Redenção
Desejo pecaminoso | Impulso avassalador | Posso sentir seu sangue em meus lábios | Estou perdendo o controle..
Imagem criada por Aslam E. Ramallo para o Castelo Drácula
Desejo pecaminoso
Impulso avassalador
Posso sentir seu sangue em meus lábios
Estou perdendo o controle
Tento me afastar
Mas todos os caminhos me levam até você
Ergo minha cruz
Mas inconscientemente
Me entrego
Caminho no escuro
Rezando para que me encontre
Tentando me convencer
Que a culpa não é minha
Rasga minha pele
Esse desejo carnal
Beba da minha alma
Porque ela já é sua
Escrava de um sentimento perverso
Te atraio com meus pensamentos
Você supunha que eu fosse presa
Mas eu era o caçador.
Revisão por Sahra Melihssa
Ana Kelly
Ana Kelly, natural de São Paulo (SP), é poeta, escritora, contista e artesã, sócia-proprietária da loja de acessórios e artigos alternativos, Ivory Fairy. Tem poemas e contos publicados como co-autora em diferentes antologias. No ano de 2009 recebeu o prêmio de 1º lugar, em um concurso de poesias do tema “Natureza”, do Projeto Chance... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
Desintegração
Os ossos doem, | Gélidos. | O último abraço | Arrancou-me a pele. | A carne, | Outrora viva, | Longe do corpo | Apodrece…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Os ossos doem,
Gélidos.
O último abraço
Arrancou-me a pele.
A carne,
Outrora viva,
Longe do corpo
Apodrece.
Não foram as lágrimas
Que me martirizaram,
Tampouco a solidão,
Amiga inseparável.
O vazio que há em mim
Me devora,
Consome minha alma,
E a tristeza transborda.
A dor do corpo,
Do espírito,
O nada...
A melancolia tormenta,
Mas também me embala.
Ana Kelly
Ana Kelly, natural de São Paulo (SP), é poeta, escritora, contista e artesã, sócia-proprietária da loja de acessórios e artigos alternativos, Ivory Fairy. Tem poemas e contos publicados como co-autora em diferentes antologias. No ano de 2009 recebeu o prêmio de 1º lugar, em um concurso de poesias do tema “Natureza”, do Projeto Chance... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Máscaras
Lamentos, | Murmúrios. | Calafrio em minha espinha, | Você não está aqui. | Oh, enigmático ser que me hipnotizou, | Alcançou minha alma, | Tirou de mim...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Lamentos,
Murmúrios.
Calafrio em minha espinha,
Você não está aqui.
Oh, enigmático ser que me hipnotizou,
Alcançou minha alma,
Tirou de mim o que nunca pensei existir...
Amor.
Entre os passos de dança e risos falsos,
Procuro-te entre rostos encobertos.
Neste vasto salão,
Onde bailam seres incompletos.
Nem o traje mais bonito,
Nem o fato de te amar,
Neste baile sombrio,
São suficientes para te encontrar.
A cada valsa,
À procura dos olhos teus
Sinto que se esvai de mim
A esperança que antes me deu.
Definho neste salão,
Inconformada sem tua presença.
Nesse baile de máscaras
Já não me resta mais nada.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “Poesias”:
Onde as Névoas se Rompem
O peso do meu próprio corpo não mais existia; o turbilhão de pensamentos e a angústia pareciam nunca ter existido. Meus passos eram leves; quase…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O peso do meu próprio corpo não mais existia; o turbilhão de pensamentos e a angústia pareciam nunca ter existido. Meus passos eram leves; quase poderia flutuar. Uma brisa fria, como antes do amanhecer, tocava meu rosto. Eu estava livre.
Abri meus olhos; quase não podia enxergar. Encontrava-me entre névoas, envolta em um lilás etéreo que me fazia questionar que lugar seria aquele. Estaria eu sonhando? O silêncio era inebriante; se eu tivesse uma alma, com certeza ela estaria vibrante.
— Ane, você veio!
Esforcei-me para olhar entre as névoas que se abriam diante de mim. Lá estava ela, vestida de um branco tão puro que machucava meus olhos.
— Carrie! — Minha irmã parecia um anjo. Corri a seu encontro e a abracei fortemente. — O que faz aqui? Onde estamos?
— Quantas perguntas! Não sei se poderei responder a todas, mas precisava muito ver você. — A pequena que eu tanto amava se soltou do meu abraço e fez um gesto para que eu a seguisse.
Seguimos por um caminho feito de algo que eu não saberia dizer. Estava descalça, mas nada sentia sob meus pés. Talvez andássemos sobre as nuvens, pensei.
— Sim, são como as nuvens... — Carrie parecia adivinhar meus pensamentos. — Por aqui não há outro tipo de sentimento senão o vazio; a existência é uma quimera.
— Aqui é o céu? — perguntei, interessada.
Minha jovem e doce Carrie apenas sorriu.
— Não sou digna de tanto, mas não consigo pensar que não seja. — Nunca havia me visto livre da dor terrena. Antes, o vazio machucava e me fazia ansiar por algo a mais; agora, ele é um deleite. De fato, tenho a companhia de um anjo... uma fada.
— Não, Ane. Você não é digna! — Sua voz agora estava áspera, com um desprezo que eu nunca tinha ouvido antes. Sua fisionomia parecia diferente.
— Carrie... — De maneira repentina, tudo o que antes sentia transformou-se em preocupação.
— Ane, você é um monstro! — Sua face demonstrava medo.
Tentei tocar em seu ombro, mas ela se esquivou de mim, dando um passo para trás.
— Eu nunca tive a intenção...
Não havia percebido, mas a atmosfera, antes tão acolhedora e tão clara, havia enegrecido. O único ponto de luz era uma garotinha de baixa estatura, minha irmã caçula, que agora parecia ter horror de mim.
— Carrie, me perdoa!
— Eu não posso te perdoar, Ane... não mais.
Ela direcionou sua cabeça para o alto e gritou desesperadamente. Tentei mais uma vez me aproximar, mas paralisei diante da cena. Seu vestido branco foi bruscamente tingido de carmesim, enquanto todo o seu frágil corpo tornava-se cadavérico.
Caí de joelhos sobre ela, mas já não havia mais nada além de um tecido branco-carmesim. Não, ali não era mesmo o céu, era o inferno.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
A noite de todas as almas
Folhas secas, | Abóboras adornadas | Não é outono por aqui, | Mas não muda nada. | Os ventos que sopram | Me trazem lembranças de você…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Folhas secas,
Abóboras adornadas
Não é outono por aqui,
Mas não muda nada.
Os ventos que sopram
Me trazem lembranças de você
Sussurram segredos
Que me fazem temer.
A noite de todas as almas
É sempre muito mais iluminada
E isso porque
Todos nós amamos alguém
Que não se pode mais ver.
Alcanço as lápides frias
Não sinto seu cheiro
Se o véu entre os mundos se abriu
Por que não te vejo?
Doces ou travessuras?
Minha vida pela sua.
De que me adianta uma eternidade
Sem sua ternura?
Como oferenda aos Deuses distantes
Deixe meu retorcido coração
Pode não valer mais nada
Mas todo o amor que me restou,
É ele quem guarda.
Minha vida pela sua...
Apenas um vislumbre na penumbra
E eu finalmente
Poderia adormecer.
Doces ou travessuras?
O que está feito,
Não se anula.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
Leia mais em “Poesias”:
Abóboras e Confetes
É 31 | Todas as Bruxas e Vampiros | Passeiam livres por aí | Todos no Castelo irão se divertir…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
É 31
Todas as Bruxas e Vampiros
Passeiam livres por aí
Todos no Castelo irão se divertir.
É 31
Cuide de seu pescoço
Para não perder muito sangue
Não tropece em meu sapato
Para que não vire um lagarto.
As abóboras já foram enfileiradas
Ganham vida e iluminam a estrada.
Vem crianças,
Venham ler
O Castelo Aguarda você...
Seres sombrios de todos os lugares
Dando vidas a distintas realidades
Os confetes são para você
Que o escuro costuma temer.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
Leia mais em “Poesias”:
5 Minutos
Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário em que devo sair da cama, programo meu celular para despertar de 5 em 5 minutos. Ele começa às 5h e termina às 7h05, quando já estou 5 minutos atrasada.
Minha mãe sempre briga comigo porque acha que isso é coisa de maluco. Mas faço isso há tanto tempo que, se programar o alarme apenas uma vez, tenho certeza de que nem o ouço. Por isso, meus pais sempre reclamam: “Fica um barulho chato de 5 em 5 minutos até que você resolva desligar”, blá, blá, blá. Até alguns vizinhos já vieram reclamar, mas tente alguma vez, dá super certo!
Uma amiga da faculdade duvida da minha teoria. Mas é tão certa quanto um mais um é igual a dois. Para provar a ela, propus um desafio. Na sexta-feira, às 8h, teremos prova de Cálculo, mas na véspera irei a uma balada com meu namorado e devo retornar por volta das 3h. Chegarei no horário e sem sono!
Primeira parte do desafio cumprida. Bebi um pouco a mais, confesso. Mas é só tomar uma ducha rápida e dormir. Celular programado — em poucas horas, provarei que tenho razão no meu método.
"BIP BIP BIP!"
— De primeira! Dessa vez, acordei no primeiro alarme, mal posso acreditar! E ainda por cima, sem sono; vou até desativar o próximo... PUTA QUE PARIU!
Não poderia ser. Não poderia! Justo hoje! Como eu não ouvi? Eu sempre ouço! Transtornada, meus pensamentos não paravam. Já eram 8 HORAS! Nunca isso havia me acontecido. Vesti a primeira roupa que encontrei, coloquei meus chinelos mesmo, escovei os dentes, puxei a mochila e saí correndo de casa.
Cheguei na porta da sala de aula faltando 5 minutos para as 9h. Perdi a prova.
— Perdeu a aposta! — Minha amiga passou por mim com tom de deboche. Ignorei e entrei para não perder a aula seguinte.
— Cibele! Cibele!
Ouvi chamarem meu nome ao longe, mas foi só quando me sacudiram que despertei.
— Julia! O que foi?
— O que foi pergunto eu. Sua teoria literalmente caiu por terra. Você perdeu a prova e dormiu em todas as outras aulas.
Olhei para meu celular: eram 12h05. Levantei assustada.
— Não pode ser!
— Claro que pode! Só você para acreditar que abusar da função soneca é algo que realmente funciona!
Estava tão perplexa que o sarcasmo da minha amiga nem me afetou. Eu já havia feito a mesma coisa por diversas vezes, e sempre funcionou.
Com o passar dos dias, não conseguia mais compreender o que de fato estava acontecendo. Mesmo acordada, bastava me dar um leve sono para que horas se passassem. Mas sempre o número 5 estava presente. Às vezes não me dava conta de que havia adormecido; olhava para meu celular, e o relógio parecia ter enlouquecido. Até que se passaram 5 dias, 5 semanas...
O tempo escapava de mim como se eu vivesse em um eterno e maldito modo soneca. Um bocejo que fosse era o suficiente para o ativar. Troquei de celular, tentei relógio, despertador analógico, até mesmo não manter mais nada perto de mim. Sem sucesso.
Há 5 minutos saí do consultório médico. Tenho algum tipo de problema que ainda está sendo investigado. A previsão é que resultados satisfatórios sejam encontrados em torno de 5 anos. Hoje desperto há exatamente 5 dias para que se completassem os 5 anos previstos para algum progresso no tratamento de minha enfermidade. Mas despertei apenas a tempo de ver que desligavam os aparelhos que me mantinham viva.
— Hora da morte: 5h55.
"Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiii..."
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Leia mais em “Contos”:
Abram a porta
Trabalhar era meu refúgio. | Eu via pessoas e conversava. | Me distraia, | Sorria... | Mas o mundo parou, | Silenciou | E diante de tanto horror, | Se trancou…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Trabalhar era meu refúgio.
Eu via pessoas e conversava.
Me distraia,
Sorria...
Mas o mundo parou,
Silenciou
E diante de tanto horror,
Se trancou.
Mas o que eu faria
Ali sozinha,
Com o que mais temia:
A velha da minha tia.
Há tempos acamada,
Face que me aterrorizava
Voz cavernosa,
Chorosa e pegajosa.
Presa nesse pesadelo de vida,
Acompanhando pela Tv
Tantas vidas perdidas
Sem ao menos uma despedida.
Sem trabalhar,
Tendo que dela cuidar,
Lamentava ensandecida.
Enfim a epifania!
Uma vida moribunda
Pela minha,
Pela sua.
O Diabo deveria aceitar
Ficar com ela e nos salvar
Precisamos abrir as portas.
Tal qual não foi minha surpresa,
Quando no dia seguinte,
Sentada à mesa,
Minha tia estava a fumar?
Por um golpe do destino,
Seu fantasma agora era inquilino
Do que deveria ser meu lar.
O inferno estava lotado.
Não houve barganha,
Nenhum trato.
E até que o mundo padeça
Ou se recupere, não tenho certeza
Pode ser que eu enlouqueça
E esta vida passe a aceitar.
Enquanto isso não acontece
Ela está aqui a me torturar
Uma alma que, por muito tempo, esteve calada,
Agora me despeja toda sua raiva.
Sem ter para onde ir,
Esperando a porta abrir
Inalo fumaça de um fantasma.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Colapso
A grama arde | O ar sufoca | O canto dos pássaros foi silenciado. | As árvores, | Antes, imponentes e frutíferas,…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A grama arde
O ar sufoca
O canto dos pássaros foi silenciado.
As árvores,
Antes, imponentes e frutíferas,
Agora retorcidas, em agonia.
O mundo cai abaixo
As promessas já não mais importam
Tudo é cinza e triste.
O céu cai aos pedaços
Seus escombros cortam minha pele
É só questão de tempo para que eu colapse também.
Não há mais refúgio
Nem mesmo em minha própria mente
A dor me impede de pensar.
Promessas
Não salvaram inocentes
Tudo o que sei, é que nada sobrará.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Leia mais em “Poesias”:
Boneca de Ossos
Pálida e fria como porcelana | Sentia-me como uma boneca. | Os olhos, antes cerrados, | Agora conseguiam observar tudo ao redor…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Pálida e fria como porcelana
Sentia-me como uma boneca.
Os olhos, antes cerrados,
Agora conseguiam observar tudo ao redor.
Vestes aprumadas
E um perfume que não disfarçava
Meu pútrido odor
Mas eu estava linda.
Meus amigos não sorriam
Mas minha alma se deleitava
Agora disposta,
Tal qual minhas bonecas na prateleira.
Me sentia leve,
O corpo já não pesava
Me divertia com as expressões amedrontadas
Ah, se eu pudesse...
A fotografia foi tirada
Uma última recordação
Antes que eu vire alimento para os vermes
A despedida vem chegando...
Começo sentir o vazio a me preencher
O calor de quem amo fica cada vez mais longe
Se minhas lágrimas ainda rolassem
Se minha boca ainda falasse..
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Leia mais em “Poesias”:
Canto Escuro
No canto ali do quarto| No escuro | Sentada e descalça, no chão frio | Observo as sombras que ninguém mais vê…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
No canto ali do quarto
No escuro
Sentada e descalça, no chão frio
Observo as sombras que ninguém mais vê.
Rabisco na penumbra
Todas as formas distorcidas
Que não me causam mais medo.
Registro-as para mim mesma.
A luz que as afastava
É a mesma que machucava meu pobre coração.
Nunca suportei não ser igual aos demais
Talvez por isso, esse canto escuro seja o meu favorito no mundo.
Olhares vazios
Expressões que me julgavam
E até mesmo enojavam
Nunca foram fáceis de aceitar.
Mas duvidarem da minha sanidade
Do mundo ao qual eu realmente pertencia
Foi demais para mim
Adentrei ao véu.
Meu corpo falho
Face retorcida por um mau nascimento
Sempre a esquisita,
Anomalia...
Mas somente do outro lado
Eu vi que todos estavam errados
As sombras que ninguém enxergava
Eram os próprios defeitos, eles só tinham medo.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Leia mais em “Poesias”:
Dualidade
Entre a dor e o cansaço | Me delicio ao apreciar a escuridão em volta. | O céu negro, sem estrelas | As ruas quase desertas | As luzes dos postes brilham,…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Entre a dor e o cansaço
Me delicio ao apreciar a escuridão em volta.
O céu negro, sem estrelas
As ruas quase desertas
As luzes dos postes brilham,
Parece Natal.
Quase posso esquecer o dia longo e exaustivo
Mas percebo sequelas.
Entre algumas piscadelas
Talvez um sonho, ou fruto do cansaço
Refletia na janela
Um Mimico desfigurado.
Nada fazia,
Apenas me encarava.
E apesar da fina chuva que caia
Não se molhava.
Qual não foi meu espanto quando recordara
Um dia, muito pequena e travessa
A um mimico eu aprontara.
Por imitar gestos meus,
Sem dizer que me incomodava,
O atrai para a Avenida
Perigosamente movimentada.
Com movimentos pequenos
Ameaçava seguir em frente e retornava
Quando de súbito fingi seguir,
Ele se atirou a mim, pensando que me salvava.
Um estrondo infernal invadiu minha memória
O reflexo na janela não refletia meus sonhos ou devaneios
Me virei para o assento ao lado.
E antes que pudesse perder os sentidos
Um mímico me atravessou,
Como um caminhão desenfreado.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”
A Luz se Apaga
O céu estava negro e denso como minha alma, mas uma estrela de esplendor singular havia me cativado. Brilhava alheia à escuridão que a cercava…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O céu estava negro e denso como minha alma, mas uma estrela de esplendor singular havia me cativado. Brilhava alheia à escuridão que a cercava. Sentada no parapeito da janela do meu quarto, assistia a esse espetáculo noturno.
Malus adentrou o recinto e direcionei meu olhar para a porta. Questionou o que fazia sozinha àquela hora. Quis mostrar a estrela esplêndida que me roubara toda a atenção, mas para meu desalento, já não a via mais no céu. A escuridão parecia ter engolido a luz que tanto me fascinara.
— Estava ali agora mesmo! Diferente de todas que já havia visto. — Suspirei em descontentamento.
Ele acariciou meu rosto, como se tentasse me consolar. Olhou-me ternamente; seus olhos eram como bálsamo para mim. Ainda com sua mão gélida sobre minha face, observou o céu pela janela e disse, enfim:
— Mesmo que efêmeras, as coisas que tocam a nossa alma têm o poder de deixar marcas que perduram para sempre.
Ele tinha razão. Jamais esqueceria toda a beleza daquela cena. A súbita partida daquela estrela fez-me recordar minha irmã. Assim fora com ela, tão bela e tão pura, mas ceifada de forma tão inesperada por mim mesma. Talvez eu seja de fato uma parte grotesca deste mundo...
— Desculpa? — Questionei. Malus falava enquanto eu estava perdida em meus pensamentos e não pude compreender.
— Vamos! Pegue minha mão. A noite não deve ser desperdiçada.
Aceitei o convite e saímos do castelo. Andamos por uma estrada de terra batida cercada por carvalhos, todos dispostos em fileiras, milimetricamente separados uns dos outros. Ao final, um imponente e ornamentado portão de ferro se fazia guardião de um cemitério antigo, o qual eu ainda não conhecia.
Meu companheiro tirou um singelo molho de chaves de seu sobretudo, pegou uma chave com uma cruz dourada entalhada e abriu a fechadura sem dificuldade. Passamos pelo portal.
A beleza das esculturas centenárias era de uma grandiosidade que não encontro palavras para expressar. Caminhei por entre altas lápides e dancei sobre sepulturas. O brilho único de uma estrela e aquela adorável galeria de arte me faziam sorrir como uma criança.
— Venha. Sente-se aqui. — A voz risonha deixava evidente que se divertia às minhas custas.
— Não ria! — Sentei-me junto a ele nas escadas de um mausoléu de mármore branco que tinha o portão aberto.
— Trouxe seu diário e meu caderno de esboços. Teremos nossa própria noite erudita.
Malus era um artista. Seus desenhos eram impressionantes. Amávamos passar o tempo no castelo com nossas artes; esta seria a primeira vez em um lugar diferente. Em seus esboços naquela noite, ele registrou as mais variadas paisagens. Desde uma árvore reduzida a tristes galhos até mesmo eu, sentada naquele descanso eterno de não sei quem, distraída, escrevendo e sonhando acordada. A forma como as lápides soavam no papel era extasiante, mas ainda não se comparava ao fascínio que proporcionavam a olho nu.
Foi uma noite inigualável. Poética, reflexiva... fiz anotações em meu diário e escrevi poesias; não poderia me negar a elas. Podia sentir no paladar... a escuridão é saborosa, a poesia é como um beijo suave de língua. E o Castelo Drácula sabe disso. Ele vive, respira e inspira arte. Se você adentrou aos portões, sabe muito bem onde encontrar cada um dos meus versos...
Até breve!
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Sangue
Sangue. | Lápide fria | Noite escura, céu acima. | Sangue. | Você me abomina | Mas suas vísceras são minhas. | Sangue. | Seu carmesim cintilante | Colore o cemitério…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Sangue.
Lápide fria
Noite escura, céu acima.
Sangue.
Você me abomina
Mas suas vísceras são minhas.
Sangue.
Seu carmesim cintilante
Colore o cemitério neste instante
Anjos choram pela inocência
Profanam minha existência
Mas ela os devora
Sangue.
Um olhar mais acima...
A garotinha é minha!
Sangue.
Debaixo de uma cruz
A pele pálida reluz.
Sangue.
O túmulo cinza me suplica
“Dance para mim, querida”
Sangre...
Leia mais em “Poesias”:
A Luz se Apaga
Majestosa, | Brilhante e inigualável estrela no céu. | Reinando em um mar de escuridão | Mas impiedosa, | Tão bela quanto cruel. | Tomou meus olhos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Majestosa,
Brilhante e inigualável estrela no céu.
Reinando em um mar de escuridão
Mas impiedosa,
Tão bela quanto cruel.
Tomou meus olhos
Meu corpo e espírito.
Elevou-me a mais linda visão
Para em seguida abandonar-me
Na escura solidão.
Não era vida
O que eu via.
Sua morte brilhava
Iluminando um negro céu.
Não era vida
O que eu sentia.
Era o último suspiro
De quem jazia a sabor de mel.
Leia mais em “Poesias”:
Remorso Póstumo
Estive por tanto tempo absorta em pensamentos, me deliciando com as palavras ganhando vida em páginas em branco. Vestígios de um sangue…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Estive por tanto tempo absorta em pensamentos, me deliciando com as palavras ganhando vida em páginas em branco. Vestígios de um sangue azul de outrora me levaram para um frenesi que Malus não pôde prever. Vidrada, fui escrava de meus sentimentos e escrita desenfreada.
Desci a meu antigo vilarejo. Esbanjando suavidade, beleza e terror. Não cogitaram que eu pudesse ser um mero fantasma, me chamaram de Diabo, e levantaram suas cruzes para mim. Escárnio. Eu que dormia ao pé de uma cruz de madeira com um Jesus crucificado testemunhando meus desejos e sonhos pecaminosos. Ah, se eu fosse o Diabo... Não lhes tomaria somente o sangue, com prazer, torturaria suas almas.
O pai que minha mãe me dera, não de sangue, era um paspalho pervertido que tentara contra sua própria filha, Carrie, minha única irmã, 10 anos mais nova do que eu. Minha amada progenitora nada fazia, nada dizia, éramos nós por nós mesmas.
Eu almejava as alturas, ser imponente como a lua que me permitia enxergar na escuridão. E diante dela, eu jurei nunca mais temer alguém insignificante, desprezível e tão patético quanto aqueles que me criaram.
No deleite, alimentando-me do líquido carmesim de seus corpos, fui vista por Carrie. A fúria que se abateu em mim, por meu próprio ato descuidado, fez com que jogasse seu corpo frágil contra a lareira mal esculpida. Na tentativa de trazê-la de volta à vida, sem sucesso, me peguei saboreando de seu sangue puro, inocente e doce, como jamais havia sentido. Não era azul, mas era tão sublime quanto, ou ainda mais.
Delírios, devaneios, remorso, culpa, deleite... em minha vingança falha atentei contra o que ainda me prendia a um mundo do qual já não mais pertencia.
...
Malus
Deveras como um cadáver. Muito mais fria do que o habitual, pele azulada, quase que seca quanto uma flor desidratada.
— Maneira sublime de morrer, Concordo. Mas nada bela. — Peguei o corpo cadavérico de Anelly que estava jogado sobre a cama e o acomodei de maneira mais confortável.
— Há quanto tempo não se alimenta? — Ainda sem resposta, fiz um corte considerável em meu pulso e a alimentei.
A princípio permanecia inerte. Como se a vida já a tivesse escapado. Mas ao toque de meu sangue em seus lábios, pude perceber que Ane ainda estava ali. Com um toque fraco de suas mãos em meu braço, se alimentava gentilmente. À medida que recuperava suas forças, sentia que o impulso aflorava em seu ser. Esta era a jovem por quem estava ludibriado, sozinha, mas não inocente, doce, mas não frágil, delicada, mas sombria como a noite sem luar.
...
Anelly
Não pude suportar o peso de ter tomado a vida de quem mais amei. Carrie me assombrava e me fazia perder a sanidade que já duvidava se realmente tinha.
Fugi de mim, entregue às valsas, fios invisíveis e enquanto rastejava nas sombras. Pouco a pouco abandonei meu ser, deixando meu corpo inerte, à mercê da própria sorte. Quanto mais neve avistava pela janela, mas eu definhava.
Estava oca, a fome já havia me abandonado. Sentia minha pele fria se enrijecer, e minha mente se apagou. Não posso dizer quanto tempo depois fui desperta. O sabor inconfundível da criatura mais interessante e deliciosa que eu já havia conhecido tocou meus lábios, e eu só conseguia desejar por mais.
— Definitivamente não é uma bela forma para uma donzela padecer. — Falou seriamente Malus.
— Donzela? — Ri, deixando que um pouco de seu sangue percorresse o canto esquerdo de minha boca. — Uma piada, certamente, mas que não combina com seu tom de voz.
— Você desapareceu por dias. Não a sentia mais. Estive fora do castelo e não tinha certeza se te encontraria no meu retorno. — Franziu o cenho e perguntou interessado. — O que levaria você a fazer uma greve de fome?
— Não fiz uma greve de fome! — Respondi brava, incomodada com a insinuação tola e juvenil.
— Dias sombrios abraçam até os seres mais obscuros, eu sei. Mas o que houve, minha cara?
Relatei meu infortúnio e remorso póstumo. Malus deu de ombros. Disse que transformar minha irmã teria sido uma péssima ideia, e continuou:
— Bebês... Crianças e bebês têm o sangue mais doce e puro que poderá encontrar. Não saboreá-los é um desperdício. Não deixe que laços do passado a castiguem por um mal necessário. Uma vez que foi vista, não teria outra escolha.
Estranhamente me senti mais confortável comigo mesma após ouvi-lo. Era divertido ter sentimentos por ele. Alguém como nós sentir algo tão bom um pelo outro. Uma paixão ardente, mórbida e que cada vez mais me via dependente.
Folheando rapidamente meu diário, me prometeu um novo, em breve. Admirava a rapidez com que eu havia preenchido tantas páginas. Questionou uma máscara partida em cima da escrivaninha, preta e de renda. Disse não saber sobre sua origem, mas mostrei-lhe o poema "A Valsa dos Desesperados". Ele sorriu. Disse que o conde não perdia oportunidades. Beijou minha mão direita e se retirou.
Já muito mais disposta, caminhei até a janela. A neve havia se instaurado com força. O céu banhando em um azul-carmim, evidenciava uma lua lúgubre. A melancolia percorria minhas veias. Uma tristeza sem cor avançou sobre mim. Quase não tinha mais páginas, mas o tinteiro estava cheio. Malus deveria se apressar com meu novo diário, caso contrário, teria que recorrer a outros meios para continuar a escrever.
Suas veias azuladas
As mesmas que via em mim
Sob um sol frio e pálido
As últimas lembranças que me restam de ti.
(...)
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Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Olhos petrificados e
Boca gélida,
De um vermelho desbotado.
Vestes amarrotadas
Ligeiramente forçadas,
Mas sem sucesso.
Cabelos sujos
Cobrindo, no chão
Sangue e musgos.
Face bela
Talvez outrora
Sonhaste com ela.
Se questionado,
Ou até mesmo me importado
Lamentaria o seu fim.
Mas me prendi nos desenhos,
Naturalmente formados
Por seu sangue carmesim.
Deitada ao chão
Fria ao pé d’uma árvore
Sinto que me chamam, seus olhos de cadáver.
Encosto minha cabeça à sua
E completamente nua
Ela pula para o ataque.
Foi uma emboscada
De inspetor fui à vítima
Encerrando minha jornada.
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Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Suas veias azuladas
As mesmas que via em mim
Sob um sol frio e pálido
As últimas lembranças que me restam de ti.
Na fúria eu cravei
Minhas presas em sua vida
Como uma tola saboreei
Todo o líquido que de ti escorria.
Sob um inferno congelado
Quis padecer pouco a pouco
Sua tez cadavérica
Se opõe a seu gosto doce.
Num dúbio delírio
Te arranquei a mocidade
Bebi sua inocência
Mas te carregarei pela eternidade.
Como o preço pelos meus pecados
Tê-la-ei para sempre em meus lábios
Viva em meus pensamentos,
Sua fria face de pouca idade.
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Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Em vermelho sangue
Com letras douradas e brilhantes.
O envelope revela
Meu nome.
Um fascinante convite.
Daquele por quem
Secretamente cultuo
Sentimentos obscuros.
Na hora exata
Trajada e mascarada
Sou recebida
No grande evento
No vai e vem de passos precisos
A alma saboreia,
enquanto desliso
Por entre corpos rendidos.
Nessa valsa dos desesperados
Sou rainha no abate
Rompendo as cordas da vida
Veias essas, tão fininhas.
No ápice da Lua Cheia
À meia-noite nos juntamos.
Em um grande banquete, brindamos
Liquor-carmesim.
Mas quando a música se finda
E o último acorde se desfaz.
Às três da manhã, em fim.
Para meu leito, devo seguir.
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Caminhar sobre um fio invisível
Como se disso,
Dependesse minha vida
É o mesmo que engolir mil facas
E não querer sangrar.
Não me diga para ir deitar
O repouso não é privilégio por aqui
Quem descansa,
Padece.
Costurar feridas não é opção.
Os cortes são profundos demais
Para que uma simples linha
Possa-o estancar...
Não chore,
A carne já morreu
Não deixe que morram também as lembranças.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…