Ninfa Sepultada

Como uma ninfa aos céus desobediente, | lançada às sombras frias e penitentes, | a Solidão, um véu de névoa ardente, | mora em um abismo, muda e reticente…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Como uma ninfa aos céus desobediente,
lançada às sombras frias e penitentes,
a Solidão, um véu de névoa ardente,
mora em um abismo, muda e reticente.

 Sua prisão é um poço sem guarida,
profundo como uma dor não percebida,
escura como a noite que quando ferida,
vaza o silêncio de uma alma corrompida.

 Do fundo exala um murmúrio, uma voz que arranha,
num ciclo que se forma e nunca se acanha:
é a própria dor que a si mesmo acompanha,
num riso espectral que nossa alma profana.

 Vazia, ela se duplica em repetência,
uma voz que responde em penitência,
ressonância feita de consciência,
que eternamente prova sua existência.

 Os deuses, ao moldá-la como expurgo,
teceram seu destino, frio e turvo.
Agora, em sua essência, tudo é luto,
reverbera o nada, eterno e absoluto.


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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6 - No submerso da caverna, mergulhamos nossos corações

Após o incidente com Eleanor, nada mais parece se ajustar às leis da razão…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Sibila von Lichenstein
12 de outubro de 1870

Após o incidente com Eleanor, nada mais parece se ajustar às leis da razão dentro dessas paredes. Não tenho certeza se a presença dela tomou forma na biblioteca, ou talvez no meu sonho. Não estou enlouquecendo. Sei que este lugar — vasto, estranho, nunca antes conhecido por mim — é real. Ao vaguear por esse imenso templo da solidão, que é o castelo, eu cruzo com outros seres. Ouso supor que não apenas humanos habitam este lugar, mas também a mais variada gama de criaturas que desafiam qualquer classificação comum.

Acho que as circunstâncias do passado me moldaram e influenciaram de tal modo que não consigo mais me entregar... Não sou como uma folha à mercê do vento, fadada a se deixar levar. Sou mais como uma rocha que resiste às repetitivas investidas do mar, mesmo que revolto. Passo horas sozinha, deixando meus pensamentos livres para refletir sobre a minha situação neste lugar. Desejo voltar ao casarão de Viktor, ao mundo que eu conhecia. Eu não tinha um plano definido para depois dele... Mas tenho certeza de que não era isso que eu desejava ardentemente...

Sinto-me extenuada, passo os dias e noites em constante estado de alerta. Tenho medo de ser atacada novamente. Os hematomas que Eleanor provocou em meu pescoço deixaram marcas indeléveis — não só em minha pele, mas também em minha alma. Qualquer criatura pode ser hostil. Minha antiga amiga, pode voltar, tomada pelo desejo de vingança e pelo ódio.

Mas a solidão, antes tão comum e adorada por mim, tem se tornado, além da culpa que carrego, uma das piores sensações. Sempre que me dou conta que estou sozinha e desamparada, revivo as memórias das semanas após a morte de meu pai. As desperdicei enclausurada em nosso casebre, que agora me parece uma miniatura precursora desta prisão de pedra e ecos, pois estou sem nenhum contato humano.

Tenho a impressão de já ter cruzado com todas as espécies de seres possíveis... e ouso supor que até mesmo vampiros habitam este castelo. Certa noite, um hóspede me abordou com um sorriso cortês e se apresentou como sommelier. Ofereceu-me uma taça de sua adega pessoal, durante o jantar do castelo. Aceitei, por mera cortesia. O líquido era de um vermelho profundo, quase negro, e exalava um perfume metálico, adocicado e denso. Bebi um gole. Achei que o sabor, mesmo misturado à substância etílica, era inconfundível... Sangue. Puro, espesso, claro como um segredo antigo. Temendo, respondi que estava bom, mas estou quase certa de que, quando ele sorriu, vi duas presas no lugar dos caninos em sua arcada dentária. Logo depois, despedi-me educadamente e, com passos rápidos, dirigi-me ao meu claustro. Mas, ao bater a porta atrás de mim, lembrei-me do pesadelo com Eleanor e do que Meia-noite me contou, e tive medo de morrer dormindo.

Completamente tomada por esses pensamentos, que se multiplicavam como erva daninha, decidi interpelar a senhora que frequentava a biblioteca, quase sempre nos mesmos horários que eu... Eu almejava estabelecer algum tipo de relação, nem que fosse apenas superficial. Eu precisava... Ela não era muito de falar, ficava encurvada sobre pesados tomos de botânica, fazendo anotações e rabiscos. 

Não parecia estar interessada em conversar, porém era minha melhor aposta. Tinha aparência humana, era mulher e velha. Por causa do que Viktor me fez, eu confiava mais em mulheres, apesar de me achar um verdadeiro monstro. Ademais, além dos hematomas, eu sentia uma ardência profunda neles, além de estar há dias sem dormir. Quem sabe, essa senhora, tão reclusa quanto eu, me desse a dica de alguma erva que me ajudasse.

— Olá... — cumprimentei, com a voz quase inaudível.

— A senhorita falou comigo? Hum... O que você quer, garota? 

— Não pude deixar de observar que a senhora sempre está estudando os volumes de botânica.

— Sim... E o que a devoradora de livros de anatomia tem a ver com isso?

— Sinto muito, me perdoe, me perdoe, por favor. Não quis incomodar... Mas, se levantar a cabeça e olhar para o meu pescoço, verá que não estou bem. — Minha voz saiu esganiçada, num misto de desespero e vergonha.

— Se é para a senhorita me deixar em paz logo, vou lhe dizer o que fazer: procure a erva do descanso. Para isso, terá que caminhar até Séttimor. Lá, essa erva sempre cresce nos arredores da cidade.

— Erva do descanso...? Mas que aparência ela tem? Perdoe-me... Eu não conheço.

Ela começou a folhear o tomo que estava em suas mãos. Parou e mordeu os lábios, pensativa. Subitamente, rasgou uma página e a estendeu para mim:

— Tome, isto deve servir... E agora, não me perturbe mais!

De posse da folha, agora sentada à beira da cama, uma das mãos segurava a folha amarelada, a outra tocava o meu pescoço, que ardia e latejava de forma incessante.

Na folha, o desenho de uma erva com folhas divididas em sete pontas alongadas. O artista havia ilustrado o centro dessas folhas com um verde vivo e, num degradê, elas passavam a ser negras em suas pontas. Os caules também eram pretos, com raízes profundas que se comunicavam de ramo em ramo. Abaixo da ilustração, podia-se ler: Ervatum Nocte Requies, entre parênteses e abaixo, erva do descanso.

No verso da folha havia ainda uma descrição da aparência física da erva, acrescentando que ela crescia em grupos de sete e era encontrada nos rochedos ao redor da vila de Séttimor. Seu uso era em unguentos e cataplasmas para aliviar hematomas e dores espirituais.

Havia outro desenho no verso, um pequeno mapa desenhado delicadamente a mão, abaixo dessas instruções. O desenho não era parte da impressão original, alguém o fizera posteriormente à tiragem inicial. Com linhas finas e decididas, o mapa mostrava o Castelo Drácula, minha morada atual, e também mostrava a Floresta dos Pinheiros Tristes ao noroeste, uma linha tracejada atravessava essa floresta, cuja fama no castelo, dizia que era assombrada por almas penadas. Ouvira dizer que ali, até mesmo as árvores eram mortas. 

O tracejado atravessa a floresta, depois acompanhava uma caverna, para então desembocar aos pés do que interpretei ser uma península. Na ponta dela, Séttimor estava desenhada. De um lado, rochedos a rodeavam; de outro, o mar que deveria colidir com os rochedos. Na área dos rochedos o autor dos rabiscos desenhara uma flecha e escreveu: “Região onde a erva do descanso cresce.” Entre parênteses: “Recomendável a colheita em estações secas.”, mas não dizia o porquê. 

Não conhecia com propriedade o clima da região, mas certamente não era uma estação seca. Lá fora, uma fina camada de neblina espessa cobria os jardins de lavanda, que agora estavam secos, podres e molhados. Não poderia partir solo, necessitava encontrar uma maneira de seguir até o recanto da erva de forma mais segura, ou seja, acompanhada.

Sabia de rumores de que os recônditos do Castelo Drácula abrigavam uma exímia felina caçadora que fazia serviços de mercenária, e havia a possibilidade de tentar um acordo ou um contrato, dependendo da quantia que ela cobrasse para realizar tal feito. 

Busquei apressada pelos corredores e até pelos jardins uma forma de contatar a felina, mas em vão, até que o espectro serviçal do Castelo me informou que eu poderia encontrar com ela em uma taverna ali próxima. 

Decidi arriscar e conferir o ambiente, era extremamente necessário, caminhei até o estabelecimento e lá me deparei com uma ampla gama de marginais, bandidos, aventureiros, alquimistas, ferreiros, anões, várias criaturas transitavam o ambiente. Senti que a energia era pesada, olhares de ameaça estavam por toda parte, cheguei a tocar a adaga que eu tinha escondida em minhas vestes. Busquei saber dela e todos diziam que a pouco ela estava no balcão bebendo uma espécie de licor verde. Alguns se sentiam ameaçados, outros preferiam não falar nada, mas infelizmente ela não estava mais presente. 

Saí apressada do lugar, ojeriza era a palavra, nem na Prússia eu ousara pisar em um lugar de tal estirpe, o Castelo eu até tolerava, pois apesar de só… ah, o que estou pensando? Nem no Castelo eu me sinto segura, olha o meu pescoço. Mirei meu reflexo numa poça do chão, os hematomas pareciam ter se espalhado pelo colo e queimavam de dentro para fora, eu precisava de ajuda! 

Um rapaz com um capuz cor de carvalho se aproximou, achei suspeito. Foi muito rápido, então me virei rapidamente, mirando uma adaga que encontrei no castelo em seu peito.

— Acalma-te! — disse ele em pânico, senti em seu olhar e o tom de sua voz que ele estava trêmulo e nervoso com minha presença.

— Procura a criatura que tememos, não é mesmo? Aquela felina com um braço estranho assustador.

— Sim, preciso de um guia para chegar nos rochedos próximos da vila de Séttimor, ouvi dizer que ela faz pequenos trabalhos em troca de algumas moedas.

— Conheço uma estrada, eu sou cocheiro, se confiar em meu trabalho e por algumas moedas de ouro, posso lhe guiar para uma estrada próxima à caverna, aquela, onde os habitantes daqui a viram rondando.

— Eu agradeço pelo serviço, vou aceitar. 

Paguei três moedas de ouro, aceitando a carona em sua humilde carruagem, guiada por dois corcéis escuros. Me aconcheguei na traseira do veículo.

— Diga-me, senhorita... Por que deseja ir a um lugar tão lúgubre?

— É um assunto pessoal, perdão, mas é de extrema importância que eu encontre um guia...

— Entendo, boa sorte, espero que aquela criatura lhe ajude, ela não parece ser muito sociável...

O comentário do cocheiro me deixou apreensiva. Conforme a viagem avançava, o frio, a chuva e um pequeno cansaço me abateram. A carruagem atravessava a Floresta dos Pinheiros Tristes. Abri as cortinas para poder ver por onde ele guiava, o clima estava tomado por uma neblina densa, eu sentia a umidade do lugar penetrar pelas minhas narinas, senti cheiro de mofo, ele vinha de camadas e mais camada de folhas mortas e apodrecidas no solo da floresta. Um temor antigo, prematuro, açoitava meu peito. 

De repente, os cavalos rincharam assustados e a carruagem estacou. Sobressaltada, escutei o trotar espectral de inúmeros alazões fantasma que cortavam a estrada diante de nós. Pela janela, vi suas pelagens douradas manifestarem-se como um milagre do pós-vida, pareciam relâmpagos na noite, era lindo.

Estava deslumbrada e assustada. Tudo era novo demais, lúcido demais, intenso demais. Os acontecimentos que me assombravam surgiam como espectros famintos, devorando minha energia e apagando minha alegria. Meus fantasmas interiores, meus dilemas, dores e pesadelos dançavam em círculos ao meu redor. Havia algo de doentio nisso... e ainda assim, algo estranhamente libertador. Era difícil de explicar. 

Fechei os olhos por alguns instantes e cochilei, aproveitando que a carruagem não estava balançando demais. Então a vi pela primeira vez, através dos meus sonhos. Desde que eu chegara misteriosamente a esse lugar, meus sonhos nunca mais foram os mesmos, havia algo de fantasmagórico, perigoso e real neles. Ainda não sabia se eram vaticínios ou meras manifestações do meu subconsciente.

Ela era muito bela, não entendi por que os habitantes da região a temiam. Não compreendia por que ela inspirava tanto receio, não pelo menos, até a ver com uma máquina de escrever de ossos, um pergaminho pingando sangue e um machado com um coração fincado em sua lâmina. Ela miava, e a máquina espirrava sangue e poeira. Então um pergaminho foi pulverizado no ar e um prisma, com um líquido esmeralda, foi canalizado e guardado em sua bolsa marrom de couro. Mas o que mais me deixou fascinada era a junção de metal e carne de que era feito um de seus braços, como estudante de medicina, eu nunca vira algo tão magnético e encantador quanto aquilo. Eu não almejara riquezas durante a vida, mas estudar aquele braço… Então ela me encarou, com uns olhos de tigre que rasgavam minha alma, e sorriu simplesmente.

Acordei com um trote ríspido da carruagem e o eco da voz do cocheiro que dizia:

— Chegamos, senhorita! — Desci apressada da carruagem, ansiosa para encontrar Arale. Começo a desconfiar de meus sonhos, até mesmo a acreditar que há alguma relação sombria entre eles, a realidade e o meu futuro incerto neste lugar além do tempo e da compreensão, onde me encontro. Logo, espero que a aparência dela seja a mesma que foi pintada em meu sonho.

 — Perdão, qual seu nome? — disse o cocheiro solícito.

— Perdoe-me, mas prefiro manter o sigilo, gratidão pela viagem e seus serviços…

— Disponha e tome cuidado...

— É o que tento...

Avancei em direção à caverna, assemelhava-se a uma boca infernal, cheia de dentes de pedra, logo na entrada, não era nada convidativa. Aprofundei o caminho na intuição e fé de que ela estaria aqui, que esse seria nosso encontro inescapável, já estaria escrito em nossas sortes que iríamos no conhecer e enfim eu conseguiria chegar até os arredores da vila Séttimor e conseguir a erva almejada. 

A caverna era completamente feita de ametistas, mas estava estreita, claustrofóbica e seu ar estava um pouco rarefeito. Continuei aprofundando-me cada vez mais em suas entranhas, e mais precária ficava minha visão e meus sentidos, apesar da luminosidade das ametistas.

Então senti uma picada, olhei minha perna e era uma agulha rubra, olhei ao redor e vi uma criatura baixa, achei que reconheceria, mas minha memória falhou. Minha visão estava ficando embaçada, mas antes que perdesse todos os sentidos e apagasse, pude ver uma adaga voando lentamente pelos ares, atingindo a testa da criatura, fincou-se bem no meio de seu nariz e ela caiu para trás morta e sangrando. Assim que me revirei, vi a alguns metros de distância uma felina com cabelos prateados e com um olhar furioso, então apaguei.

Não sei quanto tempo passou e quanto tempo fiquei apagada; mas, quando acordei, abri os olhos lentamente e pude ver que eu estava confortavelmente acomodada em uma espécie de espuma, deitada próxima a uma fogueira e aquela assustadora felina afiava seu machado.

— Acordou, sente-se bem? Possui alguma dor? — ela me questionou com uma voz doce e sensual, porém firme e durona.

— Muito obrigada, sinto-me bem, dentro do possível, mas estou nesta jornada para encontrar a erva que necessito para minha cura completa...

— Eu sei… — ela retrucou.

— Como sabe? Perdão a pergunta, mas por acaso você seria Arale?

— Sim, minha cara. Arale Fay´ax, aos seus serviços… Eu sabia que viria, senhorita Sibila.

— Como sabe? E como conhece meu nome?

— Minha máquina de escrever de ossos é um cósmico instrumento profético. Ela escreveu um pergaminho, que me revelou sobre sua jornada, sua aparência, seu nome… E ela ressoou, e eu sabia que viria pra cá… Quando senti seu cheiro, também senti o odor da criatura que te envenenou com uma zarabatana de pequenas agulhas feitas de rubi vermelho venenoso. 

— Deveras prodigioso, nossa, muito obrigada, salvou minha vida! — respondi encantada com tudo o que vinha dela, eu não tinha conhecimento sobre nada daquilo, pergaminhos… caverna de ametista e criaturas perigosas com zarabatanas…

— Imagina, precisa ser mais cautelosa com monstros.

— Ironia demais você dizer isso, cara Arale Fay´ax. 

Arale não entendeu por que eu disse que era ironia, e respondeu:

— Apenas Arale, por favor. Alguns me chamam de felina fantasma, mas eu não sei por que criei esta fama, apenas tento limpar este planeta de ameaças...

— Que criatura era aquela?

— Um simples Bokogobelinum, uma criatura que parece uma mescla de duende com pequeno suíno.

— Nossa… De onde eu vim, a Prússia, não há criaturas como essa. 

— Eu estou caçando uma muito pior, uma ameaça muito mais nefasta, apesar de ele ser um mero Láparo, pelo que ouvi falar, e também preciso encontrar uma relíquia chamada Ovo Cósmico.

— Infelizmente não posso ajudar, mas preciso que me leve para a vila Sétimmor.

— Posso fazer isso… Mas terá de ser corajosa. 

— Por quanto? — Eu achava que era corajosa o bastante. 

— Façamos a viagem e depois decidimos, mas o que acha de, por enquanto, fecharmos negócio em 77 moedas de ouro Séttimoriano?

—  Ok, eu aceito. — Eu não tinha outra opção, não sabia quanto aquilo valia realmente, mas aceitei. 

— Vamos descansar mais um pouco e partimos ao amanhecer.

— Obrigada, Arale, o que está fazendo?

— Cozinhando um pequeno salmão que pesquei antes de vir para cá. Aqui, coma e ficará melhor... Sibila, certo?

— Sim, esse é o meu nome mesmo. Muito obrigada! O que você faz realmente?

— Eu caço demônios que ameaçam essa e outras dimensões, perdi minha família devido a um ataque de cyber-dracontes. Minha família e toda minha tribo era muito devota à espiritualidade de nossa deusa-mãe Ísis, e vivíamos em pirâmides de cristais de néon quando eles chegaram e escravizaram meu povo. 

Eu não estava no momento, estava em um exílio espiritual com meu mestre xamã, ele fizera uma projeção astral e acessara a nave deles, a comandante mãe era uma reptiliana anciã, então ela ordenou o ataque e ele foi morto no astral, porque sua projeção foi detectada.

Quando retornei à minha tribo, todos estavam decapitados, alguns foram cremados, outros esfaqueados… Minha família deixara escondida nas matas, em um prisma sagrado, minha máquina de escrever de ossos, nosso legado e meu machado. Quando cheguei para obter minha máquina e meu machado, sofri uma emboscada pela líder, ela me nocauteou e então arrancou meu braço com sua garra mortal, desmaiei. A minha máquina, nesse instante, abriu um portal para onde eu estava e, em seus últimos momentos de vida, meu mestre fizera uma magia xamânica e fundiu tecnologia e magia em meu braço, deixando-o biônico. Então a máquina de escrever conjurou outro portal e percebi que eu estava no jardim do Castelo Drácula, e imagino que ele ou aquela que está sempre com ele possa ter me conjurado... eu não sei, mas isso me deu uma razão para viver, de alguma forma...

— Nossa... eu não entendi quase nada, mas compreendi sua dor...

Arale riu e então nos alimentamos e nos preparamos para dormir.

— Vamos descansar e seguir viagem em breve, te levarei ao teu destino.

— Muito obrigada, Felina Fantasma! — Arale miou em resposta.

 

Ao acordar, senti minha manga direita molhada, num salto acordei e imediatamente comecei a cutucar a felina que me acompanhava. Havia água dentro da caverna, e ela subia rapidamente. 

Arale despertou calmamente, quando viu que a água subia para dentro da caverna, foi até a bolsa dela e retirou duas bolas de vidro transparentes, encaixou a cabeça dentro de uma delas, a qual se acoplou magicamente ao seu pescoço. Me estendeu outra e vendo minha hesitação, retirou novamente o globo de vidro da cabeça e disse:

— Vista a sua também, não precisa ter medo, é necessário para podermos mergulhar e sair do outro lado da caverna. Vista, rápido, não vê que a água está subindo cada vez mais rápido? Vamos! Depois imite os meus movimentos e siga a minha cauda para não se perder na escuridão. Cavernas submersas são muito perigosas, mas a máquina de escrever me mostrou o seu mapa, eu sei o caminho.

Então vestiu o dela novamente, colocou a própria mochila nas costas e me ajudou a colocar o meu. Eu não sabia que tipo de tecnologia era aquela, mas eu tinha de confiar nela, eu não tinha outra escolha, então deixei que ela colocasse o globo na minha cabeça. Não havia nada que permitisse a troca de substâncias lá fora, mas eu pude observar que de alguma forma mágica, o ar dentro do globo era renovado. O ardor em meu pescoço e em meu colo se intensificaram ao entrar em contato com ele, era pesado.

Arale, com o Machado na mão, começou a caminhar em direção à água que subia, eu fiquei junto a ela, a luz da fogueira já tinha se apagado há tempos, e a única coisa que eu conseguia ver com clareza era o rabo felino de Arale, ele brilhava com intensidade. Conforme ela mexia a cauda e os cabelos, diferentes partes da caverna e da água iluminavam-se. 

Depois de poucos passos, mergulhou numa depressão grande e profunda dentro da caverna. Eu nunca tinha mergulhado em toda a minha vida, nem imaginava que isso seria possível, mas a segui, eu não queria morrer sozinha em uma caverna distante. 

Ao mergulhar de olhos fechados, senti as gélidas águas penetrarem as roupas, meus poros, minha psique. Um temeroso arrepio álgido percorreu do alto a baixo das minhas costas. Isso tudo em questão de segundos, ao abrir os olhos, não vi muita coisa e me desesperei, tudo o que via era uma luz pequena mais ao fundo, muita areia do chão da caverna revolta se espalhando pela água à minha frente, dificultando minha decisão de onde ir. 

Segui meu instinto e fui mergulhando mais profundamente, à medida que eu mergulhava, a luz ao longe aumentava de tamanho, mais algumas braçadas e mexidas de pernas, pude distinguir novamente os cabelos e o rabo felino de Arale em meio à escuridão total. Só assim, as batidas do meu coração se acalmaram. Ousei olhar ao redor, temendo perdê-la de vista novamente, mas o quadro que se pintava ao meu redor era tão incrível, que era fácil distrair-se. O gelo das águas parecia perfurar a minha carne, como mil agulhas afiadas e finas.

Eu ouvia somente o barulho da água sendo movimentada por nossos corpos em meio ao breu profundo, era excitante e relaxante ao mesmo tempo. Sentia-me animada em conhecer aquele ambiente e temerosa também. Olhei para as paredes iluminadas por Arale, continuavam sendo cobertas por ametistas, eu consigo perceber um animal ou outro escondido entre as frestas. Ao mergulhar mais profundamente, outra pedra preciosa começou a tomar o lugar das belas ametistas, eu sei que parece insano, mas havia muitas estalagmites e estalactites vermelhas, pareciam facas de vidro transparentes e afiadas. Inferi que eram rubis, e que aquele gnomo porco que me atacou as tinha colhido aqui para confeccionar a arma que usou para me atacar.

Mas isso não importava, eu tinha que focar em segui-la, chegando mais perto, senti como se estivesse entrando dentro da boca de um ser antigo e ancestral. As estacas rubras descendo do teto e vindas do chão se estreitaram em certo ponto, permitindo apenas a apertada passagem de Arale e a minha, estamos adentrando a boca desse ser de dentes afiados. Temi nunca mais conseguir fazer o caminho de volta ao ser engolida por ele.

Ao atravessar pela estreita passagem que aqueles espinhos formavam, raspei as costas em um deles e minha visão turvou-se, devido ao meu próprio sangue que tomou a água ao redor. Agora, além do pescoço e colo sempre a arder, minhas costas ardiam como nunca. Um pavor inominável e incontrolável tomou conta de mim. Agitei meus braços de forma desconexa, tentando afastar o sangue para poder localizar novamente Arale: minha única companhia e esperança naquele vazio molhado e profundo.

Ela, percebendo que eu sangrava, deslizou lentamente e arranjou uma forma de pegar minha mão e me guiar de uma forma firme e mais segura, sempre cuidando para que eu não me machucasse novamente.

Seu olhar marcante brilhava como amarelo-ouro luminescente, a forma que nadava era artística. Fiquei maravilhada, apesar da dor, com os movimentos rápidos e esguios que ela fazia, mesmo debaixo d’água turva, ela brilhava intensamente!  Seus movimentos felinos e rápidos, pareciam um ballet aquático iridescente. 

Atravessei com mais calma os corais. Vi vaga-lumes d´água e criaturas marinhas semelhantes a águas-vivas bioluminescentes, acompanhadas de peixes-morcegos, era horripilante e fascinante ao mesmo tempo, de onde surgiram essas criaturas inexistentes até então? Será que espreitaram pelos cantos escondidos da caverna e saíram apenas para dar o ar da sua graça e maravilhar as minhas retinas cansadas? 

A pressão se intensifica, à medida que mergulhamos mais e mais nas entranhas submersas da caverna. Eu a sinto esmagando meus ossos e músculos, um aviso urgente para os meus pulmões, que apesar da redoma de vidro, pareciam se esforçar triplamente. Nadamos juntos mais alguns metros à frente e pressenti que estávamos alcançando o trecho final.

Acredito que ela tentou me dizer algo embaixo d´água, “abaixe-se” talvez, e então me guiou, abaixando a minha cabeça carinhosamente, para mergulharmos por debaixo de pequenos estalactites que cerravam a passagem.  Ela precisou quebrar algumas pequenas pedras com o machado, como ela fazia isso enquanto estávamos mergulhando era um mistério.

Eu conseguia enxergar um pequeno feixe de luz que ia se afunilando conforme avançávamos. Então escorregamos finalmente de uma forma frenética por um tipo de espiral de pedras e cascalho, desembocando para fora daquela garganta diabólica, ao mesmo tempo fascinante. 

Quando emergimos, encontramos uma praia pedregosa e hostil. E só então entendi por que a página arrancada do tomo dizia para procurar a erva em tempo seco, é que na estação das chuvas a caverna que eu e ela acabáramos de atravessar permanecia seca, já que a maré subia aquele ponto somente quando chovia o suficiente para submergi-la.

Ondas revoltas batiam nas pedras negras como ébano de uma imponente formação rochosa que se erguia contra o céu e dominava com desdém toda a paisagem praiana que nos circundava. Ao olhar para a sua imponência, notei que no seu alto uma misteriosa e também enegrecida vila se assentava, deveria ser Séttimor, isso significava que eu estava muito perto da erva que eu almejava para curar os meus hematomas causados pelos dedos fantasmagóricos de Eleanor. O sol já havia atravessado grande parte do dia, talvez não faltasse muito para anoitecer. Estávamos encharcadas.

Eu estava exausta e Arale ainda parecia estar com uma energia plena. Apontei para o capacete em minha cabeça, com um leve toque ele se desfez na mão dela, aquilo me deixou atônita.

— Você não se cansa? — soei um pouco ríspida, mas não foi intencional.

— Quando minha prioridade é a missão e a proteção, a adrenalina toma conta de meu corpo…

— Adrenalina felina é?

— Algo do tipo, venha cá, sente-se, preciso cuidar do seu ferimento.

— Estamos encharcadas, o que vai fazer, Arale?

— Confia em mim, não é?

— Claro que sim, lhe confiei a vida, é a minha única segurança.

— Vire-se de costas — ela pediu com educação.

Delicadamente retirou minhas vestes de cima. Eu cobria meus seios com as mãos enquanto ela limpava meu ferimento nas costas.

— Como está fazendo isso? Sinto-me bem mais relaxada e sem dores…

— Eu carrego sempre comigo algumas ervas e poções, infelizmente não possuo todas dessa região e deste planeta, é claro, pois estou há pouco tempo aqui e tenho apenas as do Castelo e algumas que trouxe comigo de minha tribo, são feitas apenas para estancar sangramentos, purificar infecções, algumas induzem sono, outras para sonhos lúcidos. As poções são para emergências, para curar e estabilizar ferimentos causadas durante batalhas, e também utilizo para a limpeza de meu machado e da máquina de escrever…

— Nossa, obrigada, mas por que precisa limpar uma máquina de escrever feita de ossos?

— Pronto, pode vestir-se, o curativo está feito… — enquanto ela se virava, me vesti rapidamente.

— Obrigada mais uma vez.

— Eu preciso sempre retirar fluidos energéticos que contaminem a máquina como miasmas e outros organismos pútridos, é como nos medicar, e o meu machado possui uma condição especial em sua lâmina que sempre preciso “alimentar…”

— Interessante, obrigada pelas explicações, como sou amante do conhecimento, sempre é bom obter mais conhecimento! E, mais uma vez, obrigada pelo curativo.

Percebi que ela parecia sem jeito e talvez fosse algo pessoal demais, não entendi o porquê, mas resolvi não questionar mais... Ela organizava as coisas em sua bolsa e me ofereceu alguns fungos para comer.

— Fungo? — eu hesitei. — Perdão.

— São maravilhosos, experimente, esses aqui são Shimejis Estelares, esses outros chamam-se Agaricus Bisporus, são suculentos, e esses solares aqui chamam-se Psilocybe, possuem propriedades espirituais…

— Me vê esse ensolarado… — Apreensiva, mordi e o gosto era um bálsamo iluminado. — Que delícia…

— Sabia que ia gostar.

Arale rapidamente, com exímia precisão, acendera mais uma fogueira para nos aquecermos e secarmos nossos trajes.

 Observei a chama que crepitava, era muito bom e reconfortante estar na companhia daquela felina estranha, então consegui repousar e dormi logo, apesar do ardor causado pelos hematomas em meu pescoço persistirem. 

Acordei não sei quanto tempo depois, após mais um pesadelo, desta vez com Viktor, que ainda em sonho me assombra. Ele me apareceu desfigurado, mas o reconheci pela voz senil, imperiosa e egoísta. Não vou descrever o sonho nesse diário, pois não quero me lembrar daquele ser nojento nunca mais enquanto meus pulmões respirarem, por isso o matei.

Ao olhar ao redor, percebi que Arale não estava próxima. Onde ela está? Gritei por ela, chamei por seu nome e nada. Eu escutava corujas e criaturas estralando galhos distantes. Morcegos passavam sobrevoando, onde ela está? Por que tive esse pesadelo? Será o reflexo do que mais me atormenta? "Este cogumelo ilumina nosso sonho como um sol da verdade..." Lembro-me de Arale dizer isso um pouco antes de eu adormecer. Não posso me arriscar, vou aguardar por ela aqui, as coisas dela estão aqui. Ela não deve ter ido longe e logo mais irá amanhecer, assim espero.

Eu sei que eu não deveria ter saído daquela área segura, mas algo me apertava o peito, como um tipo de ansiedade ou premonição. E se ela não voltar? Impossível, ela jamais me largaria… Como eu pude confiar tanto e tão rapidamente nela? Será que ela sente o mesmo? Acho que sim…

Caminhei um pouco pela mata adentro, seguindo alguns vagalumes e sons de coruja, até que avistei um clarão intenso e dourado. Corri mais adiante, me esgueirei entre os arbustos, escondida eu espiei, lacrimejei naquele instante, por quê?

Arale estava ajoelhada com uma expressão furiosa e sangue escorria do canto de sua boca. Um dos olhos estava com um hematoma. Algumas partes de sua veste estavam bastante sujas e rasgadas. Ela estava com um tipo de camisa branca de linho, ensopada de sangue, e um tipo de sutiã medieval que mantinha seu busto suspenso, além de uma calça marrom de couro cor de terra; seus braços estavam presos por um tipo de teia, que parecia ser feita de um miasma roxo e prateado.

A criatura a sua frente era um tipo de aranha mesclada a um corpo de uma mulher que exalava sensualidade e beleza, mas se deformando para uma forma grotesca, com patas horrendas e diversos olhos. Ela ria enquanto emitia um tipo de grunhido.

Lentamente caminhei para perto de Arale, foi então que avistei seu machado caído próximo de meus pés. O que devo fazer?

Não podia pensar demais. Percebi que suas orelhas felinas sentiram minha presença, então corri e peguei seu machado, era muito mais pesado do que eu imaginava, e com toda a minha força e energia restantes, o arremessei em sua direção, gritando:

— ARALE!

Ela olhou rapidamente com aqueles belíssimos olhos de tigre dilatados e soltou um tipo de rugido, liberando uma força descomunal que estourou as teias que a prendiam. Correu de quatro, impulsionando-se com seu braço metálico e agarrou seu machado de forma artística e acrobática. Tudo isso ocorreu em questão de segundos, meu fôlego e meus olhos não conseguiam captar. A aranha grunhia furiosa e tentou perfurar Arale no exato momento em que ela pulou, com uma de suas patas aracnídeas. Eu fiquei boquiaberta. Arale encravou o machado bem no meio da testa da aranha-mulher, que se debatia loucamente enquanto Arale regozijava. A criatura sangrou e derreteu em sua frente. Arale cambaleou. Corri e então a agarrei. A máquina de escrever de ossos, mesmo distante, disparou um raio cósmico, transformando aquela batalha em um pergaminho de sangue. Minha segurança e companhia o agarrou no ar e o recitou:

“Ela é silente, embora um parco murmúrio verta de suas duas bocas horrendas e escuras. Seu corpo é feito de tensões e pele, com dezenas de aberturas como vértebras cervicais. Em seu tórax resiste, aglutinado em pele e tendões, um tipo de crisálida, cujo nervo principal advém do que deveria ser a genitália da criatura. Parece guardar algo que pulsa e respira… é como um ventre. A criatura conduz-se em correntes, as quais parecem unificadas à sua pele, e seus dedos retorcidos e desproporcionais assemelham-se à forma como ela caminha, sempre retorcida, com a coluna para o lado. É bastante silenciosa quando não é vista; quando pretende atacar, seu murmúrio distante se transfigura em um eco seco e gutural que, ainda assim, somente sua vítima pode escutar — o que significaria que Morggore, seu criador, está bem próximo... É uma criatura inteligente e alimenta-se de medo e dor.

Não é essencialmente forte.

Gera pavor e exala repulsa, levando suas vítimas a uma crise de desespero dilatado, com doses altíssimas de adrenalina — muitas desmaiam ou têm ataques cardíacos em função do horror que lhes acomete. Se a vítima é racional e cética demais a ponto de não ter o terror despertado em seu âmago, Morggore não aparecerá a esta pessoa.

A criatura desvela-se para quem está só e tem medo. Seu objetivo é causar horror, pavor profundo, nada mais, e ele só aparecerá após a derrota de sua aranha…”

O pergaminho então é selado no prisma esmeralda e engolido pela máquina.

— Mais uma caça para o bestiário... — Arale conclui alegre e com a voz ferida.

— Precisamos cuidar dos seus ferimentos, vamos...

— Não... A prioridade é concluir a missão e lhe entregar a teu destino...

— Como? — Eu insisto.

— Sibila, por favor, não dificulte as coisas...

Quando finalmente percebo, em seu outro ombro, uma espécie de espinho gigante perfurou, provavelmente quando ela pulou...

— Eu precisei pular, pois senão esse espinho pegaria exatamente em você, Sibila...

— Arale... — Emocionada, eu não sabia o que dizer.

— Talvez você não resistisse, então por favor, vamos seguir e concluir o que me pediu...

Retornamos à fogueira. Ela recolheu a máquina de escrever e nossos outros pertences, e seguimos atravessando o local de batalha, chegando ao final da trilha, com dois caminhos e uma placa com duas setas de madeira.

A esquerda dizia: “Séttimor para cima”

E a da direita dizia: “Porto do limiar adiante”

— Eu preciso chegar ao porto, Sibila. Preciso seguir viagem. Tenho uma missão pessoal também, muitas, aliás, mas a prioridade agora é eu encontrar Allant Elirrahz...

— Infelizmente não conheço... — Eu digo, magoada.

— Imaginei, não tem problema. Aquela aranha era um Yokai, eu caço essas criaturas também. Ela era um filhote da criatura que estou buscando...

— Que criatura? — Pergunto, curiosa e óbvia.

Arale arfa, respira fundo enquanto tenta limpar o machado, e insisto para me deixar fazer um curativo. Ela concorda, enquanto me conta o relato que ouviu...

Sentamo-nos na beira de um lago com pedras ornamentadas pela natureza, onde pobres peixes marinhos lançados pela maré tentavam retornar ao mar, e então Arale começa a me recitar o que um pergaminho anterior ao de hoje, pertencente a uma antiga caçadora, havia transmitido para ela junto de sua máquina:

“A tecedeira dos destinos funde a noite de três véus, onde o pavor tece sua própria carne. Onde a beleza murcha, se funde à abominação, e a aranha vira ventre, e o ventre respira pavor. Chamam-na de Jorōgumo, a que ceifei com sua ajuda. Dizem as lendas, nas aldeias tomadas por brumas, mas há os que sussurram outro nome também, sua extensão, Morggore, num sussurro empedrado, como se cada sílaba fosse uma pedra enfiada na garganta. Jorōgumo, rebento de Morggore, é criação direta de seu abismo, uma continuidade de sua essência, feita da mesma teia de terror e desejo. 

São dois nomes para o mesmo presságio. Uma entidade de dupla essência, dualidade profana. Ela não seduz apenas com beleza, nem assombra apenas com horror. Ela engravida o medo com desejo e pare o desespero em silêncio. Sob sua pele, o que um dia foi seda tornou-se membrana viva, espessa e pulsante, como o ventre de uma estrela negra prestes a explodir. Seu corpo, uma fusão de tensões arcanas e biologia renegada, se contorce como quem dança para os deuses errados. A teia que antes enredava corpos, agora costura a realidade com o irreal.

No centro de seu tórax, onde um coração humano repousaria, pulsa uma crisálida feita de tendões e ossos fundidos, um feto de horror onde habita o que não deve nascer. De lá, nervos escorrem como raízes em solo maldito, fundindo-se à sua genitália necrosada, a boca original de onde vieram os enganos e os lamentos. Jorōgumo-Morggore anda em correntes. Elas não a prendem. São parte dela. Rangem como dentes velhos roçando um ao outro, rangem em harmonia com seu andar desfigurado — uma dança espasmódica e lateral, como um réptil esquecido tentando lembrar como era ser mulher quando o ataque se aproxima… o mundo silencia. O murmúrio, aquele mesmo som que se assemelha ao soluço de uma criança afogada em pesadelo, emerge apenas para os ouvidos da presa. É íntimo. Como um segredo sussurrado no exato momento da morte. Nenhum outro ouve. Nenhum outro vê.

Ela não é essencialmente forte — não quebra espadas, não fere com garras flamejantes. Mas penetra na alma com agulhas feitas de lembranças do que poderia ter sido. Morggore alimenta-se de medo não como uma besta faminta, mas como um sacerdote ancestral em comunhão com o terror alheio. Ela oferece um culto sensorial: taquicardias, desmaios, suor frio, a orquestra do pânico. E quando a vítima enfim ruir, ela recolhe não o corpo, mas a experiência. O horror. O grito que não saiu.

Aqueles que são céticos, que não creem em assombrações, jamais verão Morggore. Ela não os deseja. Não por desprezo, mas porque ela é um reflexo do medo espelhado na alma de quem caminha só. Ela é necessária apenas para os que se esvaziam ao anoitecer. E mesmo os bardos, aqueles que tentam cantá-la, jamais a nomeiam em voz alta. Preferem rabiscar em pergaminhos apócrifos, trêmulos, ou soletrar de trás para frente, esperando que a noite não ouça. Pois onde o pavor dorme, Morggore desperta. E onde o desejo espreita, Jorōgumo sorri. Nas sombras onde os fios do mundo se cruzam, ela reina. Invisível como o vento, paciente como a noite.

Nas crônicas esquecidas que os bardos sussurram ao pé do fogo, nas estepes cobertas de neblina do Oriente antigo, fala-se da Jorōgumo, a aranha encantada que urde tanto o destino quanto o desejo. Criatura dos véus e dos enganos, seu nome ecoa como um sussurro em corredores de madeira velha e bosques silenciosos. Não é mera fera, tampouco um espírito errante; é lenda viva, entidade ambígua que transita entre o divino e o maldito. Com o torso de uma donzela de beleza hipnótica e o abdômen de uma aranha colossal, seus olhos negros não revelam emoção, apenas fome disfarçada de ternura. Quando ela caminha, o chão não a ouve. Quando ela canta, o coração vacila. Sua voz é doce como sake quente sob a chuva, mas cada palavra é um laço, cada sílaba uma seda venenosa. É ela quem embala guerreiros solitários em promessas de consolo. É ela quem espera, imóvel, sob os salgueiros tortos, onde a luz hesita em entrar.

Na arte ancestral do engano, Jorōgumo é mestra. Convida com o olhar, enlaça com os cabelos, prende com as pernas. Seus fios, de prata lunar e toque mortal, não são apenas armadilhas físicas, mas malhas de ilusão e encantamento. Os homens que nela confiam não morrem apenas: desvanecem, tornam-se ecos presos entre as fibras de suas teias, murmurando eternamente entre a seda e o silêncio. Alguns dizem que é uma maldição, que uma aranha comum devorou tantos corações que o próprio kami da enganação lhe concedeu forma humana como prêmio. Outros creem que ela é a guardiã de passagens esquecidas entre mundos, cobrando pedágios de paixão e sofrimento.

Como os espectros dos túmulos antigos, ela não busca redenção. Ela observa, eternamente à espera de mais uma alma cansada para envolver em seu casulo de promessas. Pois onde a espada falha e a palavra fraqueja, Jorōgumo triunfa com um sorriso. E se a encontrardes, não lutem, não falem. Apenas corram. Ou rendam-se à poesia de seu abismo.”

Eu estava horrorizada e impressionada, tudo fizera sentido, era por isso que todos que encontrei estavam em choque ou tremendamente assustados com ela, será? Com os olhos marejados, perguntei:

— Isso é uma despedida?

 — Por ora, sim, minha cara companheira. Siga este caminho, será seguro.

— Muito obrigada, vou lhe pagar…

— Não precisa. O que preciso é apenas chegar ao porto e, de lá, a vida me levará para os mares do limiar. E lá, quem sabe, encontrarei o que procuro…

Nos abraçamos forte, como se ambas não quisessem, de coração, se separar.

Arale seguiu firme pelo caminho em direção ao porto. Eu fiquei admirando-a e, então, segui para o meu destino. Quando, novamente, olho para trás, vejo, na neblina que a noite trazia, Arale desaparecendo de minha vista.  Olhei para o alto e suspirei cansada, mas esperançosa e grata: 

— Séttimor, estou chegando.

As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aryane Braun

Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais

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Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Capítulo 3: Insanidade do Desejo e a Loucura — A Mansão Negra

Alguns dias e noites bastante invernais se seguiram até que fui levada à Mansão Negra e, às vinte horas, eu a vi…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Despertei assustada, sem razão, exceto por uma sensação de intenso temor. Sentei-me sobre a cama, respirando com dificuldade. As velas do castiçal único estavam apagadas e o breu era carregado, pesado. Como orientada, busquei por fósforos na mesa de cabeceira e os encontrei. Acendendo um, à princípio, para localizar o castiçal. A acústica daquele lugar era impressionante; nenhum som saía, nenhum som entrava. Fui à janela para abri-la, de modo a ouvir algo além do meu frenético coração. Era impossível, não me parecia ser feita para se abrir. Acendi as velas no castiçal sobre a cômoda e o que notei me assombrara de modo tétrico e tão repentino quanto meu despertar sôfrego, voltando a acelerar o meu órgão vital. Nenhuma das pessoas, naqueles retratos, possuía rosto. Suas faces estavam borradas. Aturdida, segurei uma das molduras após o fugaz afastamento impulsivo e instintivo; toquei a pintura. Parecia real. Estava seca. Com uma tênue camada de fino pó sobre sua textura. Antes que pudesse assimilar aquela bizarrice — e antes de me questionar se eu sonhava, tal como Morgion, ouvi batidas à porta e, célere, a encarei. 

Em uma lentidão espectral, coloquei o retrato sobre a cômoda e caminhei à porta, segurando o castiçal. Ao fitar meus olhos à maçaneta de ouro, ela apenas não existia. Toquei o cedro negro do umbral, busquei o que apenas nunca parecia ter existido. Ouvi mais duas batidas na porta. Um desespero mórbido emergiu no meu âmago; uma sensação claustrofóbica gritante conduzira todos os meus sentidos. A respiração, outrora ofegante, passou a ser a súplica de um horror silencioso e, ao mesmo tempo, gritante. Pus o castiçal em qualquer lugar, o qual nem vi onde, e, em desespero, bati contra a porta pedindo ajuda para sair, ainda que eu sentisse que nenhum som poderia atravessá-la. Meu pânico gerara um suor vívido pelo meu corpo e meus olhos lacrimejavam pela hediondez daquilo que eu me via imersa. Foram os minutos mais bárbaros de minha vida, pior do que tudo o que aquelas poucas horas já haviam me proporcionado. Abruto, a porta se abriu, empurrando com um abalo, meu corpo. Então vi a maçaneta em seu devido lugar e vi os olhos azuis-cinéreos de Ahzaez, segurando a maçaneta da porta, pelo lado de fora. Por um instante, eu apenas não compreendi nenhuma informação disponível à minha consciência. 

— O que houve, Saeeri? — Ele questionou, todavia, arfante e exaurida, eu não pude respondê-lo de imediato. Ele se recompôs, parecia ter forçado a abertura da porta e, decerto, ter ficado ansioso em relação ao meu bater pelo outro lado. Notei — a posteriori, quando a lembrança me veio — que fui chamada de Saeeri sem nenhum tipo de formalidade, algo difícil de acontecer com famílias como as de Sttrattan. Ahzaez aproximou-se um pouco mais e pude sentir seu calor. — Tu estás... — Ele fitou-me de cima a baixo. — O que houve? Precisas de algo? Saeeri? — Esforcei-me para respondê-lo, ponderei, n’um lampo de pensamentos, diversas palavras e as únicas que me saíram foram as mais evidentes. 

— Fiquei... presa... — Olhei para trás, de soslaio. Nenhum rosto estava apagado nos retratos. Observei a porta. A maçaneta intacta em seu áureo lume próprio. Que tipo de anomalia era aquilo? Sem nenhum histórico de delírio em todos os meus trinta anos de vida, deduzir que se tratava de alguma patologia mental, por quaisquer motivos, era ignorar a verdade. 

— Pegarei um copo d’água para que possas te acalmar... — Ahzaez dissera, voltando-se à porta, mas eu o segurei pelo braço, ainda domada pelo medo. Eu não queria ficar sozinha outra vez. Ele me olhou atento. Tocá-lo foi invasivo... e afrodíseo... como não deveria ser. Soltei-o diante de seus olhos, eram tão amedrontadores quanto todo o horror vivenciado. 

— Perdão... — Murmurei. Se já não era educado tocar alguém sem permissão, tocar aquele homem sem a devida autorização assemelhava-se ao crime mais cruel de toda a Sihren. — Estou... assustada... — Ahzaez aproximara-se da cômoda com os retratos, em silêncio; da última gaveta retirou uma toalha, estendendo-a a mim em seguida.  

— Use isto para... secar... tua tez... — Sua voz baixou a dois tons, fora quase sussurrada... — Mantenha a porta aberta, volto em breve. Com a porta aberta, ouvirei tua voz caso algo aconteça, basta chamar pelo meu nome. — Abraçada à toalha, apenas concordei com sua fala agravada pela densidade daquela Mansão; então o vi deixar o quarto. 

Como ordenado, sequei-me a pele úmida pelo temor; respirei profunda e intensamente. Prendi, com cuidado, meus cabelos que se soltaram diante meus bruscos movimentos contra o umbral. Segui ao espelho oval e ornamentado, ao lado direito da cama. Quis ver meu rosto, acalmando-me a sanidade. No entanto, não havia... reflexo... e fui tomada pelo mesmo impacto horrífico; tendo meu coração acelerado em aterrador ritmo. Cobri meu rosto com o a tolha, seu algodão negro soara-me acalentador. “Isso não pode ser real” — sussurrei, afoita, afogada em medo. 

— Dama Saeeri? — Ouvi. Seu tom inominável assustara-me, contudo, contive quaisquer impulsos, apenas o olhei com uma rapidez mórbida. Ahzaez segurava um copo d’água. Com sua presença, no entanto, ainda que macabra de sua maneira, senti-me mais segura para fitar o espelho. Lá estava meu rosto assustado, meus olhos abertos, a pupila dilatada, a pele ainda orvalhada pelo pavor. Respirei com a profundidade de um precipício, fui até Ahzaez e aceitei a água, tomando-a lentamente. Assentei-me no baú frente à cama, o qual era, também, um assento. Aguava meus lábios e entranhas enquanto secava minha tez. Ahzaez apenas olhava, em silêncio. 

— Peço perdão pelo constrangimento, Dom Sttrattan. — Pronunciei após conseguir me acalmar; não demorou muito, mas sob a presença daquele homem, assemelhou-se a uma eternidade. Sua imponência era pujante, ainda que, fora dela, o horror extravagante possuísse maior magnificência tenebrosa. — Agradeço por teu cuidado em acudir... acredito que estavas passando pelo corredor... — Queria saber o porquê ele batera em minha porta, no entanto, sua fúnebre composição aflorava minha dedicação à comunicação delicada. 

— Notei que este umbral pertencente ao teu aposento estava fechado e, portanto, vim alertar-te da importância de mantê-lo aberto em, ao mínimo, uma singela fresta. — Explicara. — Acredito que Ehllenor não tenha te informado a respeito. Como podes notar, todo este lugar foi construído para que o som não se propagasse. E as janelas não abrem à noite, por seu mecanismo próprio. Manter as portas abertas permite que possamos ouvir, caso algo aconteça. 

— Compreendo... Muitas coisas singulares acontecem na Mansão? — Questionei sem tato, confesso, àquela altura eu já não estava tão atenta. 

— Não, senhorita. Mas há Lilith cuja idade está avançada e Morgion que é apenas uma criança, ambos podem precisar de auxílio no calar da noite; estamos com colaboradores escassos. 

— Tu vagas à noite, cuidando deste afazer? — Olhei para seus olhos, à sombra própria do cômodo, eles pareciam escuros.  

— Não... — Respondera e silenciara por um momento. — Meu quarto está próximo do teu, neste corredor... há duas portas de distância. Por insônia, levantei-me para caminhar ao belvedere para respirar um ar puro e úmido. Sabendo que serias colocada neste aposento por Ehllenor, olhei em direção para certificar que a porta estaria entreaberta. — Elucidara. 

Não me parecia agradável adormecer sob o olhar de quaisquer pessoas daquele lugar; tendo a porta em fresta, refém da ausência de privacidade. E se, orientada devidamente, mantivesse os umbrais à disposição dos olhos azuis-gris daquele homem? Por quanto me observaria? “Vagante da noite lânguida” quiçá fosse o significado do nome “Ahzaez”. Esses pensamentos usurparam minha mente sem que eu os pudesse comedir, mesmo tendo sido salva por ele, a austeridade vívida de seus olhos mortos e de seu semblante obscuro não me permitiam confiar, com plenitude, em suas ações e intenções, principalmente. 

— É imprescindível minha partida agora, Dama. Devo dormir e creio que a senhorita também. — Suas palavras desafiaram o silêncio antecessor a elas. 

— Gostaria de conhecer o belvedere; é distante daqui? — Sondar o homem sobre um possível abrigo para a claustrofobia do local, soava-se pertinente. Ahzaez caminhou à porta. 

— Ordenarei que uma ama lhe guie até lá pela manhã, senhorita. — Proferira em tom soberbo. — Boa noite... — Com uma pequena saudação silente, Ahzaez deixou o cômodo, seguindo em direção ao seu quarto. 

~ ❦ ~ 

Eu tinha diversas indagações a esse ponto. Por que não travam as portas entreabertas? Ou as trocam por outras? Por que apenas não retiram as trancas? Por que não adicionam algum tipo de circuito interno de comunicação, tal como já vi na universidade de Sihren? Qual seria a razão para que as janelas fossem travadas no calar da noite? E como alguém pôde criar esse mecanismo? Os Sttrattan pareciam defender a Mansão Negra acima de tudo, acostumando-se ao que ela oferecia sem impor nenhuma condição. Além disso, o que vivenciei diante as anomalias do quarto, o sumir da maçaneta, as pinturas sem rostos, a ausência do meu reflexo. Tudo ali era um enigma exótico e amedrontador. Senti ser significativo conhecer com mais profundez os Sttrattan, pois que não poderia haver tamanho horror nos sonhos de uma criança que não estivesse, de alguma forma, manifestando-se em seu derredor, em sua família. Duvidei que um petiz como Morgion pudesse produzir um lago de sangue em seu inconsciente sem antes já ter visto muito sangue na obscuridade de seus vínculos reais. Levando em conta o odor emergido às minhas narinas horas antes, eu não poderia duvidar dessa hipótese. 

Como se não bastasse o atordoar tétrico que me cingia, adormecer naquele átimo resultou em pesadelos conturbados, dentre tais, lembro-me perfeitamente de um. Antes, todavia, de revelá-lo, é importante esclarecer que a cinesia do meu inconsciente é um tanto pusilânime, ou seja, pouco alcança a lembrança no despertar e, se o faz, é sempre confuso e irrelevante. Além disso, compreendemos os sonhos como manifestações do esquecimento — vivencias que foram abraçadas pelo oblívio, mas que nunca se perderam de nossas psiques. Quando nos lembramos delas, no entanto, a memória-de-oblívio já está refiltrada, isto é, mascarada para que seja possível alcançar a psique. Em outras palavras, o que sonhamos é um filtro da verdade de nossas lembranças ocultas. Então, com meus olhos selados pela modorra, posso jurar que aquilo que tomou conta de meu plano onírico não foi uma singela manifestação inconsciente e, do tanto que me recordo, a revelação sonial — pois que de “sonho” me recuso a chamar — parecera-me muito mais um pedaço de uma realidade multiforme e paralela àquela em que eu estava. 

Iniciou-se com a cena do meu aposento, na Mansão Negra. Eu via Ahzaez deixar o quarto tal como já descrito; com a porta aberta, seus passos foram se distanciando pelo corredor. Todavia, ao contrário do que de fato fiz, — creio eu ter feito, mas, durante o sonho, a lucidez das imagens era tão vívida que jurei ter voltado ao passado e refeito tudo o que ocorrera a partir dali — na agoníria levantei-me em quietude, olhei pelo corredor e vi Ahzaez adentrar seu aposento. A fresta de sua porta reluzia um trêmulo e quente lume vindo das velas quais ele, eu assimilei, acendera no cômodo. Caminhei descalça, sentido aos seus umbrais e, ao chegar, fitei de soslaio a fissura e o observei despir-se de suas roupas negras, devagar. Em seu dorso sangrava um grande símbolo similar a um “Y”, como se tivesse sido rasgado em sua pele. Seu corpo era como uma estátua de mármore, esculpida em perfeição e força; seu aroma viril conduzira meu olfato com suavidade concupiscente, de modo que fiquei ainda mais concentrada àquela fresta, como se estivesse obcecada em lascívia. Em contrapartida, o odor de sangue anojava, aturdindo a mente. Assim vi que sua mão esquerda, segurando um conta-gotas, lhe vertia nas costas um tipo de líquido retirado de um frasco de vidro. Ahzaez pingava a solução na base de seus ombros e nuca, e ela escorria para a ferida. Sua ofegante respiração denunciava a dor. 

Eu não podia parar de observá-lo. Relutava com a vontade obscura de invadir seu íntimo momento, todavia, igualmente era abraçada por um medo e uma curiosidade excitante, desenfreadas sensações que me mantinham submissa àquela tênue fresta. Então, Ahzaez virou-se. Olhando diretamente em meus olhos. Em assombro, afastei-me da porta, contudo, não evadi. Logo a notei abrir-se e a sombra do corpo de Ahzaez fez-se pelo assoalho iluminado apenas pelas velas. Quando ele surgiu entre sombras e cálidos lumes, vi a perfeição de seu torso e, nele, outra grande ferida similar a um sigilo antigo, talvez uma mescla de Ankh e o símbolo invertido da Ascendência. Sua tez suava como outrora a minha suou, ou melhor, como na realidade suou em completo espanto pelas anomalias. Diferente de mim, naquele perverso sonho lúcido, Ahzaez não expressava nenhum temor, nenhuma emoção. Portanto, era mesmo ele. Sempre incólume. 

— Precisas de algo, Dama Saeeri? — Dissera, austero. Eu estava arfante, como se acometida por uma súbita falta de ar. Eu o temia e era-me difícil não observar sua ferida sangrenta, sua tez úmida, as sombras sobre toda a cena mórbida. Meu corpo não respondia à minha intenção de movimento, minha voz não espargia pelo silêncio. — Saeeri? — Murmurou, aproximando-se de mim. 

— O que... houve? — Sussurrei, preocupada com a ferida, quando ele estava próximo. Senti-me impulsionada a tocar aquele símbolo, porém, tive o despertar da consciência e notei que estava sonhando; evitei minhas ações e falas, tentando modificá-las; como se eu guiasse minha própria mente, empenhando-me em convencer-me de agir diferente daquilo. Era em vão. Ahzaez olhou para meus lábios e tocou, levemente, meu braço, levando meus dedos à lesão de seu torso. Toquei-o com gentileza e Ahzaez, em grave gemido, expressou a dor horrífica que sentia, embora se contivesse em demonstrar. Meus dedos umidificaram-se pelo sangue e não me demorei tocando-o, evidentemente; era aflitivo vê-lo sofrer daquela forma. — Por que...? — Soprei somente a ele e seus olhos se aprofundaram nos meus. Seu semblante tornou-se sombrio e triste. Despertei de súbito neste átimo. Outra vez assustada, com o coração frenético. Era manhã, o alvor despontava sutil, sua luz traspassava a janela ornamental; não demorei a notar que havia vívido sangue em meus dedos. 

A Mansão Negra
Doutora Saeeri Heigger é convocada para investigar os sonhos aterradores de uma criança de nove anos. Entretanto, o menino pertence à família Sttrattan e reside na Mansão Negra. Convencida de que se trata de apenas mais um caso clínico, Saeeri aceita a proposta, mas, parece que o que dizem sobre os Sttrattan é pior do que ela imaginava e os horrores oníricos vão além da mente de seu pequeno paciente. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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O pergaminho do limiar

Arale vestira um capuz escuro, cor de carvalho envelhecido. Olhando para trás, de uma forma enigmática, desejando que a garota que conhecera…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Arale vestira um capuz escuro, cor de carvalho envelhecido.

Olhando para trás, de uma forma enigmática, desejando que a garota que conhecera estivesse bem, estivesse segura, sentia um aperto no peito, desejando tê-la acompanhado até o exato lugar que devia ter ido... “Sibila...” Ela sentia que não esqueceria esse nome tão cedo... “Por favor, esteja bem...”

Ponderava enquanto caminhava.

“Me perdoe, isso é algo que preciso fazer desde que cheguei ao Castelo. Minha máquina de escrever está me guiando ao sangue. Meu destino é sempre sangue. Geralmente o mar, a noite, a neve, a chuva... algo me envolve, e agradeço à natureza deste planeta, pois nele sinto-me em casa, apesar de tão distante. Conhecê-la, querida Sibila, me fizera acreditar mais nas pessoas...”

Arale sentia seus instintos aflorados, uma intuição de que algo que a aguardava seria revelador e doloroso. Ela lidava com o mistério e a dor diariamente, mesmo quando repousa. Seus sonhos são permeados de cânticos sagrados que a envolvem sempre para a batalha — é a identidade que conhece: a morte...

Ela é um espectro do exício, um espírito de solidão na consagração do sangue que busca purificação. Uma extensão dos agentes cósmicos de uma tribo dizimada, uma geração de ceifadores que foram apagados pelo pó do tempo, pelos ossos das palavras. Ela é um eco do ceifador xamã que sente o beijo da terra, o sopro da vida e a oração da transmutação. Nas asas do terror, nas portas da morte, uma escada que só desce...

Arale começa a ouvir sinos badalarem, crianças correndo e chorando, pessoas gritando. De onde viriam? Seriam efeitos torpes de sua mente? Ela enxerga belas luzes coloridas quando fecha os olhos — e todas se derretem, mesclando-se em sangue e ossos.

Quando foi que começara a ouvir vozes? Culpa, lágrimas, dúvida...

Quando foi que começara o questionamento de sua sombra, de sua sanidade? Ela continuava caminhando, tentando manter-se firme.

Talvez Arale tenha enxergado em Sibila um horizonte de vida e esperança, brilho, beleza que perdera em seu coração que sangra; uma ingenuidade pura, uma amizade transparente.

Não fora apenas mais um trabalho de mercenária fria. Não tem sido apenas isso já faz um tempo. Desde o encontro com Laparus e a vitória daquela comemoração sagrada, Arale estava já há muito distante de qualquer vínculo humanizador — até que necessitou lidar com seus demônios internos mais do que com qualquer outro que ela enfrentasse e ceifasse com seu machado voraz e faminto...

Arale corria, arfante, enquanto sua máquina de escrever perpetuava pelos ares da recém-chegada noite partículas de luz e brilho escarlate — como um tipo de lágrima espectral.

A máquina conhecia Arale e sentia quando ela não estava bem...

O capuz esvoaçante balançava ao ritmo do vento frio.

A aurora da ilha gelada tingia o horizonte com um tom incerto, algo entre o cinza e o prateado, como uma cor que se recusa a se definir. Arale sentiu o ar cortante, como facas invisíveis, arranhando sua pele, enquanto avistava chegar a um tipo de porto de madeira. Um humilde transporte surgia em sua linha de visão: o barco se aproximava do cais abandonado, um lugar onde o silêncio era mais forte do que qualquer grito.

Um aparente pântano núrido, com uma humilde lamparina no cajado bestial que mesclava luz e putrefação, cintilava.

O mercante encapuzado, seu rosto oculto pelas sombras de seu capuz, aguardava de pé, como uma estátua desconfortavelmente viva. Ele parecia uma extensão do próprio ermo gélido que os cercava. “Olá, estranha... hehe”, dissera com uma voz cadavérica.

“O preço de um passageiro, jovem caçadora, é sempre uma caçada”, disse ele, a voz um eco distante, como se tivesse vindo de um mundo onde o tempo se arrastava de maneira mais lenta.

Arale observou o homem, sua figura esfumaçada pelo gelo e pelo vento. Seus olhos não conseguiram discernir o que estava embaixo da capa, mas a promessa de uma carona era tentadora. Ela se sentia atraída, como uma mariposa para a chama de um perigo desconhecido. Agraciada e bem-vinda, sempre se sente assim — isso a faz viva, inconsequente, cruelmente perigosa e a melhor no que faz. A oferta era simples: caçar algo em troca da viagem. Algo terrível. Algo que ela não poderia recusar.

O perigo não era morrer, era se perder de si mesma.

Naquele instante, a máquina de ossos sangrou e escreveu um pergaminho com informações valiosas:

“A floresta de gelo, a Thilzarra”, era o nome — o nome daquilo que o barqueiro encapuzado confirmara com um gesto e para o qual sugerira cuidado. Com seus dedos trêmulos, parecia distante. Não era um nome que pudesse ser pronunciado sem certo receio. Era o tipo de floresta que habitava os pesadelos dos viajantes perdidos.

Arale, com sua máquina de escrever pulsando em sua bolsa, sabia que não poderia fugir do destino quando ele lhe escrevia um pergaminho.

A caçada seria sua, e o caminho que tomaria levaria a uma jornada da qual talvez nunca retornasse. O barqueiro indicou o caminho. Estava perto. Caminhara mais alguns metros, avistou árvores imensas e uma entrada obscura — e então mergulhou.

Ao adentrar a floresta, o ar se tornou mais espesso, mais denso, como se a própria natureza estivesse respirando de maneira irregular, quase insustentável.

O musgo esmeralda das árvores pulsava como se vivesse, e os dentes nas suas raízes pareciam sussurrar promessas sombrias e irrefutáveis. O sangue das folhas, grosso e espesso, se espalhava no chão com a consistência de vinho velho, tingindo a terra marrom e dourada com uma aura de decadência.

Arale não conseguiu desviar o olhar.

Ela sabia, intuitivamente, que aquilo não era apenas uma floresta — era um cemitério. A cada árvore que cruzava, uma sensação de vertigem a tomava. Olhou para os troncos, onde, nas cavidades profundas da casca, as figuras pareciam se mover — mas não eram mais humanas. A metamorfose já havia se concretizado: pessoas haviam sido transformadas em cascas vivas, prisioneiras de um ciclo de condenação eterna.

A máquina de escrever, que Arale carregava como uma companheira fiel, começou a emitir sons estranhos.

Cada tecla pressionada parecia liberar uma página, uma verdade. Cada novo pergaminho que emergia, a história da floresta se desdobrava diante dela — como um poema maldito.

Ela leu, pela primeira vez, as palavras escritas:  

"Thilzarra. Um cemitério de almas.  
A maldição dos elfos, selada nas raízes do mundo. 
Aqueles que caminham aqui, não podem mais voltar."

A sensação de engano se solidificou como uma prisão. 

Ela não havia sido escolhida para caçar a criatura. 

Ela mesma era a caça. A floresta a observava, e agora, sabia que a busca pela criatura da maldição não era apenas um caminho físico. Era uma jornada emocional e psicológica. 

Cada passo que ela dava era como uma invasão do seu próprio ser.

Ouviu um sino em forma de coruja cega,
Que chorava hortelã de um céu lilás,
Sentiu nos lábios o amargor da paz
Enquanto a dor do som na pele pega.

Sabores frios sussurram: “Nunca mais”,
No ar um tom de lágrima que rega
O chão febril da mente que carrega
Luz púrpura em filetes viscerais.
As árvores cantavam tons de gelo,
E os troncos sussurravam com a voz
Do sangue doce em cada caramelo.

 Arale — um eco que o destino atroz
Mistura em névoas, sons e pesadelo:
Foi tinta a lágrima que a vida pôs.

Haikai Sinestésico
Vinho grita azul,
cheiro de vidro e memória—
a floresta ouve.

Poetrix Críptico
Sinos têm sabor de medo
luz escorre dos ossos —
Arale mastiga estrelas.

As árvores gritavam sua memória,
Num dialeto feito de raízes,
Sangue escorria em letras cicatrizes,
Versando em dor a anti-história da glória.

O musgo a envolvia em cicatriz sonora,
E a mente — lâmina em espiral —
Debatia-se em guerra abissal,
Dançando com a esquizofrenia aurora.

Encontrai a lágrima esmeralda agora,
Sussurra o chão em voz de vinho e limo,
Enquanto a névoa em forma de alma implora.
Mas cada passo é um passo em desatino —
O feitiço é um espelho que devora,
E Arale busca o fim no próprio sino.
A Boca da Névoa, ecoa o sangue,

Onde o silêncio range como escama,
Há uma raiz que respira mentiras.
A névoa é feita de véus e de drama,
Quem entra se apaga em trilhas vazias.
O Espelho de limo a água reflete aquilo que engana:
Um rosto antigo, ou o que não se é.
Não toque, não grite, não diga "me ama",
O musgo devora quem busca por fé. 

O Círculo dos dentes-arvores-cães mordem o ar aflito.
Folhas rangem como penas em pranto.
Pisa devagar no chão eremita —
O sangue escuta e pinta o manto.
a clareira de ossos cantantes,
Lá se dança com as vozes do vento,
cada costela entoa um nome esquecido,
Há um tambor feito de firmamento,
Toque-o e revele o que tem sido.
Na ponte de carne e areia,
Um rio de lembranças flui sob os pés.
O chão pulsa. 
O medo te nomeia.

Olhos surgem onde pisas, em rés
Caminho. A verdade ali se incendeia o portal 
das guelras de luz se os ouvidos ouvirem em cor,
a língua falar em perfume,
então verás o último torpor,
um vulto de esmeralda e lume,

A Árvore-Relicário 
no coração da floresta que chora,
Há um tronco que respira teu nome.
Abraça-o. E talvez, nessa hora,
A lágrima verde em tua alma tome.
Canta, Arale, no ventre da espessura,
Lágrima viva da alma da árvore,
Quebra o encanto da carne em clausura,

Sangra esperança no fel da palavra.
Três vezes dize o nome do espelho,
Com os olhos fechados em vinho e fumaça,
Deixa que a dor escorra em conselho,
Enquanto a floresta tua sombra abraça.
Na raiz onde o tempo se curva e enlouquece,
Ali verte a lágrima verde, tão rara —
Quem a encontrar, que nunca se esquece:
A alma retorna, e o feitiço dispara.

 

Arale está em uma dimensão onde as árvores são sustentadas por raízes suspensas, presas a um tipo de fio sanguíneo gigantesco. O solo é um ocre rubi, umedecido e pastoso. No céu, engrenagens criam correntes de luz, onde imensos sinos dourados dobram.

Ela avista diversas ruínas flutuando, sangrando cores e pesadelos, exalados das almas petrificadas no coração das árvores cheias de dentes predatórios e grotescos.

Arale enxerga, em uma pequena folha, um espelho de cristal — e nele vê Sibila. Sabe que ela lhe daria força e que não desistiria...

Arale fecha os olhos e canaliza o poder em seu machado, arremessando-o contra o coração central daquele espectro fantasmagórico. Um arranha-céu multicolorido se desmancha, virando-se de ponta cabeça sob os pés de Arale. Ela enxerga uma porta — ou seria uma janela? — e a adentra.

Ao mergulhar por esta secreta janela, depara-se com um recôndito familiar: era um cômodo do Castelo Drácula. Como?

Arale prosseguia por um tapete de lâmpadas plasmáticas.

Ela enxergava um quadro na parede com um olho vivo. Este sentinela lhe solicitava que adentrasse, como um tipo de elevador orgânico. Arale mergulha no olho prismático, sendo transportada para o altar do céu — um tipo de torre obscura no Castelo Drácula. Lá, percebe o salão escarlate e uma criatura acorrentada por fios de energia e símbolos de magia, flutuando sobre um tapete de sangue.

A máquina de escrever de Arale sangrara outro pergaminho, chamado: “O Gênese de Sangue...” Seu nome: Var’Ghul.

“Bem-vinda, felina cibernética dos cosmos longínquos. Tu, que és a caçadora dos oceanos de estrelas, o que desejas?”

Arale fica intrigada, pois acreditava que ele seria uma criatura que devesse ser caçada. Porém, seu instinto — e o pergaminho — não sugeriam tal batalha. Arale prossegue.

“Teu sangue ferve. Tua caçada é nobre. Tua purificação, necessária. Lhe sugiro um serviço: se me trouxer três itens, farei uma forja especial em seu machado para lhe auxiliar na caçada. O que achas?”

Arale aceita, sem questionar. Se fosse uma ameaça ou um golpe, já teria ocorrido. Ela aguarda, silenciosa.

“Traga-me um prisma-espelho de sangue de Wendigo, uma engrenagem de criatura orgânica do Limiar e uma lamparina da maçã fantasma. Esses itens estão pelo Limiar, guardados pela filosofia do enigma dos símbolos energéticos. Você saberá. Com eles, conseguirei ativar meu códex umbra e lhe forjar uma arma devastadora, que certamente lhe auxiliará.”

Arale está paralisada, pois a energia do lugar enfraquece os nervos do corpo — como se a asfixiasse. Ela se afasta, retornando à porta, e percebe que estava novamente na floresta, no coração do Limiar. Ela finalmente consegue respirar aliviada, prosseguindo a peregrinação das flores mortas.

A máquina sangra outro pergaminho, que lhe revela a pista que devias seguir:

“Arale... sob a noite lôbrega, absorvem a energia das rachaduras e elas se marcam no mapa, como se tivessem um vínculo com o papel. São lugares, ilhas perdidas, afundadas e erigidas das profundezas. O Oceano é uma entidade.

Encontre Allant Elirrahz,
 o Cartógrafo dos Mares Limiares.”

Ela enxerga, naquele gélido inferno de raízes que chamuscam o glacial âmago da melancolia cristalizada pelos ares,

uma chama críptica que oscila e pulsa pelos oceanos.

Arale fica deslumbrada com a beleza relicária.

Pinturas se desmancham, quadros choram, partituras derretem. Milhares e milhares de páginas sussurram e voam pelos ares.

Cristais brotam do solo. Estalagmites choram e estouram.

Pequenas criaturas peludas flutuam e deslizam, sussurrando alguma travessura inocente — como luvas feitas de plumas.

Arale enxerga um tipo de montaria: um corcel com cabeça de engrenagem e olhos de fuligem. Ela domina a criatura e percorre aquela imensidão enevoada. Por muito tempo cavalga, até que os mares se findam no horizonte e Arale avista vários gobelinus trotando, tentando perseguir o corcel maquinário, que destila carvão de sangue enquanto trepida. Ela continua determinada, como uma filosofia absurda que envenena um espírito sadio. Na conexão que realizara com a criatura, ela busca uma saída, uma resposta, uma solução, um sentido...

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Capítulo 2: Inquietação Profunda — A Mansão Negra

Alguns dias e noites bastante invernais se seguiram até que fui levada à Mansão Negra e, às vinte horas, eu a vi…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Alguns dias e noites bastante invernais se seguiram até que fui levada à Mansão Negra e, às vinte horas, eu a vi. Imponente e obscura entre o denso arvoredo: a Mansão Negra. Passei o dia descansando em um chalé próximo e havia me impressionado com a imensidão verdinegra, dali já avistada, da floresta abissal; era de uma altura tenebrosa, ponderei como seria adentrar sua densidade e tive de fazê-lo logo depois, mesmo por um tanto simbólico, pois a mansão não ficava tão profunda no balcedo. 

O cocheiro, criatura contadora de histórias, passara o dia revelando lendas locais, pois estava ocioso, porém, no caminho, ele incorporou um silêncio bizarro que eu não ousei questionar, pois que, de algum modo, eu compreendia a razão. A noite era lúgubre e insalubre; o poder da floresta Alpha Morttam — e agora não poderia chamá-la tão somente de Amorttam, pois era amedrontadora demais para ter seu nome amenizado, pois seu poder me submetia a um tremor contínuo — era coercitivo, olhá-la era amedrontador; decerto aquelas árvores alcançavam de 100 a 200 metros de altura tal como ouvi dizer por aqueles que outrora visitaram o local, tal como eu fazia naquele momento. E os sonidos, cânticos de criaturas jamais vistas, ecoavam vindos do arvoredo alto e sombrio. Tamanha era a flora perene que o ar úmido carregado sufocava em certo grau, era imponente, angustiava os pulmões. Era medonho e fascinante. 

Compreendi, naquele átimo, a razão pela qual havia tantas lendas sobre aquela selva; assim como assimilei, perfeitamente, o motivo de Vonssihren proibir que pessoas explorem o local; deduzo que sua inimizade com Krvier tenha emergido daí, nos tempos ancestrais, quando a mansão fora erguida sem a concordância de Soron, adentro de Amorttam, sendo preciso derrubar algumas árvores. Soron Vonssihren sempre fora um profundo defensor da natureza e sua aguçada intuição o mantivera firme a respeito de qualquer sondagem, mínima que fosse, em quaisquer partes de Morttam. No entanto, o início dessa imponente floresta estava à minha frente; era como alcançar os pés de um titã. Era tão alta que, mesmo exausta de toda a longa viagem ininterrupta, despertei diante dela, com os olhos abertos ao máximo, para enxergar a sua silhueta negra com precisão. 

Era noite, cabalística noite, e deixei o cocheiro, despedindo-me em silêncio; ele decerto estava amedrontado e eu ainda mais. A aura sombria acelerava o coração e caminhei, aflita e encantada, pela singela estrada que levava à Mansão. A cada passo, ouvia sons indescritíveis... pássaros, eu suponho... corujas? Lobos, talvez, ou uma das míticas criaturas dos contos de fadas. Grilos, cigarras, insetos e o vento que tornava aquela folhagem em uma colossal monstruosidade viva. E como era escuro! Minha candeia era um vagalume naquele labirinto índigo-anoitecido. 

Se não bastasse a monumental natureza umbrífera, após uma caminhada de dez minutos, vi com uma perfeição fúnebre aquela arquitetura pontiaguda e negra, cintilante em seu negrume, pois tivera diversas partes esculpidas em obsidiana e, portanto, reluzia em um esplendor mórbido. O lugar era mesmo tenebroso; o que o amenizava eram as velas nas fenestras, pelo lado de dentro, gerando luz; embora no bruxulear das velas, tudo ao redor se tornasse sombras anormais, distorcidas, apressivas em um mistério aterrador. Nunca vi arquitetura como aquela; dizem que assim o é no império Krvieröm, mas, sinceramente, não tenho coragem alguma para deixar as terras de Sihren e enfrentar o gelo do Anti-Ártico, ainda mais após sentir a energia que emana daquela arquitetura.  

Aprendi que o ceticismo pode ser um grande problema quando se pretende ir mais à fundo na existencialidade humana, então, nunca desconsiderei o que senti; diante da Mansão Negra, eu tive medo... e a atmosfera sepulcral do lugar era sinistra em um nível perturbador e, ao mesmo tempo, sutil. Havia também um odor... e compreendo que não seja possível acreditar... mas, vez ou outra, vinha-me o cheiro de sangue às narinas e, não, não era o meu sangue vertendo por razões fisiológicas; foi a primeira coisa que verifiquei quando o odor macabro se difundiu no primeiro momento. 

Bati com a aldrava após retomar meu fôlego. A porta abriu-se após poucos segundos, era ornamental, ostensiva; e além de complexos ornatos volutais em obsidiana, havia arabescos em ouro puro. Assim, um homem apareceu à minha frente enquanto o silêncio mórbido dos umbrais abrindo-se afligiam-me. Ele me olhou... intensamente... como a noite faria com a manhã, se a pudesse olhar... isso me estremeceu. Apresentei-me após ajustar a voz para não evidenciar meu tênue descontrole com todo aquele lugar. O homem tinha a beleza de um anjo caído, vestia-se como um Dom, todo em tons de preto, tinha olhos claros, azuis-cinéreos, suas roupas possuíam uma elegância surreal, a qual só vi no castelo de Vonssihren — o que reafirmava a ligação dos Sttrattan com os Soberanos. Ele era alto, forte como se podia notar. Olhou-me nos olhos, íntimo por um breve instante, em silêncio. Senti-me n’um ardor sombrio e por ele fui convidada a entrar a partir de um singelo sinal e uma reverência... ele não me tocou... e eu nunca esquecerei de seu olhar... o semblante do homem deixara-me realmente ébria, de modo diferente, mas tanto quanto aquela arquitetura e aquela mata espessa.  

Não ouvi a ornamental porta se fechar, mas senti cessar a brisa gélida do arvoredo. Por dentro, a Mansão era ainda mais escura, luzidia pelos motivos já citados, e lauta. Um imenso lustre feérico de ouro, com velas negras, iluminava o salão de entrada, o qual era vazio de mobília, possuindo apenas uma belíssima alfombra jaqguar em preto e dourado e uma mesa de centro, em atro cedro — servindo para o apoio de dois cântaros de ouro e uma estátua de uma criatura horrenda, que eu diria ser uma gárgula, contudo, dentro de um cômodo? Não fazia sentido. Vi alguns pilares de sustentação da arquitetura; meia dúzia de portas ao derredor, duas grandiosas escadas para o andar superior. E mais portas. 

— É um prazer conhecê-la, Dama Heigger. — Proferiu o homem, sua voz assemelhava-se ao vaporoso ar soturno daquela mansão e seu olhar me invadira mais ainda. Ele caminhava, eu o seguia. Antes que eu o questionasse sobre seu nome, fomos interrompidos pelo mordomo Ertthan que logo recolheu minhas malas, levando-as pela escada imponente. — Sou Ahzaez Sttrattan — Disse, próximo. Ahzaez era-me familiar. Seu rosto era esguio, contudo, seu porte era robusto; suas olheiras eram fundas, embora amainassem no tom de sua pele, como se realçassem sua beleza demoníaca. O que me incomodava era o olhar, a expressão de seu semblante, a qual já mencionei. — Ehllenor virá em breve. — Anunciou assim que adentramos aos umbrais de um dos aposentos. Vi uma lareira acesa, crepitava contra o silêncio; era uma sala confortável, diferente dos poucos outros lugares que andejei por ali. — Fique à vontade. — Ahzaez fechara a porta após se despedir; sorrira pela educação, no entanto, não pude fazer o mesmo, pois, o seu sorriso era ainda mais lutuoso do que sua face soturna; isso trouxera-me uma imediata turvação. 

~ ❦ ~ 

Sozinha, observei o cômodo, mas sem objetivos; apenas olhei. De toda a mobília de igual luxo como o restante da Mansão, e entre todo o mobiliário escuro como a noite, um item em especial reluzira aos meus olhos e, dele, me aproximei. Era pequeno o suficiente para que eu pudesse segurá-lo, porém, grande o suficiente para que eu hesitasse em mantê-lo erguido com apenas uma de minhas mãos — embora fosse possível. Diferente do que vi, este objeto não era de ouro ou obsidiana; era de Sirenniha e pesava, o que me levou a crer que era pura. Tinha a forma de uma libélula, parecia haver algo em suas asas, lapidados como letras ancestrais de alguma linguagem antiga; Soron Vonssihren sempre apreciou o estudo da linguagem e escrita; porventura — deduzi — fosse um objeto dado por ele.  

— Li’ibelum... — Ouvi e, de súbito, quebrando o silêncio, assombrei-me olhando rapidamente em direção à voz feminina. Vi, com o coração frenético, uma mulher cuja aparência indicava que ela possuía uma idade semelhante à minha. Usava um belo vestido vitoriano, tal como o meu, no entanto, o seu era de um preto brilhante e tinha, sobre ele, um chambre de renda negrume e aveludada. Seus cabelos ondulados estavam soltos, mas algumas mechas curvas se prendiam para trás das orelhas. Seus olhos eram azuis-cinéreos e, nas trevas daquela sala, ficavam ainda mais claros. Seu rosto era gentil e expressava-se em uma fisionomia de apreensão. — Dada por Vonssihren. — Dissera. — Perdoa-me por assustá-la. Sou-me Ehllenor. — Ela estendeu-me sua mão para um cumprimento formal. 

— As portas são bem silenciosas aqui. — Expressei, colocando a libélula de volta em seu devido recôndito. Ehllenor sorriu, no entanto, não parecia feliz. 

— Sim... todas elas... é algo feito por... tu sabes quem. E se há alguém que sabe o motivo, este é, decerto, apenas ele. — Lamuriou, sentando-se em uma das poltronas próximas da lareira.  

— O que é Li’ibelum? — Inquiri por uma curiosidade imaculada. A Dama pediu-me para levar o artefato até ela e, assim que lhe dei o objeto, sentei-me na poltrona ao lado. 

— Soron é um verdadeiro Soberano, não é? — Dissera enquanto afagava o artefato, olhando-o atenta. — Revelei-o sobre os pesadelos de Morgion e, então, ele me enviou este artigo único, todo lapidado em Sirenniha. — Ehllenor colocou a libélula na mesa de canto que separava nossas poltronas. — Ele disse que ela acalmaria o sono do pequeno, no entanto, agora que tu estás aqui, creio que seja importante que vejas o que acontece com ele e saibas da seus pesadelos cruéis. 

— Li’ibelum fora útil? — Questionei em busca de compreensão acerca de suas crenças. Ehllenor sorriu em uma tristeza fidagal. — Chegara hoje no entardecer... — Silenciamos. — Estás exausta, acredito, preferirás conhecer Morgion amanhã... — Afirmara. Entendi o seu desejo e a respondi como devia, mesmo estando, de fato, exausta. 

— Estou pronta para conhecê-lo, senhorita Ehllenor. — Ela suspirou e tal suspiro fora, ao que me parecia, o máximo de gáudio que ela poderia sentir. 

Fui levada por Ehllenor até o quarto do jovem Morgion, uma criança cuja face não deveria nutrir tamanha angústia; seus olhos eram como covas, sua tristura era uma morbidez vívida, como se houvesse a presença fúnebre do horror sobre seus ombros infantis. Ainda assim, abraçara-me com afável cortesia proferindo que eu o salvaria “dele”. Embora fosse já tarde da noite, notei que Ehllenor e Morgion estavam despertos e esperançosos; guardavam, dentro de seus peitos amedrontados, toda uma narrativa que se retinha principalmente em suas gargantas. Eu não poderia adormecer tranquila sabendo que, por mais uma lôbrega noite, eles teriam que guardar essa dor encarcerada nas entranhas. Então eu o questionei. 

— Ele quem? — A fatídica pergunta. Buscarei transcrever a exata descrição da criança, com todo o lúdico pertencente à sua essência infantil e, em razão disto, o trecho de sua narrativa estará em itálico, para se destacar daquilo que redijo, intercalando com a minha análise entre os íntegros trechos. 

Morgion descrevera uma criatura humanoide, com duas bocas e dentes afiados; de corpo retorcido e forte, “sua pele era como tendões com lacunas entre eles”; não tinha olhos e suas mãos eram coladas em seu corpo, retorciam-se junto; “correntes saíam de dentro de sua carne” fazendo um tinido espectral, “disforme e medonho”. Aparecera no sonho em que Morgion caminhava por Vonssihren, onde gostava de ir ao visitar a capital; o parque do lago onde um cisne o levava a passear. Então, “eu o avistei próximo das palmeiras que estavam maiores e, visivelmente, mortas... uma névoa cobria tudo... e ele se contorcia em minha direção... murmurava meu nome e eu sentia dor de medo”. A dor, ele contara, era real e intensa, o que tornara tudo mais horrível; em certo momento, um sonido execrável espargiu das bocas da criatura que, pouco a pouco, se aproximava do cisne qual Morgion estava; o animal não respondeu bem à aproximação e começou a se agitar, batendo suas asas nas águas “que se tornaram sangue negro”.  

Explorando com indagações cuidadosas, descobri que Morgion não era uma criança cujos pais liam histórias de terror — embora a Mansão Negra soasse-me como um horror por si só; tampouco ouvira algo, nos últimos tempos, a respeito de criaturas grotescas. Preocupei-me mais com o lago de sangue negro, ainda que a criatura fosse descrita como “perturbadora e ameaçadora, sendo que a cada vez que se aproximava de mim, meu coração acelerava e eu sentia que poderia morrer”. N'um dos sonhos anteriores, o primeiro qual resultou na carta de Ehllenor, o menino fora acometido por uma paralisia de agoníria, isto é, sonhou que havia acordado, levantou-se de sua cama e caminhou à antessala até ser surpreendido pelo mesmo ser feito de tensões e pele putrefata, no final do saguão, movimentando-se lentamente, contorcendo-se e grunhindo enquanto se aproximava do petiz que estremecia de medo — uma vez que a criatura era muito alta, fétida e carregava essas correntes que ecoavam um sonido metálico fantasmagórico. O menino despertou ensanguentado, tivera seus dois pulsos mordidos pela criatura, embora, na realidade, estivesse preso a espinhos n’um arbusto do jardim. Nunca ouvi um relato de sonho tão lúcido e esmiuçado. Morgion ficou preso, não conseguia se mover conforme a entidade o devorava. Ele viu de perto “o sangue e minha pele dilacerando nas presas da coisa inumana”. Então, desperto aos gritos de sua mãe, o menino saiu do transe no exato instante em que a coisa devorou as mãos do garoto. “Eu... senti a dor, senhorita” — murmurara com pesar. 

~ ❦ ~ 

Deixamo-lo no quarto logo após alguns diálogos, senti que a atmosfera densificada em razão das descrições tão vívidas e, para não incentivar ainda mais a sua mente infantil, pedi para que descansasse. Ehllenor ordenou que uma de suas amas acompanhasse o garoto por um tempo, para que ela pudesse me levar até meus aposentos. Enquanto caminhávamos, notei diversos quadros nas paredes do passadiço principal, o mesmo qual Morgion vira a criatura pela primeira vez. Era uma passagem mais estreita do que costumam ser e as dezenas de molduras possuíam pinturas do que deduzi serem a linhagem Sttrattam. Indaguei Ehllenor sobre a imagem que possuía uma mulher, símil a ela, porém muito mais jovem. A resposta fora previsível. Tratava-se de Lilith Sttrattan em seus dezoito anos de idade. Minha questão adviera por um motivo. A partir de Lilith, todas as gerações seguintes eram retratas usando roupas negras, tal como Ehllenor, Morgion e Ahzaez usavam. Esclarecera-me Ehllenor que todos os retratos estavam em ordem geracional. Uma coisa peculiar que também pude notar: algumas pessoas tinham olhos estranhos, com olhar vago, e rostos cheios, como se inchados. 

— Noto a mudança da cor... dos tecidos... — Proferi com a intenção de sondar um pouco mais a história da família. Ehllenor ficara em silêncio. 

Chegamos ao quarto, fui orientada sobre os horários e instruída a acordar para o desjejum pontualmente, para que eu pudesse conhecer Dama Lilith cuja rotina era bastante severa. Compreendi todas as circunstâncias e adentrei ao meu cômodo, vedando-me para o lado de dentro. O silêncio absurdo da porta era agoniante. No entanto, o quarto possuía sua dose de conforto, ainda que escuro e negro; tudo era envolto por uma riqueza única. Havia alguns retratos sobre a cômoda onde resguardei meus pertences, observei alguns dos rostos. Vi um vaso com uma espécie de planta cujas folhas eram no mesmo tom de tudo o que ali residia. À janela, a expansão terrífica de Amorttam e a lua minguante que logo daria lugar à escuridão perpétua do universo. Despi-me e escolhi um damanoute branco, confesso que com o propósito, ao menos para efeito emocional e mental, de não me sentir pertencente àquele lugar. Assim, adormeci, entre o veludo negro e com a exaustão que, naquele instante, era ainda mais violenta. 

A Mansão Negra
Doutora Saeeri Heigger é convocada para investigar os sonhos aterradores de uma criança de nove anos. Entretanto, o menino pertence à família Sttrattan e reside na Mansão Negra. Convencida de que se trata de apenas mais um caso clínico, Saeeri aceita a proposta, mas, parece que o que dizem sobre os Sttrattan é pior do que ela imaginava e os horrores oníricos vão além da mente de seu pequeno paciente. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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21. A minha vida só me dá desgosto; por isso, darei vazão à minha queixa e me expressarei com a alma amargurada

A caneta falha, como se a tinta temesse escrever ou sou eu que temo?

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

Data incerta - A caneta falha, como se a tinta temesse escrever ou sou eu que temo? Mas preciso registrar tudo como venho fazendo desde o início, e se eu não escrever, talvez Mara tenha razão e tudo que passei tenha sido apenas um delírio causado pela bebida, mas eu sei o que vi e eu sei quem estava lá. Corremos de volta à clareira e nossos passos fazendo barulho nas folhas secas, Mara segurando meu pulso com força como se temesse que fossemos separadas de novo. Parte de mim queria voltar à clareira, a bebida ainda queimava na minha garganta com um sabor de nostalgia, um sabor de lembranças que nunca tive, mas de alguma forma desejei. Chegamos à clareira e não havia nada, nenhum vestígio das figuras encapuzadas, nenhum vestígio do banquete, nem mesmo o aroma, apenas o nada, como se ali não tivesse acontecido a poucos minutos uma celebração, apenas o vazio envolto em árvores. Mara ficou em silêncio, mesmo sem saber como, eu sentia sua decepção, sua frustração bem palpável, como um peso em meu peito. Tentei explicar a ela que realmente senti que Drácula estava lá.

— Mara, ele estava aqui por trás de uma daquelas máscaras, ou talvez atrás de todas. Eu senti ele me observar por trás dos olhos da criatura que me levou à mesa. Não posso provar, mas aqui tinha o cheiro dele, a presença, a risada, tudo estava aqui — eu disse tentando conter uma certa emoção na minha voz.

— Eu acredito em você. — ela murmurou. — devemos continuar.

— Continuar para onde? — eu falei muito irritada — não vê ele brincando conosco? Que ele brinca com aquilo que nós mais desejamos, isso, toda essa maldita celebração foi só uma encenação profana de Dracula da crença que Hadassa tinha, da crença que ela achou que poderia salvá-la, a mesma que a enlouqueceu, que a podou e depois tirou dela a vontade de viver. Pra no fim ela me amar como uma amiga, pois qualquer coisa além disso faria com que ela não fosse salva, e como uma boa amiga fui até o fim com ela. — eu tentava em vão segurar a fúria dentro de mim, então meu tom de voz aumentou — Ela não queria ter que amar a Deus mais do que a mim, mas ela amou, mas nem eu, nem Deus conseguimos salvá-la e Drácula, joga no meu rosto de maneira teatral que, talvez, só ele pode salvá-la. Eu não sei se quero continuar a seguir as orientações dele, é tudo confuso, é tudo sem clareza, é errado. — respirei fundo para conter minha fúria e disse com mais calma — Você acha mesmo que vale a pena continuar?

— Você quer Hadassa de volta, eu quero voltar a ser eu mesma e me livrar desse vínculo com você, então, sim, vale a pena. — ela disse com calma ignorando meu acesso de fúria.

Ficamos em silêncio e seguimos da floresta até uma abertura entre alguns pinheiros, a terra pareceu se curvar e diante de nós havia um mar escuro e, além dele, o castelo Drácula. Chamá-lo de castelo Drácula agora me parece um pouco infantil, acredito não existir um nome apropriado para o que vimos no horizonte, ele estava imenso, como se tivesse sido esculpido em uma montanha descomunal, havia pinheiros escuros em suas muralhas e muito musgo rastejando pelas pedras. Uma névoa fina deslizava por suas torres altas e finas como se fossem espetar aquele céu escuro. E o céu como um espelho que refletia aquele mar escuro que não se movia como deveria, suas ondas não seguiam a brisa, pareciam que respiravam. Eu ainda respirava com dificuldade, mas a realidade respirava muito bem ao nosso redor. E ali naquela praia que não fazia nenhum sentido, me dei conta que não conseguia ignorar o impulso de seguir para o castelo. Não sei o que me causa mais horror, saber disso ou ter o desejo de voltar à clareira. Desejo, sim, o desejo, palavra que agora mais me assusta. Não às criaturas, o castelo, mas sim o desejo de pertencer. Aquele vinho, a celebração, a heresia, tudo apenas promessas que ainda não foram feitas me atraem, seja como for, amanhã retornaremos ao castelo, se ele nos permitir entrar novamente.

Data incerta - Hoje, mas que nunca entendo como é andar em direção ao nada. Ao amanhecer, ou que se parecia com o amanhecer nesse lugar onde a noite parece apenas ficar mais clara, como um fim de tarde. Mara e eu deixamos nosso acampamento improvisado na areia fria, eu me sentia entorpecida, todo meu corpo protestava contra se levantar, como se soubesse de todos os perigos que estavam me esperando. O castelo ainda estava lá gigante e imponente, mas ainda distante, talvez até mais que antes, e quanto mais andávamos, mais ele se afastava, como se o solo se movesse sob nossos pés nos afastando do castelo. Foi então que vimos um veleiro escuro, preso a pedras cobertas de sal e líquen, e junto dele um homem que desenhava com carvão sobre um mapa estendido num grande caixote, as linhas tremiam quando a brisa do oceano passava, mas isso não parecia incomodar ele que continuava concentrado no mapa. Seus olhos, ou o único que parecia enxergar, seguia os riscos com precisão. Tinha uma barba grande e grisalha, cabelos à altura do ombro, branco como a espuma no mar; os olhos eram um de vidro em um azul claríssimo, e o outro de um azul quase humano. Seu nome era Allant, foi assim que ele se apresentou quando fomos até ele. E sua voz soou bem velha e profunda. Mara pediu a ele que nos levasse ao castelo, Allant nos encarou, e depois encarou Mara, por mais tempo. Seu rosto perdeu aquela calma despreocupa, e se enrijeceu.

— Você é um deles, não é? — perguntou com uma voz profunda e lenta.

Mara pareceu não entender e muito menos eu.

— Ah, não importa, nesse mar já vi tantas coisas indescritíveis que já nem me surpreendo mais. — Ele murmurou ignorando uma resposta e entrando no veleiro como quem escolhe não saber. Aceitou o pedido, dizendo que podia nos levar até onde o mar permitisse.

 — O oceano é uma entidade.  — Disse isso como se confidenciasse um segredo. — Há lugares que se erguem e afundam à vontade dessa entidade.

Subimos no veleiro, as velas esfarrapadas erguidas com um vento que eu não sabia de que direção vinha, o casco rangeu e assim a embarcação avançou. E o Castelo ainda não se aproximava.

— Vamos deixar que o mar nos oriente. — Mara disse olhando para mim e depois em direção ao castelo que insistia em se afastar.

E eu aceitando assim a sua lógica de que nunca é o caminho que escolhemos, mas o que nos é revelado. Sentada ao lado dela senti algo estalando dentro de mim, como vidro que começa aos poucos se partir. Não era medo ou ansiedade, talvez a minha falta de fé, como se meu ceticismo fosse uma redoma de vidro dentro de mim que me protegesse de qualquer ilusão, um ceticismo vitrificado, endurecido que agora contempla o abismo e se entrega aos poucos ao passo seguinte, sem tentar se questionar, porque talvez esse seja o único caminho que resta. O veleiro deslizou por aquelas águas desconhecidas, aquele céu como um manto escuro e um mar que respira, estávamos apenas sendo levados. Num certo momento, Mara se sentou à proa e tentou enxergar um caminho, como se tentasse decifrar tudo à nossa volta e o espaço entre nós e o castelo, mas o castelo havia sumido, parecia que o mar o havia engolido, agora só se viam estrelas que não deveriam estar ali. Eram estrelas demais, próximas demais e erradas demais, algumas se moviam lentamente e outras pareciam nos vigiar. Allant nos disse que às vezes o céu não é o céu, às vezes é uma coisa que nos olha de cima. Eu apenas respiro, olho para ele e concordo com a cabeça. Ele disse isso com um sorriso e um olhar fascinados, como quem perdeu o medo de tudo e agora vê tudo com sincera admiração.

Passamos por uma ilha, que como Allant afirmou, não existir antes, era branca como marfim, cobertas de árvores curvas também brancas que pareciam ossos, Allant não tocou o leme, o mar nos levou até lá e logo depois nos desviou. Allant apenas anotou com cuidado um novo risco no mapa e a ilha brilhou em seu pergaminho como uma cicatriz.

— Ilha do útero putrefato — ele murmurou — tem cheiro de coisas que só o abismo poderia parir.

Mara olhou para mim e, por um instante, juro que vi reconhecimento em seus olhos, mas não quis questioná-la, não agora. A noite chegou, ou mais noite do que já estava antes, pois a escuridão se confunde com tudo, Allant nos contou uma pequena história sobre uma criatura que vive sob as águas, Lwccirtt, ele soletrou para mim. Ele disse que às vezes, os mastros vibram não por causa do vento, mas porque a criatura passa por baixo. É uma criatura disforme que pode ser confundida com o oceano ou mesmo um céu escuro estrelado. Ele disse que uma vez viu uma luz fascinante, bela demais para ser real, sentiu uma sensação de perigo e seus ossos gelarem. Não vou mentir dizendo que não fiquei impressionada, mas estando no meio daquele oceano, indo sabe lá onde, eu fiquei com medo. E então, quando cada um foi para o seu canto se distrair enquanto o mar nos levava, eu vi a luz, e com ela o som que me fez lembrar do sangue correndo em meu corpo, um som fundo que por um momento me arrancou a lembrança do meu nome completo, por pouco não me arrancando da minha existência, e guardei isso para mim, pois percebi que Mara e Allant não viram ou ouviram nada. E agora me pego escrevendo aqui, nesta página apenas para me certificar que ainda sei quem eu sou. Rute Fasano, Rute Fasano, Rute Fasano. Como ele me soa pequeno, efêmero, um nada. Eu sei mesmo quem eu sou? Cada dia mais fica difícil responder essa pergunta.

Estávamos sendo levadas para onde o mar nos quer, não sabia se o castelo era o destino, nem sabia se queria ainda chegar até ele, só sei que o mar nos conduziu, eu tentava ignorar a luz e a voz que vinha com ela. E aos poucos um vento foi chegando, primeiro como um sussurro frio e úmido, para depois se tornar um rugido violento e gelado, batendo nas velas, fustigando os cabelos, vibrando os mastros. O mar se erguia furioso, mas não parecia o mar, era como um céu invertido, o barco tremia, nós nos segurávamos com força, tanta força que meus dedos doíam. Eu vi algo bem longe, radiante, andando sobre as águas, uma figura. Primeiro Drácula de braços abertos me esperando, o olhar e o sorriso cheio de promessas. Pisquei, era Hadassa viva intacta, com seus longos cabelos molhados colado ao rosto e o sorriso da sua época mais apaixonada pela vida. Pisquei outra vez e a forma se desfez se tornando outra coisa, feita de mar, de ossos, de céu e estrelas, horrenda demais para ser nomeada e bela demais para ser esquecida. E ela falava dentro de mim: “Venha.” A palavra não era som, era sensação, era gosto, era cheiro. Eu a sentia atrás dos meus olhos, na minha língua, em minhas narinas. “Se houver fé em ti, andarás sobre as águas e virás até mim.” ela falava. Não havia fé em mim, ou havia? Então eu pulei do veleiro, não me lembro do som do salto, nem da tempestade, só o silêncio e a sensação de acolhimento e sob meus pés a água endureceu e eu andava sobre as águas.

Tudo girava lentamente e as estrelas no céu, que era a coisa à minha frente, me chamavam por nomes que nunca ouvi e eu andava em direção dela sem ao menos saber o motivo, mas eu andava. O sal queimava meu rosto, minhas roupas colavam em meu corpo e cada passo meu era leve e eu apenas ia. Até que vozes reais me despertaram, “RUTE!” a voz de Mara, “MOÇA, PARE!” era Allant. Seus gritos como pregos nos meus ouvidos, me despertando do transe. Partindo a minha fé? Então afundei, sem luta, sem pânico. Senti a água entrar pelas minhas narinas, invadir minha garganta, encher meus pulmões, que queimavam como se eu estivesse inalando meu primeiro sopro do mundo e ainda assim era acolhedor. Meus braços boiavam sem direção, meus cabelos dançavam, tudo girava, meu corpo girava, eu não sabia identificar o que era o céu ou o fundo do mar, tudo estava em desordem, mas não havia medo dentro de mim, apenas alívio. Como se todo esforço, toda essa dor, toda essa busca sem sentido, fosse tudo um engano.

A vida veio da água, e na água tudo termina, eu sorria com esse pensamento, porque talvez, finalmente, eu tenha encontrado um lugar onde eu caiba. Tudo escureceu, tudo silenciou e o mar me acolheu. Porém o mundo foi voltando aos poucos em partes, primeiro a dor nas costelas, o sal na garganta e o ardor nos pulmões. E por fim alguém chamando meu nome, não um grito, mas uma voz firme cheia de fúria contida. Abri meus olhos, o céu escuro, nuvens preguiçosas, eu estava deitada sobre pedras úmidas que me gelava até os ossos, minha boca aberta, meus olhos pesados. Mara estava curvada sobre mim, e por um momento vi Hadassa em seu rosto e depois não a vi mais. Via a pele translúcida bela como uma estátua feita de luar, sua existência trêmula e seus olhos profundos como o mar que me engoliu. Ainda não sei se naquele momento ela me olhava como quem me protege ou como quem protege a própria vida, mas ali estávamos dividindo algo, que não sei se era um afeto ou luto antecipado. Ela me puxou para seu colo e eu chorei como alguém que sentiu bem perto um alívio imenso demais para se explicar. Chorei por ter sido arrancada de um descanso que me parecia divino.

— Você voltou — murmurou Allant que estava de pé ao lado de Mara parecendo aliviado. — Por pouco o mar não a tomou de vez — sua voz rouca e lenta — já vi muitos irem e não voltarem e poucos que voltaram já não eram os mesmos. Fico feliz que esteja bem. Agora que tudo está bem preciso deixá-las, o mar me chama de novo. Há muitas ilhas ainda para serem catalogadas.

Então sem se demorar ou sem se explicar demais, Allant subiu no veleiro, sem esperar despedidas e acenou uma última vez.

— Não se afogue de novo, moça, na próxima vez o mar pode não a deixar viva. — o veleiro partiu e aos poucos foi desaparecendo ao longe.

Mara não disse nada, pois entendo que ela só queria me salvar para se salvar. A água ainda escorria dos meus lábios e dos meus olhos mais nada. Quando me levantei, tremendo, vi que estávamos em terra firme, numa ilha rochosa, antiga e de aparência seca, árvores ressecadas com troncos retorcidos e o castelo Drácula, ainda desaparecido.

E agora estamos aqui, eu viva e ela calada esperando orientações. Talvez tenha sido um erro eu ter sido trazida à superfície, pois tudo que irei fazer a partir de agora é inaceitável, já que há algo que tenho tentado omitir, eu estou mudando e não é de uma forma positiva, já não consigo controlar meus pensamentos ou vontades que num momento comum eu facilmente controlaria. Eu pensaria muito antes de iniciar qualquer coisa fora da minha realidade, e o castelo é algo fora da minha realidade, ou era, já que agora não sinto parte de nenhuma realidade além da do castelo.

Enquanto escrevo isso fico me perguntando o que Hadassa dirá quando eu a trouxer de volta, será que ela ficará feliz em viver comigo nessa realidade ou vai me odiar por tirar dela a paz da morte? Ela irá me amar quando enxergar em meus olhos o mal, pois é isso que eu sinto, o mal em cada passo que dou em direção ao caminho de trazê-la, mas, mesmo assim não consigo desistir da ideia. Não culpo o castelo, pois já pude perceber que o castelo só deixa latente aquilo que já sentimos, só nos tenta com aquilo que realmente desejamos, então não o culpo, nem a Drácula, culpo a mim mesma por não resistir à tentação. Estou cansada de continuar, mas essa vontade me impulsiona, mesmo contra a minha vontade. E já que eu não posso me impedir, o que me resta é continuar e reclamar.

Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite Gomes

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Capítulo 1: Um Sopro de Pressa — A Mansão Negra

O perfume dos lihrios de ébano serena meu coração desde então; por muito quando as visões daqueles…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O perfume dos lihrios de ébano serena meu coração desde então; por muito, quando as visões daqueles momentos perturbam a minha memória, recorro à essência vestal de suas pétalas lutuosas e vejo o pólen laranjim manchar-me o cimo de meu nariz. Colho-os sempre n’aurora e descanso seus caules n’água fria, adoçada com stevia; costumo escolher um cântaro de cerâmica... deixo-o ao lado de minha Vërmanen. E escrevo. Para tirar esses vis numes que murmuram presos em minh’alma... murmuram tal como lamuria o lôbrego jardim da Mansão Negra, onde vi, naquele primeiro dia, a sublimidade dos galhos das paineiras se esgueirando secos entre si, criando um emaranhado assombroso junto aos cedros mirrados pela seca do outono, entretanto, havia mais.  

Enquanto sussurrava o inverno de Nottsoen, gemia a mastodôntica floresta de Amorttam onde os mognos, com suas folhas perenes, poderiam ressoar a verdejante esperança, porém, junto com outras espécies da mata, tudo apenas amedrontava. Em contraste com a morte das decíduas do jardim, a floresta de Amorttam era profunda e frondosa — e ainda é. Posso dizer que o mesmo acontece em todos os períodos sazonais, até quando, na primavera, os ipês florescem e as orquídeas se multiplicam. Por infortúnio, ou não, estive aos pés de Amorttam, pela primeira vez, no fim do inverno, no mês da escuridão perpétua e, por fatídico destino, no mês das duas luas novas. O inverno d’este lugar traz a névoa que sempre se concentra e a molúria que se esparge mórbida e silente, como se domadas pela Mansão Negra.

A Mansão Negra fora erguida no ano cinquenta, por Damon Krvier, o Soberano do Império Krvieröm. Esta é a única relíquia que ele deixara nas terras de Sihren. Em algum momento, a Mansão tornou-se o Lar de uma família que, até então, eu compreendia como, tão somente, uma família peculiar: a Família Sttrattan. A razão — a que me fora explicada pelos conhecedores menos distantes da população local e, em especial, dos Sttrattan — pela qual decidiram por habitar a Mansão Negra, estava ligada intimamente à admiração de Dama Lilith Sttrattan pela arquitetura fascinante do local e pelo habitat que a envolvia. O Soberano do Império Sihren, Dom Soron Vonssihren, proibiu que a Mansão Negra fosse habitada por quaisquer pessoas desde que Damon Krvier deixara Sihren. Por razões obscuras, foi permitido que a Família Sttrattan tomasse posse do lugar.

O povo Sirehnian fomentava suas lendas; alastrava suas pressuposições — dentre elas havia uma que se destacava. Muitos acreditavam que a Dama Lilith Sttrattan tivera um envolvimento com o Soberano Damon Krvier e, sendo uma verdade incontestável a imortalidade dos Soberanos, Dom Vonssihren teria permitido que Lilith ficasse na Mansão Negra para impedir que o local se tornasse um umbral ou totem para Damon — dado que, supostamente, ele estaria envolvido com coisas ocultas. Lilith, por sua vez, em profunda mágoa por ter sido enganada por Krvier, teria jurado a Vonssihren que sua família manteria a Mansão Negra protegida da manipulação diabólica do Soberano inimigo. Sendo assim, teriam selado um acordo e, desde então, os Sttrattan mantiveram a jura primeva. Se isso é verdade, eu não sabia; o mistério era denso como a morte e eu sequer imaginava que os rumores terríficos eram, na verdade, brandos ao extremo se comparados àquilo que viria ao meu encontro durante minha estadia.

As bizarrices da Mansão Negra começaram a ser compartilhadas pelas histórias narradas e escritas ao longo dos anos desde que, com a moradia habitada, pessoas passaram a visitar a residência, tais como jardineiros, professores de música e dança que davam aulas particulares para os filhos Sttrattan; vendedores, cuidadores, entre outros serviços contratados pela família. De vultos pelos corredores à sussurros mórbidos pelo jardim. A Mansão era, decerto, alvo de alguma força oculta e se eu não tivesse passado tantas noites em suas entranhas, continuaria cética a respeito das fábulas e, com toda a certeza, estas palavras não estariam sendo escritas agora. 

~ ❦ ~ 

Há dez anos, em um dos mais mórbidos invernos que passei, fui chamada à Mansão Negra pela filha mais velha dos Sttrattan, senhorita Ehllenor. De acordo com o que conversáramos por cartas, Ehllenor temia que seu filho de nove anos, Morgion, estivesse passando por algum problema de caráter emocional ou mental, pois, a criança tinha grandiosas crises noturnas durante o sono e, por vezes, passava pela experiência de sonambulismo e agoníria ao mesmo tempo, o que em perigo o colocava quase todas as vezes. Compreendi sua aflição, em especial, n’uma das cartas que fora escrita e entregue uma semana antes de minha partida de Numnura para os limiares de Amorttam; nesta missiva — parte disponível na íntegra —, Ehllenor revelara uma coisa pertinente e bastante assombrosa. 

Para Saeeri Heigger
De Ehllenor Strattan Vvelusch
20 de Selenoor, 349

Caríssima Saeeri, escrevo-te antes do previsto, pois, algo perturbador ocorrera na noite passada. Perdoa-me pelas alarmantes palavras que, com infortúnio, usarei neste soturno papel, pois, tamanha fora a minha aflição que não posso poupá-las para te descrever a verdade. Adianto, sobremaneira, que implorarei, em todas as linhas, que antecipes tua vinda à Amorttam para que possas, com o teu conhecimento sobre a psique humana, ajudar-me a guiar, da melhor forma, o meu pequeno Morgion. Por favor, minha querida, sabes o quanto sofre uma mãe cujo coração pertence a um Corvo-dos-mares; o pai do meu pequeno lume raramente está presente e isso decerto o afeta. Embora eu o compreenda em seu ofício para com o Soberano Vonssihren, dói-me que ele tenha que ficar distante por longos períodos, inda mais quando tudo parece sair do meu controle. Compreendo, igualmente, que deixar Numnura e viajar por inúmeros dias até Amorttam será sofrível, no entanto, disponibilizo a ti tudo o que é necessário. Inclusive, neste envelope estão três Siremihtas, isso deverá ser suficiente para que viajes com conforto e segurança. 

Peço, com profunda súplica, que escrevas para mim antes de tua partida — a qual espero que seja emergente, ao tardar da manhã em que esta missiva te for entregue; deste modo, poderei monitorar o tempo da tua vinda e, reforço, que não te distraias pelo caminho; prometo proporcionar-te um retorno mais sereno após a tua estadia e, então, poderás usufruir das paisagens ao longo de Sihren e de todas as singelas províncias cuja cultura é única e as histórias surpreendem. Esclareço que tais Siremihtas antecipadas não estão vinculadas ao valor do teu ofício, são à parte, para que consideres a prioridade dos teus próximos dias de Nottsoen e não se demore para aprontar tuas malas. Perdoa-me o desespero e insistência, creio que, agora, seja de exímia importância lhe revelar o último ocorrido com Morgion, meu menino. Leia com atenção, caríssima; rogo-te. 

Estávamos adormecidos, beirava à hora lôbrega, como o costume que tu bem conheces em razão de minhas cartas anteriores; estava frio como um manto de morte quando despertei assustada, ouvindo Morgion lamuriar em sua cama. Fiz o que a senhorita recomendara, não o acordei para que o episódio não o causasse traumas e sofrimento; todavia, eu o via, ó sim, sua expressão era extremamente assustadora, senhorita; era um rosto que, ouso escrever-te, não era o de meu pequeno. Sorria um sorriso glacial e oblíquo, seus olhos abertos e arregalados evidenciavam suas retinas que tremiam e vageavam como se acompanhassem cenas assustadoras; nunca ouvi falar sobre ser isso possível; por vezes sumiam, mantendo apenas a esclera nívea e horrenda. Sua tez empalidecida assimilava-se quase hialina, além de úmida de um suor gélido inenarrável. Ele lamuriava dezenas de frases mórbidas e, quando o toquei em sua fronte, com um pano aquecido, pois temi que se tratasse de estado febril, ele se assentou à cama quieto — pensei que se levantaria para caminhar à esmo, como nos dias antecessores, porém, movimentou-se estranhamente, olhando-me com suas escleras... quão atro, minha querida... arrepiei-me de imediato e o ouvi sussurrar o inaudível quando, súbito como um relâmpago, ele me atacou, n’uma inominável rapidez, na tentativa de morder-me o pescoço. 

Saeeri, não sei como proferir o verdadeiro medo que senti... decerto sabes das lendas percorridas pelos quatro quantos de Sihren a respeito desta Mansão; não creio que seja real, no entanto, desde que nos hospedamos aqui para que a solidão de meu amado Atos não nos impactasse em demasia, Morgion tem vivenciado o mais horrífico e não vejo saída que não seja rogar às quaisquer boas entidades sobre-humanas, para que possam purificar este mausoléu. Não me recordo de vivenciar tamanhos horrores quando cá vivi na tenra infância, por mais escuros que fossem esses corredores; e agora vejo todos os mais terríficos horrores amargurarem a infância de meu menino. Sua feição diabólica não deixa minha mente e, agora, eu é que sofro dos pesadelos mais ensandecidos. Tive de fazer algo por Morgion naquele momento, compreende? Mesmo debaixo de um medo abíssico, segurei os ombros do petiz e o chacoalhei bradando seu nome a ponto de ecoar por toda a Mansão pelas portas entreabertas. Mamãe despertara, todavia, ao chegar ao aposento em que estávamos, com seu singelo castiçal, Morgion já havia saído do transe e chorava de soluçar, pobre pequeno, tão puro, tão atormentado em pânico. 

Ehllenor descrevera um estado de sono profundo, onde os olhos movimentam-se de acordo com os sonhos e o corpo é canalizado para o torpor muscular. Algo comum nos estudos soniais e neurológicos; entretanto, era evidente o distúrbio e assombrosas as descrições acerca da face da criança; pude supor ser um sonambulismo catatônico ou, porventura, a patologia da condição patológica. Professor Nehri nomeara, a posteriori, o episódio de “agoníria túrbida com prosopagnosia estúrdia” quando lhe contei a respeito do caso em uma troca de missivas. 

Não possuindo acesso ao paciente, era inviável dar diagnósticos, no entanto, indiscutível deduzir algumas possibilidades. Diante à missiva escrita por Ehllenor, lembrei-me de Maelli Vonssihren, nossa Mestra nos estudos psíquicos, suas palavras imersas por uma sabedoria única diziam: “A respeito da mente, toda a dedução é uma verdade em algum grau e todo o estudo é apenas um início, seja hoje ou daqui a milhões de anos”. Explorar a mente requer lucidez e um pouco de loucura. Evidente que preparei minha partida no mesmo dia, escrevi-a como solicitado e vi-me no primeiro trem para Amorttam antes do anoitecer. 

A Mansão Negra
Doutora Saeeri Heigger é convocada para investigar os sonhos aterradores de uma criança de nove anos. Entretanto, o menino pertence à família Sttrattan e reside na Mansão Negra. Convencida de que se trata de apenas mais um caso clínico, Saeeri aceita a proposta, mas, parece que o que dizem sobre os Sttrattan é pior do que ela imaginava e os horrores oníricos vão além da mente de seu pequeno paciente. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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8 – Limiar azulado: paisagens de melancolia e (des)conforto

Encarei o vazio nos olhos do abismo, | onde a flama ardia como lava do vulcão à beira da eclosão…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Encarei o vazio nos olhos do abismo,
onde a flama ardia como lava do vulcão à beira da eclosão.
Das profundezas aspergia luzes vívidas, azul-amarelada.
Da sua fluorescência emanava uma força primal, feroz.
Era aterrador, ao passo que hipnotizante.
Contra todas as probabilidades, sobrevivi.

A tela clamava por mais pinceladas, entretanto, receberia meus dedos: os enfiei nos tubos de tintas e desafiei o acaso — o que surgiria daquela confusão pictórica dependia exclusivamente dele! — Se ele sabia jogar, eu também sabia.
Aos poucos as cores daquele psicodélico amálgama disforme convergiram para uma única: “azul”, esta, acompanhada de todas as nuances possíveis associadas a ela: bebê, gelo, celeste, água, cobalto, marinho, petróleo, turquesa, índigo, acinzentado... O véu estrelado cobria meus pensamentos na noite vazia, e sozinha, continuei naquele transe criativo.

Como as memórias puderam se transformar de maneira tão brusca?
Prazer. Sofrimento. Contentamento. Desilusão.
Concluí que minhas emoções eram tão instáveis, melhor não tentar explicá-las.

Estava em estado criativo, mas essa singular interação e sucessão de coisas desconexas não seria uma espécie de loucura? As coisas ocultas em meu inconsciente não estavam rebelando-se, e com isso, ganhando vida na tela? No inglês o azul é associado à melancolia, na colorimetria ao conforto.
Fui invadida por esses pensamentos, mas o que diabos isso quer dizer?

É um teste? eu não sei. Mas posso afirmar que o inferno não é metafísico e nem “os outros”. Poderia ser nós — em mim habitam demônios demais, tantos que já não tenho tempo para me preocupar com os de fora —, mas o inferno é essa vida cotidiana, que escoa por nossos dedos, enfiando-se em lugares ocultos, sem pedir permissão, como um verme que a tudo corrói. Sem piedade. Sem distinção. Sem pudor.

Sob efeitos desses pensamentos e possuída por uma ânsia de fazer emergir “aquilo” que ainda não sei nomear, continuei...

Durante a fase mais conturbada da minha vida — acredite, houve uma época em que tudo era pior e eu quase sucumbi —, procurava com afinco tentar entender os mistérios da mente.
Devorei livros de filosofia e psicologia, contudo, aquelas palavras pareciam confirmar as minhas suspeitas de que nada fazia sentido.

Para quê continuar?

Em nenhum momento aqueles escritos declararam isso, mas em meio à desesperança os olhos são conduzidos por um caminho tortuoso, e como eu era vulnerável, acreditei nessa mentira autoimposta! Durante um bom tempo... Longo tempo...

Mais tons de azul surgiram na tela... Tantos que nem sei mais como nomear...
Melancolia e conforto. Conforto de menos, melancolia demais.
Eram nuvens? Besteira, nuvens não são azuis! Eram similares a bolinhas de algodão-doce azuladas, mas quando abocanhei uma porção o gosto era amargo.

Então, naquela época — a tal época mais difícil da minha vida —, embrenhei-me na arte: das palavras e das tintas. Como sabes, minhas obras sempre foram repletas de formas sombrias e que evidenciam os tormentos de uma alma que não descansa, mas essa é a minha verdade, e como não consigo ser diferente, sigo evocando esses seres que aprisionam eu dentro de mim.

E encerro essa divagação — não ouso dizer que é um relato —, confessando que foi naquele tempo, entre sombras espectrais e silêncio perfurante, que percebi: há um consolo estranho na melancolia, desde que eu tenha forças para moldá-la em criação.
Uma obra é uma catarse.

É por isso que escrevo.
É por isso que pinto.

O inferno, às vezes, pode vir em tons de azul — melancólico, sereno, quase acolhedor.
Mas se será amargo ou doce...
Só você poderá dizer. 

As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Lotus Aqua Obscura

Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente, dali eu teria fugido antes mesmo do poente efetivar-se. A verdade é que, até então, eu ignorava o domínio inenarrável dos seres Magistas sobre a realidade humana; mas ali, diante do velho em vestes míseras e ínfima voz, tive de renunciar às minhas ignorâncias, as quais, por anos, governaram-me o ser. O senil peregrinava entre os arvoredos mais úmidos e, quando colidia, por sorte ou azar, com alguma alma vivente, já de imediato iniciava a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Confesso o haver julgado um Mago, mas, revelo que não detenho tal vera; por muito ousaria dizer que se tratava mais de um demônio atormentador originário de intermúndios tétricos; ainda assim a dúvida persistia, pois que suas habilidades fascinavam qualquer deus e, portanto, não poderiam advir dos seus caídos e expulsos — o herói nunca admira o vilão. 

Antes de dar-me conta, seu timbre acre invadiu-me os tímpanos e eu fitei o sujeito franzino. Eis que, então, já não pude deter-lhe; estagnei-me à sua presença e, ao léu, o ouvi do início ao fim, e os seus lábios contavam em penumbra que a noite há de ser, por tempos, única possível; pois que os céus negros não se banharão do sol; o sol em si, negrume, cálido pousará apagado no horizonte. E nas orlas os barcos guiar-se-ão, não pelas estrelas, mas pelas divergentes sombras. O plantio noturno gerará frutos sombrios e os frutos serão ingeridos em silêncio; seus sumos violáceos serão doces, mas turvarão os corpos famintos; e as plantas, e os grãos e tudo o que vem da terra deterá sutilezas nos sabores e eflúvios constituintes. “E até as chuvas ― não duvides ― cairão como gotas de obsidianas ácidas. Por tempos todo fel cobrirá os mares e” ― descrevia — “as herbáceas brotarão dos solos e das águas e elas serão feitas de treva e a treva será insólita”. E, por cada segundo, o ancião trazia à voz etérea os pormenores daquela realidade que não nos pertencia mais, entretanto, conforme o ouvia sentia-me estar inserida nela como pertencente. “Ouça, não só escute! Pois que as árvores secretarão licor viscoso e seus galhos languinhentos soarão fúnebre sibilo que será, pois, apreendido em perfeição pelas orelhas dos ouvidores e dos moucos”. 

Tentei, ávida, retirar-me, em corpo, daquela insanidade; no entanto caíra a noite com o peso das palavras ouvidas e o peso era similar às montanhas laminadas das Cordilheiras do Sul. “Pois que das mais horríficas herbáceas, a Lotus Aqua Obscura, invicta, mui mais apavorará; o manjar de seu caule e suas pétalas em ilusão, o êxtase, provocará; e a água qual se fundamentará será mais umbrosa que o firmamento; e quisera eu não a ter degustado com afinco, pela fome miserável a corromper meu antro”. Com frêmitas mãos, o velho, de seu bolso, retirou uma caixa amadeirada cuja fragrância era de bambu e tão logo abriu-a revelando uma semente. Esticou à minha direção o objeto e gargalhou, orate, aos ventos todos que, inopinos, tornaram-se violentos. “Coma esta semente!” ― ordenou o velho. Olhei aos céus, roguei piedade. “Saberás que cada Lotus Aqua Obscura é, pois, um humano sucumbido, transformado, fadado por fim, e sentirás em tua tez o sabor da língua pegajosa e a saliva cinza dos famintos; e toda a vivência de sê-la! Tu passarás e testemunharás o veneno de suas vísceras. Coma esta semente, coma agora esta semente!” ― e pôs-se a repetir, ininterrupto, o dito final, de modo a desordenar-me a sanidade. Tomei-lhe a semente e a engoli, seca. “Assim renascerás a única planta de espírito e corpo igual aos animais desta classe sapiens sapiens, caso contrário o meu haver não mais firmar-se-á no juramento: Hei de vagar pelo mundo humano fundindo o sórdido ao vil para alertar a infame escuridão que há de vir”. 

Aflita, forcei-me a arrevessar o grão, mas, já era tarde. Presenciei os pinheiros a vergarem-se e a tempestade vir a ser e todo o sombrio a firmar-se e o homem, maldito, esvaiu como saibro em alto-mar deixando, apenas, uma abominável mensagem: a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Segurei-a em minhas mãos e senti a saliva e as línguas, e fui, na pele, a planta coloidal; e do reino Plantae espargi essência de clorofila debaixo da atmosfera fumegante em névoa, a névoa mais rara em gigante e medonho horizonte abominável. E a névoa era densa como meus olhos, os quais eu não possuía; e meus pés, que não eram pés, estavam sucumbidos ao gomoso e frio chão, o qual não era chão e, antes de haver, pois, senso sobre a insânia a difundir-se; senti sede, a inenarrável sede pelo sangue do inimaginável. A treva acima, a neblina e o terror; bem soube que era eu a plantae-animalia, pois que o veneno se açodava em minhas artérias hialinas e a maldição era hedionda e a ela eu me debruçava; assim, tão logo senti uma presença próxima e era no flúmen qual eu me firmava, então roguei pelos deuses de todos os elementos e vi ―  juro aos santos e profanos ―  eu vi o ancião perverso a, de novo, aproximar-se. E quis vociferar pelo socorro de um ser qualquer sob ou sobre a escuridão a cingir, mas eu não tinha boca e minha boca era feita de pétalas e das pétalas escorria elixir de morte e argila. 

Eis que o macróbio sórdido e vil, com violência bruta arrancou-me do pântano e levou meu venusto caule à língua áspera. E a língua áspera era cinza e pegajosa e eu vi, por fim, a névoa mais rara no gigantesco horizonte e eu a vi antes da absurda dor tomar-me o âmago. Moída em fel feneci antes da ausência ser-me única possível, chorei as lágrimas moribundas que me restavam e despertei de súbito como de uma paralisia do sono e olhei para o céu e era dia e o dia luzia tenro e afável. Nada havia além da lembrança vívida dos tempos mais obscuros que virão, onde o sol será negrume e queimará e as algas serão alimentos pútridos aos famintos e as frutas terão sumo violáceo. Retomei à angústia mais etérea, pois que agora eu detinha como cruz ao torso, a pesada revelação perturbadora e, sem ter como dela livrar-me, sendo obrigada a carregá-la comigo; tornei-me andarilha das terras humanas em busca de alguém para devorar minha própria semente.

"Lotus Aqua Obscura" é uma obra inspirada no conto "Silence — A Fable", de Edgar Allan Poe. Leia a tradução do conto feita por Sahra Melihssa: » Iniciar leitura.
Sete Abismos — Abyssalum
Espere encontrar em Sete Abismos um universo de contos terríficos que se vinculam nas entrelinhas, causando uma imersão integral no horror de suas entranhas. Espere ser perturbado por complexas mentes de personagens distintos e por mistérios cujas faces se desvendam no absurdo; deguste de uma leitura com atmosfera hedionda que perdura mesmo nos contos mais breves. Descubra o horror que reside no inofensivo e perceba que de tudo, de absolutamente tudo, pode emergir uma monstruosidade inimaginável. Prepare seu estômago, a repugnância surgirá e ela é imprevisível. » Leia todos os contos.

Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
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Observadores

Desperto sobre um chão asséptico, duramente frio, cheirando a desinfectante recém-passado. Sento-me devagar, estou desorientado…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Desperto sobre um chão asséptico, duramente frio, cheirando a desinfectante recém-passado. Sento-me devagar, estou desorientado. Fico imóvel por algum tempo, tentando centrar a minha visão. Tudo treme e vibra. 

O que aconteceu comigo? Depois que minha visão centrou, observo minhas roupas. Estou sentado, com as pernas estendidas. As costas estão apoiadas no canto de um espaço pequeno e quadrado. O chão é de um metal polido e cinza, muito brilhante, eu vejo o meu reflexo distorcido nele, de tão brilhante. 

Eu visto roupas comuns: calça jeans, sapatênis e uma camisa polo vermelha. Não me recordo de onde estava. O que fazia com essas roupas? Onde? Nada vem à minha mente. Um grande vazio, absoluto! Preenchido apenas por perguntas: será que fui sequestrado, será que morri? 

Ouço alguma coisa? Sim! É um barulho muito distante! Sons abafados. Tento identificar de onde eles vêm, cruzo a sala, então a noto. Uma única vela acesa. Ela está exatamente no centro da sala e sua chama... ela parece estar atrelada de alguma forma a mim, ao que eu faço, ao que eu penso... não posso provar, mas sinto isso. 

Quero sair daqui, não me sinto bem nesse lugar. Meus olhos percorrem as quatro paredes. Ao terminar, se desconcertam. Cresce o desespero que meus olhos foram capazes de gerar. Não havia uma janela sequer. Nenhuma forma sequer de abri-la. Sim, a única porta da sala era um tipo de elevador, porém não tinha como abri-la… Eu não conseguiria, não havia como forçar os dois lados a se abrirem, não havia botões para serem apertados e comandá-la. Então ela permaneceu totalmente fechada e impassível. 

Não sei quanto tempo fiquei acordado, mas me sinto desgastado, minha visão pesa. Mas certamente eu dormi, pois estou acordando agora. Minhas retinas registram as mesmas paredes frias e metálicas. Elas, o meu reflexo. 

Meus olhos registraram, meu cérebro notou. A chama da vela está ligeiramente diferente. O fogo que antes aquecia o lugar, com reflexos laranjas e quentes, agora trepida e hesita, com chamas azuis crepitantes. No entanto, o reflexo dela parece que guardou o reflexo de quando eu chegara: amarelado, os tons alaranjados estavam apenas nos reflexos. Deveriam refletir a cor azul, mas pareciam testemunhas renitentes do passado.

Num átimo, a chama da vela apagou-se e acendeu novamente. Agora a cor da chama que as paredes refletiam era idêntica à da chama: um azul intenso e profundo. Sentia que dentro daquela chama havia um universo que me atraía.

Apesar de assustar-me com o reflexo da chama destoante nas paredes, insisto em fazer o meu olhar vagar por elas, em busca de uma saída daquele lugar, cada vez menor na minha percepção. Dou um pulo para trás: ali, nas paredes onde uma luz laranja bruxuleava... ali, agora há um detalhe a mais — marcas de riscos nas paredes fazem meu estômago revirar. Um dos espelhos estava rachado, de fora a fora, na diagonal.

Continuando a vagar pelo que o estranho espelho reflete, chego até ele. Minha própria imagem encara os meus olhos friamente. Do lado de lá, é a imagem refletida quem conduz a ação. Apenas um reflexo de mim, sim. Mas por que meus olhos parecem ser um engodo? Sinto medo, por ela ser deformada e diferente, devido à rachadura que apareceu agora. A única verdade que seus olhos ameaçam entregar é a de que quer me fazer mal. 

Será que aquela imagem sou eu? E, na verdade, eu é que estou confuso? Será que as paredes limpas, lisas e espelhadas do elevador em que me encontro apenas estão refletindo a realidade: uma vela com chama laranja em seu centro; e eu é que estou a imaginar que a chama é azul, que algo riscou e rachou as paredes? Por que as minhas mãos estão arranhadas? 

Sinto um cansaço pesar, minhas pálpebras fazem força para se fechar. Eu luto para me manter acordado. A tarefa é difícil, cansativa, árdua, eu diria que se tornou hercúlea. Como se o meu próprio corpo não fosse meu. Estranho. Eu tento controlar as minhas expressões faciais, mas o olhar hostil do meu reflexo se recusava a mudar, resoluto. 

Acho que dormi nessa cansativa luta de fazer o reflexo do espelho mudar. Por mais que sentisse os músculos do meu rosto se mexerem, o rosto no reflexo estava imóvel e com uma expressão ambígua, ameaçadora. Se o reflexo era eu, por que me olhava com raiva? Se não era eu, por que era igual a mim? 

Acho que agora desperto pela terceira vez nesta sala. Sinto frio. O chão me parece mais frio ou foi a minha temperatura que cedeu? O cúbico do elevador, já não o percebo tão pequeno, ele parece um pouco maior. A vela? Ah, sim, ela está bem menor, derreteu… Agora, está bem mais escuro do que antes. 

Eu próprio me sinto menor. Como se os meus músculos, tal qual a cera daquela vela, tivessem diminuído, tivessem derretido. E parte de minha essência tivesse se dispersado pelo chão, como se eu fosse uma vela de chama azul, igual àquela: triste e pequena; obedecendo a um desígnio além do que ela pode controlar, certa de que ela será, indubitavelmente, não mais uma vela, mas uma mera poça de cera derretida. 

— Estamos quase completos! — uma voz inumana diz, mas entendo claramente o que foi dito. As palavras claras, como água cristalina em meus ouvidos, vindas do outro lado da parede. 

Agora percebo que estou junto à vela, no centro da sala. Eu sou uma criatura dada em sacrifício, a chama azul da vela me disse isso, em meio às imagens projetadas em sua pequenina chama que eu observo deitado. Algo está sendo vaticinado. Meu sangue está sujando o chão, percebo que não só o meu nariz está sangrando, mas todo o meu corpo está se moldando a algo que não conheço, mas já não estranho. 

Mas ela também me mostrou memórias de outras vidas. Outros Jeremias. Um era pai, e abraçava suas filhas no quintal. Outro era policial e dera um tiro na testa de alguém — que horror! Havia outro que era branco, e não negro como eu. Tinha uma criatura estranha, que eu também sabia que era eu — ela passava por ruas, como as nossas. 

Agora desperto pela quarta vez. Flutuamos, eu e a vela, pelo espaço oco. Vejo escamas finas da minha pele se soltarem. Sinto-as desprenderem das mãos, das pernas, das costas encurvadas. Elas vão flutuando pela escuridão, formando uma galáxia, um redemoinho bizarro de peles mortas vagando pela escuridão, iluminadas apenas por uma chama fraca. 

Desespero-me ao perceber que estou me desfazendo aos poucos. Sou como um embrião que desfaz sua casca, sumindo a cada porção perdida no espaço. Não é um processo que pode ser parado. Acho que não. Talvez eu seja só a casca de algo que amadureceu. 

Agora desperto. Vejo a porta se abrir pela primeira vez. A vela está no teto, assim como eu sinto que estou. Não tenho voz, não tenho corpo. Quem eu era, não recordo. Mas isso não importa mais. 

Junto-me aos meus companheiros lá fora… lá fora, no espaço-tempo, eu vejo: somos muitas criaturas. Temos garras e escamas brancas, e olhos grandes e esbugalhados. Nos chamam de observadores… 


Escrito por:
Aryane Braun

Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
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Crê

Crê em mim, filho da vergonha | Crê em mim, sou o senhor do inferno | Sombrio e distante como útero materno | São os tempos loucos e ninguém mais sonha…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Crê em mim, filho da vergonha
Crê em mim, sou o senhor do inferno
Sombrio e distante como útero materno
São os tempos loucos e ninguém mais sonha

Sombra em torno de nós, medonha
Reza para mim homens! De joelhos!
Ovelhas adestradas, ouvem meus conselhos 
“Segue o Mito, renegue a verdade, enfadonha”

Sede ingrato, maldito e sincero
Sedes o mal agouro do desterro
Ser atribulado com os ruídos de uma guerra
Oh! Ninguém mais vê e nem sente o desespero
A dor do poeta tecendo um erro
Anunciando Mefistófeles a pairar sobre a terra.


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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A Maldade Humana

Cultivada no seu próprio solo, a maldade humana é uma brincadeira de mau-gosto do acaso; uma construção perversa do sistema; uma condição…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Cultivada no seu próprio solo, a maldade humana é uma brincadeira de mau-gosto do acaso; uma construção perversa do sistema; uma condição morbígera da vida. Ela é o sopro contrário na natureza que, mesmo criadora da bênção da razão, não se vê livre das suas deficiências excepcionais, entretanto, quando a exceção é mais comum que o anfêmero, os papéis de invertem. 

Posso ousar em dizer que a maldade humana está essencialmente alojada na ignorância — os véus do desconhecimento do que é ser; o manto da insipiência causado pelo circunstancial. Entretanto, a escolha individual ainda tem um papel fundamental e, por vezes, ela não excede seu apedeutismo. Isso me leva a crer que a ignorância é fruto híbrido de duas espécimes putrefatas: decisão subjetiva e influência do meio. 

O ego é outro culpado; necessitar, pois, pertencer a algo além de si, quando não se basta em seu próprio interior. Ser capaz de quaisquer atrocidades para sentir tal dopamina-do-pertencimento — a qual, por sua vez, é sempre uma mentira bem-contada. Ou, ainda pior, ser capaz de horrores por não estar pertencido; buscar vingança e dar sofrimento a outrem por puro ego ferido. O cúmulo da ignorância. 

O conhecimento, a informação e a sabedoria se aliam para dissipar essas tendências doentias, porém, não se resolvem em si mesmos. Do conhecimento, espera-se mentes capazes de assimilá-lo; da informação, espera-se mentes capazes de refutá-la e comprová-la; da sabedoria, espera-se mentes capazes de compreendê-la. Se, para evitar que a maldade floresce em seu cerne, é preciso cultivas tais capacidades — as quais não se igualam a uma tarefa simples tal qual respirar — percebemos que, a cada nova geração, a escassez da maldade parece mais utópica. 

Ainda lidamos com a tendência humana em achar que conhecimento é saber da verdade e defendê-la — quando, na verdade, conhecimento é eterna busca por infindáveis verdades e a quando se começa a defender uma única ideia “perfeita”, torna-se idealismo. Ainda lidamos com a comum ideia de que a informação é tudo aquilo que nos vem de encontro no mundo — quando, na verdade, informação é base de averiguação de fatos. Continuamos erroneamente crentes de que a sabedoria é um estado sublime, religioso ou pertencente apenas aos idosos que viveram demais e sabem muito— quando, na verdade, ser sábio é ser capaz de compreender toda a forma de existência sem o filtro da sua própria vida — crianças são boas nisso e, portanto, têm mais sabedoria do que idosos, adolescentes ou adultos. 

A maldade humana, portanto, floresce onde as certezas adubam a mente; onde os egos são a verdade líquida que rega a terra psíquica. A maldade humana se ascende diante da maldade humana — alimentando-se ad aeternum. Indiferença, inveja e mágoa são o capim d’este jardim imundo e violento. É mais fácil, enfim, deixar que as coisas sigam os caminhos quais já foram trilhados — quão árduo é ser mestre nas três capacidades essenciais contra a maldade humana! Quem está disposto? Quem estaria disposto? Quem ousaria a tal disposição, mesmo sabendo que passará por injustiças, não terá o ego agraciado, sofrerá mais do que os outros e ainda verá a decadência com os olhos bem abertos? Quem resistiria? 

É uma escolha e, como tal, tem o ônus e o bônus. É uma escolha e, como tal, se não for conscientemente tomada, há de ser imposta como uma faísca infernal acesa sem consentimento. Das verdades do mundo humano, eis uma das minhas preferidas: Não duvide da sua capacidade de ser influenciado, muito menos de ser convencido — isso acontece a todo o instante. Não acredite. Sempre pense por si mesmo. Faça suas escolhas e esteja consciente das consequências. E, se me permite, que a prudência e a empatia sejam as únicas certezas da sua vida — as únicas que merecem ser defendidas em uma guerra política


Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
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Capítulo 1: Sangue e Bastilha

Um corpo estirado à beira do lago, arranhões e sangue lhe cobrem o rosto, pólvora e lama tingem as suas vestes…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

I

Um corpo estirado à beira do lago, arranhões e sangue lhe cobrem o rosto, pólvora e lama tingem as suas vestes. Eis Valentine Lencastre, arquiteto, vinte e oito anos, filho da burguesia francesa e, agora, desertor da revolução que ajudara a insuflar.

Suas mãos delicadas, talhadas para desenhar arcos e colunas, agora estavam manchadas pelo sangue dos soldados reais. Ele jamais pensara que seus projetos de grandeza culminariam neste momento – abandonado, ferido e à mercê da morte em uma floresta desconhecida.

Tudo que lhe restava era a memória. E a memória era cruel em sua precisão.

— Tudo que me recordo é que eu estava aos pés da Bastilha, no front com os companheiros da milícia burguesa que formamos no dia 13.

A névoa se dissipava de sua mente em fragmentos desordenados.

— Lembro-me bem que na noite anterior à nossa concentração, alguns rebeldes mais extremistas causaram vários amotinamentos e pelejas. Essa foi a nossa válvula de escape.

O sangue saía copiosamente de seu flanco, tingindo a relva de escarlate. Uma ferida de baioneta, talvez, ou o corte de um sabre. Não importava mais. Valentine sabia que estava morrendo longe das barricadas, longe da glória que poderia ter tido.

— Saí gravemente ferido da maior ofensiva contra os soldados do Rei, antes mesmo de ouvir o grito da vitória. Desertor?... Talvez eu fosse..., mas saí num momento em que senti a vitória nas mãos do povo.

Ele tinha sido um dos primeiros a empunhar armas quando o chamado veio. Não por pão ou vingança, mas por ideais. Valentine Lencastre, o arquiteto que sonhava reconstruir a França sobre alicerces de liberdade, igualdade e fraternidade. Um sonho juvenil agora maculado pela realidade da guerra.

— Estávamos ali tentando mudar a história do nosso país, e promover a nossa liberdade perante as injustiças praticadas pelo Clero e pelo Rei Luis XVI com toda a sua corja de inescrupulosos lordes infernais.

O sol começava a se pôr. Valentine sabia que as criaturas da noite viriam logo. Lobos, talvez, atraídos pelo cheiro de sangue. Ou simplesmente o frio da noite francesa, que mataria o que os soldados do rei não conseguiram terminar.


Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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Capítulo 10: O Oráculo das 7 Profecias

Uma monodia litúrgica bizarra atravessara nossas almas, tão mais que os tímpanos. A morte parecia habitar o derredor, as velas tremeluziam…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Uma monodia litúrgica bizarra atravessara nossas almas, tão mais que os tímpanos. A morte parecia habitar o derredor, as velas tremeluziam n’um escarlate-sanguíneo oxidado e meu coração era oprimido como nunca outrora fora. Eu sentia ser observada pela escuridão enrubescida. Eu e Liliana estávamos de frente aos umbrais do aposento-cárcere de Naomie e Noellie, eles foram abertos como se soubessem de nossa chegada; O cântico lôbrego era corpóreo, embora translúcido, vinha de todos e de nenhum lugar. Além do seu entoar mórbido, habitava um silêncio pouco silente, farto de um eco contínuo e tétrico, capaz de perturbar qualquer existência. Eu era cética sobre ser possível que alguém vivesse naquela alcova de horror oculto; como um nefasto véu esotérico. 

Liliana alertara-me da aura insalubre do local, todavia, não adentrava em meu âmago a verdade dita por suas méleas palavras. Era, decerto, — eu pensava — mais um cômodo misterioso deste alcácer, só isso e nada mais. Arrependi-me do ceticismo quando vi aquelas gêmeas siamesas, seus corpos colados como um experimento macabro da existência. Não eram gêmeas siamesas comuns, compreende? Algo de dantesco habitava seus olhos vítreos; uma mancha negrume abaixo de seus olhos indicavam um choro perpétuo e seus pequenos lábios curvados para baixo, enegrecidos em tons púrpura, pareciam mortos; uma delas possuía uma cruz em sua fronte, como se marcada à ferro, uma pérola de lótus negra no centro do símbolo, estava encrustada na tez. Senti-me arrepiar. Elas usavam um tipo de vestido negro, cobrindo todo o corpo, dos pés ao pescoço. Com detalhes em ouro envelhecido. Usavam luvas e seguravam cartas em suas mãos. 

Na parede carmim detrás delas, dezenas de cabeças de coelhos de todas as espécies inimagináveis; como quadros em prismas de vidro e moldura de ouro envelhecido. Muitas já em estado avançado de decomposição, não estavam empalhadas. Foram arrancadas e guardadas, como tesouro, nos prismas. Era nojento e sinistro; os olhos vermelhos das espécies vidrados no infinito do quarto escuro. 

— Sente-se Áurea Lihran; há muito o que o Oráculo tem para lhe proferir. — Agouraram em uníssono; pois que a voz feminil que possuíam, era abismal em agouro, um vibrar símil ao poço mais profundo. Olhei para Liliana, ela parecia implorar para que eu apenas obedecesse, por isso o fiz. — Saia, Liliana; Áurea já mudou o teu destino, o Oráculo não quer a tua presença. — Ela respirou fundo e as portas se fecharam assim que ela deixou a recôndito. As meninas, se assim posso dizer, sempre falavam juntas, como uma única pessoa. Juntas, igualmente, embaralharam as cartas de suas mãos e, logo, olharam-me; elas tinham uma tristeza profunda na alma, é o que me parecia. 

— O Oráculo está estarrecido com a tua visita, Áurea Lihran; ele reconhece o teu poder de vidência. É-lhe uma honra estar em tua presença. — Eu não sabia ao certo o que responder, meu medo era genuíno. 

— É um prazer estar... sob a presença de tão grandioso... oráculo... — Hesitei. 

— O Oráculo reconhece o teu temor, Áurea Lihran, e sente-se agraciado por ele. Feche teus olhos e sinta o poder do Oráculo, ele te responderá em três verdades e quatro profecias. — Este era o momento pelo qual eu estava ali. Talvez eu mesma me tivesse guiado para aquele lugar morbígero. Entretanto, eu não deveria lhe fazer uma pergunta? Fechei meus olhos e aguardei, enquanto pensava em uma indagação ideal. 

— O Oráculo sabe todas as tuas perguntas, Áurea Lihran. — Ouvi e estremeci. O ambiente estava cada vez mais sufocante. Em dado momento, supus estar ouvindo uma voz masculina detrás da porta e logo me preocupei com Liliana. As gêmeas abriram sete cartas sobre a mesa. 

— A primeira carta, observe a verdade. O Corvo Esfaqueado: Invertida. A tua inteligência é de inestimável valor, entretanto, Áurea Lihran, há um traidor que habita as tuas proximidades. — A voz delas se modificaram; antes femininas, agora demoníacas e viris. Suas cabeças tornaram-se trêmulas, um tremor célere e inumano. — O Corvo sangra e torna sanguíneo o céu da meia-noite e o sangue é veneno. A adaga no dorso do Corvo é a sutileza mendaz daquele que sorri. — Quando abriram a primeira carta, seus rostos pareceram dissolver. 

— Segunda carta, observe a verdade. O Antílope Negro e as Cordas de Juta: Invertido. Tua prudência é admirável, Áurea Lihran; entretanto, a sombra que paira sobre teu crânio é a fênix da decadência e do temor; o negligenciar do teu poder imanente é o preço pela segurança. — Ainda mais rápidos em movimentos súbitos, contudo, naquele instante, lágrimas negrume começaram a verter dos olhos vítreos e, as vozes, cada vez mais terríficas. — Os chifres tocam o solo de lama pútrida e as varejeiras aguardam a carne apodrecer; as patas envoltas na corda de juta mostram a vulnerabilidade do que deveria ser o juízo à dignidade dos aplausos. — Senti uma dor repentina, como se milhares de agulhas perfurassem, em instantâneo, minha tez; olhei para meu corpo e, em cada poro, uma gotícula de sangue nascia. Fiquei horrorizada e ouvi uma forte batida na porta; meus olhos ardiam e eu parecia estar mais fundo em um abismo sem volta. 

— Terceira carta, observe a verdade. A Corphidrae e o último elo. — Meu rosto aparecera na carta ao lado da mesma criatura mítica que vi nas águas de Lahgura. Meu sangue agora vertia para o assoalho, com uma lentidão mórbida. — Reconheça-a para que vivam em harmonia; o oblívio advém do paládio próprio da essência quimérica; discernir para o equilíbrio e a revinda d’outora. — As íris delas agora movimentavam-se com a mesma rapidez de suas cabeças e eu sentia minha pele queimar, em especial no braço esquerdo; tentei olhá-lo, porém, algo me fazia não desviar mais os olhos das cartas. Outro estrondo nos umbrais. 

— Quarta carta, observe a profecia. — As cabeças das meninas se transfiguraram, fissurando-se ao meio por onde dentes e carne e cérebro ficaram à mostra em sangue e lodo. Um odor fétido escalou-se ao derredor e minhas pupilas dilataram diante o horror e eu sei, pois, a luz que era parca, tornou-se ainda mais exígua e fui obrigada, pela energia densa e tétrica do ambiente, a continuar enxergando cada mínimo detalhe das cartas e das meninas à minha frente. — Lúcifer, a Estrela da Manhã. — Ouvi, entretanto, um terceiro estrondo na porta, ainda maior, resultando em alguém adentrando a alcova obscura e segurando firme em meus ombros, tirando-me da cadeira e afastando-me, à força, do oráculo; ainda assim eu não conseguia deixar de manter meu olhar sobre elas. — Um anjo cairá dos céus... — Foi a última coisa que ouvi do Oráculo. 

Ainda confusa, vi uma mulher proferindo palavras ancestrais e arrancando sangue de seu pulso, isso resultou, com mais um fragor, n’um selar da porta que levava ao oráculo. Somente quando selada, fui capaz de voltar a mim mesma, compreendendo o ambiente. Vi novamente a escada que desci com Liliana e vi Liliana olhando-me atônita. Eu estava nos braços de um homem desconhecido, sua pele acastanhada, seu relógio de bolso, seu complexo olhar. E, atrás dele, a mulher que fizera o que me parecera um ritual para selar os umbrais, ela era Olga. Meu próximo átimo de tempo levou-me a perceber meu próprio corpo, o sangue seco em toda a tez e, onde queimava o meu braço com mais afinco, eu vi quatro símbolos em um estigma, queimados à força. Pareciam sigilos. 

— Áurea, escute! Estás me ouvindo? — Disse o homem, com sua voz paternal. — Estás à salvo, agora; beba isto. — Apenas obedeci. Parecia sangue. Minhas forças retornavam aos poucos. 

— Perdoe-me, querida; eu não imaginava que isso... eu sinto muito. — Lamuriou Liliana. Olga apenas olhava, distante. Eu ainda não compreendia o que estava acontecendo; mas fui levada a outro cômodo, onde o homem que me acudia carregou meu corpo. Liliana e Olga não foram comigo. Ouvi o homem dizer “Eu cuido disso agora, depois vocês a encontrarão no aposento que a pertence”. No leito que não me pertencia, fui colocada pelo homem e ali fiquei, repousando. Mas não dormi. Fiquei observando o homem escrever por longas horas, com a luz baixa, em uma escrivaninha de cedro escuro. Eu o aguardei terminar e esperei que as minhas forças retornassem por completo. 

— Bem-vinda de volta, Áurea. — Ouvi, assim que me movimentei, sentando-me na cama confortável. O homem virou-se para mim. — Saudades? — Ouvi, sentindo-me confusa. Ele se ajustou em sua poltrona, para fitar-me com mais atenção. — Áurea, o que te fez ir atrás do Oráculo depois de tudo o que conversamos? — Eu não o respondi, sentia-me merencória... — O Oráculo das Sete Profecias possui uma força inominável, Áurea; se permanecesses ali, serias perseguida pelas sombras deste poder, eternamente. — O homem encostou-se na poltrona, parecia buscar serenidade e paciência. — Olhe para teu pulso esquerdo. — Obedeci. Revi os sigilos. — São selos pherhesístas que assombrarão a tua existência para além deste tempo, para além desta vida. Por sorte, ou melhor, destino, são apenas quatro símbolos. 

— Se é tão perigoso... por que mantê-lo no Castelo? Por que mantê-lo vivo? — Indaguei. O homem respirou fundo mais uma vez, não por impaciência, mas parecia-me realmente exausto de algo muito íntimo. 

— Não há como destruir o Oráculo. Mantemos em cárcere, pois, é o que está em nosso alcance. Se me permites... — Ele retirou seu casaco e afrouxou sua gravata. — Naomie e Noellie foram escolhidas pelo Oráculo quando, o último manipulador das cartas, foi morto. Trancafiamos as cartas em um baú de unorom; entretanto, tamanho é seu poder, que Naomie e Noellie ouviram o chamado dele e o alcançaram, vindo pelo Espectumbral, o responsável por trazer ao Castelo aqueles que precisam de compreensão e conhecimento. Não tardou para que conseguissem abrir o baú; foi então que percebemos que só seria possível encarcerar o Oráculo, se o fizéssemos junto com seu manipulador. Assim ninguém mais ouviria o chamado. 

— Como pude adentrar aquele cômodo, então? Não deveria estar inacessível? 

— O teu poder entrou em sintonia com o poder do Oráculo. Liliana, ao guiar-te para os umbrais do cárcere, não imaginava que estaria te direcionando à linha reta desta sincronização. — O homem olhou para seu relógio de bolso e logo o deixou sobre a escrivaninha. — Sobre estar inacessível, o Oráculo, como já mencionei, é profundamente poderoso. Precisamos mantê-lo preso, mas, é importante que tenhamos acesso a ele. Em especial eu, Olga e Drácula. A razão, tu deves imaginar, pois, ficou claro quando te salvamos daquele antro. Olga selou, mais uma vez, os umbrais. 

— O que aconteceria, então, comigo? Disseste das sombras... o que significam? — Eu começava a entender. 

— Pelo que sei, havia duas possibilidades. A primeira é, com os sete sigilos em tua pele, assim como tantos outros, tu serias perseguida pelas sombras do Oráculo. Ouvindo seus sussurros e lamentos, sendo guiada a fazer o que ele desejasse... eu diria... enlouquecendo... Em outra situação e, sinceramente, é a mais provável, tu tomarias o lugar de Naomie e Noellie. 

— Por quê? — Surpreendi-me. Ele sorriu com um estranho deboche. 

— Tu sabes que é por causa do teu inestimável poder, Áurea. Isso, decerto, acrescentaria ainda mais valor para as profecias e verdades do Oráculo. Eu não sei o que ele te disse, mas decerto ele já conhecia o teu nome e já sabia o que buscavas. — Ficamos em silêncio. — Áurea... preciso te falar, de novo, sobre o teu poder... — O homem me olhava com uma seriedade pujante. — Tu viste, não é? Que nós a salvaríamos...  

— Não... eu... não fazia ideia... — Fui sincera; algo de estranho havia entre nós, parecíamos nos conhecer, mas eu não me recordava. 

— A vidência pode parecer um dom celeste, entretanto, não há nada mais perverso do que ser capaz de olhar o futuro dos outros e de si mesmo. E eu sei que tu não apenas viste o futuro de Liliana, como interferiste nele; fazendo-a tomar uma decisão que afetou toda a linha do tempo... eu sei, Áurea, eu sei de tudo o que afeta o tempo. 

— Não foi por mal... eu... me assustei quando vi os horrores que ela passaria e imediatamente quis salvá-la... isso nunca aconteceu comigo... eu não sabia como agir... — Expliquei, lacrimante. O homem pareceu intrigado. 

— Áurea... tu sabes quem eu sou? 

— Não... eu sinto muito... — O homem expressou incredulidade e, ao mesmo tempo, espanto. 

— Hum... isso pode ser verdade... — Senti um lapso de tempo, parecia o mesmo que outrora senti quando encontrei Anton. Um clarão súbito e célere. — Compreendo. Compreendo perfeitamente... Áurea, tu precisas abrir os teus olhos e se vincular com a Corphidrae. Sem isso, ambas ficarão entre o sono e a vigília, como se marinheiras de um mesmo veleiro, sem que se conheçam, sob o céu noturno, com duas rodas de leme, sempre opostas. A propósito, mais uma vez eu me apresento, eu sou professor Monm. Manipulo, controlo e compreendo o tempo. — Fiquei um tempo em silêncio, tentando assimilar as informações. 

— Há uma Corphidrae dentro de mim... — Proferi, como se buscasse confirmação de Monm. 

— Não uma, mas A Corphidrae. A última da espécie, a qual deveria ter morrido em teu ritual de transmutação vampírica. 

— No entanto, com a invasão dos Ohrmons, o ritual foi eivado... levando-a ao sofrimento e, de alguma forma, a habitar meu ser... — Mais uma interrogação disfarçada de afirmação. 

— Sim... Tu oscilas entre a personalidade da criatura e a tua própria. — Imediatamente lembrei das palavras de Seth. 

— Então... ela tentou me matar? Levando-me ao Oráculo? — Monm gargalhou, embora tenha se controlado ao ver minha seriedade. 

— A Corphidrae não é a tua inimiga. Ela sabia muito bem que tu não sofrerias o fim que o Oráculo almejava. Estou começando a achar que o Oráculo também sabia. De alguma forma, ambos os poderes, em grandeza, podem ter entrado n’um acordo. E se não me falha a memória, encontrei-te prevendo teu próprio futuro e te dei aquele sermão que tu não te recordas... o que é uma pena, pois, foi digno de aplausos. — Ele sorriu. — Áurea, não tema a Corphidrae. Ela está pedindo para se conectar contigo, caso contrário, tu já terias sido soterrada por ela. Ela é bem mais poderosa do que o teu vampirismo. Ela é uma criatura mítica, não esqueça disso. Criaturas míticas nunca são más. 

Monm estava certo. Os enigmas com minha própria letra, o reflexo no lago; tudo indicava que a criatura mítica estava tentando se comunicar comigo e me ajudar a destruir o oblívio. O que fazia de Seth um verdadeiro farsante, por tudo o que dissera no cemitério. Além disso, Seth revelara que tentei matá-lo, talvez a Corphidrae saiba sobre quem ele realmente é, mais do que eu sei, por isso o atacou quando estava sob controle de minha consciência. Como se não bastasse, o Corvo Esfaqueado, a carta invertida da primeira verdade do Oráculo, falava com clareza de um impostor. Todas essas peças encaixadas, formavam a mais valiosa das compreensões, entretanto, eu não sabia como vincular-me à Corphidrae. 

— Como posso me vincular à criatura? Quem poderia me ajudar? Talvez... Olga? — Questionei a Monm. 

— Olga não pode ajudar-te, Áurea. Ninguém pode. Entretanto, a cada conhecimento e compreensão que adquires, vais abrindo mais clareiras nessa densa floresta do teu ser. 

— Monm... podes me levar a algum momento de meu passado, para que eu me lembre? — Ousei pedir. Seu semblante mudou para consternação. 

— Jamais farei isso... o tempo é perigoso... e a recordação... — Monm parecia olhar para um vazio nadificante. — Pode ser a sentença mais perniciosa da vida de uma criatura racional... de repente tu voltas no tempo, revê com perfeição aqueles que lhe foram importantes... de repente tu queres viver no passado, onde tudo lhe parecia mais fácil... onde todos estavam sentados envolta da mesa, em uma comemoração de Aborom ou Aesttera... entretanto, mesmo lá... a verdade de que tu não pertences àquele tempo, continuará te enlouquecendo... — Monm silenciou. Senti que tudo o que dissera, doía em seu coração, pois, as janelas de sua alma lacrimaram e sua fala se embargou. 

— Desculpe, senhor Monm, não tive a intenção de... 

— Está tudo bem... deixe-me descansar um pouco e... confie em quem tu és. E tome cuidado. — Monm sorriu como pôde e eu o deixei descansar. 

Quando deixei o aposento, precisei sair do Castelo para sentir o ar límpido; sentir o sopro do vento, talvez do tempo. E assim o fiz. O céu estava n’um tom castanho-enrubescido e uma névoa rosé se estendia. O tempo era mesmo diferente naquele lugar... assim como a manifestação da natureza. Caminhei pelo jardim que outrora estive na chuva densa a observar os raios no horizonte azul-opaco; agora as árvores todas tinham folhas secas e, n’uma delas, as folhas ressequidas ganharam tom marfim; assemelhavam-se a papel. Eram belíssimas. Já na fonte, no centro do bosque, as águas tonalizadas pelo céu, hialinas com reflexos carmim, cantavam seus movimentos. Toquei-as, molhando minhas mãos. E vi-me em seu reflexo e reparei... um colar de ouro envelhecido, com um pingente de pérola de lótus negra, descansava em meu pescoço. 

Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
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Láparos

Ela se levantou, estendeu sua mão direita em minha direção. Seus lábios exibiam um sorriso acolhedor, mas que escondia algo. Por fim, acatei seu convite…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Ela se levantou, estendeu sua mão direita em minha direção. Seus lábios exibiam um sorriso acolhedor, mas que escondia algo. Por fim, acatei seu convite, pois ansiava sanar minhas dúvidas. Iniciamos uma silenciosa caminhada. Cautelosa, segui ao seu lado, fascinada e amedrontada com aquele lugar. Sentia uma certa claustrofobia, mesmo o lugar sendo amplo. 

Hipnotizada, observei os gases azulados presentes nos numerosos e delicados tubos de ensaio. O som ininterrupto das engrenagens era nauseante. Até mesmo o ar daquele lugar... O desconforto era nítido em meu corpo, mas disfarcei bem — pelo menos, eu acho. Evelyn... ela me intrigava. Em seus olhos havia uma certa malícia — talvez eu esteja errada, talvez seja apenas sua personalidade —, mas o fato de ela conseguir adaptar suas emoções à medida que conversávamos, como se entendesse meus pensamentos, me deixou preocupada. 

Conforme andávamos, me explicou algumas coisas, como a intensa luz lá fora. Disse que se tratava de dois sóis, um raro fenômeno, uma falha temporal — mas que era temporária. Imediatamente, paralisei ao imaginar aquela luz impetuosa rasgando minha frágil existência. Evelyn viu o horror em meus olhos, mas escolheu não perguntar sobre o meu estado. Sobre as engrenagens, disse que não sabia nada a respeito. Porém, noto um sorriso brincalhão nascer em seus lábios. Em seguida, falou: 

— Não se preocupe, Rose. Talvez nada disso seja real... talvez seja apenas o desconhecido brincando conosco. 

Assenti. Em seguida, vi seus olhos esboçarem um estranho sorriso, mas ignorei. Então, avisto ao longe uma porta. Pergunto-lhe onde daria. Disse que ali geralmente era a saída — e afirmou uma verdade irrefutável: o castelo está em constante mudança. 

Por fim, despediu-se e novamente disse para ter cuidado, pois nunca saberemos o que iremos encontrar. Mesmo tendo minhas desconfianças, gostei de sua companhia. Mas, ao olhar para trás, não a vejo mais. Alguns passos à frente, me deparo com uma porta deveras alta, que se esgueira horrivelmente sobre mim. Ela era abobadada — diria comum. Toco a maçaneta, sinto o corpo pulsar. Abro-a e, para minha surpresa, estou no magnífico salão principal. Sinto-me ínfima neste lugar. 

Inexplicavelmente, o som terrífico das engrenagens sumira. Respirei aliviada. Porém, o castelo estava diferente. Fui abraçada por muitos cheiros. Dentre eles, identifico algumas notas adocicadas de maçã. Não era só isso: percebo também uma fragrância floral bastante sutil, mas marcante. Observei o queimar das muitas velas dispostas em cada parede. Isto me trouxe uma sensação de acolhimento. Porém, o odor ferruginoso permanecia ali, flutuando sobre o ar, tal qual um espectro. 

Não lembro a última vez que andei por aqui. Porém, vejo que alguma entidade cósmica jogou os dados do destino — e aqui estou. Parece que um belíssimo jantar será servido. A enorme mesa de jantar está decorada com impecáveis pratos de porcelana branca com a borda em dourado. Para acompanhar, talheres igualmente dourados. Em volta de cada prato, havia galhos secos vermelho-acinzentado, formando uma guirlanda. 

Há também um encantador caminho de mesa confeccionado em linho, num tom verde-claro. Acima dele, exuberantes flores ocupam toda a extensão da mesa. Elas possuíam um formato peculiar: suas pétalas se fechavam tal qual um ovo, a ponto de ficar imperceptível a união de cada uma. Suas cores eram vivas e brilhantes — algumas alvas como a neve, outras traziam um tom escarlate. Elas pareciam guardar segredos de antigas eras. Estavam também espalhadas por todo o hall. 

Enquanto admirava a enigmática decoração, vislumbro o mover de uma sombra trêmula, descendo lentamente os infinitos degraus da colossal escada. Tratava-se de uma criatura com vestes que remetiam a alguma antiga e sigilosa cerimônia. A túnica negra parecia flutuar conforme caminhava. Ostentava uma horripilante máscara pálida e sorridente de um coelho, com orelhas delgadas. No lugar dos olhos, um vazio abissal. Trazia uma carta escarlate. De maneira cortês, se aproximou e me entregou uma carta. Elevo-a à altura do nariz, e sinto o mesmo aroma de maçã adocicada. Fiquei tão enfeitiçada com tudo aquilo que mal vi a criatura se esvair.

Finalmente, leio. Trata-se de um convite para participar de uma festividade chamada Aesttera. Na carta, explicava-se o significado da celebração. Tudo fascinante. Porém, para mim, não há renovação de ciclos, nem moldar sentidos para uma nova existência — muito menos recomeçar. Mas estou intrigada com o tal Baile de Láparos. Houve menção de que haveria trajes para o baile em meus aposentos.

Dirijo-me rapidamente ao meu quarto. Abro a porta devagar, pois aqui foi palco de fenômenos inexplicáveis. Fiquei mais tranquila ao ver tudo em seu devido lugar. Em minha cama, encontram-se meus trajes: consistiam em uma máscara de coelho e um longo vestido vitoriano preto de cetim, com detalhes de renda no colo e nas mangas. Fiquei encantada com o vestido. Lavei-me e troquei de roupa. Controlei meus rebeldes cachos, coloquei minha máscara e segui em direção ao salão principal.

Apreensiva, tenho um vislumbre magnífico: a celebração havia começado. Todos estavam rigorosamente bem trajados — estavam belíssimos. Os homens, todos elegantes, exibiam seus fraques; e as mulheres, com seus vestidos exuberantes. O salão estava cheio. Confesso que, às vezes, esqueço dos demais inquilinos. Através da máscara, vejo a inquietação de alguns; em outros, permeavam dúvidas e medo; já outros são uma verdadeira incógnita.

Vejo alguém se aproximando — era um garçom, equilibrando taças numa bandeja dourada. Falei educadamente que não queria, porém ele explicou que era um licor das raras maçãs sangrentas. Disse que, devido à maturação das maçãs, um líquido começa a escorrer do fruto, resultando em um espesso licor rubro. Fui persuadida por ele e acabei aceitando.

Em mãos, balancei a bebida, que exalava um aroma doce e tentador. Elevei-a aos lábios. Ao provar, fui tomada por uma excitação. Meu estado alterado foi perceptível. Não era possível... isso seria...? Olhei ao redor. Senti uma sensação estranha de estar sendo observada. Respirei fundo. A taça tremia em minhas mãos. Andei até a rosácea para tentar me distrair. Estava uma linda noite. Elevei meus olhos e vi a luz pálida da lua atravessar a rosácea, resultando em um espetáculo único.

Permaneci ali, assistindo o tênue luar rasgar a escuridão, como se ainda houvesse uma luz no fim do túnel (não para mim, certamente). Tomada por uma desesperança, sorvo mais do doce licor. Porém, algo rouba minha atenção: um pisar firme, longínquo, ecoa pelo salão, acompanhado de um leve caminhar de saltos altos. Também escuto passos apressados. Ao virar, vejo um círculo se formando. Aproximo-me devagar — e então é anunciada uma atração que fazia parte das festividades.

Era uma atração circense: uma arlequina, domadora de Láparos. Ela apresentou truques que desafiavam a lógica — diria, realistas demais. O momento que me causou náuseas foi quando ela tirou cabeças de coelhos da cartola e fez malabarismo com elas. Era possível ouvir, de cada um presente, gritos abafados de horror. Encerrou a apresentação apoiando a cartola na cabeça, arrancando aplausos efusivos.

Não sei se foi efeito do licor ou do truque — contemplei algo perturbador. Da cartola escorria um espesso líquido escarlate, serpenteando por seu rosto maquiado. Tive a nítida impressão de que ela olhava diretamente para mim. Sorrindo, ela se despediu.

Todos ficaram espantados, inclusive eu. O círculo se desfez, e então iniciou-se o baile. Os primeiros acordes da Sétima Sinfonia de Beethoven retumbavam por todo o castelo. A dança começou tímida, mas logo se tornou lascívia. "Preciso de mais uma taça", pensei, observando o baile. Parece que o castelo me ouviu: um dos garçons se aproxima. Devolvo a taça vazia e pego a cheia. Antes de sair, ele disse para não exagerar no licor, pois pode causar alucinações.

Desta vez, senti o gosto adocicado com notas ferruginosas. Meu corpo tremia. O sabor era demasiadamente semelhante. Sorvi aquele néctar de uma vez. Enquanto isso, assisto à dança se tornar frenética, fazendo com que as máscaras adquirissem um aspecto macabro — com aumento das orelhas e a presença de dentes pontiagudos.

Não deveria ter feito isso. Será mesmo sangue?

Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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O Ritual do Vinho

Minerva dormia pairando no reino do inconsciente, ela se via imersa em um sonho inusitado, um devaneio que parecia adentrar a alma…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Minerva dormia pairando no reino do inconsciente, ela se via imersa em um sonho inusitado, um devaneio que parecia adentrar a alma. Sob a cama seu corpo flutuava acima dos lençóis e sua mente a levava até um descampado no centro de frondosas macieiras, por entre estas árvores brotavam as flores Ovaeren que começavam a se abrir, as pétalas escuras de algumas e alvas de outras se desdobrando à meia-noite como se obedecessem a um comando inaudível. O aroma doce e letal incendiava o ar, impregnando cada partícula da atmosfera com um torpor. 

No centro do descampado, dançarinos giravam em círculos, cobertos por mantos esvoaçantes em uma dança ritualística. A dança era precisa, como se executasse um ato profético há muito escrito. Seus movimentos não pertenciam à alegria, mas à servidão de algo maior, de algo que Minerva sentia no fundo de seu ser, algo que chamava por ela naquela noite. 

Em sua visão, ela caminhava em meio aquelas pessoas e seus olhos enxergavam pelo formato amendoado de uma máscara que cobria seu rosto. Os cabelos longos e negros estavam soltos e seu corpo de pele pálida estava livre de qualquer veste. Ela sentia os pés descalços tocarem as folhas outonais espalhadas pelo chão, tocou o próprio rosto sentindo a textura da máscara de porcelana que erguia em sua cabeça orelhas de láparos. Ao tentar removê-la, ela não conseguiu e percebeu que sua respiração ofegava por dentro dela. Uma fogueira estava acesa e o fogo crepitava vermelho quase incessante. 

Aos poucos, conseguia sentir o ambiente ao redor e, sem conseguir pronunciar nenhuma palavra, observou os dançarinos, que entoavam cânticos em uma língua diferente, lançarem palavras que ela desconhecia. Ao seu redor, eles faziam uma ciranda letárgica e macabra. Um arrepio gélido tocou seu corpo, fazendo com que ela abraçasse a si mesma lentamente, passou as mãos frias pelos braços, apertando-os como se tentasse se proteger, sentindo o toque de sua pele estremecer a cada sibilar do vento e as vozes em coro, agressivas e agudas. 

Ela tentava cobrir os seios expostos, envolvendo-se em um abraço trêmulo, enquanto seu coração tamborilava em seu peito. O festejo continuava, mas algo na dança parecia estranho, pois, as sombras dos dançarinos se alongavam, movendo-se com vontade própria, como espectros desprendidos de seus corpos. O cântico crescia, ecoando na noite como um feitiço que ganhava força.  

Então, uma mulher se desprendeu da roda, erguendo os braços em um gesto ensaiado. Em uma das mãos, segurava uma taça de vinho, que ergueu lentamente antes de estendê-la a Minerva, os olhos faiscando sob a luz vacilante das chamas. 

A dança ritualística parou e todos a observavam, Minerva entendeu que deveria aceitar a bebida que foi oferecida. Ao pegar o cálice, suas mãos encostaram nas mãos da outra e elas se entreolharam como se invadissem suas próprias almas com o olhar. Minerva conseguiu erguer a máscara para removê-la apenas naquele momento e levou a bebida aos lábios, ela sentiu o vinho fumegar ao descer pela garganta e sua pele aquiescer, libertando-a de seus pensamentos.  

Ela ofereceu a bebida à outra mulher, que jogou o cálice no chão sem hesitação, os olhos ardendo em intenções. Com passos lentos, a estranha se aproximou, envolvendo Minerva em um abraço firme, quente como um feitiço recém-lançado. Seus rostos ficaram a um sopro de distância antes que os lábios se encontrassem em um beijo agridoce, onde suas línguas dançavam em um ritmo lento, carregado de desejo. Ao redor, os dançarinos permaneceram imóveis, testemunhas silenciosas da volúpia.  

Minerva aos poucos permitiu que seu corpo se inflamasse pelo desejo. As carícias eram rituais silenciosos, percorriam suas costas e roçavam seus seios em um toque que oscilava entre devoção e pecado. Os lábios da mulher traçaram um caminho febril por seu pescoço, degustando sua pele como se absorvesse sua essência. Um gemido velado escapou de Minerva quando os dedos ágeis desceram, desenhando promessas sobre sua carne.  

Ela se deixou conduzir, deitando-se sobre as folhas secas enquanto sua máscara caía, esquecida no chão e quebrada pelo impacto. O tempo se dissolvia entre beijos e toques embriagantes, até que, possuída pelo êxtase, Minerva arquejou, sentindo seu corpo pulsar em calor profano. Seu suor tinha um perfume adocicado, misturando-se ao aroma de fumaça e fogo que envolvia o ritual, como se a própria noite estivesse naturalmente inebriada.  

Ela procurou a outra mulher com o olhar, mas ela havia desaparecido. Os dançarinos agora pareciam estátuas, imóveis, enquanto apenas as sombras se agitavam, dançando ao ritmo da crepitação da fogueira. Um novo calafrio percorreu seu corpo, fazendo-a estremecer sobre as folhas secas, ainda tomada pelo torpor. Então, de súbito, figuras encapuzadas emergiram da penumbra. Elas deslizaram entre ela e os dançarinos, seus mantos negros e carmesins ondulando como espectros vivos sob a iluminação trêmula. 

No rosto, também carregavam máscaras de coelhos com cabeças alongadas, olhos vazios e escuros como poços profundos. Caminhavam em silêncio, organizados, seus passos ecoando de maneira ritmada. Entre as dobras dos mantos, carregavam objetos cuja natureza Minerva não conseguia discernir, mas cuja aura a fazia estremecer. 

Ela tinha participado de um ritual macabro? Um sussurro rastejou em sua mente, indistinto, mas carregado de um chamado irresistível. Algo obscuro pulsava no coração, e talvez, apenas talvez, aquele sonho lúcido não fosse apenas um sonho e ela estivesse consciente de fato.  

Minerva sentiu um frio estranho percorrer sua espinha quando, entre as figuras encapuzadas, um rosto conhecido emergiu. O pálido reflexo da lua escorria sobre as feições delicadas de sua mãe, Nuara, que exibia a face rígida, os olhos inexpressivos, quase vazios, mas indiscutivelmente os mesmos que um dia a acolheram. No entanto, era como se ela não pudesse ver a filha ali, como se aqueles caminhantes estivessem em outra dimensão e seus espectros passeassem entre os mundos.  

Seu coração disparou e um chamado preso na garganta, sufocado pelo torpor da visão e ainda inerte pelos últimos momentos, fez com que ela se levantasse cambaleante. Sem pensar, ela correu até as figuras tentando alcançar o rosto da mãe. Os pés dela afundavam nas folhas secas, mas por mais que acelerasse, as figuras se afastavam como luzes fugidias se apagando. O manto da mãe cintilou uma última vez antes de se dissipar entre os outros mantos.  

Seu coração foi tomado pela angústia que a envolveu como um abraço gélido. O tempo pesou sobre ela, implacável. Quanto tempo fazia desde a última vez que ouvira a voz da mãe? Quando foi a última vez que procurara saber onde estava sua mãe? O castelo a consumira de tal forma que o mundo além de suas paredes se tornou esquecimento.  

E agora, no limiar entre o real e o irreal, Minerva sentia que algo estava terrivelmente errado. Ela caminhava pela floresta envolta em um silêncio que era quebrado apenas pelo sibilar do vento. Os galhos secos, em um vermelho-acinzentado e profundo, estendiam-se como ornamentos retorcidos contra o céu negro, formando um túnel de sombras e espectros que exibiam maçãs vermelhas e que sangravam um néctar viscoso. O ar era denso, carregado de umidade. Então, entre o chão das árvores, corpos de coelhos decepados e inertes juncavam o caminho e, por ali, ela passava desejando acordar.  

 A respiração dela se tornou ofegante ao ver humanoides erguidos sobre patas alongadas, observando-a. Seria aquela visão um delírio causado pelo vinho? Lágrimas escuras verteram dos olhos da bruxa, ela sentia em seu íntimo que aquilo era algo além de sua magia e o desespero tomou conta dela enquanto tomava partida do sonho lúcido, ela sabia que precisava acordar e retornar para si mesma.  

Fechando os olhos ela respirou profundamente por três vezes, acalmando seus pensamentos e buscando a saída, então, Minerva acordou com um sobressalto. O peito subindo e descendo de forma descompassada, o corpo despencou do ar sob os lençóis fazendo-a arquejar de leve. O quarto estava mergulhado em sombras, e seus olhos ardiam, as escleras vermelhas pulsavam sangue. Ela sentia o gosto acre da inquietação na boca, como se a própria essência daquele pesadelo houvesse se impregnado nela. 

A bruxa ergueu-se da cama, os pés descalços tocando o chão frio. O castelo parecia respirar em seu silêncio profundo, os corredores escuros se estendendo como veias. Minerva saiu, os passos ecoando suaves, mas carregados de pressentimento. Foi então que ela parou e ali, no meio do corredor, viu um coelho.  

Os pelos eram negros como a noite sem lua, e os olhos, os olhos eram rubros, ardendo em uma luz maldita, refletindo o brilho de um chamado sobrenatural brilhantes como rubis ao sol. Ele não se movia, apenas a observava, imóvel, como se a esperasse. Minerva apertou os punhos, sentindo um arrepio lhe percorrer a espinha petrificada, estava claro que aquilo não tinha sido um sonho.  

Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Laparus

No sangue e no doce, renasce o profeta, | um coelho vingador, ceifador do planeta. | Laparus, um outrora humano exilado pela ganância e hipocrisia dos homens…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No sangue e no doce, renasce o profeta, 
um coelho vingador, ceifador do planeta. 

Laparus, um outrora humano exilado pela ganância e hipocrisia dos homens, fora amaldiçoado por um ritual secreto realizado por padres corrompidos pela luxúria e poder. 

A máscara, feita de carvalho banhado com sangue de inocentes, 
selava sua humanidade. 
Com a alma aprisionada no corpo de um coelho, 
ele descobre que a única forma de quebrar sua maldição é destruir os daemons
Gerados pela podridão dos clérigos que selaram seu destino. 
No centro desta cena de terror cósmico, 
Laparus encontra pistas de sua maldição: 

Cada daemon derrotado carrega fragmentos de um pergaminho celestial que, quando completo, revelará o segredo do ovo cósmico e o verdadeiro motivo de sua criação. 

Os daemons, outrora humanos, foram deformados por rituais proibidos realizados por clérigos pútridos que, ao invés de servir à luz, se banharam nas trevas da ganância e do pecado. 

Com um golpe, o bispo ao chão sucumbe, 
mil línguas calam-se, o vil sangue jorrando em rumble

Neste enfrentamento, o Bispo das Mil Línguas, um daemon grotesco criado a partir da avareza e da hipocrisia de um alto clérigo, é derrotado em um combate que mistura horror e ironia sombria. Cada golpe de Laparus rasga as línguas do monstro, liberando uma cacofonia de vozes ancestrais que falam de um pacto esquecido entre a igreja e uma entidade cósmica. 

Laparus encontra, entre os destroços do vilarejo, um pedaço do pergaminho que brilha em luz prateada. Ele descobre um nome esquecido: Zorya Polunochnaya, a guardiã da meia-noite, que pode possuir as respostas para o ovo cósmico. 

A guardiã do limiar entre a luz e as trevas, revela que o ovo cósmico é um artefato criado por uma força primordial, muito anterior à igreja e suas corrupções. Ele contém a essência do renascimento e da destruição, e os daemons que Laparus caça não são apenas monstros, mas fragmentos de um todo maior — ecos de uma divindade esquecida, mutilada pela ganância humana. 

A deusa entrega ao coelho um mapa celeste que leva ao próximo ponto da jornada: uma caverna subterrânea onde um daemon guardião, Azgalor, o Devorador de Almas, reside, protegendo o núcleo do ovo. Lá, Laparus enfrentará a verdadeira extensão de sua maldição e os desejos traiçoeiros da máscara. 

A Celebração dos Láparos toma lugar como um espetáculo dual — vibrante e melancólico — onde a vitalidade das danças e o mistério das máscaras escondem os temores profundos de um povo que luta contra a estagnação. 

A bebida principal, o vinho da Maçã Sangrenta, é uma metáfora do ciclo de vida e morte, enquanto as flores Ovaeren, colhidas pelas crianças, reforçam a noção de esperança e fragilidade. 

Elyni d’Ann, com seu vínculo inquebrantável com os láparos, observa a festividade de longe, séria e introspectiva. 

Para ela, o Outono sempre foi uma época de tensão. 

Muitos dos coelhos que protege são caçados ou sacrificados em rituais secretos durante Aesttera. 

Ela sabe que, sob o manto da celebração, há também dor e sombras. 

Ainda assim, o simbolismo da resistência a inspira, pois mesmo na mais árida estação, há flores que desabrocham. 

Enquanto Elyni e Laparus caminham entre os encapuzados, ela percebe que a dança-ritual não é apenas um símbolo de resistência, mas um mecanismo ancestral que sela um portal. Sob o centro da festividade, o chão começa a rachar, revelando uma fenda vermelha e pulsante, um limiar entre mundos. 

As máscaras de láparos usadas pelos dançarinos vibram com uma energia sinistra, e Elyni entende que elas não são meros artefatos culturais. São instrumentos ligados à maldição de Laparus, símbolos de um pacto antigo feito para conter os horrores aprisionados no Ovo Cósmico. O vinho da Maçã Sangrenta e o néctar de Ovaeren são parte de um feitiço contínuo para evitar que a fenda se abra completamente. 

Os dançarinos começam a cair em êxtase ou convulsões, como se algo estivesse roubando suas energias vitais. Elyni agarra o amuleto de pedra lunar que carrega, tentando conter a energia que emana do portal. Mas Laparus sente algo mais — a máscara em seu rosto começa a se aquecer, a voz de uma entidade antiga sussurra através dela, incitando-o a agir. 

O portal se abre parcialmente, e figuras monstruosas começam a emergir. Elyni deve decidir se confia em Laparus, mesmo com a máscara parecendo controlá-lo, ou se tenta fechar o portal sozinha, arriscando sua vida. O destino dos láparos e da terra depende dessa escolha. 

Elyni percebe que os participantes, tomados pelo êxtase, estão oferecendo mais do que emoções. Sob a superfície do ritual, há uma transferência energética que alimenta o portal e as entidades aprisionadas. Talvez, ao investigar mais profundamente, ela descubra que o Ovo Cósmico, ao contrário do que Laparus acredita, nunca foi uma prisão... mas um casulo de nascimento.

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Alice: No Denso Arvoredo

A densa floresta acastanhada, honrava um outono etéreo e silente. Uma atmosfera enevoada, do mesmo tom borgonha…

38 minutos de leitura

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A densa floresta acastanhada, honrava um outono etéreo e silente. Uma atmosfera enevoada, do mesmo tom borgonha, pairava, porém, rarefeita, como um gás envenenado em tom alizarina e marsala. O céu era um deserto amarfinzado, aquecido com um malva envelhecido, quase abronzeado. A brisa contornava as folhas ressequidas e, mesmo caindo, muitas permaneciam em seus frondosos galhos, mostrando a grandeza imensurável do arvoredo, com copas gigantes e altas como um titã. Alice despertou sabendo quem ela era, entretanto, pouco depois, quando ergueu seus olhos à paisagem, turvou-se na sublime apreciação amedrontadora e, então, se esqueceu. 

A grama terracotta, pó de flor emurchecida, parecia abraçar intencionalmente os pés descalços de Alice; conforme ela se movimentava, lentamente a relva a envolvia. “Não… não consigo me lembrar… como posso estar aqui? O que é este lugar?” — Sussurrara quando seus olhos pousaram no horizonte pálido e no oceano que, brando, parecia enegrecido. Sob a guarda de um céu rosa-empoeirado e sob um sol vermelho-pastel, Alice tentava entender a razão pela qual ela estava ali, naquele longínquo e ameno oásis. Um grande veleiro parecia atracado na costa, onde mais havia areia do que relva; parecia perto, entretanto, estava embaçado à visão como uma miragem. O coração de Alice apertou-se de emoção por algo incompreendível, porém, de súbito, algo lhe chamou a atenção. 

Um coelho branco de três olhos escarlate e corpo esguio, emergiu da frondejante floresta mastodôntica, enquanto a curiosa Alice o observava, percebeu que adentrar a floresta não só seria uma aventura, mas, talvez, um labirinto pernicioso. O coelho era um pouco mais alto que Alice e bem mais baixo que as copas de folhas vermelhas hexagonais. Ele parecia apressado, era bípede, embora encurvado em sua coluna; seus grandes dentes afiados eram terríficos e o pêlo macio, níveo e fino, era como a gramínea. A criatura saiu da floresta, cavoucou n’uma parte de terra úmida, onde a gramínea era frágil e, dali, retirou um relógio de bolso. Fugaz, adentrou à floresta em seguida — parecia não ter visto Alice. 

A aparição de tal animal sinistro, embora assustadora, deu à Alice uma sensação de que a criatura tinha tanta pressa que, certamente, pouco se importava com intrusos iguais à Alice e, portanto, não lha faria mal. Além disso, a fez pressentir que, se é possível que o coelho de três olhos vermelhos saia do bosque colossal e para ele retorne quando bem entender, então, decerto, ela também poderia — em especial se seguisse o rastro do bicho. E assim o fez. 

Como o coelho era alto, ao afastar os arbustos e pisar, finalmente, no bosque; ainda era possível enxergá-lo ao longe, pois, por seus passos tão fugazes, ele alcançava uma distância considerável em átimos de tempo. Suas brancas orelhas peludas se destacavam, em especial, por causa das cores outonais opacas e rúbidas de toda a floresta. Deste modo, Alice o acompanhava, porém, por infortúnio, a criatura era, de fato, muito mais rápida que ela e, em segundos, Alice viu-se no arbóreo denso, sem nenhum tipo de sentido para guiá-la. O coelho desaparecera. Os sons florestais eram brandos e as copas altíssimas, tanto que nem mesmo o céu era visto de baixo; Alice sentiu-se minúscula. 

— Certo... quão estranho... continuo sem compreender! — Conversara consigo. — Algo me falta, no peito; como se meu coração pulsasse diferente ao qual pulsara desde que nasci... entretanto... como posso distinguir essa pulsação se nem me recordo onde nasci? Pareço não saber quem sou e, ao mesmo tempo, algo sou capaz de intuir... uma pena que esse algo não seja o caminho certo. — Alice olhou para o derredor, buscando o rastro do coelho sinistro. — Nenhum rastro, nem para retornar à costa, nem para seguir adiante... e o que é o “adiante” nesta vasta catedral perenifólia? Intrusa, eu mesma, em um labirinto de fauna e flora, sem nenhuma clareira, sem céu e estrelas que indiquem sul e norte... Parece-me que não sou necessária aqui... ouço pássaros, porém, nenhum pousa próximo; ouço criaturas indistinguíveis, contudo, cá estou, sozinha; nenhuma delas rasteja na gramínea que acolhe meus pés. 

Alice estava sentada naquele instante enquanto se afogava em seus infindos pensamentos. E continuava: — Talvez, como intrusa, deva ser expulsa. Entretanto, ó, quão irrelevante eu sou que sequer faz diferença que eu cá esteja ou não. E se sou irrelevante para a vida entorno, por que vivo? Por que há vida em mim? Sem um sentido para caminhar no bosque titã, sem importância, sem valor... sabemos o valor que temos somente quando alguém nos diz, é isso! — Alice olhou para cima. — Alguém pode me dizer o sentido e o valor que eu tenho? — Gritou o mais alto que pôde. Seu brado causou algum alvoroço, porém, apenas para que um fruto, já muito maduro, vibrasse com as ondas sonoras e, então, caísse lá do alto da copa de alguma das árvores gigânticas. Demorou um pouco para cair ao lado de Alice e espatifar-se no chão, banhando-a com seu méleo caldo. 

Alice assustou-se profundamente; suas roupas, pele e cabelos, mancharam-se de uma cor carmim-abismal e antes, pálidas como o Anti-Ártico, agora mesclavam-se em um escarlate-ferroso e bege. “Que horror!” — Bradara pelo susto. Sentiu-se instigada, entretanto, a experimentar o fruto, cujo aroma era embalsamado de dulçor cítrico. Assim o fez, embora se questionasse sobre tratar-se de um fruto venenoso. “Se assim o fosse” ela respondeu à sua própria pergunta “não seria realmente sedutor aos meus olhos, certo?” perguntou a si mesma. 

— Se fosse um fruto perigoso, eu não seria cativada... a menos que o fruto fosse capaz de mentir... se assim o fosse, como o faria estando espatifado assim? Não vejo espinhos em sua casca, como os abacaxis. Na verdade, vejo lanugem, como um pêssego. Embora seja tão maior que um pêssego, na verdade, é maior do que minha cabeça! — Alice tocou com seu dedo indicador na carne do fruto espatifado e, logo, levou aos seus lábios. Era delicioso. 

— Méleo... adorável... cítrico... suave... meio ameixa... meio caqui... meio...— Fechou seus olhos e apreciou um pouco mais. Quando os abriu novamente, algo havia mudado. — Um rio? — Questionou à sua solidão. Alice ouviu algo como um rio ou uma cachoeira; águas correntes que outrora não havia prestado atenção, talvez porque estava demasiado dentro de si mesma. Só pelo som, sentiu-se com intensa sede. Levantou-se e caminhou em busca da fonte, uma nascente cristalina. E encontrou. Um riacho sutil embargava águas translúcidas, embora, com sutileza, enrubescidas pelos tons florestais; as águas cursavam um caminho tortuoso e, pelo seu rastro, pedras foram se formando ao longo de incontáveis anos. 

— Tem gosto de água... — Dissera, sentando-se à beira do córrego. Respirou fundo enquanto ouvia a sinfonia líquida — Agora que comi o que me parecia comível e bebi o que bebível me soava, voltei à infeliz verdade... não tenho nenhum sentido que me mostre o que fazer, como fazer, para onde seguir. Posso caminhar à beira erma d’esta corrente, sem propósitos definidos, entretanto, estaria desperdiçando meu tempo com algo sem nenhuma razão de ser. Se eu encontrar uma lógica para fazê-lo, então, o farei. — Silenciou-se esperando que a lógica de materializasse à sua frente, entretanto, o contrário é que foi visto aos seus olhos âmbar. 

Uma porta ornamental e dourada estava escondida na escuridão de uma parte ainda mais densa em arbustos avultados e complexos; o que não tinha lógica alguma, decerto, muito menos razão de ser. Sendo Alice a menor das criaturas, até então, naquele santuário de fauna e flora ancestral, como pode a porta ser do tamanho de Alice? — Ou cresci ou estou delirando... — Sussurrara. Caminhou se esgueirando nos arbustos e notou que, aquela espécie de planta tinha folhas e galhos que se faziam como um muro ao redor do umbral, se contorciam entre si formando um imenso bloco intranspassável. Diante à primeira porta, Alice tentou abri-la e... abriu facilmente. Porém, havia outra porta e, depois, outra e, mais umas e outras tantas. 

Depois de um túnel de portas, quando o lume da floresta atrás de Alice já estava dilatado e ela estava exausta de girar maçanetas, uma das portas estava trancada. “Que ótimo” ela ironizou “tudo isso para nada... ora... eu bem sabia que não havia nenhuma lógica nisso tudo e, portanto, eu não poderia e não devia gastar meu tempo...” reclamara. Com profunda exaustão em retornar ao bosque denso, sentou-se ali mesmo, de frente ao umbral trancado e, então, segurou suas pernas para conseguir sentar-se, pois, era um túnel bem estreito. 

— Não adianta... não vale fingir que há um rumo para seguir; tudo se faz de forma aleatória e vazia, não há profundidade em nenhuma decisão que se pauta sobre um talvez e mesmo se formos motivados pela esperança, esta é, sem dúvida, a maior das mentiras; com esperança vim aqui e com ela me estorvei. De que adianta caminhar sem rumo, só por caminhar, insistindo na ausência de sentido real, para chegar a um fim que é, pois, uma porta trancada? — Alice esperou uma resposta e silenciou. Suas lágrimas nasceram como o córrego que, de súbito, ouvira há pouco. E caíram salgadas sobre o chão de terra. Alice chorou de olhos fechados, uma cachoeira se fazia em seu semblante; e ela soluçava. 

Assim que se cansou de chorar, abriu seus olhos âmbar e viu que, onde a terra umedeceu-se pelas lágrimas, brotos verdejantes germinaram. Tinham caules pequeninos e duas pequenas folhas no cimo, às vezes três, curiosamente uma acima da outra, formando um estranho padrão. Eram rígidos, porém, macios; um pouco porosos e, tal como o fruto que caíra, tinham lanugem. Ao tocar em um dos caules, ele se quebrou; era frágil e, na mão de Alice, ressequiu em segundos. Era um de três folhas. Por pareidolia, parecera uma chave de carvalho assim que murchou. Alice, então, adicionou o caule na fechadura e a porta se abriu. 

— Isso não faz sentido... — Murmurou, tocando na maçaneta. Detrás da porta: mais floresta, entretanto, ainda mais fechada e nebulosa que antes. Havia quatro caminhos, feitos de ardósia vermelha, à disposição de Alice. Para lados diferentes e, por vezes, opostos. Pareciam longos e, portanto, impossível escolher mais de um para saber o que esperaria no fim. Alice sentou-se sobre uma pequena rocha na divisa entre todas as estradas e esperou sem saber o que esperava. — Estou ficando cada vez mais triste... por que há tantos caminhos? Não seria mais simples apenas um? Por que não colocar placas que indiquem o que haverá no fim de cada estrada? Assim a escolha será justa e ponderada! 

Enquanto falava, um gato preto, com listras marfim em sua fronte, grandes olhos pálidos, um cachecol de folhas secas e um imenso sorriso, com dentes pontiagudos, de ponta a ponta em seu semblante, apareceu entre os galhos de uma árvore anã. Alice o olhou e, por segundos, teve a sensação de que ele não pulou nos ramos para ser visto, ele simplesmente apareceu após estar translúcido, de alguma forma. Tudo ao redor estava estranho e meio embaçado. Ele sorria de maneira macabra, mas Alice estava sem perspectivas, portanto, não se intimidou com a presença ilustre do felino — ela pensava que, se ele fosse alguma criatura má e violenta, ao menos acabaria com a ausência de sentido que ela tanto sentia em sua alma, libertando-a por fim, com a morte. 

— Olá, Alice. — Disse o gato. Os olhos dela se arregalaram ao ouvir aquela grave voz falando o seu idioma. 

— Gatos não falam! — Proferiu, esfregando seus olhos. 

— Estou falando, não estou? 

— Sim, está, mas é loucura, é claro que é loucura! 

— Se tu estás me ouvindo, então tu és, decerto, completamente louca. — O gato lambeu-se. 

— Não! — Gritou Alice. — Tu que és o louco! Pois estás falando! A culpa não é minha por ouvir o que dizes! — O gato sorriu ainda mais e silenciou, voltando a lamber seus pêlos lustrosos. Alice percebeu que, se não falasse com o gato, não poderia saber o que fazer e para onde ir. A ideia a conturbava e a irritava, falar com um gato lhe era constrangedor. Mas, de fato, aquele felino era diferente dos outros; ainda assim, Alice odiava a ideia de estar enlouquecendo e isso a impedia de retomar a conversa com o gato. Seu esforço para mudar de opinião foi tão grande que, somente no desespero da sua falta de sentido, ela foi capaz de ir contra todas as suas angústias. 

— Ah, tudo bem. — Ela disse, bufando. — Por favor, me ajude... qual dos caminhos de ardósia rubra eu devo seguir? — O gato deitou-se, olhando para Alice. 

— Depende, onde queres chegar? 

— Não tenho sentido, não sei para onde ir e muito menos onde quero chegar. 

— Neste caso, qualquer caminho serve. 

— Não é verdade! Se escolho este — Alice apontou para o caminho à direita — posso chegar a um lugar desagradável e ter perdido meu tempo caminhando. 

— Então, tu só podes escolher um caminho se souber o que há no final dele? 

— Exatamente! — Disse, orgulhosa. O gato gargalhou. 

— Isso é coisa de louco! — Disse o gato. Alice se enraiveceu. — Ora, é loucura caminhar apenas se houver uma certeza; toda a certeza é inútil e falsa, logo, tu nunca poderias escolher um caminho, pois, mesmo que tivesses certeza de onde chegaria, não sabes absolutamente nada do que encontrará enquanto andas. 

— Mas... — Respondeu Alice, nervosa. — Se sei que chegarei em um lugar agradável, consigo suportar os caminhos difíceis, não? Guiada pela esperança. 

— Hum... achei que a esperança era uma mentira... — Parafraseou o gato que, agora Alice sabia, escutava-a a todo o momento. 

— Bisbilhoteiro! Se me ouvias, por que não se manifestara? — O gato apenas se lambeu e sorriu. — Olha, a esperança é uma mentira quando acreditamos nela sem nenhum filtro; quero dizer, acredito que nesse caminho há algo bom, e durante todo o trajeto, por mais angustioso que seja, continuarei acreditando. Logo, chegando ao fim dele, descubro que não era bom. A esperança destruiu tudo! Sem ela eu poderia ter desistido e me guiado para uma direção menos amarga. Agora, se tenho certeza de que há algo bom, a esperança faz sentido! 

— Que chatice... — Ele disse, irritando Alice. — Viver baseando-se em sentidos e certezas é a coisa mais chata que já ouvi.  

— Ah, é mesmo? E como tu vives, senhor Gato? — Ela cruzou os braços e ergueu seu rosto, duvidando do gato sorridente. 

— Eu? Vivo pelo que me cativa. — Ele respondeu sem hesitação e bastante concentrado em lamber seus pêlos. 

— E o que te cativa? — Insistiu Alice. 

— Viver. — Respondeu o gato, sem alardes, enquanto espreguiçava. Alice ficou em silêncio. 

— Como é possível se cativar pela vida em si mesma? Principalmente se os arredores são hórridos e decadentes? Se os caminhos são tortuosos, se não há nada que signifique algo em seu coração? 

— Justamente. Se a vida em si mesma é suficiente, por mais que lhe venha de encontro no pior de suas manifestações, ainda assim, tu encontrarás algo de valor nela, pois tu a compreende e, sendo a vida instável, variável e efêmera, e admirando-a por tudo isso que ela é, não esperarás que ela seja diferente do que é e lidarás com suas características com bastante empolgação.  

— Mas... aceitar em silêncio as condições hórridas da vida, é um martírio! Caçar preciosidades na lama dos porcos, é humilhante! 

— Alice, nem uma árvore aceita em silêncio as condições precárias da vida! Ela sempre encontra novas formas de burlar as turbulências, isso é uma característica que só é possível na vida. Cativar-se pela vida é aprender a conviver com ela, ajustando-se e sabendo lidar com suas manifestações. Por exemplo, digo-te que, vá à direta; e encontre o Artesão de Aspecto. Ou à esquerda, para a toca do Láparo Esguio. E tu, agora, cativada pela vida, vais não pelo Artesão, tampouco pelo Láparo, vais pela descoberta do que há no caminho até lá; ruim ou bom, difícil ou fácil. A graça está em saber lidar com a surpresa do que há de vir. 

Alice ponderou por um tempo. 

— O Artesão e o Láparo são confiáveis? — O gato gargalhou por notar a insegurança que Alice ainda possuía. 

— São malucos como tu és, como eu sou. 

— Eu não sou louca! — Lamuriou Alice, outra vez. 

— É o que dizem os mais loucos. — Afirmou o gato, sorrindo e translucidando, sumindo como poeira cósmica. 

— Ei! Volte! — Bradou Alice, sozinha outra vez. — Não entendo... 

Na bifurcação dos caminhos feitos de ardósia escarlate, Alice observava. Ao além, na perspectiva de cada rumo, apenas a névoa rosé. A escolha deveria ser feita de qualquer maneira, mas, para Alice, o que mais pesava eram os seus pensamentos e não as decisões que precisava tomar. Mesmo e apesar dos conselhos do gato sorridente, algo sobre o sentido da vida ainda lhe perturbava e encontrar uma lógica perfeita para suas ações era-lhe sempre a única opção plausível. 

— Vou para o Artesão porque já vi o Láparo e ele sequer notou minha presença. — Murmurou para si, enquanto caminhava. — Mas não sei o que direi ao encontrá-lo e esse caminho parece-me maior do que previ. Sinto falta de ver o céu. — Alice olhou para cima, parando de andar por um instante. As copas altíssimas continuavam ocupando todo o firmamento, como se as constelações fossem folhas e, muitas delas, caíam com profunda lentidão, desprendendo-se das árvores e levadas pela brisa vaporosa. Por olhar para tão altas estruturas, sentiu-se um pouco inquieta. — É assim que se sente uma formiga? Posso ser pisada a qualquer momento... — Alice voltou a caminhar. — Se não tenho sentido, tanto faz ser pisada. — Disse e logo lembrou-se das palavras do gato. — A diversão está mesmo no caminho? Olhe só para isso, uma longa estrada com essa névoa baixa, sem nada acontecendo. É bem tedioso e solitário. Qual é a graça? Nada aqui é capaz de cativar! E, pior, meus pensamentos parecem mais altos aqui. 

— Ei! — Alice ouviu e, de imediato, parou e olhou para trás, para os lados, ninguém. — Aqui embaixo! — Disse a voz envelhecida e fina. Ao olhar para baixo, Alice viu um rato deveras estranho; um longo rabo bege, dentes humanos, sete orelhas, 4 patas com seis dedinhos finos em cada; seus pêlos cinzas não completavam todo o seu corpo, pareciam falhos em partes. A verdade é que Alice achou a criatura horrível. — Oi, olá! É... te importarias em nos dar uma carona? — Disse o rato. Detrás dele, dois outros ratos surgiram, um deles era um pouco menor; o outro tinha uns caules de trepadeira presa à cabeça, dando-lhe um aspecto de cabelo cacheado. Alice odiaria segurá-los em suas mãos. 

— Ah... eu... não me sentiria confortável... sinto muito... — Explicou, sendo a mais delicada que pôde. 

— Teu vestido é enorme! Ponha-nos na barra e nem sentirás nossa presença. — Disse a voz rouca do rato de cabelo de caule. De fato, o vestido de Alice era longo e arrastava-se pelo chão. Mas os ratos pareciam sujos e isso a incomodava. 

— Eu não posso, o vestido pode rasgar.... ah... para onde ireis? — Tentou mudar de assunto para evitar o conflito. 

— Precisamos achar uma nova casa. 

— Nós esquecemos onde estava a última... 

— É... esquecemos... — Disse o rato menor, pela primeira vez, bastante frustrado. 

— Como se esquece onde está sua própria casa? — Alice estava incrédula. 

— Ora, tu sabes onde está a tua? — Ao tentar se lembrar de sua casa, Alice sentiu-se triste como um abismo que lacrimeja solitário por sempre levar à morte aqueles que nele se aprofundam. 

— Eu não sei... mas... eu não a perdi... apenas não me recordo... — Os ratos riram. 

— Isso é esquecer, oras! — Caçoou um deles. 

— Por que sois tão vis? — Indagou Alice, com a voz trêmula. 

— Não somos vis... não precisa se preocupar, tu podes criar, como nós, um lar novo! Basta que encontres um lugar à sombra, bem arejado. 

— É, bem arejado. 

— E que tenha comida próxima! — Alice se irritou ao ouvi-los. 

— Não é assim tão simples quanto respirar! Encontro um lugar bem arejado e ele se torna imediatamente a minha casa? Então posso dizer que essa estrada é minha casa? Uma casa precisa de algo a mais... — Os ratos se entreolharam. 

— Uma casa é só uma casa... o que tu estás dizendo, altíssima? 

— Digo que uma casa é, essencialmente, um lugar em que o sentimento de segurança e pertencimento estão. 

— Eu me sinto seguro comigo... e pertenço a mim! — Disse o primeiro rato. 

— É, eu também! — Falaram, em uníssono, os outros dois. 

— Então somos nossa própria casa? 

— Guardamos a comida na pança! — Zombou o rato menor, levando seus familiares à gargalhada. Alice respirou fundo e voltou a caminhar, apressada. — Ei, espere! Altíssima! Dê-nos uma carona! 

— Darei se me alcançarem! — Alice correu sem olhar para trás e, em poucos instantes, os ratos a perderam de vista e ela pôde voltar a caminhar. — Que criaturinhas insolentes! — Reclamou Alice, ela odiava o fato de saber, no fundo, bem no fundo, que aqueles ratos sujos estavam certos. — Voltarei para meu lar... em algum momento... deixarei esse lugar e voltarei e me lembrarei. Um recôndito onde há os sentimentos que serenam a alma e significam a existência. Esse alarde de que não precisamos de sentido e que qualquer lugar pode ser uma casa, prova tão somente o quão superficiais são esses animais falantes! — Alice esforçava-se para argumentar conta os ratos e o gato, mesmo eles não estando mais presentes. — De que adianta ser capaz de pronunciar palavras, mas só pronunciar palavras tolas? Que superpoder inútil! — Alice começou a imitar a voz rouca e fina dos ratos. — Olha, olha, eu posso falar, eu estou falando, mas só sei dizer asneiras; eu só falo bobagem, mas ouça, ouça, ouça-me! Eu falo alto, meu falatório irritante, palavras gastas, perdidas, amassadas! — Alice gargalhou de si mesma por imitar os ratos falantes e após rir por bons minutos, pensou que não se sentia segura consigo mesma tal como os ratos e, da mesma forma, parecia não pertencer a si. Perceber isso a deixou bastante magoada. Quando ela avistou o que lhe parecia, pois, uma casa, distraiu seus pensamento merencórios. 

O clima transfigurou-se estranhamente; como se um peso pairasse, densificando e enegrecendo o derredor. Próxima à casa, Alice notou a névoa mais vermelha e um aroma peculiar de queimado lhe atordoou célere. Por um momento, hesitou em bater à porta da casa de madeira escura, pois, algo de fato lhe parecia errado ou, talvez, apenas pouco convidativo. A verdade, no entanto, era que seus pensamentos lhe convenciam de que, se Alice não se lembra de sua casa, não pertence a si e tampouco possui um sentido, então, por que não arriscar sua própria vida? Eles diziam: “Vá, Alice! Não há nada a perder, não há a quem voltar”. E Alice os ouvia, pois estava acostumada a ouvi-los. 

Dois toques na aldrava e, pouco depois, o que parecia um homem, um pouco mais alto que Alice, surgiu. Ele vestia uma grande cartola, roupas estravagantes, e seu rosto era amedrontador; parecia usar uma máscara com retalhos de pele. O odor tostado vinha do interior da casa e mesclou-se ao bálsamo do homem, algo que beirava a sândalo, âmbar em notas de fundo, talvez algo mais terroso e sanguíneo nas notas de coração — até provável haver uma tênue exposição nicotinoide. Era embriagante e, ao mesmo tempo, perturbador. 

— Uma dama aos meus umbrais?! — A voz do homem era como um cello fundido ao canto gregoriano. Alice reverenciou-o, abaixando-se; e logo voltou a fitá-lo. O homem a cumprimentou, beijando o dorso da delicada mão de Alice. — Por favor... — Convidou o Artesão, mas Alice fitou o interior escuro da casa e logo hesitou. 

— Eu agradeço... a gentileza... senhor Artesão, entretanto, vim tão só de passagem, para compreender um pouco mais sobre este estranho lugar. — O homem pareceu compreendê-la. 

— Então sente-se. — Indicou para Alice as cadeiras à mesa, próximas da casa, dispostas no jardim murcho e seco. Sentaram-se. — Não és daqui, pelo que vejo. Então de onde és? — Alice ouviu e, tão logo, notou que de fato se tratava de uma máscara, pois, os lábios não se mexiam quando o homem falava. 

— Não sei ao certo... lembro-me de despertar na costa, ter uma visão estranha de um veleiro... — Lembrar do veleiro embaçado, trouxe o aperto ao coração de Alice. — E, depois, adentrei à floresta logo que vi um coelho esguio de três olhos... 

— Hum... claro... e o que buscas, senhorita? Um corvo empalhado? Uma escrivaninha perfeita? Ou talvez... um sentido? — Alice arrepiou-se, tanto pela voz tétrica, quanto, essencialmente, pela última indagação do homem. Os olhos dela se arregalaram de súbito. — Sou um Artesão raro, posso te ajudar com tudo e... muito mais. 

— O... o gato... te contou? — Proferiu Alice, inócua. 

— Chesir? Não o vejo há um tempo. Tu encontraste a criatura? — O homem conversava como um Dom e mantinha-se bastante estático. 

— Ele se chama “Chesir”? — Alice questionou mais a si mesma, enquanto ponderava a razão pela qual o gato não se apresentara a ela. 

— Sim... E eu sou Thez, o Artesão de Aspecto.  

— Eu sou Alice... — Revelou. 

— Alice... — Sussurrou o homem, aproximando-se um pouco mais. Alice sentiu-se incômoda, pois a presença do Artesão era persuasiva e densa como o derredor e o interior em breu daquela casa de madeira. Ela não saberia descrever o que sentira, mas eu sei bem, uma atração pelo Artesão a envolveu de súbito. — Belíssimo nome... 

— Se não falas com Chesir há tempos, como sabes sobre o sentido? — Thez encostou-se novamente no espaldar da cadeira e Alice sentiu-se tímida. 

— Todos buscam um sentido, senhorita; é previsível daqueles que pensam, sentem e, em especial, desejam. Sou capaz de moldar um rosto para a Dama, esta face lhe trará sentimentos e pensamentos, emoções e razões para uma vida completa, sem que tenhas que escolher, sem que tenhas que aprender. 

— Mas... eu gosto de minha face! Não quero trocá-la, embora não me lembre ao certo como ela é.  

— De fato, teu rosto é... encantador. — As bochechas de Alice coraram. — Não te preocupes, entretanto, senhorita; sou capaz de dar-te um aspecto sem que sua aparência seja ofuscada. Basta confiares em mim. — O aroma capitoso do homem, não proporcionava confiança para Alice, embora fosse agradável de sentir, suas notas continuavam a inquietá-la. 

— Como isso é possível? — Ela duvidou. 

— Dar-te um aspecto ou ser, a ti, confiável? — Embora o rosto de Thez não pudesse ser visto, ele parecia sorrir. 

— Ambos, senhor. Sobre dar-me um aspecto, embora eu seja uma mulher adulta e ciente de minhas decisões, sei que este lugar até então foi contra tudo o que é racional e, portanto, não há como não questionar essas verdades. Sobre confiar em ti... pois... é impossível! Eu não vejo sequer o teu rosto. — Alice aguardou uma resposta, mas Thez ficou uns minutos em silêncio até que, então, decidiu levar sua mão ao rosto e logo retirou sua máscara de pele retalhada. O Artesão era mesmo um homem, entretanto, seus olhos eram de um tom malva-empoeira brilhante, tão símil a tudo naquela floresta; sua barba era delineada em um cavanhaque, arredondada no queixo e pontiaguda próxima aos cantos dos lábios. Contornava seu maxilar em destaque. Seu semblante era sério e sua beleza era inquestionável, muito diferente da bizarra máscara que usava, porém, ainda capitoso, sutilmente, impudico. 

— Tu... tu és mesmo um homem! — Exclamou Alice, perplexa e instigada. 

— Há muitas formas de provar-te que sou um homem, senhorita Alice; retirar minha máscara é a mais... decorosa... das formas; entretanto, receio que não seja o suficiente para que confies em adentrar meu Ateliê; por isso proponho que tragas um conviva contigo. — Alice ponderou. Thez não parecia louco como dissera Chesir e, àquela altura, para Alice, talvez ele não fosse tão perigoso quanto aparentava. 

— Não sei se poderia; desde que adentrei esta frondosa floresta, vi o coelho, o gato Chesir, um trio de ratos enfadonhos e nojentos... e por fim... um Artesão. — Thez semissorriu e, antes que alguém continuasse o diálogo, uma raposa surge, com um vestido de gala; ao seu lado: Uma fuinha marrom e muito, mais muito, muito mesmo, muito peluda. 

— Aem! — Saldou a fuinha, para Thez. Parecia uma saldação e Alice compreendeu assim. Sua voz era doce e muito fina, como a superfície de uma nuvem. 

— Eu estava dormindo, acredite ou não. Estes tempos loucos estão bagunçando meu ciclo de sono. — Tagarelou a Raposa. Alice estava profundamente confusa. 

A fuinha se sentou em uma das cadeiras, mas, como era pequena — menor bem menor que Alice — ficava apenas com seus olhinhos à vista na mesa. Thez que era o mais alto, com um metro e noventa. A raposa sentou-se ao lado de Alice, elegante e calma, como uma dama, todavia, antes mesmo que ela pudesse se acomodar, o Lápago Esguio colocou três coelhos pequenos, mortos e ensanguentados sobre a mesa; assustando a todos, em especial Alice. A seiva rubra esguichou em todos os rostos. Alice sequer viu de onde veio o Láparo. 

— Ah! Que deselegante! Por todos os corações empalhados, tenha mais educação! — A raposa levantou-se, segurou os coelhos e caminhou em direção à casa de Thez. — Vá buscar a pimenta, ande! — Os coelhos pingavam sangue pelo caminho. A fuinha pensou que o pedido de pimenta se direcionava a ela, então decidiu partir, embora não quisesse, pois, a figura de Alice lhe parecera interessante. Além disso, era timida demais para contestar a raposa. O Láparo, incompreensível e apressado, apenas foi embora. — Iniciarei o cozimento do jantar. — A raposa disse e, logo, fechou a porta. Alice estava sozinha com Thez outra vez; ambos demoraram para iniciar o diálogo e Alice compreendeu o porquê todos pareciam loucos. Quão estranho era todo aquele movimento e ninguém sequer perguntou quem era ela. 

— Vulpia prepara as refeições noturnas aqui... — Proferiu o Artesão. — Pegue isto. — Ele ofereceu um lenço para Alice que, tão logo, o aceitou, para limpar o sangue de seu rosto. — O Láparo não é muito atento ao que faz... — Amenizou Thez. — Além de estar sempre apressado... — Pouco depois, o Artesão se levantou. — E a fuinha é bem tímida. — Explicou. — Venha. Deixe-me mostrar-te meu ateliê; Vulpia estará na cozinha, portanto, não precisas temer... não estaremos à sós. 

A casa era escura, entretanto, Vulpia parecia destinada a manter o local mais aceso, pois, abriu todas as janelas e acendeu mais velas. Alice seguiu ao lado de Thez e logo foram ao quarto-ateliê, um aposento artístico e sinistro. Em seu interior, incontáveis máscaras pendiam na parede, como quadros. O cômodo era frígido e Alice tremia. O Artesão a cobriu com seu casaco, explicando que, em razão do poder fascinante das máscaras, o ambiente arrefecia de forma natural. Alice não conseguia compreender, mas estava atenta. 

— Todos os rostos possuem parte das almas das criaturas mortas. — Explicara. 

— Tu... mataste todos? — Alice temia indagar, todavia, sua espontaneidade falava mais alto. 

— Não. A rainha o fez. Tome, experimente esta e sinta. — Proferiu, instigante. Alice não compreendia; queria questionar sobre quem é a rainha, mas viu-se segurando a máscara e tão logo a pôs em seu rosto, sem saber ao certo o porquê. A máscara era de uma cobra, ao que parecia; assim que a vestiu, Alice imediatamente desejou a morte de alguém que ela não sabia dizer. Sentiu um gosto agre na boca, como se ingerisse veneno; estava com uma certeza de que viveria até o fim de sua vida para vingar-se de todos que lhe fizessem mal. Ao mesmo tempo, ela sabia que aquilo não pertencia a ela. Thez retirou a máscara da atônita Alice. — E então? — Interrogou o Artesão. Alice não sabia o que dizer. — Talvez esta seja demasiado intensa para a tua sensibilidade feminil. Vista esta aqui! 

Mais uma vez, sem que pudesse recuperar-se do horror anterior; Alice viu-se com a máscara do que lhe parecia um pássaro dourado. Sentiu-se leve, com a certeza de que a vida assopraria em seu rosto e que o sentido primevo para tudo era a liberdade. Estava disposta a ser livre, acima de tudo; nunca se apegar a nada, a ninguém. Aquilo era, sem dúvidas, um sentido belo e até poético, entretanto, não era Alice. No fundo de si mesma, perdia-se em si a cada máscara que vestia e o poder, das almas encarceradas nos artefatos, invadia o espírito de Alice como uma descarga energética. Sentiu angústia, medo, horror, êxtase, prazer e amargura; sentiu-se ser duas, três e até quatro; entretanto, em meio a tudo, havia sempre um resquício de nada, um nada perturbador e cada vez mais sufocante. Alice atordoou-se e caiu sobre o assoalho do cômodo. 

— É fascinante, não? — Dissera Thez, ajudando Alice a se levantar. 

— Isso... parece-me perigoso demais, senhor Artesão... sinto que... — Alice levou suas mãos ao seu tórax, como se acariciasse seu próprio coração. — Perdi partes de mim que jamais se recuperarão. Thez a olhou profundamente, tocando-lhe seu sedoso rosto. O ambiente ficara mais frígido. 

— Posso fazer um sentido sob medida para o teu belo rosto, senhorita... — Alice arrepiara-se outra vez e se afastou do Artesão;  

— Agradeço, senhor Thez... — Ela retirou o casaco que vestia. — Está tarde, preciso ir embora, se me permites. — Ela o reverenciou rapidamente e não aguardou resposta, entretanto, Thez retirou sua cartola em respeito ao adeus de Alice, mesmo que ela não o visse. Era certo que Alice estava com medo, pois, perder-se quando se tem tão pouco de si mesma é arrancar sua vida de si, sem que a morte venha lhe buscar. 

Ela correu sem direção; seus olhos âmbar choravam outra vez. O vazio no peito era tangível, o medo de nunca mais ser Alice, amargurava-a. “Volta-te a mim, Alice. Sou Annae?  Mariah? Elizabella? Ó, céus... por favor... Alice... das águas que lhe agradam, da curiosidade do seu ser... Posso agir como Nillah? Lillymor? Ehlen? De onde vêm esses nomes? De Alice? Alice se recorda de algo além? Mas se foge de si, de mim, como se lembra?” — Pensava enquanto corria e só parou de pensar quando tropeçou, quando não reparara que uma densa fumaça acastanhada pairava no ar e, portanto, impossibilitou a visão das pedras mais altas do caminho. 

— Quem está aí? — Alice ouviu, após o tombo que fez arranhões doloridos em suas mãos.  

— Sou eu... — Respondeu, um pouco confusa com a queda. 

— Mas o “eu” também sou! — Respondera o que Alice pensou ser a fumaça. 

— Não é isso que eu quis dizer... — Alice levantou-se, limpando a terra e as folhas de suas mãos e de seu vestido. — Meu nome é Alice, embora eu sinta que perdi a Alice de mim... — Tudo ficou em silêncio. — Senhora? Onde estás? Por que há tanta fumaça? — Alice olhava para todos os lados; o eflúvio do fumo era doce e amendoado. De súbito, um bater de asas grandes zumbiu nos céus e de lá descera uma mariposa cujo tamanho assemelhava-se a uma criança de dez anos de idade. Era alabastrina e felpuda, com duas antenas cheias de bifurcações em tom amarronzado; grandes olhos negros ela tinha e trazia consigo um tipo de incenso aromático. 

— Quem és tu? — Indagou a mariposa; Alice ficou encantada com a beleza pálida e felpuda da criatura. 

— Eu deveria ser Alice, mas estou confusa... — Respondeu, com inocência. 

—Quem és tu? — Insistiu a mariposa. Alice respirou fundo. 

— Eu achei que sabia, quero dizer; quando despertei, eu sabia que antes, em algum momento, eu era eu, mas, desde então, já mudei diversas vezes. 

— Mudou como? — Perscrutou a mariposa. Alice sentou-se, suspirante. 

— Queria um sentido para a vida, tentei alguns, mas perdi-me em todos; agora estou mais longe de mim do que outrora. 

— O que achas desta pedra? — A mariposa falava da pedra que Alice usava como assento. 

— Está confortável, na verdade. 

— O que achas d’esta pedra? — A mariposa parecia não satisfeita com algumas respostas. Alice pensou bem. 

— Eu gosto. 

— Então já sabes que Alice gosta d’esta pedra. 

— Sim, eu sei; mas, isso ainda não traz sentido para minha existência; tu podes gostar desta pedra igualmente e tu não és Alice. 

— Não, a pedra não me agrada. 

— Tu não compreendes! — Alice levantou-se, pretendia continuar seu caminho sem rumo. 

— Ouça. Se o sentido de tua vida fosse encontrar esta pedra, o que farias agora? — Alice pensou mais uma vez; não lhe parecia incrível ter este sentido para a vida, entretanto esforçou-se para compreender a mariposa. 

— Bem... eu estaria eternamente feliz? — Alice duvidou de sua própria frase. 

— Certamente que não. 

— Estás dizendo que a cada novo sentido, preciso de um novo sentido? — A mariposa fez silêncio e Alice a acompanhou. 

— Todo o sentido é uma pedra no final... — Afirmou a mariposa. — E toda pedra pode ser um sentido... 

— Por que precisa ser difícil? — Alice bocejou e caminhou até uma pilha de folhas secas. — Por que não posso apenas saber e pronto? Eu poderia ter nascido para colher maçãs e estar feliz colhendo maçãs eternamente. Mas, não, preciso estar com esse vácuo no coração, esse enigma no espírito. Eu pensei que tudo precisava de um sentido e o sentido precisava de lógica; agora perdi-me de mim mesma, sem sentido, sem lógica, sem fragmentos da minha alma. E agora o sentido é uma pedra e toda a pedra é um sentido... o que isso significa, afinal? — A Mariposa sumira e Alice pensou que havia importunado a criatura; olhou, então para cima, observando a floresta acastanhada. — Se deixo este lugar, vou a outro para sentir as mesmas ausências. Se decido um novo caminho, preciso decidir outro e, na maioria das vezes, estou na solidão que é capaz de aparecer mesmo quando há alguém próximo a mim. O que me parece é que a solidão e a ausência são os únicos e verdadeiros sentidos, o que faz tudo ficar extremamente angustiante. Por que eu viveria para isso? Quem poderia ter sido tão perverso a ponto de dar vida a uma criatura que não pode ser feliz? 

— Senhorita... — Disse uma grave voz aveludada e Alice olhou em direção ao som. Ela imediatamente viu um Antílope negro com grandes e longos chifres. Era um animal forte e alto, não parecia um Antílope como qualquer outro. — Teu falatório inconclusivo está atrapalhando o sono de meus filhos.  

— P-perdoa-me, senhor; já estou de saída... — Alice sentiu-se perturbada por perturbar outrem. 

— Com tantas indagações, talvez devas encontrar a Rainha, pois ela sempre tem uma resposta para tudo.  

— Não sei ao certo se quero respostas... bastar-me-ia a morte, neste caso... 

— Duvido muito que anseies pela morte, senhorita. Se mal sabes lidar com a vida, como lidarás com algo tão mais enigmático? Por acaso sabes o que é a morte? 

— Pensei que fosse o descanso eterno... 

— É o que dizem, entretanto, se te apegas nisso com tanto vigor, como ousas não ver razão para se apegar em qualquer coisa na vida? A vida está ao teu dispor e a morte é o mistério indomável, ainda assim, preferes a morte? Estando sujeita aos horrores que desconheces ou aos prazeres abundantes ou, ainda, estando sujeita ao limbo, onde a ausência é ainda mais colossal do que essa mísera solidão que guardas em teu peito... ainda assim, queres a morte? Isso é estúpido, para não dizer outra coisa... — O Antílope arquejou, um pouco irritado. — Seja o que for, senhorita; se queres a morte ou se anseias por resposta, visite a Rainha. Ela é capaz de te dar tanto um quanto outro. 

Alice sentiu-se bastante afetada pelos dizeres do Antílope; sentiu-se humilhada, em certo aspecto, pelas palavras agressivas disfarçadas de educação. A criatura foi embora, sem esperar um adeus e sem dar um. Alice decidiu caminhar no sentido que o Antílope olhava sempre que mencionava a tal rainha e, com receio de quebrar a lei do silêncio e importunar outras famílias, apenas ficou pensando, sem proferir uma única sílaba. As palavras do Antílope a deixaram sensível e ansiosa, então, mesmo sozinha e mesmo estando obrigada a calar-se por completo, nas profundezas de seu ser, ela buscou se acalmar da única maneira que sabia poder: recitando alguns versos. Por infortúnio, ela não conseguia se lembrar de nenhum e isso a deixou ainda mais aflita. "Esqueci-me de todos os poemas?” pensou “Que atrocidade sem tamanho... as musicalidades foram soterradas, as rimas perdidas, a beleza afogada no esquecimento...” — Alice percebeu que se aproximava um estranho medo. 

— Envolta em névoa onírica estive — ela recitou 

— Pensares sobre tantas incertezas — Voz trêmula no segundo verso. 

— No peito uma saudade ali mantive — Imersa por completa em seu poema. 

— Proste-se, criatura, à Vossa Alteza! — Vociferou alguém e Alice sentiu uma pancada em sua cabeça. Ao buscar entender o que ocorrera, em um galho baixo estava uma simiesca criatura segurando um tipo de báculo curvado com uma maçã, a verter um licor escarlate, cravada na ponta. Ao tocar sua própria cabeça, onde sentira a pancada, Alice tateou em algo úmido e, ao olhar seus dedos, estavam carmim. De imediato entendeu o que se passara. 

— Por que me feriste sem razão? — Ela bradou, em cólera. O símio sorriu, fazendo sons estranhos e desordeiros. Ele tinha uma cabeça amassada e minúsculas orelhas; era todo despelado, sua pele dobrava-se rosada e seu rosto era pálido. Tinha sete membros, três pernas e quatro braços. 

— Estás entrando no reino da Rainha, portanto, deves cumprir os protocolos. — Grunhiu a criatura. 

— Quem és tu? — Alice perguntou, irritadíssima. 

— Sou o Sagui mais fiel à rainha. 

— Não pareces um Sagui... 

— É porque... tive de servir à fascinante Majestade e... como um bom súdito... eu... fui abençoado... Veja só! Agora tenho vários braços e mãos para segurar todas as maçãs que eu quiser. — Alice achou aquilo bastante pavoroso.  

De repente, uma horda de animais de todos os tipos, eles carregavam galhos afiados nas pontas; estavam vestindo máscaras horrendas que lumiavam sob a luz do dia, feitas do que parecia ser fragmentos de vidro e pétalas de um tipo bizarro de planta coralina. Quatro grandes rinocerontes mascarados carregavam um tipo de trono feito de flores e, nele, uma mulher se assentava. Ela tinha os olhos fundos, um tanto cadavéricos; usava uma coroa de pinhas e galhos, tinha ressequidas folhas ao redor do pescoço, alongando-o e, por fim, vestia-se em um vestido na cor vinho, longo, régio e com corações... corações empalhados, de vários tamanhos, de inúmeras criaturas diferentes, como ornamentos em seu vestido. Seus cabelos eram rubros e uma tinta negrume contornava a linha do que seria seu sorriso e ao redor dos seus olhos de precipício. O Sagui escondeu-se atrás de Alice assim que viu a Rainha. Alice, amedrontada, ficou prostrada, em reverência, torcendo, na verdade, para não ser vista abaixada. 

— Parem agora! — Gritou a Rainha. — O que é essa coisa? — Alice demorou um pouco para levantar seu olhar e perceber que a horda terrífica a olhava, embora não tivessem olhos de fato. Alice ergueu-se, apavorada e contida. 

— Sou Alice... — Um silêncio pairou. 

— Arranquem-lhe o coração! — Gritou a mulher, sua voz era estridente e com um fundo agourento. 

— Mas por quê? Eu nada fiz! Não faz sentido! — Os animais se aproximavam, apontando suas lanças. — Vossa Majestade, eu posso lhe ser útil, não?  

— Parem! — Mais um brado da mulher. — Útil? 

— S-sim... Posso ser útil para... — Alice não sabia ao certo o que estava fazendo, tampouco sabia se daria certo. 

— Alice sabe sair do arvoredo — murmurou o Sagui, interrompendo-a. Antes que Alice o contestasse, pois ela não sabia o caminho de volta para à costa, a rainha voltou a praguejar. 

— Isso é útil de fato... a razão da minha existência se pauta em deixar essa floresta imunda! Vá! — Ordenou — Vá à frente, mostrando-nos o caminho. Alice ficou em silêncio enquanto caminhava para liderar à horda. Por sorte, ou não, mais à frente a rainha e seus súditos não podiam ouvi-la, apenas a viam. O Sagui a acompanhou. 

— Por que mentiste? — Sussurrou Alice. 

— Eu não minto! — Retrucou o Sagui e logo Alice percebeu que se tinha algo que aquele símio fazia, este algo era, decerto, mentir. Alice pensou em correr, mas, sentiu que não seria capaz de ir mais rápido que os rinocerontes. Depois, ponderou em como guiá-los todos para um abismo, entretanto, Alice não era uma pessoa má. Notou que as máscaras que as criaturas usavam eram semelhantes às do Ateliê do Artesão e isso a levou a imaginar que os animais estavam dominados por algo que não era eles mesmos. Alice parou seus passos e tomou uma decisão por impulso. Voltou à rainha, deixando o Sagui (que era um medroso) boquiaberto. Mesmo medroso, ele a seguiu. 

— Para que possamos continuar, a Rainha precisara responder às indagações da floresta; eu as escuto e a ti repito. A floresta exige isso, para que o caminho se mostre. — Disse Alice com toda a sua coragem. Um silêncio pairou novamente. 

— Interessante... — Disse o Gato, assustando Alice. Ao olhá-lo, todos ficaram estáticos, exceto ela e gato. 

— Chesir? Como tu... — Alice estava confusa. 

— Estou curioso, quais perguntas tu farás à Rainha dos Corações? — O gato sorria como outrora, um sorriso imenso e sinistro; seus olhos pálidos atentavam-se à Alice. 

— Tu paraste o tempo? — É verdade que quando Chesir se aproximara da primeira vez, tudo parecera diferente e embaçado; uma densidade hialina envolveu tudo e as árvores pareciam mais lentas no encontro com a brisa da floresta; exatamente como acontecia naquele momento! Os sons ficaram rarefeitos, Alice sentiu-se estranha, todavia, ela não imaginara que todos esses sintomas eram culpa do gato, tanto daquela vez quando desta. 

— Péssima pergunta! — Respondeu Chesir. 

— Não, eu não farei essa pergunta para a Rainha. Quero saber como um gato pode parar o tempo! — Chesir ronronou, esfregando-se na árvore em que estava. 

— Ora, todos os gatos fazer isso, não? — Ele sorriu ainda mais e, com uma voz embargada de beleza e astúcia, respondera: — Eu não paro o tempo, Alice. 

— Como não? — Alice estava chocada. Chesir lambeu seu pelo límpido e expressou uma indiferença única, em tom solene. 

— Ele é quem para quando chego. — Afirmara e não havia como dizer que ele não estava certo. Alice sabia o quanto aquele felino era astucioso. — Parece-me que tu não sabes o que perguntará à Rainha. 

— Sei sim! — Alice afirmou, convicta, embora sua voz tenha ficado um tanto trêmula ao lado da exclamação (se, claro, isso fosse uma história escrita). — “Qual é o sentido da vida!” é a primeira pergunta. — O gato apenas a observava. — “Qual é o sentido da morte?” é a segunda pergunta. — Alice esperou uma reação do gato, mas ele continuava observando. — “Tu preferes a vida ou a morte? Se a vida, por quê? Se a morte, por quê?” é a última pergunta. — Chesir continuava com seu sorriso inalterado. — O Antílope disse que ela tinha todas as respostas... — Justificou Alice. O felino espreguiçou-se e se aconchegou, preparando-se para uma soneca. 

— Lembre-se, Alice, não importa a resposta, importa apenas a pergunta. — Ele disse, carinhosamente. — Faça-me um favor, se possível. — Chesir, embora sorridente como sempre, parecia um pouco mais sério e menos debochado. — Pergunte-a por que a máscara que ela usa pesa mais que sua coroa. — Alice estremeceu e o gato deu-lhe uma piscadela com o olho direito. Ela sentiu-se profundamente instigada a perguntar àquilo para a Rainha. 

— Vamos, mulherzinha, faça as perguntas! — A voz agourenta ressurgindo, fazendo Alice sentir dor nos tímpanos. 

— Qual é o sentido da vida? — Alice iniciou. 

— Sair dessa floresta imunda! — Respondeu a Rainha, como uma lâmina afiada. Alice começou a perceber profundamente o que o gato quis dizer com sua pergunta à Rainha, pois, além de não haver nenhuma máscara na face da Majestade, ela ainda parecia envenenada com sua própria índole, como as máscaras do Artesão que envenenavam a alma, levando-a a se fragmentar e se perder. 

— Qual é o sentido da morte? — Indagou Alice, mas, naquele ponto, ela realmente não se importava com a resposta. 

— Ser uma ferramenta para me guiar para fora desse mausoléu nojento! — Alice achava a floresta amedrontadora e, de fato, desejou deixá-la o mais rápido possível, porém, havia ali uma beleza estonteante e, por isso, ela não compreendia por que a Rainha dizia aquelas palavras violentas. 

— Tu preferes a vida ou a morte? Se a vida, por quê? Se a morte, por quê? — “Penúltima pergunta” Alice pensou. 

— Odiei essa pergunta, próxima! — Alice, que estava perto do trono ambulante, sentiu gotículas de saliva em sua face, tanto foi a impetuosidade da resposta da Rainha. E era chegada a hora. Alice respirou fundo. 

— Por que a tua máscara pesa mais que tua coroa? — Questionou Alice. O olhar da Rainha tornou-se fúria absoluta. 

— Arranquem-lhe o coração, agora! — Gritou a rainha. Os animais mascarados começaram a perseguir Alice que tão logo correu o mais depressa que pôde. A gramínea, que outrora envolvia seus pés com cuidado, agora parecia impulsioná-la para que pudesse fugir com a velocidade precisa. Mas esta ajuda não fora suficiente. Alice sobre uma pilha de folhas secas, caiu em um buraco profundo e infindável. Havia se livrado de ter seu coração empalhado pela rainha, mas agora se via caindo e caindo. Era como um poço profundo e sem sim, símil a um abismo sombrio; ela gritava em desespero e, amedrontada, fechou seus olhos com intensidade e jurou abri-los apenas quando algo acontecesse. É uma pena, pois perdera o espetáculo das fotografias na parede do poço.  

Quando sentiu seu corpo colidir com algo macio, Alice abriu seus olhos lacrimejantes e quando ergueu seu olhar à paisagem, turvou-se na sublime apreciação amedrontadora de uma frondosa floresta colossal e, à sua frente, um oceano escurecido e plácido sob um céu rosa-empoeirado. A visão de um veleiro embaçado, atracado à costa, imediatamente a fez se lembrar de tudo o que vivenciara na floresta. O veleiro ainda apertava seu coração, era a mesma cena, o mesmo instante, a mesma visão e, agora, poderia ser uma boa hora para ir até o que lhe parecera uma miragem da primeira vez, pois, talvez não fosse ilusão. Ela poderia pedir ajuda e ser salva de perder-se eternamente no bosque imensurável... era o seu desejo, não era? Ela queria deixar o que lhe parecia uma ilha encantada em maravilhas e horrores, entretanto, Alice viu o esguio coelho de dentes afiados, igualzinho da primeira vez. Ele, com os mesmos movimentos, aparecera, mas, dessa vez, ele enterrou um relógio de bolso.  

Para Alice, tudo fora idêntico ao início de seu estranho despertar, exceto pelo coelho enterrando um relógio. Essa sutil diferença mexeu, profundamente, com Alice. Por que ele desenterrou o relógio no início? Por que o enterrava naquele momento? E se as cenas eram idênticas, como pôde haver uma diferença? Havia tanto o que saber, tantas perguntas, tantos porquês. Como ficaria o Artesão? A Rainha arrancaria quantos corações para empalhar? E a fuinha encontraria ou não a pimenta que a raposa pediu?  

Alice pensava e logo viu o coelho entrando, bastante apressado, para dentro do denso arvoredo. Ela não tinha muito tempo, ela precisava escolher. O que outrora era ausente, ali tornou-se um verdadeiro sentido; Alice queria saber mais sobre a magnífica floresta que lhe parecia tão íntima... tão familiar... Então, tomou a difícil decisão: deu adeus ao veleiro e foi, pela segunda vez, atrás do láparo esguio.


Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Milagre Maligno

Noutros tempos, quem a conhecera ainda na flor da juventude jamais diria que tal pessoa pudesse chegar a uma situação tão degradante…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim que minha filha está miseravelmente endemoninhada”.  — Mateus 15,22 

Noutros tempos, quem a conhecera ainda na flor da juventude jamais diria que tal pessoa pudesse chegar a uma situação tão degradante. Após deixar para trás seus tempos de inocência, com seus finos traços e a meiguice infantil, comuns a toda e qualquer criança, Dolores tornara-se uma bela mulher que a todos conseguia agradar: aos homens, por sua inquietante beleza; às mulheres, por sua amizade e simpatia. Maria Dolores, conhecida como D’asdor – nome pelo qual era chamada desde que se amasiara com o italiano Giuseppe Montanari – era uma mulher de estatura mediana, de vastos e longos cabelos negros, definidamente cacheados, caídos por toda a extensão de suas costas; trazia-os sempre soltos, livres como ela mesma o era. Sua pele era fortemente amorenada, num tom firme que dava a impressão de ser macia e sedosa como a pétala de uma rosa negra. Seus olhos eram negros e brilhantes, e traziam em si um brilho enigmático, típico das criaturas donas de seu próprio destino. Eu a conhecia desde que éramos crianças de colo. Como sempre fomos vizinhos, acompanhei e sei de toda a sua estória, menos, é claro, daquilo que ocorria em sua intimidade... 

Nessas exageradas palavras, Nhô Virgílio tentava buscar na memória a melhor definição tanto do talhe físico quanto da personalidade de Dona D’asdor, que em nada se parecia com a horrenda criatura que passara seus últimos momentos amarrada sobre a cama. A diferença entre aquela vaga lembrança e a atual realidade — daquilo que poderia ter sido visualizado por qualquer um — era tão discrepante, que era até difícil acreditar nas palavras daquele honorável ancião. 

Nos últimos quinze anos, quem tivera a oportunidade de estar em sua presença tinha visto uma franzina senhora acamada, desprovida de qualquer movimento nas pernas, desde que sofrera uma terrível queda de cavalo, que a deixara naquela situação. Esse acidente não tolhera sua vida, mas lhe deixara sérias sequelas. Além da perda dos movimentos de seus membros inferiores, adquirira uma aparência doentia e cadavérica, que trazia em si uma profunda nostalgia — típico sentimento que se apossa de tais desafortunadas criaturas. Seus olhos, sem brilho e vazios, estavam sempre vidrados em algum ponto distante, como se pudessem ver muito além das aparências. Talvez enxergassem os tempos idos, com suas conquistas e alegrias, numa época de frescor e juventude, onde tudo eram flores. Ou talvez esses mesmos olhos apenas vislumbrassem um melancólico fim para sua sofrível existência — presa para sempre numa cama, dependendo de outrem até mesmo para suas mais íntimas necessidades. Tal situação era tão definitiva que havia certa unanimidade: Dona D’asdor só sairia da cama direto para o caixão... 

No entanto, contradizendo toda e qualquer expectativa e se contrapondo a qualquer explicação lógica, nos últimos três dias, antes que o sopro da vida abandonasse de vez seu calejado corpo, ela se levantara da cama e iniciara uma verdadeira epopeia pela casa e por todo o seu quintal, correndo de um lado para outro numa ensandecida disparada. Quem, há mais de uma década, não conseguia mover um único músculo de suas pernas, de alguma forma inexplicável, levantara-se de seu leito e, num violento ataque de fúria, se lançava sobre qualquer um que atravessasse seu caminho. Sua aparência tornara-se sinistramente diabólica. Sua pele, que se tornara cinza e ressecada, mais parecia o couro de algum réptil. Suas mãos adquiriram uma feição aterradora e mais pareciam duas horrendas garras, com dedos afinados que terminavam em asquerosas unhas mal cuidadas. Seu rosto tornara-se chupado e cheio de marcas, como se deixadas por varíola. Ela, que nos últimos tempos quase nada dizia e trazia a face sempre fechada, devido à sua triste situação, começara a sorrir de tudo e de todos ao seu redor. Um sorriso sombrio, com traços maquiavélicos, mostrando dentes amarelados e pontiagudos que enfeitavam uma boca de lábios finos — quase ausentes —; boca essa que agora praguejava quem cruzasse o seu caminho, quase todo o tempo blasfemando e dizendo palavras em algum idioma desconhecido. Vez por outra, sentava-se como um cão e uivava para o céu, como se fosse um animal em triste lamento. 

Seu filho Agenor – filho único, e também única companhia – temendo aquele estranho comportamento de sua mãe, logo recorrera aos vizinhos em busca de socorro. Além do medo que sua mãe estava lhe causando, agindo daquela forma, ele também ficara temeroso de que algo pudesse vir a lhe acontecer de pior e que a culpa lhe fosse imputada. O fato de que sua mãe, há tempos entrevada, agora corresse pelo quintal como uma alegre criança também lhe era bastante assustador. De alguma forma, ele ansiava por testemunhas de todo aquele prodígio. E logo sua casa já estava apinhada de gente. Alguns amigos próximos, conhecidos distantes, ou até mesmo simples curiosos, logo foram chegando para verem com seus próprios olhos aquele inverossímil milagre. 

Por um breve momento, por mais estranho que pudesse parecer, aquele fato passou a ser visto como algum tipo de dádiva dos céus. No entanto, quando, dentre os presentes, alguém teve a ideia de fazer uma oração em agradecimento àquele notável acontecimento, assim que as primeiras palavras foram ditas, Dona D’asdor se lançara sobre essa pessoa e, com unhas e dentes, a atacara sem nenhuma piedade, deixando-a em lastimável situação. A infeliz religiosa só não fora morta porque, muito rapidamente, Dona D’asdor fora contida pelos presentes e, mesmo com muita dificuldade, logo fora amarrada à mesma cama onde passara os últimos anos de sua vida. Toda aquela situação levava a uma única certeza: Dona D’asdor estava possuída. Ela não havia sido curada; suas pernas não haviam retomado os movimentos de outrora. Mas, certamente, alguma entidade maligna havia tomado posse de seu combalido corpo e o estava usando para algum tipo de mal. 

Durante toda a noite, Dona D’asdor – ou quem, ou o que, estivesse no controle de seu corpo – tentara, de todas as formas, se ver livre das amarras que a prendiam àquela cama. Num primeiro momento, ela tentara persuadir quem estivesse próximo com palavras de afeto e ternura. Após perceber que tal intento era inútil, tentou utilizar-se de uma hercúlea força que ela não possuíra até então. O esforço para se libertar era tão grande que fazia com que a cama se movimentasse de um lado para o outro pelo quarto. Nesse estágio de violenta tentativa de se ver livre, ela tanto gritava com uma voz bastante sinistra, como emitia diversos sons – tanto de animais conhecidos, quanto de barulhos estranhos, jamais escutados por ouvidos humanos. 

Passado o primeiro momento de euforia, e sendo sabedores de que nenhum milagre ocorrera, logo muitos foram embora. Primeiro, os mais medrosos; em seguida, os menos curiosos; e, por fim, aqueles que nada poderiam fazer a respeito de tal situação e tinham seus afazeres os aguardando. Aqueles que ficaram rapidamente decidiram que um religioso entendido do assunto deveria ser chamado. Como o padre mais próximo distava pelo menos quarenta quilômetros dali, a pessoa escolhida fora o Pastor Ebenézer, o líder religioso de uma pequena unidade pentecostal, inaugurada há bem pouco tempo na região. Numa comunidade de maioria católica, aquele tipo de denominação religiosa fora recebida com certo receio pela população local. No entanto, como o carisma tanto do Pastor Ebenézer, bem como o de sua esposa, era algo bastante encantador, logo conseguiram conquistar a todos, sem maiores dificuldades. Sendo ele uma pessoa bastante prestativa, assim que fora acionado, rapidamente se prontificara a colocar seus serviços religiosos a postos. Até porque um fato como aquele poderia lhe servir como propaganda para sua humilde e recém-fundada igreja. 

Acompanhado de seu filho mais velho – Ezequias, que certamente seguiria os passos do pai, vindo também a se tornar pastor – chegara à casa de Dona D’asdor logo pela manhã. Além do leal e inseparável Ezequias, de vinte e três anos, o Pastor Ebenézer tinha outros quatro filhos: três moças – Rebeca, Ruth e Deborah –, todas em idade de contrair matrimônio, e o caçula, Samuel, com apenas doze anos. Recebido por Agenor – filho da dona da casa e o mais interessado no desfecho daquilo tudo – e por Nhô Virgílio, que a tudo acompanhava com bastante curiosidade, logo ficara a par de tudo que ocorrera até então. Sem mais delongas, acompanhado de seu filho Ezequias, e estando de posse de sua Bíblia, de um saltério e de um vasilhame contendo água benta, dirigiu-se o Pastor Ebenézer ao quarto onde, naquele momento, por algum motivo ainda desconhecido, um sepulcral silêncio se fazia presente. Tanto Agenor quanto Nhô Virgílio recomendaram insistentemente ao pastor e a seu filho que, em hipótese alguma, deveriam soltá-la de suas amarras, independentemente do que ela lhes dissesse. 

Antes mesmo de adentrar aquele recinto, logo à porta, já fora possível perceber a sinistra atmosfera do lugar. O quarto exalava um peculiar cheiro de mofo de cemitério – uma mistura de nauseabundos odores. Algo em decomposição, cheiro de velas e flores mortas – e um saturado e pegajoso cheiro de algo podre. Esse estranho odor se misturava ao cheiro de todo tipo de emplastos e cataplasmas que lhe era ministrado. Poderia ser apenas mais um ambiente comum, como qualquer local onde estivesse um moribundo em restabelecimento, exceto pelo extremo frio que havia no ambiente naquele momento. Mesmo já sendo dia claro, o quarto estava tomado pelas trevas, e fora necessário acender algumas velas para iluminar o ambiente. Dona D’asdor parecia estar dormindo placidamente. Seu semblante era meigo e sereno. Sua face transmitia uma intensa paz interior e, quando o Pastor Ebenézer a olhou de perto, teve quase certeza de que tudo o que ouvira sobre os últimos acontecimentos talvez fosse um ledo engano. Mesmo assim, achou por bem ungir o ambiente com orações e algumas passagens do saltério. Enquanto ele orava e citava salmos, Ezequias aspergia água benta por todos os lugares. Praticamente estavam dando aquele rito por encerrado, quando perceberam que Dona D’asdor estava sentada na cama, em posição de meditação, observando-os calmamente. 

– Que a paz do Senhor esteja contigo, Pastor Ebenézer... – disse ela, com uma doce voz infantilizada. 

O susto de Ezequias fora tão grande que ele deixou cair o vasilhame que trazia nas mãos, espatifando-se no chão do quarto. Pastor Ebenézer respondera prontamente: 

– Contigo também, irmã. Como está se sentindo hoje? 

– Poderia estar melhor, se meu filho ingrato não tivesse mandado me amarrar aqui nesta cama. Se não bastassem todos esses intermináveis anos que aqui estive presa, agora estou amarrada de vez... – respondeu ela, cada vez mais dócil. 

– Aqui fui chamado porque me disseram que a irmã estava tendo uma crise existencial. Creio, do fundo de minha alma, que talvez tenham se enganado quanto a isso, pois vejo que a irmã está bem, gozando de boa saúde e plena lucidez. 

– Sim! Estou ótima, como o senhor mesmo pode constatar com seus próprios olhos. Meu filho ingrato e seu amigo bêbado me amarraram sem motivo e ficam espalhando inverdades sobre mim, tentando difamar uma pobre velha e indefesa como eu. 

Tomado de profunda piedade por aquela pobre senhora e confiando em sua fé – imaginando que, se fosse algum estratagema do demônio para que a libertassem, ele e seu filho conseguiriam manietá-la novamente –, decidiu que a desamarrariam, deixando-a livre outra vez. Assim que uma das mãos de Dona D’asdor fora solta, ela agarrou a camisa de Ezequias e, trazendo-o para próximo de sua boca, mordeu-lhe o pescoço, rasgando-lhe a garganta. 

Com um urro de um animal selvagem, ela comemorou aquela medonha façanha e, ao ver o desespero do pastor, que tentava a todo custo ajudar o filho que se esvaía em sangue e certamente vivia seus últimos momentos, ela disse:  

– Pensou mesmo que um servo do pecado como você estaria à altura de vir até aqui me confrontar? É deprimente saber que pessoas iguais a você não tenham o mínimo de conhecimento sobre quem somos nós, de tudo que podemos e daquilo que sabemos. Nem por um momento passou pela sua cabeça que, quando você abusa de suas filhas, estamos nas sombras assistindo você profanar justamente aquelas que você deveria proteger a todo custo? Pois saiba você, filho de Belial, que o seu abjeto prazer é para nós um saboroso deleite. Aquele que se diz servo do Senhor, alguém que se autodenomina pastor de ovelhas, ser na verdade um lobo voraz. Tirei a vida de seu filho apenas para que você sinta o mesmo que suas filhas sentem quando você as obriga a abortar o fruto de seu pecado de seus inocentes ventres. Mesmo sendo uma criança incestuosa ainda assim é uma criança, e para nós é um deleite inigualável ver o próprio pai causando esse mal à sua própria semente, obrigando suas filhas a serem assassinas de seus próprios filhos... 

Agenor e Nhô Virgílio, que a tudo aquilo assistiam da porta do quarto – pois, assim que ouviram os gritos, vieram tentar ajudar –, olharam para o Pastor Ebenézer com um misto de escárnio e incredulidade, pois já haviam ouvido rumores estranhos sobre o comportamento do pastor com suas filhas, sendo estas proibidas, por ele mesmo, de manter qualquer tipo de relacionamento com outros rapazes, mesmo que fosse da mais respeitosa amizade. As três filhas do pastor, mesmo já sendo mulheres adultas, eram mantidas sempre em casa, sob a mais severa vigilância, sem qualquer tipo de envolvimento social. Pastor Ebenézer, que não dissera uma única palavra sequer, assim que seu filho, desfalecendo em seus braços, dera o último suspiro, lançara-se sobre Dona D’asdor e, num desvairado ataque de fúria, tentara com todas as forças esganá-la, mas logo fora contido por Agenor, enquanto Nhô Virgílio tentava amarrá-la novamente. Dona D’asdor, que gargalhava incontrolavelmente, talvez por isso mesmo tenha se deixado amarrar novamente. 

Não havendo mais nada a fazer naquele lugar, com o corpo inerte do filho nos braços, Pastor Ebenézer se fora sem ao menos dizer adeus. O que se soube depois foi que ele, assim que enterrara o corpo do filho numa cerimônia rápida e simples, abandonara esposa e filhos, lançando-se pelo mundo sem deixar nenhum vestígio de seu paradeiro. Sua esposa e filhos também logo se mudaram, e ninguém mais ouvira falar sobre nenhum deles. Agenor, imaginando não ter outra solução, decidira que, a qualquer custo, o Padre Ozório deveria ser chamado. Pela distância, esse somente chegaria no outro dia. Durante todo esse tempo, Dona D’asdor transitara por diversos tipos de comportamentos, desde o mais dócil até o mais violento possível. Sua selvageria era tão grande que, ao fim do dia, seus dois pulsos já estavam completamente dilacerados na tentativa de se soltar. Pela gravidade dos ferimentos, certamente ambos deveriam estar quebrados. Seus gritos, urros e gemidos eram ouvidos ao redor de toda a casa, a uma distância considerável. O som que ela emitia deixava todos os pelos do corpo arrepiados; até mesmo Nhô Virgílio, um septuagenário vivido e experiente, vez por outra tinha calafrios e se tremia todo de medo. 

Assim que o Padre Osório chegara, trazendo consigo dois auxiliares religiosamente paramentados, nem mesmo quiseram ouvir todos os relatos de Agenor e de Nhô Virgílio, pois já sabiam previamente do que se tratava e, rapidamente, foram entrando no quarto e preparando tudo para o exorcismo. Sendo eles pessoas já acostumadas com aquele tipo de situação – Padre Osório era um sábio demonologista e um exorcista renomado – em menos de uma hora conseguiram expulsar o demônio que assumira o corpo de Dona D’asdor. Assim que se viu livre da maligna entidade que o possuíra, o corpo entrou em um rápido estado de decomposição e teve que ser enterrado com urgência. 

Quando o exorcismo enfim se deu por encerrado e o Padre Osório saíra do quarto, trazendo na face o semblante de mais um dever cumprido, Agenor, timidamente, perguntou-lhe: 

– Minha mãe morreu? 

– Filho, sua mãe está morta há três dias! Aquilo que se levantou da cama e andou entre os vivos, atacando a quem quer que fosse, não era sua mãe... 


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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A Mortt, de Alva: Capítulo 1

Antemanhã de lua cheia, lôbrega em névoa rubra. Outono e decadência, a morte encíclica brinda, hoje ou amanhã, a todos os que residem no…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Antemanhã de lua cheia, lôbrega em névoa rubra. Outono e decadência, a morte encíclica brinda, hoje ou amanhã, a todos os que residem no âmago da vida. Aromantada em jasmim, Alva Ttelihllen lacrimante está sobre o corpo de sua mãe, cujo lânguido coração pulsara pela última vez na colheita de fungos para o desjejum. Uma cesta deles está caída ao lado do cadáver e o silêncio é a profecia d’um perpétuo adeus. Um oblivinum mórbido pode ser ouvindo, no fundo do ser de Alva, pois ela se recorda de tocar o instrumento à sua mãe, quando era pequenina.

Entretanto, no horizonte, caminhando; Alva observa surgir um cavaleiro com armadura ornamental de ferro negro e uma imensa foice cortante. Ele se aproxima silente e, já bem perto, observa os cristais lacrimais de Alva que o fitam. Intrigado por tê-los ao seu dispor, o Cavaleiro paralisa. Alva levanta-se devagar e, dos arbustos rosais ao derredor, colhe uma rosa rubra e a coloca no torso do cavaleiro, próximo ao seu coração vazio. “Seja bondoso com a alma de minha mãe… ela era gentil e amável… esta foice a causará dor?” — Por assimilação, Alva compreendeu que ele era o Ceifador. 

Logo após o abalo primevo, o Cavaleiro da Morte fez florir um crisântemo em suas mãos enluvadas e, ao colocá-lo sobre a fronte da falecida Grascie, fez com que su’alma se esvaísse do manto da vida. Alva o abraçou, delicada. “Obrigada…” — agradeceu, pois compreendeu que o Cavaleiro não apenas a ouviu, mas honrou o seu pedido. Diante do abraço, diante do envolver das mãos lhanas em sua armadura árida, o Cavaleiro encostou seu rosto no rosto de Alva, cuidadosamente; segurou-lhe em sua cintura e, pouco a pouco, tornou-se incorpóreo em névoa negra, até desaparecer.

Ele tinha de ceifar uma nova alma e, portanto, precisava partir. Alva colheu os cogumelos e voltou para seu lar solitário. O Coveiro foi chamado para cumprir com seu lavor, entretanto, Alva permaneceu em seu recôndito, observando o dia perecer; sua demasiada sensibilidade a impedia de comparecer ao enterro da senhora Grascie. Alva, em lágrimas, adormeceu no crepúsculo e despertou à meia-noite, destinada a cumprir o que se revelara em seus sonhos: escrever uma carta ao Cavaleiro da Morte.

“Caríssimo Cavaleiro da Morte… ou Ceifador… Ou tão só um cultor de crisântemos…

Confesso-te não ter sido afável ter te encontrado n’esta melancólica aurora, sob o céu vestal da vida, com a brisa horizontal rarefeita. Vivenciei, senhor, a dor mais augúria possível àqueles que, com estima profunda, caminham descalços sobre a gramínea da vida, sem cultivar rancores, sem cometer uma única injustiça… entretanto, acalenta-me que levaras a alma de minha amável mãe, com o respeito que lhe era merecida.

Escrevo-te, não obstante, por ser submissa à solidão desde então e ninguém há de compreender minha dor tal como tu podes, sendo o Ceifador das almas d’esta doce, e cruel, Lacrimur. Tu vês para além do que reside em meu semblante, eu sei, eu sinto. E mesmo que esta carta não alcance a tua sublimidade obscura, e tu venhas visitar-me tão só no meu fim, peço-te que, então, me escrevas; para que eu compreenda haver, n’este derredor misterioso que constitui a vida em si mesma, uma razão para que seja devolvido o sorrir à minha feição magoada.

Diga-me, Cavaleiro, o que pode defrontar o sôfrego luto, com adagas de alívio, e vencer?

Com carinho e dor…
Ao Cavaleiro,
de Alva Ttelihllen”

A missiva, n’um envelope de seda enegrecida, fora colocada aos pés do rio no bosque próximo à casa de Alva, lá onde frequente se avista Morpho Cisseis em crisálidas e em voos ornamentais. A espécime é conhecida pelo seu vínculo com a Morte, dada a efemeridade de sua existência, a beleza sublime de sua constituição e, acima de tudo, a fleuma de suas transmutações. Alva espera que o símbolo vestal da borboleta azulescida resulte no vir do Cavaleiro ao seu encontro, entretanto, reside em seu âmago uma fé de que as borboletas sussurrarão as palavras da carta ao Cavaleiro e ele versará uma resposta gentil antes de sua próxima visita.


Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
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