante monólogo, se perguntava: 

– Quanto tempo sua amada ainda haveria de sofrer antes de chegar seu fim? Quanta lástima ainda ele teria que enfrentar? E o pior de tudo, como seria sua vida sem a razão de seu viver? 

Num átimo de desespero, suas mãos começaram a tremer, e de repente ele se sentiu tomado por uma profunda compaixão e uma raiva cega contra toda aquela pestilência, aquela dor constante e aquele infindável sofrimento; a fragilidade de um corpo humano contra a corrupção monstruosa e abominável da morte. Dentro dele revezavam-se terríveis arrebatamentos de exaustão e desespero. Uma explosão de incontrolável cólera e pensamentos histéricos tomava o controle de seus nervos. E, muito próximo a um ataque de fúria, ouviu a sábia voz de Dona Judith atrás de si. 

– Tenha fé, Thomás. O senhor é um homem sábio e possuidor de grande raciocínio. Sabe melhor do que ninguém que é justamente nos momentos mais sombrios que brilha a verdadeira luz da esperança. Não deixe o ódio tomar conta de seu coração. O desespero cega as pessoas e as torna surdas e cegas perante as mensagens que o infinito nos envia. Abra sua mente e abrande seu coração. Lembre-se de que para tudo nesta vida há uma razão. Creia que Deus, em sua infinita bondade e misericórdia, tem um propósito para tudo isso. Seja forte e acredite! Nesse momento, sua esposa precisa de sua força e de sua fé acima de qualquer outra coisa... 

Suspirando profundamente para controlar sua fúria e tentar não ser grosseiro com pessoa tão prestativa e bondosa, Pai Thomás, escolhendo as palavras, respondeu: 

– A crença em Deus ou numa força superior é algo bem maior do que simples palavras. É uma questão de um raciocínio privilegiado, pois se trata de entender o amor divino pela humanidade. Como posso aceitar essa verdade se não consigo ver esse amor dentro de minha própria casa? Nesse momento de desespero, parece que já não sei mais nada. Nem mesmo qual é o meu dever. Como posso cumprir minhas obrigações, se já nem sei quais são... 

A alma de Pai Thomás não estava apenas triste e com medo, mas aterrorizada, querendo se esconder no lugar mais profundo de suas entranhas, como uma criança abandonada numa floresta escura e desconhecida, numa noite de tempestade. Mesmo assim, ele ainda conseguiu forças e disse: 

– Qualquer homem é fraco perante aquilo que ele não pode compreender. Sei que, diante de uma situação sem solução, é preciso buscar forças pelo menos para se resignar. Mas, perante o mais profundo desespero, como saber qual atitude é a mais conveniente? Onde posso conseguir forças para enfrentar a mais inquietante das questões da humanidade? 

Tomada de grande compaixão por toda aquela situação, Dona Judith lhe respondeu. 

– Sei que está com medo. Não há vergonha no medo; o que verdadeiramente importa é o modo como enfrentamos nossos medos... O senhor deve estar preparado para o que está por vir. Sei que a morte é extremamente triste, sem dúvida, e talvez bastante incompreensível para os que ficam. No entanto, à sua maneira, a morte é o fato mais natural para todo aquele que vive. De certa forma, é até mesmo um alento para aqueles que padecem de algum mal irremediável, pois pode trazer o conforto que a vida não pode mais oferecer. A vida é uma inexorável luta entre o bem e o mal, onde o bem nos oferece aquilo que nos é necessário na hora devida, enquanto, por sua vez, o mal, de forma bastante sedutora e imediata, tenta nos presentear com aquilo que desejamos. 

Já não conseguindo mais processar nenhuma palavra coerente, pois o que dizia já não fazia mais sentido, ele, que não tinha mais forças para responder qualquer coisa que fosse, colocou suas enormes mãos sobre o rosto e chorou de forma bastante dolorida. Pai Thomás certamente não seria o primeiro homem a se deparar com o obscurantismo do abismo das incertezas após terríveis momentos de sofrimento. E ali, perdido entre suas lágrimas, chegou a desconfiar de sua própria sanidade, perguntando a si mesmo se todo aquele sofrimento chegaria ao fim em algum momento... Percebendo o tamanho de seu desespero, deixou sua casa e saiu caminhando sem destino certo, cambaleando trôpego como se fosse um bêbedo entre a relva. 

Depois de um longo dia de calor escaldante, a noite chegou clara e límpida. A lua crescente brilhava radiante num lindo céu de estrelas pintalgadas, tão radiante como se não tivesse de contemplar nenhuma desgraça. A relva, refrescada pela leve brisa da noite, estava em plena exuberância, exalando infinitos odores diferentes. Pai Thomás foi em busca de um pouco de paz. Não queria mais ouvir nada que Dona Judith pudesse lhe dizer, nem mesmo responder qualquer coisa que fosse. Ao longo dos anos, descobrira que o silêncio, por vezes, recompensa bem mais do que certas perguntas. Caminhou por quase uma hora pela relva fresca, ao som das criaturas da noite em sua permanente serenata, até o momento em que, já cansado de tanto andar, se prostrou de joelhos. 

Naquele instante, de joelhos na relva e de braços abertos aos céus sob o silêncio das estrelas, um grito enorme escapou de dentro dele. Um som lamurioso e angustiante, provindo do fundo de sua alma, suficientemente alto para ecoar pelas árvores e certamente forte o bastante para acordar qualquer criatura deste mundo, seja dentre aqueles que vivem ou até mesmo alguns outros. Com aquele som angustiante, a floresta momentaneamente se calou por completo. No entanto, um farfalhar de folhas se movendo foi ouvido por ele, e, do meio das sombras, ela surgiu como uma luz nas trevas. 

Quando Pai Thomás olhou ao seu redor, viu uma bela mulher como nenhuma outra que já tivesse visto. Uma tiara cravejada de joias brilhava entre os seus longos e cacheados cabelos dourados, que ali, na escuridão da noite, pareciam brilhar ao sabor do vento. Dentre as brilhantes pedrarias em seus cabelos, destacavam-se belíssimas esmeraldas que combinavam perfeitamente com o verde de seus olhos, que também pareciam emitir um brilho hipnotizante. Essa estonteante criatura trajava um alvíssimo vestido de cor azul-clara, de um tecido de tamanha transparência que quase todo o seu corpo desnudo era possível de ser contemplado. 

Antes mesmo de Pai Thomás poder dizer qualquer palavra, aquela bela criatura lhe estendeu uma delicada mão de dedos afilados que terminavam em unhas bem cuidadas, pintadas num vermelho cor de carmim, tal como era a própria cor de seus lábios, que também emitiam um brilho de intensa volúpia. Mesmo na penumbra da noite, ele pôde perceber que a palma daquela mão delicada era fria e totalmente lisa. Não havia ali nenhum traço das linhas do destino. Talvez porque ela fosse uma espécie de criatura sobre a qual o destino não tinha poder. Ou, quem sabe, fosse ela mesma o próprio destino. Pai Thomás, ainda de joelhos, a contemplava em completo fascínio, quando a ouviu dizer numa voz doce e sedutoramente agradável: 

– Suas preces foram ouvidas, angustiado ser. 

– Não fiz nenhuma prece – respondeu Pai Thomás, ainda de joelhos. 

– Qualquer ato pode ser uma prece, desde que seja desempenhado de forma pura e inocente, principalmente se for em benefício de alguém que tristemente padece... 

Levantando-se de forma bastante cautelosa e ainda fitando a criatura nos olhos, ele perguntou: 

– Apenas diga-me, quem é você? 

– Na verdade, não é quem sou, mas o que sou! Por ora, basta que saiba que sou tão antiga quanto as primeiras trevas, de uma época tão remota que nem a luz ainda brilhava... Sou aquela que liberta os que padecem nas garras do destino. Sou a paz para os que vivem em tribulação, descanso para os desesperados. Sou a solução para toda e qualquer questão. Sou a sorte do apostador que nada mais tem a perder. Tudo é possível para quem está disposto a pagar. No entanto, nada neste mundo nem no outro é dado de graça; tudo tem o seu preço. Se estiver disposto a pagar um preço justo, qualquer desejo seu posso realizar. 

Em completo desespero e vendo uma possível luz no fim do túnel, Pai Thomás respondeu: 

– Qualquer coisa para findar com todo o sofrimento que aquela que mais amo padece. 

A bela criatura, utilizando-se ainda de meigas palavras, mesmo que de forma bastante astuta como a velha serpente outrora fizera, tentou dissuadi-lo de seu desesperado desejo. 

– Cuidado, lamurioso ser, com aquilo que desejas. Existem preços muito altos para um homem pagar, dívidas duras demais para serem saldadas em uma única existência. 

– Nada neste mundo cruel pode ser mais valioso do que o fim do terrível sofrimento daquela que amo mais do que minha própria vida. A eternidade de minha alma é um preço mais do que justo pelo fim de toda a dor daquela que deu um verdadeiro significado à minha existência. 

Ao terminar de pronunciar essas palavras, Pai Thomás percebeu que algo terrível havia alterado o ambiente ao seu redor. Um medo terrível tomou conta de todo o seu ser ao perceber que havia trevas ao redor. Nem mesmo o céu, que outrora estivera límpido e estrelado, era mais possível de ser contemplado. Um cheiro fétido empesteava todo o ar, e seu corpo se arrepiou por completo ao ouvir as últimas palavras daquele estranho ser. 

– Está consumado! 

A voz que se ouviu, num quase sussurro, soava mais como o grasnido seco e raspante de alguma coisa há muito tempo morta, proveniente de uma criatura que jamais poderia ser contemplada pelos olhos dos vivos, pois certamente tal visão levaria qualquer um à mais completa insanidade ou até mesmo à morte para aqueles de espírito mais sensível. Pai Thomás não chegou a tanto, mas, como estava com os nervos bastante abalados, ao contemplar a criatura que estava diante dele, teve um grande sobressalto, perdeu os sentidos e foi tomado por um sono profundo, onde sonhou que caía num infinito abismo... Porém, mesmo nos sonhos, não é possível cair para sempre, mas Pai Thomás queria continuar caindo, se possível para todo o sempre, pois sabia o que o aguardava no final de sua longa e angustiante queda. 

Depois do que pareceu ser um longo tempo, despertou daquele inquietante sonho. A noite já estava com o frescor que anunciava as horas tardias. Uma brisa fresca soprava de tempos em tempos. A relva adormecida era iluminada pela luz de uma meia-lua que já se encaminhava para o poente. No céu, as estrelas ardiam nítidas e silenciosas, reinando sobre um firmamento de infinitas dimensões. Rapidamente, ele se levantou e, sem mais delongas, retornou a passos rápidos para casa, como se, no mais profundo de seu ser, soubesse que nada mais seria como antes. Mesmo estando ainda ao longe, ao ver a estranha movimentação na porta de sua casa, soube que o pior havia acontecido. Nem foi necessário perguntar o que ocorrera, pois sabia ele que qualquer um que se dispõe a fazer uma pergunta deve estar sempre preparado para qualquer resposta. 

Pai Thomás foi tomado por um terrível desespero, e, por mais que tentassem de todas as formas possíveis lhe explicar que Darquinha estava morta, ele se negava a acreditar. Insistentemente, diziam-lhe que ela agora estava em paz e que essa era a ordem natural das coisas. Para um ser vivo, a morte era inevitável. Ele, que praticamente já não era mais senhor de si, foi o único que viu quando uma graciosa criança de belos cabelos encaracolados e vestidinho rodado saiu dançando da alcova onde o corpo de Darquinha repousava. Passando perante ele em direção à porta de saída, ainda bailando alegremente, ela disse com uma doce e melodiosa voz que somente ele pôde ouvir: 

– Seu desejo foi realizado. Sua amada não padece de mais nenhum sofrimento...

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Hereditário: Parte II, Darquinha — Capítulo III: Desmerecimento

Bem antes de o sol nascer, Madame Staell já estava de pé, preparando um forte café preto para iniciar…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Bem antes de o sol nascer, Madame Staell já estava de pé, preparando um forte café preto para iniciar aquele dia que, ela sabia, seria longo e muito tumultuado. Darquinha ainda dormia tranquilamente naquele momento, depois de dolorosas lágrimas e muitas lamentações. Os suspiros e gemidos que emitia vez por outra demonstravam um imenso cansaço – o sofrimento consegue levar qualquer ser vivo à mais profunda exaustão. Seu vestido sujo de sangue havia sido lavado com suco de limão e já secava num pequeno varal dentro da barraca. Todo e qualquer vestígio que pudesse de alguma forma ligá-la ao crime em si havia desaparecido por completo. Com a morte de seu tio Nicolas – acusado injustamente do assassinato de Vladimir – o assassinato do faquir tinha sido solucionado. Madame Staell, que esteve bastante preocupada com o semblante de Darquinha e a possível desconfiança de seus companheiros pela tristeza dela, agora estava bem mais aliviada. Afinal, a jovem acabara de perder, de uma forma bastante violenta e covarde, seu único parente vivo. Mesmo com todos os defeitos que seu tio Nicolas pudesse ter, ainda assim, era o irmão de seu amado e saudoso pai. Sendo assim, ela poderia chorar à vontade e lamentar como quisesse seu luto.

Tanto Vladimir quanto Nicolas Benetti foram enterrados naquele mesmo dia. O velório de ambos fora simples, sem muita cerimônia, apenas as exéquias necessárias – exigência feita por parte da autoridade eclesiástica. A mulher que também perdera a vida naquela fatídica confusão fora velada e enterrada com toda a grandeza de uma pessoa de altíssima posição. Toda a cidade – até mesmo quem não simpatizava com ela – chorou pela sua morte. No fim da tarde, – na hora do ângelus – os sinos da igreja repicaram de forma tão triste que a qualquer um causaria um aperto no peito. Naquela noite, não houve espetáculo – pois até mesmo a quermesse fora cancelada – e, por mais uma vez, o circo estava de luto pela perda de dois integrantes ao mesmo tempo, como outrora o fora com os pais de Darquinha, parecendo que uma sombra de tragédia os acompanhasse.

De certa forma, todos estavam abalados com o acontecido – não porque alguém morresse de amores pelos dois companheiros que se foram, mas pela forma como tudo acontecera. O faquir morto pelo próprio instrumento de sua arte – que, juntamente com ele, fora enterrado numa sepultura simples. E o anão, pela violência de seu assassinato – que certamente ficaria impune – também fora jogado numa cova sem muito glamour. Pois aqueles que morrem mortes heroicas ou pelas mãos do destino trágico são eternamente lembrados. No entanto, ladrões, bêbados e todos os covardes são rapidamente lançados nas valas do esquecimento.

No provérbio: “... há males que vêm para o bem...” há mais verdade do que se imagina. No caso da perda de dois outros integrantes do circo, esse trágico fato tornara-se muito conveniente para as pretensões do dono do circo, que naquela mesma noite de tristeza e lamentação decidiu de uma vez por todas colocar um fim naquele artístico empreendimento. Estando recluso em seus aposentos, por mais de uma vez contou suas economias, e com determinada resolução decidiu que, no dia seguinte, assim que se acalmasse, faria uma reunião com todos seus companheiros e anunciaria sua decisão. De certo modo, ele conseguiu retirar um peso de suas costas e, naquela mesma noite, após fazer e refazer seus planos de poder finalmente retornar para sua terra natal, conseguiu dormir como há muito tempo não fazia.

Se por um lado o sepultamento da querida conterrânea fora prestigiado por toda a cidade, o enterro dos artistas do circo foi vazio e insosso. Darquinha – assim como muitos outros artistas – não quis acompanhar as exéquias de seus companheiros. Madame Staell, além de se fazer presente todo o tempo, com poucas palavras – que ninguém ousou questionar – justificou a ausência de sua protegida no último adeus ao seu tio, dizendo que ela estava muito abalada. A convite da própria cigana, pediu ao negro Thomás que zelasse pela pobre órfã, ficando em sua companhia até que tudo se desse por encerrado. De certo modo, a cigana unia o útil ao agradável. Mantinha sua protegida sob severa vigilância, enquanto tentava aproximar aquele promissor casal. Pois, sabia ela, que dias tenebrosos estavam por vir e que certamente precisaria de um porto seguro, caso a tempestade que se aproximava se mostrasse violenta demais para suas já calejadas forças.

Naquela mesma noite, após o sepultamento de seus companheiros de longa data, como Thomás estivera quase o dia todo na companhia de Darquinha, ele também fora convidado a ficar para o jantar, na tentativa de quebrar o clima de tristeza que se abatera sobre todo o acampamento. Comeram um repasto simples e tomaram um refresco que Thomás buscara na venda, juntamente com figos cristalizados para a sobremesa, que ele trouxera como mimo para Darquinha. Sobre o acontecido, poucas palavras foram ditas. Contudo, Madame Staell percebeu que entre eles um extenso diálogo era travado na constante troca de olhares. De alguma forma, eles já haviam encontrado uma maneira de se entenderem sem precisarem do uso das palavras.

O dia seguinte foi sem graça e sem muitos afazeres. Primeiro porque choveu quase o dia todo, segundo porque ninguém ousou ir até a cidade, que, de certa forma, estava ofendida pelo acontecido e também agora com a presença daquele circo em suas cercanias. Por último, ainda havia um sentimento de perda que pairava no semblante de todos. Com a lama que tomava conta do acampamento e se impregnava até os ossos, e o frio enregelante que a chuva trouxera, todos passaram o dia cada qual em sua barraca, como animais escondidos do inverno em suas tocas. No fim da tarde, a chuva deu uma trégua e, já se despedindo daquele dia, tímidos raios de sol tentavam iluminar aquele melancólico acampamento. Como o tempo dava mostras de se firmar, logo uma grande fogueira foi acesa no meio do acampamento para que, com o calor do fogo e o brilho das chamas, um pouco de animação pudesse pairar sobre eles.

Antes das oito da noite, quando o Sr. Zacky percebeu que todos já haviam se alimentado e todos os afazeres diurnos estavam encerrados, convocou a todos ao centro do acampamento, ao redor da fogueira que ardia incessantemente, e iniciou um longo discurso. Com a voz entrecortada pela emoção, relatou sobre a magnitude daquele circo em tempos áureos nas distantes terras do velho mundo. Com certa nostalgia, relembrou sua infância e a imagem saudosa de seus pais e velhos artistas que já haviam partido. Nesse momento, teve que interromper sua fala, pois a emoção lhe tomara as palavras e as lágrimas lhe turvaram a visão. Enquanto tentava controlar as emoções, foi ovacionado com uma forte salva de palmas e palavras de apoio. Assim que secou seus olhos e novamente já era senhor de si, citou a qualidade de cada um dos presentes e também dos que já haviam partido e, mais uma vez, reafirmou o laço de amizade que sempre houvera entre eles. Com um esforço descomunal, conseguiu reunir a coragem necessária e, ainda com muitas palavras de afeto e eterna gratidão, disse a frase que há tempos já estava ensaiando.

– É com muita tristeza no coração e com uma dor inconsolável no peito que, de minha parte, declaro que minhas atividades nesse circo se dão por encerradas de uma vez por todas.

O silêncio que pairou por um breve momento naquele acampamento foi algo fora do comum; parecia que até mesmo a natureza ao redor, com suas inúmeras criaturas da noite, se calara perante aquelas palavras. Somente o crepitar da fogueira se fazia presente. Um dos gêmeos que, juntamente com seu irmão, fazia parte do grupo de palhaços – cinco ao todo – questionou de forma muito inocente para onde eles iriam. A resposta do Sr. Zacky foi vazia e bastante insossa, como se a responsabilidade pelo circo não lhe dissesse mais nenhum respeito.

– Sinceramente, meu nobre amiguinho, não sei! O que sei é que todos vocês agora são livres para fazerem o que bem quiserem, até mesmo tocarem o circo sozinhos se assim for do agrado de todos. O que estou dizendo é que meus dias de picadeiro acabaram. Amanhã mesmo retornarei para a capital, e de lá, assim que possível, voltarei para a Europa...

Ninguém disse mais nenhuma palavra na presença do dono do circo, que, pela inconveniência do comunicado, se viu constrangido pelos olhares acusadores e de surpresa que de todos os lados lhe eram desferidos. O Sr. Zacky logo se retirou para seus aposentos. Assim que se viram a sós, começaram as discussões e burburinhos. Houve todos os tipos de comentários; desde os mais elogiosos até os de mais baixa infâmia. Depois de muitos reclames e infinitas lamúrias, decidiram que o melhor a se fazer era dar continuidade aos espetáculos, pelo menos por enquanto. A liderança do grupo ficou a cargo do Homem Montanha – dois metros e dez de altura de pura massa muscular muito bem distribuídos em mais de 130 quilos – que, dentre eles, parecia ser o mais versado e confiável para aquela função.

Madame Staell, que por nenhum momento em nada fora consultada, observou tudo em absoluto silêncio, prestando bastante atenção em tudo que estava ocorrendo, mas principalmente em como cada um se comportava perante tudo aquilo. Após perceber que estava sendo ignorada como alguém que já não mais fazia parte daquele grupo, recolheu-se à intimidade de sua barraca e logo, através de gestos, comunicou a Darquinha tudo que estava ocorrendo e lhe disse que, sem a proteção do Sr. Zacky, o melhor que elas poderiam fazer era aproveitar a oportunidade e também deixar o circo, seguindo o infinito ciclo universal de todas as coisas que, da mesma forma que se iniciam, também têm um fim. Disse a sua protegida de uma forma bastante maternal que o Infinito, de alguma forma, nos deixa mensagens de como devemos proceder perante os acasos a que todos os dias somos submetidos. Devemos ter a mente aberta para entender essas mensagens.

Certamente, o trágico ocorrido nos últimos dias era um aviso do universo para que elas – tal qual o próprio dono do circo – seguissem em frente, abandonando o circo. Quando Darquinha lhe questionou sobre como elas poderiam sobreviver longe do circo, Madame Staell a tranquilizou, deixando bem claro que o futuro de ambas estaria garantido, pelo menos por um tempo. O que precisavam era decidir sem muita demora o que fariam e para onde poderiam ir. Sendo elas uma mulher já madura, quase cega, e uma donzela surda-muda ainda bastante jovem, o mundo poderia ser bastante hostil fora do circo e da proteção que elas sempre puderam contar. Mesmo com todas as dificuldades e as inúmeras diferenças que pudessem existir entre eles, ainda assim, aquele grupo sempre fora muito unido perante as adversidades, como se fizessem parte de uma grande família, e ela sempre se sentira muito segura sob a proteção do circo.

Devido a tudo que ela pôde perceber – e através de sua intuição – ela logo entendeu que o melhor a se fazer era buscar refúgio em outros caminhos. Em mais uma noite insone, ela buscou respostas em todas as vias que conhecia. Em todos os meios que consultou, a resposta para sua mais terrível pergunta – "Que fazer?" – era sempre a mesma: um obscuro silêncio. Já na alta madrugada, quando ela, vencida pelo cansaço, conseguiu adormecer, sua resposta veio num sonho ou talvez uma visão – ela não conseguiu discernir ao certo – onde via claramente o negro Thomás e a jovem Darquinha saindo de mãos dadas de uma pequena igreja, ambos vestidos em trajes nupciais, e com o semblante demonstrando uma incontida felicidade. Madame Staell, que tinha sua sensibilidade bastante aflorada, acordou sobressaltada com aquela visão, mas de alguma forma sentiu-se aliviada e com o coração tranquilo em saber como deveria proceder.

Na manhã seguinte, o tempo amanheceu cinzento e bastante frio devido a uma leve garoa que caía sem cessar. O Sr. Zacky fazia os últimos preparativos para sua partida, como se aquela resolução já tivesse sido decidida há bastante tempo. Levava consigo apenas seus pertences mais íntimos em dois grandes baús. E todo o restante de seus bens, deixava para ser dividido em partes iguais entre todos, sem exceção. Madame Staell e Darquinha foram deixadas de lado na divisão daqueles bens. Sem demonstrar muito interesse naqueles inúteis cacarecos e muito menos na forma como seus companheiros procediam perante ela, deu dois tostões para que um dos gêmeos fosse até a cidade em busca de Thomás, pois tinha um negócio importante a tratar com ele. Darquinha, devido a tudo que ocorrera nos últimos dias – tanto sua trágica desventura com o atrevido faquir, bem como a perda não tão sofrida de seu tio Nicolas – mantivera-se fechada em seu particular universo de silêncio e quietude. Seu semblante preocupado e tristonho apenas se alterava na presença de Thomás, que havia se tornado para ela em pouco tempo algo indispensável.

Naquela manhã, Thomás havia conseguido uma diária de trabalho como ajudante de um carpinteiro que estava dando manutenção no telhado da padaria. Assim que recebeu o recado, disse que no final daquele mesmo dia estaria com elas. O dia ainda esteve frio e cinzento por quase todo o tempo. O Sr. Zacky partiu logo cedo em direção à capital e ninguém mais teve notícias dele – certamente conseguiu retornar para o velho mundo. Assim que o dia estava findando, Thomás apareceu na tenda da velha cigana. Havia se lavado e colocado seu melhor traje. O cheiro dele era bastante agradável, lembrava canela, livros antigos e, também, tabaco perfumado, talvez com almíscar. Foi recebido com muito préstimo e bastante alegria por ambas. Por mais que tentasse recusar, foi convencido a jantar com elas. Madame Staell lhe disse que o que tinha a tratar com ele era algo bastante delicado, pois dizia respeito ao destino dos três...

Terminado o jantar, a cigana, com toda a experiência de uma pessoa que já vivera muitos janeiros e enfrentara muitos altos e baixos, expôs-lhe a situação. Primeiro, relatando parte da sofrível história de Darquinha e os trágicos acontecimentos de sua vida até aquele presente momento. Relatou-lhe o quanto ela era cara para ela, tanto pela sua simpatia quanto pela sua inocente fragilidade. Disse ainda o quanto havia se afinizado com sua pessoa, percebendo o quanto ele era um homem de princípios e bastante honrado. Por fim, explanou suas intenções de ambas deixarem o circo e irem viver em alguma cidade mais próspera, quem sabe até mesmo em alguma capital. Após ter gastado bastante o verbo com um rodeio que não parecia ter mais fim, ela decidiu, afinal, lhe fazer a proposta de acompanhá-las. Antes que ele pudesse responder, ou mesmo confundir a proposta, ela lhe relatou sobre sua visão, dizendo ainda que fazia muito gosto em saber que Darquinha seria entregue em boas mãos.

Sendo ele um homem de índole incorruptível, de imediato quis recusar a proposta. Alegou, através de um breve discurso, que havia inúmeras diferenças que os afastavam, mas logo foi convencido por um único olhar que Darquinha lhe desferiu. Ela, mesmo sem poder ouvir nada, entendeu praticamente tudo que fora dito e lhe direcionou um olhar questionador, como se perguntasse: “... não sou digna do seu amor?”. Ele rapidamente tomou suas mãos, beijando-as ternamente e, olhando em seus olhos, disse-lhe:

– Desde o momento em que a vi, é tudo que eu mais quero nesta vida. Eu que não me sinto digno de tanta beleza e simpatia. Se me tornares seu marido, serei para ti o mais gentil dos homens, prometo com toda a força de minha alma amá-la e protegê-la até o fim dos meus dias.

Naquele momento, o mais dorido dos suspiros se ouviu naquela tenda, e lágrimas banharam a face da bela Darquinha como uma torrente que não parecia ter mais fim. Madame Staell concluiu que em toda sua vida jamais presenciara a mais sincera demonstração de amor de um ser para com outro. Naquele momento, o destino daquelas três pessoas foi traçado para todo o sempre.

Menos de um mês depois, já estavam os três vivendo na capital. O circo que ambas deixaram para trás seguiu seu caminho, e nada mais se soube nem sobre ele, muito menos sobre seus integrantes – que, de certo modo, sentiram-se aliviados com a partida da velha cigana e de sua protegida. Thomás e Joana D’arc se casaram numa singela igrejinha no alto do morro na periferia onde se instalaram. Todo o enxoval foi presente da velha cigana, incluindo o alinhado terno do noivo e o belíssimo vestido da noiva. A cerimônia pode até ter sido simples aos olhos de outrem, mas para aquele casal, foi um acontecimento apoteótico. A alegria de ambos era um inquestionável exemplo de que o Amor é realmente um sublime sentimento capaz de tornar o impossível em algo extraordinário, possibilitando a união das mais diferentes criaturas em um único ser.

Os primeiros dias após suas núpcias foram de um total deleite. Contudo, assim que contraiu matrimônio com Darquinha, sentia-se de certo modo hostilizado por olhares perscrutadores e maledicentes. Ele, um negro cinquentão – talvez até um pouco mais velho – ela, uma jovem branca de olhos claros, que teria talvez idade para ser sua filha – quem sabe até mesmo neta. Não era uma relação bem-vista pelas pessoas autoproclamadas "pessoas de bem". Thomás sempre fora um ser de espírito livre e jamais se incomodara com aquilo que diziam dele, afinal, era um negro e ex-cativo vivendo numa sociedade onde, há bem poucos anos, pessoas como ele eram vendidas como uma mercadoria qualquer, e já havia sentido na pele e na própria alma a maldade humana. Mas agora, tudo havia mudado e era o nome de sua amada que estava na boca da raia miúda e desocupada.

Thomás não suportava esses olhares e os cochichos que pareciam inconvenientemente estar em todos os lugares, mesmo na rua, no rosto de desconhecidos. Durante o dia, ele trabalhava duro para arcar com as despesas da casa, que agora tinham aumentado bastante, mesmo com Madame Staell ajudando em parte com algumas contas do lar. À noite, mesmo coberto de carícias de sua adorada companheira – que estava descobrindo aos poucos as delícias do leito – não conseguia dormir direito. E se perguntava por quê. Será que dava tamanha importância a essas pessoas que sempre o olharam com descrédito e certa repugnância? Com certeza não! Pois sempre tivera total resiliência de quem ele era e de onde tinha vindo. A opinião dessas pessoas – consideradas por ele como pessoas de mente vazia – não tinha nenhum peso sobre ele, o deixando até irritado de, às vezes, se deixar perturbar pelos seus hostis olhares. Por ser uma pessoa de índole diferenciada, achava tudo aquilo por demais desprezível. Como algo tão insignificante poderia estar incomodando-o agora? No fundo de sua alma, sabia que não deveria ficar dependendo da aprovação de pessoas que ele mesmo considerava limitadas e de caráter duvidoso.

Pode ser que a profunda desconfiança que sentia das pessoas ao seu redor, e talvez saber que esse sentimento fosse recíproco por parte delas, tivesse exercido uma forte influência em sua decisão de deixar a cidade grande e se estabelecer no campo, distante de olhares curiosos e acusadores. Thomás se viu, pela primeira vez, numa situação em que o simples ato de ir ao mercado tornava-se um verdadeiro suplício, pois vários olhares caíam sobre aquele casal que, na maioria das vezes, estava acompanhado pela velha cigana, já praticamente cega por completo. Em algumas ocasiões, esses olhares indiscretos eram acompanhados por algum comentário ofensivo. De certo modo, a situação começou a ficar insustentável. O trabalho para Thomás começou a rarear e, logo, o senhorio da pequena casa em que viviam solicitou o imóvel de volta, alegando que o havia vendido e que o novo proprietário o desejava desocupado o mais brevemente possível.

A pedido de Darquinha – que irradiava uma tranquila paz de espírito, jamais se deixando abater por qualquer coisa que fosse – Thomás até tentou alugar outra casa. No entanto, além de estar praticamente sem dinheiro, havia a questão da cor de sua pele que o denunciava. Depois de várias recusas, já havia compreendido que sua história era por demais conhecida e que as pessoas, em sua grande maioria, eram más e se regozijavam com a humilhação moral de negros e imigrantes. Por mais que ele, utilizando sua boa oratória, tentasse convencê-los de ser uma pessoa de boa índole, ninguém queria dar ouvidos à conversa de um ex-cativo; desconhecido, sem trabalho e, principalmente, sem dinheiro no bolso.

Através da intervenção de Madame Staell e do dinheiro que ele ainda possuía, conseguiram alugar uma casa praticamente do outro lado da cidade. Essa locação só foi possível pagando seis meses de aluguel adiantado. Thomás, que trabalhava em qualquer tipo de trabalho que se apresentasse, logo conseguiu serviço. Darquinha fazia pequenas costuras para fora e Madame Staell, mesmo com a visão praticamente a abandonando, ainda assim, vez por outra, tirava a sorte de um aqui, outro acolá. Essa calmaria não duraria por muito tempo.

Certa noite, já em horas avançadas, após o amor e estando ele sentado no leito olhando ao longe pela janela aberta, estando claro como o dia, pois era noite de lua cheia, Darquinha se aproximou dele em silêncio e, após o abraçar, estando ele com o torso nu, começou suavemente a acariciar suas costas e delinear com a ponta dos dedos suas inúmeras cicatrizes. Sem poder conter sua curiosidade – que nas mulheres é considerado um dom, pois essa mesma curiosidade feminina foi o solene motivo de várias descobertas e invenções que em muito ajudaram na evolução da humanidade – perguntou-lhe de um modo muito delicado, olhando nos olhos dele e gesticulando com os ombros em gestos de curiosidade. Thomás, que de alguma forma a compreendia, mesmo sem ela pronunciar nenhuma palavra, após suspirar profundamente, disse, mais para si mesmo do que em resposta:

– Algumas pessoas machucam seus semelhantes simplesmente pelo fato de poderem fazê-lo. Essas marcas em minhas costas são uma pequena amostra daquilo que meu corpo padeceu quando eu ainda era cativo. No entanto, muito pior que essas horrendas cicatrizes é aquilo que ainda padeço por causa de minha cor e minha origem. Nossa gente foi liberta de nossos grilhões, mas ainda somos prisioneiros do preconceito e da discriminação...

Na manhã seguinte, um domingo bastante agradável de céu limpo e ensolarado, após retornarem da missa, tiveram um terrível dissabor, pois foram avisados por um vizinho que os donos do imóvel haviam estado bem cedo batendo em sua porta, deixando o recado que retornariam naquele mesmo dia. O que de fato realmente aconteceu e a notícia que trouxeram consigo não foi nada agradável. O marido da mulher que lhes locara o imóvel solicitava a desocupação imediata da casa, alegando acionar até mesmo a justiça se fosse necessário. Era ele uma pessoa de aparência bastante repugnante e ameaçadora, tinha uns 55 anos, talvez 70, quem sabe até mais – algumas pessoas parecem ter sempre a mesma aparência, como uma montanha que, aos perenes olhos humanos, não demonstra nenhum leve traço de mudança. Já lhe faltavam mais da metade dos dentes e os que sobraram estavam podres e enegrecidos pelo uso constante de tabaco, que tornava o seu hálito nauseabundo, fato que fez com que Darquinha tivesse ânsia de vômito e saísse discretamente de sua presença, tapando a boca com as mãos.

Quando Madame Staell questionou-lhe sobre os seis meses de aluguel que foram pagos de forma adiantada, o senhorio respondeu que nenhum negócio havia feito com eles e que nenhum valor lhe fora pago, que buscassem por seus direitos perante a justiça. Como o imóvel lhe pertencia e ele não lhes alugara coisa alguma, dava-lhes o prazo de três dias para que se mudassem. Após dizer que não queria problemas com ninguém, apenas seu imóvel de volta, saiu sem se despedir, prometendo retornar ao fim daquele prazo estabelecido e reaver sua casa de volta, independente de quais meios fossem necessários para esse fim.

Aquela tarde foi bastante inquietante para aquela peculiar família. Thomás sentia-se bastante injustiçado, ao ponto de dizer que só sairia da casa se a justiça o obrigasse. Darquinha, tomada de um sentimento de completa resiliência, disse que sempre haveria outros lugares e que o melhor a se fazer era evitar todo e qualquer tipo de problema. A cigana, por sua vez – que já havia sentido na própria pele a injustiça da Justiça brasileira – com sua longeva sabedoria, disse por fim:

– Já ouvi dizer que simples palavras podem ser como uma leve brisa, que mal nenhum pode nos causar. No entanto, até mesmo a mais suave das brisas pode se transformar em um vento forte e trazer uma terrível tempestade. Não sou mais jovem e, a cada dia que passa, minhas forças me abandonam um pouco mais. Seja como for, no fim, a noite cai para todos nós, e às vezes cedo demais para alguns. Preciso de um lugar tranquilo para passar meus últimos dias nesta terra. Ainda tenho comigo algum dinheiro e alguns pertences dos quais posso me dispor e comprar uma pequena propriedade no campo onde possamos viver em paz. Se ambos cuidarem de mim na minha senilidade – que se aproxima em passos velozes – deixo a vocês dois essa propriedade para que possam criar seus filhos e seguir com suas vidas sem ninguém os perturbar novamente.

E assim foi feito. Em dois dias, já estavam hospedados numa pensão, onde logo conseguiram contato com um corretor de imóveis – irmão do dono da pensão – que, de forma muito benevolente, lhes conseguiu um excelente negócio, desde que a propriedade fosse paga de forma imediata e em dinheiro vivo. Em menos de dois meses, já estavam vivendo no campo, numa aconchegante, mas bastante humilde casa no alto de uma colina, onde as manhãs eram alegres e o entardecer bastante iluminado pelos raios do sol poente. Era o início de um novo ano e de uma nova vida.

Thomás – que tinha os conhecimentos necessários para a lida no campo – iniciara os trabalhos de lavrar a terra e cuidar de alguns animais que a cigana adquirira, enquanto Darquinha zelava da casa e dos afazeres domésticos, vez por outra sendo auxiliada pela cigana, quando sua saúde permitia, pois a cada dia sentia-se mais fraca, sendo vencida pelos sinais do tempo. No final daquele mesmo ano, a família ficaria um pouco maior com a chegada de uma nova flor para aquele belo jardim. A felicidade parecia enfim ter feito morada naquele humilde lar. No entanto, no horizonte distante, nuvens negras anunciavam uma terrível tempestade. Darquinha tivera uma gestação conturbada e constantemente reclamava de fortes dores de cabeça, principalmente nos ouvidos...

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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Sonuras de Áurea Lihran: Seth

Orquídeas negras tecem a ninguém, | Silêncio aveludado no jardim, | Apresso-me temendo vir alguém | Desperto pelo horror do olor carmim;…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Orquídeas negras tecem a ninguém,
Silêncio aveludado no jardim,
Apresso-me temendo vir alguém
Desperto pelo horror do olor carmim;

Perfiz todo o balcedo estéril e vi
A névoa cinerária se achegando,
Tão tácita espargia — eu m’envolvi…
Sua lôbrega humidade circundando;

Desvelo, cinza e triste vilarejo,
Porém, ao meu espanto, flama à vela
E o som d’um tragimorbo realejo…

Vertigem brusca, bagas de Glïzehla
Nas mãos de humana tez, viril demônio,
Semblante tão terrífico em adônio — 
Não temas teu Arcanjo, bel donzela”.

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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