Capítulo 3: Tratamento onírico

Meu quarto é imenso. Tudo no castelo é de bom gosto, com estilo refinado e ares vitorianos, como se estivéssemos dentro de um set de filmagem…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Meu quarto é imenso. Tudo no castelo é de bom gosto, com estilo refinado e ares vitorianos, como se estivéssemos dentro de um set de filmagem de algum filme passado no século XIX. Ainda tenho sentimentos conflitantes com relação a isso, pois sempre fui uma criatura que apreciava o novo e moderno (ah, como sinto falta da internet), mas sabia contemplar a beleza das construções e mobílias clássicas. 

Há quatro janelas esguias, adornadas com cortinas de veludo vermelho, com os famosos penduricalhos dourados nas extremidades. A poltrona fora confeccionada com o mesmo tecido e estilo, e por vezes, ria-me imaginando ver algum aristocrata impotente sentado ali. 

A cama é de madeira robusta, com entalhes perfeitos e possui quatro pilares, que sustentam o voil branco. Acho desnecessário todo esse luxo exacerbado, mas reconheço que é extremamente belo. Ao deitar-me na cama, o colchão parece dar um terno abraço materno, e sinto esvair toda a sensação de desconforto, se é que ainda restava alguma. 

*** 

Acordei com a Lisa miando com uma urgência que me preocupou. Levantei-me para pegá-la, e ela correu em direção à porta e parou, como se esperasse que eu a abrisse. Abri. Continuou miando, andando e parando, exigindo de mim uma agilidade impossível. 

Transparecia uma feição diferente, densa, como se não tivesse tempo para mais nada e somente precisasse me conduzir a algum lugar. 

A escuridão impregnava as superfícies e conferia ao Castelo um aspecto ainda mais sombrio e enigmático, e em dado momento, quando ela virou-se para mim, avistei duas luzes violetas no lugar onde seriam seus olhos. "Ah Lisa, vamos voltar para cama, estou tão exausta que já estou vendo coisas", mas ela continuava irredutível em sua missão autoimposta. 

Ainda não conhecia (e não conheço) os pormenores do Castelo. Existem várias portas, corredores e ambientes, e eu, que nunca tive boa percepção espacial, via-me cada vez mais perdida. Mas ela sabia exatamente onde estávamos e para onde íamos. Parou em frente a uma porta, e entendi que era o nosso destino. Bati, perguntando se havia alguém ali dentro e recebi o silêncio como resposta. 

Girei lentamente a maçaneta, ainda preocupada de estar invadindo a privacidade de alguém. Era um banheiro. Amplo e claro demais, não combinava com os demais locais que havíamos percorrido até chegarmos ali. Contudo, entrei. 

— Você quer fazer suas necessidades, não é?! — Falei em tom de brincadeira e para minha surpresa ela respondeu. 

Estremeci. Estava delirando ou minha gata falou comigo? 

Olhei espantada para ela, que sorriu estranhamente em retribuição. Soltei um grito, mas devido às proporções exageradas daquele lugar, creio que ninguém me ouviu. Seus olhos brilhavam em intenso neon arroxeado. Sim, os olhos dela estavam roxos! 

Tentei afastar-me, mas ela cresceu até que ficou do tamanho de uma pantera negra, com seus olhos lilás ofuscando minha visão e impedindo-me de sair daquela situação. 

— Lisa, o que está acontecendo? 

— Não sou Lisa, meu nome é Meia-noite. Venho oferecer-lhe uma chance para recobrar fatos passados, os quais reprimiu para sua segurança. Permita-me conduzi-la para os braços de Uor, será fisicamente indolor, mas precisas confiar em meus métodos, só assim ficarás plenamente curada. 

— Isso só pode ser brincadeira, esse lugar é estranho, deve estar mexendo com os meus sentidos... Obrigada, mas não! 

E Meia-noite não proferiu mais nenhuma palavra. A intensidade com que as luzes-olhos brilharam foi o suficiente para hipnotizar-me. Calei. A comunicação entre nós, a partir daquele momento, tornou-se telepática. Recebi a sugestão para que eu adentrasse nas águas cor de lavanda da banheira. Ao mergulhar, pude recuperar as memórias perdidas nos recônditos do meu interior. Chorei. Recuperei memórias dos traumas, perdas e dores responsáveis pela dilaceração da minha alma, a sublimação estava em curso. Mesmo inconsciente, resistia, e Meia-noite fazia um esforço hercúleo para manter-me dentro da banheira. 

Da cura vem a cicatriz. Com tanta força envolvida, outra criatura surgiu, farejando o meu medo e a minha autodepreciação. Meia-noite não conseguiu impedi-lo de me sufocar, estava sendo pressionada para dentro das águas por uma entidade feroz, envolta em névoa negra e perturbadora. Sua mandíbula, constituída de dentes protuberantes e afiados, era assustadora. Suas garras apertavam meu pescoço e eu quase sucumbi. As águas ficaram cada vez mais escuras, o que era inicialmente cor de lavanda tornava-se púrpura. Gritar não era possível, visto que estava dentro daquelas águas, sufocando. Sentia-me perdendo as forças... Finalmente algo me puxou para fora. Pensei que fosse o Meia-noite. 

Quando recobrei a consciência, percebi que ele, Lisa e uma outra gata, estilo persa, com olhos e pelos lilases, olhavam-me assustados: 

— Bem-vinda de volta, Alana. Meu nome é Sinen. Trazes muita tristeza dentro de ti. Ainda há recordações que te ferem, mas seria perigoso continuar. — A gata lilás falou e sua voz parecia uma canção antiga, um alívio após o caos que acabara de experienciar. 

Meia-noite meneava a cabeça, em sinal de concordância. Com o corpo dolorido e a mente a mil, por algum motivo, estava feliz, mesmo após àquela experiência de quase morte. Lisa aproximou-se gentilmente e disse: 

— Acorda! 

Acordei com os miados urgentes de Lisa ecoando pelo quarto. Meu corpo doía e latejava, a mente confusa no limiar do sonho e da realidade. No entanto, ainda carrego as marcas no meu pescoço — vestígios daquele tratamento onírico —, e sempre me pergunto quando Meia-noite irá retornar... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 2: Do outro lado da tela

Não era adepta de diários. Em minha vida pregressa, o papel era o receptáculo subserviente que recebia todas as minhas frustrações…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Não era adepta de diários. Em minha vida pregressa, o papel era o receptáculo subserviente que recebia todas as minhas frustrações. Talvez, esse seja um dos propósitos para escrever, obter alívio em meio a tanta pressão

Todavia, desde que cheguei ao Castelo Drácula sinto necessidade de escrever os pormenores dos acontecimentos ao meu redor; as pessoas e suas interações despertaram-me um interesse que outrora nunca conheci. Os acontecimentos cotidianos tornaram-se mais atrativos e minha curiosidade por entendimento, sobre o que seria esse lugar misterioso, aumentava ainda mais o hábito da escrita. 

Em meu último relato, contei como Espectumbral apresentou-se a mim e, provavelmente, estejam curiosos por saber o que aconteceu depois desse encontro pictórico e envolvente. Quais mistérios me aguardavam além-mundo? 

Do outro lado da tela não havia um caminho de ladrilhos dourados, nem fora culpa de um tornado eu estar ali. De certo modo, eu escolhi adentrar ao portal, e essa foi uma das melhores decisões da minha vida. Entretanto, naquele momento inicial, eu nada sabia e o medo do desconhecido sufocava-me. 

A confusão sinestésica, causada por odores e ruídos nunca experimentados (uma viagem tridimensional?), atrapalhava meus pensamentos. Em meus ouvidos zumbidos extrassensoriais incomodavam, parecia que milhares de abelhas faziam meu frágil corpo de morada. “Tais confusões seriam ainda os efeitos do líquido etílico que havia ingerido no pub?”. Por fim, afastei tais elucubrações e aos poucos fui conseguindo ver com mais clareza o local. 

Era uma floresta. A névoa bruxuleante transformava as árvores esguias em figuras espectrais, e as bétulas brancas pareciam dançar com movimento sutil, como se estivessem saudando a nova habitante. A atmosfera era densa, invadia os recônditos do meu ser, e eu, incauta, prosseguia a trilha adornada de pedras âmbar. Lisa, a minha gatinha preta, quase me derrubou novamente, abaixei-me e a peguei em meus braços, sua pelagem negra e macia reconfortava-me. 

Olhei para o alto e avistei o suntuoso Castelo Drácula, envolto em tão atraente magia. Os sussurros, que provinham das árvores, diziam-me que aquele era o meu lugar. Não mais hesitaria, continuaria a percorrer a trilha até me visse protegida pelos seus muros altos e fortificados. 

Caminhei até chegar ao portal imponente, o ferro envelhecido conferia-lhe um charme que somente artefatos históricos poderiam ter. Tentei empurrá-lo, mas a folha de metal pesada não se moveu nem um milímetro. “Como vou entrar?”. 

Procurei por algo que pudesse me ajudar. Notei que nos batentes tinham palavras insculpidas em letras cursivas, e enquanto as proferia, gradativamente, um ranger de dobradiças não lubrificadas foram surgindo. Os portais abriram-se totalmente quando terminei de ler a derradeira palavra. Meu mantra desde então: 

Chegastes aos portais selados,
Adentrai e deixai vosso júbilo luzir.
Há segredos aqui guardados,
E a cada passo irás descobrir
 

A atmosfera fez-se onírica, abraçava-me concedendo uma paz idílica. O ar não mais pesava sob meus ombros, e uma leve brisa parecia acariciar meu rosto. Percorri por uma trilha adornada de flores, das mais variadas espécies, as quais não ouso tentar mencionar os nomes, já que não era tão apegada às questões da natureza (certos hábitos precisam ser trabalhados e lapidados, apreciar as belezas requer tempo e disciplina)

Enquanto andava calma e silente, olhei para as portas principais do Castelo e avistei a criatura soturna, um feixe de luz iluminou a sua pele pálida e fria. 

O Conde Drácula é um homem de beleza singular e etérea, carregando um ar de melancolia que o torna ainda mais enigmático. Seus olhos, escuros e profundos, parecem revelar fragmentos de uma alma que já conheceu amor e alegria, mas que agora está perdida em uma eternidade solitária. A pele é quase translúcida, marcada pelo tempo e pela dor, como uma porcelana antiga, e ele se move com uma graça contida, como se o peso das eras tivesse suavizado sua força. 

Suas roupas são finas e elegantes, mas sutilmente gastas, como vestígios de uma grandeza passada. A voz é suave e baixa, carregada de um lamento sutil, e as palavras, embora persuasivas, revelam uma profunda saudade e uma dor antiga (será um amor platônico ou o peso da vida?). A presença de Drácula parece mais como uma sombra ou uma memória há tempos suprimida — uma figura que já foi poderosa e temida, mas que agora é, paradoxalmente, vulnerável e distante, como um eco de uma vida outrora intensa e cheia de luz. 

Ele não era nada do que eu imaginava. Quais mitos serão desfeitos a partir de então? Terás que ler os próximos relatos... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Hereditário - Parte III: Hereditariedade

Os outros dois companheiros que acompanhavam o cortejo logo apertaram o passo e deixaram os outros três para trás…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Os outros dois companheiros que acompanhavam o cortejo logo apertaram o passo e deixaram os outros três para trás. Seguiram juntos: o solícito Dominguin, a lamentosa Gardênia e seu exausto filho, que se arrastava pela estrada afora. O silêncio que se estabelecera entre eles por quase todo o caminho era bastante inquietante. Dominguin tentou por diversas vezes quebrá-lo, tentando oferecer-lhes algum conforto. De todas as formas possíveis, buscou puxar assunto com Gardênia. No entanto, entre profundos suspiros, vez por outra, ela apenas respondia-lhe monossilabicamente, para não lhe ser grosseira. Caminhando sempre cabisbaixa, Gardênia manteve-se envolta num silêncio reflexivo, absorta em sombrios e amargos pensamentos quanto ao seu destino e futuro ainda incerto. 

Qualquer um que a visse caminhando daquela forma talvez nem reconhecesse nela mesma a bela Gardênia de outrora. Andando com a fronte baixa e o olhar no vazio, ela era uma imagem triste de se ver. Sua maquiagem, normalmente perfeita, tinha se estragado ao longo das últimas doze horas, e seu cabelo de belos cachos, também sempre muito bem alinhados, estavam revoltos, uma bagunça completa, dando-lhe um aspecto bastante grotesco. Suas vestes – devido à longa caminhada sob uma chuva fina – não estavam nas melhores condições. Mesmo assim, ela continuou caminhando de forma decidida, a fim de dar a seu pai um último adeus de forma decente. 

Aproximava-se do meio-dia quando avistaram ao longe o campanário da igreja e, logo depois de mais alguns passos, os poucos telhados das casinhas do vilarejo. Ao passarem pelas primeiras casas, Gardênia recebia as respeitosas condolências de um e de outro, tanto daqueles que tinham muito a agradecer a seu pai quanto daqueles que o temiam. No entanto, assim que lhes prestavam seus sinceros sentimentos, algo os inquietava. Se Gardênia – a inseparável filha de Pai Thomás – estava ali, onde estaria o cortejo com o corpo do falecido? A igreja, para onde obviamente o corpo de seu pai deveria ter sido levado para receber as exéquias finais, ficava no centro do pequeno vilarejo. 

Padre João Paulo já os aguardava – pois estava de sobreaviso – mas, assim que os viu caminhando, rumo à igreja, de mãos vazias, teve um sobressalto, sabendo que algo não estava certo. Assim que Gardênia se aproximou dos umbrais da porta da igreja, foi logo recebida de braços abertos pelo senil reverendo, que a acolheu como um saudoso pai acolheria uma filha há tempos ausente. 

Com dolorosos suspiros e entre soluços, Gardênia, após pedir sua bênção, perguntou onde estava o corpo de seu pai. 

– Como assim? Não eram justamente vocês que o estavam trazendo? – questionou o padre. 

– Sim. Mas, pelo caminho, fomos abordados por quatro distintos cavaleiros que nos ofereceram ajuda para transportá-lo. Como estávamos todos nós já bastante exaustos pela caminhada desde as primeiras horas da manhã, recebemos de muito bom grado o auxílio que nos foi oferecido. Estando eles sobre velozes cavalos, certamente deveriam ter chegado bem antes de nós – disse ela, com certa dúvida na voz. 

– Você conhecia os cavaleiros que lhes ofereceram ajuda, minha filha? Ou pelo menos já os tinha visto alguma outra vez? – questionou o padre, já em tom de alerta. 

– Na verdade, não! Mas parece que eles conheciam meu pai muito bem, e Seu Jura, que esteve conosco até bem pouco tempo atrás, também sabia de quem se tratavam. Pois, quando os cavaleiros se ofereceram para levar o corpo, ele não se opôs. Na verdade, não disse uma única palavra em contrário. Só achei estranho o fato de ele, que sempre acompanhava todo e qualquer velório do início ao fim, não ter vindo conosco dar o último adeus ao meu pai, que sempre o tivera em grande préstimo... 

Padre João, um homem já próximo ao horizonte de sua vida, pois já era quase octogenário, logo soube que havia algo de bastante obscuro naquilo tudo. Ao ouvir de Dominguin a descrição dos tais cavaleiros, um estranho arrepio lhe correu por todo o corpo e, de forma involuntária, se benzeu, beijando a cruz de seu rosário em seguida. Percebendo que aquele gesto causara certa estranheza à Gardênia, disse que certamente haveria uma plausível explicação para aquilo tudo. 

E, para tentar tranquilizar a soturna e assustada Gardênia, que já dava mostras de plena inquietude, disse-lhe que talvez fossem viajantes apressados e tivessem decidido levar o corpo direto para a capelinha do cemitério. 

– Sigamos também para lá, onde poderemos prosseguir com as exéquias necessárias para o sepultamento de seu querido pai e conceder-lhe o respeito merecido – completou o padre. 

Se a cidade era bem pequena – um aglomerado de uma dúzia de casas talvez, uma venda quase completa, com toda sorte de quinquilharias, onde poderia se encontrar quase de tudo um pouco e a própria igreja – o cemitério nem tanto, afinal todos aqueles que morriam num raio de quase cem quilômetros, para ali eram levados para seu descanso eterno. Não era um lugar luxuoso como a cidade dos mortos das grandes cidades – como rapidamente Dominguin o notara. No entanto, havia inúmeras sepulturas algumas recentes e outras com datas de sepultamento de quase um século. A maioria delas era simples e humilde tão como o próprio lugar o representa – local onde a luxuria, a arrogância e o orgulho cedem lugar à humildade. A calma, o isolamento e a paz daquele lugar pareciam profundos e íntimos em muitos sentidos, pois era ali naquele campo santo, que o ser se deparava com todas as verdades do Universo. No entanto, ao passarem pelo portão, logo perceberam que uma sombra terrível tinha pairado sobre eles. O cemitério estava completamente vazio. Nem mesmo o coveiro – Seu Zuza, que já havia deixado a cova aberta – estava presente. Assim que terminou de cavar a sepultura logo bem cedo, como a chuva apertara bastante, decidira voltar para casa, só retornando assim que o corpo chegasse, e mais uma vez seus serviços se fizessem necessários. Aproximaram-se da cova recém-aberta e a surpresa foi geral. A sepultura estava aberta, mas dentro não havia nada. Absolutamente nada... 

Ali e outrora tinham-se transformado num aqui e agora. O céu que esteve cinzento durante toda a manhã, mas naquele momento se escurecera ainda um pouco mais. Num átimo de desespero, Gardênia com as mãos cobrindo a face num abscesso de loucura, demonstrando o mais completo desespero abjeto, em soluços gritara aos céus: 

– Onde está meu pai? O que fizeram com seu corpo? Quem eram aqueles que o traziam? 

Em sua voz havia tanta dor e desespero, que toda a natureza ao redor se silenciara por completo em respeito ao seu sofrimento. Padre João a amparava em seus braços dizendo-lhe que haveria uma explicação lógica para aquilo tudo. A dor que ela estava sentindo naquele momento era algo inominável e tendia a ficar ainda pior, quando seu filho o exausto Júlio César andando pelas cercanias do cemitério se deparara com o banguê que trazia seu avô e a mortalha que envolvia seu corpo. Curioso como toda e qualquer criança, ao decidir tocar naqueles fúnebres tecidos fora atacado por uma cobra que jazia sob aquelas lúgubres vestes. A serpente – uma agressiva cascavel – conseguira fugir se escondendo numa toca entre as sepulturas. Gardênia entrou em pânico ao ver o estrago no braço do filho, causado pelo ataque da serpente. Por ser uma áspide de terrível veneno, em poucos minutos a ferida se tornara arroxeada e a pele ao redor adquiriu um enorme inchaço. Júlio sentiu o efeito do veneno quase de imediato desfalecendo nos braços da mãe pedindo-lhe água, pois se dizia bastante sedento. Sabendo o quanto o veneno de uma cascavel poderia ser danoso a quem quer que fosse, e em se tratando de uma criança pior ainda, talvez pudesse vir a ser, até mesmo letal, Padre João ordenou que a criança fosse imediatamente levada a casa paroquial, para receber o tratamento adequado. Assim que a criança fosse tratada e tivesse fora de perigo, tentariam também buscar uma possível solução para o mistério do desaparecimento do corpo de Pai Thomás.  

Devido à sua posição de respeito, ainda no caminho entre o cemitério e a casa paroquial, Padre João logo convocou quase toda a cidade a fazer uma varredura completa ao redor do vilarejo, em busca de algum vestígio que indicasse o paradeiro do corpo de Pai Thomás. Muitos foram questionados se haviam visto os cavaleiros mencionados por Gardênia na estrada, quem sabe passando pela cidade ou mesmo ao redor do cemitério. De forma unânime, a negativa foi geral. Ninguém vira sequer um cavaleiro, muito menos quatro, carregando um banguê com um falecido em cima. Tudo aquilo era um grande mistério; o único consenso era que o corpo de Pai Thomás havia desaparecido. 

Enquanto as buscas e possíveis explicações aconteciam de um lado, no interior da casa paroquial havia grande preocupação com o estado do filho de Gardênia, que demonstrava claramente os efeitos do veneno em seu corpo. Seus lábios – outrora viçosos e vermelhos – estavam brancos e sem vida. Todo o seu corpo, que suava intensamente, adquirira um estranho inchaço, e ao redor da ferida iniciara-se um processo de necrose. Prostrado sobre um pequeno catre, Júlio César gemia quase todo o tempo, delirando e falando coisas sem sentido. Tais sintomas indicavam que sua situação era bastante delicada, e Gardênia sabia disso muito bem. 

A própria Gardênia, com os conhecimentos de cura que aprendera com seu falecido pai, preparara uma determinada beberagem e um unguento de aspecto pastoso e cheiro peculiar, que era aplicado sobre a ferida de tempos em tempos. 

Dona Diolinda – uma das beatas que cuidavam da casa paroquial e que também fazia as vezes de benzedeira local – auxiliava no tratamento do menino. Em voz baixa, sussurrou ao padre que, em seus quase setenta anos, jamais tinha visto um veneno tão agressivo quanto aquele e que o estado do menino era gravíssimo. Se viesse a escapar, certamente seria por milagre. Padre João, no entanto, não ousou comunicar essa peculiaridade à Gardênia. Ela, por sua vez, parecia saber disso, mas confiava em seus conhecimentos de cura. 

A tarde, assim como a manhã, fora de um frio intenso devido à chuva fina que caía sem cessar. Contudo, ao cair da tarde, a natureza parecia transtornada, e a ordem das coisas, ainda mais posta às avessas. O frio, trazido por um vento constante, tornara-se quase insuportável, enregelando até os ossos de quem ousasse enfrentá-lo. 

Já no final de uma tarde de buscas infrutíferas e explicações adversas, Gardênia decidiu que, assim que seu filho se restabelecesse, deveria retornar para casa. Após o imbróglio do sumiço do corpo de seu pai e o incidente com Júlio César, sentia-se bastante frustrada e com a cabeça zonza diante de toda aquela sinistra e inexplicável situação. Sabia que, nessas circunstâncias, apenas o aconchego do lar poderia lhe proporcionar o conforto necessário. 

As buscas pelo corpo de Pai Thomás demonstraram-se infrutíferas devido a três principais motivos: o primeiro deles, pela negligência de quem o estava procurando, pois ninguém na cidade – um lugar minúsculo onde todos sabiam de tudo, e nada acontecia em segredo – havia visto nada, nem mesmo ninguém, transportando um cadáver. O segundo motivo foi o frio, que aumentara bastante com o findar da tarde, e a chuva, que voltara a cair de forma incessante com a chegada da noite. Por último, a história que envolvia os tais misteriosos cavaleiros: quem os procurava talvez não tivesse, no fundo, a verdadeira intenção de encontrá-los. 

Assim que as buscas ao redor da cidade foram dadas por encerradas, Padre João aproximou-se de Gardênia e, em surdina, disse-lhe: 

– Apesar de meus anos vividos e de minha longa experiência como clérigo, sempre tive uma tendência ao racional, ao conhecido e ao empírico, considerando que nunca presenciei nada de paranormal; nem milagres, nem assombrações, nem anjos ou demônios, tampouco um simples caso de possessão. Em toda a minha vida, nunca presenciei algo que a ciência não pudesse explicar. No entanto, devo admitir que há fatores bastante sinistros e ainda inexplicáveis no desaparecimento do corpo de seu pai, considerando como se deu o fato. Qualquer pessoa sã, ao ouvir essa história – quatro cavaleiros negros que surgem do nada, à luz do dia, recolhem um corpo de um cortejo fúnebre e, da mesma forma que surgiram, desaparecem, levando consigo o corpo e tudo mais – teria dúvidas concretas sobre a veracidade dos acontecimentos. 

– No entanto, jamais devemos duvidar de algo pelo simples fato de não termos visto ou ouvido. Os sonhos, a dor ou mesmo os sentimentos não podem ser vistos, ouvidos ou sentidos pelo tato, mas, mesmo assim, sabemos que eles existem. Eu mesmo já não duvido de mais nada; apenas aguardo, com paciência, que tudo se esclareça. Creiamos, contudo, que haja uma explicação lógica para tudo isso, e logo o tempo nos trará as devidas respostas. 

– A vida de seu pai foi bastante longeva e cheia de provações, o que, em seus últimos anos, o tornou um homem de comportamento um tanto peculiar. Sem dúvida alguma, mesmo sendo ele um ser extraordinário, ainda assim era um ser humano comum, como todos nós. Mais dia, menos dia, também teria que se deparar com o único mal irremediável. Independente do que se faça ou se deixe de fazer, mais cedo ou mais tarde, a mão de Deus alcança a todos nós. 

Gardênia, que ouvira tudo aquilo em absoluto silêncio, de alguma forma imaginava que as palavras do padre faziam sentido. Contudo, em seu íntimo, tinha quase a certeza de que talvez não tivesse sido a mão de Deus que tolhera a vida de seu pai. Com um profundo suspiro, ela, que estava de cabeça baixa, sentada junto à cabeceira da cama, velando pelo filho, que repousava entre gemidos e um inquieto sono, sem demonstrar nenhum indício de restabelecimento, perguntou ao padre, levantando os olhos por um breve momento: 

– Padre João! Quero que me responda com toda a sinceridade que sua posição exige. O senhor acredita em demônios? E, se acredita, acha que talvez os tais cavaleiros na estrada... 

O senil reverendo percebeu que deveria ter certo cuidado ao responder àquela infeliz criatura que estava diante dele. Ao fitá-la nos olhos, viu dor, descrença e ódio. Por sua vasta experiência de vida e sabedoria adquirida, já não tinha tanta certeza de qual desses sentimentos predominava, mas, se fosse obrigado a dar um palpite, certamente escolheria o ódio. O brilho que emanava dos olhos daquela mãe era tão letal quanto o veneno da mais terrível entre todas as áspides que rastejam pelo mundo. Então ele respondeu: 

– Se acredito na luz, obviamente devo acreditar nas trevas. Tenho uma inabalável fé em nosso Criador e, certamente, também creio em suas criações. Demônios fazem parte das primeiras criaturas de Deus, entidades inumanas provenientes dos primeiros anjos – aqueles que caíram em desgraça perante seu Criador. São terríveis criaturas, desprovidas da Graça divina, que nada têm além do tempo para arquitetar maldades e vingança contra as demais criaturas de Deus, alimentando-se da dor e do sofrimento alheio. Por serem tão antigas quanto a própria existência, são sábias e ardilosas, tentando o tempo todo seduzir aqueles que padecem de provações e, por isso, estão fracos em sua fé... Conhecendo nossas fraquezas, nosso Salvador nos aconselhou a orar e vigiar sempre. 

Vendo que a criança ainda vivia e sem querer responder à última pergunta dela, Padre João pediu licença e dirigiu-se até a igreja para as orações do Ângelus. 

Como o tempo estava fechado e a chuva não dava trégua, Dominguin, que estivera ao lado de Gardênia quase todo o tempo, conseguiu convencê-la a passar a noite na humilde casa paroquial. Ele prometeu que, na manhã seguinte, a acompanharia no trajeto de volta até sua casa. Com certa relutância – mas, principalmente, pensando na languidez do filho e na esperança de seu restabelecimento, que, mesmo com todos os seus esforços, demonstrava não apresentar nenhuma melhora – Gardênia decidiu pernoitar, resolvendo iniciar o retorno ao lar nas primeiras horas da manhã seguinte. Ela sabia que, certamente, entre as diversas beberagens de seu pai, haveria alguma que pudesse restituir a saúde do filho. 

Foi uma noite longa e cheia de pensamentos inquietos. Seu filho tivera uma noite bastante atribulada, gemendo e se mexendo o tempo todo, enquanto dormia um sono pesado e repleto de delírios. Já na alta madrugada, mesmo se sentindo exausta pela vigília ao lado do filho, ao perceber que ele dormia profundamente e que Dona Diolinda zelaria por ele em sua breve ausência, Gardênia decidiu ir até a igreja para um momento de reflexão solitária. 

Essa bondosa e sábia senhora, que se mostrou prestativa desde que eles chegaram, esteve sentada em uma cadeira, num canto distante, com o terço nas mãos, rezando o tempo todo. Contudo, as intenções de Gardênia foram frustradas ao se deparar com Padre João, que estava em vigília no genuflexório, em profunda oração. 

Após um longo período sentada no fundo, bem distante do altar, na silenciosa penumbra da igreja – que, naquele momento, estava iluminada apenas por uma única vela bruxuleante –, Gardênia decidiu se aproximar, a fim de usufruir da confortável companhia do reverendo. O sábio padre, percebendo sua presença, virou-se em sua direção e disse: 

– Seja sempre bem-vinda à casa do Senhor. Que a paz de Cristo possa reinar em seu coração.  

– Sei que você parece bastante confusa com tudo o que aconteceu a seu pai, mas preciso lhe contar algumas coisas que talvez possam ser úteis no esclarecimento deste mistério. Talvez o que eu vá relatar sirva como resposta à pergunta que me fizeste anteriormente. Depois de muita reflexão e de uma profunda conversa com Deus, sinto-me em paz e confiante no que vou lhe dizer sobre seu pai. Independentemente do que vou relatar, quero que ouça em silêncio e tente abrir seu coração para o que vou contar. E prometa-me que jamais ouse compartilhar isso com quem quer que seja, pois o que estou prestes a dizer foi-me confiado em segredo de confissão. No entanto, a situação me obriga a colocá-la a par de tudo que aconteceu desde o início. Em respeito à memória de seu pai, apenas ouça. 

– Quando conheci seu pai, há muitos anos, bem antes de você nascer, ele era um homem alegre e cheio de sonhos. Onde quer que estivesse, sua presença era sempre acompanhada de alegria e muito entusiasmo, e era adorado por todos. Sua mãe era uma mulher belíssima, na flor da idade, apaixonada tanto por seu pai quanto pela vida que ele proporcionava a ela. Quando chegaram a esta terra, vindos de longe, trouxeram consigo uma distinta senhora, que tinha a ambos como filhos. Sua família parecia ser a mais abençoada de todas, e essa bênção tornou-se ainda maior com a sua chegada. 

– Eu mesmo – a pedido de sua mãe – tive o prazer de batizá-la com o nome que seu pai escolhera em homenagem à flor que sua mãe mais amava. 

– Por um bom tempo, a paz e a bonança fizeram morada em seu lar. A felicidade de sua família parecia completa e inabalável. Mas logo uma sombra se abateu sobre sua casa. Primeiro, a gentil senhora, que em pouco tempo conquistou o respeito e a simpatia de todos na região, se foi, deixando sua mãe completamente arrasada, pois a tinha como uma mãe. Depois veio a terrível moléstia que acometeu sua mãe, tolhendo não apenas sua vitalidade, mas também sua juventude e beleza. E, por fim, com a morte de sua mãe – para ela, um merecido descanso, depois de tanta dor e sofrimento – veio a momentânea loucura de seu pai. 

– Essa loucura foi vista por muitos como uma simples fuga da realidade; um mecanismo de defesa contra os golpes excessivamente graves que o destino lhe infligira e que ele, por um breve momento, não teve forças para enfrentar com lucidez... 

– Por várias vezes fui até seu pai, tentar levar algum conforto a ele. Mesmo com a enorme distância entre sua casa e aqui, eu era jovem na época e ainda contava com força e disposição. Todavia, minhas visitas mostraram-se em vão. Quando eu já estava me dando por vencido, recebi a visita de seu pai nesta mesma igreja. Antes de entrar, ele permaneceu um longo tempo à porta, relutante em pisar neste solo sagrado, embora já o tivesse feito muitas vezes antes. 

– Quando o questionei sobre o motivo de tanta relutância, ele me respondeu que talvez não fosse mais digno de adentrar à casa de Deus na situação em que se encontrava. Só entrou quando eu lhe disse que nossa verdadeira dignidade está no espírito e nas intenções de nossas ações, e não em nossa aparência ou condição momentânea. Disse ainda que cada ação humana é movida por motivo e oportunidade, e que nada é por acaso. A casa de Deus é um refúgio para pecadores em busca de redenção. Todo aquele que se sente cansado e oprimido encontrará alívio ali, e todo aquele que estiver em profundo arrependimento encontrará o perdão para os seus pecados. 

– Seu pai, parado defronte ao altar, com o olhar perdido no vazio, me disse que, para certos pecados, mesmo o mais profundo e sincero arrependimento não traria perdão. Quando tentei dissuadi-lo de sua convicção, ele pediu que ouvisse sua confissão antes de dizer qualquer outra coisa. Em qualquer diálogo, é sensato falar e ouvir, mas é mais sábio aquele que sabe ouvir mais e falar no momento certo. Então, assim o fiz: ouvi toda a sua confissão no mais absoluto silêncio. 

Padre João ficou em silêncio por um longo tempo. Seu mutismo foi tão extenso que Gardênia imaginou que ele talvez tivesse adormecido ao som de suas próprias palavras. Mas, antes que ela dissesse qualquer coisa, ele continuou: 

– Seu pai, vendo o sofrimento infligido a sua mãe, não teve a fé necessária para enfrentar aqueles momentos de tribulação e fez uma escolha... O passado permanece no passado. Podemos aprender com ele, mas não podemos mudá-lo. Filha, tudo o que acontece em nossas vidas é regido pelo nosso sagrado livre-arbítrio. Um grande contexto de causas, escolhas e consequências. Jamais se deixe levar pelo desespero; Deus estará sempre contigo. Assim que seu filho se restabeleça por completo, volte para sua casa e siga sua vida em paz. 

Depois de mais um momento de silêncio, ele prosseguiu: 

– Percebi que o jovem Daniel, recém-chegado da capital, tem grande apreço por você. Pelo que vi, está disposto a acompanhá-la de volta e a tentar lhe dar algum conforto. Pelo que sei sobre ele, é um bom rapaz. Abra seu coração, aceite sua amizade e suas boas intenções. 

– O conheci ontem mesmo e vi bondade e boas intenções em seu coração. É realmente um rapaz adorável. No entanto, todos os homens são assim no início, até conseguirem o que realmente desejam – disse Gardênia, de forma decidida, saindo da igreja ainda sem as respostas que tanto ansiava. O sábio reverendo havia falado muito, mas, no final, parecia não ter dito nada. 

Sabendo que, em determinadas situações, o silêncio e a solidão eram as melhores companhias, decidiu caminhar um pouco para espairecer suas ideias e refletir sobre como sua vida seria dali em diante. A chuva dera tréguas naquela madrugada, e o céu, limpo por quase completo, deixava uma lua em quarto crescente brilhar soberana sobre ela. Perdida em seus pensamentos, caminhando sozinha a esmo, deu por si defronte ao pequeno portão do cemitério, onde o corpo de seu pai deveria ter sido enterrado naquela tarde. 

Mesmo ali, sozinha, em plena madrugada, nada temia. No fundo de sua alma, sabia que nenhum mal lhe poderia ser maior do que o que já enfrentava e que, talvez, restassem-lhe poucas razões para viver. Perdera a mãe antes mesmo de poder conhecê-la direito; sua vida amorosa fora um completo fracasso; seu pai, que sempre fora seu esteio, já não estava mais entre os vivos – talvez nem mesmo entre os mortos. E seu filho amado, o único parente que ainda lhe restava, caminhava cambaleante pelo vale da sombra da morte. Naquele instante, tudo o que via em seu futuro era escuridão e sofrimento. 

Fechou os olhos, perdida em seus pensamentos, e deixou-se levar pelo frescor de uma leve brisa que soprava em sua face, enquanto ouvia o intenso barulho das diversas criaturas da noite em sua constante serenata ao luar. Ainda de olhos fechados, parada diante da entrada daquele sagrado lugar de descanso, murmurou para si mesma: 

– Eu daria qualquer coisa para que todo esse sofrimento acabasse. 

Por um breve momento, sentiu que a paz tomava conta de todo o seu ser. No entanto, essa paz foi interrompida por um silêncio estranho que se fez ao seu redor. Todas as criaturas se calaram, e ela pôde ouvir passos em sua direção. 

Ao abrir os olhos, deparou-se com um ser de beleza inigualável. Era um homem de presença marcante, alto e forte, com belos cabelos cacheados na cor do mais puro ouro. Sua face lisa tinha traços delicados, e seus olhos tinham o tom do céu em uma primavera ensolarada. Quando gentilmente a cumprimentou com um sorriso indulgente, deixou à mostra dentes alvos e perfeitamente alinhados, delineados por sedutores lábios na cor de carmim. 

Sua voz era doce como o entoar de um pássaro ao amanhecer. 

– Boa noite, bela dama. O que fazes, sozinha, caminhando a esmo em horas tão tardias? 

– Boa noite. Precisava de um pouco de ar fresco para espairecer minhas ideias. Tenho enfrentado penosas atribulações. Sinto-me cansada e oprimida, buscando paz na silenciosa solidão da noite – respondeu ela, sem sequer questionar quem ele era ou por que também estaria ali. 

– Salvo engano, tenho a impressão de tê-la visto saindo da igreja há pouco. Não é justamente lá onde se encontra a paz e o conforto? – questionou ele, com um sorriso malicioso. 

– Certamente que sim, principalmente para aqueles que acreditam... Perdi minha mãe, quando ainda era uma criança. Tive minha inocência vilmente violentada. Perdi meu amado pai há dois dias. Até mesmo seu próprio corpo foi levado, sem receber os devidos respeitos de um enterro digno. Meu filho jaz à beira da morte, padecendo os efeitos do veneno de uma víbora. Neste momento, sinto, no mais profundo do meu ser, uma indescritível descrença em toda e qualquer promessa vazia que tange ao abstrato. Vi, com meus próprios olhos, aqueles que levaram meu pai. Contemplei também a serpente que atacou meu filho. Não há lugar em meu coração para promessas vazias. Aos poucos, meu mundo tem sido tirado de mim... – Suas palavras foram interrompidas pela força da emoção, enquanto as lágrimas banhavam seu rosto. 

– Dar-te-ei o alívio que procuras, se assim o desejares! – disse ele, fitando-a nos olhos. 

– Não peço nada por mim. Não há nada que poderíeis oferecer a mim mesma. Desde sempre, a dor e o sofrimento me fazem companhia. Se há algo que possa me oferecer, peço pelo meu filho. Seu sofrimento traz-me uma dor que nada neste mundo poderia ser pior. Mas, afinal, quem sois? Por que me atormentais desta forma, oferecendo aquilo que não podeis conceber? – disse ela, irritada por se deixar levar pela conversa de um estranho. 

– Quem sou, não importa. O que posso oferecer, sim. Apenas peça aquilo que vosso coração deseja, e contemplai com vossos próprios olhos o que meras palavras não podem mostrar – disse ele. 

Por um breve momento, ela lhe deu as costas e começou a se afastar. No entanto, o instinto de mãe falou mais alto, e ela voltou-se novamente para aquele belo ser: 

– O que quereis de mim? De que forma achais que poderíeis me ajudar? Parece que não ouvistes uma palavra sequer do que eu disse. Não vedes que nada, nem ninguém neste mundo, poderia me ajudar? Deixai-me em paz e apenas segui vosso caminho. 

– Sabemos tudo sobre vosso pai e o que aconteceu com ele. Seu corpo foi tomado como recebimento de uma dívida antiga. Saiba que ele foi um homem honrado e cumpriu, durante sua vida, todas as suas obrigações. No entanto, para vós, o fim é iminente. Mas o trabalho dele deve continuar. O que queremos é que sigais o mesmo caminho trilhado por ele. Nada mais desejamos. Em troca, poderemos vos dar tudo aquilo que desejardes! Desejai, e vereis – disse ele, num tom imperativo. 

– Como assim? Que história é essa sobre meu pai? Que tipo de trabalho é esse? Que dívida é essa? E por que falais no plural, se apenas vos vejo diante de mim? Quem sois? – questionou ela, já bastante irritada. 

– O Senhor é Deus. Eu não sou ninguém, mas nós somos muitos... Apenas desejai! – disse ele. 

Gardênia, bastante irritada e já sem paciência, decidiu pôr fim àquilo. Fitando os olhos do estranho, sem demonstrar qualquer traço de medo, disse, por fim, num tom de desafio: 

– Então, vamos lá. Sendo assim, eis-me aqui. Sim, eu quero! Acabai com todo o sofrimento de meu filho, e farei tudo o que me pedirdes! 

Sua voz era doce como o entoar de um pássaro ao amanhecer. 

– Boa noite, bela dama. O que fazes, sozinha, caminhando a esmo em horas tão tardias? 

– Boa noite. Precisava de um pouco de ar fresco para espairecer minhas ideias. Tenho enfrentado penosas atribulações. Sinto-me cansada e oprimida, buscando paz na silenciosa solidão da noite – respondeu ela, sem sequer questionar quem ele era ou por que também estaria ali. 

– Salvo engano, tenho a impressão de tê-la visto saindo da igreja há pouco. Não é justamente lá onde se encontra a paz e o conforto? – questionou ele, com um sorriso malicioso. 

– Certamente que sim, principalmente para aqueles que acreditam... Perdi minha mãe, quando ainda era uma criança. Tive minha inocência vilmente violentada. Perdi meu amado pai há dois dias. Até mesmo seu próprio corpo foi levado, sem receber os devidos respeitos de um enterro digno. Meu filho jaz à beira da morte, padecendo os efeitos do veneno de uma víbora. Neste momento, sinto, no mais profundo do meu ser, uma indescritível descrença em toda e qualquer promessa vazia que tange ao abstrato. Vi, com meus próprios olhos, aqueles que levaram meu pai. Contemplei também a serpente que atacou meu filho. Não há lugar em meu coração para promessas vazias. Aos poucos, meu mundo tem sido tirado de mim... – Suas palavras foram interrompidas pela força da emoção, enquanto as lágrimas banhavam seu rosto. 

– Dar-te-ei o alívio que procuras, se assim o desejares! – disse ele, fitando-a nos olhos. 

– Não peço nada por mim. Não há nada que poderíeis oferecer a mim mesma. Desde sempre, a dor e o sofrimento me fazem companhia. Se há algo que possa me oferecer, peço pelo meu filho. Seu sofrimento traz-me uma dor que nada neste mundo poderia ser pior. Mas, afinal, quem sois? Por que me atormentais desta forma, oferecendo aquilo que não podeis conceber? – disse ela, irritada por se deixar levar pela conversa de um estranho. 

– Quem sou, não importa. O que posso oferecer, sim. Apenas peça aquilo que vosso coração deseja, e contemplai com vossos próprios olhos o que meras palavras não podem mostrar – disse ele. 

Por um breve momento, ela lhe deu as costas e começou a se afastar. No entanto, o instinto de mãe falou mais alto, e ela voltou-se novamente para aquele belo ser: 

– O que quereis de mim? De que forma achais que poderíeis me ajudar? Parece que não ouvistes uma palavra sequer do que eu disse. Não vedes que nada, nem ninguém neste mundo, poderia me ajudar? Deixai-me em paz e apenas segui vosso caminho. 

– Sabemos tudo sobre vosso pai e o que aconteceu com ele. Seu corpo foi tomado como recebimento de uma dívida antiga. Saiba que ele foi um homem honrado e cumpriu, durante sua vida, todas as suas obrigações. No entanto, para vós, o fim é iminente. Mas o trabalho dele deve continuar. O que queremos é que sigais o mesmo caminho trilhado por ele. Nada mais desejamos. Em troca, poderemos vos dar tudo aquilo que desejardes! Desejai, e vereis – disse ele, num tom imperativo. 

– Como assim? Que história é essa sobre meu pai? Que tipo de trabalho é esse? Que dívida é essa? E por que falais no plural, se apenas vos vejo diante de mim? Quem sois? – questionou ela, já bastante irritada. 

– O Senhor é Deus. Eu não sou ninguém, mas nós somos muitos... Apenas desejai! – disse ele. 

Gardênia, bastante irritada e já sem paciência, decidiu pôr fim àquilo. Fitando os olhos do estranho, sem demonstrar qualquer traço de medo, disse, por fim, num tom de desafio: 

– Então, vamos lá. Sendo assim, eis-me aqui. Sim, eu quero! Acabai com todo o sofrimento de meu filho, e farei tudo o que me pedirdes! 

Antes mesmo de terminar de proferir essas palavras, uma coruja, que assistia a tudo em absoluto silêncio, arrulhou em agouro, levantando voo de onde estava assentada. Sobrevoou sobre sua cabeça e pousou no galho de uma velha paineira que se erguia dentro do cemitério. O feito daquele misterioso pássaro desviou momentaneamente sua atenção e, ao olhar novamente ao redor, viu-se mais uma vez sozinha perante a porta do reino dos mortos. 

Temendo ter sido acometida por algum tipo de alucinação, visão ou algo que o valha, e acreditando que talvez já não fosse senhora de suas faculdades mentais, sentiu-se tomada por um surto de loucura – tal qual seu próprio pai, certa vez acometido. Decidiu, então, retornar imediatamente para perto do filho, na esperança de ajudá-lo de alguma forma. 

Antes mesmo de chegar à igreja, avistou, ainda ao longe, Padre João na porta de entrada, vindo em sua direção com a cabeça baixa. Naquele instante, seu coração quase parou, o ar lhe faltou, e suas pernas fraquejaram. Quando o padre enfim falou, ela estava de joelhos diante da porta da igreja. 

– Minha filha, sinto muito em dizer-lhe... seu filho já não sofre mais... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Diário de Anton S. Miahi VI

Sua presença é inegociável no castelo dentro de um mês. Um convidado do conde poderá representar um problema significativo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

De Narcís Nestor
(Telegrama para “O Caçador”)
Atenção: Ivan Molchanov
Castelo de Lúgubre, Data: 11, de julho de 1871
 

Prezado Ivan, 

Sua presença é inegociável no castelo dentro de um mês. Um convidado do conde poderá representar um problema significativo. É vital estar aqui para discutirmos assuntos de extrema urgência. 

Aguardo sua confirmação imediata. 
Atenciosamente, 
Narcís Nestor 

~

De Ivan Molchanov
(Telegrama para Narscis Nestor)
Oldemburgo, 03 de agosto de 1871
Atenção: Narcís Nestor 

Recebi seu telegrama.  
Comparecerei ao castelo, não se preocupe. Estou no meio de uma caçada no norte da Alemanha em nome dos Romanov, mas assim que acabar, partirei direto para aí. 
Prepare-se. Estou chegando o mais breve que puder. 

 ~

Ivan Molchanov
De Dr. Christopher V. Walker II
(Carta para Anton)
De: Dr. Christopher V. Walker
Paris, 17 de agosto de 1871

Meu querido e estimado amigo, 

Ao receber a convocatória da polícia parisiense, um calafrio percorreu minha espinha, não era nada comum convocarem um psiquiatra. Meu retorno da Inglaterra havia sido marcado por uma aura de mistério e inquietação, mas nada poderia me preparar para o que encontraria no salão onde aconteciam a aula magna de medicina da Universidade de Paris. Ao cruzar a porta, uma sensação pesada se abateu sobre mim, como se o próprio ar estivesse saturado de desespero, em minha mente pairava apenas a dúvida quanto a toda aquela celeuma. 

A atmosfera tornou-se ainda mais densa quando me deparei com o investigador Jules Moreau, que estava examinado o local com seu olhar curioso. Moreau era um homem, na casa dos 30 anos, de cabelos castanhos curtos repartidos no lado direito, um bigode farto que balançava com cada palavra, e um nariz redondo que parecia sempre à procura de algo. Ele era um pouco acima do peso, e suas vestes estavam desalinhadas, como se ele tivesse se apressado ao sair de casa. Sua voz de barítono, embora imponente, era interrompida por um leve tom fanho que tornava suas declarações quase cômicas, se não fossem tão graves. O investigador aparentava uma jovialidade fora do normal em sua expressão, esboçando um sorriso cordial baixo aquele bigode. 

— Dr. Walker! — exclamou, gesticulando descontroladamente e quase derrubando um caderno que segurava sob o braço. — Precisamos discutir as condições em que encontramos os corpos. Eles foram… bem, transladados pelos carros da polícia, você sabe, direto para cá. 

Enquanto ele falava, eu tentava focar na gravidade do momento, mas o jeito desajeitado de Moreau dificultava manter a compostura. Ele se ajeitou as roupas, como se tentasse, sem sucesso, desamassar as dobras que pareciam se reproduzir a cada movimento. 

— A situação em La Cité… — ele continuou, limpando a garganta de maneira atrapalhada. — Está gerando incômodos. Os moradores estão em alvoroço! Mencionam coisas como vampiros e… bem, até fantasmas! — Ele fez uma pausa, olhando ao redor com um ar conspiratório, como se esperasse que algo sobrenatural aparecesse entre nós. 

— O que importa — prosseguiu, tentando recuperar o foco — é que precisamos resolver isso com o máximo de sigilo possível. Ninguém pode saber que os corpos foram trazidos aqui. A reputação da universidade, você entende? — Ele gesticulou com a mão, quase acertando o próprio rosto. 

A tensão do ambiente se misturava ao seu jeito desengonçado, e não pude evitar um sorriso diante da cena. Moreau parecia genuinamente preocupado, mas sua atrapalhada sinceridade trazia uma leveza inesperada ao momento sombrio. 

— Precisamos evitar que o pânico se espalhe. Se a notícia vazar… bem, você sabe como Paris é — disse, abrindo os braços em um gesto exagerado que quase o fez perder o equilíbrio. 

Os corpos jazeram ali, dispostos de maneira que sugeria uma cena de pesadelo. As luzes tremeluzentes das lamparinas projetavam sombras dançantes, criando uma atmosfera que tornava cada canto do salão um esconderijo de segredos. Eu sabia que precisava realizar uma análise cuidadosa, documentar as feridas nas jugulares, mas a realidade do momento era opressiva, como se uma força invisível me impedisse de pensar com clareza. 

Enquanto observava os rostos das vítimas, uma análise superficial começou a tomar forma em minha mente. A expressão de terror estampada em suas faces era inegável, um reflexo de um horror tão profundo que poderia ser palpável. As marcas no pulso direito, evidentes sinais de resistência, contavam a história de um desespero que ecoava nas paredes do salão. Embora já tivesse participado de análises em outros casos e aprendido a entender a mente criminal, essa cena me deixou inquieto. Era uma brutalidade que transcendia o mero ato de assassinar; era uma tentativa de controlar, de dominar, uma pulsão obscura que instigava minha curiosidade e aversão. 

Essas feridas tão estranhas que foram provocadas por Deus sabem o quê, ou quem, não eram apenas marcas físicas; eram indicadores de uma luta desesperada contra um predador invisível. A resistência manifesta nos pulsos poderia sugerir que as vítimas lutaram contra o que não podiam entender, e isso, por sua vez, reflete o que muitos temem: a incapacidade de escapar do destino. Minha reflexão aponta para uma inquietante verdade: a mente humana consegue tolerar horrores inimagináveis, mas essa resistência pode ser quebrada, transformando-se em um grito mudo que ecoa em nossos subconscientes. 

Enquanto escrevia, a caneta tremia em minha mão, refletindo a agitação que sentia no fundo, de minha alma. Sabia que precisava alertá-lo sobre a escuridão que se aproximava, uma sombra que ameaçava engolir não apenas aqueles corpos, mas a própria cidade. 

Nesse momento, a porta do salão se abriu e um jovem médico legista entrou. Thomas Simon, com seus cabelos negros e olhos de águia, tinha uma expressão carrancuda e um humor ácido que logo se tornou evidente. Ele se aproximou, sua presença quase imponente no espaço carregado de tensão. 

— Dr. Walker, investigador Moreau — disse, com uma voz firme. — Precisamos discutir algo sério. O sangue das vítimas foi completamente extraído. —Enquanto ele se aproximava da mesa e descobri o homem que estava mais distante de nós, nos forçando a ter-mos que nos aproximar dele. 

Essas palavras pairaram no ar, e uma onda de incredulidade me percorreu. Moreau arqueou uma sobrancelha, o semblante preocupado, enquanto a seriedade da situação se intensificava. 

— Como isso poderia ter acontecido? — perguntei, minha mente correndo para cenários impossíveis. 

Thomas cruzou os braços, o olhar penetrante como se pudesse desnudar a alma humana, examinando o ambiente antes de responder. — Pode ser algum culto estranho, uma prática ritual. O fato de estarmos lidando com corpos assim sugere que alguém se sentiu à vontade para realizar tal ato em pleno coração de Paris. 

Moreau franziu a testa, coçando a cabeça. 

— Cultos, você diz? Não estou surpreso. Ouvi rumores sobre atividades estranhas na região, mas pensei serem apenas lendas. 

— Lendas que parecem ter ganhado vida, talvez — completou Thomas, seu tom ácido intensificando a gravidade das palavras. — É o tipo de história que faz os moradores falarem sobre vampiros ou criaturas da noite. O povo gosta de fantasias, mas a realidade pode ser ainda mais assustadora. 

Moreau, que até então havia tentado manter a compostura, soltou uma risada nervosa. 

— Paris, a cidade das luzes, agora se torna a da escuridão. Acredito que os mitos estão mais vivos do que nunca. 

A atmosfera parecia pulsar, e a ideia de que a cidade poderia abrigar tal horror me deixou inquieto. Era como se uma sombra antiga estivesse despertando, e eu sentia que precisaria mergulhar nas profundezas desse mistério. Eu me via cercado por um labirinto de medos e pressentimentos, e a única coisa que podia fazer era preparar-me para o que seguiria. 

Anton S. Miahi XIII
(Escrito em meu Caderno) 

25 de agosto de 1871 —Esta noite, tive um sonho – ou talvez fosse um pesadelo, mas ele lateja em minha mente como algo mais denso, quase tangível. 

Eu me lembro de ter deitado, os músculos ainda enrijecidos do dia, sem sequer trocar de roupa. O mundo cedeu aos poucos, e o véu da inconsciência foi me cobrindo. Então, uma queda... A sensação visceral de descer, de ser tragado por uma força invisível. E lá estava eu, imóvel, os olhos piscando contra uma luminosidade suave e envolvente que parecia emanar do próprio ar, como se a atmosfera estivesse impregnada de luz líquida. 

Tateei ao redor, a superfície áspera de um chão desconhecido, e me vi rodeado por lavandas que se erguiam delicadas, seu perfume doce invadindo cada canto de meus sentidos. À minha volta, bolhas flutuavam, translúcidas e peculiares. Dentro de cada uma, vislumbres de lembranças – minha mãe, meu irmão, dias dourados na universidade. A nostalgia e o calor dessas imagens pareciam tão vivos, tão próximos... mas logo uma certeza fria atravessou-me: eu não estava em meu mundo. 

Uma névoa lilás cobria o ambiente como um véu leve, enquanto uma luz branca preenchia cada canto, uma presença calma, quase etérea. Então, uma voz conhecida perfurou o silêncio. 

— Bem-vindo, Anton. 

Virei-me rapidamente, o coração disparado. Mas ao ver Monm, com aquele olhar sábio e expressão tranquila, uma calma familiar substituiu o susto. 

— Isso é real? – perguntei, sentindo a incerteza tremer em minha voz. 

Ele respondeu com um sorriso enigmático, o tipo de sorriso que antecede uma revelação, ou um segredo. 

— E o que é real, senão o que acreditamos ser? — ele indagou, os olhos brilhando com uma intensidade contida, como se sua mente percorresse mundos além deste. — Aqui, Anton, estamos num campo onde as realidades se entrelaçam. Poderíamos dizer que é um sonho... ou um fragmento dele, um lugar de memórias, desejos e arrependimentos de muitos. 

Andamos lentamente pelo campo de lavanda, e um perfume suave se misturava à névoa, impregnando o ar. A cada passo, bolhas flutuavam ao nosso redor, translúcidas e frágeis, como se fossem tocadas por uma brisa inexistente. Dentro de cada bolha, imagens — momentos — de vidas diferentes, de pessoas desconhecidas. 

Monm seguiu ao meu lado, o olhar fixo numa bolha que passava. Em seu interior, vi o rosto de uma jovem, com cabelos tão escuros quanto a noite, um sorriso leve, mas com um olhar profundo e conhecedor. Era um olhar que parecia fitar além do espaço e do tempo. 

Ele suspirou, um som tão sutil que quase se dissolveu no ar. 

— Quem é ela? – perguntei. 

Por um instante, Monm hesitou, e sua expressão, sempre controlada, se partiu numa fração de segundo, revelando uma dor silenciosa. 

— Ela... — ele começou, mas parou, desviando o olhar. — Chamava-se Lysianne. Foi... — ele inspirou fundo, as palavras quase lhe escapando. — Foi meu único amor verdadeiro. Mas, sabe, Anton, para se aventurar no tempo, é preciso um preço, um sacrifício. E eu, com minha ânsia em desvendar os segredos deste universo, escolhi um caminho que me afastou dela.  

Houve uma pausa, e o campo de lavanda parecia mais silencioso, como se respeitasse sua lembrança. 

— Ela também era fascinada pelo tempo? — arrisquei. 

Monm sorriu, mas era um sorriso manchado de nostalgia e tristeza. 

— Não como eu. — Ele fitou uma bolha próxima, onde ela estava rindo ao lado de uma árvore sob um céu ensolarado. — Ela gostava de viver o presente, de encontrar beleza no instante. Para ela, um momento... era eterno. 

Ele passou a mão suavemente pela bolha, e a imagem tremeluziu antes de se dissipar na névoa lilás. 

— Então por que essa busca insaciável, Monm? — perguntei. — Por que sacrificar algo tão precioso? 

Ele se voltou para mim, o olhar ainda mais sério, um fogo intenso em seus olhos.  

— Porque, Anton, o tempo é uma ilusão, uma corrente que tenta nos prender. E a verdade é que... — ele hesitou, a voz baixa. — Eu queria libertá-la, encontrar uma realidade onde pudéssemos viver sem limites, sem essa cruel imposição do tempo que devora tudo. 

— Mas isso não é impossível? — insisti. 

Ele balançou a cabeça, um ar sombrio em seu semblante. 

— Ah, meu caro, o impossível é uma mera palavra. Mas há consequências, há fissuras. E quanto mais fundo cavamos, mais nos deparamos com realidades em que os sonhos e pesadelos se entrelaçam. É por isso que este lugar existe — apontou ao redor. — Aqui repousam fragmentos de vidas, de desejos que nunca se realizaram, de amores que nunca floresceram. 

Paramos diante de uma bolha mais próxima, onde vi a imagem de uma mulher abraçando uma criança. A cena pulsava de ternura, mas também de tristeza, como se ambos soubessem que aquele momento era breve. 

Monm fitou a cena, absorto, e por um momento, notei algo raro nele: arrependimento. 

— Esses são ecos de outros sonhos? — perguntei, tentando entender. 

— Sim, sonhos de outros, de vidas que jamais cruzaremos. Aqui, Anton, reside o que todos carregamos no inconsciente. Nossas sombras, nossas esperanças. Somos apenas viajantes. Quando olhamos para um sonho alheio, nos encontramos também, por um segundo, refletidos nas ambições e medos do outro. 

Ficamos em silêncio, observando a cena. Monm suspirou novamente. 

— Você já sonhou em encontrar algo, Anton, mas que sempre parece fugir? Como se existisse um vazio em cada linha do tempo, uma distância que nunca pode ser percorrida? 

— Às vezes — respondi. — Como uma lembrança fugidia, uma sensação de algo perdido, mas que nunca conheci. 

Monm assentiu, os olhos voltando à lavanda. 

— É a essência do tempo. E somos prisioneiros de algo que pensamos dominar. 

Antes que pudesse responder, ele tocou levemente meu ombro. 

— Vamos, há ainda muito a caminhar. 

Antes que eu pudesse responder, uma sombra se formou ao longe, desenhando-se lentamente em um contorno familiar. À medida que se aproximava, a figura de um homem magro e sereno emergiu da névoa lilás, vestindo-se de branco, com um cavanhaque bem aparado e olhos profundos como dois lagos plácidos. Em uma das mãos, ele segurava uma chave dourada e adornada, que brilhava mesmo na penumbra. 

— Sou Lieran — disse ele, sua voz grave e suave, como um sopro de vento antigo. — O guardião deste entre-mundos, o reino de Somníria. 

— O que você está fazendo aqui, Lieran? — Monm perguntou, o tom de sua voz mesclando uma ironia sutil com a seriedade do momento. — Veio discutir novamente a futilidade dos sonhos? 

Lieran sorriu, mas não havia alegria em seu sorriso. Era uma expressão de compreensão triste. 

— Os sonhos não são fúteis, Monm. Eles são portais. É por meio deles que as verdades ocultas se revelam, não apenas sobre nós, mas sobre a própria essência do tempo. Você insiste em vê-los como meras ilusões. 

— E você — Monm retrucou — vê a realidade como uma prisão, acreditando que os sonhos podem libertar aqueles que se perdem em suas correntes. Mas não é assim que funciona. Os sonhos podem se tornar labirintos, Lieran. Labirintos que aprisionam mais do que libertam. 

Anton, sentado entre eles, sentia-se como uma peça de um quebra-cabeça que não se encaixava. Seus pensamentos eram um turbilhão. 

— Esperem — eu interrompi, tentando entender. — O que exatamente significa sonhar para vocês? Estou confuso. Não é tudo apenas... um escapismo? Ou há algo mais? 

Lieran se voltou para mim, os olhos profundos como lagos refletindo uma sabedoria antiga. 

— Os sonhos, Anton, são a linguagem do inconsciente. Eles são ecos de nossas emoções, medos e esperanças. Quando sonhamos, temos a oportunidade de revisitar nossos anseios mais profundos e confrontar verdades que muitas vezes ignoramos. O tempo em sonhos é elástico, permitindo que revisitemos momentos que acreditamos perdidos. 

— Mas não são apenas ilusões? — retrucou Monm, gesticulando como se estivesse tentando desvendar uma teia invisível. — Lieran, você se esquece de que os sonhos podem distorcer nossa percepção. Eles nos enganam, nos iludem com promessas de um futuro que nunca pode ser, enquanto a realidade continua a ser intransigente e cruel. 

—  Que é a realidade, senão uma construção dos nossos sonhos? — Lieran desafiou, a chave dourada balançando suavemente em sua mão. — As escolhas que fazemos no mundo dos sonhos reverberam na realidade. Não subestime o poder que eles têm. O que sonhamos pode, de fato, moldar o que vivemos. 

Eu olhei de um para o outro, a tensão crescendo. A cada palavra, o ar se tornava mais carregado, como se o próprio espaço entre eles estivesse se comprimindo. 

— Mas então — perguntei, hesitante — se os sonhos moldam a realidade, como podemos confiar no que vivemos? E se o que acreditamos ser real for apenas mais um sonho? Como discernir entre o que é verdade e o que é ilusão? 

Monm olhou para mim, um brilho de reconhecimento nos olhos. Era como se ele tivesse sido lembrado de um passado distante que ainda o assombrava. 

— Essa é a questão que todos enfrentamos, Anton — disse ele, sua voz agora tingida de uma vulnerabilidade inesperada. — O que fazemos com as verdades que descobrimos? E o que acontece quando esses sonhos se tornam pesadelos? 

— Você deveria se perguntar, Monm, o que realmente está buscando em suas viagens no tempo — Lieran retorquiu, sua voz firme como o aço. — O que você está disposto a sacrificar para alcançar seus objetivos? Cada escolha tem um custo. E esse custo pode muito bem ser mais do que você está preparado para enfrentar. 

A tensão pairava, e o silêncio se estendeu por um momento, uma respiração compartilhada entre os três. Anton sentiu que, de algum modo, estava no centro de uma tempestade, onde cada palavra era um relâmpago iluminando verdades obscuras. 

— E se o que eu procuro — eu murmurei, mais para mim mesmo — for o que estou destinado a perder? 

Ambos se voltaram para mim, e, por um breve momento, o campo de lavanda pareceu ecoar a pergunta, as flores balançando suavemente como se estivessem escutando. 

O impacto de suas palavras reverberou em mim, mas antes que pudesse refletir, o chão se abriu sob meus pés, e fui lançado novamente na escuridão. Despenquei, a queda me envolveu, e senti uma nova transformação no ar ao meu redor – mais densa, mais fria, como se sombras me acolhessem. 

Despertei num ambiente muito diferente, a claridade suave substituída por uma escuridão quase sólida. Levantei-me cauteloso, e ao meu redor, o chão era coberto por rosas negras com delicados tons de roxo degradê, uma paisagem sombria que exalava um cheiro doce e nauseante. Um ruído distante, como o bater de asas, chamou minha atenção para cima. 

Uma criatura desceu do céu negro, o ar em volta dele se dispersando em uma lufada fria. Ele tinha um corpo humanoide, mas as asas – negras e largas como as de um corvo – traziam uma imponência animalesca. Quando pousou, observei de longe, quase sem respirar, os olhos límpidos e profundamente lilás, as orelhas pontudas, a pele tão branca que lembrava marfim. 

A figura reunia algumas daquelas bolhas, mas as imagens que continham eram diferentes – rostos distorcidos pelo terror, fragmentos de dor e desespero. Senti um calafrio. Ele murmurava algo que não pude distinguir e começou a se afastar, carregando as bolhas em direção a um umbral negro. 

Um vulto pendia sobre seu ombro. Um gato negro, seus olhos de um branco frio que pareciam atravessar minha alma. Algo me puxava para aquele ser, uma curiosidade perigosa, irresistível. 

O ser cruzou o umbral, e quando percebi, estava me erguendo, seguindo-o, como que guiado por uma força misteriosa. 

— Anton... – uma voz macia e sombria ecoou. 

Era o gato, agora sobre uma mesa em uma sala grandiosa e fria. Ele me fitou, um brilho irônico em seus olhos. 

— Chamam-me de Meia-Noite, e meu companheiro, Uor. Vejo que chegou até aqui por acaso ou talvez… por curiosidade. 

Fui tomado pelo instinto, endireitando-me, tentando parecer seguro. 

— Anton Stephan Miahi, Sargento da Cavalaria – minha voz ecoou no salão vazio. 

Uor sorriu com uma ironia afiada. 

— Sei muito bem quem é você. 

Aquelas palavras perfuraram-me como uma lâmina, e o salão pareceu fechar-se ao meu redor. No fundo, uma nova suspeita brotava – eu não estava mais no reino dos sonhos, nem tampouco no inferno. Estaria eu no próprio limiar do inconsciente, num lugar onde medos e mistérios coexistem? 

No mesmo dia mais tarde — O encontro com Meia-Noite e Uor me deixou inquieto, como se uma névoa densa tivesse se instalado em meu ser. Fui recebido não como um convidado, mas como um prisioneiro que, mesmo sem saber, tinha uma dívida a pagar. Eles se apresentaram como mestres de um jogo cujas regras eu ainda não compreendia. A presença deles sugeria um peso no ar, e suas palavras flutuavam como sombras, dançando ao redor de nós, pulsando com a energia de verdades ocultas. 

— A ambição de Olga — começou Meia-Noite, quebrando o silêncio pesado — transcende o que você pode imaginar, Anton. Ela não é apenas uma mulher sedenta por poder, mas uma criatura que busca controlar o sobrenatural em busca de algo maior. 

Uor balançou a cabeça, seus olhos cintilando com uma luz gelada. — Você a vê como uma mera mortal, mas há mais em Olga do que o que se revela. Ela toca as cordas do invisível e manipula a escuridão ao seu redor. É por isso que Drácula a atrai. 

Meu coração acelerou. Para mim, Drácula sempre fora apenas um conde do interior da Europa, uma figura envolta em mistério e lendas. No entanto, a ideia de que sua conexão com Olga era mais do que mera coincidência começou a se enraizar em minha mente. 

— O que você quer dizer? — eu perguntei, a tensão entre nós era quase palpável. — Como você pode ter certeza disso? 

— O Conde — continuou Meia-Noite, a voz profunda reverberando no ar — não é apenas um homem, Anton. Ele é um símbolo, um ícone do que se perdeu e do que se busca no abismo. Atraído pela ambição de Olga, ele representa a eternidade e o horror que ela deseja controlar. 

Uor fez uma pausa, como se estivesse pesando suas palavras antes de continuar. — Mas a verdadeira natureza de Drácula é mais sombria do que você imagina. Eu conheço um jovem que presenciou o ataque em Paris, uma cena que se desenrolou sob a luz da lua, onde a morte dançou no sangue fresco. 

As palavras de Uor me prenderam, como uma teia invisível envolvendo meu corpo. Eu me via forçado a imaginar a cena horrenda, uma jovem sendo devorada, sua vida esvaindo-se sob as garras do Conde. 

— Ela morreu — Uor continuou, seu tom sombrio, quase reverente — até a última gota de sangue, Anton. A cidade de Settimor foi erguida para acolher as almas perdidas, aquelas que foram atraídas pela sedução de um castelo obscuro, onde as promessas se tornam pesadelos. A ambição de Olga não é apenas por poder; é por controle sobre essa escuridão que a cerca. 

A ansiedade começou a consumir-me, como uma maré crescente. Era como se as revelações se tornassem gélidas, arrastando-me para um abismo de dúvidas e temores. Eu estava cercado por verdades que não conseguia ignorar, e a ideia de que tudo isso poderia ser real era sufocante. 

— E se ela estiver certa? — perguntei, a voz tremendo. — E se Olga conseguir realmente o que deseja? O que isso significaria para nós? 

Meia-Noite trocou olhares significativos com Uor.  

— O desejo dela de transcender é uma busca sem fim — respondeu Uor. — Se ela dominar o sobrenatural, você e todos ao seu redor não passarão de peças em seu tabuleiro. A verdadeira questão é: até onde você está disposto a ir para impedir que isso aconteça? 

Monm, que até então permanecera em silêncio, soltou uma risada baixa, quase amarga. — Uma escolha sempre tem um preço, Anton. E o que você está disposto a sacrificar? 

As palavras deles ecoaram em minha mente, pesadas como pedras. O clima tornava-se cada vez mais tenso, e a incerteza me envolvia. Como poderia enfrentar um ser como Drácula, com Olga ao seu lado, manipulando os fios invisíveis que regem nossas vidas? 

De repente, antes que pudesse processar tudo, uma luz intensa irrompeu à nossa frente. Um portal se abriu, revelando o contorno familiar da chave dourada de Lieran. 

Monm e Lieran emergiram do brilho, seus rostos sérios, como se trouxessem consigo o peso de um novo destino. 

— O que vocês fizeram? — Monm exclamou, seus olhos fixos em mim, preocupados. — O que foi revelado? 

Lieran, com um gesto fluido, apontou para o espaço nebuloso que nos cercava. — A verdade não deve ser ignorada, mas nem todos estão prontos para enfrentá-la. Venham, devemos ir. 

Eu olhei para Meia-Noite e Uor, suas figuras agora quase etéreas diante da luz pulsante. A sensação de que algo maior estava em jogo tornou-se uma realidade indiscutível. Eu havia sido lançado em um ciclo de eventos que apenas começava a se desenrolar, e a única certeza era que o caminho à frente estava repleto de sombras e revelações. 

Atravessando o portal, percebi que não havia como voltar. O que me aguardava era um futuro indefinido, onde a linha entre sonhos e realidade continuava a se desvanecer, e eu me via cada vez mais entrelaçado no destino que me aguardava. 

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Capítulo 1: Uma criatura disforme

Violentei a tela alva com fortes estocadas do pincel. A intenção era descarregar todas as amarguras que insistiam em me assolar naquele dia….

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Violentei a tela alva com fortes estocadas do pincel. A intenção era descarregar todas as amarguras que insistiam em me assolar naquele dia. A memória, tal qual um inquisidor implacável, empurrava-me contra os pregos da dama de ferro que eram os meus traumas, num abraço frio e mortal, enclausurando-me dentro de mim. “Deveria eu continuar lidando com essa tortura?”

Parei. Nada de útil surgiria daquele amálgama disforme e colorido. Frustração. Também não conseguira escrever nada naquele último mês: “Ah, quão maldito é o trabalho que exige criatividade extrema, por que raios me enfio nessas empreitadas?”, flagelava-me quando não tentava, castigava-me quando pensava em desistir. Minha vida era essa constante luta interna do eu contra mim.

Enquanto saía do meu ateliê, Lisa, minha gatinha preta e carente, esfregava-se em meio às minhas pernas, ronronando e derretendo as geleiras que esmagavam meu coração. Lembro-me que perdi o equilíbrio e quase fui ao chão.

— Ah Lisa, para com isso. — disse-lhe, mas só para reforçar a minha necessidade por reclamar. Agradeço por ela ser teimosa e determinada, porquanto nunca irá parar. Sim, ela está aqui comigo. O Castelo Drácula abriga todo tipo de criatura, por que não uma gata?

Um banho. As águas calorosas tinham propriedades curativas, o vapor, poder de reorganizar e remontar minha psiquê, deixando-me próximo a um ser humano que não havia sido quebrado.

Com um mínimo de bom humor restabelecido, resolvi ir ao pub, uns goles do amargo gin afogariam os sentimentos claustrofóbicos. Ah, as propriedades lisérgicas das bebidas etílicas!

Eu adorava aquele local. Tinha uma fachada discreta e paredes de tijolos escuros, o típico lugar onde um desavisado não entraria, pois não parecia ser um bar. Essa sensação de entrar em algo secreto e exclusivo me apetecia. Viva a curiosidade. Lá dentro, as luzes baixas, emulavam a ideia de um sonho sombrio, atmosférico e intimista, onde cada canto parecia envolto em uma penumbra vermelha, verde e roxa, realçada por velas e luzes de néon.

Os bancos eram de couro preto, ligeiramente rasgados pelo tempo e uso, mas ao aconchegar-me ali sentia que o mundo parava ao meu redor. Nas paredes, pôsteres de bandas lendárias como Black Sabbath, Iron Maiden e Slayer se misturavam a quadros de arte sombria e psicodélica, muitos criados por artistas locais, inclusive por mim. Ah, como almejava resgatar os tempos áureos, onde minha inspiração quase não me cabia.

Uma jukebox tocava uma seleção pesada e interessante, variando entre black metal, doom metal, sludge metal e alguns clássicos do heavy metal, que faziam todos cantarem juntos. Às vezes, bandas ao vivo tocavam em um pequeno palco no fundo, iluminado por luzes vermelhas e verdes, com espaço suficiente para àqueles que queriam aproveitar o som e aquela atmosfera inebriante.

No balcão, as bebidas eram diversas: cervejas artesanais escuras, drinks com nomes inspirados em mitologia nórdica e shots que queimavam a garganta. As prateleiras atrás do bar exibiam garrafas de rum, whisky e absinto. Quantas vezes saí de lá arrastando-me, mas nunca carregada, encontrava forças que nem sabia existir para manter a minha suposta dignidade.

No banheiro, as paredes eram cobertas de grafites e adesivos de bandas, como se cada pessoa que tivesse passado por ali tivesse deixado sua marca. Era um espaço onde todos eram livres para ser quem eram, cercados pela energia sombria e autêntica do metal e do álcool. Sinto saudades desses momentos.

Bebi. Já que as águas anteriores não quiseram lavar minhas dores, eu as sufocaria com os líquidos, música e tola autocomiseração. Não me recordo do nome da banda que tocava naquela noite, mas ainda guardo a boa sensação despertada a cada acorde, os meus pesares sendo levados a cada gutural ostensivo do frontman.

Retornei para casa em estado de evidente embriaguez, mas sentia-me quase levitar sob o céu que eu mesma concebi. Meu lar recebeu-me com silente afago, e eu me rendi ao seu cálido abraço. Transcorrido um tempo que não mensurei, de repente, senti correr em minhas veias a vitalidade de uma artista em ascensão, poderosa – como se uma entidade houvesse adentrado e possuído meu corpo.

Corri para o ateliê, dentro das possibilidades de locomoção que aquele estado me permitia, mas corri, como se minha vida dependesse daquele ato sem propósito. O que avistei fez-me questionar minha frágil sanidade, entretanto, sua presença imagética imobilizou-me.

À meia-luz, um movimento sutil tomou forma na tela. O contorno difuso se agitou, e uma figura começou a emergir, como se o quadro estivesse se dissolvendo em sombras. Lentamente, revelou-se — uma entidade envolta em um manto de trevas, os contornos do rosto delineados apenas por um brilho espectral. Seus olhos eram como fendas de névoa prateada que parecem absorver um pouco da luz da sala, hipnotizando-me. Estendeu uma mão fina e esquelética, atravessando os limites entre o quadro e o mundo real. Era meu chamado.

Com uma voz baixa e aveludada, que parecia ecoar em minha mente, convidou-me para morar no Castelo Drácula. As palavras pareciam feitiço. Um calafrio percorreu minha pele, mas não era medo — mas uma curiosidade irresistível, uma necessidade profunda e incontrolável de segui-lo. Sem hesitar, deixei-me guiar para dentro da tela, desaparecendo na escuridão que a envolvia. Lisa não se atreveria a me deixar só e saltou comigo rumo a um destino incerto.

Quem era, afinal, a tal criatura disforme, oriunda das pinceladas na tela profana, criadas em meio ao meu desvario? Hoje, pronuncio seu lindo nome sem medo, encontrei beleza no estranho e serenidade no desconhecido: Espectumbral.

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Escrito por Cláudio Borba, -Poesias Cláudio Borba Escrito por Cláudio Borba, -Poesias Cláudio Borba

Ecos de um Jardim Sepulcral

Adentro o campo como quem adentra um sonho, | lavandas por toda parte, um oceano roxo e calmo, | elas flutuam suaves ao toque de leves brisas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Adentro o campo como quem adentra um sonho,
lavandas por toda parte, um oceano roxo e calmo,
elas flutuam suaves ao toque de leves brisas,
parecendo guardar uma paz que jamais acaba.

Mas há algo aqui, algo invisível que rasteja,
um segredo escondido no doce perfume e na cor,
uma inquietude perdida no meio do silêncio
tal qual um coração que bate lentamente.

Caminho, e as flores parecem murmurar,
o som parece uma prece feita no começo da noite,
uma estranha melodia, palavras mal-ditas,
sussurrando meu nome em uma voz que nunca ouvi.

O que diz o campo que fere a minha mente?
Por que o horror se veste de algo tão belo, tão sereno?
É como se escondesse as garras sob suas pétalas.
Há algo ancestral, um toque gelado que toca minha pele.

Não é um jardim, é um túmulo em flor,
uma prisão aveludada que me convida a ficar,
e, no entanto, ao me virar, as lavandas me cercam,
o murmúrio cresce, toma conta do ar,
um canto fúnebre que desencanta a beleza.

Sinto o pavor apertar minha garganta,
e as vozes falam de dor e de sombras,
de destinos que ninguém ousa lembrar,
é como se o campo guardasse os segredos dos mortos
e a alma de que o adentra fosse um preço.

Eu corro, mas os murmúrios me seguem,
as flores balançam como dedos que apontam,
e toda a paz se dissolve em uma neblina,
me deixando só entre sussurros sombrios,
perguntando se algum dia eu estive desperto.

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Pergaminho de sangue cósmico

No limiar entre mundos, onde o nevoeiro se estende, | Ergue-se Arale Fa´yax, filha de uma felina raça distante, | Com a cauda prateada, fina como a lua em sua ascensão…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

No limiar entre mundos, onde o nevoeiro se estende, 
Ergue-se Arale Fa´yax, filha de uma felina raça distante, 
Com a cauda prateada, fina como a lua em sua ascensão, 
Olhos oblíquos de safira tão profundos quanto as cavernas do abismo ou um mar de ressaca.  

Sua pele, pálida como a neve, caindo em silêncio, sinfônica voz, 
Reflete o brilho das estrelas apagadas no vasto céu negro. 
Cabelos platinados, com fios de esmeralda entrelaçados, 
Dançam ao vento, como fios de uma tapeçaria celestial mística.  

Mas a beleza é forjada em dor, em sangue como a forja do destino, 
Onde sua carne, marcada por uma cicatriz que serpenteia, 
Revela a luta que o mundo não pode ver, sua assinatura e fardo, 
O duelo contra o último xamã de sua tribo lhe custou o exílio que a alma sofreu.  

Um sacrifício, uma missão, um braço se perdeu, apenas o vazio, um espaço que clama por cura, 
em seu lugar, a prótese cibernética de protoplasmas, biogenesis felina, futura, 
Uma obra de metal e circuito, luz fria, pulsante, seu punho de vida, sua recordação, 
um de seus legados, de sangue e promessa, 
Que brilha com a promessa de poder e de destruição.  

Na outra mão da guerreira com garras de leão, ela agarra uma máquina de escrever, feita de ossos, 
Fiel companheira de estrada galática, jornada de eras e herança amaldiçoada, 
Cada tecla, cada golpe, um feitiço de morte e destino, 
Sangue é tinta, e o papel, papiro como carne dilacerada de uma criatura do mal ali ceifada, 
Onde palavras de extermínio surgem, traçando caminhos de pulverização e purificação.  

E é neste mundo de sombras e crueldade que ela caminha e expurga, 
Onde o portal da sua dimensão se abriu, revelando um jardim, berço do Castelo Drácula. 
Entre as pedras do castelo, onde a noite nunca cede à luz, 
Ela caminha, a caça, a caçadora, armada com a verdade. 
Suas vestes, uma fusão de couro e névoa, uma vitoriana felina cyberpunk, 
Negra como a noite e dourada como o mel, a aurora de um novo mal, 
Protegem o corpo, mas não a alma, pois ela já está selada, 
Em um pacto com as forças que andam nas trevas, mas não a dominam. 
Em questão de segundos, desliza de suas costas para seu punho, uma espingarda também de ossos que em um instante se torna machado, 
Transforma-se como ela mesma, fluida, imprevisível, mortal. 
Com a lâmina cortante, como o vento no inverno sem fim, 
Ela vai à caça, onde os monstros se escondem e os demônios se amparam.  

Oh, Arale Fa´yax, filha do além, do cataclismo e da lua minguante, 
Teus passos ressoam nas cavernas do castelo, pegadas do silêncio dominante 
Onde cada palavra escrita é um feitiço antigo,  um rugido de tua ancestralidade, 
Cada página sangrenta, o próximo passo da jornada ao vazio da eternidade, 
Que o sangue que flui seja a chave, o sangue que é o guia, 
Tua missão, marcada pela dor e pela força, o amanhã ruge, 
Extirpe as ameaças que se ocultam, que se alimentam da vida, 
Que o destino de tua lâmina e tua escrita sejam o selo do exício de toda sombra.  

Oh, filha da noite e da penumbra, Clã Fa´yax, guardiã do véu, 
Teus passos ecoam pelos corredores de um castelo orgânico, 
Assim como onde vivia, uma árvore vitalícia que apodreceu, 
Onde a morte sussurra como um vento gelado,  
as almas perdidas vagam, em busca de redenção, 
Mas tu, minha guerreira, já não precisas de salvação.  
[Talvez sempre precisará, de si mesma...]  

A máquina de escrever de ossos manchados, 
de ossos amaldiçoados, seremos nós todos apenas ossos esquecidos pelo tempo vitalício e nossas ações prosperam além do osso esqueletal que nos sustenta?  
Brilhai, pungente, lacrimosa, ela grita e sangra, 
Cada tecla que tocas é um eco de um destino antigo, 
Escreves não com tinta, mas com a essência do sofrimento, 
Teus dedos dançam entre as linhas da eternidade, 
Onde o caminho se revela como um rio de sangue.  

O papel, um papiro cósmico, mágico de pó de estrelas e carne e dor, 
desvela-se diante de ti, em cada página escrita, um grito de agonia, 
Mas também um passo em direção à vitória da luz da poesia, 
Pois as páginas não mentem, Arale Fa´yax, da raça felina de tua tribo extirpada, 
Elas mostram o que a escuridão tenta esconder.  

Espingarda que se torna machado com uma lâmina tribal de ossos cravejados, 
Escorrido e manchado, 
Tu és a lâmina...  
Que ceifa e que rasga o véu do além, 
Que corta as garras das criaturas que surgem das sombras, 
Que quebra o grilhão do medo e da morte. 
Em tuas mãos, o destino é forjado em aço e vingança.  

Veste-te, guerreira de pele tão clara como a lua, 
Com o manto de veludo negro que beija o vento, 
O sangue de mil criaturas, já banhou teus pés, 
Feroz, imortal, desvaneces os sustentos de terror. 
Tuas roupas, como o silêncio do túmulo, não dizem, mas sabem.  

A cauda de prata, tão leve quanto a brisa de inverno, 
Move-se com graça, e mesmo nas trevas, ela brilha, 
Oh, criatura etérea, filha das estrelas caídas, 
Tu és o reflexo do que não pode ser tocado, 
O espírito que dança entre o real e o etéreo, 
Entre as dimensões e os reinos que o homem nunca verá. 
Nos corredores de pedra, onde as velas tremem, 
Onde os retratos dos antigos se tornam olhos, 
Tu és o caçador e a presa, o monstro e o salvador, 
Com os dedos manchados de sangue, mas o coração puro, 
Segues adiante, sem medo do que há à frente, 
Pois teu destino já está escrito nas páginas da morte.  

Arale Fa´yax, guerreira sem fim, fantasmagórica escriba da morte, 
A marcha da eternidade é a tua única música,  tua foice espiritual, 
Onde o som do teu machado cortando a escuridão, corteja o nulo, 
É mais doce que o canto dos anjos, cortejai o umbral de sangue, 
Mais profundo que os abismos que te chamam, te clamam, suspiram, 
Fatídico o horizonte que nunca se vê. 

Teu braço biônico, feito de circuitos e relâmpagos, 
Brilha na noite, como uma estrela fugaz, um punho destroçador, 
Uma cicatriz de herança, de legado, de lembrança,  
Que teu rosto carrega,  teu coração sabe o peso de tua insanidade, 
É o selo de uma alma que não pode ser quebrada. 
Para ti, Arale, não há morte que te detenha, 
Nem sombra que apague o brilho de tua jornada. 
Oh, guerreira da máquina e da carne, 
Teus olhos são espelhos da verdade que ninguém ousa olhar, 
E a escuridão se curva à tua vontade, 
Pois no abismo, tu és a luz que se ergue, 
Onde a treva reina, tu és a sentença. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Viva eu descansarei

Condenei-me a viver entre paredes de concreto e pedra fria, quando minha mente queria fugir para as florestas, admirar a altura das árvores…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Condenei-me a viver entre paredes de concreto e pedra fria, quando minha mente queria fugir para as florestas, admirar a altura das árvores, respirar o ar puro, colher cogumelos e encher meus pulmões com seus esporos. Então fugi, caminhei descalça e senti, com meus pés, a maciez do musgo, enquanto o sol da manhã aquecia minhas costas. Ouvi a música dos corpos d'água, o canto dos pássaros, o rastejar lento dos insetos. E, quando me cansei, deitei-me na úmida terra, admirei o céu e me mimetizei com o verde e o marrom.

Apenas realizei a minha vontade de desaparecer na natureza e, quem sabe, nunca mais ser vista ou ouvida. E, com o tempo, fazer parte da natureza tão intrinsecamente que dificilmente saberão a diferença entre mim e ela, pois a ela eu pertenço. Deito na relva, contemplo a altura das árvores e observo o anoitecer lento, enchendo o céu de estrelas. Sinto que tudo é natureza, e eu sou da natureza. E entendo que o que importa acontece na quietude, na composição e decomposição do belo, na natureza efêmera do ser, na morte e no próximo nascer.

Ela vai me compor enquanto eu vou me decompondo, nos dias e nas noites que virão, na chuva e no calor alentador. Ela irá me aceitar e, do meu peito, farão nascer belas flores; dos meus olhos úmidos, cogumelos dos esporos que inalei. E assim, o musgo e a relva, como um cobertor reconfortante, aos poucos vão me cobrir. Então, eu me tornarei parte eternamente da natureza e ela de mim, e, quando a chuva cair para regar o solo e o sol iluminar as flores, assim, viva eu descansarei.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 6 — O Piche do Oblívio

As sombras eram solecismos factuais; um ruído medrava-se horrífico. Algo físico entre nós inibia-nos, impedindo quaisquer aproximações; uma divisão vítrea, perceptível…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

As sombras eram solecismos factuais; um ruído medrava-se horrífico. Algo físico entre nós inibia-nos, impedindo quaisquer aproximações; uma divisão vítrea, perceptível aos nossos olhos, tinha um agudo e longínquo sonido, contínuo como as nódoas negras enervantes, símeis ao nanquim aguado nos recônditos do olhar, tecendo um manuscrito de horror. As chamas da lareira, que eram, pouco antes, fogo lúcido, criavam oscilações além de sua estrutura de pedra, acendendo um fogo estirado pelas trevas, como o lume do sol radiante em raios de sua grandeza e poder; porém, contornado pela escureza hostil, desafiava a lógica da constituição primordial da própria natureza da luz. Parecia-me que aquele lugar, uma adega de raros vinhos e licores, outrora fora uma sala aconchegante ou, quiçá, há de ser, pois o tempo ali era apenas um pêndulo tardio de um nada além. 

O que é isso...? — ouvi de Anton. Sua voz era firme e baixa, ecoava pela dimensão, pois esta se tornara uma dimensão entre dimensões; eu sentia e admirava o derredor. No soturno de minh’alma, como se houvesse um pássaro morto entre os meus pulmões, fleumática em fascínio, eu sentia... enquanto a realidade se desestruturava. Havia apenas eu e os olhos atentos de Anton, embaçados pela vítrea fragmentação. Meu corpo era a leveza de um rio, mas o medo não perdoava, e em sua verdade não habitava clemência. 

Tu sentes também, não sentes? — indaguei-lhe, fragilizada. — Anton... — chamei-o outra vez. — Nada aqui é o que nos parece ser. — Confuso, com a fronte crispada, ele tentara tocar a divisão que nos separava; foi em vão. 

Quem é você, Áurea? — Dissera, com tal amaro timbre, firme e tenso. — E por que estou aqui, ao seu lado, mas tão distante? — As dúvidas eram os vultos que emergiam no breu que expandia; vi, entre os barris de vinho e a antessala com a lareira, um frondente piche n’uma cinesia mórbida. Almejei responder à Anton o que eu era de fato, mas o piche... tinha forma humanoide e a sua inominável presença adulterava minhas ações, inibia-me em quaisquer desejos, sufocava minhas cordas vocais. Olhei para Anton, devagar. Tudo se paralisou, o recuar das águas antes do dilúvio. E o silêncio, outra vez. O piche era o símbolo do eterno retorno do que não ocorrera; eu intuía, pois, vi o diário de Anton em suas mãos e o vi, igualmente, na poltrona que outrora me sentei. Dois diários, dois tempos. Havia, nas paredes, fissuras imemoriais, condenando um fim perpétuo de algo, em alguma instância, e no vítreo, rachado símil, ainda nos separando, eu vi... a mim mesma... refletindo... 

Talvez, — Minha voz falhava, pois o temor ascendia pútrido e instável. — Não sejamos mais do que reflexos de algo imensurável, o qual está além da compreensão. Temo que… estejamos confinados em uma armadilha incorpórea… — Proferi, fraca. Quase não via mais Anton e o piche voltou a se mover em minha direção; quebrando a quietude, grunhindo algo similar a um poço de águas pútridas. Só eu o via...? Não sei dizer. Quiçá o seu horror e as suas correntes que se arrastavam pelo assoalho fossem tudo criações ilusórias do meu oblívio... e o cheiro hórrido... a consistência... apenas mais um falso murmúrio.  

Inerte, então, ouvi o solfejar do piche do oblívio... entre a voz doce de uma criança que, longínqua, conversava, remansada, sobre frutos. Um bombo grave carregava um peso sôfrego enquanto o piche cantarolava ao tilintar de suas correntes mortíferas. Cada vez mais próximo. Eu não podia me mover. “Às vezes.... as coisas mais... estranhas... podem ser as mais...” — Ouvi, entre ruídos. “As mais...” — Repetia-se. “As coisas... estranhas...” — Repetia-se. “Estranhas... Às vezes...” — E o bombo mais e mais violento. O piche alcançou-me a pele pálida. “Nunca vi uma fruta tão estranha!” — A criança indagara. Olhei, aterrorizada, para a criatura, e seu piche manchava-me o corpo, caindo sobre mim. O bombo transfigurou-se em um zumbido agudo e distorcido no instante cruel em que a dor... aquela dor... me acometeu impiedosa. 

Abaixei-me, levando minhas mãos à cabeça e ao peito; a dor alastrada como gritos de pavor de centenas de pessoas em um amontoado vil e repulsivo; gritos e ruídos... gemidos de agonia e tortura, tudo no âmago meu, na carne minha, nos órgãos e entranhas. Dor. A pior de todas as dores. Ausência de ar, falta, falta, falta de ar... e dor... dor... sobre a imagem de um mercado, crianças e Anton, segurando um fruto. Ao seu lado uma mulher de rosto rosáceo e tenro. “Minha Áurea, o amor pode nos levar por apavorantes veredas... e mesmo assim... ainda será amor...” — Mesmo longe, o sussurro da mulher viera aos meus ouvidos. Eu apenas pude gritar, toda a algia levava-me a tremer e meus olhos vibravam, eu nada mais via além da memória. 

Entardecer laranjim... uma respiração viril advinha do piche... entre o presente e o passado. A mulher era símil a mim, porém, envelhecida; seus cabelos eram grisalhos e estar ao lado dela me aprazia. “Uma torta de romã, Áurea” — Dissera. E vi-me uma petiz menina, caminhando descalça por uma casa de madeira até encontrar um homem de olhos negros, sem esclera. Sua mão em meu pescoço e eu já não era mais juvenil; ele tinha ódio de mim, ódio enraizado e pulsante como uma artéria. “Morra, traidor!” — Vociferara. Traidor? De súbito, uma criatura única, símil a um dragão, mas com corpo de cobra e crânio de corvo, a mesma criatura refletida nas águas pertencentes à Lahgura, olhava-me com ternura e eu a acariciava, dando-lhe, em seguida, pétalas de Cestrum Nocturnum. Ela parecia degustar da iguaria, em gáudio. “Ela sofrerá?” — Vi-me questionar, olhando para Lorrt cuja face era perfeita e os olhos intensos em carmim. “Eu prometo que não.” — Respondera, beijando-me os lábios em seguida; sua voz era paternal. “Eu... não queria vê-la morrer...” — Confessei, com lágrimas nascentes e já tão célere vertidas, eu as sentia aquecer meu rosto, como um orvalho de verão. “Tu não verás, estarás adormecida e protegida. Confie em mim, pequena luz.” — Ainda paternal, Lorrt segurara minha mão, caminhando comigo pelo jardim. A criatura mítica nos seguia, como se soubesse o seu destino. 

Por favor... me diga o que fazer! — A voz agora era de Anton, em inominável frustração, contudo, a dor vinha do piche que me cingia respirando, e eu não podia falar, pois meu coração palpitava em frenesim enquanto todo o meu corpo congelava em sofrimento e temor; a agonia da dor era como uma tortura da morte, brincando de rasgar minha tez com sua foice envenenada. Olhei para Anton, minha decadência eclipsava sua imagem. “Não... posso... compreender... Anton.... por quê...?” — Lamuriei, sobretudo, o piche penetrara-me os olhos e sussurrara-me meu nome... “Áurea... Lihran...”; meu grito de desespero tinha sabor de barbárie, pois o horror do martírio tornou-se atrocidade desumana. Asfixia outra vez, o torso oprimido; meus olhos ardendo pelas correntes que o invadiam e, quando as lembranças vívidas se tornaram sangue, tudo se desfez a uma adega frígida e escura. E a minha vestal solidão. 

Áurea! — Ouvi. Seth, com sua voz grave, indicava uma aflição sobre mim. Senti suas mãos em meu corpo; no dorso e no colo. Mantive-me olhando para o chão, lacrimuriando. 

Era... Aborom... — Sussurrei, pois, lembrava-me. — Nós... festejávamos... — Insisti. Na lembrança, o sol era a grande pupila do infinito, como um eclipse amornado na imensidão laranjosa. Reuníamos para cozinhar com grãos rústicos. Parte de uma cultura que pertencia a mim, parte de meu lar. — Ela estava lá... minha querida mãe... — Lágrimas na entreluz do cômodo gélido. Pranto entre soluços de uma tristura irremediável. Seth abraçara-me. 

Está tudo bem, estou aqui... — dissera, contudo, doía no peito; nas emoções dilaceradas pelo piche do oblívio quebrantado no horror de uma vivência pavorosa. Fui levada aos braços de Seth, por ele, envolvida e acalentada, enquanto a voz de minha mãe ressoava e a saudade era a pior de todas as angústias que, desde meu despertar, vivenciei. 

Eu não os verei novamente... — Murmurei. Lorrt sorria em minhas visões profundas; mamãe servia-me um pedaço de sua torta de romã. Almejei sucumbir à Rosaemori, para não lembrar. A chuva fina era uma cortina natural às janelas, aguando os jardins que em âmbar refletiam. Rostos opacos, semblantes apagados, no entanto, um júbilo aprazível envolvia-os todos, todos nós; e quanto afeto residia no aroma de abóbora-doce com canela, abóbora-cabotiã e cumaru, abóbora-moranga e leite de coco! Saladas frescas com manjericão igualmente... crianças correndo entre os móveis de cedro. “Doces ou travessuras?” — Eu ouvia... eles brincavam enquanto eu colhia algumas calêndulas na estufa. “Travessuras, é claro!” — Dizia-lhes e logo, sob distrações com as pétalas perfumadas, eu era assustada por suas máscaras grotescas, pintadas com óleo de linhaça e cúrcuma seca e moída. Eles gargalhavam... pequenas criaturas inocentes... tão só meninos e meninas... tão só pequenos rebentos da vida em... Numnura... 

Verás sempre, na lembrança... — Respondera Seth. Então o olhei. Seus olhos eram azuis. 

Onde está o pretume de teus olhos de arcanjo? — Indaguei. Teu sorriso emergiu como um cândido sol no horizonte. 

Creio que nunca olhaste, de verdade, para mim... — Redarguiu cordial. Então o olhei. Havia uma cesura próxima ao seu olho esquerdo; sua pele era bela. Duas curvas no centro de sua fronte assemelhavam-se às hastes de um cervo. Havia outra cicatriz em seus lábios e nela toquei com a ponta de meus dedos trêmulos. — A queda... é sempre dolorosa... — Proferiu enquanto em seus lábios repousava meu toque tenro. 

Arcanjo caído... — Sussurrei. Seth segurou minha mão, afastando-a de seus lábios e acariciando-as lentamente. — Por onde esteves? — Ponderei. 

Estive no inferno...— Dissera em seu ninho de pensamentos. Acarinhou-me a maçã do rosto. 

Como é lá? — Meus olhos exaustos piscavam na lentidão de meu coração não mais frenético, embalado pela tristura da saudade e o ardor do corpo de Seth. 

— Grandioso... uma eterna noite carmesim em névoa negra; há rubi nas frestas ornamentais das residências e, muito mais, no alcácer de Lúcifer. Há um flúmen de lava cujo curso se esparge por todo o reino e o mármore bruto se forma às margens deste tórrido caudal, matéria-prima que esculpe as estátuas de beleza núrida — as quais estão por todo o reino — e o alcácer, de perfeição inenarrável, do A Estela da Manhã. A flora é seca, exceto pelos arbustos de nutrúrnias, flor símil às dálias, porém, com pétalas em voluta, formando um redemoinho escarlate; são leves, abrem-se ao soprá-las. São brilhantes em cor negra-etérea com nuances rubras. Espinhosas como as rosas. 

Belo... e tão... sui generis... — Respirei fundo. — Traga-me uma nutrúrnia de lá? — Sussurrei com a voz embriagada de sono. 

Farei o possível... — Aproximou-se de mim e beijou-me os lábios que há pouco tocara com seus dedos. Sua boca era aquecida, quiçá como parte da aura do inferno. Seu beijo demorou-se à suavidade do toque de nossos lábios. Fechei meus olhos e senti. “Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss. Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss. Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss...”  — Ouvi, como centenas de vozes sibilantes. Em uníssono. Arrepiaram-me a tez de imediato dada a assombrosa essência que possuíam. Não eram as mesmas de Seth em minha mente. O beijo cessou logo depois do estranho idioma murmurado, acabou por me despertar do relento. Olhei para Seth e pensei em indagá-lo, mas, silenciei, pois, seus olhos cerúleos pediam contemplação. Seth veio aos meus lábios outra vez. “Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss.”  — As vozes. E o beijo se intensificara. “Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss” — mais uma vez. Lamuriei, indo contra o corpo de Seth, sentando-me sobre ele, cruzando minhas pernas ao seu redor. Um beijo de ardor profundo. “Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss, esspussess erebriss daemoniss ssaeiva enssnura” — Os sussurros pareciam queimar-me a tez. Seth gemia um prazer único e eu sentia sua rigidez. “Ssaeiva enssnura voluass”.  

Áurea... — Murmurou, afastando-me de si. Olhamo-nos, ofegantes. As vozes cessaram, elas sobrestavam quando não nos beijávamos. — Preciso ir... — Revelou. 

Para onde, Seth? — Temi a solidão e o quanto minhas novas memórias se alastrariam nela. 

Para o inferno... 

Por quê? Por que agora? — Supliquei. 

Buscarei tua nutrúrnia. — Dissera com a voz tenra e assim fez-me sorrir, todavia, a tristeza era como um piano ao fundo de todo o horizonte de meus sentimentos. Fui levada para meu aposento, nos braços de Seth; posta ao leito confortável em veludo negro após ser despida pelas mãos de meu arcanjo, devagar, senti-o afagar, em silêncio, a minha pálida pele, e fui vestida, em seguida, com um damanoute carmesim — escolhido por Seth, que olhava para as janelas de minh’alma a quase todo instante, exceto quando abaixara-se para retirar minhas vestes, onde pôde apreciar cada detalhe de minha estrutura física, ao menos por instantes. Beijou-me, por fim, no centro de minha fronte e esvaiu-se em sombras após um salaz “até breve”. Eu estava só. E adormeci só. E sonhei. 

Afundavam-se os meus pés nas rubras areias de uma paisagem desértica; dunas infindas d’esta areia concebiam um horizonte estonteante e sombrio. Sopravam-se os ventos frígidos em contraste com o que, sob meus pés, era cálido, pois, sobre mim e sobre as areias carmim, um sol no firmamento conduzia-nos seu mormaço tão característico. Entre espessas nuvens negras, clareiras de seu luzir invadiam as dunas que refletiam a vermelhidão transfigurando o céu numa celestial cinesia entre escuridão, sangue e luz. Neste vertiginoso cenário, eu caminhava em busca de sentido e, admirada com tamanha perfeição, quis compreender aquilo que somente a intuição é capaz de assimilar. 

Aos poucos, formava-se a calima, pois a inclemência da aragem era real, tanto que revoava meus cabelos de modo a dar-lhes nós em suas pontas; contudo, ainda que ébria de um medo puro — pois, percebia fenômeno grandioso ser composto por um perigo inominável — eu andejava, guiada pela mesma busca eviterna. Foi então que vi aquela mulher, tão semelhante a mim, em seu vestido negro que, feito de renda e cetim, esvoaçava como seus e meus cabelos; ela estava parada em uma alta duna, observando um homem que, ao seu lado, semi-ajoelhado, lhe oferecia um anel de ônix com um rubi lapidado em prisma. Corri como pude, tentando alcançá-los; pensei que poderia ser mamãe, no entanto, já bem próxima, vi que era, pois, eu mesma; e o homem era Lorrt. E o que se assemelhava rubi, era sirenniha diamantada, com o vermelho das dunas refletido; e o ônix era, na verdade, obsidiana em cortes geométricos. Não sei como soube disso, mas eu soube. “Lorrt!” — Vociferei ao notá-los, ambos, desaparecendo como miragem. Não chamei por mim. 

Caí sobre as dunas escarlates e chorei; um pranto de licor rubi-áureo que vertia em minhas mãos pálidas e areadas pelas partículas. “Eu te amei...” — Sussurrei, como se ele pudesse ouvir. Quando tive forças para fitar o horizonte da outrora miragem, o que vi foi mamãe; agora sim era ela e não havia outra de mim; era ela, olhando-me de longe, sorrindo com dulcífera candura. Levantei-me aos tropeços, a calima se intensificava e meus olhos semicerravam. Mamãe, cujo nome eu não lembrava, segurava em suas mãos uma romã partida e vestia-se com vestes marfim, suaves como o seu semblante; transmitia-me a paz que tão somente uma mãe o poderia fazer. “Mãe...” — Murmurei. — “Mãe!” — Bradei. Levantei-me com dificuldade, a areia acumulava-se no meu envolto; corri como pude, outra vez; chamando por ela. Clamando pelo seu amor vestal. No entanto, quão previsível... outra miragem; esvanecida enquanto tão próxima eu estava. “Áurea... minha menina Áurea...” — Ela dizia e eu a ouvia, doce voz, voz de estévia. Tocá-la intensificou a calima pouco antes do seu esvanecer. 

Então fui consumida pela areia escarlate que, ao vento, levantava-se em seus infinitesimais grãos que outrora à superfície volátil se acumularam. Chorei sobre a areia, soterrando-me aos poucos; foram lágrimas secas, como meu corpo e meus lábios. Pouco depois, enquanto sentia a saudade arrancar-me toda a fé; um silêncio contrapôs o sopro agressivo do vendaval e, assim, chamou-me a atenção. Esforcei-me para sair da areia carmim e caminhei entre seixos de vidro natural e rochas do mesmo material que se formaram onduladas e com imensos orifícios orbiculares. Guiada pelo caminho de vidro, alcancei uma floresta morta. Contínuas árvores e arbustos de galhos secos jaziam ali e, a areia, antes abundante, aos poucos se dissipava. Doía-me a solidão que emergia, todavia, pressentia que algo valioso viria ao meu encontro se eu apenas continuasse a caminhar. E continuei. O mirrado arvoredo se densificava e uma estrada de magma frio moldado como ardósia surgiu aos meus pés quando toda a areia se foi. Durante a caminhada eu ouvia, no âmago do silencim, aquele sonido conhecido... da criatura mítica... agora eu sabia que era dela, mas ainda não a via. 

Avistei, porém, uma casa; a minha casa; mas, sem o jardim. Escura em seu interior. Sem os vizinhos ou as abóboras ou o festim... sem as crianças e suas máscaras grotescas pintadas em açafrão... sem mamãe... sem romãs... ainda assim, senti que em seu interior eu estaria protegida em minha tristura; um lugar para fazer meu ninho de saudade, medo e melancolia. Fui à porta de cedro já envelhecida e abri-a desapressada. “O que... houve aqui?” — Expressei minha dor de ver as ruínas da casa que vivi por éons; fragmentos do tempo que passa e aniquila tudo o que temos de inestimável. Adentrei sua sala cuja luz era contida, vinda das janelas danificadas e das frestas da estrutura corroída. Meu coração se acalmou. Toquei a margem da lareira empoeirada... mamãe acendia seu interior nas noites frias e permitia-me observar o fogo tenro enquanto a ouvia cantarolar. Pouco depois, na semiescuridão, vi Seth. Sentado na cadeira de balanço, esperando com paciência, era o mesmo assento que amei por anos quando mais jovem, sentando-me para ler poemas ancestrais. Ver Seth trouxe-me serenidade, entretanto, por outro lado, temi algo que não sei. Seth levantou-se e se aproximou com cuidado e estendeu-me sua mão. 

É preciso aquiescer à finitude, minha Aesatt, para desfrutar da eternidade...— Segurei o braço de Seth e ele beijou minha fronte; caminhamos juntos para fora do lar em decadência, mas doeu deixá-lo, uma dor lânguida e demorada. No insípido cenário, flores negra, com nuances carmim, símeis às dálias floresciam por onde nossos pés caminhavam e, então, seguimos juntos dentre elas; era um brotar de beleza etérea que suscitara em minh’alma uma esperança luzidia de algures, e algum dia, ter um lar outra vez, mesmo debaixo do amargo sabor dos tantos fins que hei de colecionar tendo a imortalidade como pilar de meu existir. Mas, não era apenas tal veracidade que contornava a simbologia do sonho; Seth em meu lar arruinado, presente no vazio decadente de minha história olvidada; Lorrt a amar um outro eu... e mamãe... apaziguando-me ainda que como um espectro no deserto. É mesmo preciso aquiescer à finitude para desfrutar da eternidade. 

Meus olhos abriram-se lacrimejantes. Eu compreendi muito e tão pouco... tão pouco e o que foi preciso. Senti a energia em minhas entranhas, uma disposição de enfrentar as dores, horrores e verdades, em meu nome, por mim, por Áurea Lihran morta, por Áurea Lihran de um devir e, acima de tudo, por Áurea Lihran que, naquele átimo solitário, tinha em suas mãos o poder de criar, ao mesmo tempo, o seu passado e o seu futuro. Eu sabia que árduo seria o enfrentamento do tempo que poderia, de fato, não existir naquele Castelo, mas existia no imo daqueles que possuíam a dádiva da vida, seja qual fosse sua forma de vida. Então sentei-me à beira de meu leito e vi de imediato o derredor em um branco puro; profundamente níveo — das paredes de pedra aos móveis vitorianos e à tapeçaria. À princípio pareceu-me normal, como se tudo já assim o fosse desde sempre, porém, soube pouco depois que eu ainda sonhava e, mais do que isso, eu estava em um sonho que não era apenas meu. 

Personagens neste capítulo:

Livro:

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Sonuras de Áurea Lihran: Saudade

Aborom! Larajim d’esta manhã | Desponta a quint’essência de meu ser; | O frutossangue: mélica romã | D’arbórea que m’encanta a aquiescer;…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Aborom! Larajim d’esta manhã 
Desponta a quint’essência de meu ser; 
O frutossangue: mélica romã 
D’arbórea que m’encanta a aquiescer; 

Aparta em lume doce o negr’oblívio 
Que assombra tal pupila ébria no céu 
De mórbido terror e horror sonívio… 
Abrigo em lanrinura, a noite-véu; 

Da morte d’idos ledos — falta fúnebre —  
Compr’ende o querer tanto um lhano lar? 
Ruínas, fogo-fátuo rubro e lúgubre 

Nas dunas, n’azul íris, no sonhar, 
Nos braços d’um demônio — meu ambíguo —  
Nos sais meus, lacrimais, elã exíguo 
E a frágil esperança a se abeirar. 

Palavra criada por Sara Melissa de Azevedo: Lanrinura (substantivo feminino poético): Languidez causada por uma introspecção acentuada. 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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A Vingança

Sinopse: Uma morte por envenenamento é causada durante o banquete de Aborom e agora todos os convivas, em especial o Detetive, precisam descobrir quem é o assassino.

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A Vingança: Envenenamento 

Pupila-lua ao céu mui laranjim, 
Crepúsculo de lânguido calor,
Servido Funghi ao Creme-Galarim
E à mesa estão os convivas em horror; 

Alguém envenenara Dom Mortez!
Ninguém, este recinto, deixará!
E traga-os, da cozinha, de uma vez!

— Dissera — “O culpado expor-se-á!

A noite s'inclinava umedecida;
Que o réu revele agora o assassinato!
De súbito — as velas — distorcidas, 

A chama pontiaguda, o breu-regato
De mórbido ar regélido e terrível;
Anae Mortez: “Que olor tão putrescível!
O espírito sibila: “Vizir... rato...

~ ❦ ~ 

A Vingança: Verdades

Um rasgo em sua garganta. Anae, o fim...
Uníssono de assombro enlouquecido,
E Correm todos, gritos e motim,
Enquanto Nohn ofende o seu cupido;

O sangue em flúmen, ela apodrecendo...
Amava-te, mi'a Anae...” — Silêncio horrente,
O bravo detetive estremecendo...
Nohn, casa-te comigo...” — a voz pruriente;

Os olhos esgazeados, puro medo;
Anae aos braços dele: decomposta,
Sorrindo lhe revela um vil segredo:

Vindita aos imorais Mortez, exposta
Está toda a verdade no porão...

Mil corpos esfolados, que aflição!
O caldo especial da Sopa à Tosta.

~ ❦ ~ 

A Vingança: Descoberta

Nohn vira Anae pútrida e possuída,
A morta co'a verdade que confessa
Que a vil família, em peso, era homicida
E o cárcere, o porão… Nohn logo apressa:

Chamai-vos a polícia… que já basta…
Amá-la foi um erro, e eu sempre soube…
Seus olhos âmbar, doces, alma casta…
À mala, meu ser tolo, mui bem coube
”;

Cuidavam das perversas evidências,
Convivas abalados, decadentes…
Fantasma vingativo? Que ocorrência!” —

Dissera alguém p'ra outrem, pouco descrente,
Até que viram, pois, cadáver-Dinho
“Receita, Sopa à Tosta " em pergaminho.
Virara, o cozinheiro, o ingrediente.

~ ❦ ~ 

A Vingança: Razões

Querido Vizir Dinho, traga a janta!
— Dissera Luhna — “Há fome a me atingir!”;
Grã-mestre dos sabores! Anae, canta!
À mesa pôs-se o pão para cerzir;

Qoe santhis dorvirmor devatte ziinm
Cantara enquanto a sopa era servida,
Porém, no degustar, pleno festim,
Mortez, o Dom, presença requerida;

Estranha carta entregue, sugerindo
Que Dinho era um covarde traidor:
Mudara a grã-receita, confundindo.

Sabia!” — Vociferara o Dom, no agror.
Então desembainhada a adaga — Morte!
Vizir sangrara à sopa, pouca sorte,
Ó rato! Morra agora, opositor!”. 

~ ❦ ~ 

A Vingança: Receita (Final)

Colha alguma abóbora vistosa,
Marine ao sangue fresco d'um infante,
Prepare o moedor que, para a Tosta,
Precisa pó de ossos de gestante;

Cuidado para o ponto, ponha sal!
Na massa da torrada vai farinha;
À sopa: um limão, uma dorsal,
Tomates frescos, mel e pimentinha - 

Com alho, o creme-queijo, abundante,
Afogue a manjerona e as nove línguas
Enquanto ao forno as tostas. Fascinante! 

Polvilhe a seca tez, não tenha mínguas!
E sirva com liquor de olhos castanhos;
Os crânios de bebês têm bom tamanho,
São belas cumbuquinhas ou morínguas.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Gênesis I

Segui as noites na companhia de Ameritt, sempre auxiliando em tudo que ela precisasse que fosse feito para abastecer e alimentar os hóspedes do castelo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Segui as noites na companhia de Ameritt, sempre auxiliando em tudo que ela precisasse que fosse feito para abastecer e alimentar os hóspedes do castelo. A quantidade de alimento — na maior parte das vezes o caldo esverdeado — era sazonal. O caldo vermelho normalmente era preparado em uma panela média, duas vezes ao dia. Certamente, além de mim e do homem de cabelos negros, eu não sabia ao certo quantos mais se alimentavam daquilo, pois tão pouco eu tinha acesso aos outros andares do castelo e não conhecia os outros que habitavam por ali. Por um médio período, que já não sei precisar, minhas únicas funções eram preparar a comida, ler pergaminhos em outros idiomas, entender a fisiologia e os componentes que formavam os insetos servidos no caldo esverdeado. 

Certa vez, antes de ir até a câmara mais isolada do porão do castelo, onde haviam alocado meu caixão, senti uma forte curiosidade em adentrar uma das câmaras que ficavam entre a cozinha-laboratório de Ameritt e minha câmara isolada; algo me instigava a entrar ali. Por duas vezes, antes de ir dormir, pouco antes que chegasse o amanhecer, me vi tentado a abrir o tal aposento, até que, na terceira vez, não resisti e proferi as palavras: “Apertum Loculum”, a fim de tentar abrir a porta local. Para minha grande surpresa, a porta se abriu, e eu me vi sem reação; já não sabia se deveria entrar no local ou fugir dali, intuindo que poderia ser perigoso estar em uma câmara que vivia trancafiada. 

Naquele momento, minha curiosidade havia me vencido, e eu, por fim, adentrei a câmara. Era um cômodo completamente diferente dos que eu já havia tido acesso dentro do castelo; eu estava dentro de uma espécie de biblioteca que reunia diversos pergaminhos e livros, e a dimensão daquela habitação nem se comparava com a biblioteca que havia no navio, nem com a minibiblioteca onde eu estudava latim, grego e a anatomia dos insetos — que era anexa à cozinha-laboratório de Ameritt —, pois era muito maior. 

Dentre os muitos livros que a biblioteca possuía, um em específico, de capa dura na cor cinza escuro, quase preto, com um dragão vermelho como símbolo na capa e com mais de quinhentas páginas, me chamou muita atenção. No canto direito, havia escrito: Genesis. O livro não quis se abrir por vontade própria; tive que mencionar “Apertum Loculum” para conseguir acessá-lo. Assim que a primeira página se abriu, percebi que ali se identificava um mapa; ao lê-lo, consegui reconhecer as regiões com os nomes: Transilvânia, Valáquia e Moldávia. A região da Moldávia parecia ter uma cor diferente das outras duas (hoje sei que as outras duas regiões, junto com mais seis regiões conquistadas no período do Império Romano e Otomano, compreendem a totalidade do mapa da Romênia atual). Eu não era um indivíduo que lia muito no período em que vivi minha vida mortal; começar a ter o hábito da leitura era algo novo para mim. O fato de ser uma aberração, e com isso ter adquirido poderes para absorver rapidamente a leitura, me trouxe uma sensação maior de satisfação por esse novo hábito, confesso, pois antes me faltava paciência e foco. 

À medida que eu saboreava uma a uma as páginas do livro de capa de dragão, parecia que eu lia uma história que me conectava à minha; algo do que eu lia fazia sentido para as minhas origens vampirescas. A parte textual do livro era escrita em primeira pessoa, como se fosse uma espécie de diário, e começava assim: 

 Brasnov, de 1448 a 1476 
O primeiro de nós 

Após a morte de Vlad Tepes, o Príncipe Empalador, em 1476, devido à traição por cobiça ao trono da Valáquia por seu próprio irmão, Radu, eu, Igor Dracul, seu primo, recebi o título de Conde Dracul pelo próprio Vlad em seu leito de morte. Após receber seu anel do dragão como último presente, o que firmava meu pacto de confiança com o Empalador — pacto este que Vlad não tinha confiança em estabelecer com o próprio filho, Mihnea —, uma vez que o filho tinha caráter duvidoso e, além disso, não era iniciado na Ordem do Dragão, como eu e seu pai, Vlad III. 

Além de todos esses fatores, eu era comandante das tropas de Vlad, seu amigo confidente e o único que presenciara e guardara em segredo dois fatos que mais tarde comprovariam a lenda que nomeava Vlad como Conde Drácula, ‘O Demônio da Transilvânia’. 

Vlad e eu pertencíamos à Casa de Basarab (Câmara dos Drăculești) e, devido à escassez de homens vivos na família, fomos os únicos iniciados na Ordem do Dragão que permaneciam vivos. Os povos valaquianos e transilvanos da época disputavam territórios invadidos e tomados pelos otomanos, e muitos homens haviam morrido na guerra. 

Vlad realmente tomou a última decisão de sua vida de forma pensada em seus últimos minutos, após a batalha no mosteiro de Voronet, onde os turcos descobriram que o Empalador e seu exército se escondiam (invadiram em uma manhã de verão para capturar e decapitar o líder que mais havia empalado soldados otomanos e saxões). 

Antes da morte de Tepes, por algum motivo que a maioria da população valaquiana, amigos próximos e familiares não entendiam, Vlad deixou de circular pelas manhãs e inícios de tarde. O Empalador passou a ter hábitos noturnos desde que se mudara para o mosteiro, e somente eu cheguei perto de descobrir o verdadeiro motivo. 

Em uma noite invernal do ano de 1458, Vlad convocou-me, a seu filho Mihnea e a mais dois soldados de sua guarda pessoal para irem a uma grande floresta, abaixo do Monte Cárpatos. Ao chegarmos perto de uma gruta, Tepes pediu a todos os quatro que o acompanhavam que esperassem do lado de fora enquanto ele explorava a alcova sozinho. Passado um tempo, os quatro cavaleiros que o aguardavam ouviram um grito agonizante ecoando da gruta; entreolharam-se no mesmo instante. Assustado, resolvi adentrar o buraco assombrado e, ao invadir o local, logo senti uma presença macabra que vinha de um vulto grotesco, que parecia esvair-se para dentro do chão da gruta, dizendo em uma voz de barítono: 

— Sua alma é minha, e, em troca de poder, você agora é das trevas. 

No mesmo momento em que identifiquei o corpo de Vlad caído ao chão, percebi que Mihnea estava na caverna em estado de choque, sem entender o que havia acontecido ali. Corri até meu senhor imediatamente e verifiquei se ele ainda estava vivo. Os dois soldados entraram na gruta em seguida e ajudaram a socorrer Vlad Tepes. O Empalador ainda vivia, mas estava fraco e pálido; no lado esquerdo do pescoço surgiram duas marcas de onde esvaía sangue. Um dos dedos da mão direita estava queimado e, da parte que o ligava à mão, nascia uma crosta vermelha, ainda com sinais de fumaça no local, como se tivessem tostado um dos dedos de Tepes. 

À medida que os dois soldados se adiantavam para levar o corpo de Vlad para fora da caverna maldita, Mihnea continuava parado na gruta, sem fazer qualquer movimento. 

Enquanto os outros dois cavaleiros ajustavam Tepes em um dos cavalos, percebi a ausência de Mihnea e lembrei que o filho de Vlad permanecia na alcova. Ao avistar o rapaz, ainda perplexo na caverna, o chamei, mas não obtive resposta. Resolvi sacudi-lo aos gritos e, ainda assim, não obtive reação. Então, decidi estapeá-lo, berrando, e, ao despertar do transe com tal violência, o garoto questionou: 

— Lorde Igor, o que aconteceu? 

Em resposta, lhe disse: 

— Nada que devamos lembrar. Vamos embora deste lugar sombrio. Meu senhor, seu pai, precisa de maiores cuidados. 

Ao chegarem aos aposentos do mosteiro com Vlad, os quatro cavaleiros logo propagaram os rumores de que o corpo do Empalador chegara sem vida. Alguns criados suspeitaram que poderia ser algum tipo de peste; outros imaginavam que seu senhor houvesse caído em uma emboscada feita pelos turcos enquanto caçava cervos à noite, mas a verdade somente eu sabia. 

Durante muitos dias e muitas noites, Vlad permaneceu trancafiado em seu quarto. Nos primeiros dias, ficou acamado, pois ainda não havia recuperado parte de suas forças. Sua pele permanecia incolor, e a ferida que cicatrizava em seu dedo queimado agora parecia metal — como se da casca do ferimento surgisse uma capa de cobre. No entanto, a ferida no pescoço permanecia, como se houvessem sido feitos dois pequenos buracos negros, como se o sangue de Tepes estivesse apodrecido ao ser mordido por uma serpente do mal. Vlad já não possuía mais alma. 

Após ler e refletir sobre as palavras escritas por Igor Dracul, lembrei-me da fatídica viagem que fiz naquele navio assombrado até aqui. O que mais me chamou a atenção até agora foi que o tal anel, que parecia ter surgido como uma espécie de herança no dedo necrosado de Vlad Tepes, era o mesmo que o senhor que me guiava e criara portava: um anel de cor avermelhada, parecendo ser de cobre, com uma insígnia de dragão no centro. Seria, o meu senhor, aquele descrito nas palavras do livro de capa de dragão, ou será que Vlad Tepes despertara mais uma vez de algum tipo de torpor e agora nos espreitava e comandava no castelo? De uma coisa eu tinha certeza até então: o senhor que portava o anel e fora meu criador era o atual Drácula, dono do navio e de tudo o mais. 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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12. Castelo Vampírico: Não sabeis o que acontecerá amanhã

Finalmente comecei a ter boas noites de sono; fazia tempo que eu não dormia bem. Os chás que tomei com Ameritt…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

04 de janeiro? - Finalmente comecei a ter boas noites de sono; fazia tempo que eu não dormia bem. Os chás que tomei com Ameritt estavam fazendo o bem prometido por ela. Cheguei até a sonhar, e, na maioria deles, eu me via sentada à escrivaninha à frente da janela, lendo o livro e fazendo anotações. Sentia-me distante de mim mesma e, ao mesmo tempo, ligada ao livro. Voltei à rotina habitual no castelo, à qual eu já havia me acostumado, agora que meus nervos pareciam ter se acalmado. Via sempre o livro sobre a mesa, apenas esperando para ser lido, e ia em sua direção. Lembrava do seu peso, de sua textura, tão próxima à minha pele quando o coloquei por baixo da blusa para protegê-lo da chuva. Às vezes, meus dedos quase o tocavam enquanto eu estava perdida em pensamentos, mas logo sentia um frio percorrer minha espinha e recuava. Respirava fundo e sussurrava “Hoje não” para mim mesma; algo dentro de mim dizia que eu não estava pronta. Então, coloquei alguns papéis sobre o livro para que eu não ficasse olhando para ele a todo momento.

A manhã trouxe uma mudança na atmosfera do exterior do castelo; a chuva havia cessado, deixando um clima mais ameno. Olhei pela janela, vi o jardim e me senti disposta a fazer mais uma visita a Ameritt — isso se tornara rotineiro. Antes de sair do quarto, passei a pomada em minha ferida, como eu havia prometido a ela. Meus dias e minhas noites no castelo pareciam estar voltando aos eixos: dormia bem, acordava disposta, visitava Ameritt. Ficávamos conversando sobre entomologia, botânica, qualquer assunto relacionado às ciências da natureza, e me permiti ouvi-la falar sobre misticismo, esoterismo, alquimia e todas as pseudociências possíveis. Eu não estava mais num mundo onde a razão fazia sentido; depois de tudo que passei no castelo, presenciar algo e tentar explicar tudo apenas com fatos faria minha mente colapsar. Eu tinha que entender que não estava mais no “Kansas” e, como Dorothy, deveria apenas aceitar esse caminho e continuar na estrada sombria dos tijolos amarelos.

Ameritt me fazia experimentar diversos chás e me mostrou ervas que cresciam somente no castelo, além de me explicar o efeito de cada uma no corpo humano, oferecendo-me somente aquelas que pudessem me acalmar, nunca me dopar. Explicou-me o significado de besin, e fiquei surpresa ao saber que era uma palavra do idioma dos Séttimôros, um povo pelo qual passei a ter certa afeição; a palavra significava "besouro". Depois da visita, voltava para o quarto e focava na escrita. Os dias iam ficando mais calmos, mais rotineiros. Vez ou outra, eu me lembrava do livro, mas logo voltava minha atenção ao que eu estava fazendo. O ambiente ao redor do castelo parecia se tingir de um tom laranja: as folhas nas árvores, o céu da manhã, abóboras em profusão cresciam no jardim, cogumelos em tons de laranja e outros terrosos. Tudo tinha uma tonalidade vibrante, e à noite, com uma lua laranja contrastando com o céu escuro.

Tudo fora do castelo e dentro de mim aparentava outono, simulava uma lenta mudança, mas eu sabia que não era totalmente assim. O castelo parecia despertar para uma nova fase, mais viva e inquietante, como se estivesse sendo alimentado de forma constante, com muito mais inspiração. Eu esperava que fosse assim dentro de mim também; sentia algo diferente no ar e dentro de mim, de forma que despertava meus sentidos. Como uma comichão que eu sentia por todo o meu corpo e me fazia sentar em frente à escrivaninha e apenas escrever todas as imagens, sons e palavras que vinham em abundância à minha mente. Era como se o castelo me desafiasse a apenas aproveitar essa atmosfera peculiar para pôr as ideias que borbulhavam em minha cabeça no papel. Então, me deixei levar, e, como se inspirada divinamente, eu escrevi até altas horas.

05 de janeiro? - Acordei um pouco mais tarde que o habitual, fui até o jardim, e me encontrei mais uma vez com Ameritt, curvada sobre uma fileira de cogumelos em tons terrosos, tão belos, parecendo pequenos guarda-chuvas, que ela colhia com cuidado. O aroma da terra úmida e da vegetação se espalhava ao redor; era tão agradável estar naquele jardim. Ameritt sorriu quando me viu, e senti aquele calor confortável no peito, o que sentimos ao ver alguém a quem temos grande afeto.

— Rute-besin, parece que o castelo te deixou dormir um pouco mais esta noite — disse ela com sua voz carinhosa de sempre, embora com um leve traço de inquietação.

— Não exatamente, fui bem tarde para a cama. Passei a noite escrevendo — respondi, admirando aquele horizonte alaranjado. — Este lugar parece estar mais cheio de vida, como uma entidade bem alimentada, não é?

Ameritt soltou um riso suave, que tirou minha atenção do horizonte. Olhei para ela, e seus olhos brilhavam, como já era habitual, pois aquele era o momento em que ela compartilharia mais conhecimento comigo.

— Rute-besin, esse castelo é vivo, como você já sabe. Isso é por causa da estação Aborom, a meia estação primavera-verão. Bem, é a época em que tudo se intensifica. Veja as abóboras e esses cogumelos; é essa magia que não se pode nomear que os mantém tão vibrantes nessa época. E há as criaturas da noite, que, em época de Aborom, podem ser hostis, especialmente quando a lua negrume surge no firmamento laranjim. Elas despertam em cólera, parecem famintas; creio que sejam morbidades criadas pelo caráter próprio deste lugar.

Ela se ajoelhou perto de um grupo de cogumelos, colhendo alguns com cuidado.

— Esses são Obomitas — disse, apontando para pequenos guarda-chuvas de uma tonalidade alaranjada. — Em noites como esta, eles podem ser perigosos se manipulados sem o devido cuidado. — Ela se pôs de pé e foi andando em direção a grandes abóboras de um laranja vibrante. — Essas abóboras são venenosas, mas com elas se pode produzir elixires perturbadores, dependendo do uso.

Caminhou até outras abóboras, apontando para elas.

— Essas são especiais; além de produzirem doces e tortas maravilhosos, servem para proteção também. Esse provérbio, você já ouviu? — Ela começou a recitar de maneira quase ritualística: — “Quando estiverdes em vossos aposentos, mantenham as fenestras aldravadas e ponham uma vela de abóbora-doce à porta, no chão. Pois eles se erguerão de seus túmulos e mancharão vossos umbrais com macabros infortúnios, caso não sejam expulsos pela trêmula luz aromantada.”

Balancei a cabeça, indicando que não conhecia o provérbio. As palavras pararam entre nós, cheias de advertência.

— As noites de Aborom trazem mais do que mudanças na atmosfera do castelo e na vegetação, Rute-besin. Há uma passagem belíssima de um pergaminho antigo, escrito por uma poetisa murmura: “Ouça o cântico das almas, nesta noite de lua negrume; ouça-o no manto do horror, almas que buscam vingança, paixão e dulcíferas frutas de meia-estação.” Terrivelmente belo, não é?

Um calafrio percorreu meu corpo enquanto ela recitava aquela bela passagem, e olhei para ela, confusa.

— Acho que não estou pronta para enfrentar o que o castelo tem para revelar nessa época. Dessa vez vou seguir as regras e ficarei dentro do meu quarto, escrevendo — confessei, com um ligeiro medo na voz.

Ela sorriu, com aquele sorriso quase maternal.

— Ninguém nunca está, Rute-besin, porém o castelo tem a sua maneira de preparar os que vivem sob seu teto. Então, descanse, besin, cuide de sua mente. Quando estiver pronta, você saberá. E, quando isso acontecer, bem… espero que você esteja disposta a enfrentar o que encontrar.

O fim da tarde se aproximava, e nuvens laranjas pairavam sobre nós como um manto. Olhei para Ameritt me observando. Por mais perturbador que esse lugar fosse, algo em mim estava irremediavelmente ligado a ele; talvez minha alma, a qual nunca acreditei existir, agora fosse parte do castelo. A questão era: o que ele esperava de mim, além da escrita?

— A senhora acha que devo ficar trancada no quarto? — perguntei.

— Só se for da sua vontade — respondeu ela, enquanto colhia alguns Obomitas. — Mas, para se proteger, recomendo que leve aquela abóbora que separei para você. Coloque-a na porta do seu quarto ou na janela; ela deve ser iluminada por dentro com esta vela — disse, mostrando-me uma vela de um laranja claro. — Isso afastará os que se levantam de seus túmulos, espíritos inquietos e todas as criaturas que não desejam nada além de manchar os umbrais dos vivos de infortúnios. Eles são atraídos por este lugar nessa época de Aborom, por vingança, paixão ou até mesmo por um pouco de consolo ou companhia. Se sentirem sua presença, poderão tentar se aproximar, especialmente se perceberem que está mexendo com algo que os afeta.

Essas palavras ecoaram em mim, e logo a imagem do livro que encontrei se formou em minha mente. Eu ainda não havia mencionado o livro a Ameritt, mas sentia que ela sabia sobre ele. O peso de seu conteúdo, ainda não revelado, parecia dobrar meus ombros. Após uma agradável conversa acompanhada de chá, voltei ao meu quarto. Seguindo a recomendação de Ameritt, coloquei uma vela dentro da abóbora e a pus sobre o parapeito da janela. Tranquei a porta e as janelas e me sentei para escrever. Enquanto escrevia, sentia-me inspirada a rascunhar algumas poesias. Fazia tempo que não tentava nada. Talvez o que me faltava fosse motivação, ou talvez uma boa noite de sono. As palavras fluíam com tanta facilidade, que era como se o próprio castelo estivesse ditando as palavras exatas que eu deveria escrever. Estava tão absorta na escrita que não percebi o som suave que veio da janela.

Foi um bater suave, dado três vezes, bem distinto. Levantei devagar meus olhos do papel e fui surpreendida. Do lado de fora, pressionado contra o vidro, havia algo ou alguém. Seu rosto era indefinido, sem traços, olhos escuros e vazios olhando através da janela e de mim. Sua pele, de um branco translúcido, era lisa, sem marcas ou qualquer coisa que definisse seu gênero. Dedos longos e finos, rosto anguloso, sem qualquer expressão; sem sobrancelhas, cílios ou cabelos, apenas o vazio liso. Os lábios finos, quase invisíveis, não se moviam. Seu corpo, alto e magro, apesar de translúcido, parecia denso, e o espaço ao redor dele parecia se curvar ligeiramente. Sua voz, quando falava, estava dentro da minha mente, como um sussurro dobrado.

— Você pegou o livro — sua voz soava como se duas pessoas falassem ao mesmo tempo.

Paralisada e sentindo calafrios percorrerem o meu corpo, apertei a caneta com força, sem saber se deveria responder ou correr.

— O livro… — repetiu a criatura, estendendo um dedo por trás da vidraça em direção ao livro. — Por favor, abra-o.

Falava sem emoção, mas sua voz parecia repuxar minhas entranhas. Levantei-me e dei um passo para trás, sem tirar os olhos da criatura. Olhei para onde o livro estava, coberto de papéis, mas eu ainda assim o sentia, como algo à espreita.

— Se você o abrir — a voz da criatura vibrava em minha mente —, eu poderei descansar, ou talvez, me lembrar. Por favor, abra o livro — sua voz estava mais alta em minha cabeça.

— O que é você? — perguntei, olhando aqueles olhos vazios.

— Um nome esquecido — murmurou, sua voz reverberando como uma onda dentro da minha cabeça. — Mas o livro guarda o que resta de mim. Ele deve ser lido para que eu me lembre.

— Mas e se isso for perigoso? — perguntei.

— Todo conhecimento o é, mas a ignorância também não? Por favor, eu só preciso lembrar — a voz voltou a ecoar em minha cabeça.

Suspirei e tentei me acalmar. Não podia ceder a uma criatura desconhecida. Talvez amanhã, pensei, talvez quando eu estivesse mais preparada. Hoje, eu só poderia prometer à criatura que aguardava do outro lado do vidro:

— Eu vou pensar sobre isso — falei.

A criatura pareceu entender. Sentou-se no peitoril da janela, enquanto a abóbora continuava a iluminar com sua luz trêmula. A criatura, ou o que quer que fosse, parecia estar à espera.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Um convite especial

Voltei a me encontrar com Ameritt, a convite dela e por motivos que ela mesma garantiu me mostrar. Estava em meu quarto, ocupado com a leitura e busca…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Voltei a me encontrar com Ameritt, a convite dela e por motivos que ela mesma garantiu me mostrar. Estava em meu quarto, ocupado com a leitura e busca por inspirações (as exigências de escrita não param!), quando percebi o sinal que ela enviou. Na beirada de minha janela — onde o que se vê não passa de um horizonte quieto e quase vazio, bordejado de mata —, seu curioso besouro batia as asas, fazendo um barulho que prontamente me tirou a concentração… 

De modo apressado e curioso, larguei o livro que folheava e me pus na direção da janela; chegando lá, o prometido: Ameritt, com toda sua peculiar maneira, me exibia uma abóbora, uma imensa abóbora sobre sua cabeça. Chegando a segurar um riso, olhei para ela e acenei, garantindo com isso que iria acompanhá-la, como havia prometido em nosso último encontro. 

Qual não foi a estranheza de me ver seguindo um pequeno inseto, aparentemente ciente de sua missão, me guiando pelas descidas do castelo e quase me obrigando a pedir que esperasse… Sujeitei-me àquilo com a aceitação já típica das experiências tidas aqui. 

Chegando ao pórtico de entrada do casarão, diante do jardim amplo e tomado de plantas, outra surpresa. De tamanhos variados e até maiores do que a abóbora exibida sobre a cabeça de Ameritt, o espaço estava tomado por elas, com uma iluminação que só poderia ser feita por algum artefato no interior de suas rotundas massas. Aquela visão era um espetáculo, como minha imobilidade e estupefação puderam confirmar… 

Ultrapassei aquele labirinto de abóboras enquanto tentava não perder a visão do besouro de Ameritt. Por um minuto, lembro que sumira de vez da minha perspectiva aquele apressado inseto. Estando já anoitecendo, tudo o que pude fazer foi tentar localizar em meio ao brilho laranja dos legumes (ou frutas?) o ponto preto e vacilante do alado bichinho. Pensando mesmo em desistir da perseguição, estava a ponto de gritar para minha anfitriã, avisando de minha situação, quando me dei conta do ridículo: eu bem sabia onde ela morava, vivia… 

*

Ameritt me recebeu com a simpatia de sempre. Servindo-me pratos, doces, receitas que eu não fazia ideia se deveria ou não simplesmente aceitar, fui me dar conta de seus sabores quando já tinha repetido a porção de três ou quatro refeições... 

A percepção de estar daquela maneira, sentado junto a ela numa sala relativamente escura e cercado de objetos que meus olhos não conseguiam captar, me deixou levemente preocupado. Não que eu suspeitasse das intenções de Ameritt, até então uma queridíssima descoberta, gentilmente aberta para minhas perguntas e respostas; acontece que, da forma com que eu “automaticamente” cheguei ao seu recinto, sentindo-me no mínimo tomado por alguma estranheza, naquele momento minhas primeiras impressões de dúvida e até receio voltaram à tona. 

Eu ainda não sabia nada do que se escondia por trás daquela fortaleza de pedras, a verdadeira face do que governava os acontecimentos ali... Pronto para me levantar e pedir para ir embora (confesso que certo pavor ia me preenchendo, ao passo que a satisfação pela comida desaparecia aos poucos), Ameritt deu a volta na mesa e pareceu adivinhar minha apreensão. 

Pedindo-me “calma”, fui sorvido por sua voz lenta e acolhedora — de certa maneira, doce como os quitutes que eu provara. Sem enxergar seus olhos, que eu já havia notado serem de um brilho enigmático e atraente, tudo o que pude prever era minha total integridade sob os braços daquela que me recebera em sua sala, estando ali à mercê do que suas mãos pretendiam ou não me fazer... 

*

— Conte-me, Wallacebesin... O que faz aqui no Castelo?... 

Tudo o que lembro, tudo o que me vem à mente ao recordar essa pergunta de Ameritt, gira em volta de minha pertença ao Castelo, desde minha chegada até a súbita tensão ao me servir dos pratos misteriosos daquela anfitriã... 

Comecei falando de meus textos, meus poemas e sonetos, que volta e meia eram instigados a serem escritos por conta da atmosfera do lugar. Depois, falei dos outros habitantes do Castelo, pessoas que eu via, mas com quem raramente trocava alguma relação (exceto os comentários deixados como notas em seus originais escritos). Não pude contornar o assunto do Baile, aquela dança misteriosa com a também obscura dama que me acompanhara na noite... Até o episódio do ataque, aquela provável ocasião ainda em xeque na minha cabeça... 

— Tudo isso acontecendo em menos de um ano, Wallacebesin? 

Um ano?! Quase um ano que tudo aquilo havia ocupado de minha jornada! O choque com aquela pergunta foi como um puxão para a realidade. Jamais eu havia me dado conta de que, ao fazer parte daquele ambiente de experimentação artística e fenômenos extraordinários, também o calendário era sujeito a seus insondáveis efeitos... 

Talvez eu tenha desmaiado, ficado fora de mim por alguns segundos, enquanto tentava processar aquela insuspeitada informação trazida por Ameritt. Ela própria (se minha memória não me prega alguma peça neste momento em que escrevo) — estou certo de que tenha me envolvido com seus braços e me “trazido de volta”, usando de algum artifício, com toda a certeza, de sua lavra. 

Erguendo-me da cadeira, guardo uma imagem de vê-la me guiando em direção à janela de sua humilde e misteriosa sala. Ali, com o céu completamente aberto e limpo, ela me pediu que olhasse, aceitasse os fatos (que os acontecimentos anteriores, por mais absurdos que fossem, se explicariam) e que não duvidasse, a partir de agora, do que minha visão deparava... 

— Quase um ano de sua estadia aqui, Wallacebesin... e esta é a primeira vez que vê isso... 

Isso que ela indicava, com toda a calma do mundo: a abóbada celeste, naquela noite inquietante, sendo visitada por abóboras flutuantes, decorando o céu ao redor do Castelo de um laranja espectral... 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Conselhos Doces e Sombrios

Enquanto eu me afasto da biblioteca, as sombras parecem se fechar atrás de mim, como se o lugar estivesse lamentando a minha partida. No entanto, não há…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Enquanto eu me afasto da biblioteca, as sombras parecem se fechar atrás de mim, como se o lugar estivesse lamentando a minha partida. No entanto, não há despedidas. Logo, encontro o meu aposento e me troco, vestindo-me bem confortável e carregando apenas uma lança pendurada, algo que se torna um acessório que dá lugar à minha vaidade. Ao sair da minha alcova, o eco de gargalhadas infantis ainda ressoa, agora mais próximo, e a minha curiosidade me empurra para frente, em direção ao desconhecido. 

Ao ser levada para a biblioteca novamente e contornar uma estante, me deparo com uma figura peculiar: uma anciã com cabelos brancos como nuvens, que se mistura ao ambiente com seu manto de cores terrosas e verdosas. Em suas mãos, há um frasco com uma poção brilhante e um pequeno caderno, onde são visíveis desenhos de besouros. 

— Nauärah-besin, vejo que a dança a trouxe até nós! — a senhora diz, com um sorriso que revela dentes que parecem ter visto muitos segredos. — O movimento é a linguagem da terra, e você, minha filha, fala fluentemente. 

— Eu… — hesito, intrigada, abaixando a cabeça e curvando-me quase. — Muito agradecida, mas como sabe o meu nome? Por que me chama por Besin? E quem é a senhora? 

Apesar das dúvidas, aquela figura me traz paz, como se me confortasse e me tranquilizasse de algo. Ela me transmite sabedoria. E como ela lembra a minha avó...! Essa parece ser a resposta de que preciso baixar a guarda. E as armas. Ela olha em direção à minha lança, como quem julga-me tola e desnecessária por carregar isso dentro do castelo. Por outro lado, o seu olhar é terno, compreensivo e parece entender o meu motivo com a sua intuição. 

— Ameritt. Me chamo assim. E sobre o seu nome, eu simplesmente sei. 

A senhora Ameritt não precisa se explicar. Compreendo bem que ela tem uma sabedoria peculiar e profunda, até pela sua idade. 

— Que paz me trouxe, senhora Ameritt! Mas o meu sobrenome é Tupiniquim. 

— Eu sei. Conheço os Tupiniquim de longe, pelo olor, trejeito e fala. 

Percebo que essa senhora sabe muito. Talvez conhecesse o meu povo ou seus costumes por sua sabedoria notável de anciã. 

— É uma satisfação imensa! Bem, fico aliviada em ver mais damas neste recinto. 

— Senti a senhorita leve e confiante quando me viu. Dançaste como a brisa, como a chuva! 

— Espera, a senhora me viu dançar além de outras presenças que senti? 

— Eu vejo muitas coisas, ou quase tudo. 

— É bom conhecer pessoas sábias como a senhora. Eu senti algo ao dançar. Uma conexão com a minha essência, talvez. Mas o lugar aqui ainda parece estranho, embora seja mágico e encantador. 

Ameritt inclina a cabeça para admirar a minha fala, e seus olhos brilham como se guardassem as chaves para os mistérios do castelo. 

— Este castelo tem suas próprias histórias, e você, por acaso, está fazendo parte disso — ela profere, e o meu olhar se fixa naquela espécie de grimório que ela carrega, com besouros desenhados e anotações incompreensíveis. — E os besouros que a senhorita vê em minhas folhas… ó, eles são mensageiros, sempre. Eles vão e vêm com as verdades ocultas. 

Nesse momento, um movimento fora da sala atrai a minha atenção e logo eu toco a minha lança, num instinto selvagem de defesa, embora a senhora Ameritt esteja por perto. Um homem com tom de pele similar à minha surge ao longe, por trás de alguma pilastra que é possível visualizarmos de dentro da biblioteca, o que me faz relaxar os músculos, talvez por sentir semelhança e identificação com as características físicas dele. 

— Se eu fosse a senhorita, não sairia do meu aposento com lanças — a senhora Ameritt tranquiliza-me, com sua voz serena. — Eu compreendo a sua bravura; por outro lado, não há necessidade alguma de vagar por aqui armada, a não ser que saia do castelo e vá explorar a Vila Séttimor. Aí eu lhe darei razão. — ela sorri sabiamente, com um brilho nos olhos. 

— Certamente ando munida por aí afora. Mas irei me tranquilizar aqui dentro. Vou ouvir o conselho da senhora. A minha avó sempre me dava conselhos utilizando a mesma frase. 

— Mas também não vacile... Este castelo guarda segredos que podem ser tanto um presente quanto uma maldição. Você deve escolher como vai usá-los. 

Antes que eu pudesse respondê-la, ela novamente dispara: 

— Nauärah-besin, eu preciso realizar algo muito importante agora, mas eu te espero em algum canto bonito e sombrio do castelo a qualquer outra hora para um longo e saboroso chá. 

— Espera, senhora Ameritt...! A senhora sabe quem é o homem que apareceu atrás das pilastras? 

— As respostas vêm quando você menos esperar, muitas vezes em forma de besouros! 

Ela diz e desaparece com uma espécie de magia, como quem paira por entre uma fumaça mágica e colorida, dando-me as costas. No mesmo momento, eu imagino que tive uma visão, um vislumbre por saudade da minha avó, mas não. A senhora Ameritt é tão real quanto eu, e, além da sua sabedoria e amorosidade, ela é esperta e safa. A sua última frase não sai da minha cabeça, e a conversa com tal anciã me faz refletir sobre minha própria jornada, sobre o autoconhecimento que preciso construir a cada dia, sobre a minha dança, e as portas da imaginação se abrem em minha mente. Com a companhia dessa alma intrigante, ainda que fugitiva da minha presença, sinto-me menos sozinha, pois é ela uma das residentes. 

Novamente, ouço da parte externa risos de crianças, que agora se misturam com choros. Respiro fundo, tiro a lança da minha longa roupa e a deixo em uma mesa próxima. Seguro firme o meu amuleto, rogando a Tupã por proteção e lucidez, porque, além de ouvir vozes e onomatopeias, pela primeira vez, eu quero ir atrás de uma figura masculina para saber quem é. Dias atrás, eu correria para o meu quarto, rogando para que ele não me descobrisse. Por vezes, imagino que estou louca, mas esta é uma loucura que eu preciso ter. Algo me diz que aquele não é qualquer homem; é confiável, se parece um pouco biologicamente comigo, parcialmente. Para quem se esbarrou com dois homens neste recinto e tudo correu bem, aparentemente, desse eu não preciso temer. Se ele fosse ameaçador, a senhora Ameritt me alertaria. 

Decidida a explorar não apenas a biblioteca, mas também as pessoas que me cercam, olho para o lado de fora, tendo a certeza para onde vou agora.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

 
 

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Velian: Incertezas nas Sombras

A noite pairava densa sobre Fortaleza, as luzes artificiais competindo com o brilho distante das estrelas. Velian, em sua forma mais recente, caminhava pelas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A noite pairava densa sobre Fortaleza, as luzes artificiais competindo com o brilho distante das estrelas. Velian, em sua forma mais recente, caminhava pelas ruas do centro da cidade, envolto em um manto de mistério. A brisa morna trazia o cheiro salgado do oceano, e as vozes vibrantes da cidade o cercavam como ecos distantes. Ele talvez ainda apreciasse o contraste que Fortaleza oferecia, uma cidade viva, que pulsava com o calor e o caos da vida humana, quando não estava em seus momentos mais tristes. 

A noite em Fortaleza parecia eterna, como se o tempo estivesse suspenso naquele instante. Velian, com seus olhos penetrantes, observava a vastidão do mar à sua frente. A vida moderna ao redor pulsava, mas ele, um ser de 700 anos, sentia-se desconectado da realidade que o cercava. Tudo era efêmero, passageiro. O mundo humano mudava constantemente, mas ele, imortal, permanecia preso ao mesmo ciclo de busca, prazer e tédio. Aquele sentimento de desconexão o acompanhava há séculos, e agora, mais do que nunca, pesava em seus ombros. 

Há séculos, ele conhecera o esplendor da Europa, o frio das catedrais góticas e o peso da história que as cidades do Velho Mundo carregavam. Agora, Velian encontrava refúgio nas metrópoles brasileiras, especialmente no Nordeste, onde as tradições locais e as lendas populares coabitavam com a modernidade. Fortaleza, em particular, lhe chamava a atenção; a cidade vibrava com uma energia que ele não encontrava mais na Europa, um fervor quase primordial. 

Em sua identidade fluida, Velian havia adotado o codinome Serpente, uma figura andrógina que desliza entre as sombras, observando e manipulando aqueles ao seu redor. Naquela noite, no entanto, algo diferente estava no ar. Havia uma tensão que ele não conseguia ignorar — um chamado silencioso que se infiltrava em seus pensamentos. 

Velian parou na orla da Praia de Iracema, sentindo a maresia misturada com um estranho frio que não condizia com o clima tropical. Era como se o tempo estivesse se dobrando sobre si mesmo, e o ar ao seu redor começava a mudar. Sua mente, sempre afiada, começou a perder o foco. Ele piscou, e a cidade ao seu redor parecia desvanecer, como se estivesse sendo puxado para outro lugar, outra dimensão. Antes que pudesse reagir, o mundo se fragmentou. 

Quando abriu os olhos novamente, Fortaleza havia desaparecido. Velian se encontrava agora em um lugar que não reconhecia — um vasto salão de pedra escura e fria. O silêncio era opressor, e as paredes ao seu redor exalavam uma energia ancestral. Ele não precisava de explicações. Estava no Castelo Drácula, um lugar que há muito tempo era apenas uma lenda entre os seres imortais e que Velian não tinha certeza que existia, mas naquele momento pode ver sua certeza se concretizar. 

Seus olhos, ajustando-se à escuridão densa, observavam o ambiente ao seu redor. O castelo era imenso, atemporal. As paredes não pareciam seguir as leis naturais do espaço ou do tempo; ele percebia a arquitetura mudar à medida que avançava, como se o lugar estivesse vivo, se moldando à presença dele. 

Velian não sabia como havia chegado ali. Não era comum que seres como ele fossem convocados para aquele tipo de lugar sem uma razão. O castelo era mais do que pedra e sombras — ele vibrava com um poder incomensurável. Sentiu em seu peito um peso desconhecido, como se uma força oculta o estivesse observando, medindo suas intenções e sua essência. 

Enquanto explorava o salão principal, começou a sentir as presenças ao seu redor. O castelo não estava vazio. Havia outros seres, entidades poderosas que ocupavam aquele lugar. Velian, sempre acostumado a ser o predador, agora se via em um território onde não sabia quem era o caçador e quem era a presa. 

Então, duas presenças se destacaram, emergindo do fundo do castelo, como correntes de energia antigas e primordiais. A primeira, uma força esmagadora, era forte, rígida, carregando a essência do que se convencionara chamar de masculino — uma energia que dominava, que destruía e conquistava. A segunda, uma presença fluida e envolvente, exalava o que os humanos nomearam de feminino — algo mais complexo, que atraía e moldava o que tocava, adaptando-se às circunstâncias, mas igualmente devastador em sua força. 

Velian, com sua identidade fluida, sentia ambas as energias em si, como reflexos de sua própria natureza. Ele oscilava entre essas forças, reconhecendo em cada uma delas um aspecto de si mesmo. Não era nem puramente um nem o outro, e o castelo parecia amplificar essa ambiguidade, deixando-o mais consciente de sua própria dualidade. 

Mas o mistério maior permanecia: Por que estava ali? Qual era o propósito dessa jornada? Ele não tinha respostas, apenas mais perguntas. O castelo o havia atraído para algum fim, mas qual? 

Enquanto se movia pelos corredores sombrios, sua mente tentava compreender o que o castelo representava. Era um teste? Uma advertência? Ou algo mais? Talvez as forças que residiam ali estivessem tentando lhe dizer algo sobre sua própria imortalidade, sobre o peso de existir por séculos, sem nunca encontrar uma verdadeira direção. 

Mas, assim como chegara, o momento passou. Num piscar de olhos, o castelo começou a desvanecer, e Velian, sem aviso, foi puxado de volta para o mundo real. Ele estava novamente em Fortaleza, de pé na mesma praia onde tudo começara, o som das ondas voltando aos seus ouvidos. 

Agora, porém, ele sabia que algo profundo havia mudado. O Castelo Drácula o havia tocado, e as forças que ele sentiu lá ainda reverberavam em sua mente. Ele se perguntava quais poderes o haviam levado até lá e o que isso significava para o futuro. Algo estava por vir, e o castelo, com seus mistérios e presenças antigas, continuava a assombrar seus pensamentos. 

De volta à Fortaleza, Velian abriu os olhos de repente, respirando o ar quente e úmido da noite tropical. O som das ondas quebrando contra a praia distante parecia distante, como se estivesse acontecendo em outra realidade. A cidade ainda se movia lentamente sob as luzes urbanas, mas algo dentro dele havia mudado. O contraste entre a vivacidade da vida humana ao seu redor e a atmosfera gótica e densa do Castelo Drácula era quase insuportável. 

Ele se sentou, ainda processando o que havia acabado de acontecer. O tempo no castelo fora nebuloso, quase como um sonho, mas cada detalhe permanecia vívido em sua mente. As paredes vivas, os corredores que se moviam, as presenças poderosas que ele sentiu, tudo se misturava, formando um quebra-cabeça que ele não conseguia montar. Por que ele tinha sido levado até lá? O que o castelo queria dele? 

Velian sabia que o Castelo Drácula não era um lugar comum. Muito mais do que uma construção, era uma entidade — ou talvez uma manifestação das energias que existiam entre o tempo e o espaço. Ele podia sentir como o local o testava, o observava, desafiando sua compreensão e sua própria identidade. Mas qual era o propósito de tudo aquilo? 

Ele recordava as duas forças predominantes que haviam permeado o castelo: a força brutal, impetuosa, que evocava tudo o que os humanos chamavam de masculino, e a força sedutora, envolvente, associada ao feminino. Em seu estado fluido, Velian sempre dançara entre essas energias, absorvendo ambas, rejeitando rótulos e limites. Mas ali, no castelo, parecia que essas forças o cercavam e pressionavam, como se tentassem a desestabilizá-lo das harmonias dessas duas forças que estavam harmônicas a muito em seu interior. 

O peso dessa experiência começou a se insinuar profundamente em sua mente. Seriam essas forças personificações de algo maior? O castelo era um espelho das dicotomias que ele sempre evitara? Velian, que passara séculos se moldando de acordo com suas próprias regras, sem se submeter a convenções de gênero, de identidade ou mesmo de poder, agora se via questionando tudo o que acreditava. O castelo havia despertado nele algo que ele não sabia que existia: uma dúvida persistente. 

E se o castelo fosse uma forma de confrontá-lo com escolhas que ele sempre evitara? 

A fluidez que ele sempre abraçara agora parecia ameaçada por essas forças antigas e poderosas. Talvez aquele lugar fosse um campo de batalha onde essas energias opostas se encontravam, e ele, por algum motivo, fora arrastado para o meio disso. 

De volta à sua realidade tropical, Velian olhava para a vastidão do mar de Fortaleza, mas sua mente permanecia presa no castelo. Como ele havia chegado até lá? E por que havia sido trazido de volta? Ele sentia que aquilo não era o fim, apenas o início de algo maior que estava por vir. 

Ele sabia que precisaria retornar ao castelo um dia, que as perguntas deixadas sem resposta o perseguiriam até que ele entendesse o verdadeiro significado daquele encontro. O castelo, com seus corredores mutáveis e suas presenças antigas, não era apenas um lugar — era um desafio, uma provocação. 

Velian suspirou, sentindo o peso da imortalidade mais uma vez. Seria o castelo uma metáfora para sua própria existência? Um espaço que desafiava definições, que se moldava ao tempo e ao poder, mas que, no fundo, sempre permaneceria vazio e sombrio, esperando por algo ou alguém para preencher seus salões e desvendar seus mistérios? 

Enquanto a brisa quente da noite envolvia seu corpo, ele sorriu levemente. Talvez o castelo não fosse uma ameaça, mas sim uma oportunidade. Uma chance de descobrir algo que ele ainda não conhecia sobre si mesmo — e sobre o mundo sombrio ao qual ele pertencia. 

Velian olhou para o horizonte de Fortaleza, a mente ainda presa no Castelo Drácula, questionando as forças que o haviam arrastado para aquele lugar. A vastidão do mar parecia oferecer algum consolo, mas não trazia respostas. Ele, que por séculos havia se embebido em conhecimentos diversos — desde tratados naturalistas e científicos de diversas áreas do conhecimento, passando pela astrofísica, filosofia cética até compêndios místicos e ocultistas —, ainda não possuía clareza sobre muitos mistérios da sua própria existência. 

Ao longo dos séculos, ele havia encontrado respostas vagas sobre sua condição de ser vampiresco, sobre as energias que moldavam o mundo físico e espiritual, mas, no fundo, o mistério da origem dos vampiros permanecia envolto em sombras. Velian não sabia de onde eles vinham, nem o porquê de existirem. E, por mais que tivesse presenciado almas desencarnadas, fantasmas vagando entre os vivos, ele nunca compreendeu plenamente o que acontecia com as almas dos humanos após a morte. Existiria uma finalidade para a vida e a morte? Ou tudo era apenas caos, sem ordem, sem destino? 

Essas perguntas rondavam sua mente, mas ele hesitava em buscar respostas externas. Ainda que tivesse recursos para investigar, sua natureza, marcada por um ego afiado e orgulhoso, impedia-o de se submeter a uma consulta. Principalmente a ela. Seria agora o momento de recorrer a Cassandra? — pensou Velian, irritado com a possibilidade. Cassandra, a vampira antiga e poderosa, conhecida por sua visão única do mundo, uma mestra em manipular informações e arrancar verdades escondidas das mentes dos seres mais antigos e das sombras mais densas. Ela era, no mínimo, imprevisível. A forma sarcástica e distante com que lidava com o desconhecido tornava suas interações tão exasperantes quanto reveladoras. 

Consultá-la, entretanto, significava admitir que ele, Velian, que havia acumulado conhecimento ao longo de séculos, não sabia tudo. E isso o incomodava profundamente. Ele sempre manteve uma postura de domínio, de autossuficiência, e se dobrar a Cassandra, mesmo que apenas por curiosidade, seria reconhecer que algo o havia desafiado — algo que ele não conseguia decifrar. 

Ele relembrou as poucas vezes em que cruzara o caminho dela. Cassandra sempre se destacava pela sua sagacidade afiada, capaz de desarmar qualquer discussão com uma combinação de sarcasmo e uma verdade incômoda. Sua ambiguidade fluida, tanto em gênero quanto em poder, sempre intrigava Velian. Embora ambos compartilhassem uma identidade fluida, Cassandra parecia levar isso a um patamar ainda mais intenso, envolvendo-se em jogos de poder que Velian, por vezes, preferia evitar. Ela possuía um magnetismo tão insuportável quanto fascinante. 

Ele sabia que ela possuía respostas — ou pelo menos pistas — sobre o que ele havia experimentado no castelo. Cassandra era uma das poucas vampiras que tinha o poder de acessar reinos ocultos e segredos velados dos tempos antigos. Ela talvez soubesse mais sobre as forças que moldavam o Castelo de Drácula do que qualquer outro. Mas buscar sua ajuda significaria entrar em uma arena de manipulação, jogos mentais e provocações que exigiriam de Velian paciência e, acima de tudo, disposição para aceitar que ele não era onisciente. 

Porém, será que ele estava pronto para se submeter a isso? Ele nunca fora alguém que gostasse de expor suas fraquezas — e pedir ajuda seria, em seu íntimo, uma confissão de que havia algo além de seu controle. 

Velian balançou a cabeça, afastando o pensamento por ora. Ele tinha tempo. Afinal, a eternidade era sua companheira, e as respostas viriam eventualmente, de um jeito ou de outro. Talvez ele não precisasse recorrer a Cassandra. Ou talvez sim. Mas, naquele momento, não estava pronto para enfrentá-la. Não ainda. 

Ele suspirou, sentindo o peso de sua própria existência. A imortalidade, com todo o seu fascínio, trazia consigo uma carga de dúvidas incessantes. A busca pelo sentido, pelo entendimento do que era ser vampiro — e, mais ainda, de onde surgiam as almas dos mortos — continuava sendo uma sombra constante em sua mente. Ele havia visto fantasmas, seres do outro lado, mas jamais dominara o poder de interagir plenamente com eles. Era algo que permanecia fora de seu alcance ou de sua vontade já que nunca tivera interesse para desenvolver tais habilidades, deixando suas indagações e inquietações sempre ocultas até de si mesmo. 

Por enquanto, Velian continuaria vagando entre suas dúvidas e as realidades sombrias que o cercavam. O Castelo Drácula e tudo o que ele representava ficaria guardado em sua memória — um enigma que talvez apenas Cassandra pudesse decifrar. 

Mas ele não estava pronto para se render ao sarcasmo afiado daquela vampira. Não ainda. 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Diário de Anton S. Miahi V

Suas palavras parecem distantes, mas a memória de nossas jornadas no campo de batalha ecoa mais forte do que qualquer outra lembrança…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

De Anton S. Miahi IV 
(Carta para Dr. Chistopher)

De: Anton S. Miahi
Para: Maurice D. Laurent
09 de agosto de 1871 

Caro Maurice,

Vejo a lua alaranjada pairar sobre o castelo enquanto escrevo, seu brilho envolto em uma névoa inquietante.  

Suas palavras parecem distantes, mas a memória de nossas jornadas no campo de batalha ecoa mais forte do que qualquer outra lembrança. A luz da lareira dança nas paredes com tons quentes e inquietantes, como se houvesse um convite oculto para mergulhar nos mistérios que me cercam. Sinto aquele tom alaranjado me provocar, como fazia a fumaça das explosões que atravessavam os campos de batalha prussianos, onde lutamos lado a lado. O mesmo calor sufocante que nos envolvia nos momentos mais caóticos parece agora pulsar entre estas paredes, trazendo uma sensação de alerta, uma desconfiança que se arrasta nas sombras.   

Nos campos, éramos mais do que soldados; éramos irmãos, ligados pela dor e pelo medo. Nossas vidas dependiam da lealdade e da coragem um do outro, e essa união forjada em sangue e sacrifício moldou uma irmandade que nenhum tempo ou distância pode quebrar. Eu nunca esquecerei o instante em que você me puxou para longe da linha de fogo, a luz do crepúsculo queimando em nossos olhos enquanto o caos desabava ao nosso redor. Essas memórias nos conectam ainda, Maurice, e é por isso que sinto a necessidade de compartilhar essas descobertas com você — pois quem mais entenderia o terror que vejo aqui além de alguém que já enfrentou o horror da guerra? 

Preciso falar sobre o que encontrei na biblioteca do Conde, algo que me provoca o mesmo tipo de inquietação que sentíamos nas trincheiras. Durante minhas pesquisas, deparei-me com anotações nas margens dos livros — frases enigmáticas que pareciam mais sussurros do que palavras. Entre as muitas reflexões, uma de Leibniz chamou minha atenção: "A história é uma narrativa de mudanças, onde o presente é moldado pela memória e o futuro pela compreensão do passado". Senti um arrepio, como se o próprio castelo conspirasse para distorcer a linha entre o que é real e o que não é. Cada página que virei pareceu trazer o passado à vida, cercando-me com sua presença, do mesmo modo que os fantasmas do campo de batalha nos cercavam com seu silêncio sombrio. 

As coisas ficaram ainda mais perturbadoras quando me deparei com uma citação de Hume: "O passado é um mistério cujas chaves estão enterradas nos momentos presentes, esperando para serem reveladas". Há algo profundamente inquietante na forma como essas palavras ressoam aqui, onde o presente parece se dobrar e se esticar, como o próprio tempo tentando se libertar das paredes do castelo. As lendas romenas que leio ganham vida de maneira que não consigo explicar. Não posso ignorar as conexões entre essas reflexões filosóficas e o que sinto a cada passo que dou por esses corredores. É como se o castelo estivesse impregnado de uma energia viva, moldada por forças invisíveis que desafiam o que conhecemos como realidade. 

Maurice, as sombras aqui não são apenas sombras. Elas têm vida, ou ao menos parecem. Ontem à noite, enquanto caminhava pelos corredores, a percepção da realidade se desfez diante dos meus olhos. Por um breve instante, enxerguei outro castelo, outras figuras — como se o tempo se dobrasse sobre si e me transportasse para outro momento. Não era uma visão comum, mas algo que me deixou com a sensação de estar sendo observado por forças que não compreendo. Lembro-me de Locke e suas palavras: "A verdade é uma luz que ilumina a ignorância, mas, muitas vezes, o brilho é obscurecido pela falta de discernimento". Essas palavras ecoaram enquanto eu tentava entender o que vi, mas nada pareceu claro. 

Estou à beira da sanidade, e confesso que me pergunto se estas palavras chegam a fazer sentido. As lendas de vampirismo aqui não são meras histórias contadas para assustar; elas são uma parte viva deste lugar, e sinto que estou no centro de um pesadelo que não consigo escapar. O castelo guarda segredos que não deveriam ser descobertos, e temo que nossas pesquisas estejam nos levando para um caminho sem volta.

Preciso de sua clareza, sua perspectiva, pois neste momento, tudo o que vejo é o laranja opressor do crepúsculo, sufocando minha razão.
Com apreço e inquietação,
Anton S. Miahi
 

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 De Valéria S. Miahi
(Carta para Anton)

De: Valéria S. Miahi
Para: Anton S. Miahi
11 de agosto de 1871 

Querido Anton, 

Recebi com grande alegria a sua última carta e fiquei encantada ao saber sobre suas aventuras no misterioso Castelo Drácula. Imaginar você explorando esses corredores antigos e repletos de segredos me enche de curiosidade e admiração. A sua descrição me transportou diretamente para as sombras do castelo, e eu mal posso esperar para ouvir mais sobre suas descobertas e experiências. 

Aqui em Paris, a vida tem sido uma verdadeira montanha-russa desde que deixamos Sevilha. A mudança foi um desafio, mas a cidade revela um encanto que eu nunca poderia ter previsto. Paris é vibrante e cheia de vida, e eu tenho me aventurado por suas ruas estreitas e suas praças movimentadas com uma empolgação contagiante. A cultura e a arquitetura são absolutamente fascinantes, e cada esquina parece contar uma história diferente. 

O tempo em Paris não tem sido apenas uma série de novas descobertas, mas também de reflexões pessoais. Sinto falta de nossa casa em Sevilha e de nossa família reunida. No entanto, tenho encontrado conforto nas novas amizades que fiz aqui e nas pequenas maravilhas do cotidiano. Os cafés e as livrarias têm sido meus refúgios preferidos, e cada dia traz uma nova chance de explorar algo diferente. 

Mamãe, Nora, está bem, apesar da saudade que sente de você e da nossa vida anterior. Ela tem se adaptado às novas circunstâncias com uma dignidade e força que sempre admirei. A mudança para Paris foi um esforço para ela, mas tem se mostrado uma aventura pessoal de renovação e esperança. Ela se dedica à casa e tem encontrado prazer nas pequenas coisas, como as visitas aos mercados locais e as longas caminhadas pelo Sena. 

Saiba que, mesmo à distância, sinto-me próxima de você através das suas cartas e das histórias que você compartilha. A sua coragem e curiosidade são uma inspiração para mim, e estou ansiosa para saber mais sobre suas descobertas no castelo e suas novas experiências. 

Espero que continue a se aventurar e a desbravar o desconhecido com a mesma paixão que sempre demonstrou. Envio-lhe um grande abraço e todas as minhas melhores energias. 

Com muito carinho, 
Valéria
 

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 Diário de Anton S. Miahi X 
(Escrito em meu Caderno)

14 de agosto de 1871 — Escrevo estas palavras com mãos trêmulas, meu coração pesando como se cada batida carregasse o peso de uma lembrança que me atormenta. O ambiente na adega, inicialmente marcado pelo suave aroma do vinho tinto amadurecido, envolvia-me em uma sensação de nostalgia quase palpável. A fragrância rica e complexa do vinho, com suas notas de frutas maduras e especiarias, era como uma lembrança distante. Esse aroma, profundo e envolvente, contrastava de maneira inquietante com a atmosfera que se desenrolava ao nosso redor. 

As chamas da lareira, por um instante, brilhavam com um tom verde-esmeralda, projetando um brilho surreal sobre as paredes de pedra. A luz verde dançava como se fosse uma aura etérea, tingindo o ambiente com uma sensação de mistério e encantamento. Sentia como se aquela cor, tão incomum e sobrenatural, estivesse lentamente dissolvendo a realidade, transformando-a em algo que desafiava a lógica e a compreensão. 

Mas, à medida que o espelho estilhaçado emergia das sombras e começava a se partir em uma infinidade de fragmentos, a cena ao meu redor mudou drasticamente. As chamas na lareira se transformaram, seus tons de verde se desfazendo em um alaranjado ardente. A luz agora lançava sombras intensas e fragmentadas nas paredes, cada uma mais ameaçadora do que a anterior. O calor do fogo parecia se intensificar, como se estivesse refletindo e amplificando o tumulto interno que eu sentia. 

A cor alaranjada do fogo agora parecia refletir não apenas na lareira, mas também nos pedaços de espelho quebrado, criando um jogo de luz e sombra que fazia com que o ambiente se tornasse ainda mais ameaçador e surreal. O calor, agora mais intenso e penetrante, misturava-se ao aroma do vinho, que começava a se transformar em algo mais ácido e pungente, como se a própria essência da adega estivesse sendo corrompida. A cada fragmento de espelho que se despedaçava, o cheiro se tornava mais carregado, uma combinação inquietante de vinho envelhecido e o cheiro metálico da destruição iminente. 

As cores e os odores se fundiam em um espetáculo de desolação e caos. Senti-me como se estivesse mergulhado em um pesadelo vívido, onde o ambiente ao meu redor estava sendo transformado em um cenário de terror e confusão, refletindo o tumulto dentro de mim e a inquietante visão que estava prestes a se desenrolar. 

Um espelho estilhaçado surgiu do vazio diante de nós, como se brotasse das sombras, expandindo-se até se transformar em uma janela com rachaduras que dançavam, apareciam e então sumiam – rasgos no espaço. Oferecia-nos vislumbres de um futuro que eu jamais desejaria ver. As imagens que dançavam nas superfícies fragmentadas eram, ao mesmo tempo, fascinantes e aterradoras, como se uma força desconhecida estivesse revelando segredos que deveriam permanecer ocultos. A cada novo fragmento que minha mente captava, sentia um arrepio profundo, um frio que me invadia não apenas o corpo, mas a própria alma. 

As cenas que aquele espelho nos mostrava eram desconexas, como pedaços de uma vida que ainda não vivi, mas que parecia destinada a ser minha. Vi sombras se movendo em um ritmo que não era o nosso, ouvi sussurros que falavam de desespero e vi um reflexo de mim mesmo, pálido e cansado, confrontado por horrores que me desafiavam a compreender. E ali, no meio daquela visão decrépita, Áurea ao meu lado, senti a angústia de um futuro que se aproximava, inescapável e implacável. 

Enquanto escrevo estas linhas, minha mente é assaltada por perguntas que me recuso a responder, por medos que se agarram à minha razão, tentando rasgá-la em pedaços. O que vi naquela adega ao lado de Áurea? Era uma advertência? Uma premonição? Ou simplesmente uma manifestação da insanidade que parece envolver este lugar maldito? Sinto como se o ar ao meu redor estivesse se fechando, cada respiração mais difícil do que a anterior, enquanto tento processar o que aqueles fragmentos de futuro significam para mim — para nós. 

Eu nunca havia sentido tal terror, tal sensação de que o tempo, o espaço e minha própria existência estavam sendo dilacerados diante de meus olhos. Escrever no meu diário hoje é uma tentativa desesperada de me ancorar na realidade, de afastar os horrores que testemunhei. Mas, mesmo agora, enquanto a tinta seca no papel, a visão daquela adega me persegue, um espectro persistente que não posso afastar. Será que estou perdendo o controle de minha sanidade? Ou estou apenas começando a entender a verdadeira natureza do destino que se desdobra à minha frente? 

Gradualmente, os cacos do espelho começaram a brilhar com cores intensas e inquietantes. Nossos olhares se encontraram em meio aos estilhaços, e o espelho refletia uma aura de âmbar, vermelho, azul e prateado, cada uma das cores pulsando com uma intensidade própria e criando uma sensação de caos e desordem. Cada pedaço de vidro parecia ser uma janela para um fragmento diferente de uma realidade incerta e ameaçadora. 

Nos confins sombrios de La Cité, nas margens do rio Sena, uma visão aterradora tomou forma em um dos cacos de vidro. Em meio ao nevoeiro espesso e à decadência das ruelas estreitas, um cenário de horror absoluto se desdobrava diante de meus olhos. A figura sombria de um ser ancestral, envolto em uma fúria selvagem, surgia das sombras como uma fera à espreita. Seus olhos brilhavam com uma sede insaciável enquanto ele atacava uma mulher indefesa. O rosto da criatura estava contorcido em uma expressão de monstruosidade inumana, cada traço seu impregnado de uma maldade que parecia desafiar a própria natureza. 

A mulher, em contraste, exibia um terror absoluto. Seus olhos estavam arregalados, capturando a última luz de esperança antes de serem tragados pela escuridão. Mas havia algo mais ali, algo que fez meu sangue gelar. Em meio à dor e ao desespero, sua expressão se distorcia, como se fosse tomada por um êxtase sombrio, um prazer perverso que a conduzia lentamente ao abismo de sua própria extinção. A mistura de fragilidade e uma estranha aceitação da morte que se aproximava me deixou em um estado de profundo assombro, como se estivesse diante de algo que a razão não poderia explicar. 

A cena, por mais vívida que fosse, parecia fragmentada, como se o tempo em si se recusasse a revelar toda a verdade. Os movimentos eram cortados, as imagens desconexas, formando um mosaico incompleto de horror que desafiava minha compreensão. Meu coração batia pesado, o senso de masculinidade sendo confrontado pela vulnerabilidade diante do desconhecido. 

Ao fundo, preso em uma janela quebrada de um prédio abandonado nas margens do Sena, um jornal amassado balançava ao sabor do vento. As páginas rasgadas, ainda legíveis, revelavam a data: 20 de junho de 1871. Aquele pedaço de papel, marcado pelo tempo e pela desgraça, parecia uma testemunha silenciosa de um terror antigo, agora emergindo das profundezas da memória para assombrar uma vez mais. 

Então, um novo fragmento do espelho quebrou a realidade ao meu redor. Entre as fendas do vidro, uma visão confusa se formou. Uma figura de lobo de pelagem acastanhado-alaranjada, majestosa e feroz, se transformou lentamente em um homem. Ele parecia ser um caçador vindo da região da Rússia, seus traços pouco definidos, mas a imagem era nebulosa, envolta em uma névoa espessa que dificultava distinguir cada detalhe. Parecia que sua expressão se apresentava severa do homem, pouco se poderia destacar. O que pude notar claramente foram seus olhos castanhos brilhavam com um poder ameaçador. Então pude ver uma cicatriz que marcava seu rosto, um corte profundo que se estendia da testa até a bochecha esquerda, e sua presença emanava uma sensação de perigo iminente. 

Atrás dele, uma floresta escura e sombria se estendia, as árvores se entrelaçando como se fossem garras esperando para capturar o que se atrevesse a se aproximar.  

E, ao mesmo tempo, um novo caco se rompeu e nele foi revelado um quarto próximo, uma jovem estava sentada, cabelos pretos levemente ondulados, olhos azuis grandes e amendoados, pele como mármore. Sua expressão era de inocência e curiosidade, e eu a vi sussurrar algo em direção a mim, as palavras se perdendo na bruma. Apenas entendi o final: um convite sutil para buscá-la no castelo. Então, como um fôlego cortado, tudo se apagou. A escuridão envolveu-me, e o silêncio profundo se instalou, como se o mundo ao meu redor houvesse se dissipado completamente. 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Aborom

Os olhos de Ameritt me estudavam com uma certa fascinação, como se o véu que escondia minha natureza fosse rasgado, expondo o vazio e o negrume do meu ser…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Os olhos de Ameritt me estudavam com uma certa fascinação, como se o véu que escondia minha natureza fosse rasgado, expondo o vazio e o negrume do meu ser. Enquanto sorvia o chá, minhas papilas gustativas se entorpeciam com cada nota presente na infusão. Ela sorriu, levantou-se e me convidou para uma caminhada. Concordei meneando a cabeça, finalizei a xícara, elevei meu rosto e sorri. Ameritt respondeu ao meu gesto com um amável olhar. Inebriada pelos sabores, levantei-me e segui ao seu lado. 

Enquanto caminhava, secretamente me questionava sobre esta doce senhora. Quais segredos essa figura tão enigmática esconde? Ela é realmente um ser fascinante, de alguma forma que não compreendo. Sua presença me acalma. Talvez seja sua forma pacífica de falar, seus gestos e seu olhar sereno e penetrante. 

Iniciamos a caminhada, e a forma como ela pronunciou a palavra "besin" ressoava em minha mente como um doce sussurro. Era acolhedor e engraçado, arrancando de mim discretas risadas, fazendo-me recordar da minha mãe e do seu amável "boa noite, querida filha", seguido de um carinhoso beijo em minha testa. Espero sinceramente que tais lembranças não sejam esquecidas. Guardo-as em meu mais profundo íntimo e volto à realidade. Ameritt percebeu minha "ausência" e indagou se eu estava bem. Respondi que sim, e continuamos. 

Ela estava boquiaberta com a flora desta estufa. Disse-me que cuidava dela com muito esmero. Meus olhos pararam em algo que eu não havia notado antes: enormes abóboras, donas de um brilho hipnotizante. 

— Rose-besin — disse Ameritt calmamente, desacelerando seus passos. Receosa, eu a fitava, pois ela poderia saber algo sobre mim; seu olhar parecia sondar meu íntimo. 

— Saiba que tenho grande apreço por sua companhia. Não tenho recebido tantas visitas ao longo desses anos, apenas dos meus amáveis besouros. 

— Eu que fico lisonjeada com sua companhia. Confesso que... — respirei fundo e continuei —, a senhora me lembra muito minha mãe, tanto na fala quanto nos gestos. 

Abaixei a cabeça com grande pesar após dizer isso. Um silêncio pairou sobre nós. Ela não precisou dizer nada; suas feições falavam por si. Prosseguimos, enquanto eu ouvia suas explicações, tudo com uma paixão singular. Era encantador vê-la falando. 

— Rose-besin, você está ouvindo? Disse que sim. Que doce som as gotas de chuva fazem ao cair no chão, não é mesmo? Venha, gostaria de mostrar algo especial — ela acenou para o canto esquerdo da estufa. 

Após chegarmos, senti algo indescritível, e o que vi foi amedrontador, porém mágico. Eram enormes abóboras detentoras de um brilho único e hipnotizante, como um ardente pôr do sol colorindo o céu com notas alaranjadas. Ao lado delas, nascia um tipo de fungo chamado Obomitas (posteriormente ela explicou-me que era uma espécie de funghi) da mesma tonalidade. Ela disse que, por conta da meia estação, tanto as abóboras quanto os Obomitas se alastraram com rapidez sobrenatural sob as gramas. 

Eu ouvia tudo, mas meus olhos estavam usurpados por aquele brilho. Ela explicou o quão difícil era cuidar da estufa nessa época, pois a vegetação sentia a mudança no clima. 

— Não é só a vegetação que sente a mudança. — As palavras rastejaram para fora dos meus lábios. 

— Perdão, você disse algo, minha querida? Está tudo bem, Rose-besin? 

— Não disse nada — sorri, enquanto meus olhos inertes fitavam as abóboras. Estava claro que não poderia esconder quem eu sou, ainda mais para uma pessoa tão sábia como Ameritt. 

Ela olhou-me com sinceridade e disse: 

— Eu sei, minha querida, o que lhe ocorreu. Existem mais como você aqui no castelo. 

Essa informação me deixou surpresa e aliviada por saber que eu não era a única. Contei-lhe da minha transformação, bem como da minha jornada até ali. Ela ouvia atentamente, e seu semblante exibia um grande pesar. 

— Eu sinto muitíssimo, minha querida... — Interrompi sua fala, pois já sentia a presença dos pontiagudos caninos. 

— Preciso sair... — Mas caí de joelhos. Meus caninos se tornaram visíveis e brilhantes perante os tons alaranjados das abóboras. Gritos inumanos emergiam das minhas entranhas. Vi-a caminhar por entre a estante, enquanto meu corpo se contorcia com violência. Antes que a transformação fosse completa, ela retornou com algo nas mãos. Diante de mim, ergueu as mãos manchadas de terra em forma de concha. Com os olhos fechados, iniciou uma reza numa língua indecifrável. Em seguida, esmagou o que pareciam ser algumas ervas e folhas, produzindo um líquido viscoso esverdeado que caiu em minha boca. Senti um gosto terrível. O que seria isso que acabara de descer em minha garganta? 

Sem demora, senti os efeitos. As pálpebras dos meus olhos tornaram-se pesadas, até que finalmente meu corpo tocou o chão.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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A noite de todas as almas

Folhas secas, | Abóboras adornadas | Não é outono por aqui, | Mas não muda nada. | Os ventos que sopram | Me trazem lembranças de você…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Folhas secas,
Abóboras adornadas
Não é outono por aqui,
Mas não muda nada.

Os ventos que sopram
Me trazem lembranças de você
Sussurram segredos
Que me fazem temer.

A noite de todas as almas
É sempre muito mais iluminada
E isso porque
Todos nós amamos alguém
Que não se pode mais ver.

Alcanço as lápides frias
Não sinto seu cheiro
Se o véu entre os mundos se abriu
Por que não te vejo?

Doces ou travessuras?
Minha vida pela sua.
De que me adianta uma eternidade
Sem sua ternura?

Como oferenda aos Deuses distantes
Deixe meu retorcido coração
Pode não valer mais nada
Mas todo o amor que me restou,
É ele quem guarda.

Minha vida pela sua...
Apenas um vislumbre na penumbra
E eu finalmente
Poderia adormecer.

Doces ou travessuras?
O que está feito,
Não se anula.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Abóboras e Confetes

É 31 | Todas as Bruxas e Vampiros | Passeiam livres por aí | Todos no Castelo irão se divertir…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

É 31
Todas as Bruxas e Vampiros
Passeiam livres por aí
Todos no Castelo irão se divertir.

É 31
Cuide de seu pescoço
Para não perder muito sangue
Não tropece em meu sapato
Para que não vire um lagarto.

As abóboras já foram enfileiradas
Ganham vida e iluminam a estrada.

Vem crianças,
Venham ler
O Castelo Aguarda você...

Seres sombrios de todos os lugares
Dando vidas a distintas realidades
Os confetes são para você
Que o escuro costuma temer.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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