Lotus Aqua Obscura
Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente, dali eu teria fugido antes mesmo do poente efetivar-se. A verdade é que, até então, eu ignorava o domínio inenarrável dos seres Magistas sobre a realidade humana; mas ali, diante do velho em vestes míseras e ínfima voz, tive de renunciar às minhas ignorâncias, as quais, por anos, governaram-me o ser. O senil peregrinava entre os arvoredos mais úmidos e, quando colidia, por sorte ou azar, com alguma alma vivente, já de imediato iniciava a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Confesso o haver julgado um Mago, mas, revelo que não detenho tal vera; por muito ousaria dizer que se tratava mais de um demônio atormentador originário de intermúndios tétricos; ainda assim a dúvida persistia, pois que suas habilidades fascinavam qualquer deus e, portanto, não poderiam advir dos seus caídos e expulsos — o herói nunca admira o vilão.
Antes de dar-me conta, seu timbre acre invadiu-me os tímpanos e eu fitei o sujeito franzino. Eis que, então, já não pude deter-lhe; estagnei-me à sua presença e, ao léu, o ouvi do início ao fim, e os seus lábios contavam em penumbra que a noite há de ser, por tempos, única possível; pois que os céus negros não se banharão do sol; o sol em si, negrume, cálido pousará apagado no horizonte. E nas orlas os barcos guiar-se-ão, não pelas estrelas, mas pelas divergentes sombras. O plantio noturno gerará frutos sombrios e os frutos serão ingeridos em silêncio; seus sumos violáceos serão doces, mas turvarão os corpos famintos; e as plantas, e os grãos e tudo o que vem da terra deterá sutilezas nos sabores e eflúvios constituintes. “E até as chuvas ― não duvides ― cairão como gotas de obsidianas ácidas. Por tempos todo fel cobrirá os mares e” ― descrevia — “as herbáceas brotarão dos solos e das águas e elas serão feitas de treva e a treva será insólita”. E, por cada segundo, o ancião trazia à voz etérea os pormenores daquela realidade que não nos pertencia mais, entretanto, conforme o ouvia sentia-me estar inserida nela como pertencente. “Ouça, não só escute! Pois que as árvores secretarão licor viscoso e seus galhos languinhentos soarão fúnebre sibilo que será, pois, apreendido em perfeição pelas orelhas dos ouvidores e dos moucos”.
Tentei, ávida, retirar-me, em corpo, daquela insanidade; no entanto caíra a noite com o peso das palavras ouvidas e o peso era similar às montanhas laminadas das Cordilheiras do Sul. “Pois que das mais horríficas herbáceas, a Lotus Aqua Obscura, invicta, mui mais apavorará; o manjar de seu caule e suas pétalas em ilusão, o êxtase, provocará; e a água qual se fundamentará será mais umbrosa que o firmamento; e quisera eu não a ter degustado com afinco, pela fome miserável a corromper meu antro”. Com frêmitas mãos, o velho, de seu bolso, retirou uma caixa amadeirada cuja fragrância era de bambu e tão logo abriu-a revelando uma semente. Esticou à minha direção o objeto e gargalhou, orate, aos ventos todos que, inopinos, tornaram-se violentos. “Coma esta semente!” ― ordenou o velho. Olhei aos céus, roguei piedade. “Saberás que cada Lotus Aqua Obscura é, pois, um humano sucumbido, transformado, fadado por fim, e sentirás em tua tez o sabor da língua pegajosa e a saliva cinza dos famintos; e toda a vivência de sê-la! Tu passarás e testemunharás o veneno de suas vísceras. Coma esta semente, coma agora esta semente!” ― e pôs-se a repetir, ininterrupto, o dito final, de modo a desordenar-me a sanidade. Tomei-lhe a semente e a engoli, seca. “Assim renascerás a única planta de espírito e corpo igual aos animais desta classe sapiens sapiens, caso contrário o meu haver não mais firmar-se-á no juramento: Hei de vagar pelo mundo humano fundindo o sórdido ao vil para alertar a infame escuridão que há de vir”.
Aflita, forcei-me a arrevessar o grão, mas, já era tarde. Presenciei os pinheiros a vergarem-se e a tempestade vir a ser e todo o sombrio a firmar-se e o homem, maldito, esvaiu como saibro em alto-mar deixando, apenas, uma abominável mensagem: a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Segurei-a em minhas mãos e senti a saliva e as línguas, e fui, na pele, a planta coloidal; e do reino Plantae espargi essência de clorofila debaixo da atmosfera fumegante em névoa, a névoa mais rara em gigante e medonho horizonte abominável. E a névoa era densa como meus olhos, os quais eu não possuía; e meus pés, que não eram pés, estavam sucumbidos ao gomoso e frio chão, o qual não era chão e, antes de haver, pois, senso sobre a insânia a difundir-se; senti sede, a inenarrável sede pelo sangue do inimaginável. A treva acima, a neblina e o terror; bem soube que era eu a plantae-animalia, pois que o veneno se açodava em minhas artérias hialinas e a maldição era hedionda e a ela eu me debruçava; assim, tão logo senti uma presença próxima e era no flúmen qual eu me firmava, então roguei pelos deuses de todos os elementos e vi ― juro aos santos e profanos ― eu vi o ancião perverso a, de novo, aproximar-se. E quis vociferar pelo socorro de um ser qualquer sob ou sobre a escuridão a cingir, mas eu não tinha boca e minha boca era feita de pétalas e das pétalas escorria elixir de morte e argila.
Eis que o macróbio sórdido e vil, com violência bruta arrancou-me do pântano e levou meu venusto caule à língua áspera. E a língua áspera era cinza e pegajosa e eu vi, por fim, a névoa mais rara no gigantesco horizonte e eu a vi antes da absurda dor tomar-me o âmago. Moída em fel feneci antes da ausência ser-me única possível, chorei as lágrimas moribundas que me restavam e despertei de súbito como de uma paralisia do sono e olhei para o céu e era dia e o dia luzia tenro e afável. Nada havia além da lembrança vívida dos tempos mais obscuros que virão, onde o sol será negrume e queimará e as algas serão alimentos pútridos aos famintos e as frutas terão sumo violáceo. Retomei à angústia mais etérea, pois que agora eu detinha como cruz ao torso, a pesada revelação perturbadora e, sem ter como dela livrar-me, sendo obrigada a carregá-la comigo; tornei-me andarilha das terras humanas em busca de alguém para devorar minha própria semente.
Sete Abismos — Abyssalum
Espere encontrar em Sete Abismos um universo de contos terríficos que se vinculam nas entrelinhas, causando uma imersão integral no horror de suas entranhas. Espere ser perturbado por complexas mentes de personagens distintos e por mistérios cujas faces se desvendam no absurdo; deguste de uma leitura com atmosfera hedionda que perdura mesmo nos contos mais breves. Descubra o horror que reside no inofensivo e perceba que de tudo, de absolutamente tudo, pode emergir uma monstruosidade inimaginável. Prepare seu estômago, a repugnância surgirá e ela é imprevisível. » Leia todos os contos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Observadores
Desperto sobre um chão asséptico, duramente frio, cheirando a desinfectante recém-passado. Sento-me devagar, estou desorientado…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Desperto sobre um chão asséptico, duramente frio, cheirando a desinfectante recém-passado. Sento-me devagar, estou desorientado. Fico imóvel por algum tempo, tentando centrar a minha visão. Tudo treme e vibra.
O que aconteceu comigo? Depois que minha visão centrou, observo minhas roupas. Estou sentado, com as pernas estendidas. As costas estão apoiadas no canto de um espaço pequeno e quadrado. O chão é de um metal polido e cinza, muito brilhante, eu vejo o meu reflexo distorcido nele, de tão brilhante.
Eu visto roupas comuns: calça jeans, sapatênis e uma camisa polo vermelha. Não me recordo de onde estava. O que fazia com essas roupas? Onde? Nada vem à minha mente. Um grande vazio, absoluto! Preenchido apenas por perguntas: será que fui sequestrado, será que morri?
Ouço alguma coisa? Sim! É um barulho muito distante! Sons abafados. Tento identificar de onde eles vêm, cruzo a sala, então a noto. Uma única vela acesa. Ela está exatamente no centro da sala e sua chama... ela parece estar atrelada de alguma forma a mim, ao que eu faço, ao que eu penso... não posso provar, mas sinto isso.
Quero sair daqui, não me sinto bem nesse lugar. Meus olhos percorrem as quatro paredes. Ao terminar, se desconcertam. Cresce o desespero que meus olhos foram capazes de gerar. Não havia uma janela sequer. Nenhuma forma sequer de abri-la. Sim, a única porta da sala era um tipo de elevador, porém não tinha como abri-la… Eu não conseguiria, não havia como forçar os dois lados a se abrirem, não havia botões para serem apertados e comandá-la. Então ela permaneceu totalmente fechada e impassível.
Não sei quanto tempo fiquei acordado, mas me sinto desgastado, minha visão pesa. Mas certamente eu dormi, pois estou acordando agora. Minhas retinas registram as mesmas paredes frias e metálicas. Elas, o meu reflexo.
Meus olhos registraram, meu cérebro notou. A chama da vela está ligeiramente diferente. O fogo que antes aquecia o lugar, com reflexos laranjas e quentes, agora trepida e hesita, com chamas azuis crepitantes. No entanto, o reflexo dela parece que guardou o reflexo de quando eu chegara: amarelado, os tons alaranjados estavam apenas nos reflexos. Deveriam refletir a cor azul, mas pareciam testemunhas renitentes do passado.
Num átimo, a chama da vela apagou-se e acendeu novamente. Agora a cor da chama que as paredes refletiam era idêntica à da chama: um azul intenso e profundo. Sentia que dentro daquela chama havia um universo que me atraía.
Apesar de assustar-me com o reflexo da chama destoante nas paredes, insisto em fazer o meu olhar vagar por elas, em busca de uma saída daquele lugar, cada vez menor na minha percepção. Dou um pulo para trás: ali, nas paredes onde uma luz laranja bruxuleava... ali, agora há um detalhe a mais — marcas de riscos nas paredes fazem meu estômago revirar. Um dos espelhos estava rachado, de fora a fora, na diagonal.
Continuando a vagar pelo que o estranho espelho reflete, chego até ele. Minha própria imagem encara os meus olhos friamente. Do lado de lá, é a imagem refletida quem conduz a ação. Apenas um reflexo de mim, sim. Mas por que meus olhos parecem ser um engodo? Sinto medo, por ela ser deformada e diferente, devido à rachadura que apareceu agora. A única verdade que seus olhos ameaçam entregar é a de que quer me fazer mal.
Será que aquela imagem sou eu? E, na verdade, eu é que estou confuso? Será que as paredes limpas, lisas e espelhadas do elevador em que me encontro apenas estão refletindo a realidade: uma vela com chama laranja em seu centro; e eu é que estou a imaginar que a chama é azul, que algo riscou e rachou as paredes? Por que as minhas mãos estão arranhadas?
Sinto um cansaço pesar, minhas pálpebras fazem força para se fechar. Eu luto para me manter acordado. A tarefa é difícil, cansativa, árdua, eu diria que se tornou hercúlea. Como se o meu próprio corpo não fosse meu. Estranho. Eu tento controlar as minhas expressões faciais, mas o olhar hostil do meu reflexo se recusava a mudar, resoluto.
Acho que dormi nessa cansativa luta de fazer o reflexo do espelho mudar. Por mais que sentisse os músculos do meu rosto se mexerem, o rosto no reflexo estava imóvel e com uma expressão ambígua, ameaçadora. Se o reflexo era eu, por que me olhava com raiva? Se não era eu, por que era igual a mim?
Acho que agora desperto pela terceira vez nesta sala. Sinto frio. O chão me parece mais frio ou foi a minha temperatura que cedeu? O cúbico do elevador, já não o percebo tão pequeno, ele parece um pouco maior. A vela? Ah, sim, ela está bem menor, derreteu… Agora, está bem mais escuro do que antes.
Eu próprio me sinto menor. Como se os meus músculos, tal qual a cera daquela vela, tivessem diminuído, tivessem derretido. E parte de minha essência tivesse se dispersado pelo chão, como se eu fosse uma vela de chama azul, igual àquela: triste e pequena; obedecendo a um desígnio além do que ela pode controlar, certa de que ela será, indubitavelmente, não mais uma vela, mas uma mera poça de cera derretida.
— Estamos quase completos! — uma voz inumana diz, mas entendo claramente o que foi dito. As palavras claras, como água cristalina em meus ouvidos, vindas do outro lado da parede.
Agora percebo que estou junto à vela, no centro da sala. Eu sou uma criatura dada em sacrifício, a chama azul da vela me disse isso, em meio às imagens projetadas em sua pequenina chama que eu observo deitado. Algo está sendo vaticinado. Meu sangue está sujando o chão, percebo que não só o meu nariz está sangrando, mas todo o meu corpo está se moldando a algo que não conheço, mas já não estranho.
Mas ela também me mostrou memórias de outras vidas. Outros Jeremias. Um era pai, e abraçava suas filhas no quintal. Outro era policial e dera um tiro na testa de alguém — que horror! Havia outro que era branco, e não negro como eu. Tinha uma criatura estranha, que eu também sabia que era eu — ela passava por ruas, como as nossas.
Agora desperto pela quarta vez. Flutuamos, eu e a vela, pelo espaço oco. Vejo escamas finas da minha pele se soltarem. Sinto-as desprenderem das mãos, das pernas, das costas encurvadas. Elas vão flutuando pela escuridão, formando uma galáxia, um redemoinho bizarro de peles mortas vagando pela escuridão, iluminadas apenas por uma chama fraca.
Desespero-me ao perceber que estou me desfazendo aos poucos. Sou como um embrião que desfaz sua casca, sumindo a cada porção perdida no espaço. Não é um processo que pode ser parado. Acho que não. Talvez eu seja só a casca de algo que amadureceu.
Agora desperto. Vejo a porta se abrir pela primeira vez. A vela está no teto, assim como eu sinto que estou. Não tenho voz, não tenho corpo. Quem eu era, não recordo. Mas isso não importa mais.
Junto-me aos meus companheiros lá fora… lá fora, no espaço-tempo, eu vejo: somos muitas criaturas. Temos garras e escamas brancas, e olhos grandes e esbugalhados. Nos chamam de observadores…
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Coelho Vermelho
O solitário castiçal iluminava as cartas sobre a escrivaninha. Sua luz trêmula projetava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O solitário castiçal iluminava as cartas sobre a escrivaninha. Sua luz trêmula projetava a sombra disforme do homem sem rosto – um aristocrata cujo semblante ninguém jamais vira. Os rumores sobre sua origem remontavam a séculos, mas sua existência permanecia um enigma envolto na imensidão e silêncio do seu castelo. Apenas alguns servos fiéis, de olhares baixos e lábios selados, lhe faziam companhia.
O homem mergulhou a pena no tinteiro negro. O arranhar no pergaminho ecoava como unhas em um caixão.
"O Conde te espera na celebração dos Láparos. Haverá um baile em prol do Aesttera — Tempo de Conceber Novas Vidas. Te esperamos neste franco deleite", escreveu com caligrafia meticulosa.
Era o décimo quinto ano do ritual. Os Láparos, segundo os antigos manuscritos guardados nas catacumbas do castelo, eram espíritos da fertilidade que exigiam sangue para conceder vida. O Aesttera, ciclo lunar de conceber, aproximava-se do auge.
Mulheres solteiras ou casadas, sem filhos, e homens livres de qualquer preconceito eram bem-vindos. Muitos ignoravam o verdadeiro propósito da celebração, atraídos apenas pela promessa de libertação. O grande evento era visto como um encontro de possibilidades e de escalada social. As melhores joias, as melhores roupas visavam ostentar seus alter egos, que para muitos seriam inalcançáveis caso não fossem ao baile.
A noite chegou com um céu sem estrelas. Coelhos híbridos com humanos, advindos de várias carruagens, rompiam o silêncio espectral daquele lugar. O relinchar dos cavalos misturava-se ao murmúrio excitado dos convidados. Máscaras ornamentadas com penas, joias e cristais escondiam identidades, mas revelavam olhares cheios de desejo, esperançosos pela entrega à libido. O aroma de incenso e almíscar impregnava o ar, enevoando os sentidos já turvos pela expectativa.
Um tilintar numa taça de cristal reverberou pelo salão, evocando a atenção dos convidados que sorriam inocentemente, ansiosos pelo deleite do raro vinho da maçã sangrenta. O líquido escarlate brilhava sob a luz dos candelabros, sua viscosidade deixando rastros rubros nas taças de cristal. Um aroma metálico, adocicado, emanava da bebida.
"Este néctar", anunciou o servo principal, "foi preparado pelo próprio Conde durante o ciclo completo da lua negra."
Eles bebiam. O líquido escorria por gargantas sedentas, esquentando-os por dentro. Comiam. Carnes raras, frutas exóticas, manjares nunca antes provados. Tocavam-se. A princípio com timidez, depois com voracidade crescente. Mas só havia uma única regra: nunca remover a máscara.
E continuavam... As risadas tornavam-se mais estridentes, quase histéricas. Contorciam-se, despiam-se... O som úmido da carne contra carne mesclava-se ao tilintar das joias. Elevavam acima de suas cabeças as taças cheias do néctar afrodisíaco, seus reflexos vermelhos manchando o teto como sangue espalhado.
De seu trono nas sombras, o anfitrião, o homem sem rosto, assistia ao espetáculo daqueles a quem denominava como selvagens. Sob seu manto negro, suas mãos pálidas apertavam os braços entalhados do assento. Era o décimo quinto sacrifício, e cada ano a sede dos Láparos crescia.
"Bebam, velhas bestas, coelhos malditos, hoje celebramos a morte e a vida", e por detrás de sua máscara — única com a cabeça de coelho vermelho, olhos de rubi e pelagem escarlate — projetou sua voz enquanto tilintava sua taça. "Olhem, admirem a origem do sangue que bebem."
Um véu pesado foi removido no centro do salão. E numa gaiola dourada, uma pobre e fértil mulher definhava, pálida como marfim polido, os pulsos cortados e enfaixados, seus olhos vidrados fixos nos convidados. Uma mangueira transparente ligava suas veias à grande ânfora de cristal de onde o vinho era servido. Ela assistia seus algozes deleitarem-se com o viscoso vinho escarlate – seu próprio sangue, drenado lentamente para alimentar a celebração.
Os convidados congelaram. Taças caíram, estilhaçando-se contra o mármore. Alguns levaram as mãos à boca, outros permaneceram imóveis, fascinados pelo horror.
"Os Láparos exigem sangue voluntário," continuou o Conde, sua voz agora mais profunda, inumana. "Ela se ofereceu em troca de riquezas para sua família. Um sacrifício nobre, não acham?"
E a mulher na gaiola, como se esperasse este momento, moveu seus lábios ressecados. "Vocês... todos... malditos..." sussurrou ela, sua voz fraca atravessando o silêncio absoluto do salão. E, destarte, a sua vida esvaiu-se, porém, não com os olhos cerrados, mas fixos em seus carrascos mascarados, em uma maldição silenciosa que cada um deles levaria consigo para sempre.
Por baixo de suas máscaras, imperceptivelmente, pequenos tufos de pelo branco começavam a brotar na pele dos convidados.
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 7: Coelhinho... O que fazes de mim?
A escuridão daquela noite me envolvia tal qual um abraço mortal, expulsando qualquer vestígio de sono. Desci em busca de um alívio…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A escuridão daquela noite me envolvia tal qual um abraço mortal, expulsando qualquer vestígio de sono. Desci em busca de um alívio, algo que me concedesse descanso. Na penumbra da cozinha, encontrei Ameritt — com seu olhar indecifrável e mãos delicadas preparando um chá. Ofereceu-me uma dose. Aceitei a oferenda sem hesitar.
Mas, ao invés de conforto, cada gole parecia arrastar minha alma ainda mais fundo na tormenta. Sequer sei se era ela ou se pretendia causar mais sofrimento… só sei que aquele chá não trouxe paz alguma.
***
Me vi observando alguns moradores de uma terra longínqua, seres interessantes e carismáticos. Muitos possuíam uma sensibilidade e melancolia sutil, que lhes conferia um aspecto pueril e misterioso.
O fato é que não sei precisar se sonhei ou vivenciei aquelas cenas... Mas a essa altura da história, achas mesmo que isso seja relevante?
Eram criaturas vivazes, pareciam estar se preparando para alguma festividade. Depois confirmei minhas suspeitas: realmente estavam às vésperas de um festival importante para a Cultura deles chamado Aesttera.
Acompanhei em simultâneo o preparo do banquete e das vestimentas, como se estivesse fragmentada e pudesse estar onipresente em diversas cenas. O salão do banquete estava repleto de bandejas e copos com formatos peculiares, frutas secas dispostas em uma mesa vasta e havia jarras e jarras preenchidas com um líquido espesso da cor de um vinho bordô. As vestimentas eram semelhantes às roupas de época, como se eu tivesse sido transportado para algum momento importante do século XVII.
As crianças, risonhas e ávidas por aventuras, divertiam-se com um objeto oval. Depois, compreendi ser uma flor, cujas pétalas eram retiradas uma a uma por diferentes crianças, sempre passando para a próxima a cada retirada. Parecia uma roleta-russa com objetivo menos mórbido, mas igualmente estranho. Creio que o intuito era descobrir algo no interior dela, mas não pude compreender o quê. O que havia dentro daquela flor peculiar?
Foi quando o senti.
Deslizando sob aquela população excêntrica, percebi a presença de um coelho humanoide, de pelos negros e olhos de um vermelho neon intenso. Foi o único que me viu — não apenas olhou, mas viu. Seu olhar inquisidor parecia desnudar os recônditos da minha alma e, por um instante, me senti indefesa de novo, como se estivesse em um lugar inóspito, além daquele festival. Não ousei dirigir-lhe a palavra. Algo dentro de mim sussurrava que ele já sabia tudo sobre mim.
A névoa densa na mente obscureceu minha visão por um tempo, e quando recuperei o foco, ele estava mais perto. Muito mais perto. Seu sorriso, largo e imóvel, era mais do que uma expressão impassível — era uma fenda pictórica escancarada na própria realidade. Ele ria de mim? Seus dedos longos e rígidos tilintavam ao menor movimento, e só então percebi a horrível verdade: Seus membros eram feitos de ossos humanos, meticulosamente montados, encaixados e articulados como se tivessem sido esculpidos para ele. Seu tórax era uma jaula de costelas humanas, entrelaçadas como grades, e dentro dela algo pulsava, algo que não era dele. Algo vivo. Algo humano. Algo que me olhava de volta. Era eu.
Quis correr. Juro que tentei.
Mas, quando dei o primeiro passo para trás, ele sorriu ainda mais. E dessa vez, o sorriso não estava apenas no rosto.
Estava em todos os lugares.
Me invadindo.
Me modelando.
Descontruindo em
Fragmentos que não se pode reaver.
Acordei(?). Me vi no meu quarto no Castelo Drácula, só podia ser um sonho. Não é?! Olhos amarelos vieram cautelosos em minha direção e, quando pensei em gritar, reconheci Lisa, que me olhava assustada, como se soubesse dos flagelos que passei.
***
Os olhos vermelhos luminosos daquela criatura infernal ainda me observam, persistentes, assombrando não só minhas noites, mas também meus dias. Nunca se aproxima, apenas espreita, sempre à espreita.
Ouço o bater do coração dele — que é o meu rosto — os ossos fazem sons como se rangidos de dentes ferozes estraçalhassem uma presa.
Eu não devia ter tomado aquele chá de maçã. Havia algo nele… algo além do doce aconchegante, algo oculto sob o sabor acolhedor. Algo que agora me consome!
E desde então não encontrei mais a Ameritt. Era mesmo ela?!!!
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A Casa dos Quatro
Tinha uma bruxa na lua... | Eu sei, | Eu vi. | Subia, ao fim da rua, num ruído verdejante de poeira... poeira de livro velho. | Pó de cravo, sálvia do inverno…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Outro inverno, outro dia no inferno, outro nascer de fraco sol. Dói, Maria, a víscera dessa saudade... Apague o fogo! Abafe o chá; aonde vai, pai? Não é hora de ir descansar?... leve flor pra Elizabeth. Ao menos leve flor. Onde anda o passarinho?... Onde anda o meu amor?! “Dorme num canto de estrada, morto e mal enterrado...” – Cala-te, sombra maldita! Criatura nojenta que se esgueira... Oh, e Aninha? Já banhou? Pois vá! Tire essa lama velha do cabelo. Penteie a menina; já comeste a tangerina? A chuva... a chuva há de chegar.
Aonde vai, Pai? Mal voltou... puseste a flor de Beth? Leve, agora, a de Maria. Ora, onde foi Marta? Sem ela a casa para... onde foi a aurora?
Morreste o céu do dia?... Amanhã, lava amanhã a roupa e o chão da casa. Bater bolo, no canto açucarado da cozinha, pra dormir de bucho alegre. Pro dia surgir novo. Volta ele, morno em cachaça. Fecha a porta. Aquele outro vagabundo não vem. Hoje não... que fechem, com ele dentro, as portas do bar; amanhã o bolo espera.
- E tu, menina, comeste tangerina?
- Comi não, Marta. Aonde foi?... Por que demorou pra voltar?
- Fui porque ainda não brota a comida no chão da casa, mas diga, por que chora? Sei que chora. Não tenhas tu a esperteza de me enganar.
- Nada... nada. Outro dia frio; tô cansada do inverno. Tô é sendo boba, nem tem por que chorar. – Há a vida de banhar de sol esse pinheiro, tão mirrado. Há de corar a bochecha do dia... há de brotar a begônia num outro luar.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “Contos”:
Tic-Tac
Acordei com o som das engrenagens daquele maldito relógio que ressoa em minha mente. O barulho ensurdecedor que nunca cessa não é…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Acordei com o som das engrenagens daquele maldito relógio que ressoa em minha mente. O barulho ensurdecedor que nunca cessa não é apenas um simples "tic-tac"; está mais para um motor a vapor. Quando meu tio me presenteou, indaguei sobre a fumaça que saía dele.
— É como uma respiração. Cuide bem do relógio e mantenha-o hidratado com dois litros de água por dia — disse ele.
O velho era caduco, cuidava do relógio como um bicho, mas, por hábito, acabei fazendo o mesmo. Há um pequeno compartimento atrás dele, como um reservatório de água. Está quase sempre vazio. Essa coisa bebe muito. Começo a me questionar se não precisa de comida também.
Mas o som não para, não reduz. Já estou há noites sem dormir, porém não vou quebrar o presente que ganhei. Talvez ele esteja com raiva; afinal, emite uma estranha fumaça que inunda a casa. Não lhe dou atenção suficiente e está me importunando por isso? Deveria dar-lhe mais cuidados, mas o que relógios gostam de fazer? Talvez esteja com fome, mas o que devo dar de comer? Óleo? Seria bom para acabar com o som e me deixar dormir.
Liguei para meu tio e nada dele atender. Já não aguento mais; irei abri-lo. Pego meu kit de ferramentas, que estava junto de umas tralhas no quintal, e desparafuso o fundo do relógio. Quantas engrenagens! Precisa de tudo isso para funcionar? Há uma bomba ligada ao reservatório de água. Isso explica por que nunca precisou de tomada ou pilhas, mas também explica o som e o vapor. Deveria desligar a bomba, mas isso seria o mesmo que matá-lo. Ora, pois, no que estou pensando? É um relógio e não um ser pensante.
“Tic-tac, tic-tac, tic-tac”. Como posso dizer que não pensa, se é ele que faz todo o trabalho de contar segundo por segundo, dando-me horas e minutos, até despertar em momentos oportunos? Talvez eu já esteja louco pelas noites em claro, mas cuidar do relógio parece razoável. Volto à rotina de sempre, lubrifico suas engrenagens e abasteço seu tanque, mantendo-o em atividade constante. Adapto-me aos sons e construo uma janela atrás. Hoje já não há mais insônia, e a sutil fumaça que emanava agora escapa como uma chaminé.
Até que acordo com um estrondo e, então, silêncio. Sem tic-tac, sem motor, apenas o vazio. Levanto e corro até o relógio. Seu pêndulo estava parado, os ponteiros já não contavam mais o tempo e a fumaça, agora, era só uma simples neblina que, aos poucos, se dissipava. Observo a parte de trás e está cheia de furos. Desparafuso a tampa e lá está: o tanque furado. A água se foi, como se ele tivesse sangrado até a morte.
Deito-me à noite com um vazio imensurável em meu peito. A casa fora tomada por um silêncio angustiante. Não consigo dormir, é como se arrancassem um pedaço de mim. Chamei alguns relojoeiros para saber se daria jeito, mas ninguém jamais havia visto algo como aquilo. Resolvi visitar meu tio. Ele deve saber como trazê-lo de volta. Chego à sua casa e, apesar de tocar a campainha, ninguém atende. Vou até uma janela, de onde saía muita fumaça. Não dá para ver nada, mas parece haver algo impedindo minha passagem.
Encontro uma barra de ferro junto com algumas sucatas no quintal e a utilizo para remover seja lá o que estiver no caminho. Um estrondo, e a fumaça se torna uma névoa translúcida. Quando entro na casa, a ficha cai. O objeto que derrubei era como o meu relógio, e os furos que encontrei mais cedo são os mesmos que fiz com a barra. Agora já estava feito. Ouço passos e, assustado, levanto o relógio caído e saio por onde vim, com as mãos sujas de óleo. Talvez eu possa me redimir se conseguir criar outro igual e presenteá-lo ao meu sobrinho, para que cuide dele como eu não cuidei.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “Contos”:
17. Castelo Vampírico: O bem que eu quero, esse eu não faço; o mal que não quero, esse faço
07 de janeiro? - Fiquei olhando por um tempo…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
07 de janeiro? - Fiquei olhando por um tempo, ela deitada em meio a pedaços de vários tamanhos do lampião quebrado e ela já não era aquela criatura assustada de alguns momentos atrás, estava diferente. Ela percebeu que eu a estava observando, mas continuou a montar o lampião bem concentrada em sua tarefa. Me levantei e fui me sentar na cadeira de frente a escrivaninha, cansada do dia de hoje, cansada de tanta coisa que eu ainda teria que fazer e pensar em fazer, e esperei até que ela terminasse, ouvindo os sons sutis que ela fazia. Logo depois, saiu debaixo da cama devagar, trazendo o lampião consigo completamente montado e se sentou no chão de pernas cruzadas, parecia já se sentir à vontade no quarto e na minha presença. Me olhou com aqueles olhos profundos e falou:
— Eu sinto que isso é sagrado, mas não me recordo o que seja, apenas senti que precisava consertá-lo. — sua boca não se mexia, ela tinha voltado a falar dentro da minha cabeça de novo.
Ela levantou o lampião, intacto, sem ranhuras ou partes faltando, e o estendeu em minha direção para que eu pegasse. Seus olhos não se mexiam ou piscavam enquanto me observava, peguei o lampião e eu não sabia se deveria agradecê-la pelo conserto, mas ela esperava por alguma coisa. A situação já era estranha o suficiente para que eu enrolasse demais e não fosse direto ao assunto.
— Escute, você quer eu abra o livro não é, para que suas memórias voltem? — eu disse logo.
Ela confirmou com a cabeça.
— Mas pensando agora, você já esteve junto do livro antes, lá no laboratório, por que não o abriu?
Ela desviou o olhar e me respondeu:
— Há algo nesse livro que me impede de tocá-lo. Só sei que, por mais que eu tente, ele me rejeita, por isso preciso que alguém faça isso por mim.
Sua fala me deixou com um pouco de suspeita. Que tipo de coisa seria tão específica para mantê-la longe do livro?
— Você vai abrir o livro? — ela perguntou sem emoção nenhuma.
— Vou, mas com uma condição. Tem algo que eu preciso fazer, eu vou abrir o livro e te ajudar a lembrar, mas você tem que prometer que vai me ajudar também.
— Eu prometo te ajudar — ela disse e eu queria acreditar que ela falava a verdade, pois não conseguia interpretar suas intenções.
— Ótimo, então vamos começar — respondi.
Virei a cadeira de frente à escrivaninha e peguei o livro por baixo de uns papéis que utilizei para escondê-lo, a criatura se levantou e ficou em pé atrás de mim, esperando o livro ser aberto. A sensação de ansiedade, a vontade de escondê-lo novamente e deixá-lo pra lá, voltou, mas abri o livro. Algo estranho vibrava dentro de mim, e eu não sabia definir o que era. As páginas do livro amareladas, desbotadas, letras e imagens que pareciam vivas, comecei a sentir um desconforto se formar, uma dor que latejava e dava um gosto metálico à minha boca. As palavras não faziam sentido, tudo estava embaralhado, mesmo que eu tentasse focar nas palavras, elas pareciam dançar à minha vista e eram impossíveis de serem entendidas ou lidas. Pude sentir a frustração crescer dentro de mim, me preparei tanto para abrir esse maldito livro e agora não podia compreendê-lo, eu estava irritada.
— Você consegue lê-lo? — a criatura perguntou.
— Não, as palavras mudam, se misturam, parecem não querer ser lidas. — eu disse frustrada, e parecia que falar isso em voz alta para a criatura parecia me irritar ainda mais. — Preciso pensar no que fazer, prometi que iria te ajudar a recuperar suas lembranças e vou encontrar um jeito de fazer isso. Só que quero parar por hoje, o dia foi cansativo e um pouco frustrante, amanhã eu resolvo isso.
A criatura concordou com um leve inclinar de cabeça. Eu estava cansada, frustrada e algo dentro de minhas entranhas se movimentava. Fui dormir e a criatura se sentou na cadeira na frente da escrivaninha com o olhar fixo no livro que ela também não conseguia ler, ficou assim por horas enquanto eu me deixava ser vencida pelo sono.
08 de janeiro? — Fui acordada bem cedo por um som estrondoso, parecia que viria um temporal. Sem demora fui ao encontro do professor Monm, levando o livro. Eu precisava da ajuda dele, então fui incomodá-lo mais uma vez. Fiquei feliz por encontrá-lo, sentado em meio a livros. Quando me viu entrar, não vi surpresa em seu olhar, parecia que já me esperava. Dei bom dia a ele que me respondeu com sua cordialidade de costume, sentei-me em uma cadeira à sua frente e dei a ele o livro.
— Então, esse é o livro que tem tirado o seu sono? — ele murmurou, passando a mão na capa de couro velha.
— Sim, eu tentei ler, mas as palavras se embolam. — disse, gesticulando ansiosa demais para me controlar.
O professor Monm abriu o livro e seu rosto ficou sério, concentrado. Os olhos correndo sobre as páginas. Então ele fechou o livro, olhou para mim e disse:
— Também não consigo lê-lo, Rute.
Eu fiquei irritada, eu sabia que não era culpa dele não conseguir ler o livro, mas acabei sendo hostil com o professor.
— Mas como? Você é o mais qualificado para isso, não é? — a irritação na minha voz me surpreendeu.
O professor esfregou o rosto e pude notar desconforto na sua expressão.
— Não é questão de ser ou não qualificado, o livro está protegido por alguma magia. Há duas forças agindo sobre esse livro, uma que a bloqueia para que seu conteúdo não seja compreendido e a outra é a alma de quem criou o livro, esta alma influencia o portador a manter o livro neste castelo.
— E como só de olhar para ele você consegue saber tudo isso? — disse confusa.
— Bom, não é a primeira vez que dou essa informação a alguém. — ele disse com um quase rir.
— Então o que pode ser feito? — eu disse respirando fundo e tentando manter a calma e já envergonhada por falar com o professor daquela forma grosseira.
— Talvez a criatura saiba a forma de desbloquear o livro, ela parece estar conectada a ele, talvez precisemos de magia para trazer suas memórias de volta, um ritual talvez? — ele disse isso olhando para criatura, parecia esperar uma reação dela.
— Um ritual? — eu disse aquilo quase sem acreditar que saía da minha boca, mas o que eu esperava agora senão mais coisas sobrenaturais fora do meu campo de experiência.
— Sim, um ritual, pode ser arriscado, já que não tem como prever a intenção da criatura, mas como você está tão convicta disso, acredito que vá querer arriscar? — ele me perguntou, mas parecia já saber a resposta.
— Sim, eu vou arriscar, mas quem realizaria esse ritual, não entendo nada de magia.
— A criatura é a única que tem uma real ligação com esse livro, se ela fizer esse ritual com você, talvez você consiga acessar as memórias dela e consiga desbloquear esse livro. — Monm disse.
Olhei para o livro e para a criatura, que ficou sentada em um canto da biblioteca apenas observando e esperando.
— Tudo bem, se é o que precisa ser feito, então vamos fazer. — me levantei já pegando o livro. O professor Monm concordou com a cabeça, sua expressão demonstrava preocupação.
— Eu posso te ajudar com isso sim, Rute, e encontrar alguém que faça o ritual, Ameritt talvez, se ela concordar, mas recomendo fortemente que espere, deixe que eu fale com ela, para saber se este é o momento propício para rituais.
— Mas por que preciso esperar? — falei me sentando de novo.
— Um fenômeno complexo vai se iniciar no castelo, Rute, o nemonium. E não tem como prever o que pode ocorrer se um ritual for iniciado durante esse fenômeno, consigo visualizar diversos resultados, mas não consigo prever com exatidão qual deles irá ocorrer. Ele é um lapso temporal, tudo fica fora de lugar, o castelo e tudo que há nele é levado para fora do seu limiar, tudo é realocado, fendas se abrem nas realidades infinitas dos multiversos e de todos os tempos e isso pode trazer seres desconhecidos. Então me ouça Rute, me deixe conversar com Ameritt primeiro, ela saberá o melhor a ser feito.
Professor Monm foi de encontro à Ameritt me deixando na biblioteca na companhia da criatura, sei que não deveria questionar a ajuda do professor Monm ou mesmo de Ameritt, mas às vezes penso se eles não teriam coisas melhores a fazer do que me ajudar nessas tarefas fora do comum. Alguns minutos depois ele voltou na companhia de Ameritt, o professor me disse que já havia explicado à Ameritt sobre o bloqueio do livro e da alma que estava nele. Ameritt então disse:
— Você sabe o que está pedindo, Rute-besin, entende o perigo disso?
— Sim, eu sei do nemonium. — respondi depressa — O professor Monm me explicou.
— Você entende que talvez o livro não possa ser lido? Que as lembranças da criatura podem não voltar, que se voltarem ela pode não ser o que você espera? E que a alma presa ao livro pode ser perigosa? Vai valer o risco?
— Só tem uma maneira de descobrir. — eu disse convicta. Ameritt me olhou por um tempo, me examinando. Parecia esperar que eu hesitasse, que eu desistisse da ideia.
— Eu farei o ritual, Rute-besin, não quero que sozinha você mexa com coisas que não entende, mas tenho algumas condições, você vai ouvir e fazer cada coisa que eu disser para ser feita.— sua voz estava calma, mas seu rosto tinha uma expressão dura. — Você concorda com as condições?
— Sim — concordei logo.
— Esse ritual de ligação é simples em teoria, porém bastante complexo na prática, isso vai requerer que você e a criatura se conectem mais profundamente, unindo a intenção de ambas, é bastante arriscado, Rute-besin, vocês vão estar vulneráveis a qualquer coisa. Você tem certeza de que quer continuar com isso?
Olhei para criatura e seu olhar não transmitia nada. Concordei com a cabeça.
— Então me siga, tenho um lugar perfeito para isso. — disse Ameritt, fazendo sinal para que seguíssemos ela.
Eu, a criatura e o professor fomos com ela até a estufa onde eu tinha encontrado o livro. Ameritt começou a pegar diversos itens em diferentes prateleiras, velas, sal grosso e ervas secas.
— Vou traçar um círculo de proteção, vocês ficarão dentro dele, esse círculo vai impedir que qualquer coisa entre ou saia do círculo. — ela disse isso enquanto organizava os materiais no chão. Ela colocou o livro no centro do círculo e explicou:
— Você precisa tocar o livro, então você será uma ponte para que as lembranças se revelem. A criatura irá te tocar, eu recitarei um encantamento que vai forçar o livro a revelar as lembranças para vocês.
Ameritt acendeu as velas ao redor do círculo de sal e ervas, murmurando palavras em uma língua que eu não entendia. O professor Monm, no canto perto da porta, estava calmo; verificando, de tempos em tempos, seu relógio de bolso. O ar começou a ficar mais denso, Ameritt pediu para que entrássemos dentro do círculo, eu me sentei, a criatura se ajoelhou na minha frente e o livro entre nós.
— Coloque suas mãos no livro, Rute-besin — ela ordenou, olhou para criatura. — E você toque nela.
Coloquei as mãos sobre o livro, sua capa fria e áspera, a criatura ajoelhada de frente a mim, estendeu as mãos e a pôs devagar sobre a minha cabeça. Ameritt começou a recitar o encantamento, sua voz ia ganhando ritmo e vibrava dentro daquele local, o livro começou a aquecer. Olhei para a criatura e seus olhos começaram a brilhar com uma luz dourada e intensa. Fechei meus olhos e senti algo dentro de mim ser puxado para fora, como se algo externo estivesse tentando fazer o que estivesse dentro de mim sair para que tomasse seu lugar.
— Concentre-se, Rute-besin, mantenha o controle. — gritou Ameritt.
Mantive meus olhos fechados e me concentrei na voz de Ameritt, me concentrei em trazer as memórias da criatura de volta. E de repente o mundo a minha volta desapareceu, minha mente se tornou vazia, apenas trevas e silêncio; depois sussurros, vozes, gritos de horror e lamentos. Mantive minhas mãos sobre o livro, e senti uma energia me atravessar como um soco no estomago, tão forte que parecia me ultrapassar. Minha mente foi preenchida de lembranças que não eram minhas, sons que iam aumentando de intensidade até se tornarem imagens bem vividas, florestas escuras, sangue, medo, morte, assassinato, um desejo incontrolável de fazer o mal, uma grande figura esculpida em pedra escura vestindo um manto negro. Eu sentia a criatura vibrar, suas mãos apertando minha cabeça, seus dedos entre meus cabelos pressionando e vibrando, eu ouvia palavras incompressíveis. As imagens pareciam ficar mais claras, eu via uma mulher correr para dentro de uma catedral imponente e escura.
As imagens ficaram mais rápidas, como se jogadas no meu cérebro uma atrás da outra, algumas rápidas demais para que eu pudesse acompanhar e guardá-las em minha mente. Eu via a mulher vestida de preto, vi sua alegria enquanto tirava a vida dos que cruzavam seu caminho, eu vi o livro, depois ela entrando no castelo Drácula, ela tirando a vida de outras criaturas com um olhar impassível. A última imagem era a mulher falando palavras que eu não conseguia entender e depois somente vazio, o nada. As imagens se dissiparam e finalmente eu consegui abrir meus olhos, olhei para criatura e seus olhos bem abertos brilhavam com uma luz azul muito forte que também saía de sua boca escancarada. A única coisa que eu conseguia sentir ao olhar para ela era medo e repulsa, me desvencilhei dela, me levantei e sai correndo, Ameritt continuou proferindo o encantamento e Monm, em vão, gritou para que eu continuasse dentro do círculo.
Corri para fugir daquela vontade de fazer o mal, e me vi dentro do castelo, a temperatura despencava com violência, e o frio que eu estava sentindo naquele momento era incômodo e devastador. Caminhei pelos corredores do castelo, me arrastando, eu estava perdida em lembranças que não eram minhas, pensamentos e vozes que eu não conseguia controlar. Os fragmentos de lembranças da criatura queimaram a minha mente, desesperança, desprezo, raiva, um vazio que eu não conseguia preencher, eu me sentia um nada, um sussurro sem uma origem, um ser sem forma, apenas uma vontade vazia de sentir. Pelas janelas do castelo eu via uma tempestade de neve a cada minuto ficar mais agressiva, junto com sons de trovões que pareciam fazer meu interior vibrar, escorada nas paredes do castelo eu conseguia sentir ele também vibrar.
Um trovão ressoou e o som da ventania parecia um lamento, eu sentia estar perdendo a sanidade, eu não conseguia me controlar e voltar ao ponto de equilíbrio dentro da minha cabeça. Os corredores pareciam ficar mais escuros e dentro de mim eu desejava que fosse a falta de iluminação e não um princípio de desmaio, a escuridão começou a ser tingida de uma azul acinzentado, ganhando cada vez mais intensidade. A cada corredor que eu passava para chegar ao meu quarto, comecei a observar que todos os quadros e espelhos estavam cobertos por um manto negro. Tudo parecia tão sufocante, tão odioso e desprezível! Um estrondo cortou o ar, que fez meu coração disparar, meu olhar foi atraído para um dos espelhos cobertos que estava à minha esquerda, parecia pulsar como um coração assustado, e eu juro que eu ouvi minha própria voz sussurrar dentro daquele espelho, as palavras no início não pareciam claras, o som da nevasca lá fora parecia impedir que eu entendesse, até que a voz aumentou e eu a ouvi soltar essas palavras:
“Você não suportou o sofrimento dela, não é? A infelicidade dela te fazia infeliz e você deu um fim a isso.”, “Você queria matá-la, você desejava isso tão profundamente que não conseguiu resistir ao impulso, não foi? E agora não consegue lidar com a culpa.”, “O amor sujo e indigno que ela tinha por você foi o que a enlouqueceu, você não soube lidar e deu fim a isso, não foi?”, “Você a fez pecar, prometendo que sempre estariam juntas, e agora ela está morta e você ficou feliz por isso, confesse!”
Eu não conseguia me afastar, e um impulso tão visceral quanto o desconforto que eu estava sentindo me fez ir até o espelho. “É apenas um espelho, não há nada lá.” eu disse pra mim mesma, tentando me convencer da lógica, tentando colocar a razão no controle. Eu ergui o manto e a criatura que apareceu no espelho era um pesadelo esculpido em carne, sua pele pálida e bastante esticada sobre seu corpo grande, veias pulsantes, olhos sem íris e retina. E o seu sorriso horrendo com dentes, muitos finos feito agulhas, que me fez congelar. Por uma questão de segundos, achei que aquilo era o meu reflexo, que o ritual, as lembranças, toda aquela confusão e ódio, tinha me transformado naquela criatura horrenda, e não nego que seria um castigo muito bem-merecido por todo mal, que naquele momento, eu estava desejando fazer. Aquele ser cheirou o ar em minha direção, ainda dentro do espelho. Joguei o espelho no chão, que ficou em pedaços, respirei aliviada apenas para logo depois sentir algo apertar meu calcanhar, o que me fez cair no chão com um som abafado e batendo minha cabeça na queda. Eu estava sendo puxada para dentro dos fragmentos do espelho por um braço longo, eu não tinha forças para me desprender, estava tonta e fraca, não tinha forças para lutar contra. Um brilho, então, azulado e muito forte, preencheu o local onde eu estava, fazendo a criatura do espelho guinchar e soltar meu calcanhar. Alguém tinha vindo em meu socorro.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Maldita Melodia
Algumas vezes, as coisas habituais se tornam estranhas; não o estranho de não reconhecer, mas o estranho desconfortável, aquele que incomoda, que é anormal…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Algumas vezes, as coisas habituais se tornam estranhas; não o estranho de não reconhecer, mas o estranho desconfortável, aquele que incomoda, que é anormal. Coisas que antes eram familiares se tornam incomuns. Assim foi com a música. Tudo começou como um sonho, ou melhor, como um sussurro musical no meio da noite, que penetrava a minha mente. Quando acordei, a melodia continuava ali, flutuando no meu cérebro e, por algum motivo, ela não ia embora. Às vezes, acontecia de uma melodia se prender à minha mente, e eu ficar a cantarolar por horas e, às vezes, dias, aquela mesma melodia. Sentei-me na beira da cama, tentando capturar a melodia que ainda flutuava no meu cérebro. Era bela, embora impossível de cantarolar. Meus lábios não conseguiam formar os sons. Fui até meu violoncelo e tentei transcrever aquela melodia para as cordas. Posicionei o arco, alinhei os dedos e, então, nada. Eu não conseguia tirar aquela melodia da minha cabeça e, ao mesmo tempo, não conseguia trazê-la ao mundo real.
Os dias pareciam passar lentos, e a repetição daquela melodia começou a se tornar torturante. A música, antes lenta e tranquila, parecia aumentar aos poucos. Ela não parava, não alterava, repetia-se em um loop dentro da minha cabeça. Eu tentei escrevê-la, traçava as pautas com rapidez, mas as notas não se encaixavam. Era como se a música fugisse de qualquer estrutura lógica; as notas pareciam se negar a tomar forma no papel, rejeitando existir fora da minha mente. Minhas tentativas de cantarolar eram inúteis: o som na minha cabeça parecia se dissolver assim que passava pela minha garganta. Ainda assim, eu insistia. Insistia dia após dia. Minhas mãos tremiam a cada tentativa, e minha mente parecia se desfazer lentamente, exausta de tantas noites sem dormir com aquela melodia que não queria existir.
Eu me recordo do momento exato em que essa música começou a me torturar de verdade. Eu estava fora de casa, em uma tarde, tentando me concentrar nos sons das folhas, dos pássaros, dos carros, de tudo ao meu redor. Tentando me concentrar na paisagem. Mas parecia que tudo ia ficando mais cinzento, mais escuro, e, lá no fundo, a música aumentava. Seu tom se intensificava, suas pausas diminuíam, e as notas se elevavam, como se, a qualquer momento, fosse alcançar o clímax e, com isso, fazer meus miolos escorrerem pelos ouvidos.
Voltei para casa e tentei mais uma vez tocar aquela melodia maldita. As cordas vibravam de maneira errada, as notas vinham distorcidas, o tom estava errado, e eu, frustrada. Até o violoncelo parecia se recusar a cooperar comigo. Algo estava diferente nele — ou talvez eu estivesse diferente.
Comecei a evitar as pessoas. Suas vozes pareciam intensificar-se ainda mais; cada conversa me perturbava, tornando o som mais intrusivo, mais alto. Eu não suportava mais o mundo lá fora; cada ruído acrescentava mais urgência à melodia. O violoncelo tornou-se um fardo, mas eu não conseguia parar de tentar tocar a melodia. Achava que, se eu conseguisse, talvez ela cessasse.
Então, tentei. Presa em minha casa, com janelas e portas trancadas e o som de fora abafado, coloquei o arco sobre as cordas, fechei os olhos e me concentrei na melodia dentro da minha cabeça. Ela já se misturava com o tique-taque do relógio, os ruídos dos canos, o som da geladeira, o barulho do ventilador e até o zumbido da eletricidade da casa. Puxei o arco com força, e o som que saiu não era da melodia. Talvez nem fosse humano. Era como um lamento, que fez todo o meu corpo se arrepiar, as paredes tremerem e a madeira do violoncelo vibrar.
Soltei o violoncelo e olhei para ele com horror, mas não conseguia controlar o impulso de pegá-lo outra vez e tentar tocar a melodia, que agora parecia rir dentro da minha cabeça. Já nem sei o que é real. A melodia não me deixa, e eu não consigo deixar de tentar tocá-la. O violoncelo parece não aguentar mais: suas cordas estão tensas, prestes a arrebentar. Eu só quero tocar essa maldita melodia, só quero que ela tome forma — ou talvez seja melhor que ela permaneça aqui, dentro da minha mente, onde sempre esteve.
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
Leia mais em “Contos”:
O Retrato
Com um movimento violento e preciso de minhas mãos, um arremesso de tinta laranja-abóbora na tela completava a pintura, e o transe finalmente…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Com um movimento violento e preciso de minhas mãos, um arremesso de tinta laranja-abóbora na tela completara a pintura, e o transe finalmente terminava. Vivaz, espirituoso e, ao mesmo tempo, fúnebre, o retrato estava completo. Ele é a lembrança de um passado mais simples, um passado mais calmo, em que eu era eu mesmo. Que retrato, você me pergunta? Ora, o retrato da defunta, da decomposição, do que acontece com a carne morta quando vai ao chão. O retrato de minha mãe.
Ela morrera cinco outonos atrás. Terminei seu retrato meses depois. É assim que me lembro dela, é a imagem mais vívida que tenho, minha âncora em meio à tempestade da loucura. Lembro-me de seu corpo parcialmente devorado pelos vermes e dos fungos que crescem onde antes floresciam suas generosas pupilas. Penso nesse retrato com frequência. É a melhor memória que tenho de quem eu era e foi também assim que tudo isso, o que escrevo agora nessas páginas, começou.
Em nossa família, pintamos assim há gerações. Das abóboras, fazemos o pigmento alaranjado; das beterrabas, o vermelho-sangue; das hortaliças, o verde; do musgo, os tons mais escuros. Trazemos vida para a arte morta ao usar a própria vida. A vida decomposta, esmagada, misturada, transformada, morta, mas ainda assim viva. Esses são meus ingredientes; esses sempre foram nossos ingredientes. A morte traz para a tela o que um dia já foi, e dali em diante, eternamente será. É inebriante como conseguimos cristalizar o efêmero; é a nossa própria forma de honrar e dar vida eterna aos ingredientes que alimentam nossa arte — e, por extensão, nossa própria vida. Outrora, já fomos muitos, nosso sobrenome carregado por dezenas, sim, dezenas de receptáculos. Dezenas de pintores, de artistas, pessoas capazes de, assim como eu, eternamente capturar o que há de mais belo e mais transitório neste mundo: a vida.
Mesmo que hoje esteja sozinho, ainda sou muitos. A verdade é que o mundo seguiu em frente e nós ficamos. Cada vez menos primos tinham descendentes, tios que não encontravam tias, irmãs que morriam cedo; cólera, tísica, a ciência, a medicina, o progresso — cada um, um golpe em nossa família, em nossa vida. O mundo seguiu em frente, e eu sou o último.
Não há mais ninguém; somente eu conheço o segredo que vive em minha família há centenas de anos, talvez milhares. Um segredo lúgubre, laranja-carmesim. O segredo de que, para capturar a vida, é necessário também a morte. A mesma carne que alimenta os vegetais alimenta também nossas tintas: carne fresca, ossos, sangue e carne putrefata. Há incontáveis retratos de nossa família espalhados pelo mundo, todos feitos de acordo com a tradição: o corpo ancestral alimenta a própria tinta em um ciclo perpétuo de decomposição e arte.
É claro que não parei de pintar nesses últimos anos em que fui o único. Eu não poderia cessar a arte e deixá-la morrer, a arte que é a própria vida. A pulsação da vida precisava continuar. Mesmo não tendo mais corpos ancestrais, eu precisava pintar. Descobri que nem só de ancestrais se faz tinta — mas de qualquer um. Essa é a beleza da minha obra desde então: posso honrar qualquer pessoa. Qualquer um que seja digno pode ser cristalizado em arte — basta, é claro, que eu tenha acesso a seu corpo decomposto, a seu sangue putrefato, e à vida que cresce nutrida pelos seus restos. Criei muito mais nesses últimos cinco anos do que nos trinta que os antecederam, pois não preciso mais esperar o curso natural da vida. Posso, afinal, antecipar a morte. Basta querer. Basta fazer.
Foi por causa dessa descoberta e dessa prática que me perdi. Desconfio que não fui o primeiro de minha família a fazer tal descoberta — mas fui o primeiro de quem tive certeza. Hoje sei que não fui o único; há ecos de vidas passadas que habitam minha mente, dançam em meu consciente e se confundem com quem eu sou.
Há algo mais que preciso registrar nestas páginas: desde que pintei minha mãe, eu a escuto. Ela sussurra em meus pensamentos — e grita, algumas noites — conta-me verdades esquecidas. Mas mãezinha não é a única, não, é claro que não. Eu sei tanto sobre tantas pessoas, são tantas vozes... todas as pinturas, todos os retratos que pintei, estão mais vivos do que nunca. Os corpos se movem, as tintas tomam formas, se misturam e formam novas cores, as pinturas falam. Falam diretamente em meus pensamentos — e eu as escuto.
Mais do que escutar, eu me tornei outros. Com o passar dos anos, à medida que lentamente me perdia, acabei por esquecer quem eu era. Há tantas histórias, tantas famílias, tantas vidas interrompidas por minhas mãos, e que agora vivem pela minha mão, veem pelos meus olhos e são meus pensamentos. Não poderia lhe contar meu nome, pois ele se dissolveu em muitos. Não poderia lhe contar o nome de minha família, pois o sangue foi misturado.
Em meu desespero, há dois outonos, ofereci meu braço esquerdo ao jardim. E pintei. Pintei meu próprio braço — não um retrato, não, não. Nunca ousamos pintar um retrato de alguém vivo. Estremeço agora, mesmo amarrado, só de pensar nas possíveis consequências. Mas a verdade é que retomei um pouco mais de mim. Meu braço direito começou a se comportar mais como eu mesmo — mas os pensamentos, as vozes, a sabedoria e a existência, ah! Elas continuaram se misturando. Em um esforço de compreender melhor meu passado, passei então a retocar antigos retratos de meus antepassados com tintas frescas — tintas de outros corpos, tintas de outras pessoas.
Sou lembrado agora de uma doce, feliz memória: o dia em que ganhei meus pincéis das mãos ensanguentadas de minha mãe. Meu irmão acabara de nascer, e minha mãe me contou que eu teria a honra de pintá-lo. Nasceu natimorto. Foi uma noite feliz, e a lembrança me faz sorrir. Sou lembrado de outra memória: do dia em que dei meu primeiro beijo, anos depois de já ter ganhado meus pincéis. Um rapaz elegante visitava minha família querendo vender sementes para nosso jardim de rosas. Como era encantador... Espere. Rosas? Nós nunca tivemos um jardim de rosas. Enfurecido, reconheço que assim têm sido meus dias. Confusos, com memórias que são minhas e memórias que são minhas, mas não originalmente minhas. Vejo os quadros andando pela casa. Vejo meu avô cozinhando o almoço e me alimento da comida que ele preparou. Mas meu avô está morto há décadas. Fui eu quem cozinhou? Foi sua vida animada com poderes sobre a própria matéria, mesmo depois de morto? Não sei dizer. Mas meu pai limpava a casa enquanto eu comia.
Foi assim que pude, então, conhecer muito mais sobre nossa família; soube que não fui o primeiro a explorar retratos de fora da linhagem. Outros parentes ousados já o haviam feito, mas nunca tiveram os excelentes resultados que obtive. Fui o primeiro a misturar tinturas, fazendo com que o próprio sangue se misturasse. Nosso — meu — legado hoje se confunde com o legado de tantos outros. Sou pintor. Sou vendedor. Sou bailarina. Sou médico. Não, médico não. Médicos não compreendem a beleza da morte; prolongam, inutilmente, a efemeridade da vida. Eu posso cristalizá-la para todo o sempre.
A confusão me levou a continuar tentando, tentando conseguir voltar a ser único novamente. Mesmo que meu braço tenha se tornado meu novamente, mesmo que tenha continuado pintando, a confusão crescia. Precisava descobrir mais sobre quem eu era. Precisava saber. Foi então que ofereci, no outono passado, minhas pernas ao jardim e as pintei. Minha esperança era de que — pelo mesmo princípio da oposição que restaurou meu braço — a parte inferior de meu corpo restauraria a parte superior. Não foi o que aconteceu.
Hoje, é como se minhas pernas tivessem tomado vida própria. Pela primeira vez, não cristalizei um momento efêmero de vida, mas, sim, dei vida a uma pintura. Elas andam por aí, vagando; às vezes me trazem notícias, outras vezes somem por vários dias. Não as vejo, é claro, mas sei que vagam. Eu sei que andam com rumo e propósitos próprios. Nós sabemos. Meus pés vagantes nos contam segredos que descobrem. Às vezes estou aqui, mas estou também tão longe, tão distante, experimentando chãos sob os quais nunca pisei. Agora mesmo, enquanto escrevo estas páginas em uma noite fria, com lágrimas escorrendo de meus olhos, sinto — em ambas as minhas mãos — o chão úmido e convidativo do jardim onde plantamos, ansioso, aguardando o que está por vir. Mas sinto também a textura do veludo. Sedoso, leve, aquecido, das deliciosas roupas de cama onde minhas pernas se deitam com outrem. Somos tantos. Vivi mais vidas do que jamais pude imaginar. Deitei-me com mais pessoas do que jamais me deitaria se não fosse por minha arte. Por minha pintura. Sinto que descobri o verdadeiro significado de honrar a vida através da morte. Sou a própria materialização de tal honra, pois, através da morte, vivo — vivemos.
Estou perdido. Perdi-me em tal honra — por um lado, essa é a maior e mais intensa exploração da arte de minha família em séculos — meus antepassados me dizem o tempo todo. Suas vozes ecoam em minha mente, pedindo que eu continue e me incentivando a não desistir, implorando que não abandone minha família. Por outro lado, anseio ser eu novamente. Quero poder viver minha vida, descobrir coisas novas e não saber de coisas que não vivi. A angústia entre abandonar a tradição secular para ser eu mesmo ou continuar era tremenda. Preciso me libertar das memórias que não me pertencem, e por isso, decidi, há duas semanas, decidi. Eu precisava de uma saída, precisava voltar a ser eu mesmo, mas também precisava continuar com a arte. Era a única solução.
Cortei a madeira, comprei o aço, afiei a lâmina. Além de pintor, tornei-me carpinteiro. Trabalhei arduamente noite após noite e, nesse mesmo jardim, construí uma guilhotina. Minha própria guilhotina. A consciência de estar criando-a pesava em cada golpe do martelo. Sei que fui eu quem a construiu, sei que essa arte foi somente minha: as vozes gritavam em meus pensamentos a cada segundo em que trabalhei nela. Uma cacofonia ensurdecedora ocorria em minha mente enquanto meu braço trabalhava: “Não faça isso!”, “Pare imediatamente!”, “Você condenará sua família ao esquecimento!”, entre tantas outras advertências, ameaças e súplicas. Não dei ouvidos a nenhuma delas. Sei que estão enganadas. Quanto mais avançava, mais difícil ficava. Somente uma parte de mim não lutou contra o restante do meu corpo enquanto construía: minhas pernas. Não posso dizer o porquê com certeza, é claro. Mas desconfio que seja porque elas sabem que estaremos reunidos ao fim de tudo.
Em minha desesperada busca por mim mesmo, fui mais longe do que qualquer um de minha família já foi. Quebrei a última barreira esta noite: terminei meu próprio retrato. Completo. Ainda vivo. Pela primeira vez pintamos alguém a partir de seu corpo vivo e não putrefato. A profundidade dessa criação não posso ainda compreender, não sei mais quem sou, mas sei o que pintei. Sei que posso voltar a ser eu mesmo. Sei que posso ter minha própria vida.
Enquanto contemplo, agora, a lâmina brilhante sob a luz laranja da própria lua, percebo que o retrato não é apenas um reflexo de quem fui, mas também de quem posso me tornar. Preciso desfazer completamente a linha entre a vida e a arte, pois o que está por vir não é um fim, mas um recomeço. Meu coração, meus pulmões, meu torso, ali — aqui — está a vida. Ali está o ar que respiro, o sangue que percorre minhas veias — e a tela de meu retrato — ali estou eu.
Minha mente, no entanto, está tomada por todos os retratos que pintei e restaurei, por todas as outras vidas que interrompi e que vivi. Preciso separar eu de mim mesmo, para que possa novamente me tornar quem serei. Amarrei-me à guilhotina para que não fuja do meu próprio destino — não sei do que as vozes, meus pensamentos, seriam capazes nesses últimos minutos de suas vidas, enquanto escrevo minha própria história para mim mesmo.
É chegada a hora. Com a mesma mão com a qual registro essas últimas palavras, liberarei a lâmina que entregará minha cabeça — minha mente — ao jardim. Sei que somente assim meu corpo poderá seguir, sendo eu, apenas eu. Meu retrato será alimentado com o alimento que nascerá da minha cabeça, do jardim fertilizado novamente. E então, finalmente, serei eu novamente. Completo. Como arte. E o resto? O resto é sangue.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
Leia mais em “Contos”:
OTO
Dizem que a única coisa perfeita no mundo é Deus, mas eu tenho que discordar. Sempre fui do tipo que acredita na capacidade do homem…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Dizem que a única coisa perfeita no mundo é Deus, mas eu tenho que discordar. Sempre fui do tipo que acredita na capacidade do homem de se adaptar, e, usando os métodos certos, qualquer um pode atingir a perfeição. Por essa razão, estou estudando estética. Na noite passada, conheci uma garota na aula; havia recém se transferido para nossa cidade, então resolvi dar as boas-vindas e ser educado. Havia algo nela que realmente me atraía, não sei dizer se eram seus olhos, com heterocromia, que proporcionavam uma assimetria hipnotizante, ou seu sorriso torto, que transmitia uma simplicidade contagiante.
A conversa fluiu tão bem, como um riacho tranquilo desaguando nas violentas águas marítimas. Fazia tempo que eu não encontrava alguém como ela, era perfeita para mim. A cada dia que passava, dedicávamos mais tempo um ao outro; passamos a fazer trabalhos juntos e até saíamos para beber. Tudo estava bem. Tomei a liberdade de preparar algumas surpresas, no anseio quase embriagante de revelar tudo a ela.
Logo, o festival de inverno chegou, a melhor época do ano. Amo como o doce frio da neve torna tudo estático e belo. Tomei coragem e a convidei para o baile. O suspense de aguardar sua resposta me dava náuseas, tudo girava... Como pode? Uma única mulher me fazer sentir assim. Ela é realmente perfeita para mim. Dois dias depois, a resposta foi dada. Meu coração quase saía pela boca. Estava tudo pronto.
A grande noite chegou. Saímos, dançamos e bebemos. Porém, ela parecia um pouco estranha, desconexa. Perguntei se estava bem, e ela dizia que sim. Eu planejava convidá-la a ser minha para sempre, mas fui surpreendido pela iniciativa da jovem que, outrora, fora tímida: “Vamos para a sua casa”. Ainda sinto os arrepios de seu sutil e sedutor sussurro em meu ouvido.
Entramos no meu carro e seguimos para o nosso glorioso destino. Chegamos à minha casa, e já estava tudo arrumado, cada móvel organizado de forma perfeitamente simétrica, como tudo deveria ser. Minha amada, tomada por luxúria, me conduziu ao meu próprio quarto; guiada pelos seus instintos, como se já conhecesse a casa. Ela deitou-se sobre a cama, me convidando para nos perdermos em nossos corpos. Minha boca salivava de tamanho prazer, o grande momento havia chegado. Peguei um par de algemas e a prendi na cama, ela parecia excitada; seu rosto ruborizado e seu corpo exposto, era ainda mais do que eu imaginei. Coloquei uma fita em sua boca.
Minha querida se debatia, confusa, o que era compreensível; as outras também ficaram assim. Peguei meus instrumentos, o processo precisava começar imediatamente, mas com minha doçura se movendo tanto, seria impossível. Tratei de dopá-la de uma vez. Ela dormiria agora, mas acordaria perfeita. A primeira coisa era arrumar essa boca desalinhada, nada que um enxerto de pele não resolvesse. O próximo passo foi pegar a cuba de olhos na geladeira; por sorte, a anterior tinha da mesma cor. Retirei o errático e o substituí.
Passei o resto da noite corrigindo outras assimetrias em seu corpo. Agora, está perfeito.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
Leia mais em “Contos”:
Amor de maldição
Ela tinha a voz rouca, rasgada; quando falava, eu percebia em sua garganta o esforço que aquele gogó tinha para dar vazão ao som que parecia…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Ela tinha a voz rouca, rasgada; quando falava, eu percebia em sua garganta o esforço que aquele gogó tinha para dar vazão ao som que parecia friccionar as cordas vocais. O resultado era aquele tom, aquele sonzinho meio que aveludado saindo de sua boca. Aquilo me lembrava das brincadeiras de infância, de quando eu transformava as pás do ventilador da empregada em microfone, o que me deixava com aquela voz metálica, de robô...
Entrei naquele cursinho sem saber o que me esperava. De início, era tudo uma surpresa, afinal, fazia tempo que eu não estudava, não abria um caderno. Naquele momento, tudo o que eu precisava era de conhecimento, elevar minhas capacidades para os vestibulares que se aproximavam. Eu estava disposta a estudar, a entrar numa faculdade, a ter um futuro em mente. Só não imaginava que começaria a amar...
Ela surgiu numa das matérias onde eu tinha as maiores dificuldades. Nunca gostei de ler, somente o necessário: revistas, jornais; eu lia o que tinha de mais banal, o mais corriqueiro; uma lida básica sobre a programação de tv e a previsão do tempo, alguma notícia policial, fofoca das celebridades... Literatura, nada... Machado de Assis, Clarice Lispector, Graciliano Ramos... eram nomes que eu só ouvira falar.
Quando ela começou a explicitar a importância daqueles autores, a dizer sobre o que eles tinham inovado, deixado para trás e começado a fazer, foi quando eu senti um choque, uma nova leva de sensações que eu nunca imaginei sentir. Se eu já havia amado alguém antes daquela maneira? creio que sim, mas há muito tempo. Aquilo tinha ocorrido com as mesmas proporções quando eu ainda estava no ensino fundamental, quando tinha recém deixado de ser uma criança, me preocupando já com roupas de marca e me decidindo pelos artistas favoritos. Gostava de um menino lá; não só eu, mas diversas colegas compartilhavam do mesmo gosto — até os meninos, que pareciam orbitar sempre ao redor do rapaz, meio que o amavam. Acabou que ele ficou com uma das apaixonadas por ele, uma alemã, que hoje em dia fiquei sabendo estar um horror de esquisita.
Enquanto passava aquele filme na minha cabeça, retornei ao estado de atenção que antes me proporcionara a reflexão. A professora me conquistava pela voz, cativava com seu doce modo de falar, de explicar a matéria. No ensino médio, nem perto chegavam de tal capacidade as professorinhas sonsas, que sabiam apenas copiar dos livros o conteúdo transmitido aos alunos — estes, então, achavam mais interessante bagunçar a sala ou ficar na deles escutando música nos fones de ouvido.
Ali, na frente da sala de aula do cursinho, se destacava um tipo diferente de professora, mais sabedora do assunto, mais culta, mais elegante. Detrás daqueles enormes aros dos óculos, eu observava uma profissional segura do que falava, preocupada em fisgar seus alunos pela transparência do discurso, sem rodeios, sem gaguejar. Era de outro mundo a professora de literatura daquele cursinho...
Alguns meses se passaram e as aulas foram se tornando mais e mais interessantes. Mergulhada no mundo dos livros, eu me via já prestes a poder me decidir sobre um futuro, sobre um rumo seguinte àquelas deliciosas horas passadas na pequena sala de aula. Enquanto copiava as coisas escritas no quadro branco, porém, eu compreendia receber estímulos não apenas dos esquemas organizados pelas canetas coloridas, das datas que me colocavam diante dos momentos-chave da literatura brasileira; enquanto eu transcrevia para as folhas do meu caderno o conteúdo exibido no quadro, eu escutava o som lírico e mágico fluindo lá da frente até meus ouvidos, que recebiam as angélicas vibrações acústicas da professora letrada e simpaticíssima, que falava e falava e falava, conquistando-me de maneira irreversível...
Minha intimidade com ela era do mesmo nível que o dos colegas: uma aproximação simplesmente comum, que bastava à solução de dúvidas e dicas de leitura. Numa dessas oportunidades, quando eu realmente precisei conversar a sós com ela para lhe avisar sobre uma futura falta minha nas aulas, foi quando tive um abalo bastante desagradável, um erro grosseiro da minha parte, um passo em falso da minha confiança que crescia e já não cabia em mim.
Sentada na classe dela, a professora percebeu minha aproximação, depois que todos os outros estudantes tinham ido embora. Cheguei ao seu lado, cumprimentei-a nervosamente e comecei a falar. Disse-lhe os motivos da minha ausência na aula seguinte, assuntos pessoais, um caso de saúde psíquica... Ela, calma e aberta ao diálogo, compreendeu no mesmo instante meu problema, passando a alongar o assunto até um ponto em que eu me esquecia do que falávamos. Respondendo-lhe de maneira automática, eu apenas concordava com suas proposições, acenando maquinalmente com minha cabeça a cada ideia ou exemplo de vida que ela me revelava. Em certo momento da conversa, já envolta pela aura animadora da professora, aliciada por uma força esmagadora imanente dela, eu me via, cegamente, de encontro ao ombro da mulher, jogando-me adormecidamente sobre o corpo imóvel e repousado da educadora... Num átimo, saída de uma viagem inebriante, numa fuga temporal incompreensível, eu retornava àquela realidade estudantil, sendo cutucada no pulso, no antebraço pelos dedos finos e delicados da professora.
Baixo minhas vistas e me deparo com o sorriso indeciso dela, um sorriso que me deixava contra a parede, obrigada a me explicar imediatamente...
Minha vontade era de sumir, consumir-me em pó e sair voando pela janela aberta da sala — janela que eu abria, às vezes, devido aos calores desconfortáveis que sentia de uma hora para outra —, que lá de fora recebia um vento refrescante e rumoroso da noite. Como explicar-me, encontrar palavras para traduzir os efeitos efusivos da voz conquistadora e enfeitiçada que dela vinha até meus tímpanos? Como eu iria me aprumar, retomar uma postura que já não se sustentava com forças naturais, e me manter séria ao confessar à professora o sortilégio que era escutar os ruídos quase imperceptíveis de sua voz rouca?
Fiz-me de desentendida e contornei a situação. Revelei a ela uma suposta queda de pressão, que vez ou outra me acometia nos momentos mais inoportunos, fazendo-me buscar apoio nos esteios mais próximos do corpo. Pedi a ela que não tomasse "conclusões precipitadas", fazendo de tudo para fazê-la acreditar naquele sintoma mentiroso. Fiquei segura da minha conduta ao ver a professora depositar seus materiais, suas canetas e celular dentro da bolsa, pedindo a seguir que eu lhe avisasse caso sentisse a necessidade de ir ao hospital.
De início, achei "gracioso" da parte dela oferecer assim, sem empecilhos, uma carona para me socorrer. Contudo, eu sabia que seria um logro, uma enganação da minha parte continuar com aquele jogo. Por mais que eu quisesse escalar aquele montante de chances que eu tinha de me aproximar ainda mais da professora, "coloquei meus pés no chão" e resolvi não fazer uso da boa vontade dela. Abrandei sua autêntica preocupação e me apresentei revigorada, passado o "susto" que antes me afligira.
Despedimo-nos uma da outra e saí da sala. Enquanto caminhava pelo longo corredor da escola, rumo à saída, eu sentia no peito um misto de ardor e esmorecimento, duas temperaturas que se misturavam e formavam um sentimento esquisito, caótico e — o que sobressaltava dentre minhas suposições — "verdadeiro", resultado de uma experiência vivenciada num ambiente de estudos, de discussões literárias...
Naquele dia em que faltei à aula do cursinho, me senti extremamente mal. Como se um buraco surgisse no meu âmago, meu organismo se agitava dum modo que eu não conseguia acompanhar. Não era dor, nem um desconforto passageiro; o mais próximo que eu chegava de concluir era que sofria de uma "falta", de um furto às minhas necessidades mais vitais.
A terapia que eu frequentava já não supria a realidade em que eu me via feliz, saudável, "normal". As palavras da doutora, "profissional", "especialista", entravam por um ouvido e saíam no outro. Eu já tinha me apercebido do poder da palavra: era tarde. As tentativas dela de me ludibriar, de me fazer ver meus "problemas" de uma outra forma, eram falhas. A professora de literatura do cursinho tinha me apresentado, de um modo muitíssimo superior, a virtude das palavras, a estética das boas letras, a medida intocável da poesia formal, a anarquia revolucionária do estilo livre... A psicologia, perto da literatura, era apenas uma sombra, incapaz de tomar o protagonismo da prosa humana, patrimônio "material" da humanidade.
Saí do consultório decidida a não mais voltar — que me cobrassem os custos necessários! O que eu precisava era ler, adicionar mais material à minha cultura, armazenar mais informação no meu histórico de leituras feitas. Eu chegaria em casa, onde vivia sozinha, herdeira de um casamento suicida, e faria uma maratona, um sarau literário comigo mesma. Tinha nas minhas prateleiras quase todos os romances indicados pela professora, dos mais basilares do academicismo brasileiro até os clássicos do Velho Continente.
Chegando em casa, estagnei diante daqueles novíssimos volumes que enfeitavam as paredes da sala, dos quartos, dos criados-mudos. Sobre o tapete oriental, volumoso e colorido, ornamento secular da residência, havia caixas de papelão, encomendas pagas, títulos esgotados no mercado editorial brasileiro, encontrados apenas em revendedores particulares — um labirinto de opções, horas e horas possíveis de se passar num universo criado por autores nacionais e internacionais, por cânones, por vanguardistas...
Subi ao meu quarto e optei por uma leitura em voga nas últimas aulas do cursinho. Uma coletânea de contos, tramas fantásticas e absurdas, escritas por um autor maldito e obscuro... coisas que a professora dizia nas aulas. Aquela seria a obra que me acompanharia em mais uma noite, passada sob a luz da lua que penetrava curiosa pelas janelas retangulares do solar...
Na semana seguinte, eu estava de volta ao cursinho. Sete dias longe da sala de aula, e eu havia me dado conta do efeito avassalador causado pelo acúmulo de histórias na minha cabeça; um zunido capcioso, sugestivo, sobrepunha agora as picuinhas cotidianas que eu estava acostumada a vivenciar. A simples observação dos raios do sol, a lamúria dos pombos, o barulho sussurrante das folhas que no jardim exterior caíam das árvores, que até pouco tempo me comunicavam alguma "poesia", agora eram transformados em meros significados, em raquíticos acontecimentos, muito aquéns de uma realização potencial; havia agora um verdadeiro motivo na vida, que eu cogitava ser plausível, real...
Não seria nenhuma grande loucura, uma atitude impensada... Poe, ao escrever seu conto, devia estar sob o efeito de alucinógenos, do ópio talvez. Eu estava alucinada, sabia disso. O sortilégio que me dominava era real, vinha da professora, do ar expelido pelos pulmões dela. Sua voz me conquistara desde o primeiro dia de aula, quando ela chegou na sala e se apresentou para a turma. A partir dali, nenhum domínio eu tinha sobre o futuro de nossa relação; fosse uma amizade, um namoro, uma simples relação alternativa entre duas mulheres, fato é que não seria um relacionamento normal. Havia desde aquele primeiro encontro um combustível a mais para a minha presença ali, entre gente desconhecida e em busca de uma vaga na universidade. Eu chegava apenas ao cume de um romantismo tardio, não vivenciado de maneira semelhante até àquela altura da minha vida.
Aproximando-me da escola, eu me descobria trêmula, bastante ansiosa para aquela chegada na sala de aula após uma semana longe das exposições, da classe, da voz aveludada da professora. O meu desejo era que as coisas ocorressem como eu fantasiava: uma recepção acalorada da educadora, um "como estás?" sincero, preocupado, naquele tom de voz ruidoso pelo qual eu amava ser "seduzida"...
Soubesse eu que a dura realidade ainda vigorava, que os acontecimentos lidos nos livros estavam longe dos destinos traçados pela efêmera e limitante existência efetiva, eu faltaria mais uma semana, abandonava de vez o cursinho, não mais iria ao encontro da professora...
Meus pêsames professora, foi uma infelicidade, uma grandessíssima pena eu ter visto a senhora naquela situação, quando eu cruzava a rua, prestes a adentrar no portão da escola. Você e seu namorado, seu marido, eu não sabia... Para mim você era única, singular, uma pessoa imaculada, sem traços de parentesco com ninguém, uma divindade na Terra. Eu, órfã e sozinha, sem amparos que me fizessem acreditar na solidariedade humana, depositava em você toda esperança de ainda me ver com alguém, preenchida de um amor que eu nunca tive... Uma lástima aquela visão...
Ainda mais cruel foi você ter me chamado, com seu irrecusável sorriso no rosto, a fim de me apresentar para aquele invasor, seu companheiro. O que você queria? que eu me abrisse toda para ele? que eu demonstrasse simpatia diante do ladrão de sonhos? Impossível. Eu estava arrasada, não conseguindo acreditar em tamanha desilusão.
Cumprimentei você e seu homenzinho e desviei para o corredor da morte, em direção à sala de aula, que jazia abandonada pela professora e sua pureza intocável.
Aquela foi a pior aula, a menos interessante, sem graça alguma. Você, absolutamente calma, parecendo não suspeitar da dor que eu sentia, continuava falando, sem interromper sua ladainha, nem por um minuto. Quando você finalmente parou, não foi para descansar, para beber um pouco d'água na sua garrafinha e revigorar o encanto da sua distinta voz: vi que você pegou o celular e pediu licença a todos, saindo porta afora a seguir... Aquilo irritou-me profundamente, foi o estopim!
Quando você retornou, com aquele seu costumeiro sorriso, eu já era outra, assumira uma insólita identidade. Mantive a pose, fazendo de conta que escutava e me interessava pela sua aula, ficando assim até o final, até onde minha paciência suportava. Podia-se dizer que minha feição exterior era completamente oposta à interior; corroída, deteriorada... insuportável era o peso que me atormentava naqueles minutos finais de aula.
Quando acabou aquele tormento, esperei que todos tivessem juntado seus pertences, me certificando de que não sobrasse nenhuma vivalma para testemunhar meus passos seguintes. Esperei você guardar suas coisas, apagar o quadro, fechar seu livro... Eu reorganizei a sala, coloquei as cadeiras no lugar, alinhei-as todas; deixei o ambiente limpo, para assim ele ser encontrado pela turma da manhã seguinte, como você sempre nos lembrava... Então me aproximei de ti.
Você nem suspeitava, estava segura, tranquila como nunca! Parecia feliz; sem sorrir, sem exclamação alguma, eu detectava essa felicidade, esse porto seguro existindo em algum lugar... um lugar distante dali, daquela sala. Nem meu olhar, que fuzilava seu rosto, sua boca, em busca de respostas para desmascarar a bruxaria oriunda de sua voz você era capaz de decifrar... Você realmente estava em outra...
Primeiramente, eu pensei em mentir, em te deixar preocupada como naquela vez em que quase desmaiei no seu colo, e pedir uma carona até a minha casa. Mas aí pensei de novo. Num instante, achei melhor nutrir sua curiosidade e dizer que havia lhe comprado um presente, uma "coleção de obras" que você não acreditaria quando visse; você me olhou interessada, dando créditos àquelas palavras... Eu torcia para que você não acreditasse.
Fomos juntas no seu carro, pela primeira vez. Você dirigia e me perguntava pelo nome das ruas, confirmando no seu GPS o endereço da minha casa. Mal habituada àquele bairro distante da periferia, sua cabeça não parava de se mexer, olhando a todo momento para os lados — creio que fascinada pela arquitetura das residências. Enfim, tínhamos chegado...
Desembarcamos do carro e caminhamos lado a lado até as proximidades da minha casa. Você continuava surpresa com a região onde que eu morava, elogiando a limpeza das ruas, estimando o silêncio "respeitoso" da vizinhança... Quando eu contornei o imenso cercado, acionando a abertura do portão, você perguntou: "chegamos?"... Sim, essa era a minha casa...
Com as luzes ligadas aqui dentro, você achou que tinha gente, perguntou se eu estava "acompanhada". Claro que não. Mas não te julgo, eu nunca lhe disse nada, nenhum detalhe sobre a minha vida... Você passou pela porta, esperei que se aproximasse da vasta prateleira com livros, e te golpeei...
Atingi sua nuca com o atiçador da lareira, esforçando-me com o mínimo da força necessária para fazê-la desmaiar. Você caiu dura, causando um estrondo no tapete da sala. Corri para o seu lado e logo me certifiquei do seu desmaio; você ainda respirava, fazia barulhos com a garganta, saía ar do seu nariz..., mas não abria os olhos...
Peguei as chaves da empregada, há muito esquecidas sobre a papelada dos advogados, e abri o pequeno compartimento embaixo da escadaria. Após, voltei para perto do seu corpo desacordado, assustadoramente imóvel, e agarrei seus calcanhares; tive de me esforçar para puxá-la até o pequeno quarto, depositando com extrema agonia e dó sua figura inerte sobre aquele colchão surrado...
O arrependimento, mesmo que tardio, não trará mais nada de volta, nem sua confiança, nem seu espectro simpático, que tanto me fez tentar contornar a desconfiança sobre este mundo, essa realidade ora estimulante — como a sua voz acalentadora —, ora insatisfatória...
Subi agora há pouco, ainda posso te ouvir, caso você desperte... Enquanto você dorme — espero que durma —, continuarei lendo A carne, de Júlio Ribeiro, livro que você me indicara. Estou amando... verbo perigoso esse... Espero ouvir novamente sua voz.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
Leia mais em “Contos”:
Andreas, Luz e Sombra
Entre estantes de saber e livros calados, | Eu a vejo, Andreas, flor que jamais tocarei. | Tão próxima e, ao mesmo tempo, inalcançável, | Caminha entre…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Entre estantes de saber e livros calados,
Eu a vejo, Andreas, flor que jamais tocarei.
Tão próxima e, ao mesmo tempo, inalcançável,
Caminha entre intelectos e vozes eruditas,
Mas seu silêncio é o que mais ecoa em mim.
Seus olhos, castanhos claros, são o sol em fuga,
Ora frágeis, brilhando como uma chama tênue,
Ora intensos, como se guardassem segredos ardentes.
Oh, que mistério habita seu olhar,
Que ao cair do dia, brilha como estrelas apagadas?
Sua pele, alva como o mármore dos antigos deuses,
Reluz sob a luz dourada da tarde,
E seu cabelo, meio loiro, meio ruivo,
Ondula como as páginas de um livro que nunca poderei ler.
Sua franja, caindo sobre os olhos, a esconde
E a revela — única, distante, encantadora.
Ah, Andreas, sempre em negro vestida,
Tão introspectiva, afasta-se dos círculos ruidosos,
Busca nas sombras das bibliotecas sua paz,
Enquanto eu, perdido em vãos olhares,
A contemplo como quem deseja o impossível.
No pátio iluminado, entre discussões acaloradas,
Você brilha com uma luz que não é do sol.
Mas nos cantos de penumbra, onde os sábios se retraem,
Seu vulto se funde ao mistério,
E eu, preso à distância, só posso cumprimentá-la
Com a fria formalidade de quem sangra em silêncio.
Que dor é essa que me consome,
De estar tão perto e, ainda assim, exilado de você?
Ah, Andreas, será que jamais saberei
Se teus olhos flamejantes me veem além da saudação?
Em cada encontro, meu coração se esvai,
Pois seus gestos suaves são para todos, menos para mim.
E nas sombras da biblioteca,
Eu escrevo poemas que nunca lerás,
Sonhando com um toque que nunca terei.
Mas, ainda assim, teu nome ecoa em meu ser,
Andreas, Andreas, musa que o destino me nega,
E enquanto existirem livros, enquanto houver luz e sombra,
Eu permanecerei aqui, condenado a contemplá-la,
Silenciosamente, eternamente, sem jamais ser notado.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
Leia mais em “Poesias”:
Quitandas da Vovódelícia
O ano era 1994, o mês era agosto, um período terrível no Cerrado. Nessa época do ano, o tempo é quente e seco. Uma camada de poeira e fumaça paira no ar…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
“As mãos das mulheres piedosas cozeram seus próprios filhos e serviram-lhes de alimento”
Livro das Lamentações 4;10
O ano era 1994, o mês era agosto, um período terrível no Cerrado. Nessa época do ano, o tempo é quente e seco. Uma camada de poeira e fumaça paira no ar. A baixa umidade relativa do ar torna os dias abafados e sufocantes. Respirar é quase um suplício; a pele, ao mesmo tempo ressecada pela manhã, fica também bastante pegajosa à tarde, devido ao calor que causa uma sudorese constante. Verdadeiramente, é uma época praticamente insuportável.
No esporte, após a tristeza pela morte de Ayrton Senna — o maior piloto de Fórmula 1 da época — numa triste manhã de domingo, no mês de maio, logo a alegria voltaria aos lares brasileiros com a conquista do tetracampeonato mundial pela seleção brasileira de futebol, numa animada tarde de domingo, no mês de julho. Mesmo mês em que entrou em vigor o Plano Real. O país ganhava uma nova moeda e a perspectiva de uma tão sonhada estabilidade econômica. Tudo parecia estar às mil maravilhas, até mesmo para o jovem Cláudio Martins, que acabara de conseguir seu primeiro emprego, iniciado já no primeiro dia do mês de julho.
Oriundo de uma família simples e muito humilde, o jovem Cláudio, após uma infância bastante sofrida numa pequena cidade do interior do estado — lugar onde não havia muito trabalho, tampouco perspectivas para um jovem sem muitas posses —, se mudara com a família para a capital. O pai — um humilde homem do campo — logo conseguira emprego como vigilante noturno numa garagem de ônibus urbano. Sua mãe — uma cozinheira bastante talentosa — arranjara uma ocupação como auxiliar de cozinha numa pequena escola do bairro onde moravam. Ele, após quase seis meses fazendo pequenos biscates, também conseguira um trabalho fixo num supermercado, no cargo de entregador.
O supermercado não era muito grande, por isso não havia muitas entregas a serem feitas. Sendo assim, Cláudio auxiliava na seção de hortifruti, repunha mercadorias nas prateleiras e também era responsável pela precificação dos produtos. As entregas — quando havia — eram feitas apenas para clientes do próprio bairro e adjacências, num raio de no máximo 5 quilômetros, pois as mercadorias eram transportadas numa velha bicicleta cargueira. O trabalho em si não era de todo ruim. Cláudio era um adolescente pobre, mas cheio de sonhos e precisava de dinheiro para ajudar nas despesas do lar e também custear suas vaidades juvenis.
Morando na capital, cursando a primeira série do Ensino Médio e com 16 anos completos, Cláudio necessitava desse emprego. Fã de rock and roll desde a mais tenra infância, agora, vivendo numa cidade grande, teria a oportunidade de assistir a shows de bandas nacionais que volta e meia se apresentavam na capital. Naquele ano em particular, a banda mineira Skank havia lançado um álbum chamado Calango e estava em turnê pelo país. Cláudio estava ansioso e apreensivo, pois essa banda faria uma apresentação na cidade em outubro. Seria o primeiro show de rock de sua vida. Ele, que ficara maravilhado com o casamento do rei do pop com a filha do Elvis, mesmo após alguns dias de profunda melancolia pela morte do líder do Nirvana, ainda assim, imaginava em sua inocência que 1994 seria o grande ano de sua vida. Cláudio era jovem e sonhador. Estudava, trabalhava, curtia rock and roll e já trocava olhares mais calientes com uma ou outra coleguinha de escola. A vida se abria para Cláudio num sedutor leque de oportunidades.
Devido a lapsos de rebeldia, já enfrentava alguns problemas relacionados a divergências de opinião com sua família, que era muito católica e bastante conservadora. Seus pais eram religiosos ao extremo e fiéis defensores da moral e dos bons costumes. Assistir à missa pelo menos uma vez na semana era algo sagrado. Cláudio andava muito ocupado com todas as suas responsabilidades. Domingo era seu único dia de ócio. A missa pela manhã iniciava-se bem cedo, e ele queria ficar mais tempo na cama. À noite, a celebração era bem no horário de seu programa de rádio preferido. Depois de quase um mês sem ir à igreja, após um belo sermão do pai e muita insistência da mãe, decidiu ir à celebração. Como se não bastasse a missa ter sido bastante maçante e a homilia muito longa, a ponto de ele cochilar enquanto o padre falava, quando chegou em casa, seu irmão caçula ainda lhe dissera que naquela noite, no rádio, havia sido apresentada a biografia de Paul McCartney — seu Beatle preferido.
Naquela noite, Cláudio fora se deitar muito ensimesmado com a vida. Era jovem e não entendia ainda — talvez jamais viesse a compreendê-lo — como era o verdadeiro funcionamento do mundo, com seus estranhos mecanismos de controle emocional e segregação social e econômica. Ficou até bem tarde ouvindo o insistente cantar de um grilo na parede e os demais sons que o silêncio da noite lhe oferecia. Depois de muita especulação filosófica, adormeceu por volta da meia-noite, sem saber que, naquela mesma semana, sua vida iria mudar para sempre.
Na segunda-feira, como era de costume, logo pela manhã, dona Cleuza, uma simpática quitandeira — uma quarentona ainda na flor da idade e bastante vaidosa — fazia suas compras para o início da semana. Além dos itens domésticos de consumo próprio, ela também adquiria os ingredientes necessários para a produção de doces e salgados da quitanda que ela e sua mãe — dona Valdelice — tocavam juntas. As Quitandas da Vovódelícia eram bastante afamadas por quase toda a cidade. Os doces não eram tão diferentes de qualquer outro que se vendesse em uma padaria qualquer. Contudo, os salgados eram extraordinários, e ninguém num raio de quilômetros-luz conseguiria fazer algo nem mesmo parecido. O tempero era esplêndido, causando uma explosão de sabor na boca, e o recheio era de uma carne com sabor bastante exótico, mas muito agradável ao paladar, devido à textura e às nuances dos condimentos.
Todas as vezes que Cláudio levava suas compras — pelo menos duas vezes na semana — dona Cleuza lhe presenteava com um apetitoso salgado e um copo de refresco. Enquanto ele saboreava seu lanche, ela lhe cobria de voluptuosos olhares, que às vezes o deixavam até constrangido. Dona Cleuza era uma mulher singular, dotada de uma beleza hipnotizante. Na altura de seus quarenta anos, muito facilmente poderia ser confundida com uma jovem de, no máximo, uns vinte e cinco, talvez até um pouco menos. Era uma dessas raríssimas criaturas sobre as quais o tempo não parece ter efeito. Cláudio era um jovem com os hormônios em ebulição, e saber que aquela bela mulher o devorava com os olhos lhe causava imensa satisfação.
Naquela manhã em particular, dona Cleuza estava bastante sorridente e parecia mais amável do que de costume. Assim que terminou de fazer suas compras, solicitou ao dono do mercado que enviasse suas encomendas o mais rápido possível, pois teria um importante compromisso e, sendo assim, talvez depois não houvesse ninguém em casa para receber o entregador. Seu Nelson — o proprietário do mercado — deu sua palavra de que a entrega seria executada sem demora, pois, além de ser um prestativo comerciante, tinha certa queda pela quitandeira, que, por sua vez — por questões pessoais — não dava ousadia a homens casados, mas nunca havia sido grosseira com ele. Dona Cleuza era o tipo de mulher de sorriso fácil e meiguice espontânea, dotada de uma gentileza ímpar, que chegava a causar certa inveja.
Naquele momento, Cláudio estava fazendo uma entrega numa clínica de repouso para idosos ali próximo. Essa clínica também fazia suas compras naquele mercado. Contudo, aquela entrega em si era uma doação que o próprio dono do mercado fazia toda semana para a instituição — era quase sempre a mesma coisa: frutas, verduras e carne, ou seja, produtos frescos, que eram entregues na clínica na segunda-feira pela manhã. A maioria dos outros itens básicos para a alimentação dos internos também era proveniente de doações. A clínica — uma instituição de caridade sem fins lucrativos — sobrevivia da bondade alheia e do voluntariado de algumas pessoas de alma nobre, que, além de doações materiais, também dedicavam parte de seu tempo ao cuidado dos idosos. Havia poucos funcionários remunerados.
Pela primeira vez, Cláudio — que demonstrava bastante retidão de caráter e muita seriedade em suas funções — demorou mais do que o normal com a entrega, fato que causou estranheza ao seu patrão, que estava até mesmo preocupado com a integridade física do rapaz, pensando que ele poderia ter sofrido algum tipo de acidente. Entretanto, quando Cláudio retornou ao mercado com as caixas de entrega já vazias, logo explicou o motivo de sua demora. Já acomodando as compras de dona Cleuza sobre a bicicleta para a entrega, relatou o ocorrido na clínica.
... Na noite anterior, um dos internos havia desaparecido. Havia um verdadeiro rebuliço, com a presença da polícia e tudo mais. A diretora da clínica estava exigindo, por parte dos policiais, que um inquérito fosse aberto para investigar o desaparecimento de mais um de seus internos. Um dos policiais, após anotar num pequeno bloco os dados pessoais do idoso que sumira, disse que, assim que completassem 24 horas do ocorrido, abriria um boletim de ocorrência. Também aconselhou a diretora da clínica a aumentar a segurança do local, ao que ela respondeu prontamente, até com certa rispidez, ao perceber a má vontade do policial:
— Aqui não é um presídio, rapaz! É uma casa de repouso. Zelamos pelo bem-estar daqueles que já não têm ninguém por eles. Não prendemos ninguém aqui!
— Sendo assim, a senhora não deveria reclamar quando um deles, não apreciando a comida ou as acomodações, decide ir embora — respondeu o outro policial em tom de pilhéria.
— Como de costume, devo prestar meus sinceros agradecimentos por mais uma eficaz demonstração de profissionalismo de nossa honrada força policial. Ou seja, muito obrigada por nada! Exijo que pelo menos fique registrado nos autos que, somente este ano, aqui na clínica já foram seis internos que desapareceram de forma misteriosa no meio da noite. Sumiram com a roupa do corpo, sem deixar nenhum vestígio...
Os policiais, sentindo-se bastante ultrajados pela fala da diretora — que demonstrava estar bastante irritada com a piadinha que um deles fizera —, como nada mais tinham a fazer no local, logo entraram no carro e saíram em disparada, com a sirene da viatura ligada. Assim que Cláudio terminara o seu relato, o dono do mercado não emitira nenhuma opinião sobre o acontecido, além de lamentar profundamente o fato em questão.
Cláudio, que tinha muito apreço pelo trabalho que a clínica fazia no cuidado com aquelas pobres almas inocentes, ficou bastante acabrunhado pela negligência com que os policiais atenderam a ocorrência, mas principalmente ao pensar na triste situação de quem chega ao fim da vida sem ter com quem contar. Ficou bastante melancólico e reflexivo sobre a forma como um idoso é tratado pela sociedade. Primeiro, repudiado pela família que o abandona; segundo, pela própria sociedade, que enxerga uma pessoa mais velha como alguém que tem uma doença contagiosa — por isso, precisa ficar isolada —; e, por último, pela negligência do próprio poder público, que, após pagar uma mísera aposentadoria, lava as mãos e deixa aqueles que um dia tanto significaram para a nação entregues à própria sorte.
Perdido nessas tristes reflexões, mas, mesmo assim, cumprindo suas obrigações profissionais, Cláudio logo chegou à casa de dona Cleuza e, após encostar sua bicicleta com as compras no muro — há anos aquela bicicleta não tinha mais o descanso —, bateu palmas no portão da quitandeira e aguardou que alguém viesse atendê-lo. Esperou por uns dois minutos e, como não ouviu nenhum movimento, bateu palmas novamente, dessa vez com maior intensidade. Após aguardar por quase cinco minutos e não ser atendido por ninguém, decidiu testar a maçaneta do portão e, caso não estivesse trancada, entraria e deixaria as compras na cozinha, mesmo se não houvesse ninguém em casa. Para sua sorte, o portão estava destrancado.
Pegou as pesadas caixas com as compras e adentrou a casa, indo direto para a cozinha. A mesa onde ele colocava as compras sempre que as trazia estava repleta de caixas de plástico brancas — do tipo que são usadas em açougues. Como não havia outro lugar para colocar as compras, decidiu deixá-las na bancada da pia. Enquanto executava esse processo de descarregar as compras, ouviu o som de música e de um chuveiro ligado em um dos quartos da casa. Pensou que, talvez devido a esse barulho, quem estivesse na casa não teria ouvido quando ele batera palmas no portão. A música que ele ouvira era do grupo Roupa Nova e, se não estivesse enganado, a canção se chamava "Tímida".
Imaginando que estivesse sozinho na casa, e com sua curiosidade ardendo para saber quem estaria no banho, caminhou sorrateiramente na direção do barulho e logo se viu diante de um belíssimo aposento. Muito grande e bastante aconchegante. A enorme cama em estilo colonial ficava numa parede de frente para uma grande janela panorâmica, que dava para um jardim lateral da casa. Todo o mobiliário do aposento era de fino estilo colonial. No chão, um grande tapete felpudo fazia conjunto com as cortinas em tom de vermelho púrpura. Sobre a cabeceira da cama, na parede logo acima, havia um grande quadro com uma pintura a óleo de uma serena paisagem campestre. O ambiente era bastante perfumado, tanto pelo cheiro das flores nos jarros espalhados pelo quarto quanto pelo aroma de sabonete que vinha do banheiro, onde alguém — certamente dona Cleuza — tomava um demorado banho.
Sem muita cerimônia adentrou pelo quarto e se aproximou do banheiro que ficava aos fundos. Tentou ser o mais silencioso possível para não ser notado. Parou a uma distância segura e ficou observando dona Cleuza que estava em todo seu esplendor, da mesma maneira que chegou a esse mundo. Ela que trazia em seu ventre um calor tão quente como o fogo do próprio Tártaro, naquele momento, debaixo das tépidas águas daquele convidativo chuveiro, se tocava voluptuosamente na tentativa de abrandar aquele fogo que lhe queimava as entranhas.
Cláudio que devido a idade já havia acordado com os lençóis de sua cama sujos e pegajosos após despertar de um sonho molhado que tivera com a própria dona Cleuza, se encontrara naquele momento numa situação bastante embaraçosa. Havia um emaranhado de sentimentos tomando conta de todo o seu ser. Desejo de entrar no chuveiro com aquela bela criatura, medo de que alguém o visse ali no quarto de uma dama naquela situação e curiosidade em saber como tudo aquilo terminaria. Estava ele tão entretido com aquela lasciva visão que nem mesmo se dera conta de que dona Valdelice entrara no quarto e estava de pé logo atrás dele.
Quando percebeu que havia sido flagrado, — em pleno horário de trabalho — dentro do quarto de uma dama em seu momento de mais pura inocência e intimidade, saiu correndo do recinto trombando em tudo que via pela frente, inclusive na própria dona da casa. Ao passar pela cozinha para se evadir do local, acabou derrubando uma das caixas que estava sobre a mesa. Ficou pasmo quando viu que dentro da caixa havia partes de uma perna humana. Levantou o pano que cobria as demais caixas e viu que havia mais partes humanas, um pouco de carne já moída, massas para salgados e temperos e condimentos de todos os tipos.
Naquela mesma tarde daquele quente e sufocante final de agosto, além dos restos mortais do idoso que havia desaparecido da clínica na noite anterior, também fora encontrado várias ossadas humanas enterradas no quintal da casa de Dona Cleuza. Logo se soube que um dos enfermeiros da clínica era amante da quitandeira. Era ele quem lhe fornecia a carne para os, até então, saborosíssimo e inigualáveis salgados da Vovódelícia. Dona Cleuza foi presa em flagrante e logo depois condenada e sentenciada à pena máxima por vários crimes: canibalismo, homicídio, ocultação de cadáver etc. Dona Valdelice, devido a idade e seu estado de debilidade, fora internada numa clínica para idosos com problemas mentais. Terminou seus dias de forma lamentável, no mais completo abandono. O suposto amante nunca fora encontrado para responder por seus crimes. Ao saber que dona Cleuza havia sido presa, foragiu sem deixar vestígios, ninguém mais soube de seu paradeiro. O inquérito policial concluiu que ele usava uma documentação falsa que havia sido abandonada em seu alojamento na clínica.
Cláudio, em pouco tempo, saiu do emprego de entregador e buscou outra ocupação até se formar em medicina, especializando-se em geriatria. Mesmo depois de muitos anos e, sendo ele um clínico renomado, atendendo em um grande e respeitado hospital particular da capital, ainda assim presta serviços voluntários em diversas clínicas e casas de apoio aos idosos espalhadas pela cidade. Ele jamais se esqueceu daquele ano de 1994. Nunca mais comeu nenhum outro tipo de salgado. Na verdade, tornou-se totalmente vegano, ao ponto de sentir repugnância a qualquer tipo de proteína, seja ela qual for...
(Anotações em folhas soltas) 21 de junho de 1871 - Por alguma razão, desde que cheguei a este castelo, sinto ter perdido…