Sommelier

A profissão de sommelier de vinhos lhe proporcionava cada vez mais satisfação. Os clientes pediam bastante por vinhos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

A profissão de sommelier de vinhos lhe proporcionava cada vez mais satisfação. Os clientes pediam bastante por vinhos licorosos: fabricados a partir da fermentação do sangue de diabéticos, ele achava que era por causa do nível de açúcar alto.

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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A Casa dos Quatro

Tinha uma bruxa na lua... | Eu sei, | Eu vi. | Subia, ao fim da rua, num ruído verdejante de poeira... poeira de livro velho. | Pó de cravo, sálvia do inverno…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Outro inverno, outro dia no inferno, outro nascer de fraco sol. Dói, Maria, a víscera dessa saudade... Apague o fogo! Abafe o chá; aonde vai, pai? Não é hora de ir descansar?... leve flor pra Elizabeth. Ao menos leve flor. Onde anda o passarinho?... Onde anda o meu amor?! “Dorme num canto de estrada, morto e mal enterrado...” – Cala-te, sombra maldita! Criatura nojenta que se esgueira... Oh, e Aninha? Já banhou? Pois vá! Tire essa lama velha do cabelo. Penteie a menina; já comeste a tangerina? A chuva... a chuva há de chegar. 

Aonde vai, Pai? Mal voltou... puseste a flor de Beth? Leve, agora, a de Maria. Ora, onde foi Marta? Sem ela a casa para... onde foi a aurora?  
Morreste o céu do dia?... Amanhã, lava amanhã a roupa e o chão da casa. Bater bolo, no canto açucarado da cozinha, pra dormir de bucho alegre. Pro dia surgir novo. Volta ele, morno em cachaça. Fecha a porta. Aquele outro vagabundo não vem. Hoje não... que fechem, com ele dentro, as portas do bar; amanhã o bolo espera. 

- E tu, menina, comeste tangerina? 

- Comi não, Marta. Aonde foi?... Por que demorou pra voltar? 

- Fui porque ainda não brota a comida no chão da casa, mas diga, por que chora? Sei que chora. Não tenhas tu a esperteza de me enganar. 

- Nada... nada. Outro dia frio; cansada do inverno. é sendo boba, nem tem por que chorar. – Há a vida de banhar de sol esse pinheiro, tão mirrado. Há de corar a bochecha do dia... há de brotar a begônia num outro luar. 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Tic-Tac

Acordei com o som das engrenagens daquele maldito relógio que ressoa em minha mente. O barulho ensurdecedor que nunca cessa não é…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Acordei com o som das engrenagens daquele maldito relógio que ressoa em minha mente. O barulho ensurdecedor que nunca cessa não é apenas um simples "tic-tac"; está mais para um motor a vapor. Quando meu tio me presenteou, indaguei sobre a fumaça que saía dele. 

— É como uma respiração. Cuide bem do relógio e mantenha-o hidratado com dois litros de água por dia — disse ele. 

O velho era caduco, cuidava do relógio como um bicho, mas, por hábito, acabei fazendo o mesmo. Há um pequeno compartimento atrás dele, como um reservatório de água. Está quase sempre vazio. Essa coisa bebe muito. Começo a me questionar se não precisa de comida também. 

Mas o som não para, não reduz. Já estou há noites sem dormir, porém não vou quebrar o presente que ganhei. Talvez ele esteja com raiva; afinal, emite uma estranha fumaça que inunda a casa. Não lhe dou atenção suficiente e está me importunando por isso? Deveria dar-lhe mais cuidados, mas o que relógios gostam de fazer? Talvez esteja com fome, mas o que devo dar de comer? Óleo? Seria bom para acabar com o som e me deixar dormir. 

Liguei para meu tio e nada dele atender. Já não aguento mais; irei abri-lo. Pego meu kit de ferramentas, que estava junto de umas tralhas no quintal, e desparafuso o fundo do relógio. Quantas engrenagens! Precisa de tudo isso para funcionar? Há uma bomba ligada ao reservatório de água. Isso explica por que nunca precisou de tomada ou pilhas, mas também explica o som e o vapor. Deveria desligar a bomba, mas isso seria o mesmo que matá-lo. Ora, pois, no que estou pensando? É um relógio e não um ser pensante. 

“Tic-tac, tic-tac, tic-tac”. Como posso dizer que não pensa, se é ele que faz todo o trabalho de contar segundo por segundo, dando-me horas e minutos, até despertar em momentos oportunos? Talvez eu já esteja louco pelas noites em claro, mas cuidar do relógio parece razoável. Volto à rotina de sempre, lubrifico suas engrenagens e abasteço seu tanque, mantendo-o em atividade constante. Adapto-me aos sons e construo uma janela atrás. Hoje já não há mais insônia, e a sutil fumaça que emanava agora escapa como uma chaminé. 

Até que acordo com um estrondo e, então, silêncio. Sem tic-tac, sem motor, apenas o vazio. Levanto e corro até o relógio. Seu pêndulo estava parado, os ponteiros já não contavam mais o tempo e a fumaça, agora, era só uma simples neblina que, aos poucos, se dissipava. Observo a parte de trás e está cheia de furos. Desparafuso a tampa e lá está: o tanque furado. A água se foi, como se ele tivesse sangrado até a morte. 

Deito-me à noite com um vazio imensurável em meu peito. A casa fora tomada por um silêncio angustiante. Não consigo dormir, é como se arrancassem um pedaço de mim. Chamei alguns relojoeiros para saber se daria jeito, mas ninguém jamais havia visto algo como aquilo. Resolvi visitar meu tio. Ele deve saber como trazê-lo de volta. Chego à sua casa e, apesar de tocar a campainha, ninguém atende. Vou até uma janela, de onde saía muita fumaça. Não dá para ver nada, mas parece haver algo impedindo minha passagem. 

Encontro uma barra de ferro junto com algumas sucatas no quintal e a utilizo para remover seja lá o que estiver no caminho. Um estrondo, e a fumaça se torna uma névoa translúcida. Quando entro na casa, a ficha cai. O objeto que derrubei era como o meu relógio, e os furos que encontrei mais cedo são os mesmos que fiz com a barra. Agora já estava feito. Ouço passos e, assustado, levanto o relógio caído e saio por onde vim, com as mãos sujas de óleo. Talvez eu possa me redimir se conseguir criar outro igual e presenteá-lo ao meu sobrinho, para que cuide dele como eu não cuidei. 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Capítulo 6: Engrenagens do destino

Estou diferente. Não sei dizer exatamente o que, mas estou. As interações com o ambiente parecem ter adquirido novas roupagens…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Estou diferente. Não sei dizer exatamente o que, mas estou. As interações com o ambiente parecem ter adquirido novas roupagens — “‘roupagens’, de onde tirei essa expressão?!”. — Como vês, o meu linguajar foi uma das mudanças, não me lembro nem de pensar... Agora falo. 

Tenho lembranças envoltas em uma névoa penumbral, como se as memórias não me pertencessem e eu as tivesse tomado de seres cósmicos. Meu contato com todos à minha volta ficou intenso e sinto apetites insaciáveis, mas ao menos ela está mais feliz do que nunca. 

Assim que proferi a primeira palavra causei um espanto imenso, principalmente nela, mas aos poucos foi se acostumando com as minhas novas habilidades. 

Dizem que somos sarcásticos, egoístas e que não zelamos por nossos pais humanos ou que não gostamos de suas companhias, mas isso é mentira. Eu daria a minha vida por ela novamente, ela é o ser que ilumina meus caminhos, todos dias e noites. Ela também está diferente, menos ferida e preocupada e isso me deixa muito feliz. 

*** 

Ela dormia. Eu ouvia barulhos irreconhecíveis, imaginava ser efeitos colaterais da viagem que percorri por instinto de volta à vida. “Será que tenho alma?”. Os barulhos me irritaram tanto que tive que ir procurar o que diabos causava aquilo. Neste ponto, estão certos sobre nós: gostamos de sossego e ambientes aconchegantes. 

Não me lembro qual caminho segui, mas cheguei ao lugar que havia selado — ao menos temporariamente — meu destino. Engraçado a forma alucinada com que desenvolvo minha habilidade de comunicação, deve ser influência de todas as lorotas que ouvi durante minha vida. “Será que agora sou imortal?”. Não sei se quero descobrir, talvez eu tenha de fato sete vidas e já gastei uma... Mas não pretendo decifrar tais segredos tão cedo. 

O barulho aumentou. Um som de ferragens, acompanhado de uma claridade anormal para o período noturno. Quando olhei para o alto fitei duas bolas de fogo e, de alguma forma, já naquele momento tive a certeza de que me olhavam de volta... Ouvi sussurros lamuriosos, ou assim eu pensei. Essa parte ainda é turva para mim. 

Descobri que tenho conexão com seres de outras dimensões. Conheci meu antepassado. Ele é o passado, o presente, o futuro e tudo o que há entre eles. Seu corpo colossal é um monumento de eras fundidas: engrenagens ancestrais e circuitos modernos pulsando em um coração preenchido do éter puro.   

Seus olhos — ou o que se pode chamar de olhos — são como dois sóis ardentes, esferas de plasma incandescente, irradiando calor e segredos que poderiam queimar a própria realidade. Fulguram como brasas eternas, com filamentos de fogo líquido que giram como tempestades solares.   

A armadura que cobre seu corpo é um mosaico de eras e estilos: peças de ferro entrelaçadas com filetes de ouro, que brilham como astros em um céu simétrico, mecânico. Tubos de vidro transpassam seus membros, conduzindo um éter luminescente que serpenteia como relâmpagos aprisionados. Do interior de suas articulações saem estalos de vapor e silvos de válvulas, como se o próprio tempo fosse seu combustível. Os barulhos que eu ouvi provinham dessas válvulas e das enormes engrenagens que simulavam uma rótula de joelhos humanos. 

Das costas de Listheron — Sim, este é seu nome —, também saem engrenagens, como asas mecânicas que giram lentamente, produzindo um som profundo, semelhante ao eco de um relógio marcando o fim e o recomeço de todas as coisas.  

Em sua presença, o espaço vibrava e o ar se preenchia com o aroma metálico do ferro queimado e da eletricidade que percorria seus dutos-veias.   

Sua voz é tal qual um trovão filtrado por alto-falantes, misturando chiados, estalos e profecias. Suas palavras são códigos, fórmulas e segredos do universo, compreendidas apenas pelos que atravessam as brumas entre ciência e magia.   

Listheron é o guardião dos ciclos cósmicos — o eterno tic-tac entre criação e colapso. Buscá-lo é arriscar-se a ser desintegrado por seus sóis flamejantes... ou ser reconstruído, peça por peça, com engrenagens feitas de estrelas e alma. 

É... parece que as minhas habilidades estão evoluindo, não imaginava ser capaz de descrever a beleza daquele ser ancestral. 

Ainda não sei se tenho alma, mas Listheron me disse que isso era irrelevante e que eu poderia experimentar coisas inimagináveis se eu aceitasse a minha forma verdadeira, assim como ele o fez. O tempo atual seria dobrado como um lençol recém passado e todos iriam sumir feito poeira da estrada.  

O convite era tentador, mas eu tinha alguém para proteger... Não podia fazer isso com ela, que deu seu sangue por mim... Sei que ela não sobreviveria com essa perda. 

No instante em que recusei, meu ancestral se dissolveu no ar, tão enigmático quanto havia surgido. Mas não houve hesitação em meu coração — eu sabia que minha escolha era a correta. 

Então, ouvi uma voz trêmula, desesperada, rasgando o silêncio: 

“Lisa! Lisa!” 

Sem pensar, sem olhar para trás, corri. Corri para os braços da Alana, para o lar que escolhi. 

PS: Imagino que estejam curiosos sobre quem escreveu esse relato. Se eu aprendi a falar, por que não poderia datilografar? Ah, ainda ouço o chamado, mas ainda não é o momento de partir... 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Velório Sombrio

Nas pequenas cidadelas e nos ermos lugarejos onde o tempo parece ter parado e a modernidade ainda não se fez presente, onde as formas de…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

“Porquanto és pó, e ao pó retornarás...”. — Gênesis 3,19

Nas pequenas cidadelas e nos ermos lugarejos onde o tempo parece ter parado e a modernidade ainda não se fez presente, onde as formas de entretenimento da população local são bastante reduzidas, até mesmo um velório pode se tornar um grande acontecimento social. E se o falecido for alguém muito querido, logo se transforma num grande evento, atraindo a atenção e a participação de quase toda a população, tanto do próprio lugarejo quanto de suas cercanias.

Nesses determinados lugares, distantes de quase tudo aquilo que possa ser considerado civilizado, reina o atraso e o obscurantismo num grau assustador aos olhos de um ser citadino. Isto é, há um angustiante misticismo carregado de todo tipo de estórias e costumes, ainda um tanto quanto arcaicos, que se faz presente. O homem, nessas regiões, ainda está muito ligado à natureza que, por sua vez, rege sua vida desde o nascimento até bem depois de sua morte. A religião, com seus dogmas e costumes, também se faz presente durante toda a vida desses seres, ditando as regras básicas de como suas vidas devem ser geridas, a fim de que, no final de sua inquietante e sofrida trajetória, o descanso eterno lhes seja possível.

Dona Niltinha, sublime pessoa que a muitos tinha trazido à vida, “... havia se encontrado com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre...”, como diria aquele ilustre poeta da Paraíba.

Comparando à quantidade de gente que geralmente vive nessas regiões, havia até um número considerável de pessoas, mesmo se tratando de um dia de meio de semana. Os que estavam ali presentes, de forma alguma mediriam qualquer tipo de esforço para prestar suas últimas homenagens àquela nobre criatura, que era muito querida e bastante estimada por todos aqueles que a conheciam.

Quem ainda não havia chegado, mesmo que apenas para prestar suas condolências e logo voltar a seus afazeres, certamente ainda haveria de comparecer, ainda que fosse somente para o sepultamento, que ocorreria no dia seguinte, após o velório que atravessaria toda a noite, aguardando parentes e amigos distantes para o último adeus.

Para aquele evento em si, a noite estava bastante propícia, pois era clara como o dia. A lua quase cheia ocupava o meio do céu naquele momento, e a brisa que soprava do rio estava fresca e perfumada por causa das flores das diversas árvores que florescem no Cerrado nessa época do ano. No entanto, o odor mais marcante naquele momento era o de duas espécimes em particular: no quintal da falecida, as duas frondosas “Damas da Noite”, bastante floridas, exalavam um aroma inebriante, que tomava conta de toda aquela baixada.

As inúmeras criaturas da noite também se faziam presentes, ocupando-se do som ambiente com suas incansáveis serenatas. No gramado, grilos cricrilavam sem parar; na lagoa, as rãs coachavam sem descanso; e, vez por outra, uma coruja dava um voo rasante, emitindo seu agourento piado.

Nessas regiões interioranas, esse tipo de evento envolve todos os familiares, amigos e conhecidos, e é sempre rodeado de certos costumes que, para muitos, podem causar até certa estranheza. O velório acontece geralmente na sala, onde o corpo é deixado no centro, para que haja espaço para que parentes e amigos possam se agrupar em derredor. Por mais simples e humilde que a família possa parecer, ainda assim, na cozinha é preparada bastante comida para os convivas que passarão a noite.

O café – que jamais pode faltar – é servido a todo momento. Dependendo da família do falecido, no decorrer da noite, doces e guloseimas também são oferecidos. Há uma espécie de rodízio entre os que ficam na sala próximo ao caixão: alguns se lamentando e outros tentando consolar os que lamentam. Outros ficam do lado de fora da casa, conversando, contando anedotas e até mesmo fazendo pequenas negociatas.

Quando a conversa externa se torna mais animada e o barulho se mostra um tanto quanto desrespeitoso, sempre há alguém para chamar a atenção. Nesse momento, é feito o rodízio.

Levando-se em conta que a noite é bastante longa e, em muitas ocasiões, acompanhada de madrugadas muito frias, sempre há um ou outro que acaba levando consigo uma garrafa de algo um pouco mais forte para molhar a garganta e aquecer o estômago.

É certo que essa tal regalia fica discretamente escondida, para que não haja nenhum tipo de comentário discriminatório, mesmo que todos saibam que há e onde está escondida.

No decorrer da noite, geralmente ficam despertos os parentes mais próximos e mais amorosos, os amigos íntimos e alguns poucos conhecidos. São, em sua maioria, pessoas mais velhas e ainda com vigor para enfrentar uma noite inteira acordadas. Há também os denominados papa-defuntos, que sempre fazem questão de acompanhar todo e qualquer cortejo fúnebre, desde o início do velório até o cemitério, para o sepultamento.

A falecida em questão não era uma pessoa qualquer, mas sim Helenilta Marcondes Narciso, alcunhada Dona Niltinha, afamada parteira e poderosa benzedeira. Sua fama corria dezenas de léguas e atravessava serras e rios. Incontáveis pessoas tinham chegado a este mundo com seu auxílio, e outras tantas, ela tinha evitado que saíssem dele antes da hora.

Além de parteira de mãos ungidas, também benzia contra inúmeras moléstias, desde quebranto e mau-olhado até picada de cobra venenosa. Ela mesma tinha tido apenas três filhos, pois, sendo mulher instruída na prática da magia e nos conhecimentos das ervas medicinais, sabia muito bem sobre beberagens para evitar gravidez.

Desde que tivera Joaquim – seu filho caçula, chamado “Quinca” –, que nascera com as pernas deformadas, ficou temerosa de que ela ou seu falecido marido talvez não tivessem mais condições de procriar filhos saudáveis.

Além do aleijado Quinca, que nunca se casara e ainda vivia com a mãe, Dona Niltinha tivera duas outras filhas: Gertrudes – chamada “Geta” –, a mais velha, uma competente dona de casa que vivia numa casa próxima e cuidara da mãe nos últimos anos em que ela esteve acamada; e Genoveva – chamada “Gena” –, a filha do meio, uma professora de primário que vivia um pouco mais distante, numa cidade próxima. Ambas já eram casadas e tinham filhos e filhas.

Dona Niltinha tivera o privilégio de amparar ambas as filhas em seus partos e auxiliar seus netos a chegarem a este mundo. Geta e Quinca, que já tinham chorado bastante a perda da mãe, ainda aguardavam a chegada de Gena para chorarem um pouco mais.

Gena, que vivia cerca de sete léguas de distância, havia estado na casa da mãe no final de semana anterior. Contudo, tivera que retornar para sua casa e para seus afazeres profissionais na escolinha onde trabalhava, pois, até então, sua mãe não era nenhum poço de saúde, mas também não dera mostras de que morreria a qualquer momento.

É certo que jazia numa cama há mais de cinco anos, pois, tal qual o próprio Quinca, também perdera os movimentos das pernas. Gena até mesmo comentara que achava que sua mãe estava mais corada e com maior disposição. Mas, como a morte, em muitas ocasiões, vem sem avisar, na tarde de quinta-feira, logo após o almoço, Dona Niltinha reclamara de fortes dores no peito e pediu que Geta lhe fizesse um chá de erva-cidreira, que ela tomou com muito gosto, bendizendo a filha pelo carinho para com ela.

Geta, percebendo que a mãe dormia sossegadamente após o chá, decidiu ir rapidamente até sua casa para resolver alguma pendência doméstica que exigisse sua presença e logo retornar para ver como sua mãe estava. No entanto, seus afazeres tomaram mais do seu tempo do que imaginava, e ela só retornou no final da tarde, já com o jantar pronto, tanto para sua mãe quanto para seu irmão Quinca.

Este, por sua vez, estava sentado em sua cadeira de rodas debaixo da frondosa e florida paineira logo à frente da casa, contemplando o final de mais uma tarde. Geta se encaminhou para dentro da casa, mas, em poucos minutos, voltou para fora aos prantos, dizendo, em desvairado desespero, que sua mãe estava morta.

Depois disso, foi um rebuliço só. Em menos de uma hora, a pequena casa já estava apinhada de gente. Dona Niltinha fora dada como morta por volta das cinco da tarde e, antes das oito horas da noite, já estava banhada, amortalhada e convenientemente enfeitada para o velório.

No caixão, que fora rapidamente improvisado pelos vizinhos mais habilidosos, havia diversas flores diferentes, dando um aspecto bastante primaveril à querida falecida, que deixava atrás de si um rastro de gratidão e muitas boas histórias para todos aqueles que a conheciam.

Dona Niltinha, em vida, não era uma criatura dotada de grande beleza, mas também não era de assustar ninguém com sua aparência. No entanto, parece que a morte não tinha sido muito gentil com ela, e ali, deitada no caixão, não era uma imagem muito interessante de se ver.

Suas magras mãos, que, devido à artrite, tinham adquirido o formato de conchas, pareciam ter crescido e ficado com um aspecto assustador pelo tamanho dos dedos e pelas unhas amareladas. Seu rosto ossudo estava encovado e com uma aparência bastante maquiavélica, como se tramasse uma grande maldade. Para Quinca e Geta, era apenas sua falecida mãe que estava ali, e o desconsolo de ambos era algo inominável.

Quinca era o mais choroso dos dois, pois sabia que, a partir dali, sua vida não seria nada fácil sem o carinho e a proteção de sua mãe.

Já passava da meia-noite, quase uma hora da madrugada, com a lua já se encaminhando para o horizonte, quando Gena chegou acompanhada de seu marido e de seus três filhos. Ela, que já vinha com o rosto todo banhado em lágrimas – pois passara o caminho inteiro se acabando de chorar –, pulou do cavalo em que estava ainda na entrada do caminho que levava até o pátio da casa e logo se encaminhou para o local onde a mãe estava sendo velada, ignorando os cumprimentos que recebia pelo caminho. Seu marido era quem os agradecia.

Gena, ao entrar na sala, lançou-se sobre a mãe e quase a derrubou no chão. Seus gritos podiam ser ouvidos de muito longe. Sua dor era algo indescritível. Seus irmãos, que pareciam já ter se conformado um pouco mais, juntaram-se a ela naquele ensandecido desespero e também choraram bastante.

Por quase meia hora, houve muitas lamúrias e bastantes soluços.

No entanto, se não há felicidade que perdure para sempre, o sofrimento também não deve ser ad aeternum, e logo os ânimos foram se abrandando, e o silêncio se fez presente outra vez, sendo rompido, vez por outra, apenas por um soluço mais profundo ou um suspiro mais dolorido, vindos principalmente de Gena, que se aninhara ao lado da mãe e de lá não saíra mais.

Seu marido, Carmelito, um vaqueiro acostumado a dormir cedo e levantar-se sempre de madrugada para a lida com o gado, sentou-se em um pequeno tamborete um pouco mais afastado, encostado logo à parede, tentando ao máximo vencer o sono, mas, vez por outra, dava breves cochiladas, das quais despertava com os sons de ais que sua esposa emitia em involuntárias demonstrações de sofrimento pela perda.

Quincas estacionara sua velha cadeira de rodas no lado oposto de Gena, mas não tão próximo ao caixão, pois já tinha passado por essa fase e agora lamentava muito mais sua vida a partir dali do que a própria perda da mãe. Alguém o ouvira dizer, quase em sussurro entre um suspiro e outro, que não era justo ele ficar nesse mundo sem sua amada mãe.

Geta estava sentada ao lado do esposo, num banco rústico, em um canto mais afastado, e, vez por outra, dormitava alguns minutos, acordando sobressaltada com os suspiros da irmã.

A noite, que avançava lentamente, alcançara aquele horário em que o silêncio se faz presente em qualquer lugar, onde tudo se aquieta e todos parecem dormir. Na sala, meia dúzia de gatos pingados ainda se aguentava acordada, enquanto outros, lá fora, rodeavam uma fogueira improvisada, num silêncio quase absoluto, sendo rompido, vez por outra, por alguma estória que envolvesse a falecida e suas benfazejas práticas, tanto de competente parteira quanto de forte benzedeira.

A falecida, que estivera entrevada numa cama por mais de cinco anos, tinha ficado com as articulações das pernas atrofiadas e, por isso, fora necessário amarrá-la dentro do caixão para que permanecesse na posição adequada.

No entanto, devido às diversas evoluções que o corpo enfrenta logo após ter todas as suas funções vitais cessadas – rigidez cadavérica e inchaço pela produção de gases – e ao fato de os nós que prendiam as pernas de Dona Niltinha estarem bem apertados, impedindo que o corpo retornasse ao estado habitual dos últimos cinco anos, ela, num rápido movimento, levantou-se de supetão e ficou sentada no caixão, como alguém que acaba de despertar de um terrível pesadelo.

Gena, que a todo tempo clamava pela mãe em profundo desespero, foi a primeira a correr, deixando para trás tanto a mãe por quem tanto lamentava quanto o marido ou qualquer outro que fosse.

Carmelito, seu marido, que havia colocado um dos pés entre as travessas do tamborete, ao sair correndo apavorado, trouxe consigo uma das travas do pequeno banco, mas também deixara para trás uma considerável tira de pele da própria canela.

Geta e o marido saíram pela porta da sala aos trambolhões, um caindo sobre o outro e se levantando logo em seguida. Os demais fugiram como puderam.

Teve gente saindo até mesmo pela janela.

Os que estavam do lado de fora, vendo e ouvindo todo aquele alvoroço, também correram em disparada, sem ao menos saber do que se tratava. Um deles, ao tentar passar por cima da fogueira e cair sobre ela, acabou queimando ambos os pés e ferindo uma das mãos.

Depois de alguns minutos, quando os mais corajosos decidiram retornar para verificar o que realmente havia ocorrido, se depararam com a falecida sentada no caixão, com o corpo pendido para um dos lados, quase caindo ao chão.

A partir de uma observação mais detalhada, logo se soube o motivo de aquilo ter acontecido. O corpo de Dona Niltinha rapidamente foi devidamente acondicionado ao seu caixão, e todos puderam fazer um breve inventário dos possíveis danos que cada um havia sofrido na desvairada fuga.

No desespero que cada um enfrentara, todos esqueceram o pobre Quinca e, quando finalmente deram por falta dele, perceberam que sua cadeira de rodas estava vazia. Nesse momento, organizou-se uma verdadeira frente de buscas para tentar encontrá-lo.

Por mais de meia hora, chamaram por seu nome. Primeiro, dentro da casa; depois, ao redor, pelo lado de fora; e, em seguida, um pouco mais distante, mesmo que aquilo parecesse um completo absurdo, pois, em toda sua vida, ele jamais dera um único passo sequer.

Mesmo assim, fizeram uma varredura em um raio de quase duzentos metros ao redor da casa e, quando já estavam prestes a desistir e esperar pelo nascer do sol, encontraram-no morto, enrolado nos arames farpados de uma pequena cerca que circundava um velho chiqueiro.

 De alguma forma, – sabe lá Deus como – ele havia descido de sua cadeira e fugido como todos os outros fizeram, mas, em completo desespero e sem saber para onde estava indo, acabou se enrolado ao arame, morrendo enforcando. Sua mãe que sempre cuidara dele, ouviu suas preces e veio buscá-lo...

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Ladrinha de Retrato

Abria os relicários das casas em que entrava, remexia fotografias e roubava pedaços de carta. Amaria tanto o mar... e quão bela era a Macedônia!…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Abria os relicários das casas em que entrava, remexia fotografias e roubava pedaços de carta. Amaria tanto o mar... e quão bela era a Macedônia! Morria de medo do altar, e ria à virgem, medonha, sempre em vigília no canto do corredor. Morria de medo de alma, corria do escuro à cama e cobria-se de lençol. Lascivo horror...

“Menina travessa, menina ruim!”

Quebrara outra louça de herança... e como lhe odiaria sua avó! Se ao menos conhecesse...

Fervilha a noite, mexe com ela o demônio da indignação... Cansada de ser menina velha, cansada de ser trapo. Miserável e, ainda assim, vestida em tecido de qualidade, pendurada, todo dia, num urso pardo. De pano, é claro!

— Não quero, não, senhor. Tenho medo de ir pro inferno — E deságua a cachoeira, volta de sapato sujo, vestidinho ensopado. Crueldade com a empregada, “menina ruim, criatura da minha raiva.”

Vigia, vigia a janela, Emilinha, que é pra nenhum bicho entrar; vêm lhe buscar, vêm comer os vestidos e rasgar as novelas. Vêm-te punir, pois tu és melindrosa! Vêm buscar-te a alma.

E corria, outra vez, pra debaixo do lençol.

“É a última vez que roubo retrato! É a última, senhor!”

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Asas nos pés da fugitiva

Vestiu-se, apressada, do manto grosseiro rumo ao ôco do inverno. Cavalarias, praguejos, convites de funeral… o inferno a incendiar os céus!…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

“Se opuseram, senhora.”

Vestiu-se, apressada, do manto grosseiro rumo ao ôco do inverno. Cavalarias, praguejos, convites de funeral… o inferno a incendiar os céus! “Era tão jovem… era tão belo…” Retirou do armário quatro ou cinco frascos da valeriana, dois de olíbano e um da mais búlgara rosa. Lavandas, folhas em branco, água de laranjeira; velas que, segundo bisbilhoteiros transeuntes, eram feitas de gordura humana e ambarada. Mais livros que roupa, arames no fecho das bolsas, estatuetas de Héstia; colares de rubi; três ou quatro casacos.

“Basta!”

Tudo tinha. E nada deixava a ser encontrado. “Dê tudo às meninas do cais, distribua entre suas amigas. Fique com o que quiser, também.” ternamente, agradecia-a com olhos e pulseiras de brilhante que, àquela altura, já não lhe traziam serventia. Partia, rumo à terra dos exilados. “Bruxa maldosa”, “fera fugida do submundo”, a “eterna mal-amada”, repetiam. Esperavam-na na praça, os vendedores e as costureiras, políticos e patrícias, todos para assistir ao rolar daquela cabeça, toda feita da ventania. E tanto queriam ver, num sopapo de lâmina, o cabelo voar… quão deliciosamente odiavam… e seguiam, a praguejar.

“Sem direito a defesa, por escolha do conselho.” Queriam a cabeça, o pescoço e toda a honra que um dia tivera. “Maldita seja!” gritava um ou outro, e muitos eram os nomes que recebia. Pouco se importava que falassem os amigos da família, as mulheres que sempre tivera de cumprimentar, o marido de sabe-se lá quem... Bem sabia que o conselho era pago para pensar. “Não há oráculo, não tem sabedoria nesses velhos, que raio de substância compõe este conselho, afinal?!”

“É a ordem, querida. É como funciona a vida.”

Na escrivaninha, o fumo que não terminaria, cartas que não seriam entregues e a procuração, em horrendo estrelismo ao centro da mesa. “A quem tentam enganar?... Com que balança pesam a escolha da vida e da morte? Como conseguem enfiar o peso de oitocentos cavalos numa decisão?... Sem direito à defesa. Como bicho.” e certo é que bicho se sentia. Rangia os dentes e dizia-se — fitando no espelho o amargo dos olhos — que seria sua, a vida. Não mais de um homem! Não mais do amor. Seria sua!

— Dois soldados passaram na rua da frente… mais trinta ou quarenta minutos até que passem novamente.

E aprontava, a si e às malas. “Não precisaria fugir se não o tivesse matado… não o mataria se não tivesse tentado matar-me primeiro.” E seguia, desnaturada. Caminhante vulcão, deserdada por Hera, terrivelmente distanciada de tudo aquilo que era. De tudo que existia até o último mês.

Dizia a carta que claras são as leis. A envenenadora deveria vir a público e enfrentar o peso da justiça. Matara Mateo, afinal! Como justificaria a crueldade infeliz de assassinar o único filho do procurador? Como explicaria à pobre mãe o porquê de impor, a seu doce menino, tamanha dor? Vomitara parte das vísceras, eles sabem. Ah, amargo cianeto… alega a menina que ouviu, somente, o conselho de uma bruxa mesopotâmica que passava. “A tudo se dá, a todos escuta!”, dizia o procurador ao investigador principal.

Mais falaria se soubesse, mais falaria, se conhecesse, à peça. Cantava com lamúria profunda, “voz de enterro”, repetiam os vizinhos; chamava a chuva sempre que queria empatar o andar da cidade e nunca, nunca abaixava a cabeça aos generais que passavam. Agora, condenada… Condenada! Mas não havia de dar o gosto àqueles que criaram um monstro, alimentado com ambrosia e endossado sua desonestidade. Não havia de render espetáculo à deglutição funesta dessa gente ruim.

— Queime esta porcaria de procuração… diga a mamãe que eu parti.

— E se perguntar-me para onde?

— Conte o que sabe.

— Mas, Isolda, eu não sei para onde está indo!

— Exatamente, querida! Conte o que sabe.

Fugiria, viveria na Itália, escondendo-se num convento e fingindo rezar. Abençoaria, noite e dia, a vida que fica; soterrando com terra de jardim o amargo daquelas feridas. Vingaria a primavera daquela pele febril. “Dane-se Saturnália! Danem-se os parentes daquele mesquinho, dane-se a vida que tive na Grécia! Não existe mais Grécia para mim… perdoe-me, Athena, por não ser como as boas… Por não enfrentar a morte… perdoe-me…”

E num levantar de folhas, as árvores contavam — em pleno silêncio — que honra alguma há em sacrificar-se. Matara para viver, e viveria.

A tempestade rugia, feroz, em tortuosa melodia, lembrando-a, a todo instante, do sino e do lodo das rochas; fervia o leite e temperava de especiaria.  Eruptiva garganta, estômago inflamado… morta por dentro, morta para esta terra e morta para eles; tão longe de ser compreendida… “apressa-te, menina, ou vai perder o barco!”

Bebia, hora ou outra, do frasco de lavanda francesa, fugindo do ópio dos ingleses. A tormenta vinha mansa, maldosa, no seio do sono. Inquieta passagem de estrelas, estranho burburinho dos viajantes que seguiam, tão pouco interessantes. Paralisava-se no remoer constante das raladuras de sua alma, outrora luminosa. Outrora feliz. E, por segundos, congelava em divagação, tornando por interrupção, “uma água, madame?”

Como doía a vida… quão ingrato era o amante que achara de ter… Velha prosa em desmantelo… torrente aguda que insistia em desaguar — queria não ter memória, e queria limpar-se daquele homem maldito, e, por horas, queria não mais ser gente... E sorria, em busca de confundir o enfado, no rumo da doce Itália. “Talvez uma fuga ou outra, talvez uma tarde na cidade...”

Manhãs em prosa com os panos de chão, túnicas a remendar, baldes cheirosos… comida quente; sabor algum, exceto nas noites de vinho — pouco e às escondidas —. E o pão… “deixa passar, Amália, deixa passar.” — Mais ainda fermentava. Comíamos, e quão bom era o estrago; deitar à luz do luar, procurando constelação e zombando das idiotices do passado. Todo mundo tinha história, todo mundo tinha alguma vergonha a contar. Morríamos de rir das de quedas, mais ainda das brigas por meninos e das tias, com seus romances clérigos. E a conversa sempre findava num quarto escuro, sob a sombra de um pai desprotetor, ou de um irmão malvado. E de tanto remendar os panos, aprendia a remendar a si e às outras, tão quanto, feridas.

“Paciência com o amargo das mais velhas… nunca se sabe o porquê de estarem aqui.” “Tantas não chegam pela fé, mas em fuga, dos outros ou de si.”

E perdoava a grosseria, a bronca, a piadela. Perdoava o que se podia perdoar. E dentre elas, a irmã Zélia, bruxa oculta e curandeira, a quem sempre recorria quando precisava chorar. “Reze em mim, irmã… mas reze com folha e flor…” e ela rezava. Amornava a água que, por dentro, fervia e espantava os miasmas com palavras d’outro lugar. “E que tua mãe te abençoe”, dizia a voz, de fumo e camélia.

E no descarrilho da noite, atormentava-lhe o fel da alma. “Por quanto tempo fingirá ser freira neste convento? Como viverá sem liberdade?” Perguntava-lhe a sombra esgueirosa que em toda parte se fazia presença — a voz do desprezo, entoada das cavernas de dentro. “Ao contrário.” respondia-lhe. E sabia, viveria Athena e o lago, viveria Artemis, as ninfas e os sátiros no véu de cada madrugada. “Aquosas são as formas da liberdade.”, repetia, e muito acreditava. Ficaria o tempo que precisasse. Pouco seria.

O tempo engolia, à farta colherada, a dor daquela que encontrou no amor a inominável deslealdade. A face que não se mostra; o avesso monstruoso. Pouca gente sabia que trazia, Mateo, feridas de lepra em seu caráter, e tão bem fingia que era bom... Tão bem forjava o amor… risonho, juvenil… carne macia e preenchida da vaidade mais vazia. Seguia, ela, lavando os panos. Mãozinhas embebidas de toda a culpa que não era sua. “deixa lavar, deixe que a água leve embora esse sofrer…” — E não mais questionava o curso dos rios. Não chorava pecado algum, e grande esforço fazia para não perder um único acordar daquele céu, de alaranjada explosão — algodão a abafar a melodia chorosa das iniquidades e da miséria escondida, num pequeno bolso de sua mala.

Acostumou-se às pedras — à memória, ao fantasma —. Embriagava-se de valeriana e plantava lavandas no canteiro lateral. O doce rapaz apodrecia, numa cova de família. Reinavam as flores, no solo acima, com beleza magistral.

Na Grécia, procuravam por Isolda. Na Itália, Leonora escrevia versos e cantava, com o ar que persistia nos pulmões. Cantava, para espantar toda maldade que, um dia, cruzou a estrada. Louvava à sorte, à ventania e ao coração.

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Amor do Pai

Ismael viveu toda a sua vida intimamente com o medo, que era seu melhor amigo, amante e confidente. Sentia-se perseguido a todo momento…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ismael viveu toda a sua vida intimamente com o medo, que era seu melhor amigo, amante e confidente. Sentia-se perseguido a todo momento, e uma voz discreta no fundo de sua mente sempre o lembrava de olhar por cima do ombro ou dormir com a luz acesa no quarto.

Aos vinte e dois anos, atacou um idoso enquanto gritava que o andador dele eram tentáculos. Isso ocorreu à luz do dia, em um mercado famoso da cidade. O resultado foi uma internação compulsória até que a situação se estabilizasse.

Aos trinta anos tornou-se padre, encontrando paz de mente na santa casa, sob o zeloso e amoroso olhar do Pai. Mas, no fundo de sua consciência, ainda ouvia a voz que o lembrava de olhar para trás quando estava sozinho.

Em uma noite de chuva torrencial, no calor escaldante do janeiro campinense, Ismael estava ajoelhado sozinho em frente ao grande crucifixo da nave da igreja. Rezava fervorosamente, pois sabia que o horror da paranoia havia retornado. Solicitava, com angústia, ser guiado a um estado de espírito elevado que o fizesse esquecer a alucinação que tivera há poucos momentos.

A igreja estava sem energia já fazia horas. Ele escutava sons alienígenas e aterrorizantes vindos de um corredor escuro à direita, próximo de onde encontrara o corpo do jovem coroinha. Era um eco agudo que passava por cima de suas orações, não importando o quão alto rezasse.

Cravou as unhas na coxa; a dor trazia paz, silêncio e a bênção da santa casa. Funcionou.

O barulho que invadia sua mente e destruía seus pensamentos cessou. Continuou rezando e se machucando por mais alguns instantes para garantir. Chorou de alegria ao concluir que havia sido bem-sucedido. Encontrou na escuridão a paz e o amor que só o Pai e sua casa poderiam proporcionar. Agora, teria que encarar seu medo para provar a si mesmo que não havia corpo algum.

Entrou na sala mal iluminada pela lua. O corpo não se encontrava entre as mesas e cadeiras. Respirou fundo, aliviado. Sentia-se feliz agora que tinha O guia para conduzir sua mente atormentada.

Virou-se para se retirar aos seus aposentos e cuidar do ferimento na perna, mas se deparou com dois seres que o observavam estáticos.

Ambos eram de um azul estrelado, como se galáxias habitassem seus corpos. Seus crânios eram desproporcionais ao resto do corpo, como bolhas que correspondiam a metade de suas alturas totais. Os corpos humanoides eram pequenos e de aparência gelatinosa.

A garganta de Ismael fechou, e ele não conseguia respirar. Tremia e gritava, em silêncio, que estava alucinando.

Ergueu os olhos em direção ao horizonte, ignorando os pequenos seres, da forma como havia treinado a vida toda. Deu dois passos à frente e sentiu algo gelado pegar suavemente sua mão, de forma quase carinhosa. Outro ser envolveu sua coxa na região da ferida que ele havia feito há pouco.

Agora, produziam um som que parecia uma canção da igreja. Sentia o corpo frio e a visão escurecendo rapidamente. O pequeno ser que havia envolvido sua perna com o braço ficava cada vez mais vermelho, transformando-se lentamente em uma galáxia carmesim.

Ele acordou algumas horas depois, cercado pelos irmãos e irmãs da igreja. Conseguia ouvir os pensamentos de todos em sua cabeça. Moviam-se e cantavam alegremente, procurando mais pessoas para trazer à comunidade.

Agora ele ouvia ao Pai, ouvia a todos e todo ouviam ele.

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Infindável

Certa noite, enquanto as notas cítricas de um vinho chileno me aqueciam, recebi um e-mail de um velho amigo. Após lê-lo, fiquei feliz e respondi que…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Certa noite, enquanto as notas cítricas de um vinho chileno me aqueciam, recebi um e-mail de um velho amigo. Após lê-lo, fiquei feliz e respondi que iria imediatamente. Havia uns bons anos que não o via. Guardei o vinho na geladeira, troquei de roupa e, depois de dirigir alguns quilômetros, avistei sua casa.

Ele morava no alto de uma belíssima falésia. Sua casa era uma construção no estilo A-frame, toda de carvalho, com duas janelas altas. Estacionei o carro e, por alguns minutos, contemplei a vista, que eu quase havia esquecido o quanto era encantadora.

Permiti que meu olhar se perdesse naquela paisagem, que mais parecia uma pintura. Acima de mim, o céu, onde as poucas nuvens se moviam com certa rapidez. As estrelas ostentavam um brilho assustador. A lua estava minguante (fase que acho mais encantadora). À minha frente, a imensidão do mar e seu pacífico quebrar de ondas.

"Preciso entrar!"

Antes que eu pudesse concluir meu pensamento, minha atenção se voltou para a porta. Ouvi o trinco mover-se vagarosamente, assim como o ranger dos ferrolhos enferrujados. Então, ele surgiu no canto (um pouco abatido, é bem verdade). Trajava um conjunto de moletom preto e chinelos, mas continuava o mesmo. A barba grisalha escondia parte das rugas. Com um sorriso tímido, gesticulou para que eu entrasse. Eu estava feliz por vê-lo.

— Venha, entre, caro amigo.

Sua voz rouca, acompanhada de um pigarro, reverberou naquele lugar.

Ao entrar, olhei em volta e percebi que nada mudara. Era uma casa de tamanho considerável, dividida entre cozinha, sala e uma suíte. Ao lado da porta, ficava uma mesa redonda preta, com duas cadeiras. Na sala, o velho sofá de couro marrom. À sua frente, uma bela lareira e, acima dela, uma cornija esculpida em mármore, exibindo fotografias e algumas conquistas pessoais. Mais à frente, encontrava-se uma janela grande, por meio da qual era possível enquadrar a lua com toda sua graça sob o firmamento estrelado. Abaixo dela, uma confortável poltrona de couro marrom, que resistiu bravamente ao tempo. Notei também uma garrafa de whisky sobre uma mesa de canto, acompanhada de dois copos.

— Fique à vontade.

Apontou para o sofá e, em seguida, dirigiu-se à poltrona.

— Veja, Tomé, a noite está nos proporcionando um verdadeiro espetáculo. Tenho algo para você.

Ele abriu a garrafa, exalando notas de caramelo, maçã, laranja e baunilha. Após isso, encheu os copos até a metade. Em seguida, brindamos. Confesso que fazia tempo que não bebia whisky; logo senti o ardor em minha garganta, acompanhado de notas amadeiradas.

Sorriu e disse que era um whisky escocês muito raro. Em seguida, perguntou se eu queria ouvir uma música. Foi até o quarto e trouxe uma vitrola, que deixou próxima à lareira. Escolheu um vinil do qual tinha boas lembranças: tratava-se de uma coletânea de Robert Johnson. O som da agulha deslizando no vinil era quase fantasmagórico. Em seguida, vieram as notas agourentas de sua guitarra, acompanhadas de sua inconfundível voz.

— Ah, Tomé, como é bom revê-lo. Sabe, não tenho tido muitas visitas, e ver um rosto familiar sempre é animador.

A melancolia estava presente em cada palavra.

— Eu que peço desculpas por não ter mais aparecido, João. Minha vida está bastante confusa. Me separei, não estou conseguindo produzir como antigamente. Tudo que escrevo soa medíocre. Mas trabalho com revisão de textos e escrevo para uma coluna no jornal. E você, como está?

Ele sorveu a bebida por completo e, enquanto acrescentava mais, disse:

— Não tenho do que reclamar. Tive uma vida dura, mas incrível. O mar me fez conhecer lugares que jamais imaginei conhecer. Colecionei muitas histórias...

Passou as mãos na testa e nos poucos cabelos que lhe restam. Então, continuou:

— Porém, eu tenho vivido de lembranças. As aventuras que tive no mar são o que me mantém vivo. Velejei minha vida inteira, hoje em dia estou aposentado. Quanto ao dinheiro, tenho uma boa quantia no banco, devido aos longos anos de trabalho no mar.

— É verdade, João, você era um exímio capitão. Conhece o mar como ninguém, enfrentou a terrível imensidão inúmeras vezes. Sem dúvidas, vivenciou situações deveras difíceis. Brindamos a isso. Viva!

Em seguida, conversamos por mais algumas horas. A garrafa já passara da metade. Ele encheu mais uma vez os copos e, inebriado, disse:

— Tomé, de todas as histórias que você ouviu, existe uma que me assombra. Durante todos esses anos, guardei-a a sete chaves.

Sua fisionomia adquiriu tons graves; seus olhos inertes brilhavam sob aquele turgido luar. Ele continuou:

— Sabes que o mar, em sua grandiosidade, esconde segredos inimagináveis. Não tenho explicação para o que me ocorreu naquela horrenda noite.

Ele respirou fundo, bebeu mais um pouco e, ao som de "Hellhound on My Trail", iniciou sua narrativa.

O céu exibia um lindo entardecer, onde tons alaranjados se misturavam ao azul escuro. No horizonte, o sol, em sua beleza arrebatadora, brilhava. Notei também pinceladas de rosa e roxo. Uma obra-prima!

As condições eram perfeitas. Era verão, 15 de janeiro de 1998. Decidi comemorar minha aposentadoria com um passeio. Verifiquei todo o casco, chequei também a proa, assim como a popa. Convés e porão foram inspecionados, assim como as velas e cabos. Por último, o leme e a âncora. Era uma embarcação de porte médio. Meu anemômetro estava com defeito, porém, ao longo dos anos, aprendi a calcular o vento com base em observações e anotações.

Ergui as velas ao ar, pedi licença aos mares e iniciei meu passeio. Aparentemente, estava tudo tranquilo. A noite chegou rápida, usurpando a luz do dia e trazendo uma brisa fresca. Liguei o refletor e segui.

Te digo: não importa o quão experiente você seja, o vazio marítimo te causa calafrios. Mesmo com o luar e as estrelas, o breu se torna quase tangível.

Desliguei um pouco o motor e segui, até que, em determinado trecho, notei uma brusca mudança nos ventos. Se não me engano, eles estavam a trinta e quatro nós, fazendo as ondas se agitarem...

A uma certa distância, sob a luz do refletor, enxerguei algo semelhante a uma ponte. Definir seu começo e seu final era uma tarefa impossível. Parecia infindável.

Meus olhos arregalados não podiam acreditar naquela visão medonha. Você pode conhecer os mares como a palma de sua mão, mas nada te prepara para o desconhecido. Ela parecia flutuar sobre as águas. Era possível ver o topo das colunas que a sustentavam e, imaginar sua dimensão, causou-me verdadeiro terror. Tentei manter a embarcação trimada, mas as águas estavam revoltas.

É em situações como esta que percebemos o quão frágeis somos. Aquele monumento colossal era um lembrete de que não passamos de poeira cósmica habitando um planeta minúsculo.

Enquanto me perdia em meus devaneios, vi que estava mais próximo. Trovões intensos revelaram mais detalhes. Notei a presença de inúmeros postes, todos enferrujados. A estrutura estava coberta por uma viscosa camada de musgo ao longo de sua lateral.

Olhei para o céu, e o clarão dos relâmpagos rabiscava formas monstruosas sob as nuvens. Estava aterrorizado. Existia uma força cósmica naquele trecho, a qual nem ouso imaginar.

Por sorte, a distância em que me encontrava permitia voltar, mas seria um trabalho árduo. Mesmo com a curiosidade corroendo minhas entranhas para descobrir o que aquela construção nefasta escondia, permanecer ali seria assinar meu atestado de óbito.

Liguei o motor e girei o leme até o limite. Porém, senti a embarcação sofrer uma desestabilização, deixando-a à deriva. Algo me impedia de ir embora.

Após quase naufragar, consegui, aos poucos, retomar o controle da embarcação. Enquanto minhas trêmulas mãos seguravam o leme com afinco, de costas para a ponte, praguejei-a.

Tentei ignorar, mas não consegui. Mesmo temeroso, olhei por cima dos ombros pela última vez. Então, ouvi nitidamente os ventos soprarem meu nome, como se fossem um funesto coral formado por inúmeras vozes vindas do abismo. Elas ocuparam toda a vastidão do mar.

Implorei ao universo forças para sair dali.

Após longas horas, consegui fugir. Já não via mais a construção.

Gritei até não poder mais. Até que enxerguei a beira da praia. Parecia até uma miragem.

Joguei a âncora e desembarquei. Cheguei em terra firme. O dia começava a surgir timidamente. Foi maravilhoso ver luz.

Ele terminou aquele relato medonho com um olhar vazio e assustador. Eu estava apavorado. Sem dúvidas, foi uma experiência impressionante. Perguntei se estava bem. Ele disse que sim. Contar sua vivência foi libertador, pois ninguém sabia o que ele havia passado.

Permanecemos em silêncio enquanto "Crossroad Blues" preenchia o vazio.

— João... — Minha voz quase não saiu — Meu caro, eu sinto muito pelo que você passou. Mas saiba que estou aqui. Sabes que sempre podes contar comigo. E não se preocupe, levarei seu relato até o dia da minha morte.

Ele agradeceu minha companhia por ter ouvido seu relato.

Ao se despedir, disse:

— Lembre-se: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."

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O Sangue da Bruxa

Como de costume, ela caminhava sozinha pelos corredores do castelo, seus longos cabelos negros reluzindo com um brilho…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Como de costume, ela caminhava sozinha pelos corredores do castelo, seus longos cabelos negros reluzindo com um brilho azulado sob a pouca luz. O corredor que percorria era ladeado por uma extensa varanda de mármore, com vista para as imponentes montanhas envoltas pela neblina matinal. A penumbra de um céu nublado tornava o ambiente ainda mais sombrio, mergulhando tudo em uma atmosfera de mistério e quietude.

Uma voz masculina ecoava ao longe, chamando pelo seu nome. Ela não se virou para olhar, mantendo o passo sereno e despreocupado. Estava descalça, e o vestido preto, longo, era adornado com rendas e bordados delicadamente alinhavados que emolduravam a saia. Ao alcançar a varanda, ela parou, deixando o vento brincar com o tecido enquanto aguardava calmamente que a voz se aproximasse. Aquele era seu pai o rei Kheas, cabisbaixa ela apoiou o braço no mármore frio, sem olhar para a figura autoritária ao seu lado, como se já soubesse o que iria ouvir.

— Minerva! Já disse que não é adequado andar descalça pelo castelo, mesmo sendo o que somos...  — ele parou ao lado dela, penteando a barba longa e ruiva com os dedos. Kheas era um homem esbelto, tinha olhos fundos cor de mel e sempre se vestia com cores escuras.

— Não tenho o direito de sentir o chão do castelo? — respondeu ainda sem olhar para ele.

— Essa é uma atitude antiga demais, não precisamos mais fazer isso.

— E o que você sabe sobre as coisas antigas? — perguntou ela, com os olhos fixos no topo de uma montanha distante. O queixo repousava sobre a palma de sua mão direita, enquanto um suspiro desanimado escapava de seus lábios, carregando um ar de melancolia.

— Não fale coisas sem nexo, você é parte deste reino e eu sou a autoridade maior. Te espero na Sala das visões. — Ele se retirou com uma postura controlada, sem demonstrar irritação. No entanto, ela sabia que suas palavras o haviam incomodado.

Em outro momento, ao ser questionado por ela dessa maneira, agiu de forma oposta. O resultado foi a princesa passar quase um mês com o rosto escondido por um véu negro. Seus olhos azuis, agora vermelhos como sangue, estavam constantemente marcados por lágrimas silenciosas. Em seus pensamentos sombrios, ela jurou a morte de seu pai, Kheas.

Uma jovem princesa, filha da magia e das montanhas, vivia confinada, presa às mesmas correntes que um dia aprisionaram sua mãe, a rainha Nuara. Por anos, o rei as tratou como meras joias da coroa, belas, mas silenciadas. Ele explorava os poderes e a inteligência de ambas, mas nunca lhes concedia o verdadeiro crédito por seus feitos.

Nuara era conformada com sua condição, enquanto a filha não aceitava, de nenhuma maneira, aquela forma de vida. Suas fortes personalidades eram tidas, por todo o reino, como flores da meia-noite: muito delicadas. A beleza das duas chamava atenção. A corte e o povo não imaginavam que a genialidade das construções e da gestão era, na verdade, autoria das duas, que eram confinadas ao disfarce do silêncio.

Minerva carregava consigo um rancor profundo, fruto de anos de sofrimento silencioso. Ela não era uma rosa delicada, mas sim uma pedra preciosa e rara, dura como um diamante — um diamante que seu pai insistia em tentar quebrar. Tratando-a como um mero objeto de estudo, ele a subjugava com sua autoridade, reforçando que ela era parte do reino e devia obrigações. No entanto, o pior de seus atos deixou marcas irreversíveis: ele a transformou em cobaia de uma transmutação, um experimento cruel que deixou cicatrizes não apenas em seu corpo, mas também em sua alma.

O Reino da Áugures, um lugar onde os segredos da ciência antiga eram guardados nas sombras, era o domínio de Kheas, um alquimista obcecado pelo que todos buscavam: o conhecimento absoluto. A imortalidade, uma dádiva rara de sua raça, não era o suficiente para saciar sua sede insaciável por poder. Em sua busca, ele ousou realizar o impensável, transmutou sua própria filha, Minerva, fundindo-a com uma loba.

A forma resultante foi a maldição do reino, um reflexo de sua crueldade. As dores da transmutação não apenas afetaram seu corpo, mas também corroeram sua mente. Durante meses, Minerva permaneceu como loba, uma criatura atormentada pela dor física e pela confusão mental, enquanto o reino, agora marcado por essa transformação sombria, ecoava os ecos de seu sofrimento.

Sem conseguir reverter o processo, Kheas trancou Minerva em uma cela no calabouço do castelo, condenando-a a viver em sua forma monstruosa. Mas foi quando Nuara, a rainha, interveio, determinada a salvar sua filha, Nuara fez ajustes em elementos místicos e, com grande esforço, conseguiu libertar Minerva de sua forma de loba, mas ela ainda transmutaria na lua cheia.

Cada vez que a transformação acontecia, ela chamava esse processo de "rasgar a pele", pois sentia como se sua essência fosse dilacerada, dividida entre duas existências, forçada a conviver com a dualidade de sua natureza. Em condição de loba, ela se tornava um pouco inconsciente de si própria, era uma enorme fera de pelos negros. Avistá-la era assombroso. Seu corpo se contorcia e sua pele se rasgava. Uma bruxa em pele de loba, insana nas noites de lua cheia.

Ela caminhava em direção à Sala das Visões, o peso da tristeza obscurecendo seus passos. Era hora de revelar os planos de Kheas, um segredo que pesava mais do que o próprio silêncio que envolvia o castelo. A Sala das Visões era uma biblioteca peculiar, circular, com estantes escuras de jacarandá que se estendiam até o teto. Cada prateleira estava repleta de livros antigos, escritos em línguas que desafiavam o entendimento de muitos. O ambiente, sem janelas, parecia sempre imerso em uma sombra perpétua, e o frio que emanava das paredes parecia penetrar até os ossos.

 No centro da sala, um pentagrama intricadamente desenhado no chão servia como base para uma mesa redonda, onde repousava um candelabro de ouro negro. Criado pelas primeiras bruxas do reino, o candelabro emanava uma luz tênue e distante, como se carregasse consigo séculos de feitiçaria e sabedoria ancestral. Ela sabia que, naquele lugar, cada segredo do reino estava guardado, e agora era sua vez de desvendar o mais sombrio deles.

Minerva utilizava o candelabro negro para acender as suas velas ao realizar, ritualisticamente, as leituras de tarot, as bruxas do passado eram suas guias durante o processo.  Kheas já estava lá sentado à sua espera. Ao chegar diante do local, ela respirou fundo enquanto olhava o ouroboros de madeira esculpido na porta. Aquela serpente engolindo a própria cauda sempre a lembrava de sua primeira transmutação. Sempre se repetiria. Pedindo forças à magia, ela entrou e foi até o centro, sentou-se à mesa já prevendo o que ele iria perguntar, o que sugaria sua energia naquela tarde.

— Preciso saber se seremos bem-sucedidos na comemoração de amanhã, onde você conhecerá seu noivo. — Ele estava sério com os olhos fixos nos dela.

— Acontece que já o conheço, ele só não sabe o que você fez com a noiva dele. — a voz dela soava trêmula.

— Você entendeu o que eu quero dizer.  Preciso que saiba controlar a sua situação para que nada saia do comum amanhã na lua cheia.

— Para que a maldição que me impôs não atrapalhe a aliança entre Áugures e Zhale? Ele não sabe das histórias que contam por aí?

— Minha querida, o rei Hansert será um bom marido. Já que se amam, seja sensata!

— Ele não sabe por sua culpa! – exaltada ela parou de súbito, respirou fundo e continuou. — Vamos às cartas...

Ela respirou profundamente, posicionou a vela no candelabro e a acendeu, permitindo que a chama dançasse com suavidade. Sob a toalha especial, espalhou as cartas de tarot, seus dedos acariciando o tecido enquanto sua mente se concentrava no que estava prestes a acontecer. Com um movimento lento, sua mão direita se ergueu no ar, percorrendo as cartas, captando a energia que elas emanavam.

A primeira carta foi puxada com cuidado e colocada sobre a mesa. Seus olhos estavam fechados, os lábios murmurando palavras antigas, enquanto as mãos trêmulas sentiam a conexão entre o presente e os destinos que estavam prestes a ser revelados. A sala parecia suspensa, aguardando o desfecho das forças que se alinhavam diante dela.

Novamente ela percorreu a mão pelas cartas sentindo a energia que atraía sua mão e escolheu a segunda, o mesmo foi feito na escolha da terceira.

— A primeira carta é O Mundo, quer dizer que o momento é propício, a festa pode sim ser muito bem aproveitada.

— Enquanto a segunda carta? — perguntou ao apontar.

— A segunda carta é O Diabo, pelo contexto você está preso a alguma coisa. Suas conquistas que escondem o que você realmente é. Isto provavelmente está ligado ao que aconteceu que você tanto deseja esconder do mundo.

— Não é isso que eu quero saber, Minerva! — ele falou com rispidez.

— A festa vai ser bem-sucedida. O rei Hansert ficará feliz, só que esta carta do Diabo mostra um apego forte aos seus bens e diria até mesmo... O medo de se perder tudo! Ela está invertida. Indica que é o momento de olhar para o seu ego, pai! Não é o momento de esconder mais nada! — ela estava apreensiva.

— Chega, não preciso ouvir você! — ele gritou, sua voz ecoando pelas paredes da sala. No mesmo instante, a marca da transmutação de Minerva surgiu em sua mão esquerda, uma linha vermelha incandescente que iluminou a palma com um brilho intenso e ameaçador. Ela, no entanto, não se intimidou. Ignorando o fenômeno e a fúria dele, continuou a leitura.

— A terceira carta é o Enforcado. — Houve uma pausa em sua fala — O que você deseja exige sacrifício e, pelo visto, você está disposto a fazer.

— Você sabe que sim. Amanhã é lua cheia, e, se for necessário, eu a trancarei. Não ouse usar seu poder contra mim amanhã à noite. Sua língua será selada, e você não pronunciará uma única palavra, seja como bruxa ou como loba, se é que a fera é capaz de falar e não apenas rugir! — declarou ele com frieza, cada palavra carregada de ameaça e controle.

— Sim, meu pai, eu não pretendo te envergonhar em uma noite tão importante! – disse ela, ironicamente.

Ele se levantou da mesa e deixou a sala sem sequer agradecer pela leitura feita. Minerva, com os nervos à flor da pele, pressionava as têmporas com força, tentando conter a irritação que pulsava em sua mente. Ela soprou a chama da vela revoltada, guardou suas cartas e saiu de lá sem finalizar o ritual devidamente. A porta da sala ficou aberta, dividindo o círculo do ouroboros ao meio.

***

Minerva estava em seu quarto, acariciando um enorme gato preto. Ambos estavam deitados em um sofá espaçoso, escarlate como sangue, a lua invadia o lugar pela janela longa em formato de lanceta. Seu pensamento estava distante, um recado de Hansert foi entregue a ela, enviado por um corvo astral que entrou pela janela. A tinta do bico de pena ainda estava com o cheiro forte, estava escrito:

 “Logo nos encontraremos, filha da penumbra, dona do meu coração.”

Amavam-se, porém, ele não sabia que a sua condição de loba era feral. E ela tinha planos para que isto mudasse. Ele acreditava que ela era uma beldade atormentada pelas dores de sua “pele rasgada”, Kheas o convenceu de que, como loba, ela era consciente e o casamento era um sinal de aliança entre dois reinos sábios. O segredo de Minerva, supostamente, seria uma herança para os futuros herdeiros dos dois reinos.

Rosas vermelhas adornavam cada cômodo, seu perfume intenso contrastando com a escuridão. Os convidados, trajados elegantemente em preto, moviam-se com uma graça quase teatral. Zhela e Áugures, repletos de segredos e histórias compartilhadas, estavam finalmente reunidos sob o mesmo teto, sob a vigília silenciosa da noite.

A noite da festa estava especialmente escura e as nuvens no céu eram vermelhas, a lua se escondia nas trevas. O castelo estava decorado com muitos castiçais, haviam rosas vermelhas distribuídas pelos cômodos e as pessoas estavam elegantemente trajadas em preto. Zhela e Áugures estavam no mesmo lugar.

Minerva estava em seu quarto, mas a sensação que a envolvia era a mesma de quando estava na masmorra. Para ela, não fazia diferença; sentia-se apenas um experimento, uma criação sem vontade própria. Amarras pesadas a prendiam à parede em frente à janela, e em seu pescoço repousava uma coleira de couro de dragão, presa a uma corrente de aço forjada pelas mãos habilidosas dos anões.

O quarto era tomado por seus gritos, longos e agonizantes, enquanto seu corpo se contorcia, sofrendo a inevitável transmutação. A dor era lancinante, como se sua própria essência estivesse sendo rasgada e moldada novamente sob o peso de uma maldição.

Os gritos de Minerva ecoavam pelo castelo, atravessando as paredes e chegando ao salão onde a música da orquestra real tentava abafar a agonia. O som do piano e do violino se mesclava com os gritos distantes, criando uma melodia tenebrosa. No centro do salão, o rei Kheas mantinha sua fachada inabalável, transformando seu erro em uma nova mentira.

Ele declarou a todos que sua filha havia se voluntariado para o experimento, manipulando a narrativa para proteger sua reputação. A festa, repleta de convidados trajados de preto, celebrava não apenas uma aliança, mas o suposto controle sobre Minerva. O noivado entre Minerva e Hansert simbolizava a união dos reinos Áugures e Zhelas, prometendo consolidar suas forças sob um só poder, ainda que o preço fosse o sacrifício de sua própria filha.

A princesa seria finalmente apresentada em sua forma de loba e as histórias de suas aparições sombrias seriam confirmadas. Esta era a noite das feras, os lobos e as bruxas eram exaltados. As nuvens já se mexiam com o vento, os uivos de Minerva eram altos e poderosos. Todos estremeceram ao ouvir e sentir o poder que emanava vindo dela.

As memórias de sua primeira transmutação sempre pairavam em sua mente. Naquela noite, todos conheceriam a bruxa e loba que nela habitava. Aquela corrente a enlouquecia, ela desejava fugir enquanto sofria. Seus uivos evocavam os uivos ferais de outros lupinos e até mesmo os cães uivavam por ela.  Todos ouviam seu rugido que não mais seria silenciado!

No baile, os bruxos da corte entregavam-se à diversão, seus risos e murmúrios crescendo à medida que se embriagavam com o vinho vermelho como sangue. Entre taças erguidas e olhares conspiratórios, Hansert permanecia inquieto, imóvel durante o evento.

Cada uivo que ecoava pelos corredores do castelo parecia atravessar os ouvidos dele e cravavam alfinetes em seu coração. A dor não era apenas física; era o peso insuportável da culpa e do horror, enquanto a verdade da maldição de Minerva se desenrolava bem acima deles.

Atrás da porta do quarto, a rainha Nuara sofria em silêncio, suas lágrimas vermelhas escorrendo como gotas de sangue que carregavam toda a sua angústia. Cada soluço abafado era uma pergunta sem resposta: por que não conseguia reagir? Por que permanecia imóvel diante da loucura de Kheas? Encostada na parede de pedra fria, ela escondia o rosto entre as mãos trêmulas, enquanto o peso da culpa e da impotência a esmagava. Seu coração estava em pedaços, dividido entre o amor por sua filha e o medo paralisante do homem que chamava de rei.

Enquanto no andar de cima os sofrimentos de Minerva eram ocultados nas sombras do castelo, os dois reis discutiam no salão principal, seus olhares frios e calculistas observando a festa que acontecia ao redor deles. Entre copos de vinho e risos forçados, suas palavras afiadas se cruzavam, trocando acusações e estratégias.

—Rei Kheas, eu preciso vê-la! Ter certeza de que ela está bem.

— Claro que ela está bem! Só precisamos diminuir um pouco toda a histeria da corte.

— O que quer dizer? – Hansert o olhou confuso.

— Seria interessante evitar que ela assustasse nossos convidados.

— Ela está sofrendo com as dores e está acorrentada como um animal, como pode ser tão frio?

— Rei Hansert, lembre-se de que a Minerva que conhece é uma criatura da noite. O que queremos é mostrar força, somos melhores que os homens comuns e sem magia é isto que queremos impor esta noite!

— Não foi isso que você me falou antes, ela poderia ter morrido neste experimento hediondo que você inventou! Só pensa em si mesmo e na magia oculta na escuridão que deseja dominar, como eu fui tão cego?

— Você não compreende. Não tem a noção do poder que está guardado nela, diria que nem ela ainda tem. Não pense que ela sofreu sozinha. — ele desviou o olhar, um vulto sinistramente negro adentrava o salão, todas as velas se apagaram e a música parou.

PELE RASGADA

Minerva estava imersa na dor de suas primeiras memórias da transmutação. A maneira como tudo havia acontecido, foi tirada à força de seu quarto em uma noite tempestuosa, arrastada para um calabouço onde foi espancada e teve a alma violada pelo próprio pai. Por alguns segundos se calou, sabia que estava quase no fim. Seus olhos viam patas no lugar das mãos e a dimensão do ar que respirava era diferente. Ela era uma loba, o presente mais imponente que ganhara de seu algoz e a maior maldição.

IPSO FACTO

 

Todos estavam imersos em um tremor coletivo, paralisados pela visão estática da criatura diante deles. Enorme, ela se destacava na penumbra da noite, seus pelos negros e brilhantes refletindo, de forma fantasmagórica, a luz vaga da lua que adentrava pela janela do salão de festa. A cada movimento, os pelos pareciam brilhar como se fossem feitos de sombras e luar. Seus olhos, azuis e faiscantes, eram como chamas em meio à escuridão. Uma corrente quebrada pendia de seu pescoço, uma marca do passado e da dor que a acompanhava.

Um uivo longo e agonizante rompeu o silêncio, ensurdecendo os presentes, fazendo com que todos se tremessem de medo e fascínio. Kheas, no entanto, a olhava fixamente, diante de algo que ele mesmo havia criado e agora não podia mais controlar. Quando ele deu um passo à frente para se posicionar, Hansert interferiu avisando para que ele olhasse ao redor, uma legião de lobos estava se agrupando ao redor dela. A grande loba encarava os bruxos e bruxas com desdém e fazia menção de falar.

— Esta é minha forma, e esta é minha legião de feras. Esperei muito por isso — a voz de Minerva ecoou com um poder sombrio, reverberando pela sala. Seus olhos faiscavam com uma intensidade ameaçadora, enquanto as criaturas ao seu redor se agitavam, como se atentas à sua autoridade. — Temam a mim e não a ele — continuou.

— Por favor... — Kheas tentou falar, mas foi interrompido abruptamente. Um dos lobos avançou, derrubando-o com força e mordendo-o, ameaçando rasgar sua garganta.

— Somos fortes, e somos um, meu pai! Esses não são bruxos, mas lobisomens que vivem nas montanhas de Áugures. Ele não é rei, é um verme... — Minerva rosnou com a ferocidade de uma líder, suas palavras ecoando com o peso de sua nova identidade.

A multidão, paralisada, observava em choque enquanto os lobos se espalhavam, cada um se aproximando lentamente de uma pessoa. O medo se espalhava como uma epidemia, e o ar vibrava com a tensão crescente. Os lobos, em ferocidade, cercavam a todos, prontos para mostrar que o poder de Kheas havia se desvanecido naquele momento.

Minerva se aproximou de Kheas, que tremia sob o olhar feroz de sua filha, uma loba imponente. O silêncio no salão se estabeleceu por alguns segundos quebrado apenas pelos uivos distantes e pelo som da respiração pesada da criatura. Ela se abaixou até ele, suas garras afiadas tocando sua pele, realizando um movimento rápido e brutal, arrancou a cabeça de Kheas, a engoliu diante dos olhos atônitos de todos.

O sangue jorrou, escorrendo pelo chão, enquanto Minerva ergueu-se, agora mais poderosa do que nunca. O noivo, Hansert, estava paralisado, impotente diante da visão de sua futura esposa, transformada em uma fera imbatível. Ele ficou sozinho no salão, a multidão dispersando em pânico, incapaz de compreender o que havia acontecido. A rainha Nuara observava escondida toda aquela cena.

Minerva olhou para ele uma última vez, seus olhos azuis faiscando com um brilho gélido e distante. Sem uma palavra, ela virou-se e se uniu aos lobos que a acompanhavam. Eles avançaram, e como uma sombra, desapareceram na noite, deixando o castelo para trás. A liberdade estava finalmente ao seu alcance. Em um canto escuro da sala, ela viu a figura de sua mãe, Nuara, parcialmente oculta nas sombras, os olhos assombrados pela dor. Por um momento, seus olhares se encontraram. Ela se aproximou, suas palavras suaves, mas firmes, cortando o silêncio:

— Mãe, venha comigo. Não há mais razão para permanecer aqui!

Nuara hesitou por um instante, os olhos perdidos em uma mistura de medo e alívio. Com um suspiro resignado, Nuara se aproximou e, com a ajuda de Minerva, subiu nas costas dela, montando como uma amazona. Juntas, mãe e filha começaram sua fuga.

Os lobos, como sombras ágeis e implacáveis, se moveram ao redor delas, guiando o caminho para a liberdade. Enquanto o castelo ficava para trás, Minerva sentiu, pela primeira vez em sua vida, que o peso das sombras de seu passado estava finalmente sendo deixado para trás. O destino dos reinos de Áugures e Zhelas estava selado, mas agora, ela era a dona do seu próprio caminho sob o luar.

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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 Diário de Dantesca Nínmia — Trecho nº1

Uma criatura de agoníria atravessara o portal obsidia; foi contida por Somníria dentre as densas nuvens alvililáses, todavia, em sua força sombria…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Uma criatura de agoníria atravessara o portal obsidia; foi contida por Somníria dentre as densas nuvens alvililáses, todavia, em sua força sombria, atravessara a contenção, encontrando-me de súbito, com sua aparência asquerosa e dentes afiados. O líquido negro de sua constituição vertia sobre o derredor, enegrecendo ao violeta profundo as nuvens características do reino… eu temi, por um momento… temi não ser capaz de contê-lo. 

Seu sibilo e grunhido eram terríficos! Sem olhos, a criatura parecia guiar-se apenas pelo som; raízes cinéreas escurecidas formavam a sua asquerosa fisionomia. Para ser tão poderosa assim, receio que não venha d’um pesadelo qualquer, mas sim d’um abíssico trauma. Não encontrei sua origem ainda, contudo, tenho esperanças. Por hora, exausta me sinto… conter a criatura terrífica esgotou meu poder a um nível mortífero…

Adormeci pouco após o incidente com aquilo, e receio que a mórbida coisa penetrara em violência o meu sonhar — ou o pretendia fazer, pois, tive pesadelos de uma estranheza absurda! Parecia-me que a criatura me observava, mesmo destituído de visão. Lorrt tem cuidado do meu sono, quando me esgoto em perturbações, todavia, sei que ele está passando por um momento difícil que o está atormentando… parece que Somníria trouxe Áurea para ele, isso… me intriga, pois… é perigoso, é um risco imensurável para o Somníria e para todos nós.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa

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“Hibisscuss”

Quando me aproximei daquelas ruínas, imaginei que encontraria destroços de um outrora sombrio, objetos deteriorados pelo tempo e, talvez, segredos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Quando me aproximei daquelas ruínas, imaginei que encontraria destroços de um outrora sombrio, objetos deteriorados pelo tempo e, talvez, segredos esquecidos sobre aqueles que já se foram. Mas, não. Ao invés disso, avistei densos arbustos que possuíam uma espécie de flor de hibisco, cor de sangue vivo.

Adentrando nestas plantas, encontrei um recôndito que, como uma clareira, deixava o sol pálido atravessar sutilmente o seu interior e a luz evidenciava uma estrutura fascinante. Era como uma biblioteca em um jardim, possuía estantes de pedra, esculpidas como por um artista antigo. Os livros — sim, as estantes tinham livros inteiros — estavam protegidos dentro de invólucros feitos de algum tipo de rocha, talvez da mesma cujas estantes haviam sido erguidas. Cada livro, em um idioma desconhecido, ocupava um desses invólucros que o preservavam da umidade.

Embora lindo, era… estranho…

O silêncio pairava como uma mórbida presença que, de soslaio, observava. A brisa frígida fazia assemelhar-se a oscilação da folhagem e dos hibiscos, como passos entre a vegetação e isso me assustava. Sempre que me aventurava a abrir um dos invólucros e folear algumas páginas, arrepiava-me a tez como se algo amedrontador estivesse escrito em seu interior. Em um dos livros, notei que a tinta estava ainda fresca…

Cada detalhe me levava a uma inquietação profunda, então fugi o mais rápido que pude após o segundo arrepio, pois, com ele veio o que eu juro ter sido um murmúrio, um sussurro longínquo e tão próximo… acho que esse bizarro som dissera-me “hibisscuss” — arrastando no “s” como o silvar de uma cobra cuja língua freme na ponta dos lábios.

Quando alcancei o nevoeiro outra vez, respirei profundamente aliviada, mas isso não durou muito; notei uma flor daquelas em meu braço, devia ter caído por causa do meu movimento fugaz. Ao puxá-la, senti uma pungente dor. Sua raíz adentrara minha pele, deixando viva a carne por debaixo, como uma ferida profunda. Temi que tivesse algum veneno, todavia, dentre a névoa naquele lugar tão macabro, eu não podia encontrar algo que pudesse ser utilizado para desinfeccionar a ferida.

Em razão daquele murmúrio bizarro, veio à mente a opção de sugar o local para, quem sabe, extrair qualquer veneno existente. Eu, então, o fiz. Sangue. Gosto ferroso. Até ser engasgada com outra flor de hibisco que emergiu do local mais uma vez… puxá-la abriu ainda mais o ferimento inicial. Foi uma dor terrível…

Olhei para a lesão, preocupada e agonizando, e o que vi fora perturbador…vi dezenas… infindas raízes na carne, minúsculas e, sutilmente, em movimento… dentro de mim… mudando a minha humana natureza e transformando-me em uma delas… das flores… por uma maldição sussurrada em meu ouvido…

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa

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Horror Cósmico, Escrito por Michelle S. Nascimento, -Contos Michelle S. Nascimento Horror Cósmico, Escrito por Michelle S. Nascimento, -Contos Michelle S. Nascimento

Vale verdejante

Aquele inverno estava rigoroso. O ar gélido açoitava, sem escrúpulos, a face dos transeuntes e endurecia os seus corações, já embrutecidos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Aquele inverno estava rigoroso. O ar gélido açoitava, sem escrúpulos, a face dos transeuntes e endurecia os seus corações, já embrutecidos, pelas dificuldades de uma rotina enclausurante. As vegetações quase jaziam, sem viço, e exibiam uma fina camada esbranquiçada, causada pelas constantes nevascas, nada comuns para aquela região.

Os animais também eram prejudicados e sofriam as consequências da escassez de alimentos. Doenças. Mortes. As carcaças dos pobres animais eram amontoadas em uma pira, não por ritual, mas por necessidade, e o cheiro dos pelos e carnes, enquanto eram incinerados, – com o intuito de conter as mazelas que emanavam de seus cadáveres, – causavam ânsias e amarguras. Ledo engano. As doenças logo reclamariam para si o direito – autoimposto – aos corpos dos moradores daquele local, primeiro das crianças e idosos, depois das mulheres e homens adultos.

A comunidade, outrora festiva e alegre, agora não tinha motivos para comemoração. O ânimo foi-se esvaindo, assim como a vida dos campos verdejantes, que emolduravam aquele belo lugar em tempos passados.

O vilarejo, batizado gentilmente de “Vale verdejante”, em referência clara às belezas naturais que possuía, agora era tomado por uma pesada aura inodora e insípida, reflexo do que agora aqueles pobres coitados traziam dentro de si. O verde pulsante das folhas de outrora tornou-se incolor, sem vida.

E, como eram supersticiosos, ponderaram sobre os motivos de tais agressões, que segredos os deuses e entidades haviam descoberto que justificassem castigos tais? Como crentes em maldições e contra maldições, agarraram-se ainda mais à fé, e direcionavam suas rezas e sacrifícios para todos os deuses que estivessem dispostos a ouvi-los.

E ouviram. 

Numa noite fria, que reafirmava que nada mudaria, e confabulavam se iriam falecer de inanição ou hipotermia, uma esfera luminosa atravessou os céus e cravou-se violentamente nas colinas ao redor, iluminando a noite tenebrosa como um farol esmeralda de esperança, há tempos perdida. Sim, a cor que caíra do céu era indescritível, mas na obrigação de classificar os eventos, a cor era semelhante ao verde. O verde, que tanto almejavam, vinha trazer-lhes o terror? Os reflexos de luzes verdes e suas variadas nuances, criavam um caleidoscópico hipnotizante, tragando-os para dentro do mosaico enigmático, penetrante. O impacto da esfera causou um leve tremor de terra e uma cratera recheada com os destroços do que quer que fosse aquele elemento. No centro da esfera, uma mancha verde brilhante pulsava, como se estivesse viva.

Apavorados. Inertes. Não desviam o olhar da cratera, esfera. Ela tinha um poder invisível sobre eles, tornando-os marionetes sem controle dos próprios corpos e ações. Contudo, do mesmo modo misterioso com que foram dominados, sentiram-se libertados de repente e conseguiram, enfim, discutir sobre o ocorrido.

– O que será isso?

– Será que é perigoso?!

– Mas de onde veio isso???

– Céus, o que é isso?

Questionam-se, obviamente, não obtendo uma resposta plausível. Após algum tempo de indagações retóricas, por fim, ouviram uma voz ecoando em suas mentes:

Venho do nada. Do vazio. Antes da existência das galáxias, dos mundos e da vida. O nada, esse lugar incompreensível para você, é minha morada, meu abrigo. Eras e eras, bilhões e bilhões de anos separam meu existir e o surgimento de sua frágil raça. Mas você me invocou. Clamou por ajuda e eu vim para ser a sua única saída. Não temas.

Sentiram uma paz preencher cada parte de seus corpos. Ninguém ousava dizer mais nada, mas sabiam, o socorro viera e eles seriam salvos. E foram. Nos dias seguintes o mau tempo deu trégua, o sol voltava a iluminar os olhos e corações, derretendo a geleira surgida dos escombros das dores e mortes. Os animais, que haviam conseguido subsistir, ficaram mais fortes, suas doenças foram extirpadas, como se arrancadas com a mão. O mesmo ocorreu com os enfermos que resistiram ao doce chamado da morte, – e ela, havia sido expulsa daquele lugar por tempo indeterminado. Mas a melhora mais nítida era com a vegetação: tornara-se verde brilhante e viva, mas de um tom tão intenso, quase fosforescente. E em certas noites afirmavam que as folhas irradiavam uma luz verde intensa, mas não ousavam questionar os milagres recebidos.

E permaneceram firmes naquele acordo mudo. Sem questionamentos.

As verduras, que cresceram após aquele evento, eram deliciosas, cada mordida emitia um som suave, como um sussurro apaixonado aos ouvidos. Logo as árvores também deram frutos, suculentos e inebriantes, nunca haviam provado nada igual. E no meio de tantas dádivas insistiam em não enxergar os efeitos colaterais daquele milagre: suas peles estavam ganhando tons de verde água, bem sutil, mas perceptível. Mas não ousavam reclamar.

Os pelos dos animais também estavam tornando-se verdes. E quando abatidos para consumo, suas carnes e sangue tinham uma coloração esverdeada. Mas não se podia negar que isso tornava a carne ainda mais saborosa. E consumiam as carnes, verduras, frutos – tudo o que provinha da terra – com tanto afinco, obsessão. Sem questionamentos.

A terra já não era mais marrom, mas verde oliva. E banhavam-se nas terras, conectando-se a ela. E estavam. Primeiro foram os membros, os dedos já são tinham a forma humana, mas era semelhante a cipós. Sem questionamentos.

Os braços e pernas foram metamorfoseados em troncos esverdeados. O sangue transmutara-se em uma seiva verde limão, os órgãos internos adaptaram-se perfeitamente ao novo homem-vegetal. A locomoção era cada vez mais restrita, arrastavam-se por cima da manta verde – outrora terra – e ficavam horas parados ao ar livre, em um ritual de fotossíntese macabra.

E novamente a voz submergira nas mentes, solicitando a presença de todos na cratera. E foram. Quando suas mãos-cipó tocaram a esfera, sentiram algo se mover dentro dela. Um vulto surgiu na superfície e sorriu. Era o próprio ser-verde, aprendendo, copiando, invadindo. O verde havia consumido tudo e todos. E continuaria crescendo, para sempre.

A comunidade desapareceu em um silêncio vegetal. Onde antes havia casas e pessoas, agora havia apenas um vasto vale verdejante, coberto de flores e árvores que brilhavam levemente à noite. Quem olhasse de longe veria algo belíssimo, mas quem se aproximasse demais ouviria os sussurros nos galhos, risadas engasgadas e palavras esquecidas ao vento, e jamais seria visto em forma humana novamente.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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O suntuoso baile das máscaras negras

O convite chegou sorrateiro. Cartão negro, emoldurado por pétalas banhadas a ouro, letras cursivas que pareciam dançar no papel, anunciando que…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O convite chegou sorrateiro. Cartão negro, emoldurado por pétalas banhadas a ouro, letras cursivas que pareciam dançar no papel, anunciando que o baile seria o acontecimento mais importante de suas vidas. Não ousariam declinar. Quem enviou tal convite? Não importava. Como todos da alta sociedade foram convidados, o anfitrião certamente era um homem de estilo refinado. Presumiram ser um homem, somente um homem poderia ter e despender tanta fortuna em uma única noite.

Os preparativos foram imediatamente iniciados: os senhores com seus alfaiates; as senhoras com as estilistas, todos artistas renomados de seus tempos. Precisavam estar impecáveis, para eles não bastava ser rico, tinham que parecer ser milionários.

O grande dia chegou. Estavam cansados e ansiosos, pois o sono não havia encontrado morada em seus corpos. Noite em claro conferindo os pormenores, cada detalhe em seus trajes era crucial. Confirmação e reconfirmação de agendamento com os profissionais que ajustariam os cabelos, peles, unhas, os necromaquiadores — daquelas pessoas que andavam, respiravam, mas não viviam — deveriam ser perfeitos em suas tarefas. Aqueles nobres não aceitariam nenhum erro, nenhum deslize.

Chegaram pontualmente à mansão. Estavam a postos todos os membros da elite daquela cidade sem nome, enfileirados como pilastras adornando as portas do céu. Os portais abriram-se, revelando as belezas do local. Adentraram tal qual os pioneiros de uma terra virgem e fértil, cientes de que, se fosse preciso, a violariam para apaziguar seus prazeres mais profundos.

À recepção receberam máscaras suntuosas, negras e com os mesmos entalhes banhado a ouro, conferindo-lhes ares de seres etéreos. 

O salão era grandioso, com um teto abobadado decorado por lustres de cristal gigantes que refletiam a luz suave em tons dourados por todo o ambiente. As paredes eram revestidas de painéis negros com detalhes em dourado esculpido, criando um contraste opulento e sofisticado.

O chão de mármore black piano com veios dourados, impecavelmente polido, refletia a iluminação suave das velas em castiçais imponentes de ouro. No centro do salão, mesas redondas estavam cobertas com toalhas de veludo vermelho e decoradas com arranjos de flores exóticas, e taças feitas de ouro puro e cristal lapidado, cintilavam com elegância sob a luz. Os talheres eram de prata com detalhes em ouro, e os pratos possuíam bordas decoradas com padrões barrocos dourados.

No ar, uma música clássica orquestrada ecoava suavemente, completando a aura suntuosa do local.

Garçons impecavelmente trajados circulavam oferecendo champanhes das melhores safras, enquanto sobremesas decoradas com folha de ouro descansam em bandejas reluzentes.

Uma pista de dança espelhada convidava-os a dançar sob uma chuva de luzes, tornando o ambiente ainda mais mágico e luxuoso, iluminando os sorrisos plásticos, cuja expressão inerte fora fixada mediante adoração do deus da estética. 

O banquete foi servido, porém o anfitrião ainda permanecia insondável, enigmático, sob o véu taciturno que sua máscara lhe conferia. Banhavam-se nas taças dos vinhos e champanhes, envolvidos por todo aquele luxo exacerbado. Finalmente eram os senhores de si, finalmente haviam recebido o tratamento de que eram merecedores.

Em meio ao gozo, provindo do prazer etílico e carnal, dançavam, riam e agradeciam ao anfitrião, que somente assentia com leve aceno de cabeça. Não souberam precisar, mas em determinado momento as luzes douradas foram transmutando-se em marrom, negras.

O local, antes repleto de luxo, agora preenchia-se com uma pressão atmosférica lúgubre, mas não paravam de dançar. Os pés calejados não se atreveriam a parar. Os sorrisos plásticos não seriam desmontados. Continuaram, até que o anfitrião cansado daquela mesmice, resolveu interferir e anunciou que o tour pela mansão seria iniciado.

A mansão parecia crescer a cada passo. Um corredor infinito e implacável à frente. O anfitrião anunciou que cada um deles tinha um quarto ali, decorado conforme seus desejos mais profundos.

A primeira porta se abriu. Parecia um quarto medieval. No centro, havia uma banheira coberta de sangue das vítimas, jovens inocentes esmagadas e pisoteadas por uma mulher impassível, a dona daquele aposento. A condessa foi convidada a entrar. Não ousaria recusar. Entrou. A porta cerrou-se violentamente. Ouviram os gritos e souberam que os flagelos causados por ela seriam revividos para a eternidade.

Os seus pecados bateram à porta, cada um soube o que lhes aguardava. Ao avistarem seus destinos, alguns tentaram correr, mas os olhos da máscara que traziam em suas faces acederam-se em chamas. Tentaram arrancá-la, mas ela parecia fundir-se à pele, como se tivesse criado raízes em seus crânios. Gritavam, mas o som era abafado — a máscara sufocava, fechando-se ao redor da boca e nariz como uma viseira maldita. As chamas se espalharam, queimando a carne, mas sem consumi-la completamente, deixando marcas escuras e pulsantes que pareciam veias malignas. A pele fervia tal qual um vulcão em plena atividade. As bordas das máscaras começaram a se mover, como se fossem mandíbulas esmagando lentamente os ossos do crânio. O som era horrível. Rangidos ecoavam pelo salão, misturados com os gritos abafados. O sangue escorria pelas aberturas da máscara, enquanto os olhos dos algozes eram expelidos para fora, explodindo em um jorro grotesco.

Os outros convidados observavam, horrorizados e quietos. Os corpos dos que tentaram fugir, por fim, desabaram, mas as máscaras permaneceram flutuando no ar. Todos ficaram silentes, agora sabiam que não poderiam fugir daquele local.

As portas foram abrindo-se, uma a uma, e revelando os mais criativos instrumentos e formas de torturas, todas advindas daquelas mentes privilegiadas e merecedoras de todos os luxos que aquele inferno premium poderia propiciar-lhes.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Sorte Diabólica

…O pior de tudo era ter que voltar para casa de mãos abanando e sem nenhum argumento que pudesse lhe valer, e ser obrigado a contemplar o olhar de…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

…O pior de tudo era ter que voltar para casa de mãos abanando e sem nenhum argumento que pudesse lhe valer, e ser obrigado a contemplar o olhar de decepção de sua mãe. Como se não bastasse todo o sofrimento que a ela fora infringido, ainda por cima ele, seu único filho. A única pessoa que pudesse lhe valer era na verdade motivo de uma decepcionante ignomínia. Por isso, estava ele ali, parado encostado junto à mureta da ponte, observando as águas turvas e preguiçosas que desciam correnteza abaixo. Sua solidão era completa, não havia ninguém por perto àquelas horas tardias. Ao seu redor reinava um inquietante silêncio, apenas vez por outra, rompido pelo sinistro som das criaturas da noite. O céu estrelado, placidamente o contemplava como se aguardasse suas últimas resoluções para ser testemunha única de um último ato.  

Henrique – Rico entre os íntimos, mas de riqueza mesmo, nada tinha – olhava para o reflexo das estrelas sobre as águas, buscando nas profundezas do infinito a coragem necessária para um fim definitivo a toda uma vida de frustrantes decepções. Estava decidido que, se a sorte não lhe sorria, o que restava era ir de encontro ao azar, na inquietante busca pelas verdades da existência. Naquele momento de indecisão, fez uma breve análise de sua medíocre existência. De forma bastante decepcionante, chegou à triste conclusão de que toda sua vida fora uma grande farsa, cheia de tragédias e terríveis privações. E, por fim, havia se tornado um vergonhoso fardo para sua mãe. 

A querida Tia Eulália, sua mãe – uma humilde professora de primário, que sobrevivia contando as migalhas de seu pequeno ordenado, e tentando ajuntar o restante daquilo que sobrara de sua vida – por mais que tentasse disfarçar seus sentimentos, ainda assim era possível perceber que ela trazia consigo o semblante melancólico e um olhar triste e distante, típico de pessoas sem maiores perspectivas, entregues ao sabor do vento, vivendo um dia após o outro. Ela, que noutros tempos, ainda no frescor de sua juventude, fora uma bela mulher, alegre e descontraída, sempre com um animado sorriso no rosto, esbanjando simpatia e muita disposição, agora, depois de todas as tragédias que se abateram sobre ela, nada mais era que a verdadeira face da derrota.  

Rico tinha vagas lembranças da época em que ainda existia o brilho do contentamento nos olhos de sua mãe. Um tempo já distante, quando ele ainda tinha uma família completa com ele, sua adorável irmã Cecília, sua atenciosa mãe e seu pai, o conhecido caminhoneiro Amarildo – que era, para os demais, sinônimo de muita presteza e completa lealdade. Mas para sua mãe se demonstrou um terrível desengano. A tristeza estampada na face de sua mãe era apenas o resultado da infeliz condição humana. Ela que já tivera todos os motivos para sorrir para os quatro cantos do mundo, viu toda sua felicidade se desfazer como espumas ao vento. 

Quando Rico ainda era bem pequeno, seu pai saíra de casa para uma viagem a trabalho – como era de seu costume – e nunca mais voltara. Seu pai que partira apenas com alguns pertences, mas levara consigo todas as economias da casa, deixara para sua mãe apenas um bilhete de adeus – como ato de justificativa – diversas dívidas a pagar e dois filhos pequenos para criar. O homem ao qual ela entregara sua honra e sua inocência, dedicando-lhe todo o seu amor e sua lealdade, sumira de vista sem deixar nem um vestígio de seu paradeiro. Rico tinha nove anos na época e sua irmã Cecília – já demonstrando os primeiros sinais de um semblante doentio – apenas sete. Num ciclo contínuo de desventuras, pouco tempo depois, após seu pai ter saído de casa, sua irmã Cecília fora diagnosticada com Leucemia.  Numa desesperada tentativa de um tratamento eficaz para a filha, Tia Eulália teve que vender a casa – único bem que eles possuíam – e logo depois contrair um oneroso empréstimo bancário – dívida essa que consumiria grande parte de seu já parco ordenado por um longo prazo. No entanto, todos os esforços de Tia Eulália se demonstraram em vão. Cecília viria a óbito menos de um ano após seu pai tê-los abandonado. Cecília fora baixada à sepultura sem o último adeus do pai que ela tanto adorava.  Ficaram apenas Rico e sua mãe – sem casa para morar, com dívidas a pagar, sem nenhum dinheiro no banco, e nem mesmo um parente importante que lhes pudesse valer. Estavam sós no mundo. 

Uma vez que sua mãe tinha que trabalhar para trazer o sustento para dentro de casa, enquanto ela estava ausente, Rico – um jovem imberbe e desacreditado na vida, pois perdera seu pai e sua única irmã num intervalo de tempo bem pequeno – vivia mais nas ruas do que em casa, andando em companhia de pessoas de índole bastante duvidosa, tornando-se um interessado aluno na arte da vadiagem. Para ajudar sua mãe nas despesas do lar, fazia um biscate aqui e outro acolá. Mesmo enfrentado diversas adversidades da vida, conseguiu sobreviver a uma infância infeliz e assim que chegou à adolescência, para ter o dia livre para o trabalho, acabou por convencer sua mãe – mesmo com certa relutância por parte dela – a terminar seus estudos no período noturno. Foi justamente nesse período que travou conhecimento com os malandros da noite. Indivíduos de vida noctívaga – assíduos companheiros de copo e fiéis amantes do jogo. Rico – um rapaz belo e sedutor de fala macia e sorriso doce – logo ficara conhecido e muito bem-quisto entre jogadores, prostitutas e todo o tipo de vagabundo que vagueia pelos becos e vielas sob a proteção das sombras da noite.  

Sua mãe, ao saber desse deprimente caminho ao qual ele estava se enveredando, com a face banhada em lágrimas e em soluços, o cobrira de conselhos e reprimendas, num moroso sermão sobre a moral e os bons costumes. Vendo a tristeza e a decepção que ele mesmo causara à própria mãe, prometera-lhe que, pelo amor e todo o respeito que ele sentia por ela, abandonaria de vez aquela vida desonrosa. Sua mãe, bastante comovida com a sinceridade estampada nos olhos do filho, o abraçou ternamente e após beijá-lo na face carinhosamente dissera-lhe: 

– Filho amado, você é jovem, bonito e cheio de saúde e vigor, tem todo um futuro pela frente, não desperdice seu tempo e seu dinheiro nesse tipo de vida. Tais locais são, na verdade, um antro de lascívia e perdição. Em lugares como este não há o senso de amizade e camaradagem, lá você jamais terá amigos, apenas conhecidos. Nesses antros de perdição, você só tem valor enquanto sua bolsa ainda estiver cheia. Reina nesses lugares um abjeto interesse material, por mais que você possa se achar interessante e sedutor, seus valores são pesados de acordo com aquilo que você possui. Se algum dia – por acaso – estiveres totalmente desprovido de bens e de dinheiro, conhecerás a índole daqueles a quem chama de amigos e saberá o verdadeiro valor das mulheres que o rodeiam, se dizendo sempre fiéis a você.  

Em honra à promessa feita à sua mãe, Henrique deixara brevemente de lado a vida noctívaga pela qual se enveredara. Conseguira, através dos contatos de sua mãe, um emprego fixo como atendente numa farmácia de propriedade de um atencioso amigo da família. Seguindo conselhos de sua mãe e de seu próprio patrão, planejava assim que possível dar continuidade aos seus estudos.  Em certas ocasiões, até mesmo acompanhara sua mãe a igreja, onde conhecera uma simpática jovem – Eleonora era filha do pastor da igreja – pela qual se apaixonara perdidamente.  

Sua mãe estava eufórica com o comportamento do filho e a todo o momento recebia elogios pela forma educada e gentil com que ele a tratava – algumas das beatas da igreja diziam, entre sorrisos maliciosos: “um bom filho será um excelente marido”. Rico era verdadeiramente um educado cavalheiro e em se tratando de sua mãezinha querida, era ele mais atencioso ainda. Seu ordenado na farmácia – que não era lá essas coisas – era quase todo entregue à mãe para ajudar nas despesas do lar. Mesmo com o parco salário que recebia, ainda assim, ele trabalhava todos os dias sem se distrair, pois tinha grandes planos para o futuro. Ele que já havia se declarado, em surdina, à Eleonora, recebera por parte dela certa conivência que lhe dava grandes esperanças. No entanto, nas Escrituras Sagradas está escrito que: “... quando um espírito imundo sai de um homem, passa por diversos outros lugares... Então vai e traz outros sete espíritos piores do que ele...”.  

Nessa mesma época, devido a um estrondoso furo no caixa da farmácia – mesmo sendo inocente – Rico acabara por perder o emprego sob a acusação de ter sido ele a surrupiar o valor faltante. O dono da farmácia – amigo íntimo de sua mãe – dissera a ele estar tremendamente decepcionado com sua conduta, pois havia lhe dado um sincero voto de confiança, em amizade à sua mãe. Dissera-lhe ainda que ele não havia herdado o caráter da mãe – mesmo que veladamente, fazendo uma breve alusão ao pai. Aquilo lhe ferira profundamente a alma, até mais do que ser acusado injustamente de furto. Se no jogo não fora feliz, iria tentar a sorte no amor e no mesmo dia que perdera o emprego, decidira se apresentar na casa de Eleonora como sincero pretendente a receber a mão dela em sagrado matrimônio. Ao demonstrar suas intenções para com ela perante sua família, fora humilhado e vilipendiado em toda sua honra. Sem nenhum tipo de cerimônia, o pai dela – seu ex-futuro sogro – dissera-lhe de forma bastante grosseira e sincera. 

– Jamais permitirei tal união, por dois motivos principais. Primeiro não dou guarita para vagabundo debaixo do meu teto – pois sei quem você é, de sua fama de ladino, você pode até mesmo ludibriar minha filha inocente com seu palavreado macio, mas a mim você não engana – e, segundo, em respeito à sua honrada mãe, sabendo que você não tem onde cair morto, não posso permitir que ela, já com tantas dificuldades, tenha que alimentar mais uma boca em sua casa, como se não bastasse o delinquente sanguessuga que ela inocentemente chama de filho e vive às suas expensas. A igreja a qual eu presido – sendo a casa de Deus – sempre estará aberta a todos sem distinção, mas a minha casa – onde honrosamente reside minha família – jamais estará aberta a pessoas de sua espécie. Exijo peremptoriamente que se afaste de vez da minha filha e jamais ouse colocar os pés aqui nessa casa novamente. 

Naquela mesma noite – decepcionado com o mundo e com a vida – Rico decidira dar uma breve passada no cassino onde ele já presenciara fortunas inteiras virarem pó.  No entanto, também fora testemunha de fatos inusitados, onde um indivíduo qualquer entrava com alguns trocados no bolso e saía de lá para uma vida de opulência. Estando ele sem dinheiro algum, apenas observara atentamente seus conhecidos tentando a sorte nas diversas modalidades de jogatina ali existentes. Como sua mãe o havia prevenido, aqueles que se diziam seus amigos, percebendo que ele não tinha nenhum tostão furado, não lhes dera atenção alguma, não lhe ofereceram nem mesmo um único gole de bebida sequer, tão pouco algum trocado emprestado para que ele tentasse a sorte. 

No dia seguinte, sua mãe inocente e alheia a tudo aquilo que estava acontecendo ao filho, fora para o trabalho sossegadamente como fazia todos os dias. Levando-se em consideração que a vida de muitas pessoas se baseia em se deleitar com a desgraça alheia, na escola já havia burburinhos – entre os desocupados – sobre o fato de Rico ter sido escorraçado da casa da bela Eleonora – alguns vizinhos ouviram o pastor vociferando ofensivas palavras ao filho de Tia Eulália. Também se comentava sobre o roubo na farmácia – como isso veio a público ninguém nunca soube ao certo – e por fim o fato dele ter sido visto entrando no cassino novamente. – Certamente para torrar a grana oriunda do furto – diziam alguns de língua mais ferina. Rico, alheio ao fato de que seu nome e suas desventuras era o assunto preferido do dia, ficara em casa, tentando encontrar uma forma de relatar à sua mãe sobre sua triste realidade.  

Do fundo de sua alma, ele sabia que sua bondosa mãe acreditaria em sua inocência e certamente lhe seria partidária naquilo que tangia a sua pseudovida amorosa. No entanto, precisava ele encontrar uma forma correta de narrar todos os fatos de uma forma que lhe parecesse convincente. Estando ele só e largado ao mais completo ócio, fazendo jus ao ditado: “que uma cabeça desocupada é uma excelente oficina para o mal”. Devido a todas as vicissitudes do dia, ele que tivera uma noite inquieta, intercalada com momentos de insônia e breves cochilos carregados de sonhos estranhos onde via números por todos os lados, pessoas felizes e riqueza por toda parte, chegara à conclusão que se conseguisse algum dinheiro, poderia voltar ao cassino naquela noite e quem sabe assim, se a sorte lhe sorrisse, resolver de uma vez por todas todos os seus problemas. Dinheiro mesmo, ele não tinha nenhum, mas sempre soube onde sua mãe guardava suas economias para uma possível eventualidade – na vida deles dois, as eventualidades eram uma constante. 

Antes mesmo de sua mãe voltar do trabalho, Rico recolhera todo o dinheiro que encontrara guardado entre os pertences dela e após vestir seu melhor traje e estar bastante perfumado, saíra naa ruas aguardando que a noite chegasse e que as bancas de jogos fossem abertas. Estando ele com todas as economias de sua mãe no bolso, pois não deixara nenhum tostão para trás – tal qual, como seu próprio pai outrora fizera, quando os abandonara – sentara-se para jantar e assim o fez como se fosse uma pessoa desprovida de qualquer tipo de dificuldade financeira. Comeu e bebeu do bom e do melhor, antes de ir tentar a sorte, pois estava decidido a retornar para casa cheio de dinheiro ou não voltar nunca mais. Estava decidido a resolver sua vida de uma vez por todas. Assim que o cassino abriu suas portas e iniciou os trabalhos da noite, ele fora um dos primeiros a adentrar as portas que levam à glória ou à mais completa ruína. 

Nas primeiras horas da noite, Rico estava iluminado pela áurea da fortuna. Havia sido sortudo em quase tudo que apostara, o dinheiro que havia trazido consigo já havia se quadriplicado e ele estava pressentindo que era seu dia de sorte. Por volta das dez horas da noite, ele já acumulava dez vezes o valor referente às economias que ele surrupiara de sua mãe. Num golpe de sorte, ela nem mesmo notaria a falta do dinheiro e ele ainda lhe daria mais que o dobro para que ela também pudesse guardar. Parafraseando mais um ditado que diz: “não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe”. O jovem Henrique, acreditando que a roda da fortuna estava girando a seu favor, decidiu fazer uma última jogada. E foi esse último ato que o levara ao desespero, pois nessa jogada apostara todo o seu dinheiro, tanto o que havia trazido consigo, bem como todo o montante acumulado numa série de apostas bem-sucedidas. Numa insana tentativa de recuperar pelo menos o dinheiro que trouxera, ele ainda apostara o relógio que fora um presente de sua mãe e até mesmo seu próprio paletó, só não apostara suas roupas e os sapatos, porque o dono do estabelecimento não o permitiu.  

Sentindo-se a mais desafortunada de todas as criaturas, Rico saíra às ruas sem destino certo, caminhando trôpego sem saber para onde ir e o que deveria fazer. E quando, na mais completa solidão, estava atravessando uma ponte que cruzava o seu caminho, chegara à inquietante decisão que já não tinha mais vontade de chegar ao outro lado. Após uma longa reflexão sobre a existência, onde ele amaldiçoava a tudo e a todos relegando até mesmo aos céus pelas vicissitudes da vida, decidiu naquele instante, tomar as rédeas de seu destino. Mais uma vez olhando as águas turvas bem abaixo de si, quando havia já passado uma de suas pernas sobre a amurada da ponte, sentiu uma estranha presença perto de si e logo, uma mão de toque macio com um brilhante anel em um dos dedos tocara em seu ombro. Ao se virar se deparara com um distinto cavalheiro que após levantar a cartola e lhe sorrir amigavelmente, lhe dissera: 

– Boa noite meu jovem amigo!  

Num primeiro momento, Rico se assustara bastante por imaginar estar só ali naquele ermo caminho. Tinha a certeza absoluta de que no minuto anterior, quando ele olhara para trás como se estivesse dando adeus ao mundo, não havia ninguém ali naquela ponte. Mesmo assim, direcionado pelo senso da boa educação e dos bons costumes respondeu polidamente. 

– Boa noite senhor! Como poderei ajudá-lo? 

– Olhe bem para mim! E depois olhe para si mesmo e então me responda, quem realmente está precisando de ajuda?! Respondeu o cavalheiro. Um distinto senhor, trajando um belo terno negro de corte fino, sapatos brilhantes e cartola na mesma cor. Tinha a face lisa e um bem cuidado bigode sobre um sorriso de dentes brancos e alinhados. Na penumbra em que se encontravam, a cor dos seus olhos era indistinta devido à ausência de luz, mas dava a impressão de serem claros. O belo anel que trazia num dos dedos tinha uma cintilante pedra da cor de carmim – talvez fosse um valioso rubi. 

– O que o faz pensar que eu esteja precisando de ajuda? — Respondeu Henrique. 

– Sua vida medíocre! Suas decepções! Suas humilhações! E por fim o que estava prestes a fazer! Não percamos tempo com questionamentos e explicações desnecessárias. Eu sei do que você precisa e você tem algo que me interessa. Farei a proposta uma única vez, não tenho tempo para indecisões. É pegar ou largar! Vou emprestar a você um pouco de dinheiro para que volte agora mesmo ao cassino e pegue aquilo que é seu por direito. Jogue apenas na roleta, aposte nos números primos em sequência. Ainda hoje, antes mesmo do cantar do galo, você terá tudo aquilo que sempre mereceu. Apenas me responda sim o não.  

Disse o cavalheiro com um estranho brilho no olhar mostrando a Henrique um grosso pacote de dinheiro. Pelo volume do pacote, era o montante necessário para que, devidamente investido nas apostas certas, fosse mais do que o suficiente para se transformar numa grande fortuna. Rico, como aquele mesmo gentil senhor o havia admoestado a não fazer perguntas desnecessárias, apenas pegou o dinheiro, sentindo em suas mãos um estranho arrepio que lhe correu por todo o corpo. Passou os dedos pelas notas sentido a firmeza do papel que estalava de tão novo, percebendo que aquele dinheiro jamais havia sido usado. Sem acreditar naquilo que estava acontecendo, mal teve tempo de perguntar ao cavalheiro – que já se afastava, se perdendo na escuridão das sombras indo embora da mesma forma que aparecera – como e quando ele iria pagar aquele empréstimo. 

– Na hora certa voltarei para receber essa dívida, não se preocupe quanto a isso. Aproveite pela sorte enquanto ela lhe sorri... — Disse o cavalheiro já chegando do outro lado da ponte e se perdendo pela escuridão a fora. Suas últimas palavras se misturaram em meio ao som dos sinos da igreja que naquele momento badalavam violentamente ao longe avisando a chegada da meia-noite. 

Rico, mais do que depressa, retornara ao cassino e como lhe fora coordenado, apostara grandes quantias somente na roleta e nos números primos em sequência. Em menos de duas horas de apostas, O jovem Henrique conseguira quebrar a banca. Ele que a momentos atrás estava prestes a dar um fim à própria vida, havia se tornado um homem rico. Voltaria para casa não como um homem desempregado, sem onde ter que cair morto como ouvira da boca do pastor, mas como alguém que agora tinha o dinheiro suficiente para comprar até mesmo a própria farmácia onde dois dias antes era um simples empregado que fora demitido injustamente. O dono do estabelecimento não tinha em caixa todo o dinheiro que ele havia ganhado, mas raspou o cofre e dera-lhe tudo o que tinha e na presença de testemunhas confiáveis assinara-lhe uma nota promissória com o restante que lhe seria devidamente pago no dia seguinte assim que o banco abrisse. 

Acompanhado de um policial que estava de folga e, também, tentava a sorte naquela noite, rico tomou um taxi e se direcionou até sua casa para contar as novidades para sua mãe. No caminho estava eufórico em poder dar à sua querida mãe tudo aquilo que ela sonhara um dia. No entanto, mesmo ainda ao longe, soube que havia algo de errado em sua casa, pois mesmo sendo alta madrugada com o dia já quase amanhecendo, havia muita gente na porta, além de uma viatura da polícia e uma ambulância. Rico saltara do taxi antes mesmo do veículo ter parado por completo e ao entrar correndo em casa se deparara com o corpo da mãe sobre uma maca. Aos prantos fora contido por um dos policiais que estava atendendo a ocorrência – um dos vizinhos ouvira um tiro na casa e acionara a polícia que ao chegar se deparara com Tia Eulália já sem vida, numa das mãos ela tinha uma arma na outra um bilhete de adeus... 

Quando o bilhete fora entregue para Henrique para que ele pudesse ler as últimas palavras de sua mãe, ele ouviu ao longe o triste cantar de um galo que anunciava a chegada de um novo dia...

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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O Céu das Alfazemas

Efervesce a penúltima instância dessa madrugada que precede a miséria. A cova estreita, madeira de bétula, os vermes e comichões... É o meu dia…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Efervesce a penúltima instância dessa madrugada que precede a miséria. A cova estreita, madeira de bétula, os vermes e comichões... É o meu dia que chega! E felicito-me por recebê-lo assim, com uma despreocupação tão geniosa e sagaz. Que tenho a perder agora, homem? Diga!... nem mesmo o inferno tem algo para mim. Nada mais temo ou anseio. Mas a recusa, sim! A recusa me servirá como redenção. Vou-me ao pé dos quadros de Diana, nunca na cela fria deles. 

Por que nos fizeram tão frágeis, minha amada criatura?... Onde puseram as lamparinas que conosco deviam seguir, impregnando de luminosa bondade esses campos fadados à escuridão? Podes ouvir quando sopro, nas pedras, teu nome? 

Ao pecado do amor – demasiado, maldito e incorrigível–, a sentença: nunca mais amar, nunca mais o cheiro dos campos e a vida das montanhas, nunca mais... A morte! A morte aos que cometem heresia. Eu e tu, no breu prateado dessa infinidade. Eternos, como é eterna a dor e a tragédia nessa terra de gente vil. Escute!...Um coral de passarinhos sobrevoa! Zombam dessa bruxa velha, que há de morrer sem aprender a voar. Cai dum vasilhame ambarado o primeiro sinal dos olhos do sol. Pairam estrelas nesse horrendo céu de alfazemas, guerreando por espaço com a turvidão das nuvens, carregadas de toda, toda, toda a tristeza da vida. 

Perseguida pela praga daquele dezembro, revejo-te incansavelmente, a cada hora, indo de encontro ao chão. Por três segundos olhou-me, por três segundos aspirou um sorriso, por três segundos amou-me com a feição... era a vida deixando a ti, como a alma de uma festa, abandonando a todos os convidados – famintos, mortos de sede–... 

Por que, meu bem, por que tivera de condenar a mim e a ti? Ouso dizer que convenceria a Morte. Se ao menos houvesse tentado... Agora vou eu, fadada a seguir-te submundo adentro. Como poderia não ir? Acorrentaram-me em teu punho, e eu mesma vivo a lustrar as correntes. 

Como cheiram os jasmins... quão intoxicante é a vida aqui, crisálida e perto do fim. E na moldura de carvalho que me permite observar a vida lá fora, ainda repousa a lua, lançando-me um fraco sorriso. Como se até mesmo ela sentisse alguma piedade de mim. Bela é a porcelana que carrega a camélia, adoçada em leite e gotejada por alma de beladona. Colhidas do abandonado jardim de um enforcado. É o fim, meu bem... é o fim! É o fim da desonestidade, e se pretendem nos prender, que encontrem corpos. Corpos a enterrar. 

E não diga, nunca – e em parte alguma desse vale – que és um homem só. És metade formosa e sempre bem acompanhada. Lembra-te do pacto de perseguir, juntos, a chama da vida, e rasteje impiedosamente. Não pare, nem por um segundo. Não pare até me encontrar. 

O vento sussurra promessas de primavera, com perfume de orvalho do passado. O céu de alfazema reina, onipotente contra a falta de sangue e coração daquele povo, tão firmado na descomunhão com tudo que é de visceral e estranha natureza. Em marcha lenta, cruzarei a ponte dos mundos, conformada de que nunca havia de entregar-me ao julgamento daqueles que se opõem ao fluxo que tem o corpo e o pensamento. Aos que andam assassinando as bruxas e poetas, julgando com fogo a cada delito, o mais sincero escárnio. Já é hora de partir, deixando para trás a indecência da repressão, indo à vida que emerge da morte, para nunca mais sofrer. Para nunca mais voltar. 

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Sepulte-me, Ana

Prometeram-me que não haveria enredo depois do fim! Quem eles pensam que são?... Como ousam mentir?! Não há morte, não há honra, não há sono...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Prometeram, 

Prometeram-me que não haveria enredo depois do fim! Quem eles pensam que são?... Como ousam mentir?! 

Não há morte, não há honra, não há sono... 

Continuidade, Ana! A horrenda continuidade que me assola. Sopro as velas e corro da memória daquela lareira, onde aquecíamos a ponta dos pés, entornando canecas fumegantes de chocolate, lendo a tudo que não se pode ler numa idade como tal. O tempo passou... E malditos sejam eles, com seus terços e cânticos de funeral. Choram bem menos que o morto, quando acorda – brusco, desarmado – n’outro corpo e n’outro lugar. 

Bate o peito, Ana... 

Há tanto não devia bater! Há tanto ouviste parar... Se ao menos me dissessem porquê! Se ao menos me contassem quem sou... 

Onde anda minha alma? Ora, eles cantam. Jane Doe, Jane Doe! O turvo vale roubou meu nome, e nem mesmo o posso praguejar sem que me pragueje de volta. 

É o inferno, Ana, é o inferno e o céu, disputando lugar. É a brisa que incendeia os bares mundo adentro, e, ainda assim, não cessam os bêbados de pedirem conhaque. Furioso é o vento... nunca tivera piedade de mim. Vento feiticeiro que me traz o perfume d’outrora. Dos invernos em despercebida completude... Da vida que ascendia horripilantemente, tão bela. Dos pinheiros em oração e das infindáveis conversas sobre o mar. 

A vela que aqui queima existe pelo mesmo princípio que ali acendíamos a lamparina. – Nasce do mesmo fogo que assava os leitões. – A chama imparável que reina, grandiosa, sobre o tempo e sobre os homens. 

Prometeram-me um fim, e agora o reclamo. E não somente a ele, mas à vida, em impaciente e revoltosa espera. Que me tragam a primavera que não vi! Que tragam aquele amor, sepultado com mácula, roubado com tanta desonra. Clamo por encontrar a água viva na próxima parada. 

Quanto me resta até que, ao fechar os olhos, não venham mais as cores de um outro campo? Quantas estações até que se faça o digno e ansiado Ponto final? Não remende o vestido, doce Ana... sempre serei a menina molambenta que apreciavam escarnar. Flores bastam. Sempre hão de bastar. 

Diga que vivi com a injúria e a raiva de Artemisia. Que praguejei contra as abelhas e contra a rainha, encontrando a graça no outono e zombando de minha própria estupidez. Que vivi para morrer, e, ainda assim, não encontrei morte alguma para descansar. 

Somos ametista bruta emergindo do solo, amiga minha. Um pedregulho no sapato de todo falso pregador. Somos nós a dúvida e a insanidade. Companheiras deste (e)terno velejar. 

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Morlirismo, Escrito por Sahra Melihssa, -Contos Sahra Melihssa Morlirismo, Escrito por Sahra Melihssa, -Contos Sahra Melihssa

Lar de Breu-Mármore e Rubi

O sol era a nódoa escarlate na imensidão enevoada em um carmim enegrecido; o sol não tangível em sua forma de estrela, era tão só um clarão rubro…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O sol era a nódoa escarlate na imensidão enevoada em um carmim enegrecido; o sol não tangível em sua forma de estrela, era tão só um clarão rubro, espargido pelo firmamento instável. Abaixo dele, um oceano de mármore preto tal a noite que se via, por vezes, entre as clareiras do céu, criadas pelo vento intenso e amedrontador. Noite e dia; um entardecer melancólico, um paradoxo único. Das sombras no mármore, o fogo queimava na cor do sangue mais puro entre vilas cujas casas erguidas eram como ruínas de uma ancestral civilização. 

Meus pés aquecidos, o frígido sopro oscilava os galhos dos secos carvalhos mais próximos e, conforme eu caminhava, os arbustos de flores se faziam presentes como um jardim etéreo; flores símeis às dálias, porém, com pétalas em voluta, formando um redemoinho escarlate; eram leves como penas, rarefeitas pétalas brilhantes em cor negra-sublime com nuances carmesim. Espinhosas como as rosas, fascinantes como tudo o que habitava aquele lugar. Por quanto andejava, sentia a melancolia em meu peito. Desejei tanto adormecer sob tal lumiar coralino, enquanto a névoa negra dançava acima.

Nada, todavia, era mais deslumbrante que aquele castelo; em torres pontiagudas, esculpido em atro mármore e bruto rubi; desvelou-se a mim quando subi em outras ruínas, como antigos lares destruídos pelo tempo. E lá estava a sua inconcebível arquitetura. Intui um dever profundo de adentrar os seus umbrais e continuei minha marcha até que tal feito fosse realizado. Encontrei nímios frutos pelo rumo, nas veredas e pontes; eram tão semelhantes às uvas, de uma doçura apetitosa. Ainda que estas árvores frutíferas e outras plantas se movimentassem pelo ventanear; ainda que o mármore rachasse, vez ou outra; e o fogo ardesse, crepitante, por onde os olhos podiam enxergar; o silêncio beijava ao derredor, sem medo.

Então, ouvi som de queda d’água e sorri; sentia sede. Subi sobre mais escombros e alcancei uma pequena fonte ornamental próxima ao palácio sombrio. A água era negra, fluída, aprazível. Lavei com ela o meu rosto, renovando minh’alma que, na verdade, parecia distante de mim. Dali, portanto, fui à entrada da monumental maravilha em sua tétrica constituição. Seus umbrais gigantes se abriram para mim, sem que eu precisasse tocar em sua aldrava. Havia um lago em seu interior, colunas esculpidas com anjos e seres míticos; a luz do entardecer carmim adentrava os vitrais criando uma iluminação fascinante. À frente, um imenso trono de veludo encarnado.

Não me dirigi ao trono, ponderei sobre quem seria, pois, digno de tamanha magnificência. Em resposta à minha íntima indagação, passos ecoaram e, fitando na direção do que ouvia, avistei um homem forte. Seu corpo era como de um deus, e tinha uma tez com cicatrizes em sua fronte. Seus olhos eram rubros e brilhantes, uma roupa negra e régia o cobria. Era de uma beleza inenarrável. Tinha cabelos finos e curtos — os quais se movimentavam como as pétalas vistas outrora pelo caminho. Era um homem alto, sua força era visível e majestosa; se próxima a ele, decerto me sentiria como uma pequena criatura ínfima. Olhava-me, ele, atento e sério. Tão diferente de mim… eu que estava descalça e com meus soltos cabelos orvalhados pelo clima, sofrível, pois marchava no mármore. Decerto não éramos da mesma origem.

 — Estás em meu reino, em meu palácio. Bebeste de minha água e aqueceste os teus pés em meu mármore. Admiraste meu jardim e desejaste tocar o veludo de meu trono. — Dissera em tom sereno e grave, como um trovão sob controle. — E não sabes sequer o meu nome. Ao menos sabes como chegaste até aqui? — Indagou e sua voz que me embargava, assemelhava-se a um vinho de doce aroma e seco sabor. Prostrei-me ao chão, pois reconheci, em meu âmago, que estava de frente a um ser majestoso, um rei de um reino carmesim.

— Perdoe-me, vossa alteza. Despertei à beira de um oceano e, invitada por um ser de poética nume, adentrei seu pequeno barco e ouvi seu lirismo melancólico até descer nas vossas terras. O ser poético fora uma ilusão, transfigurado em pedra, uma estátua devaneada por mim. Não compreendo mais nada além disso e fui enlevada pela sublimidade de teu grandioso castelo. — Disse, célere; respirei profundamente ao término e mantive-me de joelhos. O silêncio pairou por longos instantes.

— Levanta-te. — Eu o obedeci. Era agradável retornar meus olhos ao seu austero semblante. — O Sonurista da Morte não é uma ilusão. Não compreendo, todavia, a razão pela qual ele te trouxe até meu império. Vês? — O ser estendeu sua mão esquerda e os umbrais de seu palácio se abriram ao seu comando. Então vimos a paisagem em completude, um reino carmim e negro, envolto a fogo rubro, mármore-breu, lava, rochas ígneas, ventos, natureza morta e flores raras; era lindo e solitário. — Este é o Inferno. — Explicou, todavia, não compreendi. — Sou o rei do Inferno há éons, incontáveis noites, inumeráveis dias. Esta é a minha terra, de rara beleza.

— Como tu és, vossa majestade. — Sussurrei, senti-o me encarar. — Perdoe-me, majestade. Apenas devo dizer que se cá estou, então, devo servir-te… não há nada em mim… há nada que sou… nem mesmo tenho nome… — Eu não tinha memória do antes de despertar naquela areia negra, com a água negra daquele oceano em meus pés. Sequer um nome eu tinha, ou uma história. Voltei-me ao rei, aproximei-me devagar. 

— Teu nome será Líria, pelo lírico perfume doce que emanas e pela poesia vestal dos teus olhos. — Reconheci-me Líria, intimamente. — E deverás chamar teu rei pelo nome que o pertence… Ahzaez. Eu sou Ahzaez. — Afirmou e manteve seus olhos em mim, olhos de raro rubi.

— Ahzaez… — Sussurrei e, para ele, sorri.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Maldita Melodia

Algumas vezes, as coisas habituais se tornam estranhas; não o estranho de não reconhecer, mas o estranho desconfortável, aquele que incomoda, que é anormal…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Algumas vezes, as coisas habituais se tornam estranhas; não o estranho de não reconhecer, mas o estranho desconfortável, aquele que incomoda, que é anormal. Coisas que antes eram familiares se tornam incomuns. Assim foi com a música. Tudo começou como um sonho, ou melhor, como um sussurro musical no meio da noite, que penetrava a minha mente. Quando acordei, a melodia continuava ali, flutuando no meu cérebro e, por algum motivo, ela não ia embora. Às vezes, acontecia de uma melodia se prender à minha mente, e eu ficar a cantarolar por horas e, às vezes, dias, aquela mesma melodia. Sentei-me na beira da cama, tentando capturar a melodia que ainda flutuava no meu cérebro. Era bela, embora impossível de cantarolar. Meus lábios não conseguiam formar os sons. Fui até meu violoncelo e tentei transcrever aquela melodia para as cordas. Posicionei o arco, alinhei os dedos e, então, nada. Eu não conseguia tirar aquela melodia da minha cabeça e, ao mesmo tempo, não conseguia trazê-la ao mundo real. 

Os dias pareciam passar lentos, e a repetição daquela melodia começou a se tornar torturante. A música, antes lenta e tranquila, parecia aumentar aos poucos. Ela não parava, não alterava, repetia-se em um loop dentro da minha cabeça. Eu tentei escrevê-la, traçava as pautas com rapidez, mas as notas não se encaixavam. Era como se a música fugisse de qualquer estrutura lógica; as notas pareciam se negar a tomar forma no papel, rejeitando existir fora da minha mente. Minhas tentativas de cantarolar eram inúteis: o som na minha cabeça parecia se dissolver assim que passava pela minha garganta. Ainda assim, eu insistia. Insistia dia após dia. Minhas mãos tremiam a cada tentativa, e minha mente parecia se desfazer lentamente, exausta de tantas noites sem dormir com aquela melodia que não queria existir. 

Eu me recordo do momento exato em que essa música começou a me torturar de verdade. Eu estava fora de casa, em uma tarde, tentando me concentrar nos sons das folhas, dos pássaros, dos carros, de tudo ao meu redor. Tentando me concentrar na paisagem. Mas parecia que tudo ia ficando mais cinzento, mais escuro, e, lá no fundo, a música aumentava. Seu tom se intensificava, suas pausas diminuíam, e as notas se elevavam, como se, a qualquer momento, fosse alcançar o clímax e, com isso, fazer meus miolos escorrerem pelos ouvidos. 

Voltei para casa e tentei mais uma vez tocar aquela melodia maldita. As cordas vibravam de maneira errada, as notas vinham distorcidas, o tom estava errado, e eu, frustrada. Até o violoncelo parecia se recusar a cooperar comigo. Algo estava diferente nele — ou talvez eu estivesse diferente. 

Comecei a evitar as pessoas. Suas vozes pareciam intensificar-se ainda mais; cada conversa me perturbava, tornando o som mais intrusivo, mais alto. Eu não suportava mais o mundo lá fora; cada ruído acrescentava mais urgência à melodia. O violoncelo tornou-se um fardo, mas eu não conseguia parar de tentar tocar a melodia. Achava que, se eu conseguisse, talvez ela cessasse. 

Então, tentei. Presa em minha casa, com janelas e portas trancadas e o som de fora abafado, coloquei o arco sobre as cordas, fechei os olhos e me concentrei na melodia dentro da minha cabeça. Ela já se misturava com o tique-taque do relógio, os ruídos dos canos, o som da geladeira, o barulho do ventilador e até o zumbido da eletricidade da casa. Puxei o arco com força, e o som que saiu não era da melodia. Talvez nem fosse humano. Era como um lamento, que fez todo o meu corpo se arrepiar, as paredes tremerem e a madeira do violoncelo vibrar. 

Soltei o violoncelo e olhei para ele com horror, mas não conseguia controlar o impulso de pegá-lo outra vez e tentar tocar a melodia, que agora parecia rir dentro da minha cabeça. Já nem sei o que é real. A melodia não me deixa, e eu não consigo deixar de tentar tocá-la. O violoncelo parece não aguentar mais: suas cordas estão tensas, prestes a arrebentar. Eu só quero tocar essa maldita melodia, só quero que ela tome forma — ou talvez seja melhor que ela permaneça aqui, dentro da minha mente, onde sempre esteve. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Hereditário - Parte III: Hereditariedade

Os outros dois companheiros que acompanhavam o cortejo logo apertaram o passo e deixaram os outros três para trás…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Os outros dois companheiros que acompanhavam o cortejo logo apertaram o passo e deixaram os outros três para trás. Seguiram juntos: o solícito Dominguin, a lamentosa Gardênia e seu exausto filho, que se arrastava pela estrada afora. O silêncio que se estabelecera entre eles por quase todo o caminho era bastante inquietante. Dominguin tentou por diversas vezes quebrá-lo, tentando oferecer-lhes algum conforto. De todas as formas possíveis, buscou puxar assunto com Gardênia. No entanto, entre profundos suspiros, vez por outra, ela apenas respondia-lhe monossilabicamente, para não lhe ser grosseira. Caminhando sempre cabisbaixa, Gardênia manteve-se envolta num silêncio reflexivo, absorta em sombrios e amargos pensamentos quanto ao seu destino e futuro ainda incerto. 

Qualquer um que a visse caminhando daquela forma talvez nem reconhecesse nela mesma a bela Gardênia de outrora. Andando com a fronte baixa e o olhar no vazio, ela era uma imagem triste de se ver. Sua maquiagem, normalmente perfeita, tinha se estragado ao longo das últimas doze horas, e seu cabelo de belos cachos, também sempre muito bem alinhados, estavam revoltos, uma bagunça completa, dando-lhe um aspecto bastante grotesco. Suas vestes – devido à longa caminhada sob uma chuva fina – não estavam nas melhores condições. Mesmo assim, ela continuou caminhando de forma decidida, a fim de dar a seu pai um último adeus de forma decente. 

Aproximava-se do meio-dia quando avistaram ao longe o campanário da igreja e, logo depois de mais alguns passos, os poucos telhados das casinhas do vilarejo. Ao passarem pelas primeiras casas, Gardênia recebia as respeitosas condolências de um e de outro, tanto daqueles que tinham muito a agradecer a seu pai quanto daqueles que o temiam. No entanto, assim que lhes prestavam seus sinceros sentimentos, algo os inquietava. Se Gardênia – a inseparável filha de Pai Thomás – estava ali, onde estaria o cortejo com o corpo do falecido? A igreja, para onde obviamente o corpo de seu pai deveria ter sido levado para receber as exéquias finais, ficava no centro do pequeno vilarejo. 

Padre João Paulo já os aguardava – pois estava de sobreaviso – mas, assim que os viu caminhando, rumo à igreja, de mãos vazias, teve um sobressalto, sabendo que algo não estava certo. Assim que Gardênia se aproximou dos umbrais da porta da igreja, foi logo recebida de braços abertos pelo senil reverendo, que a acolheu como um saudoso pai acolheria uma filha há tempos ausente. 

Com dolorosos suspiros e entre soluços, Gardênia, após pedir sua bênção, perguntou onde estava o corpo de seu pai. 

– Como assim? Não eram justamente vocês que o estavam trazendo? – questionou o padre. 

– Sim. Mas, pelo caminho, fomos abordados por quatro distintos cavaleiros que nos ofereceram ajuda para transportá-lo. Como estávamos todos nós já bastante exaustos pela caminhada desde as primeiras horas da manhã, recebemos de muito bom grado o auxílio que nos foi oferecido. Estando eles sobre velozes cavalos, certamente deveriam ter chegado bem antes de nós – disse ela, com certa dúvida na voz. 

– Você conhecia os cavaleiros que lhes ofereceram ajuda, minha filha? Ou pelo menos já os tinha visto alguma outra vez? – questionou o padre, já em tom de alerta. 

– Na verdade, não! Mas parece que eles conheciam meu pai muito bem, e Seu Jura, que esteve conosco até bem pouco tempo atrás, também sabia de quem se tratavam. Pois, quando os cavaleiros se ofereceram para levar o corpo, ele não se opôs. Na verdade, não disse uma única palavra em contrário. Só achei estranho o fato de ele, que sempre acompanhava todo e qualquer velório do início ao fim, não ter vindo conosco dar o último adeus ao meu pai, que sempre o tivera em grande préstimo... 

Padre João, um homem já próximo ao horizonte de sua vida, pois já era quase octogenário, logo soube que havia algo de bastante obscuro naquilo tudo. Ao ouvir de Dominguin a descrição dos tais cavaleiros, um estranho arrepio lhe correu por todo o corpo e, de forma involuntária, se benzeu, beijando a cruz de seu rosário em seguida. Percebendo que aquele gesto causara certa estranheza à Gardênia, disse que certamente haveria uma plausível explicação para aquilo tudo. 

E, para tentar tranquilizar a soturna e assustada Gardênia, que já dava mostras de plena inquietude, disse-lhe que talvez fossem viajantes apressados e tivessem decidido levar o corpo direto para a capelinha do cemitério. 

– Sigamos também para lá, onde poderemos prosseguir com as exéquias necessárias para o sepultamento de seu querido pai e conceder-lhe o respeito merecido – completou o padre. 

Se a cidade era bem pequena – um aglomerado de uma dúzia de casas talvez, uma venda quase completa, com toda sorte de quinquilharias, onde poderia se encontrar quase de tudo um pouco e a própria igreja – o cemitério nem tanto, afinal todos aqueles que morriam num raio de quase cem quilômetros, para ali eram levados para seu descanso eterno. Não era um lugar luxuoso como a cidade dos mortos das grandes cidades – como rapidamente Dominguin o notara. No entanto, havia inúmeras sepulturas algumas recentes e outras com datas de sepultamento de quase um século. A maioria delas era simples e humilde tão como o próprio lugar o representa – local onde a luxuria, a arrogância e o orgulho cedem lugar à humildade. A calma, o isolamento e a paz daquele lugar pareciam profundos e íntimos em muitos sentidos, pois era ali naquele campo santo, que o ser se deparava com todas as verdades do Universo. No entanto, ao passarem pelo portão, logo perceberam que uma sombra terrível tinha pairado sobre eles. O cemitério estava completamente vazio. Nem mesmo o coveiro – Seu Zuza, que já havia deixado a cova aberta – estava presente. Assim que terminou de cavar a sepultura logo bem cedo, como a chuva apertara bastante, decidira voltar para casa, só retornando assim que o corpo chegasse, e mais uma vez seus serviços se fizessem necessários. Aproximaram-se da cova recém-aberta e a surpresa foi geral. A sepultura estava aberta, mas dentro não havia nada. Absolutamente nada... 

Ali e outrora tinham-se transformado num aqui e agora. O céu que esteve cinzento durante toda a manhã, mas naquele momento se escurecera ainda um pouco mais. Num átimo de desespero, Gardênia com as mãos cobrindo a face num abscesso de loucura, demonstrando o mais completo desespero abjeto, em soluços gritara aos céus: 

– Onde está meu pai? O que fizeram com seu corpo? Quem eram aqueles que o traziam? 

Em sua voz havia tanta dor e desespero, que toda a natureza ao redor se silenciara por completo em respeito ao seu sofrimento. Padre João a amparava em seus braços dizendo-lhe que haveria uma explicação lógica para aquilo tudo. A dor que ela estava sentindo naquele momento era algo inominável e tendia a ficar ainda pior, quando seu filho o exausto Júlio César andando pelas cercanias do cemitério se deparara com o banguê que trazia seu avô e a mortalha que envolvia seu corpo. Curioso como toda e qualquer criança, ao decidir tocar naqueles fúnebres tecidos fora atacado por uma cobra que jazia sob aquelas lúgubres vestes. A serpente – uma agressiva cascavel – conseguira fugir se escondendo numa toca entre as sepulturas. Gardênia entrou em pânico ao ver o estrago no braço do filho, causado pelo ataque da serpente. Por ser uma áspide de terrível veneno, em poucos minutos a ferida se tornara arroxeada e a pele ao redor adquiriu um enorme inchaço. Júlio sentiu o efeito do veneno quase de imediato desfalecendo nos braços da mãe pedindo-lhe água, pois se dizia bastante sedento. Sabendo o quanto o veneno de uma cascavel poderia ser danoso a quem quer que fosse, e em se tratando de uma criança pior ainda, talvez pudesse vir a ser, até mesmo letal, Padre João ordenou que a criança fosse imediatamente levada a casa paroquial, para receber o tratamento adequado. Assim que a criança fosse tratada e tivesse fora de perigo, tentariam também buscar uma possível solução para o mistério do desaparecimento do corpo de Pai Thomás.  

Devido à sua posição de respeito, ainda no caminho entre o cemitério e a casa paroquial, Padre João logo convocou quase toda a cidade a fazer uma varredura completa ao redor do vilarejo, em busca de algum vestígio que indicasse o paradeiro do corpo de Pai Thomás. Muitos foram questionados se haviam visto os cavaleiros mencionados por Gardênia na estrada, quem sabe passando pela cidade ou mesmo ao redor do cemitério. De forma unânime, a negativa foi geral. Ninguém vira sequer um cavaleiro, muito menos quatro, carregando um banguê com um falecido em cima. Tudo aquilo era um grande mistério; o único consenso era que o corpo de Pai Thomás havia desaparecido. 

Enquanto as buscas e possíveis explicações aconteciam de um lado, no interior da casa paroquial havia grande preocupação com o estado do filho de Gardênia, que demonstrava claramente os efeitos do veneno em seu corpo. Seus lábios – outrora viçosos e vermelhos – estavam brancos e sem vida. Todo o seu corpo, que suava intensamente, adquirira um estranho inchaço, e ao redor da ferida iniciara-se um processo de necrose. Prostrado sobre um pequeno catre, Júlio César gemia quase todo o tempo, delirando e falando coisas sem sentido. Tais sintomas indicavam que sua situação era bastante delicada, e Gardênia sabia disso muito bem. 

A própria Gardênia, com os conhecimentos de cura que aprendera com seu falecido pai, preparara uma determinada beberagem e um unguento de aspecto pastoso e cheiro peculiar, que era aplicado sobre a ferida de tempos em tempos. 

Dona Diolinda – uma das beatas que cuidavam da casa paroquial e que também fazia as vezes de benzedeira local – auxiliava no tratamento do menino. Em voz baixa, sussurrou ao padre que, em seus quase setenta anos, jamais tinha visto um veneno tão agressivo quanto aquele e que o estado do menino era gravíssimo. Se viesse a escapar, certamente seria por milagre. Padre João, no entanto, não ousou comunicar essa peculiaridade à Gardênia. Ela, por sua vez, parecia saber disso, mas confiava em seus conhecimentos de cura. 

A tarde, assim como a manhã, fora de um frio intenso devido à chuva fina que caía sem cessar. Contudo, ao cair da tarde, a natureza parecia transtornada, e a ordem das coisas, ainda mais posta às avessas. O frio, trazido por um vento constante, tornara-se quase insuportável, enregelando até os ossos de quem ousasse enfrentá-lo. 

Já no final de uma tarde de buscas infrutíferas e explicações adversas, Gardênia decidiu que, assim que seu filho se restabelecesse, deveria retornar para casa. Após o imbróglio do sumiço do corpo de seu pai e o incidente com Júlio César, sentia-se bastante frustrada e com a cabeça zonza diante de toda aquela sinistra e inexplicável situação. Sabia que, nessas circunstâncias, apenas o aconchego do lar poderia lhe proporcionar o conforto necessário. 

As buscas pelo corpo de Pai Thomás demonstraram-se infrutíferas devido a três principais motivos: o primeiro deles, pela negligência de quem o estava procurando, pois ninguém na cidade – um lugar minúsculo onde todos sabiam de tudo, e nada acontecia em segredo – havia visto nada, nem mesmo ninguém, transportando um cadáver. O segundo motivo foi o frio, que aumentara bastante com o findar da tarde, e a chuva, que voltara a cair de forma incessante com a chegada da noite. Por último, a história que envolvia os tais misteriosos cavaleiros: quem os procurava talvez não tivesse, no fundo, a verdadeira intenção de encontrá-los. 

Assim que as buscas ao redor da cidade foram dadas por encerradas, Padre João aproximou-se de Gardênia e, em surdina, disse-lhe: 

– Apesar de meus anos vividos e de minha longa experiência como clérigo, sempre tive uma tendência ao racional, ao conhecido e ao empírico, considerando que nunca presenciei nada de paranormal; nem milagres, nem assombrações, nem anjos ou demônios, tampouco um simples caso de possessão. Em toda a minha vida, nunca presenciei algo que a ciência não pudesse explicar. No entanto, devo admitir que há fatores bastante sinistros e ainda inexplicáveis no desaparecimento do corpo de seu pai, considerando como se deu o fato. Qualquer pessoa sã, ao ouvir essa história – quatro cavaleiros negros que surgem do nada, à luz do dia, recolhem um corpo de um cortejo fúnebre e, da mesma forma que surgiram, desaparecem, levando consigo o corpo e tudo mais – teria dúvidas concretas sobre a veracidade dos acontecimentos. 

– No entanto, jamais devemos duvidar de algo pelo simples fato de não termos visto ou ouvido. Os sonhos, a dor ou mesmo os sentimentos não podem ser vistos, ouvidos ou sentidos pelo tato, mas, mesmo assim, sabemos que eles existem. Eu mesmo já não duvido de mais nada; apenas aguardo, com paciência, que tudo se esclareça. Creiamos, contudo, que haja uma explicação lógica para tudo isso, e logo o tempo nos trará as devidas respostas. 

– A vida de seu pai foi bastante longeva e cheia de provações, o que, em seus últimos anos, o tornou um homem de comportamento um tanto peculiar. Sem dúvida alguma, mesmo sendo ele um ser extraordinário, ainda assim era um ser humano comum, como todos nós. Mais dia, menos dia, também teria que se deparar com o único mal irremediável. Independente do que se faça ou se deixe de fazer, mais cedo ou mais tarde, a mão de Deus alcança a todos nós. 

Gardênia, que ouvira tudo aquilo em absoluto silêncio, de alguma forma imaginava que as palavras do padre faziam sentido. Contudo, em seu íntimo, tinha quase a certeza de que talvez não tivesse sido a mão de Deus que tolhera a vida de seu pai. Com um profundo suspiro, ela, que estava de cabeça baixa, sentada junto à cabeceira da cama, velando pelo filho, que repousava entre gemidos e um inquieto sono, sem demonstrar nenhum indício de restabelecimento, perguntou ao padre, levantando os olhos por um breve momento: 

– Padre João! Quero que me responda com toda a sinceridade que sua posição exige. O senhor acredita em demônios? E, se acredita, acha que talvez os tais cavaleiros na estrada... 

O senil reverendo percebeu que deveria ter certo cuidado ao responder àquela infeliz criatura que estava diante dele. Ao fitá-la nos olhos, viu dor, descrença e ódio. Por sua vasta experiência de vida e sabedoria adquirida, já não tinha tanta certeza de qual desses sentimentos predominava, mas, se fosse obrigado a dar um palpite, certamente escolheria o ódio. O brilho que emanava dos olhos daquela mãe era tão letal quanto o veneno da mais terrível entre todas as áspides que rastejam pelo mundo. Então ele respondeu: 

– Se acredito na luz, obviamente devo acreditar nas trevas. Tenho uma inabalável fé em nosso Criador e, certamente, também creio em suas criações. Demônios fazem parte das primeiras criaturas de Deus, entidades inumanas provenientes dos primeiros anjos – aqueles que caíram em desgraça perante seu Criador. São terríveis criaturas, desprovidas da Graça divina, que nada têm além do tempo para arquitetar maldades e vingança contra as demais criaturas de Deus, alimentando-se da dor e do sofrimento alheio. Por serem tão antigas quanto a própria existência, são sábias e ardilosas, tentando o tempo todo seduzir aqueles que padecem de provações e, por isso, estão fracos em sua fé... Conhecendo nossas fraquezas, nosso Salvador nos aconselhou a orar e vigiar sempre. 

Vendo que a criança ainda vivia e sem querer responder à última pergunta dela, Padre João pediu licença e dirigiu-se até a igreja para as orações do Ângelus. 

Como o tempo estava fechado e a chuva não dava trégua, Dominguin, que estivera ao lado de Gardênia quase todo o tempo, conseguiu convencê-la a passar a noite na humilde casa paroquial. Ele prometeu que, na manhã seguinte, a acompanharia no trajeto de volta até sua casa. Com certa relutância – mas, principalmente, pensando na languidez do filho e na esperança de seu restabelecimento, que, mesmo com todos os seus esforços, demonstrava não apresentar nenhuma melhora – Gardênia decidiu pernoitar, resolvendo iniciar o retorno ao lar nas primeiras horas da manhã seguinte. Ela sabia que, certamente, entre as diversas beberagens de seu pai, haveria alguma que pudesse restituir a saúde do filho. 

Foi uma noite longa e cheia de pensamentos inquietos. Seu filho tivera uma noite bastante atribulada, gemendo e se mexendo o tempo todo, enquanto dormia um sono pesado e repleto de delírios. Já na alta madrugada, mesmo se sentindo exausta pela vigília ao lado do filho, ao perceber que ele dormia profundamente e que Dona Diolinda zelaria por ele em sua breve ausência, Gardênia decidiu ir até a igreja para um momento de reflexão solitária. 

Essa bondosa e sábia senhora, que se mostrou prestativa desde que eles chegaram, esteve sentada em uma cadeira, num canto distante, com o terço nas mãos, rezando o tempo todo. Contudo, as intenções de Gardênia foram frustradas ao se deparar com Padre João, que estava em vigília no genuflexório, em profunda oração. 

Após um longo período sentada no fundo, bem distante do altar, na silenciosa penumbra da igreja – que, naquele momento, estava iluminada apenas por uma única vela bruxuleante –, Gardênia decidiu se aproximar, a fim de usufruir da confortável companhia do reverendo. O sábio padre, percebendo sua presença, virou-se em sua direção e disse: 

– Seja sempre bem-vinda à casa do Senhor. Que a paz de Cristo possa reinar em seu coração.  

– Sei que você parece bastante confusa com tudo o que aconteceu a seu pai, mas preciso lhe contar algumas coisas que talvez possam ser úteis no esclarecimento deste mistério. Talvez o que eu vá relatar sirva como resposta à pergunta que me fizeste anteriormente. Depois de muita reflexão e de uma profunda conversa com Deus, sinto-me em paz e confiante no que vou lhe dizer sobre seu pai. Independentemente do que vou relatar, quero que ouça em silêncio e tente abrir seu coração para o que vou contar. E prometa-me que jamais ouse compartilhar isso com quem quer que seja, pois o que estou prestes a dizer foi-me confiado em segredo de confissão. No entanto, a situação me obriga a colocá-la a par de tudo que aconteceu desde o início. Em respeito à memória de seu pai, apenas ouça. 

– Quando conheci seu pai, há muitos anos, bem antes de você nascer, ele era um homem alegre e cheio de sonhos. Onde quer que estivesse, sua presença era sempre acompanhada de alegria e muito entusiasmo, e era adorado por todos. Sua mãe era uma mulher belíssima, na flor da idade, apaixonada tanto por seu pai quanto pela vida que ele proporcionava a ela. Quando chegaram a esta terra, vindos de longe, trouxeram consigo uma distinta senhora, que tinha a ambos como filhos. Sua família parecia ser a mais abençoada de todas, e essa bênção tornou-se ainda maior com a sua chegada. 

– Eu mesmo – a pedido de sua mãe – tive o prazer de batizá-la com o nome que seu pai escolhera em homenagem à flor que sua mãe mais amava. 

– Por um bom tempo, a paz e a bonança fizeram morada em seu lar. A felicidade de sua família parecia completa e inabalável. Mas logo uma sombra se abateu sobre sua casa. Primeiro, a gentil senhora, que em pouco tempo conquistou o respeito e a simpatia de todos na região, se foi, deixando sua mãe completamente arrasada, pois a tinha como uma mãe. Depois veio a terrível moléstia que acometeu sua mãe, tolhendo não apenas sua vitalidade, mas também sua juventude e beleza. E, por fim, com a morte de sua mãe – para ela, um merecido descanso, depois de tanta dor e sofrimento – veio a momentânea loucura de seu pai. 

– Essa loucura foi vista por muitos como uma simples fuga da realidade; um mecanismo de defesa contra os golpes excessivamente graves que o destino lhe infligira e que ele, por um breve momento, não teve forças para enfrentar com lucidez... 

– Por várias vezes fui até seu pai, tentar levar algum conforto a ele. Mesmo com a enorme distância entre sua casa e aqui, eu era jovem na época e ainda contava com força e disposição. Todavia, minhas visitas mostraram-se em vão. Quando eu já estava me dando por vencido, recebi a visita de seu pai nesta mesma igreja. Antes de entrar, ele permaneceu um longo tempo à porta, relutante em pisar neste solo sagrado, embora já o tivesse feito muitas vezes antes. 

– Quando o questionei sobre o motivo de tanta relutância, ele me respondeu que talvez não fosse mais digno de adentrar à casa de Deus na situação em que se encontrava. Só entrou quando eu lhe disse que nossa verdadeira dignidade está no espírito e nas intenções de nossas ações, e não em nossa aparência ou condição momentânea. Disse ainda que cada ação humana é movida por motivo e oportunidade, e que nada é por acaso. A casa de Deus é um refúgio para pecadores em busca de redenção. Todo aquele que se sente cansado e oprimido encontrará alívio ali, e todo aquele que estiver em profundo arrependimento encontrará o perdão para os seus pecados. 

– Seu pai, parado defronte ao altar, com o olhar perdido no vazio, me disse que, para certos pecados, mesmo o mais profundo e sincero arrependimento não traria perdão. Quando tentei dissuadi-lo de sua convicção, ele pediu que ouvisse sua confissão antes de dizer qualquer outra coisa. Em qualquer diálogo, é sensato falar e ouvir, mas é mais sábio aquele que sabe ouvir mais e falar no momento certo. Então, assim o fiz: ouvi toda a sua confissão no mais absoluto silêncio. 

Padre João ficou em silêncio por um longo tempo. Seu mutismo foi tão extenso que Gardênia imaginou que ele talvez tivesse adormecido ao som de suas próprias palavras. Mas, antes que ela dissesse qualquer coisa, ele continuou: 

– Seu pai, vendo o sofrimento infligido a sua mãe, não teve a fé necessária para enfrentar aqueles momentos de tribulação e fez uma escolha... O passado permanece no passado. Podemos aprender com ele, mas não podemos mudá-lo. Filha, tudo o que acontece em nossas vidas é regido pelo nosso sagrado livre-arbítrio. Um grande contexto de causas, escolhas e consequências. Jamais se deixe levar pelo desespero; Deus estará sempre contigo. Assim que seu filho se restabeleça por completo, volte para sua casa e siga sua vida em paz. 

Depois de mais um momento de silêncio, ele prosseguiu: 

– Percebi que o jovem Daniel, recém-chegado da capital, tem grande apreço por você. Pelo que vi, está disposto a acompanhá-la de volta e a tentar lhe dar algum conforto. Pelo que sei sobre ele, é um bom rapaz. Abra seu coração, aceite sua amizade e suas boas intenções. 

– O conheci ontem mesmo e vi bondade e boas intenções em seu coração. É realmente um rapaz adorável. No entanto, todos os homens são assim no início, até conseguirem o que realmente desejam – disse Gardênia, de forma decidida, saindo da igreja ainda sem as respostas que tanto ansiava. O sábio reverendo havia falado muito, mas, no final, parecia não ter dito nada. 

Sabendo que, em determinadas situações, o silêncio e a solidão eram as melhores companhias, decidiu caminhar um pouco para espairecer suas ideias e refletir sobre como sua vida seria dali em diante. A chuva dera tréguas naquela madrugada, e o céu, limpo por quase completo, deixava uma lua em quarto crescente brilhar soberana sobre ela. Perdida em seus pensamentos, caminhando sozinha a esmo, deu por si defronte ao pequeno portão do cemitério, onde o corpo de seu pai deveria ter sido enterrado naquela tarde. 

Mesmo ali, sozinha, em plena madrugada, nada temia. No fundo de sua alma, sabia que nenhum mal lhe poderia ser maior do que o que já enfrentava e que, talvez, restassem-lhe poucas razões para viver. Perdera a mãe antes mesmo de poder conhecê-la direito; sua vida amorosa fora um completo fracasso; seu pai, que sempre fora seu esteio, já não estava mais entre os vivos – talvez nem mesmo entre os mortos. E seu filho amado, o único parente que ainda lhe restava, caminhava cambaleante pelo vale da sombra da morte. Naquele instante, tudo o que via em seu futuro era escuridão e sofrimento. 

Fechou os olhos, perdida em seus pensamentos, e deixou-se levar pelo frescor de uma leve brisa que soprava em sua face, enquanto ouvia o intenso barulho das diversas criaturas da noite em sua constante serenata ao luar. Ainda de olhos fechados, parada diante da entrada daquele sagrado lugar de descanso, murmurou para si mesma: 

– Eu daria qualquer coisa para que todo esse sofrimento acabasse. 

Por um breve momento, sentiu que a paz tomava conta de todo o seu ser. No entanto, essa paz foi interrompida por um silêncio estranho que se fez ao seu redor. Todas as criaturas se calaram, e ela pôde ouvir passos em sua direção. 

Ao abrir os olhos, deparou-se com um ser de beleza inigualável. Era um homem de presença marcante, alto e forte, com belos cabelos cacheados na cor do mais puro ouro. Sua face lisa tinha traços delicados, e seus olhos tinham o tom do céu em uma primavera ensolarada. Quando gentilmente a cumprimentou com um sorriso indulgente, deixou à mostra dentes alvos e perfeitamente alinhados, delineados por sedutores lábios na cor de carmim. 

Sua voz era doce como o entoar de um pássaro ao amanhecer. 

– Boa noite, bela dama. O que fazes, sozinha, caminhando a esmo em horas tão tardias? 

– Boa noite. Precisava de um pouco de ar fresco para espairecer minhas ideias. Tenho enfrentado penosas atribulações. Sinto-me cansada e oprimida, buscando paz na silenciosa solidão da noite – respondeu ela, sem sequer questionar quem ele era ou por que também estaria ali. 

– Salvo engano, tenho a impressão de tê-la visto saindo da igreja há pouco. Não é justamente lá onde se encontra a paz e o conforto? – questionou ele, com um sorriso malicioso. 

– Certamente que sim, principalmente para aqueles que acreditam... Perdi minha mãe, quando ainda era uma criança. Tive minha inocência vilmente violentada. Perdi meu amado pai há dois dias. Até mesmo seu próprio corpo foi levado, sem receber os devidos respeitos de um enterro digno. Meu filho jaz à beira da morte, padecendo os efeitos do veneno de uma víbora. Neste momento, sinto, no mais profundo do meu ser, uma indescritível descrença em toda e qualquer promessa vazia que tange ao abstrato. Vi, com meus próprios olhos, aqueles que levaram meu pai. Contemplei também a serpente que atacou meu filho. Não há lugar em meu coração para promessas vazias. Aos poucos, meu mundo tem sido tirado de mim... – Suas palavras foram interrompidas pela força da emoção, enquanto as lágrimas banhavam seu rosto. 

– Dar-te-ei o alívio que procuras, se assim o desejares! – disse ele, fitando-a nos olhos. 

– Não peço nada por mim. Não há nada que poderíeis oferecer a mim mesma. Desde sempre, a dor e o sofrimento me fazem companhia. Se há algo que possa me oferecer, peço pelo meu filho. Seu sofrimento traz-me uma dor que nada neste mundo poderia ser pior. Mas, afinal, quem sois? Por que me atormentais desta forma, oferecendo aquilo que não podeis conceber? – disse ela, irritada por se deixar levar pela conversa de um estranho. 

– Quem sou, não importa. O que posso oferecer, sim. Apenas peça aquilo que vosso coração deseja, e contemplai com vossos próprios olhos o que meras palavras não podem mostrar – disse ele. 

Por um breve momento, ela lhe deu as costas e começou a se afastar. No entanto, o instinto de mãe falou mais alto, e ela voltou-se novamente para aquele belo ser: 

– O que quereis de mim? De que forma achais que poderíeis me ajudar? Parece que não ouvistes uma palavra sequer do que eu disse. Não vedes que nada, nem ninguém neste mundo, poderia me ajudar? Deixai-me em paz e apenas segui vosso caminho. 

– Sabemos tudo sobre vosso pai e o que aconteceu com ele. Seu corpo foi tomado como recebimento de uma dívida antiga. Saiba que ele foi um homem honrado e cumpriu, durante sua vida, todas as suas obrigações. No entanto, para vós, o fim é iminente. Mas o trabalho dele deve continuar. O que queremos é que sigais o mesmo caminho trilhado por ele. Nada mais desejamos. Em troca, poderemos vos dar tudo aquilo que desejardes! Desejai, e vereis – disse ele, num tom imperativo. 

– Como assim? Que história é essa sobre meu pai? Que tipo de trabalho é esse? Que dívida é essa? E por que falais no plural, se apenas vos vejo diante de mim? Quem sois? – questionou ela, já bastante irritada. 

– O Senhor é Deus. Eu não sou ninguém, mas nós somos muitos... Apenas desejai! – disse ele. 

Gardênia, bastante irritada e já sem paciência, decidiu pôr fim àquilo. Fitando os olhos do estranho, sem demonstrar qualquer traço de medo, disse, por fim, num tom de desafio: 

– Então, vamos lá. Sendo assim, eis-me aqui. Sim, eu quero! Acabai com todo o sofrimento de meu filho, e farei tudo o que me pedirdes! 

Sua voz era doce como o entoar de um pássaro ao amanhecer. 

– Boa noite, bela dama. O que fazes, sozinha, caminhando a esmo em horas tão tardias? 

– Boa noite. Precisava de um pouco de ar fresco para espairecer minhas ideias. Tenho enfrentado penosas atribulações. Sinto-me cansada e oprimida, buscando paz na silenciosa solidão da noite – respondeu ela, sem sequer questionar quem ele era ou por que também estaria ali. 

– Salvo engano, tenho a impressão de tê-la visto saindo da igreja há pouco. Não é justamente lá onde se encontra a paz e o conforto? – questionou ele, com um sorriso malicioso. 

– Certamente que sim, principalmente para aqueles que acreditam... Perdi minha mãe, quando ainda era uma criança. Tive minha inocência vilmente violentada. Perdi meu amado pai há dois dias. Até mesmo seu próprio corpo foi levado, sem receber os devidos respeitos de um enterro digno. Meu filho jaz à beira da morte, padecendo os efeitos do veneno de uma víbora. Neste momento, sinto, no mais profundo do meu ser, uma indescritível descrença em toda e qualquer promessa vazia que tange ao abstrato. Vi, com meus próprios olhos, aqueles que levaram meu pai. Contemplei também a serpente que atacou meu filho. Não há lugar em meu coração para promessas vazias. Aos poucos, meu mundo tem sido tirado de mim... – Suas palavras foram interrompidas pela força da emoção, enquanto as lágrimas banhavam seu rosto. 

– Dar-te-ei o alívio que procuras, se assim o desejares! – disse ele, fitando-a nos olhos. 

– Não peço nada por mim. Não há nada que poderíeis oferecer a mim mesma. Desde sempre, a dor e o sofrimento me fazem companhia. Se há algo que possa me oferecer, peço pelo meu filho. Seu sofrimento traz-me uma dor que nada neste mundo poderia ser pior. Mas, afinal, quem sois? Por que me atormentais desta forma, oferecendo aquilo que não podeis conceber? – disse ela, irritada por se deixar levar pela conversa de um estranho. 

– Quem sou, não importa. O que posso oferecer, sim. Apenas peça aquilo que vosso coração deseja, e contemplai com vossos próprios olhos o que meras palavras não podem mostrar – disse ele. 

Por um breve momento, ela lhe deu as costas e começou a se afastar. No entanto, o instinto de mãe falou mais alto, e ela voltou-se novamente para aquele belo ser: 

– O que quereis de mim? De que forma achais que poderíeis me ajudar? Parece que não ouvistes uma palavra sequer do que eu disse. Não vedes que nada, nem ninguém neste mundo, poderia me ajudar? Deixai-me em paz e apenas segui vosso caminho. 

– Sabemos tudo sobre vosso pai e o que aconteceu com ele. Seu corpo foi tomado como recebimento de uma dívida antiga. Saiba que ele foi um homem honrado e cumpriu, durante sua vida, todas as suas obrigações. No entanto, para vós, o fim é iminente. Mas o trabalho dele deve continuar. O que queremos é que sigais o mesmo caminho trilhado por ele. Nada mais desejamos. Em troca, poderemos vos dar tudo aquilo que desejardes! Desejai, e vereis – disse ele, num tom imperativo. 

– Como assim? Que história é essa sobre meu pai? Que tipo de trabalho é esse? Que dívida é essa? E por que falais no plural, se apenas vos vejo diante de mim? Quem sois? – questionou ela, já bastante irritada. 

– O Senhor é Deus. Eu não sou ninguém, mas nós somos muitos... Apenas desejai! – disse ele. 

Gardênia, bastante irritada e já sem paciência, decidiu pôr fim àquilo. Fitando os olhos do estranho, sem demonstrar qualquer traço de medo, disse, por fim, num tom de desafio: 

– Então, vamos lá. Sendo assim, eis-me aqui. Sim, eu quero! Acabai com todo o sofrimento de meu filho, e farei tudo o que me pedirdes! 

Antes mesmo de terminar de proferir essas palavras, uma coruja, que assistia a tudo em absoluto silêncio, arrulhou em agouro, levantando voo de onde estava assentada. Sobrevoou sobre sua cabeça e pousou no galho de uma velha paineira que se erguia dentro do cemitério. O feito daquele misterioso pássaro desviou momentaneamente sua atenção e, ao olhar novamente ao redor, viu-se mais uma vez sozinha perante a porta do reino dos mortos. 

Temendo ter sido acometida por algum tipo de alucinação, visão ou algo que o valha, e acreditando que talvez já não fosse senhora de suas faculdades mentais, sentiu-se tomada por um surto de loucura – tal qual seu próprio pai, certa vez acometido. Decidiu, então, retornar imediatamente para perto do filho, na esperança de ajudá-lo de alguma forma. 

Antes mesmo de chegar à igreja, avistou, ainda ao longe, Padre João na porta de entrada, vindo em sua direção com a cabeça baixa. Naquele instante, seu coração quase parou, o ar lhe faltou, e suas pernas fraquejaram. Quando o padre enfim falou, ela estava de joelhos diante da porta da igreja. 

– Minha filha, sinto muito em dizer-lhe... seu filho já não sofre mais... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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