Morto-Vivo
No altar o odor pútrido paira no ar, | Nessa igreja de cadáveres esquecidos, | Seu jardim sagrado é o cemitério, | Onde os mortos estão escondidos…
Foto de Zoltan Tasi
No altar o odor pútrido paira no ar,
Nessa igreja de cadáveres esquecidos,
Seu jardim sagrado é o cemitério,
Onde os mortos estão escondidos
Estou rezando e sentindo o péssimo odor do altar
Meu senhor está morto-vivo, morto e eu também vou estar
A terra engoliu todos aqueles corpos
Entre gemidos e lamentações
Neste santo jardim mal cuidado com odor de podridão
Eu vejo um manto de trevas cobrir o pouco de devoção que restou
Do alto do altar a morte se ergue em sua glória
Meu senhor está morto-vivo, morto e eu também estou
Os fiéis se curvam em dor
Sinto o odor pútrido, doce e forte
Ouço um hino sem o fim do redentor
Em meio a oração uma presença se manifestou
Vejo suas cicatrizes e seu sangue seco
Meu senhor está morto-vivo, morto-vivo e eu também estou
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Tumba para duas
Escrevo essas palavras sabendo que você nunca as lerá, | Mesmo assim mergulho em minha alma com ansiedade | Nesta noite turbulenta que agita a minha mente…
Foto de Veit Hammer
Escrevo essas palavras sabendo que você nunca as lerá,
Mesmo assim mergulho em minha alma com ansiedade
Nesta noite turbulenta que agita a minha mente
E as escrevo sem piedade,
Pois me odeio nesse momento por respirar sem a sua presença,
Percebo como é doloroso viver,
Sabendo que tudo que faço ou irei fazer
Não será mais do seu conhecimento.
Nem meus pensamentos,
Nem meu dia-a-dia a partir do momento de sua partida
Já que não está mais aqui,
Desejo apenas não sentir,
Não ter esses sentimentos,
Talvez atenuá-los e seguir minha vida,
Mas todos os caminhos que sigo me conduzem a você
E as vezes eu quero poder te fazer companhia,
Descansar, como você faz, na terra fria
Aquilo que outrora nos unia, agora parece uma barreira
Oh vida, como gostaria de dissolvê-la
Para nos deixar a sós novamente
As vezes ouço sussurros e passos,
E me percebo te procurando,
Como se de algum lugar você estivesse me assombrando
Não é real, é apenas meu cérebro a me enganar
Crendo que nosso amor além da morte poderia estar
E confesso silenciosamente que, eventualmente,
Eu queria poder descansar em paz
Naquela tranquilidade final que só a morte traz
E se por uma tranquilidade silenciosa
Nos deitássemos lado a lado pela eternidade nessa cova?
Sei que há espaço nessa tumba para nós duas.
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Post Mortem
Sussurram-me as feridas imortais: | A vida é nuvem, o destino é certo, | O amor é longo, o peito é deserto | para o perto que ficou pra trás…
Criado para o Castelo Drácula com Midjourney
Sussurram-me as feridas imortais:
A vida é nuvem, o destino é certo,
O amor é longo, o peito é deserto
para o perto que ficou pra trás.
Uma chama clama em cada passo,
Fogo de vela que o vento cessa,
Luz de janela que o tempo fecha
enquanto canto me atando o laço.
Caminho para o alto de um lugar,
Vem vindo a brisa que a face beija,
Indo com as cores que a vida deixa
numa ave quando vai voar.
Caio como as folhas de outono,
Pequeno como um grão no mundo,
Como gota de um mar profundo
dormindo, eternamente em sono.
Encontraram-me entre as flores,
Entre flores novamente me puseram,
Entre prantos um adeus disseram
indo ao canto me dizendo dores.
O dia termina à luz das velas,
Sou amigo querido, filho amado,
Ditoso poeta de olhar cerrado
que dorme às paredes da capela.
Indo ao lar, à quatro mãos amigas,
Vestido de noivo para a vã esposa,
Sinto de novo que uma flor repousa
em meu peito enquanto faz cantiga.
Outra mão segura a minha:
É minha mãe, de onde o choro vem,
E a terra, como manto de ninguém
vem cobrir o que restou das linhas.
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Lamúrias
Túmulos no meu jardim, | Pelo tempo, ornamentados. | Sinto a pedra áspera e fria | Abrigo dos que há muito Já se foram…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Túmulos no meu jardim,
Pelo tempo, ornamentados.
Sinto a pedra áspera e fria
Abrigo dos que há muito Já se foram.
O vento gélido me abraça,
Esvoaçam os tecidos que me vestem.
Posso ver além,
Mas não encontro minha própria lápide.
As lágrimas que insistem em cair,
Queimam minha face.
Tolos arrependimentos,
Que tocam minha carne profana.
Acomodo minha matéria
Em solo fértil e imaculado.
Mas murcham-se todas as flores,
Extingue-se toda a vida que me cerca.
Condenada a sentir
A solidão e dor eterna.
Espreito feito um bicho
Para alimentar minha natureza fétida.
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Caça
Acreditar demais no sonho tido, | Depositando nele as esperanças: | O mesmo que um disparo só de tiro | Na mira, co'arsenal de nossa herança...
Foto de Alex Perez
Acreditar demais no sonho tido,
Depositando nele as esperanças:
O mesmo que um disparo só de tiro
Na mira, co'arsenal de nossa herança...
Pensando em atingir um alvo crido
Estar à nossa espera — quando a lança
Que nós julgamos ter obedecido
Às próprias ordens quebra e nada alcança…
A meta, perseguida e alcançada,
Contato visual tendo com ela…
Talvez, nem sendo aquela imaginada;
Mostrando ser, no fim, uma quimera…
Um leque d'infinitas ilusões,
Rateio de quem fica, de quem passa…
Vontades e caminhos, opções:
A vida, em seu percurso, é uma caça.
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LXXIV
Na noite perpétua, onde as sombras doudejam | Os corvos ecoam em negra melodia | Sob o manto estrelado, a solidão reina | E o coração se perde na escuridão vazia…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Na noite perpétua, onde as sombras doudejam
Os corvos ecoam em negra melodia
Sob o manto estrelado, a solidão reina
E o coração se perde na escuridão vazia
Na morada dos lamentos, a aflição reina
Almas desalentadas buscam abrigo
Sob o manto da noite, a verdade se divide
Entre ruínas e brumas, o tempo perpassa
O testemunho do passado nas linhas dos epitáfios
No ressoar dos suspiros noite adentro
Num cenário de sonhos despedaçados.
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IV de Espadas
Três lâminas pendentes, uma ao lado — | repousa o cavaleiro. Ele adormecen | o santuário, e põe suas mãos em prece | sobre o corpo de pedra armadurado…
Four of Swords—“Pam-A” tarot card from the Rider–Waite Tarot deck (1910) por Pamela Colman Smith (1878–1951)
Três lâminas pendentes, uma ao lado —
repousa o cavaleiro. Ele adormece
no santuário, e põe suas mãos em prece
sobre o corpo de pedra armadurado.
Silêncio… Eis o Silêncio mais sagrado
do exílio. A solitude fortalece
o espírito dolente que esvanece
no amargor do combate malogrado.
Meditações de sono eterno e puro,
condenações de flamas e de escuro:
da letargia nada é discernido.
Na efígie sobre túmulo somente
reslumbra a face estatuesca, crente
na calmaria do dever cumprido!
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Sangue Espesso
Não há como gritar, | Quando se der conta | Será tarde demais. | Fria como um cadáver, | Ainda assim, | Muito mais viva do que você…
Criado para o Castelo Drácula com Midjourney
Não há como gritar,
Quando se der conta
Será tarde demais.
Fria como um cadáver,
Ainda assim,
Muito mais viva do que você.
Abaixe a cabeça da próxima vez,
O próximo pescoço
Pode ser o seu.
Sombria como a noite,
Misteriosa até perceber
Meus olhos já lacrimejaram,
Eu sei que o fez, por querer.
Implore,
Se ajoelhe,
Reze, se quiser.
Estou a caminho.
Tomarei de seu sangue espesso,
Genuíno.
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De agosto a outubro
Profunda vastidão chuvosa | Que desabada sobre a árvore, | Não soluce, não respingue violenta. | Não a arrebate com pressão. | (Ou violação)…
Criado para o Castelo Drácula com Midjourney
Profunda vastidão chuvosa
Que desabada sobre a árvore,
Não soluce, não respingue violenta.
Não a arrebate com pressão.
(Ou violação)
Reprima o teu sentimento de afogar,
Solidificado e aflorado.
Ao versar...
(Caia devagar)
Pois, intacta, borboletas noturnas transferem seu pólen,
E os frutos do coração, quando secos,
se espalham ao vento a derramar...
(Aladas noturnas esvoaçam sobre a árvore a crepitar)
A seiva é perigosa, soberana chuva, porém
Ainda que injuriosa, é segura a quem não a resvalar.
Peço em prece,
Não soluce, não respingue.
(Desabe devagar)
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LXXVI
Na noite de sombras imprescritíveis | Onde os pesares ali regem | O vazio do tempo, a dor sem cura | Na alma perdida entre estrelas, a busca pela expiação de sua agonia…
Criado para o Castelo Drácula com Midjourney
Na noite de sombras imprescritíveis
Onde os pesares ali regem
O vazio do tempo, a dor sem cura
Na alma perdida entre estrelas, a busca pela expiação de sua agonia
Entre paredes de pedra, ecos do distante passado
O suspiro daqueles corações inocentes
Indo para além da solidão, o sutil encontro com a vil lâmina
Na angústia existencial, as lembranças de profunda aflição
No abismo do ser, o anseio pela absolvição dos pecados
O sentido da vida se esvai como a neblina na manhã
Após emergir a luz, se desfaz a escuridão dos teus pensamentos.
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Esperança Cadavérica
Caindo lentamente | No rosto desfigurado | Que chora desde ontem | A cruz que a enforcara | De suas crenças. | Acredita-se que talvez | Um ser divino possa vir…
Criado para o Castelo Drácula com Midjourney
Caindo lentamente
No rosto desfigurado
Que chora desde ontem
A cruz que a enforcara
De suas crenças.
Acredita-se que talvez
Um ser divino possa vir
Alimentar a alma
Que deveras esgotada.
Possa vir quatro vezes
Cantar o som da calmaria
E assim enobrecer
Um jardim de alegria.
Vida esta que corrói
Quebrantada nas esperanças
Resvalada assim como a água
Só quatro vezes ela espera.
Não tenho muito tempo
Sou apenas uma lágrima
No rosto que secara
Do cadáver que aguarda.
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VIII
Espectro insensível | Expressão da corrupção | A visão alucinada do coração | Desvela as minhas emoções…
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Espectro insensível
Expressão da corrupção
A visão alucinada do coração
Desvela as minhas emoções
A descoberta de minhas dores
Em meio a artimanhas
Da quimera do coração
A visão da Alva
Raiar da minha esperança
Sensação de tocar a salvação
Redenção para o pecador
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Clausural
Ata-se um nó na minha garganta, | Me rasga a voz em finíssima seda, | E o espinhoso arbusto na vereda | me enlaça em firmeza tanta….
Criado para o Castelo Drácula com Midjourney
Ata-se um nó na minha garganta,
Me rasga a voz em finíssima seda,
E o espinhoso arbusto na vereda
me enlaça em firmeza tanta.
Sofro o sangramento dos poetas,
Existo sem saber por onde vou,
Resisto sem saber do que restou
das larvas que estavam quietas.
Repouso num berço de peçonha,
E o meu peito - esse lugar vazio -
Canta uma fé de louvor tardio
enquanto minh'alma sonha.
Sou da víbora a presa atraente,
E em seus dentes, lâminas vis,
Escorrem as gotas mais gentis
de um veneno que se bebe
quente.
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Tirano da Tumba
Três lâminas pendentes, uma ao lado — | repousa o cavaleiro. Ele adormecen | o santuário, e põe suas mãos em prece | sobre o corpo de pedra armadurado…
The House of Death - William Blake
Tirano da gélida tumba,
do trono de pedra tu invocas
as almas sem fé, sem piedade,
do Hades, sedentas de sangue!
Na noite, liberas do túmulo
a pálida face da Morte!
As lápides tens como forte,
cadáveres formam tuas hostes!
A neve, que cai quando a noite
o ponto mais tetro desvela,
e o branco que cai junto dela
são gemas da tua coroa!
Tua espada pesada ressoa
os sons do metal retorcido;
teus olhos de brilho sanguíneo
incutem visões de terror!
A terra dirá com tremor
o tempo do inverno infindável:
erguido do trono de pedra
o corpo do Rei execrável!
Que, quando mostrares teu rosto
forjado com barro e com bruma,
teus corvos devorem meus olhos,
Tirano da gélida tumba!
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Sonnet d'Après la Mort
Além dos horizontes onde a vida se desvanece, | Onde sombra e luz se fundem num eco, | Minha alma se eleva, livre de todo fardo, | Em direção aos céus etéreos onde…
Imagem da Wev
Soneto do Após Morte
Além dos horizontes onde a vida se desvanece,
Onde sombra e luz se fundem num eco,
Minha alma se eleva, livre de todo fardo,
Em direção aos céus etéreos onde ninguém conhece o efêmero.
Neste reino imutável onde reina o infinito,
Eu silenciosamente descubro um novo universo,
Onde os sonhos eternos se tornam tochas,
E onde o amor divino continua a ser o nosso guia.
Eu então me curvo diante desta brisa suave,
O que leva meus pensamentos a outro dilema;
Da eternidade, que se sobrepõe ao tempo.
Deste mundo
Estou finalmente livre, pronto para transcender,
Na sagrada imensidão do além: No eterno!
Sonnet d'Après la Mort
Au-delà des horizons où la vie s'efface,
Où ombre et lumière se confondent en écho,
Mon âme se lève, libre de tout fardeau,
Vers les cieux éthérés où personne ne connaît l'éphémère.
Dans ce royaume immuable où règne l'infini,
Je découvre silencieusement un nouvel univers,
Où les rêves éternels deviennent des torches,
Et où l’amour divin continue d’être notre guide.
Je m'incline alors devant cette douce brise,
Ce qui amène mes pensées à un autre dilemme ;
De l'éternité, qui chevauche le temps.
De ce monde
Je suis enfin libre, prêt à transcender,
Dans l'immensité sacrée de l'au-delà : Dans l'éternel!
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VII
Nestas linhas, abjurações | Vagas promessas | Desapegos à vil existência | Conflituosas as emoções dentro do peito…
Imagem criada pelo autor com IA
Nestas linhas, abjurações
Vagas promessas
Desapegos à vil existência
Conflituosas as emoções dentro do peito
A frialdade de seu coração
Ante a amarga verdade
Da passagem do tempo
Efêmera mortalidade
Abreviado seu momento
Estilar sobre a lembrança
Num angustiante final
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Balada Vampiresca
Uma sombra a cavalo se movia | Sob as chuvas torrenciais de agosto, | Uma capa escura o protegia | Enquanto um chapéu ocultava seu rosto…
MidjourneyAI
“Despair has its own calms.”
— Drácula, Bram Stoker
Uma sombra a cavalo se movia
Sob as chuvas torrenciais de agosto,
Uma capa escura o protegia
Enquanto um chapéu ocultava seu rosto.
Aquela silhueta de animal e cavaleiro
Negrume cobria a forma por inteiro;
A luz dos raios azuis o guiava,
Trovões ecoavam como chamados,
Na escuridão estes clangores ressoavam.
A parede branca de uma casa avistara
Com a pouca luz que ainda perdurava
Do cair da tarde com as nuvens escuras.
Pelo caminho enlameado, as pedras duras,
E a casa ainda ao longe se encontrava.
Se havia hora de chegar, já passara o tempo,
Pra quê se apressar? Anteciparia o lamento
Ou então era um equívoco, mas só tinha uma maneira
Para saber qual o destino: passar pela soleira.
Atingiu já bem tarde a construção abandonada
No horário que vira a data, hora malfalada,
Quando acontecem as coisas pavorosas,
Ainda mais nestas sinistras noites chuvosas.
E, no volume de uma nova enxurrada,
A água pingava daquela capa encharcada,
O mato tomava algumas paredes caídas,
Um muro se estendia adiante das vigas,
O casarão imponente da época colonial,
Uma casa grande há muito esquecida
Afogada nos novos tempos e no temporal.
Era certeza de ali haver nenhum vivente,
Nisso nenhuma alma esteve impelida,
A certeza não era uma sensação querida,
As ruínas ocultavam algum ar comovente
Cercadas de mato, espinhos e árvores mortas;
À frente um grande portão de ferragens tortas
Subia entre as pedras, um caminho desgastado,
Um túmulo, então, surdo de um esplendor sepultado
Trazia, na decadência, a escuridão conservada
Como as grutas sinistras na beira da estrada.
Assim, desceu da sela, frente à entrada,
Desembainhou uma lâmina, revelou seu fio,
Checou a extensão do corte e a escada subiu,
Não há o que duvidar, era prata, por certo,
Reluzia e fulgurava aquela língua triangular
Contrastando a extrema escuridão do lugar.
Foi entrando prudente no salão deserto,
A adaga à frente e a garrucha por perto,
Foi penetrando na ameaçadora escuridão
Procurando um aposento naqueles destroços,
O escuro e o medo causaram um tremor;
Ele não percebeu, mas pisava em ossos
Enquanto caminhava pelo corredor.
Viu uma claridade e uma porta aberta
E um mal pressentimento o desperta,
Adentrou o cômodo na procura ávida,
E uma mulher morta estava ali deitada,
O corpo estendido e a pele pálida.
Reconheceu a feição no rosto da amada...
O breve luto deu lugar ao desespero,
Pudesse ter passado por tal desterro
Em perder quem mais amou,
Mas o amor não vai tão cedo
Mesmo apesar do pavor e do medo.
A lágrima cadente, o sangue não compensou...
Se por sangue, derramado em vão,
Exigido frente à face da morte,
Mais exigente é, então, o perdão
E mais violento que o preciso corte.
Este outro sangue, a fúria incendeia,
Efervescido, corre o furor nas veias,
Chora como a chuva lá fora...
Torrencial desespero que vela a sepultura,
Seu olhar vermelho apavora;
Para esta perda não há nenhuma cura,
Mas, eis que o inesperado acontece!
Abre os olhos a mulher que está deitada,
Mas, tem algo de errado, olhando parece
Que ela jamais esteve acordada;
Não se move como a um corpo convém
E, mesmo serena, seu olho é vermelho também;
Se ergue do leito contrariando a Osíris
E o vermelho nos olhos está nas suas íris;
Estalam-se estes olhos como se ofuscados,
Mas, no escuro, sem luz para serem incomodados,
Vagarosamente ela começa a acordar
De um modo desconjuntado, sem calor interno,
Seus movimentos são como o espreguiçar
Só que de quem acorda no inferno,
Ele, que chora por ela derramando lágrimas,
Não sabe a que prece ou atitude recorrer,
Mas não são lágrimas que ela deseja ter...
Impediu seus avanços nas últimas lástimas,
A força de um animal toma o corpo feminino,
Retorce seus membros sem nenhuma dor causar
Como um tenebroso desenho do império bizantino.
O rosto inocente já não é mais familiar,
Transfigurava a face e a musculatura
E de uma bela mulher tornou-se horrenda criatura,
Não há espaço para dúvida, era a maldição otomana,
A vê-la assim, preferiria vê-la sob as chamas,
Era algo terrível que ele não poderia suportar,
Os horrores que aquele olhar voraz revela
Toma seu corpo nos braços, naquele relutar,
A ponta da adaga mirada no peito dela.
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Violenta
Qual luz de um céu distante, inalcançável, | Sonhando formas de abraçá-la um dia… | A essa altura os pensamentos vagam...
MidjourneyAI
Qual luz de um céu distante, inalcançável,
Sonhando formas de abraçá-la um dia…
A essa altura os pensamentos vagam
Envoltos pelo azul-melancolia…
A raiva a qual se chega, malfadados
Os planos dessa antiga travessia,
Resultam veios sobrecarregados
De cor vermelho-sangue-rebeldia…
Vestígios do querer cicatrizados…
Agora em só lembranças transformados:
A fúria-melancólica por dentro…
Sinal daquele orgulho, reprimido…
Contudo, irá viver, subsistindo
Na púrpura-heráldica do peito…
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Púrpura
Pálida, | Sua tez de porcelana | Alva e fria. | Desprovida de um coração pulsante | Ainda és bela | E graciosa como a morte…
MidjourneyAI
Pálida,
Sua tez de porcelana
Alva e fria.
Desprovida de um coração pulsante
Ainda és bela
E graciosa como a morte.
Seu olhar intruso
Penetra meu âmago
Desperta a concupiscência.
Minha criança,
Suas vestes púrpuras
São delicadas
E remetem à inocência de seu ser,
Mas ainda sim são tão escuras
Quanto a alma que pensas ainda ter.
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Queixas
Preso aos limites de um castelo antigo, hoje me encontro, mas não era assim quando eu andava só floresta adentro a matar infiéis…
MidjouneyAI
Preso aos limites de um castelo antigo,
hoje me encontro, mas não era assim
quando eu andava só floresta adentro
a matar infiéis, queimar as bruxas,
sendo um leal e bravo cavaleiro
do qual a Santa Igreja se orgulhava.
Contra o conde lutei pelo meu Cristo,
desembainhei inutilmente a espada
a fim de que varresse o mal do mundo,
mas sucumbi à luta de joelhos:
fui empalado e logo incinerado;
as cinzas despejadas sobre a lama
que cerca este castelo tenebroso.
Não tive quem por mim rezasse um terço,
somente uma sentença, a dura praga
que proferiu o conde aquele dia:
“Sofrerás, vil guerreiro, todo o peso
da eternidade como maldição.
Verás, como eu, em vão passar o tempo
e sem esta matéria que nos gela
aqui me servirás eternamente:
teu fim será louvar-me em tuas queixas,
preso aos limites deste meu castelo.”
Vivo então, invisível, a ecoar
a dor que resultou desta peleja
e que estes altos muros silenciam.
Vejo passar então os viajantes
e os hóspedes que insones cá pernoitam
a fim de conhecer aquele crápula.
Invisível, os vejo passo a passo
adentrar aos portões com um olhar
curioso e, ao mesmo tempo, fascinado.
Olhai, mas vede e não vos enganeis!
A mão de Deus, ilustres visitantes,
não pousará neste lugar maldito.
Não há como sentir-se aqui seguro
sob as nuvens cinzentas de um castelo
que nunca viu a luz do sol brilhar,
que nunca viu a cor azul do céu.
Na melhor das hipóteses, tereis,
daquele desalmado anfitrião,
a chance rara de voltar pra casa
para que lhe pinteis alguma fama.
Quanto a mim — pobre ser fantasmagórico —
terei, como ele, a triste maldição
de assim viver por incontáveis anos
arrastando-me às sombras do passado,
preso aos limites deste seu castelo.
No pélago da noite púrpura, à deriva, os ignorantes gargalham uns dos outros. Enquanto divertem-se, a escuridão silente esparge frígida, tornando-se…