Espasmos do Silêncio
Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar; elas morrem na garganta antes de se tornarem poesia.
Estou diante de ti, Dama Lacrima. O pintor desconhecido que te prendeu nestas tramas de linho e óleo certamente conhecia o inferno, pois capturou-o com perfeição. Teus cabelos, longos e lisos, escorrem como cascatas de nanquim, emoldurando um rosto de uma palidez cadavérica. As tuas mãos, eternamente erguidas próximas à face, parecem querer esconder o mundo de ti, ou tu do mundo.
Se hoje castigado sou pelo teu descontentamento, que vibra através das camadas de verniz, posso até guardar a culpa. Mas as chaves da tua liberdade são para mim um grande peso que devo suportar. Sinto o ódio irradiar da moldura dourada.
— A tua ira deve ser contida — murmuro para a figura estática, mas viva. — A raça humana não merece perecer. Por mais que um ou outro nos sirvam como bolsas de sangue, aconselho: declina-te desta vingança desenfreada. O mundo ainda tem muito a te servir.
Vejo, então, a alteração na pintura. O óleo parece dissolver-se. Aqueles olhos... aquelas escleras tomadas por um negrume absoluto, sem luz, fitam-me com desprezo. E o que antes era pigmento seco, agora escorre. Tu choras. Não água, nem sangue, mas lágrimas de piche, espessas e negras, maculando a pureza mórbida da tua pele pintada.
— Crês que me fará parar?... Como és tolo, Valentine! — O meu nome soa como blasfêmia nesses teus lábios imortais.
— Lanço o desafio — indago, hipnotizado pelo rastro viscoso que desce pelas tuas bochechas —, até onde estarás disposta a ir com tal empreitada?
— Farei do purgatório a vossa nova morada!
— E depois?
— Como assim, "e depois"?
Aproximo-me da obra, sentindo o cheiro de terebintina misturado a algo podre e antigo. — Quando finalizar o teu intento, sentirás o peso do silêncio. Este mesmo silêncio que, até pouco, tanto me assombrava, não irá parar de te perturbar. Serás torturada pelo resto dos teus dias numa galeria vazia, num mundo morto. Nem mesmo as tuas súplicas serão suficientes para te salvar, pois para destruí-lo terás que destruir a ti mesma, rasgar a própria tela. Então, eu lhe pergunto: até onde estarás disposta a ir?
A imagem trêmula. O piche das tuas lágrimas parece ferver. — O que vês à tua frente, Valentine? — Tua voz agora é um lamento, um gemido de túmulo aberto. — Um retrato sombrio adornado por uma bela moldura arabesca? Um fantasma habitando uma tela em que o tempo ousa não apagar? Ou a representação maior dos teus medos?
Encaro o abismo negro dos teus olhos, duas poças de trevas infinitas. — Teu alarde para destruir-me e destruir o mundo é apenas uma fuga de teus próprios medos — digo, e cada palavra pesa como lápide sobre o cavalete. — Até os demônios mais baixos, minha cara Dama, possuem medos ocultos. E o teu medo é que, sem nós para te observarmos, tu deixes de existir.
O piche escorre mais rápido, mas o silêncio volta a reinar, pesado e insuportável, na sala fria.
Revisado por Sahra Melihssa
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Capítulo 2: Bon Vivant
— Nunca me imaginei sujando as minhas mãos com o sangue de ninguém. Mas desta vez, eu não podia permitir…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
— Nunca me imaginei sujando as minhas mãos com o sangue de ninguém. Mas desta vez, eu não podia permitir a continuidade do descaso, e também a minha ausência neste evento que, eu já sabia, entraria para a história da minha tão ferida e amada França.
Valentine tentou se erguer, mas a dor era lancinante. Recaiu sobre a relva úmida, os olhos fixos no céu que escurecia lentamente. Sua mente vagava pela vida que tinha deixado para trás.
— Não nego, contudo, que havia em mim também o Bon Vivant. Oh, quantas noites se esvaíram entre os risos fáceis dos companheiros de copo, o calor do vinho generoso e a busca incessante pela beleza fugaz, fosse ela nos salões iluminados ou nas alcovas discretas? Havia um prazer quase estrutural em tentar decifrar a alma feminina, em perseguir a linha perfeita de um ombro desnudo, a curva enigmática de um sorriso. A vida simples me atraía, sim, mas os círculos elegantes exerciam sobre mim seu fascínio perene.
— Fazia pouco tempo o meu despertar pela política. Sabia que, eu não podia continuar a me enganar com a minha medíocre vida. Ir à luta era mais que necessário. E tudo isto não era somente por um pão a mais.
Sua última lembrança era de Robespierre discursando. O homem do Artois, com suas palavras inflamadas, fora a fagulha final que o levara às barricadas. Valentine riu amargamente. O que Robespierre diria agora, vendo-o sangrando sozinho em uma floresta, enquanto a revolução seguia seu curso sem ele?
— A França gemia. O Terceiro Estado, nossa pretensa voz, era um joguete nas mãos dos poderosos, marginalizado e silenciado. A aventura na guerra americana, um sonho de liberdade alheia, deixara nossos cofres exauridos. As colheitas minguavam sob um céu inclementes. A miséria, como uma lepra, alastrava-se pelas ruas outrora orgulhosas.
A escuridão começava a tomar conta não apenas do céu, mas também de sua visão. Valentine sabia que seus momentos estavam contados. Que ironia, pensou, morrer em anonimato quando sonhara construir monumentos que durariam séculos com seu nome gravado na pedra.
— Foi por falta de uma justa representatividade política; pela vergonhosa dilapidação dos cofres públicos, devido à participação da nossa nação na Guerra de Independência dos Estados Unidos — fornecendo homens e suprimentos, somadas às péssimas colheitas ocorridas naqueles últimos anos, que suportar aquela situação não era mais possível.
A situação tornara-se insustentável. E então, marchamos. Homens, e mulheres também – ah, a visão daquelas cidadãs, uma determinação indômita no olhar, marchando lado a lado conosco, foi das mais belas e terríveis que meus olhos contemplaram —, todos irmanados por uma causa que nos parecia maior que a própria vida. A tarde do dia 14... foi gloriosa, não há dúvida, um daqueles instantes raros em que a história parece curvar-se ante a vontade de um povo unido.
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 1: Sangue e Bastilha
Um corpo estirado à beira do lago, arranhões e sangue lhe cobrem o rosto, pólvora e lama tingem as suas vestes…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
I
Um corpo estirado à beira do lago, arranhões e sangue lhe cobrem o rosto, pólvora e lama tingem as suas vestes. Eis Valentine Lencastre, arquiteto, vinte e oito anos, filho da burguesia francesa e, agora, desertor da revolução que ajudara a insuflar.
Suas mãos delicadas, talhadas para desenhar arcos e colunas, agora estavam manchadas pelo sangue dos soldados reais. Ele jamais pensara que seus projetos de grandeza culminariam neste momento – abandonado, ferido e à mercê da morte em uma floresta desconhecida.
Tudo que lhe restava era a memória. E a memória era cruel em sua precisão.
— Tudo que me recordo é que eu estava aos pés da Bastilha, no front com os companheiros da milícia burguesa que formamos no dia 13.
A névoa se dissipava de sua mente em fragmentos desordenados.
— Lembro-me bem que na noite anterior à nossa concentração, alguns rebeldes mais extremistas causaram vários amotinamentos e pelejas. Essa foi a nossa válvula de escape.
O sangue saía copiosamente de seu flanco, tingindo a relva de escarlate. Uma ferida de baioneta, talvez, ou o corte de um sabre. Não importava mais. Valentine sabia que estava morrendo longe das barricadas, longe da glória que poderia ter tido.
— Saí gravemente ferido da maior ofensiva contra os soldados do Rei, antes mesmo de ouvir o grito da vitória. Desertor?... Talvez eu fosse..., mas saí num momento em que senti a vitória nas mãos do povo.
Ele tinha sido um dos primeiros a empunhar armas quando o chamado veio. Não por pão ou vingança, mas por ideais. Valentine Lencastre, o arquiteto que sonhava reconstruir a França sobre alicerces de liberdade, igualdade e fraternidade. Um sonho juvenil agora maculado pela realidade da guerra.
— Estávamos ali tentando mudar a história do nosso país, e promover a nossa liberdade perante as injustiças praticadas pelo Clero e pelo Rei Luis XVI com toda a sua corja de inescrupulosos lordes infernais.
O sol começava a se pôr. Valentine sabia que as criaturas da noite viriam logo. Lobos, talvez, atraídos pelo cheiro de sangue. Ou simplesmente o frio da noite francesa, que mataria o que os soldados do rei não conseguiram terminar.
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…